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Mesmidade, ipseidade e vontade:

as aporias da noção ricoeuriana


de subjetividade
Sameness, selfhood and will: the aporias
of Ricoeur’s concept of subjectivity
Resumo Este artigo apresenta os resultados mais importantes,
embora parciais, de uma pesquisa mais vasta. Essa pesquisa
articula-se em torno de uma questão central: qual é o estatuto
da subjetividade na obra de Paul Ricoeur? Aqui a noção de sub-
jetividade circunscreve-se às noções de ipseidade e mesmidade
e o problema é posto a partir de uma ambiguidade assinalada na
distinção entre esta e aquela. Esse estatuto é, então, investigado
a partir do aporte que uma filosofia da vontade desenvolvida por
Ricoeur pode oferecer à problemática gerada pela distinção.
Palavras-chave Si-mesmo; ipseidade; mesmidade; vontade; nar-
rativa.

Abstract This paper presents the most important results, João B. Botton
though partial, of a wider research. This research is articulated Uiversidade Federal de Minas
Gerais (UFMG)
around a central question: What is the status of subjectivity in
jb_botton@yahoo.com.br
Paul Ricoeur’s work? The notion of subjectivity is here confined
to notions of selfhood and sameness and the problem is stated
from an ambiguity marked in the distinction between the former
and the latter. This status is then investigated from the contribu-
tion Ricoeur’s philosophy of will may offer to the problems gener-
ated by the distinction.
Keywords Oneself; selfhood; sameness; will; narrative.

A
o investigar o estatuto da subjetividade na obra de Paul
Ricoeur, este artigo descobre que, resolvendo certo regi-
me de “aporicidade” legado pela tradição, a hermenêuti-
ca do si, proposta pelo filósofo, não escapa por si própria de um
segundo regime de dificuldades, que é uma variação mais sutil
do primeiro. Não escapa por si própria, mas encontra em uma
filosofia da vontade de cunho fenomenológico um auxílio po-
deroso para fazer avançar os impasses gerados. Nosso objetivo
aqui é explorar essas dificuldades com as quais o pensamento
de Ricoeur se embaraça e esboçar uma via de solução. Para isso,
marca-se a diferença de perspectiva que distingue dois momen-
tos da obra de Ricoeur, uma hermenêutica do si concentrada
nas obras Soi-même comme un autre (1996 – lançada em 1990)
e Parcours de la reconnaissance (2004) e uma fenomenologia da
vontade composta pelos volumes Le volontaire et l’involontaire
(1996 – lançado em 1950) e Finitude et cul- das mudanças do homem empírico. Do outro
pabilité (2009b – lançado em 1960) da obra lado do impasse estão as posições de Hume,
Philosophie de la volonté (2009b).1 Nietzsche e, mais recentemente, D. Parfit.
As dificuldades ligadas à solução propos- Embora a partir de pressupostos diferentes,
ta por Ricoeur ao problema da subjetividade ambos argumentam ser a unidade da subjeti-
dizem respeito, sobretudo, à noção de ipsei- vidade uma ideia ilusória. D. Parfit, inclusive,
dade quando ela se liga à noção de promessa. radicalizando essa posição, não só considera
Ao asseverarmos essa ligação, para explorar a unidade da subjetividade uma ilusão, como
as consequências dos problemas que nos ocu- pretende destituir a própria questão da iden-
pam, no entanto, somos forçados a deslocar tidade pessoal de toda a importância filosófi-
o olhar para a noção de caráter que, em certo ca (PARFIT, 1984).2
sentido, é o contrário oposto à promessa. O ponto é que cada uma das posições é
O artigo procede em quatro movimen- problemática em um aspecto diferente. A pri-
tos: 1) explora o estatuto que a hermenêutica meira o é na medida em que resulta facilmente
do si pretende dar à noção de subjetividade em um dogmatismo da ideia, com pretensões
ante a aporia entre as posições tradicionais epistêmicas mirabolantes. A segunda tem uma
de um substancialismo metafísico e de um nii- posição atrelada ao ceticismo e ao niilismo da
lismo cético; 2) explora o alcance da solução cultura contemporânea, cuja consequência
proposta por Ricoeur e as problemáticas que mais evidente é a instrumentalização da razão.
ela própria suscita ao resolver as aporias da Mas esse impasse, para Ricoeur, assenta em
tradição; 3) formula a hipótese de acordo com uma má compreensão da questão. É que am-
a qual uma filosofia da vontade torna compre- bas as tradições que se ocuparam do problema
ensíveis e frutíferas as aporias engendradas só puderam considerá-lo em um sentido bas-
pela própria hermenêutica do si de Ricoeur; e tante restrito. Desde Descartes, tanto a tradi-
4) desenha em grandes traços as possibilida- ção, que pretendeu afirmar a unidade da subje-
des de desenvolvimento da problemática da tividade, a despeito da temporalidade empírica
subjetividade pelo auxílio da fenomenologia da pessoa, quanto a tradição que, mais apega-
da vontade. da à empiria, pretendeu negar absolutamente
a possibilidade dessa unidade, ambas só pu-
Si-mesmo e permanência deram tomá-la em sentido substancialista. De
no tempo: a distinção entre acordo com Ricoeur (1996 p. 143), é na consi-
mesmidade e ipseidade deração exclusiva da subjetividade nestes ter-
Ricoeur vê, na forma tradicional com mos que reside a fonte dos problemas enfren-
que a filosofia tem se ocupado do problema tados. Ela elide a possibilidade de tratamento
da subjetividade, um impasse gerado pela má da questão da permanência no tempo em ou-
compreensão da noção de identidade ligada tros termos, em um sentido capaz de livrar a
à ideia de permanência no tempo do que se problemática da subjetividade dessa oposição
considera o mesmo sujeito. O impasse é ilus- dicotômica e capaz ainda de conferir-lhe uma
trado, de um lado, pelas posições emblemá- formulação menos problemática.
ticas de Descartes e Kant, que defendem a A questão da permanência diz respeito,
existência de um sujeito imediatamente aces- em largos traços, à dificuldade que o trans-
sível à reflexão e absolutamente idêntico a si curso temporal, operando como fator de
mesmo ao longo do tempo, como o substrato alteração e dessemelhança, põe para a pos-
inalterável sibilidade da unidade. E o engano, em suma,
Deliberadamente, por questões de economia,
1 está em conceber que a única possibilidade
reservamos o tratamento de La symbolique du mal
que completa a Philosophie de la volonté (RICOEUR, “Our identity is not what matters” [“O que importa
2

2009b) para outro momento. não é nossa identidade”], diz Parfit (1984, p. 245).

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de conjurar a dificuldade que a temporalida- A consideração de um segundo modelo
de apresenta seja encontrar um princípio de de identidade, a ipseidade, ou identidade-ipse,
permanência rígido, subjacente à alteração pretende livrar a questão da subjetividade da
(RICOEUR, 1996, p. 142). A dificuldade é que, necessidade de recorrência a uma ontologia
tal princípio, inobservável empiricamente, ou da substância, e, assim, da inevitável dicoto-
é considerado ilusório por falta de lastro na mia entre um sujeito que se põe como quid
experiência, ou permanece um postulado me- pensante, idêntico a si, e a total ausência de
tafísico, um suposto epistêmico e, do mesmo fundamento da questão pela impossibilidade
modo, carente de garantia. de alocação do sujeito nessa ontologia subs-
A ideia de um princípio de permanên- tancialista. Pretende-se livrar a questão da
cia, ainda que seja concebido como invarian- necessidade de recorrência a uma ontologia
te relacional,3 não deixa de alocar todo o da substância sem destituir o sujeito de toda
problema em uma ontologia de cunho meta- unidade. Mas que tipo de unidade é possível
físico, pouco adequada à noção de subjetivi- senão através de um invariante? Ricoeur tem
dade. E é a impossibilidade de encontrar um em vista, ao tentar explorar o problema da
sentido diferente de permanência, no marco identidade pelo viés da ipseidade, o tipo de
de uma ontologia inadequada, que produz, permanência de si estabelecido nas relações
em grande medida, os impasses que experi- interpessoais pelos compromissos de longa
menta a cultura ocidental pela aparente dis- duração em que o que se mantém é a inten-
solução da subjetividade. ção de realizar no futuro o acordado anterior-
Tendo em vista isso, o grande lance da mente, a despeito da alteração das circuns-
obra de Ricoeur é propor um modo de per- tâncias. Daí que a permanência sob o modo
manência que não se restrinja à permanência da ipseidade constitua uma identidade deli-
de uma substância ou estrutura invariante. beradamente mantida apesar de sê-lo como
Uma permanência capaz de corresponder de manutenção de si (maintien de soi). O que
modo melhor ao estatuto ontológico desse não reivindica, de nenhuma forma, qualquer
ente particular, que não se relaciona com o estrutura invariável, mas se fia apenas na dis-
tempo exclusivamente, por assim dizer, de posição da vontade. Eis a importância que tem
modo “extrínseco”, simplesmente como fa- para essa tese a consideração da vontade:
tor de corrupção, mas tem na temporalidade implicada nesse modo de conceber o sujeito,
um elemento constitutivo de si mesmo, à dife- ela se liga a uma ontologia que prescinde da
rença dos outros entes. Trata-se de uma per- noção de substância, abrindo a possibilida-
manência que diz respeito especificamente à de de formulação de uma epistemologia das
pessoa ou a comunidades como entes históri- ciências do homem capaz de dar conta, con-
cos. Uma permanência que se organiza sob o comitantemente, de seus aspectos naturais,
modo da ipseidade (ipseité), que se mantém objetiváveis, e de sua dimensão simbólica.
como “recusa da mudança” (RICOEUR, 1996, Abre-se espaço, também, para a construção
p. 149) pela coordenação e incorporação da de uma moralidade que extrapole a dicotomia
alteração em uma unidade de sentido. Um entre fato e valor, sem neutralizar o sujeito do
modo de permanência oposto, portanto, à ponto de vista moral nem reduzi-lo a um obje-
mesmidade que supõe a substancialização.4 to entre outros objetos no mundo, do ponto
3
Como propõe Kant ao fazer da substância a primeira de vista epistêmico.
categoria sob o modo da relação na Crítica da razão pura.
4
Ricoeur caracteriza a diferença entre ipseidade
(identidade-ipse) e mesmidade (identidade-idem) do no tempo; a ipseidade, por sua vez, é a manutenção
seguinte modo: a mesmidade é um conceito de relação de si pela recusa da mudança nos compromissos de
e uma relação de relações entre diferentes critérios longa duração (RICOEUR, 1990, p. 140-143). Adiante
de permanência: identidade numérica, identidade falaremos sobre as noções de caráter e de promessa,
qualitativa, continuidade e princípio de permanência nas quais essa distinção se modula.

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A distinção entre ipseidade e mesmida- enganoso a relação do homem com a tempo-
de na obra de Ricoeur funciona no interior de ralidade. No entanto, ela corre o risco de pôr
duas outras noções que definem o “si-mes- a questão da identidade novamente frente a
mo”: o caráter e a promessa. A primeira é no- uma aporicidade desconcertante. A ambigui-
ção reativa, designa as disposições adquiridas dade da distinção entre mesmidade e ipseida-
e sedimentadas pelo hábito, que se apresen- de permite reformular a controvérsia tradicio-
tam com a estabilidade de uma permanência nal sobre a subjetividade em outros termos.
imutável, ou quase. A segunda é noção pro- É de notar, que a despeito de sua sepa-
ativa, e designa a iniciativa deliberada de um ração radical, a distinção entre o modo de per-
compromisso futuro, uma permanência de si manência do caráter e o modo de permanência
que não recorre a qualquer característica de da promessa assenta na semelhança extrema
imutabilidade, exceto à manutenção da pala- entre o traço de recobrimento e o motivo de
vra empenhada. A primeira apresenta-se sob distinção entre mesmidade e ipseidade. Por
a forma de mesmidade, mas esconde uma um lado, o que produz o recobrimento da ip-
ipseidade, pois o hábito tem uma origem so- seidade pela mesmidade no caráter, dando à
terrada. A segunda mostra a “pura” ipseidade primeira a aparência da segunda, ainda que
em estado flagrante. Unidas pela operação de sem torná-las indistintas, é a transformação
narração (mise en intrigue), elas estabilizam os do elemento de inovação em um elemento
três aspectos da temporalidade: a efemerida- de fidelidade pela sedimentação temporal
de do passado e a imprevisibilidade do futuro estabilizadora dos traços disposicionais (RI-
por meio da iniciativa presente. Na medida COEUR, 1996, p. 146-147). Por outro lado, a
em que a noção de narratividade é capaz de promessa pontual obtém a credibilidade pela
coordenar perspectivas distintas, que, de ou- qual logra uma permanência do sujeito; uma
tro modo, tornar-se-iam excludentes, abre-se permanência que se pretende diferente da
caminho para pensar a aporicidade apontada mesmidade, da “fiabilidade habitual” (fiabi-
acima. O sujeito deixa de poder reconhecer- lité habituelle) constitutiva da credibilidade
-se somente em uma unidade pontual e passa geral das instituições humanas; nesse caso,
a compreender-se na unidade móvel de uma a instituição da linguagem que faz com que a
trama narrada, composta pelo regime da alte- proposição “eu prometo que…” conte como
ridade – outrem está sempre implicado como ato compromissório. Ademais, é também sob
beneficiário, e mesmo como testemunha, nos a forma de uma “disposição habitual” (dispo-
compromissos de longa duração nos quais o sition habituelle), a disposição de manter a pa-
sujeito se engaja – e da diversidade – uma nar- lavra, que a manutenção da promessa escapa
rativa é sempre a concordância tramada de ao incômodo constante de uma perpétua re-
uma totalidade mais ou menos inteligível en- cusa da alteração (RICOEUR, 2004 p. 207-208)
tre eventos discordantes entre si (RICOEUR, e se constitui digna de credibilidade perante
1982, p. 3-4). outro, o destinatário da promessa, tão im-
portante na economia do reconhecimento e
A ambiguidade da distinção da identificação para Ricoeur. Desse modo, o
entre ipseidade e mesmidade aspecto fiduciário é tanto o que torna a pro-
É certo que a proposta ricoeuriana de messa capaz de produzir a manutenção de si
uma identidade narrativa faz a discussão que caracteriza o modo de permanência da
avançar, e muito. No entanto, a distinção ipseidade quanto o que confere ao caráter a
entre ipseidade e mesmidade, do modo como estabilidade que faz com que nele tenha lugar
ela é feita por meio das noções de caráter e o fenômeno de soterramento da ipseidade
de promessa, guarda uma ambiguidade fun- pela mesmidade. O problema, então, é que,
damental. É igualmente certo que o tema da se no plano semântico a noção de promessa
ipseidade permite pensar de modo menos estabelece sem problemas a distinção entre

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identidade-idem e identidade-ipse, no plano explicitamente definida como uma “dialética
existencial ela os torna indiscerníveis. É aqui concreta” (dialectique concrète), possibilitada
que a questão de saber qual é o papel preciso e desenvolvida pela identidade narrativa (RI-
da subjetividade volta a se insinuar, mas em COEUR, 1996, p. 138). Vê-se a oposição, que
um nível diferente. no princípio aparecia com um sentido unilate-
O problema é que as partes da obra de ral, ganhar maior flexibilidade. Sendo assim,
Ricoeur em que a distinção entre ipseidade e uma possibilidade de comunicação entre os
mesmidade é tematizada não oferecem ele- termos é aberta pela narratividade. No entan-
mentos suficientes para tratar a questão. Nas to, ainda assim, na figura da promessa, “o ipse
conclusões de Temps et récit III (RICOEUR, põe a questão de sua identidade sem o auxílio
1985), nas quais, pela primeira vez, mesmi- e o apoio do idem” (RICOEUR, 1990, p. 150).7
dade e ipseidade são postas sob o horizonte Essa ambiguidade, a partir da qual se
da identidade narrativa, essa distinção visa à pode retomar a controvérsia sobre a subjetivi-
substituição de uma problemática pela outra. dade em Ricoeur, sugere a hipótese de que a
Nesse contexto, Ricoeur afirma que o dilema teoria da identidade narrativa, a partir da qual
do confronto entre duas vertentes do proble- Ricoeur estabelece a distinção ipseidade-mes-
ma da identidade, uma vertente substancialis- midade, supõe uma noção particular de von-
ta (Descartes) e uma vertente empirista-cética tade não desenvolvida no quadro dessa ques-
(Hume), “desaparece se, à identidade com- tão. Isso porque a distinção idem-ipse surge,
preendida no sentido de um mesmo (idem), sobretudo, em favor da ipseidade como mo-
substituirmos a identidade compreendida no delo sui generis. E é a noção de ipseidade que
sentido de um si-mesmo (ipse)” (RICOEUR, põe em jogo a vontade quando se pretende,
1985, p. 443, grifo nosso).5 Essa substituição como já se disse, um modo de permanência
confere à distinção todas as características de como recusa deliberada da alteração.
uma oposição unilateral. O aspecto unilateral
da distinção é reforçado quando a diferença é A hermenêutica do si e
caracterizada: “a diferença entre idem e ipse a fenomenologia da vontade
não é outra senão a diferença entre uma iden- O problema todo, aqui, é como com­
tidade substancial ou formal e a identidade preen­der essa indeterminação da ipseidade
narrativa” (RICOEUR, 1985, p. 443).6 Aqui, a por uma determinada noção de vontade. Essa
identidade narrativa é francamente identifica- compreensão afeta principalmente o funcio-
da somente à ipseidade por exclusão expressa namento do conceito de promessa e, portan-
de toda a mesmidade. to, a pertinência que ele oferece ao problema
É bem verdade que em Soi-même comme da identidade. Corre-se o risco de perder a no-
un outre (RICOEUR, 1996) essa oposição ga- ção de pessoa, pois somos confrontados com
nha maior flexibilidade. O caráter e a promes- a possibilidade da ipseidade, secretamente,
sa, noções das quais Ricoeur ainda não havia constituir um tipo de domínio de si da mesma
lançado mão em Temps et récit (1985), consti- ordem do cogito cartesiano – sem o mesmo
tuem, então, uma distinção de segundo grau, pendor substancialista, é certo, mas com con-
pela qual se descreve, em um caso, o recobri- sequências muito semelhantes. De um lado,
mento entre idem e ipse, e, em outro, a disso- por asseverar a diferença com a mesmidade,
ciação entre eles. Essa relação pôde então ser de outro, por se transformar em um tipo de
permanência comparável à sua permanência:
5
“Le dilemme disparaît si, à l’identité comprise au sens no primeiro caso, a promessa exigiria uma
d’un même (idem), on substitue l’identité comprise au
sens d’un soi-même (ipse)” (tradução nossa).
vontade obsessiva capaz de resistir a todas
6
“La différence entre idem et ipse n’est autre que la
différence entre une identité substantielle ou formelle “L’ipse pose la question de son identité sans le
7

et l’identité narrative” (tradução nossa). recours et l’appui de l’idem.” (Tradução nossa.)

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as inclinações, a manutenção de si correndo o afirma, a propósito dessa obra, que ela pode
risco de tornar-se uma neurose8 compulsiva; ser lida como uma “incitação a percorrer na
no segundo caso, o risco é a aderência servil sua integralidade uma obra […] que pode ser
ao hábito, às inclinações ou às instituições. lida, do começo ao fim como um vasto ‘per-
Como se nos dois casos a promessa deviesse curso do reconhecimento’” (GREISCH, 2009a,
da manutenção de uma vontade obtusa. p. 7). No prefácio ao segundo volume, essa
O desenvolvimento de uma noção de afirmação repete-se de modo bem mais incisi-
vontade compatível com a ideia de ipseidade vo, indicando os deslocamentos que o pensa-
é encontrada nos dois volumes da Philosophie mento de Ricoeur sofre de uma etapa a outra
de la volonté: Le volontaire et l’involontaire de seu desenvolvimento. Para Greisch, esses
(2009a) e L’home faillible (2009b), a primeira deslocamentos dizem respeito, respectiva-
obra de vulto de Ricoeur, mas que até agora mente, à diferença das questões “o que é o
tem recebido pouca atenção. No Brasil sequer homem?” e “quem somos nós?”, irredutíveis,
foi traduzida. mas complementares.
Essa hipótese justifica-se na medida em
que ambos os distintos momentos do pensa- Se a coabitação das duas antropolo-
mento de Ricoeur – o período maduro dos três gias põe um problema, e se ela deve
volumes de Temps et Récit (1983,1984,1985), dar o que pensar a uma geração de
Soi-même comme un autre (1996) e Parcours novos leitores de Ricoeur que tem
de la reconnaissance (2004) em que ele trata sob os olhos ao mesmo tempo o ter-
a problemática da identidade ligada à narrati- minus ad quod e o terminus ad quem
vidade e, a fase inicial de seu pensamento re- do imenso “percurso do reconheci-
presentada pelos dois volumes de Philosophie mento” que constitui a obra do filó-
de la volonté (2009a, 2009b) – têm, de uma sofo é, quem sabe, porque hoje em
forma ou outra, o sujeito humano como foco: dia, em que o futuro mesmo da na-
pela descrição direta da vontade e da existên- tureza humana está em jogo, temos
cia sob a condição da falibilidade, em um caso, todo o interesse em nos ocuparmos
e pelo desvio das operações de linguagem na da complementaridade e da irredu-
qual uma subjetividade expressa-se em outro. tibilidade das questões “O que é o
Além disso, as temáticas de ambas as fases, homem?” e “Quem somos nós?”
apesar de receberem tratamentos distintos, (GREISCH, 2009b, p. 23).9
convergem para a mesma ideia, a do homem
como uma mediação imperfeita entre dois Ipseidade e vontade
princípios: finito-infinito (L’homme faillible), Para explorar os problemas postos pela
ipseidade-mesmidade (Soi-même comme un ipseidade no horizonte de cada um dos dife-
autre). Sugimura (1995, p. 215-216) ainda su- rentes aportes da antropologia ricoeuriana,
gere que, em ambos os desenvolvimentos, os
princípios ligam-se de modo idêntico: a ipsei-
dade e a infinitude mostram, da mesma for- 9
“Si la cohabitation des deux anthropologies pose
problème, et si elle doit donner à penser à une
ma, uma abertura para a alteridade.
génération nouvelle de lecteurs de Ricoeur qui
No prefácio à edição de 2009 de Le vo- ont sous les yeux aussi bien le terminus ad quod
lontaire et l’involontaire (2009), Jean Greisch que le terminus ad quem de l’immense ‘parcours
de la reconnaissance’ que constitue l’ouvre du
8
A esse respeito são extremamente instrutivos os philosophe, c’est peut-être parce que de nous
estudos freudianos sobre a formação da neurose em jours, où l’avenir même de la nature humaine est en
Totem e tabu e a segunda dissertação da Genealogia question, nous avons tout intérêt à nous intéresser à
da Moral, de Nietzsche, sobre a capacidade de la complémentarité et à l’irréductibilité des questions
prometer como capacidade do homem “dispor de si ‘Qu’est-ce que l’homme?’ et ‘Qui sommes-nous?’”
como porvir”. (Tradução nossa.)

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deslocamos a atenção do tema da promessa problema da ipseidade. A despeito da apa-
para o tema do caráter. Ele é central para a rente contradição entre as duas evoluções da
questão da identidade e está presente nos noção, essa diferença não constitui uma rup-
dois desdobramentos da obra de Ricoeur. Em tura. “De certo modo, é ainda na mesma di-
Soi-même comme un autre, no qual a ques- reção que eu continuo minha investigação”,12
tão de indeterminação da ipseidade é posta, escreve Ricoeur em Soi-même comme un au-
a ligação do caráter com o hábito indica a tre (p.145) referindo-se aos princípios desse
confusão das problemáticas do idem e do desenvolvimento na sua Philosophie de la vo-
ipse. A possibilidade de pô-los no movimento lonté (2009b).
de narração permite desenvolver uma histori- Em Soi-même comme un autre, o engaja-
cidade contraída – no duplo sentido: de abre- mento moral, tornado possível pela promessa
viação e de afecção, insiste Ricoeur (1996, p. por meio da iniciativa, aparece como o pivô da
147-148). A preocupação é distinguir a ipseida- identidade na medida mesmo em que a ipsei-
de do si implicada no caráter, o acento sendo dade se distingue da mesmidade. O exame dos
posto inteiramente sobre o aspecto de mobi- aspectos ontológicos da iniciativa, enraizada
lidade engendrado pela dialética da inovação no caráter como modo de acesso à liberdade,
e da sedimentação temporal das disposições. fornece os elementos para a compreensão do
Por outro lado, em L’homme faillible e poder de comprometimento, permitindo re-
em Le volontaire et l’involontaire, a noção de fletir as circunstâncias nas quais o engajamen-
caráter é interpretada em seus aspectos de to transforma-se em um modo pernicioso de
imutabilidade. Mas a noção de caráter designa domínio de si.
aqui uma imutabilidade de gênero bem parti- Em L’homme faillible, o aspecto de aber-
cular que comporta o movimento de abertu- tura do caráter é desenvolvido a partir da
ra em direção ao outro, portanto em direção ideia de perspectiva afetiva, como determi-
à alteração. O caráter, efetivando o aspecto nação da disposição da vontade através de
prático da mediação entre finito e infinito, é motivos (RICOEUR, 2009b p. 91). Enquanto
a chave da antropologia da falibilidade. Em Le tal, o caráter liga-se já às noções de disposi-
volontaire et l’involontaire, o caráter advém ção e de hábito que articulam a interpretação
de “uma natureza finita estranhamente unida do caráter em Soi-même comme un autre. A
à sua iniciativa infinita” (RICOEUR, 2009a, p. dialética entre sedimentação e inovação im-
459).10 Nesse sentido, o caráter é “o modo de plicada na compreensão do hábito é já evoca-
ser da minha liberdade” (RICOEUR, 2009a p. da em L’homme faillible, mesmo que aí ela não
461),11 ele remete à uma existência individual seja plenamente desenvolvida. Tematizando
e indivisível que determina a possibilidade de a disponibilidade e a contração do hábito no
acesso à liberdade. Ele torna a liberdade infini- caráter, Ricoeur afirma: “pode-se retomar os
ta enquanto tal e finita enquanto minha. Pois mesmos temas a partir de uma análise tempo-
a liberdade não pode ser expressa senão em ral e mostrar a mesma dialética de inovação e
uma iniciativa que pela própria individualida- sedimentação” (2009b, p. 99; tradução nos-
de encontra na lateralidade dos motivos que sa). Mas isso ela só faria efetivamente trinta
evoca sempre uma emergência determinada anos mais tarde (RICOEUR, 1996, p. 146ss).
(RICOEUR, 2009a, p. 464). A diferença de pontos de vista, mais do
A circunscrição ontológica do caráter que a distância temporal que afasta as fases
como alguma coisa de imutável fornece ele- que consideramos, faz, em L’homme faillible, o
mentos importantes para compreender o peso da interpretação incidir completamente

10
“Une nature finie étrangement unie à son initiative “D’une certaine façon, c’est encore dans la même
12

infinie.” (Tradução nossa.)  direction que je poursuis mon investigation.”


11
“La manière d’être de ma liberté.” (Tradução nossa.) (Tradução nossa.)

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do lado da imutabilidade pelo aspecto de “fe- finita aberta no caráter. É aí que encontramos
chamento” (clôture) – pode-se dizer também a justificativa para o tratamento do engaja-
limite – da perspectiva afetiva que o caráter mento como “afirmação modesta” de si (RI-
desenha. No entanto, o que esse fechamento COEUR, 1996, p. 198).
produz é o sentimento de singularidade (RI- O caráter é, então, como estreiteza do
COEUR, 1996, p. 96), que envia essa formula- campo de abertura em direção aos motivos e
ção definitivamente à problemática da iden- poderes, um tipo de imutabilidade muito di-
tidade pessoal desenvolvida em Soi-même ferente da imutabilidade da coisa-substância
comme un autre. Mas aqui a singularidade não contra a qual Ricoeur bate-se em Soi-même
pode ser senão sinônimo de imutabilidade, de comme un autre. Ou seja, afirmar a imutabi-
invariante, pois a distinção entre ipseidade e lidade do caráter não é recorrer a uma subs-
mesmidade ainda não foi feita. tancialidade. Trata-se, antes, de uma noção
Esses desenvolvimentos da noção de ca- formal de imutabilidade limitativa, para a qual
ráter são interessantes ao tema da identidade a profusão indefinida de motivo e valores dis-
em virtude do tipo de imutabilidade que eles poníveis é a matéria.
exprimem. Essa imutabilidade, por paradoxal Essa imutabilidade é tomada pelo lado
que possa parecer, possui bem mais a signi- da imediatidade do corpo em relação a si mes-
ficação existencial do ipse que a significação mo (RICOEUR, 2009b p. 96ss). Meu corpo é
de um invariante relacional como idem, pois meu caráter imutável, na medida em que ele
envia sempre a uma permanência no tempo é uma organização física não escolhida, pela
sobre o modo da compreensão. O caráter, qual, não obstante, eu me movo no mundo:
como origem do movimento de abertura na a organização obscura dos humores dando o
perspectiva prática, nunca é percebido em si modo particular de acesso e a amplitude dos
mesmo, senão pelo sentimento de diferen- motivos; as limitações físicas determinando
ça (RICOEUR, 2009a, p. 103). Desse modo, o campo de abertura e o limite de fechamen-
mesmo que a distinção entre idem e ipse não to do campo de moção. Essa imediatidade é
tenha sido feita, ela não deixa de se insinuar. o fato de o corpo estar sempre presente a si
O que isso indica é a possibilidade de mesmo. Mas essa presença a si do corpo não
recuperamos a imutabilidade do caráter em se mostra à consciência, salvo por abstrações
relação à identidade – esse gênero particular pouco instrutivas. Ela se deixa ver somente
de imutabilidade que nos esforçamos por des- em uma perspectiva afetiva (RICOEUR, 2009b
crever, bem entendido – como elemento para p. 91), pois, para a consciência intencional, o
compreender a indeterminação da ipseidade. corpo é uma espécie de alteridade, uma alte-
Essa indeterminação transforma-se, então, ridade íntima (RICOEUR, 1996, p. 372).
em impossibilidade de disposição completa A imutabilidade do caráter, ainda que
do componente de ipseidade em narração. seja a mais íntima, corre sempre o risco de ser
Sendo assim, preserva-se uma tensão existen- tomada como coisa ou como qualquer tipo
cial entre posse e desapossamento de si, que de substância. A dificuldade da distinção en-
constitui a impossibilidade ontológica de um tre identidade-idem e identidade-ipse mostra
controle absoluto de si mesmo na promessa. como a tradição da subjetividade foi a histó-
Nesse sentido, eu tenho o poder de prome- ria das variações sobre essa posição. É aqui
ter, mas não posso (além de que não devo) que reencontramos o mesmo impasse entre
prometer tudo, pois o campo de possibilidade pressuposições contraditórias que foi o fio
da promessa é coberto pelo campo limitado condutor da hermenêutica do si em Soi-même
da iniciativa sempre tributária da parcialidade comme un autre: na hermenêutica do si, é a
da motivação determinada formalmente pelo dicotomia entre o idealismo da substância e o
caráter. O mesmo vale para o engajamento empirismo cético; na fenomenologia da von-
em geral, determinado por uma perspectiva tade, é a vertigem entre a objetividade cien-

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tífica e a subjetividade incomunicável. O que pode proceder senão pelos índices que uma
configura problema para a ipseidade na pers- perspectiva reporta à outra. Somente quando
pectiva da vontade não é a hesitação entre a identificamos um exemplar da espécie a um
permanência de uma substância ou a admis- caráter descrito como tipo mediano, como
são da ausência completa de qualquer coisa combinatória de traços, é que nos damos con-
que permaneça. A dificuldade é a oscilação da ta de que um caráter, para além de um tipo
compreensão do caráter, ora como objetiva- mediano, é o caráter de alguém e refere-se
ção determinada do homem, ora como uma a um eu singular. Por outro lado, damo-nos
natureza absolutamente colada a si. Dito de conta da possibilidade da descrição de tipos
outro modo, é a dicotomia entre o determi- medianos quando, pela publicidade de certos
nismo do involuntário observado de fora e o traços particulares, ensaiamos o cruzamento
subjetivismo de uma natureza humana abso- de características comuns.
lutamente plástica, dócil à vontade. Uma compreensão integral, então
A intenção de Ricoeur não é estritamen- – integral, mas não total –, só é possível
te mostrar a falsidade dessa oposição, mas sua se reenviarmos a descrição abstrata das
complementaridade pela reciprocidade do vo- referências entre projetos e motivos ao
luntário e do involuntário em um nível de des- transcurso do tempo que faz com que hábito
crição profundo. Essa descrição é o que exibe seja, ao mesmo tempo, a apreensão de uma
a imediatidade do corpo a si mesmo em uma capacidade e a alienação de um campo inteiro
perspectiva prática pela qual o caráter é a es- de possibilidades. Desse modo, as duas
treiteza de abertura que faz qualquer projeto perspectivas que colocamos em jogo aqui, a
referir-se a motivos determinados. Isso põe à descrição direta das estruturas da vontade e a
luz a ambiguidade da ipseidade como manu- hermenêutica narrativa do si, oferecem apoio
tenção de si livre de todo apelo à mesmidade. recíproco. Recorrendo à descrição da vonta-
No entanto, existem ainda dificuldades, de, em busca de soluções aos problemas pos-
pois essa reciprocidade, para ser compreen- tos pelo tema da identidade, é preciso retor-
dida, reivindica uma compreensão integral nar à narratividade para incluir na descrição a
da pessoa. E, no nível da descrição, não se temporalidade mesma da vontade.

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Dados autorais:

João B. Botton
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de
Minas gerais (UFMG), com graduação em Filosofia (2008)
e mestrado em Filosofia (2010) pela Universidade
Federal de Santa Maria (UFSM).

Recebido: 13/11/2013
Aprovado: 14/02/2014

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