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DOI: 10.1590/1413-81232017224.

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Campayo JG, Demarzo M. Manual Práctico. Mind- Outrossim, o texto ensina como domesticar o

RESENHAS BOOK REVIEWS


fulness. Curiosidad y aceptación. Barcelona: Edito- macaco louco, metáfora usada para descrever a nossa
rial Siglantana; 2015. mente. O praticante deve retornar sempre à respira-
ção, ao manejo das distrações, distanciando-se delas.
Pamela Siegel 1 Nos seguintes capítulos, de 6 a 10, o texto apre-
Nelson Filice de Barros 1 senta os problemas que podem surgir durante a me-
ditação, como dor, sensações estranhas, inquietação,
1
Laboratório de Práticas Alternativas, Complemen- sonolência, estupor e a forma de combatê-los com
tares e Integrativas em Saúde, Faculdade de Ciências respirações, autossugestões e prática perseverante.
Médicas, Unicamp. Os problemas psicológicos podem incluir: falta de
atenção, tédio, medo, rejeição e excesso de cuidado.
Mindfulness é uma adaptação ocidental da técnica Há a sugestão de uso de frases autoafirmativas, de
meditativa budista, sati, despojada de qualquer co- perdão, e pode ser necessária a ajuda de um profis-
notação religiosa. Foi desenvolvida, com o nome de sional em alguns casos.
Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR), na déca- A seguir, os autores apresentam os passos formais
da de 1970, por Jon Kabat-Zinn, num programa de do mindfulness, a saber: exercício de percepção e
redução de estresse da Universidade de Massachusetts. deglutição da uva passa, mindfulness na respiração,
A MBSR foi desenhada para lidar com estresse, ansie- body scan, mindfulness caminhando, mindfulness nos
dade, enfermidades e dor, e vem sendo aplicada em movimentos corporais, e a prática dos três minutos,
centros médicos, hospitais e instituições de saúde, nos que consiste em indagações como: qual é a minha
EEUU, no Reino Unido, na Espanha e, esparsamente, experiência agora, que pensamentos e sentimentos
em outros países, como o Brasil. estão ocorrendo? Há exercícios imaginativos sobre a
O livro Manual Práctico. Mindfulness. Curiosidad expansão da consciência. O texto também apresenta
y aceptación1 contém um Prólogo, 15 capítulos, além alguns desenhos de posições deitadas, flexão e exten-
de Anexos e Índice Analítico, distribuídos em 255 pá- são das pernas, deslizamento das mãos; movimento
ginas. Alguns temas apresentados nesta obra já foram circular dos ombros; postura do gato; movimento
abordados no livro de Cebolla et al.2. A diferença é do 8, fechando com postura de meditação.
que o primeiro apresenta um formato mais didático. O manual ensina como levar o estado mental
Cada capítulo contém tabelas comparativas e exer- da atenção plena à vida diária de forma contínua,
cícios imaginativos e respiratórios a serem praticados, usando estratégias como lembretes, criando uma
além de quadros sinópticos que resumem o conteúdo. desaceleração da atividade mental e física. Reco-
Os primeiros cinco capítulos tratam da definição de menda, sobretudo, a prática durante atividades
mindfulness e suas origens. O leitor será familiarizado rotineiras e tempos mortos: cuidado e asseio, comida,
com o conceito de observar, contemplar e examinar, deslocamento, esperas (trânsito, consultórios, caixas,
sem julgar. Há ênfase sobre a aceitação da realidade recepções e semáforos).
de forma não crítica, distinguindo o modo fazer do de Os autores enfatizam a prática da compaixão,
ser. Haveria benefícios sanitários (ajuda no tratamento sinônimo de bondade amorosa. Segundo eles, os
de algumas doenças clínicas e psiquiátricas, prevenção neurotransmissores envolvidos na compaixão seriam
contra o estresse), educativos (melhor concentração/ os opiáceos endógenos, que fazem o sujeito sentir-se
rendimento, relações interpessoais) e empresariais tranquilo e seguro, daí a importância das relações
(redução/prevenção do estresse, aumento da satis- sociais e o enorme poder viciante das redes sociais,
fação), além do que o praticante desenvolveria um e a Oxitocina, ligada à quantidade e qualidade do
sentimento de espiritualidade natural, não ligado a afeto trocado entre pais/filhos.
uma religião específica. Chamamos a atenção para o fato de que a prática
No capítulo sobre as dificuldades, o texto traz uma de atitudes éticas, o irmanar-se com o planeta e com
tabela com comparações, como a falta de tempo, por a humanidade, enfim a fraternidade, é sugerida não
exemplo, e dos benefícios, dentre os quais a sensação só no budismo, mas em todas as religiões. No yoga,
de paz. Há, também, os conselhos práticos sobre são conhecidas como os yamas e niyamas, entre os
onde, quando e por quanto tempo meditar. Menciona quais se inclui o contentamento e a não violência3.
algumas posturas usadas em práticas meditativas, No capítulo 10 há a menção da busca do sentido
mas indica uma posição sentada, confortável, com da vida. São citadas a Logoterapia de Viktor Frankl e
recomendações mínimas sobre a posição da coluna, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), com
do peito, das mãos, dos pés, do rosto e dos olhos. A exercícios para identificar o que é mais importante
ênfase é sobre a respiração e o porquê de escolhê-la para nós. O capítulo vai acrescido de uma lista de
como âncora da meditação: só se deve observá-la. valores usados na ACT para auxiliar na identificação.
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Resenhas Book Reviews

Nos cinco últimos capítulos do livro, há indi- intervenção no tratamento de pacientes. Há quem
cações sobre o manejo das emoções: ir desmon- diga que os efeitos positivos do mindfulness têm
tando seus componentes e centrar-se nos aspectos sido exagerados e que a prática pode estimular a
corporais da emoção, identificando as negativas e ansiedade, a depressão ou mesmo desencadear sin-
aceitando-as como parte de nós mesmos. tomas psicóticos4. Um artigo recente publicado na
A terapia dialética conductual é mencionada imprensa britânica questiona a falta de pesquisas
como exemplo de uma técnica psicoeducativa que sobre os efeitos adversos da meditação e o lado
permite desenvolver a qualidade do mindfulness “escuro” do mindfulness5.
sem que seja necessária a prática. Este modelo O livro termina com dicas para manter a
teórico-prático facilita a aceitação da realidade e prática como um estilo de vida, a saber: 1) ela
pode ser usado concomitantemente com o mind- deve ser importante, ocupar um ranking impor-
fulness. O texto define os princípios de aceitação tante nos nossos valores; logo, devemos revisar
da realidade como: “a realidade é como é. Não os valores periodicamente; 2) pode ser reforçada
poderia ser de outra maneira. E, além disso, tudo pela prática grupal (sangha em sânscrito); 3) ler
é perfeito do jeito que é”1. Consideramos que esta periodicamente livros ou artigos sobre o tema, ou
definição da realidade pertence à filosofia budista assistir a conferências e cursos, visitar páginas web
e dificilmente pode ser inculcada na mentalidade relacionadas. O que mais fideliza são os retiros
ocidental. periódicos; 4) convertê-la em parte da profissão:
Segundo os autores, o mindfulness e as terapias ajudar os outros.
da terceira geração defendem que o importante Sentimos falta de um levantamento sociode-
não é tanto que o conteúdo do pensamento seja mográfico dos praticantes de mindfulness, já que,
positivo ou negativo, mas como nos relacionamos no caso do yoga, um estudo de Birdee et al.6 mos-
com ele. A seguir apresentam uma série de exercí- trou que nos EUA eram em sua maioria brancos,
cios para a dissolução do eu. mulheres, jovens, com formação universitária,
Na lista das contraindicações estariam as pes- com idade média de 39,5 anos. Ficaria aqui a
soas hipercríticas ou com atitude oposicionista; pergunta: o mindfulness é uma prática desenhada
pessoas em fase aguda de qualquer transtorno para a classe média ocidental? Haveria que ver se,
(depressão, transtorno bipolar, psicose, estresse com sua prática de compaixão e não julgamento,
pós-traumático, deterioração cognitiva grave, o mindfulness passaria o teste nas periferais das
epilepsia, muito medicadas). grandes cidades.
Os efeitos não esperados ou adversos da me- Enfim, o livro é escrito com clareza e é reco-
ditação poderiam ser: ansiedade/angústia; depres- mendado para profissionais de saúde em geral
são/culpa e visão negativa do mundo; confusão que tenham interesse em Práticas integrativas e,
e desorientação; dissociação; ideais de grandeza; sobretudo, nas contemplativas.
sentimentos de indefensibilidade; menor capaci-
dade de avaliar a realidade; dor; hipertensão arte-
rial paradoxal; sensações corporais de incômodo; Referências
tornar-se mais crítico e intolerante com os demais;
sentimentos de grandeza e narcisismo; menospre- 1. Campayo JG, Demarzo M. Manual Práctico. Mind­
fulness. Curiosidad y aceptación. España: Editorial
zo pelos demais; busca de solidão e isolamento das
Siglantana; 2015.
outras pessoas; menor motivação na vida; tédio; 2. Cebolla A, García-Campayo J, Demarzo M, organi-
vício pela meditação. Segundo os autores, se os zadores. Mindfulness y Ciencia, de la Tradición a la
praticantes são pessoas com doenças físicas ou Modernidad. Madrid: Alianza Editorial; 2014.
psicológicas, o profissional de mindfulness deve ser 3. Siegel P, Barros NF. Yoga – Tradição e Prática Integrativa
de Saúde. Fortaleza: Eduece; 2016.
um médico ou psicólogo. E o próprio profissional
4. Farias M, Wikholm C. Ommm… Aargh. New Sci 2015;
tem que ser praticante para saber responder às 226:28-29.
perguntas dos alunos. 5. Foster D. Is mindfulness making us ill? The Guardian,
Contudo, nem tudo são flores de loto no cam- 23rd of January 2016.
po meditativo. Tem havido críticas substanciais 6. Birdee GS, Legedza AT, Saper RB, Bertisch SM, Eisen-
berg DM, Phillips RS. Characteristics of yoga useres:
à prática do mindfulness como uma forma de
results of a national survey. J Gen Intern Med 2008;
23(10):1653-1658.

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