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INTRODUÇÃO À

Gestão Tatiane Caroline Ferrari


ENGENHARIA DA PRODUÇÃO

Tatiane Caroline Ferrari


ENGENHARIA DA PRODUÇÃO
INTRODUÇÃO À
Introdução à
Engenharia da
Produção
Tatiane Caroline Ferrari

Curitiba
2020
Ficha Catalográfica elaborada pela Editora Fael.

F375i Ferrari, Tatiane Caroline


Introdução à engenharia da produção / Tatiane Caroline Ferrari. –
Curitiba: Fael, 2020.
273 p. il.
ISBN 978-65-86557-07-7

1. Engenharia de produção 2. Administração da produção I. Título


CDD 658.5

Direitos desta edição reservados à Fael.


É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael.

FAEL

Direção Acadêmica Fabio Heinzen Fonseca


Coordenação Editorial Angela Krainski Dallabona
Revisão Editora Coletânea
Projeto Gráfico Sandro Niemicz
Imagem da Capa Shutterstock.com/Chaosamran_Studio
Arte-Final Evelyn Caroline Betim Araujo
Sumário
Carta ao Aluno  |  5

1. História e evolução da engenharia  |  7

2. Engenharia e sociedade   |  33

3. As relações entre engenharia, meio


ambiente e qualidade  |  53

4. O processo de formação do engenheiro   |  83

5. A engenharia no Brasil   |  107

6. As engenharias e a Engenharia de Produção  |  129

7. Engenharia e legislação   |  151

8. Ética na Engenharia   |  175

9. A importância da comunicação na Engenharia   |  199

10. A engenharia de produção e as novas tecnologias  |  223

Gabarito | 247

Referências | 257
Carta ao Aluno

Prezado(a) aluno(a),
Como acadêmico do curso de Engenharia de Produção, é
fundamental que essa profissão, seu histórico, desenvolvimento e
papel na sociedade atual sejam compreendidos. A Engenharia de
Produção, assim como a indústria e a tecnologia, avançou muito
desde o seu surgimento, tornando esse profissional cada vez mais
atuante no mercado de trabalho.
Introdução à Engenharia da Produção

Para quem está começando a trilhar os caminhos dessa profissão, tudo


envolve aspectos de complexidade e novidade. Entretanto, com o tempo,
os ensinamentos começam a fazer sentido, o novo pouco a pouco começa
a ficar familiar. Embora muitas vezes tudo pareça estar pronto – técnicas,
procedimentos, teorias, conceitos –, nessa profissão é como se, a cada
curva, um novo mundo pudesse ser descoberto. É por esse motivo que a
presente obra tem o objetivo de apresentar essa profissão tão fascinante
que você escolheu cursar, bem como de preparar o futuro profissional para
o que o aguarda ao longo da construção de sua futura carreira.

–  6  –
1
História e evolução
da engenharia

A palavra engenharia é muito recente, tendo origem no


termo engenheiro, que apareceu na língua portuguesa pela pri-
meira vez no início do século XVI, utilizado para denominar
alguém que construía ou operava um engenho. O termo engenho
tem sua origem na palavra latina ingenium, que significa caráter
inato, talento, inteligência. Assim, a engenharia pode ser definida
como a arte de resolver problemas por meio da criação ou da ino-
vação (AGOSTINHO; AMORELI; RAMALHO, 2015).
Hoje, a definição de engenharia tem uma nova amplitude,
um novo alcance. Cocian (2017) a considera uma forma de arte
que utiliza os princípios científicos, da experiência, do julga-
mento e do senso comum para a efetivação de ideias e de ações
em favor do ser humano e da natureza.
Introdução à Engenharia da Produção

Porém, percebe-se que a engenharia e o desenvolvimento da huma-


nidade estão diretamente conectados. Assim, falar do surgimento da
engenharia, de seus primórdios, e chegar a essa profissão como conhece-
mos é uma jornada que começa com o surgimento do homem. O objetivo
deste capítulo é revelar alguns pontos importantes para o desenvolvi-
mento da profissão ao longo da história, mostrando sua força e sua rele-
vância para o desenvolvimento econômico e social mundial. Além disso,
é necessário o conhecimento do passado para compreender o estágio em
que a engenharia se encontra no presente e como nos preparamos para
construir o futuro.

1.1 O começo de tudo: os


primórdios da engenharia
Podemos afirmar que os primeiros sinais da capacidade humana
para resolver problemas começaram na Idade da Pedra, período que com-
preende a aparição dos primeiros utensílios produzidos pelo homem (2
milhões a.C.) e o início da Era dos Metais. Esse longo intervalo é divido
em dois períodos principais: Paleolítico e Neolítico (NAVARRO, 2006).
No Paleolítico, compreendido entre cerca de 2 milhões e 10 mil a.C.,
foram desenvolvidas as primeiras ferramentas e utensílios domésticos
compostos por pedras lascadas, ossos, madeiras e conchas utilizados de
modo muito rudimentar (BAZZO; PEREIRA, 2006). Uma das poucas
técnicas aplicadas, o retoque consistia na compressão das pedras até sua
lascagem (PRIMO, 2015). Por esse motivo esse período é denominado
também como Pedra Lascada.
Mesmo sendo soluções simples, os primeiros instrumentos impacta-
ram positivamente a vida do homem da época, representando um grande
avanço das condições de sobrevivência em situações extremas do dia a
dia. Além de funções bélicas e de defesa, os artefatos eram utilizados no
corte de árvores e plantas, na caça, na separação da carne para consumo e
da pele e dos ossos para manufatura de objetos domésticos e vestimentas
que se tornaram necessárias devido à quarta glaciação da Terra, responsá-
vel pela diminuição brusca da temperatura (NAVARRO, 2006).

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História e evolução da engenharia

Algumas técnicas primitivas também surgiram no Paleolítico; com


a descoberta da alavanca, o homem foi capaz de deslocar cargas muito
mais pesadas que aquelas normalmente movidas apenas com os braços. O
domínio do fogo, conseguido com o atrito entre dois pedaços de madeira,
foi outra técnica muito importante para o período e que permitiu a sobrevi-
vência do homem diante das severas condições climáticas da época. Além
disso, modificou os hábitos alimentares com a introdução da carne e de
vegetais cozidos (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Em cerca de 10000 a.C., houve uma verdadeira revolução técnica. O
princípio da capacidade de domesticar animais, cultivar alimentos (advento
da agricultura), moldar cerâmica e fabricar, ainda que de modo rudimentar,
vinho e cerveja aconteceram no que se convencionou chamar de Período
Neolítico ou da Pedra Polida (BAZZO; PEREIRA, 2006). Machadinhas,
lanças, facas e pás, obtidas apenas com a técnica do retoque, deixaram de
ser grosseiras e evoluíram para objetos polidos, com acabamentos mais refi-
nados que permitiram a produção em maior escala de ossos e pedras como
basalto e calcita em artefatos domésticos e agrícolas, bem como a melhor
utilização deles (NAVARRO, 2006). Com a agricultura, o preparo do solo
também passou a ser importante, e com isso surgiram os primeiros arados
(AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
A agricultura possibilitou ao homem criar raízes em determinados
locais, surgindo as primeiras vilas. Dessa forma, a construção de casas
durante o Neolítico foi marcada por importantes inovações tecnológicas,
principalmente no que se Figura 1.1 – Pirâmides de Gizé (Egito)
refere ao uso de materiais
estruturais e suas combi-
nações como argila refor-
çada por resíduos vegetais
(NAVARRO, 2006).
Com o surgimento
das cidades, passou a
operar uma nova orga-
nização social, o que
tornou possível efetuar
obras de maior porte, Fonte: Shutterstock.com/WitR

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Introdução à Engenharia da Produção

como as pirâmides de Gizé: Miquerinos, Quéfren e Quéops (Figura


1.1), construídas há aproximadamente 4,5 mil anos, bem como se dedi-
car à busca por conhecimento e desvendar o desconhecido (BAZZO;
PEREIRA, 2006). De fato, muito ainda se especula em relação a como
os antigos egípcios conseguiram extrair e manipular cerca de 2,3
milhões de pedras, cada uma pesando aproximadamente 2,5 mil qui-
los, para construir as pirâmides com as técnicas disponíveis naquele
momento (ADDIS, 2009 apud FERNANDES JUNIOR; ZUIN; LAU-
DARES, 2018).
Figura 1.2 – Pirâmide de Djoser (Egito)

Fonte: Shutterstock.com/Luis_Martinez

A dificuldade de mover uma pedra com grandes dimensões não é o


único mistério que envolve a construção das pirâmides. Conhecimentos
de topografia, resistência e mecânica dos materiais, equilíbrio e vários
outros tópicos de engenharia moderna não existiam na época, mas
eram necessários para possibilitar esse tipo de construção. As estrutu-
ras ainda chamam atenção pelo fato de os projetistas terem de planejar
e construir seu interior, tendo em mente que a forma e a localização de
inúmeras salas e túneis exigiam grandes conhecimentos de geometria
e técnicas de medição tridimensional, que eram muito avançadas para
aquele período. Por esse motivo, destaca-se que o primeiro engenheiro
de quem se tem registro foi Imotepe, no Egito, a quem é atribuído o
projeto da Pirâmide de Djoser (Figura 1.2), construída para abrigar o
corpo do faraó Djoser (ADDIS, 2009 apud FERNANDES JUNIOR;
ZUIN; LAUDARES, 2018).

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História e evolução da engenharia

Aproximadamente na mesma época, na Inglaterra, blocos de pedra de


cerca de 5 tonelada a 50 toneladas foram transportados por até 400 quilô-
metros, com parte do trajeto pelo mar e por rios, com as pedras amarradas
a rústicas canoas e levantadas a aproximadamente 6 metros com o auxílio
de uma espécie de alavanca, para construir Stonehenge (ADDIS, 2009
apud FERNANDES JUNIOR; ZUIN; LAUDARES, 2018).
Figura 1.3 – Obelisco do Vaticano

Fonte: Shutterstock.com/Andrei Rybachuk

Por volta de 1500 a.C., no Egito, também foram extraídos, movi-


dos e erguidos três obeliscos de pedra, cada um com aproximadamente
450 toneladas. Como nada simbolizava espírito e poder egípcios como
eles, os romanos utilizaram essa simbologia para demonstrar seu próprio
poder após a vitória sobre esse povo. Augusto (imperador romano de 27
a.C. a 14 d.C.) deu a ordem de transportar obeliscos do Egito para Roma
(WIRSCHING, 2000). A remoção de um deles, conhecido como o Obe-
lisco do Vaticano (Figura 1.3) pelo mar Mediterrâneo, seu levantamento
em Roma e sua subsequente relocação foram realização de engenharia
também impressionantes para a época (ADDIS, 2009).
E os romanos não conquistaram apenas o Egito. Durante a expansão
do império, os engenheiros eram deslocados para os vários países con-
quistados, já que a capacidade de expansão e de administração depen-
dia de algumas facilidades, como transporte e comunicação. Algumas
das estradas construídas pelos romanos na época ainda são encontradas

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Introdução à Engenharia da Produção

na Inglaterra ou acabaram sendo utilizadas como fundações de rodovias


posteriores. Estima-se que cerca de 75 mil quilômetros de estradas foram
construídos com os princípios de pavimentação e drenagem utilizados na
época (COCIAN, 2017).
As represas de irrigação e os canais que transformaram as mar-
gens do rio Nilo em um bom local para se estabelecer e cultivar (2000
a.C.) estão entre as primeiras ações de engenharia hidráulica de que se
tem conhecimento. Os romanos se destacam também por seus mais de
400 quilômetros de aquedutos descritos em detalhe por Frontino (ano
79), nomeado superintendente dos aquedutos de Roma. Além disso, eles
tinham um moderno sistema de abastecimento, composto por dois tipos
de rede: uma para água potável, destinada as casas e quarteis militares, e
outra não potável, usada para lavar as ruas. Cálculos estimam que esses
aquedutos tinham a capacidade de sustentar vazão de mais de 1 bilhão de
litros por dia (COCIAN, 2017).
Ainda em relação à hidráulica, embora o tamanho, a exata localiza-
ção e a idade dos lendários jardins da Babilônia ainda sejam discutidos,
sabe-se que a água necessária para a irrigação contínua deles deva superar
uma altura de aproximadamente 50 metros do rio e que isso era realizado
com máquinas com tração humana e canalização de barro impermeabili-
zada com folhas de chumbo ou asfalto (ADDIS, 2009).
O chumbo passou a ser utilizado nas canalizações e nas estradas por-
que o homem já tinha adquirido conhecimento sobre como trabalhar e uti-
lizar metais. Na verdade, foram o cobre e o estanho os primeiros a serem
incorporados na fabricação de instrumentos para caça e defesa. Como
esses minérios são frequentemente encontrados juntos, acabaram dando
origem à liga de bronze; entretanto, análises mostraram que nem todos os
instrumentos eram realmente desse material. Muitas peças, na verdade,
eram de cobre associado a impurezas como arsênio. Assim, foi finalizada
a Idade da Pedra, dando início ao período histórico denominado Idade dos
Metais (BAZZO; PEREIRA, 2006; NAVARRO, 2006).
Foi o uso diário do fogo que permitiu os primeiros passos para o
desenvolvimento da metalurgia e, da engenharia metalúrgica, da mecânica
e dos materiais. Bazzo e Pereira (2006) indicam que, por volta do ano 2000

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História e evolução da engenharia

a.C., ao mesmo tempo em que era criado o alfabeto e a numeração, vieram


a descoberta e a utilização do processo de fundição de metais. Entretanto,
o desenrolar dessa técnica levou alguns anos. No início, apenas pessoas
ricas podiam arcar os custos do metal; por um longo período, fazendei-
ros e artesãos continuaram usando ferramentas de pedra, pois o custo era
menor. Com o tempo, com cada vez mais pessoas trabalhando com metais,
ele se tornou mais acessível, então metalúrgicos, artesãos e fazendeiros se
encontravam nas cidades para comercializar suas mercadorias. Isso, em
conjunto com outras duas invenções (a roda e o arado puxado por bois),
teve fundamental importância no desenvolvimento das civilizações da
Idade dos Metais (IDADE…, c2020).
O fim dessa era não foi caracterizado apenas pela fabricação de
peças de ligas cada vez mais elaboradas e detalhadas, mas também pela
crescente fabricação de artefatos com outros metais, como a prata. Por
volta de 1200 a.C., o homem aprendeu a usar o ferro para confeccionar
ferramentas, marcando o fim da Idade do Cobre e do Bronze e o início
da Idade do Ferro. Entretanto, os artefatos de ferro, ao contrário daque-
les de cobre e de bronze, foram drasticamente atacados pela corrosão, o
que explica por que muitos dos achados datados dessa era serem mais
ricos em peças de ouro, prata e cerâmica do que propriamente de ferro
(NAVARRO, 2006).
Outros eventos contribuíram de forma positiva para o desenvol-
vimento da engenharia, entre eles o papiro utilizado pelos egípcios,
que marcou profundamente a civilização com o advento da escrita. Ao
mesmo tempo, os povos mediterrâneos e escandinavos trabalhavam no
desenvolvimento de técnicas mais sofisticadas para a construção de
navios, que eram utilizados tanto por necessidades geográficas como em
guerras. Simultaneamente, surgiu em Jerusalém um sistema subterrâ-
neo para o fornecimento de água, criado a partir da adaptação hábil dos
recursos naturais preexistentes da cidade, visando assegurar suprimento
de água confiável durante a guerra e a paz (GILL, 1991). Concomitan-
temente, na China, foi publicado o primeiro manual de matemática;
os chineses, aliás, inventaram a pólvora, usada primeiramente como
fogo de artifício e depois aplicada na guerra – assim como o foguete,
a bússola magnética e o sismógrafo, já que o país é muito suscetível a

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Introdução à Engenharia da Produção

terremotos. Os chineses também observavam sistematicamente os céus


à procura de explicações mais elaboradas para os fenômenos a sua volta
(BAZZO; PEREIRA, 2006).
Diversas invenções e descobertas foram acontecendo ao longo do
tempo, porém a transmissão desse conhecimento desenvolvido se dava
apenas pela força prática, de um artesão para outro, de uma pessoa a outra;
não havia acúmulo de saberes. Por esse motivo, um marco importante
para a disseminação da ciência e da técnica foi estabelecido por volta de
1450, por Johannes Gutenberg (1400- 1468), com o aperfeiçoamento da
imprensa. De acordo com Bazzo e Pereira (2006),
partindo de uma antiquíssima invenção dos chineses, a imprensa,
(Johannes Gensfleisch Gutenberg) a aperfeiçoou – implantando
os tipos móveis metálicos para composição gráfica – e mecani-
zou o processo, garantindo uma impressão mais rápida. Este fato
injetou novo dinamismo no progresso intelectual, porque a partir
daí os conhecimentos passaram a circular com maior velocidade,
pois podiam ser reproduzidos mais facilmente. Até essa época, os
conhecimentos só circulavam verbalmente ou através de manuscri-
tos, que eram raros e de difícil reprodução.

1.2 A engenharia moderna: marcos na história


Pode-se afirmar que a engenharia evoluiu na Idade Média, quando
houve o surgimento das corporações de ofício, que, segundo Lopez
(1980), podem ser definidas como “uma federação de oficinas autônomas,
cujos proprietários (mestres) tomavam habitualmente todas as decisões
e estabeleciam os requisitos para a promoção de escalões inferiores (ofi-
ciais, ou auxiliares contratados e aprendizes)”. Destaca-se assim o caráter
educativo dessas corporações.
Outro ponto importante para a engenharia da época veio da neces-
sidade de buscar novas terras, o que exigiu a construção de navios. O
homem já tinha algum conhecimento de embarcações e navegação, mas
nada suficiente para as distâncias que almejava alcançar. Para Gama (1985
apud FERNANDES JUNIOR; ZUIN; LAUDARES, 2018), foi o desen-
volvimento da vela para embarcações que aumentou consideravelmente
a autonomia das viagens oceânicas, uma vez que dispensou o trabalho

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História e evolução da engenharia

braçal de remadores e diminuiu consideravelmente o volume de carga dos


navios, já que reduziu as tripulações.
Mesmo na Idade Média, a disseminação do conhecimento era muito
difícil, pois os hábitos de leitura e de escrita ainda não eram apreciados pela
população. Ainda assim, alguns mestres da época conseguiram desenvol-
ver conhecimentos de engenharia, como Leonardo da Vinci (1452-1519),
Johannes Kepler (1571-1630), Nicolau Copérnico (1473- 1543), René
Descartes (1596-1650), Isaac Newton (1643-1727), Charles Augustin de
Coulomb (1736-1806) (BAZZO; PEREIRA, 2006).
As corporações de ofício atingiram sua hegemonia no século XII,
mas foram sendo suprimidas no fim do século XVIII e início do século
XIX, devido ao advento da máquina e às mudanças que vieram com a
Revolução Industrial. Destaca-se a implantação da máquina a vapor na
indústria da tecelagem, por volta de 1782, em conjunto com a invenção do
tear mecânico pelo inglês Edmund Cartwright, em 1785, como os grandes
responsáveis pela Revolução Industrial (BAZZO; PEREIRA, 2006).
A inserção da máquina no processo produtivo foi o momento em que
se teve o maior elemento de transformação das relações de produção oca-
sionado pela Revolução Industrial. Esse processo, que ocorreu primeira-
mente na Inglaterra, no século XVIII, abriu portas para muitos avanços
tecnológicos, permitindo o aumento da produtividade das organizações
e da oferta de manufatura e possibilitando a disposição de produtos com
melhor qualidade de acabamento em menor tempo de produção (CHIR-
MICI; OLIVEIRA, 2016). As máquinas combinadas deram à Inglaterra
uma extraordinária vantagem no comércio mundial de tecidos de algodão,
como destacam Cavalcante e Silva (2011):
O tecido era barato e podia ser comprador por milhões de pessoas
que jamais haviam desfrutado o conforto de usar roupas leves e de
qualidade. Em 1760, a Inglaterra exportava 250 mil libras esterli-
nas de tecidos de algodão e, em 1860, já estava exportando mais de
5 milhões. Em 1760, a Inglaterra importava 2,5 milhões de libras-
-peso de algodão cru, e já em 1787 importava 366 milhões.

Observou-se grande avanço da indústria têxtil inglesa, já que, dentro


das fábricas, era exigido que os operários seguissem o ritmo da máquina
a vapor. Porém, não foi apenas a indústria têxtil que sofreu grandes trans-

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Introdução à Engenharia da Produção

formações. O motor a vapor, criado em 1711 por Thomas Newcomen e


aperfeiçoado em 1760 por James Watt, possibilitou, por exemplo, a insta-
lação de moinhos distantes das margens dos rios, algo impensável devido
à dependência da energia hidráulica para garantir seu funcionamento. A
máquina a vapor também foi fundamental para a superação do espaço
pelo homem, com a criação da locomotiva e das estradas de ferro. Desse
momento em diante, tornou-se praticável o transporte de enormes cargas e
em uma velocidade muito superior à que era obtida até então (MARCHI,
2013). A locomotiva possibilitava também o trânsito de indivíduos, tendo
interferido efetivamente na vida deles.
Para Romita (1997), a revolução industrial pode ser dividida em três
fases ou revoluções gerais da tecnologia, concebidas a partir do modo
de produção capitalista desenvolvido na revolução industrial original, da
segunda metade do século XVIII. A primeira ocorreu entre o fim do século
XVIII e o começo do século XIX, proporcionada pela produção de moto-
res a vapor por meio de máquinas; a segunda, entre o fim do século XIX e
princípio do século XX, em que foi inserida a tecnologia do motor elétrico
e do motor de explosão; e a terceira, que teve início com a da Segunda
Guerra Mundial, em que se destacou o desenvolvimento de automação,
eletrônicos, genética, robótica e da alta tecnologia.
Na segunda fase da Revolução Industrial, as principais inovações de
engenharia envolvem a utilização do aço no lugar do ferro, o aprovei-
tamento da energia elétrica e dos combustíveis derivados do petróleo, a
invenção do motor a explosão, da locomotiva e do barco a vapor e o desen-
volvimento de diversos produtos químicos. Foi apenas nessa fase que esse
fenômeno começou a se espalhar pelo mundo e conseguiu atingir diversos
países da Europa Ocidental e Oriental, como Bélgica, França, Alemanha,
Itália e Rússia. Também alcançou outros continentes, ganhando espaço nos
Estados Unidos e no Japão. Na época também foram criados os primeiros
meios de comunicação, como telégrafo, telefone, rádio e cinema. Esse foi
um fator fundamental para disseminar a Revolução Industrial para outras
partes do mundo (RISSUTO, 2019), já que funcionava, basicamente,
como uma ferramenta de propaganda.
Os métodos de produção são outros marcos para a engenharia que
surgiram no fim da segunda fase da Revolução Industrial e que persistiram

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História e evolução da engenharia

por um tempo durante a terceira fase. O taylorismo, organização sistema-


tizada pelo engenheiro, é assim descrito por Lessa (2012):
consistia em tarefas dispostas em níveis hierárquicos. Existe um
controle sobre os movimentos e o tempo gasto em cada tarefa,
num constante esforço de racionalização, de forma que a tarefa
seja executada com os melhores e mais rápidos gestos, num tempo
mínimo. Os movimentos de cada trabalhador passam a ser vigiados
e o tempo cronometrado. Aqueles que produzem mais em menos
tempo recebem prêmios como incentivo. O propósito é compelir
a produzirem, num tempo mínimo, uma certa quantidade de peças
ou produtos. Esse sistema de produção aumentou a produtividade
da fábrica, mas também a exploração do trabalhador, que passou
a produzir mais em menos tempo; elevou- se, portanto, a extração
de mais-valia relativa.

Na indústria automobilística, em destaque está o fordismo, metodolo-


gia aplicada na organização do trabalho e da produção com características
complementares ao taylorismo. Com origem nas ideias de Henry Ford,
que passou de mecânico a engenheiro-chefe e proprietário de fábrica, é
o resultado de todo o conhecimento e a experiência adquiridos por esse
profissional, que buscava que a produção aumentasse, superando os resul-
tados obtidos com a produção artesanal ainda utilizada na época. Antes do
fordismo, a produção de veículos seguia um processo que infiltrava a qua-
lidade e a habilidade da mão de obra envolvida diretamente no produto.
Esse tipo de produção, apesar de ainda existir para atender a determi-
nados segmentos de mercado, como artigos de luxo, tem um custo por uni-
dade elevado quando comparado à produção em massa implementada pelo
fordismo, que decresce conforme aumenta o volume de produção. Por esse
motivo, a implantação do sistema busca trabalhar com um gerenciamento
que se preocupa tanto com a parte técnica quanto com a parte burocrática
de uma empresa, além de empregar mão de obra profundamente especia-
lizada em apenas uma função e técnicas repetitivas de produção em massa
de serviços ou de produtos padronizados (TENÓRIO, 2011).
Foi nesse período também que surgiram alguns segmentos para
beneficiar os capitalistas. De acordo com Rissuto (2019) são eles: trustes
(aliança), definida como a fusão de empresas do mesmo segmento para a
monopolização da produção, do preço e do mercado; holdings, que são
grandes conglomerados de empresas de segmentos diferentes; e cartéis,

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Introdução à Engenharia da Produção

responsáveis pelos acordos preliminares de concorrência (geralmente


associações não divulgadas). Esses segmentos permitiram que os bancos
passassem a ser detentores de poder, já que sem recursos financeiros seria
impossível manter a expansão do capitalismo e alcançar novas áreas e
mercados consumidores. Porém, países buscando alcançar novos territó-
rios e novos mercados e brigando por eles ocasionaram a eclosão da Pri-
meira Guerra Mundial.
A terceira fase da Revolução Industrial foi impulsionada pela
Segunda Guerra Mundial, com profunda evolução no campo tecnológico
e aceleradas descobertas científicas em função das necessidades da guerra.
Depois, os conhecimentos científicos desenvolvidos foram utilizados para
atender às necessidades da produção industrial; assim, a principal caracte-
rística da fase foi o condicionamento do processo produtivo industrial ao
conhecimento científico e aos resultados das pesquisas científicas, sendo
fortemente influenciada pelas descobertas e pelo avanço da tecnologia
(CUOGO, 2012). Foi também quando a Revolução Industrial alcançou o
resto do mundo.
A produção industrial do período foi marcada por informática, sof-
twares, robótica, tecnologia computadorizada, biotecnologia, microele-
trônica, telecomunicações, engenharia genética, entre outros. Nas últimas
décadas do século XX, entre os anos 1970 e 1980, essa revolução e sua
produção assumiram um papel condicionante no desenvolvimento e na
evolução da sociedade e dos métodos de produção, aplicando toda a infor-
mação disponível para a geração de conhecimentos e de dispositivos de
processamento e de comunicação (CUOGO, 2012).
A partir de 1970, grandes nações com potencial econômico assumi-
ram uma postura neoliberal em seu sistema capitalista, chegando a uma
concepção de estado minimalista, cuja ação se restringia ao policiamento,
à justiça e à defesa nacional, com pouca participação de intervenção e
regulamentação de mercado (RISSUTO, 2019). Para as indústrias da
época, Farah Júnior (2000) afirma que
avanços da tecnologia permitem uma rápida mudança na capaci-
dade dos equipamentos em processar, armazenar, distribuir e trans-
mitir informações através de redes de comunicação. O conheci-
mento na forma de informação passa a ser uma mercadoria valiosa

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História e evolução da engenharia

para implementar a inovação nos processos de gestão empresarial,


com o objetivo de reduzir custos e aumentar a capacidade compe-
titiva das empresas […] a fim de atingir níveis de elevada compe-
tividade internacional.

Outra característica importante atribuída à terceira fase da Revolução


Industrial foi o crescimento da produtividade, com a utilização cada vez
menor de mão de obra. Como resultado, houve aumento generalizado de
desemprego em todo o mundo. Em meados de 1980, ficou claro o surgi-
mento de uma nova indústria e uma nova economia baseadas em conhe-
cimento. A busca por mão de obra qualificada, inclusive de engenheiros,
capaz de dominar as novas tecnologias foi fundamental para garantir a
estabilidade de um projeto em desenvolvimento (RISSUTO, 2019).
Segundo Cotrim (2005 apud Rissuto, 2019),
uma das características mais marcantes do período foi ao final
do século XX, com o surgimento dos “tecnopólos” que nada
mais são do que regiões do mundo aonde polos de tecnologia
se aliaram através de associações com universidade e centros de
pesquisa para avançar nos campos da robótica, biotecnologia,
bioprocessos e outras áreas que ganham cada vez mais espaço e
poder econômico.

Como tecnopolos podemos citar o Japão, com o modelo de produção


toyotista, que procurava adequar a produção à demanda, além de imple-
mentar uma política de reestruturação produtiva dos setores de alta tec-
nologia (microeletrônica, informática, mecânica de precisão), e que teve
como consequência a modernização de boa parte do complexo eletroe-
letrônico e mecânico nacional. Também foi assim no Vale do Silício, na
Califórnia (EUA), onde surgiram a Microsoft e a Apple, inovadoras no
mundo da informática (FARAH JÚNIOR, 2000; RISSUTO, 2019).
Por fim, há a quarta fase da Revolução Industrial, também chamada
de Indústria 4.0, um conceito desenvolvido pelo alemão Klaus Schwab,
diretor e fundador do Fórum Econômico Mundial, que surgiu pela pri-
meira vez em 2016 e em pouco tempo se tornou uma realidade defendida
por diversos pesquisadores da área. De acordo com a teoria, nessa nova
fase da revolução haverá um avanço tecnológica tão amplo e tão múltiplo
que a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos será pro-
fundamente alterada (SOARES, 2018).

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Introdução à Engenharia da Produção

Apesar de não ainda sabermos exatamente o resultado da aplicação


desses novos conceitos advindos da chamada Quarta Revolução Industrial,
podemos afirmar que o mercado de engenharia deve ser profundamente
afetado. Aliás, alguns fatores já sinalizam a chegada desse evento ao setor.
Temos percebido a grande aplicação de novos instrumentos e conceitos,
como impressão 3D, engenharia genética, inteligência artificial e veículos
autônomos (SOARES, 2018; CELERE, 2019). De qualquer forma, é fato
que a tecnologia está em evolução constante e que a engenharia, como
parte importante desse desenvolvimento, tem de acompanhar.

1.3 Engenharia como profissão


Vimos que o homem sempre buscou soluções para os problemas do
dia a dia. Mesmo sem utilizar o termo engenheiro, muitos já apresentavam
essa característica, entretanto se baseavam apenas em regras práticas e
empíricas sem nenhuma base teórica.
A mais remota escola que ensinou a arte de engenhar de que se tem
registros era grega e fazia parte do grande complexo da Escola de Alexan-
dria, fundada em 290 a.C. Não há certeza se tais instituições utilizavam os
termos engenharia e engenheiro, já que os registros mais remotos deles
datam de séculos mais tarde. Do ano 600 ao fim dos 900 há indícios de
um oficial e um matemático descrito como alguém que é muito bom em
matemática, conhecedor da arquitetura militar e que em seu ofício são
exigidas rapidez, solidez e economia (FERNANDES JUNIOR; ZUIN;
LAUDARES, 2018).
De acordo com historiadores, a palavra engenheiro foi utilizada ofi-
cialmente pela primeira vez na Itália em uma ordem do rei francês Carlos
V (1337-1380), mas apenas no século XVIII começou a ser atribuída aos
trabalhadores que criavam técnicas com base em princípios científicos.
Anteriormente, o termo designava apenas aqueles que se dedicavam ao
invento e à utilização de engenhos. Na língua portuguesa, apenas em 1814
a palavra foi incluída em um dicionário (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Para Telles (1984), o trabalho de diversos cientistas tornou realidade
a engenharia científica:

– 20 –
História e evolução da engenharia

Leonardo da Vinci e Galileu […] podem ser considerados como os


precursores da engenharia científica. Leonardo fez […] a primeira
aplicação da matemática à engenharia estrutural. Seus estudos,
entretanto, nunca foram publicados e permaneceram ignorados por
séculos. Galileu publicou, em 1638, o famoso livro As Duas Novas
Ciências, que trata, entre outros assuntos, da resistência de vigas
e de colunas, sendo assim o primeiro livro, em todo mundo, no
campo da resistência dos materiais. Daí por diante, aos poucos a
engenharia foi se estruturando, à medida também que se desenvol-
viam as ciências matemáticas […] A lei de Hooke, princípio básico
da resistência dos materiais, é de 1660; o cálculo infinitesimal, fer-
ramenta fundamental da análise matemática, foi descoberto por
Newton e Leibniz em 1674. Em 1729, publica-se a primeira edição
do livro La Science des Ingénieurs, do engenheiro militar francês
General Belidor, que teve muitas edições e foi um texto clássico,
durante muito tempo […] Os estudos de Bernouilli, de Euler e de
Navier, que fundaram a hidrodinâmica e a teoria das estruturas, são
de meados do Século XVIII e início do XIX. Em 1798, é publicado
o livro de Girard, primeiro livro especificamente a tratar da resis-
tência dos materiais.

Ainda no século XVIII, diversos cientistas franceses, como Siméon


Denis Poisson (1781-1840), Claude Louis Marie Henri Navier (1785-
1836), Gaspard-Gustave Coriolis (1792-1843), Jean-Victor Poncelet
(1788-1867) e Gaspar Monge (1746-1818), buscaram a definição da téc-
nica científica, o que resultou na fundação, em Paris, em 1774, da École
Polytechnique, que tinha como finalidade ensinar as aplicações da mate-
mática aos problemas da engenharia (BAZZO; PEREIRA, 2006). Havia
duas direções para a formação de engenheiros: uma civil, relacionada à
infraestrutura do país, e outra militar, voltada para a defesa e a expansão
da nação e dos ideais franceses. Essa última se devia ao fato de a escola
ter sido fundada no período mais difícil da Revolução Francesa, em que
o treinamento de jovens para oficiais era necessário. É importante des-
tacar que o ingresso na escola ocorria exclusivamente por meritocracia,
independentemente de classe social, o que representava o ideal igualitário
francês da época (AMADEO; SCHUBRING, 2015).
Mas foi a École Nationale des Ponts et Chaussés, fundada em Paris
em 1747, por iniciativa de Daniel-Charles Trudaine, a primeira instituição
de ensino em todo o mundo a ministrar um curso regular de engenharia
e a diplomar profissionais com esse título. No mesmo, período existiu a

– 21 –
Introdução à Engenharia da Produção

École Nationale Supérieure des Mines, também em Paris, que objetiva


a formação de engenheiros de minas devido ao significativo desenvolvi-
mento técnico em áreas como extração de minérios, siderurgia e metalur-
gia que ocorreu em meados do século XVIII. Essas escolas eram voltadas
para o ensino prático, diferenciando-se, portanto, da École Polytechnique.
Naquele momento foi estabelecida uma divisão da engenharia em dois
segmentos: dos engenheiros práticos e dos engenheiros teóricos (TEL-
LES, 1984; BAZZO; PEREIRA, 2006).
A designação de engenheiro civil foi utilizada pela primeira vez em
uma autonominação feita pelo engenheiro inglês John Smeaton, um dos des-
cobridores do cimento Portland, no fim do século XVIII (TELLES, 1984).
Inicialmente, a denominação foi aplicada em alguns países para definir todo
profissional que não se ocupava de serviços públicos ou do Estado; entre-
tanto, também foi usada para abranger todas as engenharias, com exceção
da militar (BAZZO; PEREIRA, 2006). O primeiro Instituto de Engenheiros
Civis foi fundado em Londres, em 1818, com o propósito de defender e
enaltecer o significado da profissão, ainda mal compreendida e depreciada,
mesmo nos centros mais avançados do mundo (TELLES, 1984).
As especificações de engenharia só vieram alguns anos mais tarde. As
primeiras escolas formavam o que Telles (1984) chama de “engenheiros
enciclopédicos”, e a formação da época facilitava o autodidatismo como
especialização posterior. Isso, em conjunto com o mercado de trabalho
escasso, não permitia aos engenheiros a escolha do campo de atuação,
obrigando-os, muitas vezes, a mudarem de um campo para outro (FER-
NANDES JUNIOR; ZUIN; LAUDARES, 2018).
Em Portugal, buscando recuperar o atraso em relação a outras nações,
o visionário Rei D. João V, desde o início do século XVIII, deu início
a um progresso da engenharia e de ciências afins (astronomia, cartogra-
fia). Manoel de Azevedo Fortes, engenheiro-mor do reino, e o Colégio de
Santo Antão, dirigido pelos jesuítas, contribuíram imensamente para esse
projeto. Nesse colégio, inclusive, desde o século XVI já se estudavam
conceitos importantes para a engenharia, como Aula da Esfera, em que
eram transmitidos conhecimentos relativos à matemática aplicada à nave-
gação e às fortificações, de onde se originaram muitos dos engenheiros
militares que atuaram no Brasil Colônia (TELLES, 1984).

– 22 –
História e evolução da engenharia

Para o completo desenvolvimento da engenharia e seu avanço pelo


mundo, o próximo passo foi a criação, nos países de língua alemã, das
escolas técnicas superiores de Praga (1806), Viena (1815), Karlsruhe
(1825) e Munique (1827). Entretanto, a escola de Zurique (1854) merece
destaque por sua maior importância no aparecimento da engenharia
moderna (BAZZO; PEREIRA, 2006). As escolas alemãs apresentavam
grande diferenças em relação às parisienses; por exemplo, o ciclo básico
das escolas politécnicas foi complementado com cursos das especialida-
des da engenharia. Houve, também, nesse contexto, a incorporação, em
diversas escolas politécnicas, de cursos de arquitetura aos de engenharia,
ocasionando o surgimento do engenheiro-arquiteto.
As escolas de engenharia alemãs tinham o propósito de aproximar
o ensino de engenharia da atividade industrial com variados graus de
sucesso. Enquanto isso, as instituições de ensino de Paris permaneceram
relativamente protegidas, tendo ainda enorme prestígio durante o período.
Esse cenário foi alterado no fim do século XIX, quando as escolas germâ-
nicas começam a rivalizar com as francesas (CARAMORI, 2014).
Nos Estados Unidos, durante a Guerra Civil, o Congresso aprovou em
1892 a Lei Morrill, concedendo ajuda federal a vários estados para fundar
faculdades de agricultura, artes mecânicas e engenharia. Anterior a essa
lei existiam poucas faculdades, e a grande maioria só oferecia um curso,
o de engenharia civil. As primeiras escolas criadas após a implementação
da lei foram o Massachusetts Institute of Technology (MIT), em 1865,
com seis cursos de engenharia no currículo: engenharia civil, mecânica,
de mineração, química prática, arquitetura e ciências gerais; o Califor-
nia Institute of Technology (1919); e o Carnegie Institute of Technology
(1905). O Rensselaer Polytechnic Institute, fundado em 1824, foi um dos
primeiros institutos americanos caracterizados como escola de engenharia
dos Estados Unidos, pois repassava aos alunos a teoria e complementava o
ensino com o treinamento de técnicas e processos. Com essas instituições,
a técnica moderna tomou corpo, ampliando-se à aplicação da ciência à
tecnologia (MANN, 1918).
No Brasil, deve-se destacar que existe uma diferença fundamental
entre as primeiras escolas de engenharia a serem instaladas e as que estão
atualmente em funcionamento. Enquanto no início objetivavam apenas o

– 23 –
Introdução à Engenharia da Produção

treinamento de técnicas e processos, a maior preocupação atual é sobre-


tudo formar e educar. Fornecer ao futuro profissional embasamento teó-
rico consistente para que ele possa atuar com competência e resistir ao
rápido obsoletismo das técnicas e treinar são os objetivos do ensino da
engenharia no País. Para Cocian (2017),
Uma boa escola de engenharia proverá o ambiente ideal no qual
os jovens engenheiros poderão, em relativamente curto espaço de
tempo, se preparar para uma grande variedade de “posições de par-
tida”. Um típico currículo de engenharia é um programa integrado,
cuidadosamente desenhado para oferecer um período de educação
intensivo, eficiente, desafiador e agradável. O tipo de nível educa-
cional necessário para os vários tipos de empregos de engenharia,
depende do tipo de indústria ou empregador, campo da engenharia,
e ainda, da responsabilidade funcional.

1.4 A engenharia no Brasil e a


formação dos engenheiros
A construção de casas pelos colonizadores pode ser considerada a
primeira atividade realizada no Brasil relacionada à engenharia. Depois
vieram obras de defesa, com muros e fortes. Isso ocorreu porque a história
do continente americano só é contada após o período do descobrimento e
pouco se sabe sobre as construções indígenas da época – apenas que elas
eram rudimentares.
Em relação às primeiras casas aqui construídas, eram apenas rús-
ticos abrigos cobertos de palha, muito similar provavelmente aos uti-
lizados pelos indígenas. Tais construções tinham poucos conceitos de
engenharia e funcionavam como moradia, mas atendiam a todos os tipos
de necessidade da população, como capelas, armazéns e escolas. As pri-
meiras obras de defesa também eram primitivas, consistindo simples-
mente de tapumes de troncos de árvores aplicados uns sobre os outros,
já que eram abundantes (TELLES, 1984). Porém, para o início do enten-
dimento de engenharia na época, considera-se como marco inicial da
engenharia no Brasil as atividades que eram realizadas pelos oficiais-
-engenheiros e pelos mestres construtores de edificações civis e religio-
sas (DOLLABONA, 2008).

– 24 –
História e evolução da engenharia

Em relação ao desenvolvimento da indústria brasileira, destacam-


-se quatro períodos: proibição, implantação, Revolução Industrial
Brasileira e internacionalização da economia. O primeiro período, de
1500 a 1808, chamado de proibição, foi caracterizado pela restrição ao
desenvolvimento de atividades industriais: a colônia funcionava ape-
nas como fornecedora de matéria-prima. Apenas pequenas indústrias
de fiação, calçados e vasilhames eram permitidas para consumo interno,
devido às distâncias entre a metrópole e a colônia. No mais, as pes-
soas deviam esperar os produtos processados na metrópole chegarem
ao País a preços exorbitantes. Na segunda metade do século XVIII,
algumas indústrias, como a do ferro e a têxtil, começaram um leve
desenvolvimento, mas, como já começavam a competir com produtos
oriundos da corte portuguesa, podendo facilitar o processo de tornar a
colônia financeiramente independente, a reação de Portugal foi nega-
tiva. Assim, em 5 de janeiro de 1785, Dona Maria I aboliu todas as
manufaturas têxteis da colônia, exceto a de panos grossos, para uso de
escravos e de trabalhadores (AZEVEDO, 2010). Com a economia fun-
damentada na escravidão, que representava mão de obra barata, e com
a proibição de instalação de indústrias, o Brasil viveu uma paralisação
em seu desenvolvimento industrial e, consequentemente, de sua enge-
nharia (DOLLABONA, 2008).
Entretanto, os conflitos históricos dos portugueses com as nações
vizinhas levaram à mudança da Família Real para o Brasil. Com a necessi-
dade de locais para acomodar os acompanhantes da Corte, foram requisi-
tadas as casas dos locais para aconchego da nobreza. Esse grande aumento
do fluxo de pessoas agravou os problemas sociais e urbanos; além da falta
de moradia, o abastecimento de água, o saneamento e a segurança pública
foram prejudicados e considerados ineficazes. Essa situação causou um
enorme transtorno tanto para a população, que acabou ficando sem ter
onde morar, quanto para a nobreza portuguesa, acostumada com os luxos
de Lisboa e que considerava as moradias brasileiras precárias, desconfor-
táveis e mal construídas. Aos poucos, no entanto, foram sendo realizadas
modificações na estrutura da cidade, visando resolver esses problemas.
Ruas foram pavimentas e estradas, alargadas. A iluminação, o sanea-
mento, o abastecimento de água potável e, consequentemente, a higiene
foram melhorados (MEIRELLES, 2015).

– 25 –
Introdução à Engenharia da Produção

Para o desenvolvimento industrial, a chegada da Família Real marcou


o período de implantação. Os portos foram abertos ao comércio exterior
com taxação fixa de 24% para produtos importados, exceto para vindos de
Portugal, que foram taxados em 16%, e oriundos da Inglaterra, que foram
taxados em 15%, principalmente devido às dívidas de Portugal com o
país. A baixa taxação de produtos ingleses prejudicou o desenvolvimento
industrial brasileiro, e a produção nacional não conseguia competir com
os baixos preços da produção em massa da Inglaterra, que já tinha passado
pela Revolução Industrial – assim, o mercado comercial interno foi inva-
dido por produtos ingleses. Como a escravidão ainda persistia, a ausência
de trabalhadores livres e assalariados para constituir a base do mercado
consumidor também prejudicou o desenvolvimento industrial brasileiro.
A alta sociedade, enriquecida com as fazendas de café, ainda não estava
disposta a investir em indústrias, focando apenas o comércio de escravos
(AZEVEDO, 2010).
Em 1850, a assinatura da Lei Eusébio de Queirós, que proibia o
tráfico de escravos, conduziu o País a duas situações importantes para
o desenvolvimento industrial: a primeira foi a disponibilidade de capital
para aplicação industrial, devido à impossibilidade de comprar escravos; a
segunda foi a necessidade de manufatura para o desenvolvimento da cafei-
cultura, principal atividade econômica da época. Isso resultou na entrada
de um número considerável de imigrantes, que, além de contribuírem com
novas técnicas de produção de manufaturados, constituíram a primeira
mão de obra assalariada (organizada) do Brasil.
Esses trabalhadores formaram o primeiro mercado consumidor do
País, indispensáveis ao desenvolvimento industrial, bem como constituí-
ram força de trabalho especializada, também necessária para o desenvol-
vimento industrial (AZEVEDO, 2010). De acordo com Azevedo (2010),
com capital e consumidores, a implantação de indústrias no Brasil se tor-
nou cada vez mais atrativa:
Nessa época, o setor que mais cresceu foi o têxtil, favorecido em
parte pelo crescimento da cultura do algodão, em razão da Guerra de
Secessão dos Estados Unidos (grande exportador desse produto) entre
1861 e 1865. Na década de 1880 ocorreu o primeiro surto industrial,
quando a quantidade de estabelecimentos passou de 200, em 1881,
para 600, em 1889. Esse primeiro momento de crescimento industrial

– 26 –
História e evolução da engenharia

inaugurou o processo de substituição de importações. Beneficiaram-


-se o mercado brasileiro e a indústria brasileira do período da Primeira
Guerra Mundial, da Crise Econômica Mundial/Quebra da Bolsa de
Nova Iorque e mais tarde da Segunda Guerra Mundial.
Em 1907 foi realizado o 1° Censo Industrial do Brasil, indicando
a existência de pouco mais de 3.000 empresas. O 2° Censo, em
1920, mostrava a existência de mais de 13.000 empresas, carac-
terizando um novo grande crescimento industrial nesse período,
principalmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando sur-
giram quase 6.000 empresas. Iniciava-se, portanto, o século XX
com uma indústria de bens de consumo que já abastecia boa parte
do mercado interno. O setor alimentício cresceu bastante, prin-
cipalmente na exportação de carne, ultrapassando o setor têxtil.
A economia do país continuava, no entanto, dependente do setor
agroexportador, especialmente o do café, que respondia por apro-
ximadamente 70% das exportações brasileiras.

Outro fator que explica o surto industrial do fim do século XIX foi a
política do encilhamento, com a intensificação da emissão de papel-moeda
e a atribuição de mais autonomia e responsabilidades aos bancos privados.
Durante um período curto, o total de recursos financeiros em circulação
mais do que duplicou (DA SILVA; DA SILVA, 2016).
A revolução de 1930 marcou a terceira fase da industrialização bra-
sileira, que ocorreu bem mais tarde em relação aos países europeus, entre
1930 e 1956. Antes desse período, as indústrias nacionais eram responsá-
veis apenas pela montagem de peças produzidas e importadas, sendo sub-
sidiárias de matrizes estrangeiras. Foi Getúlio Vargas quem impulsionou a
indústria nacional, estabelecendo um plano de política interna e afastando
oligarquias tradicionais do poder do Estado, que representavam os interes-
ses agrário-comerciais (AZEVEDO, 2010).
O Governo Vargas se propôs a impulsionar o desenvolvimento
econômico, permitindo a incorporação da indústria pesada de bens de
capital e de insumos e fazendo o investimento de dinheiro público em
empreendimentos estratégicos, como petróleo, eletricidade e siderurgia,
fundamentais para o avanço do País. Getúlio também buscou uma aliança
com os Estados Unidos, com colaboração técnica e empréstimos públicos,
visando promover uma estruturação de coleta e utilização de dados da
industrialização (CAPUTO; MELO, 2009).

– 27 –
Introdução à Engenharia da Produção

Foi instituída também uma política industrializante que favorecia a


mão de obra nacional em relação à mão de obra imigrante. Com isso, os
estados do Sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo, Minas Gerais e Rio
Grande do Sul, que já tinham faculdades com diversos cursos, a manu-
fatura brasileira se tornou abundante em função do êxodo rural (fruto da
decadência da cultura cafeeira) e de movimentos migratórios dos nordes-
tinos. Muitos, inclusive, formaram-se engenheiros. Vargas investiu na
criação de uma infraestrutura industrial e estabeleceu uma indústria de
base forte e incrementou a geração de energia. No período, foram cria-
dos o Conselho Nacional do Petróleo, a Companhia Siderúrgica Nacional
(CSN), a Companhia Vale do Rio Doce e a Companhia Hidrelétrica do
São Francisco (AZEVEDO, 2010).
A última parte da industrialização brasileira, chamada de fase de
internacionalização da economia, está compreendida entre 1956 e 1961.
O Presidente Juscelino Kubitschek lançou na época o Plano de Metas, que
destinava dois terços dos recursos públicos ao impulso do setor de energia
e transporte. Segundo Caputo e Melo (2009),
O Plano tinha como objetivo maior elevar o padrão de vida dos
brasileiros, constituindo-se de projetos de desenvolvimento que se
distribuíam em cinco grandes setores: energia, transportes, indús-
tria de base, alimentação e educação. Cada um dos setores estava
dividido em metas, que totalizavam 30. Era ainda parte do Plano a
construção de Brasília, cujos projetos de transporte estavam espe-
cialmente articulados. O desenvolvimento de cada um dos seto-
res seria alcançado através de grandes investimentos estatais e da
orientação do investimento privado para os setores produtivos.

Foi nesse período que o setor rodoviário se desenvolveu em um ritmo


mais intenso e houve grande crescimento da indústria de bens de produção
em relação a bens de consumo. Esse aumento da indústria se refletiu prin-
cipalmente nos seguintes setores: siderurgia e metalurgia (automóveis),
químico e farmacêutico e indústria de construção naval, implantada no
Rio de Janeiro em 1958.
Todo esse desenvolvimento industrial no Brasil só pode acontecer
com a presença de profissionais capacitados. Segundo Telles (1984), a
primeira menção em relação à educação e ao ensino da engenharia no
Brasil foi com a contratação do holandês Miguel Timermans, conhecido

– 28 –
História e evolução da engenharia

como “engenheiro de fogo” entre 1648 e 1650. Esse profissional veio ao


País com a função de formar pessoas qualificadas para os trabalhos de for-
tificações e ensinar sua arte e ciência. Mas foi por meio do trabalho desen-
volvido pelo engenheiro militar português Gregório Gomes Henriques de
Matos, também enviado ao Rio de Janeiro com o intuito de reparar suas
fortificações, que em 1694 se iniciou o ensino sobre fortificação e arqui-
tetura militar. Esse mesmo homem, em 1699, seria encarregado de dirigir
a Aula de Fortificação, no Rio de Janeiro, que, em 1710, ainda não havia
sido ministrada por falta de materiais como livros, compassos e demais
instrumentos (BEIBER, 2013).
A partir de então, o ensino da engenharia começou a se difundir pelo
resto do País. Azevedo (2010) discorre que
o engenheiro militar José Velho de Azevedo começou a ensinar
Artilharia no Maranhão e no Pará. Em 1699, começou a fun-
cionar a Escola de Artilharia e Arquitetura Militar na Bahia,
com o intuito de diminuir a escassez de engenheiros milita-
res aptos a executar a manutenção das fortificações e proje-
tar construções civis, sob a responsabilidade do engenheiro
militar António Rodrigues Ribeiro. O conteúdo programático
adotado foi o mesmo do curso de Lisboa, com a seguinte com-
posição: estudo dos tratados de arquitetura militar, matemá-
tica, aritmética, geometria, fortificação, ataque e defesa das
praças, desenho, artilharia, longimetria, altimetria, e ao estudo
dos materiais construtivos.

No Rio de Janeiro, em 1792, foi criada uma instituição análoga à


criada em Portugal, inclusive no nome: Real Academia de Fortificação e
Desenho. Segundo Telles (1984), diferentemente dos cursos anteriores,
a academia funcionou como um verdadeiro instituto de ensino superior,
portanto considera-se esse evento como marco do início formal dos cursos
de engenharia no Brasil. Embora muito semelhante à irmã portuguesa,
essa academia diferia da de Portugal, que só buscava fortalecer a marinha
(BEIBER, 2013).
Com o passar dos anos, a Academia Real Militar sofreu várias modifi-
cações e reformas, passando a se chamar, após a Independência, Academia
Imperial Militar – e, mais tarde, Academia Militar da Corte. Em outubro
de 1823, um decreto permitiu a matrícula de alunos civis na instituição,

– 29 –
Introdução à Engenharia da Produção

não ficando mais limitada a membros do Exército (BAZZO; PEREIRA,


2006). A partir de 1858, a Escola Militar da Corte foi dividida, criando
a Escola Central, destinada à formação de engenheiros civis, e a Escola
Militar e de Aplicações do Exército, que se destinava à formação do enge-
nheiro militar. Mesmo com a divisão, as duas continuaram vinculadas ao
Ministério da Guerra e, somente com a publicação do Decreto n. 5.529, de
17 de janeiro de 1874, a formação de engenheiros civis passou a ser fun-
ção das instituições civis. Sendo assim, após o processo de desvinculação
do Ministério da Guerra, a Real Academia se transformou em Escola Poli-
técnica do Rio de Janeiro, tornando-se a primeira Escola de Engenharia
não militar do País (CONFEA, 2010).
A primeira a oferecer uma engenharia com especialização inerente no
Brasil foi a Escola Politécnica de São Paulo, em 1874, com o curso Enge-
nheiros de Artes e Manufaturas, hoje Engenharia Industrial, e a Escola de
Minas de Ouro Preto, atual Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop),
quase uma pioneira na área de engenharia, tendo sua fundação como con-
sequência da necessidade de formação de profissionais de engenharia de
minas na região (FERNANDES JUNIOR; ZUIN; LAUDARES, 2018).
Porém, mesmo com a formação pluralizada das engenharias, Telles (1984)
destaca que
havia ainda uma enorme predominância quantitativa dos tradicio-
nais “engenheiros civis”, que eram afinal de contas, o “pau para
toda obra”. Ainda em 1937, de um total de 57 diplomados pela
Escola Politécnica de São Paulo, 45 eram engenheiros civis, sendo
que em 1942, esses números foram respectivamente 61 e 43.

Após a proclamação da República, mudanças em diversos setores


determinaram aumento da demanda de técnicos para o desenvolvimento
da engenharia; com isso, foram fundadas cinco escolas de 1910 a 1914,
sendo três em Minas Gerais, uma no Paraná e a última em Recife. Das
12 escolas de engenharia existentes até aquele momento no País, quatro
estavam localizadas em território mineiro. O século XIX também foi mar-
cado pela criação da primeira escola privada de engenharia, a Escola de
Engenharia Mackenzie (CONFEA, 2010).
O evento da Primeira Grande Guerra Mundial, em conjunto com os
problemas econômicos dos anos seguintes, teve reflexos negativos no

– 30 –
História e evolução da engenharia

desenvolvimento geral do Brasil. Até o fim dos anos 1930, fundou-se


somente mais uma escola de engenharia por aqui, a Escola de Engenha-
ria Militar, em 1928. Na primeira fase da Era Vargas (1930-1936) ape-
nas a Escola de Engenharia do Pará, em 1931, foi inaugurada. A Facul-
dade de Engenharia Industrial, em São Paulo, em 1946, e a Escola de
Engenharia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em
1948, foram criadas durante o Estado Novo de Vargas. Assim, ao fim
da primeira metade do século XX, havia 16 escolas de engenharia em
funcionamento no Brasil, oferecendo 70 cursos de diversas modalidades
da área.
Para se ter uma ideia, dados de um cenário mais recente mostram
que a criação de cursos de Engenharia cresceu exponencialmente, prin-
cipalmente após a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
passando de 12 novos cursos de 1997 a 2005 para cerca de 80 entre
1997 e 2005. Novas áreas de engenharia também surgiram nesse período
(CONFEA, 2010).

Da teoria à prática
E a engenharia de produção? Como surgiu essa área específica?
As razões para se adotar o nome engenharia de produção, uma vez
que o mais lógico seria engenharia industrial, tal como a industrial engi-
neering norte-americana, deve-se ao fato de o Sistema Confea/Crea da
década de 1950 já ter definido engenheiro industrial como aquele que é
formado com um misto de engenheiro químico, mecânico e metalúrgico,
com maior especialização em um desses setores.
O que faz o engenheiro de produção?
Segundo a Associação Brasileira de Engenharia de Produção (MÁS-
CULO, c2014), “Compete à Engenharia de Produção o projeto, a implan-
tação, a melhoria e a manutenção de sistemas produtivos integrados,
envolvendo homens, materiais e equipamentos, especificar, prever e ava-
liar os resultados obtidos destes sistemas, recorrendo a conhecimentos
especializados da matemática, física, ciências sociais, conjuntamente com
os princípios e métodos de análise e projeto da engenharia”.

– 31 –
Introdução à Engenharia da Produção

Síntese
Vimos como a engenharia e o homem evoluíram juntos desde os
primórdios. A necessidade de resolver problemas do cotidiano foi funda-
mental para o desenvolvimento prático da engenharia, enquanto a busca
por respostas e explicações foi responsável pelo desenvolvimento da parte
científica. Assim, passamos por egípcios, romanos e ingleses, responsá-
veis por um dos maiores marcos da engenharia, a Revolução Industrial.
Grande aumento de produtividade e busca por novas invenções,
experimentos e tecnologias levaram à terceira fase da Revolução, com
softwares, internet, robótica e comunicação cada vez mais facilitada.
Enquanto o resto do mundo tinha essa explosão de desenvolvimento, no
Brasil tudo seguia a um passo mais lento. Mesmo que alguns cursos de
engenharia já estivessem em funcionamento, foi o Governo Vargas (1930)
que incentivou o desenvolvimento industrial e, consequentemente, o
desenvolvimento do ensino em engenharia. Na pluralidade de seus ensi-
nos está a engenharia de produção, formação com cada vez mais demanda
de emprego e que será de fundamental importância para a nova fase da
Revolução Industrial Mundial, a Indústria 4.0.

Atividades
1. Quais foram os fatos centrais das três primeiras fases da Revolu-
ção Industrial?
2. No desenvolvimento das escolas de engenharia, uma rixa surgiu
entre franceses e alemães. Qual foi o motivo? Discuta:
3. Descreva como foi o início da engenharia no Brasil:
4. A quem é atribuída a criação da primeira escola de engenharia
do Brasil? Quando e em que cidade foi criada?

– 32 –
2
Engenharia e sociedade

A função de algumas profissões, em uma sociedade – como


médicos, professores, enfermeiros e juízes – é objetiva e clara
para todos. Porém, nesta mesma sociedade, às vezes falta o ver-
dadeiro reconhecimento ao engenheiro. Este profissional, muitas
vezes reconhecido como “frio” por estar focado em números,
passou a ter um papel cada vez mais impactante na forma como
convivemos com a tecnologia, afinal, hoje somos totalmente
dependentes de diversos produtos tecnológicos. É importante
também nos lembrarmos, com base na definição de engenheiro
apresentada no Capítulo 1 – é “aquele que busca resolver pro-
blemas”, satisfazer as necessidades humanas, tornar a vida mais
fácil – que esta é a forma como o engenheiro se enquadra na
sociedade. Conforme Telles (1999):
[...] um prédio destina-se à moradia, ao trabalho ou ao
lazer das pessoas; as estradas e os veículos destinam-se
ao transporte de pessoas ou de mercadorias, que, por sua
vez, destinam-se a satisfazer necessidades das pessoas; as
indústrias destinam-se a produzir bens que também vão
atender às necessidades humanas, e, assim por diante,
para quaisquer outros projetos ou obras de engenharia:
portos, usinas e sistemas elétricos, obras públicas, siste-
mas de comunicações, etc. (TELLES, 1999).
Introdução à Engenharia da Produção

2.1 Definição do papel social e da


importância do engenheiro
Primeiramente, é importante desmitificarmos a visão que muitos têm
da engenharia e do profissional engenheiro – a engenharia não é limi-
tada a apenas estudos de números e outras disciplinas voltadas para a
área de exatas. Esta profissão é, direta ou indiretamente, relacionada com
a melhora do convívio em sociedade. A interação com as pessoas e seu
entorno é uma parte importante para a realização do trabalho do profissio-
nal de engenharia. Um exemplo clássico é a construção de um prédio – é
necessário que o engenheiro conheça o que as pessoas que irão habitar ali,
futuramente, desejam para o seu futuro.
Com a evolução da tecnologia, temos, de alguma forma, a incorpora-
ção da capacidade de abordar questões técnicas com as questões sociais.
Isso, de certo modo, acaba influenciando na atuação profissional do enge-
nheiro, que opta por seguir um caminho na direção da formação do cha-
mado engenheiro cidadão (BAZZO; PEREIRA, 2006). Segundo Bazzo e
Pereira (2006):
[...] destacamos que uma característica importante do engenheiro
é a sua visão sistêmica, que lhe confere um bom domínio da rea-
lidade física; e, por extensão, das atividades social e econômica.
Isso proporciona um panorama de conjunto que propicia interpre-
tações de sistemas e subsistemas em contextos bastante amplos.
Assim, o engenheiro adquire durante a sua formação uma ideia
integrada de seu trabalho com o ambiente que o cerca (BAZZO;
PEREIRA, 2006).

O desenvolvimento tecnológico depende também do desenvol-


vimento da engenharia e dos engenheiros. Esses profissionais estão
associados a métodos produtivos, melhoria de produtos e de proces-
sos, gestão, atividades de inovação, pesquisa e desenvolvimento. Sua
profissão é ampla e multidisciplinar: seja na área de construção civil,
infraestrutura e saneamento, estações de tratamento de água e resí-
duos, desenvolvimento de produtos, transportes, comunicação e outras
(Figura 2.1) – a engenharia está presente se ramificando em diversos
setores – acadêmicos, governamentais e empresariais (DE LUCA et
al., 2018).

– 34 –
Engenharia e sociedade

Figura 2.1 – Obras de engenharia: Torre de comunicação e telefonia e estação de


tratamento de resíduos

Fonte: Shutterstock.com/Quality Stock Arts/arhendrix

Todas essas novas características atreladas à engenharia tornam


necessário que o profissional engenheiro tenha livre-iniciativa, proa-
tividade, senso crítico, capacidade de trabalho em equipe, vontade de
inovar, além das características de caráter técnico-científico. Logo, é
muito importante que os engenheiros sempre tenham como objetivo o
propósito social de tudo o que fazem, porque as pessoas – que são os
destinatários de todos os seus projetos ou obras de engenharia – têm
o direito de que suas necessidades sejam atendidas da melhor maneira
possível (TELLES, 1999).

– 35 –
Introdução à Engenharia da Produção

Mas não podemos nos esquecer que o engenheiro, em sua forma-


ção, deve desenvolver habilidades para um raciocínio lógico/analítico, e é
esse raciocínio, em conjunto com as outras características citadas anterior-
mente, que, de acordo com Bazzo e Pereira (2006), fazem com que esse
profissional tenha boas chances de sucesso em diversas atividades, mesmo
aquelas não diretamente ligadas à sua área de formação técnica específica,
como administração, vendas, análise de sistemas, entre outras.
Infelizmente, ainda encontramos casos em que engenheiros, e até
mesmo universidades/faculdades de engenharia não consideram o tama-
nho da responsabilidade social dessa profissão e as consequências sociais
e humanas daquilo que projetam ou daquilo que constroem. O elemento
humano é reduzido simplesmente a um número ou um fator de produção –
assim como os materiais – e não ao destinatário final de qualquer atividade
de engenharia. É necessário, por isso, rever os programas escolares para
neles incluir materiais de caráter social e humano.
O desenvolvimento tecnológico tem levado os engenheiros a alcan-
çar alturas cada vez maiores – e isso não se refere apenas a obras de
construção civil, com cada vez mais andares. Com o desenvolvimento de
novas tecnologias, de novos processos, de novos produtos cada vez mais
rápidos, tudo tem sido mais intenso, audacioso e de maior risco. Portanto,
a ocorrência de falhas pode ter consequências também cada vez maiores,
se não catastróficas (TELLES, 1999). Como exemplo, podemos analisar o
que diz Telles (1999):
As consequências da má engenharia podem ser gravíssimas. Aci-
dentes como os que ocorreram em Chernobyl, Bhopal (Índia) e
Mar de Aral (Sibéria) ilustram bem esse fato. Há tempos, cada
cidade tinha sua própria usina elétrica e, por isso, as consequências
de uma pane afetavam apenas a própria cidade. Atualmente, os
sistemas elétricos são interligados em grande extensão e, assim,
uma falha que ocorra reflete-se sobre um grande território, um país
inteiro e, às vezes, até mais. O desabamento de uma pequena casa,
ou de uma pequena ponte, como existiam antigamente, é muito
diferente do desabamento de um grande prédio ou de um impor-
tante viaduto. E assim por diante para quase todos os campos da
engenharia. É o processo tecnológico e a globalização tendendo
a, cada vez mais, aumentar a responsabilidade dos engenheiros
(TELLES, 1999).

– 36 –
Engenharia e sociedade

No Brasil, também temos casos de má engenharia que chamam a


atenção. Destacam-se o rompimento da barragem de Fundão, fruto da
extração de minérios pela mineradora Samarco S/A, ocorrido em novem-
bro de 2015, em Mariana-MG (Figura 2.2-A), que vitimou 19 pessoas; e
o rompimento da barragem da Mina do Feijão (Figura 2.2-B), de proprie-
dade da empresa Vale S/A, no dia 25 de janeiro de 2019, em Brumadinho-
-MG, que resultou em um dos maiores desastres com rejeitos de minera-
ção no Brasil, com 259 mortos e 11 desaparecidos (LIMA, RODRIGUES
e SANTOS, 2019).
O que se destaca nesses dois eventos é o pequeno intervalo de tempo
em que ocorreram e o fato de terem acontecido no mesmo setor: o de
mineração. O impacto social desses dois eventos ainda é sentido por toda
a população desses dois locais, e também por todo o país. O desastre
ambiental causado por esses dois eventos parece irreparável – obras de
contenção de rejeitos têm sido realizadas, mas ainda é difícil enxergarmos
uma solução definitiva para o problema. Comunidades ribeirinhas foram
afetadas ou totalmente destruídas. Muitas pessoas tiveram que abandonar
seus lares ou eles simplesmente deixaram de existir – foram arrastados
pela lama. Além disso, há o forte impacto psicológico que esse tipo de
evento causa em quem o presenciou ou vivenciou.
Figura 2.2 – A) Danos do rompimento da barragem no Rio Doce (em Mariana) e B) no
Rio Paraopeba (em Brumadinho)

A)

– 37 –
Introdução à Engenharia da Produção

B)
Fonte: Shutterstock.com/Leonardo Mercon/Christyam de Lima

E o que a engenharia poderia fazer nesses casos? Primeiramente, é


importante destacar que barragens de rejeitos são obras de engenharia.
Uma barragem pode ser construída (alteada) de, pelo menos, três maneiras
distintas: a montante, a jusante e por linha de centro. Tanto em Mariana,
quanto em Brumadinho, foram adotados o alteamento a montante. Este
ainda é o método mais utilizado no Brasil, principalmente devido à maior
velocidade de conclusão e menor custo de construção. Porém, também
é conhecido por oferecer um maior risco de ruptura por diversos fato-
res ligados aos materiais utilizados, apresentando, assim, um baixo coefi-
ciente de segurança (REZENDE; SILVA, 2019).
Destaca-se também que existem alternativas às lagoas de rejeitos,
como a desidratação e eliminação de rejeitos secos – uma tecnologia mais
moderna que já vem sendo utilizada no Brasil. Outra forma como a enge-
nharia pode ajudar a evitar este tipo de acidente é por meio de sistemas
de monitoração e controle. No caso de Brumadinho, o sistema de alerta à
população, responsável por avisar sobre qualquer problema na barragem
– inclusive que ela havia rompido – também foi falho. Neste caso, a popu-
lação também acusa a empresa por não ter recebido treinamento sobre o
que fazer quando a sirene tocasse.
No pós-acidente, a engenharia vem sendo utilizada em barreiras de
contenção dos rejeitos nos rios; em pesquisas por tratamentos de água,

– 38 –
Engenharia e sociedade

para tentar melhorar a atual situação dos rios atingidos; em estudos de


escoamento, para determinar o caminho dos rejeitos. Enfim, o foco agora
é tentar consertar o ambiente destruído.

2.2 Engenheiro: o profissional


defensor do capital?
O engenheiro, em uma indústria, uma obra ou um centro de pesquisa,
é, muitas vezes, um funcionário que vive da venda de seu trabalho. O que
geralmente as pessoas não conseguem entender é o seguinte fato: se este
profissional não é o proprietário dos meios de produção, por que ele, mui-
tas vezes, tende a assumir um papel de defensor dos interesses do capital
e não do trabalho? (DAGNINO; NOVAES, 2008).
Muito desta relação atribuída ao engenheiro vem de percepções anti-
gas – que não se desgastaram com o tempo. Principalmente no início da
evolução tecnológica, percebia-se que os objetivos dos engenheiros se
complementavam (e se aproximavam) daqueles dos patrões. O objetivo
era criar um sistema totalmente livre de erros humanos no processo de
produção, minimizando o envolvimento e a participação dos trabalhado-
res, substituindo-os por tecnologia (DAGNINO; NOVAES, 2008). Além
disso, a formação/educação do engenheiro contribuía para este fator. Para
Dagnino e Novaes (2008):
Os engenheiros internalizam os valores da sociedade de classes, em
geral da pequena burguesia, que estão subjacentes ao seu processo
de formação e à sua profissão: controle, individualismo, domina-
ção dos trabalhadores, produção voltada (à) reprodução do capital.
Além dos valores da classe dominante, os engenheiros recebem,
nas universidades, e, posteriormente, na fábrica, os conhecimentos
“técnicos”, e as capacidades e habilidades gerenciais necessárias
para a reprodução do capital (DAGNINO; NOVAES, 2008).

Principalmente no século XX, percebemos que os engenheiros, atu-


antes como administradores ou assessores técnicos, possuíam uma ação
voltada a preservar o capital e os interesses dos empregadores. Muito se
justifica esta atitude pela percepção de que, ao impulsionar o desenvolvi-
mento tecnológico e econômico, eles estariam contribuindo com os mais
pobres, assegurando sua independência. É importante destacar que o obje-

– 39 –
Introdução à Engenharia da Produção

tivo desses profissionais nunca foi prejudicar esses trabalhadores. Eles


buscavam apenas realizar o seu trabalho da melhor forma possível – o
que, na época, focava quase que exclusivamente em aumentar a produ-
ção, diminuir custos, entre outros. As soluções para esses problemas eram,
frequentemente, desastrosas para o resto da sociedade e para os trabalha-
dores. Com isso, eles acabaram reforçando conceitos negativos, como o
da diferença de classe. Isso acontecia devido ao raro contato existente, na
época, entre os engenheiros e os trabalhadores – ou seja, a falta de comu-
nicação, advinda de uma formação quase que totalmente técnica (DAG-
NINO; NOVAES, 2008).
É perceptível a supervalorização da formação técnica em comparação
com a praticamente inexistente formação crítica (NEVES, 2019). Porém,
este cenário tem mudado nos últimos anos. A engenharia parece ter evoluído
de uma ocupação totalmente técnica para uma profissão com resultados foca-
dos em padrões éticos, responsabilidades em relação às pessoas e ao meio
ambiente, trabalho em equipe e comunicação. Isso se deve principalmente
a mudanças nas legislações, trabalhistas e ambientais – acaba se tornando
interessante para as empresas preservar o meio ambiente e fornecer um bom
ambiente de trabalho, afinal, caso isso não ocorra, ela está sujeita a multas.
Incentivos fiscais em ações sociais também contribuem para esse cenário.
Assim, são necessárias novas habilidades para tornar os engenheiros mais
eficazes como profissionais, ou seja: sua formação se torna mais abrangente.
Igualmente, empregadores requerem mais de seus funcionários: competên-
cias genéricas não técnicas em áreas como comunicação, gerenciamento de
projetos, liderança e trabalho em equipe (COLON, 2008).
Isso não significa deixar de lado o saber técnico. Deve-se sem-
pre ter em mente que qualquer obra, projeto, indústria está atre-
lada a um custo. O mais facilmente identificado é o financeiro
– o que é mais facilmente quantificado e o que se busca sempre mini-
mizar. Muitas vezes, este é o único custo considerado, sendo que, a
parcela deste custo relativa à engenharia é sempre muito pequena.
Frequentemente, temos também um custo social e um custo ecológico.
O importante é não ignorarmos estes outros custos. O custo social é, por
exemplo, o prejuízo moral e material ocasionado por desapropriações,
quaisquer danos para saúde e qualidade de vida causada pela instalação

– 40 –
Engenharia e sociedade

e outros prejuízos e incômodos causados a terceiros em consequência


da obra ou projeto. O custo ecológico são os problemas ambientais, os
ataques à natureza causados pela obra ou indústria. São maiores quando
possuem caráter irreversível. O objetivo é que o custo social e o custo eco-
lógico sejam nulos. Entretanto, na maioria dos casos, isso é impossível o
que leva profissionais de todas as áreas, inclusive engenheiros, a buscarem
soluções para que esses custos sejam mínimos (TELLES, 1999).
Destaca-se aqui o sucesso alcançado por diversos profissionais da
engenharia na criação e desenvolvimento de complexos sistemas que
tornam possível a vida moderna. Porém, esses mesmos profissionais,
justamente por essa abordagem extremamente metódica, não obtiveram
sucesso em antecipar e abordar as consequências negativas de seus proje-
tos. Por exemplo: durante anos os engenheiros vêm desenvolvendo formas
de extrair combustíveis fósseis da Terra, alcançando profundidades nunca
antes imaginadas para queimar em benefício humano. Logo, o custo
ambiental e os problemas decorrentes das mudanças climáticas em razão
da eficiência energética e das energias renováveis são responsabilidades
com as quais esses profissionais terão que arcar no futuro.
Os engenheiros também vêm projetando e construindo carros, estra-
das e rodovias, buscando sempre facilitar o deslocamento. Portanto, os
custos sociais e ambientais que englobam congestionamento, expansão
urbana, emissões e custos crescentes de combustível também passam a ser
responsabilidades desses engenheiros. A construção de sistemas de água
que fornecem suprimento infinito às residências têm o custo ambiental,
uma vez que a água doce já é um recurso escasso em muitos lugares, e
agora os engenheiros devem ajudar as pessoas a encontrarem maneiras de
reduzir o desperdício de água (LAWLOR, 2016). Os engenheiros sempre
buscaram solucionar problemas, melhorar e facilitar a vida humana ao
longo do tempo – o que eles não perceberam a tempo foi o alto custo que
algumas dessas criações trariam para a sociedade e para o planeta.

2.3 Os papéis de um engenheiro


Um engenheiro, quando inserido no mercado de trabalho, pode
desempenhar diversas e diferentes funções. De maneira geral, esse pro-

– 41 –
Introdução à Engenharia da Produção

fissional pode atuar como autônomo, empregado ou empresário (BAZZO;


PEREIRA, 2006). Estes mesmos autores destacam que:
O profissional autônomo é aquele que tem maior independência
de decisão sobre sua profissão, estabelecendo seus honorários e
condições de trabalho, atuando geralmente em escritório próprio.
O empregado atua diretamente para uma empresa, com a qual
mantém um contrato de trabalho, prestando serviços técnicos per-
manentes ou trabalhando por empreitada, desenvolvendo serviços
específicos. O trabalho com vínculo empregatício – é bom não
perdermos de vista – representa grande parte dos profissionais atu-
antes na área. O terceiro tipo citado – o engenheiro empresário – é
aquele que é responsável por alguma empresa e que contrata outros
profissionais, com vínculo trabalhista, para operá-la (BAZZO;
PEREIRA, 2006).

Além disso, os engenheiros podem mudar de função no decorrer de


suas carreiras. Estas funções podem ser alternadas entre atividades alta-
mente técnicas até funções de gerenciamento e liderança – nesse processo,
o mais importante é saber lidar com pessoas e onde o profissional deve se
concentrar: se em comunicações, redação de relatórios, finanças, negocia-
ções ou desenvolvimento de pessoas. As funções técnicas são aquelas que
englobam um aprofundamento no uso de conhecimentos da matemática,
física e ciência (LAWLOR, 2016).
O profissional da engenharia é capaz de realizar o seu trabalho em
muitos lugares, quer seja em indústrias, bancos de investimento, labora-
tórios de pesquisa, empresas de consultoria, entre outras. É mais comum
os recém-formados trabalhem em áreas de construção, operação ou manu-
tenção. Contudo, conforme vão adquirindo experiência, costumam migrar
para áreas administrativas ou de desenvolvimento, mas, seja qual for o
caminho escolhido, existe oportunidades de trabalho em muitas áreas,
tanto para o profissional graduado recentemente, quanto para o engenheiro
com mais anos de experiência ou mais ambicioso. O essencial é que esse
engenheiro possua uma formação consistente e motivação para perseguir
suas metas e obter êxito (BAZZO; PEREIRA, 2006).
É importante que o profissional de engenharia sempre mantenha
como foco o princípio da sua profissão: solucionar problemas para o bene-
fício da humanidade. Embora no passado qualquer produto que satisfi-
zesse alguma necessidade material era considerado um benefício, no pre-

– 42 –
Engenharia e sociedade

sente, a população passou a ser mais crítica. Por quê? Porque hoje, com o
acesso cada vez mais rápido à informação, estamos ficando cada vez mais
conscientes e conseguimos perceber que as contribuições dos engenheiros
apresentam implicações políticas, sociais (ou socioambientais) e estéticas,
muito além dos resultados imediatos obtidos com base apenas em requisi-
tos técnicos (COCIAN, 2017).
Também é importante analisar a dualidade de algumas situações. Um
sistema de mísseis intercontinentais, por exemplo, pode fornecer segurança
a uma nação e às pessoas que ali habitam, enquanto representa ameaça a
outra. Uma represa construída para a geração de energia pode alagar uma
imensa área próxima ao rio, cujo papel é importante na vida das pessoas
que habitam as áreas próximas. O desenvolvimento de um motor de auto-
móvel de alta eficiência e baixo custo, que resolveria o problema da falta
de energia, pode, em contrapartida, jogar uma grande quantidade de par-
tículas poluidoras no ar, prejudicando o meio ambiente (COCIAN, 2017).
Outro aspecto da atuação do engenheiro na sociedade que merece
atenção é a necessidade de certa ousadia na profissão. O não conformismo
com o modo como as coisas são feitas é a força motriz para o engenheiro.
“Como eu posso fazer diferente?” – para que o trabalho do engenheiro
possa contribuir de forma significativa para o avanço da tecnologia e para
o bem-estar social, esse questionamento deve ser constante. A engenharia
permaneceria estagnada com o excesso de cautela. A utilização de apenas
materiais, processos e sistemas já consagrados nos levam a fazer apenas
o que outros já fizeram. Isso não significa menosprezar o significado e
a importância de realizações passadas. De certa forma, sempre devemos
olhar o passado como referência, como ponto de partida, mas devemos ter
em mente que os engenheiros buscam solucionar problemas, e que novos
problemas surgem a cada dia. Logo, é necessário que este profissional
assuma certos riscos, para que, assim, de novas experiências surjam novas
e revolucionárias soluções (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Entretanto, qualquer que seja o papel do engenheiro na sociedade
– autônomo, empregado ou empresário – a aplicação do conhecimento
científico é, e sempre será, uma parte central da formação em engenharia e
da engenharia em si. Por esse motivo, algumas questões ainda são preocu-
pantes, principalmente com o comportamento de engenheiros individuais

– 43 –
Introdução à Engenharia da Produção

em relação a outros indivíduos, bem como a seus ambientes, como exem-


plificado pelos códigos de ética, que serão vistos no Capítulo 8.

2.4 Responsabilidades da engenharia


Assim, pensando em todo o caminho da engenharia até chegar ao
cenário atual, podemos afirmar que esta profissão é, hoje, uma das princi-
pais influências que talham nosso mundo e nossa sociedade, em todos os
cenários possíveis: fisicamente, digitalmente, socialmente e economica-
mente. As invenções e inovações da engenharia criaram novas maneiras
de viver e trabalhar e, à medida que são introduzidas em nossas vidas,
tornam-se cruciais para apoiar e manter nossa qualidade de vida. Desde o
fornecimento de serviços essenciais, como água e energia, até equipamen-
tos médicos, como máquinas de suporte à vida em hospitais – os produtos
de engenharia não apenas passam pela vida das pessoas, individual e cole-
tivamente – eles se tornam parte da vida das pessoas. Isto mais facilmente
pode ser notado analisando como a internet se infiltrou em todas as ativi-
dades do cotidiano – tecnologia esta que ainda estava em desenvolvimento
há 20 anos. Isso significa que os engenheiros têm uma responsabilidade,
mas também uma grande oportunidade de garantir uma influência positiva
na sociedade (LAWLOR, 2016).
Mais recentemente, os engenheiros também tiveram que se tornar
mais sensíveis em relação ao impacto ambiental de seus produtos – princi-
palmente devido às legislações ambientais. Por muito tempo, houve diver-
sos casos em que os engenheiros envolvidos na solução de um problema
específico ficaram restritos a uma visão limitada da situação que estavam
tentando resolver. Por esse motivo, eles não tinham total ciência do que
estavam desenvolvendo e não podiam imaginar o impacto que seu produto
causaria mais tarde na sociedade como um todo (por exemplo: os cloro-
fluorcarbonetos – CFCs – que eram muito utilizados em aerossóis e como
fluido refrigerante, que destruíram a camada de ozônio) (OKAMOTO;
RHEE; MOURTOS, 2005).
Na era da globalização do mercado e da força de trabalho, os enge-
nheiros precisam ter um entendimento sólido do impacto que seus produ-
tos terão localmente e globalmente, tanto na sociedade quanto no meio

– 44 –
Engenharia e sociedade

ambiente, para que possam fazer uma avaliação sólida dos prós e contras
deste novo desenvolvimento.
Entretanto, é importante destacarmos que a influência da engenharia
e da tecnologia na sociedade não é uma relação de mão única. O papel
da engenharia é oferecer uma gama de possibilidades tecnológicas, entre
as quais a sociedade deverá escolher. Essa escolha pode ser feita apenas
pela decisão do consumidor, como vimos recentemente na batalha entre
Blu-ray e HD DVD. Nesse caso do formato de vídeo, o que mais agradar a
maioria dos consumidores, vence – o que não significa a extinção do outro
formato, uma vez que este ainda é a escolha de algumas pessoas.
As questões econômicas também podem levar ao favorecimento de
uma tecnologia em detrimento de outra. Quando Henry Ford estava desen-
volvendo o automóvel Modelo T (Figura 2.3), ele primeiramente experi-
mentou carros movidos a etanol. Entretanto, o baixo preço do petróleo,
na época, era mais atrativo financeiramente, o que o levou a concentrar
sua atenção no desenvolvimento de carros que funcionariam com gaso-
lina. Porém, hoje o etanol é considerado um combustível muito melhor
em termos de níveis de poluição e emissões na atmosfera. Naquela época,
questões ambientais ainda não eram tão proeminentes nas decisões das
pessoas – isso tanto para empresários quanto para os consumidores. Hoje,
embora já seja perceptível uma mudança no mercado, favorecendo produ-
tos ambientalmente cor- Figura 2.3 – Modelo T – automóvel produzido pela
retos, a questão econô- fábrica norte-americana  Ford, que popularizou e
mica, principalmente no revolucionou a indústria automobilística
terceiro mundo, ainda
favorece o produto mais
barato. Outro fator que
pode ter influência em
uma tecnologia é o cená-
rio político. Por exemplo:
governantes podem per-
mitir ou bloquear a absor-
ção de alimentos gene-
ticamente modificados
(LAWLOR, 2016). Fonte: Shutterstock.com/overcrew

– 45 –
Introdução à Engenharia da Produção

Mas, enquanto é papel da sociedade moldar a maneira como as


tecnologias são desenvolvidas e adotadas, essa gama de opções apre-
sentada à sociedade para que sejam analisadas e adotadas ou rejeita-
das, são possibilitadas pelos engenheiros. Isso demonstra o tamanho da
responsabilidade desses profissionais, estando em posição de criar tec-
nologias que podem influenciar positivamente na sociedade, ajudando a
resolver seus problemas e preocupações (LAWLOR, 2016).
Balancear os conceitos técnicos e o relacionamento com as pessoas
e com a sociedade pode ser um tanto difícil, pois requer não apenas forte
entendimento técnico, mas também uma perspectiva social e informações
históricas particularmente difíceis de serem alcançadas com os atuais
currículos de engenharia encontrados em muitas universidades/faculda-
des. Porém, existem inúmeros exemplos de projetos de engenharia que
ilustram essa possibilidade: pensemos hipoteticamente num projeto de
barragem para fornecer energia hidrelétrica. Enquanto a energia hidrelé-
trica não resultar em poluição ou emissão de gases de efeito estufa, os
engenheiros devem ser incentivados a examinar as maiores ramificações
ambientais e sociais da criação desta nova barragem em uma comunidade.
Por exemplo: as pessoas podem ser deslocadas, e as terras agrícolas e
os locais culturais, inundados. Os impactos ambientais negativos podem
incluir lagoas e eutrofização, e a população de peixes pode ser afetada
adversamente. Por outro lado, novas barragens podem ajudar a controlar
as inundações (OKAMOTO; RHEE; MOURTOS, 2005).
Para ilustrar melhor o que foi discutido ao longo deste capítulo, leia
e analise a história apresentada no quadro a seguir:

Reflexão: Fábula dos porcos assados

Uma das possíveis variações de uma velha história sobre a ori-


gem do assado é a seguinte: Certa vez, aconteceu um incêndio
num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo
fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimen-
taram e acharam deliciosa a carne assada. A partir daí, toda vez
que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque... até

– 46 –
Engenharia e sociedade

que descobriram um novo método. Mas, o que quero contar é o


que aconteceu quando tentaram mudar o sistema para implan-
tar um novo.

Fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem: às vezes os ani-
mais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O pro-
cesso preocupava muito a todos, porque se o sistema falhava, as
perdas ocasionadas eram muito grandes – milhões eram os que
se alimentavam de carne assada e também milhões os que se
ocupavam com a tarefa de assá-los. Portanto, o sistema simples-
mente não podia falhar. Mas, curiosamente, quanto mais crescia
a escala do processo, mais este parecia falhar e tanto maiores
eram as perdas causadas. Em razão das inúmeras deficiências,
aumentaram o número de queixas. Já era um clamor geral a
necessidade de reformar profundamente o sistema. Congres-
sos, seminários, conferências passaram a ser realizadas anual-
mente para buscar uma solução, mas parece que não acertavam
o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte repe-
tiam-se os congressos, seminários, conferências.

As causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas,


eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permane-
ciam onde deveriam, ou à natureza do fogo, tão difícil de con-
trolar, ou ainda às árvores, excessivamente verdes, ou à umi-
dade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas, que
não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas...
As causas eram, como se vê, difíceis de determinar – na verdade,
o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada
uma grande estrutura: maquinário diversificado; indivíduos
dedicados exclusivamente a acender o fogo – incendiadores que
eram também especializados (incendiadores da Zona Norte, da
Zona Oeste etc., incendiadores noturnos e diurnos – com espe-
cialização em matutino e vespertino – incendiador de verão, de
inverno etc.). Havia também especialistas em ventos – os ane-
motécnicos. Havia um Diretor Geral de Assamento e Alimenta-
ção Assada, um Diretor de Técnicas Ígneas (com seu Conselho
de Assessores), um Administrador Geral de Reflorestamento,

– 47 –
Introdução à Engenharia da Produção

uma Comissão Nacional de Treinamento Profissional em Porco-


logia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias
(Iscuta) e o Orientador de Reformas Ígneo-operativas.

Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a for-


mação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes téc-
nicas de implantação – utilizando-se regiões de baixa umidade
e onde os ventos não soprariam mais que três horas seguidas.
Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bos-
ques que logo seriam incendiados. Havia especialistas estran-
geiros estudando a importação das melhores árvores e semen-
tes, fogo mais potente etc. Existiam também grandes instalações
para manter os porcos antes do incêndio, além de um meca-
nismo para deixá-los sair apenas no momento oportuno. Foram
formados professores especializados na construção dessas ins-
talações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades que
preparavam os professores especializados na construção das
instalações para os porcos, fundações apoiavam os pesquisado-
res que trabalhavam para as universidades que preparavam os
professores especializados na construção das instalações para
porcos, e assim por diante.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo,


aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada
velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o
incêndio médio da floresta atingisse 47 graus, posicionar venti-
ladores gigantes em direção oposta à do vento, de forma a dire-
cionar o fogo etc. Não é preciso dizer que poucos especialistas
estavam de acordo entre si, e que cada um embasava a suas
ideias em dados e pesquisa específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja,


um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno,
matutino, com bacharelado em verão chuvoso), chamado João
Bom-Senso, resolveu dizer que o problema era muito fácil de
ser resolvido – bastava primeiramente, matar o porco escolhido,
limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o

– 48 –
Engenharia e sociedade

então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito
do calor – e não as chamas – assasse a carne. Tendo sido infor-
mado sobre as ideias do funcionário, o Diretor Geral de Assa-
mento mandou chamá-lo ao seu gabinete e depois de ouvi-lo
pacientemente, disse-lhe:

— Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas não fun-
ciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os
anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar sua teoria? Onde
seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de
diversas especialidades?

— Não sei – disse João.

— E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E


os desenhistas de instalações para porcos, com suas máquinas
purificadoras automáticas de ar?

— Não sei.

— E os anemotécnicos que levaram anos especializando-se


no exterior, cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou
mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos,
que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e
Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver
tudo? Hein?

— Não sei – repetiu João, encabulado.

— O senhor percebe agora que a sua ideia não vem ao encontro


daquilo de que necessitamos? O senhor não vê, que, se tudo
fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a
solução há muito tempo? O senhor com certeza compreende
que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e
dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas!
O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e quilô-
metros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos
nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me.

— Não sei, não senhor.

– 49 –
Introdução à Engenharia da Produção

— Diga-me, nossos três engenheiros em Porcopirotécnica, o


senhor não considera que sejam personalidade científicas do
mais extraordinário valor?

— Sim, parece que sim.

— Pois então. O simples fato de possuirmos valiosos engenhei-


ros em Porcopirotécnica indica que nosso sistema é muito bom.
O que eu faria com indivíduos tão importantes para o país?

— Não sei.

— Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos proble-


mas específicos. Por exemplo: como melhorar as anemotécnicas
atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedo-
res de Oeste (nossa maior carência), como construir instalações
para porcos com mais de seis andares. Temos que melhorar o
sistema, e não transformá-lo radicalmente, o senhor, entende?
Ao senhor, falta-lhe sensatez!

— Realmente, eu estou perplexo! – respondeu João.

— Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema,


não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é
bem mais sério e complexo do que o senhor imagina. Agora,
entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia
– isso poderia trazer problemas para o senhor no seu cargo. Não
por mim, o senhor entende? Eu falo isso para o seu próprio bem,
porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicio-
namento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior
menos compreensivo, não é mesmo?

João Bom-Senso, coitado, não falou mais um “A”. Sem se despe-


dir, meio atordoado, assustado e com a sensação de estar cami-
nhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca
mais o viu. Por isso é que até hoje se diz que quando há reunião
de Reforma e Melhoramentos, falta o Bom-Senso.”

Fonte: Filho (2018).

– 50 –
Engenharia e sociedade

O que podemos aprender com o texto apresentado? Como enge-


nheiro, use sempre o bom senso. Não tentem complicar uma situação que
é muito fácil de resolver – busquem a simplicidade. O que é mais simples
é mais fácil de criar, controlar e de verificar onde as coisas podem dar
errado. Erros em engenharia, como já vimos, saem caros – e aqui não
falamos apenas dos custos financeiros, mas também dos sociais e ambien-
tais, que muitas vezes são imensuráveis. Este pensar no outro, pensar na
sociedade como um todo é o que irá distinguir o engenheiro do passado,
do novo profissional que vem pela frente.

Síntese
Vimos nesse capítulo o papel da engenharia na sociedade – como os
engenheiros são vistos pela sociedade? Pudemos perceber que as inven-
ções/desenvolvimentos tecnológicos têm um impacto profundo na vida
das pessoas e que, muitas vezes, pelo fato de os cidadãos terem aquela
visão apenas técnica deste profissional, a relação engenheiro-sociedade
ainda não é bem desenvolvida. Vimos também que este cenário está
mudando e que, inclusive a formação em engenharia está visando o lado
humano e a contribuição social deste profissional. Vimos ainda que mui-
tas vezes as ações destes profissionais podem ter impactos negativos na
sociedade e até no meio ambiente – e que esta é uma profissão de muita
responsabilidade. Entretanto, também é uma profissão que busca desafios
e novas formas de pensar e de fazer, que assume riscos – mas que esses
riscos devem ser muito bem pensados e analisados. A engenharia deve
olhar para o passado apenas como ponto de partida e como referência para
não cometer os mesmos erros no futuro.

Atividades
1. Quais os impactos sociais das tragédias de Mariana e Brumadinho?
2. Considere que você é um engenheiro que está desenvolvendo
um novo produto. O que você deve saber para que este novo
produto seja aceito pela sociedade, depois de pronto?

– 51 –
Introdução à Engenharia da Produção

3. Quais conhecimentos/habilidades o engenheiro deve possuir?


4. Por que, por muito tempo, o engenheiro foi acusado de defender
o capitalista (empresário, dono de empresas)?

– 52 –
3
As relações entre
engenharia, meio
ambiente e qualidade

A preocupação com a preservação do meio ambiente vem


crescendo nas últimas décadas e tornou-se algo mais comum
na sociedade moderna. A ação humana vem ocasionando a
degradação dos recursos naturais de forma constante durante
os séculos. Entretanto, isso foi elevado a níveis absurdos após
a Revolução Industrial. Hoje, devido aos impactos negativos
que já estão sendo percebidos ao redor do mundo, precisamos
repensar a forma como fazemos as coisas, mudando tecnologias
(e a engenharia) e buscando frear este fenômeno, que afeta a
qualidade de vida das pessoas em todo o globo. Nesse cenário
surge um conceito muito importante e que será discutido neste
capítulo: a sustentabilidade.
Introdução à Engenharia da Produção

Outro fator muito importante para a sociedade moderna é a qualidade


– não só do produto final, mas também da produção em si. Cada vez mais
as pessoas estão interessadas em saber como as coisas são produzidas.
Além disso, as empresas têm a necessidade de melhorar a qualidade dos
produtos para alcançar competitividade no mercado – o que torna esse
assunto parte fundamental da engenharia. Conforme Camargo (2011):
A qualidade jamais deve ser vista e entendida apenas sob o aspecto
de “controle”, mas no contexto amplo de gestão, a determinante
influência da cultura e hábitos de consumo direcionará a pro-
cessos produtivos eficientes e a uma organização competitiva
(CAMARGO, 2011).

3.1 História da qualidade


As origens da qualidade, assim como a da engenharia, estão atreladas
à própria origem do homem. Alguns registros históricos permitem iden-
tificar “formas instintivas de controle da qualidade” em potes de barro
datados de 4000 a. C., por exemplo.
Artesãos já executavam, entre todas as suas atividades, uma espé-
cie de Controle de Qualidade, da concepção do produto até a sua venda,
visando detectar e corrigir erros. Nesta época, a qualidade era associada ao
conhecimento individual de cada artesão, facilitada por sua relação com o
cliente e com a produção (SOARES, 2004).
Mas é a partir da Revolução Industrial que a qualidade toma novos
rumos. Nessa época, a qualidade tem um sentido de inspeção, permitindo
segregar itens que apresentavam não conformidades, buscando apenas
corrigir esses erros. Com o advento do modelo de Taylor, e a consequente
racionalização do trabalho, buscou-se aumentar a produtividade por meio
do trabalho em série, o que provocou uma diminuição da qualidade dos
produtos. Temos então o surgimento da função do inspetor, que avaliava,
de certa forma, a qualidade dos produtos (SOARES, 2004; BATALHA,
2008). Porém, mesmo com essa função, a qualidade continuava baixa. Um
dos motivos para isso ter acontecido foi a grande influência dos chefes de
produção, que tinham metas quantitativas de produção e eram superiores
a esses inspetores na hierarquia industrial da época.

– 54 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

Essa situação foi agravada durante a Primeira Guerra Mundial. Com


o grande aumento da demanda de materiais de combate – como armas,
bombas, tanques, entre outros – os problemas com a ausência de um con-
trole de qualidade dos produtos fabricados cresceram de maneira assusta-
dora, e esses defeitos, imperfeições e falhas passaram a ter como resultado
uma total falta de segurança. A figura do inspetor passou a ter mais impor-
tância. E este assumiu o papel do supervisor no controle da qualidade.
Nessa época, os inspetores examinavam 100% dos produtos liberados pela
produção, implicando grandes custos para a empresa e tornando-se um
gargalo da produção (FERNANDES, 2011).
O fordismo, com a produção em massa, permitiu que as tarefas de
fabricação fossem divididas em pequenas operações especializadas. Mão
de obra advinda da região rural, totalmente sem qualificação, foi recru-
tada. Esse pessoal também recebeu um pequeno treinamento para que,
assim, pudessem conduzir de maneira eficaz todas as tarefas de fabricação
e montagem de um automóvel. Para coordenar as tarefas desses operários,
foram criadas novas funções que deveriam ser exercidas apenas por pes-
soal especializado: mecânicos, inspetores da qualidade, especialistas em
reparos, além dos supervisores e engenheiros. Como o custo excessivo
para se realizar inspeção em 100% das peças e componentes, adotaram-se
técnicas mais aprimoradas, para a época, de controle da qualidade, como
as técnicas de amostragem (FERNANDES, 2011). É do modelo fordista
que derivam conceitos importantes para a área da qualidade. De acordo
com Batalha (2008):
Para viabilizar sua linha de montagem, Ford investiu muito na
intercambialidade das peças, adotando um sistema padronizado de
medida para todas as peças, o que incentivou o desenvolvimento
da área de metrologia, sistemas de medida, especificações e tole-
rância. [...] esse modelo também se difundiu em outros setores
industriais (BATALHA, 2008).

É na década de 1920 que começam a surgir elementos do controle


de qualidade, período também chamado de segunda era da qualidade.
Embora o foco da qualidade ainda fosse a inspeção, já se encontravam
novos elementos voltados à garantia da conformidade da produção. Em
1924, o trabalho de Walter A. Shewhart apresentou gráficos de controle
estatístico do processo, resultantes da união de conceitos de estatística

– 55 –
Introdução à Engenharia da Produção

à realidade produtiva da empresa de telefonia Bell Telephone Laborato-


ries, marcando a transição de uma postura corretiva para uma proativa, de
prevenção, monitoramento e controle (BATALHA, 2008; CARVALHO e
PALADINI, 2006). Essa técnica, juntamente com as técnicas de amostra-
gem de dois colegas da Bell Telephone Laboratories – Dodge e de Romig
– permitiu a substituição da amostragem de 100% das peças pela realiza-
ção de uma inspeção por amostragem (FERNANDES, 2011).
A mentalidade dos consumidores dos anos 1940 também passou por
mudanças, o que aumentou a importância do controle da qualidade den-
tro das empresas. Os consumidores, que acabavam de superar a Grande
Depressão causada pelo colapso da Bolsa de Valores de Nova York, em
1929, davam preferência a produtos duráveis. A escassez de produtos,
durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, forçou ainda
mais o aumento da demanda de produtos duráveis. O que aconteceu nesse
período é que houve uma grande adaptação das empresas existentes para a
fabricação de produtos bélicos, que deveriam ser fornecidos com qualidade
e dentro dos prazos. Após a guerra, essas empresas abandonaram a produ-
ção militar, mudando para a produção civil. Foi essa constante alteração
das empresas a responsável por graves problemas de qualidade, durante e
após a Segunda Guerra Mundial. Isso foi muito prejudicial, uma vez que a
população passou a consumir qualidade, e esse quesito tornou-se um cri-
tério essencial de vendas (FERNANDES, 2011). É desta necessidade que
as empresas passam a instalar os departamentos de controle de qualidade,
conforme afirma Fernandes (2008):
Durante os anos 1930 e 1940, muitas companhias implementaram
métodos de controle estatístico da qualidade e renomearam seus
tradicionais “departamentos de inspeção” como “departamentos
de controle da qualidade”. Como os métodos estatísticos foram
abandonados nos anos 1950 e 1960, esses departamentos voltaram
à tradicional atividade de inspeção, mas mantiveram os nomes de
“controle da qualidade”. Quando o interesse pelos métodos esta-
tísticos renasceu nos anos 1970 e 1980, um novo nome, “controle
do processo”, era necessário, já que o termo original, “controle
da qualidade”, estava associado à inspeção (FERNANDES, 2008).

Após a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de reconstrução do


Japão levou este país a um processo de revitalização industrial. Foi ainda
durante a guerra que os japoneses perceberam que seus produtos/proces-

– 56 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

sos estavam deteriorados e desatualizados e que, para que não ocorresse a


extinção do Estado e de seu povo, seria preciso investir na industrializa-
ção, importando recursos naturais e exportando produtos manufaturados.
Para que a indústria japonesa se tornasse competitiva no mercado inter-
nacional, seria necessário qualidade, preço e fabricação eficiente, além
de importar conhecimento. Em visita ao Japão, o Dr. Deming, ao final
da década de 1940, levou ao país um método de controle estatístico do
processo e conseguiu disseminar suas ideias entre engenheiros e técnicos
e para alguns empresários japoneses (CAMARGO, 2011). Hoje, os japo-
neses são famosos pelos rápidos avanços tecnológicos e pela qualidade.
Na década de 1950, Joseph M. Juran, considerado o “Pai da Quali-
dade”, focou seus esforços no processo de administração da qualidade,
na adequação, na utilização e na produção na medida, ou seja, apenas a
quantidade certa, e abordou a motivação e a participação dos trabalhado-
res em atividades que envolvessem qualidade. É nesse momento que fica
estabelecido que a qualidade é obtida por meio de planejamento, controle
e melhoria.

3.2 Conceitos e definições de qualidade


Ao procurarmos a definição de qualidade no dicionário, encontramos:
“indício positivo específico que faz alguém ou algo se sobressaltar em
relação aos demais, excelência, talento, virtude”. Mas, se perguntarmos
a definição desse termo a um grupo de pessoas, dificilmente chegaremos
em um consenso, pois trata-se de um conceito mais amplo e complexo.
Existem muitas pessoas que afirmam saber o real significado de qualidade,
dizendo: “Sei o que é quando a vejo” (isto é, a qualidade é algo físico,
que se sente, que se prova ou cheira). Essa simples afirmação, normal-
mente representa as interpretações dadas a palavra qualidade, na realidade
esconde a necessidade de definir a qualidade do produto ou serviço em um
modo operativo.
Garvin (1987) Apud Carvalho e Paladini (2006) pesquisou diversas
definições para o termo qualidade, tanto na literatura quanto no ambiente
empresarial, e conseguiu categorizar cinco abordagens diferentes. São
elas: a transcendental, a baseada no produto, a baseada no usuário, a

– 57 –
Introdução à Engenharia da Produção

baseada na produção e a baseada no valor. O Quadro 3.1 condensa essas


definições de qualidade de acordo com cada uma dessas abordagens.
Quadro 3.1 – Abordagens da qualidade

Abordagem Definição
Qualidade é sinônimo de excelência inata. É abso-
Transcendental luta e universalmente reconhecível.
Dificuldade: pouca orientação prática.
Qualidade é uma variável precisa e mensurável,
Baseada no oriunda dos atributos do produto.
Produto
Corolários: melhor qualidade só com maior custo.
Qualidade é uma variável subjetiva. Produtos de
melhor qualidade atendem melhor os desejos do
Baseada no consumidor.
Usuário
Dificuldade: agregar preferências e distinguir atribu-
tos que maximizam a satisfação.
Qualidade é uma variável precisa e mensurável,
oriunda do grau de conformidade do planejado com
Baseada na o executado. Esta abordagem dá ênfase a ferramen-
Produção tas estatísticas (controle do processo).
Ponto fraco: foco na eficiência, não na eficácia.
Abordagem de difícil aplicação, pois mistura dois
conceitos distintos: excelência e valor, destacando a
Baseada no Valor
relação qualidade x preço. Esta abordagem dá ênfase
à Engenharia/Análise de Valor.
Fonte: adaptado de Carvalho e Paladini (2006) e Batalha (2008).

Podemos perceber que a qualidade está relacionada ao atendimento


de todas as necessidades do cliente em relação aos produtos fornecidos
pela organização (abordagem baseada no usuário). Aqui, seu significado
é ampliado para tudo aquilo que pode ser melhor ou melhorado. A Quali-
dade Total é um processo que busca o aperfeiçoamento contínuo da orga-
nização, indicando a necessidade de avaliações constantes no que está

– 58 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

sendo realizado. No Controle da Qualidade Total (CQT), a qualidade deve


ser inserida e trabalhada em todas as etapas do processo produtivo, desde
o projeto do produto até a pós-venda.
O vocábulo controle foi herdado de uma época quando o assunto qua-
lidade era restrito a uma atividade de inspeção, independente da produção.
Mas é importante destacarmos que a qualidade jamais deve ser vista e
entendida apenas sob o aspecto de controle, mas no contexto amplo de
gestão, pois a cultura e os hábitos de consumo irão direcionar os processos
produtivos em direção à eficiência e a uma organização mais competitiva.
Assim, o Controle de Qualidade Total passa a significar o controle exer-
cido por todas as pessoas buscando satisfazer das necessidades de todos.
Ou seja, todos os setores da organização devem estar envolvidos na busca
pela qualidade, contribuindo tecnicamente (CAMARGO, 2011).
Esses são os princípios básicos do Controle da Qualidade Total, apre-
sentados por Camargo (2011):
a) Visão organizacional – a organização constitui-se de vários
processos;
b) Eliminação de obstáculos causados por práticas gerenciais
ultrapassadas;
c) Comunicação entre todos os setores da organização;
d) Avaliação contínua, para a manutenção do nível da qualidade;
e) Melhoria contínua ou kaizen;
f) Relacionamentos duradouros entre clientes e fornecedores, bus-
cando que ambas as partes saiam do processo ganhando;
g) Empoderamento do trabalhador;
h) Treinamento para a utilização de ferramentas estatísticas simples
para solução de problemas, buscando o autodesenvolvimento.
Quando avaliamos o sentido técnico da palavra, verificamos que a
qualidade industrial é diferente da qualidade artística. Qualidade indus-
trial – aquela que é buscada pelo engenheiro – envolve ideias de custo, de
reprodutividade e de capacidade de comparação. É possível afirmar que

– 59 –
Introdução à Engenharia da Produção

é aquela inerente à realização do objetivo real de uma empresa (rentabi-


lidade e desenvolvimento), caracterizando o resultado de sua atividade,
produto ou serviço. Essa qualidade é diretamente dependente da normali-
zação e da metrologia. Não há qualidade se não houver especificação dos
insumos, do produto final, das metodologias de produção e de medição
dos atributos-chave (FERNANDES, 2011).
Qualidade artística, entretanto, está mais relacionada às característi-
cas físicas do produto, seu design. Não tem preocupação com reprodutivi-
dade, por exemplo. O fato de o produto ser exclusivo faz com que ele se
torne mais interessante nesse mercado. Por esse motivo, custos também
não são poupados – quanto mais raros mais excessivos os preços.
É compreensível a percepção dos produtores, clientes e consumidores
à qualidade – todos possuem lembranças em relação à experiências pes-
soais de insatisfação, causadas pela falta de qualidade de muitos produtos
e serviços, ou até mesmo das atitudes que tomamos em relação a esses
produtos ou serviços e das pessoas com quem falamos e que passaram
por experiências semelhantes. Por conseguinte, apresenta-se um conjunto
de fatores que as pessoas consideram importantes quando compram um
produto ou serviço.
Outros fatores diretamente relacionados à qualidade de um pro-
duto ou serviço são a performance e a durabilidade. Quando adquirimos
alguma coisa, buscamos que ela seja fácil de reparar, possua viabilidade
de serviço, garantia, e seja fácil de usar. É importante destacarmos aqui
que os consumidores não se importam de pagar mais quando notam que o
produto tem mais qualidade.
Portanto, a qualidade é importante por estes quatro motivos princi-
pais: é o primeiro argumento de escolha de compra para o consumidor
final; é um dos principais meios de redução de custos; é um dos principais
meios de implementação da flexibilidade ou capacidade de resposta; e é
um dos principais meios de redução do tempo em todos os aspectos.

3.2.1 Dimensões da qualidade


Tendo em vista a imateriabilidade de seus múltiplos pontos de vista, a
qualidade pode ser entendida por meio da identificação de suas dimensões

– 60 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

em produtos e serviços, ou seja, o conjunto de aspectos de desempenho


valorizados pelo cliente, nos quais a organização focará seus esforços. O
Quadro 3.2 apresenta as principais dimensões da qualidade, tanto para
serviços quanto para produtos.
Quadro 3.2 – Dimensões da qualidade: serviços e produtos

Serviços Produtos
2 Tangíveis: aparência das 2 Desempenho: aspectos opera-
facilidades físicas, equipa- cionais básicos de um produto.
mentos, pessoal e comunica-
2 Características: são os “ade-
ção material.
reços” dos produtos, as carac-
2 Atendimento: nível de aten- terísticas secundárias que
ção dos funcionários de con- suplementam seu funciona-
tato dado aos clientes. mento básico.
2 Confiabilidade: habilidade de 2 Confiabilidade: reflete a proba-
realizar o serviço prometido bilidade de falha de um produto.
de forma confiável e acurada.
2 Conformidade: representa
2 Resposta: vontade de ajudar o grau em que o projeto e as
o cliente e fornecer serviços características operacionais de
rápidos. um produto estão de acordo
com padrões preestabelecidos.
2 Competência: possuir a neces-
sária habilidade e competên- 2 Durabilidade: a vida útil do
cia para realizar o serviço. produto, aspectos econômicos
(velocidade de obsolescên-
2 Cortesia: respeito, considera-
cia e gastos de manutenção) e
ção e afetividade no contato
técnicos (impossibilidade de
pessoal.
reparo). Portanto, durabilidade
2 Credibilidade: honestidade, e confiabilidade são dimensões
tradição, confiança no serviço. intimamente associadas.
2 Segurança: inexistência de 2 Atendimento: aspectos rela-
perigo, risco ou dúvida. tivos ao serviço associado ao
2 Acesso: proximidade e con- produto, como rapidez, corte-
tato fácil. sia e facilidade de reparo.

– 61 –
Introdução à Engenharia da Produção

Serviços Produtos
2 Comunicação: manter o 2 Estética: Aparência do pro-
cliente informado em uma lin- duto, design.
guagem que ele entenda.
2 Qualidade percebida ou
2 Conveniência: proximidade observada: inferências feitas
e disponibilidade, a qualquer pelo consumidor com base em
tempo, dos benefícios entre- sua percepção, que é afetada
gues pelos serviços. pela marca e reputação.
2 Velocidade: rapidez para ini-
ciar e executar o atendimento/
serviço.
2 Flexibilidade: Capacidade de
alterar o serviço prestado ao
cliente.
2 Entender o cliente: fazer o
esforço de conhecer o cliente
e suas necessidades.
Fonte: Batalha (2008).

As dimensões da qualidade possibilitam uma melhor avaliação das


necessidades dos clientes para que a empresa/organização possa estar
alinhada com estas, configurando seus serviços e/ou produtos da melhor
forma possível. Essas dimensões influenciam também na produtividade
e na competitividade, sendo interessante que o produto/serviço assuma
um posicionamento estratégico alinhado com os objetivos organizacionais
para a qualidade (YAMADA, et al., 2015).
As organizações devem decidir sobre qual das dimensões da quali-
dade seguir, de acordo com o nicho organizacional em que a empresa irá
competir, já que é muito difícil otimizar todas as dimensões ao mesmo
tempo. A escolha por determinada dimensão pode tornar mais difícil o
cumprimento de alguma outra, havendo o trade-off entre as dimensões de
qualidade. Logo, além do trade-off entre as dimensões da qualidade, existe
a decisão a ser tomada entre a competição por custo ou por qualidade.

– 62 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

Assim, a empresa pode adotar estratégias de mitigação, como compensar


o cliente com um serviço pós-venda muito bom quando o produto não tem
confiabilidade alta.

3.3 Teóricos importantes para a qualidade


Muitos teóricos e pesquisadores estão envolvidos no processo de
construção da área de qualidade, mas alguns tiveram um papel de desta-
que e recebem a denominação de Gurus da Qualidade. No meio das diver-
sas linhas de pensamento acerca da temática qualidade, Juran e Deming
foram os pioneiros do movimento. Eles são considerados, pelos japone-
ses, os inspiradores do milagre industrial nipônico iniciado na década de
1950. Na década de 1980, esses teóricos foram descobertos pelos Estados
Unidos, onde suas ideias formaram a base de uma revolução da qualidade,
o que restabeleceu a confiança na indústria nacional daquele país.
Entretanto, esses dois profissionais não são os únicos. Todos que
serão citados a seguir têm em comum a contribuição para a história da
qualidade, tanto de forma teórica quanto pela intervenção em empresas.

3.3.1 Walter A. Shewhart


Nascido em 1891, nos Estados Unidos, formou-se em Engenharia,
com doutorado em Física pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. É
considerado o pesquisador que deu origem ao controle estatístico do pro-
cesso, sendo responsável pelo desenvolvimento de ferramentas utilizadas
até hoje no controle da qualidade – os gráficos ou cartas de controle. O
diferencial desta ferramenta era a possibilidade de analisar os resultados
das inspeções, que, até o momento, serviam apenas para separar produtos
com defeito, valendo-se de gráficos que permitiam distinguir entre causas
comuns de variação do processo e aquelas causas especiais, que deveriam
ser investigadas. Isso possibilitou abandonar o comportamento reativo,
utilizado até então, para adotar um comportamento proativo, que evitasse
novas ocorrências. Shewart também propôs o Ciclo PDCA (Figura 3.1),
conceito depois lapidado por um discípulo chamado Deming. Uma de suas
definições de qualidade afirma que ela é tanto subjetiva quanto objetiva.

– 63 –
Introdução à Engenharia da Produção

O PDCA está fundamentado em um ciclo com atividades planeja-


das e recorrentes, buscando melhorar os resultados e/ou atingir as metas
preestabelecidas, e, por isto, não possui um final determinado. Tem por
princípio tornar mais rápidos e claros os processos envolvidos na execução
da gestão de uma organização, identificando as causas dos problemas e as
soluções para estes, e está dividido em quatro etapas principais: Planejar
(P), Executar (A), Checar (C) e Atuar (A) (ALVES, 2015).
Figura 3.1 – Ciclo PDCA

PLANEJAR
FAZER

AGIR CHECAR

Fonte: Shutterstock.com/ananaline

3.3.2 Willian Edward Deming


Nascido no ano de 1900, nos Estados Unidos, formou-se em Enge-
nharia Elétrica, com doutorado em Matemática e Física pela Universidade
de Yale. Passou por diversos períodos da qualidade, tendo sido discípulo
de Shewhart, com quem compartilhou o interesse pelas ferramentas esta-
tísticas aplicadas ao controle do processo e pelo método de análise e solu-
ção de problemas por meio do ciclo PDCA. Contudo, foi como especia-

– 64 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

lista enviado pelas Forças Aliadas, no período de reconstrução do Japão,


que Deming formulou suas principais contribuições.
De acordo com Carvalho e Paladini (2006):
Nesse período, Deming fundiu sua visão de estatístico, de ênfase
nos dados, com a vivência nas empresas japonesas, em que a par-
ticipação dos trabalhadores e da alta administração estava no dia a
dia da busca pela qualidade e por sua melhoria de forma contínua,
o que chamava de kaizen. Deming percebeu que o ciclo PDCA
trazia o conceito de melhoria contínua e o sistematizava de forma
adequada (CARVALHO; PALADINI, 2006).

Deming enunciou, em 1989, os 14 princípios a que a gestão devia


obedecer. Todos eles são listados no Quadro 3.3.

Quadro 3.3 – Princípios de gestão de Deming

1. Ter sempre como propósito a melhoria dos produtos e serviços, de


forma a que a organização seja competitiva, permaneça no mercado e
proporcione empregos. A direção da organização deve priorizar suas
preocupações de longo prazo e investir numa caminhada inovadora para
satisfazer as necessidades de seus clientes da melhor forma possível.
2. Adotar uma nova filosofia. Atrasos, erros e a ausência de uma política
de formação não podem ser tolerados.
3. Não depender da inspeção como forma de atingir a qualidade, pois
isso leva à aceitação do defeito. Deve-se, antes, prevenir e investir na
eliminação dos defeitos, colocar a qualidade do produto em primeiro
lugar e controlar por amostragem.
4. Deixar de escolher fornecedores unicamente em função de preço.
Custos devem ser avaliados em conjunto com a qualidade do que é for-
necido e do fornecimento. O importante é minimizar os custos totais.
Assim, devem ser estabelecidas novas regras sobre as compras e as rela-
ções de longo prazo com os fornecedores devem ser desenvolvidas.
5. Melhorar constante e permanentemente o sistema de produção.
6. Organizar a formação usando métodos modernos. Exigem-se sempre
novas capacidades, que se harmonizam com as alterações respeitantes
aos materiais, métodos, desenho, equipamentos e serviços.

– 65 –
Introdução à Engenharia da Produção

7. Instituir a liderança. Estabelecer novas formas de dirigir com base em


relatórios sobre a qualidade.
8. Eliminar o medo. Evitar um estilo autoritário de gestão para que todos
possam trabalhar com eficiência. Encorajar a comunicação e dar liber-
dade aos colaboradores para questionar, propor e reportar dificuldades.
9. Derrubar as barreiras entre os departamentos. As pessoas devem tra-
balhar em equipe, e a comunicação entre os serviços é indispensável. A
existência de círculos de qualidade multidisciplinares contribui para o
enriquecimento das tarefas e das soluções.
10. Eliminar slogans e metas numéricas. A maioria dos problemas
de qualidade tem a ver com os processos e sistemas que são criados
pelos gestores.
11. Deixar de utilizar a gestão por objetivos que têm como base indica-
dores quantitativos. Esses indicadores realçam a quantidade em detri-
mento da qualidade. Usar métodos estatísticos para melhoria contínua
da qualidade e da produtividade.
12. Não classificar nem ordenar o desempenho dos trabalhadores.
13. Organizar um programa de educação e automelhoramento.
14. Estruturar a gestão de forma a cumprir todos os pontos anteriores
Fonte: adaptado de Freitas (2009).

3.3.3 Joseph Moses Juran


Nascido na Romênia, em 1904, mudou-se para os Estados Unidos,
onde graduou-se em Engenharia e Direito. Foi responsável por ressaltar o
importante papel da alta administração e dos funcionários em vários aspec-
tos da gestão da qualidade. É com esse conceito que acaba contribuindo
com o milagre japonês (CARVALHO; PALADINI, 2006).
Foi o pioneiro na proposta de uma abordagem dos custos da quali-
dade, separando-os em três categorias distintas: falhas (internas e exter-
nas), prevenção e avaliação. Além disso, sugeriu a trilogia da qualidade,
que envolve o planejamento (para estabelecer os objetivos de desem-
penho e o plano de ações para atingi-los), o controle (como meio de

– 66 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

avaliação do desempenho operacional, permitindo a comparação com os


objetivos e a intervenção no processo, quando os resultados se desvia-
rem do desejado) e a melhoria (para aperfeiçoar o nível de desempenho
atual em novos níveis, tornando a empresa mais competitiva) (CARVA-
LHO; PALADINI, 2006).

3.3.4 Armand Vallin Feigenbaum


Nascido em 1922, nos Estados Unidos, graduou-se em Engenharia,
com doutorado em Ciências pelo Massachusetts Institute of Technology
(MIT). É considerado o pai do conceito de Controle da Qualidade Total
(CQT). De acordo com a sua abordagem, a qualidade é um instrumento
estratégico e todos os trabalhadores devem aplicá-la (CARVALHO;
PALADINI, 2006). A qualidade deixa de ser apenas uma técnica de elimi-
nação de defeitos nas operações industriais e passa a ter status de filosofia
de gestão e de compromisso com a excelência. É direcionada para o exte-
rior da empresa – baseada na orientação para o cliente – e não para o seu
interior – redução de defeitos.

3.3.5 Philip Crosby


Nascido em 1926, nos Estados Unidos, também se graduou em
Engenharia. Abordava a qualidade de forma diferente, focando na pre-
venção. Para ele, o conceito de que os erros são inevitáveis é mentiroso.
Por esse motivo, lançou, em 1957, o programa Zero Defeito, que acabou
se tornando muito popular na época, tanto em programas militares – na
construção de mísseis –, quanto em empresas (CARVALHO; PALA-
DINI, 2006).
Esse programa aproveitava os conhecimentos de custos da qualidade
definidos por Juran, mas com ênfase em uma abordagem gerencial e moti-
vacional, e no conceito de fazer o certo na primeira tentativa. Porém, houve
também muitas críticas ao programa, que foi, para alguns, apenas um con-
junto de slogans de propagandas (CARVALHO; PALADINI, 2006).
Crosby definiu a política de qualidade como o estado de espírito dos
funcionários de uma organização sobre a forma como devem fazer o tra-
balho. Se não existir uma política formal estabelecida pela gestão, cada

– 67 –
Introdução à Engenharia da Produção

um estabelece a sua. Como Dening, divulgava 14 pontos prioritários para


a qualidade, sintetizados no Quadro 3.4.
Quadro 3.4 – Pontos prioritários de Crosby para a qualidade

1. Compromisso da gestão de topo em relação à qualidade, que deve


estar explícito por meio de um documento escrito que defina a política
de qualidade da organização.
2. Equipes de melhoria da qualidade. A direção deve estabelecer uma
equipe para supervisionar a melhoria da qualidade em todos os departa-
mentos – pode ser criado o departamento de qualidade.
3. Medida da qualidade. Os indicadores de qualidade devem ser introdu-
zidos de forma a identificar as necessidades de melhoria.
4. Avaliação do custo da não qualidade. As equipes de melhoria da qua-
lidade deverão fazer uma estimativa dos custos da não qualidade de
forma a identificar zonas prioritárias em que as ações serão imediata-
mente rentáveis.
5. Tomada de consciência das necessidades da qualidade. Os funcioná-
rios deverão compreender a importância do respeito pelas especifica-
ções e o custo das não conformidades.
6. Ações corretivas que são desencadeadas nas etapas 3 e 4.
7. Planejar um programa “zero defeitos”.
8. Formação dos responsáveis e inspetores que serão responsáveis por imple-
mentar o que lhes compete no programa global de melhoria da qualidade.
9. Instituir um “dia zero defeitos” para que o conjunto dos funcionários
da organização seja sensibilizado nas novas normas de desempenho.
10. Definição de objetivos. Para transformar os compromissos em ação,
os indivíduos e os grupos devem ser encorajados a estabelecerem metas
de aperfeiçoamento.
11. Eliminar as causas dos erros. Os empregados devem ser encorajados
a comunicar as dificuldades que têm em atingir as suas metas de aperfei-
çoamento e na remoção das causas de erros.
12. Reconhecimento. Deve ser manifestado publicamente (mas não
financeiramente).

– 68 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

13. Círculos de qualidade. Os especialistas em qualidade e as pessoas


particularmente motivadas pelo progresso da melhoria da qualidade
devem se encontrar regularmente a fim de trocar ideias e experiências.
14. Recomeçar e progredir sempre.
Fonte: adaptado de Freitas (2009).

3.3.6 Kaoru Ishikawa


Ishikawa nasceu em 1915, no Japão, e formou-se em Química Apli-
cada pela Universidade de Tóquio em 1939, doutorando-se somente vários
anos depois, em 1960. Além de atuar como professor, também prestou
consultoria para empresas. Suas noções de controle de qualidade vieram
do convívio com os norte-americanos. Com base nessas lições foi que
desenvolveu uma estratégia de qualidade para o Japão. Suas principais
contribuições para o assunto englobam a criação dos seus sete instrumen-
tos/ferramentas do controle de qualidade, listados no Quadro 3.5. O nome
de Ishikawa está associado principalmente ao conceito dos Círculos de
Controle da Qualidade (CARVALHO; PALADINI, 2006).
Quadro 3.5 – 7 ferramentas da qualidade, de Ishikawa

1. Diagrama de Pareto: recurso gráfico utilizado para estabelecer uma


ordenação (da maior para a menor, por exemplo) nas causas de um
determinado problema ou não conformidade.
2. Diagrama Ishikawa (Espinha de peixe): objetivando identificar as
possíveis causas de um problema e seus efeitos, relaciona o efeito a
todas as possibilidades (causas) que podem contribuir para que determi-
nado problema tenha ocorrido.
3. Histograma: objetiva mostrar a distribuição de frequências de dados
obtidos por medições periódicas, criando assim um panorama dos
padrões que mais se repetiram em determinado período.
4. Folhas de controle: lista de itens predeterminados que serão veri-
ficados, avaliados e anotados. É usada para a certificação de que os
passos ou itens preestabelecidos foram cumpridos ou para avaliar em
que nível eles estão.

– 69 –
Introdução à Engenharia da Produção

5. Diagrama de escada: mostra o que acontece com uma variável


quando a outra muda. São representações de duas ou mais variáveis, que
são organizadas em um gráfico, sempre tendo uma em função da outra.
6. Gráficos de controle: tipo de gráfico utilizado para o acompanha-
mento do processo, determinando a faixa de tolerância limitada pela
linha superior (limite superior de controle) e uma linha inferior (limite
inferior de controle) e uma linha média do processo (limite central), que
foram estatisticamente determinadas.
7. Fluxos de controle: auxilia na identificação do melhor caminho que
o produto ou serviço irá percorrer no processo, ou seja, mostra as etapas
sequenciais do processo, utilizando símbolos que representam os dife-
rentes tipos de operações.
Fonte: adaptado de Gonçalves (2019).

3.3.7 Genichi Taguchi


Nasceu em 1924, no Japão, e graduou-se em Engenharia e Estatística,
doutorando-se em 1962. A ideologia de Taguchi abrange todo o ciclo de
produção, desde o design até a transformação em produto final acabado.
Nos seus preceitos, qualidade é definida em termos das perdas geradas
por esse produto para a sociedade. Essas perdas são medidas em dólares,
facilitando a comunicação entre os profissionais, e podem ser estimadas
em função do tempo que compreende a fase de expedição de um produto
até ao final da sua vida útil. Para Genichi Taguchi, a solução para reduzir
as perdas está na redução da variância estatística em relação aos objetivos
fixados. Na sua opinião, a qualidade e o custo de um produto são funda-
mentalmente dependentes de seu design e de seu processo de fabricação
(FREITAS, 2009).
Com todos esses gurus focados em garantir que produtos e ou/ser-
viços de qualidade estejam garantidos ao consumidor – com cada um
entendendo qualidade de certo modo – fica o questionamento: as ques-
tões ambientais estão sendo consideradas nos preceitos de qualidade,
principalmente quando falamos em qualidade da produção? É o que
veremos a seguir.

– 70 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

3.4 Evolução histórica da questão ambiental


A engenharia, como vimos anteriormente, surgiu na busca por
soluções para desafios técnicos impostos pelas demandas da sociedade.
Utilizando a ciência, a engenharia propõe e aprimora soluções tecno-
lógicas para a produção e o bem-estar humano. Nas atividades profis-
sionais, os engenheiros são aqueles que tomam decisões a respeito da
tecnologia a ser aplicada, dos materiais a serem usados em projetos nas
mais diversas áreas, como construção civil e infraestrutura, planeja-
mento urbano, projetos agroindustriais, indústria, produção de energia,
entre outras.
Durante o surgimento das primeiras indústrias, as questões ambien-
tais não estavam em foco: os problemas ambientais eram pouco percep-
tíveis, pois a população era pouco concentrada e a produção era de baixa
escala. As exigências ambientais eram mínimas e a fumaça saindo das
chaminés era veiculada como um símbolo do desenvolvimento e do pro-
gresso (OLIVEIRA, 2007).
As preocupações com o ambiente tomaram proporções internacio-
nais em 1960, atingindo seu ápice na década seguinte, com o relatório
e o marco histórico intitulado Os limites do crescimento (The limits to
Growth), divulgado pelos intelectuais e empresários que faziam parte do
Clube de Roma. Esse relatório acabou por colocar a questão ambiental na
agenda política mundial.
Conforme Salheb et al. (2009), esse relatório buscava a limitação
do desenvolvimento econômico baseado na extração de recursos natu-
rais. Entretanto, para os países em desenvolvimento, como o Brasil, as
sugestões do relatório não foram convenientes, uma vez que limitava a
exploração de recursos, “restringindo”, consequentemente, seu desen-
volvimento econômico.
Esse relatório apresentava um cenário catastrófico, apresentando
indícios de que, em uma projeção fictícia, se as atuais tendências de cresci-
mento da população mundial, industrialização, poluição, produção de ali-
mentos e diminuição de recursos naturais permanecessem daquela forma,
os limites de crescimento neste planeta alcançariam o esgotamento desses
recursos em poucas décadas. Nas páginas deste documento também era

– 71 –
Introdução à Engenharia da Produção

relatado que apenas o crescimento zero e a correta gestão dos recursos


finitos existentes poderiam salvar o planeta. (ALVES, 2017).
Muitas das conjecturas apresentadas no relatório não se concreti-
zaram, e outras ainda permanecem como uma possibilidade para a qual
a humanidade ainda não encontrou soluções. Entretanto, o documento
teve papel fundamental de chocar a sociedade e chamar sua atenção para
o impacto da exploração desenfreada dos recursos e da degradação do
meio ambiente, despertando a consciência da população para o assunto
(RUPPENTHAL, 2014). Embora isto não tenha sido imediato, tornou a
sociedade moderna mais atenta ao comportamento das empresas e preo-
cupada com o meio ambiente, com a segurança e com a qualidade de vida
e dos produtos. Aliás, qualidade é um dos conceitos que foram absorvi-
dos pelos consumidores e que tem levado as organizações à incorporação
de novos valores em seus procedimentos administrativos e operacionais
(OLIVEIRA, 2007).
Na década de 1980, entraram em vigor legislações específicas que
visavam controlar a instalação de novas indústrias e estabelecer exigências
para as existentes. O enfoque era para o controle da poluição, com foco
no efluente, resíduo ou emissão. Essa nova medida chegou aos empresá-
rios como um custo adicional para a organização – o que não foi muito
bem recebido. Antes, proteção ambiental tinha uma função corretiva, que
visava atender à legislação. Com o novo enfoque, a questão ambiental
passa a ter um caráter de investimento (RUPPENTHAL, 2014).
Mas, ainda na década de 1980, as propostas ambientalistas começa-
ram a apresentar modelos de redução do desperdício de matéria-prima,
além de poderem ser utilizadas para assegurar uma boa imagem para a
organização. Isso foi muito bem visto pelos gestores, já que questões
ambientais poderiam significar diminuição de custos. Assim, as preocu-
pações ambientais se transformaram em um fenômeno global no final da
década de 1980, com o Protocolo de Montreal, que bania os clorofluorcar-
bonos (CFCs) e a Convenção da Basileia, que estabeleceu regras para o
transporte de resíduos através de fronteiras (RUPPENTHAL, 2014).
A década de 1990 mudou o foco da sensibilização em relação aos
problemas ambientais para redução do impacto com a otimização dos pro-

– 72 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

cessos produtivos. Foram aumentados os esforços para desenvolvimento e


aplicação de tecnologias limpas e/ou menos poluentes, além de o conceito
de prevenção ganhar destaque. Surgiu também o conceito de ciclo de vida
dos produtos, buscando torná-los ecologicamente corretos desde a fase de
concepção, durante sua vida útil até chegar a seu descarte ou reaprovei-
tamento (RUPPENTHAL, 2014). Nessa década foi organizada a primeira
Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento, conhecida também como Cúpula da Terra ou Rio 92, realizada
na cidade do Rio de Janeiro. Essa conferência resultou em importantes
documentos, como a Carta da Terra (conhecida como Declaração do Rio)
e a Agenda 21.
No ano de 2002, dez anos após a realização da Rio 92, ocorreu a
Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, também denomi-
nada de Rio+10, pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Joha-
nesburgo, na África do Sul. Entretanto, os resultados obtidos não foram
muito significativos. Além de os países desenvolvidos se negarem a can-
celar as dívidas das nações mais pobres, os Estados Unidos, em conjunto
com os países integrantes da Organização dos Países Exportadores de
Petróleo (OPEP), não assinaram o acordo que previa o uso de 10% de fon-
tes energéticas renováveis, tais como eólica, solar, geotérmica, biomassa,
entre outras. Do ponto de vista ambiental, o saldo desta conferência não
foi positivo, principalmente quando se considera a mudança no enfoque
que ocorreu na década de 1990 (RUPPENTHAL, 2014).
A Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento
Sustentável, que tomou forma em 2012, na cidade do Rio de Janeiro,
envolveu a participação de líderes dos 193 países que faziam parte da
ONU. Percebeu-se um avanço no entendimento da importância de esco-
lhas sustentáveis pela população. Por exemplo: ações simples do dia a
dia, como escovar os dentes com a torneira fechada ou diminuir o tempo
do banho ganharam amplo destaque em relação a energias renováveis,
ciclos de vida de produtos e urgência de mudanças em padrões de con-
sumo. Da mesma forma, antigas práticas econômicas passaram a ser
vistas como dispositivos que pressionam os recursos naturais ao ponto
de esgotamento, inviabilizando o futuro. Ações práticas foram organiza-
das, como reuniões entre empresas, organizações não governamentais e a

– 73 –
Introdução à Engenharia da Produção

administração de grandes metrópoles. Como resultado, um grupo formado


por quarenta megacidades concordou em reduzir suas emissões de gases
causadores de efeito estufa, numa quantidade comparável a toda emis-
são anual do México. O setor de empresas, antes praticamente ausente do
evento, tomou a frente da realização de compromissos voluntários durante
a Rio+20, reconhecendo o valor do capital natural e comprometendo-se a
usar os recursos naturais de forma responsável (RUPPENTHAL, 2014).
Voltando em um ponto importante, na década de 1990 temos a inte-
gração entre a série ISO 14000, de gestão ambiental, e a série ISO 9000,
de gestão da qualidade, o que representou um avanço em relação à conser-
vação ambiental e ao desenvolvimento em bases sustentáveis, e mostra a
ligação entre Qualidade e Meio Ambiente.

3.4.1 Norma ISO 9000


Os sistemas de normas da área da qualidade têm origem em organi-
zações governamentais e militares, entretanto foram rapidamente absor-
vidos nos ambientes corporativos. Isso ocorreu principalmente devido à
complexidade das cadeias produtivas, à globalização, ao crescimento do
fenômeno de terceirização, entre outros fatores que tiveram forte impacto
nas relações cliente-fornecedor (BATALHA, 2008).
A primeira versão da ISO 9000 (International Organization for Stan-
dardization) surgiu em 1987, e era denominada “Sistemas de Garantia de
Qualidade”. Tornou-se um grande sucesso no mundo em termos de adoção
pelas empresas, sendo, inclusive, requisito de ingresso em muitas cadeias
produtivas (BATALHA, 2008).
Em 1994, a série ISO 9000 se dividia em três normas (9001, 9002 e
9003), que continuavam com o enfoque de garantia da qualidade, porém,
o conceito de Sistemas de Gestão da Qualidade (SGQ) foi ampliado. Em
2000, a norma passou a ser apenas ISO 9001 e, além de dar maior des-
taque ao sistema de gestão da qualidade, trazia a gestão por processos, e
deixava o uso do PDCA (Plan, Do, Check, Act) bem claro, definindo oito
princípios da qualidade. A versão de 2008 não trouxe grandes inovações
em relação à versão de 2000 e acabou decepcionando muitos profissio-
nais. Em 2015, finalmente chega a última versão ISO 9001:2015. Esta

– 74 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

atualização foi muito esperada e teve grande envolvimento mundial, tra-


zendo muitas novidades, como a gestão de riscos, novas terminologias,
redução de oito para sete princípios da qualidade, entre outros (CHAVES;
CAMPELLO, 2016).

3.5 Da qualidade à gestão ambiental


Como vimos anteriormente, nos últimos anos a qualidade tornou-se
um dos grandes focos no mundo dos negócios. Desde então, os clientes/
consumidores vêm aprimorando seus desejos, assim como suas necessi-
dades, e demandado produtos com maior qualidade e valor agregado. A
facilidade de acesso a novos mercados contribuiu ainda mais para aumen-
tar a competitividade entre os fabricantes/fornecedores de serviços. Com
isso, eles foram obrigados a diminuir cada vez mais os custos e a conhecer
e gerenciar melhor suas organizações.
Pode-se dizer que este grande movimento em relação à qualidade
trouxe grandes contribuições para a área ambiental. Por exemplo: os
sistemas de gestão, tanto de qualidade quanto ambiental, puderam ser
integrados. Tanto o gerenciamento da qualidade quanto o controle de
qualidade estão baseados em conceitos de melhoria contínua, essencial
para a gestão ambiental.
A partir do momento que se aumenta o passivo ambiental gerado com
os resíduos decorrentes dos processos produtivos, eventualmente passa-se a
ter problemas relacionados ao impacto das atividades, principalmente indus-
triais, no meio ambiente em que se está inserido, seja ele natural ou artificial.
A população passa a ter problemas de saúde relacionados a potenciais agen-
tes poluidores, aumenta-se o custo com limpeza pública, além, é claro, dos
danos causados à fauna e flora nativas. Surgem políticas públicas (leia-se
multas) que abordarão esses problemas. Logo, as indústrias não teriam mais
que se adaptar aos modelos sugeridos pelos gestores, mas sim os gestores
passariam a se adaptar às necessidades dos processos e das empresas, bus-
cando torná-las competitivas e, sobretudo, lucrativas (XAVIER et al., 2015).
Em face dos desafios existentes, os profissionais da engenharia passa-
ram a se deparar não somente com as necessidades de cada empresa, mas
também com as preocupações com o meio ambiente, que consistem em

– 75 –
Introdução à Engenharia da Produção

alinhar-se às questões ambientais (legislações ambientais pertinentes), de


forma a interferir minimamente nos lucros da empresa, buscando a susten-
tabilidade e o desenvolvimento sustentável.

3.6 Desenvolvimento sustentável e


sustentabilidade: um desafio para a engenharia
O conceito de desenvolvimento sustentável, que nos remete à sus-
tentabilidade, tem como marco a Conferência das Nações Unidas sobre o
Meio Ambiente Humano, também conhecida como Conferência de Esto-
colmo, realizada em 1972. Era ali que se iniciava a preocupação com o
modelo de desenvolvimento promovido pela Revolução Industrial e até
então predominante no mundo – modelo que tinha pouca ou nenhuma
preocupação com o meio ambiente. Somente 15 anos depois, em 1987,
é que o termo ganha a agenda técnica e política, com a publicação do
Relatório Brundtland – Our common future (Nosso future comum), desen-
volvido como resultado das reflexões da Comissão Mundial do Meio
Ambiente e Desenvolvimento, patrocinada pela Organização das Nações
Unidas (ONU) (MELO; BRETAS, 2018). Tal relatório versava sobre a
desigualdade econômica entre os países e apontava a pobreza como uma
das grandes causas dos problemas ambientais; como solução, o relatório
apontou detalhadamente as medidas, esforços e desafios que deveriam ser
superados para que fosse possível alcançar o desenvolvimento sustentável
(XAVIER et al., 2015).
Nesse instante é que foi introduzida a ideia de que o desenvolvimento
econômico atual deve ocorrer sem comprometer as necessidades das gera-
ções vindouras (SEIFFERT, 2009). Sendo considerado um marco inova-
dor em raciocínio ambiental da época, o relatório discorreu sobre:
[...] estratégias ambientais de longo prazo para obter um desenvol-
vimento sustentável por volta do ano 2000 e daí em diante; reco-
mendar maneiras para que a preocupação com o meio ambiente se
traduza em maior cooperação entre os países em desenvolvimento
e entre países em estágios diferentes de desenvolvimento econô-
mico e social e leve à consecução de objetivos comuns e interli-
gados que considerem as inter-relações de pessoas, recursos, meio
ambiente e desenvolvimento (DRUMMOND, 2019).

– 76 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

Para alcançar esses objetivos, Batalha (2008) sugere que os países em


desenvolvimento priorizem políticas que fomentem: a reciclagem, o uso
eficiente de energia, a conservação, a recuperação de áreas degradadas,
a busca pela equidade, justiça, redistribuição e geração de riquezas. Ao
seguir tais recomendações, o desenvolvimento alcançado será diferente
do crescimento econômico, indo além da “riqueza” material, alcançando
metas e reparando desigualdades passadas.
A engenharia e as profissões da área tecnológica estão intimamente
ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) (Figura
3.2). Os profissionais dessas áreas possuem a capacidade e o conheci-
mento técnico necessário para orientar a escolha de alternativas sustentá-
veis, podendo ajudar no avanço do conhecimento científico e no desenvol-
vimento de técnicas e tecnologias sintonizadas com os ODS. Obviamente,
o conceito sustentabilidade deve ser considerado na fase de engenharia de
qualquer projeto ou obra para que tudo possa ser realizado de acordo com
os padrões de sustentabilidade estabelecidos pelo mercado e pela socie-
dade (MELO; BRETAS, 2018; PEREIRA, 2020).
Figura 3.2 – Objetivos do desenvolvimento sustentável

Fonte: www.unicef.org/

– 77 –
Introdução à Engenharia da Produção

Projeto sustentável pode ser definido como um sistema que busca


promover intervenções sobre o meio ambiente, sem acabar com os
recursos naturais, de forma que eles continuem disponíveis para as gera-
ções futuras. Tal conceito de construção faz uso de materiais ecologica-
mente corretos, integrados com soluções tecnológicas inteligentes, que
promovem a redução de resíduos gerados pela construção. Também faz
utilização de água e de energia, mas de forma inteligente e econômica,
buscando proporcionar um melhor aproveitamento desses recursos. É
importante ressaltar que, embora investir em construções que respei-
tem os critérios de sustentabilidade ambiental possa, muitas vezes, pare-
cer um investimento inicial alto, ao longo da vida útil do empreendi-
mento estes custos vão sendo minimizados, por meio dos ganhos com
eficiência energética, uso racional da água e durabilidade da edificação
(PEREIRA, 2020).
A conceitualização da expressão desenvolvimento sustentável inclui
um fator-chave: processos produtivos que, ao mesmo tempo, promovem
a redução do uso de recursos naturais, na condição de insumos, e poten-
cializam a produção para o consumo da sociedade, com baixos índices de
poluição associados. A este fator-chave pode ser diretamente associado o
exercício da profissão do engenheiro: buscar o desenvolvimento de téc-
nicas e tecnologias para melhor aproveitamento dos insumos produtivos,
produzir com eficiência, reduzir os resíduos gerados na produção e buscar
meios de reutilizá-los. É assim que deve funcionar o desenvolvimento sus-
tentável, no qual a engenharia tem uma função de grande responsabilidade
(MELO; BRETAS, 2018).

Dica de leitura

Leitura do Livro: Engineering for Sustainable Development: Guiding


Principles The Royal Academy of Engineering.

Este livro apresenta 12 princípios que unem a Engenharia e o Desenvol-


vimento Sustentável.

Link do livro: <https://www.raeng.org.uk/publications/reports/engine-


ering-for-sustainable-development>.

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As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

A engenharia deve ser responsável por pensar em soluções que pos-


sam balancear os impactos negativos e positivos nas esferas ambiental,
econômica e social. Nisso se incluem a utilização de recursos renováveis,
a reciclagem de recursos não renováveis, a avaliação da capacidade do
ambiente de se regenerar como um sistema ecológico, e assim por diante.
Essas soluções balanceadas geram, portanto, produtos e infraestruturas
duráveis, flexíveis e com baixos impactos (MELO; BRETAS, 2018).
As delimitações de realização de projetos por engenheiros ou outros
profissionais da tecnologia são determinadas pelas técnicas emprega-
das e/ou pelo orçamento associado. Entretanto, na engenharia sustentá-
vel, a avaliação de custo deve transpor uma avaliação restrita a custo e a
benefício de curto prazo, uma vez que, nesse caso, o custo não é apenas
financeiro. Como exemplo temos os processos de certificação ambiental,
que recomendam a inclusão de uma avaliação dos custos associados aos
riscos de uma inadequação da gestão ambiental de projetos, produtos e
processos, como a paralisação de atividades, acidentes ambientais, polui-
ção, dentre outros. Além disso, o emprego de técnicas de ecodesign e pro-
dução mais limpa (P+L) pode ser considerado, num primeiro momento,
um custo de investimento, porém, os benefícios em médio e longo prazo
da utilização destas técnicas são mensuráveis e otimizam o custo fixo de
produção. Deve-se, portanto, incluir na equação de custos de um projeto
ou programa, os custos dos efeitos negativos na sustentabilidade deste.
Outro argumento a ser considerado é o fato de o meio ambiente ser
um bem de todos e a responsabilidade por sua proteção também ser com-
partilhada entre sociedade e Poder Público. Assim, é responsabilidade da
engenharia zelar pelo bem de todos, inclusive considerando o direito inter-
geracional, empregando técnicas que minimizem impactos ambientais,
econômicos e sociais decorrentes de uma atividade pública ou privada.
Esse resultado só é alcançado quando a engenharia passa a ser abrangente
e integrada em médio e longo prazo, desenvolvendo e aplicando técnicas e
tecnologias que forneçam respostas às demandas da sociedade, e esta deve
perceber o resultado dessas decisões da engenharia no ambiente em que
vive (MELO; BRETAS, 2018).
Por exemplo: o projeto de uma obra sustentável deve contemplar,
de forma inteligente, os seguintes itens: a possibilidade de utilização dos

– 79 –
Introdução à Engenharia da Produção

recursos naturais (iluminação natural – mais barata e limpa que a ilumi-


nação artificial), o provimento de sistemas e tecnologias que permitam
redução no consumo de água (reúso, aproveitamento da água de chuva),
a racionalização do uso de energia, com a utilização de tecnologias como
o aquecimento solar e a geração de energia por painéis fotovoltaicos
(quando a luz não puder ser natural, optar por fontes limpas de energia).
É preciso também planejar áreas para coleta seletiva de lixo (reciclagem)
e criar ambientes benéficos, utilizando tecnologias para melhorar a acús-
tica e a temperatura. Uma construção sustentável utiliza materiais e tec-
nologias biocompatíveis, que não agridem o meio ambiente, seja durante
o processo de obtenção, fabricação, aplicação e durante a sua vida útil
(PEREIRA, 2020).
Um fator do produto importante para as questões ambientais é o seu
ciclo de vida – aquele que se inicia quando os recursos para sua fabricação
são removidos de sua origem e finaliza quando o material retorna para a
terra. Por esse motivo, algumas legislações têm se baseado na Responsa-
bilidade Estendida do Produto (EPR), visando responsabilizar empresas
inclusive pelo depósito correto dos resíduos gerados por seus produtos
(BATALHA, 2008).
As exigências cada vez maiores de adequação dos processos das
organizações à proteção do meio ambiente fizeram surgir uma subárea
da logística empresarial – a logística reversa, muito discutida atualmente.
Esse novo setor engloba etapas, formas e/ou meios em que uma parcela
dos produtos da empresa – com pouco uso, após a venda, com ciclo de
vida ampliado ou após extinta sua vida útil – retorna ao ciclo produtivo ou
de negócios, readquirindo valor em mercados secundários pelo reúso ou
pela reciclagem de seus materiais constituintes (BATALHA, 2008). Como
exemplo temos as embalagens retornáveis de Coca-Cola, que podem ser
reaproveitadas, e as cápsulas de café, que voltam para as empresas para
serem recicladas e acabam virando canecas ou porta-cápsulas.
No contexto da engenharia, espera-se que esses profissionais auxiliem
empresas a contribuir de forma progressiva com a sustentabilidade, sobre-
tudo quando precisam de mercados estáveis; e, para tanto, elas devem possuir
habilidades tecnológicas, financeiras e de gerenciamento que possibilitem a
transição rumo ao desenvolvimento sustentável (ELKINGTON, 2001).

– 80 –
As relações entre engenharia, meio ambiente e qualidade

Pilares da sustentabilidade

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram


propostos considerando o ano de 2030 como horizonte, inte-
grando, para o alcance destes, ações dos governos e sociedade.
Os ODS incluem, transversalmente, temas nos três pilares da
sustentabilidade (economicamente viável, ambientalmente cor-
reto, e socialmente justo), conforme a sistematização proposta:

1. Social – redução da pobreza, segurança alimentar, educação


inclusiva, igualdade de gênero, geração de emprego e renda,
promoção da paz.

2. Econômicos – agricultura sustentável, acesso à energia, cresci-


mento econômico sustentável, infraestruturas resilientes, indus-
trialização inclusiva, fomento à inovação.

3. Ambiental – disponibilidade de água e saneamento; padrão


de produção e consumo sustentável; combate a mudanças cli-
máticas e seus impactos; uso sustentável dos recursos marinhos;
proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossiste-
mas terrestres; gerir os recursos florestais; combater a desertifi-
cação; deter a perda da biodiversidade.

Fonte: Melo e Bretas (2018).

Síntese
Vimos neste capítulo o papel da engenharia para a qualidade dos pro-
dutos/serviços e para a proteção do meio ambiente. Como profissionais
de engenharia, temos que estar sempre preocupados com o produto final
que chega até o consumidor, principalmente agora que as pessoas têm
cada vez mais acesso à informação e, por esse motivo, estão mais preocu-
padas com os produtos que elas inserem no seu dia a dia. As questões de

– 81 –
Introdução à Engenharia da Produção

qualidade evoluíram muito ao longo do tempo até chegarem aos sistemas


utilizados atualmente, e a qualidade conversa diretamente com as questões
ambientais, não só pelo fato de os sistemas de gestão – tanto de qualidade
quanto ambiental – funcionarem integrados, mas pelas próprias caracterís-
ticas da produção: para a qualidade, o interesse é o menor número de erros
possível, o que diminui desperdício e contribui para a questão ambiental.
De forma geral, problemas ambientais são questões de engenharia que
devem ser resolvidos para a melhora da qualidade de vida e da sociedade
como um todo.

Atividades
1. Como funciona a abordagem da qualidade baseada na produção?
2. Quais os princípios básicos do Controle da Qualidade Total?
3. O mundo está chegando num ponto cada vez mais crítico – o
aumento do consumo e a exploração incontrolável de produtos
e recursos naturais e minerais do planeta só agravam a vida na
terra, deixando em dúvida o futuro. Para reverter essa situação,
precisamos pensar na sustentabilidade ambiental, envolvendo
todos os setores da sociedade (PATRÍCIO, 2016).
Defina Desenvolvimento Sustentável.
4. Foram concluídas, em agosto de 2015, as negociações que cul-
minaram na adoção, em setembro, dos Objetivos de Desenvol-
vimento Sustentável (ODS), por ocasião da Cúpula das Nações
Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Processo iniciado
em 2013, seguindo mandato emanado da Conferência Rio+20,
os ODS deverão orientar as políticas nacionais e as atividades
de cooperação internacional nos próximos quinze anos, suce-
dendo e atualizando os Objetivos de Desenvolvimento do Milê-
nio (ODM).
A questão do Desenvolvimento Sustentável ganha bastante
relevância no contexto empresarial atual. Em quais pilares ela
se baseia?

– 82 –
4
O processo de
formação do
engenheiro

Os engenheiros são profissionais geralmente associados aos


processos de melhoria contínua dos produtos e da produção, à
gestão do processo produtivo e também às atividades de inova-
ção e pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas. Assim,
esses profissionais representam um papel fundamental no desen-
volvimento tecnológico de qualquer país (IEDI, 2010).
Introdução à Engenharia da Produção

Um exame do perfil da mão de obra empregada em atividades de


P&D, nos Estados Unidos, revela que os engenheiros compõem, em ter-
mos quantitativos, o grupo mais relevante de profissionais envolvidos
nessa área. As informações disponíveis também mostram que os enge-
nheiros não são, obviamente, os únicos profissionais necessários para as
atividades de inovação e P&D e que, quanto mais a relação ciência-in-
dústria avança, mais diversos se tornam os perfis requeridos para dar sus-
tentação ao desenvolvimento tecnológico: cientistas de inúmeras áreas,
como Física, Química, Biologia, Computação e Medicina; Advogados e
Administradores que gerenciam a inovação e a propriedade intelectual; e
novas áreas, que atendem aos desafios da multidisciplinaridade e da inter-
disciplinaridade dos problemas a serem resolvidos e da necessidade de
estimular a criatividade no interior das empresas (IEDI, 2010).
Com a organização do trabalho passando por mudanças, principal-
mente com a evolução da eletrônica e, em especial, da microeletrônica,
das tecnologias de informação e de telecomunicações, as habilidades/qua-
lificações/competências dos profissionais também vêm sendo afetadas, o
que vem se refletindo na prática do trabalho inclusive na área da engenha-
ria (GUIMARÃES FILHO; PEREIRA, 2003). As empresas passaram a
ter maior necessidade do desenvolvimento intelectual do trabalhador em
detrimento de seu desenvolvimento físico-manual. O engenheiro estrategi-
camente posicionado neste cenário assume responsabilidades de gerencia-
mento de pessoas e processos, e isto exige que conhecimentos econômicos
e sociais sejam adicionados àqueles de cunho puramente técnicos. Logo,
o ensino de engenharia nos cursos de graduação têm um grande desafio
pela frente: os cursos universitários, antes baseados numa lógica instru-
mental e tecnicista, se encontram agora discutindo a urgência de uma nova
abordagem que possibilite uma formação mais extensa do engenheiro, que
envolva questões humanas, sociais, econômicas e políticas (LAUDARES;
RIBEIRO, 2001).

4.1 História do ensino da engenharia nas escolas


Nas primeiras escolas de Engenharia, a formação de engenheiros
esteve direcionada para a área da construção civil, principalmente para a

– 84 –
O processo de formação do engenheiro

construção de pontes e estradas e para os estudos dos minerais. As primeiras


escolas brasileiras de Engenharia datam do começo do século XIX, e a prá-
tica profissional do engenheiro da época era realizada em um domínio polí-
tico. Tanto a formação quanto o trabalho estavam estritamente conectados
ao militarismo, já que a tecnologia era vista como algo de interesse restrito
ao meio de segurança e à repressão. A Academia Militar, no Rio de Janeiro,
instalada por D. João VI, formava oficiais engenheiros junto com oficiais de
artilharia (LAUDARES; RIBEIRO, 2001; KAWAMURA, 1981).
Para Crivellari (2000), existe uma estreita relação entre o sistema edu-
cativo e o tipo predominante de regime de produção dos países. Por exem-
plo: durante a Revolução Industrial foram incorporados novos princípios
científicos aos meios técnicos de produção. Isso logo passou a exigir mais
esforços educacionais no sentido de melhorar a capacitação da mão de
obra, expandindo o processo de formação sistemática de engenheiros, ini-
ciado na França no século anterior. Entretanto, a expansão das indústrias,
no século XX, modificou o cenário. Surge a necessidade de uma formação
de profissionais, mais especificamente de engenheiros, que englobasse a
diversidade de especializações na profissão, devido à racionalização das
tarefas, introduzida pela Administração Científica. Esta mudança progres-
siva acabou resultando em uma maior divisão do trabalho do engenheiro e
no crescente surgimento das novas especialidades.
No cenário mundial do pós-guerra, a elaboração e a organização do
desenvolvimento das atividades voltadas à educação e à formação profis-
sional ganharam uma anuência cada vez maior. Isso seguiu as proposições
da teoria do capital humano, alusivas aos efeitos positivos da escolaridade
(incluindo formação universitária) na renda dos trabalhadores, bem como
a pressuposição de que este quesito aumentaria as chances de conseguir
um emprego.
Já nos anos 1980, a crise do fordismo e a era pós-fordista provocaram
uma intensa desregulamentação das relações de trabalho, acompanhando o
movimento de flexibilização dos sistemas de produção, ou da reestrutura-
ção produtiva. Estudos mostram que tais mudanças tiveram um profundo
impacto na base característica da formação profissional em geral e, em
particular, a dos engenheiros da época. As novas modalidades de trabalho
em parceria, difundidas com base na experiência da indústria automobilís-

– 85 –
Introdução à Engenharia da Produção

tica japonesa, passam a exigir uma maior interlocução entre técnicos, ope-
rários e engenheiros. A diferença de saberes entre os técnicos, vindos da
área de fabricação, e os engenheiros, com formação universitária, resultou
em dificuldade de comunicação entre essas áreas, prejudicando o processo
de produção (CRIVELLARI, 2000).
A implantação e o crescimento dos cursos de graduação em enge-
nharia no território brasileiro também estão intimamente relacionados ao
desenvolvimento da tecnologia e da indústria, além das condições eco-
nômicas, políticas e sociais do país e de suas relações internacionais. Por
exemplo: na década de 1950 eram criados, em média, três cursos de enge-
nharia por ano, ao passo que, em 1960, no final do governo Juscelino
Kubitschek, estavam em funcionamento aproximadamente 90 cursos de
engenharia no país. É importante ressaltar que, nessa década, o governo
estava completamente focado no desenvolvimento da indústria nacional
(OLIVEIRA, 2010).
No que se refere à legislação que regulamenta a formação profissio-
nal em engenharia no Brasil, em 1976 entrou em vigor a Resolução n. 48
do Conselho Federal de Educação (CFE), que estabeleceu os currículos
mínimos dos cursos e definiu as grandes áreas da engenharia como Civil,
Elétrica, Mecânica, Química, Metalúrgica e de Minas. Enquanto alguns
pesquisadores consideravam que esta resolução congelava o currículo dos
cursos, por designar o mínimo necessário para o ensino básico e profissio-
nalizante, outros viam nela certa possibilidade de flexibilização, uma vez
que permitia a definição dos conteúdos específicos pelas instituições de
ensino. Esta resolução vigorou até a aprovação da nova Lei de Diretrizes
e Bases (LDB), em 1996. Em 1976, entrou também em vigor a Resolução
n. 50 do CFE, que reconheceu as ênfases ou habilitações nos cursos de
graduação (OLIVEIRA et al., 2012; CONFEA, 2010).
O início da década de 1990 foi conturbado devido à crise política
decorrente do impeachment do presidente Fernando Collor. Entretanto,
o país já mostrava indícios de superação da crise econômica ocorrida na
década de 1980. Essa retomada do crescimento efetivou-se com o Plano
Real, em 1994, e deve-se, principalmente, à globalização, que estimulou
a produtividade e a competitividade da produção, o que só foi possível
graças a uma boa qualificação dos recursos humanos, destacando-se a área

– 86 –
O processo de formação do engenheiro

de Engenharia (OLIVEIRA et al., 2012). Assim, em 1996 foi aprovada a


nova LDB (Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996) que revogou a Reso-
lução 48, de 1976, acabando com a currículo mínimo para os cursos de
Engenharia. Isso ocasionou um crescimento na educação superior do Bra-
sil sem precedentes, com a expansão das instituições de ensino existentes
e a criação de muitas outras, especialmente no setor privado, a partir de
1997 (CONFEA, 2010). Houve também a criação de novas modalidades
de Engenharia.
A Resolução n. 11, de 2002, do Conselho Nacional da Educação e
da Câmara de Educação Superior, que “Institui Diretrizes Curriculares
Nacionais do Curso de Graduação em Engenharia”, também facilitou o
aumento do número de cursos e de suas modalidades e ênfases. Entre-
tanto, no que se refere à organização desses cursos, a possibilidade de
flexibilização contida nessa Resolução foi muitas vezes mal interpretada,
o que acabou permitindo a criação de cursos de Engenharia totalmente
desestruturados e com duração de apenas 4 anos, mesmo sendo noturnos.
A questão foi estruturada pela Resolução n. 02, de 2007, do Ministério
da Educação e Cultura, do Conselho Nacional da Educação e da Câmara
de Educação Superior, que determinou a integralização dos cursos de
engenharia, que deveriam ter duração mínima de 5 anos e de 3.600 horas,
estabelecendo ainda que a hora-aula teria 60 minutos de duração efetiva
(CONFEA, 2010).
No cenário atual, no que concerne ao ensino de engenharia, estu-
dos apontam a necessidade de mudanças profundas nos cursos, uma vez
que a evolução tecnológica é muito mais rápida do que as mudanças dos
currículos ou quaisquer outras adaptações no interior das instituições de
ensino. Por esse motivo, a Resolução n. 2, de 24 de abril de 2019, ins-
tituiu novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os Curso de
Graduação em Engenharia. Nessa resolução estão inclusos temas como
visão holística e humana, habilidades técnicas, perfil de pesquisador, ética,
perspectivas multidisciplinares e até mesmo questões relativas ao desen-
volvimento sustentável (BRASIL, 2019a).
As novas DCN de Engenharia buscam acomodar as expectativas
de parte da comunidade acadêmica, dos empregadores de mão de obra
qualificada e dos setores que representam a atividade profissional da área.

– 87 –
Introdução à Engenharia da Produção

A demanda por esse profissional é crescente, o que aumenta a necessidade


de atualizar a formação em Engenharia no país, visando fornecer ao mer-
cado profissionais cada vez melhores (BRASIL, 2019b).
Nos últimos anos, foi possível aumentar significativamente o número
de pessoas tanto matriculadas quanto concluintes distribuídas pelos cur-
sos de Engenharia em todo o país, principalmente com a popularização
dos cursos de educação a distância (EAD). Por exemplo: apenas no ano
de 2016, cerca de 100 mil pessoas se graduaram bacharéis em cursos de
engenharia – presenciais e EAD. Algumas estimativas apontam, porém,
uma taxa de evasão da ordem de 50% – o que ainda é um patamar muito
elevado (BRASIL, 2019b).
Tendo em vista a ocupação centralizada da Engenharia na geração de
conhecimentos, tecnologias e inovações, seria uma boa estratégia consi-
derar essas novas tendências educacionais e dar ênfase à melhoria da qua-
lidade dos cursos oferecidos no país, objetivando o crescimento da pro-
dutividade e a ampliação das possibilidades de crescimento econômico,
tanto hoje quanto no futuro. A revisão das Diretrizes Nacionais do Curso
de Graduação em Engenharia é uma importante peça deste complexo pro-
cesso (BRASIL, 2019b).

4.2 Processo de formação


profissional do engenheiro
Preparar profissionais para o mercado de trabalho atual é uma tarefa
árdua, uma vez que é exigido desses que operem com competência em
inúmeras áreas. Assim, para uma formação efetiva é necessária uma boa
estruturação dos cursos, que devem contemplar um conjunto consistente
de conhecimentos que os habilitem para tal cenário. Disciplinas teóricas
bem fundamentadas, estágios no mercado de trabalho e aulas práticas são,
portanto, mais do que necessários – são essenciais para que as instituições
de ensino possam alcançar estes objetivos (AGOSTINHO; AMORELLI;
RAMALHO, 2015).
Capacitar indivíduos para que resolvam problemas técnicos especí-
ficos à área em estudo é um dos objetivos do processo educacional para

– 88 –
O processo de formação do engenheiro

os cursos de engenharia, e, para alcançá-lo, é necessário que os cursos


sejam planejados de maneira a fornecer um agrupamento de conheci-
mentos que habilite cidadãos a dominar determinada área de atuação/
operação. Para a engenharia de petróleo, por exemplo, são fundamen-
tais os conhecimentos em topografia, geologia, petrografia, economia
mineral, química, entre outros. Mas estes campos de estudo não são
essenciais, por exemplo, para que um engenheiro de alimentos ou um
engenheiro de produção, desempenhem suas atividades profissionais
mais clássicas, assim como um engenheiro de petróleo não precisa de
conhecimento sobre Boas Práticas de Fabricação (BPF) e de Análise
de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), ferramentas funda-
mentais para a segurança do alimento, logística e pesquisa operacional
(AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Mas é essencial concordar em um ponto: em qualquer desses casos,
em qualquer especialização da engenharia, a formação básica é essencial.
Como um curso que apresenta como objetivo capacitar cidadãos e formar
profissionais que busquem soluções para problemas técnicos específicos,
é necessário que seja proporcionado ao estudante uma formação básica
consistente, com disciplinas teóricas de bom nível e informações técnicas
atualizadas. Além disso, a função de um engenheiro não é apenas solu-
cionar problemas utilizando as técnicas apropriadas, mas é também ter a
capacidade de discernimento para abordar os problemas de forma ampla,
considerando-os como parte de um todo, e que toda ação terá uma reação
de múltiplas dimensões (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Segundo Laudares e Ribeiro (2001), percebe-se que nos cursos de
engenharia, as matérias científicas e aquelas relacionadas às áreas huma-
nas e sociais encontram um ponto em comum no campo da racionalidade
técnico-instrumental, visto que produzem os instrumentos e as técnicas
necessárias, bem como fornecem os meios para atender aos fins da orga-
nização e do sistema produtivo. O campo do saber liberal encontra-se
inserido, especialmente, nas áreas humanas, sociais e filosóficas, contri-
buindo com o raciocínio necessário para a área da ciência e da tecnolo-
gia. O âmbito dos conhecimentos humanos e sociais funcionam como um
intermédio entre o conhecimento elaborado no âmbito da área tecnológica
e a sua aplicação no mundo social do trabalho. O currículo de engenharia

– 89 –
Introdução à Engenharia da Produção

comporta, dessa forma, os dois modelos de racionalidade – afinal, esses


profissionais terão que lidar com os problemas técnicos e com pessoas no
seu dia a dia de trabalho. E cada pessoa possui sua individualidade.
Ao implantar uma rodovia ou uma indústria em determinada região, por
exemplo, o engenheiro deve ter consciência de que está impondo uma alte-
ração brusca no ecossistema local, bem como alterando o contexto social da
região. Uma indústria pode gerar empregos, mas também pode aumentar a
poluição e prejudicar a vida das pessoas com problemas respiratórios. Uma
rodovia aumenta o fluxo de carros, o que pode levar a acidentes. Tudo isso
também tem de constar como preocupação de um profissional competente.
Por isso, a lógica de um curso de engenharia prevê divisões em algumas gran-
des áreas, que abarcam inúmeros tópicos de estudo, oferecendo temas técni-
cos e de formação geral (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Laudares e Ribeiro (2001) também concluem que as diferentes áreas,
que englobam o saber técnico-instrumental e o saber ético-social, devem
se unir na direção do cooperativismo para o desenvolvimento do currículo
do curso de engenharia, sendo de responsabilidade do professor utilizar o
seu grau de liberdade em sala de aula para atuar de forma transformadora.
Assim, Laudares e Ribeiro (2001) afirmam que
O professor, ao trabalhar o conhecimento, assume um posiciona-
mento diante dos elementos com os quais lida, uma vez que sua
ação não pode ser neutra. Este posicionamento pode estar clara-
mente definido ou não para o sujeito que o conduz, e envolve aspec-
tos políticos, ideológicos e éticos (LAUDARES; RIBEIRO, 2001).

Se condensarmos um curso de engenharia em grandes áreas de conhe-


cimento, o resultado obtido será um esquema como o apresentado na Figura
4.1, em que cada caixa simboliza um conjunto de matérias com propósitos
mais ou menos comuns. Por exemplo: Física, Química e Matemática são
conteúdos básicos fundamentais para todas as engenharias, portanto, esses
conteúdos devem ser estudados, por todos os futuros engenheiros, com
alguma profundidade. Lavra a céu aberto e jazidas minerais, por exemplo,
são assuntos mais pertinentes à Engenharia de Minas, fazendo assim parte
da formação deste profissional. Estruturas de aço e concreto, por exemplo,
compõem a grade da formação do engenheiro civil. Já para a formação
de um engenheiro de produção, por exemplo, supõe-se que estes assuntos

– 90 –
O processo de formação do engenheiro

não sejam essenciais e, por isso, não façam parte do seu currículo (AGOS-
TINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Figura 4.1 – Conteúdos gerais de um curso de engenharia

Fonte: adaptada de Agostinho, Amorelli e Ramalho (2015).

4.3 As bases de uma graduação em engenharia


A graduação universitária não tem apenas o papel de ensinar res-
postas prontas para questões e/ou problemas já esclarecidos, como se
o conhecimento fosse incapaz de ser alterado ou reinventado, como se
todo o conhecimento adquirido e todos fatos comprovados até agora fos-
sem assuntos encerrados. No geral, a educação deve, sempre, estimular
questionamentos e reflexões críticas, além de esclarecer sobre as possi-
bilidades e limitações dos conhecimentos atuais, mostrando a sua eterna
transitoriedade. Tem o objetivo, também, de mostrar a importância dessa
característica na construção e experimentação científica. E almeja ainda
permitir o crescimento intelectual e estimular a criatividade dos alunos.
Isso tudo se deve ao fato de termos que estar preparados para responder
questões totalmente inéditas – inusitadas, inclusive – e próprias de um
novo momento histórico. Preparar-nos para essa aventura é um desafio
encorajador (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Esse é o papel cumprido pelas faculdades/universidades que forne-
cem o curso de graduação em Engenharia. Nesses cursos, as disciplinas de
formação básica geralmente fazem parte da grade curricular dos primeiros
anos, porque são elas a munição necessária para vencer os desafios dos estu-

– 91 –
Introdução à Engenharia da Produção

dos técnicos que serão vistos mais adiante. Como o trabalho do engenheiro
consiste basicamente em buscar soluções para problemas, se ele souber
interpretar de maneira apropriada os fenômenos básicos que os compõem,
enquadrando-os em teorias explicativas consistentes e aplicando técnicas
de cálculo potentes, é bem provável que saberá solucioná-los de forma ade-
quada (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
As matérias de formação básica – comuns a todos os cursos graduação
de engenharia e que constituem a base de uma formação sólida – devem
contemplar os seguintes requisitos básicos em seu Projeto Pedagógico de
Curso: Administração e Economia; Algoritmos e Programação; Ciência
dos Materiais; Ciências do Ambiente; Eletricidade; Estatística; Expres-
são Gráfica; Fenômenos de Transporte; Física; Informática; Matemática;
Mecânica dos Sólidos; Metodologia Científica e Tecnológica; e Química
(BRASIL, 2019a). No Quadro 4.1 estão descritas algumas matérias, em
termos bem amplos, e registradas apenas as áreas características, para dar
uma ideia geral das temáticas abordadas em cada uma delas.
Quadro 4.1 – Conteúdos gerais das disciplinas básicas

Cálculo vetorial, Cálculo diferencial e integral,


Geometria analítica, Cálculo numérico, Álge-
Matemática e bra linear, Probabilidade e estatística, Repre-
estatística sentações de forma e dimensão, Convenções e
normalização, Utilização de elementos gráficos
na interpretação e Solução de problemas.
Estrutura e propriedades periódicas dos ele-
Química mentos e compostos químicos, Tópicos bási-
cos da físico-química.
Conceitos básicos de computação, Aplicações
Informática, típicas de computadores digitais, Linguagens
algoritmos e básicas e sistemas operacionais, Técnicas de
programação programação, Desenvolvimento de sistemas de
engenharia, Simulação e técnicas de otimização.
Fenômenos de Mecânica dos fluidos, Transferência de calor
transporte e de massa.

– 92 –
O processo de formação do engenheiro

Medidas físicas, Fundamentos de mecânica


clássica, Teoria cinética, Termodinâmica, Ele-
Física trostática e eletromagnetismo, Física ondula-
tória, Introdução à mecânica quântica e rela-
tivista, Introdução à física atômica e nuclear.
Tensões e deformações nos sólidos, Análise
Ciência dos materiais de peças sujeitas a esforços simples e combi-
nados, Energia de deformação.
Circuitos. Medidas elétricas e magnéticas,
Eletricidade Componentes B, equipamentos elétricos e
eletrônicos.
Fonte: adaptado de Agostinho, Amorelli e Ramalho (2015).

Tendo em vista a diversificação curricular, as instituições de ensino


podem introduzir no Projeto Pedagógico do Curso (PPC) conteúdos e
componentes curriculares que visem ao desenvolvimento de conhecimen-
tos de importância regional, nacional e internacional, bem como definir
ênfases em determinado(s) campo(s) da Engenharia e articular novas
competências e saberes necessários aos novos desafios que se apresentem
(BRASIL, 2019b). Por exemplo: faculdades/universidades alocadas em
Minas Gerais, próximas às localidades de Mariana e Brumadinho, podem
ser estimuladas a desenvolver pesquisas nas áreas de tratamento de águas.
Assim, essa disciplina se torna interessante para cursos de Engenharia
daquela região.
Na realidade, o currículo de um curso vai muito além das atividades
convencionalmente realizadas em sala de aula, implicando em uma ampla
gama de atividades complementares. Assim, para a formação em engenha-
ria também são obrigatórias as atividades práticas em laboratório, tanto
para o desenvolvimento das competências gerais, no caso de Física, Quí-
mica e Informática, quanto das específicas, com o enfoque e a intensidade
compatíveis com a habilitação ou com a ênfase do curso. Atividades que
vinculem em um mesmo momento a teoria, a prática e o contexto de apli-
cação, devem ser estimuladas ao máximo, por serem fundamentais para
o desenvolvimento das competências estabelecidas no perfil do egresso,
incluindo as ações de extensão e a integração empresa-escola. A formação

– 93 –
Introdução à Engenharia da Produção

do engenheiro também deve incluir as práticas reais, entre as quais se


enquadram o estágio curricular obrigatório sob supervisão direta do curso
(BRASIL, 2019a; BRASIL, 2019b).
A formação do engenheiro também é composta por matérias como
Economia, Administração e Ciências do Ambiente. Estes conhecimentos
são importantes porque engenheiros precisam ter ao menos noções gerais
de contabilidade e balanço, macroeconomia, administração financeira,
administração e organização industrial, preservação de recursos naturais,
temas jurídicos, entre outros, para poderem atuar na sociedade. Isso não
significa, é claro, que todos devam conhecer em profundidade cada um
desses assuntos, mas não podem ser alienados em relação a estes aspectos
(AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
Busca-se, então, de modo geral, levar maior sentido, dinamismo e
autonomia ao processo de aprendizagem em Engenharia, de modo a levar
o aluno a comprometer-se com atividades práticas desde o primeiro ano
do curso. Logo, o aprendizado baseado em metodologias ativas, a resolu-
ção de problemas reais em atividades de sala de aula, que exijam conhe-
cimentos interdisciplinares, são alguns dos instrumentos que podem ser
acionados para elevar a melhoria do ensino e para combater a evasão esco-
lar (BRASIL, 2019b).

4.4 Áreas de conhecimento da


Engenharia de Produção
O núcleo de disciplinas específicas para a engenharia é representado
por aprofundamentos e acréscimos de disciplinas do núcleo de conteúdos
profissionalizantes, além de outros temas destinados a caracterizar cada
modalidade de formação (Engenharia Civil, Engenharia de Minas, Enge-
nharia de Alimentos, Engenharia Química, Engenharia de Produção, entre
outros). Esses conteúdos, em particular, são formados por conhecimen-
tos científicos, tecnológicos e instrumentais necessários para a definição
de cada modalidade de engenharia. Assim, cada curso ainda é composto
por suas próprias disciplinas características, que também exigem muita
atenção. Isso tem por objetivo garantir o desenvolvimento das competên-

– 94 –
O processo de formação do engenheiro

cias e habilidades necessárias para uma boa ação profissional. Portanto, é


necessário ressaltar que, já a partir do início dos estudos, é importante que
os alunos procurem conhecer a estrutura curricular do curso em que estão
matriculados. (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015). Esse é
um dos objetivos das disciplinas de Introdução à Engenharia. Cada curso
promove uma disciplina introdutória focada em sua área específica para
apresentar aos alunos a história, o objetivo e as particularidades de cada
curso de engenharia.
Para a Engenharia de Produção, especificamente, de acordo com
Batalha (2008), as mudanças que vêm ocorrendo nas empresas estão
levando a uma nova geração de aplicação dessa engenharia dentro das
empresas. Estas mudanças estão agrupadas em:
2 práticas relacionadas às pessoas – refere-se à liderança com-
partilhada e caracterizada pela descentralização das decisões
para os funcionários e equipes, e maior flexibilidade de trabalho.
2 desenvolvimento de processos, inovação e gestão da mudança –
passa a haver uma clara estratégia de desenvolvimento de produtos,
com um sistema dinâmico para tomada de decisão. Intensifica-se
o uso de projetos de risco. Todos buscam por melhorias contínuas.
2 tecnologia, modelagem e sistemas de informação – sistemas
de informação são totalmente integrados e apoiam o desenvolvi-
mento de produtos e processos.
2 rede de trabalho e integração – estrutura-se uma rede de
conhecimento totalmente integrada para intensa troca de infor-
mações entre parceiros e empresa.
Por esse motivo, a grade curricular foi adaptada em relação às áreas
de conhecimento específico para essa engenharia. De acordo com a Abe-
pro (2020) são consideradas subáreas de conhecimento tipicamente asso-
ciadas à Engenharia de Produção as seguintes:
2 engenharia de operações e processos da produção – área res-
ponsável pelos projetos, operações e melhorias dos sistemas res-
ponsáveis por criar e entregar os produtos e serviços primários
da organização.

– 95 –
Introdução à Engenharia da Produção

2 logística – área que aborda as técnicas apropriadas para o tratamento


das principais questões envolvendo o transporte, a movimentação, o
estoque e o armazenamento de matérias-primas e produtos, visando
a redução de custos, a garantia da disponibilidade do produto, bem
como o atendimento das exigências dos clientes.
2 pesquisa operacional – diz respeito à resolução de problemas
reais que envolvem circunstâncias de tomada de decisão, por
meio de modelos matemáticos geralmente processados compu-
tacionalmente. Utiliza conceitos e métodos de outras disciplinas
científicas na concepção, no planejamento ou na operação de
sistemas para atingir seus objetivos. Procura, assim, introdu-
zir elementos de objetividade e racionalidade nos processos de
tomada de decisão, sem descuidar dos elementos subjetivos e de
enquadramento organizacional que caracterizam os problemas.
2 Engenharia da Qualidade – área da engenharia de produção
responsável pelo planejamento, projeto e controle de sistemas de
gestão da qualidade que considere o gerenciamento por proces-
sos, a abordagem factual para a tomada de decisão e a utilização
de ferramentas da qualidade.
2 Engenharia do Produto – área que abrange o conjunto de ferra-
mentas e processos de projeto, planejamento, organização, deci-
são e execução envolvidos nas atividades estratégicas e opera-
cionais de desenvolvimento de novos produtos. Esta área aborda
desde a fase de geração de ideias até o lançamento do produto e
sua retirada do mercado, com a participação dos diversos setores
funcionais da empresa.
2 Engenharia Organizacional – área que diz respeito ao conjunto
de conhecimentos relacionados com a gestão das organizações,
englobando os tópicos de planejamento estratégico e operacional,
as estratégias de produção, a gestão empreendedora, a propriedade
intelectual, a avaliação de desempenho organizacional, os sistemas
de informação e sua gestão, os arranjos produtivos, entre outros.
2 Engenharia Econômica – área responsável pela formulação,
estimação e avaliação de resultados relacionados a custos, de

– 96 –
O processo de formação do engenheiro

modo a avaliar alternativas para a tomada de decisão, consis-


tindo em um conjunto de técnicas matemáticas que simplificam
a comparação econômica.
2 Engenharia do Trabalho – área da Engenharia de Produção
responsável pelo projeto, aperfeiçoamento, implantação e ava-
liação de tarefas, sistemas de trabalho, produtos, ambientes e
sistemas buscando torná-los compatíveis com as necessidades,
habilidades e capacidades das pessoas para a melhor qualidade,
produtividade e preservação da saúde e da integridade física dos
trabalhadores. Seus conhecimentos são usados na compreensão
das interações entre os humanos e outros elementos de um sis-
tema. Pode-se também afirmar que esta área trata da tecnologia
da interface máquina – ambiente – homem – organização.
2 Engenharia da Sustentabilidade – área responsável pela
utilização eficiente dos recursos naturais envolvidos nos mais
diversos sistemas produtivos, abordando a destinação e tratamento
dos resíduos e efluentes destes sistemas, bem como a implantação
de sistema de gestão ambiental e responsabilidade social.
2 Educação em Engenharia de Produção – área referente à inser-
ção da educação superior em engenharia (graduação, pós-gra-
duação, pesquisa e extensão) e suas áreas afins, em uma aborda-
gem organizada que englobe a gestão dos sistemas educacionais
em todos os seus aspectos: formação de pessoal (corpo docente e
técnico-administrativo); organização didático-pedagógica, espe-
cialmente o projeto pedagógico de curso e as metodologias e
meios de ensino/aprendizagem. Pode também ser chamada de
Engenharia Pedagógica, pelas características encerradas nesta
especialidade, que busca consolidar estas questões, assim como
apresentar resultados concretos das atividades desenvolvidas,
alternativas viáveis de organização de cursos para o aprimora-
mento da atividade docente, campo em que o professor já se
envolve intensamente sem encontrar estrutura adequada para o
aprofundamento de suas reflexões e investigações.

– 97 –
Introdução à Engenharia da Produção

As áreas relacionadas à Engenharia de Produção têm sido conti-


nuamente reformuladas. Em decorrência dessa renovação, os currículos
dos cursos de Engenharia de Produção se flexibilizaram. Não obstante
a inclusão das disciplinas de todas as áreas da Engenharia de Produção,
essas disciplinas diversificaram-se bastante. Mesmo as disciplinas cen-
trais, ligadas às áreas de Engenharia de Produção, possuem títulos dife-
rentes, ainda que conteúdos semelhantes (BATALHA, 2008). O Quadro
4.2 mostra essa diversificação de disciplinas do curso em diferentes uni-
versidades pelo país:
Quadro 4.2 – Flexibilização e diversificação das disciplinas de cursos de graduação em
Engenharia de Produção no Brasil

Exemplos de disciplinas de graduação Curso de graduação


2 Métodos Quantitativos I e II
2 Gestão Estratégica de Operações
Engenharia de Pro-
2 Logística da Cadeia de Suprimentos
dução da Pontifícia
2 Engenharia de Organizações Universidade Católica
(PUC/PR) – Campus
2 Sistemas Industriais
Curitiba (PUCPR,
2 Gestão da Tecnologia, Inovação e Conhe- 2019)
cimento
2 Engenharia de Segurança

2 Modelagem de Sistemas de Produção


2 Implementação Matemático-computacio-
nal de Modelos de Pesquisa Operacional
Engenharia de Produ-
2 Logística
ção da Universidade
2 Organização do Trabalho Federal de Minas
Gerais (UFMG, 2020).
2 Sistemas de Desenvolvimento de Produtos
2 Tecnologia e Sociedade
2 Ergonomia

– 98 –
O processo de formação do engenheiro

Exemplos de disciplinas de graduação Curso de graduação


2 Planejamento e Gestão de Processos Pro-
dutivos
2 Gestão Estratégica e Planejamento
Empresarial Engenharia de Pro-
dução da Universi-
2 Logística Empresarial
dade Federal do Rio
2 Gestão de Sistemas de Produção Grande do Norte
(UFRN, 2020).
2 Tecnologias Ambientais
2 Higiene e Segurança do Trabalho
2 Ergonomia
2 Processos de Fabricação
2 Gerência de Produção
Engenharia de Produ-
2 Estratégia e Organização ção da Universidade
2 Transporte e Logística Federal do Amazonas
(Ufam) (Ufam, 2018).
2 Ciências do Ambiente
2 Ergonomia e Segurança do Trabalho
Fonte: elaborado pelo autor.

A consolidação da Engenharia de Produção no Brasil é marcada pelo


significativo aumento de seus cursos de graduação. Atualmente, no país,
existem 1.156 cursos de Engenharia de Produção apresentados no Cadas-
tro de Cursos de Graduação em Engenharia de Produção do MEC-Inep
(BRASIL, 2020).

4.5 Curso de Engenharia de Produção da Fael


Devido às características da formação em Engenharia de Produção,
o profissional dessa área pode ser inserido em diferentes setores do mer-
cado, atendendo a diferentes demandas, com a possibilidade de atuar em
diferentes contextos profissionais, disponível para uma gama considerá-

– 99 –
Introdução à Engenharia da Produção

vel de ofertas de trabalho. Isso irá possibilitar a este profissional alcançar


quase todas as áreas da indústria, dos empreendimentos e do comércio,
em que deverão integrar os avanços da tecnologia e as relações humanas,
meio ambiente e sociedade. Devido à amplitude e multipluralidade deste
curso, a Faculdade Educacional da Lapa (Fael) buscou disponibilizá-lo
para a comunidade. Assim, o Curso Superior em Engenharia de Produção,
na modalidade a distância, da Fael, foi autorizado em pela Portaria n. 344,
de 12 de julho de 2019, do Ministério da Educação.
Ao longo do curso de graduação EAD em Engenharia de Produção
por esta universidade, o aluno encontrará atividades voltadas à formação
de profissionais qualificados para atender a crescente demanda, aplicando
competentemente as técnicas adequadas de observação, compreensão,
registro e análise das necessidades dos usuários e de seus contextos sociais,
culturais, legais, ambientais e econômicos. Além disso, aprenderá a utili-
zar conceitos de gestão para planejar, supervisionar, elaborar e coordenar
projetos e serviços de Engenharia; a atuar, de forma colaborativa, ética e
profissional em equipes multidisciplinares, tanto localmente quanto em
rede; a conhecer e aplicar com ética a legislação e os atos normativos no
exercício da profissão, entre outras competências e habilidades. Durante
todo o curso de graduação a distância em Engenharia de Produção, o aca-
dêmico Fael poderá contar com o apoio de workshops, webtutores para
cada disciplina, assistentes administrativos/acadêmicos em cada polo,
biblioteca virtual e física e material didático digital e impresso (FAEL,
2020). A matriz curricular do curso é apresentada no Quadro 4.3.
Quadro 4.3 – Matriz curricular do curso de Engenharia de Produção da Fael

Disciplina Carga Horária


Língua Portuguesa e as Novas Tecnologias da Infor-
100
mação e da Comunicação
Cálculo Diferencial e Integral I 100
Física I 100
Geometria Analítica 100
Física II 100
Introdução à Engenharia de Produção 100

– 100 –
O processo de formação do engenheiro

Disciplina Carga Horária


Cálculo Diferencial e Integral II 100
Álgebra Linear 100
Química Geral 100
Cálculo Diferencial e Integral III 100
Desenho Técnico e CAD 100
Análise de Projetos de Investimentos 100
Ciência e Tecnologia dos Materiais 100
Gestão da Produção 100
Engenharia Econômica 100
Logística Empresarial 100
Estatística e Probabilidade 100
Resistência dos Materiais 100
Informática Aplicada 100
Orçamento e Gestão de Custos 100
Elementos de Máquinas 100
Métodos Numéricos 100
Elementos de Eletrotécnica e Automação 100
Pesquisa Operacional 100
Processos de Fabricação I – Processos de Usinagem,
100
Solda e Acabamentos Superficiais
Termodinâmica Aplicada 100
Administração de Pessoas 100
Mecânica dos Fluídos 100
Processos de Fabricação II – Processos de Conforma-
100
ção e Fundição
Planejamento, Programação da Produção 100
Metrologia e Gestão da Qualidade e da Produtividade 100
Gestão da Segurança, Saúde e Meio Ambiente 100

– 101 –
Introdução à Engenharia da Produção

Disciplina Carga Horária


Manutenção e Confiabilidade 100
Estágio Supervisionado I 100
Diversidade, Políticas de Inclusão e Libras 100
Estágio Supervisionado II 100
Instalações Industriais e Engenharia de Produto 100
TCC I 100
TCC II 100
Gestão de Projetos 100
Atividades Complementares 100
Carga Horária Total 4100
Fonte: adaptado de FAEL (2020).

O curso de Engenharia de Produção EAD da Fael atende aos requi-


sitos da legislação vigente em seu Projeto Pedagógico do Curso (PPC),
apresentando conteúdos e componentes curriculares comuns e específicos
condizentes com o cenário atual.

Representatividade: o espaço das


mulheres na engenharia

Embora na década de 1980 tenha ocorrido um movimento de


feminização das profissões, a Engenharia aparece ainda como
restritiva ao ingresso das mulheres na universidade. Isso é com-
provado pelos dados disponibilizados pelo Confea. Atualmente,
no Brasil, existem 676.168 profissionais vinculados ao Conselho
como Engenheiros, sendo 564.566 do sexo masculino e 111.602
do sexo feminino. Isso reafirma o fato de a Engenharia ainda ser
um espaço profissional majoritariamente masculino no Brasil.
Na Figura 4.2 temos os dados de profissionais para o ano de
2017: o percentual de participação das mulheres na engenheira
é de 16%, contrapondo a 84% da participação masculina.

– 102 –
O processo de formação do engenheiro

Figura 4.2 – Engenheiros cadastrados no Conselho de Engenha-


ria em 2017, classificados de acordo com o sexo

16,5%

83,5%

Homens Mulheres

Fonte: elaborado pelo autor.

Quando se compara as regiões do Brasil, a região Sudeste fica


à frente no quantitativo de engenheiros (419.298), seguida da
região Sul (100.415), Nordeste (87.708), Centro-Oeste (41.133) e,
por último, a região Norte, com a menor quantidade de enge-
nheiros (27.614). Embora tenha a menor quantidade de engenhei-
ros, é na região Norte que se encontra a maior representatividade
feminina na Engenharia, conforme apresentado na Figura 4.3.

Figura 4.3 – Distribuição percentual dos profissionais de enge-


nharia nas regiões brasileiras, por gênero

84,7% 82,6%
82,1% 80,4%
77,6%

22,4%
17,9% 19,6% 17,4%
15,3%

Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul

Homens Mulheres

Fonte: elaborado pelo autor.

– 103 –
Introdução à Engenharia da Produção

A ideia de que existam categorias femininas e categorias mascu-


linas na engenharia também é apontada por alguns pesquisado-
res. A Figura 4.4 mostra o percentual de mulheres nas principais
modalidades de engenharia.

Figura 4.4 – Comparativo de homens e mulheres nas modalida-


des da engenharia

Homens Mulheres

92% 91%

76% 78% 79%

64%
58%

42%
36%
24% 22% 21%

8% 9%

Agrimensura Civil Elétrica Geologia e Mecânica e Química Produção


Minas Metalurgia

Fonte: elaborado pelo autor.

A Engenharia Química, por exemplo, é muitas vezes a escolha


de mulheres, pois é a modalidade com maior representatividade
do sexo feminino, por ser realizada em indústrias, sem exposi-
ção dos profissionais às intempéries dos canteiros de obras e
atividades a céu aberto. A Engenharia de Produção aparece, no
gráfico, como a segunda modalidade de engenharia que mais
possui profissionais mulheres.

É muito importante lembrar que muitas mulheres alavancaram


a engenharia dentro e fora do país. Por exemplo: Mary Winston
– matemática e a primeira mulher a se formar em Engenharia
Aeroespacial do National Advisory Committee for Aeronautics
(NACA), atual NASA. Para a época, ela conseguiu um gran-
dioso feito, ocupando um espaço que só homens conseguiam
conquistar. Ela precisou que a justiça aprovasse sua matrícula
na universidade. Outro exemplo é Enedina Alves Marques, nas-
cida em  Curitiba, no  Paraná, que se formou em  Engenharia

– 104 –
O processo de formação do engenheiro

Civil em 1945, pela UFPR. Ela entrou para a história do Brasil


sendo a primeira mulher a se formar em Engenharia em seu
estado, e a primeira engenheira negra do país.

Com base no exposto, é necessário refletir que, apesar de as


mulheres já terem conquistado muitos espaços e muitos direitos
que antes lhes eram negados, ainda falta muito para se chegar a
um cenário ideal de igualdade de gênero.

Fonte: Oliveira (2017).

Síntese
Vimos neste capítulo aspectos relacionados à formação do engenheiro
e a evolução desta através do tempo – de ensinos altamente técnicos, pas-
sando por formações militares, até chegar ao cenário atual: do engenheiro
que, além de possuir conhecimentos técnicos, também consegue se relacio-
nar bem com pessoas (tanto funcionários, quanto superiores) e que também
está preocupado com o meio ambiente. Vimos também que a matriz curri-
cular dos cursos de engenharia é composta por requisitos básicos – comuns
a todas as engenharias – e requisitos específicos. Os requisitos específicos
dependem da modalidade de engenharia em estudo. São exemplos de disci-
plinas comuns: Cálculo, Física, Geometria Analítica e Fenômenos de Trans-
porte. Para a Engenharia de Produção, são exemplos de requisitos espe-
cíficos: Logística, Gestão de Processos, Segurança do Trabalho, Pesquisa
Operacional, entre outros. Por último, vimos que o curso de Engenharia de
Produção EAD da Fael atende aos requisitos necessários para a criação de
um curso de engenharia de acordo com a legislação vigente.

Atividades
1. Qual o diferencial da Resolução n. 2, de 24 de abril de 2019 para
as matrizes curriculares dos cursos de engenharia no Brasil?
2. Quais são as subáreas de conhecimento tipicamente associadas à
Engenharia de Produção?

– 105 –
Introdução à Engenharia da Produção

3. As instituições de ensino podem introduzir no Projeto Pedagó-


gico do Curso (PPC) conteúdos e componentes curriculares que
visem ao desenvolvimento de conhecimentos de importância
regional, nacional e internacional. Por que elas têm essa liber-
dade? Cite um exemplo de como funcionaria esta inclusão.
4. Como está a participação da mulher na engenharia no Brasil?

– 106 –
5
A engenharia no Brasil

A engenharia encontra-se em um novo momento. Ser enge-


nheiro no Brasil do século XXI tem quase um outro significado. Nos
últimos anos enfrentamos muitas atribulações (muitas revoluções
e reviravoltas). De acordo com Padilha (2015) , destacam-se:
2 o crescimento do número de faculdades/universidades
de Engenharia no país, principalmente com o advento
da EAD, o que aumenta a concorrência por oportunida-
des profissionais;
2 o marketing passou a ser encarado como uma ferra-
menta essencial para obter resultados no mercado com-
petitivo da engenharia;
Introdução à Engenharia da Produção

2 desde a segunda metade da década de 1980, os softwares de dese-


nho e de projeto começaram a tomar conta dos escritórios, alte-
rando significativamente o modus operandi dos profissionais;
2 a internet se agigantou, tornando-se uma das principais platafor-
mas para o trabalho, para a comunicação e para o desenvolvi-
mento de capacitações profissionais.
Nesse novo cenário, os profissionais de engenharia precisam con-
templar aspectos que vão muito além das técnicas – científicas ou filo-
sóficas. Agora é preciso entender e interagir com as questões sociais,
econômicas e mercadológicas, e isso definitivamente acaba dificultando
o cenário da profissão. Exercer dignamente a engenharia e construir uma
carreira bem-sucedida não é apenas uma questão de competência técnica
e domínio das tecnologias, por isso é tão importante compreendermos o
mercado dessa profissão.

5.1 Carreira e atuação do profissional engenheiro


Não se deve confundir a carreira com a atuação profissional. São dois
conceitos diferentes. A maioria das profissões permite um grande número
de possibilidades de atuação – a formação acadêmica pode ser a mesma,
mas a atuação e, por conseguinte, a carreira certamente não será (NITZ,
2015). Entender essa diferença ajuda a planejar e administrar as duas coi-
sas com mais eficiência.
A atuação profissinal se inicia depois da graduação (geralmente
depois do registro no Conselho Profissional) e é regida e controlada por
leis, normas técnicas, e determinações da categoria profissional e do
código de ética. É um conceito permanete e atemporal que diz respeito a
responsabilidades e competências. A formatura na faculdade e o ingresso
no mercado de trabalho marca o início dessa etapa. Trata-se de um período
rico em desafios e oportunidades para o profissional (PADILHA, 2015).
A carreira, no entanto, se inicia assim que a pessoa entra no universo
da profissão, ou seja, quando inicia o curso de graduação. Os anos que
se seguem (período de duração do curso) são importantíssimos, pois as
decisões e escolhas do indivíduo durante esse período produzirão conse-

– 108 –
A engenharia no Brasil

quências por muitos anos. É um conceito mais abrangente que depende do


tempo e das circunstâncias (as fases da carreira), e, em cada em cada uma
dessas fases, os desafios vão depender das conquistas nas fases anteriores
(PADILHA, 2015).
Assim, a compreensão do conceito de carreira deve servir para aliviar
um pouco do peso da escolha dos jovens. Como a carreira é construída ao
longo da vida acadêmica e de toda a vida profissional, ela pode ser modi-
ficada e reorientada de acordo com as tendências de mercado e preferên-
cias pessoais. Por exemplo: são inúmeras as possibilidades de carreira que
podem ser construídas na engenharia (NITZ, 2015).
Falando sobre a escolha da profissão, uma pergunta muito frequente
entre os jovens é “Como está o mercado de trabalho?”. Há um debate em
curso, no Brasil, sobre a possibilidade ou não de haver um cenário de falta
de mão de obra qualificada para sustentar o crescimento econômico. Este
é um debate que permeia a academia e a sociedade há, pelo menos, uma
década, e que serviu de justificativa para políticas educacionais como o
Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universi-
dades Federais (ReUni), o Programa Universidade para Todos (ProUni),
a expansão do Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Nacional de
Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) nos últimos anos.
Como os engenheiros têm papel decisivo para a elevação da produ-
tividade, tanto via inovação quanto por meio da adoção de melhores prá-
ticas, investiga-se se pode ocorrer a falta desses profissionais no futuro
(ARAÚJO, 2016). Entretanto, a grande maioria dos pesquisadores con-
corda que as políticacs educacionais implantadas são suficientes para suprir
a necessidade futura do mercado, embora alguns pesquisadores ainda se
mostrem preocupados devido à alta evasão dos cursos de engenharia.
No entanto, mesmo que o cenário não apresente uma procura por pro-
fissionais maior que a demanda, é preciso sempre buscar uma formação
com a qual se tenha afinidade, estudar assuntos que despertem interesse e
paixão. Se for assim, um estudante terá muito mais facilidade para apren-
der e se atualizar constantemente, construindo uma carreira brilhante, e
isso é fundamental para a formação em engenharia, em que assuntos como
Cálculo e Física acabam assustando alguns dos estudantes que buscam

– 109 –
Introdução à Engenharia da Produção

essa formação apenas por status, e não por afinidade com a profissão – e
isso é, muitas vezes, a principal causa de evasão desse tipo de curso.
Superada a etapa de escolha da formação, outro desafio se estabelece,
que é o da construção da carreira. É importante não desperdiçar oportunida-
des de aperfeiçoar e desenvolver competências importantes para o mundo
do trabalho. A capacidade de se comunicar eficientemente, a habilidade de
trabalhar em equipe, a atitude proativa e o espírito empreendedor, sempre
atento a oportunidades, são características muito importantes para qual-
quer profissional de sucesso e que nem sempre são desenvolvidas ao longo
da graduação, muito embora este cenário esteja mudando, conforme visto
no Capítulo 4. O futuro engenheiro deve não só evoluir tecnicamente,
com o aprendizado da profissão em si, como também deve amadurecer e
se preparar para se relacionar, colaborar e competir com outras pessoas
(NITZ, 2015).

5.2 O cenário industrial brasileiro


A Relação Anual de Informações Sociais (Rais) é um instrumento de
coleta de dados de âmbito nacional que constitui uma das principais fontes
de informações sobre o mercado de trabalho formal brasileiro e permite
o acompanhamento e a caracterização do emprego formal. De preenchi-
mento obrigatório para todos os estabelecimentos no país, reúne as infor-
mações necessárias para monitorar os movimentos no mercado de traba-
lho e controlar os registros relativos ao Fundo de Garantia do Tempo de
Serviço (FGTS), as contribuições e benefícios relacionados à previdência
social e aos pagamentos de abono salarial, entre outros (BRASIL, 2014).
A base de dados agregada permite o acesso ao número de estabele-
cimentos e de empregados, os quais podem ser classificados de acordo
com: as características do tipo de trabalhador – rendimento, faixa etária,
nível de escolaridade, entre outras; as características regionais – estados,
regiões, mesorregiões, microrregiões e municípios; por setor de atividades
– segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE);
por ocupação – de acordo com o Código Brasileiro de Ocupações (CBO);
entre outras características – tipo de estabelecimento, tipo de vínculo
empregatício, entre outros.

– 110 –
A engenharia no Brasil

Segundo o MTE (Brasil, 2014), a principal vantagem dos dados está


na abrangência das informações, que contempla a possibilidade de inúme-
ros cruzamentos de variáveis, tanto em nível regional quanto ocupacional,
setorial e temporal. No entanto, há alguns fatores limitantes:
a) os registros são preenchidos pelos próprios estabelecimentos, o
que pode ocasionar omissões e/ou erros;
b) as declarações são agregadas pela empresa matriz; logo, os dados
regionais (das filiais) referem-se à unidade contratante, e não
necessariamente à região onde o trabalhador efetivamente atua.
Por esse motivo, esses dados devem ser utilizados com cautela.
Assim, analisando os dados da Rais do ano de 2018, temos o seguinte
cenário: o Brasil vem apresentando um cenário positivo para a geração de
emprego. Por exemplo: houve crescimento do estoque de empregos for-
mais, que alcançou 46,6 milhões de vínculos ativos em 2018. Em relação
aos dados de 2017, o estoque de empregos formais registrou expansão de
349,5 mil vínculos empregatícios (uma alta de 0,8%).
Os setores que mais contribuíram para a expansão econômica foram
os de Serviço (com um superávit de 456 mil empregos), seguido pelo da
Construção Civil (com saldo positivo de 22,8 mil empregos), Serviços
Industriais de Utilidade Pública (com saldo positivo de 12,6 mil empre-
gos) e Extrativa Mineral (com saldo positivo de 292 empregos). Por sua
vez, a Administração Pública registrou maior queda no estoque de empre-
gos (-114,5 mil), seguida pelo Comércio (-11 mil), Agropecuária (-9,6
mil) e Indústria de Transformação (-7 mil) (BRASIL, 2019a). O cenário
é, de certa forma, favorável para os profissionais de engenharia, uma vez
que os setores de Construção Civil e de Serviços Industriais empregam
este tipo de profissional. Na Tabela 5.1 são mostrados os dados de vínculo
empregatício por setor econômico, segundo a Rais 2018, fazendo uma
comparação entre os dados de 2017 e 2018, o que mostra o crescimento e
o encolhimento do número de empregos nos diversos setores.
Tabela 5.1 – Brasil: vínculos empregatícios segundo setor econômico

Setor 2017 2018


Extrativa Mineral 212 213

– 111 –
Introdução à Engenharia da Produção

Setor 2017 2018


Indústria de Transformação 7.105 7.098
Serviços Industriais de Utilidade Pública 425 438
Construção Civil 1.839 1.862
Comércio 9.231 9.220
Serviços 16.773 17.229
Administração Pública 9.195 9.081
Agropecuária, extração vegetal, caça e pesca 1.501 1.491
Fonte: adaptado de Brasil (2019a).

Outro dado fornecido pela Rais 2018 é a identificação de 211.110


engenheiros no país, divididos nas mais diversas áreas, sendo elas: enge-
nheiros agrimensores e engenheiros cartógrafos, engenheiros agrossil-
vipecuários, engenheiros ambientais e afins, engenheiros civis e afins,
engenheiros de alimentos e afins, engenheiros de minas, engenheiros
eletroeletrônicos e afins, engenheiros em computação, engenheiros indus-
triais, de produção e segurança, engenheiros mecânicos, engenheiros
mecatrônicos, engenheiros metalurgistas e de materiais, engenheiros quí-
micos. O número de engenheiros corresponde a aproximadamente 0,5%
do total de trabalhadores formais no Brasil (BRASIL, 2019a).
Vale ressaltar que o número total de engenheiros formados no Bra-
sil e trabalhando no mercado formal é superior a esse valor, na medida
em que, independentemente de sua formação, esses trabalhadores podem
atuar em outras ocupações, como gerentes, empresários, entre outras.
Somente no Brasil, segundo o Confea (Conselho Federal de Engenharia e
Agronomia), em 2018 foram registrados 779.488 mil novos profissionais.
Dos 1.381.332 profissionais registrados no Conselho Regional de Enge-
nharia e Agronomia (Crea), 99,9% possuem diplomas obtidos no Brasil.
Porém, considerando apenas a abordagem de profissionais contratados
como engenheiros, territorialmente, as maiores concentrações estão nos esta-
dos de São Paulo (34,63% do total de engenheiros), Rio de Janeiro (12,39%),
Minas Gerais (10,24%) e Paraná (6,93%), conforme Tabela 5.2 (BRASIL,
2019a). Os grandes centros urbanos são as regiões que mais atraem esses traba-

– 112 –
A engenharia no Brasil

lhadores. Tal fato deve-se, entre outros motivos, à concentração das atividades
produtivas nesses centros, em especial nos setores de serviços, como constru-
ção, serviços prestados às empresas e serviços industriais de utilidade pública.
Tabela 5.2 – Engenheiros por estados brasileiros

Estado Total Porcentagem


São Paulo 73102 34,62745
Rio de Janeiro 26148 12,38596
Minas Gerais 21622 10,24205
Paraná 14621 6,925773
Rio Grande do Sul 10276 4,867605
Santa Catarina 9207 4,361233
Bahia 7557 3,57965
Pernambuco 6211 2,942068
Distrito Federal 6061 2,871015
Goiás 4804 2,275591
Espírito Santo 4217 1,997537
Pará 4074 1,9298
Ceará 3635 1,721851
Amazonas 2547 1,20648
Mato Grosso 2445 1,158164
Mato Grosso do Sul 2047 0,969637
Maranhão 1964 0,930321
Rio Grande do Norte 1923 0,9109
Paraíba 1871 0,886268
Sergipe 1305 0,618161
Alagoas 1180 0,55895
Rondônia 1074 0,50874
Piauí 1068 0,505897
Tocantins 936 0,443371

– 113 –
Introdução à Engenharia da Produção

Estado Total Porcentagem


Acre 712 0,337265
Amapá 267 0,126474
Roraima 236 0,11179
Fonte: adaptado de Brasil (2019a).

A concentração regional de engenheiros está diretamente relacionada


à estrutura produtiva especializada de algumas microrregiões, o que provê
indícios do comportamento da demanda futura por engenheiros. Esse é
o caso, por exemplo, de Parauapebas, no Pará. A região apresenta uma
proporção de engenheiros de minas quase setenta vezes acima da média
nacional, o que pode ser explicado pela localização da Mina de Ferro de
Carajás, de propriedade da Vale, no município de Parauapebas.
Outro dado relevante é a concentração de engenheiros contratados por
ramo de atividade. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempre-
gados (Caged) de 2018, do total de engenheiros empregados, quase metade
está concentrada em cinco ramos de atividade, sendo que dois deles estão
em áreas não diretamente relacionadas à produção. Um é o ramo de servi-
ços prestados principalmente às empresas, ou seja empresas de consultoria,
projetos ou de terceirização de serviços. O outro é a administração pública,
defesa e seguridade social, ou seja órgãos do governo (BRASIL, 2019a).
O setor que mais emprega engenheiros é o da construção, e deste, a
grande concentração de empregados está em empresas menores, de até
49 empregados. Outros 26,5% dos engenheiros empregados estão em
outros 9 ramos de atividade, com predomínio das empresas de 250 ou
mais empregados. Finalmente, os 24,3% restantes estão espalhados por
45 ramos de atividades diferentes, com forte predomínio das empresas
de 250 a 499 empregados e, principalmente, empresas com 500 ou mais
empregados (CONSULTORIA ANALÍTICA, 2020).

5.3 Mercado de trabalho dos engenheiros


Muitas empresas contratam profissionais de engenharia como
gerentes, supervisores, analistas. Este tipo de contratação gera um

– 114 –
A engenharia no Brasil

custo menor para as empresas, pois se estas optarem pela contratação


de engenheiro, o salário deste gira em torno de 5.000 e 8.000 mil reais/
mês. Já um gerente ou analista realizaria as funções deste profissional,
atendendo às exigências da empresa, recebendo a metade do salário,
ficando muitos recém-formados deslocados. E o que esses engenheiros
têm em comum é que a maioria é bilíngue, possui pós-graduação em
Gestão de Negócio e, no mínimo, 5 anos de experiência no mercado de
trabalho (FERNANDES et al., 2014). Geralmente os engenheiros são
contratados como tal quando existe a necessidade de assinatura de uma
responsabilidade técnica (RT), a qual apenas este tipo de profissinal
pode emitir.
O mercado de trabalho é fortemente dependente de um pequeno
número de empresas que emprega uma grande quantidade de engenhei-
ros. As empresas que empregam até cinco engenheiros representam pouco
mais de 60% do mercado. As grandes empregadoras, que empregam mais
de 100 engenheiros são apenas 2,8% do total de empresas (CONSULTO-
RIA ANALÍTICA, 2020).
Do total de empresas, apenas 6% empregam 50 ou mais empre-
gados, mas elas acabam sendo responsáveis por 51,8% dos postos de
trabalho de engenheiros dentro do universo estudado. As empresas que
empregam os próximos 25,5% dos engenheiros são apenas 15,8% do
total das empresas estudadas. Assim, 79,4% das empresas devem ser
responsáveis por empregar os 22,7% dos engenheiros que restam (CON-
SULTORIA ANALÍTICA, 2020).
Em resumo, se todas as empresas que empregam até cinco engenhei-
ros, empregassem mais um profissional, teríamos, em tese, um volume
maior de geração de empregos do que se as grandes empregadoras aumen-
tassem o seu quadro de engenheiros em mais um profissional. Isso gera a
necessidade de se conhecer a fundo as demandas dessas empresas meno-
res e qual é o perfil de engenheiro de que elas necessitam. São também
essas pequenas empresas que não têm programas internos de treinamento
e desenvolvimento de engenheiros recém-formados, dependendo mais
da qualidade do engenheiro que sai da escola (CONSULTORIA ANALÍ-
TICA, 2020).

– 115 –
Introdução à Engenharia da Produção

Tabela 5.3 – Relação entre empresas empregadoras e engenheiros empregados

% dos
% das empresas
Quantidade de engenheiros engenheiros
empregadoras
empregados
Até 5 engenheiros 61,80 12,48
5 a 10 engenheiros 17,60 10,24
11 a 50 engenheiros 15,80 25,47
51 a 600 engenheiros 6,00 51,81
Fonte: Consultora Analítica (2020).

A Tabela 5.3 mostra claramente que, em relação à quantidade de


empresas contratantes, existe um maior número de empresas do tipo que
contratam até 5 engenheiros, independentemente do tipo de engenheiro.
Essa faixa concentra mais de 60% das empresas contratantes, mas, em
volume de contratados, acabam perdendo para as grandes empresas, na
maioria dos casos. Quando se trata de número de engenheiros contrata-
dos, e não de empresas contratantes, nota-se claramente como um número
menor de grandes empresas (as que contratam 51 engenheiros ou mais)
acabam sendo responsáveis pelo maior número de contratações, indepen-
dentemente do tipo de engenheiro.
Em todos os portes de empresa, é dominante a presença de engenhei-
ros eletricistas e eletrônicos, engenheiros civis e afins e de engenheiros
mecânicos, os ramos mais tradicionais da engenharia. É importante notar
que em quarto lugar vêm os pesquisadores de engenharia e tecnologia,
bem distribuídos por todos os portes de empresa. A previsão é que seja
crescente a participação desse tipo de engenheiro no total de engenheiros
nos próximos anos. Em quinto lugar, mas com uma distribuição menos
homogênea do que os pesquisadores, estão os engenheiros agrossilvipe-
cuários, indicando o peso do setor agropecuário na economia brasileira.
Num sexto lugar, próximo dos agrossilvipecuários, vêm os engenheiros
de produção, qualidade e segurança, com concentração acima da média
entre as empresas que contratam de 1 a 5 engenheiros, mostrando a preo-
cupação crescente da micro e pequena empresa com qualidade e processos
(CONSULTORIA ANALÍTICA, 2020).

– 116 –
A engenharia no Brasil

O engenheiro também pode atuar como profissional autônomo. Nesse


caso, ele tem maior independência de decisão sobre sua profissão, estabe-
lecendo seus honorários e condições de trabalho, atuando geralmente em
escritório próprio. Assim, o engenheiro acaba sendo contratado por uma
empresa, atuando diretamente para ela, prestando serviços técnicos per-
manentes ou trabalhando por empreitada, desenvolvendo serviços especí-
ficos e predeterminados em contrato. Entretanto, o trabalho com vínculo
empregatício – é bom não perdermos de vista – representa grande parte
dos profissionais atuantes na área. Além disso, o engenheiro também pode
atuar como empresário, sendo responsável por alguma empresa e contra-
tando outros profissionais, com vínculo trabalhista, para o funcionamento
desta (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Durante a realização de seus trabalhos, os engenheiros costumam
desempenhar diversas tarefas, indo desde a pesquisa básica – para a qual
aplicam mais intensamente princípios técnicos/científicos, e não rara-
mente poucos conceitos de administração, finanças – até a administração
–, na qual, a princípio, aplicam pouco os fundamentos técnicos/científicos
e bastante os conceitos de administração, gerência e finanças. Bazzo e
Pereira (2006), apresentam o seguinte exemplo:
Um engenheiro eletrônico pode trabalhar, por exemplo, com
manutenção de componentes eletrônicos, no projeto de sistemas
para transmissão de dados ou na fiscalização de obras de instala-
ções elétricas industriais. Um agrônomo pode trabalhar, por exem-
plo, com pesquisas em irrigação e drenagem para fins agrícolas ou
com o assessoramento na área de conservação de produtos animais
e vegetais (BAZZO; PEREIRA, 2006).

5.3.1 Mercado de Trabalho do


Engenheiro de Produção
O engenheiro de produção é um profissional fundamental para indús-
trias e empresas de quase todos os setores. Além do conhecimento em admi-
nistração, economia e engenharia, a fim de racionalizar o trabalho, busca
aperfeiçoar técnicas de produção e ordenar as atividades financeiras, logís-
ticas e comerciais de uma organização. Por consequência, define a melhor
forma de integrar mão de obra, equipamentos e matéria-prima no avanço da

– 117 –
Introdução à Engenharia da Produção

qualidade e da produtividade. Por atuar como a conexão entre o setor técnico


e o administrativo, o campo de atuação deste profissional ultrapassa os limi-
tes da indústria, chegando inclusive a áreas administrativas. Esse profissio-
nal é requisitado, também, por empresas prestadoras de serviços para definir
funções e planejar escalas de trabalho (TOMASZEWSKI, 2013). Além do
mais, um engenheiro desempenha as suas funções nos mais diversos locais:
empresas privadas, órgãos públicos, estabelecimentos financeiros, institutos
de pesquisa e desenvolvimento, entre outros.
É importante observarmos que é mais comum que os profissionais
recém-formados trabalhem nas áreas de operação, manutenção ou cons-
trução. Conforme forem adquirindo experiência, considerando ainda seus
campos de atuação e preferências pessoais, costumam passar a atuar nas
áreas de administração ou de desenvolvimento. De qualquer forma, há
campo de trabalho suficientemente importante e promissor em qualquer
área, tanto para aquele profissional iniciante quanto para o engenheiro
mais experiente ou mais ambicioso, desde que ele tenha formação consis-
tente e boa motivação para perseguir com êxito suas metas.
Considerando-se a atual situação do mercado de trabalho da enge-
nharia no Brasil, a Engenharia de Produção é, sem sombra de dúvida,
a que desfruta melhor situação. Todos os engenheiros de produção vêm
conseguindo boas colocações no mercado, principalmente em razão de
seu perfil, que coincide com o que o mercado procura nos dias de hoje:
profissionais com uma formação científica sólida, complementada com
uma visão ampla suficiente para abordar os problemas de maneira geral
(NETTO; TAVARES, 2006).
O mercado de trabalho para o engenheiro de produção tem se mos-
trado extremamente diversificado. Além dos mercados tradicionais
(empresas e empreendimentos industriais altamente instáveis e dependen-
tes de estabilidade econômica), uma série de setores/áreas passou a procu-
rar os profissionais formados pelas melhores universidades em Engenha-
ria de Produção (NETTO; TAVARES, 2006).
As áreas de finanças, telecomunicações, atuária, informática e inter-
net são setores que têm crescido, mesmo quando a economia está estag-
nada, e todas as provisões são unânimes em considerá-los promissores

– 118 –
A engenharia no Brasil

para os próximos anos. Por que isso é importante? Porque a Engenharia


de Produção consegue encontrar um ponto comum em todas essas áreas
(NETTO; TAVARES, 2006).

5.4 A contratação e a carreira de engenheiros


O caminho mais comum para entrada dos engenheiros no mercado de
trabalho é pela participação em programas de estágio realizados ao longo
do curso de graduação ou após esse período, quando são contratados como
trainee. A necessidade de estágios é apontada como crucial por boa parte
dos entrevistados como forma de superar a barreira da falta da prática
no ensino de engenharia. Nesse caso, a empresa passa a ser participante
ativa do processo de formação real do engenheiro para as necessidades
do mercado. Quando se fala nas correções ou ajustes que a educação de
engenharia deveria sofrer, questões relacionadas à parte prática da for-
mação sempre ganham destaque. A necessidade de estágios é tão grande,
que algumas vezes os engenheiros não conseguem se formar no tempo
mínimo de cinco anos, face à necessidade de dividir o tempo entre estudos
e estágios, se quiserem ter chances reais de bons empregos quando forma-
dos (CONSULTORIA ANALÍTICA, 2020).
Outro fator bastante importante na hora de conseguir a colocação no
mercado de trabalho são as redes sociais. Elas hoje representam uma fonte
de informação sobre pessoas muito utilizadas por empresas. Portanto, é
preciso estar atento ao comportamento on-line, porque hoje todos são
observados. Por esse motivo, é necessário, sim, fazer um bom uso dessa
ferramenta. É óbvio que as pessoas têm suas posições e opniões sobre
todos os assuntos, mas é importante lembrar que assumi-las pode ter con-
sequências. Se você possui, por exemplo, uma posição contrária a deter-
minada empresa, é preciso levar isso em conta na hora de se canditadar
a uma vaga nessa empresa. A forma de se expressar nas redes também é
importante. Manifestações preconceituosas e ofensivas podem ser mapea-
das pelo recrutador da empresa e isso implica em um ponto negativo para
quem está se candidatando à vaga (CREA BAHIA, 2017).
As redes sociais também são importantes para a construção do
networking. Essa rede de relacionamento profissional deve ser sempre

– 119 –
Introdução à Engenharia da Produção

levada em conta ao longo da carreira e pode ser um apoio importante na


hora de buscar uma nova oportunidade de trabalho (CREA BAHIA, 2017).
Se a entrada nas empresas depende de um período de estágio, treina-
mento e networking, a permanência dependerá cada vez mais de atualizações
e adaptação a novas técnicas e tecnologias ao longo da carreira. No campo
da Engenharia, que trabalha com bens duráveis e, ao mesmo tempo, passa
por constantes atualizações técnicas, é preciso sempre se manter atualizado.
Estudos apontam que, em 2025, existirão 70% de cargos novos, em espe-
cialidades que não existem hoje. Isso reforça que a atualização constante de
conhecimentos é fundamental, não apenas para quem está em transição de
carreira, mas sim para a vida profissional como um todo (CREA BAHIA,
2017). No panorama atual, um engenheiro pode esperar mudar de emprego 4
vezes entre a formatura e a aposentadoria, já que seu tempo de permanência
médio é de 8,2 anos por empresa (CONSULTORIA ANALÍTICA, 2020).
Mesmo com programas de estágios e de trainees, 41% das empresas
ainda declaram ser necessária a realização de programas de treinamento
específicos para os engenheiros recém-contratados. Por outro lado, ainda
são relativamente poucas as que têm programas de atração de engenheiros
recém-formados ou prestes a se formarem, embora este cenário esteja
mudando. A integração desses profissionais nas empresas tende a começar
cada vez mais cedo. Também é pequena a proporção de empresas que
têm programas de retenção para esses profissionais. Até recentemente, o
mercado de trabalho não tinha problemas de oferta de mão de obra na
área de engenharia. Porém, com o aquecimento da economia, e em setores
específicos, como energia, mineração, petróleo, construção e telecomuni-
cações, passou a haver escassez de engenheiros qualificados e experientes.
Nas grandes empresas (1.000 funcionários ou mais), os programas de con-
tratação de estagiários ou trainees, de atração de recém-formados ou de
retenção de engenheiros são menos frequentes, provavelmente por terem
mais facilidade de contratação de engenheiros mais experientes. Fora dos
eixos industriais mais tradicionais, também são menos frequentes os pro-
gramas de estágios, trainees e atração de recém-formados (CONSULTO-
RIA ANALÍTICA, 2020).
Alguns outros fatores, além de experiência e conhecimentos ante-
riores, também são importantes para a contratação de engenheiros. Entre

– 120 –
A engenharia no Brasil

eles, destacam-se as características pessoais, como liderança e capaci-


dade de solução de problemas, habilidades gerenciais, espírito de equipe e
capacidade de trabalhar em grupo, habilidade no relacionamento humano,
liderança, iniciativa e disposição para aprender coisas e tarefas novas,
facilidade de comunicação, facilidade de adaptação a situações novas e
dinamismo e vontade de crescer dentro da empresa. Percebe-se, assim,
que os fatores personalidade, atitude e comportamento também aparecem
como tão importantes quanto as questões de conhecimento e experiência
anteriores, entre as razões para não contratar um engenheiro (CONSUL-
TORIA ANALÍTICA, 2020).
No Quadro 5.1 são apresentadas algumas das qualidades que as
empresas buscam nos engenheiros e o porquê de essas qualidades serem
tão importantes.
Quadro 5.1 – Características profissionais para o engenheiro e sua importância para
o mercado

Característica Importância para o Mercado


Para realizar suas atividades (projetar, construir
e operar dispositivos complexos...), o profissio-
nal deve possuir bons conhecimentos dos funda-
mentos das leis da física, da estrutura da maté-
ria, do comportamento dos fluidos, das ligações
químicas, da conversão de energia e de diversos
Conhecimentos outros aspectos do mundo real. Porém, apenas o
Objetivos conhecimento dos fenômenos físicos básicos não
é suficiente. É preciso, antes de tudo, saber iden-
tificar, interpretar, modelar e aplicar estes fenô-
menos à solução de problemas concretos.
A familiarização com a tecnologia requer que o pro-
fissional saiba muito de ciências físicas aplicadas e
domine conhecimentos empíricos sistematizados.
No cotidiano do trabalho de um profissional, um
Relações Humanas engenheiro deverá trocar ideias com clientes, ope-
rários, políticos, diretoria da empresa, usuários.

– 121 –
Introdução à Engenharia da Produção

Característica Importância para o Mercado


Para isso é importante que ele tenha uma boa habi-
lidade para interagir, argumentar, convencer, retro-
ceder, discutir, buscando sempre um bom nível de
diálogo em várias áreas de conhecimento.
A habilidade de testar protótipos, regular o fun-
cionamento de sistemas, medir variáveis físicas
em processos, enfim, de realizar experiências, é
fundamental para verificar algum resultado teó-
rico, para obter dados ou para analisar o compor-
tamento de sistemas – e, assim, fundamental para
o engenheiro.

Experimentação Esse profissional deve saber distinguir as possíveis


fontes de erros, surgidos em função dos aparelhos
de medição, das simplificações adotadas quando
da realização dos testes, da impossibilidade de
uma repetição dos ensaios, da influência do acaso,
das incertezas e de uma gama enorme de outros
parâmetros. As técnicas estatísticas são de fun-
damental importância como meio de processar e
interpretar os resultados colhidos nos ensaios.
A comunicação é uma qualidade significativa e
indispensável para um bom desempenho profis-
sional. Com frequência, um engenheiro vale-se
da comunicação técnica, que exige atenções
Comunicação especiais, principalmente quanto aos aspectos
da escrita e das representações matemática e
gráfica. Uma busca persistente por um aperfei-
çoamento desta qualidade deve ser constante-
mente exercitada.
Percebe-se que esta característica é cada vez mais
Trabalho em necessária. Grandes empreendimentos dominam
equipe o mundo tecnológico e grandes problemas se
entrelaçam na maioria das áreas.

– 122 –
A engenharia no Brasil

Característica Importância para o Mercado


Uma tarefa – quando desenvolvida por vários
profissionais de uma área ou mesmo de áreas
de formação diferentes – exige trabalho em
conjunto. Esta forma de trabalho, por sua vez,
implica respeito mútuo entre seus componentes,
espírito de equipe e vontade de colaborar com os
demais membros do grupo, tudo em prol de um
bom resultado.
Por outro lado, se o objetivo é construir uma
boa solução, algumas vezes isso pode exigir a
renúncia de algumas ideias, que no todo podem
não representar a melhor forma de resolver um
problema. Nestes casos, qualquer traço de pre-
potência ou arrogância geralmente leva a cami-
nhos da colisão.
O bom engenheiro deve estar sempre a par dos
avanços da sua área de trabalho. Por isso o apren-
dizado deve ser contínuo. Livros, revistas técni-
cas, periódicos, seminários, congressos, mesas
redondas, simpósios, feiras industriais, grupos de
Aperfeiçoamento estudo e associações de classe são instrumentos
contínuo de que se deve fazer uso para enfrentar com com-
petência e sucesso o longo caminho do aperfeiço-
amento profissional.
Da mesma forma que em outras profissões, a
formação do engenheiro não acaba na escola,
devendo continuar por toda a vida profissional.
O engenheiro deve ter uma postura profissional
coerente e racional, pautada sempre em precei-
tos éticos bem consistentes. Quais os deveres, os
Ética profissional
direitos, as atribuições técnicas e a remuneração a
exigir pelos seus serviços são questões que devem
sempre estar presentes no nosso cotidiano.

– 123 –
Introdução à Engenharia da Produção

Característica Importância para o Mercado


A ética deve ser a base sobre a qual é estabele-
cido o comportamento do profissional perante
a sociedade, seu empregador, seus clientes ou
concorrentes. A atuação profissional, baseada em
princípios éticos, deve se pautar pelo respeito ao
trabalho de outros e pela adoção de uma postura
correta na aplicação dos conhecimentos técnicos.
Fonte: adaptado de Bazzo e Pereira (2006).

Um aspecto que pode preocupar os profissionais recém-formados e


estagiários em uma empresa é o hipotético confronto que se estabelece
entre os seus conhecimentos adquiridos durante o curso universitário e os
dos técnicos experientes. É natural que os técnicos, que já trabalham há
muitos anos em sua função, dominem com segurança vários detalhes dos
processos de fabricação, dos sistemas e dos produtos de uma empresa.
Esse fato normalmente deixa perplexos jovens engenheiros e estagiários,
que começam a duvidar dos seus próprios conhecimentos construídos ao
longo de vários anos de estudos (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Porém, é importante ressaltarmos que este confronto é hipotético – não
existe! Em primeiro lugar, porque os conhecimentos processados num curso
universitário dizem muito mais respeito à formação teórica do que à prática,
ou seja, aquela que prepara para uma atuação direta para um campo profis-
sional específico. Por isso, é totalmente normal que um engenheiro recém-
-formado, que ainda não tem experiência, desconheça detalhes técnicos de
sistemas de produção e outros aspectos do cotidiano da engenharia, como
nomenclaturas, fornecedores, normas específicas, entre outros. Em segundo
lugar, basta considerar que, com os embasamentos teóricos e conceituais
adquiridos num curso superior, em poucos anos qualquer engenheiro terá
plenas condições de dominar grande parte dos conhecimentos técnicos do
dia a dia de seu campo de atuação e, além disso, ampliar os seus conheci-
mentos teóricos (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Por outro lado, é bom o engenheiro perceber a extrema importância
do trabalho dos técnicos – de nível médio e de nível superior – para as
atividades dentro de uma empresa e para o próprio desenvolvimento de

– 124 –
A engenharia no Brasil

um país. São eles que irão implementar as novas tecnologias, operar as


máquinas, executar planos de manutenção, promover ensaios em laborató-
rios, enfim, que vão fazer funcionar uma empresa, em conjunto com enge-
nheiros, administradores e operários. Sem a colaboração de todos esses
profissionais, ficaria inviabilizado qualquer empreendimento empresarial
(BAZZO; PEREIRA, 2006). Conforme destacam Bazzo e Pereira (2006):
Os técnicos são profissionais formados em cursos de nível médio
ou nível superior e surgiram para atender a alta demanda de mão
de obra especializada em função das características dos mercados
regionais. Em diversas atividades, um técnico trabalha sob a super-
visão de um engenheiro, já que não pode assumir a responsabili-
dade técnica de alguns projetos mais complexos, em alguns casos
mais por força de leis que por competência profissional (BAZZO;
PEREIRA, 2006).

Discriminação salarial no mercado de


trabalho dos engenheiros do Brasil

O mercado de trabalho dos engenheiros brasileiros da ini-


ciativa privada é composto majoritariamente por homens e
brancos. Os microdados da Pesquisa Nacional de Amostra de
Domicílios (PNAD/IBGE) dos anos de 2002 a 2015 indicam que
os engenheiros do gênero masculino, da iniciativa privada,
ocupam mais de 80% dos postos de trabalho. Da mesma forma,
os engenheiros autodenominados brancos possuem mais de
75% das vagas ocupadas. Nesse ambiente desfavorável às
mulheres e aos não brancos, surge a necessidade de avaliar
se nos rendimentos médios destes profissionais existe algum
componente discriminatório.

O trabalho de Frio e Cechin (2019) apontou que existe 16%


de diferencial total de salários entre raças na engenheria, em
média. Desse total, aproximadamente de 9,7% a 10,9% são atri-
buídos à discriminação. No diferencial salarial de gêneros, a
diferença média é ainda mais profunda: 23,6%. O componente
atribuído à discriminação varia entre 12,3 e 12,9 por cento, e a

– 125 –
Introdução à Engenharia da Produção

diferença vinculada aos atributos produtivos varia entre 9,5%


e 10,1%. Apesar de tais diferenças, é impossível inferir se essas
diferenças são fruto de discriminação por parte do cliente, do
trabalhador ou chefe.

No trabalho de Corrales (2016), as maiores diferenças sala-


riais entre homens e mulheres engenheiros ocorrem nas áreas
de metalurgia, outras engenharias e mecânica. É possível que
a baixa representatividade feminina em engenharia metalúr-
gica deva-se ao fato de que elas ganhavam pouco mais do que
um quinto do que eles. É importante observar que os maiores
valores relativos (excetuando o de agrícola e o de cartografia)
somam 5 ramos da engenharia com porcentagens na faixa de 65
até 80% do salário masculino. Ou seja, mesmo na melhor con-
dição deste grupo, as engenheiras elétricas deixavam de receber
20% de seu salário apenas por causa de seu gênero. O valor do
salário médio também comprova que – dentre as especialida-
des analisadas – as mulheres recebiam aproximadamente ape-
nas 60% do salário dos homens, além de que, em três ramos da
engenharia, as mulheres recebiam menos que a média salarial.

Fonte: FRIO; CECHIN, 2019; CORRALES, 2016.

Síntese
Vimos, neste capítulo, a situação atual do mercado de trabalho para
os engenheiros no país. Vimos que o cenário ainda é positivo, principal-
mente devido ao crescimento econômico, e que a formação em engenharia
deve ser capaz de suprir as necessidades do mercado. Dados da Rais e do
Caged corroboram esse crescimento do mercado e o aumento do número
de empregos no país em diversos setores, inclusive em setores-chave para
a engenharia. Vimos também que muitas vezes o engenheiro, devido à
multidiciplinaridade de sua formação, acaba sendo contratado em outras
funções – gestor, analista, entre outros – e não como engenheiro. Isso não
é totalmente negativo, e sim uma característica de mercado, o problema

– 126 –
A engenharia no Brasil

é que às vezes pode servir como pretexto para menores salários, já que o
profissional engenheiro deve receber o teto salarial, que varia de 8 a 10
mil reais. Outro ponto interessante foi as características desejadas para
que o engenheiro recém-formado possa entrar no mercado de trabalho e
permanecer nele. Experiência, conhecimentos anteriores e características
pessoais são alguns dos pontos importantes para a carreira em engenharia.

Atividades
1. Por que os grandes centros urbanos atraem mais engenheiros?
2. Como funciona o trabalho de um engenheiro profissional
autônomo?
3. Qual (ais) caminho (s) é/são mais comumente seguido(s) pelos
engenheiros para entrarem no mercado de trabalho?
4. Quais características são necessárias para o engenheiro entrar no
mercado de trabalho?

– 127 –
6
As engenharias
e a Engenharia
de Produção

São muitas as atribuições e atividades dos engenheiros, e


geralmente elas estão relacionadas a competências legais para
a realização de empreendimentos que visem ao aproveitamento
e à utilização de recursos naturais para a concretização de inú-
meras atividades e para o desenvolvimento da economia do país
(BAZZO; PEREIRA, 2006).
Se considerarmos os possíveis campos de atuação da enge-
nharia, logo perceberemos que eles são por demais amplos para
que uma só pessoa possa dominar, com excelência, a tecnolo-
gia, o embasamento científico específico, as técnicas de cálculo
e as experiências vinculadas a todas as suas múltiplas ativida-
des. Questões técnicas, sociais, ecológicas, econômicas e tantas
outras fazem parte do trabalho dos engenheiros ou são afetadas
direta ou indiretamente por suas atividades – por isso se trata de
uma profissão tão complexa. Assim, de algum modo, tudo isso
influenciará direta ou indiretamente no funcionamento da socie-
dade (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Introdução à Engenharia da Produção

Não é difícil relacionar responsabilidades que caracterizam a abran-


gência da ação desse profissional. É competência dos engenheiros, por
exemplo, projetar, executar, administrar, verificar, fiscalizar, pesquisar,
entre outros trabalhos tais como os apresentados no Quadro 6.1, no qual
estão relacionadas algumas implicações técnicas de cada empreendimento.
Quadro 6.1 – Atribuições profissionais do engenheiro

1. Supervisão, coordenação e orientação técnica


2. Estudo, planejamento, projeto e especificação
3. Estudo de viabilidade técnico-econômica
4. Assistência, assessoria e consultoria
5. Direção de obra e serviço técnico
6. Vistoria, perícia, avaliação, arbitramento, laudo e parecer técnico
7. Desempenho de cargo e função técnica
8. Ensino, pesquisa, análise, experimentação, ensaio e divulgação téc-
nica; extensão
9. Elaboração de orçamento
10. Padronização, mensuração e controle de qualidade
11. Execução de obra e serviço técnico
12. Fiscalização de obra e serviço técnico
13. Produção técnica e especializada
14. Condução de trabalho técnico
15. Condução de equipe de instalação, montagem, operação, reparo ou
manutenção
16. Execução de instalação, montagem e reparo
17. Operação e manutenção de equipamento e instalação
18. Execução de desenho técnico
Fonte: adaptado de Cocian (2017).

Os campos da engenharia têm relação direta com o campo de tra-


balho específico de cada engenheiro. Por exemplo: quando você ouvir o
termo engenheiro civil provavelmente pensará em construções como edi-

– 130 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

fícios, barragens, pontes e estradas (COCIAN, 2017). Entretanto, quando


você ouve o termo engenheiro químico, você pensa em grandes plantas
industriais que trabalham com a produção de produtos químicos. Por esse
motivo, você deve se perguntar: “O que exatamente é o trabalho dos enge-
nheiros? Quais as diferenças entre as diversas engenharias? Qual é a pers-
pectiva global de cada área?” Algumas destas questões serão tratadas e
discutidas neste capítulo.

6.1 As diferentes engenharias


É praticamente impossível que uma pessoa seja capaz de dominar
todos os assuntos recorrentes a todos os tipos de engenharia em tal profun-
didade de modo que esteja apta a realizar o seu trabalho com desenvoltura
e competência em todos eles. Por esse motivo existem as diversas espe-
cializações, ou áreas, da engenharia. Quando um indivíduo se especializa
em determinado campo, ou assunto, ele adquire certo domínio de conheci-
mentos específicos a cada área, e assim pode ter um bom desempenho no
exercício de suas atividades (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Essa característica da engenharia – a sua abrangência – pode levar
os futuros profissionais a um impasse durante sua formação: ser um espe-
cialista ou um generalista? É muito comum ouvirmos que o “especialista
é alguém que sabe quase tudo sobre quase nada” ou que o “generalista
é alguém que sabe quase nada sobre quase tudo”. Porém, é importante
termos uma visão real da situação: ainda que o ideal seria saber bastante
sobre o máximo possível, nossa capacidade racional individual é limitada
– ninguém consegue saber tudo sobre todos os assuntos. É importante per-
ceber que a engenharia tem uma característica de multidisciplinariedade
e que, portanto, é uma experiência coletiva (AGOSTINHO; AMORELLI;
RAMALHO, 2015).
Cabe ressaltar que essa especialização não é, de forma alguma, uma
limitação na hora de o engenheiro realizar suas atividades. O especialista
terá, ainda, a fundamentação básica de outros temas que dizem respeito
à profissão engenheiro, sendo capaz de compreender e discutir diversos
outros assuntos – inclusive porque os diferentes engenheiros costumam
trabalhar juntos na solução de problemas. O desafio que esses profissio-

– 131 –
Introdução à Engenharia da Produção

nais devem superar é a capacidade de transitar entre os diversos campos


do conhecimento, interagindo e dialogando com outros engenheiros para,
assim, desenvolverem soluções conjuntas. Além disso, para cada uma das
áreas da engenharia – ambiental, química, têxtil, civil, de produção... – há
ainda diversos desdobramentos e caminhos a seguir na vida ocupacional
de cada um desses engenheiros (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Mas como se desenvolvem essas novas engenharias – ou esses novos
níveis de engenharia? Pode-se dizer que esse desenvolvimento ocorre de
duas formas, simultâneas ou não: horizontalmente e verticalmente. Para
o desenvolvimento no sentido vertical, foca-se na existência de diversos
níveis de aprofundamento da profissão e formas de nela atuar. São os cur-
sos de aperfeiçoamento, de especialização e de pós-graduação que defi-
nem, de alguma forma, uma nova atuação profissional por meio de algu-
mas áreas de especialização. Um exemplo é a engenharia de segurança do
trabalho, que não se configura exatamente como uma área específica, uma
vez que não existe um curso de graduação específico para essa área, ainda.
Entretanto, pode ser alcançada como nível de especialização por qualquer
profissional da engenharia, garantindo a esse profissional uma nova atri-
buição (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Ainda no desenvolvimento vertical, é importante ressaltar que exis-
tem sobreposições entre as atribuições dos profissionais da engenharia
de áreas diferentes. Isso ocorre porque nem sempre os limites de atribui-
ções de cada especialidade estão claramente delimitados ou estabeleci-
dos. Por exemplo: engenheiros químicos e de alimentos – as indústrias
de alimentos utilizam produtos químicos (e, nesse caso, a engenharia de
alimentos deriva da engenheira química). Entretanto, essas sobreposi-
ções acontecem pela multidisciplinaridade e dinamismo da engenharia,
que está em constante evolução no sentido de buscar novos conheci-
mentos. Profissionalismo e ética de trabalho na realização de suas ativi-
dades são essenciais para fazer frente a eventuais conflitos de interesse
(BAZZO; PEREIRA, 2006).
Em relação ao desenvolvimento horizontal das especializações, per-
cebe-se que cada uma delas possui características próprias e se ocupa de
atividades de um ramo específico de atuação. Assim, criação de novas

– 132 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

modalidades e especializações da engenharia não ocorrem por acaso.


Trata-se de uma resposta ao surgimento de novos problemas, cada vez
mais complexos, os quais exigem conhecimentos e habilidades cada vez
mais especializados para solucioná-los. Temos, como exemplo, a trans-
formação da matriz energética mundial, que passou do carvão para o
petróleo na segunda fase da Revolução Industrial, em meados do século
XIX. Nesse cenário, qual o conhecimento que se tornou necessário para
possibilitar essa transição? Bem, percebeu-se, na época um aumento da
necessidade de conhecimentos em química, que não eram supridos pelas
engenharias já bem desenvolvidas na época: a engenharia civil e a enge-
nharia de minas. O crescimento do número de especialistas em química
alavancou o desenvolvimento de uma série de outras oportunidades tec-
nológicas, fazendo com que a engenharia química avançasse muito além
da petroquímica (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015). Des-
taca-se aqui que esse desenvolvimento na área de química também tornou
possível uma alternativa ao petróleo durante a crise, com o advento do
etanol no Brasil.
Essas novas especialidades, que surgem para resolver novos proble-
mas, acabam se tornando instrumentos para criação e desenvolvimento
de novas tecnologias e, consequentemente, de novas áreas de engenharia.
É este comportamento dinâmico e multidisciplinar que acaba tornando a
engenharia cada vez mais ampla e variada. Foram os primeiros desafios
de urbanização e a revolução industrial os responsáveis pelas primeiras
modalidades de engenharia. Por esse motivo, estavam voltadas para a
construção de infraestrutura, transporte e energia (é o caso da engenharia
civil, de minas e química). Com o avanço da industrialização, tornou-se
importante o desenvolvimento de modalidades como a engenharia mecâ-
nica, a de materiais e a de produção. Na última década do século XX e
começo do século XXI nota-se que o crescimento econômico e a grande
onda de industrialização trouxeram consequências negativas, como a
poluição, pondo em discussão o tema sustentabilidade e desenvolvimento
sustentável. Surge então o interesse em cursos de engenharia ambiental,
florestal e de energias alternativas. Ou seja, é a demanda por novas áreas
que torna possível a criação de novos cursos (AGOSTINHO; AMO-
RELLI; RAMALHO, 2015).

– 133 –
Introdução à Engenharia da Produção

Em relação às especialidades da engenharia existentes, o Instituto


Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)
apresenta uma classificação que divide a área de Engenharia em oito gru-
pos distintos (Brasil, 2008), apresentados no Quadro 6.2:
Quadro 6.2 – Classificação da engenharia, segundo o Inep

Grupo Engenharias
Engenharia Cartográfica, Engenharia Civil, Engenha-
ria de Agrimensura, Engenharia de Construção, Enge-
Grupo I
nharia de Recursos Hídricos, Engenharia Geológica e
Engenharia sanitária.
Engenharia da Computação, Engenharia de Comunica-
ções, Engenharia de Controle e Automação, Engenharia
de Redes de Comunicação, Engenharia de Telecomu-
Grupo II
nicações, Engenharia Elétrica, Engenharia Eletrônica,
Engenharia Eletrotécnica, Engenharia Industrial Elé-
trica e Engenharia Mecatrônica.
Engenharia Aeroespacial, Engenharia Aeronáutica,
Grupo III Engenharia Automotiva, Engenharia Industrial Mecâ-
nica, Engenharia Mecânica e Engenharia Naval.
Engenharia Biomédica, Engenharia Bioquímica, Enge-
nharia de Alimentos, Engenharia de Biotecnologia,
Grupo IV
Engenharia Industrial Química, Engenharia Industrial
Têxtil, Engenharia Química e Engenharia Têxtil.
Engenharia de Materiais e suas ênfases e/ou habilita-
Grupo V ções, Engenharia Física, Engenharia Metalúrgica e
Engenharia de Fundição.
Grupo VI Engenharia de Produção e suas ênfases.
Engenharia Ambiental, Engenharia de Minas, Engenha-
Grupo VII
ria de Petróleo e Engenharia Industrial Madeireira.
Engenharia Agrícola, Engenharia Florestal e Engenha-
Grupo VIII
ria de Pesca.
Fonte: adaptado de Brasil (2008).

– 134 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

A seguir serão apresentados alguns aspectos e as principais atribuições


de algumas das principais engenharias de cada um dos grupos acima listados.

6.1.1 Grupo I – Engenharia Civil


A Engenharia Civil surgiu quando o ser humano deixou de ser
nômade e passou a se fixar em um lugar. Nessas condições, foi necessário
a construção das primeiras habitações para proteção contra as intempé-
ries. Por esse motivo, é uma das profissões mais antigas da humanidade
(QUEIROZ, 2019).
O engenheiro civil é responsável por projetar, gerenciar e executar
atividades referentes a edificação, construção e estruturas como casas,
prédios, pontes, viadutos, pistas de rolamentos, aeroportos, estradas, bar-
ragens, entre outras. Ele está presente em todas as etapas de uma cons-
trução ou reforma, da análise do solo do local até a definição dos tipos de
fundação e dos acabamentos a serem utilizados – participando, assim, de
seu progresso e desenvolvimento. É também responsável por especificar
onde serão alocadas as redes de instalações elétricas, hidráulicas e de
saneamento no edifício, definindo também qual o material mais adequado
a ser utilizado. Comanda as equipes de trabalho, supervisionando prazos,
custos, padrões de qualidade e de segurança. Cabe a ele garantir a esta-
bilidade, segurança e o conforto da edificação, calculando os efeitos dos
ventos e das mudanças de temperatura nos materiais usados na constru-
ção. Este profissional também pode se dedicar à administração de recursos
prediais, gerenciando a infraestrutura e a ocupação de um edifício (QUEI-
ROZ, 2019; BAZZO; PEREIRA, 2006).
As criações, obras e/ou estruturas produzidas por engenheiros civis
podem ser consideradas recompensas para a satisfação pessoal destes pro-
fissionais, uma vez que elas possuem caráter duradouro e podem ajudar a
tornar comunidades, cidades, estados ou até mesmo países lugares melho-
res para se viver e trabalhar. Além disso, essa profissão também permite
o desenvolvimento da criatividade, já que cada produto é projetado de
acordo com as necessidades e gostos do cliente.
De modo geral, os engenheiros civis buscam sempre solucionar pro-
blemas para melhorar a qualidade de vida da população. Combater a polui-

– 135 –
Introdução à Engenharia da Produção

ção, a deterioração da infraestrutura, congestões de tráfego, necessidades


energéticas, inundações, terremotos, reengenharia urbana e planejamento
comunitário também fazem parte do escopo de trabalho do engenheiro
civil (COCIAN, 2017).

6.1.2 Grupo II – Engenharia Elétrica


A Engenharia Elétrica é aquela que trata especificamente com
a eletricidade – essencial em todas as atividades do dia a dia do ser
humano. Se relaciona com os elétrons, campos elétricos e magnéticos
– todos estes, fenômenos invisíveis – o que torna essa engenharia fasci-
nante (COCIAN, 2017).
A descoberta da eletricidade veio para contribuir principalmente com
o desenvolvimento econômico – a luz solar não era mais um fator limi-
tante para a realização do trabalho. Deste momento da Revolução Indus-
trial até os dias de hoje essa área cresceu muito. As primeiras aplicações
comerciais da eletricidade foram em comunicações e em iluminação. Hoje
em dia as propriedades mais úteis da eletricidade são: a facilidade e efici-
ência com as quais é gerada e distribuída, e a precisão e flexibilidade com
a qual pode ser aplicada e controlada. Estas características são exploradas
pelos engenheiros eletricistas em um número crescente de formas diferen-
tes. Além disso, fontes de energia mais limpas e, consequentemente, novas
tecnologias, também contribuem para a ampliação da importância dessa
engenharia no cenário atual (COCIAN, 2017).
Os engenheiros eletricistas podem atuar, de forma geral, em diversos
tipos de empresas. Indústrias de telecomunicações, de geração, transmis-
são, distribuição e utilização de energia elétrica, indústrias de materiais,
dispositivos e instrumentos elétricos, eletrônicos e de informática, empre-
sas de consultoria e assessoramento, empresas de software, instituições
financeiras, serviços públicos e em instituições de ensino e pesquisa –
todos esses empreendimentos podem receber um profissional engenheiro
eletricista (GRIMONI, 2009; BAZZO; PEREIRA, 2006).
Nessas empresas, o engenheiro eletricista poderá trabalhar em diver-
sas atividades, englobando desde projetos de sistemas e equipamentos
elétricos, supervisão de sua construção, seu funcionamento, atividades de

– 136 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

manutenção e calibração de equipamentos e até com robótica, automação


e controle de processos industriais (GRIMONI, 2009).
De um modo geral, o mercado profissional da Engenharia Elétrica
tem crescido e superado até mesmo os períodos de crise industrial. Isso
ocorre principalmente devido ao fato de tal profissional possuir papel crí-
tico e atuante na sociedade e no desenvolvimento do país, reconhecendo
as implicações políticas, econômicas, sociais e ambientais de suas inter-
venções profissionais (GRIMONI, 2009).

6.1.3 Grupo III – Engenharia Mecânica


Os engenheiros mecânicos são aqueles responsáveis por projetar
máquinas e estruturas que exploram projetos, práticas profissionais, for-
ças, materiais, fluidos, energia e movimento que serão aplicados na reso-
lução de problemas práticos do dia a dia. De modo geral, pode ser definida
como a profissão na qual máquinas produtoras e consumidoras de energia
são pesquisadas, projetadas e manufaturadas. O profissional desta área tem
como atribuições submeter à prova instalações mecânicas para conferir
sua segurança e eficiência, e verificar se correspondem às especificações
do projeto. Também assessora a instalação mecânica e o funcionamento de
indústrias, colaborando com a administração na observação de legislação
e no comércio; trabalham com veículos automotores, sistemas de produ-
ção, de transmissão e de utilização do calor e sistemas de refrigeração e de
ar-condicionado (WICKERT; LEWIS, 2015; BAZZO; PEREIRA, 2006).
A engenharia mecânica abrange desde sistemas robotizados de sol-
dagem, motores de combustão interna, equipamentos esportivos, uni-
dades de disco rígido de computador, próteses, automóveis, aeronaves,
motores a jato, ferramentas cirúrgicas até turbinas eólicas. Praticamente
todo produto que você puder imaginar tem pelo menos um engenheiro
mecânico envolvido em algum momento, seja em seu projeto, seleção de
materiais, controle de temperatura, garantia da qualidade ou até mesmo
na produção. Mesmo se um engenheiro mecânico não tiver participação
no produto em si, ainda é seguro afirmar que um engenheiro mecânico
projetou as máquinas envolvidas no desenvolvimento deste produto
(WICKERT; LEWIS, 2015).

– 137 –
Introdução à Engenharia da Produção

6.1.4 Grupo IV – Engenharia Química


A engenharia química tem relação direta com o desenvolvimento
da indústria química em si. No início do século XIX, alguns princípios
químicos já eram utilizados principalmente na produção de época, como
bálsamos, colas, sabões e perfumes. Entretanto, é o desenvolvimento do
campo científico que ocorreu na segunda metade do século XIX, princi-
palmente com a descoberta dos polímeros, que a indústria química expan-
diu seu papel no cenário mundial. Diante disso, em 1888 a profissão de
engenheiro químico foi reconhecida oficialmente (WILLIAN, 2014).
O profissional de Engenharia Química é aquele que trabalha
principalmente com pesquisa e com o desenvolvimento de novos processos
e produtos, do projeto, da construção e da operação de plantas industriais
utilizadas na fabricação de produtos químicos que são utilizados pelas pessoas
no seu dia a dia. Para isso, ele transforma matéria-prima bruta em produtos
de uso industrial/comercial e que possuem valor agregado (BRASIL, 2004).
O engenheiro químico possui ainda um papel importante no projeto
da planta da fábrica, ajudando a decidir qual o tipo de instalação mais ade-
quado para determinado produto, fiscalizando a montagem e instalação dos
equipamentos das linhas de tubulação existentes – tanto instalações novas
quanto a modificação das existentes. Também são responsáveis por orien-
tar, inspecionar e coordenar as atividades dos trabalhadores encarregados
de diversos equipamentos envolvidos no processo industrial (triturado-
res, misturadores, filtros, extratores, reatores, destiladores, evaporadores
e outros sistemas). A finalidade é garantir o tratamento químico adequado
dos materiais envolvidos no processo (BAZZO; PEREIRA, 2006).
É importante ressaltar que o campo de atuação do engenheiro quí-
mico se expande por todos os tipos de indústrias químicas – petrolíferas,
petroquímicas, polímeros, fármacos e química fina, fertilizantes, de papel
e celulose, tintas e vernizes, cosméticos e perfumes, semicondutores, ali-
mentos, bebidas – nas quais ele pode desenvolver trabalhos de produ-
ção, controle, automação, acompanhamento e otimização de processos
(BAZZO; PEREIRA, 2006).
Os engenheiros químicos também possuem um papel importante na
proteção do meio ambiente, no desenvolvimento de tecnologias limpas,

– 138 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

no cálculo de impactos ambientais e no estudo do destino de resíduos no


ambiente. Existem muitos pesquisadores engajados em agregar valor a
resíduos industriais. Por exemplo: o bagaço de cana, resíduo da produção
de açúcar e etanol, pode ser utilizado para alimentar caldeiras (na geração
de vapor e energia), na alimentação de ruminantes, como agente aglu-
tinante do cimento, entre outras aplicações em estudo. Alguns resíduos,
como a manipueira (resíduo da fabricação da farinha de mandioca) e o
lodo de estação de tratamento de esgoto estão sendo aproveitados na pro-
dução de biogás. Muitos engenheiros químicos também estão envolvidos
em processos de reciclagem de materiais (COCIAN, 2017).

6.1.5 Grupo V – Engenharia Metalúrgica


A engenharia metalúrgica é um ramo técnico que se ocupa do estudo
dos materiais metálicos, definindo a caracterização estrutural, as proprie-
dades mecânicas, o processamento da matéria-prima e os procedimentos
de produção (BAZZO; PEREIRA, 2006). Foca-se principalmente na pro-
dução e tratamento de metais. Pode ser dividida em três áreas: a metalur-
gia extrativa, a metalurgia física e a metalurgia de processos.
Na metalurgia extrativa, o profissional engenheiro metalúrgico é
responsável pelo beneficiamento de minérios – extração do metal uti-
lizando meios mecânicos e seu posterior refinamento. Posteriormente,
deve ser realizada a separação do metal dos compostos químicos nos
quais existem o minério bruto, e obter destes o metal puro comercial
(COCIAN, 2017).
A metalurgia física faz uso de metais já refinados. Estes engenheiros
se preocupam com a produção de ligas metálicas que melhorem as pro-
priedades físicas do material. O trabalho de fundição é um campo especial
da metalurgia física e que envolve a escolha de fornos, metais, moldes,
areias e bases.
Os processos metalúrgicos desenvolvem e melhoram os processos
de modificação das propriedades dos metais, tais como fundição, forja-
mento, extrusão e tratamentos térmicos. Por exemplo: esse profissional
pode desenvolver técnicas para o combate à corrosão metálica e estudar a
composição e as propriedades dos metais para estabelecer uma boa taxa

– 139 –
Introdução à Engenharia da Produção

de contração do produto, de forma a garantir sua qualidade. Além disso,


também é possível a combinação de metais com outros materiais, como
vidro, plástico e cerâmica, para a criação de novos compostos (COCIAN,
2017; BAZZO; PEREIRA, 2006).
Um profissional da engenharia metalúrgica pode trabalhar em
diversas áreas, destacando-se as indústrias metalúrgicas, siderúrgicas,
mineradoras, automotivas, mecânica, naval, química, instituições de pes-
quisa, entre outras (BAZZO; PEREIRA, 2006).

6.1.6 Grupo VI – Engenharia de Produção


A engenharia de produção está relacionada a atividades referentes
aos procedimentos na fabricação industrial, aos métodos e sequências de
produção industrial e ao produto industrializado final. Será estudada mais
a fundo no item 6.2.

6.1.7 Grupo VII – Engenharia Ambiental


No Brasil e no mundo, o crescimento econômico está atrelado a uma
infraestrutura essencial para atender a diferentes setores da sociedade.
Entretanto, impactos socioambientais associados a esta infraestrutura
são inevitáveis. Surge, então, o conceito de desenvolvimento sustentá-
vel, unindo crescimento econômico com ações que proporcionem melhor
qualidade de vida aos cidadãos, com prejuízos mínimos ao meio ambiente.
Para tanto, é necessário qualificar o indivíduo e a sociedade para o contí-
nuo desafio de melhorar a relação meio ambiente – desenvolvimento eco-
nômico – r qualidade de vida (BRAGA et al., 2005).
Um dos profissionais capacitados para ajudar empresas e a sociedade
em geral a aderir ao desenvolvimento sustentável é o engenheiro ambien-
tal. Com foco no estudo das formas de proteção do meio ambiente, os
engenheiros ambientais trabalham no desenvolvimento de sistemas de dis-
tribuição de água, métodos de reciclagem, plantas de tratamento de água
e esgotos, e outros sistemas de prevenção da poluição. Também procuram
adotar a boa prática da ecoeficiência, buscando formas de reduzir a polui-
ção do ar e o uso de pesticidas (COCIAN, 2017).

– 140 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

Entre as atribuições destes profissionais, encontramos atividades


referentes a administração, gestão e ordenamento ambientais e ao moni-
toramento e mitigação de impactos ambientais. Nesse cenário, enqua-
dra-se a realização de estudos de gerenciamento de resíduos perigosos,
avaliação da significância dos riscos, análises no tratamento e na con-
tenção de resíduos e o desenvolvimento de normas que busquem evi-
tar acidentes ambientais. Eles também são responsáveis por projetar as
redes de esgotos municipais e os sistemas de tratamento de efluentes
das indústrias, efetuando inclusive testes de controle de qualidade para
verificar se a água ou os resíduos estão de acordo com o estabelecido em
legislação (COCIAN, 2017).
Além disso, os engenheiros ambientais se preocupam com assuntos
de alcance mundial relacionados com o meio ambiente, sua preservação
e a sustentabilidade/desenvolvimento sustentável. Eles pesquisam formas
de minimizar os efeitos da chuva ácida, o aquecimento global, a emissão
de automóveis e a redução da camada de ozônio. Eles também se envol-
vem com a proteção e preservação da vida selvagem (COCIAN, 2017).

6.1.8 Grupo VIII – Engenharia Florestal


A Engenharia Florestal tem fundamentos relacionados às ciências
agrárias, uma vez que sua origem está diretamente ligada aos cursos de
agronomia. Entretanto, esta engenharia abrange as particularidades e
a complexidade das atividades florestais, englobando conhecimentos
técnicos e científicos que compõem o que hoje se denomina de Ciên-
cia Florestal. A consolidação do conceito de Ciência Florestal veio para
extrapolar os limites das Ciências Agrárias, visando atender à crescente
demanda brasileira por madeira oriunda de florestas plantadas para pro-
cessamento industrial (SILVA JÚNIOR, 2010).
O profissional formado nesta área realiza atividade de planeja-
mento, organização e orientação da otimização dos recursos naturais
renováveis e seus provenientes. Atua com a produção e o melhoramento
de sementes florestais, a exploração procedente e a preservação dos
recursos florestais e naturais. O engenheiro florestal é um especialista no
planejamento, na organização e na direção do uso racional dos recursos

– 141 –
Introdução à Engenharia da Produção

renováveis e seus derivados. A produção madeireira e sua industrializa-


ção, além da preocupação com o paisagismo, os recursos hídricos e a
fauna, também são competências deste profissional. (SILVA JÚNIOR,
2010; BAZZO; PEREIRA, 2006).

6.2 A Engenharia de Produção – como surgiu?


O surgimento da produção em grande escala e o crescente desen-
volvimento ocorrido nos séculos XVIII e XIX proporcionaram gran-
des avanços econômicos e industriais, que acabaram, de certa forma,
impondo desafios de natureza tecnológica e administrativa aos gesto-
res da época. Mas, embora essas mudanças nos sistemas produtivos
possam ser consideradas como sementes da Engenharia de Produção,
não chegaram a ensejar conceitos arreigados a essa profissão (CON-
FEA, 2010).
A Engenharia de Produção teve sua origem nos Estados Unidos, há
mais de um século, e visava aplicar aos sistemas de produção um princípio
econômico baseado na racionalidade. Foram dois pensadores – Frederick
Winslow Taylor e Henry Ford – que deram início à transformação dos
conhecimentos empíricos sobre produção, tornando-os conhecimentos
formalmente estabelecidos. Taylor é reconhecidamente o precursor da
Engenharia de Produção, tendo publicado, em 1911, o livro Princípios da
Administração Científica. Taylor não era necessariamente um acadêmico;
tinha uma visão mais prática da administração, tendo desenvolvido sua
carreira em uma siderúrgica da época (OLIVEIRA NETTO; TAVARES,
2006; BATALHA, 2008).
Taylor não tinha formação em engenharia, mas seu jeito de pensar
era muito próximo de um, já que apresentava uma grande preocupação
com a eficiência da produção. Por esse motivo, ele analisou em profun-
didade o trabalho da massa de operários e verificou muitos desperdícios
– de tempo, de recursos e até mesmo de pessoas. Para mudar esse cenário,
aplicou o seguinte método: identificação da atividade de produção, seu
início, seu final e suas etapas constituintes. Em seguida, eram dissecadas
cada uma dessas etapas e, com o auxílio de um cronômetro, era medido
o tempo necessário para realização de cada uma delas. Depois, cada ati-

– 142 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

vidade era completamente remontada, do início ao fim, minimizando


ao máximo o tempo de execução. Embora a ideia hoje pareça simples,
teve uma enorme repercussão no plano empresarial, mudando a lógica
da organização da indústria e estabelecendo as bases para a construção
de uma área do conhecimento chamada Engenharia Industrial (Industrial
Engineering, para os americanos) ou Engenharia de Produção (Production
Engineering, para os ingleses) (OLIVEIRA NETTO; TAVARES, 2006;
BATALHA, 2008). É desse experimento que surge taylorismo, modelo de
sistematização da produção em série.
Em 1913, Henry Ford coloca em prática os conceitos desenvolvidos
por Taylor, ao construir e organizar a planta de River Rouge, localizada
em Detroit – EUA, responsável pela produção do Ford Modelo T por mais
de 15 anos. O que o modelo de Taylor permitiu não foi a produção do
automóvel em si, uma vez que naquela época já existiam muitos fabrican-
tes de automóveis. Os diferenciais de Ford eram as linhas de montagem,
que levavam a uma produção em grande volume e baixo preço, tornando
este artigo acessível a uma parcela maior dos consumidores (OLIVEIRA
NETTO; TAVARES, 2006; BATALHA, 2008).
Um dos conceitos de base utilizados por Ford foi o da padro-
nização das peças ao longo de todo o processo de fabricação, o
que permitiu uma consistente intercambialidade e facilidade para
ajustá-las. Esta conquista foi obtida com base em conceitos de engenharia
previamente desenvolvidos e aplicados na produção de armas pelo exér-
cito americano em 1920. Esse conceito também foi adotado por outras
empresas como a de máquinas de costura Singer, que foi a primeira
empresa, no mundo, do setor de costura, a ter componentes intercambiá-
veis (BATALHA, 2008).
Paralelamente a estas aplicações práticas foram desenvolvidos estu-
dos sobre organização industrial e também testes relacionados a novas
técnicas contábeis e administrativas, nos quais se destaca o desenvolvi-
mento da Análise Econômica de Investimentos, precursora da Engenharia
Econômica. Este foi o impulso para a criação de cursos que qualificassem
os profissionais envolvidos no processo produtivo, surgindo assim cursos
de Administração e de Engenharia Industrial nos Estados Unidos (OLI-
VEIRA NETTO; TAVARES, 2006).

– 143 –
Introdução à Engenharia da Produção

A Segunda Guerra Mundial trouxe o emprego do método científico


na modelagem e otimização de problemas de logística que, após o sucesso
nas aplicações militares, passaram a ser incorporados à grade curricular
da Engenharia Industrial. O crescente desenvolvimento da informática
facilitou a incorporação destes métodos além de impulsionar o desenvol-
vimento de novos modelos e a teoria da decisão (OLIVEIRA NETTO;
TAVARES, 2006).
O Japão, que foi totalmente arrasado pela Segunda Guerra, surpreen-
deu o mundo com sua recuperação econômica, ainda na década de 1980.
O desempenho industrial japonês foi melhor que o de seus concorrentes
dos Estados Unidos – os produtos oferecidos, como carros e eletroele-
trônicos, apresentavam uma qualidade superior concomitante a um menor
preço. Essa revolução da economia japonesa foi possível graças a mudan-
ças do modelo de gestão atuante (OLIVEIRA NETTO; TAVARES, 2006),
que passou a ser chamado de Toyotismo e era norteado por dois conceitos:
I. Gestão da Qualidade Total (Total Quality Management
– TQM) – que envolve foco no cliente, melhoria dos pro-
cessos e envolvimento das pessoas.
II. Just-in-time – esforço na direção do aumento da flexibili-
dade dos sistemas produtivos, de forma a viabilizar a pro-
dução em pequenos lotes, com baixo custo e alta produti-
vidade.
Todas essas mudanças no processo de produção foram sendo, aos
poucos, incorporados ao currículo da Engenharia de Produção, bem como
ao dia a dia do engenheiro.

6.3 A Engenharia de Produção no Brasil


Alguns fatos históricos antecedem a criação e a oficialização da
profissão de engenheiro de produção no Brasil, e estes modificaram
o cenário do país. O primeiro foi a construção dos quartéis do exér-
cito por Roberto Simonsen, em 1924, a pedido do então ministro da
Guerra, Epitácio Pessoa. Este trouxe inovações como a padronização,
a organização e harmonização do trabalho, além do aproveitamento da

– 144 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

fabricação em larga escala. O segundo fato foi a criação do Instituto


de Organização Racional do Trabalho (Idort), em 1931, composto por
várias classes de trabalhadores (engenheiros, médicos, entre outros)
que visavam melhorar o padrão de vida dos trabalhadores de São Paulo
e, consequentemente, do país, por meio da difusão e introdução de pro-
cessos de organização científica do trabalho e da produção. Esses fato-
res, como podemos perceber, já introduzem conceitos relacionados à
Engenharia de Produção, mesmo que o curso ainda não existisse no
Brasil (PIRATELLI, 2006).
Se, nos Estados Unidos, Frederick Taylor é considerado o precursor
da Engenharia de Produção (lá conhecida como Engenharia Industrial),
no Brasil quem recebe este título é o professor Ruy Aguiar da Silva Leme.
Foram suas as iniciativas e ações que tornaram possível trazer a Enge-
nharia de Produção para o país, de modo a implantá-la efetivamente na
Universidade de São Paulo – USP, sob sua coordenação.
Primeiramente, o curso oferecido funcionou no nível de doutorado,
pois o Conselho não considerava a área de Produção uma verdadeira enge-
nharia, a ponto de ser necessário um curso de graduação. Contudo, a procura
pelo curso de extensão foi tal que superou todas as outras áreas oferecidas.
Isso levou a USP a considerar que, se ela não formasse Engenheiros de
Produção na graduação, outra universidade o faria. Nasce então, em 1958,
o primeiro curso de Engenharia de Produção com ênfase na Engenharia
Mecânica, ministrado aos alunos do 4º. ano, uma vez que os três primei-
ros eram básicos e comuns à especialidade. Em 1960 forma-se a primeira
turma, quase toda absorvida pela multinacional Olivetti (empresa italiana,
fabricante de computadores, impressoras e outros equipamentos). Uma
década depois, seguindo esse mesmo exemplo, a Faculdade de Engenharia
Industrial (FEI) de São Bernardo do Campo abriu o seu curso em 1967
(CONFEA, 2010; PIRATELLI, 2006).
As ações do professor Ruy Leme para a criação do curso de Enge-
nharia de Produção na Escola Politécnica da USP foram impulsionadas
pela forte mudança no mercado de trabalho, provocada pela instalação de
diversas multinacionais (mais especificamente a instalação das indústrias
automobilísticas na região do ABC paulista) e pelo fortalecimento das
estatais, ocorrido no país na década de 1950. Isso ocasionou uma grande

– 145 –
Introdução à Engenharia da Produção

procura por administradores profissionais, praticamente inatendida no que


se referia a cursos superiores, além da demanda já referida de Engenheiros
de Produção, uma vez que as empresas, especialmente as norte-america-
nas, ofereciam em suas matrizes posições que eram ocupadas por “Indus-
trial Engineers”, como os departamentos de Tempos e Métodos, de Plane-
jamento e Controle de Produção, de Controle de Qualidade, entre outros
(FAÉ; RIBEIRO, 2005).
No cenário atual, de acirrada competitividade e integração entre
os mercados globais, de grande procura por produtos de alta qualidade
e com desperdício zero, é visível a necessidade de profissionais capaci-
tados para tais desafios. Neste sentido, o Engenheiro de Produção vem
ganhando destaque, tendo um papel fundamental nas empresas, quer
sejam do ramo da indústria, quer sejam do comércio ou serviços. No
Brasil, a realidade não é diferente e, com isso, várias instituições de
ensino passaram a oferecer o curso de Engenharia de Produção, tanto
da modalidade presencial quanto na modalidade a distância (PIRATE-
LLI, 2006).
No Brasil, foi adotado o termo Engenharia de Produção, em vez
de Engenharia Industrial, como escolhido pela Europa e pelos Esta-
dos Unidos, visando à diferenciação deste curso de engenharia dos
cursos técnicos industriais de nível médio que já existiam na época. A
denominação brasileira procura adequar a formação e as atribuições
do engenheiro que se propôs a se formar, uma vez que o engenheiro
de produção tem que entender como estruturar um sistema de produ-
ção. É muito comum também que as escolas de engenharia que ofere-
cem o curso de Engenharia de Produção definam uma habilitação com
“ênfase” em certas áreas. As mais comuns são Engenharia de Produção
Mecânica, Engenharia de Produção Química, Engenharia de Produção
Civil, Engenharia de Produção Agroindustrial, Engenharia de Produ-
ção de Software, Engenharia de Produção Têxtil, entre outras. O obje-
tivo destas ênfases é fornecer uma base de conhecimentos técnicos
e científicos que permitam uma boa atuação do profissional em dife-
rentes setores de atividades (OLIVEIRA NETTO; TAVARES, 2006;
BATALHA, 2008).

– 146 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

6.3.1 A Engenharia de Produção e


respectivas áreas de atuação
A definição mais utilizada de Engenharia de Produção é a da Ame-
rican Industrial Engineering Association, modificada por Batalha (2008):
A Engenharia de Produção trata do projeto, aperfeiçoamento e
implantação de sistemas integrados de pessoas, materiais, informa-
ções, equipamentos e energia, para a produção de bens e serviços,
de maneira econômica, respeitando os preceitos éticos e culturais.
Tem como base os conhecimentos específicos e as habilidades
associadas às ciências físicas, matemáticas e sociais, assim como
aos princípios e métodos de análise da engenharia de projeto para
especificar, predizer e avaliar os resultados obtidos por tais siste-
mas (BATALHA, 2008).

Percebe-se que é uma definição bem densa e bem ampla. Por esse
motivo, a Engenharia de Produção possui diversas áreas de atuação.
Mesmo estando muitas vezes associada a outras engenharias, ela vem, aos
poucos, ganhando o seu espaço no mercado de trabalho devido a seu cará-
ter menos técnico e mais abrangente e genérico, possibilitando englobar
conhecimentos e habilidades.
Nas empresas, após a graduação, o profissional engenheiro de produ-
ção poderá atuar em diversas áreas, das quais se destacam:
2 área de operações – na execução da distribuição dos produtos,
controle de suprimentos, controle de estoque;
2 área de planejamento – o profissional pode ser inserido em
todos os processos de planejamento, seja ele estratégico, produ-
tivo ou financeiro;
2 área financeira – no controle financeiro, de custos e na análise
de investimentos;
2 área de logística – no planejamento da produção e da distribui-
ção dos produtos;
2 área de marketing – no planejamento do produto e na determi-
nação de mercados a serem atendidos.

– 147 –
Introdução à Engenharia da Produção

As opções para o engenheiro de produção são bem diversificadas.


Além dos mercados mais tradicionais, como empresas e empreendimentos
industriais altamente instáveis e dependentes da estabilidade econômica,
novos setores e áreas da economia começaram a se interessar por esse
profissional. O dinamismo é o ponto em comum entre as áreas de finan-
ças, administração, telecomunicações, empreendedorismo, informática e
internet, e tem atraído esse profissional para setores mais incomuns, que
costumam crescer mesmo quando a economia permanece estagnada (OLI-
VEIRA NETTO; TAVARES, 2006).
Alguns profissionais muitas vezes confundem a Engenharia de Pro-
dução com a Administração de Empresas. Entretanto, enquanto a enge-
nharia centraliza-se na gestão dos processos produtivos, a administração
de empresas foca na gestão dos processos administrativos, de negócios e
na organização estrutural da empresa. Segundo a Abepro (1998):
Compete à Engenharia de Produção o projeto, a implantação, a opera-
ção, a melhoria e a manutenção de sistemas produtivos integrados de
bens e serviços, envolvendo homens, materiais, tecnologia, informa-
ção e energia. Compete ainda especificar, prever e avaliar os resulta-
dos obtidos destes sistemas para a sociedade e o meio ambiente, recor-
rendo a conhecimentos especializados da matemática, física, ciências
humanas e sociais, conjuntamente com os princípios e métodos de
análise e projeto da engenharia. (ABEPRO, 1998).

Quem foi Ruy Aguiar da Silva Leme?

Vamos saber um pouco mais sobre o pai da Engenharia de Pro-


dução no Brasil?

Ruy Aguiar da Silva Leme nasceu em 1925, na cidade de São


Paulo. Era formado em Engenharia e começou sua carreira na
Associação Brasileira de Cimento Portland. Após algum tempo,
resolveu trabalhar por conta própria, montando seu próprio
escritório, que fornecia serviços de cálculo de concreto, além de
prestar assessoria para grandes empresas.

Simultaneamente ao exercício da Engenharia, desenvolveu impor-


tante carreira acadêmica, sendo o responsável pela criação do pri-
meiro curso de Engenharia de Produção na Universidade de São

– 148 –
As engenharias e a Engenharia de Produção

Paulo (USP). Após a morte de seu sogro e grande mestre – pro-


fessor Carlos Vanzolini – mudou-se para a Faculdade de Ciências
Econômicas e Administrativas, da qual foi diretor. Seu foco maior
de atuação foi voltado à iniciativa privada, mantendo relações dis-
tantes e esporádicas com a Administração Pública. Por essa razão,
foi membro do grupo de planejamento responsável pelo gerencia-
mento dos recursos provenientes da arrecadação do imposto sobre
vendas e consignações, durante o governo de Carlos Alberto Alves
de Carvalho Pinto, no estado de São Paulo. Por causa da partici-
pação nesse grupo, foi levado ao cargo de chefe de assessoria eco-
nômica do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) e, posterior-
mente, à direção da Carteira de Expansão Econômica.

Já no governo de Humberto de Alencar Castelo Branco, Ruy


Leme foi nomeado membro do Conselho Consultivo de Plane-
jamento (Consplan). Em 1967, no início do governo Artur da
Costa e Silva, Antônio Delfim Netto foi nomeado ministro da
Fazenda e convidou Ruy Leme para ocupar o cargo de presi-
dente do Banco Central do Brasil (BCB). O ambiente econômico
do país, quando de sua posse, em 30 de março de 1967, era de
recessão e inflação. Com o objetivo de contribuir para o fim da
retração econômica, foi o principal responsável pela elabora-
ção das Resoluções 51 a 88, aprovadas pelo Conselho Mone-
tário Nacional (CMN), que deram início à reforma do sistema
financeiro, em 1965. Essas iniciativas visavam à redução dos
custos bancários e à melhor distribuição das redes de agências
e encontraram boa recepção no setor financeiro. Mas aquelas
que pretendiam impor algumas diretrizes para a liberação de
crédito, obrigando as instituições financeiras a destinar parte
de seus empréstimos para empresas nacionais e para o crédito
agrícola, despertaram grande insatisfação. Essa insatisfação,
segundo seu entendimento, constituiu a raiz das pressões que
levaram à sua saída do BCB, em 9 de fevereiro de 1968. Após
muitos anos, veio a falecer em 22 de dezembro 1997.

Fonte: Banco Central do Brasil, 2019.

– 149 –
Introdução à Engenharia da Produção

Síntese
Vimos neste capítulo as diversas especialidades de engenharia exis-
tentes no Brasil e como faz sentido a existência destas frente à multidisci-
plinaridade da profissão. Além disso, é praticamente impossível um único
indivíduo conseguir agregar conhecimentos sobre todas as engenharias.
Portanto, faz todo sentido compartimentar o conhecimento de acordo com
as diferentes áreas – Civil, Química, Mecânica, de Produção etc. Vimos
também que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep) classifica as engenharias em 8 grandes grupos, de
acordo com suas características.
Depois de explicados o nicho de mercado de trabalho e as atribui-
ções de cada engenharia, a Engenharia de Produção ganha destaque.
Passamos por sua história, desde seu surgimento como Engenharia
Industrial, nos Estados Unidos, pelas mãos de Henry Ford, passando
por vários períodos históricos, como a Segunda Guerra, até chegarmos
à Engenharia de Produção, no Brasil, onde merece destaque o professor
Ruy Aguiar da Silva Leme.

Atividades
1. O que é Engenharia de Produção?
2. Qual a diferença entre Engenharia de Produção e Administração
de Empresas?
3. O engenheiro Henry Ford foi o primeiro a adotar as ideias pro-
pagadas por Taylor. Qual foi o novo conceito criado em 1913
por Henry Ford e que revolucionou o processo de produção exis-
tente, em virtude do grande aumento de produtividade?
4. Qual sistema de produção é caracterizado por produzir peque-
nos lotes de uma grande variedade de produtos, demostrando
sua flexibilidade?

– 150 –
7
Engenharia e legislação

O objetivo deste capítulo é apresentar alguns conceitos de


legislação importantes para a atividade profissional do enge-
nheiro. É muito comum que engenheiros só tomem conheci-
mento da legislação necessária para a realização de sua atividade
quando já estão inseridos no mercado de trabalho. Com isso, aca-
bam enfrentando situações e cenários que poderiam ser evitados
ou facilmente resolvidos se dispusessem deste conhecimento.
Além disso, está previsto em nossa legislação que o desconheci-
mento da norma jurídica não é justificativa para as falhas come-
tidas. Por esse motivo, é preciso que os profissionais da área de
engenharia compreendam as normas jurídicas que lhe são neces-
sárias (AQUINO, 2014).
Introdução à Engenharia da Produção

A seguir serão relacionados e comentados, portanto, alguns docu-


mentos legais necessários ao conhecimento do profissional, no início de
sua carreira, para que tenha condições adequadas de atuar com eficiência
e segurança. O intuito dessa abordagem é alertar o engenheiro acerca
dos aspectos legais de sua profissão, bem como mostrar a relevância
do tema para sua carreira, uma vez que o levará a bons termos em seus
contratos de trabalho e lhe capacitará a saber organizar, documentar e
instruir seus representantes ou advogados quando uma ação judicial se
tornar necessária.

7.1 Legislação profissional de


engenheiros e arquitetos
No Brasil, foi no ano de 1933, durante o governo de Getúlio Vargas,
que ocorreu a promulgação do Decreto Federal n. 23.569, responsável por
regulamentar as profissões de Engenheiro, Arquiteto e Agrimensor, além
de instituir os Conselhos Federal e Regionais de Engenharia e Arquitetura.
Em 24 de dezembro de 1966 foi publicada a Lei n. 5.194, que substi-
tuiu o Decreto Federal n. 23.569, fazendo diversas alterações. Entre elas:
2 a Agronomia passa a integrar os Conselhos Federais e Regionais;
2 a composição dos Conselhos é alterada de dez para dezoito
membros;
2 os presidentes passam a ser escolhidos por eleição, extinguindo
o processo de designação deste cargo pelo Poder Público;
2 foram criadas as câmaras especializadas nos Conselhos Regio-
nais de Engenharia e Arquitetura – Creas;
2 as empresas passam a ser registradas nos conselhos;
2 passa a ser responsabilidade do Conselho Federal de Engenha-
ria, Arquitetura e Agronomia – Confea – baixar resoluções;
2 o salário mínimo profissional é assegurado;
2 as profissões são caracterizadas em razão do interesse social.

– 152 –
Engenharia e legislação

É importante destacar outras legislações que também versam sobre a


profissão de engenheiro. São elas: Decreto Lei n. 241, de 27 de janeiro de
1967, que inclui a profissão de engenheiro de operação entre as profissões
reguladas pela Lei n. 5.194, de 1966, e a Lei n. 6.619, de 16 de dezem-
bro de 1968, que altera dispositivos da Lei n. 5.194, de 24 de dezembro
de 1966, e dá outras providências. Existem outros diplomas legais que
introduzem algumas alterações. A Resolução n. 1.010, de 22 de agosto de
2005, do Confea, que estabelece normas para a atribuição de títulos pro-
fissionais, atividades e competências no âmbito da atuação profissional,
para efeito de fiscalização do exercício das profissões inseridas no Sistema
Confea/Crea, diferenciando as atividades inerentes a cada modalidade da
Engenharia, Arquitetura e Agronomia, tanto em nível superior quanto
médio, como podemos ver no trecho a seguir de Brasil (2005):
Art. 5º Para efeito de fiscalização do exercício profissional dos
diplomados no âmbito das profissões inseridas no Sistema CON-
FEA/CREA, em todos os seus respectivos níveis de formação,
ficam designadas as seguintes atividades, que poderão ser atribu-
ídas de forma integral ou parcial, em seu conjunto ou separada-
mente, observadas as disposições gerais e limitações estabelecidas
nos arts. 7º, 8°, 9°, 10 e 11 e seus parágrafos, desta Resolução:
Atividade 01 – – – – – – – Gestão, supervisão, coordenação, orien-
tação técnica;
Atividade 02 – – – – – – – Coleta de dados, estudo, planejamento,
projeto, especificação;
Atividade 03 – – – – – – – Estudo de viabilidade técnico-econô-
mica e ambiental;
Atividade 04 – – – – – – – Assistência, assessoria, consultoria;
Atividade 05 – – – – – – – Direção de obra ou serviço técnico;
Atividade 06 – – – – – – – Vistoria, perícia, avaliação, monitora-
mento, laudo, parecer técnico, auditoria, arbitragem;
Atividade 07 – – – – – – – Desempenho de cargo ou função técnica;
Atividade 08 – – – – – – – Treinamento, ensino, pesquisa, desenvolvi-
mento, análise, experimentação, ensaio, divulgação técnica, extensão;
Atividade 09 – – – – – – – Elaboração de orçamento;
Atividade 10 – – – – – – – Padronização, mensuração, controle
de qualidade;
Atividade 11 – – – – – – – Execução de obra ou serviço técnico;

– 153 –
Introdução à Engenharia da Produção

Atividade 12 – – – – – – – Fiscalização de obra ou serviço técnico;


Atividade 13 – – – – – – – Produção técnica e especializada;
Atividade 14 – – – – – – – Condução de serviço técnico;
Atividade 15 – – – – – – – Condução de equipe de instalação, mon-
tagem, operação, reparo ou manutenção;
Atividade 16 – – – – – – – Execução de instalação, montagem,
operação, reparo ou manutenção;
Atividade 17 – Operação, manutenção de equipamento ou insta-
lação; e
Atividade 18 – – – – – – – Execução de desenho técnico (BRA-
SIL, 2005).

As legislações referidas apresentam diversas informações fundamen-


tais para o profissional engenheiro. Por exemplo: a legislação também
determina quem são os profissionais habilitados para exercer a profissão
de Engenheiro, Arquiteto e Engenheiro Agrônomo no Brasil. São eles: os
que possuem diploma de Engenharia, Arquitetura ou Agronomia, devida-
mente registrado, obtidos em faculdades ou escolas superiores oficiais ou
reconhecidas existentes no país; os que possuem diploma de faculdade ou
escola estrangeira de ensino superior de Engenharia, Arquitetura e Agrono-
mia devidamente revalidado e registrado no país; os que tenham esse exercí-
cio amparado por convênios internacionais de intercâmbio; os engenheiros
estrangeiros contratados de acordo com a escassez de profissionais de deter-
minada especialidade, visando ao interesse nacional, podem ter concedi-
dos títulos registrados temporariamente, a critério dos Conselhos Federal e
Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (BRAGA, 2007).
Além disso, as legislações pertinentes também destacam quais são os
empreendimentos que podem ser realizados por esses profissionais, des-
tacando: o aproveitamento e utilização de recursos naturais; o desenvol-
vimento de meios de locomoção e de comunicação; edificações, serviços
e equipamentos urbanos, rurais e regionais, tanto em suas configurações
técnicas quanto nas estéticas artísticas; nas instalações de meios de acesso
a costas, cursos, e massas de água e extensões terrestres e também no
desenvolvimento industrial e agropecuário (BRAGA, 2007).
As legislações também são responsáveis por apresentar os órgãos de
fiscalização do exercício e atividades das profissões (sua natureza jurí-

– 154 –
Engenharia e legislação

dica) relacionados ao exercício profissional de Engenharia, Arquitetura


e Agronomia. Nesse caso, destaca-se o Conselho Federal de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia (Confea) e os Conselhos Regionais de Engenha-
ria, Arquitetura e Agronomia (Creas). O Conselho Federal de Engenha-
ria, Arquitetura e Agronomia é o responsável pela instalação dos Conse-
lhos Regionais necessários à execução da legislação vigente nos estados,
Distrito Federal e Territórios Federais, sendo que o território de abran-
gência de ambos os Conselhos pode se estender a mais de um estado.
Novos Conselhos Regionais podem ser criados com base em propostas
da maioria das entidades de classe e escolas ou faculdades com sede na
nova Região, cabendo aos Conselhos atingidos pela iniciativa opinar e
encaminhar a proposta à aprovação do Conselho Federal. Esses órgãos de
fiscalização são entidades de direito público independentes, criadas por
lei, e que exercem determinadas funções delegadas pelos Estados. Esses
órgãos possuem poder de limitar a liberdade individual, a fim de preservar
os interesses coletivos de tributar e de punir quando se trata do exercí-
cio da profissão. Por serem entidades de direito público, submetem-se ao
regime jurídico licitatório (BRAGA, 2007). A seguir, serão apresentadas
mais informações a respeito do Confea e do Crea.

7.2 Conselho Federal de Engenharia,


Arquitetura e Agronomia (Confea)
O Confea foi criado em 1933 para garantir que o brasileiro tivesse
oportunidades no mercado de trabalho, e passou por diversas nomenclatu-
ras e inclusões de carreiras. De Conselho Federal de Engenharia, Arquite-
tura e Agrimensura, teve esta última substituída pela Agronomia em 1966.
A Geologia foi agregada em 1962, e as Técnicas Industrial e Agrícola, em
1968, ao passo que a Geografia e a Meteorologia foram incorporadas em
1979 e 1980, respectivamente (CONFEA, 2013).
Entretanto, é um evento de 2010 que realmente marca esse conse-
lho. A categoria de arquitetos e urbanistas brasileiros desejava, há muito
tempo, a desvinculação dessa profissão do sistema Crea/Confea, em busca
da criação de um conselho próprio de fiscalização profissional. Desde a
década de 50, profissionais de Arquitetura e Urbanismo vêm tentando

– 155 –
Introdução à Engenharia da Produção

desvincular-se do então Conselho de Engenharia e Arquitetura, criado por


decreto em 1933. Com a aprovação da Lei n. 12.378, de 31 de dezembro
de 2010, surgia o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/
BR), que entrou em vigor com a posse do Presidente e dos Conselheiros, e
veio a ocorrer com os técnicos industriais e agrícolas, em virtude da Lei n.
13.639, de 26 de março de 2018, que criou o Conselho Federal dos Técni-
cos Industriais, o Conselho Federal dos Técnicos Agrícolas, os Conselhos
Regionais dos Técnicos Industriais e os Conselhos Regionais dos Técni-
cos Agrícolas (CONFEA, 2020). Assim, o sistema Confea/Crea passa a
definir as atribuições e a conceder registro profissional para os graduados
em mais de 300 títulos profissionais de engenharia, além de agrônomos,
meteorologistas, geógrafos e geólogos – técnicos e tecnólogos (GARCIA;
OLIVEIRA; NUNES, 2012; CONFEA, 2020).
A primeira sede do Confea foi a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio
de Janeiro. Dois anos depois, em 1935, passou a ocupar duas salas do Edifício
Rex, no centro da cidade, e, em 1938, foi transferida para o Ministério do
Trabalho. Em 1976 foi inaugurada a sede em Brasília, que ocupa até os dias
de hoje o Bloco B da quadra 508, da Avenida W3 Norte (CONFEA, 2013).
O Confea é responsável por sessões plenárias frequentes, além da
realização de encontros dos profissionais, tanto nas Semanas Oficiais da
Engenharia e da Agronomia, quanto nos Congressos Regionais e Nacional
de Profissionais. São nesses encontros que muitos debates e propostas sur-
gem e que muitas decisões são tomadas. Todos os temas levantados refle-
tem o pensamento de parte significativa dos profissionais atuantes no Bra-
sil, o que aumenta a responsabilidade dos dirigentes do Sistema Confea/
Crea para que correspondam às expectativas geradas por um movimento
que chega a reunir milhares de participantes (CONFEA, 2013).
O Sistema Confea/Crea também atua juntamente às transformações
sociais e, ao longo de sua história, sofreu várias modificações e adapta-
ções, acompanhando o surgimento de instituições de ensino e agregando
novas atividades profissionais que surgem em função das descobertas
científicas/tecnológicas (CONFEA, 2013).
Foram as características político-econômicas da década de 1930,
quando era predominante a intervenção do Estado na economia, que faci-

– 156 –
Engenharia e legislação

litaram a criação destes sistemas autônomos que garantiriam a inscrição


de profissionais com condições definidas em lei e a fiscalização do exercí-
cio profissional. Conforme Confea (2013):
[...] a República contratava engenheiros, criava órgãos para atuar
no setor econômico e iniciava a regulamentação da atividade pro-
dutiva. Por meio da Constituição de 1934, o direito administrativo
brasileiro se estrutura e a expressão “a bem do serviço público” se
torna um dogma. A nova Carta Magna atribui à União a competên-
cia privativa de legislar sobre condições para o exercício de profis-
sões liberais e técnico-científicas. E promoveu a regulamentação
do exercício profissional, espírito que seria retomado pela Carta de
1946. Espírito, paradoxalmente, associado ao “sistema de freios e
contrapesos” do processo democrático em sua “descentralização”.
Assim, o exercício do controle por diversos “centros de poder”
estimulou a criação, por atos infraconstitucionais, de autarquias,
entidades autônomas, que garantiriam a inscrição de profissionais
com condições definidas em lei e a fiscalização do exercício pro-
fissional (CONFEA, 2013).

É por esse motivo que, nessa mesma época, foram criados o Conse-
lho Federal de Comércio Exterior, o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), o Departamento Administrativo do Serviço Público
(Dasp), o Código das Águas e o de Minas, o Conselho Nacional de Petró-
leo, e o de Águas e Energia Elétrica (CONFEA, 2013).
A instituição do Estado Novo, de 1937 a 1945, e a Segunda Guerra
Mundial, de 1939 a 1945, fortaleceram ainda mais as corporações, faci-
litando a criação da Companhia Siderúrgica Nacional e da Companhia
do Vale do Rio Doce (hoje, Vale). Isso levou a um intenso processo de
modernização, que acabou modificando os hábitos e o dia a dia da socie-
dade brasileira. O país, cuja massa trabalhadora consistia basicamente em
agricultores, passou a agregar a figura do operário, trazido pela indústria.
Por esse motivo, esse período é marcado por sérias dificuldades, boa parte
delas com reflexos no abastecimento, com escassez de alimentos, petróleo
e gasolina, por exemplo (CONFEA, 2013).
Diante da nova realidade econômica do país, o Confea se deparou
com a falta de profissionais capacitados e se viu diante do surgimento de
novos títulos profissionais, como o de Engenheiro Naval, Aeronáutico,
Químico, Metalúrgico e Urbanista. Além disso, teve ainda que lidar com a

– 157 –
Introdução à Engenharia da Produção

questão dos técnicos estrangeiros que vieram para o país durante a guerra,
com necessidade de atualização na legislação profissional, com a criação
de novas atribuições e com mudanças na escolha do presidente do Confea
– hoje escolhido pelo voto direto (CONFEA, 2013).
A Campanha lançada pelo presidente Getúlio Vargas, em 1948, que
acabou tendo como slogan “O Petróleo é Nosso”, encontrou apoio no
Sistema Confea/Crea, principalmente devido à expansão das atividades
profissionais, como o surgimento da primeira emissora de televisão, a TV
Tupi, em 1951, e do então BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento),
de 1952 (CONFEA, 2013).
Os anos de bom desempenho econômico devido à criação da Petro-
bras, a alta produção de alimentos, novas siderurgias, a expansão da malha
rodoviária e a construção e inauguração de Brasília marcaram as décadas
de 1950 e 1960, levando o país a mudanças nos padrões de comporta-
mento, de consumo e a intensas transformações sociais. Na década de
1960, o país também atravessa um cenário político agitado. Destaca-se
a renúncia do presidente da República, Jânio Quadros, a posse de João
Goulart, o regime Parlamentarista, a criação da Eletrobras, da Embratel,
do Ministério do Planejamento e da Federação Nacional dos Engenhei-
ros, a regulamentação da profissão de Geólogo, o golpe militar, a cria-
ção da Federação das Associações de Engenheiros Agrônomos (que até
aquele momento era denominada Sociedade de Agronomia), e a instalação
de novos Creas – tudo isso tem um impacto profundo no Confea e na
profissão de engenheiro. A própria legislação (Lei 5.194, de 1966) vem
para modernizar e acompanhar o desempenho do sistema Confea/Crea da
época (CONFEA, 2013).
No início da década de 1970, o grande desenvolvimento econômico
levou à construção da Rodovia Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da
Hidrelétrica de Itaipu, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) e da Embratel. No âmbito do Sistema Confea/Crea, destaca-se
a adoção do Código de Ética para os profissionais na engenharia. Entre-
tanto, o panorama econômico sofre alterações em meados dos anos 1970,
com a crise do petróleo. Profissionais da área de tecnologia (Engenharia
inclusa) sofrem com a desaceleração do crescimento, impulsionada pelo
alto endividamento externo do país e pela inflação. Enquanto isso, Creas

– 158 –
Engenharia e legislação

são desmembrados das regiões, passando a ter a sigla do estado a que


pertence, e é autorizada a criação da Mútua, caixa de assistência sem fins
lucrativos, criada pelo Confea, pela Resolução n. 252, de 17 de dezembro
de 1977 (CONFEA, 2013).
A década de 1980 é marcada por atos políticos, e a população vai às
ruas reivindicar, sem sucesso, eleições diretas para presidente da República.
Nesse cenário, o Confea aderiu à campanha pela Constituinte, apoiando a
Assembleia Nacional Constituinte, que defendia a saída dos militares do
poder. A mobilização resultou na participação de representantes do Sistema
na comissão encarregada de elaborar o novo texto da Constituição. O sis-
tema também buscou evitar a entrada indiscriminada de técnicos no país e a
regularização indiscriminada de novas profissões; a devolução de autonomia
aos conselhos profissionais ainda eram os temas da pauta reivindicatória de
então. É quando entra em atividade a primeira unidade operadora da Itaipu
Binacional e ocorre a fundação da Associação Nacional de Engenharia de
Segurança do Trabalho (Anest) (CONFEA, 2013).
Nesta década, o Confea passou também a ter representantes em comis-
sões do Ministério da Educação. O ano de 1986 foi especial para a política
e a economia brasileiras. O sistema Confea/Crea passou a ter um presidente
eleito. Ainda é desse ano a defesa da Empresa Brasileira de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Emater), ameaçada de desmonte com o corte
de recursos por parte do governo. O ano de 1989 foi marcado pela escolha
de Fernando Collor de Melo para a Presidência da República, na primeira
eleição direta depois do fim da ditadura militar. É quando também foi criada
a Federação Nacional dos Técnicos Industriais (Fentec) (CONFEA, 2013).
Na década de 1990, o Confea, atento ao tema da sustentabilidade
ambiental, teve participação importante na Rio92, e, 20 anos depois, mar-
cou presença na Rio+20, realizada na mesma cidade, conjugado com a
participação da Federação Brasileira das Associações de Engenheiros
(Febrae) (CONFEA, 2013).
O sistema Confea/Crea está sempre em constante evolução para
acompanhar as mudanças ocorridas no mundo e na profissão de enge-
nheiro em si. Unificação e modernização têm sido palavras frequentes no
momento atual destes conselhos.

– 159 –
Introdução à Engenharia da Produção

7.3 Sistema de trabalho do engenheiro


A graduação, em faculdades/universidades reconhecidas, confere ao
profissional o título de engenheiro e indica que ele está apto a desenvolver
atividades próprias de sua formação. É o registro profissional no sistema
Confea/Crea que habilita e qualifica o profissional para o pleno exercício
de sua atividade. Porém, o engenheiro, assim como muitos outros pro-
fissionais, não trabalha sozinho. Ele faz parte de um sistema de trabalho
composto por, pelo menos, cinco elementos básicos: o profissional, o
cliente, o Poder Público, o serviço e a remuneração. Cada um desses ele-
mentos possui um papel nesse sistema de trabalho, sendo estes:
2 o profissional – é o engenheiro. É aquele detentor de formação téc-
nica, de conhecimento científico especializado em determinado
assunto, que domina os métodos, estratégias e procedimentos para
atuar e intervir no ambiente, no sentido de transformá-lo em prol do
bem-estar social do homem. Como profissional, o engenheiro
deve procurar atender e satisfazer as necessidades do cliente,
atuando como agente do desenvolvimento na comunidade. O
engenheiro poderá atuar profissionalmente como autônomo (pro-
fissional liberal), como empregado (quando existe um vínculo
empregatício contínuo com uma empresa pública ou privada) e
como empresário (quando sócio ou diretor de uma empresa de
prestação de serviços).
2 o cliente – é a pessoa física ou jurídica que necessita de algo ou de
algum serviço em que é necessária a atuação de um engenheiro.
O cliente é a razão da sua prática profissional, podendo apresen-
tar-se como um cliente eventual, para um fim específico e tem-
porário, ou como um cliente empregador, com o qual manterá
vinculação empregatícia permanente e de dependência.
2 o poder público – é formado pelo conjunto de entidades que
administram o sistema socioeconômico do país e que contro-
lam o processo de desenvolvimento, por meio da exigência de
normativas para garantir o bom funcionamento do sistema de
trabalho. O poder público atua como regulador em ambos os
lados: tanto para o profissional quanto para o cliente. No pri-

– 160 –
Engenharia e legislação

meiro caso, é responsável pela regulamentação e fiscalização,


para garantir um serviço de qualidade, dando garantias mínimas
ao cliente conforme estabelece o Código de Defesa do Consu-
midor – CDC. No segundo, age sobre os clientes, no sentido
de assegurar ao profissional remunerações mínimas com base
em Tabelas de Honorários Profissionais Mínimos, fixadas pelas
entidades de classe e registradas no Crea.
2 o serviço – é o ato realizado pelo profissional, a pedido do
cliente. Divide-se em eventuais – que são aqueles decorren-
tes de um contrato temporário e finito – e permanentes – que
são aqueles que ocorrem quando existe vínculo profissional,
quando uma relação (patronal/profissional) é estabelecida por
tempo indeterminado.
2 a remuneração – valor atribuído ao serviço realizado. Depende
do tipo de relação contratual estabelecido entre profissional e
cliente, podendo funcionar das seguintes formas: honorários
(valor tabelado pago ao profissional autônomo por determi-
nado serviço), salário (piso salarial mínimo estabelecido por lei
de 6 salários mínimos por uma jornada de 6 horas diárias), ou
lucro (remuneração não pré-fixada do capital (e não do trabalho)
advinda do seu risco).

7.4 As responsabilidades do
profissional engenheiro
O vasto conjunto de atividades profissionais dos engenheiros engloba
atividades que são responsáveis pelo fornecimento de bens e serviços à
sociedade, abrangendo todo o processo produtivo, bem como pelas carac-
terísticas do produto final ou que atuam sobre o interesse e a propriedade
– pública ou privada – sobre o meio ambiente, sobre as relações interpes-
soais, causando impactos sociais, financeiros ou econômicos aos envolvi-
dos (AVILA, 2000).
No exercício diário da engenharia surgem responsabilidades que se
enquadram em modalidades distintas: técnica ou ético-profissional, civil,

– 161 –
Introdução à Engenharia da Produção

penal ou criminal, ambiental, administrativa e trabalhista. Essas respon-


sabilidades são independentes umas das outras, podendo decorrer de fatos
ou atos distintos, ou ainda de um mesmo fato ou ato ligado à atividade que
o profissional está exercendo.
Utilizando como exemplo o engenheiro civil responsável por um pré-
dio, no caso do desabamento dessa obra, por motivo de imperícia, impru-
dência ou negligência, e que venha a provocar prejuízos a terceiros ou
lesões nos operários em serviço, o engenheiro poderá ser enquadrado em
várias modalidades de responsabilidade (CREA-BA, 2005). Além disso,
ele será passível de diversas penalidades, descritas pelo Crea-BA (2205),
tais como:
1. punição no nível profissional, pelo descumprimento da legisla-
ção específica e/ou Código de Ética (responsabilidade técnica);
2. reparação dos prejuízos causados ao cliente e a terceiros, se hou-
ver (responsabilidade civil);
3. punição criminal pela comprovação da culpa ou dolo (responsa-
bilidade penal);
4. indenização aos operários acidentados (responsabilidade traba-
lhista).
Veremos cada uma dessas modalidades mais detalhadamente a seguir.

7.4.1 A responsabilidade técnica


ou ético-profissional
A responsabilidade técnica ou ético-profissional é aquela estabele-
cida entre o profissional e o Poder Público por meio do Sistema Confea/
Crea em função e autorização legal. Significa que, quando houver uma
infração nesta área, o Poder Público e, por extensão, a população, se sen-
tem lesados (CREA-BA, 2005).
Profissionais responsáveis por realizar atividades específicas, como é
o caso das áreas de engenharia, assumem a responsabilidade por tudo o que
realizarem. Exemplos: um engenheiro agrônomo que projeta determinado
cultivo especial de feijão será o responsável técnico desse cultivo; um

– 162 –
Engenharia e legislação

engenheiro civil que projeta um prédio será o responsável técnico desse


prédio. Toda obra ou serviço executado pelo profissional está sujeito à
Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), que funciona quase como
um contrato entre profissional e cliente, garantindo as responsabilidades
de ambos. No caso do profissional, a responsabilidade técnica é regida
pelo respeito das normas e da relação com os clientes, pelos profissionais
e suas empresas. No caso de infrações, existem legislações específicas –
Lei 5.194 de 1966, Lei 6.496 de 1977, Resoluções do Confea, Código de
Ética – que também são responsáveis por estabelecer as penas cabíveis
(ANDAV, 2015; CREA-BA, 2005).

7.4.2 A responsabilidade civil


A responsabilidade civil pode ser definida como a consequência jurí-
dica da violação de um dever ou direito, que acabou acarretando um dano
a outra(s) pessoa(s). Na ocorrência de um dano, surge o dever de reparar a
vítima, que deve receber uma compensação, não só pelo prejuízo efetivo,
mas também por aquilo que ela deixou de ganhar durante o período (OLI-
VEIRA, 2016).
O profissional tem responsabilidade de arcar com esse prejuízo
quando for considerado culpado. O Código Civil Brasileiro é quem define
tais ocorrências e seus efeitos. Nestes casos, a responsabilidade civil varia,
em função do problema, a partir da entrega da obra/serviço, podendo limi-
tar-se a seis meses, cinco anos ou pode chegar a perdurar por 20 anos. A
responsabilidade civil abrange vários itens, como a realização e cumpri-
mentos de contratos e locação de serviços; o relacionamento em condomí-
nios; os vícios ocultos em obras; bem como a reparação dos danos devido
à ocorrência de atos ilícitos praticados tanto sob sua ordem como a de seus
subordinados. No caso de obras de construção civil, estão inclusos itens
de execução, solidez e segurança, escolha de materiais, danos a vizinhos e
prejuízos a terceiros (AVILA, 2000; CREA-BA, 2005).
A responsabilidade civil pode ser objetiva ou subjetiva. Na objetiva,
basta a existência de uma relação direta entre causa do dano, seu efeito
e o agente causador. Por exemplo: se ocorrer a queda de um muro de
contenção de uma obra sobre um prédio vizinho, a responsabilidade é da

– 163 –
Introdução à Engenharia da Produção

construtora responsável pela obra. Porém, esta pode incutir a culpa no


engenheiro, pois é ele que responde pela solidez e segurança da obra. Nos
dias atuais, é comum que o construtor seja um profissional técnico, ou
seja, um engenheiro ou arquiteto. Assim, o agente é responsabilizado sem
a necessidade de se provar a culpa (OLIVEIRA, 2016).
Já a responsabilidade civil subjetiva, que é mais comum nos proces-
sos contra engenheiros, é dependente de investigações e análise dos proje-
tos e dos processos executivos da obra. Se constatados erros de cálculo, a
responsabilidade é do engenheiro projetista. Se constatados erros na exe-
cução, a responsabilidade é do construtor (OLIVEIRA, 2016).

7.4.3 A responsabilidade penal ou criminal


Quando uma infração se caracteriza como crime ou contravenção,
o profissional acaba sendo criminalmente responsável, estando sujeito a
penas – de acordo com a gravidade do ato – que irão variar de mais graves
– como reclusão, detenção ou prisão simples (ou seja, a perda da liber-
dade) – a outras mais leves – como multas ou interdições (este último caso
leva à restrição do exercício de um direito ou de uma atividade). As infra-
ções são agravadas se forem cometidas deliberadamente pelo profissional,
se o agente causador tem conhecimento do risco de sua prática, ou quando
decorre de um ato de imprudência, imperícia ou negligência. Entretanto,
o mais comum na atividade profissional (inclusive de engenharia) são as
infrações culposas – aquelas que são cometidas sem a intenção do causa-
dor e sem o conhecimento do risco de sua prática (CREA-BA, 2005).
Merecem destaque determinados acidentes que levam a responsabi-
lidades penais. São eles: intoxicação ou morte por agrotóxico (pelo uso
indiscriminado de inseticidas na lavoura, sem a devida orientação e equi-
pamento); contaminação do ar, da água e do solo (provocada por vaza-
mentos e efluentes sem tratamento); crimes contra a incolumidade pública
(risco coletivo) dos crimes de perigo comum; incêndio (perigo à vida, à
integridade física ou ao patrimônio de outrem têm pena de reclusão de três
a seis anos, e multa); desabamento ou desmoronamento (também estabe-
lece perigo à vida, à integridade física ou ao patrimônio de outrem, e a
pena é reclusão de um a quatro anos, e multa) (ANDAV, 2017).

– 164 –
Engenharia e legislação

7.4.4 A responsabilidade ambiental


A preocupação da sociedade com o meio ambiente e com os efei-
tos que as obras de engenharia nele causam tem sido crescente. Obras
de terraplenagem, rodovias, aterros hidráulicos, hidrelétricas, linhas de
transmissão, unidades fabris, entre outros, causam um impacto ambien-
tal tão grande que não é mais aceitável que apenas biólogos ou enge-
nheiros especializados na área ambiental se preocupem com o assunto
– passou a ser de importância para todos os ramos de engenharia, o
que exige conhecimentos a respeito da legislação ambiental brasileira
(AVILA, 2000).
É importante que o engenheiro tenha algum conhecimento referente
a Lei n. 6.938, de 1981, responsável por estabelecer a Política Nacio-
nal de Meio Ambiente, que define que, para a execução de empreen-
dimentos/obras que causem impacto ambiental, deverão ser expedidas,
pelos órgãos competentes, a Licença Prévia, a Licença de Instalação e a
Licença de Operação. Em complementação a essa legislação, as Reso-
luções do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente – estabe-
leceram a realização dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e dos
respectivos Relatórios de Impacto Ambiental (RIA), nos quais são ava-
liados os impactos sobre o meio ambiente. São esses documentos que
irão determinar se alterações nos projetos são necessárias. A legislação
sobre o assunto é muito extensa e o seu total desconhecimento pode
causar limitações na implementação de empreendimentos, uma vez que
o conhecimento sobre o assunto é essencial já na fase inicial do projeto
(AVILA, 2000).

7.4.5 A responsabilidade administrativa


É o resultado das restrições impostas pelos órgãos públicos, por meio
do Código de Obras, Código de Água e Esgoto, Normas Técnicas, Regu-
lamento Profissional, Plano Diretor, entre outros. Essas normas legais
impõem diversas condições à atuação do profissional e criam responsa-
bilidades ao engenheiro, cabendo a ele, portanto, o conhecimento e, con-
sequentemente, o cumprimento das leis específicas à atividade que está
realizando (ANDAV, 2017).

– 165 –
Introdução à Engenharia da Produção

7.4.6 A responsabilidade trabalhista


Uma parcela expressiva dos profissionais formados em Engenharia e
Arquitetura irá gerenciar pessoas em alguma fase de suas carreiras. Deste
modo, serão responsáveis pelo relacionamento com seus funcionários
subordinados, por custos inerentes à utilização da mão de obra, sem se
esquecer que seus atos podem levar a ações trabalhistas futuras, as quais
podem alcançar quantias expressivas de dinheiro (AVILA, 2000).
Na responsabilidade trabalhista são englobadas quaisquer responsa-
bilidades decorrentes de relações contratuais ou legais, assumidas com
os empregados utilizados na realização de algum serviço, bem como as
obrigações acidentárias e previdenciárias, provenientes do trabalho. A
Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), criada em 1943 pelo decreto-
-lei n. 5.452, é a responsável por estabelecer a relação entre trabalhador
e empregador (Crea-BA, 2005) e, no seu artigo 2°, estabelece o seguinte:
Art. 2º Considera-se empregador a empresa, individual ou cole-
tiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite,
assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
§ 1º Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da
relação de emprego, os profissionais liberais, as instituições de
beneficência, as associações recreativas ou outras instituições sem
fins lucrativos, que admitirem trabalhadores como empregados.
§ 2o Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada
uma delas, personalidade jurídica própria, estiverem sob a dire-
ção, controle ou administração de outra, ou ainda quando, mesmo
guardando cada uma sua autonomia, integrem grupo econômico,
serão responsáveis solidariamente pelas obrigações decorrentes da
relação de emprego.
§ 3o Não caracteriza grupo econômico a mera identidade de sócios,
sendo necessárias, para a configuração do grupo, a demonstração
do interesse integrado, a efetiva comunhão de interesses e a
atuação conjunta das empresas dele integrantes (BRASIL, 1943).

Deste modo, a responsabilidade trabalhista irá abranger: direito ao


trabalho, remuneração, férias, licença-maternidade, descanso semanal e
indenizações, inclusive aquelas resultantes de acidentes que prejudicam
a integridade física do trabalhador. O profissional só assume esse tipo de
responsabilidade quando contratar empregados, pessoalmente ou através

– 166 –
Engenharia e legislação

de seu representante ou representante de sua empresa. Nas obras de servi-


ços contratados por administração, o profissional estará isento desta res-
ponsabilidade, desde que o proprietário assuma o encargo da contratação
dos operários. Entretanto, cabe ao Responsável Técnico garantir a segu-
rança dos profissionais ali envolvidos.

7.5 A Anotação de Responsabilidade


Técnica (ART)
Já falamos um pouco sobre a Anotação de Responsabilidade Técnica
(ART) anteriormente, por esse motivo este item aprofunda um pouco mais
sobre o tema. A ART é um documento em que o profissional registra as ati-
vidades técnicas para as quais foi contratado. Funciona como um contrato.
É formado por um formulário padrão, que deve ser preenchido por meio do
sistema Creanet Profissional. Esse preenchimento é de responsabilidade do
profissional devidamente habilitado e devidamente registrado no Crea do
estado onde for realizar o trabalho. Esse documento também serve para asse-
gurar à sociedade que determinado empreendimento/obra/planta industrial
se encontra sob a supervisão de um profissional que detém conhecimentos
especializados para essa atividade. Por conta disso, é este profissional que
assume os riscos oriundos da má execução e a responsabilidade pelos danos
que o empreendimento causar a terceiros, respondendo legalmente por isso.

7.5.1 Características e tipos de ARTs


É por meio desse documento que o responsável técnico pode registrar
no Crea do estado onde trabalha suas obras, serviços, cargos ou funções,
visando ao cadastramento de seu Acervo Técnico e a caracterização da res-
ponsabilidade técnica específica. A ART só é considerada válida quando
estiver cadastrada no Crea, quitada, possuir as assinaturas originais do pro-
fissional e do contratante, além de estar livre de qualquer irregularidade
referente às atribuições do profissional que a anotou (ANDAV, 2017).
As ARTs podem ser elaboradas de diversas maneiras, conforme apre-
sentado na Resolução 1.025/2009 do Confea, sendo as principais a por
cargo e função e a por prescrição, apresentadas a seguir:

– 167 –
Introdução à Engenharia da Produção

a) cargo e função – a ART de cargo ou função é relativa ao vín-


culo, na forma de contrato estabelecido, do profissional com a
pessoa jurídica. Para o desempenho do cargo ou função técnica,
deve ser registrada após a assinatura do contrato. Também pode
ser relativa ao vínculo contratual do profissional com a pessoa
jurídica para desempenho de cargo ou função técnica, em qual-
quer nível hierárquico, de acordo com as atribuições definidas
no respectivo contrato de trabalho, contrato social, plano de car-
reira, ou plano de cargos e salários (ANDAV, 2017).
b) prescrição – a receita agronômica (R.A.) é a prescrição e orien-
tação técnica de uso do defensivo agrícola por um profissional
capacitado e legalmente habilitado, que se responsabiliza pela
correta aplicação do produto na cultura/solo, para garantir a
segurança do aplicador, da cultura e da saúde pública. Como cada
estado possui características específicas para o preenchimento
dessa ART, não vamos nos aprofundar neste tema. O engenheiro
deve consultar as normativas específicas para o estado em que
está realizando a atividade (ANDAV, 2017).
Quando há a identificação da responsabilidade técnica pelas obras
ou serviços prestados, os profissionais e empresas passam a responder
diretamente a diferentes órgãos públicos, como o Ministério da Agricul-
tura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa), Bombeiros, Ministério do Meio Ambiente, Ministério
Público do Trabalho (MPT), Agência Nacional de Transportes Terrestres
(ANTT) e Exército.

7.5.2 A ART e o Crea


A ART é o mais importante instrumento de fiscalização do Crea, pois,
de acordo com o Crea-BA (2005), possibilita:
2 elaborar o acervo técnico dos profissionais, com base nos regis-
tros efetuados;
2 acompanhar a efetiva participação do responsável técnico nas
obras e serviços;

– 168 –
Engenharia e legislação

2 analisar os serviços dos profissionais, evitando a extrapolação de


atividades e o acobertamento;
2 efetuar a arrecadação por meio do pagamento de taxas;
2 manter cadastros atualizados dos profissionais e empresas em
suas especialidades e atividades.
Por meio da ART, o Crea obtém elementos para a elaboração de estudos
estatísticos, possibilitando o levantamento de um perfil da dinâmica profis-
sional do engenheiro na jurisdição em que ele está inserido, o que fornece
condições para ajustar periodicamente as atividades do Crea no sentido de
adequar seus serviços e programas às demandas de diversos setores de ativi-
dades profissionais. Além disso, é pela ART que o Crea passa a ter conheci-
mento da regularidade e legalidade das atividades técnicas de cada um desses
profissionais, em obras ou serviços de sua exclusividade, impedindo a ocor-
rência de irregularidades e do exercício ilegal da profissão. A arrecadação
decorrente das taxas pagas pelas ARTs também permite ao Crea promover
a continuidade dos serviços, inclusive mantendo um cadastro atualizado dos
profissionais e empresas e suas respectivas especialidades/atividades, benefi-
ciando tanto os profissionais quanto a comunidade (CREA-BA, 2005).
Com base nos registros das ARTs o Crea emite a Certidão de Acervo
Técnico (CAT), um documento oficial que detalha toda a atividade técnica
realizada pelo engenheiro durante sua vida profissional. A CAT funciona
quase como um comprovante para o currículo no que diz respeito a lici-
tações públicas, concursos ou comprovação de experiência junto a órgãos
oficiais. A ART também significa uma garantia do privilégio profissional
adquirido com a formação acadêmica, defendendo o mercado de traba-
lho do profissional e impedindo que leigos exerçam essa profissão ile-
galmente, bem como protegendo os direitos autorais de planos e projetos
elaborados pelo profissional (CREA-BA, 2005).
Além disso, o profissional também é beneficiado com o pagamento
das taxas ARTs, pois uma porcentagem desse valor é encaminhada aos
fundos da Mútua de Assistência dos Profissionais de Engenharia, Arqui-
tetura e Agronomia – instituição vinculada ao Confea que presta auxílio a
quem a ela for filiado e por meio de convênios com as Entidades de Classe
(CREA-BA, 2005).

– 169 –
Introdução à Engenharia da Produção

Também são repassados às entidades os percentuais do volume


arrecadado com as ARTs. Igualmente, de parte da arrecadação de ARTs,
são feitos convênios com entidades de classe (Associações de Profissio-
nais, Clubes de Engenharia), comprometendo-se estas a colaborar nos
programas de fiscalização e aprimoramento do exercício profissional. A
ART sempre representa a expressão fiel do contrato entre o profissional
e o seu cliente, estabelecendo os limites da responsabilidade no trabalho
que o primeiro se propôs a fazer, além de servir como documento hábil
para garantia da remuneração que lhe cabe pela obra ou serviço prestado,
mesmo que verbalmente, e, em contrapartida, assegura ao cliente a res-
ponsabilidade técnica e civil que o profissional terá sobre o serviço pres-
tado (CREA-BA, 2005).
O documento denominado Anotação de Responsabilidade Técnica
(ART), utilizado há mais de 30 anos, passou recentemente por atualiza-
ção, dando origem à Nova ART. Essa atualização reforçou a importân-
cia da ART, cujo objetivo é garantir à sociedade a realização de obras,
empreendimentos, projetos e serviços da área tecnológica por profissio-
nais habilitados.

Quem foi Alberto Costa? Conheça a


história de um dos presidentes do
Confea

Alberto Franco Ferreira da Costa nasceu em Curitiba no dia 9 de


dezembro de 1917, filho de Lisímaco Ferreira da Costa e de Ester
Franco da Costa. Seu irmão, Plínio Costa, foi deputado federal
pelo Paraná entre 1963 e 1966.

Estudou como interno no Ginásio Paranaense e, em seguida,


cursou a Escola de Engenharia do Paraná, pela qual se formou
Engenheiro Civil. Foi convocado para o serviço militar ativo,
em 1942, quando o Brasil declarou guerra aos países do Eixo.
Administrou a construção de novos edifícios no quartel do 15º
Batalhão de Caçadores, sediado em Curitiba, e, requisitado pelo
serviço de engenharia da 5ª Região Militar (5ª RM), planejou e

– 170 –
Engenharia e legislação

administrou a construção do quartel do Regimento de Cavalaria


Independente, sediado na cidade de Palmas (PR). Promovido a
capitão, deixou a ativa em 1946.

Ainda em 1946 fundou, com seu irmão Lisímaco, também enge-


nheiro, a firma Lisímaco da Costa & Irmão, da qual passou a
exercer a direção técnica e comercial. Em 1951, começou a lecio-
nar Geologia Econômica na Escola de Engenharia e tornou-
-se membro do Conselho de Engenharia e Arquitetura da 7ª
Região, cuja presidência exerceria de 1953 a 1957. Neste último
ano, desligou-se da Escola de Engenharia e, em julho de 1960
representou o Instituto de Engenharia do Paraná nas reuniões
realizadas no Rio de Janeiro para a alteração do estatuto do
Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura (Confea), cuja
diretoria veio a integrar algum tempo depois. Em 1961 foi dire-
tor do Banco Interamericano e diretor-presidente do jornal O
Correio do Paraná.

Ainda em 1961 tornou-se presidente da sua firma, já transfor-


mada em sociedade anônima, cargo que ocuparia até 1965. A
essa altura, a empresa era uma das maiores do setor de constru-
ção do Paraná, respondendo por serviços de consultoria e proje-
tos de engenharia nas rodovias que ligam Curitiba ao litoral e a
Ponta Grossa, e na ferrovia Curitiba-Paranaguá.

Foi chefe de gabinete da presidência da Petrobras de junho a


dezembro de 1963 e diretor de investimentos da Rede Ferrovi-
ária Federal de 1963 a 1964. Também foi presidente do Confea
em 1965, e em 1966 iniciou sua carreira política, em novembro,
quando foi eleito deputado federal pelo Paraná, por meio da
legenda da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de
sustentação ao regime militar instalado no país em abril de
1964. Assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte, rea-
lizou, durante essa legislatura, viagens à Europa e à América
do Norte para estudos relativos à política de transportes. Ree-
leito na legenda da Arena, em novembro de 1970, integrou a
Comissão de Transportes, Comunicações e Obras Públicas e foi

– 171 –
Introdução à Engenharia da Produção

suplente da Comissão de Orçamento. Deixou a Câmara Federal


em janeiro de 1975, não tendo disputado a reeleição em novem-
bro do ano anterior.

Foi ainda membro da Sociedade Brasileira de Geologia, da


Associação Rodoviária do Brasil, do Clube de Engenharia do
Rio de Janeiro, do Sindicato dos Engenheiros do Paraná e da
Associação Brasileira de Pavimentação.

Faleceu em Curitiba, no dia 8 de novembro de 1990.

Fonte: FGV (2020).

Síntese
Vimos neste capítulo como o conhecimento a respeito da legislação
nacional é importante para o exercício profissional do engenheiro, não
importando a modalidade de engenharia em que ele atua. Vimos como o
sistema Confea/Crea auxiliou no processo de evolução jurídica da Enge-
nharia no país para superar todos os obstáculos econômicos e sociais que
se apresentaram ao longo da história, participando como agência de fisca-
lização da profissão.
Também vimos que o engenheiro possui várias responsabilidades em
relação a seus empreendimentos/suas obras/ sua atuação de trabalho, sejam
elas técnicas ou ético-profissionais, civis, penais ou criminais, ambientais,
administrativas e trabalhistas. É uma profissão que deve ser levada a sério,
pois qualquer erro pode prejudicar o ambiente, as pessoas e a sociedade
– e o engenheiro irá responder judicialmente por isso. Por quê? Por causa
da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento que protege
tanto o profissional quanto o cliente, funcionando como um contrato, que
garante a segurança do serviço e o pagamento justo pela realização deste.

Atividades
1. Por que o engenheiro possui uma responsabilidade ambiental?

– 172 –
Engenharia e legislação

2. Qual o papel do Poder Público no sistema de trabalho do


engenheiro?
3. Qual instrumento legal define os responsáveis técnicos pela
execução de empreendimentos, obras ou prestação de serviços
relativos às profissões abrangidas pelo Sistema Confea/Crea?
Explique como funciona este instrumento.
4. Por que o engenheiro possui responsabilidades administrativas?

– 173 –
8
Ética na Engenharia

Vimos anteriormente que o objetivo da engenharia é, de


certa forma, preservar e melhorar a vida das pessoas. Para alcan-
çar esse objetivo, o engenheiro deve aplicar conhecimentos cien-
tíficos e tecnológicos de elevada complexidade e especialização.
Esses conhecimentos não são acessíveis a todas as partes que
são ou poderão ser afetadas – positiva ou negativamente – pelos
resultados dos atos de engenharia praticados. Por esse motivo, a
engenharia, como profissão, é um exercício de confiança pública
e, como tal, deve ser acompanhada pelo compromisso com prin-
cípios éticos inerentes ao exercício livre e responsável da profis-
são (ORDEM DOS ENGENHEIROS, 2016).
Introdução à Engenharia da Produção

Assim, ética faz parte da vida profissional dos engenheiros. É inad-


missível esta prática não estar presente na rotina desses profissionais, con-
siderando que a Lei nº 5.194/1966, responsável por regular o exercício das
profissões de Engenheiro, Arquiteto e Engenheiro-Agrônomo, já definia
o caráter social das atividades de engenharia. Assim, todos os serviços e/
ou obras ofertados ou executados por profissionais integrantes do Sistema
CONFEA/CREA devem promover os princípios éticos estabelecidos no
Código de Ética da profissão, originário de 1971, cuja última atualização
remete a 2002, por meio da Resolução nº 1.002.
A prática dos princípios éticos deve ser introduzida já na formação do
futuro profissional, com destacada importância no caráter social das suas
funções. Desde os primeiros momentos, todos os passos da conduta profis-
sional devem seguir em direção a uma reflexão sobre os princípios éticos a
serem incorporados aos nossos deveres. Seja em canteiros de obras ou no
desenvolvimento de pesquisas, na fiscalização do exercício profissional
ou na prevenção de acidentes e desastres, na assistência técnica rural ou
na manutenção predial e de obras de artes especiais – ou seja, em qualquer
função exercida pelo engenheiro, o exercício da ética e da cidadania é a
melhor maneira de alcançar verdadeiramente a excelência na profissão.

8.1 Ética, moral e deontologia


A palavra ética tem sua origem no termo grego ethos, que significa
hábito ou costume. Assim, ethiké é traduzida como aquilo que tem relação
com o costume. Costumes são entendidos como atitudes habituais ou esta-
belecidadas em um certo padrão de repetição. Isso leva quase à formação
de uma tradição, transmitida de geração em geração, ou consolidada num
indivíduo ao longo do tempo. (MILCENT, 2014).
Partindo da origem da palavra, a definição de ética é muito mais
diversificada e numerosa. De forma geral, conceitua-se este termo como o
estudo do comportamento humano no passado, no presente e numa pers-
pectiva de futuro, incluindo os agentes que o causam. Busca-se entender
qual o comportamento mais adequado, bem como analisar os valores que
servem como seus princípios fundamentais. Os comportamentos éticos –
por definição aqueles que são mais adequados numa determinada conjec-

– 176 –
Ética na Engenharia

tura – permitem a plena realização, o desenvolvimento integral e a felici-


dade daqueles que o praticam (MILCENT, 2014).
A ética pode ser considerada um nicho do conhecimento humano
no campo da Filosofia. Diversas correntes e escolas filosóficas debruça-
ram suas atenções sobre esta parcela do pensamento humano, buscando
estabelecer os vículos das relações entre as pessoas. Muito se discutiu e
questionou na tentativa de se definir valores morais, condutas e diretrizes
comportamentais para o homem, praticamente todos os pensadores da his-
tória desenvolveram suas teses sobre este campo das humanidades. Por
tratar-se de um ramo das ciências humanas que tem por alvo o elemento
humano sempre em mutação, as discussões acham-se ainda em aberto,
cabendo lugar para as mais diversas considerações (PUSCH, 2010).
A ética é o estudo de comportamentos defendidos por alegações e
argumentos fundamentados na razão, em que condutas específicas pos-
suem princípios norteadores essencialmente imutáveis e infindáveis para
qualquer grupo de pessoas ao longo do tempo. Almeja compreender a con-
duta humana e estabelecer qual seria o melhor comportamento frente à
vida e a uma dada situação (MILCENT, 2014).
A razão pode ser considerada uma palavra guia para a ética: as apli-
cações cotidianas seguem a razão; os indivíduos seguem as orientações
racionalmente. Também é característico do campo da ética fundamentar-se
em conceitos e princípios gerais logicamente válidos na tomada de decisão
quanto a um comportamento específico do dia a dia. Como tais conceitos são
testados pela lógica, passam a ser perenes e universais (MILCENT, 2014).
A ética é intimamente ligada à moral, mas esses termos não devem ser
confundidos. A moral está relacionada à comportamentos defendidos por
argumentos não racionais, cujas orientações são fortemente influenciadas
pela cultura de um determinado grupo, pelo espaço onde ele está inserido
e pelo período histórico analisado. As aplicações cotidianas não seguem
regras ou princípios – as orientações seguem os valores espirituais mani-
festos pelo indivíduo em seu grupo. Enquanto isso, a Ética, em sentido
amplo, está relacionada com a conduta humana perante o ser e seu seme-
lhante segundo critérios de bem e mal, definidos a partir da razão (MIL-
CENT, 2014; PUSCH, 2010).

– 177 –
Introdução à Engenharia da Produção

Para refletir...
Você, com certeza, já ouviu a expressão “a moral é relativa”.
Quando utilizada, tem a finalidade de exprimir o caráter mutável
dos valores morais em grupos sociais e em períodos de tempo
diferentes. Portanto, enquanto a característica fundamental dos
princípios éticos é de permanecerem inalterados e se universali-
zarem, os valores morais tendem a ser conservados pelos grupos
sociais apenas enquanto mantidos inseridos em sua cultura. Em
verdade, o que muda no espaço e no tempo são os paradigmas.
Fonte: Pusch (2010).


Para facilitar a diferenciação dos dois termos, podemos exemplificar
da seguinte forma: impor um certo comportamento sem grandes expli-
cações baseadas na razão, que às vezes só é assegurado por intimidação
e ameaças de dor ou com prêmios e grandes promessas de alegrias, está
inserido no campo da moralidade. Algo considerado como moral pode ter
sua origem em uma conduta baseada em superstições sem fundamento ou
no instinto ou, ainda, em crenças de fundo emocional. Entretanto, é neces-
sário ressaltar que um determinado comportamento ou orientação moral
pode integrar o campo da ética, desde que possua defesa do ponto de vista
racional (MILCENT, 2014).
Um outro conceito importante, pertencente ao ramo do universo
de conjecturas filosóficas, do qual deve-se ter algum conhecimento é o
da deontologia. Vimos que a ética tem procurado investigar a conduta,
estabelecendo princípios para as relações entre as pessoas, classificados
como bem e mal, certo e errado – tudo isso realizado com base na razão.
A moral, por outro lado, tem princípios independentes e liberais para os
valores que regem a direção e o governo da vida de cada um, não delimi-
tando e/ou classificando essas ações em padrões predefinidos. Separados,
ou conjuntamente tratados, esses dois conceitos limitam-se ao plano da
teoria (PUSCH, 2010).
Todos os códigos existentes (de direito penal, de direito civil, de
direito canônico, de trânsito, entre outros) e legislações prescrevem nor-
mas que ditam deveres e estabelecem regras que devem ser acatadas e

– 178 –
Ética na Engenharia

cumpridas. Eles têm em comum uma origem – lugar e data, além dos
autores – no fundamento ético. A sua concepção, na organização social e
política, tem um sentido próprio. Fundamentalmente, são utilizadas para
delimitar e configurar a vida em sociedade (NUNES, 2008).
Quando se trata do domínio da prática, surge um verdadeiro problema:
como essas teorias da ética e da moral podem estabelecer diretrizes con-
cretas de comportamento Figura 8.1 – Jeremy Bentham
para a sociedade? A solu-
ção do problema nos é
proposta num campo dife-
rente da norma ética, defi-
nido por Jeremy Bentham,
em seu tratado publicado
postumamente, em 1834,
intitulado Deontology or
the scíence of morality.
Surge, assim, a deontolo-
gia (PUSCH, 2010).
Analisando a eti-
mologia da palavra, é
possível detectarmos
a união de diferentes
radicais gregos utilizados
para criá-la: são eles déon
+ ontos + logos. O pri-
meiro radical incorpora a
Fonte: Shutterstock.com/Morphart Creation
ideia de dever, o segundo,
literalmente, é o ser, o homem, e o terceiro, dá-lhe a conotação de ciência,
conhecimento. Também do grego, temos o radical déiontos, que significa
necessidade (PUSCH, 2010).
Em uma explicação simples, podemos definir a deontologia como o
estudo ou ensaio sobre os deveres particulares de uma determinada situa-
ção social, no caso aqui representado, o da atuação profissional. De modo
compreensível, é necessário presumir uma teoria geral da ação humana,
que deve advir da ética geral, e uma teoria especial de acordo com a(s)

– 179 –
Introdução à Engenharia da Produção

tarefa(s) humana(s) em questão. Associando as duas ideias, podemos


seguir a concepção de deontologia profissional como: “o conjunto de nor-
mas jurídicas, cuja maioria tem conteúdo ético e que regulam o exercício
de uma profissão” (NUNES, 2008, p.2).
Assim, a deontologia profissional versa sobre garantir o bom exercí-
cio da profissão, baseando-se, por um lado, nos princípios éticos estabele-
cidos e, por outro, na sua própria legislação ou regulamentação – ou seja,
na autorregulamentação decorrente da formulação e defesa de um padrão
de competência e qualidade. É por esse motivo que a autorregulação pro-
fissional tem sido interpretada como o sentido máximo da responsabili-
dade dos profissionais (NUNES, 2008).
É importante notarmos que o ético não é algo estranho a nós – já está
incutido em nosso dia a dia, envolvendo um discernimento que determina,
em si, uma escolha, uma direção para como agir. Essa escolha não vem da
arbitrariedade, mas da constituição expressa como um conjunto de valores
(NUNES, 2008).
Quando analisamos que a deontologia tem por objetivo disciplinar uma
atividade profissional e estabelecer regras direcionadas para a vivência pro-
fissional, é inerente que os valores éticos serão fundamentais, afinal estão
inseridos neles a ideia do valor pelo qual se age, que é fundamental tanto do
ponto de vista interno – da concepção própria – como externo, na relação
social e com o coletivo. Fechamos, assim, um círculo, colocando a deonto-
logia como dimensão ética aplicada do agir profissional (NUNES, 2008).

8.2 O compromisso dos engenheiros


dentro da sociedade
Vimos anteriormente que o engenheiro precisa ter conhecimentos de
ética, moral e deontologia. Agora, vamos analisar seu compromisso com a
sociedade e como esses conceitos se encaixam na vida profissional.
É de extrema importância que um engenheiro adquira, ao longo de
sua vida profissional, uma visão sistemática do mundo, de forma que ele
possa reconhecer seu papel como agente de transformação social. Assim,
não basta apenas possuir conhecimentos empíricos, técnicos e científicos,

– 180 –
Ética na Engenharia

deve-se, também, saber aplicá-los de forma ética e humana. O engenheiro


deve estar comprometido no desenvolvimento de suas tarefas com total
responsabilidade, seja qual for a sua área de atuação (SILVA FILHO et al.,
2011). Para ajudar nesse processo, é interessante que os engenheiros mais
experientes assumam o compromisso de transmitir seus conhecimentos e
suas experiências a um principiante.
Destaca-se que somente uma pequena parte do conhecimento adqui-
rido pelo engenheiro será resultado do seu próprio trabalho. De longe,
a maior parte do conhecimento será adquirida no convívio com outras
pessoas, na universidade, nas sociedades de engenharia e de outros enge-
nheiros. Esse é um processo de troca, em que todos os envolvidos deverão
comprometer-se a dar a sua contribuição ao constantemente expansivo
armazém do conhecimento. Os engenheiros também têm o compromisso
de permanecer atualizados pela continuação do seu crescimento profissio-
nal (COCIAN, 2017).
Isso tem sido cada vez mais importante nas últimas décadas, devido
à rapidez dos novos desenvolvimentos nas áreas de ciências, engenharia
e tecnologia. As sociedades de engenharia, as universidades, as escolas e
outras organizações técnicas e gerenciais especializadas têm desenvolvido
uma grande quantidade de materiais para autoestudo, cursos de curta dura-
ção, workshops, mídias e outros programas e serviços, projetados para
ajudar a promover a sua capacitação e evitar a potencial obsolescência
técnica. Os engenheiros, assim, ainda possuem outros compromissos, tais
como os referentes à associação, à sociedade profissional, registro profis-
sional e participação na educação continuada (COCIAN, 2017).
O engenheiro participa diretamente da organização, sendo respon-
sável por diversos níveis de responsabilidade dentro da empresa. Ele não
pode mais ser visto apenas como um projetista ou um gerente de pro-
dução. Este profissional deve estar plenamente consciente de suas ações
pessoais e profissionais. Torna-se evidente, portanto, que a sua formação
não deve ser pautada tão somente na técnica, é preciso desenvolver habi-
lidades humanas. O futuro engenheiro, além de estar em sintonia e con-
cordância com as crenças, valores, missão e visão da organização à qual
pertence, também deve estar ciente de que as consequências de suas ações
profissionais afetam todas as partes interessadas (CREMASCO, 2013).

– 181 –
Introdução à Engenharia da Produção

Desse modo, de acordo com Cremasco (2013, p.11), as seguintes caracte-


rísticas são esperadas do profissional engenheiro:
* A consciência de que ações pessoais, técnicas e gerenciais afetam
a vida das pessoas e do meio que as cerca (direta e indiretamente).
* Desenvolvimento e aprimoramento de valores morais, pois
somente a determinação das pessoas de agir com ética pode garan-
tir o comportamento ético de uma organização.
* Conhecimento da Lei (trabalhista, ambiental) e de normas regu-
ladoras (Responsible Care®, ISOs 9000 e 14000, SA8000).
*Envolvimento proativo na comunidade, usando ou não, as suas
habilidades técnicas.

Dessa maneira, Cremasco (2013) também propõe um modelo, ilus-


trado na Figura 8.2, no qual se resume a expectativa da sociedade em
relação ao engenheiro, tendo como base as habilidades necessárias para
o seu desempenho profissional em consonância com a responsabilidade
social inerente à sua profissão, inspirado no modelo de Carroll (1979),
para o qual a responsabilidade social dos negócios engloba as expecta-
tivas econômicas, legais, éticas e discricionárias que a sociedade tem
da organização.
Figura 8.2 – Pirâmide das responsabilidades do Engenheiro

Fonte: adaptada de Cremasco (2013).

– 182 –
Ética na Engenharia

Na Figura 8.2, são apresentadas as seguintes expectativas da socie-


dade para com o engenheiro socialmente responsável, de acordo com Cre-
masco (2013):
2 responsabilidade econômica – espera-se que o profissional
receba o que é justo pelo trabalho realizado.
2 responsabilidade técnica – espera-se que o profissional seja
capacitado e que consiga utilizar e desenvolver novas tecnolo-
gias, estimulando a sua atuação crítica e criativa na identificação
e resolução de problemas, considerando seus aspectos políticos,
sociais, ambientais e culturais, com visão ética e humanística,
em atendimento às demandas da sociedade.
2 responsabilidade legal – espera-se que as atividades desse
profissional produzam serviços (processos e/ou produtos) que
tenham padrões de segurança e obedeçam a toda a legislação
referente ao seu trabalho.
2 responsabilidade ética – espera-se que o profissional tome a
partir de análises e reflexões ética, considerando-se os efeitos
dessas, respeitando o direito dos outros, cumprindo deveres e
evitando prejudicar o outro, seja este interno e externo à orga-
nização, fundamentado no respeito aos valores éticos e morais.
2 responsabilidade social – espera-se que esse profissional,
enquanto dotado de decisão estratégica na empresa, faça-a con-
tribuir com recursos para a comunidade, visando à melhoria da
qualidade de vida.

8.3 Ética na Engenharia


As organizações estão crescentemente buscando soluções eficazes,
inovação, produtos mais customizados e inteligentes, o que acaba exi-
gindo profissionais abrangentes e criativos dotados de conhecimentos
multidisciplinares. Como um único profissional não consegue agregar
todos os conhecimentos necessários, as equipes de trabalho despontam
como um mecanismo que, quando inserido na organização, atua na rees-

– 183 –
Introdução à Engenharia da Produção

truturação organizacional, propiciando o desenvolvimento do conheci-


mento em ideias criativas que são postas em ação através do apoio e
compartilhamento do conhecimento (COLENCI; SACOMANO NETO;
REIS, 1999).
As equipes superam o desempenho individual de cada um de seus inte-
grantes, trabalhando sozinhos ou em pequenos grupos, especialmente quando
a atividade a ser desenvolvida necessita de múltiplas habilidades, capacidade
de julgamento e experiências em áreas diversas. Isso permite que os membros
apliquem seus conhecimentos, experiências de vida e insights na resolução
dos problemas (COLENCI; SACOMANO NETO; REIS, 1999).
A fim de realizar o trabalho da forma desejada, a equipe precisa ter
algumas propriedades, nomeadas como requisitos primordiais à tarefa rea-
lizada. Se os empregados não têm tais propriedades, a qualidade do traba-
lho pode ficar comprometida. Uma dessas propriedades é a ética. Ela enal-
tece a importância do bom relacionamento com as pessoas com quem se
trabalha. A ética irá operar no plano da reflexão ou das indagações, estudar
os costumes das coletividades e as morais que podem conferir-lhes consis-
tência durante a realização do trabalho. Compreende princípios, padrões e
regras de conduta que orientam as tomadas de decisões dentro da organi-
zação. A ética em equipes ajuda a libertar os agentes envolvidos da prisão
do egoísmo, fazendo com que os membros se importem com os efeitos
produzidos sobre os outros. A ética visa, por parte da equipe, ao alcance da
sabedoria ou do conhecimento, acrescidos pelo bom senso e pelo discerni-
mento dos membros integrantes (REZENDE; CASTRO, 2011).
É sempre interessante ressaltar que as empresas não são “entes”
isolados. Sempre será necessária a existência de uma interação, seja ela
entre os indivíduos, fornecedores, clientes, governo, seja como sociedade
em geral, o que implica uma série de comportamentos e de valores que
irão regê-la. Quanto mais ética for essa relação, melhor será para todos os
envolvidos (BRITO, 2015).

8.3.1 Código de Ética Profissional da Engenharia


Para o exercício de uma profissão regulamentada, o trabalhador, no
Brasil, necessita estar registrado num Conselho, o qual é dirigido por

– 184 –
Ética na Engenharia

representantes colegas de ofício e tem poder delegado pela União para


legislar dentro de sua área de atuação. engenheiros, agrônomos, geólo-
gos, geógrafos, meteorologistas e outros estão vinculados ao Conselho
Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA). O CONFEA, no uso de
suas atribuições legais, obriga todos os profissionais inseridos em seu sis-
tema a observância e o cumprimento do Código de Ética por ele firmado,
por todos os profissionais em todas as modalidades e níveis de formação
(MILCENT, 2014).
O primeiro código de ética da engenharia data de 1957, foi publicado
mediante Resolução nº 114 e abrangia, na época, além do profissional
da engenharia, o profissional da arquiterura e da agrimensura. Somente
depois de 12 de outubro de 1965, os agronômos adotaram este código,
mesmo sem ainda pertencerem ao sistema CONFEA/CREA. Em 1971, o
plenário do CONFEA, por meio da Resolução nº 205, aprovou um novo
Código de Ética para a época (MACEDO, 2011).
Contudo, de 1971 para os dias atuais, é fácil notar a ocorrência de
diversas mudanças nas circunstâncias históricas, econômicas, sociais,
políticas e culturais da socidade brasileira. Elas acabaram resultando em
uma grande reorganização da economia, das corporações pertencentes aos
mais diversos setores, bem como do mecanismo do Estado e da sociedade
civil. Tudo isso têm contribuído para elencar a ética como um dos temas
centrais da vida brasileira nas últimas décadas. Tendo em vista que um
código de ética profissional deve ser o resultado de um acordo profissio-
nal, considerando as condições de convivência e relacionamento que se
desenvolvem entre as categorias integrantes de um mesmo sistema pro-
fissional, visando a uma conduta profissional cidadã e considerando as
demandas dos profissionais que integram o Sistema CONFEA/CREAs,
foi solicitada a revisão do “Código de Ética Profissional do Engenheiro
e do Engenheiro Agrônomo” adotado em 1971 (CONFEA/CREA, 2018).
Assim, de acordo com a Ordem dos Engenheiros (2016) e Milcent
(2014), o novo código de ética resolve, em relação às responsabilidades
do engenheiros, que:
2 no exercício da sua profissão, são responsáveis por todos os atos
que pratiquem e pelos resultados que deles decorram, devendo

– 185 –
Introdução à Engenharia da Produção

sempre atuar seguindo os padrões de exigência mais elevados,


considerando as respectivas competências, especialidades,
especializações e qualificações. O código estimula uma ação
responsável, a busca pela competência e a execução dos resul-
tados propostos com qualidade, através do emprego de técni-
cas adequadas e os devidos cuidados com a segurança. Visar à
competência é buscar a aptidão para apreciar e resolver os pro-
blemas que se pretenda solucionar. Buscar a qualidade significa
perseguir a perfeição, a excelência e a precisão. Trabalhar com
segurança vem de confiabilidade e a infalibilidade; é minimizar
a insegurança, o risco e o perigo; é a previsão de garantias que
contornem eventuais acidentes.
2 devem absorver e abraçar os princípios de sustentabilidade, seja
ela econômica, social e/ou ambiental, com a consciência do
caráter finito dos recursos que nos foram deixados e da neces-
sidade de sua defesa e proteção. Base fundamental de enorme
importância colocada deste modo no Código ora descrito é a
não colocação de vidas humanas em risco. A preservação e o
zelo pelo patrimônio individual e coletivo. E, mais ainda, salvo
uma interpretação mais adequada, o respeito aos valores huma-
nos dos cidadãos, tanto aqueles usuários dos resultados, como
também do corpo de colaboradores que permite a consecução
da atividade pretendida. A atenção ao desenvolvimento susten-
tável, tem ganhado cada vez maior ênfase, ano a ano. Notável é
a tônica atual do presente código, redigido há anos.
2 devem ter em conta as consequências e os possíveis resultados
de sua atuação, tanto para a comunidade da engenharia e ins-
tituições relacionadas, como para empregadores, colaborado-
res, clientes, utilizadores de tecnologia e sociedade em geral,
garantindo que todos sejam tratados com dignidade e respeito,
além da observância de deveres de confidencialidade, sempre
que aplicável.
2 considerar a profissão colocada a serviço da melhoria da quali-
dade de vida do homem. Por sua vez, leva-se em conta que a prá-
tica da profissão exige conduta honesta, digna e cidadã. O termo

– 186 –
Ética na Engenharia

digno leva diretamente aos conceitos de elevada moral, honradez,


respeitabilidade e nobreza. A cidadania engloba direitos e deveres
políticos, civis e sociais. O dever civil básico é o cumprimento das
leis que vigoram no país onde se reside no momento.
2 devem conhecer a legislação e as regulamentações relevantes
ao exercício de sua profissão, em qualquer país onde exerça sua
profissão, garantindo que elas sejam respeitadas, desde que não
contradigam princípios éticos universais, comprometendo-se a
aplicar suas competências profissionais, com pensamento crí-
tico, sempre com o objetivo de evoluir.
2 devem utilizar de sensatez e prudência, tanto nas soluções téc-
nicas, como no desenvolvimento tecnológico e na inovação,
devendo se responsabilizar pela qualidade, idoneidade e segu-
rança dos produtos e processos técnicos concebidos ou executa-
dos, promovendo a criação de valores econômicos e sociais de
forma sustentável.
2 devem ser responsáveis, não só pelas declarações e certidões téc-
nicas, mas, também, pelas informações fornecidas a clientes, utili-
zadores e demais partes interessadas, incluindo, principalmente: o
uso apropriado das soluções propostas ou realizadas e os possíveis
perigos da sua má utilização; as características técnicas dos pro-
dutos e processos em questão; o uso indevido e intencional des-
ses produtos e processos; a sugestão de abordagens alternativas; a
possibilidade de desenvolvimentos indesejados.
O novo código de ética também resolve sobre algumas orientações
aos profissionais da engenharia, sintetizados pela Ordem dos Engenheiros
(2016), como:
2 os engenheiros estão a par das complicações que podem estar
envolvidas no processo de integração de sistemas técnicos ao
contexto social, econômico e ambiental. Por esse motivo, o
desenvolvimento de novas tecnologias devem incorporar crité-
rios e valores, tais como: a sustentabilidade dos sistemas técni-
cos nelas baseados em todo o seu ciclo de vida; a adequação ao
uso e a segurança; a contribuição para a saúde e bem-estar dos

– 187 –
Introdução à Engenharia da Produção

cidadãos; o desenvolvimento pessoal no sentido do bem comum.


A orientação fundamental, na criação de novas soluções tecnoló-
gicas, será a de manter a mente aberta para novas possibilidades,
de ação livre e responsável, tanto para as gerações atuais como
para as futuras gerações.
2 devem considerar os valores da liberdade individual e da melho-
ria das condições sociais, econômicas e ambientais, como requi-
sitos necessários para garantir o bem-estar de todos os cidadãos
numa sociedade moderna.
2 devem evitar situações em que possam ser pressionados ou cons-
trangidos, com comportamentos abusivos e arbitrários, nomea-
damente os relacionados com suborno, corrupção e outras prá-
ticas ilícitas, lembrando que eles são responsáveis em qualquer
uma dessas situações.
2 devem orientar a sua responsabilidade profissional pelos mes-
mos fundamentos éticos que os demais membros da sociedade.
Por isso, os engenheiros devem apenas criar produtos que
tenham como objetivo utilizações éticas e participar da criação
de soluções que não constituam riscos incontroláveis ou provo-
quem danos significativos.
2 em caso de conflito de valores, devem dar prioridade: aos valo-
res da humanidade sobre as dinâmicas da natureza; aos direitos
humanos sobre a implementação e exploração de tecnologia; ao
bem comum, sobre interesses privados e corporativos; à segu-
rança e à proteção sobre a funcionalidade e rentabilidade das
suas soluções técnicas. Estas orientações devem ser adotadas
de forma ponderada, promovendo um diálogo aberto entre as
partes com o objetivo de encontrar um equilíbrio relativamente
aceitável para aos valores em conflito. Os engenheiros devem,
portanto, prevenir e tentar resolver potenciais conflitos de inte-
resse nos processos em que intervenham, procurando evitar a
ocorrência de situações de dilema nas decisões a serem tomadas.
2 comprometem-se a fazer parte de atividades educacionais e for-
mativas em escolas, universidades, empresas e instituições pro-

– 188 –
Ética na Engenharia

fissionais, com o objetivo de trocar ideias, promovendo e estru-


turando a educação tecnológica e fomentando e aprofundando a
reflexão ética sobre a tecnologia.
2 devem contribuir para o desenvolvimento e a adaptação con-
tínua dos fundamentos da ética na engenharia e participar de
discussões relacionadas a estas temáticas.
O novo código de ética também trata de temas relacionados à imple-
mentação dos princípios éticos pelos engenheiros, sintetizados pela Ordem
dos Engenheiros (2016), como:
2 comprometem-se a, continuamente, buscar atualizações e o
desenvolvimento das suas aptidões e competências profissio-
nais, sendo proibida a prática de atos profissionais para os quais
não tenham competência ou não estejam legalmente habilitados.
2 em casos de conflito de valores, espera-se que analisem e ponde-
rem visões controversas através de discussões interdisciplinares
e interculturais. Dessa forma, os engenheiros adquirem e refor-
çam a sua capacidade de ter um papel ativo em tais avaliações.
2 os engenheiros têm consciência da relevância da ética na enge-
nharia, nos diversos quadros institucionais das leis e regulamen-
tos que dizem respeito ao uso de tecnologias, às condições de
trabalho e ao meio ambiente. São muitos os projetos nos quais
esses profissionais levam uma diversidade de enquadramentos
controversos sobre questões em aberto relacionadas às ciências
de engenharia e à ética. Os engenheiros são, por isso, desafiados
a usar o seu discernimento profissional na fundamentação dessas
questões. No que diz respeito à observância da legislação/
regulamentação na sua atividade, eles deverão considerar a
seguinte sequência de prioridades: as leis nacionais têm prio-
ridade sobre as regulamentações profissionais que, por sua vez,
têm prioridade em relação aos contratos individuais.
2 sempre que os engenheiros estiverem envolvidos em conflitos pro-
fissionais relacionados a questões éticas que não conseguem resol-
ver diretamente com os seus empregadores, clientes ou colegas, eles

– 189 –
Introdução à Engenharia da Produção

poderão se dirigir à Ordem dos Engenheiros, que lhes proporcionará


aconselhamento adequado. Quando esses conflitos comportarem
situações problemáticas que possam causar perigos significativos
para a saúde e a segurança de pessoas e bens ou do ambiente, os
engenheiros devem recusar por completo a sua colaboração, e, em
último recurso, por imperativo de consciência, alertar as autorida-
des competentes ou o público da existência desses perigos.

8.4 Códigos deontológicos da Engenharia


Na prática, é muito difícil separar os códigos da ética profissional e
da deontologia profissional, é pouco frequente o uso indiferente dos ter-
mos ética e deontologia (CONSELHO, 2019). Entretanto, nos Estatutos
da Ordem dos Engenheiros (EOE), encontramos essa diferenciação.
Segundo Conselho (2019), é muito comum que os engenheiros, na
realização de suas atividades, encontrem-se com problemas típicos, ine-
rentes ao exercício das suas funções. Por exemplo: situação de conflitos de
interesses; responsabilidades pela saúde e segurança do público; segredos
industriais e propriedade intelectual; ofertas de fornecedores; honestidade
na apresentação de resultados de estudos; entre outros.
Desse modo, as associações profissionais de engenharia foram
respondendo a esta realidade elaborando códigos deontológicos que,
geralmente, representam os consensos existentes quanto às normas
de conduta que os respectivos membros devem utilizar. É no contexto
das responsabilidades éticas e dos princípios orientadores da atividade
profissional do engenheiro, aqui descritos, que, nos Estatutos da Ordem
dos Engenheiros (EOE), encontram-se estabelecidos os deveres deontoló-
gicos que a seguir se transcrevem.

8.4.1 Deveres do engenheiro para com a comunidade


São considerados deveres do engenheiro de todas as modalidades,
no exercício da profissão, frente ao ser humano e seus valores, oferecer
seu saber para o bem da humanidade, harmonizar os interesses pessoais
aos coletivos, contribuir para a preservação da incolumidade pública e

– 190 –
Ética na Engenharia

divulgar os conhecimentos científicos, artísticos e tecnológicos inerentes


à profissão (MILCENT, 2014).
De acordo com o Art. 141 dos estatutos da Ordem dos Engenheiros
(2016) e Milcent (2014), esse profissional deve:
1. possuir uma boa preparação profissional, para que possa desem-
penhar suas funções com competência e contribuir para o pró-
prio progresso da engenharia e da sua melhor aplicação a serviço
da humanidade.
2. defender o ambiente e os recursos naturais, buscando utilizar
os conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável.
3. garantir a segurança do pessoal diretamente envolvido na ação
dos usuários, clientes e do público em geral, contribuindo assim
para a preservação da incolumidade pública.
4. ser totalmente oposto à utilização fraudulenta, ou contrária ao
bem comum, do seu trabalho.
5. procurar sempre pelas melhores soluções técnicas possíveis,
considerando questões econômicas e de qualidade da produção
e/ou das obras que esteja a projetar, dirigir ou organizar.
6. combater e denunciar práticas de discriminação social, de trabalho
infantil ou outras infrações que presenciar, assumindo, assim, uma
atitude de responsabilidade social. É razoável supor que muitos
profissionais procurem se preservar de conflitos pela alegação de
que não são diretamente responsáveis por essas transgressões,
mesmo tendo ciência delas até mesmo em detalhes. Porém, res-
salta-se que a omissão frente ao conhecimento de eventuais trans-
gressões da ética consiste a própria omissão, em uma transgressão
do código e ética profissional de quem a pratica.

8.4.2 Deveres do engenheiro para com a


entidade empregadora e para com o cliente
O profissional engenheiro deve ser encorajado a prestar tratamento
justo a terceiros, sejam clientes, empregadores ou colaboradores, citando,

– 191 –
Introdução à Engenharia da Produção

inclusive, a própria fundamentação da justiça que é a igualdade. A vera-


cidade é defendida, também, na propaganda e na publicidade pessoal, por
meio do incentivo ao fornecimento de informação precisa, certa e objetiva
(MILCENT, 2014).
Quanto ao relacionamento do profissional com a entidade emprega-
dora e o cliente, de acordo o Art.º 142 Ordem dos Engenheiros (2016) e
Milcent (2014), o engenheiro deve:
1. contribuir para a realização dos objetivos econômico-sociais das
organizações em que se integre, promovendo o aumento da pro-
dutividade, a melhoria da qualidade dos produtos e das condi-
ções de trabalho com o justo tratamento das pessoas. O respeito
ao outro é lembrado: deve-se dar ao destinatário dos serviços as
alternativas viáveis e adequadas às demandas de suas propostas.
Na engenharia, como possivelmente em todas as outras áreas,
jamais encontramos uma única opção de solução.
2. prestar os seus serviços com diligência e pontualidade de modo
a não prejudicar o cliente nem terceiros nunca abandonando,
sem justificação, os trabalhos que lhe forem confiados ou os car-
gos que desempenhar.
3. não divulgar nem utilizar segredos profissionais ou informa-
ções, em especial as científicas e técnicas obtidas confiden-
cialmente no exercício das suas funções, salvo se, em cons-
ciência, considerar poderem estar em sério risco exigências
do bem comum.
4. receber pagamento pelos serviços que tenha efetivamente pres-
tado e tendo em atenção o seu justo valor, estabelecido por lei.
5. recusar a sua colaboração em trabalhos cujo pagamento
esteja subordinado à confirmação de uma conclusão prede-
terminada, embora esta circunstância possa influir na fixação
da remuneração.
6. o engenheiro deve recusar compensações de mais de um interes-
sado no seu trabalho quando possa haver conflitos de interesses
ou não haja o consentimento de qualquer das partes.

– 192 –
Ética na Engenharia

8.4.3 Deveres do engenheiro no


exercício da profissão
Em relação ao exercício da profissão, de acordo o Art. 143 da Ordem
dos Engenheiros (2016) e Milcent (2014), o engenheiro deve:
1. lutar pelo prestígio da profissão e impor-se pelo valor da sua
colaboração e por uma conduta irrepreensível, usando sempre de
boa-fé, lealdade e isenção, qualquer que seja sua atuação profis-
sional, quer individual ou coletiva.
2. ser contra qualquer caso de concorrência desleal.
3. utilizar da maior sobriedade durante os anúncios profissionais pelos
quais for responsável, inclusive naqueles que somente autorizar.
4. nunca aceitar trabalhos ou exercer funções que ultrapassem a sua
competência ou exijam mais tempo do que aquele de que dispo-
nha. É interessante, no entanto, observar que cada atividade pro-
fissional específica, por suas características particulares, exigirá
um certo grau de esforço, visando à qualificação adicional. Todo
o acréscimo solicitado na quantidade e na qualidade das tarefas
realizadas serve de incentivo à angariação dos poderes específi-
cos para realizá-las. Cabe, nesse caso e sempre, o bom senso na
avaliação não só das possibilidades de que cada um já é porta-
dor, mas, também, de quais outras será capaz de desenvolver no
nível e no tempo solicitados, bem como a disponibilidade ou não
de outros tão ou mais adequados que o profissional em questão
para a execução da tarefa cuja realização se mostra necessária.
5. apenas assinar documentos, sejam pareceres, projetos ou outros
trabalhos profissionais de que seja autor ou colaborador. A corrup-
ção ativa ou passiva é claramente prevista. É vedada a utilização
de artifícios ou expedientes enganosos para a obtenção de vanta-
gens indevidas, ganhos marginais ou conquista de contratos.
6. emitir os seus pareceres profissionais com objetividade e isenção.
7. desempenhar suas atividades, atuar com a maior correção, de
forma a obstar a discriminações ou desconsiderações, quais-

– 193 –
Introdução à Engenharia da Produção

quer que sejam suas atividades, tanto no exercício de funções


públicas quanto na iniciativa privada. É importante zelar pelos
colaboradores em suas atividades laborais. São infrações éticas
impedir o acesso deles a promoções legítimas e ao desenvol-
vimento profissional bem como descuidar com as medidas de
segurança e de saúde e impor o ritmo de trabalho excessivo,
fazer pressão psicológica e assédio moral
8. recusar a sua colaboração em trabalhos sobre os quais tenha de
se pronunciar no exercício de diferentes funções ou que impli-
quem situações ambíguas.

8.4.4 Dos deveres recíprocos dos engenheiros


O engenheiro também possui deveres diante de outros engenheiros.
Não é considerada legítima a interferência não solicitada à atividade de
outro profissional, como também a expressão de discriminação ou precon-
ceito sobre ele, o atentado à sua liberdade e a seus direitos (MILCENT,
2014). Assim, em relação aos deveres recíprocos com outros profissionais
no exercício da profissão, de acordo o Art. 144 da Ordem dos Engenheiros
(2016), o engenheiro deve:
1. avaliar com objetividade o trabalho dos seus colaboradores, con-
tribuindo para a sua valorização e promoção profissional.
2. reivindicar o direito de autor quando a originalidade e a impor-
tância relativas da sua contribuição o justifiquem, exercendo
esse direito com respeito pela propriedade intelectual de outrem
e com as limitações impostas pelo bem comum.
3. prestar aos colegas, desde que solicitada, toda a colaboração possível.
4. nunca prejudicar a reputação profissional ou as atividades pro-
fissionais de colegas, nem deixar que sejam menosprezados os
seus trabalhos, devendo, quando necessário, apreciá-los com
elevação e sempre com salvaguarda da dignidade da classe.
5. recusar substituir outro engenheiro, só o fazendo quando as
razões dessa substituição forem corretas e dando ao colega a
necessária satisfação.

– 194 –
Ética na Engenharia

8.4.5 Dos direitos individuais


Também são enumerados no Artigo 12 do Código de Ética Profissio-
nal da Engenharia, da Agronomia, da Geologia, da Geografia e da Meteo-
rologia os direitos individuais inerentes, reconhecidos e universais. Eles são
considerados necessários ao adequado exercício profissional. A violação de
tais disposições pode, eventualmente, levar o Conselho Federal de Engenharia
a tomar medidas ativas cabíveis. De acordo com Milcent (2014), são eles:
2 liberdade para escolher sua especialidade.
2 liberdade para optar pelos melhores métodos, procedimentos e
formas de expressão, dependendo da situação.
2 fornecimento de instrumentos e condições de trabalho que
garantam dignidade, eficiência e segurança.
2 o direito à recusa ou a interrupção de trabalho, contrato, emprego,
função ou tarefa quando o profissional considerar este incompa-
tível com sua titulação, habilidade ou honradez pessoal.
2 à garantia de proteção jurídica sobre sua criação (propriedade
intelectual).
2 à honestidade nas competições que ocorrerem no mercado de
trabalho.
2 à propriedade de tudo que pertencer ao seu patrimônio técnico
profissional.

Estudo de caso – O desastre com o


ônibus espacial Challenger

Em 28 de janeiro de 1986, a previsão do tempo em Orlando (EUA)


contava com uma frente fria que poderia levar a temperaturas pró-
ximas a -8ºC na manhã em que ônibus espacial Challenger deveria
ser lançado. A temperatura fora da faixa adequada, associada à
emoção e às pressões em torno do lançamento, geraram a necessi-
dade de cumprir os prazos acima do protocolo de segurança.

– 195 –
Introdução à Engenharia da Produção

Allan J. McDonald, ex-diretor do projeto Space Shuttle Solid Rocket


Motor, defendeu aquilo em que acreditava. Ele cumpriu com sua
obrigação moral de informar a seus superiores e à Nasa de que o
lançamento era muito perigoso naquelas condições. Ele se recusou
a levar adiante sua tarefa cotidiana: assinar o laudo de lançamento,
que funcionava como um sinal verde por parte dos engenheiros.

O Challenger decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida,


na fria manhã de 28 de janeiro de 1986. Após a falha em uma
vedação de borracha de um dos dois foguetes de lançamento, o
voo durou apenas 73 segundos antes de explodir no ar. Levava
uma tripulação de sete pessoas: os astronautas Judith A. Res-
nik,  Ronald E. McNair e Ellison S. Onizuka, os pilotos  Mike J.
Smith e Francis R. Scobee, o comandante da missão Gregory Jar-
vis, especialista de carga, e Sharon Christa McAuliffe, selecionada
entre 11 mil professores como a primeira educadora enviada ao
espaço a fim de lecionar de lá, assim como a primeira civil norte-
-americana a viajar fora da Terra. Ninguém sobreviveu.

Nas palavras de McDonald: “Nunca coloque um profissional da


engenharia para provar que algo pode falhar. Os engenheiros
têm a obrigação moral de provar que alguma coisa é segura”.
McDonald foi ignorado naquele dia e as trágicas consequências
disso puderam ser vistas em todo o mundo.

Disponível em: https://www.buildin.com.br/etica-na-engenha-


ria/. Acesso em: 6 maio 2020.

Síntese
Vimos, nesse capítulo, a importância da ética na profissão do enge-
nheiro. Primeiramente, foram apresentadas definições para o termo ética,
diferenciando-a de moral. Também foram apresentadas a definição e a
aplicação da deontologia na engenharia. Foi possível perceber que ética
está presente em todos os aspectos da vida, seja no âmbito pessoal, seja na

– 196 –
Ética na Engenharia

esfera profissional ou qualquer outra interação humana. Por isso a impor-


tância do conhecimento e da aplicação desse tema na engenharia. Assim,
a ética na engenharia é a ciência que deve acompanhar todas as toma-
das de decisões em projetos ou em serviços realizados por profissionais
da engenharia. Tendo isso em mente, foi criado pelo Sistema CONFEA/
CREA, em 1971, o Códido de Ética para esses profissionais. Em 2002, foi
realizada a atualização desse código tão importante para os engenheiros
em diversos aspectos, fornecendo desde orientações individuais básicas
até a listagem dos deveres desse profissional.

Atividades
1. Analise a seguinte afirmativa do Código de Ética Profissional e
classifique-a como verdadeira ou falsa: Nas relações com os clien-
tes, com os empregadores e com os colaboradores, é permitido
formular proposta de salário inferior ao mínimo profissional legal.
2. Diferencie ética de moral.
3. Explique o que é deontologia.
4. Você trabalha com outro colega engenheiro na implementação
de procedimentos para o descarte apropriado de resíduos de uma
indústria. Ele é o responsável por resíduos líquidos, que são des-
pejados em rios locais, e você percebe que ele tem permitido
níveis de alguns produtos químicos ligeiramente superiores aos
permitidos pela lei. Você fala sobre isso, mas ele diz que, uma vez
que os níveis são apenas ligeiramente acima dos limites legais,
não existem questões éticas ou de segurança envolvidas, e que não
vale a pena o trabalho e o custo para corrigi-los. Você concorda
com o seu colega? Se não, você deve tentar levá-lo a corrigir o
problema, ou isso não é da sua conta, pois ele é o responsável?
Se ele se recusar a corrigir os problemas, você deve relatar isso
ao seu chefe? E se ninguém na sua empresa fizer nada a respeito,
você está preparado para relatar o problema diretamente à agên-
cia ambiental ou deve fazê-lo apenas em caso de haver um risco
muito mais grave para a saúde pública e segurança?

– 197 –
9
A importância
da comunicação
na Engenharia

Para ser um bom engenheiro não é suficiente saber apenas


como usar corretamente os conhecimentos aprendidos no curso
de graduação. Não é somente de técnicas, instrumentos e cálcu-
los que vive o engenheiro. Para ser um profissional eficiente, é
preciso, antes de mais nada, saber utilizar os seus conhecimentos,
a sua memória, o seu raciocínio e a sua capacidade de pesquisar.
Mas não apenas isso. É necessário saber se expressar, comuni-
car com eficácia ideias e resultados de seu trabalho. Pensar em
uma boa solução não é suficiente quando ela não é transmitida de
forma adequada (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Vivemos em um momento considerado por muitos teóri-
cos como a “era da informação”. A comunicação é a via mais
eficiente para o aprendizado, o ensino e a realização de tarefas
cotidianas. Um bom profissional que não consegue se comunicar
certamente encontrará grandes dificuldades em sua carreira pro-
fissional. Na engenharia, é papel do engenheiro, ou de outro pro-
fissional técnico sob sua responsabilidade, atentar sobre meios de
Introdução à Engenharia da Produção

comunicação que poderão ser utilizados para alcançar o público-alvo. Essa


comunicação pode ser realizada utilizando diversos meios, como a escrita,
o diálogo, desenhos e outros meios gráficos (AGOSTINHO; AMORELLI;
RAMALHO, 2015).
Entretanto, é comum que alguns estudantes não deem a devida aten-
ção às ferramentas de comunicação, deixando-as em segundo plano. Isso
ocorre pelo fato de a figura popular do engenheiro ter sido associada, por
muito tempo, àquele indivíduo que decide, projeta e calcula. Assim, mui-
tos acabam assumindo que saber se comunicar – principalmente utilizando
a linguagem escrita – é totalmente irrelevante para o futuro profissional
(BAZZO; PEREIRA, 2006).
Todavia, o sucesso profissional do engenheiro é dependente tanto da
qualidade do trabalho realizado quanto da habilidade de fazer com que as
pessoas entendam o que foi feito. No cotidiano do trabalho, ser compre-
endido é tão importante quanto ser competente tecnicamente (BAZZO;
PEREIRA, 2006).

9.1 O que é comunicação?


Desde o início da humanidade existe a necessidade da comunicação.
Nos tempos pré-históricos, Figura 9.1 – Animais representados em pinturas
os homens já tentavam suprir rupestres
essa necessidade básica. Até
hoje, estudiosos e pesquisado-
res ainda buscam uma resposta
sobre como os homens primi-
tivos começaram a se comuni-
car entre si, mas supõe-se que
isso começou pela associação
de gritos, grunhidos e gestos
para designar um objeto ou
ação, passando depois à utili- Fonte: Shutterstock.com/thipjang
zação das pinturas rupestres (Figura 9.1). Com o passar do tempo, essas
técnicas de comunicação foram aprimoradas, até chegar à fala e à escrita
utilizadas hoje (CARNEIRO; SOUZA; PEROSA, 2017; PERLES, 2007).

– 200 –
A importância da comunicação na Engenharia

A palavra comunicação tem origem do termo em latim communi-


care, que significa “tornar comum”, compartilhar, trocar opiniões, asso-
ciar, conferenciar. Desse modo, a ação de comunicar acarreta o processo
de trocar mensagens, que por sua vez envolve emissão e recebimento
de informações. Comunicar é a utilização de signos e símbolos para a
produção de significados comuns entre comunicador e intérprete. Um
parâmetro complementar importante para a descrição da comunicação é
o de intencionalidade – ou seja, ela tem um objetivo, envolvendo, por-
tanto, a validação. O emissor usa a comunicação como forma de provo-
car uma reação no receptor por meio de uma mensagem. Essa reação é
desconhecida e está inclusa em um universo de hipóteses e possibilida-
des. Com essa intencionalidade vem o poder da comunicação. É com
a comunicação que podemos convencer, persuadir, influenciar, desper-
tar interesses e sentimentos, e ainda provocar expectativas nas outras
pessoas. Dentro de uma organização, a boa utilização da comunicação
serve para estabelecer relações pacíficas, homogeneização e integração
de ideias (PINHEIRO, 2005).
A comunicação também pode ser definida partindo-se de um cará-
ter de processo, como um fenômeno contínuo, com evolução e interação.
Esse processo de comunicação é muito abrangente e envolve diversos
fatores, como linguagem, cultura e tecnologia. A invenção da linguagem
é, provavelmente, um dos eventos mais importantes para a comunicação
no formato de compreensão simbólica. Em relação a cultura e tecnologia,
a forma de ver o mundo mudou muito ao longo da história da humanidade.
Uma pessoa do século XXI não tem os mesmos pensamentos e as mesmas
preocupações de uma pessoa da idade média. Essa mudança é originária
de múltiplas fontes, em particular dos incríveis avanços da tecnologia
(PERLES, 2007).
É praticamente impossível a não comunicação. Mesmo o silêncio
diante de uma situação é uma forma de comunicação – ou seja, até mesmo
quando não emitimos mensagens um para o outro, estamos, de certa
forma, nos comunicando. Outras características interessantes relacionadas
à comunicação são o seu caráter irreversível e o fato de que ela não se
repete. No primeiro caso, uma vez que comunicamos algo, é impossível
voltar atrás. No segundo, a informação nunca será novamente inédita –

– 201 –
Introdução à Engenharia da Produção

mesmo que se diga a mesma coisa, utilizando o mesmo espaço e palavras.


Por esse motivo, emissores e receptores mudam a todo instante e carregam
as mudanças sofridas, que influenciam na forma de comunicar e de com-
preender o que foi dito (PINHEIRO, 2005).
É importante ressaltar que a capacidade de se comunicar não é única
dos seres humanos. Ela está presente e é bastante complexa em muitos
outros seres da vida animal, como aves, peixes, mamíferos e insetos
(PERLES, 2007).
Vivemos em um contexto que muitos denominam “era da informa-
ção”, tamanha é a rapidez com que as informações transitam. A criação
de novos conteúdos, de novos conhecimentos, abre caminho para novas
ideias de maneira assustadoramente rápida. Em uma sociedade na qual
informação e conhecimento são, mais do que nunca, indispensáveis, a
comunicação se apresenta como um importante instrumento que possibi-
lita sua geração e troca (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).

9.2 O processo de comunicação


Um modelo de processo de comunicação bastante clássico foi desen-
volvido pelos matemáticos e engenheiros Claude E. Shannon e Warren
Weaver. Eles tinham como objetivo fundamental obter a maior eficiência
possível na transmissão de informações pelos meios ou canais disponíveis.
Para isso, buscavam maximizar as informações por meio do controle dos
fatores que ocasionavam sua perda (CORREIA, 2009). O modelo de Shan-
non e Weaver é constituído pelos seguintes componentes: fonte de infor-
mação, emissor, mensagem, código, canal, receptor, destino e ruído, e está
ilustrado na Figura 9.2. Cada um desses componentes é definido a seguir, de
acordo com Correia (2009), Telles (2009) e Bazzo e Pereira (2006):
2 fonte de informação – a origem da mensagem;
2 emissor – o responsável por selecionar uma mensagem a partir
de uma fonte de informações, codificá-la e transmiti-la por meio
de um canal para o receptor;
2 mensagem – o que será transmitido (notícia, aviso, comunicado,
nota, palavra, recado), que deve ser relatado com clareza;

– 202 –
A importância da comunicação na Engenharia

2 receptor – o responsável por captar e decodificar a mensagem,


recuperando-a. Pode ser um indivíduo, um grupo ou um auditório;
2 canal de comunicação – o campo ou área de circulação da men-
sagem. É o responsável pela transferência espacial e/ou tempo-
ral da mensagem. Por exemplo, no caso de um relatório escrito,
o canal de comunicação é a folha de papel;
2 código – pode ser definido como um conjunto de normas adotado
para um sistema de signos, que permite a construção e a com-
preensão de mensagens. É a linguagem, que deve ser compre-
endida por ambos, emissor e receptor. Em um relatório técnico,
deve-se buscar adaptar esse tipo de linguagem e o diagrama da
apresentação ao público-alvo – o receptor. A linguagem verbal é
um tipo de código, dentre muitos outros existentes;
2 ruído – são interferências que podem ocorrer durante a transmissão
da mensagem, causando dificuldade em sua recepção e perdas na
recuperação da informação, o que prejudica a boa comunicação.
Figura 9.2 – O modelo do processo de comunicação, segundo Shannon e Weaver

Fonte: adaptada de Correia (2009).

É importante ressaltar que a recepção da mensagem não necessaria-


mente garante a sua compreensão. Pode existir uma barreira na comunica-
ção em qualquer uma das etapas envolvidas nesse processo. Por exemplo,
quando o emissor e o receptor não utilizam os mesmos sinais, a mensagem
pode ser recebida, mas não compreendida. A comunicação só pode ser
eficiente quando ocorre a total compreensão dos sinais emitidos. Contudo,
não basta a utilização de um código em comum para que se realize uma
comunicação satisfatória. Outras variáveis que incidam sobre os outros
elementos do processo de comunicação podem atrapalhar o seu sucesso.

– 203 –
Introdução à Engenharia da Produção

Alguns problemas podem também ser originados pelos ruídos que ocor-
rem durante a transmissão da mensagem (TELLES, 2009).
Para Chiavenato (2003) e Naquit (2017), dentro do processo de
comunicação, podem ocorrer três tipos de barreiras:
2 barreiras pessoais – aquelas provocadas por intervenções advin-
das das limitações, dos valores, das crenças e das percepções de
cada pessoa. Imagine a seguinte situação: um chefe comunica a
um empregado que ele deve tomar cuidado com a verificação
ortográfica antes de entregar um memorando. Um funcioná-
rio com um ponto de vista pessoal negativo pode interpretar o
comentário como negativo e ficar com raiva ou com medo de
perder o emprego. Um funcionário com um ponto de vista pes-
soal positivo pode ver isso como uma oportunidade de melho-
rar seus conhecimentos. Emoções, preocupações, classe social,
educação, etc. são exemplos de barreiras pessoais.
2 barreiras físicas – interferências que ocorrem no ambiente
em que acontece o processo comunicativo. É independente dos
indivíduos que se comunicam. Exemplos de barreiras físicas
para a comunicação incluem a construção de estradas, música
alta, troca de mensagens de texto durante a conversa, mesas
mal dispostas e lugares de reunião desconfortáveis. As bar-
reiras físicas também afetam a comunicação escrita, como no
caso de uma carta manchada ou desbotada.
2 barreiras semânticas – interferências ocasionadas por limita-
ções ou distorções decorrentes dos símbolos utilizados durante
a comunicação. São muitas vezes provocadas porque os indi-
víduos são de diferentes culturas, o que impede que as partes
envolvidas determinem um significado comum para as pala-
vras. O uso de jargões específicos de um campo profissional ou
de palavras e expressões coloquiais específicas de uma região
é um exemplo de barreira semântica. Um médico que explica
um diagnóstico a um paciente, por exemplo, irá transmitir a
mensagem de forma menos eficaz se usar exclusivamente a
terminologia médica.

– 204 –
A importância da comunicação na Engenharia

Há outros fatores que também podem afetar a comunicação, preju-


dicando todo o processo. São eles a omissão (quando parte da mensagem
é ignorada, alterando o significado da mensagem ou a mensagem em si);
a distorção (quando se altera parte da mensagem, modificando seu signi-
ficado); e a sobrecarga (quando a quantidade de informação é tão grande
que o receptor não consegue processar todas as informações, comprome-
tendo seu conteúdo) (CHIAVENATO, 2003).
Outros princípios também podem funcionar como barreiras, con-
forme destaca Weil (2005):
2 opiniões e atitudes do receptor podem levá-lo a escolher ouvir
apenas aquilo que lhe interessa;
2 o egocentrismo impede o receptor de admitir um ponto de vista
diferente do seu, o que o compele a rebater o que o outro diz sem
analisar de forma adequada o conteúdo da mensagem;
2 a percepção que temos do outro. É importante destacarmos
que a formação dessa percepção é totalmente influenciada por
preconceitos e estereótipos;
2 a competição leva todos a falarem ao mesmo tempo, afinal,
todos querem ser ouvidos. Porém, com essa atitude, acabamos
perdendo muitas informações, já que pode-se interromper o
outro sem ao menos ouvi-lo;
2 a decepção ou a frustação no momento da comunicação
podem impedir o receptor de compreender o que está sendo dito;
2 a possibilidade de transferência de sentimentos e percepções
pessoais em relação a alguém parecido com nosso interlocutor.

9.3 Formas de comunicação


Existem várias formas de se realizar o processo comunicativo, que podem
ser empregadas no cotidiano de todos os profissionais, inclusive dos enge-
nheiros. Embora a comunicação escrita possa ser considerada uma das mais
importantes – por ter uma duração prolongada – outras formas de comunica-
ção também devem ser trabalhadas, como por exemplo a comunicação oral.

– 205 –
Introdução à Engenharia da Produção

9.3.1 Comunicação escrita


Não existem atalhos para se escrever bem. Para termos a chance
de desenvolver uma boa escrita é necessário, pelo menos, o domínio do
código que será utilizado para colocar as ideias no papel. A utilização
desse código implica, necessariamente, em fazer o uso das regras gra-
maticais vigentes de forma rigorosa, principalmente no que se refere à
ortografia, à pontuação e à concordância gramatical. Mas, na grande maio-
ria dos casos, isso ainda é insuficiente para garantir uma boa redação.
A ação de se comunicar bem pelo processo de escrita também pode
ser consequência da prática constante da redação e da boa leitura. Além
disso, podemos fazer a utilização de técnicas facilitadoras. Por exemplo,
na preparação de um relatório, é importante a documentação de tudo que
foi necessário realizar para o levantamento de dados e seu desenvolvi-
mento (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Para a engenharia, assim como para outras profissões, é importante
que se faça a utilização da linguagem técnica durante a escrita. Deve-se
buscar que ela seja simples, clara, precisa e, tanto quanto possível, mol-
dada em frases curtas. É importante se abster de recursos que possam dar
margem a segundas interpretações. Um cuidado especial precisa ser dado
à utilização dos termos conhecidos como “jargões técnicos” – aqueles que
são muito específicos de cada área de estudo para fazer referência aos seus
processos, instrumentos, produtos, enfim, aos seus conhecimentos. Captar,
compreender e saber como utilizar corretamente a terminologia comum da
área também é essencial hora de redigir trabalhos técnicos. Porém, um
adendo é necessário: na comunicação, tudo é muito maleável e dependente
do público-alvo. Por exemplo, se escrevermos um manual de utilização
para um equipamento que será operado pela população em geral, termos
técnicos específicos devem ser evitados (BAZZO; PEREIRA, 2006).
Enquanto na linguagem do cotidiano prosopopeias são comuns, elas
devem ser evitadas na linguagem técnica. Mas o que é prosopopeia? É
a ação de fornecer propriedades que dão vida, ação, movimento e voz
para coisas inanimadas. Por exemplo, expressões como: “a equação A diz
que” — pois as equações não falam —, “os dados apontam para” – pois
os dados não apontam -, devem ser evitadas (BAZZO; PEREIRA, 2006).

– 206 –
A importância da comunicação na Engenharia

Recomenda-se também que uma redação técnica seja preparada em


um estilo que apresente: clareza, impessoalidade, objetividade, modéstia e
cortesia. Cada uma dessas características é definida, de acordo com Bazzo
e Pereira (2006), da seguinte forma:
2 clareza – é um atributo importante para a linguagem técnica, por
ser uma facilitadora da comunicação. Conhecer o assunto, ter ele
bem claro em mente, já é um excelente ponto de partida para o
seu registro. Não conhecer o assunto que será relatado dificulta o
desenvolvimento da linguagem escrita, e o resultado final obtido
não será bom. Para se obter clareza, também é necessária a boa
compreensão dos termos técnicos, o que irá facilitar o registro de
ideias em uma área específica de conhecimento. A escrita deve
também estar baseada em dados objetivos e verificados, a partir
dos quais é possível analisar, sintetizar, argumentar e concluir.
2 impessoalidade – se orienta que, preferencialmente, os tex-
tos sejam redigidos na terceira pessoa, evitando expressões
de posse, como “minhas pesquisas”, “meu trabalho” e “meus
dados”. Ao invés dessas expressões, deve-se utilizar, por exem-
plo: “o presente trabalho” e “conclui-se que”. O objetivo é que
os documentos se tornem mais inclusivos e demonstrem que
ninguém trabalha sozinho. É importante ressaltar que essa orien-
tação é contestada por alguns autores. Eles alegam que, ao escre-
ver dessa maneira, o autor passa a impressão de estar tentando
se isentar da responsabilidade pelo que ele escreve. Por esse
motivo, essa regra não é absoluta, e desde que se saiba utilizar
outras orientações com coerência e qualidade, pode-se fazê-lo
sem nenhum problema.
2 objetividade – deve-se evitar o uso exagerado de expressões do
tipo “é provável que” ou “possivelmente” na linguagem técnica,
pois elas podem ser interpretadas como dúvidas do escritor. A
própria linguagem impessoal tende a afastar expressões subje-
tivas, tais como “eu penso”, “parece-me”, induzindo o emprego
de termos mais objetivos. O seguinte exemplo faz o comparativo
com duas frases, para reforçar a importância dessa caracterís-
tica: “a sala mede 6 m de largura por 15 m de comprimento” e

– 207 –
Introdução à Engenharia da Produção

“o local é grande e espaçoso”. O lugar ser espaçoso é algo subje-


tivo – dependendo da sua utilização. Um local espaçoso para um
escritório é diferente de um local espaçoso para uma montadora
de automóveis, por exemplo. As medidas exatas nos permitem
saber se o local será adequado para a utilização que se deseja.
2 modéstia e cortesia – o apontamento de erros e incoerências em
trabalhos realizados por outros não é uma atitude condenável. Entre-
tanto, isso não deve ser utilizado apenas como forma de engrande-
cer o próprio trabalho. Se o que estamos escrevendo é bom, tem
qualidade, não há necessidade de diminuir o trabalho dos outros
para fortalecê-lo. Um pouco de modéstia, inclusive, torna mais fácil
evitar contra-ataques daqueles que se sentirem prejudicados com as
críticas. Mas além de utilizar a modéstia, a cortesia também deve
fazer parte da escrita. É importante que o texto registre resultados
e análises dentro do contexto em que foi realizado, e não apenas
informações para chocar o leitor com apontamentos arrogantes que
tem a única finalidade de alimentar o ego do autor.

9.3.2 A comunicação oral


Saber falar em público é uma habilidade essencial para muitos dos
profissionais de hoje, inclusive para a categoria dos engenheiros. No
entanto, vale ressaltar que essa não é uma característica genética, ninguém
nasce com essa habilidade. Ela é desenvolvida ao longo da vida, e é neces-
sário muito treinamento. Para a realização de uma boa exposição oral em
público, é preciso dominar algumas técnicas que facilitam a construção de
um diálogo, permitem a continuidade de suas ideias e guiam o seu ouvinte
até a sua conclusão (CORREIA, 2013).
Os principais elementos da exposição oral, de acordo com Correia
(2013) são os seguintes:
2 coesão temática – são os elementos que asseguram a articula-
ção das diferentes partes temáticas. Por exemplo, quando fala-
mos de resultados anuais, é importante destacarmos também a
qual mês estamos nos referindo. Assim, o diálogo poderia ser
construído da seguinte maneira: “Falemos agora do orçamento

– 208 –
A importância da comunicação na Engenharia

do mês de janeiro [...]; é preciso agora contrastar os gastos do


mês de novembro com os de dezembro”.
2 sinalização do texto – a pontuação nos textos escritos é um
recurso gráfico utilizado para imprimir ao texto escrito as carac-
terísticas da língua falada. Geralmente implica em pausas que
indicam a diferenciação entre as ideias primárias das secundá-
rias, as explicações das descrições e os desenvolvimentos das
conclusões resumidas e das sínteses.
2 introdução de exemplos – ilustram, esclarecem ou dão
legitimidade ao discurso. Podem ser introduzidos com as
seguintes palavras/frases: então, justamente, eu tenho o seguinte
exemplo, entre outros.
2 reformulações – é o ato de esclarecer termos que podem ser
percebidos como difíceis ou novos, principalmente para deter-
minado público-alvo. Por exemplo, se durante um discurso você
utilizar o temo “arcaísmo”, e você conseguir antecipar que as
pessoas não sabem o que significa este termo, é interessante que
seja dada uma explicação a respeito dele. O mesmo pode valer
para a utilização de termos muito técnicos.
As apresentações orais devem ser pensadas utilizando todos esses
elementos para que, assim, elas adquiram uma estruturação consistente
e coerente que permita a comunicação eficiente. Dessa forma, você enri-
quece sua apresentação e colabora para que os objetivos finais da sua
comunicação sejam atingidos (CORREIA, 2013).

9.4 Dicas para uma boa comunicação


O mercado de trabalho está cada vez mais competitivo, e os detalhes
e diferencias dos currículos têm sido cada vez mais importantes para as
definições das vagas de emprego. Sabendo disso, a comunicação, seja ela
oral ou escrita, pode fazer toda a diferença na hora da contratação, além
de ser fator essencial em qualquer profissão. Portanto, serão apresentas a
seguir algumas dicas e exposições sobre o assunto para a boa prática da
comunicação do engenheiro.

– 209 –
Introdução à Engenharia da Produção

É muito comum, principalmente em processos de seleção, candidatos


serem reprovados simplesmente por falarem ou escreverem algo errado,
mesmo que, tecnicamente, eles possuam ótimos currículos do ponto de
vista do mercado. E não é apenas a ortografia e a gramática – os piores
casos são relativos à estruturação das ideias, que em muitas vezes são
apresentadas de forma confusa e ambígua. Essa carência pode, inclusive,
ser interpretada como incompetência ou falta de potencial.
A seguir são listados cinco passos importantes para uma garantir uma
boa comunicação, de acordo com Carneiro, Souza e Perosa (2017):
2 ter conhecimento sobre o assunto que está falando;
2 ser o mais direto possível no discurso;
2 tomar cuidado com a linguagem, buscando observar o contexto
e o ambiente em que está inserido para adaptar a linguagem
ao ambiente;
2 utilizar a empatia, colocar-se no lugar do ouvinte e pensar em
como seria ser o ouvinte enquanto você se comunica;
2 utilizar a linguagem corporal – gestos, expressões e movimentos
– para chamar a atenção do ouvinte.
Além desses cinco passos, também é recomendada a visualização da
comunicação de outras pessoas e realizar bastante treinamento. Ser crítico
consigo mesmo, saber pedir a opinião de outras pessoas e, o mais impor-
tante, saber ouvi-las, são ações importantes para que você possa se tornar
um bom comunicador.
E em que momento o engenheiro irá aplicar esses conhecimentos? Para
um engenheiro, relatórios, expedir ordens e divulgar seus trabalhos em semi-
nários são ações corriqueiras. A comunicação, tanto escrita quanto oral, é de
fundamental importância para os engenheiros, pois será utilizada, quase sem-
pre, com o objetivo de transmitir algum conhecimento novo ou convencer o
leitor de algo. Outra dica bastante valiosa é investir bastante na leitura. Além
de agregar conhecimento, ela contribui com o aumento do vocabulário e com
o melhor uso da gramática, evitando erros de escrita e de concordância verbal.
Usar palavras simples e objetivas e estruturar suas ideias em começo, meio e
fim são outras formas de melhorar sua comunicação.

– 210 –
A importância da comunicação na Engenharia

As apresentações orais podem ser um problema para os engenhei-


ros, já que são consideradas grandes vilãs por muitas pessoas, principal-
mente pelas que são mais tímidas e reservadas. Entretanto, essa é uma
parte inerente à profissão – conduzir reuniões, apresentar ideias ou pro-
jetos e até conversar com os clientes são ações importantes associadas
aos engenheiros. É muito comum sentir nervosismo e ansiedade antes
de falar em público. Pessoas tímidas sofrem um pouco mais, porém, é
possível ultrapassar essa barreira com treino e dedicação – praticar bas-
tante sua fala em frente a um espelho e exercitar-se horas antes da fala
são conselhos importantes para deixar o corpo e a mente mais relaxados
(HOLTZAPPLE; REECE, 2006). Para os profissionais que sofrem ao falar
em público, e também para os que não sofrem, Carneiro, Souza e Perosa
(2017) destacam algumas ações importantes para ajudar a se sentir mais
relaxado durante a fala e, assim, melhorar suas apresentações orais:
2 aprender a aceitar críticas – na grande maioria das vezes elas
são construtivas e irão ajudar o orador a melhorar suas habilida-
des de falar em público;
2 começar bem – pratique uma introdução sólida sobre quem você é e
o que faz, sendo sempre gentil, suave e confiante. Quando tudo corre
bem no começo da apresentação, você, como orador, se sente mais
confortável com o público e também expressa mais confiança. Como
consequência, a audiência fica mais à vontade também. Quando o
ouvinte ou espectador sente que pode se relacionar com o apresenta-
dor, é mais provável que responda bem a uma apresentação.
2 ser natural e simpático – é muito importante cumprimentar e
agradecer todos os presentes. Isso também ajuda a quebrar um
pouco do gelo inicial do discurso;
2 enfatizar a importância do tema e mostrar conhecimento
acerca dele – isso faz com que você se sinta mais confiante na
hora de um discurso e também faz com que as pessoas passem a
prestar mais atenção no que você está tentando comunicar;
2 falar em tom de conversa torna o discurso mais interessante,
bem como manter a voz em bom tom, utilizando um vocabulário
correto e sem gírias;

– 211 –
Introdução à Engenharia da Produção

2 pensar nas possíveis perguntas que irá receber e se preparar


para o que você considera que sejam os seus pontos fracos sobre
o assunto. Isso o ajudará sentir-se pronto para os questionamen-
tos futuros, desmitificando essa etapa da apresentação e transfor-
mando-a em uma situação mais confortável.
Segundo Batman Júnior (2010), durante a preparação de uma apre-
sentação oral, três passos devem ser levados em consideração. Primeiro,
o profissional deve preferencialmente escolher um tema que ele domine
e ache interessante, pois desse modo será muito mais fácil a explanação
pública. Depois disso, é importante pesquisar no meio cientifico dados,
detalhes e informações mais recentes e que sejam importantes ao tema,
o que funcionará como suporte na sua apresentação. O último passo é
procurar se organizar; tentar saber quem verá sua apresentação, para
que você tenha uma noção do seu público; planejar como a apresenta-
ção será conduzida – quais assuntos e quando cada um será abordado;
encaixar a apresentação no tempo disponível e estudar bem o assunto
antes da apresentação.
De acordo com Carneiro, Souza e Perosa (2017), para a preparação
de uma reunião, os itens a seguir devem ser levados em consideração:
2 a pauta da reunião deve ser formulada previamente, dando tempo
para todos os envolvidos se interarem a respeito do assunto. Uma
linguagem objetiva deve ser utilizada, com os tópicos apresen-
tados de forma clara;
2 é bom que o tempo não exceda duas horas, e devem ser progra-
mados intervalos. Isso é importante para que a reunião não seja
cansativa e não perca o foco;
2 convide apenas as pessoas cuja presença seja indispensável na
reunião. A presença de muitas pessoas pode ser prejudicial ao seu
andamento, levando a distrações e discussões desnecessárias;
2 chegue com antecedência no local e cheque os recursos necessários.
Isso ajuda a prevenir possíveis atrasos que possam vir a ocorrer;
2 comece a apresentação com os objetivos do encontro, situando
todos os envolvidos;

– 212 –
A importância da comunicação na Engenharia

2 encontre o volume adequado de sua voz, mantendo-o em tom de


conversa, e mantenha-se atento.
Outro fator que auxilia o orador durante uma reunião ou apresenta-
ção oral é ficar o mais calmo possível, agindo com naturalidade. A grande
maioria das pessoas tem medo de falar em público, porém, com o tempo
esse medo tende a diminuir, tranformando a oralidade em algo natural.
Além disso, engenheiros fazem muitas reuniões durante seu trabalho, e
elas acabam se tornando um elemento comum de suas vidas profissionais
(CARNEIRO; SOUZA; PEROSA, 2017).

9.5 A comunicação e o engenheiro


De acordo com Batman Junior (2010), o propósito buscado por todo
engenheiro recém-formado para sua vida profissional não deve estar limi-
tado a apenas o conhecimento e as técnicas adquiridas na universidade,
no período de gradução. Para que o novo profissional seja um engenheiro
eficiente, deve utilizar instrumentos como a memória, o raciocínio, a capa-
cidade de pesquisar e, principalmente, ter a habilidade de se expressar
expondo com clareza os objetivos, resultados, soluções e ideias encontra-
das. Afinal, um dos principais objetivos do engenheiro é desenvolver bem
o trabalho e se comunicar com eficácia em sua área de atuação.
Porém, muito alunos de graduação em engenharia ainda se questio-
nam a respeito do estudo da comunicação na área de exatas. Isso quando
ela está inserida na grade curricular. Para Faria (2012), o cotidiano desse
profissional é baseado em comunicações diárias. Isso é exigido dos profis-
sionais nas empresas em que atuam. Em vários momentos eles encontram
necessidade em utilizar a linguagem técnica. Quando isso não é abordado
na graduação, pode acabar se tornando um problema para o profissional, já
que não conseguirá exercer seu papel de comunicar, persuadir, convencer
e esclarecer. Para Batman Junior (2010),
a comunicação escrita é essencial ao trabalho do engenheiro.
Expedir pedidos ou ordens aos funcionários da empresa, preparar
memorandos, elaborar relatórios técnicos para clientes ou dire-
tores, redigir cartas comerciais ou propostas e escrever artigos
em revistas técnicas são alguns exemplos. O engenheiro precisa

– 213 –
Introdução à Engenharia da Produção

escrever de forma precisa, breve, clara e fácil de entender, pois o


objetivo maior é expressar e não impressionar. A boa escrita exige
editoração, nada de improvisação e sempre se colocar no lugar de
quem irá ler (público-alvo) aquele texto. (BATMAN JUNIOR,
2010, p. 32-33).

A comunicação na engenharia pode ser feita tanto internamente,


dentro de uma emprea, quanto externamente, com a sociedade em geral.
Entretanto, até a década de 1970, as atividades de comunicação de uma
organização ou empresa eram totalmente fragmentadas. Eram raríssimos
os empresários e gerentes que enxergavam o valor da comunicação, bem
como a existência de departamentos focados no assunto. A comunicação
interna era marcada pelo autoritarismo, pelo desencorajamento ao diálogo,
não existindo unicidade e respeito nos diálogos nas empresas. Mas é no
final dessa década que começam a ocorrer algumas mudanças que acabam
fazendo com que, nos anos 80, a comunicação enfim ganhe mais destaque
e espaço nas organizações. A publicação do plano de comunicação da
Rhodia marca essa experiência, sendo o primeiro case bem-sucedido de
transparência e de compromisso aplicados ao exercício da comunicação
empresarial no país (PINHEIRO, 2005).
As organizações modernas já possuem o conhecimento da necessi-
dade de ferramentas para se comunicar, tanto interna quanto externamente.
Externamente, é importante que a organização estabeleça seu conceito,
seu produto, seu diferencial frente à sociedade – ou seja, a comunicação
deve ser uma aliada e não uma vítima do processo. Para isso, a empresa
pode optar por assessorias de comunicação, que funcionam quase como
um termômetro para a empresa saber como está sua imagem no mercado.
A função desse serviço de assessoria é, de certa forma, conseguir prever
cenários futuros, distinguir pontos de vista, enfim, saber apresentar e ven-
der a empresa para os consumidores – tornar a empresa mais interessante
e, de certa forma, mais próxima do consumidor final (PINHEIRO, 2005).
A comunicação interna é importante em empresas de qualquer setor,
para engenheiros das mais diversas especializações. O método mais
fácil de se perceber a importância da comunicação talvez seja o de se
deparar com as consequências da falta dela. Geralmente, a falta de uma
boa comunicação na engenharia leva a perdas e prejuízos. Serviços são
refeitos, acidentes são constantes e pequenos erros acarretam problemas

– 214 –
A importância da comunicação na Engenharia

de grandes proporções. Logo, é facilmente percebido que ter uma boa


comunicação é necessário, pois um simples detalhe que não foi comuni-
cado, ou até mesmo uma palavra com duplo sentido ou mal pronunciada
e interpretada, tendem a tornar o trabalho realizado insatisfatório e de
baixa qualidade, causando grandes prejuízos. É claro que essa situação
é totalmente desfavorável ao profissional responsável. Dentre algumas
das consequências resultantes da falta de comunicação podemos desta-
car obras mal sinalizadas, projetos mal elaborados, acidentes de trabalho,
entre outros (BUENO; BILESKI, 2014).
As atividades realizadas pelo engenheiro no seu cotidiano podem
fazer uso de grande carga científica, o que tende a distanciar esse profis-
sional da realidade dos cidadãos em geral, principalmente quando com-
paradas com as atividades realizadas em outras profissões. Assim, como
a comunicação técnica é uma ferramenta essencial a ambientes técnicos
e científicos, possibilitando a transformação desses assuntos em infor-
mações mais práticas e acessíveis, essa linguagem tem certo destaque no
cenário da engenharia. Nesse caso, a transmissão de conhecimento ocorre
entre aqueles que conhecem e dominam essa linguagem (o engenheiro),
para aqueles que dela necessitam no dia a dia (por exemplo, o operador).
Na prática da engenharia, é esse o formato de comunicação que permite a
transmissão de resultados de estudos técnicos tanto a profissionais da área,
com os mais variados graus de instrução, quanto aos totalmente leigos no
assunto. Para ser bem-sucedida, essa forma de comunicação deve ser clara
e compreensível, exigindo cuidado no que diz respeito a três constituintes
do processo de comunicação, que são a mensagem, o emissor e o receptor
(SCHMID, 2007). O engenheiro, nesse caso o emissor, deve codificar a
mensagem de forma que o receptor possa entendê-la. Para isso, o enge-
nheiro deve ter conhecimentos a respeito do receptor, do interlocutor, para
que ele possa utilizar o código mais adequado à situação.
Por esse motivo, é fundamental que esse profissional saiba como ajus-
tar a linguagem quando for se comunicar com as pessoas com quem venha
a interagir, permitindo uma aproximação e a troca de pontos de vista. Esse
ajuste da linguagem significa, antes de mais nada, reconhecer o interlo-
cutor no que diz respeito a seu nível de conhecimento sobre o assunto e
à relação que ele tem com a situação. Mesmo que ele não seja capaz de

– 215 –
Introdução à Engenharia da Produção

compreender o significado técnico e científico de conceitos utilizados pelo


engenheiro para explicar determinado fenômeno, certamente ele conse-
guirá entender como poderá ser afetado pela situação em questão. Mais
do que tentar simplificar conceitos e fornecer esclarecimentos, cabe ao
engenheiro inserir-se no cotidiano do receptor de sua mensagem, apresen-
tando da melhor forma a situação-problema e as implicações dos possíveis
cursos de ação (AGOSTINHO; AMORELLI; RAMALHO, 2015).
O emissor e o receptor devem ser envolvidos em uma relação na
qual o emissor deve garantir que esses conteúdos técnicos sejam trans-
formados em uma linguagem que o receptor consiga captar e compreen-
der por completo. Ao se tratar de uma comunicação técnica, o material
escrito ter a qualidade de um conteúdo relevante é prioridade, em detri-
mento da satisfação do ponto de vista estético. Enquanto outros tipos
de comunicação podem ser bem-sucedidos somente por uma apresen-
tação gráfica adequada, a comunicação técnica requer mais do que isso
– ela precisa gerar credibilidade pelo seu conteúdo. Uma produção com
visual excepcional não compensa eventual falta de conteúdo técnico
(SCHMID, 2007).
Na transmissão de conhecimentos e informações, o fato de um mate-
rial possuir deficiências em sua apresentação estética, sendo, entretanto,
legível e confiável no que diz respeito ao seu conteúdo, não o torna descar-
tável – ele ainda apresenta utilidade, do ponto de vista da transmissão de
informações. Porém, a recíproca não é verdadeira. Se o conteúdo técnico
for falho, não há recursos estéticos que possam esconder essa realidade e
tornar o material útil. Isso pode ser explicado pelo fato de a beleza de um
material não ser uma consequência de seus aspectos racionais, ou seja, ela
contribui com o conteúdo técnico, mas não é uma característica indepen-
dente desse conteúdo (SCHMID, 2007).

9.6 A comunicação e a liderança


Para Hunter (2004), o termo liderança é definido da seguinte maneira:
“liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusias-
ticamente visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o
bem comum” (HUNTER, 2004, p. 25).

– 216 –
A importância da comunicação na Engenharia

Muita atenção tem sido dada às formas como um líder pode ter influên-
cia no comportamento de seus liderados dentro das organizações. Um dos
principais pontos relacionados a esse poder de influência é a comunicação
(LIMA, 2010). Segundo Pinto (2007), estabelecer uma comunicação efi-
ciente é totalmente relevante para empresários e administradores, por se
tratar de um processo que está presente em diversas funções, como pla-
nejamento, organização, coordenação de atividades, liderança e controle.
Saber se comunicar é essencial para que se possa cumprir os propósitos
da organização.
Atualmente, grande parcela dos engenheiros encontra-se inserida no
mercado de trabalho no setor administrativo, como gerentes, por exemplo.
Nessa área, ter uma boa capacidade de se comunicar bem é indispensável,
pois haverá muitos funcionários subordinados a eles. Para garantir o bom
funcionamento da empresa, é necessário que a comunicação seja feita de
forma correta por todo o caminho: do dono da empresa até o de menor
grau de poder. A motivação de uma equipe ou os talentos de seus inte-
grantes não são suficientes se não existir comunicação – sem esse fator a
reunião de grandes mentes não potencializa a força humana da empresa
(CARNEIRO; SOUZA; PEROSA, 2017).
O engenheiro deve buscar estabelcer uma relação respeitosa e ami-
gável com seus subordinados, sabendo ser rígido, quando necessário, bem
como ser fonte de auxílio no que for preciso. Isso porque o sucesso de um
líder depende em grande parte dos bons resultados obtidos por seus subor-
dinados (CARNEIRO; SOUZA; PEROSA, 2017).
Um bom líder deve ser um comunicador talentoso, pois quando se
tem funcionários sob sua responsabilidade, uma de suas obrigações é moti-
vá-los e incentivá-los na realização de suas atividades, visando produzir
mais e melhor. Além disso, cargos de liderança vêm com a carga de diálo-
gos entre os funcionários e os chefes. Para isso acontecer de uma maneira
mais fácil, é importante que exista uma relação mútua de confiança entre
os envolvidos e que o clima da empresa seja o mais agradável possível.
Essas caracteríticas são fundamentais para um processo de comunicação
eficiente, aumentando as chances de sucesso e de bom funcionamento
da empresa. Um bom comunicador não é necessariamente um líder, mas
sem dúvida, um líder precisa ser um bom comunicador. Ao observarmos a

– 217 –
Introdução à Engenharia da Produção

visão atual do líder, notamos que o espaço antes preenchido por um estilo
autoritário passa a ser ocupado por pessoas que, independentemente dos
seus cargos ou hierarquias, tendem a exercer maior poder de influência
sobre outras pessoas (CARNEIRO; SOUZA; PEROSA, 2017).
Os funcionários têm o líder como referência. Geralmente, é nele que
eles buscam se espelhar. É para ele que esses trabalhadores relatam pro-
blemas, esclarecem dúvidas, reclamam de algo que está ocorrendo. Para
isso, um líder deve ser exímio em se comunicar de forma objetiva e trans-
parente, sempre buscando o melhor para o funcionário e para a empresa
(SCHMID, 2007).
O sucesso de uma organização é resultado direto de um bom processo
de comunicação. Para isso ser possível, os líderes devem se comunicar de
forma diária e constante, e não apenas quando ocorrem falhas ou novida-
des. Só assim é possível encontrar pessoas motivadas dentro da empresa
– quando elas sabem seu propósito ali dentro e entendem que o sucesso
será uma consequência disso. Logo, quando se deseja ser um líder e enge-
nheiro de destaque, é necessário, primeiramente, o bom desenvolvimento
da comunicação. Os profissionais que apresentam essa habilidade são os
mais estimados pelo mercado de trabalho por quase sempre conseguirem
influenciar e convencer os seus subordinados na realização de determinado
objetivo. Outra característica valiosa é saber ouvir críticas sobre determi-
nados assuntos, e aceitá-las (SCHMID, 2007; LOVIZZARO, 2003).

Erro na transmissão de uma


mensagem por utilização do
“telefone sem fio”

Imagine os seguintes diálogos dentro de uma empresa. O dire-


tor-presidente da empresa transmitiu a seguinte mensagem
para o gerente: “Na próxima sexta-feira, aproximadamente às
17hs, o cometa Halley passará nessa área. Trata-se de um evento
que ocorre somente a cada 76 anos. Assim, por favor, reúna os
funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacete de
segurança, e lá explicarei o fenômeno a eles. Se estiver cho-

– 218 –
A importância da comunicação na Engenharia

vendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu. Sendo


assim, todos deverão dirigir-se ao refeitório, onde será exibido
um filme-documentário sobre o cometa Halley”.

O gerente transmitiu a seguinte mensagem para o supervisor:


“Por ordem do diretor-presidente, na sexta-feira, às 17hs, o
cometa Halley vai aparecer sobre a fábrica. Se chover, por favor,
reúna os funcionários, todos de capacete de segurança, e os
encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que
acontece a cada 76 anos a olho nu”.

O supervisor transmitiu a seguinte mensagem para o encar-


regado de produção: “Na sexta-feira, às 17hs, o diretor, pela
primeira vez em 76 anos, vai aparecer no refeitório da fábrica
para filmar a Banda Halley, o famoso cientista nu e sua equipe.
Todo mundo deve estar lá de capacete, pois será apresentado
um show sobre a segurança na chuva. O diretor levará a banda
para o pátio da fábrica”.

O encarregado de produção transmitiu a seguinte mensagem


para o mestre de produção: “Todo mundo nu, sem exceção,
deve estar com os seguranças no pátio da fábrica na próxima
sexta-feira, às 17hs, pois o diretor manda-chuva e o Sr. Halley,
guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme Dan-
çando na Chuva. Caso comece a chover mesmo, é para ir para
o refeitório de capacete na mesma hora. O show será lá, o que
ocorre a cada 76 anos”.

O mestre de produção transmitiu a seguinte mensagem para


todos os funcionários: “Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai
fazer 76 anos, e liberou geral pra festa, às 17hs, no refeitório. Vão
estar lá, pagos pelo manda-chuva, Bill Halley e Seus Cometas.
Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito
louca e o rock vai rolar solto até no pátio, mesmo com chuva”.

Moral da história: quando uma mensagem deve ser transmi-


tida diversas vezes, percorrendo muitos elos de uma cadeia de
comunicação, é muito alta a probabilidade de ocorrência de

– 219 –
Introdução à Engenharia da Produção

distorções. Nesse caso, a mensagem seguiu diferentes níveis da


hierarquia da empresa, passando por pessoas com vidas e expe-
riências muito diferentes, seja pelo subjetivismo que faz com
que as pessoas tendam a valorizar aspectos diferentes de uma
mesma informação, ou pelo princípio popular de que “quem
conta um conto, aumenta um ponto”. Assim, qualquer que seja
o canal utilizado para a transmissão de uma mensagem, é sem-
pre válido conferir se a mensagem que foi recebida é compatível
com a intenção original.

PERES, Silvia. Exemplos de falhas na comunicação. 2010. Dispo-


nível em: http://grupodeseminario4.blogspot.com/2010/04/exem-
plos-de-falhas-na-comunicacao.html. Acesso em: 12 abr. 2020.

Síntese
Vimos nesse capítulo a importância da comunicação na profissão do
engenheiro. Seja ela oral ou escrita, está intrinsecamente ligada ao coti-
diano desse profissional. Comunicar é transmitir uma mensagem, o que
ocorre por meio de um processo de comunicação. Nesse processo estão
envolvidos, além da mensagem, uma fonte, um emissor, um receptor, um
canal e ruídos. Esse último é o que dificulta o processo de comunicação.
A comunicação pode ser feita de diversas formas, mas, na engenharia,
destacamos duas formas: a escrita, muito presente em relatórios, atas
e outros documentos, e a oral, que é frequente em reuniões, palestras
e outras apresentações. Embora esse assunto ainda encontre resistên-
cia por estudantes de graduação em engenharia, ele é muito importante
para o profissinal inserido no mercado – ninguém trabalha sozinho, é
preciso se comunicar e se comunicar bem. Falhas de comunicação são,
na maioria das vezes, traduzidas como prejuízos financeiros. Por esse
motivo, existem várias dicas que podem ajudar o engenheiro a desenvol-
ver a habilidade da comunicação: leitura, treinamentos, conhecimento
do assunto etc. Tudo isso para que o engenheiro possa ser um bom pro-
fissional e um bom líder dentro da empresa.

– 220 –
A importância da comunicação na Engenharia

Atividades
1. Quais elementos fazem parte do modelo de processo de comuni-
cação proposto por Claude E. Shannon e Warren Weaver?
2. Uma empresa do setor têxtil estava decidida a interromper o tra-
balho de uma de suas divisões produtivas devido a problemas
técnicos em um equipamento que exigiria altos investimentos
na reposição de peças. O problema foi colocado aos funcioná-
rios da companhia por meio do “jornalzinho interno”. O retorno
veio por artigo, publicado no jornal mural, no qual um gerente
da principal unidade fabril apresentou uma ideia inovadora que
favoreceu a resolução do problema de forma rápida, duradoura
e de baixo custo. Qual a forma de comunicação utilizada em
ambas as situações?
3. Quais fatores caracterizam uma boa redação técnica? Explique
cada um deles.
4. Quais os tipos de barreira que podem prejudicar a comunicação?

– 221 –
10
A engenharia de
produção e as
novas tecnologias

Invenções, descobertas e inovação sempre estiveram inte-


gradas à história e ao desenvolvimento da humanidade. A cons-
tante busca pelo novo, pelo melhor e pelo progresso fazem parte
da natureza humana. E o profissional engenheiro sempre esteve
atrelado a esse processo, buscando solucionar problemas. Entre-
tanto, hoje a inovação é muito mais veloz. Basta observarmos
que, no passado, para avançarmos do meio de transporte movido
a tração animal, por exemplo, as bigas do Império Romano
(Figura 10.1), até as primeiras locomotivas a vapor do século
XIX (meio de transporte mais moderno da época, que viajava
a aproximadamente 30 km/h) levamos mais de 2 mil anos. Em
compensação, o século XX, em menos de 100 anos, trouxe jatos
voando a velocidades supersônicas. No século XXI, também per-
cebemos um avanço no alcance da inovação, na sua difusão pelo
mundo. Por exemplo, a televisão em preto e branco levou quase
20 anos para atingir 1 milhão de usuários, enquanto o iPad fez a
mesma coisa em 28 dias (FARIA; MARTINS, 2017).
Introdução à Engenharia da Produção

Figura 10.1 – Biga do Império Romano – espécie de carruagem que era movida a tração animal

Fonte: Shutterstock.com/Max Meinzold

No século XX, na chamada Economia Industrial, os fatores de compe-


titividade empresarial estavam mais associados a máquinas, infraestrutura,
logística, qualidade e outros. No período atual, denominado Economia do
Conhecimento, a tecnologia transpassa todas as áreas das organizações,
não funcionando apenas como instrumento de competitividade, mas sim
como uma exigência para garantir a sobrevivência da empresa. A com-
plexidade do comércio internacional, as rápidas mudanças socioeconô-
micas, as diretrizes para a sustentabilidade e o desenvolvimento susten-
tável, além da ascensão do conhecimento como inovação, têm mudado
a direção da função empresarial em busca de constante transformação,
adaptação e remodelagem. Somente as organizações com bom desempe-
nho e alto nível de competitividade sobreviverão – e esse fato não é lenda
ou modismo. É importante ressaltar que competitividade não é sinônimo
ou consequência do porte do empreendimento (FARIA; MARTINS, 2017;
BATALHA, 2008).
Aumentar as receitas e diminuir os custos por meio de produtos de
maior valor agregado, processos mais eficientes, estruturas organizacio-
nais flexíveis e mais ágeis ou novos modelos de negócio representam
caminhos perseguidos por organizações em todo o mundo na busca pela

– 224 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

competitividade. Nesse contexto, a capacidade de inovar se mostra essen-


cial e fundamental, pois é a única capaz de aliar necessidades e oportuni-
dades, provocadas pelos direcionadores internos e externos, e transformá-
-las em desdobramentos estratégicos consistentes. Esse é o desafio que
os gestores empresariais brasileiros devem enfrentar com mais seriedade,
caso desejem um lugar ao sol na nova realidade mundial – gostemos dela
ou não (FARIA; MARTINS, 2017).
O processo de desenvolvimento tecnológico no Brasil tem caracterís-
ticas distintas do perfil internacional. Embora o setor público seja respon-
sável por cerca de 60% dos investimentos e das atividades de pesquisa e
desenvolvimento (P&D), são as empresas privadas que transformam esses
conhecimentos em inovações capazes de gerar desenvolvimento econô-
mico. Logo, o campo de interação entre esses setores – um responsável
pela produção do conhecimento e o outro responsável por sua transfor-
mação em inovação – é fundamental para o desenvolvimento tecnológico
(BATALHA, 2008).
É fácil perceber a importância da inovação para a competitividade
empresarial. Todos reconhecem que inovar é necessário para alcançar sus-
tentabilidade nos negócios. Porém, poucos sabem como gerenciar a ino-
vação ou fazer da inovação um instrumento eficaz para a competividade.
Poucos sabem liderar para inovar e poucos de fato inovam. Portanto, a
pergunta é: como fazer com que a inovação de fato aconteça? Ou ainda,
como ser de fato uma empresa inovadora? (FARIA; MARTINS, 2017). O
engenheiro de produção possui papel fundamental nesse processo.

10.1 O que é tecnologia?


A palavra tecnologia origina-se do grego, technê (arte, ofício) e logos
(estudo de), e faz referência a termos técnicos utilizados para denominar
os utensílios, as máquinas e suas partes, bem como as operações envolvi-
das no seu funcionamento. Mas o homem vem desenvolvendo tecnologia
há muito tempo. Se pensarmos no homem pré-histórico, podemos perce-
ber o surgimento de certas tecnologias de caça que eram novidade para
aqueles grupos. Foram esses novos conhecimentos, que podem ser con-
siderados a tecnologia daquela época, que possibilitaram a determinação

– 225 –
Introdução à Engenharia da Produção

de locais, tipos, horários e hábitos dos animais caçados, bem como estra-
tégias de grupos, armas, entre outros. Ao longo do tempo, essa tecnolo-
gia foi evoluindo por meio da transmissão do conhecimento de geração a
geração, sofrendo aperfeiçoamentos, associações e combinações (SILVA,
2002; AMARAL, 2015).
O movimento mais significativo de transformação do pensamento
técnico, afastando-o do caráter descritivo para se comprometer com
experimentação, verificação e comprovação de dados e teorias, ocorreu
no princípio do século XVIII, pelo estreitamento dos laços entre o saber
técnico e o saber intelectual. O uso do termo “tecnologia” tem origem
na Revolução Industrial, ocorrida na Inglaterra no final do século XVIII.
Depois dessa época, seu significado foi expandido para abranger outras
áreas do conhecimento, além dos setores das indústrias têxtil e mecânica
inicialmente desenvolvidos (ALVES, 2009; SILVA, 2002).
A humanidade passou por grandes guerras (que tiveram papéis fun-
damentais para a evolução tecnológica), pelas diversas fases da Revolu-
ção Industrial e chegou até o momento da robótica, da genética e da tec-
nologia da informação. É fato que no século XXI experimenta-se a era
da informação, na qual as tecnologias em conjunto com a comunicação
proporcionam um ritmo acelerado para o desenvolvimento da civilização
humana. Assim, neste momento, o foco do estudo da tecnologia passa a
ser o aprofundamento de conhecimentos para encontrar meios de atin-
gir um objetivo final, com base em princípios verdadeiros e experiências
seguras, tudo isso segundo uma ordem sistemática. É dessa maneira que
o termo tecnologia passa a ser tido como a utilização de saberers cientí-
ficos na resolução de problemas, sinônimo de ciência aplicada (ALVES,
2009; AMARAL, 2015). Embora nem sempre verdadeira, essa definição
encontra seu lugar no mundo atual, em que a tecnologia passa a ser cada
vez mais dependente de conhecimentos científicos.
Essa estreita ligação estabelecida entre a ciência e a tecnologia origi-
nou o termo Ciência e Tecnologia, designado pela sigla C&T. Essa união
ocorreu no momento em que o método científico passou a ser utilizado
para aperfeiçoar a inovação tecnológica. Porém, é importante destacarmos
que o domínio do conjunto de saberes específicos é o responsável por for-
mar a tecnologia. Isso permitirá a preparação das instruções necessárias

– 226 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

que garantam uma boa operação da tecnologia e, consequentemente, uma


boa produção de bens e de serviços. Frequentemente, a palavra tecnolo-
gia tem sido empregada para designar plantas, desenhos, especificações,
normas, manuais, entre outros. Mas isso não expressa completamente o
sentido da palavra, deixando de fora os conhecimentos necessários para
sua construção e utilização. Apenas saber como usar a tecnologia não dá
ao usuário os conhecimentos que permitem sua concepção e geração, ou
seja, a tecnologia em si. Isso representa sérias implicações para a correta
compreensão do verdadeiro potencial ou independência tecnológica de
uma indústria ou mesmo de uma nação (AMARAL, 2015).
Para exemplificar, podemos considerar o apresentado por Amaral
(2015): quando se utiliza certa tecnologia, nos resultados obtidos – um
produto ou processo – estão envolvidos: diversos conhecimentos e aplica-
ções das ciências naturais (física, química, biologia, etc.), regras empíricas
(técnicas) e a aplicação da metodologia científica de pesquisa na com-
preensão e na solução de problemas surgidos durante o processo.

10.2 O que é inovação?


Quando se fala sobre novas tecnologias, é importante destacarmos o
termo inovação. No começo do século XX, muitos inventores-empresários,
como Thomas Edison, Werner Siemens, Alexander Graham Bell e George
Westinghouse, foram responsáveis pelo surgimento de grandes indústrias
inovadoras que transformaram o novo setor de produção de equipamentos
de transmissão, aplicação e geração de energia em um oligopólio (pou-
cos ofertantes e muitos demandantes). O surgimento, a modernização e a
expansão da utilização da eletricidade abriram caminho para o desenvol-
vimento de máquinas maiores e mais eficazes e de sistemas interligados de
produção, como as linhas de montagem. Foi nesse cenário, em que peque-
nos fabricantes buscavam formas de começar a concorrer com grandes
empresas monopolistas, que viveu o economista Joseph Alois Schumpeter
(1883-1950). Ele é o responsável pela origem do conceito de inovação.
Em seus trabalhos, o termo inovar era apresentado como “produzir outras
coisas, ou as mesmas coisas de outra maneira, combinar de diversas for-
mas materiais e forças, enfim, realizar diferentes combinações”. Essa defi-

– 227 –
Introdução à Engenharia da Produção

nição foi sendo lapidada ao longo do tempo, ganhando novas dimensões,


mas o caráter da palavra inovação ainda se relaciona ao ato de inovar, ao
ato de fazer algo novo (AMARAL, 2015; FUCK; VILHA, 2011).
Neste momento, é importante destacar que invenção e inovação são
termos distintos. O termo invenção está ligado ao desenvolvimento de
novas ideias, ao avanço do conhecimento científico real, bem como sua
aplicação na concepção e produção de novos maquinários, artefatos ou
mesmo em processos, tudo isso antes de estes estarem prontos para venda
(AMARAL, 2015). Boas ideias, invenções e descobertas acontecem a todo
o momento e são importantes para o avanço do conhecimento e da ciência.
Porém, a inovação só ocorre quando o novo conhecimento gera um valor
econômico. Inovação é o novo no mercado – quando são lançados novos
produtos e serviços –ou pode ser o novo para a empresa – quando ela
utiliza novos processos tecnológicos, novas estruturas organizacionais ou
novos modelos de negócio (FARIA; MARTINS, 2017).
Após a invenção e a inovação, viria o processo de difusão dessa ino-
vação, e ela seria totalmente aceita e absorvida pelo mercado. Em um
segundo cenário, a inovação seria descartada e o esforço empreendido
até ali, perdido. A difusão só ocorre quando os agentes econômicos con-
seguem observar resultados compensadores resultantes das mudanças
implementadas e passar, eles mesmos, a aglutinar a novidade: de produto,
processo, mercado, matéria-prima ou organização (AMARAL, 2015).

10.2.1 Tipos de inovação


O Manual de Oslo, publicado pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), em inglês Organization for Eco-
nomic Cooperation and Development (OECD), classificou a inovação em
quatro categorias diferentes: de produto (bem e serviço), de marketing, de
processo e organizacional.
A primeira categoria, inovação de produto, é definida como a inser-
ção no mercado de um bem ou serviço totalmente novo ou significati-
vamente melhorado (atualizado) no que se refere a suas características
ou utilizações previstas. Podem ser realizadas atualizações significativas
em diversas características funcionais do produto: especificações técnicas,

– 228 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

componentes e materiais, softwares incorporados, facilidade de utiliza-


ção, entre outras. Esse tipo de inovação costuma utilizar novos conhe-
cimentos ou tecnologias, ou pode basear-se em novos usos ou combina-
ções para conhecimentos ou tecnologias já existentes. Por exemplo, os
primeiros microprocessadores e câmeras digitais a surgirem no mercado
foram exemplos de novos produtos que utilizavam novas tecnologias. O
primeiro tocador de MP3 portátil, entretanto, foi criado da combinação
de padrões de softwares com a tecnologia de disco rígido miniaturizado,
tecnologias já existentes (OECD, 2006).
Quando pequenas modificações nas especificações técnicas de um
produto resultam em uma nova utilização, também temos uma inova-
ção de produto. Por exemplo, a utilização de uma composição química
já estabelecida para a produção de revestimentos na criação de um novo
detergente (OECD, 2006). Outro exemplo é o caso do Airbnb. Esse não
foi o primeiro serviço on-line que possibilita aos proprietários o anúncio
de quartos ou imóveis inteiros para aluguel por temporada. Entretanto, a
empresa foi a responsável por criar uma plataforma mais acessível, sim-
plificando o processo de comunicação entre proprietários e clientes, bem
como a própria transação de aluguel de quarto. E isso também é inovar
(SBCOACHING, 2018).
É muito comum um grande melhoramento de produtos existentes
mediante modificações em materiais, componentes e/ou outras caracterís-
ticas que melhoram o seu desempenho. Na indústria de automóveis, por
exemplo, a introdução dos freios ABS e dos sistemas de navegação GPS
são exemplos de inovações de produto como consequência de mudanças
limitadas ou da adição de um novo componente em um produto já exis-
tente (nesse caso, os carros). A troca de tecidos comuns pelos respiráveis
no setor de moda/vestuário é um exemplo de uma inovação de produto
pela troca de materiais, que são capazes de melhorar o desempenho do
produto (OECD, 2006).
Quando falamos de inovações de produtos no setor de serviços,
podem ser incluídas alterações importantes em relação a como esses ser-
viços são ofertados ao público (por exemplo, em termos de eficiência ou
de velocidade), ao acréscimo de novas utilidades ou características em
serviços já existentes, ou ainda à introdução de serviços completamente

– 229 –
Introdução à Engenharia da Produção

novos. Por exemplo, o internet banking oferece melhorias significativas


em serviços bancários, como um grande aumento na velocidade de aten-
dimento, possibilidade de realizar transações bancárias sem sair de casa,
além da facilidade de uso, já que esse serviço está disponível tanto no
computador quanto no celular, com a ajuda de um aplicativo. Os aplica-
tivos vêm revolucionando diversos serviços, principalmente o de entre-
gas, facilitando inclusive o pagamento, que pode ser feito on-line (OECD,
2006). Outro exemplo interessante é o caso do jato ERJ 145 da empresa
Embraer, que possuía capacidade para 50 passageiros e que revolucionou
o setor aéreo, ao ofertar o conforto e as vantagens de um avião a jato com
custos de operação de uma aeronave turboélice (FUCK; VILHA, 2011).
O processo de concepção é um componente importante para o desen-
volvimento e a implementação de produtos inovadores. Porém, modifica-
ções na concepção de um produto que não envolvem mudanças significa-
tivas nas suas características funcionais ou em suas utilizações previstas
não podem ser consideradas inovações de produto. Mas isso não exclui
totalmente o processo de inovação, já que elas ainda podem ser conside-
radas inovações de marketing, que serão discutidas a seguir. Atualizações
rotineiras ou modificações sazonais também não são consideradas inova-
ções de produto (OECD, 2006).
As inovações de marketing (também chamadas de inovações merca-
dológicas) contemplam a implementação de uma estratégia de marketing
inédita, seja com significativas modificações no visual do produto ou em
sua embalagem, na colocação do produto, em sua divulgação ou na fixa-
ção de preços. Essas ações são orientadas de forma a fornecer a melhor
assistência às necessidades dos consumidores, abrindo novos mercados,
ou para reposicionar o produto de uma empresa no mercado, objetivando
o crescimento das vendas (OECD, 2006).
Inovações de marketing também compreendem modificações subs-
tanciais na aparência do produto, sem alterar as características funcionais
ou de sua utilização. Nesse caso, mudanças na forma de embalar produ-
tos, principalmente em casos nos quais a embalagem é o fator decisivo
na aparência do produto, como alimentos, produtos de beleza, bebidas
e detergentes, são classificadas como inovações de marketing (OECD,
2006). Um caso real é o da linha Sou da empresa Natura. Buscando bai-

– 230 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

xíssimo impacto ambiental, com o mínimo de material e o máximo de


impacto sensorial, foram desenvolvidas embalagens em formato total-
mente novo, inspiradas em uma gota, com cores vivas e design que torna
o produto atraente ao consumidor, sem prejudicar sua praticidade. Além
disso, houve uma redução de 70% de plástico em sua composição e a
redução de 50% na emissão de CO2, agregando um apelo diferente para
um novo segmento de mercado (SILVA, 2016). A introdução de mudanças
significativas na forma, na aparência ou no sabor de alimentos ou bebi-
das, pelo uso de novos aromatizantes, por exemplo, também é inovação
de marketing, que pode ter como objetivo alcançar novos segmentos de
consumidores (OECD, 2006).
Inovações de marketing também envolvem o posicionamento de pro-
dutos com a introdução de novos métodos para a oferta de bens e serviços
para os consumidores/clientes. A primeira loja de uma rede de franquias,
de vendas diretas ou varejo exclusivo, o licenciamento de um novo pro-
duto e a utilização de novas abordagens para a apresentação de produtos
são formas de inovar na questão do marketing. Um bom exemplo para
ilustrar esse tipo de inovação é o das sandálias Havaianas, produzidas pela
empresa Alpargatas. O produto, originalmente concebido como acessí-
vel e de baixo preço, passou a ser promovido no mercado em um posi-
cionamento diferenciado, que associou as sandálias a uma característica
de artigo de moda utilizado por celebridades. Atualmente, as sandálias
Havaianas são consideradas um produto de estilo e qualidade, embora a
empresa ainda preserve sua linha tradicional de sandálias – isso demonstra
que as estratégias inovadoras adotadas por uma empresa podem caminhar
em conjunto com estratégias convencionais (FUCK; VILHA, 2011).
Ainda em relação à inovação de marketing, tem-se o uso de novos
conceitos para a promoção de produtos ou serviços de uma empresa. Isso
pode envolver tanto a utilização de diferentes meios de comunicação ou
de métodos substancialmente diferentes – como a aprovação de celebrida-
des em mídias socias – quanto o desenvolvimento e a implementação de
um símbolo totalmente novo para uma marca, visando colocar o produto
de uma empresa em um novo mercado ou fornecer-lhe uma imagem nova
e original. A introdução de um sistema de informação personalizado tam-
bém pode ser considerada uma inovação de marketing. Como exemplo,

– 231 –
Introdução à Engenharia da Produção

temos a utilização de cartões de fidelidade, para adaptar a apresentação


dos produtos às necessidades específicas dos consumidores individuais
(OECD, 2006). No momento atual, a tendência do mercado é o marketing
digital, com o surgimento, inclusive, de novas profissões, como influen-
cers e youtubers. Isso mostra como aproveitar esse novo jeito das pessoas
se relacionarem, consumirem e buscarem para promover o seu produto e/
ou serviço.
As inovações de marketing compreendem também o uso de novas
estratégias para a fixação de preços na comercialização de bens ou servi-
ços de uma empresa. Isso pode ser obtido com a utilização de um novo
método de variação de preços de um bem ou serviço de acordo com a
demanda (por exemplo, quando a demanda está baixa, o preço é baixo)
ou com a introdução de um novo método, que permita aos consumidores
personalizar as especificações de um produto na internet e visualizar o seu
valor final (OECD, 2006).
Para que todas as estratégias apresentadas sejam consideradas ino-
vações de marketing, elas devem envolver métodos de marketing nunca
antes utilizados pela empresa. Por exemplo, uma mudança significativa
no design ou na embalagem de um produto que esteja baseada em algum
conceito de marketing previamente utilizado pela empresa em outras cam-
panhas e em outros produtos não é uma inovação de marketing. O uso de
métodos de marketing existentes para atingir um novo mercado geográ-
fico ou um novo segmento comercial também não pode ser considerado
inovação de marketing (OECD, 2006).
As inovações também podem ser relativas a processos. A definição
desse tipo de inovação é colocar em prática um novo método de produção/
distribuição ou melhorar significativamente um método já existente.
Nesse caso, são compreendidas significativas modificações em métodos
e procedimentos, equipamentos e/ou softwares utilizados na produção de
bens e serviços. Esse tipo de inovação é geralmente abordado quando as
organizações visam diminuir os custos de produção ou de distribuição,
aprimorar a qualidade, ou ainda fazer a produção e/ou distribuição de pro-
dutos novos ou significativamente melhorados. Isso pode ser realizado
com a introdução de novos equipamentos de automação em uma linha de
produção e a implementação de design auxiliado por computador para o

– 232 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

desenvolvimento de produto (OECD, 2006). Como exemplo, destaca-se


a presença da robotização na linha de fabricação de automóveis. Aliás, a
evolução histórica da indústria automobilística é intensiva em exemplos
de inovação de processos, com destaque para as linhas de produção carac-
terísticas do fordismo, desenvolvidas nas primeiras décadas do século XX
e imortalizadas no filme Tempos Modernos, de 1936, do cineasta Charles
Chaplin (FUCK; VILHA, 2011).
A inovação dos métodos de distribuição também está inclusa na
categoria de inovações de processos e diz respeito à administração da
empresa e seus equipamentos, softwares e técnicas para o fornecimento
de insumos, alocação de suprimentos e entrega dos produtos finais. Como
exemplo de novidades no método de distribuição de uma empresa, pode-
-se citar a introdução de um sistema de rastreamento de bens por código
de barras, por QRCode ou por identificação ativa com uso de frequência
de rádio (OECD, 2006).
A inovação de processos também abrange novas metodologias, ou
metodologias significativamente melhoradas, utilizadas na criação e no
fornecimento de serviços, bem como em atividades auxiliares de suporte,
como compras, contabilidade, computação e manutenção. Isso envolverá
mudanças significativas nos equipamentos, softwares e na tecnologia da
informação e da comunicação (TIC) (OECD, 2006).
O último caso de inovação é a do tipo organizacional. Nesse caso,
tem-se a implantação de novas técnicas na organização e na gestão das
práticas de negócio das empresas, na organização do espaço de trabalho e
também no relacionamento com agentes externos, como fornecedores e/
ou distribuidores (OECD, 2006).
Inovações organizacionais estão relacionadas à melhora do desempe-
nho de um empreendimento mediante a diminuição de custos administra-
tivos ou de custos de transação, estimulando a satisfação dos trabalhadores
(e assim a produtividade do trabalho), alcançando ativos não transacio-
náveis (como o conhecimento externo não codificado) ou diminuindo os
custos de aprovisionamentos (OECD, 2006).
Comparados com outras possibilidades de mudanças organizacio-
nais em uma empresa, os aspectos específicos da inovação organizacional

– 233 –
Introdução à Engenharia da Produção

englobam a implantação de um método organizacional (seja nas práticas de


negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas) que
nunca tenha sido utilizado pela empresa e que seja uma consequência das
decisões estratégicas adotadas pela direção da empresa (OECD, 2006).
Nas negociações, as inovações organizacionais compreendem novi-
dades em métodos para a organização de hábitos e procedimentos que
irão conduzir o trabalho. Como exemplo, pode-se citar a instituição de um
banco de dados com as melhores práticas, lições e outros conhecimentos
adquiridos na empresa durante os anos, de modo a tornar essas informa-
ções mais acessíveis a todos os interessados, aperfeiçoando o processo de
distribuição de conhecimentos e informações dentro da empresa. Outro
exemplo é a primeira implantação de práticas voltadas para o desenvol-
vimento e retenção dos trabalhadores, como a adoção de programas para
educação e treinamento. A implantação de métodos de administração tanto
para a produção global quanto para as operações individualizadas, tais
como sistemas de gerenciamento da rede de fornecedores, reengenharia
de negócios, produção enxuta e sistemas de gerenciamento da qualidade
também são considerados casos de inovações em virtude da utilização de
práticas organizacionais (OECD, 2006).
O local de trabalho também está envolvido nas inovações da organiza-
ção. Nesse caso, novas metodologias podem ser aplicadas na distribuição
de responsabilidades, inclusive na tomada de decisão relacionada à divi-
são de trabalho existente na empresa e em suas unidades organizacionais.
Também abrange a utilização de conceitos diferenciados na estruturação
e integração de atividades e em diferentes atividades de negócio (OECD,
2006). Como exemplo, podemos citar o Google, que implementou um
modelo organizacional que permite aos empregados da empresa maior
autonomia com a criação de um ambiente mais aberto e propício para que
os funcionários possam expressar suas opiniões e ideias. Com uma organi-
zação estrutural, pode-se tentar descentralizar o relacionamento de poder
de um trabalhador sobre outros, ou mesmo da alta gerência sobre os tra-
balhadores, abrindo espaço para discussões mais democráticas. Isso pode
ser alcançado por meio da formação de equipes de trabalho, tanto formais
quanto informais, concedendo maior responsabilidade aos trabalhadores
individuais e tornando o trabalho mais flexível. Entretanto, essa não é a

– 234 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

única maneira de se inovar na organização de uma empresa. A centrali-


zação de atividades pode, muitas vezes, ser o caminho mais acertado em
algumas situações, principalmente quando existe maior responsabilidade
final na tomada de decisões. Um exemplo de inovação organizacional
relacionado a atividades de estruturação de negócios é a implementação
de sistemas de produção build-to-order (vendas integradas à produção) ou
a incorporação dos setores de engenharia e do desenvolvimento com o de
produção (OECD, 2006).
A implantação de meios inéditos na organização do relacionamento
com outras instituições, tais como a formação de diferentes colaborações
com organizações de pesquisa ou de consumidores, novos métodos de
integração com fornecedores e o uso de terceirização ou da subcontrata-
ção nas atividades de negócio da produção, do abastecimento, da emissão
e distribuição, do recrutamento e de serviços suplementares são métodos
organizacionais inovadores ligados às relações externas de uma empresa
(OECD, 2006). Nessa categoria de inovação, tem-se o exemplo da expe-
riência da empresa Natura na implantação de um novo recurso para a orga-
nização das relações com seus fornecedores, bem como sua integração.
Objetivando alcançar um bom plano para o desenvolvimento de produ-
tos que fizessem a utilização sustentável dos recursos presentes na biodi-
versidade brasileira, a empresa teve que atuar diretamente em sua cadeia
de fornecimento, empregando mecanismos que combinassem: a garantia
dos certificados de origem sustentável das matérias-primas utilizadas, o
estabelecimento de uma boa relação com as comunidades extrativistas, a
formação de parcerias com fornecedores intermediários e o cumprimento
das legislações ambientais nacionais. A integração de todos esses itens
caracterizou esse processo como uma inovação organizacional provida de
cadeia de fornecimento. Esse exemplo é interessante. Quando avaliamos o
processo de inovação como um todo, percebe-se que ele tem pontos con-
traditórios: são produtos e/ou insumos muitas vezes rudimentares e velhos
conhecidos de algumas comunidades extrativistas – e que geralmente são
pouco associados à inovação – que passam a ser ofertados de forma dife-
rente em outros mercados, tornando-se inovação (FUCK; VILHA, 2011).
Outra classificação relevante para a compreensão do fenômeno da
inovação é atribuída ao grau de modificação envolvido, diferenciando as

– 235 –
Introdução à Engenharia da Produção

inovações tecnológicas em incrementais e radicais. As inovações tecno-


lógicas incrementais são percebidas como aprimoramentos contínuos e
gradativos de produtos, serviços ou processos já existentes. A maior parte
das inovações que surgem correspondem a inovações incrementais e, por
isso, muitas vezes são percebidas como de segunda categoria, embora
possam impactar significativamente a economia. A importância desse tipo
de inovação reside no fato de ser mais facilmente gerada e, portanto, pode
preencher continuamente o processo de mudanças nos mercados. Exem-
plos dessa inovação incluem baterias com maior duração, televisores com
mais nitidez nas imagens e novas substâncias associadas a medicamentos
(FUCK; VILHA, 2011).
Já as inovações radicais estão associadas a produtos, serviços ou pro-
cessos totalmente novos no mercado e estão diretamente relacionadas com
as atividades de P&D. Nessa categoria, tem-se como exemplos o telefone
celular, a motorização elétrica em automóveis e a imagem digital utilizada
em câmeras fotográficas (FUCK; VILHA, 2011).

10.3 Inovações tecnológicas nas organizações


É possível afirmar que ainda existe certo preconceito com as inovações
tecnológicas dentro das empresas. Isso é uma herança histórica do período
pós-guerra, quando, com o advento da informática, veio o fim de um período
rico em oportunidades de emprego. Assim, a tecnologia passou a ser enca-
rada como uma ameaça à empregabilidade. Entretanto, é importante ressal-
tarmos que sem as inovações tecnológicas as organizações acabam perdendo
competitividade nesse mundo globalizado, diminuindo, consequentemente,
sua demanda pelo trabalho. Então, é necessária a visão de que a tecnologia é
uma aliada da empregabilidade, e não sua inimiga (PÓVOA, 2004).
O conceito de inovação tecnológica, apesar de muito difundido, ainda
não está plenamente internalizado nas organizações brasileiras. Ainda são
necessários esforços para que o sistema nacional de inovação do país se
fortifique e se consolide, atendendo às necessidades nacionais, não invia-
bilizando a nação e suas organizações na competição global. Novas ini-
ciativas vêm emergindo diariamente, mostrando um entusiasmo crescente
dos que vislumbram o futuro (PÓVOA, 2004).

– 236 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

A cultura organizacional responsável por facilitar o desenvolvimento


de processos inovadores é denominada Cultura da Inovação. Tendo em vista
a grande importância da inovação no âmbito das empresas e a crescente
procura por diferenciais para garantir vantagens competitivas, uma cultura
organizacional que torne esses processos mais fáceis é um fator estratégico
para que a empresa conquiste seus objetivos. O conceito de cultura orga-
nizacional engloba valores, crenças e algumas conjecturas instintivas que
são compartilhados pelos membros de uma organização e expressos por
normativas observadas em certos costumes, palavras e ações. Já o conceito
de inovação envolve: processo de criação e/ou transformação de uma novi-
dade, que pode ocorrer em diferentes etapas do processo, como nos produ-
tos, serviços, métodos de produção; abertura para novos mercados; fontes
de fornecimento e maneiras de se organizar. O êxito na implementação de
ideias criativas dentro de uma organização destina-se a gerar benefícios para
um indivíduo, um grupo, uma organização ou para a sociedade como um
todo (AMARAL, 2015). Unir esses dois conceitos é fundamental para a
implantação de novas tecnologias nas organizações.
A tecnologia pode ser considerada um sistema formado por equipa-
mentos, programas, pessoas, processos, organização e finalidade de pro-
pósito. Estão profundamente embutidas no processo ou nas operações,
dentro de um sistema produtivo e, ao final deste, características funda-
mentais ao produto final, dentro da função manufatura. Essa amplitude
aponta a importância da tecnologia na competitividade. As inovações tec-
nológicas geralmente são responsáveis por modificar a base da competi-
ção em determinada indústria ou tecnologia, e em diversos casos estabe-
lece a principal fonte de vantagem competitiva. Tomemos como exemplo
o caso das indústrias americanas e japonesas. Nos EUA, o incremento de
custos associado ao aumento incerto da qualidade, em vez de baixar os
custos e aumentar a qualidade, fizeram com que essa indústria perdesse
vantagem competitiva. Em contrapartida, dentro do conceito sistêmico, o
Japão planejou sua nova metodologia organizacional para a busca de um
alto valor agregado, ou seja, alta qualidade e baixo preço, aprendendo a
ouvir o consumidor, a atendê-lo e até a superar suas expectativas, além
de ser responsável pelo desenvolvimento de novos mercados. Essa meto-
dologia ou processo, dentro de uma visão sistêmica, se refere à gestão
organizacional – inovação organizacional (SILVA, 2002).

– 237 –
Introdução à Engenharia da Produção

Esse conceito sistêmico adotado no Japão parte do princípio de que


a tecnologia é um sistema amplo – como já definimos anteriormente. É
esse conceito sistêmico de tecnologia, designado macrotecnologia, que
constitui a base para o desenvolvimento e a utilização da gestão das tecno-
logias dentro das organizações. Isso é demostrado no esquema da Figura
10.2. Para a abordagem de novas tecnologias e sua inserção no mercado,
os componentes da macrotecnologia são necessários, mas não suficientes
para se ter sucesso no empreendimento. Além de alto grau de criatividade
agregado, o mercado deve puxar em direção à inovação (SILVA, 2002).
Figura 10.2 – Componentes da macrotecnologia

Fonte: adaptada de Silva (2002).

Ser uma empresa inovadora significa, entre outras coisas, estabele-


cer formalmente objetivos e metas inovadores para que a empresa adote
diretrizes competitivas, por exemplo: a empresa cria novos produtos para
o mercado, portanto, estabelece diferencial em relação aos concorrentes;
a empresa desenvolve novas tecnologias de processo que geram valor
econômico pelo aumento de produtividade; a empresa implementa novos
métodos organizacionais que asseguram a melhoria da organização do tra-
balho e da qualidade; a empresa define novos modelos de negócio, em que

– 238 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

simplesmente não tem concorrência (AMARAL, 2015). É interessante


que o empresário perceba que inovar é necessário para obter bons resul-
tados que levem a empresa a um nível de competitividade satisfatório,
e que a inovação não é obtida apenas com investimentos financeiros. É
essencial a existência de uma capacidade inovadora que consiga alcançar
todas as etapas do processo de inovação, complementada por um ambiente
institucional favorável e de políticas de incentivos específicos para esse
tema. Ou seja, existem fatores internos e externos às empresas e demais
instituições envolvidas no processo (FUCK; VILHA, 2011).
No cenário econômico atual, as disputas por espaços no mercado e
a competição entre as empresas estão cada vez mais intensas, ressaltando
a necessidade de definição de uma estratégia competitiva. Uma estraté-
gia voltada à inovação incrementa as chances de visualizar brechas de
mercado, nunca antes percebidas por nenhuma outra organização. O foco
nessa estratégia, como ações ofensivas ou defensivas, cria uma barreira
que protege as empresas da concorrência, por meio da diferenciação. As
regras da competitividade em uma organização estão relacionadas a cinco
forças competitivas: a de entrada de novos concorrentes, o poder de nego-
ciação dos fornecedores, a ameaça de substitutos, o poder de negociação
dos compradores e a rivalidade entre os concorrentes existentes. Conhecer
essas forças deve ser uma das preocupações quando se elabora uma estra-
tégia competitiva (ROSA; ROSA; ANTONIOLLI, 2018).
Portanto, o que importa não é necessariamente o novo produto ou
processo, mas sim a capacidade da empresa de gerar o novo constante-
mente. A inovação não surge apenas como um fruto da genialidade das
pessoas (visão romântica da inovação), ela é resultado de um ambiente
estabelecido para essa finalidade (trabalho e suor). A capacidade de ino-
var significa fazer da inovação uma rotina empresarial, de tal forma que
a inovação seja contínua, sistêmica, planejada e gerenciada, de forma a
gerar resultados de forte impacto para o contexto estratégico do negócio
(PÓVOA, 2004).
Segundo Amaral (2015), nas organizações inovadoras são perceptíveis
certas características culturais que as distinguem das demais. Essas carac-
terísticas podem ser sintetizadas, de forma geral, como: orientação para o
mercado; comunicação clara e aberta; participação nos lucros; trabalho desa-

– 239 –
Introdução à Engenharia da Produção

fiador e em equipe; liderança forte e que sempre oferece apoio; destaque ao


comportamento empreendedor; objetivos claros, definidos e compartilhados;
reconhecimento pelos esforços e conquistas alcançadas; tempo hábil para o
desenvolvimento das tarefas; tolerância ao risco, à ambiguidade e ao con-
flito; comprometimento e envolvimento dos colaboradores; entre outras.
Com o fenômeno da globalização, muitas empresas, inclusive países,
preferem adquirir tecnologias em vez de desenvolvê-las, o que tem como
consequência o aumento de suas dívidas internacionais. Para os países,
isso levará a um atraso cada vez maior no desenvolvimento da tecnolo-
gia de suas nações. Quando um país pretende realmente buscar o desen-
volvimento, devem ser criadas políticas que forneçam uma base para as
potencialidades nacionais, tanto em relação à ciência quanto em relação
à tecnologia, para tanto, o papel do governo na administração dos inves-
timentos é fundamental para que se alcançe o sucesso (PÓVOA, 2004).
A inovação tecnológica no Brasil se desenvolverá de maneira mais
fácil se ocorrer um aumento da dedicação e do interesse das organiza-
ções públicas e/ou privadas no aprimoramento das gestões estratégicas
de desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que irão proporcionar
inovações tecnológicas para contribuir com o desenvolvimento social. As
organizações nacionais não podem manter os ideiais de um país subdesen-
volvido. Essas organizações deverão ser capazes de acessar e dominar os
últimos avanços tecnológicos se quiserem diminuir nossa defasagem eco-
nômica em relação aos países mais desenvolvidos, conseguindo com isso
conquistar posições competitivas no mundo globalizado (PÓVOA, 2004).
Organizações tradicionais, nas quais a administração não possui
nenhuma abertura e não busca inovar, estão indo na direção de um futuro
não confiável, em que os mercados passarão por mudanças contínuas e
evoluções constantes, sempre abertos a novas ideias e sempre buscando
maneiras de se tornarem altamente competitivos (AMARAL, 2015).

10.4 Engenharia e inovações tecnológicas


A evolução do conhecimento em tecnologia ocorre em uma veloci-
dade surpreendente. Um percentual de aproximadamente 80% dos bens

– 240 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

de consumo utilizados hoje foi criado e produzido após a Segunda Guerra


Mundial. Se a dinâmica atual for mantida, estima-se que pelo menos 50%
dos bens e serviços a serem utilizados no futuro ainda serão inventados
nos próximos anos. O “engenheirar”, transformar o conhecimento em
novos processos e produtos, está diretamente relacionado à inovação e à
tecnologia (PÓVOA, 2004).
É por esse motivo que se tem argumentado sobre o assunto da forma-
ção em engenharia no Brasil e no mundo. Tem sido consenso que o enge-
nheiro que a sociedade necessita deve possuir uma formação para encarar
uma grande cambialidade, não só na perspectiva científico-tecnológica,
mas também em outros aspectos. É indispensável buscar uma formação
mais ampla em face dos desafios nos setores tecnológico e ambiental. Esse
profissional necessita de uma capacitação para criar e aplicar conhecimen-
tos, estimular a pesquisa cooperativa com o apoio de outras empresas e
do setor público e, ainda, possibilitar a origem de empresas nas áreas de
Física, Engenharias, Biologia, entre outras. Muitos desses profissionais
deverão atuar no desenvolvimento de alta tecnologia em uma relação pró-
xima entre a tecnologia e a ciência (PÓVOA, 2004).

10.4.1 O profissional engenheiro e a tecnologia


A lista de atributos do profissional engenheiro, independentemente
de apresentar diferentes singularidades e especializações em uma aborda-
gem específica, mantém várias particularidades características do pessoal
considerado inovador na concepção mais ampla do termo.
De acordo com Silveira (2004), o engenheiro deve apresentar uma
série de características, entre elas: uma grande consciência ética, social e
de responsabilidade profissional; a habilidade de passar suas ideias adiante;
expressar-se claramente e defender seus projetos; a mente aberta e uma
atitude positiva perante a vida, com um bom relacionamento humano; a
capacidade para lidar com eventualidades que possam surgir; reconhecer
problemas e resolvê-los; ter competência para trabalhar e/ou coordenar
equipes multidisciplinares e tomar resoluções conjuntas; ser proativo e ter
curiosidade por novos conhecimentos; ser diligente, criativo, flexível e ter
velocidade no aprendizado para criar novas soluções tecnológicas e incor-

– 241 –
Introdução à Engenharia da Produção

porar o conhecimento de diversas áreas; possuir uma visão sistemática e


abrangente, de forma a compreender a interdependência e o alcance social
de suas ações como agente de decisão (LORENZINI, 2008).
Para a atividade técnico-produtiva, as inovações precisam, basica-
mente, de habilidades para a identificação e a resolução de problemas.
Portanto, o engenheiro necessita – além da formação técnica – de um per-
fil diferenciado e diverso que lhe permita ter visão descritiva das situações
do seu dia a dia como profissional. Para tanto, ele deve apresentar uma
formação humana, com conhecimentos a respeito de ética e de responsa-
bilidade profissional e social, compreensão de dispositivos de informação
(tais como linguagens computacionais e línguas estrangeiras), capacidade
de comunicação, formação continuada, interdisciplinaridade, disposição
para dar o primeiro passo e, sobretudo, habilidade para ações coletivas e
visão globalizada (LORENZINI, 2008).
Com a evolução tecnológica, a diversidade de saberes necessários
para um profissional de engenharia tende a aumentar cada vez mais. É
óbvio que nenhum profissional conseguirá realizar tudo sozinho; assim,
quanto mais básicas forem suas capacidades, será necessário focar seus
esforços em algumas atividades para, então, ampliar seus horizontes.
Essa situação leva o profissional a se especializar em uma área de atuação
específica, para assim melhorar a utilização de suas principais habilidades
e aumentar sua produtividade. Entretanto, essa tendência à especializa-
ção apresenta um aspecto negativo, já que pode levar ao afastamento do
profissional daquelas atividades que sejam características da sua parcela
específica de atuação profissional (LORENZINI, 2008).
Em contrapartida, destaca-se a quase imposição para que o profissio-
nal de engenharia se torne um especialista, com competências generalistas.
Ao engenheiro, é indispensável a capacidade de perceber a complexidade
envolvida em um problema real, bem como as infinitas partes e conexões
inerentes ao projeto em questão, identificando quais partes devem ser tra-
balhadas e quais não. Trata-se, sobretudo, do desenvolvimento de uma
habilidade que permite analisar criticamente qualquer projeto, aprovei-
tando ao máximo as abordagens existentes para relacioná-las ao problema,
apresentando representações adequadas a cada situação em estudo. Para
tanto, o profissional deve buscar sempre atualizar seus conhecimentos,

– 242 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

bem como ter a capacidade de entrever futuras aplicações de uma tecnolo-


gia e seus prováveis impactos na sociedade (LORENZINI, 2008).
Aquele que questiona os conteúdos apresentados, buscando relacio-
ná-los ao contexto social e permitindo desafiar os moldes hegemônicos
que estão sendo perpetuados por décadas, é o engenheiro que representa
condizentemente os anseios da sociedade. É assim que ele colabora com a
inovação tecnológica. Entretanto, ele deve estar preparado para encontrar
resistências, porque seus anseios para transformar suas atividades serão
um desafio contínuo contra todos aqueles que aplicam os conceitos já esta-
belecidos e consolidados (LORENZINI, 2008).

Case de inovação

Cliever – Pequena empresa gaúcha


na vanguarda da tecnologia de im-
pressão 3D

Cliever lança a primeira impressora 3D de alta precisão, que utiliza a


tecnologia de estereolitografia do Brasil.

A primeira impressora 3D de alta precisão produzida no Brasil


é a Cliever SL1. Essa impressora utiliza a tecnologia de estereoli-
tografia, e possui um custo bem mais baixo quando comparada
com as alternativas importadas. Essa tecnologia permite impri-
mir objetos extremamente complexos, com um alto grau de preci-
são – pode chegar a 25 mícrons, o equivalente a praticamente um
terço da espessura de um fio de cabelo. A Cliever, atuando em
diversos segmentos e em todas as camadas da indústria, conta
com mais de 900 máquinas vendidas, sendo pioneira no desen-
volvimento de impressoras 3D comercializadas a um custo aces-
sível para empresas de todos os portes em território brasileiro.

A empresa tem sua origem no auge da primeira explosão da


tecnologia de impressão 3D e das tecnologias de manufatura
aditiva no Brasil. Seu sócio-fundador, Rodrigo Krug, trabalhava

– 243 –
Introdução à Engenharia da Produção

na marcenaria da família quando, aos 15 anos, fez um curso


técnico de controle e automação no SENAI. Foi quando surgiu
o interesse pela área mecânica. Em 2012, após duas tentativas
fracassadas de fundar sua própria empresa, Rodrigo enxergou
no crescimento do interesse do mercado por impressoras 3D um
campo para sua nova empreitada.

Naquele momento, as impressoras 3D eram extremamente caras


e só estavam disponíveis por meio de importação, o que impossi-
bilitava a pequenas e médias empresas o acesso a esta tecnologia
que possibilitaria, quando incorporada no processo criativo, uma
redução de custos por meio de uma maior assertividade no desen-
volvimento de produtos. E foi olhando para esse mercado ainda
inexplorado que, durante o curso de Engenharia, o empreendedor
decidiu ousar e apostar na nova tecnologia. Foi então que surgiu a
Cliever, fundada com recursos próprios e apoio da incubação no
Tecnopuc (da PUC-RS), que teve seu início em uma sala de 11 m2.

Em abril de 2016, a impressora 3D Cliever SL1 foi lançada no


mercado – um equipamento portátil, silencioso, compacto e
de fácil utilização, que permitia a impressão de modelos de
até 12,5x12,5x10  cm, atingindo a alta precisão considerada
pré-requisito do projeto (25 mícrons), com uma velocidade de
impressão 50% maior do que os demais modelos oferecidos por
outras empresas até então.

Além das aplicações médicas, todos os setores de indústria de


precisão podem se beneficiar com a qualidade de impressão da
impressora SL1: o acabamento obtido na peça final dispensa qual-
quer tipo de retrabalho ou finalização, e as peças já podem ser apli-
cadas diretamente no produto final assim que deixam a impres-
sora – mesmo aquelas que possuem alto nível de detalhamento.
Assim, a nova tecnologia abriu um novo mercado para a Cliever.

Fonte: CNI. Confederação Nacional da Indústria. Inovar é criar


valor: 22 casos de inovação em micro, pequenas, médias e gran-
des empresas. Brasília: CNI, 2017.

– 244 –
A engenharia de produção e as novas tecnologias

Síntese
Neste capítulo, apresentamos a definição de tecnologia e de inovação
e os tipos de inovação que podem ocorrer nas organizações. Primeira-
mente, vimos que a tecnologia representa muito mais do que o objeto, a
máquina, o serviço – ela abrange todo o conhecimento por trás do desen-
volvimento de um produto. E é a inovação a responsável por esse processo.
Quando algo inovador é inventado, é necessária sua aceitação, absorção e
difusão no mercado consumidor. Inovações ocorrem de diversas formas:
no produto, no processo, nas organizações e até mesmo no marketing.
O profissional engenheiro, cuja formação possibilita uma ampla
atuação no mercado, pode focar seu trabalho na busca de melhorias sim-
ples ou inovações no processo ou no produto da empresa – ou seja, um
diferencial. Desse modo, ele é fundamental para tornar a empresa cada
vez mais competitiva.

Atividades
1. Diferencie invenção e inovação e explique como estas palavras
estão, de certa maneira, intimamente ligadas.
2. O que é inovação de produto? O que é inovação de processo?
3. O que é inovação organizacional?
4. Organizações inovadoras possuem certas características culturais
distintas das demais. Cite pelo menos cinco dessas características.

– 245 –
Gabarito
Introdução à Engenharia da Produção

1. História e evolução da engenharia


1. A primeira, que ocorreu entre o fim do século XVIII e começo
do século XIX, foi proporcionada pela produção de motores a
vapor por meio de máquinas; a segunda, entre o fim do século
XIX e o princípio do século XX, em que aconteceu o desenvol-
vimento e a aplicação do motor elétrico e do motor de explosão;
e a terceira, que teve início a partir da Segunda Guerra Mundial,
com a automação por meio de eletrônicos.
2. As escolas alemãs apresentavam grande diferenças em relação
às parisienses, como a incorporação de cursos das especialida-
des da engenharia ao ciclo básico das escolas politécnicas. Há,
também, nesse contexto, a incorporação, em diversas escolas
politécnicas, de cursos de arquitetura aos de engenharia, criando
a figura do engenheiro-arquiteto. As escolas germânicas de enge-
nharia também se propunham a aproximar o ensino e a atividade
industrial com variados graus de sucesso. Enquanto isso, as ins-
tituições parisienses permaneciam relativamente impermeáveis
a essas mudanças, gozando de enorme prestígio durante todo o
período. Isso mudou ao fim do século XIX, quando as escolas
germânicas começam a rivalizar com as francesas.
3. As primeiras obras de defesa, muros e fortins também eram
muito primitivas, consistindo simplesmente em paliçadas de
troncos justapostos, dos quais havia grande abundância na
época. Porém, no entendimento de engenharia, seriam dadas
como marco inicial da engenharia no Brasil as atividades dos
oficiais-engenheiros e dos mestres construtores de edificações
civis e religiosas.
4. A data de início formal dos cursos de Engenharia no Brasil foi
17 de dezembro de 1792, com a criação da Real Academia de
Artilharia, Fortificação e Desenho na cidade do Rio de Janeiro.
É uma instituição análoga à Academia Real de Fortificação e
Desenho de Portugal. Entretanto, em solo brasileiro, funcionou
como um verdadeiro instituto de ensino superior, diferindo de
Portugal, que só buscava fortalecer a marinha.

– 248 –
Gabarito

2. Engenharia e sociedade
1. O primeiro impacto é o medo. Todas as pessoas daquele lugar,
e do Brasil inteiro, passaram a temer barragens. Entretanto,
para aqueles mais próximos, temos pessoas que perderam o
sustento, tanto aquele tirado da terra como aquele tirado dos
rios, que foram completamente poluídos. A perda de entes
queridos, de provedores e da principal atividade econômica
do local contribuíram, inclusive, para diminuir o comércio e o
turismo da região.
2. Saber se o produto é poluente, é tóxico, se é produzido respeitando
o trabalhador e o meio ambiente e se não são realizados testes
em animais – são questões que devem ser levantadas durante o
desenvolvimento de um novo produto para que este possa ser
aceito pela sociedade.
3. Os conhecimentos técnicos não são mais suficientes para a
formação do engenheiro. Ele precisa saber se relacionar com
as pessoas e fazer parte da sociedade. O fator humano tem
sido inserido na formação do engenheiro – afinal, suas obras,
produtos, tecnologias são desenvolvidas para melhorar a vida
das pessoas.
4. Porque por muito tempo os objetivos dos capitalistas e dos
engenheiros se alinhavam. Hoje, com legislações trabalhistas e
ambientais, o engenheiro passa também a defender e ser a voz
dos trabalhadores. Ele pode, inclusive, funcionar como uma
ponte entre detentor de capital e funcionários de chão de fábrica.

3. As relações entre engenharia,


meio ambiente e qualidade
1. Qualidade é uma variável precisa e mensurável, oriunda do grau
de conformidade do planejado com o executado. Esta aborda-
gem dá ênfase a ferramentas estatísticas (controle do processo).
Ponto fraco: foco na eficiência, não na eficácia.

– 249 –
Introdução à Engenharia da Produção

2. São os princípios:
a) Visão organizacional – a organização constitui-se de
vários processos;
b) Eliminação de barreiras, abandonando práticas geren-
ciais ultrapassadas;
c) Comunicação entre todos os setores da organização;
d) Avaliação contínua, para a manutenção do nível da qualidade;
e) Melhoria contínua ou kaizen;
f) Relacionamentos cliente/fornecedor devem ser duradouros,
no sentido de ambas as partes saírem ganhando;
g) Empoderamento do trabalhador;
h) Treinamento, para solução de problemas, utilização de ferra-
mentas estatísticas simples e ainda de autodesenvolvimento.
3. A conceitualização do termo desenvolvimento sustentável inclui
um fator-chave: processos produtivos que, ao mesmo tempo,
promovam a redução do uso de recursos naturais, na condição
de insumos, e potencializem a produção para o consumo da
sociedade, com baixos índices de poluição associados.
4. Economicamente viável, ambientalmente correto e social-
mente justo.

4. O processo de formação do engenheiro


1. Com essa resolução são inclusos temas como visão holística
e humana, habilidades técnicas, perfil de pesquisador, ética,
perspectivas multidisciplinares e até mesmo questões relati-
vas ao desenvolvimento sustentável nas matrizes curriculares
de engenharia.
2. Engenharia de Operações e Processos da Produção, Logística,
Pesquisa Operacional, Engenharia da Qualidade, Engenharia do

– 250 –
Gabarito

Produto, Engenharia Organizacional, Engenharia Econômica,


Engenharia do Trabalho, Engenharia da Sustentabilidade e Edu-
cação em Engenharia de Produção.
3. Por exemplo: faculdades/universidades alocados em Minas
Gerais, próximas às localidades de Mariana e Brumadinho,
podem ser estimuladas a desenvolver pesquisas nas áreas de tra-
tamento de águas. Assim, essa disciplina se torna interessante
para cursos de engenharia daquela região.
4. A participação da mulher na engenharia vem crescendo, mas
ainda está longe do ideal.

5. A engenharia no Brasil
1. Os grandes centros urbanos são as regiões que mais atraem esses
trabalhadores. Tal fato deve-se, entre outros motivos, à concen-
tração das atividades produtivas nesses centros, em especial
nos setores de serviços como construção, serviços prestados às
empresas e serviços industriais de utilidade pública.
2. Nesse caso, ele tem maior independência de decisão sobre sua
profissão, estabelecendo seus honorários e condições de traba-
lho, atuando geralmente em escritório próprio. Assim, o enge-
nheiro acaba sendo contratado por uma empresa, atuando dire-
tamente para ela, prestando serviços técnicos permanentes ou
trabalhando por empreitada, desenvolvendo serviços específicos
e predeterminados em contrato.
3. O caminho mais comum para entrada dos engenheiros no mer-
cado de trabalho é pela participação em programas de estágio
realizados ao longo do curso de graduação ou após esse período,
quando são contratados como trainee.
4. Características: Conhecimentos objetivos, relações humanas,
experimentação, comunicação, trabalho em equipe, aperfeiçoa-
mento contínuo e ética profissional.

– 251 –
Introdução à Engenharia da Produção

6. As engenharias e a Engenharia de Produção


1. A Engenharia de Produção trata do projeto, aperfeiçoamento e
implantação de sistemas integrados de pessoas, materiais, infor-
mações, equipamentos e energia, para a produção de bens e ser-
viços, de maneira econômica, respeitando os preceitos éticos
e culturais. Tem como base os conhecimentos específicos e as
habilidades associadas às ciências físicas, matemáticas e sociais,
assim como aos princípios e métodos de análise da engenharia
de projeto para especificar, predizer e avaliar os resultados obti-
dos por tais sistemas.
2. Enquanto a engenharia centraliza-se em gestão dos processos
produtivos, a administração de empresas foca em gestão dos
processos administrativos, de negócios e na organização estru-
tural da empresa.
3. Os diferenciais de Ford nas linhas de montagem que levaram
a uma produção em grande volume e baixo preço, tornado este
artigo acessível a uma parcela maior dos consumidores.
4. Toyotismo.

7. Engenharia e legislação
1. A preocupação da sociedade com o meio ambiente e com os efei-
tos que as obras de engenharia nele causam tem sido crescente.
Obras de terraplenagem, rodovias, aterros hidráulicos, hidrelétri-
cas, linhas de transmissão, unidades fabris, entre outros, causam
um impacto ambiental tão grande que não é mais aceitável que
apenas biólogos ou engenheiros especializados na área ambien-
tal se preocupem com o assunto – passou a ser de importância
para todos os ramos de engenharia, o que exige conhecimentos a
respeito da legislação ambiental brasileira (AVILA, 2000).
2. É formado pelo conjunto de entidades que administram o
sistema socioeconômico do país e que controlam o processo
de desenvolvimento, por meio da exigência de normativas para

– 252 –
Gabarito

garantir o bom funcionamento do sistema de trabalho. O Poder


Público atua como regulador em ambos os lados: tanto para o pro-
fissional quanto para o cliente. No primeiro caso, é responsável
pela regulamentação e fiscalização, para garantir um serviço de
qualidade, dando garantias mínimas ao cliente conforme estabe-
lece o Código de Defesa do Consumidor – CDC. No segundo, age
sobre os clientes, no sentido de assegurar ao profissional remune-
rações mínimas com base nas Tabelas de Honorários Profissionais
Mínimos, fixadas pelas entidades de classe e registradas no Crea.
3. A Anotação de Responsabilidade Técnica, mais conhecida pelo
seu acrônimo ART, é um documento amplamente utilizado por
profissionais da Engenharia, Agronomia, Geologia, Geografia e
Meteorologia que queiram realizar contratos de execução de ser-
viços ou obras.
4. É o resultado das restrições impostas pelos órgãos públicos, por
meio de normas legais como Código de Obras, Código de Água
e Esgoto, Normas Técnicas, Regulamento Profissional, Plano
Diretor, entre outros. Essas normas impõem diversas condições à
atuação do profissional e criam responsabilidades ao engenheiro,
cabendo a ele, portanto, o conhecimento e, consequentemente, o
cumprimento das leis específicas à atividade que está realizando.

8. Ética na Engenharia
1. Falsa. O engenheiro deve receber pagamento pelos serviços que
tenha efetivamente prestado, atentando ao seu justo valor.
2. A ética é intimamente ligada à moral, mas esses termos não
devem ser confundidos. A moral está relacionada a comporta-
mentos defendidos por argumentos não racionais, cujas orien-
tações são fortemente influenciadas pela cultura de um determi-
nado grupo, pelo espaço onde ele está inserido e pelo período
histórico analisado. As aplicações cotidianas não seguem regras
ou princípios – as orientações seguem os valores espirituais
manifestados pelo indivíduo em seu grupo. Enquanto isso, a

– 253 –
Introdução à Engenharia da Produção

Ética, em sentido amplo, está relacionada com a conduta humana


perante o ser e seu semelhante segundo critérios de bem e mal,
definidos a partir da razão.
3. Em uma explicação simples, podemos definir a deontologia
como o estudo ou ensaio sobre os deveres particulares de uma
determinada situação social, no caso aqui representado, o da
atuação profissional.
4. O engenheiro deve combater as infrações que presenciar, assu-
mindo, assim, uma atitude de responsabilidade social. É razoável
supor que muitos profissionais procurem se preservar de conflitos
pela alegação de que não são diretamente responsáveis por essas
transgressões, mesmo tendo ciência até mesmo em detalhes.
Porém, ressalta-se que a omissão frente ao conhecimento de even-
tuais transgressões da ética consiste na própria omissão, em uma
transgressão do código e ética profissional de quem a pratica.

9. A importância da comunicação na Engenharia


1. Fonte de informação: a origem da mensagem;
Emissor: quem seleciona uma mensagem a partir de uma fonte
de informações, a codifica e transmite por meio de um canal para
o receptor;
Mensagem: assunto a ser transmitido, que deve relatar com cla-
reza o trabalho realizado e seus resultados;
Receptor: aquele que capta e decodifica a mensagem, recupe-
rando-a. Pode ser um indivíduo, um grupo ou um auditório;
Canal de comunicação: o campo de circulação da mensagem é o
responsável pelo deslocamento espacial e/ou temporal da men-
sagem. Por exemplo, no caso de um relatório escrito, o canal de
comunicação é a folha de papel;
Código: a linguagem, que deve ser entendida por ambos, emis-
sor e receptor. Em um relatório técnico, o tipo de linguagem
– código – e a apresentação gráfica devem ser adequados ao

– 254 –
Gabarito

público-alvo – o receptor. Pode ser definido como um conjunto


de regras para um sistema de signos que permite a construção e
a compreensão de mensagens. A linguagem verbal é, pois, um
dentre muitos outros códigos;
Ruído: é a interferência na transmissão da mensagem, o que difi-
culta sua recepção, gerando perdas na recuperação da informa-
ção e prejudicando a boa comunicação da mensagem.
2. Comunicação escrita.
3. 1.Clareza: escrever de maneira que o leitor tenha facilidade no
entendimento; 2.impessoalidade: redigir textos na terceira pes-
soa para que os documentos se tornem mais inclusivos; 3.Obje-
tividade: escrever de maneira direta evitando levantar hipóte-
ses ou dúvidas sobre o que se escreve; e 4. Modéstia e cortesia:
na escrita, o apontamento de erros e incoerências em trabalhos
realizados por outros não é uma atitude condenável. Entretanto,
isso não deve ser utilizado apenas como forma de engrandecer o
próprio trabalho. A cortesia é elemento importante mesmo que
se discorde dos resultados de outras pesquisas.
4. Barreiras pessoais: decorrentes das limitações e valores huma-
nos de cada pessoa. Exemplos: emoções, preocupações, motiva-
ções, entre outros.
Barreiras físicas: interferências que ocorrem no ambiente em
que acontece o processo seletivo. Exemplo: distâncias, ruídos
locais, falhas mecânicas, entre outros.
Barreiras semânticas: limitações ou distorções decorrentes dos
símbolos por meio dos quais a comunicação é feita. Exemplos:
interpretação de palavras, significado de sinais, decodificação de
gestos, entre outros.

10. A engenharia de produção e as novas tecnologias


1. O termo invenção está ligado à geração de novas ideias, ao pro-
gresso do conhecimento científico propriamente dito e sua apli-

– 255 –
Introdução à Engenharia da Produção

cação na geração de novos equipamentos ou artefatos, ou mesmo


em novos processos, mas sempre em fase pré-comercial. Boas
ideias, invenções e descobertas acontecem a todo o momento e são
importantes para o avanço do conhecimento e da ciência. Porém,
a inovação só ocorre quando o novo conhecimento gera valor eco-
nômico e financeiro. Inovação é o novo no mercado – quando são
lançados novos produtos e serviços – ou pode ser o novo para a
empresa – quando ela utiliza novos processos tecnológicos, novas
estruturas organizacionais ou novos modelos de negócio.
2. A inovação de produto é definida como a introdução de um
bem ou serviço totalmente novo ou significativamente melho-
rado (atualizado) no que se refere a suas características ou uti-
lizações previstas.
A inovação de processo é a implementação de um novo método
de produção ou distribuição ou a significativa melhora dele.
Nesse caso, estão inclusas mudanças significativas em técnicas,
equipamentos e/ou softwares.
3. A inovação organizacional aborda a implementação de novos
métodos de organização e gestão das práticas de negócio da
empresa, na organização do local de trabalho ou nas relações
com agentes externos, como fornecedores ou distribuidores.
4. Orientação para o mercado; comunicação clara e aberta; com-
partilhamento de lucros; trabalho desafiante e em equipe; lide-
rança forte e que oferece suporte; ênfase no comportamento
empreendedor; objetivos claros, definidos e compartilhados;
reconhecimento pelos esforços e conquistas alcançadas; tempo
hábil para o desenvolvimento das tarefas; tolerância ao risco, à
ambiguidade e ao conflito; comprometimento e envolvimento
dos colaboradores; entre outras.

– 256 –
Referências
Introdução à Engenharia da Produção

ABEPRO. Associação Brasileira de Engenharia de Produção. Engenha-


ria de produção: grande área e diretrizes curriculares. Documento elabo-
rado nas reuniões do grupo de trabalho de graduação em Engenharia de
Produção, promovidas pela Abepro e realizadas durante o XVII Encontro
Nacional de Engenharia de Produção (XVII ENEGEP, Gramado, RS, 6
a 9 de outubro de 1997) e durante o III Encontro de Coordenadores de
Cursos de Engenharia de Produção (III ENCEP, Itajubá, 27 a 29 de abril
de 1998). Disponível em: http://www.abepro.org.br/arquivos/websites/1/
DiretrCurr19981.pdf. Acesso em: 28 de mar. 2020.
ABEPRO. Referências de conteúdos da engenharia de produção. Asso-
ciação Brasileira de Engenharia de Produção. Disponível em: http://www.
abepro.org.br/arquivos/websites/1/%C3%81reas%20da%20Engenha-
ria%20de%20Produ%C3%A7%C3%A3o.pdf. Acesso em: 10 mar. 2020.
AGOSTINHO, M.; AMORELLI, D.; RAMALHO, S. Introdução à enge-
nharia. Rio de Janeiro: Lexikon, 2015.
ALVES, E. A. C. O PDCA como ferramenta de gestão da rotina. XI
CONGRESSO NACIONAL DE EXCELÊNCIA EM GESTÃO. Rio de
Janeiro, 2015. Disponível em: http://www.inovarse.org/sites/default/files/
T_15_017M_7.pdf. Acesso em: 28 abr. 2020.
ALVES, T. A. da S. Tecnologias de informação e comunicação (TIC)
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Engenharia de Produção, Fortaleza, 2015.

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O profissional Engenheiro de Produção tem se tornado cada vez mais atraente
para o mercado de trabalho. Entender as origens e o papel desse profissional
no mercado é o objetivo dessa obra.
Da origem da profissão engenheiro, nos primórdios da humanidade, passando
pela Revolução Industrial e chegando ao momento atual, a busca por soluções
frente a problemas guia a evolução dessa profissão. Esse processo é respon-
sável por mudanças que atingem diversos setores, inclusive o de produção.
A relação da profissão com o meio ambiente, a qualidade, a ética, a comunica-
ção e a sociedade também é importante para o bom desempenho das ativida-
des no cotidiano desse profissional.
A tecnologia e a inovação também estão intimamente atreladas tanto à evolu-
ção quanto ao desempenho do profissional engenheiro. Hoje, é praticamente
impossível produzir e viver sem fazer o uso de tecnologias.
Todos esses temas são extremamente relevantes para a inserção de um bom
engenheiro no mercado de trabalho.

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