Você está na página 1de 8

CENTRO DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA BATISTA

CURSO DE TEOLOGIA

WEVERSON FERRARI

LEVIRATO
&
GOELATO

VITÓRIA
2015
1 GOELATO

O Goelato - do hebraico G'l - ou Go'el - significa “comprar de volta ou remir”. Na Bíblia


ele tem dois sentidos: 1) Redentor, aquele que liberta, mediante um pagamento; 2)
Vingador, aquele que exige a prestação de contas por algum dano feito.

1.1 REDENTOR

A lei mosaica estabelecia que um parente próximo poderia (ou deveria) comprar de
volta as propriedades vendidas por um parente que estivera com dificuldades
financeiras. Essa figura do goelato como redentor está previsto no livro de Levítico:

25Se um israelita ficar pobre e precisar vender uma parte das suas terras, o
seu parente mais chegado deve tornar a comprar o que ele vendeu. 26Mas,
se ele não tiver um parente que compre as terras, é possível que mais tarde
ele mesmo fique rico outra vez, podendo assim tornar a comprar o terreno
que vendeu. 27Ele descontará o valor das colheitas que o terreno tiver
produzido desde o último Ano da Libertação e calculará o preço a pagar,
tendo como base os anos de colheita que ainda faltarem até o seguinte Ano
da Libertação. E assim ele será novamente o dono do terreno. (Levítico
25.25-27)

Aqui, o propósito do goelado é garantir a preservação das terras conforme a


distribuição feita por ocasião da conquista da Terra Prometida, na qual, cada família
recebera um terreno.

A figura do resgatador abrangia também os casos em que um parente tivesse que se


vender como escravo a fim de saldar uma dívida:

47Pode acontecer que um estrangeiro que vive no meio do povo fique rico e
que um vizinho israelita fique pobre e se venda como escravo a esse
estrangeiro ou a alguém da família dele. 48Nesse caso, depois de vendido, o
israelita tem o direito de ser comprado de novo. Um irmão, 49um tio, um primo
ou outro parente chegado poderá comprá-lo. Ou, se ganhar bastante dinheiro,
ele mesmo poderá comprar a sua liberdade. (Levítico 25.47-49)

1.2 VINGADOR

A figura do vingador é regulada no livro de Números:


3

23Pode acontecer também que alguém, sem ver, atire uma pedra que venha
a cair em cima de alguém e cause a sua morte. Porém os dois não eram
inimigos, e quem matou não fez isso de propósito. 24Nesses casos o povo
julgará a favor do que matou sem querer e não a favor do homem que era
responsável por vingar a morte do seu parente. 25O povo deverá proteger o
homem que matou sem querer, não deixando que ele seja morto pelo parente
do homem que morreu. O povo o fará voltar à cidade de refúgio para onde
havia fugido, e ali o assassino ficará até a morte do Grande Sacerdote, que
foi ungido com azeite sagrado. 26Mas, se em qualquer tempo o homem que
matou alguém sair da cidade de refúgio para onde havia fugido, 27e o
responsável por vingar a morte do seu parente o encontrar, ele poderá matá-
lo e não será culpado por essa morte. 28O homem que matou alguém deverá
ficar na sua cidade de refúgio até a morte do Grande Sacerdote, mas depois
poderá voltar para a sua casa. 29Essas ordens serão uma lei para vocês e os
seus descendentes, em todos os lugares onde vocês morarem. 30 Quem
matar uma pessoa será condenado à morte, conforme o que duas ou mais
testemunhas disserem; uma testemunha só não basta para condenar alguém
à morte. 31A vida de um criminoso condenado à morte não pode ser comprada
com dinheiro. Ele será morto. 32Também não aceitem dinheiro para libertar
aquele que tiver fugido para uma cidade de refúgio e que quiser voltar para a
sua terra antes da morte do Grande Sacerdote. 33Portanto, não profanem com
crimes de sangue a terra onde vocês vivem, pois os assassinatos profanam
o país. E a única maneira de se fazer a cerimônia de purificação da terra onde
alguém foi morto é pela morte do assassino. 34Não tornem impura a terra
onde vocês vão morar, pois eu também estou no meio dela. Eu, o Senhor,
vivo no meio dos israelitas. (Números 35.23-34)

Champlin (p.4963) afirma que a instituição da responsabilidade dos parentes era


comum entre os povos semitas. Todo erro praticado contra alguém precisava ser
devidamente vingado. E era a família quem assumia formas de justiça que hoje são
exclusivas ao Estado. O parente masculino mais próximo estava na obrigação de ouvir
o caso e cumprir seu papel de tirar vingança.

Entretanto, ninguém mais da família do ofensor poderia ser vítima da vingança:

16– Os pais não serão mortos por causa de crimes cometidos pelos filhos,
nem os filhos por causa de crimes cometidos pelos pais; uma pessoa será
morta somente como castigo pelo crime que ela mesma cometeu.
(Deuteronômio 24.16)

A Bíblia retrata que o sangue da pessoa injustiçada ainda permanece clamando por
vingança, conforme ilustra a passagem da morte de Abel por Caim:

10Então Deus disse: – Por que você fez isso? Da terra, o sangue do seu irmão
está gritando, pedindo vingança. 11Por isso você será amaldiçoado e não
poderá mais cultivar a terra. Pois, quando você matou o seu irmão, a terra
abriu a boca para beber o sangue dele. (Gênesis 4.10,11)
4

1.3 UM TIPO DE CRISTO

Na figura do redentor, há um tipo de Cristo.

a. Cristo redime as pessoas e heranças:

Mas, quando chegou o tempo certo, Deus enviou o seu próprio Filho, que veio
como filho de mãe humana e viveu debaixo da lei para libertar os que estavam
debaixo da lei, a fim de que nós pudéssemos nos tornar filhos de Deus.
(Gálatas 4.4-5)

7Pois, pela morte de Cristo na cruz, nós somos libertados, isto é, os nossos
pecados são perdoados. Como é maravilhosa a graça de Deus. (…) 11Todas
as coisas são feitas de acordo com o plano e com a decisão de Deus. De
acordo com a sua vontade e com aquilo que ele havia resolvido desde o
princípio, Deus nos escolheu para sermos o seu povo, por meio da nossa
união com Cristo. (…)14O Espírito Santo é a garantia de que receberemos o
que Deus prometeu ao seu povo, e isso nos dá a certeza de que Deus dará
liberdade completa aos que são seus. Portanto, louvemos a sua glória.
(Efésios 1.7,11,14)

14Foiele quem se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar de toda maldade
e de nos purificar, fazendo de nós um povo que pertence somente a ele e que
se dedica a fazer o bem. (Tito 2.14)

b. O Redentor tem que ser um parente:

4Mas, quando chegou o tempo certo, Deus enviou o seu próprio Filho, que
veio como filho de mãe humana e viveu debaixo da lei (Gálatas 4.4)

14Os filhos, como ele os chama, são pessoas de carne e sangue. E por isso
o próprio Jesus se tornou igual a eles, tomando parte na natureza humana
deles. Ele fez isso para que, por meio da sua morte, pudesse destruir o Diabo,
que tem poder sobre a morte. 15E também para libertar os que foram escravos
toda a sua vida por causa do medo da morte. (Hebreus 2.14,15)

c. O Redentor tinha que ter condições para redimir:

34Mas aquele que vai libertá-los é forte; o seu nome é Senhor, o Todo-
Poderoso. Ele mesmo defenderá a causa deles e trará paz à terra; mas para
o povo da Babilônia ele trará confusão. (Jeremias 50.34)

11–Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. (…)
18Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha própria vontade.
Tenho o direito de dá-la e de tornar a recebê-la, pois foi isso o que o meu Pai
me mandou fazer. (João 10.11,18)
5

d. A obra do redentor se completava ao pagar o preço exigido (conforme Levítico


25.27):

27Ele descontará o valor das colheitas que o terreno tiver produzido desde o
último Ano da Libertação e calculará o preço a pagar, tendo como base os
anos de colheita que ainda faltarem até o seguinte Ano da Libertação. E assim
ele será novamente o dono do terreno. (Levítico 25.27)

18Pois vocês sabem o preço que foi pago para livrá-los da vida inútil que
herdaram dos seus antepassados. Esse preço não foi uma coisa que perde
o seu valor como o ouro ou a prata. 19Vocês foram libertados pelo precioso
sangue de Cristo, que era como um cordeiro sem defeito nem mancha.
(1Pedro 1.18,19)

13Porém Cristo, tornando-se maldição por nós, nos livrou da maldição imposta
pela lei. Como dizem as Escrituras: “Maldito todo aquele que for pendurado
numa cruz!” (Gálatas 3.13)

e. O ato redentor de Deus, porém, está condicionado ao fato de seu povo


abandonar o pecado:

20OSenhor Deus diz: “Eu virei a Sião como Redentor para salvar as pessoas
do meu povo que se arrependerem.” (Isaías 59.20)

Na figura do vingador, há também um tipo de Cristo (ou melhor, do Pai).

a. O livro de Provérbios coloca Deus como o Goel (vingador) dos órfãos:

11Deus é o poderoso defensor dos órfãos e defenderá a causa deles contra


você. (Provérbios 23.11)

b. Na vinda de Cristo, Deus castigará os que fizeram seus filhos sofrerem:

6Deus fará o que é justo: ele trará sofrimento para aqueles que fazem com
que vocês sofram 7e dará descanso a vocês e também a nós, que sofremos.
Ele fará isso quando o Senhor Jesus vier do céu e aparecer junto com os
seus anjos poderosos, 8no meio de chamas de fogo, para castigar os que
rejeitam a Deus e não obedecem ao evangelho do nosso Senhor Jesus. 9Eles
serão castigados com a destruição eterna e ficarão longe da presença do
Senhor e do seu glorioso poder. (2Tessalonicenses 1.6-9)

19Meus queridos irmãos, nunca se vinguem de ninguém; pelo contrário,


deixem que seja Deus quem dê o castigo. Pois as Escrituras Sagradas dizem:
“Eu me vingarei, eu acertarei contas com eles, diz o Senhor.” (Romanos
12.19)
6

c. No Apocalipse, os mártires do anticristo clamam pela “vingança” de Deus

9Então o Cordeiro quebrou o quinto selo. E vi debaixo do altar as almas dos


que tinham sido mortos porque haviam anunciado a mensagem de Deus e
tinham sido fiéis no seu testemunho. 10Eles gritavam com voz bem forte:– Ó
Todo-Poderoso, santo e verdadeiro! Quando julgarás e condenarás os que
na terra nos mataram? (Apocalipse 6.9-10)

2 CASAMENTO LEVIRATO

O casamento levirato (derivado da palavra latina levir que significa cunhado) era um
costume hebraico que estabelecia que quando um israelita casado morria sem deixar
descendente do sexo masculino, seu parente solteiro mais próximo era obrigado a
casar-se com a viúva, a fim de dar continuidade ao nome da família do falecido. O
filho do primogênito do novo casal tornava-se o herdeiro do primeiro marido de sua
mãe.

Esta prática está regulada no livro de Levítico:

5Moisés disse ao povo: – Se dois irmãos morarem juntos, e um deles morrer


e deixar a esposa sem filhos, a viúva só deverá casar de novo com alguém
que seja da família do morto. O irmão do falecido deve casar com a viúva,
cumprindo assim o dever de cunhado. 6O primeiro filho que ela lhe der será
considerado filho do falecido, para que o seu nome não desapareça de Israel.
7Mas, se o cunhado não quiser casar com a viúva, ela irá ao lugar de

julgamento para falar com os líderes da cidade. Ela dirá: “Meu cunhado não
quer cumprir o seu dever, casando comigo; ele não quer que o nome do seu
irmão fique vivo em Israel.” 8Aí os líderes devem chamar o homem e procurar
fazê-lo mudar de ideia. Mas, se ele insistir, dizendo que não quer casar com
a cunhada, 9ela chegará perto dele e ali na presença dos líderes tirará uma
das sandálias dele, cuspirá no seu rosto e dirá: “É assim que se faz com o
homem que não dá ao seu irmão descendentes em Israel.” 10E dali em diante
a família dele será chamada de “família do homem que foi descalçado.”
(Levítico 25.5-10)

O casamento entre Rute e Boaz é um exemplo típico de casamento levirato, embora


Boaz não fosse um parente próximo mas sim, distante.

2.1 BOAZ, UM TIPO DE CRISTO

Boaz é um tipo de Cristo no AT, o qual semelhantemente redime o crente de duas


maneiras: (1) Ele nos comprou com seu próprio sangue e assim não deixa que
7

pereçamos no pecado e (2) nos inclui como redimidos na sua herança eterna, a Nova
Jerusalém.

Carson observa que uma “contribuição particular do livro de Rute é nos mostrar que
só o parente mais próximo tinha o direito de resgatar e, mesmo assim, não tinha
nenhuma obrigação de fazê-lo”. Ele acrescenta ainda que “tal disposição de Boaz em
sujeitar-se a um dever com um alto preço prenunciou a disposição do resgatador
maior, que haveria de descender dele”. (p.446).

Champlim argumenta que a imensa misericórdia e amor de Boaz por Rute, ao resgatá-
la, apesar deles serem parentes distantes faz com que o livro de Rute seja como verso
de João 3.16 no AT: “Pois Deus amou o mundo de tal maneira que…”.

Shedd (p.385) afirma que a benevolência de Boaz era apenas a prova da compaixão
de Deus pelos estrangeiros moabitas, babilônios ou quem quer que fosse, pois “o
Deus da Redenção deseja e tem poder para resgatar a todo homem desterrado
espiritualmente (Cl 1.13,14)”.

Por fim, Shedd acrescenta que assim como Boaz resgatou uma gentia, Deus também
escolhe sua noiva (a igreja) dentre os gentios, criando uma perfeita comunhão com
os pecadores purificados:

11Lembrem que vocês, os não judeus, eram chamados de incircuncidados


pelos judeus, que chamam a si mesmos de circuncidados por praticar a
circuncisão. Lembrem do que vocês eram no passado. 12Naquele tempo
vocês estavam separados de Cristo; eram estrangeiros e não pertenciam ao
povo escolhido de Deus. Não tinham parte nas suas alianças, que eram
baseadas nas promessas de Deus para o seu povo. E neste mundo viviam
sem esperança e sem Deus. 13Mas agora, unidos com Cristo Jesus, vocês,
que estavam longe de Deus, foram trazidos para perto dele pela morte de
Cristo na cruz. (Efésios 2.11-13)

.
8

REFERÊNCIAS

CARSON, D. A… [et al]. Comentário Bíblico: Vida Nova. São Paulo: Vida Nova,
2009.

CHAMPLIN, Russell N. O Antigo testamento interpretado: versículo por versículo:


dicionário – A-L. 2.ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2001.

CHAMPLIN, Russell N. O Antigo testamento interpretado: versículo por versículo:


dicionário – M-Z. 2.ed. São Paulo: Editora Hagnos, 2001.

BÍBLIA, Português. Bíblia de Estudo Pentecostal. Tradução de João Ferreira de


Almeida. Edição Revista e Corrigida. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.

BÍBLIA, Português. Bíblia Shedd. 2.ed. Tradução de João Ferreira de Almeida.


Edição Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil (SBB); São Paulo, SP: Vida
Nova, 1997.

Você também pode gostar