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Como escrever um ensaio

filosófico

Formular e testar argumentos é importante em qualquer área, mas é especialmente deci-


sivo quando lidamos com grandes questões abstratas, já que não temos outra forma de as
compreender. Uma teoria filosófica é apenas tão boa como os argumentos que a apoiam.
Alguns argumentos são sólidos, alguns não o são, e precisamos de saber como os distinguir.
Seria bom se houvesse uma maneira simples de o fazer. Infelizmente, não há. Os argu-
mentos são muito diversos e podem estar errados de inúmeras formas. Porém, podemos
atender a alguns princípios gerais.
James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, 2009, Tradução de Pedro Galvão, p.299

A filosofia vive de problemas e expressa-se sível. Só não sabemos se é eticamente correto


em textos aos quais chamamos ensaios. Chama- matar fetos humanos. Em filosofia não quere-
-se ensaio pois tudo o que os filósofos fazem é mos saber como é que o aborto é tecnicamente
ensaiar soluções para os problemas. Em filoso- possível, mas se a prática do aborto é eticamen-
fia, um ensaio não é mais do que uma tentativa te aceitável ou se temos boas razões para não
de responder, de um modo fundamentado, a um o aceitar. Assim, temos um problema. De modo
problema filosófico. semelhante, sabemos que o Augusto adora a
música dos Radiohead, mas a Tânia gosta mui-
to mais de jazz e não gosta nada de Radiohead.
Percebemos facilmente que têm gostos diferen-
Sugestões para a redação de um
tes. Vamos agora supor que o Augusto diz que
ensaio filosófico a música dos Radiohead é arte, mas o jazz não
Um ensaio pode ter apenas uma página ou passa de sons cacofónicos e confusos tocados
duas, mas também pode ter trezentas ou qua- um pouco à sorte. E que a Tânia discorda e acha
trocentas. Não há limite para redigir um ensaio. que a música dos Radiohead não é arte, pois
Tudo depende do nosso nível de conhecimentos e apesar de emocional, daqui a duzentos anos
grau académico de estudos. Em regra, no ensino ninguém quer saber dela para nada. Mesmo que
secundário, um ensaio deve ter duas ou três pági- respeitemos a diferença de gostos (afinal, cada
nas e não mais nem menos. É o espaço suficiente um parece ter liberdade ao seu gosto pessoal),
para discutir um problema filosófico. Em seguida temos o problema de saber se é possível uma
apresentamos algumas sugestões orientadoras definição da arte e, se é, qual a definição mais
para redigires um bom ensaio em filosofia. adequada.
Vamos agora imaginar que te foi proposta a
redação de um ensaio filosófico para testares as
1. Apresentação do problema
teorias sobre a definição da arte. A primeira coi-
Não há filosofia sem problemas. A filosofia sa a fazer é, após teres lido os textos propostos,
vive dos problemas. Por exemplo, sabemos que apresentares o problema. Sem a apresentação
o aborto de fetos humanos é tecnicamente pos- do problema, nada há para defender. Qualquer

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bom ensaio de filosofia deve começar pela apre- A diferença é que os problemas matemáticos
sentação do problema que se vai discutir. podem ser resolvidos com métodos de cálculo
formal e os filosóficos não. Um problema é filo-
2. Título do ensaio sófico se sujeito à argumentação racional e se o
mecanismo de análise passa pela investigação
O título de um ensaio de filosofia deve conter do seu conteúdo, isto é, dos argumentos. Saber
uma pergunta. Por exemplo, se o ensaio é sobre se fazer grafitis é legal ou não é um problema de
o problema ético do aborto, o título poderá ser leis e não da filosofia. O conteúdo da filosofia são
qualquer coisa como: será a prática do aborto os problemas que são analisados pela capacida-
eticamente aceitável? Ou seja, o título do ensaio de lógica e argumentativa. O mesmo é dizer que
remete logo para o problema no qual se vai en- são os problemas que são suscetíveis de serem
saiar uma resposta. Damos-te aqui algumas su- analisados primariamente pela capacidade de
gestões de bons títulos de ensaios: raciocinar sobre esses mesmos problemas.
 erão as touradas moralmente permissí-
S
veis? (Filosofia Moral, Ética) 4. Apresentar de modo claro a tese que
Será que Deus existe? (Filosofia da Religião) se quer defender

 erá o conhecimento possível? (Filosofia do


S O que defendemos deve estar isento de con-
Conhecimento) fusões. Se defendemos que o aborto devia ser
eticamente permissível, é exatamente isso que
 erão as teorias científicas empiricamente
S devemos escrever no nosso ensaio. A defesa de
verificáveis? (Filosofia da Ciência) uma tese corresponde à defesa da conclusão de
 ual a forma mais justa de distribuir a rique-
Q um argumento. Face a essa conclusão temos de
za? (Filosofia Política) expor as razões, que são as premissas que con-
duzem a essa defesa. Muitas das vezes a melhor
forma de tornar o que defendemos mais claro
3. Mostrar a importância do problema
é apresentar a conclusão logo a abrir o ensaio:
Logo no início do ensaio deve-se mostrar “Neste ensaio vou defender a tese X”. Torna-se
qual a importância do problema. Uma das me- desagradável estar a ler um texto sem com-
lhores formas de o fazer é mostrar por que ra- preender muito bem o que se está propriamente
zão é um problema a ser tratado pela filosofia. a defender nesse texto. De modo que o melhor
Um mesmo problema pode ser analisado de di- modo de o evitar é ir direto ao assunto.
versas maneiras. Por exemplo saber o número
de abortos praticados numa determinada socie-
5. Apresentar argumentos a favor da tese
dade não é um problema filosófico. Do mesmo
modo não é um problema da filosofia saber se Um argumento é uma cadeia de raciocínios
o aborto pode ou não ser legalizado. Mas é um para apresentar a tua tese. Quanto mais clara for
problema filosófico procurar dar resposta à mo- essa apresentação, melhor avaliação terá o teu
ralidade do aborto. trabalho. Para defenderes a tua tese, podes apre-
sentar um ou mais argumentos.
Para mostrar a importância do problema é
necessário saber em primeira mão o que é um Como verás ao longo do ano letivo, aconte-
problema filosófico, matéria aprendida logo no ce muitas vezes que argumentos que nos pare-
início do 10º ano. Resumidamente um problema cem sólidos não o são e incorrem em falácias. O
é filosófico se é um problema a priori, isto é, im- problema é que um argumento pode apresentar
possibilitado de ser resolvido pela experiência. uma conclusão verdadeira e, ainda assim, não
Um problema matemático também é a priori. ser sólido.

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Por exemplo: da fundamentação da moral, a deontologia de
Kant e o consequencialismo de Stuart Mill. Cada
(1) T
 odos os indivíduos que nasceram um destes autores procurou ou mostrar que há
em Portugal são Presidentes.
juízos morais que têm valor de verdade, tal qual
(2) Cavaco Silva nasceu em Portugal.
um juízo de facto, isto é, que há respostas obje-
(3) Logo, Cavaco Silva é Presidente.
tivistas para a moralidade. Mas estudaste tam-
A conclusão é verdadeira, mas ainda assim o ar- bém que cada uma destas teses não está isenta
gumento não é sólido, pois tem a primeira premissa do contraditório, isto é, de objeções fortes. Isso
falsa. Isto significa que nunca devemos avaliar um não significa que não sejam boas respostas. São
argumento em função de a conclusão ser verdadei- de tal modo boas que têm atravessado todo este
ra. Devemos estar atentos a este aspeto pois mui- tempo (séculos) e ainda são muito estudadas,
tas vezes aceitamos maus argumentos somente incluindo no ensino português da filosofia. Ao
porque a conclusão está de acordo com aquilo que estudá-las podemos ter inclinação para defender
aceitamos ser verdadeiro. Tudo o que há a fazer uma ou outra, ou até para considerar que as duas
quando descobrimos que um argumento não é sóli- respondem bem ao problema. Tudo o que temos
do é reformular esse mesmo argumento. a fazer é conhecer cada uma delas e conseguir
Neste ponto pode ser útil rever o capítulo das elaborar a nossa própria tese, mostrando as in-
falácias formais e informais. suficiências da tese oposta à nossa. Responder
às objeções corresponde também à nossa curio-
6. Responder às possíveis objeções sidade de descoberta e capacidade de investiga-
Nenhum problema, filosófico ou não, é pa- ção. No teu ensaio não podes passar ao lado das
cífico na sua análise. Os problemas da filosofia objeções que podem ser feitas ao que defendes.
são muito menos pacíficos. São problemas que Tal atitude seria pressupor a tua infalibilidade e
exigem disputa intensa e sistemática. Quando tornaria o teu ensaio muito mais fraco. Para co-
nos colocamos perante um problema filosófico, nheceres bem as teses e objeções dos filósofos
temos de tomar conhecimento das principais tens de te apoiar nas aulas, mas também na aju-
teses em confronto. No 10º ano estudaste duas da e orientação do teu professor ou nas bibliogra-
teses que procuravam dar resposta ao problema fias indicadas no teu manual.

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Dois exemplos de ensaios argumentativos de alunos do secundário
Estes dois exemplos não incluem bibliografia, já que ambos foram realizados com a bibliografia
dada pelo professor, pelo que se dispensou o registo da bibliografia no final.

Esta é provavelmente a questão fundamental da filosofia da arte, esta é uma


das questões que invade a mente de jovens e adultos curiosos e atentos,
apreciadores de todo o tipo de arte como o teatro, o cinema, a música, a
Será que escultura, a pintura, e muitas outras. Com esta questão pretendemos ana-
a arte pode ser lisar se existe uma definição de arte capaz de conter todas as variedades
definida? de obras de arte, como acreditam alguns filósofos que exista. No entanto
existem outros filósofos que consideram um erro encontrar uma definição
que cubra tamanha variedade de obras de arte, mas neste ensaio a tese que
vou defender demonstra que é possível encontrar uma definição de arte
plausível e capaz de conter todas as obras de arte.

Teoria Idealista da Arte


Uma das respostas a este problema é a Teoria Idealista da Arte. Esta teoria foi formulada por
R.G. Collingwood na obra Principles of Art, e é muito diferente das outras pois sustenta que
a verdadeira obra de arte é uma ideia ou emoção na mente do artista, contrariando outras
teorias que afirmam que a verdadeira obra de arte é física.
Nesta teoria a ideia ou emoção do artista é expressa fisicamente devido ao envolvimento do
artista com um meio artístico específico, no entanto a obra de arte permanece na mente do
artista. Esta teoria também distingue arte do artefacto. As obras de arte são realizadas em
virtude da interação do artista com um meio específico como as pautas, palavras ou tintas.
Enquanto um artefacto é criado com um propósito premeditado, e o artesão planeia na tota-
lidade a construção do mesmo.
Assim um quadro de Dalí não foi totalmente planeado e não tem nenhum propósito especí-
fico enquanto uma cadeira tem uma função própria e foi construída de forma a ser capaz de
executar a sua função e a sua elaboração foi alvo de um planeamento. Sendo assim um quadro
de Dalí é uma obra de arte enquanto a cadeira é apenas um artefacto. No entanto, as obras
de arte são em parte artefactos pois segundo Collingwood, isto acontece pois arte e artefacto
não são mutuamente exclusivas, e por isso nenhuma obra de arte é exclusivamente um meio
para um fim.
Esta teoria contrasta a arte recreativa (aquela cujo único objetivo é divertir as pessoas ou pro-
vocar algum sentimento ou emoção) e as obras de arte genuínas. Sendo a arte genuína um fim
em si mesma, não tem nenhum propósito enquanto que a arte recreativa tem o propósito de
divertir as pessoas e por isso é artefacto, o mesmo se passa com a arte religiosa, feita também
com um propósito premeditado é também artefacto.

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Desta distinção da arte e artefacto conseguimos obter uma tentativa de definir arte, descrita
por este argumento:
1. É arte tudo o que seja criado em resultado do envolvimento do artista com um meio
específico, e não tenha um propósito específico, assim como não tenha sido previa-
mente planeado na sua totalidade.
2. A Mona Lisa de Leonardo Da Vinci foi criada em resultado do envolvimento de
Leonardo Da Vinci com as tintas, e que se saiba não tinha um propósito específico
e não tinha sido previamente planeada na sua totalidade.
3. Logo, a Mona Lisa é uma obra de arte.

Como as outras teorias, a Teoria Idealista da Arte apresenta algumas objeções. Vou então
analisá-las.

Objeções à Teoria Idealista da Arte


( 1) Uma das objeções feitas a esta teoria leva-nos a crer que a Teoria Idealista talvez não
classifique muitas obras de arte como arte mas sim artefacto. Há poucos séculos atrás
não havia fotografias e a única forma que as pessoas desse tempo tinham para retratarem
momentos ou mesmo pessoas seria através de pinturas. Assim essas pinturas deixariam de
ser arte pois tinham sido elaboradas com um propósito específico e de, acordo com esta
teoria, caso houvesse uma função ou um propósito destinado a essa pintura, ela passaria a
ser artefacto. Esta crítica alarga-se também à arquitetura, uma das Belas Artes, e mostra-
-nos que a maior parte dos edifícios foram criados com um propósito específico, e caso
esse propósito se verifique esta teoria não os considera obras de arte. Esta teoria é então
excessivamente restritiva, segundo esta objeção.
(2) A Teoria Idealista considera as obras de arte como ideias que residem na mente e
não objetos físicos, portanto quando vamos ao Museu de Arte Contemporânea, por
exemplo, tudo o que observamos não são as verdadeiras criações do artistas mas sim ves-
tígios das mesmas. É devido à residência da verdadeira obra de arte na mente do artista
que esta objeção surge e é talvez a principal objeção a esta teoria, essa objeção baseia-se
na estranheza provocada devido à não existência material da obra de arte.

Tentativas de defesa perante estas objeções


No entanto um defensor da Teoria Idealista pode ainda tentar-se defender, analisemos uma
possível defesa da objeção 1:
Muitos dos edifícios existentes atualmente foram projetados segundo um propósito específi-
co como o caso do prédio onde habito, que foi projetado de maneira a conter 12 apartamen-
tos, uma garagem, uma sala de convívio e um terraço. O meu prédio é um prédio com um
design relativamente comum, no entanto outros edifícios como o Museu Guggenheim de

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Nova Iorque são dotados de um design original. Antes de analisarmos o Museu Guggenheim,
vamos ter em conta que um edifício é um artefacto, pois têm um propósito específico, mas o
seu design e estilo não, visto que se um edifício é verde por fora, tem umas janelas enormes,
possui um terraço circular, é indiferente para a função do mesmo. O Museu Guggenheim foi
arquitetado por Frank Lloyd Wright, este arquiteto foi capaz de projetar um edifício compos-
to por um design incrível digamos que no auge da originalidade.
Este arquiteto podia ter elaborado um edifício parecido como o meu mas em maior dimen-
são, no entanto mostrou o seu talento no design do edifício. Este homem teria que projetar um
edifício que contivesse determinadas salas, no entanto a maneira de distribuí-las e embelezar
o próprio edifício não tinha nenhum propósito específico e resultou do seu envolvimento
com “os lápis” tendo em conta os seus conhecimentos de arquitetura. Logo, o design do Mu-
seu Guggenheim é uma obra de arte assim como o design da Ponte Dom Luís no Porto, visto
que ambas estas obras arquitetónicas tinham um propósito específico mas o seu design não.
Segundo esta teoria a arquitetura continua a tornar-se uma das Belas Artes.
Sabendo que antes da existência de fotografias alguns momentos ou pessoas eram retratados
através de pinturas, a Teoria Idealista considera essas pinturas artefacto. No entanto os tons
usados pelo pintor, o rigor ou falta dele, e o próprio estilo do desenho, podem não ter sido pla-
neados, e o propósito específico de alguns retratos simplesmente não existe. O artista podia,
assim, ter-se inspirado numa pessoa ou num momento e desenhá-lo à sua maneira. O retrato
resultaria do envolvimento do artista com as tintas ou lápis, baseado em algo, e este tipo de
retrato é uma obra de arte. Tendo em conta isto provavelmente existem muitos mais retratos
deste género do que os com um propósito específico.
Para terminar vamos analisar agora uma possível defesa da objeção 2, que de certo modo
pode ser facilmente objetada:
Sendo uma obra de arte algo não físico e que permanece na mente do autor, torna-se impos-
sível ver essa obra, e tudo o que se encontra exposto em galeria são apenas vestígios de obras
de arte. Isto parece inconcebível para a maior parte da população, no entanto se analisarmos
este problema chegaremos à conclusão de que tem toda a lógica a verdadeira obra de arte per-
manecer na mente do seu criador. Uma obra de arte é muito mais complexa do que aparenta
ser, a intenção do artista, a escolha de cores por parte do artista tornam-se parte da obra e o
único sítio onde uma obra de arte é constituída por todas as informações importantes para a
mesma, é na mente do artista. Logo, faz todo o sentido que o que observamos numa galeria
sejam apenas vestígios pois não possui todas as informações para a compreensão da respetiva
obra de arte.
Diogo Alexandre Anastácio de Sousa 10º 32, Escola Jaime Moniz, Funchal, 2013

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Problema: Moralidade da Prática do aborto
Posição: Neste ensaio vou defender a minha posição sobre a moralidade
Será o aborto da prática do aborto. Abortar é um dos muitos verbos que dividem o
nosso mundo. Assim, esta questão envolve uma especial preocupação e
moralmente atenciosos debates, em volta da mesma, que de alguma forma irão ajudar-
permissível ? -nos a decidir a nossa posição sobre determinado assunto.
Neste debate filosófico não se coloca a questão se o aborto deve ser
legalizado ou não, mas sim se este é moralmente correto ou incorreto. Eu
defendo a imoralidade do aborto, contudo concordo com o facto de que,
em certas circunstâncias este possa ser moralmente admissível, como em
casos em que a continuação da gravidez põe em risco a vida da mulher, em que a gravidez
resultou de um ato de violação ou quando o feto sofre de deficiências ou doenças que afe-
tam muito negativamente a sua futura qualidade de vida.
Defesa do tema: Abortar consiste em matar o feto, impedir que este nasça. Sendo que con-
sideramos moralmente errado e mesmo repugnante matar uma pessoa adulta, porque ha-
veremos de considerar correto matar o embrião ou feto? Isto relaciona-se com a questão da
humanidade do feto e com o seu direito à vida.
Hoje em dia, somos introduzidos aos métodos contracetivos bastante cedo. Existe uma gran-
de preocupação nos países desenvolvidos em informar os jovens acerca de como prevenir uma
gravidez indesejada. Com tanta informação e acesso grátis a métodos contracetivos eficazes,
como podemos afirmar que não temos responsabilidade pelo que aconteceu? Não podemos
matar um ser humano simplesmente porque não tivemos cuidado e fomos irresponsáveis e
como tal, devemos aceitar as consequências. Além disso, a vida da gestante não tem maior
valor do que vida do feto. E, se a mãe não desejar ter o bebé, pode simplesmente encaminhar
a criança para adoção e quem sabe, fazer outra família feliz.
Todos os defensores da imoralidade do aborto defendem os argumentos pró-vida padrão.
Um desses argumentos pode ser apresentado da seguinte maneira:

Todos os seres humanos têm o mesmo direito à vida.


Os fetos são seres humanos.
Matar deliberadamente quem tem o direito à vida é errado.
O aborto consiste em matar fetos deliberadamente.
Logo, o aborto é errado.

Obviamente, o termo “fetos” refere aqui apenas os fetos humanos desde a conceção até ao
nascimento. Apesar da plausibilidade do argumento, este enfrenta uma crítica importante,
como Peter Singer fez notar, “ser humano” é um termo ambíguo que tem pelo menos dois
sentidos profundamente diferentes.

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Porém, para evitar ambiguidades, viemos a ter um outro argumento que apoia os defensores
dos argumentos pró-vida padrão.

Se um indivíduo tem um futuro com valor, então possui o direito à vida.


O feto tem um futuro com valor.
O aborto provoca a morte do feto.
Logo, o aborto é moralmente errado.

Segundo este argumento de Don Marquis, mais conhecido como argumento futurista, um
ser humano tem direito à vida porque valoriza o futuro que poderá ter. Matar um homem
adulto é moralmente errado porque o priva das experiências, das sensações, dos potenciais
sucessos do seu futuro, os quais ele viria a valorizar. Logicamente, o feto poderá também, as-
sim como um ser humano adulto, ter um futuro que, embora não valorize no momento, virá
muito provavelmente a valorizar mais tarde e matá-lo será privá-lo desse futuro sendo que,
nestes termos, é tão mau matar um feto como um indivíduo adulto.

Objeções e resposta às objeções


Em resposta ao argumento pró-vida básico existem diversas objeções formadas pelos defen-
sores da posição pró-escolha.
Michael Tooley e Mary Anne Warren são defensores desta posição que acredita que o feto
não tem o direito moral à vida. Tooley diz que o feto não satisfaz uma condição necessária
para a posse do direito à vida: a consciência de si. Este sugere que ter direito a continuar a
existir é estar sujeito a experiências e a outros estados mentais. Já Warren defende que os fetos
humanos não têm direito à vida porque estão fora da comunidade moral e estão fora porque
não respeitam certos critérios de personalidade que os faz deixar de ser pessoas. Warren diz
que atribuir o direito à vida iria interferir nos direitos das mulheres. Porém, os seus argumen-
tos não são cogentes porque mesmo que afirmemos que estas são características necessárias
para sermos “pessoas”, o facto de excluirmos o feto desta categoria implicaria a exclusão dos
recém-nascidos, pois estes também não são capazes de qualquer tipo de pensamento racional
e não têm, em grande parte, consciência da sua vida e do facto de que podem vir a ter um
futuro. Seguindo este raciocínio, para admitirmos o aborto como moralmente correto, temos
de fazer o mesmo com o infanticídio. Mesmo que admitamos que um feto não tenha cons-
ciência do que o rodeia nem pensamento racional, temos de admitir o mesmo em relação aos
bebés recém-nascidos, assim como em relação aos portadores de certas deficiências mentais,
o que me leva a concluir que o aborto é moralmente errado.
Outra objeção é uma teoria de Judith Thomson que defende a posição que o aborto é permis-
sível mesmo que o feto tenha direito moral à vida. Um dos argumentos a favor da moralidade
do aborto é o “argumento do violinista”. Este consiste numa experiência mental que nos
pede para imaginar uma situação em que somos raptados por uma sociedade de apreciadores

COMO ESCREVER UM ENSAIO FILOSÓFICO 13


de música que liga o nosso sistema circulatório ao de um violinista famoso, que tinha uma
doença renal fatal e cujo tipo de sangue era apenas compatível com o nosso. Teríamos então
de tomar a decisão de ficar ligados ao violinista durante 9 meses, após os quais ele ficaria
curado, ou de nos desligarmos dele, matando-o. Dizem então, que não tínhamos a obrigação
de sustentar a vida através do nosso corpo. Os defensores dos argumentos pró-escolha escla-
recem que, tal como o músico, o feto é um ser humano inocente cujo direito à vida está fora
de questão. Porém, há uma grande inconsistência na comparação deste argumento com uma
gravidez, pois desde muito cedo se cria um vínculo mãe-feto. Este não é apenas biológico,
como descrito na experiência mental do violinista mas também emocional. Um feto que foi
concebido no corpo de alguém não é, para essa pessoa, um completo estranho. Além disso,
o que talvez seja mais importante, como anteriormente tinha referido, é que uma gravidez
não é algo totalmente involuntário. O que me leva, mais uma vez, a concluir que o aborto é
moralmente errado.

Sofia Matias, 10º 32, Escola Jaime Moniz, Funchal, 2013

SUGESTÕES
Livros Internet
• James Pryor, “Como se escreve um
ensaio de filosofia”, in:
• Anthony Weston http://criticanarede.com/
A Arte de Argumentar, Gradiva, 1996 fil_escreverumensaio.html
• James Rachels • Artur Polónio, “Como escrever um
Problemas da Filosofia, «Apêndice, ensaio filosófico”, in:
Como avaliar argumentos?», Gradiva, http://filosofiaes.blogspot.
2009 pt/2012/04/ensaio-argumentativo.
html
• “Escrever ensaios – orientações”,
Rolando Almeida, in:
http://filosofiaes.blogspotpt/2012/04/
escrever-ensaios-orientacoes.html

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