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Análise da tecnologia BIM no contexto da indústria da construção civil

brasileira

ARTIGO ORIGINAL

MIRANDA, Rian das Dores de [1], SALVI, Levi [2]

MIRANDA, Rian das Dores de. SALVI, Levi. Análise da tecnologia Bim no contexto da indústria
da construção civil brasileira. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano
04, Ed. 05, Vol. 07, pp. 79-98 Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

Contents

RESUMO
1. INTRODUÇÃO
2. CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DA PLATAFORMA BIM
2.1. AS DIMENSÕES DA TECNOLOGIA BIM
3. FERRAMENTAS BIM DISPONÍVEIS NO MERCADO
3.1. REVIT
3.2. AUTOCAD CIVIL 3D
3.3. INFRAWORKS
3.4. NAVISWORKS
3.5. GREEN BUILDING STUDIO
3.6. ARCHIBUS
4. CENÁRIO ATUAL DO BIM NO BRASIL E NO MUNDO
4.1. REINO UNIDO
4.2. NORUEGA
4.3. ESTADOS UNIDOS
4.4. CHINA
4.5. BRASIL
5. CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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RESUMO

A tecnologia Building Information Modeling (BIM) vem representando uma importante


mudança de paradigma na indústria mundial da construção civil. No cenário brasileiro, o
movimento de difusão deste novo conceito de projeto vem tomando força ao longo dos
últimos anos, impulsionado principalmente pelos benefícios econômicos e gerenciais
proporcionados pelo BIM ao longo de toda a vida útil do empreendimento. Neste contexto, o
presente artigo tem como foco apresentar o conceito e as características da plataforma BIM,
introduzir algumas das ferramentas BIM utilizadas para o desenvolvimento de projetos e
discutir o estágio atual de implementação desta tecnologia nas indústrias brasileira e
mundial.

Palavras-chave: BIM, modelagem 3D, AutoCad, Green Building, Archibus.

1. INTRODUÇÃO

A estrutura industrial da construção civil é altamente complexa, envolvendo diversos


stackholders ao longo da cadeia de produção. A comunicação eficaz entre projetistas,
construtores, fornecedores e clientes é fundamental para garantir o sucesso do projeto e a
satisfação de todas as partes. Entretanto, pesquisadores revelam que os métodos
tradicionais de projeto podem fragmentar o processo produtivo, ocasionando o isolamento
entre profissionais de áreas distintas e a falta de coordenação entre as equipes (Nawi et al.,
2014). Estudos publicados pela revista The Economist ainda revelam que ineficiências,
enganos e atrasos representam cerca de 30% do gasto total em construções por ano nos
Estados Unidos (The Economist, 2000 apud Barreto et al., 2016).

Neste contexto, o Building Information Modeling (BIM) surge como uma filosofia de trabalho
capaz de promover a integração entre as áreas de arquitetura, engenharia e construção
(AEC) ao longo de todo o ciclo de vida do projeto. Como consequência, o BIM apresenta um
elevado potencial para a otimização do planejamento e execução de projetos
multidisciplinares, gerando impactos positivos na qualidade dos projetos e na produtividade
das equipes de trabalho. Segundo o estudo conduzido pela McGraw Hill em 2012, empresas
que adotaram o BIM em obras de infraestrutura experimentaram uma redução de 22% nos

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custos de construção, 33% no tempo de projeto e execução, 33% nos erros em documentos,
38% em reclamações do cliente após a entrega e 44% nas atividades de retrabalho (MCGraw
Hill Construction, 2012 apud Radüns e Pravia, 2013).

O objetivo deste trabalho é apresentar o conceito da plataforma BIM, bem como discutir o
estágio atual de implementação desta tecnologia na indústria brasileira e mundial. Para
tanto, os seguintes objetivos específicos serão contemplados:

Apresentação das características inerentes aos softwares da plataforma BIM (seção 2);
Apresentação das dimensões do BIM (seção 2);
Introdução às ferramentas da plataforma BIM (seção 3);
Investigação do nível de aplicação do BIM nos cenários brasileiro e mundial (seção 4)

2. CONCEITO E CARACTERÍSTICAS DA PLATAFORMA BIM

Atualmente, existem diversos conceitos para descrever as funcionalidades da plataforma


BIM. Estes conceitos são complementares entre si, e buscam apresentar tanto os princípios
de modelagem quanto os benefícios proporcionados por esta tecnologia durante a vida útil
de um empreendimento.

Segundo Chuck Eastman, professor do Instituto de Tecnologia da Georgia e um dos


precursores da tecnologia CAD, “BIM é uma filosofia de trabalho que integra arquitetos,
engenheiros e construtores na elaboração de um modelo virtual preciso, que gera uma base
de dados que contém tanto informações topológicas como os subsídios necessários para
orçamento, calculo energético e previsão de insumos e ações em todas as fases da
construção” (Eastman, 2008 apud Gonçalves, 2018).

Seguindo a mesma linha, a AUTODESK (2018a) apresenta esta tecnologia como “um
processo inteligente de modelagem 3D que oferece ferramentas e conhecimentos aos
profissionais AEC para planejar, projetar, construir e gerenciar edificações e infraestruturas
de forma mais eficiente”. Já para Martinez (2010 apud Santos et al., 2017), o BIM permite a
construção de “um modelo digital do edifício que representa não só suas características
geométricas, mas também o inter-relacionamento entre seus componentes e os inúmeros
parâmetros e atributos destes, fornecendo informações relevantes para a tomada de

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decisão”.

As descrições apresentadas anteriormente destacam quatro características marcantes dos


modelos em BIM, são elas: a modelagem paramétrica, o levantamento de insumos, a
interoperabilidade e a geração de simulações. Assim, para que um software seja pertencente
ao BIM, é necessário que ele atenda a todas estas características.

A modelagem paramétrica é o fator que caracteriza a eficiência dos softwares pertencentes


ao BIM. Esta característica permite a agilidade na construção e edição dos modelos,
armazenando tanto as informações geométricas do projeto quanto as especificações de
materiais, suas características físicas e custos unitários. A parametrização ainda permite que
se estabeleçam critérios para a validação do projeto, a fim de checar a inconformidade de
um determinado parâmetro em relação aos padrões estabelecidos por norma. Entre os
exemplos de parâmetros de projeto do BIM encontram-se: as dimensões da estrutura,
coeficientes de empolamento e contração do solo, coeficiente de produtividade da mão de
obra, entre outros.

É válido ressaltar que durante a edição do modelo, todos os cálculos relativos ao


levantamento insumos são realizados automaticamente. Assim, reduz-se o risco de erros de
previsão orçamentária devido à eventuais negligências na quantificação de insumos,
especialmente em casos onde o modelo é editado repetidamente. Ao final da modelagem, é
possível gerar automaticamente um relatório de materiais de acordo com a última
atualização do projeto.

Segundo Alves et al. (2012) um dos grandes desafios na idealização de uma obra reside nas
dificuldades de comunicação entre os profissionais de arquitetura, engenharia e construção.
A fim de vencer esta barreira e garantir a efetiva comunicação entre todas equipes
envolvidas nas diversas disciplinas de projeto, as grandes empresas do mercado de
softwares da plataforma BIM lançaram a abordagem OpenBIM. A chave desta abordagem é a
interoperabilidade entre as diversas ferramentas da plataforma, permitindo que todos os
profissionais acompanhem o andamento das demais disciplinas do projeto, observando
eventuais alterações em tempo real. Deste modo, evitam-se a ocorrência de ruídos de
comunicação entre profissionais de áreas distintas.

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Para garantir a interoperabilidade dos softwares BIM, a organização BuildingSMART


desenvolveu a extensão de arquivos denominada Industry Foundation Class (IFC). O objetivo
deste formato é permitir a troca de informações durante todo o ciclo de vida do
empreendimento, entre todos os participantes, independentemente do software que eles
utilizem (BUILDINGSMART, 2018). Sendo assim, o IFC possibilita o trânsito de dados de um
determinado arquivo, por aplicações de diferentes finalidades, permitindo a transparência no
fluxo de trabalho de equipes multidisciplinares (GRAPHISOFT, 2018). Por este motivo, o IFC é
considerado o formato padrão das ferramentas BIM, sendo suportado por 150 aplicações em
todo o mundo (NBS, 2018a). Segundo Cardoso et al. (2013) existem cerca de 623 entidades
reconhecidas pelo formato IFC, como tipos de paredes e revestimentos, custos de
construção, horários entre outros.

A possibilidade de simulações do mundo real que o BIM proporciona é um grande recurso que
permite maior assertividade na tomada de decisões durante as fases de planejamento e
execução do projeto. Por meio das simulações, identificam-se possíveis interferências entre
as diversas disciplinas de projeto, elucidando a necessidade de correções ainda nas fases de
anteprojeto e projeto básico. Durante a fase de execução, as simulações garantem a
estabilidade do fluxo de trabalho, apresentando processos logísticos eficazes e tempos
reduzidos de construção (Bataglin et al., 2016).

Por fim, as simulações operacionais de cunho térmico, acústico, estrutural, de eficiência


energética, de inundações, de nível de serviço rodoviário entre outras, permitem avaliar a
performance do empreendimento as-built. Deste modo, é possível redimensionar um projeto
que apresente um desempenho insatisfatório antes mesmo de sua execução. Assim,
reduzem-se os custos com alterações no projeto durante o andamento das obras, garantindo
a eficiência na distribuição de recursos e o alinhamento com o cronograma da obra.

2.1. AS DIMENSÕES DA TECNOLOGIA BIM

As diversas atividades desempenhadas pelas equipes de projeto durante a vida útil do


empreendimento abrem espaço para a classificação do BIM em diferentes camadas de
informação, denominadas dimensões do BIM. Estas dimensões representam o nível de
informações e funcionalidades do modelo, bem como o seu contexto de utilização no ciclo de

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vida do projeto. De acordo com a literatura atual, as dimensões do BIM variam do 3D ao 7D e


expressam respectivamente: a forma, o tempo, os custos, a sustentabilidade e o
gerenciamento de instalações. A figura 1 ilustra as dimensões atuais do BIM.

Figura 1 – As dimensões do BIM.

Fonte: BIBLUS, 2018

Segundo a empresa britânica Digital Inc. (2018), os benefícios obtidos através de cada
dimensão da plataforma BIM são:

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Forma (3D): Modelagem paramétrica; representação aprimorada dos projetos; geração de animações e
passeios virtuais que favorecem a comercialização de projetos; auxílio às partes envolvidas no
gerenciamento de colaborações multidisciplinares durante a modelagem.
Tempo (4D): Coordenação entre as equipes de trabalho; otimização no planejamento das atividades de
construtores e fornecedores para atendimento aos prazos de projeto; simulações de processos e fluxos
de trabalho; gerenciamento do canteiro de obras; estabelecimento de cronogramas enxutos (Lean
Construction).
Custo (5D): Orçamentos em tempo real; levantamento de quantitativos de insumos para dar suporte
aos orçamentos;
Sustentabilidade (6D): Realização de análises de consumo de energia durante a operação do edifício;
simulações de iluminação solar, isolamento térmico, ventilação e emissão de CO2; rastreamento de
materiais sustentáveis aplicados à construção; rastreamento de créditos para a certificação LEED.
Gerenciamento (7D): Armazenamento de informações referentes aos dispositivos que compõem o
projeto, como manuais de operação e manutenção, especificações, prazos de garantia, informações do
fabricante, contatos, entre outros; estabelecimento de planos de manutenção e substituição de peças e
equipamentos; garantia de conformidade com as normas de operação do empreendimento.

3. FERRAMENTAS BIM DISPONÍVEIS NO MERCADO

Nos itens abaixo serão apresentadas ferramentas BIM disponíveis no mercado,


demonstrando seus propósitos e funcionalidades. É importante destacar que estes softwares
podem ser utilizados simultaneamente em um mesmo projeto, a fim de suprir as
necessidades técnicas das diversas equipes de trabalho.

3.1. REVIT

O Autodesk Revit é uma ferramenta voltada para arquitetos e engenheiros, e promove o


desenvolvimento de projetos arquitetônicos, estruturais e de instalações prediais. Entre as
principais vantagens do Revit estão a apresentação realística de projetos em 3D, a facilidade
de captação de cortes e fachadas e a praticidade na documentação dos trabalhos. O software
ainda opera nas dimensões 5D e 6D, permitindo o levantamento de quantitativos para
orçamentação e a realização de análises de eficiência energética (Alves et al., 2012). A figura

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2 apresenta o projeto da torre de Shangai renderizado pelo Revit.

Figura 2 – Torre de Shangai renderizada através do Revit.

Fonte: Autodesk, 2012.

3.2. AUTOCAD CIVIL 3D

O AutoCAD Civil 3D é um software voltado para projetos de infraestrutura, como estradas,


sistemas de drenagem, redes de tubulação forçada e terraplenagem. As ferramentas de
projeto apresentadas pelo programa garantem a praticidade e o dinamismo na obtenção de
perfis topográficos, na elaboração de alinhamentos horizontais e verticais e na representação
de seções transversais. Já as ferramentas de análise auxiliam as equipes de projeto na

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verificação da viabilidade técnica do empreendimento quanto a distâncias de visibilidade,


fluxo de escoamentos superficiais e alagamento de bacias hidrográficas. O software ainda
apresenta diversas extensões (chamadas de country kits) com estilos de documentação e
formulas para a validação de projetos de estradas baseados em manuais das principais
agencias de transportes de cada país.

3.3. INFRAWORKS

Uma das principais vantagens do Infraworks é a importação de projetos do Civil 3D para o


contexto do local onde as obras serão executadas, conforme apresentado na figura 3. Desta
maneira, é possível verificar as intervenções urbanas resultantes do projeto, antecipando
possíveis necessidades de desapropriação. O Infraworks ainda permite a condução de
simulações de tráfego em interseções com base na configuração prévia dos movimentos
permitidos, das demandas, das sinalizações e dos controles de tráfego (Bartels, 2016). Estas
simulações resultam na obtenção de indicadores de grande importância para a análise de
performance do sistema rodoviário, como o nível de serviço de interseções, a velocidade
média dos veículos, o fluxo de tráfego, os tempos médios de viagem, entre outros (Autodesk,
2018b). Através destas informações, é possível prever o funcionamento da rede rodoviária as
built, otimizando assim a sua performance.

Figura 3 – Projeto elaborado no Civil 3D e apresentado no Infraworks.

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Fonte: Autodesk Infrastructure, 2016.

3.4. NAVISWORKS

Esta ferramenta permite a coordenação e revisão de modelos 3D relacionados a diversas


disciplinas de projeto, a fim de garantir melhores resultados durante a sua execução. Ao
navegar pelo modelo, o usuário pode utilizar a ferramenta clash detective para a verificação
de interferências entre projetos de disciplinas distintas, e assim, corrigi-las antes da
construção. O Navisworks também permite a vinculação do modelo a cronogramas e
composições de insumos construídas através do MS Project ou do Excel (Ferreira, 2016).
Desta maneira, é possível prever a quantidade de materiais e mão de obra necessários para
a execução do projeto dentro do prazo estipulado. Por fim, o software ainda apresenta
simulações 4D, que auxiliam no sequenciamento da obra, na elaboração de estratégias de
ataque e na gestão do canteiro.

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3.5. GREEN BUILDING STUDIO

O Green Building Studio é uma plataforma na nuvem que permite a condução de análises de
performance relacionadas à sustentabilidade de edifícios. As análises podem ser realizadas
desde a fase de projeto até a operação do empreendimento, e contemplam tanto os
consumos de água, eletricidade e gás natural quanto a emissão de gás carbônico (Autodesk,
2013). Para efetuar as simulações, é necessário importar o modelo do edifício para a
plataforma, além de indicar a sua localização, tipo de uso e tempo de operação por dia.
Assim, o software é capaz projetar o consumo energético e seu custo com base no clima local
e no comportamento esperado dos usuários, além de identificar oportunidades de economia
energética.

3.6. ARCHIBUS

Trata-se de uma ferramenta online que possibilita o planejamento de estratégias para o


gerenciamento e manutenção do empreendimento. Entre uma série de benefícios
proporcionados pelo Archibus, destacam-se as análises que permitem reduzir a geração de
resíduos, prolongar a vida útil dos ativos, elaborar planos de manutenção preventiva ou
corretiva com maior eficiência, e avaliar o impacto das condições físicas de um equipamento
em sua performance (Archibus, 2009). Desta maneira, o software permite a tomada de
decisões de maneira assertiva, garantindo a otimização das operações e a mitigação de
riscos ao longo da vida útil da estrutura.

4. CENÁRIO ATUAL DO BIM NO BRASIL E NO MUNDO

Segundo Wong et al. (2009), as regras de implantação do BIM apresentam peculiaridades de


acordo com as circunstâncias do país, e podem depender de fatores como tamanho e a
natureza de seu sistema econômico. Sendo assim, conhecer as soluções e resultados obtidos
através do BIM nas mais diversas economias do mundo é uma maneira de identificar as
oportunidades de implementação da plataforma no contexto brasileiro.

Neste sentido, os itens a seguir buscam apresentar o nível de utilização do BIM no Brasil, no

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Reino Unido, na Noruega, nos Estados Unidos e na China, identificando as ações de fomento
por parte das iniciativas pública e privada, os benefícios alcançados e as expectativas para o
futuro.

4.1. REINO UNIDO

De acordo com Kassem e Amorim (2015) a indústria da construção civil representa 7% da


economia britânica. Entretanto os relatórios intitulados “Construindo a equipe”,
desenvolvidos por Latham entre a década de 90 e o início dos anos 2000, definiram a
indústria britânica como “conflitante” e “fragmentada”. Os relatórios ainda cobravam o
desenvolvimento de abordagens colaborativas e integradas, buscando aproximar projetistas
e construtoras.

Reconhecendo o potencial do BIM para cumprir esta tarefa, o governo inglês decretou no ano
de 2011, que após um período de adaptação até 2016, todos os projetos do setor público
sejam desenvolvidos através da plataforma BIM. Como cerca de 40% dos projetos
desenvolvidos no país são do setor público, as empresas do ramo de AEC investiram no
treinamento de suas equipes a fim de se adaptarem a esta nova filosofia de trabalho. Desde
então, o número de empresas que implementaram o BIM em seus processos tem registrado
aumentos significativos, saltando de 13% em 2011 para 54% em 2016, e atingindo o
patamar atual de 78% em 2018. (NBS, 2018b). Outra constatação importante é que as
empresas que já implementaram o BIM às suas atividades têm buscado utilizá-lo com cada
vez mais frequência, indicando um alto nível de aceitação à plataforma. O gráfico
apresentado pela figura 4 indica a frequência de utilização do BIM pelas empresas britânicas
durante os anos de 2017 e 2018.

Figura 4 – Resposta das empresas à seguinte pergunta: Nos últimos 12 meses, em que
percentual de seus projetos você tem utilizado o BIM?

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Fonte: NBS, 2018b.

Segundo o relatório Government Construction Strategies 2016-2020, o ganho de eficiência


proporcionado pelo BIM permitiu a economia de £3 bilhões (cerca de R$14,8 bilhões) em
obras públicas entre 2011 e 2015. A melhoria de performance foi atingida graças à
modelagem tridimensional, à facilidade de detecção de interferências, à maior colaboração
entre equipes de projeto, padronização de informações e interoperabilidade (NBS, 2018b;
Champ, 2018).

Até 2020 o governo britânico espera promover o BIM nível 3, que foca em estratégias de
gerenciamento e manutenção do empreendimento ao longo de sua vida útil. Para tanto, o
governo vem investindo na criação de bibliotecas digitais com itens padronizados de acordo
com as especificações técnicas, além do desenvolvimento de guias e protocolos para a
difusão da tecnologia e da criação de 20.000 bolsas de aprendizado do BIM em todo o país
(Ferreira, 2017; Reino Unido, 2016). Com estas medidas, o país espera reduzir os custos de
projeto em 33%, o tempo de entrega 50% e a emissão de gases também em 50% (Reino
Unido, 2016).

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4.2. NORUEGA

A introdução do BIM na Noruega foi realizada pela Statsbygg – Agência de Defesa do país –
no início dos anos 2000, através do desenvolvimento dos primeiros projetos piloto no formato
IFC. Já em 2010, tornou-se obrigatório o uso do BIM para todas as edificações voltadas ao
setor público. Os principais objetivos estabelecidos pela agência foram: melhorar a reputação
de seus prédios para inquilinos e usuários; e reduzir substancialmente os gastos operacionais
e de construção (Kassem e Amorim, 2015).

Nos últimos anos, tanto o setor público como o privado têm somado esforços na criação de
manuais para a utilização da plataforma. Um exemplo de grande importância é o “Manual de
Modelagem de Informações”, que detalha as exigências básicas do BIM, bem como os
princípios de modelagem e exigências específicas de áreas como arquitetura, estruturas,
elétrica e paisagismo. Segundo Wong et al. (2009), o manual é utilizado pela Statsbygg para
o controle de todo o ciclo de vida das edificações.

Já no desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao BIM, a Noruega conta com a atuação do


SINTEF, maior organização independente da Europa. O foco dos estudos tem sido o
desenvolvimento de ferramentas sustentáveis para aprimorar a construção e operação dos
edifícios (Singh, 2017).

4.3. ESTADOS UNIDOS

O Serviço Geral de Administração dos Estados Unidos (GSA) formulou o Programa Nacional
de BIM 3D e 4D em 2003. Este programa estabeleceu a adoção obrigatória do BIM em todos
os projetos de edifícios públicos, além de promover o suporte técnico e financeiro para a
incorporação de tecnologias BIM (Singh, 2017). Como consequência do programa, a GSA
realizou o lançamento de oito guias de utilização do BIM entre os anos de 2007 e 2015. Estes
guias cobrem desde a dimensão 3D até a 7D, tratando de temas como o uso de laser scanner
na modelagem 3D, sequenciamento de obras, eficiência energética, validação de segurança
e circulação, e gerenciamento de edificações.

A fim de promover uma comunidade de líderes do BIM dentro do próprio órgão, a GSA

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também estabeleceu parcerias com desenvolvedoras de software, agências federais,


associações profissionais, organizações de padronização e com o meio acadêmico. Um
importante resultado deste engajamento foi o lançamento do Manual BIM Standards and
Project Delivery Requirements pela Universidade de Indiana. O uso do manual é obrigatório
em todos os novos projetos ou retrofits avaliados em US$ 5 milhões ou mais (Indiana
University, 2015). Neste contexto, aproximadamente 72% das firmas de construção dos EUA
utilizam o BIM em seus projetos (Singh, 2017).

4.4. CHINA

Como em muitos outros países, a construção civil chinesa é um setor extremamente


fragmentado, e a utilização do BIM como metodologia de trabalho ainda não é consenso em
todo o país (Cicco, 2018). De acordo com estudos realizados pela Associação da Industria da
Construção da China em 2012, menos de 15% das 388 empresas avaliadas faziam uso do
BIM. De acordo com os líderes do setor, o principal motivo para a baixa adesão é a
resistência apresentada pelas empresas à adoção de novos processos (Singh, 2017).

Entre os representantes da indústria, há um sentimento popular de que o governo chinês


encoraja a utilização do BIM, mas sem exercer uma liderança efetiva. O plano quinquenal de
2011-2015 para construção apenas sugeriu métodos de padronização e implementação da
tecnologia, mas sem torná-la obrigatória, o que explica a baixa taxa de adesão pelas
empresas.

Por outro lado Rebecca De Cicco (2018), especialista da AEC Magazine, aponta para um
rápido crescimento do BIM no país para os próximos anos, impulsionado principalmente pelo
caso de sucesso do Reino Unido. A revista aponta que os chineses estão interessados nas
lições que podem ser aprendidas e adaptadas do caso britânico para atender as
necessidades de seu mercado. Um exemplo de cooperação entre os dois países ocorreu em
2017, com o treinamento em BIM nível 2 oferecido pela consultoria britânica Digital Node e
pela Universidade de Nottingham aos funcionários do Departamento de Serviços Elétricos de
Hong Kong.

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4.5. BRASIL

No Brasil, um dos primeiros casos de utilização do BIM ocorreu em 2002, pelo escritório do
arquiteto Luiz Augusto Contier. Desde então, o avanço da plataforma tem ocorrido de forma
lenta, e com foco na fase de projeto de edifícios do setor privado (Radüns e Pravia, 2013). Já
o uso do BIM nas obras de infraestrutura tem apresentado participações tímidas, sendo
normalmente lideradas por grandes contratantes do setor público, com destaque para a
Petrobras, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro
(CEDURP) e o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Nestas empresas, há casos
onde uso da plataforma é uma exigência expressa no processo de licitação.

Em pesquisa realizada com 100 empresas do ramo de AEC por Barreto et al. (2016), apenas
31 empresas afirmaram fazer uso contínuo do BIM desde o momento em que a tecnologia foi
implementada. Entre as demais empresas, 8 alegaram o uso da plataforma apenas durante
um período de testes, enquanto 61 afirmaram não possuir qualquer experiência no
desenvolvimento de projetos em BIM. A visão destas empresas sobre o mercado brasileiro
ainda aponta para uma preferência pela utilização dos processos tradicionais frente ao BIM,
visto que 51 empresas acreditam que menos de 20% dos projetos no país façam uso desta
tecnologia, conforme apresenta a figura 5.

Figura 5 – Resposta das empresas à seguinte pergunta: Na sua opinião, o quanto você acha
que o BIM está presente no mercado brasileiro?

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Fonte: Barreto et al., 2016.

Para Barreto et al. (2016) a forma como o ensino do BIM é conduzido nas universidades
brasileiras é um dos fatores que limita a implantação e difusão da tecnologia no país.
Segundo Ruschel, Andrade e Morais (2013 apud Barreto et.al, 2016), os estudos da
modelagem da informação no Brasil ainda são de caráter predominantemente introdutório e
restrito. Neste contexto, as experiências de ensino voltadas para ferramentas de
gerenciamento e simulação tem sido pouco recorrentes, impossibilitando em muitos casos, a
abordagem do ciclo de vida da edificação como um todo. Outro fator importante é o cenário
das pesquisas sobre o BIM no Brasil, que ainda é muito recente e trata de poucos aspectos
da plataforma (Barreto et al., 2016). A título de comparação, a figura 6 apresenta os aspectos
abordados pelas pesquisas BIM no Brasil e em outros 19 países.

Figura 6 – Aspectos abordados pelas pesquisas BIM em 20 países.

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Fonte: Amarnath, 2016.

Outra barreira para a implementação do BIM no Brasil tem sido o alto custo de treinamento
dos profissionais, além do gasto com a aquisição de softwares por parte das empresas.
Entretanto, segundo o estudo de Barreto et.al (2016), 55% das empresas que adotaram o
BIM afirmam que a sua implantação gerou lucros, sendo que 47% destas apontam que o
retorno financeiro foi obtido entre 6 meses e 1 ano de uso. Estes relatos demonstram que em
geral, a plataforma BIM pode não apenas ser financeiramente viável, como também pode
gerar retornos sobre o investimento rapidamente. Os autores enfatizam que em nenhum dos
casos o retorno ocorreu após 3 anos de utilização.

Embora o cenário recente tenha apresentado desafios para o amadurecimento do BIM no


Brasil, o país tem buscado seguir as estratégias que alavancaram o uso da plataforma a nível
mundial. Em julho de 2018, o Governo Federal publicou o decreto nº 9.377, que torna

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obrigatório o desenvolvimento de projetos em BIM a partir de 2021 (BUILDIN, 2018). Com


esta medida, a Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) espera um
aumento de produtividade de 10% no setor da construção civil, além de uma redução de
custos que pode chegar a 20% (EXAME, 2018).

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) também vem desenvolvendo publicações


com o objetivo de regulamentar o uso do BIM no território nacional. Em maio de 2017, a
organização lançou a “Coletânea de Normas Técnicas de Modelagem de Informação”, que
abrange as partes 1, 2, 3 e 7 da NBR 15965, além da NBR ISO 12006-2:2018. Em conjunto,
estas 5 normas tratam de terminologias, classificação de objetos da construção, processos
da construção e estruturas para a classificação de informação.

A fim de padronizar os componentes de construção utilizados nos modelos BIM, a ABDI em


parceria com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) lançaram a
plataforma BIM BR e a biblioteca pública brasileira de BIM (BRASIL, 2018). O acesso à ambos
os serviços é realizado via Internet, e permite que o usuário obtenha manuais e guias de
projeto, localize profissionais e empresas com experiência em BIM e realize o download e
upload de objetos virtuais gratuitamente.

5. CONCLUSÃO

A tecnologia BIM é recente dentro da linha evolutiva da engenharia civil, mas apresenta
histórico e dados estatísticos que possibilitaram demonstrar neste trabalho os ganhos
expressivos que vem proporcionando a esta indústria que é de fundamental importância para
a atividade humana. Em todo o mundo a indústria da construção civil desenvolve as
edificações e a infraestrutura necessárias para todas as áreas da economia e emprega
grande quantidade de colaboradores. No Brasil tem um peso ainda mais expressivo, porque
absorve grande volume de mão de obra de baixa qualificação, que infelizmente ainda é
abundante no país. Tem também a capacidade de diminuir as taxas de desemprego com
rapidez nos períodos em que economia do país está desacelerada.

A conceituação e características da tecnologia BIM introduzidas neste artigo, foram


apresentadas de forma a aglutinar as informações básicas para alicerçar o conhecimento

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necessário para o entendimento dos objetivos e ferramentas desta tecnologia que foi
apresentada. A seção 3 descreve as ferramentas de software adotadas em empreendimentos
de construção civil em todo o mundo, que contribuíram para o incremento dos números
obtidos nos dados estáticos avaliados. Estas ferramentas na sua maioria resultaram de
grande investimento para evolução de técnicas e aprimoramento de processamento gráfico
em computadores, possibilitando a visualização dos projetos além das duas dimensões
tradicionais (2D). Atualmente estas ferramentas acrescentam grande capacidade visual aos
projetos, permitindo a visualização em 3 dimensões (3D), animações com movimentos no
espaço 3D e imersão nos modelos do projeto. Até mesmo os processos de simulações de
projetos possuem recursos gráficos e de animações, além dos resultados tradicionais em
gráficos cartesianos e tabelas.

Foi parte dos objetivos, conduzir uma investigação dos cenários de implementação da
plataforma BIM no Brasil e no mundo, onde foram pesquisadas as características de
implantação em países como Reino Unido, Noruega, Estados Unidos e China, pois segundo
Wong et al. (2009), as peculiaridades de cada país, como tamanho e economia entre outros,
influenciam nas regras de implantação. Desta pesquisa, notou-se que a disseminação do BIM
na indústria mundial tem sido capitaneada pelo setor público, por meio da criação de
bibliotecas digitais, padronização de objetos e demanda pela utilização do BIM em obras
públicas. As universidades e centros tecnológicos também desempenham um papel
determinante neste processo através do desenvolvimento de manuais de utilização do BIM,
bem como na condução de pesquisas sobre as diversas dimensões desta tecnologia. Estas
medidas e seus respectivos resultados possibilitam identificar caminhos e oportunidades de
adequação ao cenário brasileiro, permitindo de forma adequada o fomento das ações
necessárias por parte das iniciativas pública e privada.

A contribuição almejada neste estudo foi de fomentar o interesse de pessoas, empresas e


entidades públicas dos setores de arquitetura, engenharia e construção pela utilização cada
vez maior da tecnologia BIM em seus projetos.

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[1]
Bacharel em Engenharia Civil.

[2]
Doutor em Engenharia; Professor Associado; Universidade Federal Fluminense; Escola de
Engenharia; Departamento de Engenharia Civil; Área de Transportes e Infraestrutura.

Enviado: Abril, 2019.

Aprovado: Maio, 2019.

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