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ADMINISTRAÇÃO RURAL

Autora: Márcia Felix da Silva

(CONTINUAÇÃO)

2 ESTUDO DA ADMINISTRAÇÃO RURAL

De acordo com Feijó (2011) o desenvolvimento da agricultura possibilitou o


surgimento das grandes civilizações da Antiguidade, porém foi nos séculos XI a XIII
com a introdução de uso de tecnologias que a agricultura passou por importantes
transformações, sendo esse período conhecido como primeira revolução agrícola. Já
entre os séculos XVIII e XIX surgiu na Europa a agricultura moderna, período
conhecido como segunda revolução agrícola, sendo particularmente importante na
Inglaterra que viu serem afetadas as relações sociais no campo. Foi a partir do processo
de transformação da agricultura inglesa que a agricultura familiar substituiu a
agricultura de arrendatários, sendo a agricultura familiar adotada como modelo de
construção da agricultura moderna nos países desenvolvidos.
Ainda conforme o autor (FEIJÓ, 2011, p.48) “a agricultura familiar nos países
ricos não é sinônimo de pequena produção nem de pequena propriedade”, essas
características são pertinentes à agricultura camponesa que, embora de bases familiares,
são muitas vezes improdutivas, ineficientes e sem boas conexões com o agronegócio.
No Brasil, o cenário das atividades agrícolas tem passado nos últimos anos por
mudanças substanciais. De acordo com o Senar (2009), atualmente o setor agropecuário
representa um terço do Produto Interno Bruto (PIB), é responsável pela empregabilidade
de um terço da força de trabalho, gerando um terço das receitas das exportações.
Nesse contexto, conhecer os conceitos e aplicabilidade da administração rural é
de suma importância para os produtores independentemente do porte de suas empresas.
Hoje, a administração rural é considerada como um ramo da ciência da Administração,
sendo as suas teorias plenamente aplicáveis às empresas rurais, bem como os preceitos
da área de marketing, finanças, contabilidade, produção, recursos humanos, logística,
dentre outras.

Para Kay (1983 apud REICHERT, 1998, p.2) a Administração Rural consiste
no processo de tomada de decisões onde recursos limitados são alocados para um
número de alternativas produtivas, para organizar e operar o negócio agrícola de tal
modo a atingir alguns objetivos.

O objeto de estudo da administração rural são as organizações rurais, logo o


primeiro conceito que se precisa entender é o de organização. De acordo com Stoner e
Freeman (1999; p.4), uma organização é definida como “duas ou mais pessoas
trabalhando juntas e de modo estruturado para alcançar um objetivo ou um conjunto de
objetivos”. Observe-se que o conceito aqui aplicado se refere à organização como
empresa.

Do ponto de vista da administração rural, a Lei 4.504 de 1964 (BRASIL, 1964),


define a Empresa Rural como o empreendimento de pessoa física ou jurídica, pública ou
privada, que explore econômica e racionalmente imóvel rural, dentro de condição de
rendimento econômico da região em que se situe e que explore área mínima agricultável
do imóvel segundo padrões fixados, pública e previamente, pelo Poder Executivo. Para
esse fim, equiparam-se às áreas cultivadas, as pastagens, as matas naturais e artificiais e
as áreas ocupadas com benfeitorias.

Dentro da perspectiva da administração rural são encontradas diversas formas de


organização, destacando-se aquelas que adotam o sistema cooperativista e as que optam
pelo associativismo. Verza (1983) explica que a cooperativa é um empreendimento
onde os associados têm fins econômicos e sociais, ou seja, as cooperativas têm a
finalidade de comercializar a produção dos associados. Já no associativismo a finalidade
não é o lucro, mas a organização da produção dos associados.
Qualquer que seja a atividade que se esteja realizando cada indivíduo participa
de uma organização, quer seja de um grupo religioso ou esportivo, formal ou informal,
com ou sem fim lucrativo. A principal característica de uma organização é o fato desses
indivíduos trabalharem juntos em busca da realização de um objetivo (STONER;
FREEMAN, 1999). De forma sucinta, um objetivo pode ser compreendido como uma
linha entre dois pontos. O ponto inicial é onde se está e o ponto final aonde se quer
chegar, o objetivo, ou conforme Oliveira (1999, p.138) “objetivo é o alvo ou situação
que se pretende alcançar”. Porém, para que seja atingido de maneira eficiente e com a
máxima eficácia é necessário que todas as etapas para alcançá-lo sejam planejadas.

Nesse sentido, destaca-se a definição de administração estabelecida por


Maximiano (2000) e perfeitamente aplicável à empresa rural. De acordo com o autor, a
administração consiste no processo de tomar e colocar em prática decisões sobre a
alocação de recursos conforme os objetivos que foram estabelecidos.

Processo Administrativo: Planejar, Organizar, Dirigir e Controlar

Consistindo-se em processo, a administração pressupõe etapas: planejar,


organizar, dirigir e controlar. Para Stoner e Freeman (1999) planejar significa pensar
antecipadamente em como implementar os objetivos e ações com base em algum
método, plano ou lógica.

Planejar é pensar antes de agir!

Dessa definição de planejamento logo se percebe que ele se distingue do plano.


O planejamento visa a estabelecer uma situação futura e desejada e determinar quais
serão os meios utilizados para alcançar essa situação (OLIVEIRA, 1999). Já o plano é a
materialização do planejamento, ou seja, os planos são documentos escritos que
permitem que a organização (empresa) alcance seus objetivos da forma mais adequada.
Para Stoner e Freeman (1999; p.5) eles são “as linhas mestras” que norteiam os
melhores caminhos que a empresa deverá seguir.

De um modo geral as empresas se utilizam basicamente de três tipos de planos:


os planos estratégicos, os planos táticos e os planos operacionais. O plano estratégico é
elaborado pela alta cúpula da organização (os chamados administradores de topo),
considerando a sua complexidade e importância. É o plano estratégico que define os
rumos da organização no longo prazo e por isso ele atinge toda a empresa.

O plano tático envolve as decisões departamentais. Conforme Oliveira (1999) a


finalidade do planejamento tático é a otimização de determinada área e não da empresa
inteira. Envolve decisões da gerência média.
Já o plano operacional se refere ao detalhamento das ações necessárias ao
atingimento dos objetivos estabelecidos no planejamento estratégico. É no plano
operacional que se estabelecem as ações do dia-a-dia das organizações, sendo a
responsabilidade pela sua elaboração atribuída à gerência de primeira linha (primeiro
nível). Corroborando com esse pensamento, Oliveira (1999) afirma que o planejamento
operacional cria as condições adequadas dos trabalhos que serão desenvolvidos pelas
áreas funcionais da empresa.

A figura 1 permite a visualização dos níveis de planejamento dentro de uma


organização e os tipos de administradores responsáveis pela sua elaboração.

Nível Administradores Planejamento


Estratégico de topo Estratégico

Nível Gerência Planejamento


Tático média Tático

Nível Gerência de Planejamento


Operacional primeira linha Operacional

Figura 1: Tipos de planejamento


Fonte: Adaptado de Oliveira (1999).

No tocante às empresas agrícolas, Almeida (2006) adverte que nesse tipo


de organização o planejamento se aplica a uma função ou setor de atividade bastante
específica – a agricultura – e é o agricultor que toma a decisão de executar as ações
planejadas e, portanto, o planejamento assume uma maior complexidade devido aos
seguintes fatores:

1. Escassez de mão-de-obra qualificada para esse fim;

2. As informações básicas são geralmente insuficientes;

3. Grande número de variáveis envolvendo as atividades agrícolas;


4. Problemas relacionados às terminologias e às metodologias;

5. Escassez de referencial teórico especializado.

No decorrer deste módulo, o planejamento agrícola será mais bem discutido,


objetivando esclarecer cada uma das etapas do processo dentro de uma empresa
agrícola.

Organizar

De acordo com Stoner e Freeman (1999) organizar é harmonizar e distribuir o


trabalho, definir a autoridade e estabelecer os recursos necessários para que os membros
da organização possam alcançar de maneira eficiente os objetivos que foram
estabelecidos.

Cabe ressaltar que o princípio da eficiência em administração está relacionado à


capacidade de “fazer certo as coisas” – é um conceito de “insumo-produto”. Os
administradores estão sendo eficientes quando conseguem minimizar custos, enquanto o
princípio da eficácia se relaciona com a capacidade de “fazer a coisa certa” e isso
depende da escolha de objetivos certos. (STONER;FREEMAN, 1999, p.5), ou seja, a
eficiência está relacionada à otimização do uso dos recursos utilizados para o alcance
dos objetivos da empresa. Já a eficácia está relacionada à capacidade de alcançar os
objetivos que foram correta e previamente estabelecidos, demonstrando, mais uma vez,
o quão importante é o planejamento.

Para o Senar (2009) o produtor precisa acompanhar as mudanças que vêm


ocorrendo nos vários setores da economia em todo o mundo e, para tanto, é necessário
saber aplicar o conceito de eficiência na área tecnológica e da gestão das atividades
agrícolas para que possa produzir de forma economicamente viável, ambientalmente
correta, socialmente justa, atendendo às determinações da defesa sanitária, se possível
de modo associativista, conhecendo além do ambiente interno (produção), o ambiente
externo à propriedade.
Mas, como o produtor pode reconhecer o ambiente interno e o ambiente externo
da organização agrícola?
De acordo com o Senar (2009), a cadeia produtiva agrícola divide-se em:
1. O que vem antes da porteira das fazendas (ambiente externo):
1. Insumos;
2. Serviços indispensáveis à produção rural: a pesquisa cientifica, a extensão rural,
os fertilizantes, os defensivos, os corretivos, as sementes, as máquinas e
equipamentos, o crédito, o seguro rural.
3. O que se passa dentro das fazendas (ambiente interno): plantio, tratos culturais,
colheita sob gestão dos recursos gerenciais e humanos, área comercial,
ambiental, fiscal, tributária, trabalhista, técnica e outras ações.
4. O que ocorre depois da porteira (ambiente externo): transporte da produção,
armazenagem, industrialização, embalagem, distribuição, comércio interno ou
externo.

Essa divisão torna evidente que a participação do produtor no agronegócio se dá


através das diferentes cadeias produtivas e em todas elas prevalece a visão holística do
negócio, onde as decisões relacionadas à aquisição dos insumos, à produção, ao
armazenamento, à industrialização, à distribuição e ao consumo da matéria prima, não
podem ser consideradas de forma separada (SENAR, 2009). No decorrer do módulo o
conceito de cadeia produtiva será mais aprofundado.

Dirigir

Para Stoner e Freeman (1999, p.344) o planejamento e a organização dentro de


uma empresa envolvem os aspectos mais abstratos do processo administrativo, mas a
atividade de liderar/dirigir é bastante concreta, pois envolve o trabalho com pessoas,
assim sendo, para os referidos autores liderar é “dirigir e influenciar as atividades
relacionadas às tarefas dos membros do grupo” dentro da organização. Portanto, o
envolvimento entre os líderes e os membros do grupo dentro de uma organização é
regido pela relação de poder.

Embora possa parecer que as etapas do processo de administrar estejam


desvinculadas entre sim, o planejamento, a organização, a direção e o controle são
atividades intrinsecamente ligadas, ou conforme Stoner e Freeman (1999) “são funções
interativas”. Essa realidade pode ser observada na figura 2, onde as linhas tracejadas
demonstram a situação considerada ideal dentro desse processo, mas que no dia-a-dia da
organização acabam ocorrendo concomitantemente.

Planejar Organizar
Uso da lógica e de Ordenação e
métodos para pensar distribuição de
em objetivos e ações. trabalho, autoridade e
recursos.

Controlar Liderar (dirigir)


Inspeção das atividades Direção e influência
de acordo com o que sobre os empregados.
foi planejado.

Sequência ideal das atividades dos administradores.

Realidade das atividades dos administradores.

Figura 2: Natureza interativa do processo organizacional


Fonte: Adaptado de Stoner e Freeman (1999, p.7).

De fato, o ponto de partida do processo administrativo é o planejamento, porém


mesmo durante essa etapa, as funções de organização (definir os recursos), direção
(definir o comando) e controle (fiscalização do cumprimento dos objetivos)
permanecem em constante interação. Mas explicitamente, uma vez planejando o
administrador também está exercendo as funções de organização, direção e controle e
vice-versa.
Controlar

A função de controle exercida pelo administrador envolve (1) o estabelecimento


de padrões de desempenho, (2) a medição do desempenho atual e (3) a comparação
desse desempenho como o que foi previamente estabelecido e (4) em caso de
constatação de que houve desvios em relação aos padrões desejados deverão ser
promovidas ações corretivas para que o curso das ações planejadas seja retomado ou, de
maneira sucinta, o controle gerencial é o processo de garantir que as atividades
realizadas estão em conformidade com o que foi planejado. (STONER, FREEMAN,
1999).

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