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ESTADO LAICO E

LAICIDADE: DEBATES
CONTEMPORÂNEOS
Rosana Carvalho Paiva

_________________________________________________________

Laicidade e Estado laico são categorias que têm entrado no bojo de discussões
que enveredam no campo político contemporâneo brasileiro e,
consequentemente, têm sido abordadas academicamente em diferentes áreas de
conhecimento. Um mapeamento das produções acadêmicas em forma de teses e
dissertações produzidas recentemente1 permite perceber as temáticas que têm
estado mais prementes e as tomadas de posição dos pesquisadores quanto às
lutas e disputas que atravessam o campo religioso e o campo político. E no palco
destas lutas, liberdade religiosa e multiculturalismo emergem também como
conceitos analíticos para uma compreensão do campo político brasileiro. A
laicidade, por mais controversas que sejam as possibilidades de definição
conceitual e aplicabilidade prática, é evocada constitucionalmente como
garantia para consolidação da liberdade religiosa. Este princípio, por sua vez,
conforme será apresentado, tem ganhado ênfase ao ser acionado enquanto uma
política de reconhecimento.

A posição do Estado brasileiro quanto às religiões é mais complexa e


controversa do que a simples definição de que o Estado brasileiro é laico
permite entrever. Conforme Emerson Giumbelli (2008), a presença da religião
no espaço público brasileiro é constituída mediante certa articulação com o
Estado que lhe confere legitimidade e que não necessariamente seja fruto de um
rompimento com o secularismo, visto ter se construído no interior da aplicação

1
O recorte escolhido abrange os anos de 2011 a 2016.
Estado Laico e Laicidade

deste princípio, mesmo porque a religião se encontra submetida a um poder


secular, o Estado. Este argumento é sustentado pela análise histórica da relação
entre Estado e Igreja. A separação entre Estado e Igreja, estabelecida
Constituição de 1891, que se aproximava do ideal de secularização, foi seguida
por uma redefinição das relações entre Estado e religiões com a Constituição de
1934, que estabelece uma relação de cooperação entre ambos nos campos da
educação, saúde e assistência social. Segundo Giumbelli (2008), temos neste
momento um marco histórico que contribui para compreendermos a
participação da religião no espaço público no Brasil. Essa participação não
seria um ferimento ao princípio da laicidade e o que assistimos na modernidade
constitui um redimensionamento do religioso (GIUMBELLI, 2002).

A secularização, enquanto um processo histórico de perda da presença do


religioso na vida social na modernidade, enquanto um modelo descritivo e
prescritivo adotado a partir do referencial de Weber (2004), restou como um
projeto não realizado plenamente (MONTERO, 2006, 2012). Talal Asad (2003)
analisa a secularização enquanto ideal de modernidade e conclui que, ao
contrário da posição normativa quanto ao “desencanto do mundo”, a religião
sempre esteve associada a poder e sua participação no campo político
contemporâneo não é novidade. Inclusive, a categoria “secular” precisa ser
desnaturalizada e questionada tendo em vista que está inserida em um sistema
2
classificatório e diz respeito a uma condição histórica específica e não universal.
O mesmo valeria para a distinção entre esfera pública e esfera privada,
comumente adotadas como referenciais para distinguir e delimitar o raio
possível de abrangência do religioso e do secular na modernidade. Conclui Asad
que sempre há diálogo entre religião e política e não uma passagem de
substituição de uma por outra. E este diálogo está condizente com a
modernidade. Conforme ainda Paula Montero (2006), a ideia de secularização é
insuficiente, pois não houve uma separação entre esfera privada (religião) e
esfera pública simplesmente, mas a presença histórica da religião na sociedade
civil no Brasil, que tem sido reforçada pela atuação dos neopentecostais,
principalmente na mídia.

Como tem sido analisada a laicidade do Estado brasileiro diante da participação


da religião, enquanto sociedade civil, na esfera pública? Uma mirada sobre essa
questão será apresentada a partir do levantamento de 26 teses e dissertações
que fundamentam suas abordagens a partir de situações empíricas enquanto
dimensões em disputa no campo social e político brasileiro. A busca por este
corpus recorreu a alguns critérios que recortaram seu universo. O primeiro foi
traçado pelas condições e possibilidades de análise para os limites deste artigo,
através da escolha das universidades públicas onde fazer o levantamento nos
repositórios e bancos de teses e dissertações on line. Haja vista, felizmente, a

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Estado Laico e Laicidade

grande amplitude de programas de Pós-Graduação, a busca foi restrita a


universidades federais de alguns estados, numa seleção posta em diálogo com o
Relatório sobre Violência e Intolerância Religiosa no Brasil (2011 – 2015)2.
Assim, foram pesquisados os bancos de teses e dissertações de uma
universidade pública em cada um dos estados em que foram feitos os trabalhos
de campo para a escrita do relatório. Foram investigados os bancos de teses e
dissertações on line da UFAM, UFBA3, UFPE, UFPB, UFRJ, UFRGS, UnB, USP,
UFMG, UFES, com um recorte de período entre 2011 e 2016. Uma pesquisa de
maior fôlego para o estado da arte que versa sobre laicidade do Estado poderia
englobar pesquisas em outras universidades e estados, bem como outras
publicações como artigos, papers e livros. A análise aqui apresentada não
objetivou, contudo, abranger a totalidade. A proposta é libertar-se de uma
disposição para representatividade, apresentando uma abordagem descritiva
que ao fim indica os temas, recortes empíricos e disputas de posição no campo
nas pesquisas recentes em nível de Pós-Graduação sobre Estado laico e
liberdade religiosa.

Foram utilizados os termos “estado laico”, “laicidade” e “liberdade religiosa”


como palavras-chave para a busca. Outro critério foi a centralidade do tema nos
trabalhos. Foram priorizados os temas sociais e políticos do contexto brasileiro
sobre os quais os conceitos de laicidade e Estado laico, bem como liberdade
3
religiosa, têm sido acionados como parte central do seu esforço analítico. Assim,
foram descartados trabalhos que versam exclusivamente sobre aspectos
teóricos, seja sobre autores, sociólogos, antropólogos, juristas e filósofos, que
discutem tais conceitos, sem a remissão ao universo empírico em questão; bem
como pesquisas que não retrataram o universo brasileiro, mas de outros países.
O levantamento não enfocou uma área de conhecimento específica, o que tornou
possível identificar que as discussões estão presentes no interesse de
pesquisadores das áreas de direito, educação, antropologia, sociologia, história,
ciências políticas, serviço social, ciências das religiões. Nas diversas áreas,
diante de vários objetos de estudo, os trabalhos analisados trazem leituras sobre
os modos em que o campo religioso e o campo político se enlaçam ou se
afastam.

2
O Relatório sobre Violência e Intolerância Religiosa no Brasil (2011 – 2015) foi publicado em
2016, apresentando dados nacionais, em um projeto desenvolvido com o apoio da Organização dos
Estados Ibero-Americanos (OEI) e da Escola Superior de Teologia (EST), por uma equipe de
pesquisadores, na qual estive integrada, sob coordenação da Secretaria de Direitos Humanos.
Para integração ao corpo do Relatório, pesquisas qualitativas mais aprofundadas foram realizadas
em nove estados brasileiros e o Distrito Federal (Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais,
Espírito Santo, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Sul e Amazonas), selecionados entre aqueles
que apresentam os maiores índices de denúncias pela Ouvidoria de Direitos Humanos.
3
Apenas na UFBA não foi encontrado nenhum trabalho disponibilizado on line que atendesse a
todos os critérios da seleção.

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Estado Laico e Laicidade

Através da leitura das teses e dissertações foram traçados dois referenciais de


observação: os temas e problemáticas das pesquisas e os posicionamentos
ideológicos dos autores. No que se refere às tomadas de posição dos autores,
estas nem sempre são explícitas. Nem todos trabalhos assumem uma posição de
reflexividade, na qual o sujeito objetivante objetiva a si próprio, desnaturaliza o
que lhe parecia familiar e analisa de modo consciente o arcabouço subjetivo que
o conduz a uma tomada de posição. Em pesquisas que versam sobre religião,
ainda que sobre o campo político em que se descortinam, o religioso configura
um dos elementos que constitui disposições relacionadas à posição de origem do
sujeito (BOURDIEU, 2005).

Mesmo quando o posicionamento do autor não está explícito, a análise do


discurso e do encadeamento argumentativo permitem entrever qual seria. E
sobre qual posição seria essa? Seria sobre o nó górdio que se pode extrair das
discussões sobre laicidade no Estado brasileiro: como pode ser descrita esta
laicidade, quais suas especificidades, limites, entraves, (i)legitimidades e
possibilidades de abertura para atos de Estado que trazem embasamentos
religiosos? Ao fim, se observa que o próprio conceito de laicidade se encontra
em disputa.

Foram identificadas 21 dissertações de mestrado e cinco teses de doutorado,


4 organizadas nas categorias seguintes, apresentando também o número de
trabalhos: a) análises constitucionais e tópicos políticos gerais (3); b) história da
laicidade no Brasil (3); c) uso de símbolos religiosos em espaços públicos (1); d)
escola e ensino religioso (8); e) religião e assistência social (1); f) atuação
política de grupos e agentes religiosos (5); g) concessão pública de mídia e
religião (1); h) religião, direitos sexuais e reprodutivos e conceito de família (4).

Os trabalhos serão apresentados de maneira resumida e em seguida serão


retomados aspectos que representam pontos de convergência ou divergência
entre eles e que permitem entrever um panorama sobre como o conceito de
laicidade se encontra hoje em disputa em torno da legitimidade de sua
definição. Muitos temas são recorrentes no conjunto dos trabalhos; são
retomados seguidas vezes, em especial a história jurídica da laicidade no Brasil
e os debates contemporâneos sobre direitos de minorias sexuais que encontram
oposição de setores evangélicos e católicos, paradoxalmente, em convivência
com atual contexto de políticas multiculturalistas. Será evitada uma repetição
desnecessária com restrição às argumentações centrais de cada autor.

Um quadro síntese informativo sobre o corpus analisado está disposto a seguir:

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Estado Laico e Laicidade

USP

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavraschave


Guilherme Borges Ortodoxia em dois Programa de 2014 Maria Helena Oliva Igreja Católica;
Ferreira Costa tempos do PósGraduação em Augusto Conservadorismo;
clericalismo político Sociologia, Secularização;
à secularização Dissertação Direitos
estatal (mestrado).
humanos; Sociologia
da Religião.
Tatiana Robles Liberdade Religiosa Faculdade de 2012 Alexandre de
Seferjan e Laicidade do Direito. Dissertação
Estado na (mestrado). Moraes
Constituição de 1988
Joana Zylbersztajn O Princípio da Faculdade de 2012 Virgílio Afonso da Princípio da 5
Laicidade na Direito. Tese Silva Laicidade; Estado
Constituição Federal (doutorado). Laico Democracia;
de 1988 Direito

Constitucional;
Direitos
Fundamentais;
Direitos Humanos.
Rafael Issa Obeid Os debates em torno Faculdade de 2013 José Reinaldo de
do estado Direito. Dissertação Lima Lopes
confessional (mestrado).
brasileiro do século
XIX (1842 – 1889)

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Estado Laico e Laicidade

UFRGS

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Cesar Alberto Laicidade à Programa de 2012 Ari Pedro Oro Estado laico;
Ranquetat Júnior Brasileira: um PósGraduação em Secularismo;
estudo sobre a Antropologia Social. Símbolos religiosos,
controvérsia em Tese(doutorado). e Catolicismo.
torno da presença de
símbolos religiosos
em espaços públicos
Norberto Decker Quem Aprova, Antropologia. 2013 Emerson Giumbelli Religião; Assistência
Levanta a Mão: um Dissertação Social; Participação;
estudo antropológico (mestrado). Políticas Públicas.
6
das relações entre
religião e políticas
públicas desde o
conselho municipal
de assistência social
de Porto Alegre (RS)
Ricardo Cortez A situação da Sociologia. 2015 Raquel Andrade Sagrado; Religião;
Lopes Religião com relação Weiss Universidade;
a Universidade Laica Dissertação(mestrado). UFRGS; Laicidade;
: uma análise a Sociologia da
partir da
Moral.
perspectiva dos
atores

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Estado Laico e Laicidade

UFPE

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Maria Edi da Silva Diversidade Programa de 2011 Roberta Bivar Antropologia; Espaço
Religiosa na Escola PósGraduação em Carneiro Campos Público; Escolas
Pública: um olhar a Antropologia. Públicas; Pluralismo
partir das Dissertação Religioso;
manifestações (mestrado).
populares dos ciclos Religiosidade;
7
festivos Feriados e Festas
Cívicas.
Karla Alexandra Ensino Religioso e Programa de 2016 Aurenéa Maria de Educação; Ensino
Dantas Freitas Diálogo na Escola: PósGraduação em Oliveira Religioso;
Estrela um estudo sobre a Educação. Identidade;
reconstrução/ Dissertação Tolerância; Discurso.
ressignificação (mestrado).
histórica da
disciplina a partir do
conceito
PósEstruturalista da
identidade na cidade
de João Pessoa
Luiz Gonzaga Moura Entre Dizeres, Programa de 2015 Aurenéa Maria de Educação; Currículo;
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Estado Laico e Laicidade

Penteado Saberes e Fazeres: PósGraduação em Oliveira Escola Pública;


Educação. Ensino Religioso.
Os espaços Dissertação
vivenciados pelo (mestrado).
Ensino Religioso no
currículo da escola
pública

em Recife no período
de 1996 à 2014
Jose Pereira de Estado Laico, Igreja Programa de 2015 Carlos Alberto Cunha República; Igreja
Souza Júnior Romanizada na PósGraduação em Católica;
Paraíba Republicana: História. Tese Miranda Romanização;
relações políticas e (doutorado). Paraíba.
religiosas
8

(1890 – 1930

UFMG

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Nara Pereira A Formação da Programa de 2011 Brunello Stancioli Liberdade Religiosa;
Carvalho Liberdade Religiosa: PósGraduação em Laicidade;
Direito. Dissertação Autorrealização;
Peculiaridades e (mestrado).
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Vicissitudes no Brasil Pessoa Humana.

UNB

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Tatiane dos Santos “A casa dos ímpios se Programa de 2011 Lia Zanotta Machado
Duarte desfará, mas a tenda PósGraduação em
dos retos Antropologia Social.
Dissertação
florescerá”: a (mestrado). 9
participação da Frente
Parlamentar
Evangélica

no legislativo
brasileiro.
Ana Vitória Sampaio Amor, Ordem e História. Dissertação 2014 Daniel Barbosa Casamento Civil;
Castanheira Rocha Progresso: casamento (mestrado). Andrade Divórcio;
e divórcio como Secularização.
desafios à laicidade do de Faria
Estado (18471916)
Vinícius Franzoi Liberdade de Religião Programa de 2014 Miroslav Milovic Presença religiosa;
ou Laicidade Estatal: PósGraduação em Liberdades de
A Direito. Dissertação expressão e de
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Estado Laico e Laicidade

(in)constitucionalidade(mestrado). religião;
da presença religiosa
nos serviços Laicidade estatal;
Radiodifusão;
públicos de rádio e Proselitismo.
televisão
Rayani Mariano dos O Debate Parlamentar Programa de 2015 Flávia Biroli Aborto; Câmara dos
Santos sobre Aborto no PósGraduação em Deputados;
Brasil: atores, Ciências Políticas. Desigualdades de
posições e Dissertação Gênero; Feminismo.
argumentos. (mestrado).
Bianca Alves Silveira “Sob o Céu Azul de Programa de 2016 Luís Roberto Igualdade;
Nuvens Doidas da PósGraduação em Cardoso de Oliveira Dignidade; União
Capital do meu País, Antropologia Social. Homoafetiva;
10 nós Legislamos!”– A Dissertação Família; Direitos
ADI 4277 (mestrado). LGBT;

e o conceito de família Reconhecimento;


na Câmara dos Arranjos Familiares;
Deputados Modernidades.
Leonardo da Silva O Estado Laico no Direito. Dissertação 2016 Evandro Charles Movimento LGBT;
Santana Confessionário: a (mestrado). Piza Duarte Bancada Evangélica;
atuação religiosa e a Estado Laico.
luta pela cidadania
LGBT durante a
tramitação do

PLC 122/2006

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Estado Laico e Laicidade

UFRJ

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Janayna de Alencar Educação, Laicidade, Programa de 2011 Emerson Alessandro Ensino Religioso;
Lui Religião: PósGraduação em Giumbelli Laicidade; Religião;
controvérsias sobre a Sociologia e Espaço Público.
implementação do Antropologia. Tese
ensino religioso em (doutorado).
escolas 11

públicas
Amanda André de Religião na Escola: Programa de 2012 Luiz Antônio Cunha Educação Pública;
Mendonça Registros e PósGraduação em Laicidade; Ensino
Polêmicas na Rede Educação. Religioso.
Estadual Dissertação.

do Rio de Janeiro

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Estado Laico e Laicidade

Allan do Carmo Silva Laicidade versus Programa de 2013 Luiz Antônio Cunha Educação Pública;
confessionalismo na PósGraduação em Laicidade; Ensino
escola pública: um Educação. Religioso.
Dissertação
estudo em Nova (mestrado).
Iguaçu (RJ)
Nilton Rodrigues Liberdade Religiosa Programa de 2012 Yvone Maggie Religião. Intolerância
Júnior ou uma Questão de PósGraduação em religiosa. Identidade.
Política deSociologia e Estado. Movimentos
Identidade Antropologia. Tese
(doutorado). sociais.

UFES

12

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Washington Phillip Pentecostais na Programa de 2013 Sonia Missagia de Assembleia de Deus;
Spanhol Carneiro Política Capixaba: PósGraduação em Matos Pentecostalismo;
representação Ciências Sociais. Política;
parlamentar da Dissertação
Igreja Assembleia de (mestrado). Representação
Deus nas eleições Parlamentar.
(2002, 2006, 2010)

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Estado Laico e Laicidade

UFPB

Autor (a) Título Programa Ano Orientador (a) Palavras-chave


Flawbert Farias Brasil um País Laico: Programa de 2011 Glória das Neves Genética; Bioética;
Guedes Pinheiro uma análise da PósGraduação em Dutra Escarião Laicidade; Religião;
13
posição da igreja Ciências das Globalização.
católica Religiões.
Dissertação
sobre as pesquisas (mestrado).
da área da genética”
Rosilene Avelino A história do ensino Programa de 2012 Glória das Neves Religião; Ensino de
Alves religioso no Estado PósGraduação em Dutra Escarião Religião;
da Paraíba: Ciências das EnsinoReligioso.
mudanças e Religiões.
Dissertação
implicações (mestrado).
(19842004)

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a) Análises constitucionais e tópicos políticos gerais

A laicidade do Estado na Constituição de 1988 é afirmada, ou deixada implícita,


através do artigo 19, inciso I, que proíbe a celebração ou subvenção de cultos
religiosos ou igrejas à União, estados e municípios, além de estabelecer relações
de dependência e aliança, salvo colaborações restritas ao interesse público. Este
é um ponto comum entre todas as teses e dissertações. A amplitude das
discussões envolve quais seriam os domínios do campo político em que o
conceito de laicidade estaria sendo posto em questão.

As teses e dissertações analisadas afirmam que a laicidade teria contornos


muito próprios no Brasil, haja vista a forte influência da religião sobre o Estado,
revelada em alguns dispositivos constitucionais e infraconstitucionais. Este
argumento é defendido por Joana Zylbersztajn (2012) e Tatiana Seferjan (2012)
que defendem que a laicidade brasileira teria um caráter relativo, haja vista que
certas ligações de atos de Estado a elementos religiosos não necessariamente
feririam seus princípios e que por laicidade não se pode compreender uma
postura ateia ou anticlerical. O ensino religioso, os efeitos civis do casamento
religioso e assistência religiosa são prerrogativas garantidas juridicamente e
que caminham junto ao exercício da liberdade religiosa. Seferjan (2012) defende
que a laicidade do Estado constitui mais um ideal ou projeto a ser sempre
buscado do que uma prática política efetiva. A influência de uma religião sobre o
Estado já se torna explícita na invocação a Deus no preâmbulo da Constituição.
Contudo, a partir da avaliação dos outros tópicos, em termos de garantia à
liberdade religiosa, a autora defende que uma maior secularização seria mais
benéfica.

Ambas autoras apontam os limites da laicidade que têm sido postos em questão
em debates recentes sobre direitos de minorias, apontando alguns temas que se
farão presentes em outros trabalhos acadêmicos, seja como objeto central de
análise, seja como exemplos trazidos como argumentos pelos autores.
Zylbersztajn (2012) centraliza sua análise no Programa Nacional de Direitos
Humanos (PNDH3) e os debates travados em 2010 sobre a proibição de
símbolos religiosos em prédios públicos, tópico que foi retirado do texto final do
Programa a partir da pressão da CNBB. O debate serve como pano de fundo
para pontuar algumas questões: até que ponto questões morais podem ser ou
não compreendidas como argumentos religiosos na defesa ou condenação de
uma política pública? Até que ponto deputados podem defender a agenda
religiosa de sua base? Os direitos reprodutivos e de minorias como os
homossexuais podem ser regulamentados com base em posicionamentos
religiosos?
Estado Laico e Laicidade

Seferjan (2012) acrescenta a estes exemplos o debate sobre a legalização do


aborto, a existência de feriados religiosos e ensino religioso, realização de
provas de concursos públicos em dias sagrados para algumas religiões, a
questão da transfusão de sangue para Testemunhas de Jeová como exemplos de
práticas que ferem o princípio da laicidade e por vezes representam até mesmo
atos de intolerância religiosa. A influência religiosa está presente na existência
de capelanias militares através das quais representantes religiosos se tornam
funcionários do Estado; a limitação da assistência religiosa e o registros com
fins civis, como o de casamento, a religiões organizadas institucionalmente; a
possibilidade do ensino religioso ser confessional e a Concordata estabelecida
entre o governo brasileiro e a Sé Romana em 2008. Os tópicos trazidos à tona
pelas autoras demonstram a singularidade do Estado brasileiro no sentido de
um afastamento do princípio de laicidade.

Nara Carvalho (2011) enfatiza como a religião traz elementos para a


autorrealização humana e constituição de sua personalidade. Portanto, a
garantia à liberdade religiosa constituiria um direito fundamental que só se
torna alicerçado através da laicidade estatal. A autora aponta que a
religiosidade cristã constitui um elemento agregador da sociedade brasileira,
mas também segregador, haja vista sua prevalência em debates como os direitos
da população LGBT e a legalização do aborto – tema sobre o qual girou a
15
campanha presidencial de 2010 e conferiu peso de aceitação ou rejeição aos
candidatos Dilma Rousseff e José Serra a depender da maneira como se
portaram favoráveis ou contra o aborto. Nesse sentido, direitos de cidadania se
veem ameaçados a partir de argumentos morais e religiosos, quando deveriam
ser debatidos com base em uma sensibilidade ética.

Os três trabalhos nesse quesito apresentam relativa sinonímia entre a


conceituação de laicidade e a de secularidade, apontando, como uma e outra
não têm espaço prático no campo político brasileiro e que sua efetivação é
importante como garantia da liberdade religiosa e do reconhecimento de
direitos de minorias.

b) História da laicidade no Brasil

Como se constituiu historicamente esta laicidade controversa? Esta é uma


questão a qual se dirigem os autores dos trabalhos aqui analisados, seja com
maior aprofundamento, seja ao menos pontuando os marcos legais de referência
constitucionais, de 1824 até 1988. Nestas análises, no momento em que buscam
descortinar a constituição da laicidade, apresentam também a persistência da

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Considerações sobre a Lei 10.639

presença católica no campo político do Estado brasileiro. Três trabalhos foram


mais específicos no trato historiográfico.

Rafael Obeid (2013) aponta que o debate sobre secularização e separação entre
Estado e Igreja Católica se descortina ao longo de toda a metade do século XIX,
muito antes da questão religiosa ou “questão dos bispos” de 1873. Através de
uma história do pensamento jurídico, ele apresenta como o Estado confessional
imperial foi se dissolvendo à medida que o poder civil entrava em debate com o
poder eclesiástico. As migrações de trabalhadores europeus para o Brasil
representaram um estímulo à liberdade de culto (privado) garantida pela
primeira Constituição imperial de 1824, ainda que o Estado tenha sido mantido
confessional. Ao analisar as consultas encaminhadas ao Conselho de Estado, ele
nota que o debate se fez presente entre 1842 a 1889, com as discussões sobre a
delimitação do poder da Igreja, visto que esta constituía braço burocrático do
Estado devido ao regime do padroado. A separação entre Igreja e Estado na
Constituição republicana de 1891 e o fim do regime do padroado corresponde,
portanto, à culminância de debates que já vinham sendo traçados no âmbito da
doutrina jurídica nacional em defesa de um projeto de secularização.

Nestes debates traçados no século XIX, há um tema específico sobre o qual


girou a defesa ou oposição à secularização. Ana Vitória Rocha (2014) apresenta
16 como divórcio e casamento civil se tornaram temas centrais na segunda metade
do século XIX e início do século XX, representando tanto a defesa da laicidade
do Estado quanto a garantia de direitos civis especialmente para minorias como
as mulheres e cidadãos não católicos. A reação provinda de políticos e religiosos
foi a de defender a chancela da Igreja como imprescindível para a manutenção
da ordem familiar e social. Havia uma quase coincidência entre ser católico e
ser cidadão, que veio a ser rompida com o acesso a direitos civis. O debate
demonstrou como a hegemonia católica estava em ameaça, confirmada após a
separação entre Estado e Igreja em 1890 e a instituição do casamento civil. Por
fim, a autora faz uma breve remissão à luta pela legalidade da união civil de
pessoas do mesmo sexo, que enfrenta oposição similar na contemporaneidade.

Através de uma análise histórica, José de Souza Júnior (2015) apresenta as


consequências da separação entre Estado e igreja católica na Paraíba. Sua
conclusão é que houve benefícios para a Igreja Católica, que passou a ter maior
autonomia, mas também houve prejuízos como a perda de privilégios e
possibilidade de poder no acesso aos fiéis. Foram elaboradas estratégias para
uma reestruturação. Tendo em vista as oposições num campo de forças no qual
estavam presentes agentes do protestantismo, espiritismo e maçonaria, que
também disputavam repercussão no espaço social, a Igreja Católica passou a
investir mais na divulgação da fé através de jornais e encíclicas, além de dar

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Estado Laico e Laicidade

ênfase ao ensino religioso confessional.

c) Escola e Ensino Religioso

A temática da educação e o ensino religioso foi a que esteve presente no maior


número de teses e dissertações. Todos os oito trabalhos acabam por demonstrar
a presença do religioso na escola de uma maneira naturalizada pela via das
religiões hegemônicas cristãs, sobretudo a católica. Essa naturalização é
descrita como presente tanto nos conteúdos e dinâmicas em sala de aula da
disciplina de ensino religioso, quanto no ambiente escolar como um todo, no que
se refere, por exemplo, ao calendário festivo.

A presença do religioso na escola é analisada por Allan Silva (2013) e por Maria
Edi da Silva (2011). Ambos partem de etnografias, realizadas em escolas
públicas em Nova Iguaçu (RJ) e Recife, respectivamente e concluem que essa
presença ocorre de maneira naturalizada de modo que a laicidade do Estado não
é posta em questão por aqueles que compartilham a roupagem cultural
hegemônica. Maria Edi da Silva (2011) toma como objeto o calendário escolar e
suas festividades e conclui que agentes (estudantes e pais) evangélicos,
umbandistas e candomblecistas identificam essa presença religiosa católica e se 17
sentem discriminados e não representados no ambiente escolar. Allan Silva
(2013) assume uma postura reflexiva ao posicionar-se na introdução como
membro da Igreja Batista desde a infância e, ao longo da dissertação, não deixa
de ter uma postura crítica sobre o objeto e defensora da laicidade do Estado. Ele
enfatiza a presença do ethos cristão em símbolos, músicas, textos sagrados,
orações, datas do calendário. Observa que a presença da religião,
especificamente do ethos cristão, se mostra tanto no âmbito intra quanto
extracurricular, de modo confessional e proselitista.

Luís Gonzaga Penteado (2015), Janayana Lui (2011), Amanda de Mendonça


(2012), Karla Alexandra Estrela (2016) e Rosilene Alves (2012) centralizam suas
pesquisas na disciplina de ensino religioso, em trabalhos que apresentam
algumas convergências e também oposições. As pesquisas apresentam
levantamentos históricos e jurídicos que demonstram como o ensino religioso
sempre esteve presente desde o Brasil Colônia, enquanto parte das ações da
Igreja Católica. A alteração para que fosse adotado um caráter laico na
Constituição de 1891, perdurou até 1934, quando foi mantido confessional até
1988, quando a nova Constituição reafirmou seu caráter laico. A partir da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação, Lei 9.394 de 1996, com reformulação do artigo
33 em 1997, o ensino religioso é mantido laico, com ônus financeiro para o

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Considerações sobre a Lei 10.639

Estado, e com valorização e respeito da diversidade religiosa e da


multiculturalidade. Não sendo de caráter confessional, a formação dos
professores deve ser em ciências da religião, área de conhecimento que toma as
religiões como objeto por uma metodologia comparativa. A questão que paira
nestes trabalhos é se efetivamente o ensino religioso empregado nas escolas
tem respeitado a diversidade religiosa e cultural de alunos e professores.

Luís Gonzaga Penteado (2015), Janayana Lui (2011), Amanda de Mendonça


(2012), Karla Alexandra Estrela (2016) enfatizam como o ensino religioso nas
escolas tem sido empregado de modo a valorizar unicamente a ética e moral
cristãs, revelando preconceito contra outras religiões, especialmente as
afrobrasileiras. Luís Gonzaga Penteado (2015) discute o ensino religioso em
Recife a partir da análise de discursos de entrevistas com professores e alunos.
Sua tomada de posição favorável ao ensino religioso está relacionada à sua
posição como professor e que tem atuado na defesa do ensino religioso. A partir
da análise de discursos, e também de sua própria experiência, verifica a
presença do discurso cristão, mas conclui que tal presença é inevitável por se
tratar do padrão hegemônico socialmente. Mais do que isso, enquanto um
recorte da cultura, é intrínseco na formação da identidade dos sujeitos. Seria,
portanto, para Penteado (2015), um universalismo inevitável. Desta forma, há
um descumprimento do dispositivo jurídico que se revela na presença de
18
proselitismo, preconceito e desrespeito às identidades culturais e religiosas
afrobrasileiras. Uma formação mais adequada aos professores seria capaz de
atenuar isso.

Amanda de Mendonça (2012) e Karla Alexandra Estrela (2016) chegam a uma


conclusão diferente de Penteado (2015). Mendonça apresenta uma etnografia
das aulas de ensino religioso em escolas públicas do Rio de Janeiro com fins de
discutir o papel da religião nos processos de socialização no ambiente escolar.
Observa a presença das religiões hegemônicas cristãs tanto em esfera formal
quanto informal na relação entre professores e estudantes e estes entre si, de
modo que há uma violência simbólica. O catolicismo é analisado pela autora
como um arbitrário cultural dominante e que é vivido na escola de maneira
naturalizada, sem questionamento quanto a seus valores e normas, tomados
como universais. Como resultado, a autora conclui que a presença da religião na
escola reafirma preconceitos, discriminação e repressão através da imposição
de habitus dominantes por meio de uma violência simbólica.

A dissertação de Estrela (2016) analisa o fenômeno religioso como um elemento


que tem passado por transformações no contexto pós-moderno e multicultural.
Neste âmbito, o argumento da autora é que o ensino religioso precisa ser
ressignificado. A partir da análise de discursos de entrevistas com professores

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Estado Laico e Laicidade

de ensino religioso e estudantes de escolas públicas de João Pessoa, a autora


chega à conclusão que a disciplina tem passado por um momento de transição,
no qual se encontram de maneira híbrida a ideologia cristã e a ideologia laica
com valorização da multiculturalidade. Há valorização unicamente da ética e
moral cristã; desrespeito quanto ao direito dos estudantes que não queiram
assistir aula e posição de insegurança de professores quando há situações de
preconceito em sala; predomínio da formação e convicção religiosa pessoal
sobre os conhecimentos passados, nem sempre feita de modo consciente. A
posição tomada pela autora não é a de buscar ser contra ou a favor da existência
do ensino religioso nas escolas, mas a importância de que este se mantenha
laico, conforme os ditames da LB n. 9.475/97 art. 33.

Janayana Lui (2011) discute sobre o posicionamento da religião na esfera


pública também a partir do ensino religioso nos estados de São Paulo e Minas
Gerais. Seguindo a tese de Giumbelli (2002), o religioso tem tido maior espaço
na contemporaneidade, opondo-se à tese weberiana de “desencantamento do
mundo”, argumentando que tem ocorrido um processo de “redimensionamento”
do lugar da religião e não uma secularização. A autora apresenta que
atualmente há controvérsias entre agentes públicos e religiosos sobre qual deve
ser o posicionamento das relações entre Estado e religião, por exemplo, com a
assinatura do acordo entre Brasil e Vaticano assinado no governo Lula em 2008.
19
A laicidade à brasileira difere-se, por exemplo, do laicismo francês. Aqui, o
Estado não tem se mantido neutro em matéria de religião e esta tem ocupado
cada vez mais espaço na vida política. Longe de ser um aspecto plenamente
aceito, tal posição tem sido alvo de disputas e discussões.

A última dissertação que aborda o tema da relação entre religião e educação é


de autoria de Rosilene Alves (2012). A análise parte de uma abordagem histórica
e documental sobre o ensino religioso na Paraíba entre 1984 e 2004. Seu
objetivo é discutir a presença do ensino religioso nas escolas e acaba por
justificá-la afirmando não se tratar de uma disciplina confessional, mas apoiada
nas ciências da religião. De maneira reflexiva, retrata que seu interesse pelo
tema surgiu, quando a partir de sua experiência como professora de história, foi
instada a ministrar aulas de ensino religioso. A princípio, por falta de instruções
e formação adequada, lecionou aulas de ensino católico. Ao longo de doze anos
de atuação, entretanto, foi participando de encontros e cursos que
proporcionaram a ampliação de seus conhecimentos, que culminaram no
mestrado em ciências da religião. Esta participação é descrita como tendo lhe
possibilitado um olhar crítico sobre a aplicação de políticas públicas referentes
ao ensino religioso na Paraíba. A proposta da dissertação alinha-se com a defesa
de melhorias nestas políticas públicas em prol da manutenção de um ensino
religioso que respeite a diversidade religiosa.

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Considerações sobre a Lei 10.639

A conclusão de Alves (2012) é que apesar dos avanços em termos de dispositivos


legais, na Paraíba o ensino religioso não foi tomado como uma política pública,
daí a presença de entraves, principalmente na formação de professores, para
que ele não se limite a ser um ensino confessional e sim um ensino que propicie
o entendimento do fenômeno religioso no quadro da diversidade religiosa.
Portanto, assim como Penteado (2015), para Alves (2012) esforços em termos de
políticas públicas e formação adequada de professores em ciências da religião
podem corroborar para a plenitude do cumprimento das prerrogativas legais
quanto ao respeito à diversidade religiosa. Hipótese que não é corroborada
pelos outros autores, principalmente aqueles que buscaram esmiuçar as práticas
de ensino através de abordagens etnográficas.

d) Religião e Assistência Social

Além da educação, a assistência social também se configurou como campo no


qual a interferência da religião mostrou-se objeto relevante para a escrita de
uma dissertação em antropologia na UFRGS, de autoria de Norberto Decker
(2013). O locus de observação foram os conselhos setoriais de políticas públicas
do Conselho Municipal de Assistência Social de Porto Alegre. Realizando
20 primeiramente uma análise da assistência social no Brasil, Decker (2013)
observa a presença histórica da religião, principalmente de confissão católica,
na assistência prestada por conventos, irmandades e ordens religiosas. O
serviço social no Brasil seria calcado por valores morais cristãos centrados na
ideia de filantropia e também por laços patrimonialistas e clientelistas na esfera
política. O processo de redemocratização trouxe a discussão de um serviço
social encarado como política pública enquanto um direito de acesso a cidadania
e não a marca das vítimas e excluídos socialmente, sob o prisma de uma visão
cristã. Apesar desse deslocamento, as instituições religiosas continuam sendo
importantes agentes em projetos de assistência social, representando outro
movimento, este contemporâneo de transferência de ações estatais para a
sociedade civil. A conclusão de Decker (2013) é que este representa um
redimensionamento da posição da religião na esfera pública e os dois campos
podem coexistir sem que seja ferida a laicidade do Estado. Os agentes
participantes de instituições religiosas católicas, protestantes e espíritas, além
de terem atuação destacada na assistência social, apresentam postura e
discurso secularizados em suas atuações no Conselho Municipal de Assistência
Social. Apesar da proposta de Decker ter sido de realização de uma etnografia,
são apresentados poucos dados etnográficos de modo a melhor embasar suas
argumentações, tornando possível contrapor suas conclusões com outras
etnografias, na área de educação, nas quais são apresentadas as discrepâncias

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Estado Laico e Laicidade

entre discurso e prática decorrentes principalmente da naturalização do ethos e


ética cristã.

e) Símbolos Religiosos em Espaços Públicos

Outro tema polêmico dos últimos anos refere-se à discussão sobre a presença de
símbolos religiosos em espaços público, objeto de análise de César Ranquequat
Júnior (2012), adentrando em um debate mencionado por Zylbersztajn (2012),
conforme visto. Ranquequat Jr. apresenta o debate que pontua de um lado um
argumento a favor de que a presença dos símbolos fere o princípio da laicidade,
pois privilegia um grupo religioso em detrimento dos demais; ao passo em que
uma linha contrária de argumentação defende que se trata de uma expressão da
tradição cultural e histórica brasileira. Este debate se condensou em torno do
Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), aprovado em 2009, que continha
um artigo que tornava impeditivo a presença de símbolos religiosos em espaços
públicos. Em 2010, devido à pressão da Igreja Católica, o artigo foi suprimido.

Ranquequat Jr. (2012) declara propor um posicionamento neutro quanto ao


debate, mas é possível notar seu posicionamento em sua argumentação teórica
sobre a relação entre símbolos, poder e agência, quando argumenta que as 21
Imagens possuem uma capacidade de agência na conformação de subjetividades
e por isso sempre recebem algum tipo de regulação jurídica pelos Estados. Os
símbolos têm agência e marcam a presença da religião. Essa presença é
analisada pelo autor em termos históricos, desde o monopólio da Igreja Católica
sobre atos cívicos e ritos de passagem, quando havia uma sobre determinação
entre ser católico e ser cidadão no Brasil. O processo de laicização teria
ocorrido de modo em que há separação entre Estado e Igreja Católica, mas com
continuidade da proximidade com o cristianismo, tomado como elemento
formador da sociedade nacional. O que se pode inferir da análise do autor é que
a hegemonia cristã é mantida através dos símbolos religiosos, cuja agência e
poder de influência não podem ser minimizados.

f) Atuação Política de Grupos e Agentes religiosos

Embora o tema da atuação política de evangélicos esteja presente de modo


diluído em vários dos trabalhos analisados, este constitui o objeto de análise de
ao menos dois deles. Tatiane Duarte (2011) realiza uma análise da atuação da
Frente Parlamentar Evangélica (FPE) no legislativo brasileiro.Duarte analisa as
eleições majoritárias de 2010; a atuação de evangélicos na Assembleia

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Considerações sobre a Lei 10.639

Constituinte de 1987 e a atuação da FPE, tendo etnografando os cultos


evangélicos que ocorrem no cotidiano legislativo.

Duarte (2011) descreve que a entrada de evangélicos na política ocorreu a


partir dos anos 1980, tendo maior atuação na Assembleia Constituinte, quando
se posicionaram contra os movimentos feminista, gay, comunista além da
influência do Vaticano no Brasil. Conseguiram barrar o termo “orientação
sexual” no texto constitucional, no rol de direitos a serem garantidos. A
argumentação utilizada para essa intervenção direta na vida pública é de
estarem combatendo o “inimigo”, impedindo-o de espalhar o “mal”. Seguindo
essa linha, a FPE foi formada em 2003 majoritariamente por deputados ligados à
Assembleia de Deus. A proposta de formação da frente pautou-se na
evangelização dos deputados, realização de cultos e defesa de interesses
comuns, principalmente que tratavam sobre família, corpo, pessoa, vida,
nascimento e morte. Nas eleições majoritárias de 2010 o tema da legalização do
aborto tornou-se por um período o nó górdio da disputa que girou em torno das
posições religiosas dos políticos e do eleitorado sobre o tema. O projeto de
sacralização da vida secular e do Estado levado em curso pela FPE pode ser
considerado como de ocupar posição semelhante à da Igreja Católica no
passado, como religião civil. A posição da autora é que a laicidade pressupõe a
convivência com a diversidade religiosa, não necessariamente o secularismo.
22
Entretanto, as ações da FPE revelam que decisões políticas têm sido tomadas
através de posicionamentos confessionais de modo a impedir o cumprimento dos
direitos humanos e dos princípios de cidadania, representando, portanto, um
ferimento à laicidade.

Washington Carneiro (2013) apresenta um estudo mais particularizado sobre o


mesmo tema focando a presença da Assembleia de Deus nas eleições para o
legislativo estadual em 2002, 2006 e 2010 no Espírito Santo. O argumento
lançado pelo autor é que há nexos entre as escolhas de lideranças religiosas no
espaço das igrejas e a escolha de lideranças políticas, de modo em que se
preservam valores e práticas de autoritarismo, nepotismo e clientelismo,
representando uma oposição à democracia. Através da análise dos pleitos e de
entrevistas com candidatos, Carneiro (2013) observou o processo de escolha dos
candidatos, realizado a partir de uma comissão política da Assembleia de Deus,
que os apresenta como candidatos “ungidos”, que devem receber os votos dos
fieis da igreja. Representa uma afirmação da identidade dos membros da igreja
e também uma sacralização da política, dentro de um projeto nacional para que
a Assembleia de Deus se torne hegemônica. Colabora para isso o “voto do
cajado”, manobrado a partir do pastor e baseado no apelo religioso. A conclusão
apresentada na dissertação é que ainda que no caso do Espírito Santo não se
possa falar de uma bancada evangélica, existem deputados desta linha que se

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Estado Laico e Laicidade

reconhecem em algumas bandeiras relacionadas a comportamento e


sexualidade, mas não a um projeto político mais amplo relativo a educação,
economia e estrutura social.

A presença da Igreja Católica na esfera pública é fato comum em todos os


trabalhos, de menções mais superficiais a análises mais aprofundadas,
geralmente em digressões históricas sobre o Estado confessional e a
dissociabilidade em 1891, a presença da Igreja em serviços como educação e
assistência social, além do lobby para aprovação ou rejeição de dispositivos
jurídicos, principalmente no que versa sobre a presença de símbolos religiosos
em espaços públicos, conforme discutido por Ranquetat Jr (2012) e sobre
direitos sexuais e reprodutivos, tema que será abordado a seguir. A dissertação
de Flawbert Pinheiro (2011) aborda mais propriamente esta presença ao
discorrer sobre o posicionamento da Igreja sobre as pesquisas com células-
tronco, tema específico que contrapõe os fundamentos morais católicos à
bioética. O autor não deixa de mencionar sua filiação ao catolicismo por
formação familiar, mas adota uma postura crítica quanto ao objeto. Busca
responder à questão de como a influência da Igreja Católica é exercida
atualmente no Brasil e encontra a resposta na emissão de documentos como a
Instrução Dignitas Personae “Instruções sobre algumas questões de Bioética”,
publicada em 2008, que traz recomendações de restrições das possibilidades de
23
pesquisa genética. De modo mais enfático, analisa a Concordata Brasil / Santa
Fé, acordo entre o Estado brasileiro e o Vaticano, firmado em 2008. Este acordo
referese ao estatuto jurídico da Igreja e demonstra sua posição privilegiada no
campo político e social. Alguns pontos merecem destaque a respeito deste
acordo, como o direito a indicar as instituições eclesiásticas que ofertam
formação em ensino religioso e a serem reconhecidas pelo governo. A soberania
nacional é refutada pelo impeditivo ao Estado que reconheça outra instituição
católica além da Igreja Católica Apostólica Romana e pelo impeditivo de que o
vínculo de eclesiásticos seja considerado empregatício, além da extensão da
imunidade tributária a pessoas jurídicas eclesiásticas. O argumento de Pinheiro
(2011) é que a concordância com estas cláusulas demonstra a força da
influência da Igreja Católica sobre o Estado brasileiro, podendo-se considerar
que esta influência está presente também nas posições morais e éticas quanto
às pesquisas em genética com uso de células-tronco embrionárias, pois para a
Igreja não implantá-las em um útero é o mesmo que praticar o aborto.

Nilton Rodrigues Jr. (2012) apresenta uma tese que discorre sobre a
participação política de religiosos afro-brasileiros com o argumento principal
considerar que os movimentos sociais relacionados ao combate à intolerância
religiosa estão mais próximos da defesa pelas políticas de identidade do que
com a defesa pela liberdade de crença. O posicionamento crítico quanto ao

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Considerações sobre a Lei 10.639

multiculturalismo acompanha a questão da laicidade do Estado, que emerge


como um conceito evocado tanto por religiosos de matriz africana quanto por
evangélicos.

A pesquisa realizada por Rodrigues Jr. usou vários meios para coleta de dados:
entrevistas com lideranças religiosas; matérias de jornal, cartilhas e relatórios; e
observação etnográfica durante o acompanhamento de encontros, audiências,
reuniões e outros eventos públicos, relacionados à temática de maneira geral e à
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa – CCIR. Rodrigues investiga tanto
as instituições e agentes estatais, quanto aqueles provenientes das principais
confissões religiosas presentes no Brasil avaliando tanto a cena em que se
situam quanto as histórias de vida de atores individuais.

A proposta executada por Rodrigues Jr. é de uma discussão ampla que envolve
três dimensões: os movimentos sociais, o Estado e o campo religioso. No que se
refere às ações do Estado, Rodrigues acompanha a Assembleia Legislativa do
Rio de Janeiro (ALERJ) e o Poder Judiciário. Segundo o autor, este são lóci
privilegiados de observação, haja vista que vivemos na contemporaneidade um
processo de reivindicação pelo acesso a direitos de quarta geração, mobilizados
por movimentos sociais e direcionados a identidades coletivas. Ao analisar os
discursos pronunciados na ALERJ, Rodrigues Jr. observa que em todos há
24 afirmação de defesa do Estado laico e da tolerância entre as religiões. São então
questionadas quais são as posições existentes a respeito do que seria “Estado
laico”, haja vista em que este conceito aparece em disputa por agentes de
posições religiosas e políticas distintas e se torna uma categoria de acusação
direcionada sempre ao outro.

Os discursos referem-se a vários projetos de lei que de maneira resumida


versam sobre a criação de dias em homenagem a entidades da umbanda e
candomblé4; outro projeto pela criação da frente parlamentar cristã pela defesa
da vida e da família5; outro que dispõe sobre o ensino religioso nas escolas com
defesa da diversidade religiosa e repúdio ao proselitismo e atitude missionária6;
entre outros discursos abertos na tribuna. Observa-se nestes exemplos
mapeados por Rodrigues duas posições que se chocam: deputados que se
aproximam da defesa das religiões afro-brasileiras e aqueles que se aproximam
das religiões evangélicas. A troca de acusações mútuas é de que cada lado não
estaria defendendo o Estado laico. Rodrigues aponta uma grande problemática:
todos concordam que o Estado é e deve ser laico, mas não há uniformidade

4
Projetos de lei 1927/2008; 1925/2008 e 1924/2008.
5
Projeto de lei 26/2007
6
Projeto de lei 1069/2007

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Estado Laico e Laicidade

conceitual, principalmente quando novas situações concretas surgem para


serem discutidas e legisladas. O tema dos religiosos de matriz africana foi
identificado neste único trabalho, ao contrário da expectativa inicial ao ser
realizado o levantamento de teses e dissertações, embora menções de passagem
estejam presentes nos estudos sobre educação e ensino religioso. Esta quase
ausência pode estar relacionada a uma menor preocupação ou a uma menor
existência de choques entre laicidade do Estado e religiões de matriz africana,
sendo estas mais visadas por agenda que enfoca a questão da violência e
intolerância entre religiões.

g) Religião e Concessão Pública de Mídia

Vinícuis Franzoi (2014) apresenta um debate em outro campo no qual a ligação


entre Estado e religião mostra-se polêmica. Em sua dissertação em direito
defendida na UNB, com orientação de Miroslav Milovic, ele discute sobre a
outorga do Estado de serviços de rádio e televisão a grupos religiosos. Haveria
um ferimento à laicidade estatal? Por outro lado, o seu impeditivo não
representaria um ferimento à liberdade de expressão? Em 2011, o Conselho
Curador da Empresa Brasil de Comunicação proibiu os programas religiosos na
TV Brasil. No ano seguinte, pela pressão de que a liberdade de expressão estaria 25
ferida, o Conselho voltou atrás e criou a “Faixa da Diversidade Religiosa da
EBC”. O debate torna-se mais complexo tendo em vista que o proselitismo é
proibido legalmente pela Lei 9.612/ 1998, atingida pela Ação Direta de
Inconstitucionalidade 2.566, pelo Partido Liberal, em 2001. Segundo a Ação, a
proibição do proselitismo fere o princípio da liberdade de expressão. A ação foi
negada pela Procuradoria Geral da República que afirma que não há restrição à
livre manifestação de pensamento. Franzoi (2014) enfatiza que se trata de um
conflito em que está em jogo o papel da religião no Estado democrático de
direito. Sua conclusão difere é que a manifestação de pensamento, ainda que
proselitista em si, não fere o princípio da laicidade, desde que a diversidade
religiosa esteja garantida e presente. Assim, o problema estaria no fato de que
as concessões se encontram limitadas a apenas duas religiões, católica e
evangélica.

Posso concluir, com base nos dados apresentados pelo autor, que estaria em jogo
uma oposição entre igualdade formal, que é garantida, e a igualdade material,
que não se faz presente. Ressalto que as duas dissertações que focam na
presença evangélica na política, de autoria de Duarte (2011) e Carneiro (2013)
mencionam a importância da presença dos evangélicos na grande mídia como
parte da disseminação e crescimento da religião e do posicionamento ideológico

Intolerância Religiosa 2(1), jul-dez, 2017


Considerações sobre a Lei 10.639

quanto ao projeto de busca de legitimidade e alcance de hegemonia.

h) Religião, Direitos Sexuais e Reprodutivos e Conceito de Família

O tema do aborto é discutido por Rayani dos Santos (2015) através da análise
dos discursos proferidos na Câmara dos Deputados entre 1991 a 2014. O estudo
identificou que, a partir do ano de 2005, a mobilização da bancada evangélica
aumentou de modo a se opor à legalização do aborto em uma mobilização que
culminou nos debates que ocorreram nas eleições presidenciais de 2010. A
posição de Santos (2015) a respeito do aborto é a defesa pela legalidade da
prática enquanto um direito das mulheres de autonomia sobre seu próprio
corpo, reconhecimento de sua cidadania e como forma de coibir práticas
clandestinas que causam consequências para a saúde das mulheres, incluindo a
morte. Há dois projetos de lei que buscam ampliar a legislação que reconhece a
legalidade do aborto em caso de estupro e quando há risco de morte para a mãe.
Um deles é o PL4403/2004 que trata do aborto em caso de fetos com
anencefalia, já decidido favoravelmente pelo Supremo Tribunal Federal e o
outro é o PL 20/1991 que exige atendimento do SUS nos casos de aborto
previsto legalmente. Ambos são enfrentados duramente pela Bancada da Bíblia,
26 envolvendo católicos e evangélicos, que por sua vez defendem o PL 478/ 2007, o
“Estatuto do Nascituro”. A autora apresenta uma análise quantitativa da
reincidência dos argumentos contrários ao aborto. Mais de 50% apontam a
inviolabilidade do direito à vida, seguido da maior porcentagem de argumentos
com base religiosa (30%), moral (24%), jurídico (24%) e de opinião pública
(22%). Além disso, uma análise qualitativa dos discursos proferidos demonstra
como é pontuado claramente que a oposição à legalização do aborto ampara-se
na concepção religiosa sobre o início da vida humana. Os direitos das mulheres
enquanto cidadãs são negligenciados nestes discursos.

Três trabalhos versam sobre a população LGBT e os conflitos políticos devido


aos pressupostos religiosos de parlamentares. Bianca Silveira (2016) apresenta
uma etnografia sobre as repercussões relativas à Ação Direta de
Inconstitucionalidade 4277, que reivindica o reconhecimento da união civil de
pessoas do mesmo sexo, e o PL 6583/ 2013, o Estatuto da Família. Através da
análise de documentos e pelo acompanhamento de audições, reuniões,
discussões em redes sociais e entrevistas com deputados e militantes, Silveira
(2016) aponta como a definição de família tem sido cunhada em termos jurídicos
a partir de um posicionamento religioso em defesa da família heteronormativa
exclusivamente. Assim, a Frente Parlamentar Evangélica une-se à Frente
Parlamentar Mista Católica Romana em defesa de seus princípios éticos e

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Estado Laico e Laicidade

morais cristãos. A aprovação do Estatuto da Família, com essa definição


restritiva de família acaba por excluir homossexuais de direitos e acesso a
cidadania, como os programas de assistência social. Em última análise, a autora
compreende que a laicidade se vê confrontada, bem como os valores relativos
aos direitos humanos, como a liberdade, igualdade, dignidade e acesso a
cidadania.

Leonardo Santana (2016) também debate a relação entre Estado laico e acesso a
cidadania pela população LGBT em sua dissertação na área de direito. Seu
enfoque é a análise de discursos proferidos durante a tramitação do PLC
122/2006 que determina a punição de condutas discriminatórias quanto à
orientação sexual, em outras palavras, a criminalização da homofobia. Outros
dispositivos jurídicos são abordados, como o decreto legislativo 243/ 2011,
conhecido como o projeto da “Cura Gay”; a Ação Direta de Inconstitucionalidade
contra a Resolução 175 do CNJ que reconhece o união civil de pessoas do
mesmo sexo; as manifestações contra inclusão de discussões sobre gênero no
Plano Nacional de Educação; o PL 6883/ 2013 que estabelece um conceito
restritivo de família heteronormativa; a mobilização do deputado Jair Bolsonaro
(PSC/ RJ) contra o projeto “Escola sem Homofobia”; o PDC 395/2016 escrito às
pressas por deputados como forma de sustar o decreto 8727/ 2016, assinado
pela presidente Dilma Rousseff pouco antes de ser afastada e que regulariza o
27
uso do nome social por transexuais e transgêneros.

Santana (2016) observa como PLC 122/ 2006 tem enfrentado forte antagonismo
na Câmara dos Deputados e Senado a partir de posicionamentos relativos a uma
ética e moral cristãs. Desta forma, pontua que o Estado laico compreende hoje
um ideal de difícil realização, haja vista a preponderância destes valores no
espaço público. Nem mesmo as discussões do grupo de trabalho criado para
este fim na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa foram
suficientes para impedir que o PLC retornasse para a Câmera dos Deputados.
Santana (2016) apresenta uma análise minuciosa, traçando um quadro onde
sistematiza as manifestações, posicionamentos e lugar de fala de cada agente.

Os discursos religiosos foram usados para combater o PLC, fazendo uso de


citações bíblicas, tomadas como referência inquestionável e universal.
Referenciais cristãos também foram fundidos ao discurso biológico da diferença
de sexo entre “macho” e “fêmea” e a função do sexo estritamente para
reprodução, para sustentar o argumento do equívoco que seria a
homossexualidade. O suposto “império dos homossexuais” é mencionado nos
discursos como causa futura do extermínio da humanidade. Nos discursos dos
parlamentares da FPE, os direitos de cidadania da população LGBT são
considerados uma afronta à laicidade do Estado, pois os evangélicos teriam,

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Considerações sobre a Lei 10.639

segundo eles, o direito de pregar contra a homossexualidade e sua liberdade


religiosa não estaria garantida com a aprovação do PLC 122/ 2006. Nesta
dissertação torna-se mais evidente o quanto o conceito de laicidade envolve uma
plasticidade, inserido em uma disputa pela legitimidade da interpretação
correta. O problema é que nesta discussão, enquanto os princípios religiosos são
tomados como referência, os senadores estão se opondo aos princípios
constitucionais relativos à dignidade humana.

A dissertação de Jefferson Pereira (2014) procurou investigar os discursos


caracterizados como de LGBTfobia na mídia do Amazonas e do Congresso
Nacional e nos pronunciamentos da Câmara de Deputados e do Senado sobre o
Projeto de Lei 5003/ 2001 ou PLC 122/ 2006. Esta dissertação em Serviço Social
e Sustentabilidade na Amazônia não tem a laicidade do Estado como objeto
central, mas este tema surge de maneira transversal e inevitável. Os discursos
contra a chamada “PL da Homofobia” são considerados pelo autor como
relativos a uma estratégia de biopolítica do Estado e que conta com apoio
público de evangélicos como o pastor Silas Malafaia da Igreja Assembleia de
Deus Vitória em Cristo e Marcelo Crivella (PRB/ RJ), que qualifica o PLC 122/
2006 como “lei da mordaça”, por impedir os pronunciamentos de evangélicos
contra a homossexualidade. Nesta linha de argumentação, a fé das pessoas
estaria sendo criminalizada e não a conduta violenta com base na homofobia.
28
Nos discursos dos “parlamentares pastores” o sujeito não heterosexual é
descrito como “pecador” e, com base nisso, seus direitos de cidadania poderiam
lhes ser negados. Para estes parlamentares, garantir o direito de pregar contra
a hipossexualidade seria um exercício de liberdade religiosa e de manutenção da
laicidade do Estado, ainda que invista contra direitos humanos.

Considerações Finais

O conceito de laicidade tem se encontrado em uma disputa na esfera pública,


pela sua aplicação em dispositivos jurídicos, no campo político e da educação,
assistência social e mídia. “Laicidade” e “Estado laico” são usados como
argumento na defesa de posição de grupos antagônicos, no que podemos
qualificar como uma luta de classificações, que, conforme Bourdieu (2008)
representa uma luta simbólica e política para impor uma visão sobre o espaço
social. O conceito de laicidade e sua aplicação prática e política no âmbito do
Estado brasileiro se encontram imbricados numa luta de classificação que é
descrita no corpus analisado como efetivada nas interrelações entre o campo
religioso e o campo político que disputam pela imposição de sua visão como
legítima. Os conflitos que surgem nos vários campos de saber e categorias do

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Estado Laico e Laicidade

espaço social podem ser compreendidos como reportando-se a uma clivagem


entre de um lado evangélicos e católicos (e espiritas, na oposição contra o
aborto) e do outro lado uma série de agentes, com destaque para ativistas e
defensores de direitos humanos e representantes de movimentos sociais, ou
simpatizantes com as causas de minorias religiosas, étnicas e de gênero e
sexualidade. As teses e dissertações enfatizaram o quanto esta clivagem se
revela na Câmara dos Deputados e Senado, na rede pública de ensino, nos
conselhos de participação social e na mídia.

O processo histórico de construção da laicidade no Brasil é enfatizado como


forma de compreensão da atualidade. Os trabalhos apontam como, desde
meados do século XIX, são iniciados debates sobre secularização que
culminaram com a separação entre Estado e Igreja na Constituição de 1891. Por
outro lado, os trabalhos também apontam a mudança operada a partir dos anos
1980 e significativamente durante a Assembleia Constituinte de 1987, com o
aumento da participação de evangélicos na vida política e as consequências
como a formação da Bancada da Bíblia e a Frente Parlamentar Evangélica, de
forte atuação na defesa de posicionamentos com base religiosa, ainda que estes
firam os princípios de cidadania e dignidade humana.

A configuração da luta de classificação quanto ao entendimento e uso de


laicidade torna-se explícita com a defesa, principalmente por grupos 29
evangélicos, de que sua participação política se configura como expressão
política laica. A presença da religião é inegável no campo político brasileiro,
estando em jogo uma definição de fronteira entre religião e Estado, mas uma
fronteira que permite diálogo inclusive dentro do conceito de laicidade.
Redimensionamento de como se configura essa participação, na expressão feliz
de Ranquitat Jr. (2012), teríamos uma “laicidade à brasileira”, revelada por uma
forma que busca integrar o referencial cultural cristão, historicamente
hegemônico, considerado como referente fundamental da nação, às
prerrogativas de neutralidade frente à diversidade:

Em linhas gerais, já delineiam-se nessas passagens algo do


que pode ser chamado de “laicidade à brasileira”. A
separação formal e jurídica entre Estado e religião é
afirmada; no entanto não se propugna a separação da nação
do cristianismo. Nesse sentido, o Estado mantém uma
relação de proximidade, benevolência e simpatia com os
grupos religiosos cristãos, reconhecendo neles um fator de
ordenamento moral e controle social. A religião,

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Considerações sobre a Lei 10.639

principalmente o cristianismo, é tomada como um elemento


formador das consciências e alicerce da identidade
nacional. Desse modo, a garantia da liberdade religiosa, e a
igualdade de todas as confissões religiosas, não significa a
privatização do religioso; pelo contrário. (RANQUETAT JR.,
2012, p. 60, 61)

Alguns grupos religiosos têm se aproximado em suas ações de políticas de


reconhecimento, almejando a reversão de uma situação de desrespeito e perda
da sociabilidade infligida em um conflito social. O reconhecimento de grupos
particulares, específicos, atenderia a uma eticidade normativa, a ser também
regulada juridicamente (HONNETH, 2003), que aspira à justiça social e à
paridade participativa (FRASER, 2006, 2009). Conforme Giumbelli (2008), no
que diz respeito aos grupos religiosos, suas ações podem ser compreendidas
com base em duas modalidades de argumentação. O argumento generalista é
englobante. Ao ser empregado diz respeito a várias categorias religiosas. Seria,
por exemplo, a defesa da liberdade religiosa, que constitui um princípio válido
para todas religiões. O argumento de base diferencialista refere-se a uma
expressão religiosa particular e costuma ser utilizado de modo relacional a uma
30 cultura, configurando uma situação de “etnização da religião7”. O jogo entre
ações generalistas e diferencialistas atualmente tem repercutido sobre
instrumentos legais, regulações e políticas públicas de diversos domínios, sendo
este o fundo sobre o qual se delineia o atual redimensionamento do religioso no
campo da política, por parte de agentes distintos em busca de legitimidade
(GIUMBELLI, 2002, 2008).

Um secularismo radical, que nega e rechaça as religiões, não poderia conviver


com o multiculturalismo. A demanda por reconhecimento das religiões
minoritárias pressupõe a participação do religioso na esfera pública e não sua
restrição à esfera privada. Por outro lado, um certo grau de secularismo é
necessário para que se rompa a vinculação do Estado à religião hegemônica,
permitindo a participação das demais (MODOOD, 1998). Acrescento que nem
sempre o embate ocorre entre religiões, mas também a partir de grupos
minoritários, como mulheres e LGBT, aspirando acesso a direitos e organizados
nos novos movimentos sociais.

Quando se trata de laicidade no Estado brasileiro, o que está em jogo, então,

7
Giumbelli (2016) salienta que, paradoxalmente, as igrejas neopentecostais têm se utilizado de uma
base diferencialista para justificar sua defesa da liberdade religiosa, quanto, por exemplo, ao direito
de manifestar oposição à homossexualidade, mas seu projeto é de maioria, de tornarse hegemônica.

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compreende a luta por liberdade religiosa e a oposição entre um ideal de nação


homogênea, fundamentada na matriz cristã, na dominação masculina, branca e
na heteronormatividade e o fenômeno recente dos novos movimentos sociais
que irrompem esta concepção demonstrando a diversidade religiosa, cultural,
étnico-racial de gênero e sexualidades aspirando ao pleno reconhecimento.

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