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OS TEÓRICOS CRÍTICOS E OS TEÓRICOS ORGANIZACIONAIS

João Augusto Ramos e Silva

1 INTRODUÇÃO

A idéia básica de partida deste ensaio foi identificar entre os teóricos críticos,
aqueles que haviam associado de alguma forma seus estudos sobre a Teoria Crítica, com
os fundamentos da Teoria Organizacional e seus teóricos. Não foi fácil identificar que
teóricos, além daqueles pertencentes à Escola de Frankfurt, teriam desenvolvido uma
análise crítica sobre os teóricos e as Teorias Organizacionais. Dois teóricos críticos
foram identificados inicialmente: Antonio Gramsci e Harry Braverman, que por sinal
não são freqüentemente citados como teóricos críticos e nem como críticos
organizacionais em grande parte dos cursos de Administração em nosso país.

Harry Braverman é o autor do livro Trabalho e capital monopolista: a


degradação do trabalho no século XX, e segundo Pugh e Hickson (2004, p. 106) “foi
um teórico americano, marxista, preocupado em analisar os efeitos da moderna
economia capitalista na organização do trabalho”.

Antonio Gramsci, autor de Cadernos do Cárcere, tratou no volume 4 sobre a


temática do Americanismo e Fordismo, na qual Luiz Werneck Vianna na apresentação
do livro, destaca:

A extrema originalidade da teoria gramsciana diante do pensamento então em


voga, no marxismo e fora dele, encontra aí um dos seus momentos mais
expressivos, que deve ser confrontado com a produção dos intelectuais da
Escola de Frankfurt, principalmente Horkheimer e Adorno, que, após a
derrota dos partidos operários na Alemanha hitlerísta, mantiveram-se em
atitude de desconfiança quanto ao moderno, que será responsável pelo
kulturpessimismus a que concederam legitimidade teórica (GRAMSCI,
2007).

A busca dessa identidade com a Teoria Crítica permite inicialmente que se


exponha o quadro dos constructos teóricos e as principais contribuições dos seus
teóricos, vindo em seguida o destaque para o pensamento de Braverman e Gramsci,
entrecortados com críticas aos teóricos e as teorias organizacionais mais pertinentes.

2. OS TEÓRICOS CRÍTICOS
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Jamais ofereci em meus escritos um modelo para quaisquer condutas ou


quaisquer ações. Sou um homem teórico, que sente o pensamento teórico
como extraordinariamente próximo de suas intenções artísticas. Não é agora
que eu me afastei da prática, meu pensamento sempre esteve numa relação
muito indireta com a prática. Talvez ele tenha tido efeitos práticos em
conseqüência de alguns temas terem penetrado na consciência, mas nunca eu
disse algo que se dirigisse diretamente a ações práticas [...] creio que uma
teoria é muito mais capaz de ter conseqüências práticas em virtude da sua
própria objetividade do que quando se submete de antemão à prática. O
relacionamento infeliz entre teoria e prática consiste hoje precisamente em
que a teoria se vê submetida a uma pré-censura prática [...] Mas acredito que
muitas vezes a relação entre teoria e prática é representada de modo
demasiado sumário. Quando se ensinou e publicou durante 20 anos como eu,
com essa intensidade, isso acaba mesmo passando para a consciência geral
[...] Diante da questão “que fazer” eu na realidade só consigo responder, na
maioria dos casos, “não sei”. Só posso tentar analisar de modo intransigente
aquilo que é. Nisso me censuram: já que você exerce a crítica, então é
também sua obrigação dizer como se deve fazer melhor as coisas. Mas é
precisamente isso que eu considero um preconceito burguês. Verificou-se
inúmeras vezes na história que precisamente obras que perseguiam
propósitos puramente teóricos tenham modificado a consciência, e com isso
também a realidade social [...] Depois, tenho as mais graves reservas contra
qualquer uso da violência. Eu teria que renegar toda a minha vida – a
experiência sob Hitler e o que observei no stalinismo – se não me recusasse a
participar do eterno círculo da violência contra a violência. Só posso
conceber uma prática transformadora dotada de sentido como uma prática
não violenta [...] A filosofia não pode, por si só, recomendar medidas ou
mudanças imediatas. Ela muda precisamente na medida em que permanece
teoria. Penso que seria o caso de perguntar se, quando alguém pensa e
escreve as coisas como eu faço, se isso não é também uma forma de opor-se.
Não será também a teoria uma forma genuína da prática?1.

Os trechos que iniciam este capítulo foram extraídos da entrevista que foi
concedida por Theodor W. Adorno em 1969 a revista alemã Der Spiegel sob o título A
Filosofia muda o mundo ao manter-se como teoria. As respostas de Adorno ilustram
bem as contradições entre a teoria e a prática, justo naquele momento em que o
professor Adorno havia suspendido temporariamente as suas aulas, motivado pelo
descontentamento dos seus alunos que exigiam seu posicionamento prático diante das
questões teóricas tão bem expostas por ele e tão bem aceitas por todos. Cabe aqui
lembrar que tanto Adorno como Horkheimer nunca foram a nenhum momento ativistas
políticos, como foi seu colega Herbert Marcuse. Por sua vez Horkheimer também não
manteve sempre a mesma posição entre teoria e prática ao longo da vida acadêmica.

De fato nesse sentido Horkheimer (2007) considera que “Na teoria marxista da
sociedade, a ciência está incluída entre as forças humanas produtivas”, assim que para
ele “O fato de a ciência como força produtiva e meio de produção cooperar para o
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Entrevista de Adorno à revista Der Spiegel, n.o 19, 1969. Publicado anteriormente no Caderno “Mais!”
da Folha de S. Paulo, 31.08.2003.
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processo da vida em sociedade não justifica, de forma alguma, uma teoria pragmática
do conhecimento”.

A teoria em si se contrapõe a prática ao expressar uma contradição entre a


diferença qualitativa do “como as coisas são” para “como as coisas deveriam ser”, pois
estas têm lógicas diferentes. É sob este contexto de crítica que se entende a própria
Teoria Crítica:

[...] não é possível mostrar “como as coisas são” senão a partir da perspectiva
de “como deveriam ser”: “critica” significa, antes de mais nada, dizer o que é
em vista do que ainda não é mas pode ser. Note-se, portanto, que não se trata
de um ponto de vista utópico, no sentido de irrealizável ou inalcançável, mas
de enxergar no mundo real as suas potencialidades melhores, de compreender
o que é tendo em vista o melhor que ele traz embutido em si. Nesse primeiro
sentido, o ponto de vista crítico é aquele que vê o que existe da perspectiva
do novo que ainda não nasceu, mas que se encontra em germe no próprio
existente (NOBRE, 2008, p. 9-10).

Para Ureña (2006) a Teoria Critica se desenvolve a partir das idéias de


Horkheimer, Marcuse e Adorno. Horkheimer distinguiu a razão objetiva (busca
encontrar os fins da humanização do homem), da razão subjetiva ou instrumental (busca
de solução para a relação entre meios e fins). Para ele o desenvolvimento econômico
transformou a razão objetiva em instrumental e o Positivismo Científico é sua própria
comprovação teórica. Para Adorno a razão identificante de Hegel representa o princípio
opressor de nossa sociedade industrializada. E para Marcuse a razão unidimensional
deriva da falsa neutralidade da Ciência (Economia e Técnica) ao invadir de forma
totalitária e opressora a vida social.

Segundo Freitag (2004) a Teoria Crítica passou por três momentos distintos: o
primeiro com a publicação do artigo Teoria Tradicional e Teoria Crítica por
Horkheimer em 1937, o segundo resultante do confronto entre Popper e Adorno
organizado pela Sociedade de Sociologia de Tuebingen (Alemanha) em 1961, e o
terceiro como decorrência do debate entre Habermas e Luhmann transcritos no livro
Teoria da Sociedade ou Tecnologia Social em 1972.

Entretanto de acordo com Ureña (2008) a História da Filosofia pode ser dividida
de forma esquemática em quatro distintas fases: a) Pensamento filosófico-histórico e
sócio-evolutivo dos séculos XVIII, IX e XX, b) Materialismo histórico e crítica da
Economia Política de Karl Marx, c) Primeira geração da Escola de Frankfurt
(Horkheimer. Adorno e Marcuse), e d) Segunda geração da Escola de Frankfurt
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(Harbemas). Jürgen Harbemas (filósofo e sociólogo alemão nascido em 1929) foi


assistente de Adorno e é assim considerado um dos herdeiros da tradição frankfurtiana.

Saavedra (2007) em A teoria crítica de Axel Honneth descreve Axel Honneth


como um representante da terceira geração da Escola de Frankfurt. Honneth, assim com
Charles Taylor e Nancy Fraser apresentam-se como novos expoentes deste legado de
Habermas (SOUZA; MATTOS, 2007)

De acordo com Olgária Chain Féres Matos a produção dos textos dos teóricos da
Escola de Frankfurt, tais como Horkheimer, Benjamin e Adorno, era expressa na forma
de ensaio, que na própria opinião de Adorno “[...] não compartilha a regra do jogo da
ciência e da teoria organizada segundo as quais, como diz Espinosa, a ordem das coisas
seria a mesma que as das idéias”. Por conseguinte para Adorno “Já que a ordem sem
lacunas dos conceitos não se identifica com o ente, o ensaio não almeja uma construção
fechada, dedutiva ou indutiva” (HORKHEIMER, 2006).

Tudo inicia quando um grupo de pensadores alemães de origem judaica (que


foram chamados posteriormente de frankfurtianos) composto por Max Horkheimer,
Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse e Walter Benjamin formaram o que se veio a se
denominar de Escola de Frankfurt, cujo pensamento está resumido pelo trabalho cujo
título é a Teoria Crítica da Sociedade (WIGGERSHAUS, 2006).

Theodor Ludwig Wiesengrund Adorno (1903-1969) nasceu em Frankfurt, foi


filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor. Max Horkheimer (1895-1973) nasceu em
Stuttgart, foi filósofo e sociólogo. Herbert Marcuse (1898-1978) nasceu em Berlim, foi
sociólogo e filósofo. E Walter Benedix Schönflies Benjamin (1892-1940) nasceu em
Berlim, foi ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo.

Os frankfurtianos criaram o Instituto de Pesquisa Social (Institüt für


Sozialforschung) na Universidade de Frankfurt, embora este tivesse autonomia
acadêmica e financeira dentro da Universidade. O Instituto de Pesquisa Social foi
fundado em 1924 por Felix Weil, com o apoio de Friedrich Polock e Max Horkheimer.
O Instituto nasceu das reflexões sobre a relação entre teoria e prática, sobre os dilemas
do marxismo (teoria e prática revolucionária) e tinha por objetivo investigar a filosofia
da liberdade (Kant, Hegel e Marx) e suas relações com a sociedade industrial. O
Instituto de Pesquisa Social, sob direção de Max Horkheimer na década de 1930,
assistiu a ascensão do Nacional-Socialismo, fato que resultou na saída dos
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frankfurtianos da Alemanha para outros países da Europa e depois para os Estados


Unidos. A escalada fascista e a transformação do marxismo em ideologia de Estado
formaram o contexto e cenário para o famoso ensaio Teoria Tradicional e Teoria
Crítica de Max Horkheimer publicado em 1937 na Revista Pesquisa Social (editada
por Horkheimer) e que veio a ser conhecido como manifesto da Teoria Crítica da
Sociedade.

Naquela época, Walter Benjamin exilou-se na França até quando o país foi
invadido pelos nacional-socialistas. Ao tentar fugir em 1940 pela fronteira espanhola,
em condições precárias de saúde e prestes a ser preso polícia política alemã, veio a
suicidar-se.

O Instituto de Pesquisa Social foi então transferido em 1933 para Genebra na


Suiça e em 1934 para os Estados Unidos, onde funcionou filiado a Universidade de
Columbia, em Nova Iorque, com o nome de International Institute of Social
Research. Em 1950 o Instituto de Pesquisa Social volta a funcionar em Frankfurt, na
Alemanha (FREITAG, 2004).

Para Rolf Wiggershaus (2006) a Escola de Frankfurt podia ser definida como
“[...] uma sociologia crítica que via na sociedade uma totalidade de antagonismos e não
banira de seu pensamento nem Hengel, nem Marx, mas considerava sua herdeira”. Esta
denominação foi adotada nos anos 60 e tornou-se evidência na figura de Marcuse,
quando foi amplamente divulgada nos movimentos estudantis daquela época. A
existência da Escola de Frankfurt é em grande parte caracterizada pelo papel de
liderança de Horkheimer e da negação da existência de um único paradigma, haja vista
as contribuições de posicionamentos entre ele e Adorno.

Adorno e Horkheimer foram para os Estados Unidos com exilados (motivado


pela perseguição política, ideológica e racial do regime nazista), onde trabalharam em
vários projetos juntamente com outros exilados e colegas norte-americanos. Justamente
naquela época escreveram a quatro mãos o livro Dialética do Esclarecimento, no então
criado Instituto de Pesquisa Social na Califórnia (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Adorno e Horkheimer produziram uma mudança paradigmática na teoria social


ao colocarem um olhar crítico sobre a humanidade, fazendo uma crítica contundente ao
que eles entendem sobre as idéias do esclarecimento na sociedade ocidental desde os
primórdios (passando da mitologia a epopéia), das condições da humanidade, da nossa
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perfectibilidade e da nossa liberdade. Definem o conceito de Esclarecimento no qual


“No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido
sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de
senhores”. O período do esclarecimento não é o mesmo período Iluminista de final do
século XVIII da racionalidade kantiana.

O desencanto com o mundo, que vai da magia ao mito e a imaginação são


substituídos pela razão e o saber, que liberta os homens e os coloca como senhores do
mundo. Esse momento de transição entre o mito e o saber está representado na Odisséia
de Homero, através da trajetória de Ulisses, inserido no processo hierárquico de
dominação olímpica e posteriormente representado pelo rito e a magia, transformados
em religião.

O livro de Adorno e Horkheimer - Dialética do esclarecimento: fragmentos


filosóficos - foi impresso em 1944 em Nova York, em 1947 em Amsterdã, depois em
1969 na Alemanha e somente em 1985 no Brasil. Segundo o editor, o suplemento
literário do jornal inglês The Times classificou-o como “um clássico do pensamento do
século XX”, assim como também como “uma fundamentada e séria crítica da
civilização ocidental”. É um documento representativo da Escola de Frankfurt que
estabelece uma crítica de ordem filosófica e psicológica sob o enfoque ocidental da
razão e da natureza, indo de Homero a Nietzsche.

Na edição alemã os autores que dedicaram mais uma vez o livro a Friedrich
Pollock (sociólogo e economista alemão, membro da Escola de Frankfurt e co-fundador
do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt), em seus 75 anos, como já haviam feito
quando dos seus 50 anos, fazem um comentário que representa bem o pensamento de
ambos:

Não nos agarramos sem modificações a tudo o que está dito no livro. Isto
seria incompatível com uma teoria que atribui à verdade um núcleo temporal,
em vez de opô-la ao movimento histórico como algo de imutável. O livro foi
redigido num momento em que já se podia enxergar o fim do terror nacional-
socialista. Mas não são poucas as passagens em que a formulação não é mais
adequada à realidade atual (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

O livro está composto por seis capítulos principais e analisa a relação entre a
racionalidade e a realidade social, assim como a relação da racionalidade com a
natureza e a dominação da natureza. Inicia com duas teses: “o mito já é esclarecimento e
o esclarecimento acaba por reverter a mitologia”, através do estudo da dialética do mito
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e do esclarecimento na Odisséia, para depois preocupar-se com o conceito de


esclarecimento de Kant, Sade e Nietzsche. Depois aprofunda sua crítica ao que
denominou por primeira vez como sendo a indústria cultural em lugar de cultura de
massa, presente no capitalismo sob o domínio da mídia, reduzindo a imaginação e a
espontaneidade do consumidor cultural, mecanizando os homens como no cenário
industrial. Para encerrar, expõe sua crítica a irracionalidade do semitismo, tomando por
base as pesquisas empíricas do Instituto para Pesquisa Social, que foi acrescento
posteriormente.

Ainda no prefácio do livro Adorno e Horkheimer expõem os seus propósitos na


obra: “O que nos propuséramos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a
humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se
afundando em uma nova espécie de barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Uma discussão introdutória e interessante é a que se apresenta na Nota


Preliminar do tradutor Guido Antonio de Almeida, quanto a tradução do termo
Aufklärung por Esclarecimento ao invés de Iluminismo ou até mesmo Ilustração como
propõem alguns outros tradutores. O Iluminismo representa a Época ou Filosofia das
Luzes, diferentemente da palavra Esclarecimento que tanto no português como também
no alemão significa “o processo pelo qual uma pessoa vence as trevas da ignorância e
do preconceito em questões de ordem prática (religiosas, políticas, sexuais etc.)”. Os
autores em questão fazem o uso dessa terminologia para designar o desencantamento do
mundo, isto é o processo “pelo qual as pessoas se libertam do medo de uma natureza
desconhecida, à qual atribuem poderes ocultos para explicar seu desamparo em face
dela” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985).

Adorno e Horkheimer, no capítulo sobre A indústria cultural como


mistificação das massas destacam o fenômeno da indústria cultural, que nada mais é
do que a transformação da cultura em uma mercadoria, a ser produzida como um
produto industrial tão somente para a obtenção de lucro. O conceito de indústria cultural
descreve a inversão da cultura, o processo de reificação que afeta a partir daí a esfera
cultural e seus efeitos em termos de conformismo e de manipulação. Trata-se de uma
das maiores contribuições ao desenvolvimento da teoria social crítica da cultura e das
mídias. E embora não sendo um livro de estética, trata do tema, onde estão sempre
presentes suas indagações nos três trechos principais.
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Pode-se dizer a princípio, que como todos os textos que representam a Teoria
Crítica, este se antepõe a racionalidade nas Ciências Sociais de Weber, a racionalidade
na administração taylorista, burocrática, sistêmica e funcionalista, além de sustentar o
processo de formação profissional do administrador crítico e um currículo
interdisciplinar, como comenta Freitas e já enfatizado no início deste ensaio:

Neste sentido, a massificação dos cursos de administração no Brasil pode ser


aproximada do conceito de indústria cultural apresentado por Adorno e
Horkheimer. Os motivos da massificação. Ao mesmo tempo, o conceito de
esclarecimento como emancipador do indivíduo – livrar o homem da
dominação – ajuda a pensar a necessidade de romper com o paradigma
racional funcionalista presente no ensino de administração no Brasil
(FREITAS, 2007).

Horkheimer e Adorno retornaram então a Alemanha, depois da Segunda Guerra


e participaram, sobretudo Adorno, dos debates dos anos de 1960, tendo como confronto
a relação teoria x prática. Adorno em 1969 e Horkheimer em 1973 faleceram na Suíça.

Sob o contexto histórico do discurso crítico ao capitalismo dos anos de 1960 e


1970, dos resultados da experiência socialista da década de 1980 e da retomada recente
do capitalismo, uma nova ordem social permeia a Teoria Crítica, renovada no
pensamento contemporâneo de Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês, professor
emérito das universidades de Leeds e Varsóvia, que pelo conjunto de sua obra recebeu
em 1998 o premio Adorno, e pode ser classificado como um teórico crítico da
modernidade, ou no seu entender, da modernidade líquida, como ele mesmo denomina.

Ouve-se algumas vezes que a opinião de que a sociedade contemporânea


(que aparece sob o nome de ultima sociedade moderna ou pós-moderna, a
sociedade da “segunda modernidade” de Ulrich Beck ou, como prefiro
chamá-la, a “sociedade da modernidade fluida”) é inóspita para a crítica [...]
Quando Adorno e Horkheimer formularam a teoria crítica clássica, gerada
pela experiência de outra modernidade, obcecada pela ordem, e assim
informada e orientada pelo telos da emancipação, era muito diferente o
modelo em que se inscrevia [...] O tipo de modernidade que era o alvo, mas
também o quadro cognitivo, da teoria crítica clássica, numa análise
retrospectiva, parece muito diferente daquele que enquadra a vida das
gerações de hoje [...] Essa modernidade pesada/sólida/condensada/sistêmica
da “teoria crítica” era impregnada da tendência ao totalitarismo [...] Mais
uma vez, em retrospecto, podemos dizer que a teoria crítica pretendia
desarmar e neutralizar, e de preferência eliminar de uma vez, a tendência
totalitária de uma sociedade que se supunha sobrecarregada de inclinações
totalitárias intrínsecas e permanentemente (BAUMAN, 2001, p. 31, 32, 33,
34).
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Bauman em seu livro Modernidade Líquida explana em cinco capítulos os


conceitos de: emancipação, individualidade, espaço/tempo, trabalho e comunidade. Para
ele a modernidade da teoria crítica clássica teria como símbolos a fábrica de Ford, a
burocracia de Weber, o panóptico de Foucault, o Grande Irmão de Orwell e o konzlager
nazista. Bauman também fez sua crítica organizacional de Ford, para ele o fordismo
representava a “autoconsciência da sociedade moderna”:

O termo “fordidmo” foi utilizado pela primeira vez há muito tempo por
Antonio Gramsci e Henri de Man [...] O gênio de Henry Ford foi descobrir o
modo de manter os defensores de sua fortaleza industrial dentro dos muros
[...] O mesmo Henry Ford que declarara que “a história é bobagem”, que
“não queremos tradição” e que “queremos viver no presente e a única história
que importa é a história que fazemos hoje”, um dia dobrou os salários dos
seus trabalhadores, explicando que queria que eles comprassem os carros que
produzia. Essa explicação era falsa: os carros comprados pelos trabalhadores
da Ford eram uma fração mínima das vendas totais [...] A verdadeira razão
para o passo heterodoxo era o desejo de Ford de deter a mobilidade
irritantemente alta do trabalho. Ele queria atar seus empregados às empresas
Ford de uma vez por todas [...] Tinha que torná-los tão dependentes do
trabalho em sua fábrica [...] O modelo de Henry Ford de uma ordem nova e
racional criou o padrão para a tendência universal de seu tempo [...] O ideal
era o de atar capital e trabalho numa união que – como um casamento divino
– nenhum poder humano poderia, ou tentaria, desatar [...] (BAUMAN, 2001,
p. 67, 69, 166).

Bauman remete a Adorno quando este defende a emancipação da humanidade e


a resistência diante da indústria cultural, mas adverte também que tão somente analisar
as contradições não significa que elas se resolvam, a sociologia tem que descobrir a
complexidade das redes de vínculos individuais e as condições geradas coletivamente.

3. OS TEÓRICOS CRÍTICOS ORGANIZACIONAIS

Antonio Gramsci nasceu em Ales, província de Cagliari em Sardenha, na Itália


em 1891 e faleceu em Roma em 1937. Foi um dos criadores do Partido Comunista
Italiano, onde foi secretario-geral e deputado. Como jornalista teve uma coluna atuante
de crítica à sociedade italiana no jornal socialista Avanti! Foi preso em 1926 e durante o
longo período de 20 anos que passou na prisão escreveu seus textos reunidos nos
Cadernos do Cárcere. Em Cadernos do Cárcere, Gramsci se dedica a uma análise
histórica da unidade nacional italiana (ROSENGARTEN, 2009).

Gramsci em Cadernos do Cárcere divide seu texto em Cadernos Especiais


(“notas sobre temas específicos”) e Cadernos Miscelâneos (“apontamentos sobre
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diferentes assuntos”). No volume 4 dos Cadernos Especiais ele aborda dois Temas de
Cultura, a Ação Católica e o Americanismo e o Fordismo. O Caderno 22 escrito em
1934 tem como título Americanismo e Fordismo e vai muito além do controle social do
universo fabril, demonstrando que o conteúdo ideológico do fordismo expandia-se para
explicar as transformações ocorridas na sociedade industrial capitalista americana.
Gramsci compara a sociedade norte-americana à sociedade européia, com suas tradições
milenares e destaca em sua obra o conceito de hegemonia da dominação burguesa sobre
a classe trabalhadora. Para ele essa dominação não envolve a coerção, mas um
consentimento tácito do dominado (GRAMSCI, 2007).

Dado que existiam estas condições preliminares, já racionalizadas pelo


desenvolvimento histórico, foi relativamente fácil racionalizar a produção e o
trabalho, combinando habilmente a força (destruição do sindicalismo
operário de base territorial) com a persuasão (altos salários, diversos
benefícios sociais, habilíssima propaganda ideológica e política) e
conseguindo centrar toda a vida do país na produção. A hegemonia nasce na
fábrica e necessita apenas, para ser exercida, de uma quantidade mínima de
intermediários profissionais da política e da ideologia (GRAMSCI, 2007, p.
247-248).

Os Cadernos dos Cárceres são uma análise marxista da realidade histórica muito
utilizada em várias áreas de conhecimento e desenvolvimento teórico. Sua contribuição
ao pensamento social continua presente e atual no marxismo crítico e sua filosofia de
práxis, uma filosofia que tentou mudar o mundo para melhor. A pressão coercitiva
sobre a questão sexual é outra constante dos seus textos, quando trata do Americanismo
e o Fordismo, onde a perspectiva libertária corresponde a não aceitação de qualquer tipo
de dominação ou coerção. Para Gramsci o taylorismo/fordismo na busca de melhorias
na produtividade, incentivava o consumo pela concessão de altos salários ao mesmo
tempo em que reprimia a prática sexual e o consumo de bebidas alcoólicas, e fomentava
as práticas religiosas, a família e a um comportamento social adaptável a nova ordem
industrial e social (GRAMSCI, 2007).

É preciso insistir no fato de que, no terreno sexual, o fator ideológico mais


depravante e “regressivo” é a concepção iluminista e libertária própria das
classes não ligadas estritamente ao trabalho produtivo, concepção que, a
partir dessas classes, contagia as classes trabalhadoras [...] Deve-se observar
como os industriais (especialmente Ford) se interessaram pelas relações
sexuais dos seus empregados e, em geral, pela organização de suas famílias;
uma aparência de “puritanismo” assumida por este interesse (como no caso
do proibicionismo) não deve levar a avaliações erradas; a verdade é que não
se pode desenvolver o novo tipo de homem exigido pela racionalização da
produção e do trabalho enquanto o instinto sexual não for adequadamente
regulamentado, não for também ele racionalizado (GRAMSCI, 2007, p.264,
252).
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Para Gramsci o Americanismo e o Fordismo representam a forma de processo de


trabalho e organização social moderna, que substitui o velho individualismo econômico
pela economia pragmática, uma aplicação das teorias da organização científica do
trabalho de Taylor que foram aplicadas por Ford em sua fábrica de automóveis:

[...] o americanismo e o fordismo resultam da necessidade imanente de


chegar à organização de uma economia programática e que os diversos
problemas examinados deveriam ser os elos da cadeia que marcam
precisamente a passagem do velho individualismo econômico para a
economia programática [...] Na América, a racionalização determinou a
necessidade de elaborar um novo tipo humano, adequado ao novo tipo de
trabalho e de processo produtivo: esta elaboração está até agora na fase
inicial e, por isso, (aparentemente) idílica [...] (GRAMSCI, 2007, p. 241,
248).

Gramsci, pelo menos uns cinqüenta anos antes de Braverman, interpretou o


pensamento de Taylor e depois adotado por Ford como herança do operário da
sociedade industrial capitalista americana:

Taylor exprime com cinismo brutal o objetivo da sociedade americana:


desenvolver ao máximo, no trabalhador, as atitudes maquinais e automáticas,
romper o velho nexo psicofísico do trabalho profissional qualificado, que
exigia uma determinada participação ativa da inteligência, da fantasia, da
iniciativa do trabalhador, e reduzir as operações produtivas apenas ao aspecto
físico maquinal. Mas, na realidade, não se trata de novidades originais, trata-
se somente da fase mais recente de um longo processo que começou com o
próprio nascimento do industrialismo, fase que é apenas mais intensa do que
as precedentes e manifesta-se sob formas mais brutais, mas que também será
superada com a criação de um novo nexo psicofísico de um tipo diferente dos
precedentes e, indubitavelmente, superior (GRAMSCI, 2007, p. 266).

De fato Henry Ford se utilizou dos Princípios de Administração Científica de


Frederick W. Taylor:

O industrial americano Henry Ford (1863-1947) funda em 1903 a Ford Motor


Company, que pouco tempo depois se tornaria a maior fábrica de automóveis
do mundo. O fordismo assinala uma etapa fundamental na organização do
processo produtivo industrial no capitalismo. Baseia-se na “organização
científica do trabalho na fábrica”, teorizada por Frederick Winslow Taylor
(1856-1915) (GRAMSCI, 2007, p. 367).

Por fim Gramsci, um teórico iluminista dá uma interpretação moderna a filosofia


da práxis que combina filosofia e política, teoria e prática:

Se se coloca o problema de identificar teoria e prática, coloca-se neste


sentido: de construir sobre uma determinada prática uma teoria, a qual,
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coincidindo e identificando-se com os elementos decisivos da própria prática,


acelere o processo histórico do ato, tornando a prática mais homogênea, isto
é, mais elevando-a à máxima potência; ou então, dada uma certa posição
teórica, no sentido de organizar o elemento prático indispensável para que
esta teoria seja colocada em ação (GRAMSCI, 1991, p. 51).

O título do capítulo no livro de Pugh e Hickson (2004) Harry Braverman e o


debate do ‘processo do trabalho’ por si só já indicava a temática de estudo deste
teórico da organização.

O americano Harry Braverman nasceu em 1920 e faleceu vítima de câncer em


1976. Em 1937 filiou-se ao movimento juvenil do Partido Socialista e nos anos 50 era
líder dos Cochranites, tendência dentro do Partido Socialista dos Trabalhadores criada
por Bert Cochran, que acreditava que a expansão capitalista seria duradoura, o que
inviabilizaria a luta da classe operária. Embora sem formação acadêmica formal, foi
editor do American Socialist Union, do Grove Press e da Monthly Review Press. Sua
mais importante contribuição foi o livro Labor and monopoly capital: the
degradation of work in the twentieth century, publicado em 1974, quando obteve o
premio Wright Mills – Society for the study of social problem (MARXISTS’
INTERNET ARCHIVES, 2008).

Como operário, trabalhou em diversas funções e setores, como no comércio,


instalação de tubulações e chapas metálicas e reparos ferroviários, em um estaleiro e em
duas siderúrgicas, onde experimentou todo o impacto das mudanças tecnológicas
sofridas pelos empregados de baixa qualificação, e de onde extraiu sua principal tese na
qual “em uma economia capitalista, todas estas mudanças agem para tornar o trabalho
mais simples e para transferir mais e mais poder dos trabalhadores para as mãos dos
proprietários e gerentes” (PUGH; HICKSON, 2004, p. 106).

Na Introdução do seu livro Braverman esclarece sua idéia ao escrever sobre esta
dicotomia que já se vivia aquela época:

Quanto mais lia na bibliografia formal e na comum sobre ocupações, mais


me tronava cônscio de uma contradição que assinala muitos dos escritos
atuais nesta área. Por um lado, dá-se ênfase a que o trabalho moderno, como
conseqüência da revolução científico-tecnológica e da “automação”, exige
níveis cada vez mais elevados de instrução, adestramento, emprego maior da
inteligência e do esforço mental em geral. Ao mesmo tempo, uma crescente
insatisfação com as condições de trabalho industrial e de escritórios parece
contradizer essa opinião. Isso porque também é dito – não raro inclusive
pelos mesmos que antigamente sustentavam a primeira opinião - que o
trabalho tornou-se cada vez mais subdividido em operações mínimas,
incapazes de suscitar o interesse ou empenhar as capacidades de pessoas que
13

possuam níveis normais de instrução; que essas operações mínimas exigem


cada vez menos instrução e adestramento; e que a moderna tendência
inclinação do trabalho, por sua dispensa de “cérebros” e pela
“burocratização” está “alienando” setores ainda mais amplos da população
trabalhadora” (BRAVERMAN, 1987, p. 16-17).

Com conhecimento de causa e domínio da obra de Karl Marx, Braverman fez


uma releitura de O Capital, cem anos depois, para analisar o que Marx chamou de
processo de trabalho, agora sob o domínio do monopólio capitalista do século XX. Para
Marx o processo de trabalho caracterizado pelo modo capitalista de produção molda a
própria sociedade:

No processo de trabalho, a atividade do homem efetua, com o auxílio dos


instrumentos de trabalho, uma modificação desejada da matéria-prima [...]
Portanto, os produtos não são apenas resultados, mas são também condição
do processo de trabalho [...] O processo de trabalho, como consumo da força
do trabalho pelo capitalista, mostra apenas dois fenômenos particulares [...]
Primeiro, o operário trabalha sob controle do capitalista ao qual pertence seu
trabalho [...] Em segundo lugar, o produto é propriedade do capitalista e não
do produtor imediato, do trabalhador (MARX, 2005, p. 97, 98, 101) .

Para Braverman o sistema capitalista transforma as matérias-primas em bens que


são executados pelos operários que se utilizam de máquinas e ferramentas. Como as
máquinas e ferramentas são de propriedade dos capitalistas e os trabalhadores só podem
oferecer seu trabalho em troca de um salário, o produto resultante é oferecido ao
mercado para lucro dos proprietários. Para a manutenção deste processo exploratório os
proprietários precisam de gerentes que sejam capazes de aumentar a produção,
maximizar os lucros e diminuir os salários. E para manter o controle, o trabalho é
dividido em tarefas cada vez menores e menos complexas, exigindo mão de obra mais
barata, de nível mais baixo e sem treinamento. Desta forma “A simplificação do
trabalho e a retirada da propriedade do trabalhador conduzem à alienação” (PUGH;
HICKSON, 2004).

Da mesma forma que Marx, Braverman separa o trabalho, da força do trabalho.


Em um contrato de trabalho, o que o trabalhador vende em troca do pagamento é o
poder do trabalho naquele determinado tempo.

Tendo sido obrigados a vender sua força de trabalho a outros, os


trabalhadores também entregam seu interesse no trabalho, que foi agora
‘alienado’. O processo de trabalho tornou-se responsabilidade do capitalista
[...] Torna-se portanto fundamental para o capitalista que o controle sobre o
processo de trabalho passe das mãos do trabalhador para as suas próprias.
Esta transição apresenta-se na história como a alienação progressiva dos
14

processos de produção do trabalhador; para o capitalista, apresenta-se como o


problema de gerência (BRAVERMAN, 1987, p. 59).

Braverman também discorre que “O mais antigo princípio inovador do modo


capitalista de produção foi a divisão manufatureira do trabalho”, citando as vantagens
da divisão do trabalho expostas por Adam Smith em A Riqueza das Nações,
distinguindo a divisão do trabalho, do trabalho parcelado, que só se torna real com a
escala de produção. E arremata por fim as observações de Charles Babbage no livro
Sobre a Economia de Maquinaria e Manufatura, que complementando Smith,
explica que “dividir os ofícios barateia suas partes individuais, numa sociedade baseada
na compra e venda da força de trabalho”.

O princípio de Babbage é fundamental para a evolução da divisão do trabalho


na sociedade capitalista. Ele exprime não um aspecto técnico da divisão do
trabalho, mas seu aspecto social [...] Traduzindo em termos de mercado, isto
significa que a força de trabalho capaz de executar o processo pode ser
comprada mais barata como elementos dissociados do que como capacidade
integrada num só trabalhador [...] Na mitologia do capitalismo o princípio de
Babbage é apresentado como um esforço para ‘preservar perícias escassas’ ao
atribuir a trabalhadores qualificados tarefas que ‘só eles podem
desempenhar’, e não desperdiçar ‘recursos sociais’[...] O modo capitalista de
produção destrói sistematicamente todas as perícias à sua volta, e dá
nascimento a qualificações e ocupações que correspondem às suas
necessidades [...] A força do trabalho converteu-se numa mercadoria
(BRAVERMAN, 1987, p. 70-79).

De fato estas conclusões de Braverman não se aplicavam ainda ao século XIX e


só foram possíveis em pleno século XX após o desenvolvimento do monopólio
capitalista. E é nesse crescimento das grandes corporações que ganham destaque os
princípios do Taylorismo ou da Administração Científica de Frederick Taylor.
Braverman afirmava que a Administração científica de Taylor se tratava tão
simplesmente de uma teoria que explicava o modo capitalista de produção.

Torna-se necessário um completo e pormenorizado esboço dos princípios do


taylorismo ao nosso histórico, não pelo que ele é popularmente conhecido –
cronômetro, aceleramento, etc. -, mas porque além dessas trivialidades
residia uma teoria que nada mais é que a explicita verbalização do modo
capitalista de produção (BRAVERMAN, 1987, p. 83).

Braverman reduziu os princípios de Taylor a uma completa dissociação das


habilidades dos trabalhadores do próprio processo do trabalho; uma distinta separação
entre as atividades de concepção e execução das tarefas; e a ampliação do controle
15

gerencial do conhecimento em todo o processo, tornando o trabalho mais barato, através


da desqualificação.

Logicamente, o taylorismo pertence à cadeia de desenvolvimento dos


métodos e organização do trabalho, e não ao desenvolvimento da tecnologia,
no qual seu papel foi mínimo [...] É impossível superestimar a importância do
movimento da gerência científica no modelamento da empresa moderna [...]
A noção popular de que o taylorismo foi “superado” por escolas
posteriores de psicologia industrial ou “relações humanas”, que ele
“fracassou” [...] ou que está “fora de moda”, porque certas categorias
tayloristas, como chefia funcional ou seus esquemas de prêmio
incentivo, foram descartadas por métodos mais requintados: tudo isso
representa lamentável má interpretação da verdadeira dinâmica do
desenvolvimento da gerência [...] Taylor ocupava-se dos fundamentos da
organização dos processos de trabalho e do controle sobre eles. As escolas
posteriores de Hugo Münsterberg, Elton Mayo e outros, ocupavam-se
sobretudo com o ajustamento do trabalhador ao processo de produção em
cursos, na medida em que o processo era projetado pelo engenheiro industrial
(BRAVERMAN, 1987, p. 82-83).

A visão de Taylor com o método de mensurar tempos e movimentos lhe dava o


caráter científico da administração, enquanto buscava sistematicamente a eliminação do
desperdício e o aumento da produtividade. Desta forma distinguiu o planejamento da
execução e o trabalho mental, do trabalho manual.

Um tipo de homem é necessário para planejar e outro diferente para executar


o trabalho. [...] em quase todas as artes mecânicas, a ciência que rege as
operações do trabalho é tão vasta e complexa que o melhor trabalhador
adaptado a sua função é incapaz de entendê-la, quer por falta de estudo,
quer por insuficiente capacidade mental (TAYLOR, 1990, p. 43).

Para se apropriar do conhecimento tácito do trabalhador e ter poder de controle


no processo do trabalho, Taylor enfatiza a função da gerência que o bem caracterizou no
modo de produção capitalista.

À gerência é atribuída a função de reunir todos os conhecimentos tradicionais


que no passado possuíram os trabalhadores e então classificá-los, tabulá-los,
reduzi-los a normas, leis ou fórmulas, grandemente úteis aos operários para
execução do seu trabalho diário. [...] todo trabalho feito por operário no
sistema antigo, como resultado de sua experiência pessoal, deve ser
necessariamente aplicado pela direção no novo sistema, de acordo com as leis
da ciência (TAYLOR, 1990, pp. 40-41).

As críticas de Braverman aos princípios de Taylor iam contra a falta de


emancipação do trabalhador e ao seu caráter desumanizador causadas pelo parcelamento
do trabalho:
16

A tarefa é sempre regulada, de sorte que o homem, adaptado a ela, seja capaz
de trabalhar durante muitos anos, feliz e próspero, sem sentir os prejuízos da
fadiga [...] à primeira vista parece que o sistema tende a convertê-lo em mero
autômato, em verdadeiro boneco de madeira [...] Este trabalho é tão grosseiro
e rudimentar por natureza que acredito ser possível treinar um gorila
inteligente e torná-lo mais eficiente que um homem no carregamento de
barras de ferro [...] Se você é um operário classificado deve fazer exatamente
o que este homem lhe mandar, de manhã à noite. Quando ele disser para
levantar a barra e andar, você se levanta e anda, e quando ele mandar sentar,
você senta e descansa. Você procederá assim durante o dia todo. E, mais
ainda, sem reclamações. Um operário classificado faz justamente o que se lhe
manda e não reclama (TAYLOR, 1990, p. 42-43, 46).

Braverman também deixou claro que Taylor em nenhum momento tratou as


mudanças tecnológicas como sendo uma componente principal do próprio domínio
capitalista. Mas avançou no controle gerencial do processo do trabalho primando pela
desqualificação. Para Braverman “A maquinaria oferece à gerência a oportunidade de
fazer por meios inteiramente mecânicos aquilo que ela anteriormente pretendera fazer
pelos meios organizacionais e disciplinares (BRAVERMAN, 1987, p. 169).

No início do século XX, os princípios de Taylor tornam-se mais concretos


quando Henry Ford adota um modo de produção em massa de automóveis em série
através da padronização em uma esteira de montagem, e instituindo o que veio a
denominar na literatura de taylorismo-fordismo e desta forma a fábrica fordista se
constitui como representação da grande corporação capitalista do século XX.

Mesmo aplicando a Administração Científica de Taylor, Ford discorda dos


princípios da hierarquia em Os princípios da prosperidade quando afirma que “as
fabricas Ford não possuem nem organização, nem atribuições específicas a cargos, nem
ordem de sucessão ou hierarquia determinada” e para submeter a força de trabalho ao
ritmo da produção estabelece o pagamento de altos salários (FORD, 1967, p. 73-74).
Para Ford “se um operário deseja progredir e conseguir alguma coisa, o apito será um
sinal para que comece a repassar no espírito o trabalho feito a fim de descobrir meios de
aperfeiçoá-lo” (FORD, 1967, p. 41).

O espírito de competição leva para a frente o homem dotado de qualidades


[... ] não dispomos de postos ou cargos, e os homens de valor criam por
si mesmos as suas posições [...] A pessoa em questão vê-se de repente
num trabalho diverso com a particularidade de um aumento de salário
(FORD, 1967, p. 76).

Mais recentemente outro pensador crítico vem se destacando na crítica


organizacional. Trata-se do sociólogo Michael Burawoy do Departamento de Sociologia
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da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo Foster (2007), quando das


comemorações dos 25 anos de Contemporary Sociology, revista da American
Sociological Association, elegeu entre os dez livros mais influentes desse período, o
livro de Braverman (Trabalho e Capital Monopolista) e Buroway foi escolhido para
descrevê-lo: “Existem dois tipos de clássicos: os que recordamos e os que esquecemos
[...] Trabalho e Capital Monopolista, de Harry Braverman corresponde a este último
grupo”. Burawoy parte do conceito de hegemonia de Gramsci para entender o conceito
de controle de Braverman e distingue as relações na produção dos processos de
trabalho, para explicar a hegemonia e o consentimento:

O âmbito da produção não seria apenas o mundo da sujeição e da coerção,


mas, simultaneamente, o mundo do consentimento; não seria apenas uma
esfera econômica (de produção e administração de mercadorias), mas
também uma esfera política e ideológica (de reprodução das relações sociais
e de experiências dessas relações) (CASTRO; GUIMARÃES, 1991).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acredita-se que muito do pensamento crítico de Braverman tenha origem na sua


experiência de trabalhador, vivenciando na própria pele as condições advindas desta
mudança de século que transformaram o trabalho no bojo das transformações das
grandes corporações da sociedade industrial. Sua evolução a partir das idéias de Marx
sobre o capitalismo deu uma conotação típica de uma releitura do clássico com as
devidas correções históricas quanto ao foco do trabalho, então sob a égide do
monopólio do capitalismo do século XX. Sua contribuição permitiu uma análise crítica
da Administração Científica de Taylor e seus seguidores, não poupando críticas as
teorias que sucederam nas relações humanas no trabalho.

Sem sombra de dúvidas não se pode negar sua contribuição às Ciências Sociais e
ao pensamento administrativo contemporâneo quanto ao processo do trabalho, muito
embora seja pouco citado nas Escolas de Administração e nas disciplinas de Teorias
Organizacionais.

Suas críticas, entretanto enfatizam sua ênfase na desqualificação e quase nada


em requalificacão do trabalhador no processo do trabalho, ou que ele não deu atenção
ao lado subjetivo do trabalho e aos conflitos por ele gerado. O taylorismo não foi uma
moda passageira, com o tempo apenas moldou-se aos critérios do controle fordista,
controle burocrático, controle humanista e assim por diante. O valor enfatizado pelo
18

controle organizacional sempre esteve presente no pensamento de Taylor, Fayol, Gulik,


Urwick e até mesmo em Mayo na experiência de Hawthorne. Esteve e está presente nos
movimentos pela gerência da qualidade e até a gestão do conhecimento, através da
apropriação do saber-fazer coletivo desenvolvido pelas relações sociais no seio das
organizações.

Quanto mais a ciência é incorporada no processo do trabalho, tanto menos o


trabalhador compreende o processo, quanto mais um complicado produto
intelectual se torne a máquina, tanto menos controle e compreensão da
maquina tem o trabalhador (BRAVERMAN, 1987, p. 360).

Por certo que se acaba por conviver e até aceitar uma visão ortodoxa do trabalho
que faz prevalecer a classe dominante, mas as contribuições de Braverman fizeram
vislumbrar a verdadeira face do capitalismo: a polarização da degradação das condições
de trabalho para muitos, em detrimento da melhoria do trabalho para uma minoria.

Braverman, talvez como um teórico crítico, não incitou a luta de classes, mas
analisou a luta de classes não a um nível político, mas de produção do processo de
trabalho, incluindo todos os seus atores.

Enfim, a falta de uma análise crítica no estudo e na reprodução das teorias


administrativas se coloca como um viés ao pensamento e ao discurso do mainstream da
gestão contemporânea como sucinta Tragtenberg:

A Teoria da Administração, até hoje, reproduz as condições de opressão do


homem pelo homem; seu discurso muda em função das determinações
sociais. Apresenta seus enunciados parciais (restritos a um momento dado do
processo capitalista de produção) tornando absolutas as formas hierárquicas
de burocracia da empresa capitalista [...] dissimula a historicidade de suas
categorias [...] constitui-se na mais sofisticada representação ideológica
produzida pela pequena burguesia intelectual (TRAGTENBERG, 1980, p.
216-219).

Gramsci nasceu numa região pobre da Itália e amargou nas prisões do fascismo
italiano, e conviveu no mesmo século com os teóricos críticos frankfurtianos, nascidos
na geograficamente próxima Alemanha, em famílias burguesas de origem judaica,
sendo que todos eles tiveram em comum uma forte influencia do pensamento de Marx.

Adorno, Horkheimer e até mesmo Marx não adotaram essa visão filosófica da
práxis como preconizada por Gramsci a partir de sua experiência com a Revolução
Bolchevique, aqui representada pela dualidade entre a teoria e a prática do marxismo,
19

como teoria e prática revolucionária. Em comum, Adorno, Horkheimer e Gramsci


primaram pela crítica ao Positivismo. Outro tema recorrente foi a cultura tão bem
interpretada por Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento sob o título de A
Indústria Cultural: o Esclarecimento como Mitificação das Massas (ADORNO;
HORKHEIMER, 1985).

A indústria cultural criticada por Adorno e Horkheimer remete não só a


mercadorização da cultura, mas também as condições sociais e psicológicas do
consumo, e tiveram como cenário o contexto de anti-semitismo vivido na Alemanha
nazista. Para Gramsci a cultura pode ser interpretada pela hegemonia e pela política, na
busca de uma cultura nacional unificada. Afinal Gramsci não se deteve tão somente a
ser um teórico, foi um intelectual político e ativista, diferentemente de Adorno e
Horkheimer, e sua contribuição nesta relação teoria e prática se constitui um exemplo de
formato emancipatório.

Gramsci foi um dos primeiros a adotar a terminologia fordismo em seus escritos,


enquanto Braverman associava-se a relação taylorismo-fordismo. Na concepção de
hegemonia de Gramsci o consentimento estaria relacionado à política e a ideologia
presente nas relações sociais, enquanto que para Braverman a produção estaria
associada a sujeição e a coerção do controle.

Para Bauman a alternativa ética e política é o sonho comunitário. “A imagem da


comunidade é a de uma ilha de tranqüilidade caseira e agradável num mar de
turbulência e hostilidade”. Sua resposta para o que nos angustia é o modelo republicano,
onde a unidade é um resultado e não uma condição resulta da negociação e
reconciliação, não pelas diferenças.

Pode-se acreditar da mesma forma que as influências de Bauman na Teoria


Crítica e Burawoy na Teoria Organizacional, seja possível expandir as discussões em
torno da critica sobre as teorias organizacionais. Mas como bem lembra Freitag (2004)
em sua primeira edição de 1994, as influências da Teoria Crítica no Brasil, chegaram
através de duas vias: a americana por intermédio de Marcuse e da New Left, e a outra
diretamente dos frankfurtianos alemães. Naquela ocasião ela constatava que o Brasil
sendo um país capitalista periférico ainda estava ausente do debate teórico crítico, bem e
hoje será que já estamos?
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REFERÊNCIAS

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2003. (Entrevista à revista Der Spiegel, n.o 19, 1969. Publicado anteriormente no
Caderno “Mais!” da Folha de S. Paulo, 31.08.2003).

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BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no


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21

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