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O Renascimento e o surgimento do individuo

Renan Cecchet1[1]

Entre os séculos XIV e XV, o mundo ocidental veio a produzir um dos mais
inovadores movimentos sociais, econômicos, e culturais da história da humanidade, o
Renascimento. O fenômeno do Renascimento, para que possa ser compreendido em sua
completude, deve ser visto tão somente como “a ponta do iceberg” do desenvolvimento do
capitalismo moderno2[2].

Com o advento do renascimento, o homem ocidental deu o seu primeiro passo, na


busca pela “liberdade”. Entretanto, o conceito aqui proposto de liberdade, vai no sentido
da busca por uma ruptura com os laços de dependência pessoal, (até então intransponíveis
na sociedade medieval) e em prol de uma preservação de uma individualidade e autonomia
do individuo3[3].

Michel Maffesoli4[4] nos aponta como fundamental neste processo de transição, a


racionalização das relações sociais, iniciado com o renascimento, onde através do
desenvolvimento das ciências e das técnicas modernas, podemos compreender então o
concomitante processo aonde as transformações econômicas abrem espaço, para o
desenvolvimento do capitalismo. Maffesoli, tomando por base as teorias de Georg Simmel
sobre a modernidade, nos aponta então a lógica deste fenômeno:

“A liberdade, e esta é a sua lógica, é


concebida como liberação com relação aos laços
1
[1] Graduando em História pela Universidade de Passo Fundo e estagiário no Arquivo Histórico Regional.
2
[2] Neste ponto, devemos ressaltar que o renascimento é um fenômeno com características próprias.
Contudo, fora extremamente influente e decisivo no processo de individualização das ações sociais e de
transição para o capitalismo moderno, pois a partir daquele momento começava-se a se desenvolver as bases
da ciência moderna, e da moderna concepção do homem como protagonista nas ações sociais.
3
[3] Para a melhor compreensão desta busca pela liberdade, consultar: MAFFESOLI, Michel. Economia
Monetária e Modernidade. In: Revista Histórica nº 7. Porto Alegre: UFRGS, 2004.
4
[4] Idem.
pessoais. A circulação de bens e mercadorias, é a
negação da circulação das pessoas e a
palavra”5[5].

O dinheiro seria então o elemento que possibilitaria essa substituição para com as
relações pessoais, e de certa forma o ponto de encontro do homem moderno, cada vez mais
individual6[6].

Max Weber em seu clássico, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”,


(que teve sua primeira edição na forma de dois artigos publicados em 1905 e 1906), nos
trás uma outra visão sobre o processo de transição ao capitalismo, ou como chamava
Simmel a economia Monetária. Para Weber o desenvolvimento do moderno capitalismo,
iniciado com o advento do renascimento, se dá de forma diferenciada nos diversos países
da Europa.

Weber trás uma nova problemática nas discussões acerca do processo de


individualização e monetarização da economia. Weber afirma que o “espírito do
capitalismo”7[7]fora desenvolvido pelos protestantes, através de uma peculiaridade
religiosa inserida no seu seio cultural, a qual permitiu então aos países com predominância
protestante uma salto em direção ao desenvolvimento do moderno capitalismo, de uma
economia monetária, e a aceleração do processo de individualização da sociedade.
5
[5] Ibidem.
6
[6] Neste momento, torna-se necessário ressaltar a grande obra de Simmel publicada em 1909, “A Filosofia
do Dinheiro”. Para Simmel, o Dinheiro é o Deus dos modernos, pois neste mundo onde o processo de
individualização e afirmação de uma de uma identidade particular e única, por parte do homem moderno são
cada vez mais uma realidade, o dinheiro como sendo o que circula incessantemente, é também o ponto fixo
ao qual convergem todos os homens. Para ver mais sobre o papel do dinheiro para Simmel consultar:
WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. São Paulo: Editora 34, 2000.
7
[7] Max Weber define como o “espírito do capitalismo” o impulso do homem moderno em ganhar mais e
mais e obter o lucro. Para Weber este impulso fora originário da ética protestante, que surge como uma nova
“filosofia de vida” em detrimento do tradicionalismo econômico. Esta ética, passa a nortear a vida dos
novos cristãos, ocorrendo então uma inversão da lógica, onde o dinheiro passa a ser um fim em si mesmo, e
não um meio. Uma conduta calcada então nesta ética, seria o fator possibilitador do desenvolvimento e
consolidação do capitalismo moderno. Para ver mais ler: WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2003.
Weber, ao falar de “capitalismos”8[8], nos chama a atenção para o caráter múltiplo
dos processos de modernização ocorridos concomitantemente no mundo ocidental. As
sociedades eram compostas pelos mais diversos âmbitos culturais, onde as características
de estruturação social eram as mais variadas. Portanto a grande contribuição que Weber
nos dá está na eliminação de uma suposta uniformidade processual no que tange a chegada
do homem à modernidade.

Ocorre portanto por parte dos marxistas9[9], o abuso de um determinismo


econômico quando da análise dos processos históricos, o que é ilustrado por certo também
no período renascentista, quando afirmam que o desenvolvimento da econômia, e o
surgimento de uma nova classe, agora detentora do poder econômico, foram os elementos
que proporcionaram o fim do sistema feudal10[10].

Agnes Heller11[11], ao falar sobre o renascimento, como sendo o momento da


produção de uma “ideologia” para a nova classe ascendente, desconsidera então a questão
particular e peculiar, dos diversos contextos sociais e culturais no ocidente a partir do
renascimento, que assim como o processo de individualização e afirmação autônoma do
individuo, assim como propõe Maffesoli12[12], não cabem mais no estreito conceito de
classe13[13].
8
[8] Torna-se interessante neste ponto lembrarmos a reflexão crítica que fez Weber com relação à Filosofia
do Dinheiro de Simmel , na primeira nota de , A ética protestante e o Espírito do Capitalismo, quando
coloca que a teoria de Simmel associa demasiadamente a economia monetária ao capitalismo ocidental, o
que segundo ele prejudica sua analise completa.
9
[9] Entenda-se que neste ponto refiro-me especialmente aos que utilizaram-se do materialismo histórico
para produção cientifica e não ao próprio Marx, que muitas vezes teve a sua teoria descaracterizada pelos
seus sucessores.
10
[10] Entenda-se por sistema feudal, não somente a organização econômica, mas todo o conjunto de
relações que compunham a sociedade medieval.
11
[11] HELLER, Agnes. O Homem do Renascimento.Lisboa: Editorial Presença, 1982.
12
[12] MAFFESOLI, Michel. Op. Cit.
13
[13] Torna-se claro, através desta abordagem do processo histórico, que prima pela compreensão da
totalidade através do individuo, o quanto foram falhas as projeções de Marx com relação ao futuro por ele
almejado para a humanidade. Para Marx o curso da história, levaria inevitavelmente, através da luta de
classes, a derrocada do sistema capitalista. Com a conscientização das classes operárias de sua exploração,
ocorreria então o movimento revolucionário que conduziria a humanidade ao socialismo Obviamente o
pensamento marxista é fruto de seu tempo, e dentro daquela realidade socioeconômica e cultural,
representava os anseios dos homens daquela época. Contudo pode não ser de toda a verdade a afirmação de
que a própria lógica dialética, seria então quebrada,(pois não haveria dentro da sociedade mais nenhum tipo
de contradição) nos resta fazer uma pergunta: Se ocorre desde o Renascimento até os dias de hoje um
processo de separação e diferenciação de personalidade, cada vez maior entre os indivíduos, (a ponto tal que
suas relações são intermediadas cada vez mais por meios cada vez mais abstratos como o dinheiro) como
Neste sentido torna-se indispensável para a compreensão dos processos históricos,
(neste caso do período renascentista) sem a utilização de dogmas ou determinismos, sem
preocupações com o que determinou, ou no que viream necessariamente resultar as
relações humanas14[14], mas sim a compreensão do desenrolar histórico como processo,
como movimento, onde todos os fatores estão interligados na figura do homem, do
individuo.

Contudo este processo como nos mostra Waizbort, Simmel coloca que ao longo da
“história”, ou do que chama de “processo da cultura” 15[15] concomitantemente um
processo de mediação perpassa o agir do homem moderno, sendo este o papel do dinheiro,
este ponto de convergência entre os indivíduos na sociedade moderna.

“Aqui Simmel dá seu salto mortale, pois


mostra como um processo de mediação perpassa
o agir humano e é mesmo condição para esse
agir. Em outros termos o processo da cultura (ou
seja a história) está ligado a forma da mediação,
ao processo teleológico.

Neste sentido, chega-se então a compreensão de que a análise histórica do período


do renascimento não pode ter outro foco de atenção que não o individuo, e sua tentativa de
afirmação individual. “Ver no individual o universal”.16[16] Esse era o principal mote de
Simmel, fundamental para esta compreensão histórica.

seria possível uma conscientização e direcionamento coletivos, ou seja, de toda uma suposta “classe”.
14
[14] Isso contudo, não significa que as produções cientificas acerca das relações que se estabelecem entre
os indivíduos (entre os homens), não sejam motivadas pelo desejo de compreender o como chegamos até
aqui e mesmo almejar um melhor discernimento quanto as nossas ações futuras.
15
[15] Para saber mais sobre o conceito de processo da cultura, ver WAIZBORT, Leopoldo. Op. Cit. p. 115-
130.
16
[16] WAIZBORT, Leopoldo. Op. Cit. p.7.
Não há, portanto no processo histórico do renascimento um fator determinante,
nem um ponto de chegada determinado, ao qual o transcorrer deste ao longo dos anos
deva, inevitavelmente chegar. O Renascimento fora talvez o primeiro movimento concreto
do homem ocidental no sentido do processo de modernização, e deve, portanto ser inserido
neste contexto como um processo múltiplo onde as diversas transformações, sejam elas
econômicas, sociais, culturais, ou filosóficos, eclodem de maneira concomitante e
interligadas. O homem é o agente social proprositor dessas transformações e é nele
enquanto individuo, em seu processo “evolutivo”17[17]que encontram-se as explicações
para estes fenômenos.

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