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bre o território am a. Na mão direita, o famoso "balde voador : na
esquerda, presentes dados pelos aucas.
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A curta mas intensa vida t f'
de Nate Saint foi tão cheia s
de acidentes e incidentes co¬
mo a de qualquer outro jovem poderia ser, mas
também foi marcada pela dedicação à causa a que ele
a consagrara: levar o evangelho de Cristo aos mais
distantes e solitários núcleos humanos.
Desde pequeno, Nate parecia destinado a uma
obra de pioneirismo. Seu çênio inventivo, aliado a
uma grande habilidade mecanica, seu desejo insaciá¬
vel de aventura e sua profunda fé cristã formaram,
sem dúvida, uma base sólida para os acontecimentos
dramáticos que se desenrolariam em tomo de sua
vida.
Depois de servir na Força Aérea, ele entrou para
“Asas de Socorro”, que, então, dava os seus primeiros
passos. Iniciou seu trabalho como piloto-mecânico.
Entretanto, logo se lançou a outros empreendimentos,
que culminaram com a idealização e execução da
“Operação Auca”, que lhe custou a vida.
Mais do que o simples relato de uma aventura, O
Piloto das Selvas leva o leitor a participar do desafio
da vida missionária pioneira e a sentir o impacto
produzido pelo evangelho na vida do selvagem. O
Piloto das Selvas é a história empolgante da vida de
um jovem que fez das asas de seu avião um
instrumento para levar a Cristo homens e mulheres
esquecidos no coração dos Andes.
Território da
"OPERAÇÃO AUCA"
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Russell T. Hitt
Walter Kaschel

Publicado por
Asas de Socorro
Distribuição da Editora Betânia
Adaptado do original inglês
Jungle Pilot
Copyright © 1959 by the Auca Missionary Foundation

Sétima edição, 1992

Todos os direitos reservados por


Asas de Socorro
Av. JK, Qd. 08 Lt. 13
Caixa R)s(al 184
75001-970 Anápolis, GO

Composto e impresso nas oficinas gráficas da


Editora Betánia S/C
Rua Fe. Fedro Pinto, 2435
31570-000 Belo Horizonte, MG

Printed in Brazil
ÍNDICE

Dedicatória 6
A presentaçâo 7
Agradecimentos 10
CAPÍTULO 1 Rasgando Pistas nas Selvas 11
CAPÍTULO 2 “Ensina o Menino” 23
CAPÍTULO 3 Na Escola da Provação 29
CAPÍTULO 4 Primeiras Experiências 35
CAPÍTULO 5 Uma Companheira Dada por Deus. . 41
CAPÍTULO 6 Nas Selvas do Equador 44
CAPÍTULO 7 Desastre em Quito 53
CAPÍTULO 8 Um Gênio Inventivo 60
CAPÍTULO 9 Diário de um Piloto 71
CAPÍTULO 10 Salvando Vidas 77
CAPÍTULO 11 Bem Merecidas Férias 83
CAPÍTULO 12 Oásis em Jivária 91
CAPÍTULO 13 Missão de Paz 98
CAPÍTULO 14 Homens de um Mesmo Sonho 105
CAPÍTULO 15 “Operação A uca” 111
Epílogo 116
A Marj Saint
em cuja aliança estava gravado,
por escolha de Nate: Salmo 34.3
Engrandecei o Senhor comigo e todos
à uma lhe exaltemos o nome.
APRESENTAÇAO
Este livro não poderá deixar de exercer um impacto
decisivo em sua vida. Trata-se da história impressionante
e comovente de cinco jovens que se entregaram sem re¬
servas à tarefa de levar as novas salvadoras a regiões imer¬
sas nas mais densas trevas da ignorância espiritual.
Mas o livro é mais do que a história de Nate Saint e
seu gênio inventivo, suas lutas e frustrações, suas vitórias
e seu ideal de alcançar os aucas selvagens. É mais do que
a história dos seus quatro companheiros, igualmente em¬
polgados pela visão missionária que o Senhor lhes dera.
“Piloto das Selvas” é a história de uma organização
a que Nate pertencia e que lhe permitiu penetrar no co¬
ração do Equador para levar aos aborígenes a nova sal¬
vadora.
Qual é essa organização?
Tem um nome deveras sugestivo — ASAS DE SO¬
CORRO. Seu propósito é usar os recursos da tecnologia
moderna para levar o evangelho “até aos confins da terra”.
Chegaram à conclusão, seus fundadores, de que pelo
uso dos métodos tradicionais de missões seria extrema-
mente lenta e difícil a penetração nos lugares mais distan¬
tes e inóspitos do mundo.
Daí ter-se organizado nos Estados Unidos a “Missio¬
nary Aviation Fellowship”, que desde 1946 tem enviado
seus missionários aos rincões mais afastados do globo.
Aqui no Brasil a organização recebeu o nome de Asas
de Socorro. Chegaram os primeiros missionários às nos¬
sas plagas em 1956, exatamente o ano em que Nate Saint
e seus companheiros haviam tentado o contato com os au¬
cas, sacrificando suas vidas.

7
Desde então, esse ministério tem se desenvolvido de
maneira maravilhosa, como uma entidade filantrópica bra¬
sileira. O presidente e a maioria dos diretores são brasi¬
leiros, e Asas de Socorro é reconhecida como Utilidade
Pública Municipal, Estadual e Federal.
O começo, como sempre, foi extremamente modesto.
Os dois primeiros missionários, enquanto estudavam a lín¬
gua em Campinas, adquiriram um avião acidentado e o
reconstruíram numa garage de carro, e já em 1957 inicia¬
vam seu serviço aéreo em Cuiabá, no Mato Grosso.
Daí para cá, vários novos centros foram estabelecidos,
dos quais partem os aviões missionários a serviço das mis¬
sões evangélicas neles interessadas.
Esses centros estão localizados em Anápolis, Goiás;
em Boa Vista no território de Roraima, e em Eirunepé,
no Amazonas.
A sede de Asas de Socorro fica em Anápolis, onde
tem seu hangar e oficinas no aeroporto municipal.
As oficinas de manutenção servem não somente aos
aviões de “Asas”, mas também a diversas missões evan¬
gélicas que se utilizam da aviação em seu trabalho mis¬
sionário.
O governo brasileiro já autorizou, através do seu De¬
partamento Nacional de Telecomunicações, as operações
radiofónicas de Asas de Socorro por todo o Brasil, o que
vem permitir uma eficiência muito maior no seu vasto e
importante setor de comunicações.
O desejo de Asas de Socorro é descobrir e completar
o treinamento de mais jovens brasileiros que se sintam cha¬
mados a servir a causa de missões como pilotos, mecânicos
e técnicos de rádio.
Aquilo que Nate Saint e seus companheiros consegui¬
ram realizar nas selvas equatorianas, graças aos recursos
da tecnologia moderna, Deus quer realizar no nosso imenso
território brasileiro. Asas de Socorro está aqui para servir
o povo evangélico e ajudá-lo a alcançar as regiões mais
distantes e difíceis. Ela expressa muito bem esse ideal no

lema que escolheu “Dando asas aos que dão suas vidas!”
O desejo da diretória de “Asas” é que a obra seja re-

Scanned by CamScanner
alizada por obreiros, brasileiros, através de recursos c apoio
do nosso povo evangélico.
Em uma carta que nos dirigiu o secretário geral de Asas
de Socorro. Eldon R. Larsen, ele assim se expressa quanto
aos ideais dessa abençoada instituição: “Queremos ajudar
o máximo possível todos aqueles que vcrdadciramcntc se
sentirem chamados e vocacionados a servir ao Senhor atra¬
vés do ministério de “Asas”, ou seja, assistência às mis¬
sões evangélicas por meio de transporte aéreo, comunicação
radiofónica ou tratamento médico”.
Minha oração é que Deus levante entre os jovens bra¬
sileiros elementos do gabarito de um Nate Saint ou de um
Jim Elliot para penetrar nas vastas selvas do Brasil, com
os recursos da técnica moderna, a fim de alcançar os mi¬
lhões de brasileiros que, de outra sorte, muito difícil e len¬
tamente iremos alcançar.
Não há tempo a perder e precisamos usar dos métodos
modernos de transporte e comunicação para levar Cristo
a todo brasileiro, o mais breve possível.
Deus nos dê uma visão nova nesse setor tão necessi¬
tado e tão negligenciado!

Walter Kaschel

9
Agradecimentos
Na qualidade de secretário geral de Asas de Socorro,
a organização responsável pela publicação deste livro,
desejo expressar aqui os meus mais sinceros agradeci¬
mentos aos que tomaram possível esta edição em
português.
Primeiramente, gratidão a D. Edelweiss Kaschel e a
D. Loly Amaro de Souza, que carinhosamente se
dedicaram à difícil tarefa de traduzir o livro, condensá-lo
e adaptá-lo aos leitores de língua portuguesa, tendo por
base “Jungle Pilot”.
Meu reconhecimento também ao Pastor Walter
Kaschel pela parte com que enriqueceu a obra. Além da
apresentação, é ele o autor dos dois últimos capítulos. O
penúltimo capítulo apresenta os acontecimentos da
chamada “Operação Auca” e o último atualiza os fatos
relacionados com a obra missionária entre os aucas.
Minha oração é que “Piloto das Selvas” seja uma
bênção muito grande para você, amigo leitor.

Eldon R. Larsen

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CAPÍTULO UM

RASGANDO PISTAS
NAS SELVAS
. . . como a águia que voa pelos céus . . .
Provérbios 23.5

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grupo de índios e um homem branco com
machados e facões iam cortando as árvores,
arrancando o mato da terra preta e fértil. Aos poucos a
selva era vencida, e o mato empilhado ao lado de uma
pista de pouso que não tinha sido terminada.
O homem branco, um missionário alto, magro e de
olhos fundos, arrancava troncos. Um deles se erguia
como verdadeira rocha, exatamente onde as rodas do
avião deveriam tocar.
Com frequência o homem branco e os índios olhavam
para o céu, querendo ouvir o zumbido que traria Nate
Saint e o seu aviãozinho amarelo.
A pista de pouso era, na selva espessa, uma simples
marca. Terminava na aldeia indígena, onde sobressaía
uma enorme casa de palha.
11
Quatro dias eram necessários para se ir da aldeia até
Macuma. o posto missionário. Foi de Macuma que
Rogério Youderiam veio, atravessando densas florestas e
rios caudalosos, ora em canoas, ora vencendo simples
picadas. Veio para ajudar a concluir a pista de pouso.
Quando Rogério, Frank Drown e Natei Saint, o pilo¬
to das selvas, planejaram fazer a limpeza da mata para
uma pista de pouso na aldeia dos índios atshuaras, pa¬
recia ser uma tarefa simples, de rotina.
Por muitos anos os atshuaras afastaram os missioná¬
rios de seu território, ameaçando de morte a qualquer
intruso que ousasse transpor seus limites. Mas no tempo
que o Senhor determinou, Santiaku, o chefe da tribo, foi
ao posto da missão à procura de remédio. Uma terrível
moléstia das selvas o consumia. Depois de curado,
Santiaku convidou Rogério e Frank para visitarem a
aldeia. A viagem foi longa e difícil.
Na primeira visita, os missionários levaram ferra¬
mentas e conseguiram que os índios começassem a
desbastar a mata, para a clareira que seria a pista. Sem
pista
— sem remédios. Era uma lógica muito simples,
convincente. Cuidaram dos índios e pregaram o evan¬
gelho.
Nos meses seguintes, Nate Saint sobrevoou o lugar
várias vezes. Afinal chegou a hora em que ficou bem
claro que os índios necessitavam de ajuda. Rogério
decidiu, então, ir e terminar o projeto.
Mas o missionário não sabia que uma grave
complicação havia surgido no meio da tribo.
Quando chegou à aldeia, descobriu que muitos índios
estavam com gripe. Era uma situação alarmante. Sem
qualquer resistência à doença, os índios iriam morrer. As
portas da aldeia se fechariam novamente para os
missionários, por outros tantos anos.
Rogério, entretanto, não se intimidou diante da
situação. Possuía um pequeno estoque de penicilina.
Logo medicou os que estavam em piores condições,
esperando que o contágio diminuísse. E realmente, nos

Hronunciu-se Ncii
12
dias que se seguiram os casos tratados por Rogério não
tiveram nenhuma recaída. Tudo indicava que nenhum
outro caso mais sério apareceria. Apesar disso, o
missionário sentia que nenhum relacionamento mais
sólido seria estabelecido com os atshuaras, a menos que
um médico e outros recursos pudessem chegar. Rogério
precisava de Nate Saint e seu aviàozinho amarelo o mais
depressa possível.
O calor era intenso. Nuvens de mosquitos atacavam o
corpo suado de Rogério. Exausto, limpou o suor.
Observou o céu. Um nevoeiro se erguia como um véu.
Desesperado orou em inglês: “Senhor desfaz estas
nuvens e manda logo Nate.” Apreensivos os índios se
entreolharam.
A oraçào de Rogério, embora curta, tinha sido
sincera. Sua posição junto aos índios era precária.
Precisava falar com Nate, antecipar a primeira aterris¬
sagem e conseguir mais penicilina.
O avião nào poderia descer ainda. A pista estava
longe de ser concluída. Mas quando chegasse, Nate
desceria o singular “balde voador” que ele criou para
estabelecer comunicação entre ares e terra, especialmen¬
te em emergências como a presente.
— Tacasta (continuem), disse Rogério aos índios.
para estimulá-los a continuar a tarefa.
Algum tempo depois o nevoeiro se dissipou e o sol da
manhã brilhou nas plantações de mandioca onde as
mulheres trabalhavam.
Rogério foi até o enorme tronco. Cavou um pouco
junto às raízes. Tempos atrás a árvore havia sido cortada.
O tronco, porém, continuava firme... inflexível... desafi¬
ador... Parecia estar ali para testar a sua força de
vontade. Era o obstáculo que estava entre os atshuaras e
os missionários que ansiavam falar-lhes do evangelho. O
tronco precisava ser removido. Rogério tinha justamente
começado a cavar com mais vigor, quando um grito fez
com que todo o trabalho parasse.
Warush, o mais jovem dos índios atshuaras, apontava


com o machado e gritava:
Estou ouvindo! Estou ouvindo!
13
— Dentro de
poucos segundos todos ouviram também o aviào que se :
aproximava. •
Nate acharia a clareira? Nào havia nenhum ponto de
referência natural. A selva equatoriana estendia-se plana
como o mar. Os restos do nevoeiro poderiam, também,
facilmente esconder a pequenina marca na floresta
espessa.
Afinal, todos puderam ver o sol brilhando nas asas
amarelas. Nate vinha em linha reta, um pouco para o
Sul. Parecia que ia passar. De repente dirigiu-se para a
clareira, perdendo altitude rapidamente.
Nate fazia um voo rasante, quando Santiaku
apareceu e ficou a observar silenciosamente. Fez meia
volta e tornou a sobrevoar a clareira com velocidade
reduzida. Quando passou perto dos homens, gritou:
— Limpem o lugar para eu jogar alguns embrulhos.
Rogério tirou os índios da pista. Nate passou quatro
vezes e deixou cair embrulhos de alimentos, machados
sem cabos e roupas para os índios.
Enquanto eles apanhavam os pacotes, Rogério olhava
para o céu esperando alguma coisa mais. O avião
começou a voar em círculos. Um pequenino ponto negro
desligou-se do aviào. Rogério deu graças ao Senhor, pois
sabia que Ele dirigia toda aquela operação. O pequeno
ponto negro passou a acompanhar as voltas que o aviào
descrevia. Logo se tornou maior e começou a deslizar
para o centro do círculo e descia em direção à clareira. O
ponto negro se transformou num balde de lona e os fios
que o ligavam ao aviào estavam agora bem visíveis. O
balde estava quase parado, logo acima das árvores, como
que pendurado no vértice de um cone invertido.
Balançava ligeiramente ao descer até que. vagarosamen¬
te. caiu nas mãos de Rogério
— e de repente, num
impulso, subiu novamente. Rogério percebeu que Nate
estava com alguma dificuldade. Era uma camada de
nuvens. Quando Nate não enxergava o que estava
acontecendo com o balde, ele o recolhia até vê-lo
novamente. Na vez seguinte o balde desceu até atingir o
solo. Bateu no chão algumas vezes, foi de encontro a um
toco e ali ficou. Rogério correu e agarrou o balde.

14
Dentro dele encontrou o fone protegido por um pano
grosso. Logo depois ele falava com Frank Drown:
— Alo, Rogério! Alo Rogério!
——
fraca, porém perfeitaniente audível.
A voz de Frank era
Tudo bem aí?

— — Que bom que vocês chegaram. Tudo bem agora


, respondeu Rogério.
— Mas, quando cheguei,
encontrei aqui um forte surto de gripe.

Frank.

Você tinha penicilina suficiente? , perguntou

— Nào, mas usei tudo que havia trazido. Penso que


por hora nào teremos problemas. Como estào Bárbara e
as crianças?
— Todos bem e ansiosos por sua volta. E o trabalho
aí como vai?
Rogério olhou para a pista e para o gigantesco
tronco. Sentiu que somente Deus poderia lhe dar forças
para removê-lo dali.
— Diga a Nate que estaremos prontos para a primeira
aterrissagem sexta-feira pela manhã. Por favor, tragam
mais penicilina.
— Talvez seja melhor trazer mais penicilina num vôo
— —
extra amanhã , disse Frank. Você pode precisar dela
antes de sexta-feira.
Rogério hesitou. Ele sabia que voos normais já


ocupavam o dia todo de Nate. Decidiu afinal.
Deixe para sexta-feira. Não há necessidade de
uma viagem especial.
Uma grande volta da linha do telefone estava no chão
e à medida que o avião voava em círculos, a linha se
enroscava cada vez mais. Interessado, um dos índios
agarrou o fio e puxava em sentido contrário ao avião.
Parecia um menino a empinar um papagaio.
Frank falou novamente:
— Nate pede para lhe dizer que sua vida estará em
perigo, se alguns dos índios recaírem e morrerem antes
de sexta-feira. Ele acha que deve trazer a penicilina


Está tudo bem , respondeu Rogério.
esperar até sexta-feira. —
antes, a menos que você esteja certo de que tudo vai bem.

Os dois missionários conversaram um pouco mais,
Vou

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enquanto o avião continuava a voar em círculos.
Quando terminaram, o fone foi recolhido e o avião voltou
para Macuma.
Os presentes caídos do céu e o entusiasmo da ocasião
deram novo ânimo aos homens de Santiaku. Rogério
intensificou o trabalho na pista. Mesmo assim, o
progresso era lento. Rogério concentrou todos os esforços
no tronco. Esperava que mais gente pudesse trabalhar na
quarta-feira. Mas, na terça-feira à noite um dos índios j
teve uma séria recaída. Quarta-feira apareceram mais
três casos de gripe na aldeia. Rogério estava desorienta¬
do. Se ao menos ele tivesse ouvido os conselhos dos
companheiros. Agora era impossível conseguir a penici¬
lina antes de sexta-feira. Suplicou então ao Senhor
Aquele que o trouxera para a aldeia — e pediu que

nenhum índio morresse antes que a penicilina chegasse.
Rogério tinha outro sério problema. Havia muito
poucas possibilidades da pista ficar pronta até sexta-
feira. Os índios estavam dispostos a trabalhar, mas
apenas poucos tinham condições físicas para tanto, e,
assim mesmo, alguns ainda estavam demasiadamente
fracos para os serviços mais pesados. O próprio Rogério
estava à beira de uma crise. Ainda assim continuou a
trabalhar, orando por mais homens na quinta-feira.
Mas na quinta, mais dois índios ficaram com gripe.
Alguns já resmungavam, porque a agulha do missionário
já não tinha mais remédio.
O dia passou e o tronco continuava no mesmo lugar.
eles cavaram ao redor, cortaram algumas raízes, mas
parecia que o tronco estava cada vez mais firme. Era
quase certo que não haveria aterrissagem na sexta-feira.
Ainda assim Nate poderia jogar a penicilina. Naquela
noite Rogério sentiu-se profundamente exausto.
De manhã, o tempo havia mudado. Nuvens baixas e
uma garoa fina impediram Nate de levantar vôo. Rogério
ficou junto ao grande tronco, trabalhando com implacá¬
vel determinação. Compreendia que estava à beira de
completa exaustão física. Desta maneira arriscava tudo
para terminar a pista. Sabia que não ia poder ficar ali
depois de tanto desgaste. Outros teriam de vir e ministrar

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aos índios. Só havia uma solução. O (ronco tinha de ser
arrancado. Ele precisava descansar!
Ao cair da tarde de sexta-feira o tronco ainda estava
lá. mas com um serrote velho eles o haviam cortado de
lado a lado. As duas metades estavam por um fto. Na
manhà seguinte cairiam.
A pista de pouso era pequena e com árvores altas de
ambos os lados. Mas Nate conseguiria aterrissar, pensou
Rogério. Quantas vezes haviam voado juntos! Rogério
observara admirado, como o companheiro manipulava o
aviãozinho. Parecia um verdadeiro mestre tocando um
Stradivarius. Nate aterrissaria, assim que o tronco fosse
removido.
A chuva e as nuvens baixas haviam melhorado no
sábado. Rogério, prometendo remédio quando o pássaro
amarelo chegasse, conseguiu reunir todos os índios sàos e
colocou -os nas varas e alavancas em volta do tronco.
Todos ajudaram, até mesmo as mulheres e alguns
doentes. Afinal o tronco foi vencido e removido da pista
de pouso. O buraco foi tapado e a área de aterrissagem
assinalada com pedaços de pano branco.
Passaram depois a esperar ansiosamente pela chega¬
da do piloto das selvas e seu aviàozinho amarelo
ambos tão importantes na vida dos missionários e índios

daquela solitária região da cabeceira do Rio Amazonas,
no Equador.
O dia já se aproximava do fim. A preocupação de
Rogério aumentava. Alguns índios estavam muito mal.
Já eram quatro horas. Nate não viria? Rogério estava
desanimado. De repente, todos escutaram — sim, era o
ruído que ia e vinha. O coração do missionário bateu
acelerado. Seu estado físico era lastimável. Estava
completamente exausto.
Meia hora mais tarde, todos ouviram novamente o
zumbido do avião, agora mais perto. Mas. de repente, o
ruído ficou mais fraco. Através das espessas árvores.
todos viram o avião desaparecendo. Rogério estava
intrigado. Nate não conseguia achar a clareira. Por quê?
Já era bem tarde. Rogério entendeu que aquela tinha
sido a última tentativa de Nate. Reuniu então todos os

17
índios. E ali mesmo, em meio à selva, com a noite prestes


a cair e tantos índios doentes, seu coração estava pesado
Rogério deu início a um culto. Mas o culto foi
interrompido. O avião voltava. Desta vez vinha direto
para a clareira. Não havia engano agora.
Enquanto o avião fazia uma curva, todos puderam
perceber a forma de Nate ao tentar ver todos os detalhes
da pista. Rogério podia entender o que se passava na
mente de Nate, enquanto observava as voltas do avião.
Sabia que Nate hesitava. Afinal o avião tomou a direção
da pista e depois de uma curva, mergulhou bem perto do
teto de palha da casa de Santiaku. Estava vindo muito
depressa para aterrissar. Nate queria olhar mais de
perto, queria dar mais uma olhada na pista. Voou bem
raso, passando perto do grupo. As crianças fugiram, as
mulheres recuaram, mas os homens atshuaras permane¬
ceram firmes, demonstrando apenas nos olhos um temor
passageiro. Nate acenou com a mão e tornou a subir.
O avião passou a voar em círculos e, por alguns
minutos, parecia estar sem objetivo. O piloto decidiu
talvez não aterrissar. Mas, então, por que não jogava a
penicilina ou o telefone? pensava Rogério. Mas ali estava
novamente o avião. Alinhava-se cuidadosamente na
pista, desta vez devagar. Os flaps estavam abaixados. O
avião mergulhou tão perto da casa de Santiaku, que
Rogério deixou escapar uma exclamação de espanto. Por
pouco não aconteceu um desastre. Afinal, as rodas do
aparelho tocaram a pista como uma pluma, exatamente
dentro da extensão planejada.
Nate taxiou em direção a Rogério e os índios. Parou o
motor e desceu. Era alto, magro e o cabelo loiro estava
muito bem aparado. O rosto queimado mostrava, como
sempre, um sorriso alegre, quase infantil —
desapareceu ao deparar com a figura emaciada do
sorriso que

companheiro.
— O que há, rapaz? — Começou Nate.
que você estava cansado, mas não esperava...
— Eu sabia

— Você trouxe remédio? — interrompeu Rogério.


Seus olhos fundos salientavam o emaeiado do rosto.
Nate atirou-lhe o pacote. Rogério abriu-o e reuniu os
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índios. Enquanto um carregava os vidros de remédio, OOU-
tro espetava cada doente que aparecia. Finalmente. o
remédio acabou. Mas todos os que precisaram, sentiram
a agulha de Rogério enterrada em seu corpo. Rogério
sorriu pela primeira vez em muitos dias. Sentiu um
grande alívio e entregou os pontos. Daí por diante tudo
ficou por conta de Nate. Santiaku. cansado, doente, todo
pintado, fazia tudo para dar a impressão de um chefe. Os
dois foram despedir-se. Nate, que nào conhecia o dialeto
atshuara, disse adeus em espanhol.
Nate recorda vividamente os detalhes daquele dia:
“Olhei para o relógio e disse: ‘Sabe, Rogério, na ver¬

dade nào terminamos ainda estamos com pressa. ’
“O sol se punha rapidamente, estava esfriando e es¬
curecia.
“Rogério começou a pegar uma porção de coisas;
mas eu protestei: ‘Nào Rogério, não podemos sobre¬
carregar o avião.’ Permiti que ele levasse a seringa de
injeção e a máquina fotográfica. O resto ele pôs num
saco de viagem e deixou com o chefe da tribo.”
Já no avião, Nate explicou que a gasolina daria para
ir até Wambimi. Lá havia algumas cabanas e uma pista
de pouso construídas pela companhia de petróleo da
Shell e abandonadas anos atrás. Era justamente meio
caminho de Macuma. Rogério e sua esposa Bárbara
haviam trabalhado algum tempo entre os índios jivaros
naquela área e utilizado o antigo acampamento da Shell.
Frank estaria em Wambimi com gasolina.
—— Como trabalhamos! desabafou Rogério.
Irmão, nào diga nada. Seu rosto fala mais do que
qualquer outra coisa.
Assim Rogério e Nate voaram direto para Wambimi.
Encontraram -se com Frank, reabasteceram o avião e
estavam prontos para ir embora. Mas na hora da
decolagem o motor apresentou um defeito e eles foram
obrigados a permanecer ali durante aquela noite.
Nate conta alguma coisa do que aconteceu então:
“Já era bem tarde. Eu teria que esperar o motor esfri¬
ar para poder consertá-lo. Teríamos que passar a noi¬
te naquele lugar. Começamos a analisar a situação,
que aliás não era nada boa. Não tínhamos lanternas,
19

Scanned by CamScanner
nem a maleta de emergência estava a bordo. Não po¬
díamos nem mesmo começar um fogo.
"Apesar de tudo estávamos muito alegres. O Senhor é
bom! Havíamos saído da aldeia atshuara sem nenhum
acidente. A penicilina chegara em tempo. Tudo signi¬
ficava uma porta aberta para o evangelho entre aque¬
les índios.
"As cabanas da companhia Shell ficavam logo abaixo
da pista. Rogério e Frank já conheciam o lugar e de¬
cidiram que passaríamos a noite lá. Frank e a esposa,
os últimos a terem passado por ali, haviam deixado
algumas provisões. Precisávamos de um fogo e mais
do que tudo, de luz.
"A escuridão era completa. Eu só podia ver as cami¬
sas brancas dos meus companheiros que iam à frente.
Rogério brandia o machado contra a selva para afu¬
gentar qualquer cobra que estivesse no caminho. Mas
ele ia muito depressa. Não sei se uma cobra teria tem¬
po de sair do caminho. Parecia até que ele conhecia
muito bem o lugar.
"Finalmente chegamos.
"Que lugar horrível! Entramos. Que escuridão! Frank
estendeu-me a mão e guiou-me até uma cadeira. Que
alegria poder sentar-me...
"Rogério e Frank passaram então a explorar a casa.
Derrubaram uma porta e acharam outro quarto, to¬
do cimentado e com um aspecto mais decente.
"A escuridão era tal, que eu não podia distinguir a
minha própria mão. Afinal, depois de mil e uma peri¬
pécias conseguimos encontrar velas e fósforos. Com
a luz tudo melhorou. Achamos também as provisões
e marchamos triunfantemente para a cozinha.
"Preparamos uma refeição rápida e fizemos até um
café. Tenho certeza de que nenhuma refeição foi tão
apreciada como aquela. Pouco antes da meia-noite
fomos dormir."
Os três missionários acordaram às 5,30 hs. Assim que
o avião ficou pronto, voaram direto para Macuma.
Algumas horas depois, Nate sozinho foi para Shell
Mera, sua base de trabalho. Era cedo ainda e a manhã
estava muito bonita. Ele gostava de pilotar o avião assim.
Sem a carga habitual, o aparelho subia livre e
rapidamente no céu azul. Enquanto voava, Nate sentiu-
20
se emocionado ao ver à distância os picos nevados
do Tungurágua e El-Altar. Trezentos quilómetros
adiante estavam o Chimborazo c o vulcào Sangay.
A hora se prestava à reflexão, à análise... Talvez
amanhã mesmo Nate devesse voltar à aldeia atshuara,
levando outro missionário. Os índios poderiam ouvir o
evangelho e seriam despertados para o sacrifício
grandioso do Calvário...
Nate sentia-se feliz trabalhando para o Senhor
naquele lugar. Como piloto, fazia parte de uma crescente
organização — Asas de Socorro —. que havia começado
com um pequeno grupo de pilotos da II Guerra. Aqueles
homens tinham compreendido bem o que aviões e rádio
poderiam significar para missionários em lugares não
civilizados. Os pequenos aviões amarelos de Asas de
Socorro, muito melhores para pequenas pistas do que
grandes aviões, eram ativos nos céus de muitos países.
Nate Saint foi um dos primeiros pilotos de Asas de
Socorro. Sua área de serviço compreendia grande
número de postos missionários na floresta oriental do
Equador. Sua tarefa era dar assistência aos missionários
evangélicos que trabalhavam em postos afastados.
Levava correspondência, carne fresca e verduras, remé¬
dios. transportava doentes e tantas outras coisas.
Nate era piloto e mecânico, mas também um
verdadeiro missionário. Sentia-se integrado no trabalho.
Seu interesse pelas famílias espalhadas nas selvas era
grande. Possuía um sentimento especial pelos missioná¬
rios pioneiros. Ele os servia com um sentimento de amor.
Certa vez escreveu algo do que sentia:
“Esses missionários são chamados por Deus para ser¬
vir em regiões longínquas, longe das estradas da civi¬
lização. Lutam ate o limite de sua capacidade física.
Depois, passam a orar, pedindo meios para alcançar
regiões ainda mais distantes
— terras de feiticeiros e
espíritos maus; onde a mulher não possui alma; onde
a palavra amor não existe no vocabulário...


“Temos o dever de libertar esses missionários dos ri¬
gorosos e cansativos caminhos da selva o que o avi¬
ão faz em cinco minutos significa muitas vezes 24 ho¬
ras a pé. Não queremos dar conforto aos missioná-

21
rios. Eles não estão na selva à procura disso. Mas a
verdadeira razão é ganhar um tempo precioso, redu¬
zir dias, semanas, meses e até anos que podem ser
gastos em ministrar a Palavra de Deus aos povos pri¬
mitivos.”
Ao voar para Shell Mera, naquela manhã límpida de
domingo, Nate Saint voltou seu olhar para o nordeste,
onde viviam os selvagens aucas, uma tribo da Idade da
Pedra, que matava sutil e silenciosamente, de embosca¬

da, uma tribo que por mais de 300 anos, nem um índio
ou branco conseguira visitar pacificamente. Eram
criaturas pelas quais Cristo havia morrido.
“Um dia havemos de achar um meio de alcançá-los
também”, pensou Nate.
Poucos minutos depois ele sobrevoava a base de Shell
Mera. No fim da pista, o sol batia no telhado de sua casa,
onde Marj o estaria esperando com um café quente e
uma boa refeição. Como seria bom ver Kathy, Estêvão e o
pequeno Filipe. Ele os havia deixado havia apenas 24
horas, mas pareciam dias...
Nate fechou a manete, mergulhou uma das asas num
ângulo de planagem e tomou a direção da pista.

22
CAPÍTULO DOIS

“ENSINA O MENINO”
. . . e vos levei sobre asas de águias . . .
Êxodo 19.4

N ate Saint nasceu em 30 de agosto de 1923 e era o


sétimo de uma família de oito filhos, todos com
nomes bíblicos. Os pais tinham uma profunda convicção
religiosa e dirigiam o lar através de uma combinação da
lei do Velho Testamento com a graça do Novo
Testamento. Lawrence Saint baseava seu lar na religião e
na arte. O alvo de Katherine Saint era viver para o
marido e os filhos que o Senhor lhe deu. Desde cedo
procurou implantar neles o amor pelo Salvador e pela
Bíblia. Ao mesmo tempo procurava incentivá-los a ler
História e Literatura. Enquanto Lawrence Saint repre¬
sentava a “lei” para os filhos, Katherine Saint era a
personificação da “graça” e do desprendimento. Ela se
deu completamente à família, encorajando os filhos a
desenvolver suas habilidades e talentos. Dirigia a casa de
maneira um tanto estranha. As refeições eram servidas
nas horas mais incomuns e, muitas vezes, o pessoal
comia em turnos. Um dos membros da família se
recorda: “Havia sempre uma grande panela de sopa no
fogão e muitos pratos para lavar.”
Lawrence Saint exigia que o domingo fosse rigida¬
mente observado pela família, como o dia do Senhor. Isto
significava que toda a família deveria estar na escola
dominical, no culto da manhã e também no culto vesper¬
tino.
O culto da família era o grande acontecimento das
tardes de domingo. O pai lia a Bíblia e cada criança
orava, a começar do mais velho. Eles aprendiam uns com

23

Scanned by CamScanner
os outros. Quantas vezes a oração dos mais novos era
muito mais engraçada do que devota! Certa ocasião,
Sam, o mais velho, contou à família os problemas de seu
namoro. O assunto foi objeto das orações de todos. Mas
o pequeno Nate falou: “Se o Sam não casar com ela, eu
caso.”
Dan Saint recorda-se como Nate orava com muita
piedade: “Senhor, mostra-nos o caminho certo.”
Os domingos eram, pois, rigidamente guardados. As
crianças não podiam brincar ou estudar. “Nem sempre a
regra era obedecida”, Sam confessa hoje. Ocasionalmen¬
te as crianças escapavam pelos fundos e iam à casa do
vizinho ler histórias em quadrinhos. Certa ocasião
subiram ao telhado para ver uma formação de aviões da I
Guerra Mundial numa demonstração aérea.
A não ser pelas leis especiais do domingo, as crianças
eram praticamente livres. Ninguém se aterrorizava
quando o menino de oito anos resolvia subir no telhado
do celeiro ou era encontrado no alto do moinho
estudando as hélices. Nas noites quentes de verão o sino
para o jantar tirava, com frequência, as crianças dos
galhos mais altos das mais altas árvores.
Os pais ensinavam que o álcool e o fumo eram veneno
e que o cinema incentivava o crime e atrofiava a
imaginação. Dança e qualquer tipo de jogo eram tabus
para as crianças do lar de Lawrence Saint. A televisão
ainda não existia, mas os programas de rádio eram
cuidadosamente selecionados.
“Procurávamos mostrar-lhes Cristo como Salvador e
interessá-los na leitura da Bíblia”, recorda Lawrence
Saint. “Eu dramatizava histórias bíblicas com
figurinhas feitas de farinha e palitos de fósforos. Dá¬
vamos um tostão por capítulo da Bíblia que lessem."
Foi nesta atmosfera que Thanny, como Nate era
chamado na infância, cresceu. O lar foi a influência
maior de toda sua vida.
Thanny era uma criança excepcionalmente bela.
Tinha longos cabelos louros, faces rosadas, olhos azuis e
longos cílios escuros. Todos admiravam a perfeição dos
seus traços.

24
Raquel, sua única irmã. tinha-lhc uma predileção
especial. Era ela que o levava a passear. Ela guarda até
hoje a figura do meninozinho andando para o riacho,
com a vara de pescar aos ombros e uma lata de minhocas
na mào. Raquel saturou a mente de Nate com histórias
de missionários. Contou-lhe sobre John Paton, Livings¬
tone. Judson e outros.
Entretanto, Nate era um menino como qualquer
outro. Certo dia, o pai pediu-lhe que apanhasse um
papel que o próprio menino havia jogado no chão. Nate
recusou-se. Lawrence Saint perdeu a escola dominical e
o culto, na tentativa de fazer o filho obedecer. Afinal o
menino se submeteu. Mas somente depois que o pai
usou várias vezes um pequeno chicote verde, pendurado
em lugar bem acessível na casa dos Saint. Seus pais
acreditavam no castigo físico. Com frequência citavam:
“O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o
ama, cedo o disciplina.”
Filipe, irmão de Nate, recorda algo da infância do
irmão:
‘‘Quase sempre havia alguém doente em casa. O sa¬
rampo e a catapora passavam de um para o outro.
Papai foi inválido por alguns anos, e por isso a situa¬
ção da família não era tão boa: as roupas também
passavam de um para o outro.
“Nate era tão tímido, que se escondia de qualquer vi¬
sita que aparecesse. Era tão travesso como qualquer
um de nós, mas uma de suas características marcan¬
tes era o afastamento de tudo aquilo que era perverso
e sórdido. Mesmo na infância era um firme soldado
de Cristo.”
Quando Nate tinha sete anos, teve contato com o que
mudaria todo o curso de sua vida. Seu irmão Sam levou-o
para um passeio de avião. O menino mal podia olhar
acima da cabina aberta.
Já com dez anos, Sam deixou-o assumir o controle
de um outro avião de cabina mais ampla, onde os dois
podiam se sentar lado a lado. Os olhos de Nate brilharam
ao sentir o avião responder ao seu toque. Desde então,
tudo para ele girou em tomo de aviões. Nada era mais
interessante ou maravilhoso.

25
“Thanny é um menino muito querido”, escreveu1 o
o pai. “Está com onze anos e interessa-se pela avia¬
ção. Construímos três pequenos cômodos nos fundos
da casa. Um deles ficou para Nate realizar suas ‘ope¬
rações'. Caracteristicamente ele colocou um aviso na
porta ‘Bagunça aqui, não.”
Ben, o irmão caçula, conta que outra característica
de Nate era a persistência. Nunca se dava por venci¬
do.
‘‘Certa vez”, conta ele, ‘‘estávamos lutando. Eu fiquei
em melhor situação. Embora não pudesse escapar,
Nate resistia. Afinal fiquei com medo de que ele pu¬
desse se machucar e deixei-o sair.”
Nate gostava de contar a experiência de ter recebido
permissão para desmontar o carro da família. Ninguém,
nem ele mesmo, tinha certeza de que o carro andaria
outra vez. Mas, depois de três dias e muitos arranhões, o
carro andou tão bem como antes. Gostava também de
montar modelos de aviões e desmontava rádios.
Aos treze anos Nate ainda não havia confessado a
Cristo publicamente. No verão de 1936 foi a um
acampamento e lá, numa reunião ao redor da fogueira,
aceitou a Cristo.
Naquele mesmo ano ele fez uma palestra na igreja a
que pertencia. Sua mãe guardou as anotações:
“1. Paulo disse em Atos: ‘Crê no Senhor Jesus, e serás
salvo, tu e tua casa.’ Portanto eu estou salvo e o meu
destino é o céu.
‘‘2. Sendo salvo eu tenho um propósito, porque Jesus
Cristo disse: ‘Ide por todo o mundo e pregai o evange¬
lho a toda criatura.’
‘‘3. Já que eu tenho um propósito, estou na luta con¬
tra Satanás e pertenço ao exército dos soldados de
Deus. Eu preciso ser treinado. Esse treinamento eu
recebo em minha igreja.
”4. Gosto de frequentar a escola, porque nela eu rece¬
bo mais instrução para melhor servir a Jesus e entrar
na obra de ganhar almas.
“5. Para mim, a Escola Bíblica significa mais do que
prata e ouro, porque estas são corruptíveis, mas a sal¬
vação é eterna.
"6. Quero conhecer minha Bíblia para poder dizer
mais tarde, com o apóstolo Paulo: ‘Combati o bom
26
combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora
a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor,
reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim,
mas também a todos quantos amam a sua vinda."
Aos quatorze anos Nate foi atacado de osteomielite.
A infecção se concentrou na perna direita. Ficou de cama
vários meses, sofrendo muitas dores. Quando se torna¬
ram insuportáveis, Nate disse ao Senhor que estava
pronto para morrer, mas que, se lhe fosse permitido
viver, entregaria a Ele toda sua vida. Era apenas a
declaração de um menino, feita com intenção espiritual,
mas era uma promessa que jamais foi esquecida
promessa fundamental para as decisões de sua vida

futura.
Nate sarou completamente e reassumiu suas respon¬
sabilidades na escola e na igreja.
Para Nate a dança era pecado e por isso ele não
frequentava as festas da escola. Foi advertido mas
recusou-se a negar suas convicções. Foi dispensado
então, porém não sem uma considerável caçoada por
parte dos colegas.
‘‘O último ano do ginásio foi muito cansativo",
escreveu Nate. "Eu estava tentando trabalhar à noite,
enquanto frequentava as aulas durante o dia. Resolvi
trocar. Arranjei um emprego durante o dia e passei a
estudar à noite num curso intensivo. Trabalhei numa
oficina de soldagem automática e fundição de ferro.
Em dois meses terminei o ginásio."
Depois disto, Nate trabalhou podando árvores, e,
mais tarde, num posto de gasolina. Em 1941, aos dezoito
anos, foi trabalhar para a Flying Dutchman Air Service.
Tomou a primeira lição de voo em 16 de junho daquele
ano. Daí para frente os aviões tornaram -se parte
integrante de sua vida. Assim que pôde, comprou um
pequeno avião para adquirir experiência.
Sam, seu irmão, era capitão da American Airlines e
observava Nate. Sabia das aptidões mecânicas do irmão e
do interesse que nutria por aviões. Assim, conseguiu-lhe
um emprego como aprendiz de mecânico na American
Airlines no campo de La Guardia em Nova York.
"Nunca esquecerei o dia em que deixei minha casa
27
para trabalhar em Nova York”, escreveu Nate.
“Mamãe e Papai já haviam visto os mais velhos parti¬
rem e voltarem e podiam esconder um pouco seus
sentimentos. Mas Ben estava desolado. Mordia os
lábios e tentava disfarçar. Quando afinal escapou
para a cozinha, seus olhos estavam cheios de
lágrimas. Eu podia entender bem seus sentimentos.
Havíamos crescido juntos. Durante toda a viagem
senti um nó na garganta e, já dentro do meu velho
conversível, o vento espalhou as lágrimas que eu não
podia conter.”
Jeanne, esposa de Sam, recorda quando Nate chegou
a Nova York:
‘‘Nate morou conosco em Long Island. Nós o
chamávamos de ‘Kelly’. Aparentava ter grandes
planos e estar ansioso por alcançá-los. Toda a
conversa girava em torno de aviões. Cansei-me de
ouvir falar de porcas e parafusos durante todo o
jantar. Ele gostava muito de nossa filha Eillen de
quatro anos e, com o típico um-por-todos-todos-por-
um da família Saint, interessava-se muito por sua
educação.
‘‘Quando Nate ficava com fome, tornava-se impossí¬
vel. Se o jantar não estava pronto, ficava rondando a
cozinha, dando a impressão de que, se a comida
demorasse um pouco mais, ele desmaiaria.”
Como o seu horário de trabalho fosse muito irregular,
Nate alugou um quarto perto do aeroporto. Era muito
cuidadoso com o dinheiro. Passava as roupas e cozinhava
no pequeno quarto. O dinheiro economizado foi
empregado na compra de um jogo de ferramentas.
‘‘Trabalhar um ano inteiro dentro de um hangar
ainda que fosse enorme — tornou a vida em Nova

York insuportável”, confessou Nate. ‘‘Por isso
planejei uma saída, que incluía servir como voluntá¬
rio no Air Corps. O fato de até pais de família
estarem sendo convocados fez a idéia parecer-me
razoável.”

28
/ / AV ■

***
5
/

tsu \
\
\

CAPITULO TRêS
NA ESCOLA DA PROVAÇÃO
. . . foram- lhe arrancadas as asas . . .
Daniel 7.4

om dezenove anos, Nate alistou-se voluntariamente


no exército e foi classificado apto para ser
convocado, sem chance de apelar.
Sua intenção era servir na Força Aérea. Quando,
porém, passou pelo exame físico, os médicos acharam as
cicatrizes da osteomielite que o atacara cinco anos antes.
Nos seus papéis ficou registrado: “Aceito, com limitação
de serviço.”
Nate serviu na Força Aérea por alguns meses, mas
seu objetivo era o Programa Aéreo de Treinamento de
Cadetes. Por isso seu coração estava cheio de sonhos e
esperanças, quando seguiu para Sioux City, com outros
cinquenta jovens que se integrariam no Treinamento de
Cadetes.
No dia 27 de agosto, Nate e sua classe fizeram uma
caminhada de duas milhas. À noite, ao se deitar, ele
observou que a cicatriz da perna direita estava vermelha.
Sentiu um caroço na virilha, que lhe causava dor.
Num doloroso momento, Nate compreendeu que
29
todos os seus planos iam ser frustrados. Toda a
esperança de se tornar um piloto da Força Aérea se
apagava...
“Nào disse uma palavra ao meu companheiro de
quarto”, contou Nate depois. “Deitei-me e apaguei a
luz. Tranquei-me no mais profundo do meu coração.
A nào ser por alguns suspiros, ninguém saberia o que
se passava dentro de mim. Estava inconsolável. Nào
havia solução!”
Naquela noite Nate escreveu em seu diário:
“Desapontamentos — lições— —
resoluções
horizontes.” E bem no fim da página: SEJA FEITA
novos
A VONTADE DELE
“À mais querida das màes”, expressão que ele usava
quando estava doente, Nate escreveu uma carta caracte-
rística:
“Desde sábado notei a glândula da virilha inchada e
uma vermelhidão na cicatriz da minha perna, mas
tudo regrediu, e quase desapareceu, mas o médico
acha que não posso voar para a Força Aérea e
acabou-se.”
“Sábado, um dos colegas contou-me que eu e mais
nove, escolhidos entre oitenta homens, seríamos
promovidos para outra classe, o que significa que
agora eu estaria voando.
“Passei três dias sem fazer nada, tentando adaptar-
me à nova situação. Durante um mês vivi inteiramen¬
te na esperança de voar. Agora a frustração de todos
os meus anseios deixou-me completamente atur¬
dido...
“Não me esqueci do versículo: ‘Nào te glories do dia
de amanhã, porque não sabes o que trará a luz’, mas
eu acho que o Senhor deseja que façamos os mais al¬
tos planos para desenvolver os talentos que Ele nos
deu, mesmo que seja para Ele invertê-los.
“Fiz vinte anos ontem... Que presente duro saber
que, em vez de ir para o aeroporto para o meu
primeiro dia de voo, devo ir para a base, para tirar
uma chapa de raio-X.”
O fim da carreira aérea de Nate constituiu um marco
em sua vida espiritual. Do ponto de vista humano foi
uma tragédia, mas bem mais tarde, num retrospecto, ele
percebeu em tudo a própria mão de Deus em sua vida.
30
Nos dias em que ele aguardava a decisão do médico
quanto à hospitalização, cie contou a um amigo anos
mais tarde:
"Lutei amargamente para submeter minha vontade
férrea Àquele a quem ela pertencia. Mas a tentativa
falhou e eu mergulhei num terrível entorpecimento.
Nada importava para mim.”
Nate. porém, revelou firmeza emocional e espiritual
assim que começou a reorientar sua vida de acordo com
as circunstâncias. A princípio pensou que podia ser
dispensado por incapacidade física. Teve também a
esperança de ser transferido para algum Comando de
Transporte Aéreo em algum lugar mais perto de casa,
mas nada disso aconteceu.
Depois de alguns dias foi enviado para o hospital da
base aérea de Sioux City.
"Ponha a sopa de volta na geladeira”, escreveu ele à
mãe; porque ela pensava que ele ia voltar para casa.
"Vou voltar à vida militar ativa. Só não vou poder
voar. Essa mudança de acontecimentos me deixa
tonto, mas estou me tornando mentalmente maleável
e adaptável.”
"Nate foi incorporado ao 354.° Esquadrão da Força
Aérea, onde ficou durante um mês.
Veio depois a transferência dele para a Base Aérea de
Amarillo, no Texas, onde passou três meses.
Ele fez muitos amigos na base de Amarillo. Muitos
deles, também crentes, sentiram a influência marcante
do futuro "piloto das selvas”.
"Nate tinha um profundo interesse por todos os com¬
panheiros”, recorda-se um deles. "Sua vida era um
testemunho vivo daquilo que costumava falar.”
"Eu não era um cristão muito eficiente”, confessa
outro. "Mas o conhecimento bíblico de Nate e seu
testemunho pessoal muito contribuíram para um
reencontro meu com o Senhor.”
Na base de Amarillo, Nate foi atraído para a fotogra¬
fia. Ele não sabia quanto aqueles conhecimentos lhe
seriam úteis num futuro bem próximo.
No primeiro Natal que passou na Força Aérea,
escreveu a uma amiga:
"O Senhor me deu bastante tempo para ver as coisas
31
de um ponto de vista diferente do que quando fui pa¬
ra o hospital, enquanto meus companheiros se diri¬
giam para o primeiro voo da turma. Ele me ensinou
muita paciência...
Ele é meu Professor maravilhoso
perdoa... — é paciente e
“A ordem agora é seguir para Fort Wayne, no Estado
de Indiana. Se não puder voar, quero ser útil.”
Poucos dias depois Nate passou dez dias em casa,
antes de assumir suas novas obrigações na Base Aérea de
Baer, na cidade de Fort Wayne.
Foi em Fort Wayne que Nate se interessou em tirar
uma licença de mecânico.
Certa ocasiào ele foi mandado a Detroit estudar o
mecanismo de um avião. Durante a permanência ali,
viveu um dos mais importantes momentos de sua vida
espiritual. Ele próprio conta o que foi essa experiência:
“Servindo em Detroit, vi-me num culto de Ano Novo,
inventariando minha vida e filosofando. Tudo se
resumia em perguntas que somente Deus podia
responder. O que estava acontecendo não era o mais
importante. De qualquer maneira, eu nada ouvia.
“Duvido que tenha chegado a formular a pergunta,
mas eu implorei ao meu Pai Celestial que resolvesse o
que existia entre mim e a paz que Jesus prometera.
Você já ouviu pessoas contarem que Deus falou com
elas, não ouviu? Não sei o que aconteceu com os
outros, mas, naquela noite, eu passei a ver as coisas
de modo diferente... assim. Como se uma tela de um
‘slide’ colorido tivesse sido projetada em minha
mente.
“Assim que pude, saí da igreja, a fim de afastar-me
de pessoas e coisas, para poder compreender melhor
tudo aquilo. Uma alegria como nunca havia sentido,
desde aquela noite em que aceitei o perdão de Jesus
para os meus pecados, parecia deixar-me sem
energia, mas cheio de gratidão. Senti-me descansado
e novamente feliz. O versículo que se enquadrou em
meus pensamentos era aquele que diz: ‘... acharam o
homem... vestido... em perfeito juízo.’ A antiga busca
das coisas temporais parecia absolutamente insana,
uma vez que o Senhor me mostrou Seu novo plano.
“Desde aquela noite, a felicidade que encontro a
32
cada passo me deixa assombrado. Na verdade...
tenho passado por experiências duras, mas as coisas
de maior significação — as coisas espirituais
ganham maior sentido nas dificuldades. —
"Antes da experiência que narrei, eu não conhecia a
verdade desta afirmação: ‘Quem quiser salvar a sua
vida. perdê-la-á.’ Agora é bem clara."
A decisão de Nate em Detroit mudou toda a sua vida
e conduziu-o ao campo missionário.
"Sempre pensei que Deus, quando quer um indiví¬
duo no campo missionário", Nate escreveu à mãe,
"faz com que ele se sinta terrivelmente mal na busca
de qualquer outro propósito. Por isso, acho que a
aviação comercial perdeu um ‘grande operador’ e o
Senhor ganhou um ‘humilde operador’.
"Passei por uma grande evolução até chegar a este
ponto. Mas o que vale agora é que estou feliz,
pensando num treinamento missionário, se esta for a
vontade dele. O Senhor cortou minhas asas. A ânsia
de voar sempre me pareceu ser a vontade de Deus pa¬
ra minha vida. Mas Ele disse ‘não’.
"Tudo o que aconteceu abriu diante de mim um novo
mundo. Conheço bastante de aviação e descobri que
ela continuará com ou sem o meu concurso. Já vivi o
suficiente para compreender que trabalhar para o
Senhor rende juros que se estenderão até que a
trombeta soe e os relógios se tornem obsoletos. Então

alegrias incontáveis serão nossas na presença dele.
"O Senhor não me deu o desejo de pregar num
púlpito. Mas eu gostaria de falar a alguém que nunca
tenha ouvido do evangelho... Por favor, ore para que
eu me afaste dos caminhos inúteis."
De volta à Base de Baer, Nate escreveu em seu diário:
"Tenho sentido uma alegria completa e transbordan-
te ao encarar a perspectiva de trabalhar como servo
do Senhor."
Sem saber da decisão do filho, Lawrence Saint
enviou-lhe um artigo do The Sunday School Times,
escrito por James C. Truxton, presidente de Asas de
Socorro. O artigo intitulava-se "Asas do Vento" e trazia
informações sobre a organização. Foi a primeira vez que
Nate ouviu falar deste tipo de organização.
Para ele a pergunta divina "o que tens em tua mão?
33
só podia ser respondida com uma licença de mecânico e
um breve de piloto.
Truxton, em seu artigo, convidava pilotos cristàos a
entrar em contacto com a organização.
Em 15 de janeiro Nate escreveu para Asas de
Socorro:
“Acabei de ler o artigo do The Sunday School Times.
Sinto que foi mandado para mim como uma
resposta definida de oração. Na vigília do Ano Novo
aceitei o desafio missionário. Faz tempo que estou
interessado no trabalho missionário, mas só havia
entregado meu dinheiro ao Senhor. Agora Ele possui
a minha vida também.”
Anexou suas qualificações e estudos. Concluiu
dizendo:
“Não estou fazendo castelos no ar. Quero promover o
trabalho de Cristo da melhor maneira que puder, j
portanto incluam o meu nome entre vocês e me
informem de tudo. Estou orando pelo trabalho e
ansioso por fazer, o mais depressa possível, o máximo
para Jesus.”
A sorte estava lançada. A partir daí sua vida foi
dirigida firmemente para a obra missionária, usando o
avião como a “vara em sua mão”, para fazer a vontade
de Deus.

34
CAPÍTULO QUATRO

PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS
. .seja cumprida a tua recompensa do Senhor
.
Deus de Israel, sob cujas asas vieste buscar refúgio.
Rute 2.12

VT ate obteve uma curta licença e foi para casa. Lá


I 1 comprou um pequeno avião. Pilotou -o até o Forte
Wayne e passou a acumular horas de voo para tirar o
brcvé de piloto. No fim de dois meses, depois de voar
ma» de cem horas, vendeu o avião. Muito feliz, escreveu
durante aquela época:
"As bênçãos do Senhor são untas, que desafiam a
minha própria fé. Outro companheiro foi salvo.
Mantemos um estudo bíblico na base. Fiquei tão
alegre quando, na última noite, um rapaz com quem
trabalho aceitou a Cristo.
"Desde que entrei em contato com Asas de Socorro,
os anos que gastei pensando em aviação passaram a
ter sentido para mim,,. A ambição egoísta é uma
procura ingrata e sem nenhum significado. Sou prato
ao Senhor, que me abriu os olhos. O campo missio¬
nário paga maravilhosos dividendos.
"O meu desejo é trabalhar para que os recursos da
aviação possam ser utilizados nas necessidades do
campo missionário. A hora é difícil, a volta de Cristo
não está longe. Mas Ele mesmo run mandou estar
preparados e remir o tempi;."
35
Completado o tempo em Fort Wayne, Nate viajou
num avião da Força Aérea, para a Base de Salinas, na
Califórnia. Seu interesse pela manutenção de aviões
continuava, mas a capitulação do Japão foi um
prenúncio do fim de seus dias no exército.
No entanto, os três meses que passou em Salinas e o
período que passou em Castle Field, Merced, do ponto de
vista espiritual, foram de grande valor. Nate não se
cansava de testemunhar, o que para ele era tão natural
como respirar.
Jorge Hoover, hoje um missionário na África, conta o
que aconteceu em Salinas:
“Conheci Nate em Salinas. No primeiro domingo fui
com ele à Primeira Igreja Batista. A mensagem me
impressionou, mas ainda assim eu resistia. Nate
ofereceu-se para ir comigo à frente. Era o que eu
precisava. Naquele dia tornei-me nova criatura em
Jesus Cristo. Nate significou muito na minha vida...
Se não fosse ele, talvez não estivesse hoje no campo
missionário.’’
Outro companheiro também se recorda:
“Saint levava a Bíblia onde quer que fosse. Lia-a
mesmo na barbearia, enquanto esperava para cortar
o cabelo. Colava versículos bíblicos em seu beliche
e seus colegas os liam.’’
Nate amadureceu nos três anos que passou na Força
Aérea. Aprendeu a compartilhar a Palavra de Deus e a
usá-la como arma. Aprendeu, também, a se comunicar
com Deus através da oração. E, acima de tudo, descobriu
o segredo e as maravilhas de uma vida de testemunho
espontâneo.
Ao ser desligado do serviço militar, em fevereiro de
1946, Nate já era na realidade um verdadeiro missioná¬
rio. Entretanto seu amadurecimento espiritual ainda não
estava completo.
Sendo tarde demais para cursar o semestre na
Universidade, Nate foi para casa. Comprou outro avião
de segunda mão. Acumulou horas de voo e conseguiu a
licença de piloto comercial e a classificação como
instrutor de vòo. Mas seus olhos estavam no campo
missionário. O próximo passo seria entrar numa
universidade que o preparasse mais adequadamente
36

Scanned by CamScanner
para o serviço missionário.
Asas de Socorro já havia convidado Nate para ir
como mecânico numa nova programação que a missão
Wycliffe e Asas de Socorro iriam começar no Peru. Ele
orou e decidiu que, antes de qualquer coisa, deveria
estudar.
Mas um incidente, ocorrido no México, veio mudar
todo o programa de Nate Saint.
O primeiro e único avião de Asas de Socorro,
operando no sul do México, sofreu um grave acidente. O
avião servia à missão Wycliffe, fazendo o percurso de
Tuxtla ao posto missionário nas selvas.
Foi o piloto Betty Greene que inaugurou o trabalho
no México, juntamente com George Wiggins, ex-piloto
da marinha. Quando Greene aterrissava num lugarejo
distante apenas alguns minutos do posto, o avião
esbarrou num pequeno edifício e avariou as asas
esquerdas, a hélice e o trem de aterrissagem.
Embora não houvesse feridos, os reparos no aparelho
eram bem extensos e exigiam conhecimentos mecânicos
que ninguém no campo missionário possuía. Isso
significava abandonar o avião num campo isolado, até
que os reparos pudessem ser feitos. Era uma tragédia
para a aviação missionária, que começava a crescer.
Foi então que Asas de Socorro pediu que Nate fosse
até o México e auxiliasse nos reparos do avião.
Diante da nova situação, ele sentiu que deveria
reconsiderar a resposta anterior. Escreveu à organização,
c dois dias depois recebia a passagem de trem para a
fronteira do México.
Nate reconheceu mais tarde que esta foi a introdução
aos dias mais maravilhosos de sua vida
serviço missionário.
— o começo do

Na fronteira do México, Nate teve problemas com


uma hélice sobressalente que carregava consigo. Os
dirigentes de Asas de Socorro o instruíram, então, que
enviasse a hélice pelo trem e que tomasse um avião direto
para a capital mexicana.
Nate pouco ficou na cidade do México. Logo se
dirigiu para Tuxtla, onde se encontrava parte do

37
aparelho danificado.
A cidade de Tuxtla era pequena e pobre, tipicamente
do interior. As acomodações de Nate eram bem
modestas!
"O banheiro era um cacto que mal dava para alguém
se esconder. A casa, de adobe sem janelas...”
“Bem depressa”, conta Nate, “passei a ver o mosqui¬
teiro como uma maravilhosa divisão entre o meu
mundo e o mundo dos mosquitos, morcegos, etc...”
Em Tuxtla, Nate viveria as primeiras experiências da
vida missionária nas selvas.
No aeroporto local estavam empilhados num canto as
asas, pedaços das longarinas e do trem de pouso. Nate
percebeu que precisaria de ajuda e contratou um
mexicano chamado Santiago. A comunicação entre eles
era um tanto difícil, pois Santiago não entendia inglês e o
espanhol do missionário era elementar.
Nate decidiu começar o conserto das asas em Tuxtla
e, em seguida, levá-las para a pista de El-Real, o lugarejo
onde o desastre se dera e onde se encontravam os restos
do aparelho. Lá então iria encaixá-las. A tarefa seria
longa e difícil.
Em suas cartas pode-se notar a preocupação e a
responsabilidade de Nate pelo trabalho que estava
realizando.
“Os reparos no Waco são difíceis e a tarefa é grande.
Por favor, orem para que tudo saia bem. Gostaria de
terminar o trabalho em seis semanas, se o Senhor
permitir.”
O trabalho de Nate era o de um pioneiro, em todos os
sentidos. Isso a própria organização reconhecia e
valorizava. Aquelas experiências iriam ser de grande
utilidade para a planificação da aviação missionária. que
agora tomava um novo impulso.
Os problemas na reconstrução das asas foram tantos.
que Nate acabou adoecendo de tanto trabalhar. Mas ele
mesmo se diagnosticou através de um livro médico e um
espelho, e descobriu que estava com icterícia. Deus não o
desamparou, entretanto. Filipe Baer. missionário tradu¬
tor da missão WyclitTe, passou por Tuxtla. Ao ver a

38
necessidade do mecânico de Asas de Socorro, deixou seu
trabalho e passou a cuidar dele.
Este auxílio foi de grande utilidade para Nate que,
até entào, fazia tudo sozinho. Baer ajudava na casa e
também cozinhava para os dois.
“Ele tentava ajudar também nos reparos”, conta Na¬
te.
"Embora eu quisesse dar-lhe os trabalhos mais fáceis
e leves, porque ele era mais velho do que eu, ele sem-
pre preferia os mais pesados— trabalhos que deixas¬
sem os músculos doloridos e exercitassem a paciên¬
cia.”
O relacionamento com Filipe Baer impressionou
Nate profundamente:
“Agora entendo a passagem: ‘Quem quiser tornar-se
grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem
quiser ser o primeiro entre vós, será o vosso servo.”
Finalmente, depois de muito trabalho, tudo ficou
pronto em Tuxtla. As asas foram encaixadas peça por
peça, como um aeromodelo. Dessa maneira poderiam
fácil e rapidamente ser afixadas ao aparelho que estava
em El -Real, no meio do mato. Foi preciso alugar um
aviào que conseguisse aterrissar na pista de pouso, onde
estava o restante do aviào danificado. Não foi fácil, mas
Deus é fiel e tudo foi arranjado.
Ali no México, Nate aprendeu muito sobre a vida
missionária. Sobreviveu aos ratos, escorpiões, morcegos e
desinteria. Nào guardava nenhuma ilusão sobre o
verdadeiro significado de ser missionário. Acima de tudo
recebeu preciosas lições sobre a disciplina e paciência.
Nate demonstrou ali a sua rara capacidade mecânica.
Os reparos do aparelho teriam sido considerados difíceis
em hangares plenamente equipados nos Estados Unidos.
Mas tudo aquilo traduzia bem mais do que uma simples
vitória pessoal.
As experiências do México provaram também que,
além da capacidade de voar, a aviação missionária
requeria treino mecânico. “Vôos missionários eram para
especialistas que serviam missionários e nào para
missionários que poderiam voar.”
Ficou claro, também, o tipo de aviào a ser usado no
39
trabalho. Nate enfatizou a necessidade de aviões leves.
De volta para casa em Los Angeles, Nate parou para
dar um relatório. Entre outras coisas disse:
“Ê um grande privilégio pregar o evangelho de Jesus
Cristo em qualquer lugar. Mas Ele me chamou para
falar a povos que nunca ouviram do Seu amor. É por
isso que sinto necessidade de mais treinamento espi¬
ritual. Desejo, antes de tudo, ser testemunha de Sua
graça salvadora e, depois, um aviador.”
Nate Saint foi aceito na Universidade de Wheaton
para o segundo semestre escolar e ali começou a estudar
em 28 de janeiro de 1947.
Foi um aluno responsável, escolhendo sempre os
cursos que o tornariam um cristão mais eficiente. Sob a
direção de Robert Walker, professor de jornalismo,
desenvolveu sua aptidão para escrever. Nem professor
nem aluno poderiam imaginar que um dia Nate Saint
escreveria um diário que abalaria o mundo cristão.
Na universidade, Nate não perdeu contato com Asas
de Socorro. Continuou a demonstrar interesse pelo
trabalho para o qual o Senhor o havia chamado.
Neste mesmo ano mais dois acidentes aéreos
aconteceram nos campos missionários. Um no México, e
o outro no Equador. Através da correspondência com
Asas de Socorro, Nate analisava e estudava os acidentes,
na esperança de chegar a evitá-los.

40
CAPÍTULO CINCO

UMA COMPANHEIRA DADA


POR DEUS
. . . chegou o tempo de cantarem as aves . . .

Cantares 2.12

A vida sentimental de Nate se limitara a compromis-


XI sos menos sérios. Mas, durante as férias de junho,
ele foi para Nova York encontrar-se com uma jovem
a quem pedira em casamento. Foi também para procurar
um emprego temporário. Queria ficar mais perto da
moça, que terminava o seu curso de enfermagem. Teve,
então, um grande desapontamento. A jovem rompeu o
noivado e devolveu o anel que ele lhe dera.
Nate ficou muito abalado. Depois, analisando tudo,
chegou à conclusão de que, mais uma vez, era esta a
direção de Deus para sua vida.
Deus já havia separado a companheira que ele
necessitava e ela não tardaria a surgir.
A esta altura dos acontecimentos, Charles Mellis, o
tesoureiro de Asas de Socorro, encontrou-se com Nate
em Nova York durante uma convenção missionária.
Entre os muitos assuntos que abordaram, Charlie
mencionou o nome de Marjorie Farris.
Nate a encontrara anteriormente, quando visitava a
filha de uns amigos, Joana, numa escola de enfermagem na
Califórnia. Marj ficara profundamente impressionada
com o soldado louro e alto, que envergava então o
uniforme da Força Aérea. Ele, porém, não lhe deu muita
atenção.
Quando a encontrou pela segunda vez, a impressão
de Nate foi mais profunda.
41
Agora, ao ouvir seu nome pronunciado por Mellis,
lembrou-se dela novamente.
“Charlie disse cjue ela estava interessada num rapaz
da Califórnia. Fiquei roxo de ciúmes... Preciso desco¬
brir o que está acontecendo...”
Nate escreveu a uns amigos na Califórnia e no fim da
carta mandou lembranças a Marj.
Começou assim uma sólida correspondência entre
ambos.
Nate derramou sçu afeto numa torrente de cartas, e
as de Marj deram a ele a certeza de que ela era a jovem
para ele.
Marj e Nate concordaram em ir passar juntos o
Natal, na casa dos pais dela. Marj já havia terminado o
curso de enfermagem e recebera o diploma de bacharel
em ciências. O presente de Nate foi um anel de noivado.
Ficou planejado que Marj voltaria com ele para
Wheaton, onde poderia fazer alguns cursos e continuar o
treinamento em enfermagem. O casamento ficou marca¬
do para junho.
Marj conseguiu logo um emprego no Delmor
Hospital em St. Charles, a alguns quilómetros de
Wheaton. Assim poderia participar com ele das decisões
quanto ao futuro.
Em novembro. Charles Mellis, secretário de Asas de
Socorro, fez um relato à direção da organização, sobre
uma inspeção aérea missionária no Equador. Em
seguida escreveu a Nate:
“Não preciso dizer o quanto precisamos de homens no
campo missionário. Entendo como você se sente em
relação aos estudos. Algumas vezes falei-lhe sobre o
Equador, como um provável campo de trabalho. Não
recebi nenhuma resposta sua. Jim Truxton conhece
aquela selva e assegura que o trabalho é dez vezes
mais difícil do que no México. Jim também recomen¬
da que, para este trabalho, é condição indispensável
que o homem conheça mecânica.
“Não estou insinuando nada sobre sua capacidade
como aviador, mas a verdade é que não temos na or¬
ganização um homem, cuja competência em mecâni¬
ca mereça nossa confiança, como você.

42
“Ore sobre isso. Nate, e depois escreva-nos dizendo
qual é a direção do Senhor’ . concluiu Mellis.
Mesmo antes da proposta de Mellis. Nate recebera
um convite do diretor de uma Associação Batista.
insistindo para que ele considerasse um programa de
aviação missionária na Nova Guiné. A princípio a idéia
agradou e. por algum tempo, ele pensou seriamente em
romper os laços com Asas de Socorro.
Agora com Marj a seu lado. ele podia considerar os
prós e contras do Equador e da Nova Guiné.
A escolha era difícil. Muitos elementos o deixavam na
indecisão.
Mellis discutiu as necessidades das duas áreas e
admitiu que, eventualmente, a Nova Guiné poderia ser
um grande trabalho missionário. Mas também explicou:
“A finalidade do programa do Equador tem dois as¬
pectos: Primeiro, estabelecer uma linha de suprimen¬
tos adequada ao trabalho que cresce muito. Segundo,
tomar possível uma penetração maior na selva, para
alcançar almas que nunca ouviram falar de Cristo.
“Se o Senhor o levar a considerar o Equador, creio
que Marj e você poderiam passar para o Instituto Bí¬
blico de Los Angeles no semestre que vem.”
Mellis adiantou ainda que Asas de Socorro pensava
em equipar um avião Stinson e enviá-lo para o trabalho
no Equador.
“Que tal uma viagem de núpcias num Stinson, a ca¬
minho do Equador?”
Nate e Marj, impressionados pelas necessidades do
campo, sentiram que deveriam antecipar o casamento e
deixar Wheaton no fim do semestre.
No fim de janeiro, o Dr. Commons avisou que a
organização não poderia garantir quando o governo
permitiria a entrada de missionários na Nova Guiné.
Nesse meio tempo Charles Mellis chegou a Los Angeles
para discutir o projeto do Equador. Nate e Marj
concordaram em que o Equador era o lugar para onde o
Senhor os estava chamando.
Decidiram casar-se e iniciar os preparativos para o
Equador, o mais depressa possível.

43
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CAPÍTULO SEIS
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NAS SELVAS DO EQUADOR
Avigoram-se as árvores do Senhor . . .
em que as aves fazem seus ninhos.
Salmo 104.16

N ate e Marj casaram-se em 14 de fevereiro de 1948,


numa cerimonia simples na Igreja Batista em Man-
hasset, igreja à qual a família Saint pertencia. Jeanne,
a esposa de Sam, se recorda:
“Pude ver o rosto dos dois durante a cerimonia. Pou¬
cas pessoas têm o privilégio de ver tanto amor e uma
entrega tào completa. Nunca hei de me esquecer.”
Em março, o casal visitou Filipe, irmào de Nate. que
era evangelista. Discutiram métodos pelos quais eles
poderiam conseguir o sustento missionário.
Nate pediu ao pai que organizasse algumas reuniões.
onde pudessem mostrar slides e objetos indígenas. Mas
todo esse assunto era penoso para ele.
"Espero no Senhor nào ter que falar sobre sustento”,
confidenciou a Filipe. “O Senhor disse: ‘Provai-me
nisto’... Na verdade, a Sua fidelidade é bem maior
que a nossa confiança falha e insegura.
44
“Estou convencido de que Asas dc Socorro, com o rá¬
dio e os aviões, tem um excelente projeto, para operar
com segurança, de um modo económico. Assim, po¬
demos conseguir fundos para o sustento de um traba¬
lho. porque devíamos estar certos de estar convidan¬
do gente para partilhar de um investimento digno de
confiança. Sabemos que o Senhor vai usar aviões e o
rádio, para que o trabalho missionário possa ser feito
mais economicamente e com mais segurança.”
Filipe deu a Nate um projetor de slides e um
mimeógrafo, para comunicar suas atividades aos que
iam sustentar o trabalho.
O assunto do sustento nào foi mencionado, mas ele
veio rapidamente. A igreja de Marj mostrou interesse em
assumir parte do sustento do casal.
O jovem que tanto desejara ser um piloto da Força
Aérea, começou a descobrir que, aquilo que ele havia
sido obrigado a sacrificar estava-lhe sendo devolvido. Ao
escrever para casa Nate resume seus sentimentos:
“Em 1944 o Senhor me chamou da aviação para Ele.
Agora é Ele mesmo, quem me manda de volta para a
aviação.”
Ao saber que sua irmã Raquel havia sido aceita como
missionária da Missão Wycliffe, Nate pôde encorajar a
irmã com relação ao problema do sustento:
“Sabemos, por experiência, que as promessas de
Deus são cumpridas. Ele supre perfeitamente todas
as necessidades, sacando do deposito onde Ele guar¬
da universos, mundos, lua e estrelas. Em outro depó¬
sito Ele possui abundância de graça, muito amor,
verdadeiros oceanos de cuidado, montanhas de paci¬
ência e tantas coisas maravilhosas que mal ousamos
pensar em pedir. Nào é um crime que nos demoremos a
aceitar estes presentes?”
Mas o tempo era pouco para filosofar. Asas de
Socorro decidira que o casal partiria no dia primeiro de
agosto. O motor do Stinson estava sendo revisado e o
avião modificado para as condições equatorianas. Além
do trabalho que Nate supervisionava, ele acumulava
horas de voo para pilotar aviões com instrumentos.
Precisava ter reuniões com os líderes de Asas de Socorro
e tinha de entrar em contato com crentes, para conseguir
45

Scanned by CamScanner
mais sustento. Os detalhes pessoais eram inúmeros, e
incluíam também injeções contra moléstias tropicais.
“Começamos a tomar as injeções ontem”, conta Nate
ao pai.
“Naturalmente eu estava pronto a ajudar minha frá¬
gil esposa grávida, no caso de as injeções lhe fazerem
mal. Mas tudo terminou comigo mesmo estendido
num banco e Marj limpando minha testa pálida e
molhada de suor.”
Afinal os dois sobreviveram e o médico disse que tudo
estava indo muito bem, embora alguns cuidados fossem
necessários nos primeiros meses da gravidez de Marj.
Ambos estavam maravilhados com a vinda do bebe.
Como esperavam com amor aquela criança!
Próximo ao dia da partida, ficou decidido que Nate e
Jim Truxton, que tomava as providências junto ao
governo equatoriano, voariam no Stinson e que Marj e
Betty, esposa de Jim Truxton, iriam até Quito num avião
comercial. O equipamento, a mobília e a bagagem iriam
de navio.
Numa carta enviada a amigos, Nate descreveu o que
seria a viagem:
“No Equador voaremos para o Sul, acima dos Andes.
Mergulharemos então em direção leste, buscando as
primeiras elevações andinas e o pequeno campo de ó-
leo da Cia. Shell, localizado justamente onde as estra¬
das cedem à selva, e os missionários se utilizam de
mulas. Mais além está a vasta prisão amazônica, on¬
de tantos se acham nos grilhões do pecado. Em Shell
Mera vamos conhecer alguns missionários que nos a-
judarão a construir uma casa e um hangar. Será o
quartel general de Asas de Socorro no Equador. Em
seguida, lutaremos para estabelecer uma rede de rá¬
dios, que fará a conexão entre os postos nas selvas e a
base. E depois ainda o programa de penetração aé¬
rea, pelo qual tantos estão orando e do qual parti¬
lham com tanta fé.
"Nosso trabalho não é competir com linhas aéreas co¬
merciais. Nem queremos inaugurar uma era dourada
de conforto para os missionários. Queremos, sim. que
o avião seja usado como instrumento que permita a
eles. avançar mais eficientemente. Deus pode usar os
aviões para alcançar os perdidos. Nossa responsabili-
46
dade é utilizar a aviaçào para atender às necessidades
do campo missionário.”
Nate Saint e Jim Truxton deixaram os Estados
Unidos no dia 8 de setembro. Quatro dias depois
chegaram a Quito.
As duas esposas, Marj e Betty, chegaram a Quito no
dia 16 de setembro, depois que Nate e Jim já tinham saí¬
do para Shell Mera, para começar a construção da base
aérea de Asas de Socorro.
O pai de Charlie Mellis era construtor e concordou
em ir, para dirigir a construção da casa que Nate e Marj
ocupariam, num terreno em frente ao campo de aviação
da Shell, onde também ficava o escritório da companhia.
A Shell iniciara suas atividades no Equador em 1938,
quando os geólogos ali chegaram. A primeira operação
foi extremamente difícil, pois não havia qualquer estrada
na selva. O governo equatoriano, na ânsia de ver abertas
novas áreas, deu inteira liberdade para que a Shell
explorasse toda aquela parte da selva.
Isto trouxe grandes implicações para os missionários
que estavam no Equador e para aqueles que ainda
viriam. O equipamento da Shell, suas máquinas de
terraplanagem eram a personificação da magia da
civilização. A construção das estradas e campos de pouso
era extremamente difícil. A natureza era hostil, o tempo
de chuvas uma calamidade. Havia o perigo de malária,
serpentes venenosas e índios hostis. Além disso a estrada
devia ser aberta através do granito e cavada na lama e em
pedregulhos. Mas afinal conseguiu-se uma estrada de
Bahos até o novo campo da base da Shell — chamado
Shell Mera, por causa de outra vila denominada Mera
algumas milhas antes. Esta tornou-se a única entrada
para a selva e para as regiões ocidentais do Equador.
O primeiro campo construído foi o de Arajuno, mais
tarde um posto missionário. Depois um campo e uma
pista de pouso foram construídos em Ayuy, na terra dos
índios jivaros, o que permitiu o acesso a um poço de
petróleo perfurado em Macuma. Este tornou-se depois
um importante posto da União Missionária Evangélica.
Outro campo foi construído perto de Wambimi, também
47
futuro posto missionário. A Shell também construiu
áreas de pouso e bases em Tiputini e Villano.
Um diário da companhia descreve todas as operações
e faz mençào e comentários sobre a população indígena.
Há inclusive um comentário sobre um ataque de índios
aucas a uma das bases, onde quatorze pessoas foram
mortas. Os aucas sào ali descritos como índios completa¬
mente selvagens, que matavam com lanças e de
emboscada. Entretanto não se faz mençào a nenhuma
tentativa mais séria de entrar em contato com eles. Suas
casas foram vistas do ar, e a atitude deles foi hostil, a
ponto de atirarem lanças contra os aviões que estavam
sobrevoando a aldeia.
Nate mantinha os pais informados sobre o progresso
da base de Asas de Socorro:
“Estou escrevendo numa tenda em Shell Mera, à luz
de um lampeào. Jim Truxton escreve ao meu lado.
Estão conosco Jorge Poole, Frank Drown, Keith Aus¬
tin e Morrie Fuller. O sr. Mellis tem setenta anos,
mas trabalha como se tivesse trinta. Todos ajudam na
construção.
“Esta parte do Equador é um pedaço fascinante da
criação de Deus. De manhã, logo depois que nos lava¬
mos na bacia que há em frente da tenda, o sol se le¬
vanta e podemos ver o pico nevado do Sangay, um
vulcão ainda ativo, cerca de 60km à frente. Quando o
sol afugenta as nuvens para mais longe ainda, pode¬
mos ver a imensa e ponteaguda cratera do El-Altar.
O clima é maravilhoso. Não há quase mosquitos. Um
rio atravessa a base. Ao seu redor uma grande área de
folhagem verde. Outro dia conseguimos pegar, ao
longo da estrada aqui perto, doze belíssimas orquí¬
deas.
“É engraçado viver assim sem conforto, lavar-se num
balde, usar as cordas da tenda para estender a roupa.
cozinhar num fogàozinho de campanha. Jantamos no
campo da Shell, porque, para cozinhar, só conseguía¬
mos comprar arroz, feijão e batatas.
Estando em Shell Mera, havia apenas alguns dias,
Nate já começara a voar, levando suprimento e
equipamentos, bem como pessoas para os postos
missionários. Ele servia os postos de Parto, onde a família

48
Henrique Miller trabalhava; Dos Rios, onde o casal
Cooper tinha trabalho com 70 crianças indígenas;
Ahjuana. um novo posto às margens do Rio Napo,
dirigido por Morris Fuller; Macuma, onde Frank Drown
e Keith Austin trabalhavam entre os jivaros; Sucua,
outro posto jivaro servido pelo casal Mike Ficke;
Chupientsa. que distava de Sucua um dia de viagem de
mula.
O aviào missionário prestou dois serviços de socorro,
logo nos primeiros dias que Nate chegou. Os missionári¬
os em Macuma estavam sem alimentos frescos e
remédios, havia cihco meses. Em trinta e sete minutos o
problema foi resolvido, contrastando violentamente com
uma viagem que duraria sete dias a pé pelas selvas.
A senhora Grace Cooper, da Aliança Cristã Missio-
nária, também foi socorrida. Sofrera um terrível ataque
de malária. Embora parcialmente recuperada, estava
muito fraca para empreender a viagem de volta para o
posto. O aviào resolveu tudo. Em trinta e dois minutos
ela estava em Dos Rios com o marido e os dois filhos.
Sem o avião a viagem teria durado três dias.
“Quero contar o que está acontecendo ao nosso re¬
dor”, escreveu Nate a Mellis, no escritório de Asas de
Socorro.
“Não almejo ser um grande escritor, mas desejo ex¬


pressar aquilo que está em meu coração. Quando es¬
crevo para casa, meus assuntos são aviões, índios e
Cristo. Ê fácil perceber que o índio é a minha motiva¬
ção. Mas tudo que sei a respeito dele é que ele está
perdido e vai continuar perdido, a não ser que meu a-
viào continue a voar, para levar a ele as boas novas. O
aviào é a minha tarefa. Não quero ser um grande es¬
critor, mas tenho a aspiração de expressar-me, assim
como muitas vezes desejei sentar-me num órgão de
tubos, para expressar meus sentimentos. Por hoje
é só.”
Marj, enquanto tudo isso acontecia, ficou em Quito
com Betty Truxton.
Em 30 de outubro, Nate relata a Asas de Socorro:
“Nossa turma ingressou na mata com tendas, alimen-
tos e machados. Precisávamos primeiro limpar a ter-
ra e fazer os alicerces (pilares de cimento com canais
49
para óleo que mantém as formigas fora de casa). A
casa fica do outro lado da pista de pouso da cotnpa-
nhia Shell. Hoje à noite abrimos as porteiras e taxia-
mos o avião até junto da casa. Pretendemos começar
a construir o hangar na semana que vem. Dos lados,
queremos construir um depósito e a oficina. Estamos
mais sossegados, porque o avião está junto da porta,
e Skipper, nosso cachorro, dorme dentro dele.
Durante a construção da base, Nate, pela primeira
vez, ouviu falar da tribo de índios selvagens, que a todos
apavorava
— os aucas. Davi Cooper e Dr. Tíd marsh
fizeram esforços no sentido de alcançá-los, mas tudo ti¬
nha sido em vão. Durante três séculos os aucas se recu¬
savam a ter contato com brancos e outras tribos.
A maneira pela qual eles respondiam a todas as
tentativas de amizade era sempre uma emboscada que
deixava vítimas feridas por setas e lanças. Quando os
exploradores espanhóis penetraram na América do Sul,
foram seguidos por sacerdotes católicos, e um missioná¬
rio jesuíta conseguiu estabelecer relações de amizade
com os aucas. Mas a saúde do missionário era precária e
ele foi obrigado a abandonar a selva. Mais tarde, explo¬
radores de borracha e ouro viram nos indígenas uma ma¬
neira de ganho fácil e, desapiedadamente, arrasaram as
aldeias dos índios. Isso levou os aucas a mergulharem
mais profundamente nas selvas, tornando-se mais des¬
confiados do que nunca.
O nome auca, palavra quichua que significa selva¬
gem, por gerações foi no Equador sinónimo de terror.
As histórias da selvageria auca já fazem parte do folclore
do país. As histórias de Davi Cooper impressionaram
profundamente Nate, e ele nunca foi capaz de se livrar
daquela impressão. Ele pensava nos aucas, não como um
povo selvagem, mas como um povo pelo qual Cristo havia
também morrido. A semente da compaixão havia sido
plantada no seu coração e cresceria até se tomar uma
verdadeira paixão pelas almas daqueles homens das
selvas.
Em 1948 Nate escreve a seus pais e menciona os
aucas pela primeira vez:
“Conversamos com um missionário que deseja fazer
50

Scanned by CamScanner
contato com unia tribo dc matadores. Todos, brancos
e índios, têm pavor deles. Esperamos que o aviào pos¬
sa vir a ser parte importante no alcance desse povo
para o evangelho.
“Esperamos e oramos por esse dia.*’
Em outubro, finalmente, chegou o dia em que Marj
foi de Quito a Ambato de carro, para encontrar-se com
Nate. Juntos foram para Shell Mera.
Afinal estavam juntos em seu próprio lar —casa
construída de madeira tosca, pintada de marrom por fora
e envernizada por dentro. O telhado era de chapas de
alumínio, com um largo beiral em toda a volta. Havia
uma abertura entre a parede e o teto, para que a brisa
do clima perfeito de Shell Mera pudesse penetrar na
casa.
“Fizemos a casa simples, prática e útil.
“Entre os vôos e a manutenção do aviào continuo a
melhorar Shell Mera. O banheiro está tomando for¬
ma. A pia está colocada com um armário em toda a
volta. Um dos lados do armário é depósito de materi¬
al fotográfico.
“Ê difícil descrever a alegria com que abrimos os en¬
gradados. Alguns foram empacotados há tanto tem¬
po, que já havíamos esquecido o que estava dentro
deles. Éramos verdadeiras crianças ao redor de uma
árvore de natal. Diante de cada coisa lembramo-nos
de amigos que nos deram isto ou aquilo. O que mais
nos impressiona é a utilidade de tudo que trouxemos.
Parece que cada coisa tem um lugar certo. Nestes úl¬
timos dias tem sido difícil andar pela casa. Usamos a
madeira dos caixotes para improvisar armários. E
até eles parecem estar de acordo. O da geladeira vi¬
rou um excelente guarda-roupa. O sistema de água
ainda não está pronto, por isso armazenamos água
em banheiras. A água da chuva, que vem pelo telhado
de alumínio, é clara e boa para se beber.
“Já temos um pequeno armario para carnes, de modo
que as carnes defumadas não precisam ficar depen¬
duradas nos caibros da nossa inacabada cozinha. A
porta lateral da casa dá para uma sala de jantar, que
é também sala de rádio e escola dominical. Pela ja¬
nela da cozinha podemos ver os aviões quando sobem
e descem, observando ao mesmo tempo o cenário da

51

montanha e a selva que cresce uma vista que deixa
a gente com vontade de apoiar o queixo na janela e fi¬
losofar até ficar com sono.
“Estamos esperando seis crianças de missionários,
vindas da escola de Quito. Vão passar as férias com
os pais, nos diversos postos nas selvas. Recebemos
também um bilhete de Dos Rios, pedindo soro antite-
tânico. O recado diz: ‘Nancy Gail sofreu um corte
profundo.’ Nancy é a menina do casal Cooper.
“Assim que nosso equipamento de rádio estiver insta¬
lado, estaremos aptos a receber informações deste ti¬
po duas vezes por dia, e usar o avião para sérias emer¬
gências.”
A casa com o pequeno hangar tornou-se a Estação
Aérea de Asas de Socorro, no pórtico da selva. Para Nate
e Marj era a habitação do amor e a base estratégica de
serviço.

52
CAPíTULO SETE
DESASTRE EM QUITO
. . . esconde-me, à sombra das tuas asas.
Salmo 17.8

30 DE DEZEMBRO DE 1948. QUITO. DIRETO¬


RES DE ASAS DE SOCORRO, CALIFORNIA.
VENTO FORTE E IMPETUOSO CAUSOU DE¬
SASTRE NO AEROPORTO DE QUITO. NATE E
DOIS PASSAGEIROS FERIDOS. AVIÃO DES¬
TROÇADO. SEGUEM DETALHES.
Truxton

13 or meio deste breve telegrama, Jim Truxton


comunicou a Asas de Socorro o desastre que Nate
sofrera ao levantar voo do aeroporto de Quito.
Desde o princípio de dezembro, Marj estava na ca¬
pital, esperando a chegada do bebe. Nate foi visitá-la
num fim de semana e, quando voltava, aconteceu o de¬
sastre. Sete dias após o acidente Nate escreveu uma car¬
ta aos pais, contando como tudo acontecera:
Quito, 6 de janeiro de 1949
“Queridos pais
“Já é tempo de contar o que aconteceu. Compreende¬
mos como vocês devem estar ansiosos, tão distantes
de nós e desejando tanto ajudar-nos. Não se preocu¬
pem, porém. Nossos amigos têm feito tudo para cui¬
dar de nós, como vocês fariam se estivessem aqui.
“Pela providência de Deus, nem Marj nem o Dr.
Tidmarsh estavam no aeroporto, quando a senhora
Tidmarsh, Bob, seu filho e eu decolamos para Shell
53
Mera. Tudo foi perfeitamente normal até nos encon¬
trarmos a 70 metros de altura. De repente, pegamos
um vácuo violento e começamos a cair como uma pe¬
dra. Tentei deter a queda e virei para a esquerda, na
direçào do vento. Isso, entretanto, nos fez perder to¬
talmente o controle e batemos num campo arado. O
impacto inicial arrancou o motor e o trem de pouso, e
o impulso atirou os destroços a uns 15 metros de altu¬
ra, numa velocidade tal, que o avião caiu de cabeça
para baixo. i

“Não me lembro de nada depois de ver o chào che¬


gando rapidamente. Apesar de tudo, não senti medo
algum. Isso, eu creio, é o resultado da profunda segu¬
rança que temos em nosso coração de que, sem a per¬
missão do Altíssimo, Satanás não poderá fazer-nos
parar, muito menos assinar nossa certidão de óbito.
Durante toda esta experiência, nunca me senti no li¬
miar da eternidade. Estou profundamente convenci¬
do de que vivemos cada momento graças às Suas mi¬
sericórdias, porque Ele tem uma tarefa para realizar¬
mos, antes de chegarmos a ver a Sua face. Não vejo
razão para que a partida para a glória seja dramática.
Ela não é determinada por circunstâncias perigosas,
mas pela vontade de Deus. Quando Ele nos chamar,
nada teremos a lamentar. A Sr a Tidmarsh não per¬
deu a consciência durante o desastre. Foi ela quem
nos contou todos os detalhes. O filho gritava de medo
— estava bem ferido no pé e na testa. Ela, pendurada
ao cinto de segurança, não podia soltar-se. Tinha um
corte profundo no nariz e na testa e ambos os torno¬
zelos estavam presos.
“Segundo a Sr.a Tidmarsh, eu estava animado o tem¬
po todo. Ela disse que eu consegui soltar meu cinto,
mas meu corpo ficou preso entre a bagagem e o man¬
che de controle, e meu pé esquerdo estava preso tam¬
bém. Na testa eu precisava de alguns pontos, e o lado
direito do queixo estava inchado. Ficamos todos co¬
bertos de poeira que, misturada ao sangue, fez uma
combinação desagradável. Os pedais de controle su¬
biram até o lugar do painel de instrumentos. O man¬
che de controle estava torcido e quebrado num dos la¬
dos. A fuselagem não estava apenas entortada, mas
tinha-se partido em duas partes, e estava pendurada
numa longarina.
54
“Em cerca de dez minutos alguns soldados equatori¬
anos nos socorreram. Sào rapazes formidáveis c que¬
riam ajudar, mas ficaram nervosos e começaram a ar¬
rancar-nos... Foi melhor do que ficar lá perdendo
sangue. A Sr.a Tidmarsh disse que eu tagarelei o
tempo todo em espanhol com os soldados. Achei in¬
teressante. Tenho muita dificuldade de manejar esta
língua. Fomos levados para a clínica de Ayora.
"Marj conta que, ao entrar, ficou horrorizada com
meu aspecto. Os dentes estavam tão pretos e sujos
que davam a impressão de que eu tinha perdido todos
eles. O que mais a impressionou, foi observar o
médico mexendo no enorme talho em minhas costas.
“A princípio pensei que estivesse cego. Sempre ima¬
ginei que a cegueira fosse a coisa mais horrível que al¬
guém pudesse suportar. Mas agora eu tenho a certeza
de que, mesmo cego, o Senhor ainda me usaria.
“Ainda não contei tudo. A Sr.a Tidmarsh está grávi¬
da de cinco meses. O bebe está bem, graças ao Se¬
nhor. Além dos cortes e arranhões, ela quebrou ossos
pequenos de ambas as pernas. Bob sofreu arranhões
sem gravidade. Quanto a mim, sofri fratura da quarta
vértebra lombar e distensão no tornozelo esquerdo.
Colocaram um colete de gesso em volta de meu corpo.
O gesso no pé completou o uniforme...
“Talvez voces estejam perguntando como tudo isso
me afetou. Sinceramente posso dizer que praticamen-
te em nada. Não fiquei com medo algum.
“A coragem que Marj demonstrou durante estes dias
é uma verdadeira resposta de Deus às orações de vo¬
cês por nós. O bebe está para chegar a qualquer hora.
Mas, ainda assim, ela está continuamente a meu la¬
do. Lê para mim, ajuda-me a tomar notas e a comer.
Seu ânimo e sua fé sào uma verdadeira bênção e têm
contribuído para que o meu fardo se torne mais leve.
“Pedimos que continuem a interceder. Orem conosco
para que, dos escombros desta batalha, surja um de¬
safio àqueles que ainda não conhecem a bênção de u-
ma total entrega a Cristo e a Seu trabalho.”
Seus filhos,
Nate e Marj
Imediatamente após o desastre, os diretores de Asas
de Socorro começaram uma troca de cartas, para estudar

55
a causa do acidente. Jim Truxton e Hobey Lowrance,
pilotos de Asas de Socorro, concordaram com Nate, que
uma baixa corrente de ar ou mudança de vento tinha
sido a causa principal. Eles achavam também que
melhores técnicas de recuperação teriam diminuído os
danos. Mas Nate insistia em que, para entender a situa¬
ção era preciso que alguém tivesse experimentado as
condições fora do comum do vento.
Nate admitiu mais tarde que, se tivesse percebido o
que iria acontecer, ele teria imprimido mais velocidade,
apesar da baixa altitude, e o desastre poderia talvez ter
sido evitado. Resolveu também: “Se algum dia eu voltar
a sobrevoar essas montanhas, eu darei a mim mesmo
uma margem três vezes maior.” Nate resumiu tudo
numa carta que escreveu à sede da missão.
“Só Deus sabe como detesto minha natureza arro-
gante, mas sou grato a Ele porque essa mesma natu¬
reza, quando santificada, pode ser útil. Acho que, em
vez de focalizar minha atenção num só ponto relati¬
vamente pequeno, deveria analisar todo o meu siste¬
ma de voar, em busca de falhas técnicas. Em meus
arquivos, o acidente está sob o título: Riscos Venci¬
dos e Colecionados.”
Por causa desta dura provação, Asas de Socorro
decidiu dar cada vez mais ênfase à necessidade de
orientar seus missionários do ar. Desde então, também,
Asas de Socorro vem equipando todos os aviões com
cintos de segurança que pegam os ombros, para que
sejam menores os ferimentos em futuros acidentes.
“Graças a Deus pela boa notícia”, escreveu Nate a
Panamá, onde médicos do exército americano examina¬
ram suas costas. No dia seguinte Kathy Joan nasceu em
Quito. Marj enviou a boa notícia para o Panamá.
“Graças a Deus pela boa notícia”, escreveu Nate a
Marj. “Ainda não havia percebido o quanto estava
preocupado com você, até que o mensageiro chegou
com o telegrama. Precisei de toda a minha coragem
para abrir o envelope.
“Deus tem sido bom para conosco — ainda que nos
tenha permitido sofrer um pouco. Tem sido um pou¬
co difícil, mas Ele esteve sempre presente com Sua
graça, não é verdade?

56
"Eu te amo muito. Só a morte poderá nos separar, c,
assim mesmo, temporariamente. Quase não posso es¬
perar a hora de ver o nosso querido bebe.
"Que o Senhor dirija nossos passos até o momento
em que eles hão de caminhar juntos novamente."
De volta com Marj e a nenc cm Quito, Natc se ajustou
às novas circunstâncias. Escreveu uma carta dirigida aos
pais de Marj e aos seus:
"Queridos Pais.
“Marj me ajudou a entrar em minhas roupas (quase
não consigo entrar nelas por causa do gesso) e fui à i-
greja com os Clarks. Quando chegamos, Marj e Ka¬
thy estavam à minha espera. Dentro de umas duas se¬
manas seguiremos para as selvas.
"Eu estava um pouco preocupado com a repercussão
que o acidente pudesse ter, quanto à aviação missio-
nária. Mas as maravilhosas cartas dos amigos nas sel¬
vas nos garantem que estão ansiosos pelo dia em que
eu volte a voar.
"Vocês sabem que a segurança é relativa. Desde que
o serviço aéreo foi interrompido, a selva quase ceifou
uma vida missionária. Três homens lutaram 10 a 12
horas por dia, durante 6 dias, para chegarem , vindos
da isolada Macuma. Quando atravessaram um tur-
bulento rio numa frágil balsa, perderam parte do e-
quipamento e deram como morto um carregador ín¬
dio. Depois, um dos missionários ficou doente por
extrema fadiga. A alimentação terminou e eles che¬
garam a Shell Mera com as pernas tão inchadas, que
mal podiam andar.
“De Los Angeles recebemos notícias. Outro avião se¬
rá enviado, e Hobey Lowrance me substituirá até que
eu saia do gesso.
“Todos aqui estão entusiasmados com a nenê
porque ela é a coisa mais linda deste mundo. —
“Ate a próxima carta. Por favor, agradeça a todos a

-
queles que têm bombarbeado o trono da graça.”
Seus filhos,
Nate e Marj

57
Antes de deixar a cidade de Quito rumo a Shell Mera,
acompanhado da família, Nate teve oportunidade de
falar na estação de rádio evangélica. A fala foi gravada.
O tema era:

“Disposição para o Sacrifício.”


“Um princípio importante, integrado em nosso
trabalho, é aquilo que durante a última guerra
passou a ser conhecido como ‘disposição para o
sacrifício’.
“A aviação está cheia de ilustrações deste princípio
básico. Deus permitiu que um veículo consumível se
tornasse essencial ao progresso. Há sempre um preço
a ser pago.
“Durante a última guerra aprendemos que, para
alcançar nosso objetivo, precisávamos estar dispostos
ao sacrifício; e muitas vidas foram consumidas para
pagar o preço da nossa redenção dos grilhões da
escravidão política.
“Agora mesmo, milhares de soldados são conhecidos
por seus números, como homens capazes de se
sacrificar. Durante a última guerra vimos filas de
enormes bombardeiros —instrumentos de guerra
poderosos e dispendiosos! No entanto todos nós
sabíamos sabíamos mesmo que aqueles
bombardeiros não conseguiriam completar nem
mesmo cinco missões sobre o território inimigo.
Sabíamos também que jovens, muitos deles voluntá¬
rios, voariam atrás daquelas metralhadoras aéreas, e
a esperança de vida, quando em ação, era de apenas
quatro minutos. Que tremenda disposição para o
sacrifício!
“Sabemos que há só uma resposta, quando nosso
país exige que paguemos o preço da liberdade
entanto, quando o Senhor Jesus nos pede que — no
paguemos o preço da evangelização do mundo, é
comum respondermos com o silêncio. Não podemos
ir. Dizemos que o preço é demasiado alto.
“O próprio Deus deixou claro quando criou o
mundo. Quando Ele o criou. Ele sabia qual devia ser
o preço. E o cordeiro de Deus foi imolado nos planos
de Deus, antes mesmo da fundação do mundo. Se o
próprio Deus não poupou Seu Filho, antes O
58
entregou para resgate de nosso fracasso e pecado,
como podemos nós. os crentes, poupar nossas vidas
— vidas que na realidade sào dele mesmo?
“O Senhor Jesus disse que aqueles que amam sua
vida
— — ou seja, aqueles que sào egoístas com sua vida
a perderão.
"Os missionários enfrentam constantemente a neces¬
sidade de se sacrificarem. E aqueles que nào
conhecem o Senhor não entendem a razão por que
gastamos nossa vida como missionários. Esquecem-se
de que eles também estão gastando sua vida.
Esquecem-se de que sua vida, uma vez vivida,
quando a bola de sabão estourar, eles nada terão
para mostrar de significação eterna, que represente
os anos que viveram.
“Alguns poderão perguntar: ‘Nào será alto demais o
preço a ser pago?’
“Quando os missionários analisam sua própria vida à
luz do Senhor — eles se dispõem ao sacrifício. Como
crentes, nào acontece o mesmo com nossa vida cristã?
Nào é mínimo o preço diante do infinito amor de
Deus? Aqueles que conhecem a alegria de levar um
estranho a Cristo e aqueles que já foram a tribos que
nunca haviam ouvido o evangelho, consideram um
privilégio sacrificar-se; e o fazem com alegria.
“ ‘Se o erão de trigo, caindo na terra, não morrer, fi¬
ca ele so.’ O apóstolo Paulo declarou: ‘Dia após dia
morro.’ ‘Rogo- vos, irmãos, pelas misericórdias de
Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto
racional.’
"E Jesus disse: ‘E todo aquele que tiver deixado casa,
ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou
campos, por causa do meu nome, receberá muitas
vezes mais, e herdará a vida eterna.”

59
CAPÍTULO OITO

UM GÊNIO INVENTIVO
Os que esperam no Senhor renovam as
suas forças, sobem com asas como águias . . .
I saías 40.31

A melhor notícia de todas: um outro avião, um


**x\. modelo mais novo, foi comprado e está sendo
especialmente equipado em Los Angeles para a
viagem e o trabalho aqui", escreveu Nate.
‘‘Parece que Grady Parrott de Asas de Socorro o
trará, e Hobey Lowrance será o piloto até que eu tire
o gesso e tenha todas as minhas juntas devidamente
engraxadas e funcionando de novo. O Senhor tem
sido bom.
‘‘Quando chegamos a Shell Merita, a casa estava
mais ou menos nas mesmas condições, com exceção
do hangar que parecia tristemente vazio, mas
confiamos isso ao Senhor que tem provado Sua
capacidade extraordinariamente abundante. O terre¬
no estava em melhores condições do que em qualquer
outra época. O irmão que vive na casinha de telha de
bambu, nos fundos da propriedade, conservou tudo
muito bem.
“Este é o único lar que já tivemos juntos, desde que
nos casamos, e o Senhor nos levou a gostar do lugar e
do trabalho.
“Asas de Socorro despachou equipamento para uma
rede de radiotelefonia de ondas curtas para operações
aéreas e para prover serviço ‘telefónico’ para os
grupos isolados. Técnicos da rádio de Quito irão
instalar o equipamento, tão logo palmeiras possam
ser transformadas em postes de antena."

60

Scanned by CamScanner
Nate c Marj tinham reiniciado a escola dominical na
propriedade da Shell, hem como a escola dominical cm
espanhol cm Shell Merita, que crescia todos os
domingos.
Nate, ainda que estivesse engessado, continuou
trabalhando na casa c no hangar. De joelhos cavava
buracos para as estacas da cerca, preparando a entrada
para o avião.
O desastre de Quito aumentou a preocupação de
Nate com medidas de segurança. A preocupação era
tanta, que alguns achavam ser quase uma obsessão. Mas
era compreensível c serviu como motivação para
inovações posteriores que tornaram os voos mais seguros.
A predileção de Nate por segurança recebeu um novo
impulso no dia 9 de maio, quando um novo avião
Grumman, que estava sendo testado por um piloto
experimentado da Shell, caiu e tirou a vida de dois
homens.
"Estas experiências vão tornar-me o piloto mais se¬
guro em toda aviação e eu estou dizendo isso solene¬
mente", Nate escreveu a Los Angeles. "Que o Senhor
nos dê sabedoria e nos livre de erros, que Ele ouça a
nossa oração para a remoção das características
exaustivas do nosso trabalho, para que possamos ser-
vi-10 por mais tempo e mais eticientemente."
A esta altura um avião de transporte equatoriano
caiu nas montanhas a 50 km de Shell Mera, morrendo
todos os onze passageiros.
Assim é que os perigos de voar nas montanhas e nas
selvas impressionavam constantemente esse homem que
tão recentemente havia escapado num desastre por um
milagre.
Mas o avião de Asas de Socorro estava-se revelando
um constante beneficio para os missionários. Um dia, em
julho, chegou a notícia pela nova estação de rádio, que
Robert Fuller, um menino de dez anos, filho de Morrie
Fuller, havia caído em cima de uma serra circular que
rasgara seu braço. Nate. ainda impedido de voar por
causa dos ferimentos, falou pelo rádio com Hobey
Lowrance, que estava voando para outro posto. Lowran-
ce voou imediatamente para Ahjuana. Nesse ínterim,
61
Nate entregou o microfone para Marj e saiu na sua
motoneta para avisar o médico da companhia Shell.
Dentro de minutos, os Fuller estavam falando pelo
rádio com uma enfermeira, o aviào havia sido despacha¬
do e o doutor consultado. Algumas horas mais tarde,
Morrie e o filho ferido, que antes levariam quatro dias
para chegar à civilização, haviam sido transportados
para o consultório médico. “Nós nos sentimos felizes de
pertencer a essa obra missionária das selvas”, escreveu
Nate jubiloso.
Chegou afinal o dia em que Nate ficou livre do pesado
gesso, fez a viagem de experiência com Lowrance e teve
permissão para voar de novo. A águia havia sido
restaurada ao seu elemento.
Tanto antes como depois do acidente de Quito, as
cartas de Nate ao escritório de Asas de Socorro e a seu
irmão Sam traziam suas idéias a respeito de um sistema
alternativo de combustível, o qual, como a ignição dupla
já aceita, reduziria o perigo de um motor parar em pleno
ar.
“Quando estou voando por cima da floresta com os
ouvidos atentos a sintomas de dificuldades, que eu
jamais desejo ouvir”, escreveu Nate a Sam, “fico pen¬
sando em pequenas coisas, como o tubo de combustí¬
vel que se desprendeu em minha mão no México, há
alguns anos. A flange havia se quebrado de um lado
da tubulação, mas a tensão natural do tubo a havia
conservado no lugar. Eu penso no rápido trabalho
das vespas quando resolvem entupir o suspiro do tan¬
que de combustível. Penso também em indicadores
da quantidade de gasolina que falham, água no com¬
bustível, rachaduras que surgem nos tanques de com¬
bustível, filtros obstruídos por sujeira, gicleurs entu¬
pidos, e sujeira na sede da válvula da bóia. Penso
também na tentação de fazer uma viagem curta com
apenas uns poucos galões no tanque. Eu sei que mui¬
tas vezes a sorte nos é favorável, mas penso nas conse¬
quências para os meus passageiros, sem mencionar
meus próprios ossos, se a gasolina se acabar, em cima
daquelas enormes árvores.”
Os missionários no Equador sabiam muito bem que a
preocupação de Nate, de que o motor pudesse "pifar” no
62
ar. era mais do que urn ponto de vista supereautcloso.
Depois de muito pensar, planejar e de fazer
experiências. Nate fez funcionar um sistema que dava no
avião mais segurança.
Eventualmente o cuidadoso Departamento de Aero¬
náutica Civil dos Estados Unidos aprovou a instalação do
novo sistema e uma patente foi obtida do governo
norte-americano. Agora, cada um dos aviòcs de Asas de
Socorro leva um sistema alternativo de combustível

marca permanente que Nate deixou na aviação missiona¬
ria e outras formas arriscadas de aviação. Talvez o
a

sistema alternativo de combustível tenha ainda maior


significação a longo prazo, do que o “balde voador” que
teve uma parte tão dramática nas experiências subse¬
quentes de Nate.
O voo nas selvas freqiientemente enfrenta o problema
de suprir um missionário residente ou isolado num lugar
distante de uma pista de pouso. Nate havia experimen¬
tado, lançando suprimentos por pára-quedas, nessas
circunstâncias. Correntes fortes de vento muitas vezes
levavam o pára-quedas carregado para o alto de uma
árvore, ou para algum lugar inacessível da floresta.
Outras vezes o pára-quedas não abria. Havia também o
problema de comunicação com a pessoa em terra. Sinais
com a mão e com o corpo nem sempre podiam ser
entendidos.
Nate se lembrava do tempo em que estava bem perto
— entretanto bem distante de algumas pessoas necessi¬
tadas de auxílio:
“Sobrevoei uma pequena cidade na floresta e notei
que todos estavam na clareira no centro da vila, agi¬
tando pedaços de pano branco. Quando circundei o
lugar, uma pessoa se deitou no chão, com o rosto pa¬
ra cima e os braços erguidos e as outras pessoas ao
seu redor. Como interpretar essa rude mensagem?
Tudo que eu pude fazer naquela ocasião foi jogar um
suprimento de aspirina, provavelmente uma resposta
fraca à real necessidade daquela vila desesperada.
Um portador de recado, levaria uma semana a pé ou
a cavalo para levar o aviso.”
Então ele se recordou do dia na Universidade

63

Scanned by CamScanner
quando, sentado, sonhava acordado, ao vigiar seu lápis
balançando num barbante...
“A idéia surgiu como um raio”, disse Nate. “Fiquei
pensando se o mesmo princípio não daria resultado,
caso um objeto balançasse numa corda segura ao avi¬
ão. Por que não experimentar agora?
“Começamos tomando 500 metros de corda e um pe¬
queno balde de lona”, disse Nate. “Uma pessoa ia
junto para manobrar as peças do equipamento. Par¬
timos para as primeiras provas. O balde era bem
amarrado numa ponta da corda e abaixado da porta
do avião. A outra ponta era amarrada ao avião para
evitar complicações imprevistas, se a corda do lado
do balde ficasse presa. Ela simplesmente se par¬
tiria.”
Quando Nate voltou aos Estados Unidos para as suas
primeiras férias, ele procurou aperfeiçoar o lançamento
do “balde voador” num campo de aviação na região de
Los Angeles.
“Enquanto Henry Walton, um amigo, ia soltando a
corda”, disse ele, “eu voava em círculos a uma altura
de 300 metros. Os círculos tinham que ser bem gran¬
des, mas agora, com o balde a uns 500 metros atrás
de nós, estávamos prontos para a prova. Era como fa¬
zer um arremesso com uma vara de 600 metros. Eu
virei e baixei a asa, fazendo aos poucos o círculo me¬
nor, enquanto vigiávamos o balde. Como o vagão tra¬
seiro de um trem invisível, ele seguia atrás de nós. Fi¬
nalmente, por estranho que pareça, o balde estava
bem em nossa frente, ainda que um pouco mais bai¬
xo, viajando na direção oposta! Parecia completa¬
mente independente, simplesmente imitando o nosso
padrão de voo.
“Quando comecei a fazer uma curva mais fechada,
uma coisa curiosa começou a acontecer. Até então o
balde tinha viajado a 100km por hora. Agora come¬
çava a se movimentar mais vagarosamente. O grande
arco de corda atrás dele finalmente se inclinava para
o centro do nosso círculo, permitindo ao balde descer
lentamente em direção ao vértice de um grande cone
invisível.
“Ao passo que o balde baixava parecia perder todo o
movimento horizontal. Finalmente descansou calma¬
mente em baixo, no meio do campo aberto.
64
"Então subimos um pouquinho, ainda voando cm
círculos", continuou Nate. "O balde obedientemente
se ergueu do chào e ficou parado no ar."
De volta ao aeroporto, os homens examinaram tolhas
de grama no balde, que vieram de um campo em que eles
nào poderiam ter pousado e do qual nunca haviam
chegado mais próximo que 250 metros.
Nos testes seguintes. Dan Derr. piloto de Asas de
Socorro, ficou em terra para receber o balde e mandá-lo
de volta com pacotes simulados de correspondência.
Nate logo percebeu que a técnica nào devia ser
considerada como um brinquedo para os curiosos, nem
uma proeza para o piloto novato
— nào era inerente¬
mente perigosa, mas, como qualquer coisa aeronáutica,
nào perdoaria qualquer descuido.
De volta ao Equador, Nate logo teve uma oportuni¬
dade de experimentar o lançamento do "balde voador"
numa situação primitiva. Ele conta com suas próprias
palavras:
“Frank Mathis da missão Wycliffe havia recebido um
chamado de socorro da grande vila de Arapicos. Ele
já tinha começado a viagem por terra, quando foi avi¬
sado de que a região estava contaminada com uma
doença altamente contagiosa. Já havia morrido uma
vítima de vinte e dois anos.
"Estávamos agora equipados com mais do que o ve¬
lho balde de lona, tendo adquirido um par de telefo-
nes de campo e 500 metros de fio... com o missioná¬
rio Bob Hart no avião para ajudar, partimos, e no
tempo aprazado sobrevoamos a vila. Frank já havia
chegado por terra. Voamos em círculos, e vimos
que ele acenava para nós.
"Começamos a desenrolar o fio no fim do qual estava
o fone colocado no balde. Caiu bem na clareira, no
centro da vila.”
"Alo, Frank", o passageiro de Nate falou do telefone
do avião, "aqui é Bob Hart falando.”
Enquanto Hart falava por alguns minutos com
Mathis, Nate transmitia pelas ondas curtas do rádio do
avião a um médico em Quito, a aproximadamente
300km de distância, os sintomas de dor de estômago, dor
de cabeça, câimbras nas pernas, mãos e pés frios, e
65
dentes cerrados. Eles verificaram que Mathis nào corria
perigo, por isso voaram de volta para Shell Mera, em
busca do remédio que o médico receitara para os índios
enfermos.
Nate continuou a fazer desenhos e escreveu cartas a
técnicos na indústria de aviação, sobre um avião melhor
adaptado a voar nas florestas. “Não há mercado para o
tipo de avião de que precisamos e por isso ele nào é
construído”, disse ele. “Só nos resta, então, morder os
lábios e prosseguir com o que existe, sabendo que a
tarefa tem de ser realizada de qualquer maneira.”
Por causa dos seus esforços persistentes em planejar
um pequeno biplano de três motores, Nate foi considera¬
do um gênio por alguns e, por outros , um visionário que
desafiava as leis da aerodinâmica.
Os amigos sorriam da sua constante preocupação
com segurança. “Afinal de contas”, diziam eles, “um
missionário deve confiar no Senhor.”
“Talvez o meu modo de raciocinar seja pagão, como
já me disseram, mas nenhuma dessas coisas me dis¬
suade, nem é possível ouvir agora a voz dos homens.
Sinto desesperadamente a necessidade da sabedoria
que vem daquele que a todos dá liberalmente, e nada
lhes impropera! Eu creio em milagres. Eles com cer¬
teza nada são para Deus. Mas a questão é acharmos
o padrão que o Senhor escolheu, com o qual devemos
nos conformar. Eu não estaria aqui, se nào estivesse
confiando no Senhor. Provavelmente os que dão de
ombros, dizendo “O Senhor cuidará de você”, são os
mesmos que dificilmente se exporiam aos riscos bac¬
teriológicos de uma congregação numa favela. Perdo¬
em-me se tenho a tendencia de ser um pouco forte
neste ponto. Estou preocupado com segurança, mas
isso não me impede de prosseguir com os negócios de
Deus. Cada vez que levanto voo, estou pronto a entre¬
gar a vida que devo a Deus. Sinto que devemos nos
apressar a tirar vantagem de todo o progresso possí¬
vel, para levar avante a tarefa que está diante de nós.
Conheço pessoas que voam como se aqueles pequenos
motores nunca parassem. Elas acham que as estatís¬
ticas estão a seu favor. Isso pode soar bem nas regi¬
ões de campo aberto, mas aquelas estatísticas seguras

66

Scanned by CamScanner
ficam para trás, quando você sobrevoa os Andes e
desce para a regiào das selvas. Você também veria as
coisas de modo diferente, se estivesse atrás dc um só
motor roncando por cima de imensas árvores. Bem,
de qualquer forma, planejamos investigar o assunto
com cuidado e oração."
Ao mesmo tempo estava preocupado com equipa¬
mento desnecessário. A austeridade do seu modo de pen¬
sar se revela em uma carta dirigida a uma classe de jo¬
vens nos Estados Unidos.
"Procuramos nos certificar de que nào carregamos
nada no aviào, que nào seja necessário. Quando nos¬
sa Missão comprou o aviào, ele tinha assentos maci¬
os. Mas verificamos que esses assentos pesavam mais
de três quilos cada. Por isso decidimos usar assentos
mais duros que pesavam só meio quilo, para assim
poder levar a diferença de peso em alimento e carga.
"Nas rodas do aviào havia pára-lamas muito bonitos.
Tinham um aspecto muito agradável mas acumula¬
vam muita lama por dentro. Decidimos tirá-los
também.
"Sabem, muitas coisas são assim
ção

agradável ou têm uma aparência
dào uma sensa¬
bonita, mas em
nada ajudam a fazer o trabalho. Elas atrapalham,
por isso temos que dispensá-las. A tarefa que o Se¬
nhor Jesus Cristo tem para você e para mim nào é fácil.
Se você quer servi-lO, se quer ajudar a ganhar outros
para Cristo, terá de escolher entre uma coisa e outra.
Poderá ser alguma coisa de que você gosta muito,
mas ela o atrapalha."
Bem a seu modo, Nate usou isso para uma ilustração
espiritual:
"Quando o voo da vida terminar, e nós desembarcar¬
mos nossa carga do outro lado, a pessoa que se des¬
vencilhar do peso desnecessário terá a carga mais
preciosa para apresentar ao Senhor. Nào somente is¬
so. Há um outro segredo. Dois aviões podem parecer
semelhantes, mas um deles poderá carregar o dobro
da carga do outro. A diferença está na potência do
motor. A leitura da Bíblia é a potência da vida cristà.
Peso morto nào ajuda, e um aviào grande com peque¬
na potência nào vai a lugar nenhum."
Além das suas responsabilidades como piloto. Nate

67

Scanned by CamScanner
gastou muitas horas para tomar Shell Merita mais
habitável.
Visto nào haver eletricidade na primitiva vila de Shell
Mera. ele represou o ribeiro que ficava atrás da
propriedade de Asas de Socorro e instalou uma pequena
usina hidro-elétrica. Um motor diesel e um gerador
serviam de reserva. Um suprimento constante de energia
era necessário para operar o rádio de ondas curtas para
comunicações, bem como o equipamento da casa, que
permitia a Marj cuidar dos hóspedes que ficavam em
Shell Merita.
“O que tem sido uma esperança e um passatempo,
está agora fornecendo eletricidade para a casa vin¬
te e quatro horas por dia, de graça”, disse Nate. ‘‘Nós
a chamamos ‘Companhia de Eletricidade de Shell Me¬
ra Ltd.3’— limitada a 200 watts. Fico constrangido
por causa do tempo que gasto nisso, porque se parece
muito com o tipo de coisa que tem levado tantos ser¬
vos do Senhor a se ocuparem com ‘outras coisas’. Creio
que o projeto todo não nos custou mais de 150 dólares
e provavelmente um mês do meu tempo. A estação de
rádio de Quito nos deu o gerador e quase todo o resto
do material fomos ajuntando aos poucos neste último
ano e meio. Procuramos gastar nisso somente as ho¬
ras vagas, um dia numa semana e outro dia na sema¬
na seguinte, ou talvez dois.”
A casa originalmente construída para Asas de
Socorro, logo se tomou pequena demais para as pessoas
que passavam por Shell Mera, indo e voltando da selva.
Missionários de várias missões paravam em Shell Mera a
caminho de Quito ou Guaiaquil para fazer compras,
consultas médicas e dentárias, ou para assistir a
conferências missionárias. Executivos das missões dos
Estados Unidos passavam em viagem de pesquisa.
O avião missionário contribuiu para o aceleramento
das operações missionárias. Quando Nate e Marj foram
para a selva em 1948, eles serviam uns doze missionários
que trabalhavam em seis lugares. Ao final de 1954 havia
vinte e cinco missionários em nove postos.
A casa inicial precisou ser aumentada e chegou a um
tamanho respeitável. Vinte ou mais pessoas podiam ser
abrigadas com relativo conforto.
68

Scanned by CamScanner
“Desejo informá-los de que nào estamos planejando
que a ampliação desta casa tome o lugar de outra ca¬
sa para o pessoal de Asas de Socorro", escreveu Natc
aos escritórios centrais. “A ampliação servirá só para
cuidar dos hóspedes que passam por aqui. Nossa fa¬
mília ocupa só um quarto. Kathy está agora dormindo
numa cama portátil em um armário debaixo da nova
escada que atravessa um canto do nosso quarto. Re¬
centemente tivemos dezenove hóspedes para dor¬
mir... missionários, obreiros nacionais, um professor
com a família e alguns índios! Sinceramente creio
que podemos contar nos dedos os dias em que temos
estado sozinhos como família."
Marj e Nate tinham muito orgulho de sua casa que
parecia muito com um chalé suíço, com beirais largos.
uma proteção contra as constantes chuvas. As calhas
serviam para apanhar água para uso da casa. Nate ligou
as calhas que apanhavam a água a uma cisterna de
concreto solidamente construída. Ele havia engenhosa¬
mente construído um muro de uns sessenta centímetros
em volta da cisterna, para servir como piscina para as
crianças.
Foi um grande dia quando Nate instalou o primeiro
chuveiro em Shell Merita, logo antes da chegada de
Raquel, sua irmã, de passagem para o Peru para um dos
seus trabalhos linguísticos.
Nate assim descrevia o novo invento:
"Colocamos uma torneira num balde de vinte litros e
soldamos o chuveiro diretamente na torneira. Tudo
isso fica preso a uma corda que passa por uma rolda¬
na no teto e sobe e desce num trilho de madeira. Nós
simplesmente esquentamos uma panela dágua no fo-
Çào da cozinha; abaixamos o balde, colocamos nele a
agua quente e adicionamos a água fria até alcançar a
temperatura desejada; então erguemo-lo até à altura
conveniente, para gozar um real privilégio por cinco
minutos. Um chuveiro quente tem tido um efeito tão
drástico e bom em nós, que sentimos que deve ser co¬
locado nos estatutos de Asas de Socorro."
Em frente de Shell Merita, Marj e Nate carinhosa-
mente plantaram buganvílias que aumentaram a beleza
da casa missionária nas selvas.

69
Devido à constante umidade de Shell Mera, era difícil
conseguir secar a roupa. Nate instalou uma geladeira de
querosene que abria para a cozinha e ficava de costas
para a dispensa. O escapamento de ar quente tornava a
dispensa um excelente lugar para enxugar a roupa.
Ele também usou o calor do compartimento inferior
da geladeira como uma incubadeira e criou várias
ninhadas de pintos com o calor do combustor de
querosene.
Sua habilidade para usar os materiais disponíveis
representava uma ajuda para todas as missões nas selvas.
Para o espírito prático de Nate Saint, esta era parte da
sua mordomia cristã e um modo de tornar mais eficiente
a empresa missionária no Equador.

70

Scanned by CamScanner
CAPÍTULO NOVE

DIÁRIO DE UM PILOTO
. . . e foi visto sobre as asas do vento.
II Samuel 22.11

irigir a base de Shell Mera era mais complicado do


JLJ que poderia parecer à primeira vista.
“Os horários de comunicações pelo rádio, mais as
compras para tantos postos nas selvas, o tempo gasto
com a correspondência e os recados, o transporte de
centenas de galões de gasolina e querosene, além de
pilotar o avião e cuidar de sua manutenção... tudo is¬
so complica a nossa vida familiar”, escreveu Nate.
A gasolina para a aviação em tambores de metal
tinha que ser estocada. Nate inventou um método eficiente
de conduzir a gasolina direto ao hangar. Desta maneira
não havia necessidade de carregar os pesados tambores
cada vez que o avião fosse abastecido. Fixou um tambor
num poste de 9 metros de altura. Uma pequena bomba
manual levava a gasolina até o tambor no poste, e depois,
pela lei da gravidade, chegava até o avião onde era
derramada por meio de uma torneira.
Marj também tinha o dia todo tomado. Além de
cuidar da família que mais tarde incluiria Kathy,
Estêvão e Filipe, funcionava como operadora de rádio,
acompanhando a rota todas as vezes que um avião de
Asas de Socorro estivesse no ar. Para que ela pudesse
fazer a escrituração, bem como todo o serviço do
escritório, Nate inventou um pedal que abria e fechava o
microfone transmissor, para que Marj pudesse ter as
mãos livres.
O serviço de rádio, ligando os postos missionários na
selva com Shell Mera, revolucionou a vida daquela
região, tanto quanto o avião missionário. Mais recente-
71

mente os técnicos haviam instalado duas estações nas
principais cidades do Equador Quito e Guaiaquil. Isso
facilitou a solução de problemas urgentes. Mais importan¬
te ainda foi a organização de uma clínica rádio-médi¬
ca, através da qual médicos do corpo médico da Estação i

Evangélica de Rádio em Quito fafciam o diagnóstico de


doentes em tribos distantes e estes conseguiam os
remédios na “farmácia do mato” em Shell Mera. Aliás
Marj v dirigia também o “super-mercado das selvas”.
“Às sete horas da manhã , explica Nate, “enquanto
eu preparo o avião para um dia de voo, Marj está no
rádio, chamando todas as estações. Os missionários
fazem os pedidos de frutas e verduras, carne e man¬
timentos, querosene e remédios. ‘Bom dia, Carol;
bom dia, Carol; HC7NS...”
Depois de receber os pedidos Marj comprava os
mantimentos, verduras e frutas trazidos da cidade de
Ambato por caminhão. Depois ela separava tudo de
acordo com os pedidos e ajudava Nate a pesar a carga
para o avião, inclusive a correspondência que tanto
significa para os missionários isolados.
Tudo era levado no avião — alimento, gente, fogões,
geladeiras, às vezes também bezerros, leitões, coelhos,
cabras, perus e burros que eram amarrados no avião e
levados para um posto missionário nas selvas.
Nate tinha dias bem cheios de serviço. Certa ocasião,
em maio, ele tomou nota de cada detalhe e, pelo
relatório, podemos ter idéia de suas atividades:
“O horizonte está claro. Parece que vamos ter um
bom dia.
6,30 — Abastecimento e inspeção do avião, en¬
quanto Marj examina as listas prioritárias
do carregamento missionário.
7,00
— Marj está no rádio. Tomo um rápido café.
O avião está carregado e pronto. Dos Rios es¬
tá com nevoeiro. Pano está claro. Se Dos
Rios não se abrir, aterrissarei em Pano.

7,21
——
Destino 1 — Dos Rios; 68km.
Decolagem de Shell Mera.
7,44 Nevoeiro dissipado. Preparação para ater¬
rissar em Dos Rios.
72
8,00
— Correspondência entregue c carregamento
reajustado. Destino
adiante. —
Posto de Parto. í)km

8,03
— Aterrissagem cm Parto.
8.10 — Entregue suprimento semanal de alimen¬
tos c correspondência. Destino
—Shandia.
Este ó o ‘pinga, pinga’ do norte das selvas.
Desce cm cada lugar.
8.15 — Em Shandia. Alimentos e correspondência
entregues.
8,18
— De volta a Parto. Um missionário será
transportado para um tratamento dentá¬
rio. A pista de pouso é curta, por isso o avi¬
ão teve de ser descarregado, para poder
transportar o passageiro.
8.26 — De Parto para Shell Mera. Soube pelo rá¬
dio, que obtivemos permissão para trazer
no mes que vem um novo motor. Que ale¬
gria!
8,33
8.45
—— Posição
— 11a, 1.500 metros de altitude.
Aterrissagem em Shell Mera.
9,00
— Marj opera no rádio. Kathy e Estêvão estão
brincando. Parece que já tomaram café.
Rafael Stuck é o missionário que vai no
próximo voo. Já está com sua carga prepa¬
rada e arruma-a no avião, enquanto bom¬
bo gasolina e examino o óleo.
9,15
— De Shell Mera para Sucua, llOkm no cora¬
ção das selvas, ao Sul. Passageiros: Rafael
Stuck, um cooperador nacional e um meni¬
no jivaro de 7 anos, que há uma semana a-
trás havia quebrado o braço. Ele está de
volta com o braço engessado e muitas his¬
tórias sobre a “cidade grande”, para con¬
tar a seus companheiros de tribo.
9,54
— Aterrissagem em Sucua.
10,08
— De Sucua para Shell Mera. Passageiros: G.
Christian Weiss, dirigente de uma missão,
que da última vez visitou o campo a pé, em
73
1946. Está maravilhado com a aviação mis-
sionária; e Sr. Carlos Malordo, soldado e-
quatoriano que perdeu um avião militar
ontem.
10,47
11,00
—— Preparação para aterrissar em Shell Mera.
Enquanto atendemos o avião, precisamos
decidir qual o voo que deve ter prioridade
na próxima viagem. Frank Mathis espera o
avião em Montalvo, 136km a Leste. Ele fez
uma pesquisa da região para a Missão Wy-
cliffe. Não tem rádio e espera o avião hoje.
Resolvemos, porém, ir por Macuma e dei¬
xar uma carga lá para economizar tempo.
Faremos um vôo triangular.
11,15
— Estamos prontos para sair, quando chega o
comando militar das selvas orientais. Ele
explica então que deixaram cair suprimen¬
tos no posto militar de Montalvo, mas que
parte se perdeu na queda. Precisam com
urgência de 90 quilos de arroz e nosso avi¬
ão é o único capaz de aterrissar na pequena
pista de pouso que os soldados equatoria¬
nos acabaram de construir.
11,17 — De Shell Mera para Macuma. Dorothy
Walker, missionária entre a tribo dos jiva-
ros e Linda Drown são as passageiras.
11,48
— De Macuma para Montalvo com 90 quilos
de arroz e um bom mapa. A área que vou
sobrevoar é qjase desabitada e relativa-
mente inexplorada, a não ser ao longo dos
rios.
12,17 — Avisto o Rio Bobanazza e começo a descer.
Estou a 2.800 metros. Acabo de comer o
sanduíche que Marj mandou. O leite da
garrafa térmica estava gostoso. O sol está
claro e quente, embora o ar seja frio nesta
altitude.
12,30
— Descendo em Montalvo. Já posso ver Frank.
Ele conseguiu chegar em tempo. Tinha ido
fazer uma pesquisa e eu estava preocupado
74
que ele não chegasse. A pista parece clara.
Vou aterrissar.
12.35 — Cinquenta soldados equatorianos rodeiam
o avião. O capitão explica que estão sem
rádio, porque o gerador está quebrado. Ele
quer que levemos as peças para serem con¬
sertadas. O capitão Jácome é nosso amigo.
Já serviu em Shell Mera. Ele permite que
eu distribua folhetos entre os homens. Te¬
nho oportunidade de falar a eles uma pala¬
vra de testemunho.
12.50 — De Montalvo para Shell Mera. Estabeleço
contato com Marj pelo rádio. O tempo
parece bom. Seguimos o rio Bobanazza por
meia hora. Decidimos desviar um pouco a
rota e deixar Frank em seu posto, no cami¬
nho de Shell Mera. A pista é pequena, po¬
rém estamos leves e com pouca gasolina. O
vento sopra favoravelmente.
13,31 — Aterrissagem em Llushin. A família de
Frank fica muito feliz ao vê-lo. Kathy
Peeke, baseada no que Frank descobriu na
pesquisa que fez, decide ir para Quito pre¬
parar sua mudança para Montalvo. Vai até
Shell Mera e de lá pegará um ônibus para
Quito.
13,49
— Preparando para aterrissar em Shell Mera.
14,00
— O boletim metereológico de Macuma é
bom. Chuvas estão caindo por perto. Frank
Drown e Rogério Youderian ajudam a pre¬
parar o avião para Macuma. Estiveram na
cidade fazendo compras para o ano. A Sra.
Stuck e seu bebe são os únicos passageiros.
Ela vai para Macuma, e depois para Sucua
encontrar-se com o marido, num novo pos¬
to de trabalho.
14,23
— Para Macuma. A chuva está perto, mas o
rádio diz que o lado leste esta bom.
14,52
— Aterrissagem em Macuma.

75
15,10
— De Macuma para Shell Mera via Llushin.
Marj diz pelo rádio que Maria Sargeant,
companheira de Kathy Peeke, deseja ir pa¬
ra Quito. Llushin está na rota e o avião
está vazio.
15,28 —Descendo em Llushin.
15,40
15,46
——De Llushin para Shell Mera.
Aterrissagem em Shell Mera.
“O tempo está bom. Eu não. Por hoje che¬
ga! Nem todos os dias são assim cheios.
mas todos eles envolvem muito trabalho.
Temos a manutenção de uma dúzia de rá¬
dios transmissores e receptores das esta¬
ções, manutenção do proprio avião e a
construção que continua sob o trabalho fi¬
el de um ajudante indígena.”
O terreno coberto por Nate com o avião num
dia requereria quarenta dias de viagem por terra.

76

Scanned by CamScanner
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CAPÍTULO DEZ

SALVANDO VIDAS
Ele o fez cavalgar sobre os altos da terra . . .

Deuteronômio 32.13

H obey Lowrance, o piloto substituto de Nate, ainda


estava no Equador. Então os dois decidiram fazer
uma viagem de reconhecimento para uma nova pista de
pouso em Chupientsa. Ali trabalhava há vinte e três anos
o casal Jorge Moffat.
Marj foi com os dois. Começaram a viagem a cavalo.
Logo descobriram que andar a cavalo diversas horas não
era nenhum piquenique. A medida que as dificuldades
aumentavam, Nate imaginava que uma hora daquela
terrível viagem equivalia talvez a um minuto de voo no
mesmo território.
Depois de seis horas e meia de viagem chegaram a
Chupientsa. Jorge Moffat e a esposa trabalhavam entre
os jivaros. Alguns índios já haviam aceitado a mensagem
do evangelho. Entretanto muitos ainda não se haviam
libertado das trevas.
Embora esses índios se guerreassem com frequência,
muitos aspectos de sua moral diferiam tremendamente da
77
nossa chamada “civilização". Em todos aqueles anos ali
entre os selvagens o casal de missionários nunca trancara
a porta de sua casa e nunca foram roubados.
Nate, Marj e Hobey estavam cansados, mas mesmo
assim pediram que a Sr.a Moffat lhes contasse algumas
experiências dos seus primeiros anos como missionária.
Ela então lhes contou um incidente que ilustra bem o
perigp do trabalho nas selvas.
“Íamos indo pelas selvas a pé, para a conferência a-
nual de nossa missão. Nos primeiros quatro dias nos¬
so bebê de 6 meses foi carregado nas costas por um
carregador indígena. Quando chegamos a um lugar
onde podíamos alugar mulas, tivemos que despedir o
carregador. Assim Jorge acomodou nossa filha num
colchãozinho e levou-a em seu animal.
“Chegamos a uma ponte. Os animais que carrega¬
vam a bagagem atravessaram primeiro, e depois Jor¬
ge atravessou sem desmontar. A mula porém se as¬
sustou com alguma coisa e a parte traseira de suas
patas escorregou para fora da ponte. O guia imedia¬
tamente agarrou as rédeas do animal fazendo com
que ele voltasse ao caminho. Mas Jorge e nossa filha
já haviam caído no precipício.
“Gritei. Tudo o que eu podia ver era a correnteza ve¬
loz bem ali embaixo. Percebi então que somente Deus
poderia salvar meu marido e minha filha, de maneira
que meu coração clamou por Ele. Eu tremia tanto,
que não podia sequer desmontar. O tempo parecia
uma eternidade. Então, de repente, a cabeça de Jorge
apareceu na água. Meu pensamento foi de que ele es¬
tava salvo. Mas, e o bebê?...
“No minuto seguinte, entretanto, Jorge chamou o
guia para pegar o bebê. Eu quase não podia acreditar
no que meus olhos estavam vendo. Desmontei a tem¬
po de receber minha filha nos braços, sem saber ain¬
da se ela estava viva. Quando a tomei no colo, ela a-
briu os olhos e deu um sorriso.
“Atravessamos a ponte e paramos para examiná-la
melhor. A criança estava suja, mas nada havia lhe a-
contecido, o mesmo acontecendo com Jorge. Só que
perdeu o chapéu."
A pequena equipe de Asas de Socorro achou um
lugar que anos atrás havia sido limpo e que podia ser
78
adaptado para uma pista dc pouso. Depots de alguns
dias deixaram o casal Moffat cheios de alegria, com o
planejamento de um serviço aéreo para aquele lugar.
Durante o regresso. Nate e os companheiros comen¬
taram a grande diferença que o serviço aéreo representa¬
va para a vida dos missionários.
"Todos tentavam me mostrar a diferença”, disse Na¬
te. "Agora eu sei qual é.”
Ao chegarem em Sucua, onde o aviàozinho amarelo
os esperava, encontraram Mike Ficke. Era uma emer¬
gência. O bebê de Henrique Miller estava muito doente.
Imediatamente Nate estabeleceu contato com Pafio, 129
Km ao Norte. A criança necessitava o mais rapidamente
possível de um médico.
Em outros tempos isso significaria uma viagem de
três dias até o hospital mais próximo. A vida do bebê
correria sério risco e o trabalho entre os índios teria que
esperar muitos dias.
Já eram 2,30 hs da tarde. Nate precisava reabastecer o
avião em Shell Mera. Henrique Miller deveria levar o
bebê 8 km adiante, até a pista de pouso mais próxima.
Isto dava uma margem de duas horas para Nate.
Significava também que ele teria tempo de deixar Marj
no posto de Macuma.
E assim foi. Nate foi para Macuma, deixou os
passageiros, voou para Shell Mera, abasteceu o avião e
minutos depois estava outra vez nas alturas, em direção à
pista de Tena. Vinte e três minutos depois aterrissava em
Tena. Viu logo Henrique e Vera Miller no começo da
pista.
Naquela mesma noite a mãe e a criança estavam no
médico e o missionário Henrique de volta a seu posto de
trabalho.
Voos de emergência que desafiavam a perícia do
piloto tornaram -se rotina na vida de Nate Saint.
O posto de Ahjuana foi vitimado por uma epidemia.
Embora o lugar fosse de difícil aterrissagem, Nate
conseguiu levar as vacinas para dizimar a doença.
Na cidade de Tena os missionários planejaram uma
campanha evangelística. Nate foi levar Jim Savage,

79
missionário na Venezuela, que era o pregador. No
mesmo dia um operário em Tena ficou ferido em
consequência de uma explosão de dinamite. Nate, logo
que chegou, levou-o para um médico. Este incidente
abriu muitos corações para a mensagem que Savage
trazia.
Embora fossem ambos extremamente ocupados,
Nate e Marj achavam tempo para dedicar-se aos filhos.
Nate adorava a família. Os filhos lhe eram muito
apegados. Sua alegria e boa disposição transformavam
as horas que passava em Shell Merita em horas de
extrema felicidade.
Nate e Marj davam-se muito bem. Seu amor se
solidificou com o passar dos tempos. Segundo Nate, Maij
conservava tudo limpo, em ordem e à mão.
“Tudo que peço a ela, Maij o faz prontamente. O Se¬
nhor certamente sabia que neste tipo de trabalho, eu
precisaria de uma mulher de fibra, incapaz de dizer
‘não posso’. Marj partilha comigo do peso do traba¬
lho, tanto quanto se estivesse no avião, manejando ela
mesma a direção.”
A atmosfera do lar de Nate e Marj era de muito amor.
A afeição dos dois envolvia os filhos e era ternamente
retribuída por eles.
Asas de Socorro trabalhava com o consentimento do
governo equatoriano e havia um convénio entre os dois
para funcionamento do serviço aéreo particular. Muitas
vezes o aviãozinho amarelo transportava oficiais do
governo e do exército.
No dia dezoito de fevereiro de 1950 Nate foi
informado de que um avião pilotado pelo Cel. Edmundo
Carbajal, da Força Aérea Equatoriana, havia tido
problemas em uma estreita pista de pouso, a 248 km de
Shell Mera. Embora fossem escassos os detalhes do
acidente, Nate compreendia a importância de ir socorrê-
los, tanto do ponto de vista diplomático, como do ponto
de vista espiritual.
Nate levou porções da Bíblia para deixar cair pelo
caminho, nas vilas onde não houvesse ainda missionári-

80
os. Era um terreno perigoso. Mas em algum lugar
daquele vale deveria estar a pequenina pista de pouso
cortada em meio à selva. Finalmente ele a avistou.
quando um reflexo de luz mostrou os retorcidos
escombros de alumínio. Nate não estava familiarizado
com a pista. Durante vinte minutos voou em círculos.
observando e estudando a situação. Afinal avisou pelo
rádio que iria descer. Nate aterrissou sem problemas e
logo o coronel ferido foi levado para o avião. Nate levou -o
para Sucua, 105km ao Norte, onde seria transferido para
um avião da Força Aérea Equatoriana.
Nesta ocasião. Nate pôde mais uma vez testificar e
falar de sua fé em Cristo. Todos o ouviram respeitosa-
mente. Distribuiu Novos Testamentos em espanhol para
os oficiais locais e os próprios soldados o auxiliaram a
distribuir folhetos entre o povo que se ajuntara em volta
do aviãozinho.
Mais um vôo missionário havia sido cumprido.
Jorge Moffat e um grupo de índios jivaros haviam
trabalhado durante meses, limpando uma área para a
pista de pouso de Chupientsa. Agora chegava a notícia a
Shell Mera de que o novo campo estava pronto.
Dr. Stuart Clark, veterano missionário e co-diretor da
Rádio Evangélica de Quito, ao saber da notícia, ficou
muito interessado.
Anos antes o missionário havia percorrido aquela
mesma área a pé. Gostaria agora de ver o que o avião
poderia significar para o trabalho missionário.
Nate, entretanto, preferia chegar à pista sozinho.
Deixou o Dr. Clark em Sucua e foi para Chupientsa.
Sobrevoou a área e logo viu Jorge Moffat acenando ale¬
gremente. Mas Nate não aterrissou. Enviou um bilhete
mais ou menos assim:
“Desculpe-me, mas este aviãozinho tem asas. Que tal
tirar aquelas duas árvores do caminho? Façam um sinal
para eu saber quando poderão terminar o trabalho.”
A resposta foi
— no dia seguinte.
Retirados os obstáculos, Nate, com sua habitual
perícia, conseguiu descer na estreita pista de pouso. Mais
um serviço aéreo num posto missionário era inaugurado.
81
Nate voltou para Sucua para buscar o Dr. Clark.
O casal Moffat ficou muito alegre quando o avião
surgiu com o seu primeiro passageiro. Fizeram uma
oração de gratidão por tantas bênçãos.
Nessa ocasião Nate teve o privilégio de assistir ao
primeiro batismo entre os jivaros.
“Foi maravilhoso ver cinco jivaros testificando de sua
fé em Cristo, junto àquelas rápidas correntes que a -
bafavam todo som.”
Muitos voos foram feitos por Nate até a Jivária e
alguns deles de muita importância.
Quando o Dr. Glen Curtis, do Serviço Cooperativo
Interamericano de Saúde Pública, foi estudar as
necessidades médicas das selvas, foi Nate quem o levou
numa viagem de três dias, num avião de Asas de Socorro,
para Chupientsa, Sucua e Macuma.
Dr. Curtis tratava de índios jivaros desde manhã até à
noite, enquanto missionários anotavam normas e orien¬
tações que lhes seriam muito úteis.

Um dos grandes acontecimentos de 1951 foi a visita


de Raquel Saint a Shell Merita.
Raquel falou sobre o seu trabalho e mencionou o
desejo de trabalhar entre uma tribo que ainda não
tivesse sido alcançada. Nate voou com ela sobre as selvas.
Apontou para o território auca
ouvira falar de Cristo — —
e disse:
uma tribo que nunca

— Minha irmã, aí está sua tribo, bem atrás daquela


cordilheira.

Nate escreveu a Asas de Socorro pedindo um casal


que viesse ficar em Shell Mera, para que a família Saint
pudesse gozar de necessárias e bem merecidas férias. Foi
com alegria que receberam a notícia da escolha de
Roberto e Keitha Wittig para tomar o lugar de Nate e
Marj. Depois de algumas semanas de preparos, em
fevereiro de 1952 a família Saint seguiu para a sua terra
natal.

82
CAPÍTULO ONZE

BEM MERECIDAS FÉRIAS


. . . à sombra das tuas asas eu canto jubiloso.
Salmo 63.7

o princípio Nate e Marj pensaram em alugar um


trailer durante o período de férias nos Estados
Unidos. Entretanto o projeto foi abandonado quando
conseguiram um chalé na colónia missionária de Glenda¬
le, na Califórnia. Os pais de Marj mudaram para perto, a
fim de ajudar a cuidar das crianças enquanto Nate e
Marj percorriam as igrejas, falando do trabalho.
Foi uma época muito feliz, porque o casal teve
oportunidade de se encontrar com amigos e elementos
chaves do trabalho missionário em outros países. Um
encontro muito abençoado deu-se numa noite alegre,
quando a diretória e outros elementos de Asas de Socorro
se reuniram com Nate e Marj; entre eles estava um
missionário da Nigéria, um do Brasil, outro do Peru e
outro que se preparava para ir trabalhar no México. Foi
uma dessas reuniões inesquecíveis que nunca se repetem.
Depois de vários encontros com a diretória e colegas,
Nate passou a dedicar bastante tempo ao projeto dos
seus sonhos — o aperfeiçoamento da técnica do “balde
voador” e os planos para um avião com dois ou três
motores.
Nate procurou o auxílio de três engenheiros aeronáu¬
ticos evangélicos do Conselho de Asas de Socorro, que
ouviram com muito interesse os planos que ele elaborara,
para um aviào que oferecesse mais segurança. O projeto
foi lançado mais tarde e no fim das férias foram
preparados desenhos para um modelo experimental.
Nate recebeu permissão para estender o período de férias
83
e ficar nos Estados Unidos para assistir a todo o
desenvolvimento do projeto. Mas, depois de muito
refletir, decidiu que o melhor seria voltar para o campo.
“Foi uma escolha difícil”, escreveu ele a um amigo.
“Asas de Socorro concordou em que ficássemos, mas
eu não senti paz no coração, conhecendo o peso da
carência de obreiros no campo.
“Agora, porém, o Senhor nos deu a garantia de que o
projeto vai continuar, pois os engenheiros que fize¬
ram a maior parte do trabalho desde o início, garanti¬
ram continuá-lo, no caso de eu me ausentar, voltando
para o Equador.”
Em fevereiro de 1953, Nate foi atacado de pneumonia
e foi obrigado a fazer uma pausa em seu trabalho.
“O Senhor permitiu que isso acontecesse para me
ajudar a ‘soltar’ o projeto do avião”, disse ele.“É tão
fácil a gente se sentir indispensável.”
O casal passou quatorze meses nos Estados Unidos,
viajando bastante, contando suas experiências e pedindo
que os crentes orassem por seu trabalho. Numa das
viagens visitaram os pais de Nate e outros parentes. Foi
uma grande alegria.
Na primavera de 1953 os dois estavam ansiosos por
voltar ao que consideravam seu verdadeiro lar: Shell
Merita.
O trabalho crescia muito e por isso Asas de Socorro
decidiu comprar um segundo avião, um Piper Family
Cruiser. Marj voltaria para o Equador por uma linha
comercial e Nate pilotaria o novo avião.
Diversas modificações foram feitas no avião e muitas
pessoas ajudaram a embalar tudo que a família havia
ganho e adquirido durante as férias, que ajudaria muito
no campo missionário.
No dia 29 de maio, junto com Henrique Carlisle, Nate
partiu do campo de Hawthorne, rumo a Calexico.
Sendo muito previdente, montou um tanque extra de
gasolina na cabine traseira do avião. Uma bomba de
bicicleta daria a pressão de ar para, em voo, jogar a
gasolina no tanque principal. O custo da invenção foi de
sete dólares. Nate descreveu a viagem em seu diário:

84
“O vôo é quase todo sobre o deserto. Na pior das hi¬
póteses pernoitaremos no deserto, mas parece que
temos segurança. O deserto é monótono. A proporção
é sempre a mesma e as distâncias muito vagamente
definidas. V isibilidade 75km... Chegaremos a Punto
Penasco em tempo de dar duas voltas antes de ater¬
rissar ao pôr do sol. Não há gasolina por aqui. Esta¬
mos contentes por poder contar com o tanque extra.”
Depois de uma parada em Obregon. para reabaste¬
cer. os dois continuaram a viagem. À tarde. Nate
percebeu que o sol descia e eles não haviam acertado os
relógios de acordo com a diferença de horário. Acharam
a cidade onde haviam planejado descer, porém não havia
a pista de pouso que o mapa indicava.
Como a tarde caía rapidamente, procuraram um
lugar para aterrissar enquanto havia luz. Nate resolveu
descer na estrada de rodagem, apesar dos aterros que viu
de um e outro lado dela. A preocupação de Nate era
como levantar vôo no dia seguinte, mas o importante
agora era colocar o avião em terra.
“Descemos até a altura de seis metros e sobrevoamos
a estrada para verificar se havia sinais ou outras obs¬
truções”, escreveu Nate. “Ao voarmos em círculos
para aterrissar, um carro passou dirigindo-se para o
lugar que pretendíamos usar como pista. Enquanto
aterrissávamos, o carro se desviou para o outro lado
da estrada e parou. Felizmente nenhum outro veícu¬
lo apareceu e pudemos completar a aterrissagem sem
maiores problemas.
“O homem que guiava o carro era um fazendeiro me¬
xicano. Ajudou -nos a cortar a folhagem e a tirar o
avião da estrada. Conseguiu também um homem que
tomasse conta do aparelho durante a noite e nos le¬
vou para sua fazenda. Ao terminar toda a operação,
vi que os joelhos de Henrique tremiam de maneira
muito estranha. Ele não conhecia as pistas de pouso
da selva. Aquela pista improvisada era muito melhor
do que muitas das nossas pistas. Certamente o Se¬
nhor mesmo havia preparado o caminho.
“O relógio da fazenda batia cada quinze minutos e,
como tínhamos tomado café forte, eu ouvi quase to¬
das as horas e a maior parte dos quinze minutos."

85
Os dois homens levantaram às 4,00 hs da manhã e
decolaram rumo a Ixtapa, uma base aérea de Asas de
Socorro, perto da fronteira com a Guatemala. Nate
descreveu em seu diário a nova luta para encontrar um
lugar de pouso naquele mesmo dia.
“Bem no fim da tarde, a mesma acrobacia para ater¬
rissar. A pista indicada no mapa não se encontrava
na região que sobrevoávamos. Acabamos por encon¬
trar o ‘campo’... onde havia uma trilha de mulas, com
a presença de burros e porcos, precisamente a sete
quilómetros do ponto marcado em nosso mapa. As
mesmas dificuldades... os mesmos problemas...”
Finalmente, às 10,30 hs do dia seguinte, os viajantes
aterrissaram em Ixtapa e foram recebidos por Selma
Brown e Ruth Weir. Era quase como estar no paraíso.
Decidiram fazer uma visita aos índios Tseltal, enquanto
estavam na região. Muitos daqueles índios tinham
aceitado a Cristo e havia um verdadeiro avivamento entre
a tribo.
“A pista de pouso”, escreveu Nate, “estava entre um
agrupamento de montanhas a 1.700 metros de altura.
Henrique compreendeu então por que eu não havia
me preocupado com a outra aterrissagem forçada na
estrada. Fomos recebidos pelos índios que chegavam
de todos os lados. Todos falavam e sorriam. Cónse-
guimos entender a palavra ‘irmão’.
“Que visita inesquecível! Fomos também até um pos¬
to da Missão Wycliffe e até a área onde Filipe Baer
trabalhava, o posto índio de Lacandon. Era a mesma
região onde havíamos trabalhado juntos havia sete
anos. Começou a chover. Parece que o Senhor queria
que ficássemos ali, para aprendermos alguma coisa.
Ficamos.
“Durante toda a noite ouvimos o misterioso canto
que vinha da casa sagrada dos deuses de Lacandon.
Eles permitiram que víssemos as cerimónias. Que ter¬
rível contraste entre as tenebrosas trevas do paganis¬
mo e a maravilhosa experiência que havíamos tido
no contato com a tribo Tseltal!”
Henrique e Nate voltaram para Ixtapa, onde
prepararam o avião para a etapa seguinte. Queriam
atravessar a Guatemala até a base de Asas de Socorro
em Siguatepeque, Honduras, sem escala.
86
Scanned by CamScanner
Na manhã seguinte, Nate e Henrique sobrevoaram as
Ilhas San Bias e entraram na Colômbia, onde o tempo
estava péssimo. A rota estava cheia de empecilhos. Afinal
chegaram às primeiras montanhas dos Andes. Desceram
numa plantação de borracha, a fim de despejar nos
tanques a gasolina de reserva e depositar óleo no motor.
O próximo trecho de viagem foi simplesmente deslum¬
brante. Henrique passou muito mal. Os viajantes
poderiam chegar a Quito em uma hora, mas o por do sol
os obrigou a aterrissar num campo de emergência na
Colômbia, perto da fronteira com o Equador. Era o
mesmo campo que Nate e Jim Truxton tinham visitado
cinco anos antes e o operador de rádio se lembrou de dois
missionários que estavam com eles.
A parada contribuiu para a melhora de Henrique e
no dia seguinte chegaram a Quito em uma hora. Visita¬
ram a Rádio Evangélica de Quito e no dia seguinte deco¬
laram rumo a Shell Mera.
“A passagem para Ambato estava livre e chegamos
até Banos, mas o caminho estava bloqueado por nu¬
vens e chuvas.
“Aterrissamos em Ambato e fizemos duas tentativas
de prosseguir, sem nenhum sucesso. Passamos a noite
com Jorge e Noemi Dokter, missionários entre os ín¬
dios salasacas. Mas na manhã seguinte a passagem
continuava fechada. Decidimos então que Henrique
iria para Guaiaquil e de lá voltaria para os Estados
Unidos.' Foi uma pena que meu companheiro não
pudesse conhecer o pedaço da vinha que o Senhor nos
havia entregado. Mas o propósito de sua vinda estava
totalmente realizado. Nós agradecemos ao Senhor e
nos separamos.”
Enquanto isso Marj e as crianças foram da cidade de
Los Angeles para a Cidade do México, onde tiveram
alguns problemas com documentos. Resolvidos os
problemas, eles seguiram para o Panamá e ficaram
hospedados com a mesma família que abrira seu lar para
Nate e Henrique. De lá foram para Guaiaquil.
Na tribo salasaca. Nate teve ocasião de observar um
pouco dos costumes dos índios. Bem cedinho toi

88

Scanned by CamScanner
Scanned by CamScanner
“Parece que minha perna está quebrada. Os homens
limparam uma área de 250 metros na praia. Será que
voce pode aterrissar? Desculpe a pressa, Schneider.”
Este bilhete alterou os planos de Nate. Bob Schneider
trabalhava na base Wycliffe de Llushin e era preciso
socorrê-lo.
Nate preparou o avião, deixando apenas a gasolina
necessária, retirou alguns assentos e a porta da cabina.
Diminuiu a pressão dos pneus e tomou outras providên¬
cias que o caso requeria. O grande problema era a pista
de areia.
“Entregamos tudo ao Senhor. Se o projeto falhasse,
Bob teria de ser carregado em maca improvisada,
numa viagem de oito horas. Se fossemos bem sucedi¬
dos, ele poderia chegar a Shell Mera dentro de 10 mi¬
nutos. Marj acompanhava no rádio e a esposa de Bob
ficava na escuta em Quito.”
Nate fez experiências em Shell Mera e, quando
chegaram na pista de areia, tudo deu certo. De Shell
Mera, Bob foi levado para Ambato e de lá para Quito,
onde foi submetido a uma operação.
Muitas outras experiências poderiam ser contadas, e
Nate continuava sozinho... Mas um dia, chegou a notícia
de que um outro piloto viria ajudá-lo.

90
CAPÍTULO DOZE

OASIS EM JIVÁRIA
. . . como o vôo impetuoso da águia.
Deuteronômio 28.49

J|esde o princípio, Nate foi abençoado com a


U amizade e a confiança de Frank e Maria Drown,
missionários entre os jivaros em Macuma, da União
Missionária Evangélica (U.M.E.).
Como Nate, Frank era um missionário prático.
Falava fluentemente o espanhol e o dialeto dos jivaros,
entre os quais trabalhava. Os jivaros não possuem
palavras que expressem conceitos abstratos como “fé”.
Assim duas palavras como “ouvir” e “obedecer”
precisam ser usadas para transmitir o significado correto
da palavra.
Os jivaros são vistosos guerreiros e possuem alto
quociente de inteligência. Gostam de humorismo e estão
sempre rindo, ou porque estão alegres ou para encobrir
acanhamento ou sentimentos íntimos. Outra peculiari¬
dade deles é a queda que têm para cuspir.
Os jivaros sempre foram afáveis com o homem
branco e cruéis com outras tribos. Nos combates
matavam os inimigos e reduziam suas cabeças ao
tamanho de uma bola de beisebol, por meio de um
misterioso processo.
Frank, reconhecendo que os jivaros, uma vez
aceitando a Cristo, acabariam por localizar-se num só
lugar, formando igrejas, começou a ensinar aos índios
rudimentos de agricultura. Os índios aprenderam
depressa. Logo Macuma tomou-se um tipo de fazenda
experimental das selvas. Foi criada uma escola para
crianças nativas e uma clínica médica, para tratar das
91
muitas doenças que atacavam os índios.
Identificando-se com a vida daqueles índios, os
missionários ganharam sua confiança. Uma igreja
começou a ser formada, dentro dos padrões de cultura
dos jivaros. Frank preferia aceitar na igreja um jivaro
convertido com várias esposas, do que impor a
monogamia como teste de conversão. Se obrigasse as
esposas adicionais a abandonarem os maridos, elas
seriam atiradas à imoralidade e ficariam sem meios de
sobrevivência.
Aos poucos, ele ensinou os próprios índios a tomar
conta da igreja, incluindo disciplina, sustento e evange-
lismo. Os próprios jivaros acabaram decidindo que um
homem, depois de crente, não poderia pegar outras
esposas.
As frequentes visitas de Nate a Macuma o aproxima¬
ram muito do casal de missionários e dos próprios índios.
Frank escreveu sobre Nate:
“Ele foi sempre muito consciencioso e sério. Era mais
do que um piloto, era uma inspiração para nós. Ficá¬
vamos impressionados com o fervor, a honestidade e
a dedicação completa que ele demonstrava por
Cristo.”
Os missionários e a diretória de sua própria missão
(U.M.E.) achavam que a aviação nas selvas ia crescer e
resolveram estender o trabalho no campo dos jivaros. Por
isso, mesmo antes de Nate e a família saírem para o
segundo período de férias, ele e Frank partiram para
pesquisar a parte sul e leste das selvas, a fim de
determinar possíveis lugares de novos postos. Numa hora
e meia de voo conseguiram cobrir um território que
exigiria um mês de viagem.
Através de cartas escritas por Maria Drown, um
outro casal ficou interessado nos jivaros e, para auxiliar o
trabalho em Macuma, chegaram Rogério e Bárbara
Youderian, em 1953. Rogério, apesar de ter sido
acometido de paralisia infantil, quando menino, conse¬
guiu prémios por práticas esportivas, tanto no ginásio
como na universidade. Fora pára-quedista durante a
Segunda Guerra Mundial.
Nate descobriu em Rogério Youderian uma alma
92
irmã e um homem de grande capacidade natural, um
verdadeiro guerreiro da cruz.
O Conselho da Missào União Missionária Evangélica
continuava a procurar meios de estender seu trabalho
para o lado sul das selvas. Rogério desejava “pregar o
evangelho onde Cristo nunca houvesse sido anunciado",
por isso o casal foi enviado para a Pista de Taissa, que
mais tarde seria conhecida como Wambimi. Rogério
escreveu a Nate sobre as condições do lugar:
“Antes de você chegar, vou dar uma volta pela pista
para ver se nào há nenhuma onça, veado ou anta
‘passeando’ por ela. Este é o único tipo de compa¬
nhia com que precisamos nos preocupar aqui. Há
poucas noites uma onça ficou rondando nossa casa
durante uma hora, deixando bem claro o que pensa
da invasào de seu território. Desde entào não mais a
ouvimos. O seu tom não era dos mais amistosos."
Muitas vezes facetas do caráter de Rogério Youde-
rian eram reveladas, quando em missões de socorro.
Certa vez um índio jivaro se machucou enquanto ajudava
na construção da pista de pouso de Cangaime, um novo
posto a 27 km de Wambimi. Nate foi chamado para
transportar o ferido. Além de ser um chamado de socorro
era também um teste, numa área onde o evangelho nào
havia sido pregado antes. Entretanto, Nate precisava
saber se a pista construída pelos índios suportaria a
descida do avião. Um chamado de Wambimi resolveu o
problema. Rogério se oferecia para ir de Wambimi a
Cangaime, para verificar o estado da pista. Todos os
índios diziam que Rogério não conseguiria fazer aquela
distância num só dia, mas ele afirmou que chegaria à
nova pista às 4,00hs da tarde. Eram 8,00hs da manhã.
Fazer 27km em 6 horas, através das selvas, não era fácil.
Mas, se alguém poderia fazê-lo, era Rogério.
"Às 3.15hs decolei", relatou Nate. “Às 3,55hs aproxi¬
mei-me da nova pista. Meu coração se alegrou quan¬
do vi sinais de fumaça. Ali estava Rogério correndo
de um lado para outro, abafando o fogo para conse¬
guir mais fumaça, como eu pedira. Estava tudo O.K.
para a aterrissagem. O vento estava calmo, um tanto
favorável. Aterrissei, entregando a operação ao
Senhor.
93
"A aterrissagem foi a mais difícil que já experimen¬
tei. porém firme e segura. Rogério entretanto parecia
um fantasma. Estava pálido e suava muito. A camisa
estava em frangalhos. Mal conseguia orientar os jiva-
ros que deviam levar imediatamente o ferido. Eu ha¬
via trazido alimento para ele no avião, mas Rogério
não tinha apetite. Comeu somente um abacaxi bem
maduro. Não se alimentara desde manhã, quando
nos comunicamos pelo rádio. Por quê? Porque não
podia parar um minuto sequer para cuidar de si mes¬
mo... precisava correr para chegar em tempo.”
Nate levou Rogério para Wambimi e voltou para
buscar o índio ferido. O dia já estava chegando ao fim.
Nate pediu que os índios se apressassem. Quando o
homem chegou, Nate ficou impressionado com o seu
aspecto. Era horrível. Em poucos minutos o avião
decolou em direção a Shell Mera.
‘‘Ali estava eu com aquele índio no avião. Seu estado
era tal, que me inspirava repulsa. No entanto era uma
alma imortal. Era um daqueles por quem Jesus havia
vindo e morrido... Talvez ele confiasse em mim, ape¬
nas porque o seu povo havia perdido a esperança de
que ele escapasse. A morte para ele é o horror da in¬
certeza; a angústia da noite sem fim. Nada sabe sobre
Deus e muito menos sobre o Calvário. Eu só desejava
chegar a Shell Mera. Quem sabe o Dr. Fuller conse¬
guiria salvá-lo, se fosse da vontade de Deus.
“O avião estava leve e a 2.000 metros de altura eu
mantive a altitude, na velocidade de 180km por hora.
O pobre homem tremia de frio e eu tirei minha cami¬
sa para cobri-lo e fechei todos os ventiladores da ca¬
bina, com exceção do que ficava perto de mim, para
renovar o ar, porque o cheiro era insuportável, causa¬
va náuseas. Eu não podia deixar de pensar na corrida
de Rogério através das selvas.
*‘E se ele tivesse desistido? Se não tivesse esforçado
tanto? Ele deve ter sentido fome. E se tivesse parado
para se alimentar?”
Lembrou-se depois das experiências que Rogério
tinha tido na guerra —
desconhecido, na França.
o salto que deu num terreno

"Que tenacidade de aço! Que motivos leva um ho¬


mem a agir assim? O que pode transformar um jo-

94
vem despreocupado antes da guerra, c fazer dele um
homem capaz de uma tal maratona? Na verdade Ro¬
gério é um soldado, mais do que um pára-quedista.
Sabia que a causa era tal, que valia a pena morrer por
ela e considerar sem valor sua própria vida. Foi trei¬
nado e disciplinado. Estava convencido de que devia
obediência constante ao seu Capitào. A obediência
nào é uma opção de momento, é uma decisào firmada
antecipadamente.
“Preciso chegar a conclusões, a fim de não perder a
bênção desta experiência na confusão das atividades
da base. O segredo é a disciplina
— é daí que vêm os
verdadeiros discípulos. E eu, onde fico?... tenho mui¬
to que melhorar... muitas batalhas para vencer. Dis¬
ciplina — dedicação — decisào... Cristo o Capitão.”
Nate sobrevoou Shell Mera. Podia ver o médico ao
lado da maca. O avião desceu suavemente. Ao descer,
Nate falou: ‘‘Ei, Doutor! Que bom que o senhor está
aqui. O camarada está mal.”
O índio sobreviveu!
Na região de Quichua, na selva, também havia
progresso. Certa manhã Nate foi de Shell Mera para
Villano, agora base do exército, num voo de cortesia para
o governo equatoriano. Não havia passageiros, apenas
provisões para soldados. Depois de descarregar, Nate
subiu a bordo do avião para decolar.
Antes de acelerar o motor, soldados da base gritaram
que dois índios quichuas vinham vindo da selva e
precisavam do auxílio dele.
Um dos índios, ofegante e suado, contou a Nate que
um bando de aucas havia atacado a aldeia quichua,
perto de Villano e tinham ferido seriamente um homem e
a esposa.
Enquanto Nate tomava conhecimento do assunto,
outros quichuas apareceram carregando a mulher, que
tinha recebido uma flecha na axila e nas costas. O
marido, podendo ainda andar, tinha recebido flechadas
no peito e num dos quadris, além de ter um corte na
mão, que recebeu quando tentou desviar a lança
mortífera.
Logo que Nate veio para as selvas, ele ouviu falar dos
aucas, que matavam qualquer pessoa estranha que
95
procurasse contato com eles, quer fossem brancos ou
indígenas. E agora, estava nas proximidades de um
ataque auca, o que não era muito agradável. Não hesitou
nem perdeu tempo. Tomou as providências para que os
dois feridos fossem colocados no pequeno avião,
procurando tornar a viagem o mais confortável possível
na ambulância aérea improvisada. Logo depois de
decolar, ligou o rádio para Shell Mera e falou com Marj.
Pediu que ela providenciasse duas macas para os feridos.
Quando Nate aterrissou entregou os feridos a Marj e
a Dorothy Brown, enfermeira da U.M.E. Foram
transferidos para o depósito, que já tinha sido transfor¬
mado em enfermaria.
Quando a enfermeira percebeu que o casal de índios
precisava de cirurgia, o transporte deles foi providen¬
ciado e seguiram para Quito. Lá os médicos descobriram
que um pedacinho da lança tinha-se alojado na coluna
vertebral da mulher, causando paralisia temporária das
pernas e da parte inferior do tronco. A situação era
muito complicada, porque ela estava grávida de oito
meses. A operação foi feita para remover o pedacinho da
lança e alguns dias mais tarde ela deu à luz um bebe
normal, mas prematuro.
Mais tarde, o casal foi levado novamente a Shell
Mera, onde convalesceram no Instituto Bíblico.
“Não podemos comunicar-nos com o casal, por causa
da língua, mas temos um casal de empregados da ba¬
se que fala tanto espanhol como quichua e lê a Bíblia
para eles. Ontem à noite nosso empregado leu a Bí¬
blia em espanhol e ia traduzindo para a língua qui¬
chua. Eles nunca tinham ouvido falar na Bíblia. Pa¬
rece que a mensagem não surtiu efeito ainda, porque
hoje pela manhã o homem me pediu que voasse de
volta, para matar pelo menos um dos aucas. Nosso in¬
térprete explicou que nós não estamos interessados
em tirar a vida de ninguém, mas fazemos tudo para
salvar vidas por meio de Jesus Cristo."
Assim, a atenção de Nate Saint foi novamente
despertada para os aucas, índios assassinos, que
matavam suas vítimas de emboscadas. O casal de
quichuas não sabia exatamente por que haviam sido
atacados. Podiam apenas pensar que talvez tivesse sido
96

Scanned by CamScanner
em represália, porque o avô do índio tinha atacado uma
aldeia auca muitos anos antes.
O acidente teve grande significação para Nate. Ele
tinha vindo para a selva como piloto de uni avião, com o
propósito de apressar a obra de alcançar índios das
selvas para Cristo— isto incluía também os aucas... eles
também eram preciosos à vista do Senhor.
Com frequência Nate pensava em alcançar os aucas
arredios. O ataque a Villano ativou mats sua imaginação.
Sabia agora que as histórias sobre os aucas eram mais do
que folclore. Eles viviam em algum lugar da selva, a
poucos minutos dum posto missionário onde ele servia.

97
CAPÍTULO TREZE

MISSÃO DE PAZ
. . .o que tem asas daria notícia da palavra.
Eclesiastes 10.20

E mbora Cristo houvesse penetrado em muitos


corações, as forças do mal nào queriam abandonar
facilmente seu domínio das selvas.
Frank Drown soube que alguns jivaros não converti¬
dos planejavam atacar os atshuaras. Essas notícias
chegaram logo depois do sucesso de Frank, Rogério e
Nate com o povo de Santiaku. Frank temia que os índios
relacionassem os dois fatos. Isso poderia fazer com que
vissem os missionários como traidores, e a porta tão
recentemente aberta se fecharia.
Arbitrar em guerras de índios era uma lei nova para a
aviação missionária. Mas Frank chamou Nate pelo rádio
de ondas curtas. Ele sugeria que baixassem o telefone no
balde com um aviso quanto à guerra. Isto mostraria que
os missionários eram realmente amigos. Nate, entretan¬
to, sabia que Santiaku, que nunca havia visto um
telefone em sua vida, nào saberia o que fazer. Sugeriu
então que instalassem um alto-falante no avião.
Entretanto, o mau tempo os impediu de sair por dois
dias.
No terceiro dia, embora o tempo estivesse ainda
fechado, Nate ouviu pelo rádio, que o tempo em Macuma
estava clareando. As 15,30hs da tarde ele partiu. Nate
pegou Frank e um outro missionário em Macuma.
Removeram a porta da cabina e instalaram o alto-falan¬
te. Logo alcançaram as primeiras casas atshuaras. Frank
começou a avisá-los do ataque, dando o nome dos
98
atacantes, para que eles soubessem que não se tratava de
uma brincadeira.
O aviào sobrevoou a principal casa atshuara. Frank
repetiu a mensagem. Os índios Ficaram atordoados.
Frank pediu que, se estivessem ouvindo, entrassem na
casa como sinal. A reação foi um violento aceno de mão.
Os missionários deixaram cair um par de calças como
gesto de amizade, e os índios acenaram com o cobertor,
oferecendo-o como troca.
Estava ficando tarde e o avião voltou a Macuma.
Quando encontraram o primeiro ajuntamento de jivaros
em território atshuara, o avião sobrevoou em círculos e
avisou que os atshuaras tinham conhecimento do ataque
e estavam prontos para receber os atacantes. Os jivaros
sabiam que isto significava uma emboscada mortal.
Já de volta a Macuma, os três homens decidiram
testar as probalidades do êxito ou fracasso do voo.
Voaram sobre os postos de Macuma, e Frank avisou aos
jivaros da mesma maneira que avisara os atshuaras.
Pediu, como sinal de que haviam entendido a mensagem,
que se abaixassem. Mal ele acabara de falar e todos
estavam no chão. Quando o avião aterrissou era grande o
entusiasmo dos jivaros — eles ouviram Frank com
clareza, como se estivesse ao lado deles.
Mais tarde, eles souberam que Catani, o feiticeiro
que havia planejado o ataque, bem como seus compa¬
nheiros tinham ouvido Frank falar do avião e, enver¬
gonhados, entraram de mansinho em suas casas. Parece
estranho mas, em vez de ficarem ressentidos com os
missionários que haviam frustrado o ataque, passaram a
respeitá-los mais ainda.
“Ê natural que estremeçamos ao pensar em possíveis
ataques repentinos durante a noite, ou emboscadas
ao longo das picadas na mata, e sentimos mais do que
nunca a necessidade de pregar Cristo”, disse Nate.
Dois anos mais tarde Santiaku, infeliz com a morte
do genro, resolveu que Catani, seu velho inimigo, o havia
enfeitiçado. Santiaku reuniu os guerreiros e se esconde¬
ram nas imediações da casa de Catani e feriram
Maricash, parente de Catani. Em represália, Catani feriu

99
uma mulher atshuara. Poucos dias mais tarde, Santiaku
voltou fervendo de vingança e conseguiu seu intento.
Seus homens atiraram na esposa de Catani e no nenê que
estava amarrado às suas costas, e quatro balas atingiram
Catani. A criança morreu instantaneamente... a esposa
no dia seguinte. Catani foi removido para Shell Mera e


depois de cuidado, recuperou a saúde.
Por que vocês salvaram a vida dele? — perguntou
Santiaku a Frank Drown, criticando a atenção dis¬
pensada ao inimigo.
— Porque nós queríamos que ele conhecesse mais da

Palavra de Deus e viesse a ser filho de Deus , repli¬
cou Frank.
— —
Neste caso, pregue bastante para ele , foi o con¬
selho de Santiaku.
E assim o avião missionário servia de instrumento
para que a Jivária se abrisse para o evangelho. O
trabalho que havia começado em Sucua, Chupientsa e
Macuma, agora já se espalhava para Wambimi, Can-
gaime, Pakientsa e Cumai. Nate ajudou a abrir cinco
dessas pistas de pouso.
Ao norte, além da pista de Tena, que servia a Dos
Rios, instalou-se a pista de Pano. Ahjuana foi servida por
um tempo. Llushin, aberta por missionários da missão
Wycliffe, foi abandonada mais tarde. Nate também
ajudou a abrir a pista de Montalvo, de grande valia para
o Exército Equatoriano e para os missionários de
Wycliffe.
Foi um auxílio muito grande para o trabalho a
chegada de três jovens da Missão Cristã para Todas as
Terras.
Jim Elliot e Pedro Fleming cresceram em lares
cristãos, onde a Palavra de Deus e a oração faziam parte
da vida diária, tanto quanto a respiração. Ouviram o
chamado do Salvador e aprenderam a andar com Ele em
obediência, bem antes de chegarem ao Equador.
Pedro Fleming conquistara o grau de Mestre em
literatura inglesa, na Universidade de Washington, onde
foi presidente da Aliança Bíblica Universitária. Foi
naquela época que sentiu seu coração voltar-se para o
Equador.
100
Jim, filho de um professor de Bíblia da Missão Cristã.
nascera em Portland, no Estado de Oregon, num lar
cristão. Quando ainda no ginásio, revelara possuir o dom
da oratória. Foi depois para Wheaton College, onde
encontrou Betty, a filha talentosa do Dr. Phillip E.
Howard Jr., redator de um importante jornal evangélico
— The Sunday School Times. Sentiram-se atraídos um
pelo outro, mas só vieram a casar-se cinco anos mais
tarde. Jim tormou-se na universidade com honras
especiais e no ano de 1950 frequentou o Instituto de
Linguística da Missão Wycliffe. na Universidade de
Oklahoma. Lá ele se encontrou providencialmente com
Davi Cooper, missionário junto aos quichuas do Equador,
e teve noticias dos aucas. Escreveu mais tarde a um ami¬
go. dizendo que o Senhor lhe dera indicações seguras, de
que devia servir no Equador.
Quando Nate voltou de seu período de férias em
1953, Jim Elliot e Pedro Fleming, ambos solteiros ainda,
já tinham chegado ao Equador.
Ed McCully e a esposa, Marilou, chegaram a Quito
um ano depois com seu filho Stevie e começaram a
aprender a língua.
Ed e Jim eram amigos na Universidade e viajavam
juntos pregando. Ed era filho de Theo McCully, que foi
secretário executivo de uma Comissão Internacional de
Homens Cristãos de Negócios. Atleta, orador, presidente
da classe no último ano de Universidade, Ed mais tarde
fez o curso de Direito em sua cidade natal, Milwaukee.
Quando trabalhava como funcionário noturno de um
hotel, Ed teve oportunidade de ler muito e de meditar na
Bíblia. Como resultado, decidiu abandonar a carreira e
preparar-se para o trabalho do Senhor. Antes de seguir
para o campo missionário, casou-se com Marilou Hobolt,
pianista e regente de coro da Primeira Igreja Batista de
Pontiac, no Estado de Michigan.
O Senhor abençoou muito o trabalho daqueles
homens em Shandia, enquanto aprendiam a conhecer os
quichuas, seus costumes e sua língua. Jim e Pedro
sobrevoaram o território dos aucas, mas nada consegui-
íam ver da estranha tribo. Voltaram assim às suas

101
respectivas responsabilidades.
Nate lutou muito pelo estabelecimento de uma clínica
em Shell Mera, o que faria com que o socorro médico
ficasse mais perto das necessidades do oriente equatorial.
Entrevistas e correspondências com o Dr. Fuller em
Quito fizeram com que o projeto tomasse vulto. Asas de
Socorro concordou com o pedido de Nate de ceder parte
da terra, para que a Rádio Evangélica de Quito
construísse os prédios necessários.
Assim o Dr. Fuller, sua esposa Elizabeth, juntamente
com a família, mudaram-se para Shell Mera.
“No ano passado”, escreveu Nate, “vimos muitas
orações sendo respondidas, mas a bênçào que se des¬
tacou foi a localização de um médico missionário em
Shell Mera, próximo à base de Asas de Socorro, ser¬
vindo às necessidades desta área.
“Nos últimos meses tem sido um privilégio ajudar o
Dr. Fuller a se estabelecer aqui. Juntamente com
outros colegas missionários, construímos uma peque¬
na clínica para que ele possa trabalhar, até que
tenhamos um prédio maior.
“As necessidades médicas e os resultados são
tremendos. Podemos ver uma verdadeira onda de
pessoas chegarem a pé e de avião de todas as colónias
que crescem rapidamente. Numa tarde, 60 pacientes
foram atendidos. Desde que chegou, o Dr. Fuller teve
de efetuar muitas operações difíceis, com um mínimo
de recursos. Agradecemos a Deus pela disposição do
Dr. Fuller de fazer sempre o melhor que pode para
salvar vidas, mesmo sem ter nas mãos os recursos de
que um cirurgião precisa. Hoje à noite mesmo,
enquanto escrevo, ele inicia uma operação para
salvar uma criança de oito anos.
“Num recente voo, um dos médicos se aproximou de
um grupo de seis jivaros que estavam perto do avião.
Auscultou o tórax de cada um e descobriu que três
deles estavam com tuberculose, em estágio avançado.
“Neste mesmo circuito médico, aterrissamos pela
primeira vez numa pista inteiramente construída por
índios jivaros, que moravam a um dia de viagem do
posto missionário mais próximo. O projeto havia sido
orientado por um jivaro cristão de Macuma, que
havia casado com alguém do grupo e foi obrigado por
102

Scanned by CamScanner
isso a viver com eles. O objetivo do índio cristào era
ter uma pista de modo que os missionários pudessem
vir e pregar o evangelho. Mas isto nào impressionava
muito os índios nào convertidos. Entretanto, eles fo¬
ram motivados pela possibilidade de virem médicos.
Eles. como todos os índios, tinham muitos doentes e
perceberam logo, que as injeções do homem branco
davam mais resultados do que as poções do feiticeiro
da tribo.
“Tivemos uma interessante experiência ontem. Eu
havia voltado do meu primeiro voo, quando chegou
um chamado de emergência. Desta vez nào vinha das
selvas... vinha de Guaiaquil, uma das maiores cidades
do Equador.
“A esposa de um missionário, Mrs. Dyck, ficou muito
doente após ter dado à luz uma criança morta. As
notícias nào eram boas... ela estava inconsciente e seu
estado era grave. Dr. Fuller se ofereceu para ir e
ajudar, se fosse convidado. E foi. Partimos vinte
minutos mais tarde e sobrevoamos os Andes direta¬
mente para a cidade costeira.
“Os vales entre as montanhas estavam bem claros,
apesar do tempo ameaçador. A passagem parecia
interrompida por nuvens em todas as camadas. Como
estivessem, porém, partidas, uma investigação cuida¬
dosa nos permitia ver a possibilidade de atravessar
sem perigo. As montanhas daquela região são
acidentadas e parecem subir e descer com vingança.
“Continuamos de abertura em abertura a uma altitu¬
de de 4.700 metros, depois de verificar as condições
do tempo em Guaiaquil, a apenas lOOkm de nós. Cer¬
ca de 30km adiante, as aberturas entre as nuvens fo¬
ram diminuindo. Quando estávamos a cerca de 15km
de Guaiaquil, resolvemos descer em círculos, aprovei¬
tando uma abertura maior para evitar entrar no
tráfego aéreo quando ainda entre as nuvens. Quando
chegamos embaixo, estávamos exatamente na dire¬
ção certa, sobrevoando a linha férrea que conduzia a
Guaiaquil. Não sou um navegador excelente, mas
naquele caso as circunstâncias foram muito favorá¬
veis e estimulariam qualquer dom que eu possua
neste campo. Uma hora e quarenta minutos depois
de decolar, recebemos confirmação de Marj em Shell

103
Mera de que recebera nossa transmissão de Guaia-
quil.
“Duas horas depois do chamado, pedindo que um
médico atravessasse os Andes, Dr. Fuller consultou o
Dr. Paul Roberts, de Quito, através do rádio. Este
por sua vez leu um artigo de uma revista médica
americana e conseguiu informações recentes sobre a
paralização dos rins e entrou em contato com os
Estados Unidos, por meio de rádio amador, para
conseguir informes sobre rins artificiais. Existem
apenas três aparelhos e pareciam a única esperança
para Mrs. Dyck, uma vez que ela estava inconsciente.
“Deixei o médico imediatamente e decolei em direção
às montanhas, na esperança de atravessar o desfila¬
deiro antes que se fechasse completamente... Soube¬
mos mais tarde, através do rádio, que Mrs. Dyck
estava fora de perigo. Uma ação rápida e precisa
havia salvo a sua vida.
“Por tudo isso”, continua Nate, “é desnecessário
dizer do nosso interesse pessoal no projeto médico.
Acreditamos que até mesmo os crentes mais entusi¬
asmados não avaliam o grande alcance das implica¬
ções deste trabalho para o ministério do evangelho
aqui no oriente equatorial. Já vimos muitos precon¬
ceitos caírem por terra. Talvez estejamos em melhor
posição de apreciar estas vitórias, porque estamos
aqui durante o período de transição. Podemos sentir
o ‘antes’ e o ‘depois’, e a sua diferença. Asas de
Socorro tudo fará para fazer do transporte aéreo a
ponte necessária para alcançar os índios para Cristo,
através do ministério médico.”
Muitas coisas aconteciam no campo missionário,
sendo impossível registrar a não ser algumas. A irmã de
Nate, por exemplo, estava trabalhando em Hacienda I.la,
primeiramente com Katherine Peeke e mais tarde com
Mary Sargeant. Começara o estudo do dialeto auca
warani, trabalhando com Dayuma, mulher auca que
fugira da tribo havia alguns anos.
O trabalho nas selvas crescia. Foram fundados um
Instituto Bíblico, um hospital, diversos postos, e Nate
continuava com sua idéia fixa em um avião maior e com
mais segurança.

104
CAPÍTULO QUATORZE

HOMENS
DE UM MESMO SONHO
. . . abrigar-me-ei no oculto das tuas asas.
Salmo 61.4

om a vinda dos missionários da Missão Cristã para


Todas as Terras e o aparecimento de postos novos
da U.M.E. no Sul, Nate via a necessidade de uma
operação com dois aviões e dois pilotos no Equador.
Portanto, foi um dia de muita alegria aquele em que
Johnny e Rute Keenan, o prometido casal, foram
designados para ajudar em Shell Mera.
‘‘Em primeiro lugar queremos lhes contar como o ca¬
sal Keenan está trabalhando aqui”, escreveu Nate ao
escritório central. ‘‘Não sabemos como pudemos pas¬
sar sem eles até agora. Johnny age com naturalidade,
é maleável e apreendeu as técnicas de rádio e rotas
bem depressa. Rute também vai muito bem. Ela ensi¬
na na escola para meninos. Sentimos que os dois são
as pessoas certas para este tipo de lugar. Gosto da
maneira de Johnny manter o avião, muito metódico e
meticuloso.”
A vida em Shell Mera se desenvolvia em ritmo
progressivo. De todos os cantos Nate recebia elogios à
sua técnica do ‘‘balde voador”, mas um deles foi muito
significativo. Foi uma carta elogiosa e uma oferta de 250
dólares que ele recebeu de John P. Gaty, vice-presidente
e gerente da Beech Aircraft Corp. de Wichita, Kansas.
105

Scanned by CamScanner
Muitos visitantes apareciam em Shell Mera. Um dos
mais importantes foi o General William K. Harrison Jr.,
entào Comandante da Força Aérea do Caribe. O General
Harrison, que viera em visita ao casal Elliot, deu um
testemunho na Igreja de Shell Mera. Revelou grande
interesse pela missão aérea de Asas de Socorro. Nate teve
também Q privilégio de conduzir o Dr. William Reybum,
antropólogo e linguista da Sociedade Bíblica Americana,
numa longa viagem através das selvas.
Outros tipos de visitantes apareciam também. Certo
dia, uma meninazinha acompanhada de sua mãe
apareceu na porta de Shell Merita. A menina queria
saber mais sobre o caminho da salvação. Ela ouvira Nate
ler a Bíblia em espanhol, em Puyo. Depois tivera contato
com outros crentes. Nate teve o prazer de levá-la ao
Senhor Jesus.
Filipe Jônatas, terceiro filho do casal Saint nasceu em
Shell Merita em 28 de dezembro de 1954. Dr. Fuller e a
esposa Elizabeth atenderam a Marj, na qualidade de
médico e enfermeira. Dorothy Walter substituiu Marj em
seus trabalhos, durante o período de afastamento. Desta
vez o Dr. Fuller ocupou um dos pequenos quartos da
residência dos Saint.
“Isto significa trabalho extra para minha esposa”,
disse Nate, e desde o início Filipe encontrou um
grande lugar no coração do pai, já tão ocupado!
A esta altura, os missionários da Missão Cristã
estavam muito bem estabelecidos entre os quichuas.
O casal McCully precisou mudar-se e foi trabalhar com
Pedro Fleming, por causa de uma inundação que
praticamente destruiu Shandia. Os dois começaram a
fazer viagens para o abandonado campo da Shell em
Arajuno, e pregar ali o evangelho. O campo ficava
justamente dentro do território auca. Os dois chamaram
o lugar de “Wawatosa”, nome da cidade natal de Ed. em
Milwaukee.
Jim e Betty Elliot, depois de casados, estabeleceram-
se em Puyupungu. Depois foram para Shandia. Pedro
Fleming permaneceu em Shandia até o seu retorno aos
Estados Unidos em 1954. para se casar com Olive
Ainslie.
106
A amizade entre Nate. Elliot. McCully e Fleming
crescia à medida que trabalhavam juntos. E a convivên¬
cia entre os casais representava muito para todos eles.
Riam... gracejavam, trocavam opiniões e, sempre que
havia necessidade, uns ajudavam os outros. Gastavam
muito tempo conversando... trocando idéias.
Foi a Ed McCully que Nate confessou, quando Marj
sofreu uma crise de apendicite:
"Ore por Marj. Se alguma coisa acontecer a ela. eu
não valerei mais nada.”
Apesar de sua própria fadiga, Nate insistiu em Ficar
ao lado de Marj, quando esta foi hospitalizada. Quando
alguém ofereceu para ficar no lugar dele, retrucou:
"Você nào quereria roubar-me este privilégio, não é
verdade?” A doença da esposa fez com que Nate
refletisse sobre o ritmo que levavam. Ele expressou seus
pensamentos de maneira bem viva numa carta que
escreveu para ela:
"A vida parece curta demais para a realização de to¬
das as nossas aspirações... de amor, afeto e atenção...
de trabalho e deveres. Mas Deus permita que cada ta¬

— —
refa seja ungida e inspirada por uma dosagem acer¬
tada do que e requerido e do que é desejado do pe¬
sado e do agradável do pensamento apressado e da
expressão do detalhe.”
No princípio de 1955, o casal McCully começou a
fazer planos para se mudar de Shandia para Arajuno.
Dois motivos levavam Ed a fazer a mudança: a
oportunidade de trabalhar entre os quichuas que viviam
ao longo do rio Arajuno e a possibilidade de estabelecer
contato com os aucas. Arajuno havia sido construída do
lado auca do rio, para ficar mais perto do campo de
pouso. Os quichuas respeitavam a linha divisória do rio,
a ponto de nunca passarem uma noite do lado auca do
rio. Eles o atravessavam apenas durante o dia e sempre
munidos de armas.
Nate Saint ajudou o casal na mudança e transportou
materiais para a construção da nova sede missionária.
Nate menciona o fato em uma carta de 17 de abril de
1955 a seus pais:

107

Scanned by CamScanner
“Um dos voos mais interessantes que fiz foi até a
pista de Arajuno, na fronteira do território auca. Ed
McCully não estava lá ainda. Ele espera apenas
que eu consiga suficientes placas de alumínio, para
poder cobrir a casa que os índios fizeram para ele e a
família.
“Quando cheguei, o tempo estava mudando. O vento
me dizia que deveria ir embora imediatamente para
não ter de passar a noite ali. Passar a noite estava
fora de cogitação, dada a possibilidade de um ataque
auca. Os quichuas não viam sinais dos aucas por
duas semanas, mas isto não queria dizer coisa
alguma. Depois de aterrissar, percebi que todos os
quichuas se haviam recolhido às suas casas.
“O caminho até a cabana temporária de Ed era
largo, de maneira que taxiei em direção a ele,
colocando a asa do avião bem perto da porta, a fim de
proporcionar abrigo da chuva que parecia na
iminência de cair. Quando saí do avião, tudo estava
muito quieto. A chance dos aucas estarem na área era
remota, mas ainda assim era possível. Lembrei-me de
que o pessoal da Shell havia dito que ninguém que
portasse uma arma havia sido atacado. Parece que
eles tinham um certo cuidado com armas estranhas.
Eu possuía um pequeno revólver em meu cinto e
empunhei-o como prevenção contra qualquer curioso
que estivesse entre a folhagem. Enquanto descarre¬
gava o avião, continuei com minha atenção na
vizinhança.
“Sentia-me um tolo descarregando o avião com uma
das mãos, enquanto a outra segurava o revólver. Eu
sabia que o pequeno revólver poderia nem ser
reconhecido como arma pelos aucas. Pensando nessa
possibilidade, senti que deveria mantê-lo onde de
repente ele pudesse falar por si mesmo. Ê lógico que
eu nunca atiraria num homem, talvez atirasse numa
das pernas a fim de deter um óbvio atentado contra
minha vida.
“Não tem havido contato com esse povo por tanto
tempo, que me parece inútil pensar em termos de
heroico martírio.
“Por outro lado, a fim de apressar o dia em que eles
possam ouvir o evangelho, parece-me de muita
importância não ter nenhum encontro inamistoso.

108
Imagine se eles aparecem... se eu atiro e machuco a
perna de um deles... consigo levá-lo para um hospital,
curá-lo, tratá-lo muito bem e mandá-lo de volta à
tribo... Muitas coisas me vieram à mente naquela
situação. Não estou justificando minhas reações.
Apenas relato-as fielmente. Ê um pensamento muito
reconfortante saber que estamos aqui num trabalho
para o Senhor e que Ele nos guarda cada momento.”
Ao voltar para Shell Mera, Nate ainda ficava
pensativo em relação à sua experiência.
“Pensando bem”, escreveu Nate aos pais, “acho que
o perigo que enfrentei foi provavelmente menor do
que o que vocês enfrentam na estrada de rodagem em
frente de casa nos Estados Unidos. Todavia, quem
estiver procurando aventura e sensação encontra
aqui!
“Se somos bastante responsáveis para encontrar
suficientes justificativas para os riscos que enfrenta¬
mos, que mais justificação do que acharmo-nos em
posição de apoiar um companheiro que sente ser
chamado por Deus para viver naquela situação com a
família — sentirmo-nos ombro a ombro com Ed,
para fazer uma ponte sobre a qual o evangelho possa
vencer o abismo que isola este povo selvagem.
“O casal McCully está já em Arajuno. Ontem foi a
primeira noite que passaram no lado auca do rio.
Como vocês sabem, há várias razões para que fiquem
naquele lugar, mas desejamos que o maior resultado
seja um contato amistoso com os aucas. Do ponto de
vista humano, eles correm grande perigo naquela
parte do rio, praticamente desprotegidos. Eu levei-
lhes uma lanterna de bateria para que possam
iluminar a área em volta da casa toda vez que o cão
ladrar e também um alarme elétrico. Se conseguir¬
mos um contato amigável, será uma real manifestação
do Senhor, pois na história recente dos aucas não há
nada que nos dê qualquer esperança.
“Ed e Marilou são um casal de dons extraordinários.
Ainda assim Deus os chamou para trabalhar com
grupos isolados de índios das selvas. Muitos jovens
acham que Deus lhes deu grande personalidade e
talento, os quais os índios não saberiam apreciar.
Para eles isso significa que não estão sendo
109

Scanned by CamScanner
chamados. Mas eu sou testemunha de que Ed e
Marilou são um casal que eclipsaria muitas pessoas
importantes.
“Marilou toca piano muito bem. O piano dela ainda
está em nossa casa. Não a ouvi sequer mencionar que
sabia tocar. Nunca ficaria sabendo das aptidões e do
passado brilhante de Ed, se não estivesse com ele em
Wheaton. A vida dos dois é um grande desafio para
nós.
“Um dos grandes privilégios meu e de Marj é
participar da comunhão e do trabalho conjunto com
servos escolhidos de Deus, que consideraram sua vida
sem valor para si mesmos... ao todo vinte e sete deles.
“Orem pelo ministério entre os quichuas e por um
contato com os aucas. Pode ser daqui a anos, mas
parece que Ed e Marilou estão na posição mais
adequada para o necessário contato.”
Assim os acontecimentos foram -se desenvolvendo na
vida dos missionários da Missão Cristã e de Nate Saint.
Sua amizade se aprofundou quando eles descobriram
que partilhavam do mesmo interesse de alcançar os
aucas. Isto seria o ponto de união de seu companheiris¬
mo e de seu conceito de missão cristã.

110
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CAPÍTULO QUINZE
1/

“OPERAÇÃO AUCA”
. . . quão inescrutáveis são os seus caminhos!
Romanos 11.33

N o coração de Nate Saint havia um fogo que quei¬


mava cada vez mais intensamente. Desde que
chegara às selvas do Equador, ouvira falar da tribo
misteriosa, quase legendária, que habitava em lugares
ainda não atingidos pelo homem branco. Como já lemos,
os aucas eram famosos por sua ferocidade e pelas
emboscadas que costumavam armar tanto a índios de
outras tribos como aos civilizados.
O desejo de Nate era estabelecer contato com os
aucas, com o fim de levar-lhes a mensagem do evangelho,
desejo esse que ele havia compartilhado com sua irmã
Raquel e mais quatro companheiros —
Pedro Fleming,
Rogério Youderian, Ed McCully e Jim Elliot.
Só uma coisa era conhecida com certeza a respeito
dos aucas, e é que eles matavam qualquer pessoa que se
aproximasse deles. Por isso era preciso que a “operação
auca” fosse preparada com extremo cuidado e fosse
cercada de absoluto segredo, para que outros grupos não
tentassem a aproximação e ficasse assim frustrado o
propósito deles.
Por vários meses os cinco missionários se reuniram
111

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freqiientemente e planejaram em todas as minúcias a
operaçào. Na verdade, cinco generais que estivessem
planejando um grande ataque nào poderiam ter sido
mais cuidadosos nem mais capazes do que eles. Com a
diferença que essa não seria uma operaçào de guerra e
sim de paz e amor, com o propósito de levar a nova
salvadora de Cristo.
Em outubro de 1955 iniciaram -se os preparativos
finais. Sobrevoando as selvas, haviam finalmente locali¬
zado uma aldeia dos aucas, que viviam espalhados em
pequenos grupos por uma grande extensão de terra. Nate
iniciou voos semanais, nos quais presentes eram jogados
aos aucas para indicar os seus propósitos pacíficos e
ganhar a simpatia daqueles misteriosos silvícolas.
Os índios pareciam corresponder aos esforços de
Nate e, quando o “balde voador” descia com presentes,
eles colocavam também presentes em retribuição, entre
eles um papagaio, carne de macaco, etc.
Nate e seus companheiros procuraram aprender
algumas palavras e frases na língua auca com Dayuma,
que morava com Raquel. Uma dessas frases, que deveria
ser um “abre-te sésamo” para eles, era: Biti miti puni-
mupa — Eu gosto de você; eu quero ser seu amigo.
Afinal, a data para o desembarque foi marcada

dia 3 de janeiro de 1956. O único lugar em que o avião
poderia descer com relativa segurança era à margem de
o

um rio. A margem do rio Cururay eles fariam a sua


cabeça de ponte para atingir os aucas, que tudo parecia
indicar estarem prontos para um encontro amigável.
Essa estreita faixa próxima dos aucas, eles denominaram
Praia das Palmeiras.
Logo que desceram, apressaram-se em construir uma
casa no alto de uma árvore, na qual estivessem protegidos
de animais ferozes e das flechas dos aucas. Ali colocaram
um aparellho de rádio para se comunicar com Marj
Saint, esposa de Nate, que ficara em Shell Mera,
ansiosamente aguardando as notícias dos missionários.
Durante aquele primeiro dia, Nate sobrevoou a aldeia
que haviam denominado “Cidade Terminal” procuran¬
do, por meio de gestos e gritos através de um alto-

112
Scanned by CamScanner
maravilhosamente providencial.
Nate e Pedro vinham e voltavam cada noite para
Shell Mera. No domingo de manhã, dia 8 de janeiro de
1956, Pedro, ao tomar o avião para a Praia das
Palmeiras, disse às esposas dos missionários: “Até logo,
meninas. Orem. Eu creio que hoje é o dia.” E de fato foi.
Tinha sido combinado um contato por rádio com
Marj em Shell Mera para o meio dia e meia.
Profundamente emocionado, Nate disse a Marj pelo
rádio que havia localizado do seu avião uma “comissão
de dez” a caminho da Praia das Palmeiras. E em tom de
blague, concluiu: “Parece que eles vão chegar aqui em
tempo para o culto da tarde. Orem por nós. Este é o dia!
Ligarei de novo às quatro e meia da tarde.”
Exatamente às quatro e meia, Marj ligou o rádio.
Este era o momento em que a grande notícia do encontro
com os aucas seria dada. Mas o rádio estava silencioso.
Que teria acontecido? Teriam eles sido convidados pelos
aucas para ir até a sua aldeia? Ela esperou um
pouquinho mais, porém o silêncio continuava. Uma série
de perguntas invadiu a mente de Marj e suas companhei¬
ras. Será isso? Será aquilo? Será...?
Vai entardecendo e o avião, que devia voltar, não
chega. Marj quebra o segredo e põe-se em contato com o
Dr. Art Johnston, médico do hospital da Rádio
Evangélica de Quito, que ali se encontrava.
Na manhã seguinte, Johnny Keenan, um dos pilotos
de Asas de Socorro, sobrevoou a Praia das Palmeiras.
Localizou o avião na praia com as asas rasgadas.
Nenhum sinal havia dos homens.
A esta altura a notícia corre célere pelo mundo:
“CINCO HOMENS DESAPARECIDOS NO TERRI¬
TÓRIO DOS AUCAS.”
As primeiras providências começam a ser tomadas
para o resgate dos cinco. Em todo o mundo, orações são
erguidas pela segurança dos jovens missionários.
Na quarta-feira, Johnny empreende seu quarto vôo
no Piper Pacer de Asas de Socorro. Marj está junto ao
rádio, que não abandonara desde o domingo à tarde. A
notícia chega na voz de Johnny: “Pude ver o corpo de um

114
deles na praia, boiando na água." Naquela mesma tarde.
Johnny divisa outro corpo a uns 70 metros da Praia das
Palmeiras. O helicóptero do Serviço de Resgate da Força
Aérea acaba por localizar quatro corpos. O corpo de Ed
McCullv nunca foi achado.
Quando a noticia foi dada às esposas, elas revelaram
aquele mesmo espírito de té c coragem que caracterizara
o marido de cada uma delas. Nenhuma atitude de
desespero ou de revolta, mas aquela certeza no coração
de que eles tinham feito o que sentiam ser a vontade de
Deus para eles e que não tinham sacrificado suas vidas
em vào.
Uma expedição terrestre foi organizada. Em três dias
alcançaram a Praia das Palmeiras. Uma sepultura
comum foi cavada e ali foram colocados os corpos dos
quatro que puderam ser encontrados. Ali, debaixo da
árvore em que haviam morado, e onde ansiosamente
esperaram pelos aucas para lhes falar de Jesus,
descansaram os seus corpos, varados pelas flechas, até o
dia da ressurreição.
Uma cerimonia fúnebre breve e simples foi realizada
sob a vigilância de soldados armados, porque um ataque
de surpresa poderia ser feito novamente. Uma tempesta¬
de tropical desceu exatamente naquele momento, para
tornar ainda mais difícil aquela hora.
O comandante do Serviço de Resgate perguntou às
viúvas se gostariam de sobrevoar a Praia da Palmeiras
para ver o túmulo dos maridos. Elas escolheram fazê-lo.
Com as faces de encontro às janelas do avião estavam
ajoelhadas para enxergar melhor. Olive Fleming lem¬
brou os versículos que Deus havia trazido ao seu coração
naquela manhã: “Porque sabemos que, se a nossa casa
terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um
edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus...
Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus...
Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que,
enquanto estamos presentes no corpo, estamos ausentes
do Senhor” (II Coríntios 5. 1,5,6).
Quando o avião se preparava para afastar-se do local,
Marj Saint disse: “Este é o mais belo cemitério do mun¬
do.”
115

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EPÍLOGO
Q uando a notícia da morte dos cinco missionários
pelas lanças dos aucas correu mundo, muitas
perguntas começaram a ser levantadas.
Por que será que os índios teriam cometido esses
crimes?
Teria valido a pena o sacrifício dessas vidas jovens?
Será que as esposas iriam continuar os esforços para
entrar em contato com os aucas a fím de ganhá-los para
Cristo?
Estas foram algumas das muitas indagações feitas.
Para a primeira pergunta, a resposta é que os aucas
viviam sempre extremamente temerosos em relação “aos
de fora”. Julgavam-nos todos inimigos, que tinham o
propósito de destruí-los, canibais perigosos a quem
deviam combater sem tréguas.
“Jorge”, um dos que vieram visitar a Praia das
Palmeiras logo antes do massacre, teria voltado aos
aucas falando dos propósitos destruidores dos cinco
homens e assim havia instigado facilmente o grupo que
preparou a expedição mortífera.
Quanto à segunda pergunta, a resposta que Jesus
Cristo deu por ocasião da visita feita pelos gregos a Ele,
tornou -se profundamente verdadeira no caso presente.
Disse Ele com respeito à Sua morte: “Eu devo cair e
morrer como um grão de trigo que cai entre os sulcos da
terra. Se eu não morrer, ficarei sozinho — uma semente
isolada. Porém a minha morte produzirá abundante
safra de novas vidas. Se amarem sua vida aqui embaixo
— vocês a perderão. Se desprezarem sua vida aqui
embaixo — vocês a trocarão pela glória eterna” (João
12.24,25, Novo Testamento Vivo).
Mais uma vez o sangue dos mártires se tornava a
1 16
semente da Igreja.
Em toda a parte do mundo, indivíduos e grupos eram
vivamente tocados pelo sacrifício dos cinco. Aqui mesmo
no Brasil, um grupo de índios crentes no coração de
Mato Grosso, ao ouvir a notícia, caíram de joelhos e
pediram a Deus que lhes perdoasse por sua própria falta
de interesse em ganhar seus companheiros para Cristo.
Um jovem major da Força Aérea dos Estados Unidos se
apresentou como candidato de Asas de Socorro, a mesma
organização missionária que enviara Nate Saint. Um
jovem de dezoito anos pôs-se de joelhos em seu quarto e
orou: "Senhor, entrego minha vida sem reservas a Ti.
Desejo ocupar o lugar de um daqueles cinco.”
Ainda recentemente, Marj menciona em uma de suas
cartas o fato de encontrar, por onde quer que vá, pessoas
cujas vidas foram mudadas pelo que aconteceu aos cinco
missionários, muitas delas que sentiram a chamada para
se dedicar ao trabalho de Deus, pelo apelo daquelas
vidas abnegadas.
Ao saber que Nate havia perecido na praia, varado
pelas lanças dos aucas, Marj orou nestes termos:
“Senhor, tiraste de mim o tesouro mais precioso que eu
tinha na terra. Usa a sua morte ainda mais do que usaste
a sua curta vida.”
Deus respondeu a oração de Marj e a morte dos cinco
jovens produziu, nas palavras de Jesus, “muitos novos
grãos de trigo — uma abundante safra de novas vidas”
que se consagraram ao Senhor para levar o evangelho de
Cristo a toda criatura.
Entre esses “novos grãos de trigo” estão a filha e o
genro de Nate e Marj, Kathy e Ross, que já se
apresentaram a Asas de Socorro como candidatos à obra
missionária. Ross é filho de Frank e Maria Drown.
A terceira pergunta podemos responder que as
tentativas de alcançar os aucas prosseguiram por parte
de duas das viúvas, a esposa de McCully, Marilou, e a de
Jim, bem como a irmã de Nate, Raquel. Marj visitou
diversas vezes a aldeia dos aucas.
Não só prosseguiram, mas revestiram-se do mais
pleno êxito, numa série de milagres pelos quais as portas

117
se abriram de maneira maravilhosa, para que essas três
mulheres, verdadeiras heroínas, viessem a viver e se
identificar com os aucas.
A primeira porta se abriu quando Dayuma, aquela
menina auca, fugiu da sua tribo e se empregou na
fazenda do senhor Sevilla. Raquel, sabedora do fato, foi
à fazenda e ali começou a aprender com Dayuma a
língua dos aucas.
Mais tarde, Raquel e Dayuma passaram a residir com
Betty Elliot, que também estava interessada no aprendi¬
zado da língua a fim de evangelizar os aucas.
Dayuma foi visitar os aucas e lhes falou das duas
missionárias, regressando com um convite dos indígenas,
para que passassem a morar com eles. Era a primeira
vez que um convite desses era dirigido a brancos.
Afinal, no dia 8 de outubro de 1958, o dia tào
esperado chegou, quando o sonho de longos anos se
realizou e elas chegaram à aldeia dos aucas.
Betty Elliot ficou por dois anos com os aucas,
juntamente com sua filhinha Valerie.
Raquel Saint permaneceu entre eles todos esses
longos anos e realizou uma obra extraordinária, que
daria para se escrever um outro livro. Havendo recebido
o treinamento especial em linguística, que a organização
“Tradutores Wycliffe” oferece aos seus missionários,
estava capacitada a reduzir à escrita a linguagem auca e
a traduzir a Palavra de Deus para a língua deles.
Hoje eles já possuem várias porções bíblicas em auca,
têm sua igreja e seus cultos e um bom número deles já
aceitou a Cristo.
Entre eles está Kimo, que foi um dos matadores dos
cinco missionários e que, não só é um crente em Cristo,
mas também um pastor entre eles.
Em outubro de 1967, por ocasião do Primeiro
Congresso Mundial de Evangelismo em Berlim, Raquel e
Marj tiveram a experiência comovedora de ouvir alguns
dos que mataram os missionários levantar-se e dar o
testemunho do que Cristo significava para eles. É difícil
de imaginar o que devem ter sentido naqueles instantes!
Em 1965, Marj voltou ao local em que seu marido

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tombara como um herói das missões modernas. Ela
visitava novamente a Praia das Palmeiras juntamente
com Raquel. Dayuma e dez aucas. entre eles Kimo.
Com que propósito o fazia?
Sua filha Kathy havia revelado o desejo de ser
batizada e gostaria que isso se desse por ocasião da sua
visita à tia Raquel em Aucalândia. Alguém lembrou que
a Praia das Palmeiras seria o lugar ideal.
Na carta que Marj escreveu, narrando o aconteci¬
do. ela diz entre outras coisas:
“O batismo foi o ponto alto da nossa viagem... A
cerimónia foi muito simples... Dayuma leu para nós
do Evangelho de Marcos recentemente traduzido
para a língua auca (por Raquel). Em seguida Dayuwi
cantou em auca o hino “Jesus me ama”. Quatro
foram batizados: a minha Kathy e o meu Estêvão,
Iniwa, irmão adotivo de Dayuma, e Oncayi, uma
jovem que viera de outro grupo auca havia um ano.
Kimo falou aos quatro, explicando o significado do
batismo. Depois orou: ‘Pai, quando viemos aqui há
muito tempo, fizemos uma coisa má quando
matamos aqueles estrangeiros, mas hoje fizemos
aquilo que sabemos que desejavas que fizéssemos e,
um dia desses, todos vamos nos encontrar nos ares,
para estar contigo.”
Assim, um dos matadores dos cinco, nas mesmas
águas da Praia das Palmeiras, que então se mancharam
com o sangue dos mártires, agora batiza dois dos seus
filhos “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
Amém.”
Como muito bem diz Paulo, “onde abundou o
pecado, superabundou a graça” (Romanos 5.20).
“Quem somos nós”, dizia Marj naqueles dias
dolorosos, “para escolher se Ele nos usa na vida ou na
morte?”
Aos cinco Ele escolheu usar na morte, para que,
depois de mortos, eles ainda nos falem, como Abel
(Hebreus 11.4).
A você talvez Ele tenha escolhido usar na vida. Se Ele
está falando ao seu coração através das vidas desses
jovens que se sacrificaram pela salvação dos aucas, e
chamando-o para o Seu bendito serviço, responda, sem
hesitar e alegremente: “Eis-me aqui, envia-me a mim.”
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A curta mas intensa vida
de Nate Saint foi tào cheia
de acidentes e incidentes co¬
mo a de qualquer outro jovem poderia ser. mas
também foi marcada pela dedicaç&o à causa a que ele
a Consagrara: levar o evangelho de Cristo aos mais
distantes e solitários núcleos humanos.
Desde pequeno, Nate parecia destinado a uma
obra de pioneirismo. Seu gênio inventivo, aliado a
uma grande habilidade mecanica. seu desejo insaciá¬
vel de aventura e sua profunda fé cristã formaram.
dúvida, uma base sólida para os acontecimentos
dramáticos que se desenrolariam em tomo de sua
vida.
Depois de servir na Força Aérea, ele entrou para
*
Asas de Socorro”, que, então, dava os seus primeiros
passos. Iniciou seu trabalho como piloto-mecânico.
Entretanto, logo se lançou a outros empreendimentos.
que culminaram com a idealização e execução da ■
"Operação Auca”. que lhe custou a vida.
Mais do que o simples relato de uma aventura, O
Piloto das Selvas leva o leitor a participar do desafio
da vida missionária pioneira e a sentir o impacto
produ/ido pelo evangelho na vida do selvagem. O
Piloto das Selvas é a história empolgante da vida de
um jovem que fez das asas de seu avião um
instrumento para levar a Cristo homens e mulheres
esquecidos no coração dos Andes.

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