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Um Manifesto

pelo Progresso Social


Ideias para uma sociedade melhor
Marc Fleurbaey
Olivier Bouin
Marie-Laure Salles-Djelic
Ravi Kanbur
Helga Nowotny
Elisa Reis

Prefácio Amartya Sen


Prefácio à edição portuguesa Gustavo Cardoso
Autores:
Marc Fleurbaey
Olivier Bouin
Marie-Laure Salles-Djelic
Ravi Kanbur, Helga Nowotny, Elisa Reis.

Revisão científica:
Gustavo Cardoso

Tradução:
Caterina Foà

© 2020

Published by:
CIES-IUL e Fundação Calouste Gulbenkian

Text Design by:


Jupiter Episode

Cover Design by:


Jupiter Episode + work of art “Crise” – Sara Maia 2012

Distributed by:
Mundos Sociais CIES-IUL

impressão:
ligação visual

Agradecimentos
Agradecemos à Fundação Calouste Gulbenkian e, em particular, à sua Presidente, Isabel Mota, o empenho
e apoio sem os quais não teria sido possível a edição deste livro em língua portuguesa.
Um Manifesto
pelo Progresso Social
Ideias para uma sociedade melhor

MARC FLEURBAEY
OLIVIER BOUIN
MARIE-LAURE SALLES-DJELIC
RAVI KANBUR
HELGA NOWOTNY
ELISA REIS

Prefácio Amartya Sen


Prefácio à edição portuguesa Gustavo Cardoso
índice
Índice de figuras e quadros 6
Prefácio à edição portuguesa 9
Prefácio 15

Agradecimentos 17

Introdução: O futuro está nas nossas mãos 21

Parte I – Fontes de preocupação, razões de esperança


1. Sucessos globais e catástrofes iminentes 37
2. Globalização e tecnologia: escolhas e contingências 57
3. O círculo crescente de respeito e dignidade 78
4. O grande desafio 97

Parte I I – Ação pelo progresso social


5. Em busca de uma nova terceira via 115
6. Reformar o capitalismo 134
7. Do Estado social ao Estado emancipador 153
8. Da polarítica à política 177
Conclusão – Mobilizando os criadores de mudanças 197

Referências bibliogáficas 217


Indíce de figuras e quadros
Figuras
Figura 1.1 Mil anos de crescimento económico global
Figura 1.2 Três décadas de redução da pobreza
Figura 1.3 Meio século de indicadores sociais
Figura 1.4 Descolonização e democracia
Figura 1.5 Pobreza na África Subsariana
Figura 1.6 Curva de incidência de crescimento global 1988-2008
Figura 1.7 Seis décadas de envelhecimento no mundo
Figura 1.8 Degradação ambiental
Figura 1.9 Emissões de gases com efeito de estufa e mudança de temperatura
global ao longo do século
Figura 1.10 Migrantes internacionais (pessoas que vivem fora do país de
nascimento, em percentagem da população mundial)
Figura 1.11 Conflitos por intensidade 1946-2016
Figura 1.12 Ataques terroristas em todo o mundo 1970-2015
Figura 1.13 Lacunas absolutas e relativas entre países
Figura 2.1 Comércio mundial em percentagem do PIB
Figura 2.2 Investimento direto estrangeiro (IDE) mundial – fluxos em percentagem
do PIB
Figura 2.3 Taxas alfandegárias
Figura 2.4 Índice de liberalização do capital
Figura 2.5 Passageiros do transporte aéreo mundial
Figura 2.6 Subscritores de internet em percentagem da população mundial
Figura 2.7 Assinaturas de contas de telefone móvel (por 100 pessoas)
Figura 2.8 Estimativa do stock operacional mundial de robôs industriais (com
projeção para 2017-2020)
Figura 2.9 Peso do trabalho em percentagem do PIB e intensidade do trabalho
Figura 2.10 Desrotinização de empregos nas economias desenvolvidas (1993-
2006)
Figura 2.11 Crescimento do emprego em todos os quintis de trabalho pago
durante expansões e recessões, EUA (1963-2016)
Figura 3.1 Áreas protegidas em todo o mundo (em km2)
Figura 3.2 Número de ONG com estatuto consultivo junto do Conselho Económico
e Social da ONU
Figura 3.3 Atitudes perante a desigualdade de rendimento ao nível mundial

6
Figura 3.4 Atitudes sobre a homossexualidade
Figura 3.5 Atitudes em relação aos papéis de género
Figura 4.1 Emissões de CO2 no mundo
Figura 4.2 Distribuição do rendimento no mundo
Figura 4.3 PIB per capita no mundo (1950-2010; projeção para 2050)
Figura 4.4 Apoio à igualdade e à democracia
Figura 4.5 Consumo de energia em diferentes níveis de desenvolvimento
Figura 4.6 Consumo de energia e PIB em 1960 e nos últimos anos
Figura 4.7 Emissões por regiões do mundo
Figura 4.8 Projeções demográficas ao nível mundial
Figura 5.1 Roubo de salário versus assaltos nos EUA
Figura 5.2 Categorias de emprego na Europa (1995-2010)
Figura 6.1 Evolução das taxas de imposto sobre o rendimento das pessoas
coletivas, 2003-2017
Figura 6.2 Participação pura nos lucros do setor empresarial não financeiro dos
EUA (1984-2014)
Figura 6.3 A ascensão dos super-ricos nos Estados Unidos
Figura 7.1 Redução da desigualdade através de impostos e transferências (2013-
2014)
Figura 7.2 Receitas e despesas do governo federal dos EUA em percentagem do
PIB (1950-2015) e previsão para 2016-2021
Figura 7.3 Despesa social pública na OCDE em percentagem do PIB (1980-2016)
Figura 7.4 Custo decrescente da sequenciação de ADN
Figura 7.5 Dívida pública nos países do G7, em percentagem do PIB
Figura 7.6 Despesa líquida total na OCDE em percentagem do PIB (2013)
Figura 7.7 PIB per capita (1960-2011) em comparação com os EUA e o Reino Unido
no início das reformas da segurança social
Figura 7.8 Despesas públicas e privadas em saúde em percentagem do PIB (2015)
Figura 7.9 População acima da idade da reforma que recebe uma pensão (%)
Figura 7.10 A curva de Grande Gatsby – mais desigualdade associada a menor
mobilidade
Figura 8.1 Desgaste do apoio às instituições democráticas nas gerações mais
jovens
Figura 8.2 Preferências políticas dos americanos ricos versus preferências políticas
do público em geral

7
Figura 8.3 Votos e resultados eleitorais nos EUA
Figura 8.4 Diminuição da confiança nas instituições europeias

Quadros
Quadro 5.1 Emprego cooperativo e filiação ao nível mundial

8
Prefácio à edição portuguesa
Para que serve a ciência e, em particular, as ciências sociais? Se olharmos para

as práticas consagradas em muitas instituições universitárias portuguesas

poderíamos ser tentados a responder: para preparar os futuros trabalhadores

dos nossos mercados de trabalho.


No entanto, se tal resposta fosse verdadeira estaríamos a descrever o

lento, mas inexorável, fim da universidade, da investigação e do ensino. Porquê?

Porque, simplesmente, preparar alguém para algo que já existe não permite

antecipar o que vai ser preciso dentro de dez anos e preparar o futuro inovando

de todas as formas, como só a universidade sabe fazer. A universidade é a única

entidade capaz de produzir ciência e que, simultaneamente, pode identificar

problemas e, como tal, ser capaz de criar soluções para eles. Sem problemas não

existe progresso. Porque, sem identificar problemas nunca existirão soluções.

Para que serve, então, a ciência e, em particular, as ciências sociais? A

resposta é simples e direta: servem para fazer progredir o mundo através da

criação e inovação.

O ponto central é o de que, embora tenhamos percorrido um longo

caminho na direção certa, estamos a viver tempos particularmente preocupantes

e temos de mudar quer de protagonistas quer de formas de pensar para os

poder ultrapassar.

Cresci vendo Portugal melhorar na saúde, na educação, no PIB e vendo

o futuro com otimismo para as novas gerações saídas das universidades, com

emprego, vidas e salários cada vez melhores – uma tendência vivida até à crise de

2008 e só recuperada depois a partir de 2015.

Com o massacre de Santa Cruz em Díli e anos mais tarde com o referendo

em Timor-Leste, aprendi que a mobilização nas ruas e a utilização da Internet nos

permitia sermos ouvidos e mudar algo. Imaginámos, agimos e conseguimos com

a CNN, a Internet e até com um camião com uma tela gigante passando cenas
do massacre de Santa Cruz, aquando da assinatura do tratado de Maastricht,

domesticar a comunicação ao serviço da nossa ideia de justiça.

9
Aprendi que entupir os servidores de e-mails e faxes das representações

dos membros permanentes do conselho de segurança da ONU, tendo o apoio

de meios de comunicação social, empresas de telecomunicações e do sector

bancário resultava e era possível em Portugal.

Ainda estudante universitário descobri que poucos podem mudar algo,

quando nos opusemos primeiro às propinas no ensino superior e depois a tudo


o que atrás disso surgiu nas décadas seguintes em opções políticas cinzentas,

personagens públicas cinzentas e que alguns anos mais tarde na finança, na

política e em outras atividades, igualmente cinzentas, acabaram por comprometer

muito do que havíamos e poderíamos, entretanto, ter conseguido em Portugal.

Acreditei que na Europa seria possível construir um futuro comum em que

olhássemos para o “outro”, independentemente, do seu país de origem, como

um igual - hoje já não acredito, ou melhor, acredito que, quando mudarmos o

que é hoje um forte sentimento contra migrantes na Europa, voltarei a acreditar.

Tirei um curso de gestão onde as aulas que mais gostei foram aquelas em

que os professores nos impeliam a questionar o que estava nos programas e

acabei por achar que deveria mudar para sociologia, porque tendo aprendido a

fazer, precisava de aprender a razão do porquê de se fazer assim.

Tive a sorte de conhecer amigos fantásticos na universidade e de os ver

na vida ativa, cada um à sua maneira, tentar mudar aquilo de que não gostavam

para algo melhor, fosse no domínio do sector público ou do sector privado – a


maioria de nós ainda não desistiu, mas não se pode dizer que as desilusões não

tenham sido também muitas.

No entanto, as tentativas de mudança que poderiam ter sido concretizadas

têm também esbarrado nos destroços deixados para trás por quem nos tem

dirigido, colocando-nos perante aquilo que aparentam parecer dificuldades

inultrapassáveis.

As gerações que hoje convivem em Portugal tinham (e têm) o sonho de

construir uma vida melhor, mas também tinham a esperança de que aqueles em

quem depositavam a sua confiança política fossem capazes de viver à altura da

sua esperança. No entanto, uma parte substantiva dos membros das gerações

que nos têm dirigido e influenciado a prática política e económica dos últimos

10
40 anos (as quais incluem as elites académicas, políticas e económicas nacionais)

falharam a muitos de nós, deixando-os cínicos e desiludidos.

Tal, como as muitas centenas de cientistas sociais que participaram no

processo que deu origem a este livro, escrevo estas linhas na certeza de que,

entre nós que hoje ensinamos e investigamos nas universidades e os alunos

que a elas vão chegar ao longo dos próximos anos, será possível estabelecer

um verdadeiro diálogo transgeracional que nos permita a nós (investigadores e

professores) explicar os contextos e escolhas que nos trouxeram até onde hoje

estamos e em que os alunos sejam capazes de nos ajudar a compreender qual a

melhor forma para seguir a partir daqui.

Como refere um colega e amigo, Jonathan Taplin, o local até onde

chegámos neste início de século XXI é uma sociedade baseada na lógica do

“winner-takes-all”. Essa é a lógica na economia, na política, nas plataformas do

Google ao Facebook, passando pela Uber e Netflix, mas também nas artes – 80%

dos downloads ou streamings têm origem em 1% dos conteúdos. Isso quer dizer

que alguns músicos podem hoje ser bilionários, mas o músico médio quase não

consegue sobreviver.

O exemplo de Taplin é simples e foca as listas de vendas de música digital,

mas poderíamos encontrar paralelismos nas desigualdades de rendimento,

riqueza, da concentração económica em quase-monopólios ou da dependência

entre política e banca.


Como lembra, também, outro amigo, Manuel Castells, a história tem

demonstrado que a comunicação, jornalismo e a arte funcionam como poderosos

antídotos contra os perigos da “situação”. Ou seja, os perigos criados por quem

nos governa, nos dirige ou gere o nosso consumo e coloca apenas ao seu serviço

(e dos seus) aquilo que deveria pertencer a um futuro comum.

Se buscamos uma mudança política e económica, então as artes, a

comunicação e o jornalismo podem ser a chave dessa mudança. Artistas,

jornalistas e todos os que utilizam a comunicação podem inspirar mudanças


culturais, rejeitando o que de negativo existe na política e economia e promovendo

uma sociedade mais justa, mais humana e menos desigual.

Daí, que o papel daqueles que hoje estudam as artes, a comunicação ou o

11
jornalismo passe também por olhar, com particular atenção, para a comunicação

que nos rodeia e pensar de forma crítica sobre a mesma, nos seus efeitos, nas

suas influências, nas agendas promovidas por pessoas, algoritmos ou bots e se

essas agendas são as que melhor servem os nossos propósitos e metas.

Como começar então essa mudança? As aulas (e não a instituição difusa

Universidade) são o ponto fulcral da mudança e a forma como as pensarmos

e delas fizermos uso ditarão muito do mundo que iremos construir e como

poderemos colocar em causa o que de errado existe nas diferentes instituições

da sociedade portuguesa.

Que competências precisamos então de desenvolver nas nossas salas de

aulas para, em conjunto, nos ajudarem nesse diálogo transgeracional em direção

ao progresso social?

Diria que, em primeiro lugar, precisamos de improvisar. É necessário que

os alunos desafiem os professores, tal como estes devem encorajar e desafiar

os alunos. A ciência e o progresso constroem-se com desafios coletivos – sejam

eles ambientais, sociais, culturais, económicos, políticos ou a soma de todos eles.

Improvisar implica tanto coragem como inteligência e quer dizer que, por

vezes, se terá que abandonar o tirar notas, ou pensar no já lido, para simplesmente

responder com base no que se acha face às ideias apresentadas nas aulas. São

essas competências que nos podem permitir a liderança na mudança.

No entanto, tal como me recordo de ter ouvido há alguns anos numa aula
na Harvard Kennedy School, a liderança é mais do que demonstrar coragem e

inteligência. Liderar requer também cultivar a vulnerabilidade e a tolerância.

Tal como todos os outros cientistas sociais que participaram neste projeto,

não tenho, ou melhor, ninguém tem, todas as respostas. Acho que muito do que

temos que fazer passa pela forma como os nossos alunos, e aqueles que estão

fora da universidade, forem capazes de partilhar connosco as suas visões.

Mas, a partilha tem também de ser feita intrageracionalmente, pelo que

precisamos que nas nossas universidades, nas famílias, no trabalho, na política e

nos movimentos sociais, se assuma a mesma vulnerabilidade face ao “outro”, seja

ele o colega, amigo (do Facebook ou dos outros) e, mesmo, o familiar, tratando-

os com a tolerância necessária para que todos possamos, compreender melhor

12
este nosso mundo em interregno e percorrer um caminho de progresso juntos.

Todas as gerações, normalmente ao contrário de algumas das suas elites

(dis)funcionais, acreditam na justiça e igualdade. É sobre essa dimensão comum

que podemos aspirar a uma aliança transgeracional em busca de uma nova

cultura, economia e política progressistas e de uma esperançosa sociedade,.

Apesar da pesada e confusa herança que nos está hoje a ser legada tanto

nas democracias, por decisões populistas radicadas num egoísmo social, como

nos regimes autocráticos, que sacrificam ambientalmente o futuro em nome do

aumento de um poder ilusório sobre o seu destino, há que começar por algum

lado. A leitura deste livro e o seu debate e discussão nas nossas aulas, redes

sociais, cafés, comunicação social e salas das nossas casas parecem ser o local

ideal para o fazer.

Gustavo Cardoso
Professor Catedrático de Ciências da Comunicação do ISCTE-IUL
Membro do Conselho Científico do International Panel for Social Progress

13
Prefácio
AMARTYA SEN

As últimas décadas assistiram a um declínio da pobreza mundial e a uma extensão


da democracia em muitos países do mundo. Muitas pessoas têm a sensação de
que este foi também um período de retrocessos sociais, e há uma atmosfera geral
de ceticismo quanto à possibilidade de um progresso social substancial a longo
prazo, para não falar de uma transformação mais profunda que anule as injustiças
sociais prevalecentes. A maioria dos intelectuais evita não só o pensamento
utópico, mas também qualquer análise prospetiva a longo prazo das estruturas
sociais.
A crise da social-democracia após o colapso do Império Soviético parece ter
gerado, no Ocidente, um declínio de esperança para uma sociedade justa, assim
como as condições de vida de centenas de milhões de pessoas nas economias
emergentes melhoraram drasticamente. Esses países, no entanto, também
abandonaram a busca por um caminho diferente para o desenvolvimento: têm a
tendência agora de imitar os países desenvolvidos, em vez de inventar um novo
modelo, mas as dificuldades sociais que lembram a fase inicial do capitalismo
ocidental permanecem.
No entanto, nem o colapso das ilusões nem a explosão do capitalismo nos
países em desenvolvimento devem significar o fim da busca por justiça. Dada a sua
competência especial, os cientistas sociais devem pensar sobre a transformação
da sociedade, juntamente com os estudiosos das humanidades e das ciências
exatas. Se a esperança de progresso é possível, eles devem fornecê-la – se não for
possível, eles devem explicar o porquê.
Paradoxalmente, os cientistas sociais nunca estiveram tão bem equipados
para assumir tal responsabilidade, graças ao desenvolvimento de todas as
disciplinas relevantes desde a Segunda Guerra Mundial. Mas a expansão das
disciplinas, a crescente especialização e a globalização da produção académica
tornaram impossível, até mesmo para a mente mais brilhante, compreender,
por si só, a complexidade dos mecanismos sociais e fazer propostas sérias para
mudanças nas instituições e estruturas sociais. Tal tarefa deve agora ser coletiva

e interdisciplinar.

15
Agradecimentos
Muitas pessoas colaboraram no processo de elaboração deste livro e merecem

um agradecimento especial. Damien Capelle, Brian Jabarian e Flora Vourch muito

ajudaram na investigação. Ottmar Edenhofer forneceu conselhos muito úteis sobre

a tributação do carbono e dos rendimentos. Foram generosamente fornecidos

comentários em vários estágios de preparação do texto por Nico Cloete, David de

la Croix, Fernando Filgueira, Nancy Folbre, Jeff Hearn, Nora Lustig, Wolfgang Lutz,

Anne Monier, Fabian Muniesa, Gian Paolo Rossini, Saskia Sassen, Erik Schokkaert,

Simon Schwarzman, Noah Scovronick, Greg Shaffer, Christiane Spiel, Alexander

Stingl, Lorraine Talbot, Peter Wallensteen, Finn Wölm e três revisores anónimos.

As instituições que apoiaram todo o projeto IPSP merecem também o nosso

reconhecimento, em especial, entre mais de trinta, o Center for Human Values

da Universidade de Princeton, o Collège d’Etudes Mondiales (FMSH, Paris) e o

Institute for Futures Studies (Estocolmo). Por último, mas não menos importante,

o apoio da equipa de imprensa da Universidade de Cambridge (em particular, de

Karen Maloney, Stephen Acerra e Kristina Deusch) foi imenso para levar a cabo

este projeto em conjunto com o relatório mais detalhado.

Gostariamos ainda de agradecer a Caterina Foà, investigadora do CIES-

IUL, e a Pedro Pais, investigador do OberCom, pela tradução e revisão científica

da obra. Um agradecimento especial é devido ao Professor Doutor João Caraça,

à data Diretor da Delegação em França da Fundação Calouste Gulbekian, pelo

apoio à divulgação científica deste projeto para o progresso social.

17
O Painel Internacional sobre Progresso Social

O IPSP – Internacional Panel on Social Progress (Painel Internacional sobre


1
Progresso Social) foi desenvolvido para levar a cabo essa tarefa. Reuniu mais

de 300 académicos de todas as disciplinas, perspetivas e regiões relevantes do

mundo dispostos e capazes de se envolver num verdadeiro diálogo interdisciplinar

sobre as principais dimensões do progresso social. Apoiando-se em estudos de

ponta, esses cientistas sociais reviram a conveniência e a possibilidade de todas

as formas relevantes de mudança social de longo prazo, exploraram os desafios

atuais e sintetizaram os seus conhecimentos sobre os princípios, possibilidades e

métodos para melhorar as principais instituições das sociedades modernas.

O painel é um esforço verdadeiramente colaborativo, tanto na sua

organização, como no seu financiamento multifontes. O IPSP procura trabalhar de

uma forma que seja fiel aos valores e princípios fundamentais subjacentes à sua

missão: bem-estar e liberdade, segurança e solidariedade, bem como pluralismo

e tolerância, justiça e equidade distributivas, proteção ambiental, transparência e


2
democracia.

O grupo produziu um importante relatório de três volumes – Repensar

a Sociedade para o Século XXI – o qual abrange as principais dimensões

socioeconómicas, políticas e culturais do progresso social e explora os valores,


as oportunidades e as limitações que sustentam o conhecimento de ponta sobre

possíveis melhorias nas instituições e políticas. O relatório abrange questões

globais e regionais e considera o futuro de diferentes partes do mundo, a

diversidade de desafios e a sua interação.

Todos os capítulos do relatório do IPSP focam um conjunto particular

de questões a partir da dupla perspetiva de fornecer visões sobre 1) quais são

atualmente os principais riscos e desafios e 2) como as instituições e políticas

podem ser melhoradas para combater as pragas da desigualdade, da segregação,

da intolerância, da exclusão e da violência. O relatório completo do IPSP está

disponível em (www.ipsp.org/downloads).

1 https://www.ipsp.org/.

2 Uma discussão detalhada dos valores e princípios do progresso social é apresentda em IPSP (2018, capítulo 2).

18
O propósito deste livro

Este livro foi escrito para um público mais amplo com o objetivo de compartilhar

a mensagem de esperança do relatório do IPSP: uma sociedade melhor é de facto

possível, os seus contornos podem ser amplamente descritos e tudo o que precisamos

é de reunir forças para realizar essa visão. Embora se baseie em grande parte no

relatório, é uma obra complementar e oferece a sua própria perspetiva original

numa análise coerente. Não pretende resumir o relatório com toda a sua riqueza

de tópicos e não pretende refletir toda a diversidade de opiniões dos membros

do IPSP. É um convite para levar essas questões a sério e para as explorar mais

aprofundadamente com a ajuda do relatório completo.

A equipa que escreveu este livro esteve no centro do trabalho do IPSP e é

composta por académicos que estão empenhados na investigação científica e em

fazer com que as ciências sociais sirvam o bem comum:

- Olivier Bouin, secretário-geral da Rede Europeia de Institutos de Estudos


Avançados, antigo diretor do Collège d’Etudes Mondiales (FMSH, Paris)

- Marie-Laure Salles-Djelic, professora e codiretora da Escola Superior de


Gestão, Sciences- Po, Paris

- Marc Fleurbaey, professor R.E. Kuenne de Economia e Estudos


Humanísticos, Universidade de Princeton, e membro do Collège d’Etudes
Mondiales (FMSH, Paris)

- Ravi Kanbur, T.H. Lee professor de Assuntos Mundiais, professor


internacional de Economia Aplicada e professor de Economia na
Universidade de Cornell

- Helga Nowotny, professora emérita de Estudos de Ciência e Tecnologia,


ETH Zurique e ex-presidente do Conselho Europeu de Investigação

- Elisa Reis, professora de Sociologia da Universidade Federal do Rio de

Janeiro

Os leitores são convidados a acompanhar o trabalho e assistir aos vídeos e

eventos públicos do IPSP. Toda a informação está disponível em www.ipsp.org e

nos canais YouTube, Facebook e Twitter.

19
Introdução
O futuro está nas nossas mãos

Hoje em dia, muitas pessoas perderam a esperança no futuro e acreditam que a

próxima geração ficará em pior situação. Não só veem as dificuldades a aumentar

na vida quotidiana, como já não acreditam nas ideologias que ofereceram


promessas para o futuro e inspiraram os movimentos sociais e políticos no século

XX. O comunismo perdeu a sua alma no gulag e agora nem sequer na China

mantém vivo o sonho de uma sociedade radicalmente diferente e muito melhor.

Por sua vez, as ideias libertárias ressurgiram sob o rótulo neoliberal e foram muito

influentes nas últimas décadas em muitos países, até que a Grande Recessão

abalou a fé de muitos observadores do mercado livre.

A morte das ideologias deve ser saudada: oferece uma janela de

oportunidade para abandonar os velhos dogmas e repensar o caminho a seguir.

Depois da devastadora disputa entre o comunismo e o capitalismo em roda livre,

o que podemos inventar? Essa janela de oportunidade é também, ao que parece,

a última oportunidade de ajustar o nosso pensamento e ação antes que surjam

catástrofes sob a forma de uma rutura dos sistemas sociais e ecológicos.

Este livro é animado por um sentido de urgência e gravidade. Investigadores,

cidadãos, todos temos a responsabilidade da mudança, de estar à altura dos

desafios do nosso tempo e de encontrar soluções antes que os problemas


3
acumulados se transformem em crises vitais.

Este capítulo introdutório resume as principais mensagens e a narrativa

principal do livro. Esclarece a nossa conceção de progresso social e expõe alguns

dos erros comuns da sabedoria convencional dos nossos tempos que devem ser

dissipados para abrir caminho para um melhor pensamento. O leitor apressado

obterá as principais conclusões ao lê-las.

21
O que é o progresso social?

Este livro é escrito por investigadores, mas vai além do apresentar de factos e de

ciência. Toma posição no debate sobre a direção que as políticas e os responsáveis

pelas mudanças devem tomar, porque, sob alguns pressupostos básicos sobre

o que seria uma boa sociedade, existem alguns pontos positivos e negativos e

algumas ideias promissoras para explorar e experimentar.

A ideia central de uma boa sociedade parte do princípio de que todo o

ser humano tem direito à plena dignidade, independentemente do género, raça,

religião, educação, talento ou capacidades produtivas. Este ideal de dignidade

inclui a possibilidade de participar na vida social em pé de igualdade com os outros

e de estar no controlo das dimensões importantes da sua própria vida. Embora

dignidade igual seja por vezes vista como uma noção mínima, seguimos a Agenda

2030 das Nações Unidas e os seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

(ODS) e entendemos dignidade como uma palavra poderosa com implicações

práticas substanciais. Na verdade, sempre que surgem desigualdades estruturais

nas relações sociais, a dignidade é ameaçada. Se o leitor observar a sociedade

ao seu redor e perguntar a si mesmo “têm mesmo todos dignidade igual?”, verá

repetidos casos de dignidade desigual, decorrentes de desigualdades grosseiras

ou subtis de estatuto social, recursos e poder.


Uma vez que o esforço para construir uma sociedade melhor deve ser

amplo e inclusivo, este livro não se compromete com uma teoria precisa de justiça

social e mantém valores e princípios que podem ser acomodados na maioria das

culturas do nosso mundo. É preciso admitir, no entanto, que o ideal de igual

dignidade choca com certas conceções que dão aos géneros, grupos étnicos ou

pessoas com diferentes orientações sexuais um nível diferente de inclusão e

dignidade. Se o leitor acredita que o papel das mulheres é servir os seus maridos e

criar os filhos, ou que há uma hierarquia natural de raças, ou que os homossexuais

são inferiores ou repugnantes, esta obra vai colidir com tais opiniões. Se o leitor

acredita em dignidade igual, mas que, entretanto, toda a comunidade deve manter

a sua pureza e evitar migrações e miscigenações, este livro também vai contra

essa visão. Aqui, pois, coloca-se a dignidade e o florescimento da pessoa acima

22
da preservação de grupos ou nações, enquanto, simultaneamente, se procuram

evitar formas estreitas de individualismo.

Os principais valores e princípios subjacentes a este livro incluem bem-estar

e liberdade, segurança e solidariedade, bem como pluralismo e tolerância, justiça


4
distributiva e equidade, preservação ambiental, transparência e democracia.

Qualquer projeto que esmague com severidade um desses valores e princípios é

considerado, aqui, inaceitável.

Ideias falsas e erros comuns

Não se espera que cada leitor esteja plenamente convencido pelos argumentos

deste livro, mas espera-se que se liberte de alguns elementos da sabedoria

convencional que aprisionam as mentes e se tornaram sérios obstáculos no

caminho para uma sociedade melhor.

A primeira ideia falsa que deve ser confrontada foi a popularizada por

Margaret Thatcher, que promoveu vigorosamente uma agenda de livre mercado:

“Não há alternativa” – a tese TINA (there is no alternative). Também foi divulgada

através da tese de Fukuyama (1992) no Fim da História, segundo a qual a

democracia liberal e o sistema capitalista foram o toque final para as conquistas

humanas. É irónico que essa ideia tenha sido impulsionada por Thatcher, uma
personalidade que liderou passos importantes em matéria de política estratégica

com consequências transformacionais de longo prazo. Na verdade, há muitas

possibilidades à nossa frente para o futuro, mesmo sem inovar ou experimentar

novas ideias. Há muitas variantes do capitalismo já existentes, e algumas são

muito melhores do que outras na promoção do desenvolvimento humano.

A tese TINA é enganosamente atraente, porque baseia-se no fracasso

flagrante das alternativas socialistas que foram experimentadas na ex-URSS, na

China e na ex-Jugoslávia. Na verdade, contém alguma verdade: não há alternativa

que não inclua um papel central para o mercado como mecanismo económico

– com salvaguardas adequadas. O grande erro, no entanto, é acreditar que

manter um papel para as transações de mercado significa adotar um capitalismo


4 Uma discussão detalhada dos valores e princípios do progresso social é apresentada na IPSP (2018, capítulo 2).

23
desenfreado. Na verdade, como muitos pensadores discutiram ao longo de

gerações, o mercado é compatível com a ideia de que as pessoas devem dominar

as coisas ao invés do contrário. O trabalho pode contratar capital, em vez de ser

apenas contratado pelo capital e servi-lo. Neste sentido, este livro argumenta que

uma economia de mercado não precisa de ser parte de uma sociedade capitalista.

Portanto, muitas mais alternativas do que as variantes atuais do capitalismo se

tornam possíveis. Na verdade, já são experimentadas aqui e ali e podem ser

ampliadas. Em resumo, duas ideias falsas, e não apenas uma, foram identificadas

aqui: 1) que não há alternativa ao sistema atual – de facto, não há mesmo um

sistema atual, mas muitas variantes à volta do mundo; 2) que a economia de

mercado e o capitalismo são a mesma coisa e que endossar a primeira implica

aceitar o segundo – de facto, o mercado é necessário, mas o capitalismo pode ser

transcendido.

Uma ideia falsa e perniciosa, que é especialmente difundida pelos

comentários nos meios de comunicação social, é a de que as causas sociais

tradicionais foram substituídas por contestações mais complexas e esquivas

do statu quo, relacionadas com problemas culturais e identitários ou com crises

ambientais e que não geram já conflitos sociais e políticos massivos. Este erro

deve-se à confusão entre o declínio de determinados movimentos e o aparente

desaparecimento dos problemas sociais subjacentes e é influenciado pela ideia de

que, se não houver alternativa, todos os movimentos que procuram alternativas


se tornaram irrelevantes e podem simplesmente ser ignorados. Que fique claro,

de uma vez por todas: a tarefa de libertar mulheres, trabalhadores e vários grupos

étnicos do seu estado secular de subordinação não está terminada. A tarefa de

levar as pessoas com deficiência à plena inclusão também está inacabada. O

mesmo acontece com a integração de imigrantes provenientes de contextos

culturais diferentes. Estas causas tradicionais continuam a ser essenciais e tão

urgentes como sempre. É verdade que a situação das pessoas LGBTQI aumentou

recentemente na nossa consciência coletiva e merece ser acrescentada a essa

lista, e é definitivamente verdade que a devastação dos ecossistemas e de outras

espécies atingiu uma escala que exige uma ação urgente. A recente ascensão do

movimento #MeToo contra o assédio sexual de mulheres levou a um momento

24
crítico de epifania em muitas culturas e continentes. Mas, em suma, a complacência

dos especialistas sobre o sofrimento social tradicional é inconcebível.

Narrativa

Em resumo, aqui está a história que este livro conta. O advento do Antropoceno,

ou seja, de uma nova época geológica onde o principal motor de mudança

para o planeta é a atividade humana, coloca a humanidade no comando do

planeta e consciencializa coletivamente de que, se continuarmos assim, iremos


5
cair no precipício, porque várias tensões-chave irão explodir em cataclismos.

Desigualdades e falta de coesão social estão a tornar-se insuportáveis entre

continentes e países, a gerar conflitos, migrações, agitação social e instabilidade

política; a degradação ambiental está a atingir a escala planetária, e a criar um

clima mutável e mais volátil e o sério risco de uma nova extinção em massa.

A ideia ocidental de que as instituições capitalistas democráticas liberais

atingiram a sua forma final e representam o objetivo final (o “fim da história”) para

todas as nações do mundo deve ser firmemente rejeitada, pois as conquistas em

políticas sociais e instituições democráticas podem mesmo ser varridas num só

golpe eleitoral e substituídas por políticas autoritárias e social e ambientalmente

destrutivas.
A história continua, e precisamos de explorar novas instituições para

garantir a sustentabilidade social e ambiental. Há ideias e inovações interessantes

em todos os continentes que podem levar a novas formas de participação popular,

a uma maior harmonia com a natureza e a uma gestão mais eficaz dos conflitos.

Em todo o mundo, uma grande diversidade de desenvolvimentos económicos,

políticos e sociais mostra o poder da imaginação e uma gama impressionante de

ideias que prometem uma sociedade melhor.

O desafio para o nosso tempo é encontrar formas de alcançar

simultaneamente a equidade (a não deixar ninguém para trás, tanto intra como

5 A do Antropoceno é ainda uma ideia a ser debatida, e alguns fazem-na remontar aos primórdios da era agrícola, há
mais de 10.000 anos, ou outros a épocas mais recentes, quando da primeira explosão nuclear durante a Segunda Guerra
Mundial, mas o termo capta muito bem a ideia de que a humanidade tem agora uma enorme responsabilidade e centra-
lidade.

25
internacionalmente, criando uma sociedade inclusiva), a liberdade (económica

e política, incluindo o Estado de direito, direitos humanos e amplos direitos

democráticos) e a sustentabilidade ambiental (preservando o ecossistema não só

para as futuras gerações de seres humanos mas também para seu próprio bem,

se quisermos respeitar todas as formas de vida).

A liberdade é entendida aqui de uma forma abrangente que inclui não

apenas os direitos humanos e a integridade individual, mas também o direito de

cada um de participar nas decisões coletivas de forma democrática, gozar dos

direitos de liberdade de expressão e associação e receber treino e conhecimento

adequados para a sua plena participação. A liberdade e a democracia são,

portanto, inseparáveis e não devem ser combatidas. A democracia só pode

suprimir a liberdade quando as instituições democráticas são mal concebidas e

mal aplicadas.

A globalização e a inovação tecnológica são motores fundamentais das

transformações socioeconómicas. Os especialistas, nem sempre os decisores

infelizmente, conhecem as virtudes e os perigos dos primeiros, mas há muita

incerteza sobre como os últimos afetarão a qualidade de vida e as desigualdades

sociais. Um ponto importante é que a globalização e a inovação tecnológica não são

processos naturais que as sociedades devem suportar ou parar. Pelo contrário, as

formas particulares em que se desenvolvem podem ser moldadas pelas políticas,

e é importante orientá-las no sentido da inclusão social. Portanto, não só devemos


ter a certeza de apoiar aqueles que perdem com a economia globalizada e as

perturbações tecnológicas e facilitar a sua adaptação e transição para as novas

oportunidades oferecidas por tais desenvolvimentos, mas podemos, igualmente,

trabalhar para que as próprias mudanças ocorram de uma forma que possa gerar

menos perdas e mais ganhos para todos.

Outro fator importante é a mudança cultural que amplia o círculo de

respeito e dignidade, ou seja, o conjunto de pessoas, estilos de vida e seres vivos

que são tratados com o devido respeito e dignidade (igual dignidade no caso de

todos os seres humanos, incluindo a plena participação em todos os órgãos de

decisão relevantes; para os seres vivos não humanos, entretanto, o respeito e a

dignidade são mais difíceis de colocar sob o ideal de igualdade, mas permanecem

26
valores relevantes). Essa parece ser uma tendência universal e irreversível, apesar

de muitos retrocessos e resistências. Ela inclui uma expansão no endosso dos

valores democráticos, e é um elemento muito promissor da melhor sociedade

que deve ser imaginada agora.

Como imaginar um conjunto melhor de instituições e políticas? Seria

dramaticamente insuficiente vislumbrar o progresso social em termos de

apropriação do poder político central para a implementação de políticas sociais e

económicas de cima para baixo. Em vez disso, é preciso abordar as desigualdades

de recursos, mas também, e principalmente, de poder e estatuto social, que

permeiam todas as instituições, organizações e grupos, da família à empresa

transnacional, da comunidade local ao conjunto regional de governos, da ONG

local ao partido político. A reforma de todas estas instituições e organizações na

economia, na política e na vida social não acontecerá simplesmente fazendo com

que partidos mais “progressistas” cheguem ao governo, mas envolverá iniciativas

de base e mudanças na governança de muitas organizações, em particular, e

crucialmente, dentro das principais instituições económicas em todos os níveis,

desde as pequenas empresas até às organizações internacionais.

O conjunto de ferramentas que nos pode ajudar a conceber uma sociedade

melhor inclui as duas principais instituições económicas que estruturam

a produção e as finanças: o mercado e a empresa. Elas geram muitos dos

problemas atuais (em particular através de externalidades e desigualdades), mas,


bem administradas, elas são essenciais para qualquer sociedade bem-sucedida e

concebível porque o mercado é uma pedra angular da liberdade e a empresa é

uma instituição colaborativa fundamental para preencher as lacunas do mercado.


6
O mercado deve ser administrado de forma que freie os seus muitos fracassos,

e a empresa deve ser transformada numa verdadeira associação de produtores,

reunindo diferentes ativos (capital e trabalho) que compartilhe poder, recursos e

status de forma muito mais horizontal do que é comum na economia “capitalista”

(incluindo na sua governança, outras partes interessadas, como comunidades

locais e fornecedores).

6 As externalidades são efeitos colaterais das atividades económicas (como a poluição) para as quais as transações de
mercado não proporcionam compensações adequadas, porque aqueles que sofrem os efeitos não podem negociar com
os emissores.

27
Infelizmente, mesmo nas sociedades supostamente mais avançadas, o

trabalhador ainda não adquiriu um estatuto pleno e plenos direitos democráticos

no “círculo de respeito e dignidade”, e a forma tradicional da empresa privada

é completamente anacrónica na era do respeito e da democracia. Muitos

empresários e líderes empresariais compreendem-no e o movimento de “libertação


7
empresarial” já está a caminho. Reformar o propósito da empresa para alargar

a sua função social além do enriquecimento dos acionistas tem de acontecer em

conjunto com a reforma da sua governação. As empresas produtivas de vários

tipos (empresas, cooperativas, empresas sociais, mutualidades, plataformas

de partilha, etc.) podem conjuntamente evoluir e ocupar diferentes nichos da

economia e do mercado de trabalho sob a exigência de que todos eles respeitem a

plena dignidade, incluindo os direitos democráticos dos seus membros, e definam

a sua missão social em conformidade.

Essa compreensão dos mecanismos sociais e da necessidade de contar

com o mercado e a empresa permite revisitar o papel do Estado e imaginar

uma nova forma de Estado de providência social mais adaptada à economia

globalizada do século XXI. O Estado-providência social-democrata é uma opção

séria para reconsiderar. É uma fórmula comprovada que demonstrou a sua

capacidade para trabalhar em economias abertas e promover uma gestão

eficiente dos recursos, a preservar simultaneamente um elevado grau de

solidariedade social. De facto, utiliza a disciplina do mercado aberto para manter


a produtividade e a rendibilidade num alto nível, promove a produção eficiente,

investe fortemente no capital humano através de um amplo acesso à escolaridade

e serviços de saúde, e incentiva a difusão da tecnologia moderna, comprimindo

as desigualdades salariais entre profissões e entre indústrias, forçando todas

as empresas a serem suficientemente produtivas para pagar bons salários. Ao

mesmo tempo, os cidadãos beneficiam do empoderamento proporcionado pela

educação, pela proteção social, pela alta cobertura sindical e por um conjunto

eficiente de instituições centrais de serviços sociais e negociação coletiva. Ao

proteger as pessoas e não os empregos, essa fórmula combina a flexibilidade do

7 Muitos exemplos de empresas que transformaram a sua governança para dar mais liberdade aos seus empregados são
apresentados em Carney e Getz (2016).

28
mercado com a segurança económica de que as famílias necessitam. O sistema

de previdência social recebe mesmo forte apoio do eleitorado devido à sua ampla

cobertura e pelos seus serviços universais.

No entanto, o Estado - de previdência social-democrata sofre de limitações

que podem ter reduzido a sua capacidade de ser a principal fórmula para o século

XXI. Em primeiro lugar, requer uma forma de negociação fortemente centralizada

que não se ajusta bem às tradições descentralizadas de muitos países. Em

segundo lugar, envolve um forte sentido de responsabilidade e solidariedade em

nome das partes negociadoras, um etos de cooperação ao nível da sociedade que

também pode ser difícil de exportar para países com populações mais diversas.

A negociação e a cooperação centralizadas podem também ser estranhas às

empresas transnacionais estrangeiras que investem no país. Em terceiro lugar,

empodera os cidadãos individuais apenas de forma limitada, porque os protege

e, portanto, oferece-lhes melhores posições de negociação, mas, a nível local,

eles não têm necessariamente muita voz. Em termos sistémicos, a receita social-

democrata é um “grande acordo negocial” entre capital e trabalho, mas não

aborda realmente o desequilíbrio estrutural na economia capitalista.

Uma forma mais profunda de progresso social envolve uma forma mais

direta de empoderamento ou, mais precisamente, de emancipação, que inclui o

direito de cada indivíduo de controlar a sua própria vida e de participar, com o

devido conhecimento e informação, nas decisões que afetam a sua vida em todos
os grupos, associações, comunidades e organizações das quais é membro. Este

ideal de emancipação requer um Estado social que não só acompanhe a formação

do capital humano e a determinação dos salários, mas também procure impor um

equilíbrio de poder mais equitativo em todas as organizações a todos os níveis.

Este novo tipo de Estado social relaciona-se, portanto, menos com

transferência de recursos e mais com a concessão de direito ao poder, estatuto

social e conhecimento em todas as instituições em que as pessoas estão envolvidas.

Isso inclui o estatuto e os direitos de membro pleno nas famílias e associações

da sociedade civil, de associado pleno à empresa produtora, de cidadão pleno

em processos participativos nos âmbitos local, regional e nacional e na política

supranacional. Curiosamente, essa abordagem já é promovida nos países em

29
desenvolvimento por muitos atores, o que mostra que não é adequada apenas

num estágio muito avançado de desenvolvimento, mas pode realmente ajudar

a acelerar o desenvolvimento, especialmente quando as instituições não estão

maduras para o complexo mecanismo de compromisso subjacente ao acordo


8
social-democrata. Ao reorganizar os processos de decisão para empoderar os

atores locais, essa abordagem também pode ser capaz de ignorar a dificuldade da

social-democracia para fazer envolver as empresas transnacionais na negociação

coletiva.

Uma economia das partes interessadas, ou stakeholders, assim como prevista

por esta abordagem, contribuiria para impulsionar a inovação tecnológica numa

direção mais inclusiva, em particular na escolha de tecnologias mais favoráveis ao

trabalho. Se os principais atores da economia internalizassem melhor o impacto

humano do seu comportamento por meio da sua própria governança inclusiva,

a globalização e a inovação teriam naturalmente um rosto mais humano. As

organizações democráticas também teriam, naturalmente, menores lacunas

entre os salários mais baixos e mais altos na sua folha de pagamento, reduzindo

assim a necessidade de redistribuição pelo Estado. Quanto mais “pré-distribuição”

se tem, menos redistribuição se necessita.

Isto não significa que o novo Estado social – que não é realmente um

Estado “social”, mas sim um Estado “emancipador” – não precise de proporcionar

segurança económica sob a forma de uma rede de segurança. A economia


de mercado gera demasiado risco para os ganhos individuais. É uma forma

de libertação e uma proteção na negociação com os associados e parceiros

comerciais para ser garantida a subsistência e os serviços básicos, não importa

o que aconteça, como mostra a fórmula social-democrata. Entretanto, em

vez de distorcer a economia ao impor uma carga fiscal principalmente sobre

o trabalho, o Estado pode aumentar a eficiência da economia e obter receita


9
tributando ou regulando externalidades e rendimentos. É pouco provável que

isso seja suficiente, mas pode reduzir substancialmente o papel dos impostos

distorcionários. Isso contribuiria novamente para orientar a inovação tecnológica

8 Ver a apresentação da filosofia de ação da Associação de Mulheres Autónomas (Índia) no capítulo 5.

9 Como os preços do mercado não incentivam decisões privadas espontaneamente, são necessários preços artificiais,
tanto na forma de impostos como de mercado ad hoc de licenças.

30
numa direção socialmente mais útil, porque os preços das mercadorias (incluindo

impostos) refletiriam melhor os impactos sociais das decisões sobre processos e

produtos. A tributação dos rendimentos poderia contribuir para essa abordagem

de aumento da eficiência. Os rendimentos são receitas que não recompensam

a contribuição produtiva, mas apenas a detenção de recursos escassos ou de

posições exclusivas num mercado. A redução do valor líquido da detenção

de tais ativos através da tributação contribuiria para reduzir o desperdício de

“atividades rentistas”, em que os agentes económicos se esforçam por garantir

essas participações.

Essa nova economia de mercado democrática é compatível com fronteiras

abertas ao comércio e ao investimento de capital, mas pode parecer altamente

vulnerável ao parasitismo de outros países que oferecem negócios mais

vantajosos a investidores, gestores e trabalhadores altamente qualificados. No

entanto, a única restrição real, no que diz respeito à fuga de capitais, é garantir

o mesmo nível de rendibilidade que em qualquer outro lugar, e essa restrição

pode ser tratada da mesma forma que um imposto por qualquer empresa

produtiva que solicite investimento de capital ou qualquer empréstimo bancário

nos mercados internacionais. Mesmo os executivos de empresas acostumados

a poder e vantagens extravagantes podem acostumar-se facilmente aos novos

desafios e às alegrias mais profundas da gestão democrática, tal como os políticos

nas democracias não estão em escassez, apesar dos seus privilégios serem
consideravelmente diminuídos em comparação com os dos tiranos. A expansão da

cultura democrática já está a tornar desconfortável em muitos lugares a situação

dos CEO antiquados. Da mesma forma, trabalhadores altamente qualificados

podem ser tentados por salários mais altos no exterior, mas há vantagens reais

para um ambiente de trabalho amigável e uma sociedade socialmente coesa, e

isso vai convencer muitos a ficar.

Esse Estado emancipador é compatível com instituições descentralizadas,

ao contrário do tipo social-democrata, e não impõe supervisão política sobre a

economia. É também o oposto da abordagem autoritária socialista. Em vez disso,

infunde a política através de todas as instituições e associações, a torna cada

cidadão mais envolvido nas decisões em todos os níveis. O mesmo movimento

31
emancipador teria de transformar a “política” tradicional. Essa política continuará

a ser uma importante esfera da sociedade que precisa de algumas reformas

fundamentais, na atual situação de deterioração das chamadas democracias

avançadas. Essa deterioração está ligada à crise social e à crescente desconfiança

da população.

Os populistas acusam a democracia representativa de não dar voz

suficiente àqueles que se sentem deixados para trás. O remédio é procurado

numa democracia mais direta, sem ver o perigo. A democracia direta tende a

enfraquecer em vez de fortalecer a democracia, pois corre o risco de marginalizar

ou silenciar as opiniões minoritárias e, portanto, pode abrir a porta para regimes

autoritários. Outra tendência preocupante vem com a omnipresença dos media,

incluindo as redes sociais. A política tornou-se um palco público, dirigido por

manchetes que chamam a atenção e mensagens de Twitter.

Podem ser identificados elementos-chave das reformas que visam

democratizar as democracias. Estão relacionados com financiamento político,

media, regras de votação, formação de partidos e distribuição de poder dentro e

entre as instituições do Estado. Tais reformas, em particular, travariam a tendência

atual de polarização da política e investiriam fortemente no aumento da qualidade

da deliberação em vez de incidir sobre a política. Também é importante reconhecer

que a qualidade da política democrática e o grau de coesão social são fortemente

interdependentes. Trabalhar em prol de uma sociedade mais inclusiva faz avançar


muito a causa de uma democracia que funcione melhor. As instituições políticas

são altamente vulneráveis à corrupção induzida pela desagregação social e a

melhor salvaguarda dos princípios democráticos é uma sociedade coesa e aberta,

com desigualdades limitadas.

A visão defendida aqui implica que a oposição entre as ideologias pró-

mercado e pró-governo é equívoca. É preciso tanto um mercado vibrante, quanto

salvaguardas fortes, garantidas pelo governo e pela sociedade civil, para limitar o

efeito das falhas do mercado e empoderar as pessoas – tal como é preciso uma

democracia política vibrante e proteções contra as falhas da política democrática

e da ação governamental. Mais importante ainda, a imaginada oposição

entre o mercado e o governo esconde o papel central da empresa, que não é

32
um conjunto de mercados nem uma instituição pública, mas desempenha um

papel fundamental no tecido da sociedade, juntamente com outras instituições

da sociedade civil. A empresa privada tradicional tem sido historicamente um

importante fator de progresso económico e social, mas também tem sido a fonte

de muitas dificuldades sociais e de externalidades negativas excessivas. Pode

transformar-se num fator muito mais positivo de progresso social.

Como pode tal visão de uma sociedade melhor tornar-se realidade?

Muito pode ser feito através de iniciativas locais. Por exemplo, muitas cidades

desenvolveram mecanismos participativos, muitas empresas têm estruturas

de gestão horizontais e mesmo democráticas, e o mesmo pode ser dito sobre

a mudança de normas de comportamento em famílias, ONG e comunidades

religiosas. O enorme potencial oferecido pela recolha responsável e cuidadosa

de dados e o seu processamento, que está a tornar-se rapidamente a fonte para

as empresas desenvolverem novos modelos de negócios e expandirem os seus

serviços, ainda não foi explorado para incluir cidadãos além de consumidores e

clientes.

O Estado precisa de mudar também se quiser tornar-se um Estado

emancipador, o que levanta questões difíceis numa economia globalizada,

em que as empresas transnacionais e os mercados financeiros exercem uma

forte pressão sobre a política nacional. É por isso que a força do movimento de

base será essencial para desencadear uma mudança real nas instituições, com
o Estado garantindo a todos os cidadãos os direitos que muitos já desfrutarão

informalmente graças à iniciativa local, de baixo para cima. A mudança cultural

invocada anteriormente é um motor fundamental deste movimento e precisa

de ser encorajada. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da

Organização das Nações Unidas (ONU) são muito cuidadosamente estruturados

em torno da noção de uma “vida digna”, mas permanecem bastante vagos no

que diz respeito à reforma institucional. Este livro é uma tentativa de fazer desse

conjunto visionário de metas uma verdadeira força transformadora.

33
Pontos para trazermos connosco

Seguindo a narrativa deste livro, conforme resumido na secção anterior, as

mensagens-chave podem ser formuladas da seguinte forma.

1. Na melhor das possibilidades, estamos diante de um abismo: os últimos

séculos tiraram da pobreza uma parcela considerável da humanidade, o que é

notável, mas para as próximas décadas o cenário é catastrófico. Desigualdades

e degradação ambiental geram danos físicos, institucionais e morais crescentes

e consequências e conflitos políticos cada vez mais destrutivos. O Antropoceno

é uma época em que se pode desencadear uma reação em cadeia negativa, que

leva à destruição de muitas das nossas conquistas coletivas e possivelmente à

extinção da nossa espécie. O tempo está a esgotar-se e é necessário empreender

ações coletivas significativas muito em breve. Além disso, temos enormes

oportunidades para melhorar as instituições e fazê-las funcionar em benefício da

população. Estas oportunidades vêm tanto de um melhor conhecimento do que

funciona, quanto de melhores tecnologias, tornando a coordenação e a partilha

de informações muito mais fáceis e suaves do que no passado.

2. Devemos aproveitar a globalização e a tecnologia para o benefício de

todos: a globalização e a mudança tecnológica são motores importantes das

mudanças atuais. Em particular, elas causam disrupção nas nossa vidas, oferecendo
grandes oportunidades para alguns e minando a subsistência de outros. Além

disso, a economia está fora de controlo porque, desde a década de 1980, as

instituições reguladoras têm estado sob a influência de um enorme impulso pró-

mercado (mais atores privados, menos regulação, escassa supervisão) e não

estão à altura da escala da ação económica. Agora, muitos cidadãos são tentados

pelos cantos autoritários ou pela promessa demagógica de fazer retroceder o

relógio, erguendo barreiras e estimulando conflitos interculturais. A inovação

tecnológica também oferece a perspetiva assustadora da tecnologia invasiva e

da vigilância omnipresente, bem como esforços duvidosos para mercantilizar

ou transformar os seres humanos. A mensagem-chave aqui é que a direção e as

formas da globalização e da mudança tecnológica são moldadas por instituições

e políticas, bem como por conjuntos de atores, e podem ser reorientadas para

34
as necessidades humanas, servindo assim o progresso social em vez de o minar.

3. Devemos colocar as pessoas de volta no lugar do condutor: os modelos

tradicionais de economia de mercado e Estado social não estão a funcionar bem

porque os mercados têm muitas falhas que são deixadas por tratar, e as políticas

governamentais procuram proteger os cidadãos sem realmente fortalecê-los,

mantendo muitas pessoas numa situação de grande dependência em relação ao

mercado de trabalho, aos seus empregadores e aos serviços sociais. A dignidade

é proclamada na maioria dos países como um direito igual dos cidadãos, mas

muitas pessoas ainda experimentam graves desigualdades raciais, de género,

religiosas e socioeconómicas e vivem condições de humilhação e medo. Vale

a pena desenvolver uma nova forma de economia de mercado democrática,

que combine proteção e serviços básicos universais, governança das partes

interessadas em todas as organizações económicas e especialmente empresas

(ajudando-as a internalizar melhor os seus impactos, mudando os seus propósitos),

e gestão abrangente de falhas de mercado (tributar externalidades e rendimentos

em alternativa ao trabalho pode gerar receita enquanto aumenta a eficiência). O

enorme potencial inerente às novas tecnologias, tais como inteligência artificial e

machine learning, modelos de simulação baseados em agentes e outras formas

de lidar com sistemas complexos ainda precisam de ser apropriadas para outros

fins que não o de aumentar o lucro de grandes empresas que estão perto de

adquirir o monopólio do seu uso. As instituições políticas, que agora estão sob
a pressão excessiva de interesses instalados, podem igualmente ser reformadas

para melhor colocar os cidadãos numa posição de deliberação política sólida. Isso

enquadra-se na tendência secular em curso de aumentar a autonomia individual

e responde à nossa maior compreensão dos problemas da ação coletiva.

4. É necessário um movimento popular: o papel do Estado-nação continua

a ser importante, mas já não podemos contar apenas com ele e com a política

nacional. A pressão popular é uma condição importante para a transformação,

porque os interesses entrincheirados são fortes. Além disso, o objetivo dessa

nova sociedade democrática é colocar todos no controlo da própria vida, essa

deve ser, assim, em grande parte, uma revolução feita por cada um, uma “do-it-

yourself revolution”. Todos podem mudar o seu comportamento, como membro

35
da família, como consumidor, como investidor, como trabalhador, como cidadão,

e promover estilos de vida e organizações mais atentas às externalidades e mais

respeitadoras da dignidade e autonomia de todos (está em curso uma grande

mudança cultural que vai nessa direção). Além disso, a conectividade possibilita

agora a circulação de conhecimento e a coordenação de pessoas, organizações e

comunidades em todo o mundo, multiplicando a eficácia das ações da sociedade

civil. A educação, os media abertos e as deliberações democráticas generalizadas

serão essenciais para permitir que os cidadãos desempenhem um papel central

na transformação das sociedades.

36
36 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Parte I
Muitas fontes de preocupação, razões de esperança

Capítulo 1
Sucessos globais e catástrofes iminentes
Em muitos aspetos, o período após 1945 foi uma era dourada para o mundo.

É claro que não houve nenhuma conflagração global a par da Segunda Guerra

Mundial. Verificou-se uma tendência a longo prazo de aumento do rendimento

médio, impulsionado por um aumento do comércio e da inovação tecnológica.

O aumento do rendimento tem sido acompanhado por um declínio da pobreza

em todo o mundo. A China registou a experiência mais espetacular da história

da humanidade em matéria de redução da pobreza. Os indicadores de

desenvolvimento humano global, como a escolaridade, a mortalidade infantil, a

mortalidade materna e a esperança de vida, melhoraram de forma impressionante

em comparação com as sete décadas anteriores. Houve uma expansão constante

da democracia, com a descolonização na primeira metade do período e a queda

do comunismo e de ditaduras na segunda. A posição das mulheres nas estruturas

de governança melhorou, embora lentamente, e os direitos civis avançaram em

muitas partes do mundo.

No entanto, o desempenho global bem-sucedido, em geral e em média,

esconde bolsas profundas de progresso lento e até mesmo de reversão. O número

absoluto de pobres em África aumentou, uma vez que o crescimento económico

não acompanhou o crescimento demográfico. A pior crise económica desde 1920

atingiu o mundo em 2008, um choque do qual a economia mundial está apenas


agora a recuperar. Embora a desigualdade entre os indivíduos no mundo como

um todo tenha diminuído devido ao rápido crescimento da China, a desigualdade

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 37


em países avançados como os EUA aumentou acentuadamente, especialmente

nos últimos trinta anos. Este aumento da desigualdade combina aumentos

acentuados entre os rendimentos mais altos, mas também declínios relativos

acentuados no meio e no fundo da distribuição de rendimento, já que muitas

indústrias e ocupações tradicionais estão sob pressão. Estas duas características –

o rápido crescimento de alguns países pobres e o rápido aumento da desigualdade

nos países ricos – estão ambas relacionadas com a marcha da globalização e da

tecnologia e com a forma como os atores e as instituições têm orientado esses

processos. O fosso relativo entre países ricos e pobres diminuiu, novamente por

causa do rápido crescimento de países como China, Índia, Vietname e outros, mas

o fosso absoluto é grande e continua a aumentar.

A degradação ambiental e o uso excessivo de água crescem e a mudança

climática está a aumentar a pressão sobre os ecossistemas a um ritmo dramático.

Embora a democracia formal tenha avançado e as guerras em grande escala

tenham recuado, os conflitos em menor escala, alguns deles ocasionados pela

escassez dos recursos, disseminam. O aumento do terrorismo na sequência

desses conflitos desestabilizou a mentalidade política normalmente tranquila de

muitos países.

A combinação de conflito, degradação ambiental e desigualdades entre as

nações geraram considerável pressão migratória: os refugiados que procuram

segurança e os migrantes económicos que procuram uma vida melhor. Essa


maior pressão, por sua vez, produziu uma reação negativa nos países recetores de

migrantes, especialmente onde os rendimentos médios e baixos são compressos

pelas forças do comércio e da tecnologia. Em democracias estabelecidas, os

processos políticos formais trouxeram à tona líderes e discursos impulsionados

pela xenofobia e com uma forte tendência autoritária. Os comentadores não têm

sido tímidos em fazer comparações com a turbulenta década de 1930, quando a

insegurança diante da rápida mudança levou ao aumento do fascismo em alguns

países. Mesmo nos Estados Unidos, o cenário de um governo protofascista,

racista e xenófobo, com forte simpatia por regimes autoritários em todo o mundo

e com uma diplomacia volátil que aumenta dramaticamente o risco de um conflito

nuclear, já não pertence mais à ficção científica.

38 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Há, portanto, um tumulto palpável e apreensão na população nas vésperas

da terceira década do século XXI, apesar de todas as conquistas dos últimos três

quartos de século. O receio é que o progresso a longo prazo da humanidade

possa descarrilar nas próximas décadas, à medida que as crescentes pressões

sobre a equidade, a sustentabilidade e a democracia se alimentam mutuamente,

e as tensões resultantes destroem o tecido económico, político e social. Os

sucessos dos últimos 75 anos não devem mascarar que estamos agora à beira de

um abismo. Se conseguirmos colmatar com êxito esse abismo, há boas hipóteses

de podermos continuar no caminho de longo prazo do progresso social. Mas é

importante olhar para o abismo para descobrir como o atravessar.

Sucessos globais

Antes de olharmos para o abismo, vamos primeiro olhar brevemente para os

progressos do passado. No último milénio, o PIB real global per capita aumentou

mais de quinze vezes. A figura 1.1 mostra o PIB mundial nos anos 1000, 1600 e

depois de quatro em quatro anos, de 1820 a 2008.

Figura 1.1
Mil anos de crescimento
económico global

Fonte: https://ourworldindata.org/
economic-growth
Nota: o ajustamento da paridade do
poder de compra (PPC) acompanha
o valor real das moedas nos
mercados nacionais.

A primeira descolagem veio com a revolução industrial no século XIX,

mas a verdadeira aceleração veio depois da Segunda Guerra Mundial. As três

décadas depois da guerra foram rotuladas como a era dourada do capitalismo,

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 39


mas para o mundo como um todo, as seis décadas até a crise de 2008 também

são uma era dourada. Foram necessários mil anos para que o PIB mundial per

capita se multiplicasse por 15, mas foram necessários apenas 60 anos para que se

multiplicasse por quase 4 entre 1950 e 2008.

Os valores em vários países representam o padrão global de sucesso. Em

1945, o PIB per capita do Reino Unido era mais de 15 vezes o seu valor no ano

1000, graças à Revolução Industrial a partir de 1800. Em apenas 60 anos, após

1945, o PIB per capita mais do que triplicou. Em 1978, no início do processo da

reforma, o PIB per capita da China era aproximadamente o dobro do seu nível no

ano 1000. Mas, 30 anos mais tarde, era seis vezes o valor de 1978. Na independência,

em 1947, o PIB per capita da Índia era 20% maior do que 1000 anos antes. Durante

os 60 anos seguintes à independência, o PIB per capita da Índia aumentou quase


10
cinco vezes.

Figura 1.2
Três décadas de redução
da pobreza

Fonte: Banco Mundial, Development


Research Group

O PIB per capita é, naturalmente, criticado porque se trata de uma média

que esconde a desigualdade e a pobreza. Infelizmente, os dados de distribuição

não recuam muito, mas a informação que temos também sugere um padrão de

sucesso a nível global ao longo das últimas três décadas. Para o mundo como

um todo, tem havido um declínio espetacular da pobreza. O rácio de pobreza

10 Ver IPSP (2018 capítulo 4) para uma análise retrospetiva do crescimento no mundo.

40 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


extrema (a percentagem da população abaixo de um nível de consumo de 1,90

US$ por dia) caiu de 42% em 1981 para 11% em 2013. Essa queda acentuada

foi impulsionada em grande parte pelo sucesso da China, onde a pobreza caiu

drasticamente desde o início do processo da reforma. Isso foi visto por alguns

como o desempenho mais espetacular de redução da pobreza na história da

humanidade, com muitas centenas de milhões de pessoas a saírem dessa faixa de

pobreza no espaço de três décadas. Padrões semelhantes podem ser observados

em muitos países asiáticos, como a Índia depois de 1991, Bangladesh nos anos

1990 e 2000 e Vietname nos anos 2000. Claro que essa redução da pobreza não é

uniforme (como será discutido a seguir), mas o declínio da pobreza a nível global

e em muitos grandes países tem de ser, sem dúvida, avaliado como um sucesso

global das últimas décadas.

Os dados das figuras 1.1 e 1.2 oferecem uma visão monetária do bem-

estar que, todavia, tem sido criticada como sendo demasiado limitada. Qual o

desempenho do mundo em relação a outros indicadores que captam diferentes

dimensões do desenvolvimento humano? A figura 1.3 apresenta dados globais

Figura 1.3
Meio século de
indicadores socaiais

Fonte: Banco Mundial

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 41


sobre quatro dimensões: conclusão do ensino primário, mortalidade infantil,

mortalidade materna e esperança de vida.

É evidente que houve uma melhoria drástica em todas estas dimensões

ao longo do último meio século. A esperança de vida aumentou de pouco mais

de 50 anos em 1960 para mais de 70 anos meio século depois. Esse aumento foi

sustentado por uma redução da mortalidade infantil de cerca de 120 por 1000

nascidos-vivos para cerca de 30 durante o mesmo período. As estimativas da

mortalidade materna situam-se atualmente em pouco mais de 200 por 100.000

nascidos-vivos. Este valor ainda é muito alto, mas baixou de quase 400 há um
11
quarto de século. Finalmente, a tendência da taxa de conclusão do ensino

primário também é impressionante a nível mundial. Aumentou de 74% em 1970

para 90% na segunda década dos anos 2000. Em todas estas dimensões do

desenvolvimento humano, portanto, o mundo pode relatar sucessos, tanto no

médio como no longo prazo.

Os indicadores apresentados na figura 1.3 não captam outros aspetos do

progresso social, em particular os relacionados com a democracia. A figura 1.4

apresenta algumas tendências e padrões nessa dimensão. O primeiro indicador é,

muito simplesmente, o número de países que são membros das Nações Unidas.

Este número passou de 51 em 1945 para o seu dobro 15 anos mais tarde, e três

vezes esse número 30 anos mais tarde. Isso refletiu as ondas de descolonização

nas décadas após a Segunda Guerra Mundial, o que representou uma luz brilhante
do progresso social global por meio da independência e da autodeterminação das

antigas colónias.

Mas a independência das antigas potências coloniais não significa

necessariamente democracia dentro dos países. Usando uma categorização

por política, a figura 1.4 mostra o número de democracias no mundo. Vê-se um

aumento constante, o que corresponde às ondas de descolonização, estando

também refletido na adesão à ONU. Além disso, surge uma onda posterior após

a queda do Muro de Berlim, em 1989, quando o número de democracias passou

de 49 para 56 e, depois, para 67. Os números continuaram a aumentar à medida

que a onda se espalhou por África na década de 1990. Claro que a democracia

11 Uma análise detalhada das tendências globais de saúde pública é feita no IPSP (2018, capítulo 18).

42 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Figura 1.4
Descolonização e democracia

Fonte:
http://www.un.org/en/sections/
member-states/growth-united-nations-
membership-1945-present/index.html
(membros das Nações Unidas);

http://www.systemicpeace.org/inscr/
p4v2015.xls
(número de democracias)

formal não significa necessariamente participação popular na governação, o que

depende de muitas coisas, incluindo o acesso à informação. Isso tem sido muito

acelerado nas últimas duas décadas pela difusão dos telemóveis e pelo crescente

contacto e coordenação social que se tornou possível. A Primavera Árabe foi

notoriamente vista como fenómeno apoiado pelo Facebook e pelo Twitter. As

estimativas sugerem que os números de indivíduos que utilizam as redes sociais

eram de mil milhões em 2010, mas mais do que duplicaram em cinco anos.

Tendências e padrões alarmantes

Assim, de forma geral e em média, muitos indicadores de progresso social

mostraram tendências positivas no período pós-guerra. Porque há, então,

inquietação e apreensão sobre o que está no horizonte para o mundo? Há outras

tendências e padrões que são muito mais preocupantes e motivam o trabalho do

Painel Internacional sobre o Progresso Social.

Comecemos pelo crescimento dos rendimentos per capita, que tem

mostrado tendências tão dramáticas e positivas na média global. Isso esconde

o fraco desempenho em alguns países, ao contrário dos desempenhos

espetaculares de exemplos como a China, a Índia e o Vietname. Uma série de

países, particularmente em África, estão mergulhados em conflitos e, claramente

por isso, não têm nem evidências de crescimento nem dados relativos disponíveis,

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 43


uma vez que os serviços estatísticos estão entre as primeiras vítimas da fragilidade

do Estado.

A figura 1.5 destaca um padrão oculto, que arrisca não ser considerado

Figura 1.5
Pobreza na África Subsariana

Fonte:
Banco Mundial, Development Research
Group.

quando se olha para as médias globais. Já salientámos a redução da fração de

pessoas abaixo do limiar de pobreza no mundo como um todo. A figura 1.5 mostra

a evolução da pobreza na África Subsariana. Nota-se um declínio nos últimos 20

anos, mais uma vez uma história de sucesso. Entretanto, veja-se o número total

de pessoas em situação de pobreza. Embora a parcela da população africana em


pobreza tenha diminuído, o número total de pobres em África aumentou em mais

de 100 milhões no último quarto de século devido ao crescimento populacional.

O índice decrescente da pobreza pode ser reconfortante, mas o aumento dos

números absolutos é preocupante e, além disso, constitui uma fonte de pressão

migratória e uma plataforma para a insatisfação interna.

Se a diminuição da pobreza fosse suficientemente rápida, contrariaria o

aumento da população e o número total de pessoas em situação de pobreza

diminuiria. Uma das razões pelas quais a parcela da pobreza pode não diminuir

suficientemente depressa, não só em África, mas também noutros lugares, é

o aumento da desigualdade. Quando a desigualdade aumenta, os frutos do

crescimento não são amplamente disseminados e o poder do crescimento na

44 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


redução da pobreza é enfraquecido, por vezes severamente. Existe então um

círculo vicioso em que a pobreza atrasa a transição demográfica para taxas de

natalidade mais baixas.

Os padrões de mudança da desigualdade em todo o mundo têm sido


12
bastante diversos nas últimas três décadas. A América Latina tem visto um

declínio na desigualdade devido a intervenções políticas intencionais, embora a

desigualdade ainda seja elevada segundo os padrões mundiais. A Ásia, por outro

lado, tem assistido a um aumento da desigualdade em muitos países, incluindo a

China e a Índia. Uma estimativa é que, se o crescimento asiático tivesse ocorrido

sem o aumento da desigualdade, mais 240 milhões de pessoas teriam sido

retiradas da pobreza (Banco Asiático de Desenvolvimento, 2012). É também claro

que a desigualdade aumentou em muitos países ricos, especialmente nos EUA,

onde, após um longo período de queda da desigualdade, após a Segunda Guerra

Mundial, a parcela detida pelos 10% com rendimentos mais elevados aumentou

de cerca de 35% para perto de 50% durante um quarto de século a partir da

década de 1980 (Piketty, 2014).

Os padrões de crescimento nacional e de mudança da desigualdade legaram

um marcante padrão de mudança na distribuição global, conforme apresentado

na figura 1.6. Essa figura mostra o crescimento do rendimento para cada posição

na distribuição global do rendimento nos 20 anos entre 1988 e 2008. A forma

da curva capta grande parte do discurso político atual. Os ganhadores têm sido
os super-ricos globais, do décimo de décimo-sétimo percentil na distribuição do

rendimento mundial. Os perdedores têm sido os que se encontram entre os 75%

a 95% da população mundial. No entanto, esses são precisamente as classes de

rendimento médio e médio baixo dos EUA, Reino Unido e outros países ricos.

A eleição de Trump pela classe trabalhadora branca do Midwest e a propulsão

do voto Brexit no Reino Unido dada por aqueles que se encontram no extremo

inferior da distribuição de rendimentos figuram entre as consequências políticas

concretas do famoso gráfico do elefante apresentado na figura 1.6.

A desconexão entre a parcela na pobreza e o número total de pessoas

12 Uma apresentação detalhada da desigualdade pode ser encontrada no capítulo 3 do IPSP (2018) e, em particular,
na sua versão online (https://www.ipsp.org/download/chapter-3-2nd-draft-long-version). Veja também um importante
relatório publicado por Alvaredo et al. (2018).

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 45


Figura 1.6
Curva de incidência de crescimento
global
1988-2008

Fonte: Banco Mundial, Development Research


Group.

em situação de pobreza mostrada na figura 1.5 deve-se, naturalmente, à elevada

taxa de crescimento demográfico em África. A taxa de crescimento da população

mundial está a diminuir, mas não a população mundial. Atualmente, ela é de 7,5

mil milhões, e projeta-se que cresça para 8 mil milhões na próxima década e para
13
9 mil milhões nas duas décadas seguintes. O crescimento da população a longo

prazo é uma medida do sucesso global – o planeta agora suporta milhares de

milhões de pessoas a mais do que costumava suportar – mas há o outro lado da

moeda. O crescimento populacional e as principais tendências demográficas são

as realidades que o mundo terá de enfrentar nos próximos anos. As pressões

migratórias, ambientais e de recursos naturais criadas pelo aumento da população

já se fazem sentir, especialmente em certas regiões do mundo. Dos 2 mil milhões

de aumento da população mundial previstos para os próximos 30 anos, África


14
será responsável por mais de metade.

O perfil etário da população tem vindo a mudar e irá mudar rapidamente. A

idade média da população mundial era de 22 anos em 1980 e será de 35 anos em


15
2045. A figura 1.7 mostra que a proporção da população com 65 ou mais anos

tem vindo a aumentar em todo o mundo, mas particularmente nos países ricos. O

rápido aumento da população idosa nesses países, em comparação com os mais

pobres, afetará a natureza das pressões migratórias que já se fazem sentir: uma

13 Ver https://www.census.gov/population/international/data/idb/worldgrgraph.php; https://www.census.gov/popula-


tion/international/data/idb/worldpopgraph.php.

14 Ver https://ourworldindata.org/future-world-population-growth/#un-population-projection-by-country-and- world-re-


gion-until-2100.

15 Ver https://ourworldindata.org/age-structure-and-mortality-by-age/.

46 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Figura 1.7
Seis décadas de
envelhecimento
no mundo

Fonte: Banco Mundial,

população mais jovem nos países pobres à procura de trabalho e uma população

mais idosa nos países ricos à procura de cuidados. Nos países ricos, também

haverá impacto no contrato social implícito à medida que aumenta o rácio de

dependência da população reformada em relação à população em idade ativa.

O aumento do rendimento mundial e a queda nas medidas de pobreza

baseadas no rendimento têm sido muito celebradas como uma conquista

económica e um sucesso global. Mas o verdadeiro conceito económico de

rendimento também exige que olhemos para o possível esgotamento de ativos

na geração desse rendimento, e que prestemos contas disso. Embora as contas

económicas nacionais façam uma tentativa de medir a depreciação do capital

físico, as medidas padrão do PIB não abordam o estado do capital natural. Quando

tais tentativas são feitas, parecem ser necessárias correções significativas. Isso

não é surpreendente, devido aos padrões mostrados na figura 1.8. O mundo

tem vindo a perder constantemente a cobertura florestal e o stresse hídrico tem

aumentado à medida que a água superficial e subterrânea tem sido extraída para

a agricultura e para a indústria. Outro ativo natural é a atmosfera, que está a

ser poluída a um ritmo alarmante. A figura 1.8 mostra um aumento de 10% na

poluição por partículas no último quarto de século. As potenciais consequências


para a saúde desse aumento da poluição representam uma enorme correção dos

sucessos globais apresentados no crescimento do rendimento.

É claro que o impacto da poluição atmosférica através das emissões de

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 47


Figura 1.8
Degradação ambiental

Fonte: WDI (Forest Area),


https://www.nature.com/articles/
srep38495/tables/1
(escassez de água);

https://www.stateofglobalair.org/data
(poluição do ar)

gases com efeito de estufa ultrapassa as implicações imediatas para a saúde.

Essas emissões tiveram um impacto significativo nos padrões climáticos e

continuarão a ter um impacto significativo nas tendências atuais, como mostra a

figura 1.9. As perspetivas de manter o aumento da temperatura global abaixo do

valor crítico de 2ºC nos próximos cem anos revelam-se sombrias num cenário de

manutenção do statu quo e, mesmo após o Acordo de Paris, não parecem ser

muito boas na trajetória previsível. Ultrapassar esse valor poderá desencadear

uma espiral global de perturbações ambientais que ameaçam muitas espécies e,

talvez, a própria sobrevivência humana.

Figura 1.9
Seis décadas de
envelhecimento no mundo
Emissões de gases com
efeito de estufa e mudança
de temperatura global ao
longo do século

Fonte: https://climateactiontracker.
org/. Copyright © 2016: Climate
Analytics, Ecofys and NewClimate
Institute.

48 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Muitas das tendências globais acima referidas estão a provocar graves

pressões migratórias. Os dados sobre a migração transfronteiras efetiva são

apresentados na figura 1.10. O número de pessoas com o estatuto de migrantes

internacionais, ou seja, a fração da população mundial que vive num país diferente

do seu país de origem, era ligeiramente superior a 3,3% em 2015 (cerca de 240

milhões). Esse número em 2000 passou a ser próximo aos 170 milhões, o que
significa que, nos primeiros 15 anos do novo milénio, o fluxo migratório foi de
16
cerca de 5 milhões por ano. À primeira vista, esses números são relativamente

baixos e desmentem as tensões em torno da migração internacional. No entanto:


(i) os migrantes estão concentrados em determinados países de destino
e constituem uma proporção muito maior dos principais países de
acolhimento – 15% nos EUA, 15% na Alemanha, 17% na Suécia, etc.

(ii) os migrantes concentram-se nas grandes cidades, e os dados mostram


que, em muitas dessas cidades, eles constituem entre 20% e 40% da
população.

(iii) esses números são oficiais sobre migrantes registados; a migração


ilegal não é contabilizada.

(iv) os números captam a migração bem-sucedida; não indicam a procura

de migração, que está a ser suprimida pelos controlos fronteiriços.

Figura 1.10
Migrantes
internacionais
(pessoas que vivem fora
do país de nascimento,
em percentagem da
população mundial)

Fonte: Centro de Análise de


Dados de Migração Globa

Uma previsão das várias tensões descritas nos parágrafos anteriores, da

crescente desigualdade, da degradação ambiental, das pressões migratórias,

16 Factsheet das Tendências da Migração Global (Global Migration Data Analysis Center, 2015).

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 49


poderia ser um aumento dos conflitos e da violência em todo o mundo. A figura

1.11 apresenta informações do Programa de Data Conflicts de Uppsala sobre o

número de conflitos armados. Estes números podem ser lidos de várias formas.

Pode-se ver neles uma tendência geral para o aumento dos conflitos desde a

Segunda Guerra Mundial. No entanto, olhando para trás a partir da perspetiva

de meados dos anos 2000, pode-se ver um declínio em relação ao pico dos anos
1980 e meados dos anos 1990. De facto, essa foi a perspetiva que foi apresentada

de diferentes maneiras por Pinker (2011) e Goldstein (2011). No entanto, como

referem Wallensteen, Wieviorka e outros (2018):

Esta figura também demonstra a dificuldade de fazer previsões: mais ou

menos ao mesmo tempo, um conjunto de novos conflitos armados estava a

formar-se e, nos anos seguintes, eles mudaram a perspetiva global: Os grupos

jihadistas islâmicos fizeram avanços militares notáveis, resultando em grandes

ganhos territoriais (IS no Iraque e na Síria, Boko Haram na Nigéria, outros

afiliados na Líbia, no Mali, no Iémen e al-Shabaab na Somália). Os contornos

de um movimento transnacional coordenado baseado na capacidade militar e

na atividade terrorista sugeriram um verdadeiro desafio para a ordem mundial

existente (Wallensteen et al., 2018: 413).

Figura 1.11
Conflitos por
intensidade
1946-2016

Fonte: IPSP (2018)

50 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


De facto, a figura 1.12 mostra o aumento acentuado do número de ataques

terroristas em todo o mundo desde o início dos anos 2000. Assim, o estado de

conflito no mundo é outra das principais preocupações a contrapor aos sucessos

globais no domínio económico.

Figura 1.12
Ataques terroristas
em todo o mundo
1970-2015

Fonte: https://www.start.umd.
edu/gtd/contact/.

Efeitos de feedback e monstros no horizonte

As secções anteriores identificaram algumas das tendências e padrões

preocupantes. Deve-se ter cuidado, em particular, com a falsa sensação de

progresso constante que as tendências passadas podem proporcionar. Por

exemplo, a figura 1.3 mostra um aumento constante da esperança de vida, mas

esconde que diminuiu na ex-URSS após a transição, em partes de África durante o

pico das pandemias de VIH, e agora nos EUA para alguns grupos sociais atingidos

por perturbações do mercado de trabalho. As maiores ameaças ao progresso

social hoje são ameaças à coesão social, sustentabilidade ambiental, paz e

democracia. Como vimos, o progresso em cada uma dessas frentes está agora

em dúvida.

São particularmente preocupantes, entretanto, os efeitos de feedback entre

essas dimensões, que podem piorar a espiral. Com esses efeitos de feedback, o

progresso social enfrenta um abismo iminente que poderia engolir os avanços

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 51


dos últimos três quartos de século desde a Segunda Guerra Mundial. Nesta secção

discutem-se alguns desses perigosos ciclos de feedback.

Em primeiro lugar, as perspetivas ambientais dependem das lacunas de

desenvolvimento e das reações que induzem. Embora em termos relativos e em

média os países mais pobres tenham vindo a aumentar os seus rendimentos mais

rapidamente do que os países ricos, a diferença em termos absolutos é ainda


muito elevada (figura 1.13). Em 2015, o rendimento per capita da Índia era de
17
1.600 US$, enquanto o dos EUA era de 56.000 US$. O fator de proporcionalidade

de 35 é suficientemente elevado, mas a diferença absoluta de mais de 54.000

dólares é igualmente reveladora. Mesmo que a Índia cresça a 10% num ano,

uma perspetiva heroica, o aumento em rendimentos será menor do que se os

EUA crescerem apenas 1%. A comparação em dólares PPP (dólar ajustado pela

paridade de poder de compra – PPP), com a Índia a 5.700 US$ e os EUA a 53.400

US$ é apenas ligeiramente menos acentuada.

Com essa desigualdade entre nações ricas e pobres, a procura por

crescimento de rendimento nas nações pobres continuará alta, e os acordos

climáticos globais serão reféns dessa desigualdade. Mas se a Índia tivesse o

rendimento per capita dos EUA sem nenhuma mudança na tecnologia de produção,

e se essa perspetiva fosse multiplicada em todos os países pobres, as emissões de

carbono aumentariam dramaticamente, prejudicando consideravelmente o meio

Figura 1.13
Lacunas absolutas e
relativas entre países

Fonte:
Maddison Project.

17 Ver http://data.worldbank.org/indicator/NY.GNP.PCAP.KD.

52 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


ambiente e ameaçando os pontos de inflexão da mudança climática.

O efeito de feedback na outra direção, das alterações climáticas à

desigualdade entre países, também é revelador. Os aumentos de temperatura

atingem as latitudes distantes do equador, onde está localizada a maioria dos

países ricos, ao mesmo tempo que prejudicam as perspetivas das culturas

tradicionais em climas mais quentes. O impacto da variabilidade das chuvas ou da


subida do nível do mar está talvez mais uniformemente distribuído pelas costas

e países ricos e pobres, mas o facto básico é que a capacidade de lidar com a

subida do nível do mar e as catástrofes naturais está também correlacionada com

a riqueza económica nacional.

Assim, mesmo que os ricos e os pobres sejam igualmente atingidos pelas

consequências das alterações climáticas, os pobres serão mais empobrecidos,

alimentando-se da espiral de desigualdade. A falta de sustentabilidade pode

alimentar-se ainda mais de si mesma, uma vez que os mecanismos de cooperação

local estabelecidos há muito tempo falham perante a pressão ambiental sobre a

água ou as florestas.

A degradação ambiental nos países pobres, consequência da pobreza e

da pressão demográfica, exacerbada pelas alterações climáticas, pode provocar

graves efeitos de retroação, intensificando a pressão migratória. A escassez

de água já está a conduzir à migração através de fronteiras contíguas, com o

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 53


aumento dos microconflitos. Estes estão a aumentar as pressões migratórias

e os fluxos de refugiados causados por outros conflitos, e tais pressões estão

a manifestar-se nas portas dos países ricos e, por sua vez, estão a conduzir ao

aumento da xenofobia e ao ressurgimento da extrema-direita política, ameaçando

as estruturas democráticas nos países ricos. De facto, o fenómeno está também

fortemente presente em países em desenvolvimento como a África do Sul e a


Malásia. Aqui temos, portanto, um efeito de feedback da insustentabilidade à

democracia ameaçada.

O aumento da desigualdade nos países ricos, com o esvaziamento das

oportunidades para a estabilizadora classe média, conforme discutido no próximo

capítulo, também está a contribuir para uma espiral onde a crescente desigualdade

de rendimentos e riqueza alimenta a política para favorecer os interesses dos

ricos através de incentivos fiscais para indivíduos e grandes empresas. A crescente

desigualdade económica e política pode assim alimentar-se de si mesma nas

estruturas institucionais atuais. As tendências de longo prazo sobre o crescimento

sem emprego, discutidas no próximo capítulo, estão a espalhar-se globalmente, e

a criar dificuldades, tanto para o trabalhador siderúrgico desempregado dos EUA,

quanto para os empregados das empresas estatais na China, e a criar dilemas

para as nações africanas que não podem montar o modelo da Ásia Oriental

de crescimento gerador de empregos. O que, combinado com as pressões

migratórias, está a levar a um ressurgimento do nacionalismo e do protecionismo

e a uma tendência de culpar “os outros” pelos problemas de cada grupo social,

estejam estes no país ou fora. A perda de confiança nas instituições da democracia

é uma consequência provável.

Essa ascensão do nacionalismo torna ainda mais difícil chegar a acordos

sobre emissões de carbono e mudanças climáticas, piorando assim as perspetivas

de sustentabilidade. Além disso, à medida que o contrato social dentro dos países

ricos vacila e os mecanismos de governança global enfraquecem, a capacidade

dos Estados-nação de resistir à concorrência na regulação e aplicação ambiental

também diminuirá. Essa corrida para o fundo do poço levar-nos-á a descer ainda

mais na espiral da degradação ambiental, ao passo que as indústrias poluentes se

relocalizam em países com políticas incapazes de resistir aos incentivos privados e

54 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


empresariais e dispostos a fechar os olhos à fiscalização. Estas tendências também

estarão presentes na agricultura, como já se manifesta na apropriação de terras

em curso em África para a agricultura e na disputa pelos recursos naturais. No

entanto, o agravamento das questões de sustentabilidade agrava ainda mais

esse processo, enquanto os mecanismos descritos acima recebem uma nova

reviravolta, e a espiral continua.


São esses efeitos de feedback que nos devem alertar para a probabilidade

de encontrar “monstros ao virar da esquina”, mesmo quando as tendências

observadas parecem ser benignas se consideradas isoladamente. A crescente

polarização dentro e entre países, os fracassos fiscais e o colapso de Estados, as

crises financeiras globais, as catástrofes ambientais, incluindo riscos biológicos,

a ascensão de ditaduras e de repúblicas das bananas, assim como o alcance

de pontos de inflexão climática, são um cenário cada vez mais possível, mesmo

que esse estado atual não pareça muito mau em cada dimensão estreitamente

escolhida no futuro próximo.

Em conclusão, os últimos três quartos de século assistiram a um grande

progresso social. Entretanto, há recuos e bolsas significativas de nenhum progresso

ou mesmo de regressão, e não podemos ter uma falsa sensação de segurança. A

trajetória ascendente do progresso social das últimas sete décadas está agora

ameaçada por uma série de tendências e padrões em rápida evolução. Estas

ameaças iminentes são como um abismo que se abre no caminho do progresso

social. As ameaças nas dimensões de igualdade, sustentabilidade ambiental, paz

e democracia são sérias por si só, mas, com efeitos de feedback umas sobre as

outras, constituem um desafio sistémico ao progresso social.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 55


56 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Capítulo 2
Globalização e tecnologia:
escolhas e contingências
O mundo enfrenta crises iminentes de igualdade, sustentabilidade ambiental, paz
e democracia. Forças e tendências, algumas fora do nosso controlo, outras ainda
produto de instituições que nós mesmos formamos estão a gerar défices em
todas as dimensões. Os ciclos de retroalimentação desses défices são tais que se
abre um potencial abismo no caminho do progresso social. Esse abismo explica os
sentimentos de insegurança e presságio sentidos no mundo de hoje, apesar das
muitas conquistas dos últimos 75 anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Entre as forças que impulsionam a evolução da economia, da política
e da sociedade, estão as da globalização e da mudança tecnológica. Não se
trata de um novo fenómeno. No entanto, a escala e o alcance deste fenómeno
atual parecem pelo menos tão perturbadores como os anteriores. Pode-se
argumentar que a humanidade chegou a um ponto sem retorno: a mudança
climática e a degradação ambiental colocam todo o planeta sob stresse contínuo,
e as consequências são previsíveis quando a migração massiva ligada ao meio
ambiente aumenta. Também se tornou óbvio que as respostas institucionais a
nível global são lentas e certamente inadequadas. Assim, enfrentamos a situação
paradoxal de que um mundo globalmente interconectado, que atingiu o mais alto
nível de desenvolvimento tecnológico da história, está atrasado na sua capacidade
institucional para lidar adequadamente com os desafios sem precedentes que
enfrenta.
O ponto principal deste capítulo é que a rutura e o aumento das desigualdades
não são as consequências inevitáveis dessas tendências transformacionais, e que
não só as instituições adequadas podem aliviar os impactos negativos, como, de
facto, a direção das tendências é, em si mesma, passível de escolhas políticas e
deliberações democráticas. A globalização e a mudança tecnológica não devem
ser temidas ou travadas, mas devem ser domesticadas. Na verdade, tendências
e choques fora do controlo humano são parte da paisagem – só a arrogância

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 57


tecnológica e política sustentaria que chegamos a um estágio em que tudo está
sob nosso controlo. O progresso social também não avança de forma unitária e
linear, mas o fatalismo diante da globalização e das tendências tecnológicas deve

ser firmemente rejeitado.

Tendências disruptivas

Os historiadores têm observado a ocorrência de ondas de globalização no


passado. Dependendo da localização geográfica, pode-se começar com o Império
Romano, que globalizou o mundo mediterrâneo; a descoberta das Américas, que
levou a transferências sem precedentes de plantas, animais e minerais do Novo
Mundo para a Europa, bem como a uma primeira onda de exploração colonial; ou
a mais recente onda de globalização no final do século XIX, que foi abruptamente
interrompida pela Primeira Guerra Mundial. No entanto, o período desde a
Segunda Guerra Mundial tem visto aumentos significativos, se não dramáticos, na
conectividade global numa série de dimensões e é essa onda de globalização que

está agora a criar oportunidades e desafios para o progresso social no mundo.

A globalização é geralmente entendida como a crescente interconexão

e integração da economia global através das fronteiras nacionais por meio do

comércio, do investimento e da migração. Subjacente está o aumento acentuado

da interdependência financeira global, que atingiu níveis sem precedentes. Os

fluxos de bens, capital e trabalho aumentaram no período pós-guerra, mais

dramaticamente nas últimas quatro décadas.

Figura 2.1
Comércio mundial em
percentagem do PIB

Fonte:
UNCTAD

Nota: O investimento direto


estrangeiro refere-se ao
investimento de investidores
estrangeiros que estabelecem
ou adquirem o controlo das
atividades empresariais locais.

58 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Figura 2.2
Investimento direto
estrangeiro (IDE)
mundial – fluxos em
percentagem do PIB

Fonte:
UNCTAD

Nota: O investimento direto


estrangeiro refere-se ao
investimento de investidores
estrangeiros que estabelecem
ou adquirem o controlo
das atividades empresariais
locais.

As figuras 2.1 e 2.2 apresentam os aumentos dos fluxos de mercadorias

e de investimento transfronteiras. É claro que há altos e baixos, por vezes

acentuados, mas a tendência geral é inequívoca. No mundo inteiro, o comércio,

em percentagem do PIB, aumentou de cerca de 25% para cerca de 60% ao longo

das cinco décadas a partir de 1960. O investimento direto estrangeiro (IDE), em

1970, era ligeiramente superior a 0,5% do PIB mundial. Atingiu um pico de mais de

5% mesmo antes do crash de 2008-2009, mas situa-se em cerca de 2,5% em 2016,

cinco vezes o valor de há quatro décadas e meia. Esse vasto aumento do comércio

e do IDE foi ajudado por uma diminuição geral das tarifas comerciais no mundo,

como mostra a figura 2.3, e por um aumento da abertura do mercado de capitais,

como mostra a figura 2.4.

Figura 2.3
Taxas Alfandegárias

Fonte:
World Development Indicators

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 59


Figura 2.4
Índice de liberalização do
capital

Fonte:
http://web.pdx.edu/~ito/Chinn-Ito_
website.htm

O capítulo anterior já observou que este aumento nos fluxos de bens e

capitais também foi acompanhado pela migração económica de pessoas através


das fronteiras – o número de pessoas que vivem fora do país de nascimento

aumentou nos primeiros 15 anos deste século de 170 milhões para 240 milhões.

A figura 2.5 mostra o aumento acentuado de um outro tipo de fluxos de pessoas,

as viagens internacionais. O número de passageiros aéreos quintuplicou entre

1980 e 2015.

Figura 2.5
Passageiros do transporte
aéreo mundia

Fonte:
World Development Indicators

Esta crescente integração mundial deu um impulso ao crescimento global e

proporcionou uma plataforma para o rápido crescimento de países pobres como a

China e a Índia, mas tem produzido um desequilíbrio distributivo nos países ricos,

com consequências sociais e políticas. Também facilitou uma disputa à base das

60 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


normas ambientais, numa altura em que as questões ecológicas têm dificuldade

em obter uma maior cobertura e uma aplicação mais rigorosa.

Tal como a globalização, a tecnologia e o seu progresso estão também

sujeitos a oscilações em forma de vagas que dão origem a novas trajetórias

tecnológicas, enquanto uns atingem a saturação e outros o declínio. Estas são

iniciadas quando ocorre uma inovação verdadeiramente radical ou algum


grande avanço científico-tecnológico e, possivelmente, alteram as formas de

funcionamento de toda a economia e da sociedade. A mudança tecnológica nos

últimos 75 anos tem sido espetacular. Historicamente, a mudança tecnológica

nos meios de comunicação e transporte – do transporte marítimo aos cabos

submarinos, das ferrovias e da eletricidade aos aviões e drones, dos contentores

aos satélites – abriu disruptivamente novas rotas, mudando a tipologia das

mercadorias transportadas, bem como a mobilidade das pessoas. O que está,

naturalmente, relacionado com as mudanças descritas nas figuras 2.1 e 2.3. Mais

dramaticamente, nas últimas quatro décadas, a informatização e a digitalização

disseminaram-se em praticamente todos os setores da atividade económica e

na maioria dos aspetos da vida diária. No último quarto de século, a penetração

da internet explodiu (figura 2.6), assim como o uso de telefones móveis (figura

2.7). Quase metade da população mundial está agora conectada à internet e

as assinaturas de telefones móveis por cem pessoas já ultrapassaram os cem.

Esses aumentos têm sido acompanhados de quedas acentuadas no preço das

telecomunicações.

Figura 2.6
Subscritores de internet em
percentagem da população
mundial

Fonte:
World Development Indicators

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 61


Figura 2.7
Assinaturas de contas
de telefone móvel (por
100 pessoas)

Fonte:
World Development Indicators

Mais ainda, as novas tecnologias da informação revolucionaram a

comunicação e levaram à criação de novas formas de organização do trabalho,

não imagináveis há apenas pouco tempo. A automação está no bom caminho

para transformar não apenas os empregos de baixa qualificação, mas também

para rapidamente atingir a classe profissional. A contentorização dos transportes

marítimos significou o quase desaparecimento do trabalho portuário intensivo. A

mineração e o declínio dos empregos para os mineiros, a automação financeira

e a redução de empregos para os bancários são exemplos das duas faces da

acelerada marcha tecnológica que está a moldar o mundo ao nosso redor. Num

recente estudo econométrico detalhado sobre os EUA, Acemoglu e Restrepo

(2017) concluem que por cada novo robô por mil trabalhadores reduz-se a relação

emprego/população em cerca de 0,18-0,34 pontos percentuais e os salários em


0,25-0,5. A figura 2.8 mostra que expansão dos robôs no mundo deve continuar,

seguindo uma curva exponencial nos próximos anos.

Figura 2.8
Estimativa do stock
operacional mundial de
robôs industriais (com
projeção para 2017-
2020)

Fonte:
IFR World Robotics 2017

62 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Uma forma simples de quantificar o impacto das novas tecnologias no

emprego é medir as tendências na intensidade da mão de obra na produção,

ou seja, a relação entre trabalho e capital. A queda acentuada na intensidade

de trabalho da produção nos EUA e no Reino Unido é mostrada na figura 2.9.

A percentagem do rendimento do trabalho no PIB é mais variável e tem uma

tendência menos acentuada, mas pode, no entanto, ser vista como estando a
diminuir a longo prazo. Esses movimentos nos rendimentos do mercado também

foram acompanhados por mudanças na política fiscal, que favoreceram o capital

em detrimento do trabalho, conforme discutido no capítulo 6 (ver figura 6.1).

Figura 2.9
Peso do trabalho em
percentagem do PIB e
intensidade do trabalho

Fonte:
Estatísticas da OCDE (peso
do rendimento do trabalho);
https://www.conference-board.
org/data/economydatabase/
index.cfm?id=27762
(intensidade do trabalho)

O facto de essas mudanças tecnológicas profundas ocorrerem no contexto

da globalização torna ainda mais urgente analisar os efeitos interligados que

provavelmente terão em diferentes partes do mundo, bem como as suas

consequências não intencionais. As tendências tecnológicas nem sempre

favoreceram a substituição da mão de obra básica pela mão de obra qualificada

e pelo capital. Nos 30 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o

milagre do Leste Asiático foi construído sobre o avanço de fabricantes pequenos

que recorriam à tecnologia de trabalho intensivo. Entretanto, a vaga mudou

nas últimas três décadas, com os avanços tecnológicos e organizacionais a

criarem poupança no trabalho intensivo. A mineração tornou-se cada vez mais

mecanizada, uma vez que métodos eficientes de capital intensivo substituíram

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 63


os empregos tradicionais dos mineiros. Acima de tudo, é amplamente esperada a

continuação da automatização do que antes eram os trabalhos da classe média.


A próxima onda de inovação não terá como alvo o trabalho manual, em
contraste com as ondas anteriores, mas irá, em vez disso, transformar e deslocar
tarefas rotineiras, sejam elas manuais ou cognitivas. Até mesmo profissionais
como advogados, médicos e professores podem ser ameaçados pelo advento de
algoritmos, o que acrescenta preocupações sobre o desaparecimento da classe
média, pelo menos nas economias desenvolvidas. Nas últimas décadas, já foi
observado que a criação de empregos ocorreu nos dois extremos da escada de
empregos, nomeadamente nos empregos de serviços de baixa remuneração que
não podem ser automatizados e nos empregos criativos ou de monitorização e
controlo de alto nível.
Tal é ilustrado na figura 2.10 para alguns países europeus e para os EUA, e
a figura 2.11 analisa a distribuição das criações de emprego ao longo de períodos
de expansão e recessão nos EUA, mostrando o início do novo padrão depois de
1980. Estas e outras substituições tecnológicas tiveram impactos dramáticos
nos rendimentos médios e baixos médios, o que, por sua vez, aumentou a
desigualdade, bem como as dificuldades económicas e sociais. Mesmo nos países
pobres, a baixa criação de emprego para cada unidade de crescimento económico

está a causar preocupação política.


Figura 2.10 Desrotinização de empregos nas economias
desenvolvidas (1993-2006)
Fonte: Autor (2010)
Nota: Ver também Banco Mundial (2018) para uma análise mais recente nos países
europeus.

64 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Figura 2.11
Crescimento do emprego
em todos os quintis de
trabalho pago durante
expansões e recessões,
EUA (1963-2016)

Fonte:
Wright e Dwyer (2018)

Outra forma de afirmar algumas dessas tendências de longo prazo é olhar

para as relações mutáveis entre recursos naturais, trabalho, informação e capital.

Num relatório sobre o futuro ambiente de segurança dos EUA, Ausubel et al.

(2015) descrevem um cenário plausível no qual o uso futuro dos recursos naturais

e do trabalho vai cair, enquanto o uso da informação e do capital aumenta.

Os elementos estratégicos desse cenário, que cobre um horizonte temporal

até 2050, tendem a ser inovações tecnológicas caracterizadas como “menores,

mais rápidas, mais leves, mais densas, mais baratas”. Estas tecnologias incluem

sensores, precisão, autonomia, hidrogénio, células de combustível, motores

lineares, elementos e matérias raros, logística em grande escala, sistemas de

compartilhamento para impulsionar a utilização e a melhoria do desempenho.

No entanto, tais sistemas cuidadosamente afinados também são frágeis

e, portanto, contêm riscos. A mudança prevista para o papel dominante que será

assumido pela informação (incluindo inteligência artificial e deep learning) e pelo

capital concentrado em grandes empresas, como o grupo GAFA (Google, Amazon,

Facebook, Apple), coloca o foco ainda mais nas questões abertas sobre o futuro

do trabalho, o uso de recursos humanos e um marco regulatório adequado.

Uma grande ameaça ao progresso social é o risco de uma divisão digital

ou desigualdade digital. Uma grande parte da população ficará para trás


se não tiver acesso adequado à educação e oportunidades para adquirir as

qualificações necessárias e que são agora procuradas. Num mundo cada vez mais

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 65


digitalizado, a exclusão de facto de uma grande parte dos cidadãos significa que

também lhes faltam incentivos e oportunidades de participação política. Uma

educação deficitária ou inexistente tem implicações significativas para a saúde

e a longevidade, que são medidas em esperança de vida, anos e nível de bem-

estar. Níveis educacionais mais baixos e falta de literacia e qualificação científico-

tecnológicas também se traduzem em falta de literacia genética e, portanto,


limitam severamente o acesso aos futuros cuidados de saúde de ponta. Aqueles

com pouca educação serão excluídos do mercado de trabalho, sendo os jovens

adultos do sexo masculino o grupo em maior risco; não apenas para eles mesmos,

mas também para a sociedade.

A tecnologia e a globalização encontram-se no nível internacional, onde os

alinhamentos e os conflitos são disputados por acordos comerciais internacionais.

O efeito das novas tecnologias nos países ricos foi ampliado pelo comércio. O

chamado “China shock” levou ao equivalente de minirrecessões prolongadas

nas zonas dos EUA expostas ao comércio com a China e afetou mais fortemente

aqueles com salários mais baixos e menor escolaridade (Autor et al., 2016). Apesar

das visões tradicionais sobre o funcionamento eficiente do mercado de trabalho

dos EUA, esses segmentos do mercado de trabalho não se ajustaram, o que

levou ao desemprego e à perda de rendimentos nos setores médio e inferior da

distribuição salarial.

É evidente que os mecanismos criados pelos países ricos para gerir choques

temporários no emprego foram assoberbados pela gravidade e pela natureza

prolongada das tendências tecnológicas e comerciais. Nos EUA, por exemplo, a

Trade Adjustment Assistance (TAA) revelou-se totalmente inadequada em termos

do nível e duração do apoio prestado. Os afetados por esses choques tiveram

de passar para os benefícios de invalidez para obterem apoio de rendimento de

longo prazo – com o resultado de que não podem mais retornar ao mercado de

trabalho pelos termos dos programas de benefícios de invalidez. Esse é outro

exemplo do potencial impacto desestabilizador da tecnologia e da globalização na

ausência de medidas políticas adequadas para lidar com eles.

66 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


As faces de Jano na globalização e na tecnologia

O progresso social decorre dos avanços tecnológicos e sociais. Para muitos,

parece que as tecnologias são os principais motores da mudança social. Tal

visão pode resultar numa espécie de determinismo segundo o qual as pessoas

têm de se adaptar às mudanças provocadas pelas últimas tecnologias. Isto está

longe do que realmente acontece. As tecnologias recém-emergentes geralmente

desencadeiam muito mais escolhas, como as de quem se irá apropriar delas,

como serão realmente utilizadas e por quem e qual dos diferentes alinhamentos

possíveis irá realmente moldar as trajetórias futuras. Os exemplos vão desde a

invenção do laser, que inicialmente foi vista como “uma solução para um problema

que ainda precisava de ser encontrado”, passando pelo uso do transístor para

tornar os rádios portáteis, até chegar às interações altamente sofisticadas entre

tecnologias da informação e desenvolvimento de software com utilizadores

avançados ou iniciais. A relação entre o social e o tecnológico é, portanto,

mais apropriadamente conceptualizável como consistindo em processos de

coprodução ou coevolução mutuamente interdependentes e variáveis. Isso não

quer dizer que a configuração social das tecnologias deva ser deixada apenas ao

mercado. O acesso às novas tecnologias e às competências que a sua utilização

exige pode ter um impacto direto no reforço das desigualdades existentes ou

na criação de novas desigualdades, como a divisão ou desigualdade digital que,

numa sociedade já fragmentada, corre o risco de ampliar a fragilidade. Embora a

inovação se tenha tornado um objetivo político altamente valorizado, os decisores

políticos muitas vezes não têm em conta os impactos positivos e potencialmente

negativos que terá nos diferentes grupos da sociedade.

Os historiadores têm argumentado contra o viés amplamente inquestionável

em favor das mais recentes tecnologias e inovações. Eles lembram-nos que cada

época tende a convencer-se de que desta vez é diferente, porque as suas últimas

invenções são mais transformadoras do que as do passado.

Contra o techno-hype da época e um futurismo muitas vezes ingénuo,

pode-se mostrar que muitas velhas tecnologias ainda estão em uso (Edgerton,

2006). Na verdade, a maioria das invenções são uma combinação bem-sucedida

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 67


de ideias e dispositivos antigos e novos.

Portanto, é importante ter estas advertências em mente ao abordar a tarefa

de analisar o impacto da tecnologia na sociedade e os seus efeitos no progresso

social. Múltiplos caminhos de inovação e progresso são sempre possíveis e

invenções simultâneas são a regra. As decisões sobre o caminho a seguir são

escolhas sociopolíticas, muitas vezes incorporadas em contingências, ao passo


que a gama completa de consequências que irão gerar não é, em grande medida,

previsível.

Um elemento do diagnóstico do mal-estar atual é, portanto, o fracasso

dos mecanismos coletivos de suporte, ao tentar adaptar-se rapidamente às

circunstâncias em mudança. As estruturas que foram adequadas para os anos

de boom pós-guerra, com a tecnologia que favorecia a contratação de mão de

obra e a perda de emprego como sendo um fenómeno cíclico temporário, já não

são adequadas para o propósito porque a estrutura do emprego está a mudar

mais profundamente. O que decorre desse diagnóstico é que é necessário um

esquema de proteção social mais geral para manter o progresso social nas

próximas décadas. Será, obviamente, um teste à nossa capacidade coletiva, se a

sociedade será capaz de chegar a um consenso e desenvolver mecanismos desse

tipo.

Em particular, como se discute no capítulo 7, a redistribuição dos

rendimentos do mercado é apenas uma resposta possível, mas talvez não a mais

eficaz. Abordar a pré-distribuição, criando condições que assegurem que em

primeiro lugar o mercado seja mais equitativo, é um objetivo de ordem superior

para a manutenção do progresso social. A ação coletiva para assegurar a igualdade

na educação e na saúde é importante e bem discutida. No entanto, um aspeto que

é muito menos discutido é a ação coletiva para abordar diretamente a tendência

tecnológica, em vez de tomá-la como um dado adquirido ao qual a sociedade deve

responder através da redistribuição coletiva. Na suas últimas obras, Tony Atkinson

(2015) fez a proposta radical de que “a direção da mudança tecnológica deve

ser uma preocupação explícita dos decisores políticos, incentivando a inovação

de forma que aumente a empregabilidade dos trabalhadores, enfatizando a

dimensão humana da prestação de serviços” (Atkinson, 2015: 302).

68 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


A ideia de que a própria inovação tecnológica pode ser influenciada pela

política não é, por si, controversa. É notório que os mercados podem investir

pouco no progresso técnico porque os seus benefícios são generalizados,

enquanto os custos são suportados pelo inovador. Também se sabe que o

governo desempenhou um papel crucial na incubação da internet, inicialmente

como uma tecnologia militar. No entanto, é menos bem aceite que, da mesma
forma, o governo poderia realmente investir em investigação e desenvolvimento

para promover técnicas de uso de mão de obra socialmente apropriadas. Além

disso, a questão da tecnologia atinge todos os departamentos do governo, não

apenas os departamentos que lidam com a indústria ou a educação:

Não basta dizer que a crescente desigualdade se deve a forças tecnológicas

fora do nosso controlo. O governo pode influenciar o caminho tomado. E mais:

essa influência é exercida por departamentos do governo que não são tipicamente

associados com questões de justiça social. Um governo que está à procura de

reduzir a desigualdade tem de envolver todo o conselho de ministros (Atkinson,

2015: 119, tradução nossa).

O mesmo deve ser dito sobre a globalização. A forma como as tarifas

têm sido reduzidas sem atenção aos pequenos produtores dos países em

desenvolvimento, em que o investimento direto estrangeiro (IDE) tem sido

facilitado e protegido por mecanismos de resolução de conflitos, favorecendo as

empresas transnacionais, ou em que a liberalização do capital tem sido promovida

sem atenção aos seus movimentos voláteis, moldou a globalização, mas é possível
18
reescrever as regras com objetivos mais conscientes socialmente.

Em junho de 1955, John von Neumann escreveu o pequeno artigo

“Podemos sobreviver à tecnologia?”, fazendo algumas perguntas profundas sobre

o impacto social do avanço técnico radical na sua época – a bomba atómica e a

energia nuclear. Von Neumann é amplamente conhecido como um matemático

que criou a integradora e calculadora matemática e numérica no Instituto de

Estudos Avançados em Princeton – de facto, o primeiro computador de trabalho.

Não surpreendentemente, via as tecnologias como sendo direta ou indiretamente

18 Ver IPSP (2018, capítulos 11 e 12) para uma análise de como a globalização foi moldada por organizações internacio-
nais, políticas nacionais e acordos internacionais.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 69


construtivas e benéficas. Entretanto, fazendo uma conexão surpreendente entre

tecnologia e globalização, ele também via o aumento da instabilidade como

consequência.

De acordo com o seu argumento, à medida que o progresso tecnológico

avança, ele expande-se geograficamente. A Revolução Industrial consistiu

essencialmente em disponibilizar mais energia e mais barata; mais fácil


monitorização das ações e reações humanas; e maior volume e mais rápida

comunicação. Cada um desses desenvolvimentos aumentou a eficácia dos outros

dois, assim como a velocidade das operações em grande escala – industrial,

comercial, política e migratória. No entanto, a aceleração tecnológica atingiu

os seus limites, já que a maioria das escalas de tempo são fixadas por tempos

de reação humana, hábitos e outros fatores. Portanto, o efeito da aceleração

tecnológica foi ampliar o tamanho e estender o escopo geográfico das unidades

políticas, organizacionais, económicas e culturais. Na visão de von Neumann, essa

evolução para operações de maior escala e a sua extensão espacial encontra

um limite natural no tamanho da Terra. Essa limitação induz instabilidade, mais

visível no momento da sua inserção na esfera militar, com as duas superpotências

enfrentando-se com o seu potencial nuclear destrutivo.

Com o benefício da retrospetiva, é digno de nota que um dos pioneiros

da informatização e digitalização não previu o impacto da evolução tecnológica

provocada pela difusão generalizada e descentralizada dos computadores. Em vez

de simplesmente realizar as mesmas operações em menos tempo, as máquinas

eletrónicas agora realizam tarefas além das capacidades humanas, evitando as

limitações fisiológicas. A comunicação tornou-se instantânea, permitindo a internet

e a fragmentação cibernética, o comércio financeiro automático, a comunicação

via satélite e uma série de outras interações que ocorrem simultaneamente.

Assim, foi criado um mundo em que o tempo foi comprimido, enquanto o alcance

espacial foi expandido de formas inimagináveis.

As questões levantadas por von Neumann não perderam a sua relevância,

mas hoje a questão é: como sobreviver com a tecnologia num mundo globalizado?

Não podemos imaginar um mundo sem tecnologia, nem é possível um regresso

a um passado de soberania nacional utópica que nunca existiu, não obstante

70 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


as tendências manifestas para o isolacionismo e o nacionalismo. O que mudou

dramaticamente desde meados dos anos 50 do século passado foi a expansão

coevolucionária de avanços científico-tecnológicos sem precedentes que agora

abrangem todo o globo. A tecnologia e a globalização tornaram-se as faces de

Jano da evolução das sociedades contemporâneas.

No entanto, como von Neumann percebeu, a tecnologia e a globalização


não trazem apenas benefícios, mas instabilidades inerentes. A ameaça imediata

do desastre nuclear teve um surpreendente retorno com os presidentes dos EUA

e da Coreia do Norte exibindo as suas armas nucleares e através de um aumento

preocupante dos gastos com defesa entre as maiores potências mundiais.

Limitações, riscos e instabilidades adicionais estão a surgir. Paradoxalmente, a

tecnologia que abrange literalmente todo o globo, e que até torna uma parte do

universo visível a partir do nosso pequeno planeta, também aumenta a consciência

da finitude da Terra que habitamos e a sua vulnerabilidade à intervenção humana.

Questões globais – da mudança climática aos fluxos migratórios contínuos, das

estreitas interconexões financeiras com riscos de contágio financeiro aos ODS

da ONU – lutam pelo seu lugar na agenda política. De várias maneiras, estas

questões estão enredadas com as tecnologias que moldam o nosso quotidiano e

nos interconectam .

Os enormes desafios que uma população mundial ainda em crescimento

enfrenta, como a segurança alimentar, o acesso à água, as alterações climáticas e

a gestão sustentável de recursos naturais e bens limitados, dificilmente poderão

ser geridos sem o apoio adequado de tecnologias antigas e novas. O progresso

social, global e localmente, depende em grande medida dos recursos humanos,

engenhos, vontade política e robustez das instituições para enfrentar tais desafios

em tempo útil. Isto também significa perceber que as escalas de tempo em que

os sistemas complexos operam diferem do curto-prazo que norteia grande parte

das nossas vidas económicas e políticas.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 71


Dois contos de desigualdade

O recente aumento do populismo e do nacionalismo em muitos países ocidentais,

o referendo britânico para abandonar a União Europeia (UE) e as turbulentas

consequências da eleição do presidente dos EUA levaram a um ataque às elites

por parte dos perdedores da globalização ou daqueles que afirmam falar em seu

nome. Esses perdedores são segmentos da população cujo sentimento subjetivo

de ter sido deixado para trás é objetivamente confirmado pela queda nos padrões

de vida, níveis de educação, saúde e outras medidas, mas mesmo antes de

algumas dessas desigualdades mais gritantes virem à tona, a ressonância pública

que saudou o livro de Thomas Piketty foi um forte sinal de que a consciência das

crescentes desigualdades sociais tinha alcançado já o centro da população.

Embora a globalização se tenha tornado o alvo da mobilização política

nacionalista e populista em muitos países, esse tem sido muito menos o caso

das tecnologias, mesmo que seja amplamente reconhecido o seu impacto

potencialmente maior e mais disruptivo no mercado de trabalho. Uma razão para

essa discrepância é que a globalização tem sido associada à migração e à suposta

deslocalização de empregos para os países em desenvolvimento. Assim, tem sido

fácil despertar nos que se sentem deixados para trás sentimentos anti-imigração

e apelar a sentimentos nacionalistas e ao fecho das fronteiras nacionais.

Essa narrativa antiglobalização é fortalecida pela recente e rápida ascensão

de alguns países em desenvolvimento, principalmente no Sudeste Asiático, que

agora impulsiona uma crescente classe média com níveis educacionais mais

elevados e com melhores cuidados de saúde, o que contrasta fortemente com o

fenómeno de uma classe média em declínio em muitos países ricos. Onde a classe

média cede, observa-se uma divergência crescente entre ricos e pobres. Essa

mudança estrutural é frequentemente acompanhada de um enfraquecimento das

instituições e de uma perda de confiança, causando uma maior deslegitimação

das mesmas. Possivelmente, esses processos interligados levam à polarização

da sociedade, com os cidadãos a desconfiarem das instituições que deveriam

protegê-los e garantir a justiça social. A erosão da confiança nas instituições

espalha-se e, talvez, a desconfiança espalhar-se-á também entre os cidadãos e

72 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


entre vários grupos políticos, sociais ou étnicos.

Essa narrativa faz com que a globalização seja percecionada como a

principal culpada das crescentes desigualdades, quer quando se evoca um

passado nacional glorioso, quer quando se apresenta o povo como conjunto de

vítimas afastadas pelos seus líderes fracos e corruptos ou por forças económicas

externas que privilegiam as elites ricas e cosmopolitas.


Nesse relato, a mudança tecnológica desempenha, no máximo, um

papel indireto, pois é vista como uma forma de promover a globalização

através do aumento do transporte, do comércio e das comunicações. O papel

direto da tecnologia na diminuição da intensidade do trabalho não faz parte da

narrativa. As soluções oferecidas nessa narrativa são altamente simplificadas e

principalmente retrospetivas: o que funcionou no passado (imaginado) quando

a soberania nacional supostamente prevaleceu também deveria funcionar no

futuro, recusando-se deliberadamente a reconhecer as enormes mudanças que

ocorreram desde então.

No entanto, outra narrativa detém um espaço significativo na opinião

pública. Também se baseia no passado, mas de um modo diferente. Deriva a sua

evidência do facto histórico de que a construção do Estado social na Europa foi

a resposta convincente e transformadora ao impacto negativo e à miséria social

causados pela Revolução Industrial e pela rutura tecnológica devida à mecanização.

Desde então, assim diz o argumento, várias formas de proteção social envolvendo

o Estado social e os sindicatos têm demonstrado que é possível mitigar os efeitos

indesejáveis da mudança tecnológica e do livre comércio. Portanto, inspirando-

se no modelo social-democrata em particular, são necessárias leis do trabalho

flexíveis associadas a medidas de proteção social, assim como um governo

favorável à inovação e pronto para investir em investigação básica, mas de

forma alguma cego para as necessidades de medidas regulatórias (e preventivas)

de novas tecnologias e capaz de não apenas regular, mas de criar mercados

(Mazzucato, 2013).

Essa narrativa culpa em grande parte o neoliberalismo e a onda de

desregulamentação desde a década de 1980 por permitir que as desigualdades

sociais cresçam. Insiste que as medidas políticas podem e devem corrigir as falhas

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 73


do mercado e enfatiza a responsabilidade e a capacidade do governo, se apenas

apoiado pela vontade política, de tomar o nosso destino nas nossas mãos. A

globalização é reconhecida como um facto, mas argumenta-se que ela pode ser

administrada se, por exemplo, forem incluídas medidas suficientes para proteger

os padrões sociais e ambientais existentes nos acordos comerciais globais.

Neste relato, reconhecem-se as transformações tecnológicas ao lado dos


impactos da globalização. Transmite-se a ideia de que as políticas de bem-estar

pós-Segunda Guerra Mundial não deveriam ter sido abandonadas e poderiam

ser reavivadas se ajustadas adequadamente. Como veremos no capítulo 7,

é um pouco severo sobre o que aconteceu porque muitos países na Europa

mantiveram a maioria das suas políticas de bem-estar e foram capazes de conter

o aumento das desigualdades até certo ponto, mas não o sentimento crescente

de insegurança da classe média e a desestabilização da política democrática.

Portanto, novamente, não está claro que voltar às soluções de uma era anterior

seja suficiente para enfrentar os desafios atuais.

As narrativas assentam e apelam aos imaginários sociais e tecnológicos.

São ideias e expectativas individuais e coletivas sobre o passado, o presente e

o futuro. Derivam o seu poder da partilha e do seu conteúdo fluido e efémero

que, no entanto, molda as expectativas e, em última análise, o comportamento.

Imaginários acompanham a introdução de novas tecnologias, muitas vezes numa

versão utópica e distópica como as duas faces da mesma moeda, projetando

esperanças e medos no imenso ecrã de um futuro incerto. Para dar apenas um

exemplo: quando a internet foi introduzida – o que não era uma inovação planeada,

nem prevista –, foi saudada como uma tecnologia emancipatória que continha a

promessa de ser um forte equalizador. Ninguém podia prever que agora se tornou

refém das bolhas em que vivem as pessoas, das fake news de propaganda e da

celebração de crimes de ódio. O ciberespaço tornou-se fragmentado, reforçando

as tendências polarizadoras que existem atualmente na sociedade.

Em geral, na nossa era pós-comunista, os imaginários tendem a concentrar-

se nas tendências tecnológicas e a ser bastante fracos na sua imaginação social.

É mais fácil ver o mundo através de uma lente tecnológica, seja ela boa ou má, do

que imaginar em que tipo de sociedade queremos viver. Também é fácil ignorar

74 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


as múltiplas interações entre a componente social e tecnológica da sociedade.

No entanto, a complexidade de um sistema social surge das interações das suas

partes, gerando novas propriedades emergentes que não podem ser previstas. A

ambição deste livro é fornecer elementos para uma visão do futuro social.

O que se segue: da reflexão à ação

A nossa breve exploração dos fenómenos gémeos da globalização e da tecnologia

e a sua participação nas crescentes desigualdades produziu os seguintes pontos.

Em primeiro lugar, há uma grande diferença no efeito que a globalização e a

tecnologia têm criado nos países ricos ocidentais em comparação com alguns

países em desenvolvimento, especialmente no Sudeste Asiático, o que implica

que as respostas tenham de ser adaptadas ao contexto local.

Em segundo lugar, nem a tecnologia nem a globalização são forças externas

que afetam as sociedades, forçando-as a ceder ou simplesmente a optar por não

participar. Pelo contrário, a tecnologia é coproduzida e coevolui com a sociedade, e

a globalização assume muitas formas abertas a decisões políticas. Os historiadores

da tecnologia têm demonstrado repetidamente que, embora algumas condições

económicas, sociais, culturais e financeiras sejam mais propícias às invenções

e inovações tecnológicas, não há determinismo tecnológico. Pelo contrário, as

condições iniciais, e muitas vezes contingentes, podem fazer a diferença, levando

a trajetórias tecnológicas que se desenvolvem ao longo do tempo. As ideias e as

inovações também não param nas fronteiras nacionais: o rio não conhece a sua

fonte.

Em terceiro lugar, entre as grandes tendências que podem ser discernidas,

notamos a mudança na importância da informação (o conhecimento e a tecnologia

como conhecimento incorporado) e do capital (os fluxos financeiros globais, o

IDE e as interconexões globais dos mercados financeiros). Isto levanta questões

importantes sobre a regulação da dimensão financeira da globalização e sobre

como utilizá-la de forma benéfica.

Em quarto lugar, alguns dos mais recentes avanços tecnológicos estão

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 75


fortemente ligados ao uso de big data, algoritmos, deep learning e machine

learning. Embora isto levante muitas questões não resolvidas, incluindo o futuro

do trabalho, da privacidade e da vigilância, de novo, estas não são forças estranhas

em ação. Até mesmo os algoritmos são feitos por humanos. Tais desenvolvimentos

representam grandes desafios para a regulação da propriedade dos dados, para

a privacidade e para as consequências mais amplas na segurança, na educação,


no trabalho e na saúde, assim como para a prevenção da divisão e desigualdade

digital dentro dos países e em todo o mundo.

Em quinto lugar, um dos principais riscos e obstáculos para uma sociedade

mais igualitária é a perda de confiança que os cidadãos têm nas suas instituições,

levando à polarização da sociedade, o que deslegitima ainda mais as instituições

para representar e trabalhar para todos os cidadãos. Essa instabilidade está

pelo menos indiretamente ligada à tecnologia e à globalização, pois são as elites

cosmopolitas e bem instruídas que facilmente atravessam as fronteiras nacionais

em busca de trabalho, vida e prazer, que geram ressentimento suficiente para

alimentar uma reação populista e preparar uma cidadania desconfiada para

um governo autoritário. Até mesmo a ideia de meritocracia foi criticada. Com a

educação a ser a chave para o sucesso individual, empregos e rendimento, foi

mostrado como a classe meritocrática criou formas de manter os outros fora

(Reeves, 2017). É preciso repensar a inclusão e propor medidas políticas que

possam mitigar o risco de uma maior polarização.

Em sexto lugar, ao nível global, será mais importante do que nunca

responder com mecanismos de construção de consenso, com a conceção de

novas instituições ou com a reforma das existentes, por exemplo, o FMI e o Banco
19
Mundial.

Exemplos positivos são os ODS da ONU e o Acordo Climático de Paris

(apesar das suas imperfeições). Alguns dos novos mecanismos poderiam ser

baseados na mudança de objetivos, por exemplo, do comércio livre para o

comércio justo, ou colocando maior ênfase na inovação direcionada, por exemplo,

para o crescimento verde.

Mais do que nunca, somos confrontados com as múltiplas expectativas

19 Sobre o papel principal das organizações internacionais na gestão da globalização, consultar IPSP (2018, capítulo 11).

76 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


que as pessoas de todo o mundo têm sobre os seus futuros imaginados. Casos

históricos revelam uma grande variedade de escolhas e contingências. A lição é

clara – poderia ter sido diferente. Se é a agência humana que determina o nosso

futuro, ela é, no entanto, temperada e limitada pelas consequências imprevistas

da ação e intenções humanas. Precisamos considerar cuidadosamente o que

pode ser alcançado ou não através da ação coletiva e, especialmente, através da


existência do tipo certo de instituições. A maioria das nossas instituições atuais já

existe há algum tempo e muitas delas foram concebidas para oferecer soluções

para os problemas de outra época. Por conseguinte, somos também desafiados

a apresentar novas conceções institucionais, adequadas aos problemas de hoje e

de amanhã.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 77


Capítulo 3
O círculo crescente de respeito e dignidade
Quando falamos de progresso e das suas insuficiências, geralmente recorremos

a evidências empíricas concretas, a dados concretos e a tendências relacionadas


com fatores materiais, como vimos nos dois capítulos anteriores. No entanto,

valores, ideias e crenças também são elementos-chave para nos informar sobre

o mundo em que vivemos e sobre as suas perspetivas para o futuro. Por outras

palavras, a cultura é tão central para entender a sociedade quanto a economia

e a tecnologia. A própria ideia de que a sociedade pode ser mais justa, de que é

possível um maior progresso social, depende do exame objetivo das condições

existentes, bem como dos valores prevalecentes sobre a justiça e das ideias sobre

a melhoria da vida social.

Usamos o termo “cultura” aqui de forma ampla, para nos referirmos não só

“às artes ou à chamada cultura alta e baixa, mas à cultura no sentido antropológico

das normas sociais, ideias e identidades quotidianas que definem a significação

das interações sociais dos indivíduos e das sociedades” (IPSP 2018, capítulo 15)

A cultura é o que nos fornece uma estrutura para compreender e dar sentido ao

mundo em que vivemos e o que forma as nossas expectativas sobre o futuro.


Embora a desigualdade e a injustiça ainda assolem o nosso mundo, hoje é

claro que a igualdade se tornou um valor social aclamado. Por outras palavras, a

ideia de que todos nós temos igual valor tornou-se algo que a sociedade percebe

de alguma forma como legítimo e positivo. Restam controvérsias para definir

exatamente o que se entende por igualdade, alimentando disputas filosóficas,

económicas e políticas. No entanto, se olharmos para o passado, podemos dizer,

sem hesitação, que o respeito pelo próximo tem vindo a crescer e que o crescente

reconhecimento da dignidade humana assinala novos avanços nesta direção.

Muitos sinais de que os seres humanos estão a fazer avanços na arte de


viver juntos podem ser identificados nas transformações que estão a ocorrer

na forma como concebemos os direitos, o valor e a escolha dos estilos de vida,

78 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


bem como na forma como valorizamos a diversidade e a alteridade. Para ter

plenamente em conta essas e muitas outras mudanças em curso nos nossos

pontos de vista, precisamos de olhar para os processos culturais a partir de

uma perspetiva histórica. Tendemos a pensar na cultura como algo que é tão

resiliente que se cola a nós como uma espécie de marca de nascimento. De facto,

valores, crenças, imagens do nosso mundo são o berço de traços duradouros


que caracterizam as coletividades. No entanto, olhando para a história, torna-se

claro que houve grandes mudanças na forma como nós, humanos, concebemos

o mundo. Na verdade, o que é constitutivo da cultura é a sua combinação original

de mudança e continuidade. Embora uma curta digressão histórica possa surgir

como algo que nos distraia das questões contemporâneas críticas, é, de facto,

uma maneira útil de percecionar o peso da cultura nas nossas vidas.

Que razões temos para ter esperança em relação às perspetivas de

conseguir uma sociedade melhor? Para responder a esta pergunta, é relevante

olhar para trás e colocar os nossos desafios contemporâneos numa perspetiva

histórica. É útil olhar para o passado para compreender como a nossa imagem

da sociedade mudou, quais são as implicações positivas das visões de mundo

alteradas, os limites e as contradições enfrentadas e, ainda mais importante, o

que pode ser feito para tornar possível um maior progresso na nossa convivência.

Consideremos, por exemplo, que, no passado, os europeus se conceberam

a si próprios como pertencendo a categorias rígidas que distinguiam os nobres

e os plebeus. O entendimento comum era que estas duas camadas sociais eram

substancialmente diferentes e, portanto, não havia qualquer hipótese de a sua

posição na hierarquia social poder ser alterada. Filhos e filhas de servos seriam

sempre servos, e os de nobres seriam sempre nobres, independentemente do

que fizessem ou não fizessem.

Certamente este já não é o modo como pensamos a sociedade hoje em dia.

Mesmo que as condições sociais dos pais afetem significativamente as perspetivas

de vida dos filhos, as pessoas podem experimentar uma mobilidade social

ascendente ou descendente como consequência do seu próprio desempenho

e circunstâncias contingentes. Esse afastamento de uma crença em diferenças

naturais para uma crença na igualdade dos seres humanos é uma mudança

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 79


cultural profunda, cujo impacto ainda se está a desenrolar.

Levando em consideração a relevância da história, vamos considerar três

grandes mudanças em curso nas nossas perceções do mundo. Tais mudanças

dizem respeito a ideias sobre a nossa interação com a natureza, sobre os recursos

básicos com os quais contamos para organizar a vida social, e sobre a forma como

vemos a relação entre igualdade e diferença. Um exame rápido de tais mudanças


é relevante para ilustrar o carácter dinâmico da cultura, algo que muitas vezes

subestimamos. Igualmente importante, no entanto, é que, ao tocar em domínios

diferentes, cada um dos três processos afeta os demais.

Como as páginas seguintes pretendem mostrar, esses processos, quando

juntos, apontam para o alargamento do círculo de solidariedade e respeito que

une as pessoas, ao mesmo tempo que deixam claro que os progressos alcançados

foram e serão possíveis graças ao envolvimento ativo das pessoas. Não existem

forças cegas da hstória que garantam um futuro melhor e, na verdade, as reações

e iniciativas humanas podem também criar obstáculos à melhoria da vida social.

As escolhas que fazemos preparam o futuro da sociedade.

A nossa perceção mutável da natureza

A crescente preocupação com preservação da natureza sinaliza uma época de

mudança de forma semelhante à do nascimento da era moderna, marcada por

uma nova conceção da interação entre humanos e natureza. Um dos principais

símbolos da modernidade foi a disseminação da então nova ideia de que, em

vez de procurar abrigo das raivas imprevisíveis da natureza, era desejável e

possível conquistá-la. A fé na razão e a crença no poder quase absoluto da

invenção tecnológica mudaram completamente a visão do mundo. A noção de

que era possível conquistar forças naturais com o recurso à tecnologia tornou-se

semelhante à ideia de melhoramento material permanente como um processo

normal.

Em vez da crença nas voltas imprevisíveis da pobreza e prosperidade,

com o pêndulo a flutuar de uma forma ou de outra de acordo com os caprichos

80 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


naturais ou divinos, uma nova crença consubstanciou-se na suposição comum

de que o progresso ou desenvolvimento é o curso normal da história, enquanto

a decadência ou estagnação económica constituem anomalias, distorções

que devem ser corrigidas com o uso virtuoso da ciência, da tecnologia e da

determinação política.

Essa mudança de cosmovisão de um mundo governado pela natureza para


um mundo onde a natureza pode ser dominada e domesticada para servir os

humanos está no centro da ideologia desenvolvimentista que ainda preside o

mundo. Gradualmente, porém, estamos agora a avançar para uma consciência

crescente de que, em vez de conquistar a natureza, a devemos alimentar. A

preocupação com o esgotamento de recursos e a busca pelo crescimento

sustentável está no cerne dessa mudança contínua na perceção de que, para

manter o crescimento material, devemos cuidar da galinha dos ovos de ouro.

A ascensão contínua de uma sensibilidade ecológica é provavelmente

uma mudança cultural tão profunda quanto a crença na possibilidade de

desenvolvimento económico contínuo que marcou a transição para os tempos

modernos. As implicações desse novo modo de conceber os recursos naturais

estão ainda por esclarecer. A ideia de que a continuidade do desenvolvimento, ou

crescimento, não envolve a colonização da natureza, mas sim a sua preservação, é

uma grande revolução no nosso modo de pensar. Uma mudança de mentalidade

que terá consequências significativas para as gerações presentes e futuras. A

preocupação ambiental e a conservação da natureza (figura 3.1) tornaram-se para

muitos, hoje em dia, o objeto do proselitismo.

No entanto, como em qualquer mudança cultural de tais proporções, a

mistura de idealismo e pragmatismo é o que marca o avanço. Cada vez mais,

torna-se evidente que devemos agir em conjunto para tornar viável o nosso

futuro comum, e que os problemas de equidade intra e intergeracional devem

ser enfrentados. Embora os grandes países poluidores continuem a agir como

free riders, recusando-se a partilhar os custos da preservação da natureza, a

consciência da interdependência humana está a crescer, a par da consciência do

nosso destino global.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 81


Figura 3.1
Áreas protegidas em
todo o mundo (em
km2)

Fonte:
Base de Dados Mundial sobre
Áreas Protegidas
Amostra: Todos os países

Uma ilustração interessante de tal mudança cultural pode ser observada

na forma como os animais são considerados. A batalha ideológica entre os

defensores dos animais e os seus adversários tem vindo a ser travada há

séculos. Aristóteles e Descartes consideraram que os animais não tinham razão

nem crenças, enquanto Pitágoras e Bentham questionaram a arbitrariedade da

discriminação entre espécies sensíveis. As tradições religiosas também variaram,

com as tradições orientais (incluindo o Islão) a adotarem posições iniciais

generosas em relação aos animais, enquanto as doutrinas cristãs têm mostrado

grande diversidade até hoje – a muito aclamada Encíclica Laudato Si do Papa

Francisco não diverge no tratamento dos animais da abordagem católica romana


tradicional centrada no homem.

Embora não existam dados a longo prazo sobre as atitudes em relação

aos animais, a evolução da legislação em todo o mundo, que concede aos animais

uma proteção crescente contra os maus-tratos, é um sinal de uma mudança

cultural contínua a favor dos defensores dos animais. Uma investigação do Instituto

Gallup de 2015 mostra que cerca de um terço da população dos EUA (acima de um

quarto em 2008) acredita que que “os animais merecem exatamente os mesmos

direitos que os seres humanos de estarem livres de danos e exploração” e, em


20
particular, 42% das mulheres subscrevem esta declaração.

20 Ver http://news.gallup.com/poll/183275/say-animals-rights-people.aspx.

82 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Estado, mercado e sociedade civil

O segundo dos processos de mudança cultural que mencionamos tem várias

manifestações ao redor do mundo, mas o seu alcance e significado são, por

isso, muito menos percetíveis. Envolve a inclusão da própria sociedade como

repositório de um recurso específico de organização social. Até às últimas

décadas, as pessoas referiam-se ao Estado e ao mercado como os dois tipos

básicos de sociedades de recursos com os quais se organizavam. Muitas vezes,

víamos países classificados em combinações variáveis de autoridade estatal e

interesses de mercado. A solidariedade foi implicitamente considerada como algo

inerente a ambos: ao Estado, graças aos sentimentos de pertença nacional, e ao

mercado através de contratos reais ou virtuais entre vendedores e compradores.

Isto não quer dizer que a ideia de solidariedade estivesse ausente da vida

pública em períodos anteriores. Recordemos, por exemplo, que a criação de

sistemas de segurança social apelava à ideia de uma solidariedade nacional. O

mesmo se poderia dizer da justificação ideológica dos regimes corporativistas que

também jogavam com a ideia de um corpo social solidário como condição básica

para sociedades harmoniosas. No entanto, em ambos os casos, a solidariedade foi

tomada como o ingrediente a ser moldado por combinações variáveis de mercado

e/ou recursos estatais. Esta preocupação sobre a solidariedade como cimento do

consenso social levou os críticos a abandonar o conceito de sociedade civil que,

argumentaram, implícita ou explicitamente assumiu tons idealistas hegelianos.

Nas últimas décadas, no entanto, o ressurgimento da expressão “sociedade

civil” no discurso público indica uma mudança significativa. À medida que o final

do século XX se aproximava, mais e mais referências à solidariedade apareceram

como um terceiro tipo de recurso para a organização social. Enquanto a

solidariedade estava anteriormente nos interesses de mercado compartilhados

(representados por sindicatos e uniões patronais) e na lealdade ao Estado-nação,

agora a solidariedade começa a adquirir um novo significado, sugerindo que tem

características distintas. Há sinais visíveis de que a forma como a sociedade se

vê e concebe as suas formas básicas de organização está a mudar rapidamente.

Novos movimentos sociais e novas formas de associação apontam para uma

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 83


nova imagem: expressões como “terceiro setor”, “setor sem fins lucrativos”,

“organizações não governamentais” (ONG) “ou redes sociais” ganham um novo

fôlego para transmitir a especificidade da solidariedade social perante o Estado

e o mercado.

De certa forma, ONG e tantas outras formas de organizações sem fins

lucrativos não são novidade (figura 3.2). Diferentes formas de organizações


voluntárias encontram-se entre nós há muito tempo, mas as novas etiquetas

para as descrever respondem à necessidade de conferir um novo significado ao

repertório de recursos com que as pessoas contam para atender às necessidades

coletivas. A ênfase em algo distinto do Estado e do mercado sinaliza a busca de

meios alternativos para alcançar objetivos coletivos. A ideia de que a sociedade

é o repositório de recursos próprios introduz uma nova dimensão que altera

significativamente a nossa perceção das potencialidades de mudança social.

Não que a sociedade constitua um corpo ideal cujos interesses estejam

naturalmente em harmonia, mas a introdução de um novo tipo de recurso

organizacional na forma como concebemos a vida social sugere que podemos

encontrar formas inovadoras de resolver as nossas disputas, combinando três e

não apenas dois princípios. Faz sentido especular que novas formas de articulação

e agregação de interesses concebidas dentro deste triplo quadro irão acrescentar

renovado significado ao repertório de recursos que as pessoas usam para atingir

os objetivos coletivos.

Figura 3.2
Número de ONG com
estatuto consultivo
junto do Conselho
Económico e Social da
ONU

Fonte:
http://www.staff.city.ac.uk/
p.willetts/NGOS/NGO-GRPH.HT

84 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Desenvolvimentos que têm sido tomados como indicadores de uma crise

de democracia, como o declínio da filiação partidária e da adesão a sindicatos,

podem, de facto, sinalizar que as formas clássicas de participação política se

tornaram insuficientes, às vezes até mesmo inadequadas, para agregar e articular

a multiplicidade de interesses em jogo na arena pública. Podemos pensar nas

novas formas, como as redes de solidariedade que têm vindo a evoluir como

complementares às formas democráticas canónicas de fazer política, mais em

sintonia com as preocupações locais e transnacionais. Naturalmente, as várias

novas formas de mobilização coletiva que hoje observamos precisam de ser

testadas, e devem ser avaliados os esforços concertados para explorar as suas

potencialidades antes que possamos decidir se, de facto, contribuem para

institucionalizar mecanismos de governança mais democráticos, talvez mesmo

numa escala global.

Igualdade, desigualdade e diferença

O terceiro e último processo de mudança cultural a ser considerado aqui refere-se

às formas como concebemos a igualdade e a diferença. Como muito bem sabemos,

a ideia de igualdade como valor central é uma das principais características da

modernidade. A noção de diferenças naturais que em tempos pré-modernos

justificava hierarquias sociais rígidas deu lugar à ideia de que o oposto de “igual” é

“desigual”, e já não “diferente”. Para resumir uma longa história, a própria palavra

“desigualdade” não existia antes de se questionar a ideia de diferenças naturais

entre nobres e plebeus. A inclusão revolucionária da “igualdade” na bandeira da

revolução francesa marcou o surgimento da “desigualdade” como seu oposto.

A palavra “desigualdade” como o contrário da “igualdade” tem, portanto, uma

existência relativamente recente, refletindo uma forma diferente de conceber a

sociedade.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 85


Figura 3.3
Atitudes perante
a desigualdade de
rendimento ao nível
mundial

Fonte:
Investigação Mundial de
Valores

A mudança de atitudes em relação às desigualdades segue essa longa

tendência (figura 3.3). Tornou-se tão bem consolidada a ideia de Estado-nação,

como a fusão de solidariedade e autoridade, que ainda hoje a consideramos como

a manifestação mais natural da sociedade: falamos da sociedade americana,

da sociedade portuguesa, da brasileira, etc., como se a pertença social fosse

essencialmente determinada pelas fronteiras dos Estados nacionais. No entanto,

nas últimas décadas, quando o globalismo como ideia compartilhada e como

realidade empírica começou a desafiar os princípios básicos do Estado-nação,

algumas das suas reivindicações tomadas por garantidas foram substituídas por

novas formas de olhar o mundo. O próprio surgimento da solidariedade como um


recurso social distinto do Estado e do mercado, mencionado na secção anterior, é

parte da mudança cultural que envolve a nossa perceção da sociedade.

Na verdade, a noção de cidadania que surgiu no âmbito do modelo de

Estado-nação da Europa Ocidental foi sobretudo um remix cultural de velhos

ingredientes. Estados e nações eram velhos sujeitos; os primeiros referiam-se a

governantes e, os segundos, a grupos de pessoas unidas por etnia, fé, língua ou

qualquer outro critério de identidade. A fusão dos dois na fórmula do Estado-

nação foi um produto cultural que fez a identificação com a nação e a aceitação da

autoridade do Estado enquanto uma e a mesma coisa. Pertencer a um território

e conferir legitimidade ao Estado que o preside tornou-se a cabeça e os pés do

estatuto de cidadão. A igualdade dos indivíduos era a igualdade dos cidadãos. Os

86 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


indivíduos partilhavam a lealdade à nação e viviam segundo as mesmas leis do

Estado.

O facto de as diferenças entre os indivíduos (sejam elas de género,

rendimento, raça etc.) continuarem a excluir muitos foi escondido sob o sucesso

da fusão ideológica da nação e do Estado. Durante muito tempo, o modelo

moderno de cidadania, enquadrado como uma espécie de identidade coletiva


primordial dada pela pertença à comunidade nacional, provou ser capaz de alargar

gradualmente tanto o âmbito dos direitos incluídos, como o número de pessoas

que a eles tinham direito. Da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,

emitida pelos revolucionários franceses, à Declaração dos Direitos Humanos das

Nações Unidas, em 1948, foi percorrido um longo caminho. Não há dúvida de que,

em muitos casos, ainda precisamos de garantir os direitos efetivos das mulheres e

de muitas minorias. As críticas que algumas pessoas e organizações expressaram

sobre a Declaração dos Direitos Humanos levantaram questões relevantes. As

suas afirmações sobre o viés ocidental da declaração lançaram uma sombra sobre

a sua suposta universalidade. No entanto, apesar da pertinência de tais críticas,

a própria pretensão de universalidade tem desempenhado um papel estratégico,

fornecendo argumentos para conferir um significado mais profundo à igualdade

e expandir o âmbito da solidariedade.

Um fator-chave dessa evolução nas normas e perceções sociais tem sido a

expansão da vida urbana, que continuará nas próximas décadas, especialmente

nos países em desenvolvimento. Ao contrário das povoações rurais, e apesar

das várias formas de segregação espacial, as cidades oferecem muitos lugares

onde as pessoas de todas as classes sociais se encontram e têm de enfrentar as

suas diferenças e desigualdades. O espaço urbano é o palco de uma constante

competição pelo espaço e pela visibilidade. O desenvolvimento da vida urbana

contribuiu, portanto, para o surgimento de uma nova perceção da vida social

como um reino de desigualdades e não apenas de complementaridade funcional,

mas também tornou as desigualdades mais vivas e menos aceitáveis. As cidades

contêm a maior mistura de problemas sociais, mas são também espaços

estratégicos para abordar esses problemas. É no espaço urbano que as interações

de diversos mundos – social, político, cultural – se tornam parte da vida quotidiana.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 87


A busca pela justiça social é, portanto, em boa parte, uma busca pela cidade justa

(IPSP, 2018, capítulo 5).

Sem dúvida, foram feitos progressos. As formas plurais e as condutas da

vida adquiriram respeito, muitas imposições patriarcais foram abolidas, as famílias

estão a tornar-se mais plurais e as identidades sociais tornam-se mais fluidas à


21
medida que incorporam a liberdade de pertença. Começando lentamente na
década de 1960, as diferenças entre os seres humanos voltaram gradualmente à

linha da frente, agora já não invocadas para justificar hierarquias sociais rígidas,

mas sim para fundamentar reivindicações por igualdade, reconhecimento e

respeito.

Tal processo de mudança cultural tem vindo a afirmar a ideia progressista

de que tanto a igualdade como a diferença não são valores antagónicos, mas

sim valores positivos compatíveis que, em conjunto, podem fornecer uma

justificação moral para a crescente inclusão social. As injustiças seculares têm sido

confrontadas em diferentes contextos por políticas específicas que visam suprimir

preconceitos profundamente enraizados sobre raça, género e orientação sexual

(figura 3.4). Observamos, por exemplo, que no Brasil, onde o tradicionalmente

alto nível de miscigenação alimentou o mito de uma democracia racial, apesar da

flagrante exclusão social dos negros, a introdução de políticas compensatórias

como as quotas para estudantes negros nas universidades públicas aponta para

uma mudança cultural significativa. Além disso, a mobilização coletiva tem sido

crucial, não apenas para reforçar a legitimidade das políticas de ação afirmativa,

mas também para fortalecer uma identidade negra que, por sua vez, contribui

para mobilizar estratégias de combate à estigmatização. Tanto a iniciativa política

como a mobilização coletiva têm contribuído para reinterpretar a ideia de uma

democracia racial, agora como um ideal a ser atingido, em vez de um mito


22
invocado para perpetuar a desigualdade.

No que diz respeito ao género, abundam as evidências sobre uma

consciência crescente de que as diferenças devem ser explicitamente

reconhecidas para promover a igualdade. Observamos, por exemplo, que as

21 Ver, em particular, IPSP (2018, capítulo 17).

22 Sobre a ação afirmativa no Brasil, ver Francis e Tannuri-Pianto (2013) e Telles (2004).

88 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


políticas de equilíbrio de género estão agora institucionalizadas em muitos países

e contribuem significativamente para reduzir o défice de mulheres em atividades

científicas, tecnológicas e políticas, percebidas no passado como naturalmente

destinadas ao homem. Ainda há muito trabalho a ser feito em prol da igualdade

de género, e as mulheres ainda sofrem muito, não apenas com a desigualdade,

mas também com a violência. No entanto, também nessa frente, as coisas


estão a mudar (figura 3.5). A recente onda de movimento de protesto nas redes

sociais contra o assédio sexual, que começou com o caso Weinstein nos EUA e se

espalhou por muitos países, ecoa o progresso feito na repressão legal da violação

e dos crimes de honra nos países asiáticos, ou ainda a extensão dos direitos das

mulheres no Médio Oriente e no Norte de África.

Figura 3.4
Atitudes sobre a
homossexualidade

Fonte:
Investigação Mundial de Valores

Figura 3.5
Atitudes em relação aos papéis
de género

Fonte:
ISSP, Família e Mudança do Papel do
Género
Nota: amostra (Áustria, Alemanha, Grã-
Bretanha, Hungria, Irlanda, Países Baixos,
EUA)

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 89


Olhar para o futuro

O movimento para conciliar o princípio da igualdade, tal como definido no início do

período moderno, com os direitos coletivos baseados em diferenças partilhadas,

já estava, em certo sentido, incorporado na própria noção de igualdade, mas

foi necessário o envolvimento ativo dos atores sociais para o tornar vivo. Tem

sido a mobilização concreta de grupos que lutam pelo reconhecimento e pela

reivindicação de direitos que tornou possíveis novos avanços para superar

desigualdades profundamente enraizadas.

Como cada um de nós está inserido num contexto histórico particular,

pode parecer que a tradição cultural a que pertencemos foi a que abriu caminho

para outras tradições. Esse viés etnocêntrico, essa noção de que o nosso próprio

legado cultural é o ponto de referência para a humanidade faz parte da visão

míope que o progresso tem contribuído para superar. Gradualmente, vamo-

nos tornando mais conscientes de que as mudanças culturais que comentámos

acima não são o resultado de um alinhamento de populações dominadas com a

civilização ocidental. Muito pelo contrário, várias culturas em diferentes partes do

mundo resistem à influência ocidental, mas, ao mesmo tempo, mostram as suas

valiosas perspetivas sobre os valores humanos básicos.

Observamos, por exemplo, que os sul-africanos têm a sua noção de vínculo

social e a sua forma de lidar com a justiça, a reconciliação e a reparação após

conflitos graves. Entre os andinos, vemos uma noção de ecologia baseada numa

visão da humanidade que habita a Terra de uma forma respeitosa. Também na

América Latina foram experimentadas formas inovadoras de envolver os cidadãos

em processos participativos, sugerindo que a democracia pode ser estendida além


23
da sua esfera política tradicional. Os indianos desenvolvem várias organizações

da sociedade civil que coordenam e emancipam diferentes tipos de trabalhadores

informais. Os juízes do Médio Oriente e do Norte de África têm concedido maiores

direitos às mulheres em assuntos matrimoniais dentro do quadro geral islâmico.

Em conclusão, longe de abraçar os valores ocidentais, verifica-se que o mundo

converge, talvez por uma lenta seleção dos valores que geram menos sofrimento

23 Ver mais sobre o assunto no capítulo 8 e em IPSP (2018, capítulo 14)

90 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


e menor resistência.

Num mundo globalizado, os contactos entre culturas oferecem

oportunidades e riscos de enriquecer ou empobrecer as influências cruzadas.

Não é muito difícil, no mundo pós-colonial, ver que a abordagem mais promissora

é a de um diálogo respeitoso entre culturas (por exemplo, sobre como ver o lugar

da vida humana no cosmos, o lugar do indivíduo no grupo), com possibilidade


de evolução mútua. Corroborando a nossa observação de que a igualdade e

a diferença, anteriormente percebidas como antagónicas, são cada vez mais

instrumentais entre si, a ideia ocidental de modernidade vista através da lente

da individualização e da separação dos laços tradicionais está, na verdade, a

retroceder, dada a imperiosa necessidade humana de inclusão social.

Olhando para o desenvolvimento histórico do ideal de igualdade e a sua

ocultação das diferenças, torna-se mais claro por que razão a necessidade de

reconhecimento surgiu nas últimas décadas como crucial nos grupos que foram

ou que ainda estão privados do acesso à plena adesão nos seus contextos sociais.

O reconhecimento tornou-se um elemento-chave nas reivindicações

de igualdade que mobilizam género, etnia, religião, língua ou qualquer outra

especificidade possível que, implícita ou explicitamente, tem sido usada para privar

grupos de pessoas da igualdade que tradicionalmente fundamentam noções de

participação em comunidades nacionais. Além disso, cada vez mais observamos

exigências para o reconhecimento de identidades apresentadas por grupos que

não veem a sua particularidade como estando em conflito com a identidade

nacional. Muitos dos que reivindicam agora o reconhecimento da distinção do

seu grupo veem-na como uma condição para afirmar a sua individualidade. A

visão de que as identidades são escolhidas e contingentes está a registar uma

aceitação crescente, não como negação, mas antes como afirmação plena da

individualidade.

A forma como evoluíram as nossas conceções de diferença, igualdade e

desigualdade é uma boa ilustração da dinâmica da cultura. O ideal de igualdade

teve um impacto definitivo na expansão do círculo da solidariedade humana, mas

não é algo que envolva automaticamente a sociedade. Os seus desenvolvimentos

estão ligados ao envolvimento ativo de indivíduos e grupos que, procurando atingir

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 91


objetivos concretos, acrescentam mais significado à igualdade. Essa é a dinâmica

da mudança cultural para o cosmopolitismo das sociedades, a pluralização das

famílias e a aceitação das diversidades racial, de género e religiosa, processos que

parecem irreversíveis.

Uma vez que as ações humanas colocam o mundo em movimento,

a regressão também é possível. Sabemos que a reação e a resistência podem


ser fortes e violentas. Continuamos a confrontar-nos com muitas situações que

contestam abertamente as tendências progressistas observadas. No entanto, é

crucial ter em mente que, em vez de constituírem manifestações de um choque

de civilizações, como alguns pretendem, tais reações violentas apontam para

tentativas desesperadas de grupos específicos de neutralizar o potencial de

tolerância e compreensão. Temos boas razões para partilhar valores comuns,

respeitando as diferenças. O respeito partilhado pela diversidade é o que pode

constituir o cimento de um sentimento generalizado de respeito entre as pessoas.

Ao incorporar o valor da diversidade, tornamo-nos capazes de lutar por um

mundo mais igualitário, mais tolerante e mais rico. No entanto, não é no conforto

do relativismo que buscamos a tolerância. A justiça social, os direitos humanos

e a fraternidade continuam a ser valores universais, a base ética que justifica o

engajamento ativo dos atores sociais responsáveis.

Além do argumento falacioso sobre um choque irremediável de visões de

mundo, devemos também precaver-nos contra a visão oposta que prevê uma

convergência irremediável de culturas. A ideia de que o processo de globalização

em curso irá extinguir as culturas tradicionais, reduzindo o mundo a um único

padrão de costumes, práticas e ideias, constitui outra falácia. Para sustentá-la é

preciso ignorar que a cultura é precisamente esta combinação única de mudança

e continuidade. A história mostra-nos que os seres humanos mudam as suas

visões de mundo e, ao mesmo tempo, mantêm a sua distintividade graças aos

traços peculiares há muito estabelecidos no seu contexto.

Porque todos nós estamos inevitavelmente imersos em processos

históricos, o que herdamos do passado é reprocessado no presente, mas de

alguma forma permanece vivo. Daí, deriva o facto de que, enquanto as formas

comuns de agir e pensar se tornam compartilhadas numa escala global, as culturas

92 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


locais permanecem vivas e podem até mesmo ganhar força, já que melhores

recursos de comunicação, melhorando a visibilidade, também contribuem para

uma solidariedade renovada.

Observou-se que as pessoas que emigram são muitas vezes as primeiras

a utilizar as redes sociais como instrumento para se religar às suas origens

culturais e, no esforço de forjar uma identidade no novo contexto, contribuir para

reavivar as tradições. Foi relatado, por exemplo, que, em alguns países africanos,

as celebrações religiosas e laicas que desapareceram ganharam força renovada

nos últimos anos, ajudando a reunir residentes e não residentes. Também são

ilustrativos os relatórios sobre comunidades nativas geograficamente segregadas

que encontram apoio nas redes sociais para as suas reivindicações de preservar

as tradições. Níveis mais locais de governo, como regiões, províncias ou cidades,

têm, em alguns casos, oferecido a escala relevante para a introdução de reformas

sociais experimentais e iniciativas comunitárias, tornando-se vetores fortes para

o progresso social em maior escala.

Os exemplos acima mencionados sugerem que a aparente contradição

entre dois tipos distintos de cultura – um global e outro restrito a grupos menores

– tem sido um elemento positivo para expandir o círculo humano de solidariedade.

À medida que as pessoas percebem a possibilidade de compartilhar valores sem

renunciar às suas formas singulares de ser e agir, constroem pontes sólidas que

aumentam a compreensão mútua, sinalizando que podemos pertencer a um

círculo de solidariedade maior sem abrir mão de formas de viver compartilhadas

apenas com grupos restritos.

Tudo considerado, a constatação de que a nossa conceção de sociedade

tem vindo a mudar historicamente, desalojando preconceitos profundamente

enraizados, abre perspetivas promissoras para o futuro da humanidade.

Refletindo sobre as grandes transformações culturais que ocorreram ao

longo dos últimos 200 anos, observamos que o círculo de respeito e dignidade

cresceu. Além disso, o apelo à inclusão social dos muitos ainda deixados para

trás permanece vivo, como eloquentemente afirmado nos ODS propostos pelas

Nações Unidas. A noção de que o que nos torna seres humanos é o facto de

partilharmos um igual valor originou progressos. A ideia de que somos iguais

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 93


uma vez que partilhamos a nossa própria humanidade continua a ser uma força

cultural motriz.

No entanto, como já mencionado, devemos lembrar-nos constantemente

que, embora possamos identificar um processo cultural de longo prazo que supere

visões profundamente enraizadas sobre as diferenças humanas supostamente

naturais que justificam a desigualdade, não devemos deduzir dele que a história
apenas cumpre um destino manifesto em direção à igualdade social progressiva

e à solidariedade expandida. As ações concretas das pessoas são as forças que

impulsionam as mudanças na forma como vemos o mundo. É por isso que os

elementos culturais podem contribuir para forjar o progresso e desencadear

forças retrógradas.

Nenhum progresso social automático está assegurado. Como observado

nos capítulos anteriores, a desigualdade é desenfreada dentro dos países e entre

eles. Há muitas evidências de que o movimento para a solidariedade expandida

encontra fortes reações em muitos contextos e enfrenta retrocessos que podem

até mesmo colocar em perigo os progressos já alcançados. Recordemos, por

exemplo, que as minorias étnicas e religiosas têm sido perseguidas em vários

contextos ou que as reivindicações dos direitos das mulheres têm recebido

respostas violentas em mais de um país. São muitos os exemplos de discriminação

sistemática e mesmo de perseguição aberta com que o mundo ainda vive. Tristes

ilustrações são a vitimização dos cristãos na Nigéria contemporânea ou a atroz

punição legal e ilegal dos homossexuais que ainda ocorre em muitos países.

Segundo relatos recentes, a homossexualidade é punida com a morte no Sudão,

Irão, Arábia Saudita e Iémen, e em partes da Nigéria e da Somália. As estatísticas

sobre a violência contra as mulheres mostram que ela alastra por todo o lado.

Recordemos os relatos dramáticos das raparigas paquistanesas e afegãs que são

vítimas de violência só porque ousam matricular-se nas escolas.

Há mesmo tentativas retrógradas de reduzir os direitos humanos já

estabelecidos em democracias ricas e há muito consolidadas, como ilustram

de forma dramática os desenvolvimentos em curso que restringem a liberdade

naquilo que considerávamos democracias maduras.

Seja como for, os progressos alcançados na vida social constituem causa

94 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


e consequência de mudanças culturais que surgiram, não como forças cegas,

mas como resultado de esforços humanos. Esforçando-se por assegurar ideais

e interesses específicos, as pessoas reúnem-se, contribuindo muitas vezes para

fazer avançar os objetivos de uma forma que não anteciparam, tornando-se assim

parte dos movimentos de longo prazo em direção a uma solidariedade alargada.

Foi um longo processo de mobilização por causas específicas que converteu os


valores da igualdade e do valor humano universal em moeda cultural comum.

É por isso que os transgressores contemporâneos de tais valores precisam de

recorrer a desculpas, disfarces e distrações várias. Pois já não é socialmente

aceitável sustentar que alguns tipos de pessoas merecem naturalmente valor,

enquanto outros são naturalmente desprovidos dele. Raras são as vezes em que

encontramos pessoas que defendam a necessidade de preservar a desigualdade

enquanto tal. A retórica daqueles que se opõem a medidas para reduzir a

desigualdade de rendimentos, por exemplo, defende geralmente que tais medidas

farão ricochete, implicitamente condenando o valor ético da igualdade.

Embora cada uma das três grandes mudanças culturais que mencionámos

tenha tido consequências específicas, são parte integrante de uma mudança

global, cuja característica mais geral é uma consciência crescente do destino

comum dos seres humanos. Essa consciência está subjacente às reivindicações de

proteção ambiental global, de alargamento do círculo de solidariedade além das

fronteiras nacionais e de conceção das diferenças das pessoas como merecedoras

de respeito no seio do destino planetário convergente que todos partilhamos.

O incrível quebra-cabeças de culturas, com a sua mistura de continuidade e

mudança, faz parte da aventura humana. Tanto para persistir como para mudar,

as formas de conceber o mundo dependem do envolvimento ativo de pessoas

reais. O envolvimento com as ideias de respeito das diferenças, a exigência de

igualdade e de reconhecimento não se impõe como defesa de princípios abstratos,

mas como defesa de princípios de causas concretas. No entanto, quaisquer que

sejam as causas, a educação e o acesso à cultura devem ser apoiados para ajudar

a criar (ou consolidar) a atmosfera de tolerância e reconhecimento mútuo entre

os indivíduos. Aprender sobre os outros e partilhar as suas experiências são

instrumentos poderosos para desconstruir fronteiras simbólicas que convertem

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 95


as diferenças (sejam elas religiosas, étnicas, nacionais ou raciais) em barreiras

à compreensão mútua. A consciência da riqueza da diversidade humana tem

crescido lentamente, em grande parte graças ao envolvimento ativo de educadores

e empreendedores sociais e culturais.

Como o IPSP (2018, capítulo 19) discute longamente, a educação – e cada

vez mais a educação superior, conforme os níveis de educação aumentam para


uma parte da população em rápido crescimento em todo o mundo – pode ser

um instrumento poderoso para promover o progresso, não só porque contribui

para formar capital humano no sentido estritamente económico, mas também

porque trabalha para alargar a perceção do mundo e das suas possibilidades. À

medida que se aprende sobre outras formas de viver e outras visões do universo,

existem novas janelas que se tornam, na verdade, novas portas para o futuro.

Desta forma, embora múltiplas modernidades estejam a surgir em várias partes

do mundo, podem sugerir, com muitas variantes, um ideal de uma combinação

equilibrada entre o indivíduo e o todo na perspetiva de todos sobre o que torna

a vida valiosa. Neste ideal, a vida coletiva é parte da vida individual, como algo

que dá sentido, objetivos e cores a valores básicos como liberdade, igualdade e

harmonia com a natureza.

96 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Capítulo 4
O grande desafio
Os capítulos anteriores mostraram que ameaças muito graves pairam sobre o

mundo, causadas principalmente pela ação humana, por más instituições e más
políticas, mas esses capítulos também ofereceram razões para se ter esperança.

A globalização e a tecnologia não são inimigas da espécie humana; podem ser

domesticadas e reorientadas para servir melhor as populações. E as atitudes em

relação a raças, géneros, orientação sexual, animais e natureza estão lentamente

a mudar para uma visão de mais respeito. Essa tendência cultural é um grande

trunfo para promover melhores relações sociais e uma melhor gestão ambiental.

Este capítulo apresenta a tarefa de uma forma mais precisa e deixa um

alerta: não será fácil. Não podemos simplesmente fazer pequenas mudanças,

pequenos ajustes de políticas, e evitar as crises que se aproximam. É necessária

uma transformação mais fundamental. Acreditamos que essa transformação é

possível e, na segunda parte do livro, explicaremos como ela pode ser vista. Por

enquanto, vamos examinar a tarefa desafiadora que o mundo está a enfrentar.

A tarefa que temos pela frente pode ser resumida desta forma: três objetivos

principais devem ser propostos e alcançados em conjunto, e eles relacionam-se


com três valores fundamentais:

1. equidade: reduzir as desigualdades de desenvolvimento entre países e


as desigualdades sociais dentro deles;

2. sustentabilidade: reconduzir o planeta a um caminho que preserve os


ecossistemas e os seres humanos das gerações futuras;

3. liberdade: expandir e aprofundar as liberdades básicas, o Estado de

direito e os direitos democráticos para todas as populações.

Estes três objetivos aparecem de forma proeminente nos ODS da ONU da

Agenda 2030, entre outros – há 17 no total. No entanto, os outros objetivos podem


ser ligados a estes três, que servem como porta-estandartes úteis das principais

questões que necessitam de ser abordadas pelo mundo durante este século.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 97


O que é desafiador sobre esses três objetivos é que cada um deles é

necessário para o desenvolvimento de um cenário positivo para a justiça social

e o futuro do planeta, mas a sua combinação não é óbvia, porque a busca por

dois deles induz a uma tensão potencial relativamente ao terceiro. Cenários em

que dois são realizados com sucesso às custas do terceiro são referências úteis

para analisar as armadilhas que nos esperam no futuro, as formas pelas quais
podemos não conseguir evitar as catástrofes iminentes descritas no capítulo 1.

Este capítulo explora os três cenários de fracasso em que uma meta é

perdida. O objetivo não é transmitir uma perspetiva de desgraça e pesar, mas

ajudar a identificar os desafios relevantes e explicar melhor por que razão

nenhuma das metas pode ser marginalizada e negligenciada. Tais cenários

também mostram porque atingir dois dos objetivos pode parecer mais fácil se o

terceiro for abandonado. A segunda parte do livro explorará como perseguir os

três objetivos simultaneamente.

O cenário do Apartheid

Imaginemos o mundo em 2050, num cenário em que conquistas significativas

podem ser celebradas como resultado da liberdade e da sustentabilidade. Em

tal cenário, a parcela da população que vive em democracias tem continuado

a aumentar, como se poderia esperar pela figura 1.4. O aumento ocorreu

principalmente graças à abertura política da China por volta de 2030: perante uma

população educada e afluente, não se poderia mais governar à moda antiga.

Quanto à sustentabilidade, após algumas hesitações, os EUA e a China, aos

quais se juntou mais tarde a Índia, reuniram-se com a Europa para promover a

investigação e o investimento em energias renováveis e reduzir drasticamente as

emissões de gases com efeito de estufa. A aparente desaceleração no final da curva

que se podia examinar quando este livro foi escrito, como na figura 4.1, acabou,

após um último salto em 2017-2019, por marcar o pico das emissões industriais

mundiais de CO2 e o início real da transição verde para o mundo desenvolvido.

98 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor


Figura 4.1
Emissões de CO2 no mundo

Fonte:
Global Carbon Project e Boden, T. A., G.
Marland, e R. J. Andres, “Global, regional,
and national fossil-fuel CO2 emissions”,
Oak Ridge National Laboratory, US
Department of Energy, Oak Ridge, Tenn.,
EUA, doi 10.3334/CDIAC/00001_V2017,
2017; disponível em: http://cdiac.ess-dive.
lbl.gov/trends/emis/overview_2014.html

Graças ao impulso liderado pelos principais emissores e à ausência de

novas economias emergentes, a concentração de gases com efeito de estufa na

atmosfera parece estar em bom caminho para manter a temperatura média abaixo

de um aumento de 2°C acima do nível pré-industrial, pelo menos até ao final do

século. Outras questões, como a biodiversidade e a gestão da água, são menos

cor-de-rosa, especialmente porque a falta de desenvolvimento em muitas partes

do mundo, especialmente nas latitudes mais baixas, leva a falhas na preservação

da vida selvagem e a más infraestruturas hídricas. Os conflitos pelo uso da água

no Médio Oriente e na África Subsariana comprometem a estabilidade política na

região.

O principal problema deste cenário, de facto, é que o objetivo de equidade

não foi alcançado. Na verdade, o desenvolvimento continuou praticamente ao

longo do caminho iniciado no início do século. Alguns sinais promissores pareciam

então aparecer, quando a distribuição do rendimento, em todo o mundo, passou

de um padrão polarizado, no qual os países ricos se haviam distanciado do resto

do mundo e criado um cume de vanguarda na forma de distribuição, para um

padrão de cume único, mostrando alguma capacidade de agregar diferentes

países e realidades. A figura 4.2 agrupa as distribuições de rendimento das várias

regiões do mundo para formar a distribuição mundial:

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 99


Figura 4.1
Distribuição do
rendimento no
mundo

Fonte:
O Nosso Mundo em Dados

Mas esse movimento promissor foi quase inteiramente devido ao facto

de a China ter subido pelo topo acima do monte e ter formado uma grande

protuberância com a sua enorme população. Se se retirasse a China dos

gráficos, a melhoria pareceria muito mais modesta, e os dois cumes separados

permaneceriam distintos. Em meados do século, continuando com tendências


semelhantes, a China alcançou a Europa e os EUA, e a Índia iniciou um movimento

de recuperação significativo. A América Latina cresceu a um ritmo que não

foi suficiente para reduzir o fosso com os países ricos. De facto, uma taxa de

100 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
crescimento de 1,5% adicionou mais de 450 US$ ao rendimento médio de um

americano em 2010, enquanto a América Latina teria precisado de uma taxa de

crescimento de 6,6% para, simplesmente, manter a distância. O verdadeiro drama

é a África, que, em 2050, falhou em descolar, após falsas partidas de alguns países

como a Etiópia, o Gana e o Maláui, devido a problemas políticos esmagadores

alimentados pela violência étnica e religiosa, bem como por desastres ecológicos.
A figura 4.3 projeta o crescimento económico nas várias regiões do mundo,

supondo que, desde 2010, tenham mantido as taxas de crescimento de 1990-2010

(para a China, a taxa de crescimento é de 6%, inferior à média de 7,6% observada

em 1990-2010, mas ainda assim suficiente para alcançar os países ricos).

Figura 4.3
PIB per capita no mundo
(1950-2010; projeção
para 2050)

Fonte:
Projeto Maddison para 1950-2010; cálculos
próprios para projeções

Em 2050, a diferença de padrões de vida entre ricos e pobres tornou-se tão

impressionante que é impossível que a pressão migratória não atinja proporções

gigantescas. Além disso, a população em África, seguindo as projeções feitas no

início do século, aumentou em 1,3 mil milhões de pessoas entre 2015 e 2050, mais

do que duplicando a sua população. O triste aspeto de tal cenário é que os países

ricos, apesar da sua população em declínio e envelhecimento, e na verdade por

causa desse padrão demográfico que fez o seu eleitorado radicalizar-se no apoio

à sua identidade nacional e ficar temeroso em relação à diversidade cultural,

mantiveram as portas fechadas para as massas necessitadas dos países pobres. A

situação do Apartheid global, em 2050, parece completamente insustentável, e os

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 101
custos surpreendentes dos muros e das patrulhas fronteiriças, além do número

chocante de migrantes que morrem ao tentar atravessar cercas elétricas e águas

perigosas, anunciam uma grande crise nos próximos anos.

É claro que é difícil imaginar uma migração maciça sem uma perturbação

grave das comunidades de acolhimento e de envio. A questão da migração tem

sido politicamente volátil na Europa e nos EUA desde o final do século XX, embora
os números dos fluxos migratórios tenham sido ridículos em comparação com

a escala das potenciais migrações. Em 2050, há muito mais motivos para nos

preocuparmos com a probabilidade de conflitos étnicos violentos e em grande

escala na Europa e nos EUA, mesmo guerras civis, em caso de afluxo maciço.

As migrações não são a única fonte de stresse. As enormes lacunas nos

padrões de vida alimentam um forte ressentimento nas antigas colónias deixadas

para trás, promovendo disputas nas instituições globais (como testemunhado na

queda das instituições globais criadas no século XX), bem como a violência local e

o terrorismo global.

Outra característica preocupante relacionada com esse cenário é que

as desigualdades dentro dos países também têm continuado a aumentar. Em

particular, os primeiros 1% e ainda mais os primeiros 0,1% continuaram a colher

as maiores parcelas de rendimento e acumularam mais riquezas. A conexão entre

as desigualdades internacionais e nacionais é que a política de identidade e até

mesmo a retórica populista têm sido usadas para sufocar os protestos sociais.

Começando na Europa, com o voto no Brexit, e nos EUA, com uma presidência Trump

tumultuosa, os acordos comerciais multilaterais foram sendo desconsiderados e

a ajuda externa diminuiu. A globalização tem sido abruptamente restringida, o

que tem minado as possibilidades de os países pobres descolarem.

Enquanto isto, a tendência de desigualdade nacional continuou quase

inalterada. Surgiu uma forma de Apartheid interno, em que os ricos não se

misturam com o resto da população, mas refugiam-se em domínios exclusivos

e privados e adotam um modo de vida que não depende de bens e serviços

fornecidos pelo Estado, mesmo para a proteção da propriedade privada que é

administrada por empresas de segurança.

Os que são deixados para trás, nesse cenário, não se unem. Pelo contrário,

102 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
a única cola que mantém as classes trabalhadoras dos países ricos ligadas a

políticos que não as servem bem é a promessa de manter as portas fechadas à

concorrência dos migrantes e de reprimir as minorias.

Os extremistas ou terroristas políticos e religiosos ganham importância à

medida que os seus atos violentos oferecem meios altamente mediatizados para

contestar a situação insatisfatória ao nível local e global. A retórica nacionalista e


racista alivia a agitação social. A elite rica não vai atrás dos místicos das fronteiras

fechadas ou racialistas, mas está disposta a tolerar isso como a única forma de

preservar os seus privilégios. Em tal situação, os intelectuais cosmopolitas liberais

estão em perda, porque os seus apelos por políticas mais generosas dentro dos

países desenvolvidos e em relação aos países menos desenvolvidos caem no

vazio – a maioria da população não quer ouvir falar de pelo menos uma parte

(interna ou externa) de tal pacote de generosidade.

Acabemos aqui com este cenário distópico. Não há futuro sem equidade.

No célebre relatório Our Common Future, de 1987, preparado sob a liderança da

ex-primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland, a sustentabilidade

é definida baseando-se em três pilares: o económico, o social e o ambiental. A

equidade, a redução das desigualdades, é essencial para o pilar social. Neste

cenário, vê-se que o progresso da liberdade e da democracia só pode ser muito

limitado, e está seriamente comprometido por excessos populistas na política

nacional.

O desafio desse cenário é que deixar uma parte importante da população

mundial em estado de subdesenvolvimento faz parte da equação que a torna um

sucesso para a sustentabilidade, pelo menos para o problema climático. A questão

a ser abordada mais adiante neste livro, então, é: o que precisa de ser mudado

neste cenário para combinar equidade com sustentabilidade num mundo livre?

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 103
O cenário de fim da história

Este cenário defende a visão de Francis Fukuyama de que as instituições do

mundo livre representam o estágio final da humanidade. Nessa visão, a economia

de mercado e as instituições políticas da democracia liberal são a chave para o

desenvolvimento económico e humano e nada melhor foi inventado.


Imagine, então, que as elites que se reúnem em Davos reconheceram,

finalmente, que o mundo clama por uma melhor gestão da coesão social, tanto a

nível internacional como nacional. Perceberam que as crescentes desigualdades

farão com que os movimentos migratórios fiquem fora de controlo e alimentem

movimentos de protesto cada vez mais perturbadores. Têm-se preocupado com

o Podemos e o Syriza, mas assustam-se ainda mais com Orbán, Erdogan, Putin

e Trump, porque enquanto o populismo de esquerda traz políticas económicas

e sociais desfavoráveis aos negócios, o populismo de direita traz de volta a

perspetiva da guerra. E também reconheceram que o alto grau de corrupção que

assola a maioria dos países, tanto nos investimentos económicos como no jogo

político, tem de ser drasticamente restringido se quisermos restaurar a confiança

do público nas instituições.

Não se deve imaginar que as elites económicas e políticas são sempre

gananciosas e míopes. Considere-se, por exemplo, o que aconteceu quando

Ronald Reagan tentou cortar a Agência de Proteção Ambiental (EPA), em 1980,

reduzindo regulamentos que via como um obstáculo ao desenvolvimento de

negócios. Em dois anos, o público perdeu a confiança no governo e nas empresas

para a preservação de um ambiente saudável – especialmente na água e no ar –,

e a EPA foi o epicentro de muitas lutas.

Reagan apelou a Michael Ruckelshaus, que tinha sido responsável pela

EPA na administração de Richard Nixon, que voltasse a Washington para corrigir


24
a situação. Para grande surpresa de Ruckelshaus, a indústria química apressou-

se a encontrá-lo e argumentou que eram necessárias uma forte regulamentação

ambiental e uma EPA robusta para restaurar a confiança do público na indústria.

Quando as coisas se tornam realmente más, as elites acabam por ver que o seu

24 https://www.nytimes.com/2017/03/07/opinion/a-lesson-trump-and-the-epa-should-heed.html.

104 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
interesse de longo prazo passa por fazer concessões às exigências e necessidades

da população.

Assim, neste cenário, na maioria dos países os esforços para limpar as

instituições fortaleceram o Estado de direito, melhoraram a estabilidade para

os investidores e permitiram que muitos países iniciassem o seu caminho de

recuperação rumo a padrões de vida decentes para a maioria das populações.


Da mesma forma, nos países desenvolvidos, libertar as instituições políticas da

captura por interesses económicos e financeiros permitiu que fosse ouvido e

implementado o forte desejo da população por políticas sociais mais equitativas

e uma maior redistribuição, incluindo em países como os EUA e o Reino Unido,

onde fortes movimentos conservadores tinham tentado minar as políticas sociais,

exceto aquelas que serviam os pensionistas. Conforme a investigação World Values

Survey, verifica-se que, no início do século XXI, os apoios a uma maior igualdade de

rendimentos e à democracia estão a crescer, como ilustrado para alguns países

na figura 4.4.

Figura 4.4 - Apoio à igualdade e à democracia


Fonte:
Investigação Mundial de Valores (http://www.worldvaluessurvey.org/WVSOnline.jsp)

Esse cenário consegue, assim, combinar uma expansão do Estado de direito,

da liberdade e da democracia, por um lado, e uma redução das desigualdades

de rendimento e uma convergência dos padrões de vida, por outro. O sonho de

uma combinação de economia de mercado bem regulada e democracia liberal

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 105
capaz, de facto, de produzir bons resultados nestas duas frentes, mesmo que,

como discutiremos na segunda parte deste livro, a justiça social exija mais do que

apenas reduzir as desigualdades de rendimento.

O problema com tal cenário é que a propagação do fim da história, ou

seja, das instituições ocidentais, é acompanhada por uma propagação do modo

de vida ocidental, e isso é catastrófico para o planeta. Benthem (2015), ecoado por
um recente relatório do Banco Mundial (2016), refere que cenários de consumo

de energia que pressupõem saltos por parte dos países em desenvolvimento, ou

seja, a adoção generalizada de novas tecnologias mais eficientes do ponto de vista

energético, não parecem realistas. Como mostram as figuras 4.5 e 4.6, extraídas

do seu trabalho, as economias em desenvolvimento não melhoram no caminho

seguido pelas economias desenvolvidas, podendo até parecer pior, no sentido de

que, no mesmo nível de PIB per capita, consomem mais energia per capita.

Figura 4.5
Consumo de energia
em diferentes níveis de
desenvolvimento

Fonte:
Benthem (2015)

A figura 4.6 faz uma comparação semelhante à figura 4.5, em duas

datas: os países industrializados em 1960 (caixas brancas) e os países menos

desenvolvidos nos últimos anos (caixas pretas). A explicação para esses factos

parece estar na adoção de formas mais elevadas de consumo de energia nas

economias emergentes, como o maior uso de automóveis para um determinado

nível de desenvolvimento. Talvez se possa interpretar isto como um reflexo do

desejo de que as pessoas recentemente chegadas a um nível de vida mais elevado

adotem símbolos visíveis e caros de um estilo de vida consumista.

106 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Figura 4.6
Consumo de energia e PIB em
1960 e nos últimos anos

Fonte:
Benthem (2015)

O consumo de energia é apenas um sinal de uma devastação mais geral

que destrói os ecossistemas, acelera a sexta extinção em massa de espécies

que está em curso, perturba o clima e prepara um mundo muito difícil para as

gerações futuras.

Por exemplo, o facto de, nesse cenário, uma após outra, as populações do

mundo saltarem para a escada rolante do desenvolvimento económico reproduz

a aceleração das emissões de CO2 observada na figura 4.1 para a primeira década

do século. Como se mostra na figura

4.6, tal aceleração foi inteiramente


devida ao crescimento das economias

emergentes, ou seja, principalmente

da China.

Figura 4.7
Emissões por regiões do mundo

Fonte:
IPCC AR5, Resumo Técnico, Fig. TS4

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 107
Em conclusão, este é o cenário de sonho que se poderia ter imaginado

em 1970, antes da tomada de consciência das ameaças climáticas e ambientais.

O desenvolvimento económico e humano espalha-se ao lado da expansão da

liberdade e da democracia pelo mundo. Tal cenário seria muito positivo se a

população humana não fosse tão grande e descuidada num planeta tão pequeno

e limitado em recursos. Infelizmente, a forma antiquada de desenvolvimento está


condenada a chocar com um muro. Como diz a anedota, se alguém acredita no

crescimento exponencial contínuo, ou é um louco ou um economista.

A sustentabilidade pode ser definida como a compatibilidade entre as

ações atuais e a preservação das hipóteses das gerações futuras de estar pelo

menos tão bem. Variantes mais rigorosas desta noção, que não se focam apenas

no bem-estar humano, mas também na preservação dos ecossistemas, podem


25
igualmente ser consideradas úteis. Para sermos honestos, já sabemos que a

nossa vida na Terra não será possível em cerca de 500 milhões de anos devido

à radiação excessiva do Sol, e os especialistas consideram realmente improvável

que a nossa espécie ainda esteja por cá daqui a dois milhões de anos. Nalgum

momento, mesmo assumindo viagens interestelares, as coisas vão ficar mal para

os nossos descendentes. A questão não é, portanto, se o nosso bem-estar atual é

sustentável para sempre – não é, muito provavelmente. A questão é por quanto

tempo a espécie humana, e também outras espécies, podem ser sustentadas.

No cenário que acaba de ser descrito, as catástrofes ambientais podem

ocorrer relativamente cedo, numa questão de décadas. Foram descritas no

primeiro capítulo e observam que, exceto por possíveis fenómenos de ponto

de inflexão que podem irromper subitamente, não é tanto a rebelião ambiental

que provavelmente matará muitos de nós, mas os conflitos inter-humanos que o

agravamento das condições de vida inevitavelmente desencadearão.

Por conseguinte, é muito importante não perder de vista o objetivo

da sustentabilidade. Ignorá-lo agora, na busca de uma noção míope de

desenvolvimento humano, pode não apenas comprometer a abundância de um

futuro distante, tecnicamente mais avançado. Pode matar muitos dos nossos

filhos e netos.

25 Sobre a sustentabilidade e a sua mensuração, ver IPSP (2018, capítulo 4).

108 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
O cenário autoritário

A ascensão do populismo nos países ricos torna o cenário do Apartheid mais

provável do que o cenário do fim da história, mas também dá uma perspetiva

bastante medíocre no que diz respeito a alcançar progressos sérios na frente da

liberdade e da democracia. Aqui está, agora, outro cenário em que a democracia

e a liberdade são seriamente restringidas, enquanto se alcança algum sucesso em

relação aos outros objetivos.

Neste cenário, governos autoritários acabam por florescer em muitos

países e, liderados pela China e talvez pela Índia e Indonésia, iniciam várias

mudanças importantes nas políticas globais. Tais mudanças são parcialmente

explicadas pelo facto de esses governos autoritários serem menos míopes do

que as legislaturas democráticas comuns e estarem muito preocupados com

as ameaças de longo prazo à estabilidade do regime geradas por lacunas de

desenvolvimento e degradação ambiental.

Em primeiro lugar, apoiam fortemente o desenvolvimento económico, em

particular através de um forte impulso para transferências de tecnologia e para

a construção de bancos de desenvolvimento regional que contornam os canais

tradicionais de investimento global. Os direitos de propriedade intelectual estão

sujeitos a severas limitações com o objetivo de permitir o desenvolvimento de

gigantes industriais regionais. Os fluxos de capitais são igualmente controlados,

a fim de evitar crises financeiras induzidas por movimentos voláteis. Aprenderam

as lições de duas grandes crises financeiras – a crise asiática de 1997 e a crise

financeira de 2007 – e repararam que os países que controlavam os fluxos de

capital estrangeiro e o seu sistema bancário eram muito mais imunes aos riscos

financeiros globais. Relutantemente, as instituições financeiras globais ajustam-

se a tais iniciativas e aceitam deixar os fundos passar por estes novos bancos,

uma vez que o aumento dos controlos sobre os fluxos de capital limita o fluxo

de grandes investimentos diretos nos países pobres. O investimento asiático em

regiões pobres do mundo, incluindo em África, aumenta e ajuda muitos países a

desenvolver alguma capacidade industrial básica e a modernizar a sua agricultura.

Em segundo lugar, estes regimes adotam políticas voluntaristas de controlo

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 109
populacional. Estas políticas nem sempre são bem-vindas pelas populações

pobres, para as quais as crianças são um recurso importante para o rendimento

adicional e para o apoio na velhice. São implementadas algumas intervenções

autoritárias com grandes penalizações para a segunda e especialmente para a

terceira criança, mas são também acompanhadas por um forte impulso para a

educação das raparigas, esmagando a resistência das culturas tradicionalistas


ainda dominadas pelo patriarcado. É amplamente aceite que a educação das

raparigas é uma forma poderosa de acelerar a redução da taxa de fecundidade,

porque dá às mulheres maior estatuto, mais acesso a empregos e recursos e,

portanto, maior controlo sobre o número de crianças nas suas famílias.

A figura 4.8 mostra o aumento da população projetado pela ONU sob

diferentes pressupostos sobre a demografia. A continuação das atuais taxas

de fecundidade (cerca de 2,45 filhos por mulher a nível mundial, com grandes

disparidades entre regiões) leva à maior curva exponencial no gráfico. um pesadelo

explosivo. Todos os cenários mais razoáveis preveem uma redução das taxas de

fecundidade com a transição demográfica – redução conjunta da mortalidade e

da natalidade – desdobrando-se nos países mais pobres em que isso ainda não

aconteceu. O cenário em que a população decresce depois de 2050 envolve uma

taxa de fecundidade mundial que permanece abaixo de 2, como já foi observado

em muitos países desenvolvidos.

Figura 4.8
Projeções
demográficas ao
nível mundial

O Nosso Mundo em Dados

O cenário de controlo que consideramos aqui pode ser capaz de empurrar

o mundo para o caminho de uma população com menor crescimento, o que seria

realmente uma grande ajuda no objetivo de preservar o meio ambiente e o clima.

110 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Estima-se que um aumento de 1% na população leva a um aumento nas emissões

de CO2 que varia entre 1% e 2,5% (O’Neill et al., 2012; Casey e Galor, 2017). A

diferença entre a alta e a baixa população prevista pela ONU em 2100 é de quase

10 mil milhões de pessoas, representando 144% dos 6,8 mil milhões de pessoas

se seguirmos o caminho da redução do crescimento. Reduzir a população seria

um longo caminho para aliviar a ameaça da mudança climática.


No entanto, mesmo isto não seria suficiente, porque a população

continuaria a aumentar até 2050 e o desenvolvimento das economias emergentes

faria disparar potencialmente as emissões industriais, bem como as emissões

de metano provenientes da agricultura e, especialmente, da pecuária. Embora

o metano seja um gás de vida curta (metade dele decompõe-se em cerca de 12

anos, ao contrário do CO2 que é muito estável e permanece por milénios), o seu

efeito de estufa é muito mais significativo do que o CO2 e, portanto, um aumento

contínuo das emissões de metano ao longo do século teria um forte impacto

sobre as temperaturas.

Seria ainda especialmente problemático se o mundo em desenvolvimento

adotasse a dieta rica em carne dos países desenvolvidos. Os governos podem

intervir em tal cenário, restringindo fortemente a produção de carne e educando

as pessoas a adotarem uma dieta mais ecológica e mais saudável. Um estudo

recente descobriu que a “transição para dietas mais baseadas em plantas e que

sigam as diretrizes alimentares padrão poderia reduzir a mortalidade global em 6

a 10% e as emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com a produção

dos alimentos em 29 a 70%, em comparação com um cenário de referência em

2050” (Springmann et al., 2016).

Como se estima que as emissões de gases com efeito de estufa relacionadas

com a produção dos alimentos representem cerca de um quarto das emissões

totais, este é um impacto substancial. Um efeito colateral dessa política é que

o dinheiro que se economiza em despesas de saúde poderia ser gasto noutros

bens com sério impacto ambiental, levando assim ao chamado efeito ricochete,

ou seja, um aumento das emissões de gases com efeito de estufa que, em última

instância, acontece devido a uma política que inicialmente as reduz. Mais uma vez,

o Estado pode evitar o efeito de ricochete nas emissões de gases com efeito de

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 111
estufa através do controlo da utilização dos recursos poupados.

Outra faceta das políticas de controlo é testemunhada no domínio do

design urbano. Tanto em novas cidades como na remodelação de cidades antigas,

a política dominante neste cenário consiste em conter a expansão urbana e o uso

de automóveis e promover um habitat concentrado que reduza a extensão dos

trajetos e melhore a economia de energia em áreas frias – embora, por vezes,


crie problemas de ilhas de calor em partes quentes do mundo, que podem ser

resolvidos pela combinação de edifícios com tanta vegetação quanto possível. São

também oferecidos fortes incentivos para que as pessoas trabalhem em casa. Estas

políticas envolvem uma abordagem de controlo do uso da terra e dos mercados

imobiliários que dificilmente seria adotada por governos mais liberais, exceto

talvez no caso da conceção de novas cidades. Acontece que, embora a transição

seja difícil para os moradores dos subúrbios tradicionais que costumavam andar

nos seus carros – as personagens típicas dos filmes americanos do final do século

XX –, a nova geração adapta-se rapidamente ao habitat mais concentrado e a vida

comunitária é bastante próspera em certos bairros, favorecida pelo bom espaço

público para os miúdos, para os jovens e para os pedestres, e pela proximidade de

centros comerciais, onde os contactos são frequentes entre os moradores locais.

O que é preocupante neste cenário é que não há garantia de que esses

governos controladores que sabiamente, mas talvez não humanamente, forçam

a população a um estilo de vida frugal energeticamente, tendo em mente a

estabilidade a longo prazo, sejam sábios em todos os aspetos e comedidos no seu

uso da autoridade. O efeito colateral historicamente comprovado do autoritarismo

é o abuso de poder, em qualquer tipo de ocasião, seguido de uma escalada do

nível de protesto e repressão que conduz a graves perturbações e a um grave

desperdício de recursos, para não falar do terrível custo das violações dos direitos

humanos e das vidas humanas. Num nível menos dramático, o autoritarismo

também está associado a um maior grau de corrupção do que nas democracias

(Kolstad e Wiig, 2016), talvez devido à falta de pesos e contrapesos, o que implica

uma falta de transparência, em particular com uma menor liberdade de imprensa.

Embora a corrupção possa por vezes dinamizar o sistema, permitindo que aqueles

com questões urgentes obtenham atenção prioritária de uma burocracia com

112 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
recursos limitados, esta geralmente desvia recursos e gera terríveis ineficiências.

A ideia de que os governos autoritários podem ser mais eficazes em forçar

mudanças de estilo de vida em direção a uma economia mais verde depende,

portanto, da premissa plausível de que a corrupção e a violência não impedirão

tais conquistas.

A democracia pode ser um sistema muito imperfeito, mas é o melhor sistema


quando combinado com um Estado de direito forte que minimiza a probabilidade

de uma escalada de agitação social e violência. Os regimes democráticos podem

cair no autoritarismo e ter explosões ocasionais de protestos, especialmente

quando a coesão social se desmorona e parte da população sente que o contrato

social foi quebrado pelas elites. Estamos agora neste momento perigoso em

muitos países desenvolvidos e nalgumas economias emergentes. Ainda assim, as

democracias não são apenas o farol de liberdade mais promissor, são o único

sistema que oferece uma garantia razoável de preservação a longo prazo das

liberdades individuais e coletivas, económicas, sociais e culturais mínimas.

Tendências e oportunidades

É tentador perguntar qual dos três cenários é o mais provável, e os recentes

desenvolvimentos rumo a uma cooperação internacional reduzida e a um Estado

social mais magro debaixo de políticas de austeridade podem sugerir que o cenário

do Apartheid já começou. No entanto, ler os cenários como previsões seria errado.

São apenas sinais de alerta, vislumbres do que poderia acontecer se se permitir

que certas tendências dominem o futuro. Deve-se abandonar completamente

uma conceção determinista e mecanicista da história. Tais conceções são sempre

populares porque têm um sentido de gravidade. Influenciado por Hegel, Marx

pensou que poderia desenvolver uma teoria do materialismo histórico, em que

o estudo das tendências profundas do sistema económico explicaria a maioria

dos fenómenos sociais, incluindo a ideologia das pessoas. Vislumbrou que a

humanidade se libertaria desse determinismo económico somente na era da

abundância inaugurada pelo advento do comunismo, dando uma interpretação

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 113
económica ao aforismo de Hegel de que “a coruja de Minerva abre as suas asas

somente com o início do crepúsculo”. Encontramos pontos menos proféticos,

mas igualmente deterministas, na teoria da desgraça de Piketty (2014) sobre a

tendência intrínseca do capitalismo para deixar o capital retirar vantagem e gerar

desigualdades explosivas, a menos que algumas políticas fiscais fortes sejam

promulgadas. E, a um nível muito menos respeitável, mas muito mais assustador,


ouvimos que um conselheiro-chave do presidente dos EUA inspira-se numa teoria

fantasiosa de que a história passa por ciclos de crises, guerra e redenção, sendo o

período atual o início de uma nova fase de guerra.

O determinismo histórico está totalmente errado. Há sempre muitas

oportunidades para fazer a história girar em várias direções, e as oportunidades

têm estado sempre presentes, mesmo na Antiguidade, quando o génio ou a

loucura de alguns líderes podiam determinar o destino de uma cidade ou de

um reino. A característica interessante do período atual é que nunca houve

anteriormente uma combinação entre ameaças globais graves e oportunidades

tremendas, ambas geradas pelo sucesso do desenvolvimento humano. Podemos

não estar na era da abundância, e o comunismo, como imaginado por Marx, não

está ao virar da esquina, mas certamente podemos sentir-nos coletivamente

fortalecidos pelos nossos recursos materiais e intelectuais para conscientemente

fazer escolhas-chave que podem levar a humanidade e o planeta a um futuro

melhor.

Foi argumentado neste capítulo que a chave para um futuro mais brilhante

é combinar o progresso em três frentes: equidade, sustentabilidade e liberdade.

Três formas em que a humanidade pode falhar nesta tarefa um tanto assustadora

foram também descritas. A segunda parte deste livro é o momento de explorar

como podem ter sucesso.

114 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Parte II
Ação pelo progresso social

Capítulo 5
Em busca de uma nova terceira via
A primeira parte deste livro mostrou que, depois de grandes conquistas nos

últimos séculos, manter as coisas como estão é simplesmente impossível no

século XXI, a menos que queiramos exacerbar tensões que possam comprometer

os ganhos acumulados ao longo do último meio século e destruir, ou pelo menos

prejudicar dramaticamente, a espécie humana e, com ela, muitas outras espécies.

Além disso, qualquer forma de sair desta situação deve procurar, em conjunto, os

três objetivos de equidade, sustentabilidade e liberdade. Embora tal desafio seja

assustador, também oferece uma oportunidade única para repensar e melhorar

a estrutura básica da sociedade. Na verdade, parece hoje claro que apenas uma

sociedade significativamente melhor pode enfrentar o desafio.

Isto levanta imediatamente as seguintes questões: como pode ser


alcançado? O que é preciso mudar e o que pode ser preservado? Quem deve fazer

o quê? Para responder a estas perguntas, procederemos em três etapas.

Primeiro, é importante perceber porque as velhas perspetivas ideológicas

sobre capitalismo e socialismo, sobre o mercado e o governo, estão agora

obsoletas, e que há conceitos recentes, desenvolvidos pelas ciências sociais,

que fornecem uma forma muito melhor de entender o que faz as pessoas

prosperarem ou debaterem-se enquanto navegam pelo sistema social ao longo

das suas vidas. Este é o tema do capítulo, que defende o projeto de procurar um
caminho alternativo, além do capitalismo e do socialismo.

Em segundo lugar, é preciso explorar alternativas concretas e examinar

como as principais instituições da sociedade podem ser reformadas. O foco dos

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 115
próximos capítulos será no mercado, na empresa, no Estado social e na política.

Serão feitas propostas concretas sobre como os reformar e como reunir os seus

pontos fortes na direção dos três objetivos de equidade, sustentabilidade e

liberdade.

Finalmente, é preciso identificar uma estratégia para a mudança e um

conjunto de atores que podem impulsionar as transformações desejadas.


Este será o tema do capítulo final. A mensagem-chave será que a mudança

transformadora deve envolver iniciativas de baixo para cima, mais do que de

cima para baixo. Assim, o capítulo final convidará todos os leitores a tornarem-se

agentes da mudança.

Socialismo e propriedade

Na perspetiva marxista, a história das sociedades tem sido uma sucessão de

artifícios que permitem a certos grupos da elite acumular vantagens através da

exploração de uma multidão de trabalhadores. O capitalismo é apenas o mais

recente desses sistemas, com trabalhadores comuns a serem explorados por

investidores e empregadores. O processo que gera exploração no capitalismo

envolve o mercado de trabalho, em que o trabalho é trocado por dinheiro e os

trabalhadores aceitam contratos que deixam o lucro para a elite rica. Os donos

dos meios de produção contratam trabalhadores e extraem as “mais-valias”,

pagando o seu trabalho por menos do que o seu valor total.

Esta visão do capitalismo implica um foco na distribuição da propriedade

dos “meios de produção”. Identifica a propriedade privada como a fonte de todos

os problemas, uma vez que cada proprietário privado pode explorar o trabalho

simplesmente ao contratar serviços no mercado de trabalho. A lista de reformas


26
defendidas no final do Manifesto Comunista merece ser revisitada:
1. abolição da propriedade fundiária e aplicação de todos os rendimentos
oriundos da exploração dela para fins públicos.
2. um pesado imposto de rendimento progressivo.

26 Essa lista é discutida no IPSP (2018, capítulo 8).

116 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
3. abolição de todos os direitos sucessórios.
4. confisco dos bens de todos os emigrantes e rebeldes.
5. centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco
nacional com capital estatal e monopólio exclusivo.
6. centralização dos meios de comunicação e transporte nas mãos do
Estado.
7. aumento das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao
Estado; a introdução do cultivo de terrenos baldios ou desaproveitados e a
melhoria do solo em geral, de acordo com um plano comum.
8. igual responsabilidade de todos para com o trabalho. Criação de exércitos
industriais, especialmente para a agricultura.
9. combinação da agricultura com as indústrias transformadoras; abolição
gradual de toda a distinção entre cidade e campo.
10. educação gratuita para todas as crianças nas escolas públicas. Abolição
do trabalho infantil na sua forma atual. Combinação da educação com a
produção industrial.

Essa lista está cheia de iniciativas que visam expropriar a riqueza e

nacionalizar o capital. Algumas deles foram implementadas desde então, como os

bancos centrais públicos, as tributações progressivas dos rendimentos, a escola

pública e os serviços públicos, e tornaram-se rotina – embora não sem altos e

baixos. No entanto, outras iniciativas parecem pouco atraentes ou completamente

assustadoras – a ideia de um exército industrial é assustadoramente reminiscente

do Soldaten der Arbeit que Bismarck imaginou e Hitler e Estaline implementaram.

Faltam ainda na lista muitos programas sociais, como os cuidados de saúde ou as

pensões públicas.

O que a abordagem marxista não conseguiu ver é que a propriedade

privada é popular e bem-sucedida a gerar progresso económico e social

por uma boa razão. As pessoas precisam de planear a sua vida e sentirem-se

independentes. Quando tudo o que consomem vem de um acervo comum,

acontecem duas coisas: em primeiro lugar, há uma tendência natural para o free

ride, não contribuindo para esse acervo comum mas servindo-se dele, levando à
chamada tragédia dos comuns. Segundo, uma vez que a falta de incentivos para

contribuir individualmente exige uma disciplina dd “exército” no trabalho e que a

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 117
falta de incentivos para ser frugal requer o racionamento de bens de consumo,

as pessoas caem, então, num estado de forte dependência dos guardiões do

sistema, o que vai contra o desejo natural de estar no controlo das suas vidas. Por

outro lado, a propriedade privada proporciona aos proprietários um sentido de

segurança e incentivos para criar riqueza diligentemente e gerir a sua propriedade

de forma prudente.
A teoria marxista da exploração também se revela imperfeita. O lucro não

é, em essência, trabalho roubado. Em condições normais, recompensa os serviços

reais de inovação, capital e gestão. Por vezes, o lucro é inflacionado pelo poder

do mercado, permitindo que as empresas reduzam os salários e aumentem os

preços.

Obtêm-se muitas vantagens indevidas, mesmo de trabalhadores

vulneráveis que são forçados a trabalhar sem remuneração ou simplesmente

são privados dos seus salários devidos: estima-se que o roubo de salários seja

pelo menos duas vezes mais importante do que os roubos de rua nos EUA, por

exemplo (figura 5.1). Contudo, nem todo o lucro é roubo.

Figura 5.1
Roubo de salário versus assaltos
nos EUA

Fonte:
http://www.epi.org/publication/wage-theft-
bigger-problem-theft-protect/

118 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Terceiras vias

Embora a doutrina marxista tenha sido largamente abandonada, permanece

influente através de um foco persistente na redistribuição da propriedade

(rendimento ou riqueza) nos debates políticos. Tais debates, no entanto, podem

ser enquadrados como sendo sobre algo que não é nem puro capitalismo nem

puro socialismo. A busca por uma terceira via tem sido um dos passatempos

favoritos dos pensadores e formuladores de políticas.

Houve duas conceções populares diferentes da terceira via, e uma terceira

menos popular, que, por fim, destacaremos. Não são exclusivas e, nos próximos

capítulos, vamos argumentar que é necessário combiná-las de forma adequada.

A mais tradicional teoriza o Estado social como a personificação da

terceira via. O Estado é concebido como uma máquina redistributiva que reduz

as desigualdades de mercado entre lucros e salários, bem como entre salários

elevados e salários baixos. A tributação progressiva cria um sistema capitalista

misto, no qual as desigualdades permanecem moderadas, enquanto a economia

continua a operar sob os cânones do sistema de mercado capitalista. As leis

do salário mínimo também contribuem para manter os padrões de vida dos

trabalhadores menos qualificados num nível decente, induzindo as empresas a

adotar tecnologias e métodos que tornam o trabalho suficientemente produtivo.

A segunda conceção da terceira via ainda entrega um papel proeminente ao

Estado social, mas com um objetivo diferente. Em vez de reduzir as desigualdades

depois do mercado (através de impostos e transferências), ou no mercado (através

de salários mínimos, regulação das rendas com habitação e controlos de preços

semelhantes), o objetivo é preparar os indivíduos para o mercado, dando-lhes os

meios para competir com sucesso, através da oferta de uma boa educação escolar

e universitária, bons cuidados de saúde e serviços semelhantes. Esta é a terceira

via concebida por Anthony Giddens e que inspirou Tony Blair. Como escreveu

Giddens (1998), “o cultivo do potencial humano deve, tanto quanto possível,

substituir a redistribuição após o evento’” (Giddens, 1998: 101, tradução nossa).

Essa abordagem, mais do que a anterior, preocupa-se em permitir que o mercado

funcione da forma mais eficiente possível para preservar a competitividade num

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 119
mundo globalizado.

Naturalmente, a maioria dos Estados sociais combina as duas abordagens

e alguns têm características adicionais, tais como os países escandinavos, nos

quais o Estado também encoraja a negociação central entre trabalho e interesses

empresariais, de modo que se definam um conjunto de níveis salariais que

mantenham a economia produtiva e competitiva, limitando simultaneamente as

desigualdades. O capítulo 7 examinará o Estado social com maior detalhe.

Há, no entanto, uma terceira via que é menos conhecida. Não envolve

diretamente o Estado, mas visa reformar as próprias instituições produtivas

através do desenvolvimento de empresas lideradas por partes interessadas

e empresas não-padronizadas, como as cooperativas. Essa tradição remonta

aos debates iniciais entre os socialistas, opondo aqueles que queriam que o

Estado apreendesse a propriedade e protegesse os trabalhadores e aqueles que

queriam colocar os trabalhadores no controlo de novas associações produtivas de

propriedade dos trabalhadores. Os estatistas venceram a batalha política interna

da esquerda, e a outra marca, o socialismo cooperativista, desapareceu.

Esta última tradição está a ser reavivada no próspero terceiro setor das

cooperativas, empresas sociais e mutualidades que abraçam princípios diferentes

da mera busca pelo lucro. O setor cooperativo sozinho envolve agora mais de um

mil milhões de trabalhadores-membros e utilizadores-membros no mundo (figura

5.2), e o número total dos seus trabalhadores-membros e produtores-membros

é mais do dobro do número de empregados em empresas transnacionais

(UNRISD, 2016). Os seus defensores argumentam que oferece uma alternativa

ao capitalismo, embora, em geral, esse setor seja visto como um suplemento à

economia padrão e não algo destinado a substituí-la.

120 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Quadro 5.1 - Emprego cooperativo e filiação ao nível mundial
Fonte:
Hyung-sik Eum (2017)

No entanto, alguns pensadores como John Stuart Mill ou o Prémio Nobel

James Meade pensaram numa alternativa ao capitalismo envolvendo a substituição

das relações capitalistas por parcerias reais em que os trabalhadores teriam voz

na governança das associações produtivas, na sua capacidade de fornecedores

de trabalho, não como proprietários do capital. Nessa forma da terceira via, o

trabalho contrataria capital, ao invés do contrário, como é o caso do capitalismo.


Meade (1964) imaginava uma fórmula complexa pela qual os trabalhadores

receberiam ações que lhes dariam direitos a parte do valor agregado gerado pela

empresa. Embora a sua fórmula nunca tenha sido realmente experimentada, a

ideia de uma forma democrática de governança empresarial envolvendo as partes

interessadas relevantes e, especialmente, os trabalhadores, tornou-se popular


em certas escolas de gestão. Discutiremos mais este tema no próximo capítulo.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 121
Não é apenas uma questão de recursos

O que é especialmente interessante sobre esta terceira via é que ela não deixa as

instituições da economia de mercado intocadas, e depende de uma transformação

das relações sociais dentro de uma instituição económica central – a empresa

produtiva. Reflete uma perspetiva mais ampla do que o foco socialista tradicional

sobre a propriedade e considera a possibilidade de redistribuir o poder sem

redistribuir a riqueza ou expropriar os proprietários. Reflete também uma

preocupação de poder e estatuto social que está ausente das conceções de uma

terceira via centrada no Estado social e na distribuição de bens e recursos.

Ignora-se muitas vezes que a propriedade privada não tem origem natural

e que é uma instituição moldada por normas e leis. O que o leitor está autorizado

a fazer com a sua propriedade pode variar muito. Por exemplo, a possibilidade de

usar a riqueza para comprar poder sobre os trabalhadores, sobre os votos dos

cidadãos, a influência sobre os políticos, a alavancagem nos media, o prestígio

social ou uma alma limpa é contestável e, em diferentes contextos, estas práticas

têm sido consideradas perfeitamente normais a completamente inaceitáveis,

incluindo todas as nuances possíveis entre elas.

Portanto, a principal batalha pelo progresso social pode não ser tanto

sobre a redistribuição da riqueza, mas sobre o delinear dos direitos da riqueza.

Na maioria dos exemplos de usos contestados da riqueza que acabámos

de citar, está em jogo a conversão de recursos em poder ou em estatuto social.

A distribuição do poder e a distribuição do estatuto são aspetos essenciais da

qualidade de uma sociedade. A tradição socialista, obcecada pela propriedade,

tem estado menos preocupada com as desigualdades noutras dimensões, abrindo

assim caminho a instituições fortemente hierárquicas e autoritárias, e a história

tem mostrado como a cegueira numa dimensão importante da justiça social

pode minar completamente os grandes ideais e produzir um terrível sofrimento

humano.

Agora que o sonho socialista da propriedade coletiva foi em grande parte

abandonado, o debate sobre o progresso social mudou para a questão mais

pragmática do grau e forma de intervenção do governo na economia de mercado,

122 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
mas permanece ainda centrado na redistribuição de recursos. Embora não se

possa negar que esta é uma questão central, é lamentável como ela é enquadrada

de forma estreita nos debates públicos habituais e como isso pode esconder do

nosso olhar as reformas mais promissoras.

Em primeiro lugar, a economia é apenas parcialmente uma questão de

mercado. As atividades económicas mais importantes acontecem na família e na


empresa, sem esquecer as agências governamentais e as instituições públicas

que fornecem bens e serviços públicos, bem como as infraestruturas essenciais.

A família e a empresa protegem os indivíduos da concorrência do mercado

e permitem-lhes cooperar, como grupos, para o sucesso comum no mundo

exterior – onde, de facto, vão ao mercado. Porque é isto importante? Porque

o bem-estar das pessoas depende de forma crucial do que acontece nesses

grupos e organizações. Focar a questão do progresso social nas virtudes e falhas

do mercado impede-nos de ver como as pessoas florescem ou lutam nas suas

famílias, locais de trabalho, escolas e assim por diante.

Por exemplo, um fenómeno essencial que acompanhou a crescente

participação das mulheres no mercado de trabalho foi uma mudança na sua

participação no que toca aos recursos, mas também no estatuto e controlo na

vida familiar e uma redistribuição – ainda insuficiente – das tarefas domésticas

entre os cônjuges. A persistente disparidade salarial entre homens e mulheres no

mercado de trabalho é uma questão importante, mas não apenas para a equidade

distributiva. Está ligada ao que acontece dentro da família em termos de estatuto,


27
poder e independência das mulheres.

A tensão do emprego na Europa, as mortes nos EUA

O local de trabalho é outro exemplo central da importância do controlo e do

estatuto social. Um emprego não nos dá apenas um rendimento. Também oferece

um estatuto social e ocupa-nos a maior parte da semana, colocando-nos numa

hierarquia que molda quanto controlo temos sobre a nossa vida profissional.

27 Ver IPSP (2018, capítulo 17) para uma análise detalhada de como a situação das mulheres na família mudou em rela-
ção às mudanças no mercado de trabalho e na política governamental.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 123
Quando as coisas correm mal no local de trabalho, não nos preocupamos apenas

em manter o emprego e o rendimento. Podemos perder a dignidade ou a saúde

devido ao stresse. De facto, parece que o stresse no trabalho aumentou nas

últimas décadas. Foram desenvolvidas ferramentas interessantes para medir o

stresse no trabalho pelos sociólogos Johannes Siegrist, Robert Karasek e Töres

Theorell que olham para a qualidade e a tensão do trabalho em termos de uma


separação entre exigência e recompensa (contrato quebrado) e uma combinação
28
prejudicial de alta exigência e baixa autonomia (ver figura 5.2).

Figura 5.2
Categorias de
emprego na Europa
(1995-2010)

Fonte:
Askenazy (2016)protect/

Os economistas de Princeton Anne Case e Angus Deaton (2015, 2017)

mostram vividamente que os problemas económicos minam mais do que os

padrões de vida das pessoas, observando que as taxas de mortalidade dos

americanos brancos de classe baixa de meia-idade pararam de melhorar e

estão a aumentar novamente, enquanto outros grupos sociais, étnicos e etários

continuam a tendência de queda – embora uma recente ascensão pareça afetar

os negros. Os países europeus, ao mesmo tempo, têm registado uma melhoria

contínua. A causa imediata da crise de mortalidade nos EUA parecia estar

relacionada principalmente com drogas (incluindo analgésicos), álcool e suicídio.

Case e Deaton (2015, 2017) mostram que as causas mais profundas ou correlatas

não parecem ser apenas a perda de rendimentos, mas também a redução da

28 Ver IPSP (2018, capítulo 7) para explicações adicionais sobre as abordagens e medidas.

124 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
participação no trabalho (devido ao desânimo e à doença), a menor taxa de

casamento, o aumento das ruturas familiares e as maiores dificuldades para

socializar com os amigos.

Estes dados revelam que as tendências sociais são muito mais preocupantes

do que quando olhadas exclusivamente do ponto de vista económico. O

rendimento dos trabalhadores manuais pode, em média, ter estagnado, mas


essas pessoas têm uma perceção da sua situação que é muito mais sombria e

engloba o deslocamento social, a perda de estatuto e reconhecimento, a perda de

controlo e o número de mortes e doenças que daí resultam. Onde as estatísticas

económicas mostram estagnação, a experiência concreta das pessoas é de uma

clara deterioração da sua situação. A ira expressa por multidões e eleitores em

muitas democracias ocidentais na última década tem provavelmente muito

que ver com este sentimento de uma tendência de agravamento que contrasta

com a autossatisfação de um conjunto de decisores e profissionais que olha

principalmente para os dados macroeconómicos.

O que isso nos diz sobre a procura de uma sociedade melhor? Mostra-

nos que, embora os empregos e os salários sejam muito importantes, também

é muito importante o que acontece dentro das famílias, das comunidades e

dos locais de trabalho. Além disso, é importante de duas maneiras: primeiro,

uma distribuição mais justa de recursos, estatutos e controlo em tais coletivos

beneficia diretamente a capacidade das pessoas de prosperarem, de planearem

a sua vida, o que fomenta a sua autoestima e a sua saúde. Em segundo lugar,

alterar a distribuição do poder muda a estrutura de governança e altera as

decisões tomadas, com muitas consequências adicionais. As famílias em que

as mulheres têm maior controlo cuidam mais da educação das crianças e

especialmente das raparigas, induzindo um círculo virtuoso. As empresas em que

as partes interessadas têm maior influência possuem uma diferença salarial mais

estreita e são mais social e ambientalmente responsáveis, como irá ser discutido

nos próximos capítulos deste livro.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 125
Vozes dos pobres

Se o leitor não está convencido de que o foco no mercado e na redistribuição dos

recursos económicos é demasiado estreito para explorar o caminho para uma

sociedade melhor, ouça a voz das pessoas mais pobres. Poder-se-ia acreditar que

aqueles que são os mais desprovidos de recursos deveriam ser os mais focados

nessa dimensão, mas não é esse o caso. “A pior coisa de viver em extrema pobreza

é o desprezo, tratam-nos como se fossemos inúteis, olham-nos com desgosto e

medo e até como um inimigo. Nós e os nossos filhos experimentamos isso todos

os dias, e magoa-nos, humilha-nos e faz-nos viver com medo e vergonha”, diz

Edilberta Béjar, do Peru, na ATD (2013: 39).

E o grau de constrangimento imposto por outros, incluindo agências que

deveriam ajudar, também é esmagador, por exemplo, quando as crianças são

levadas para serem colocadas em lares adotivos ou quando a ajuda condicional

envolve um controlo intrusivo. “A sociedade de hoje age com arrogância ao pensar

que pode acabar com o sofrimento apenas compartilhando bens materiais. Pensa

que pode acabar com a pobreza e a exclusão com a acumulação de bens. Isso

evita que o mundo tenha de pensar na questão essencial, que é o esforço de

cada um para criar as condições de liberdade e de libertação num contexto de

liberdade e de libertação, numa terra de extrema pobreza”, diz um ativista do


Senegal (ATD, 2013: 54).

Estas citações vêm de um relatório da ATD, uma ONG que defendeu

sempre que os pobres deveriam ser os agentes da sua própria libertação. Outra

organização também prova que esses ideais de dignidade e emancipação estão

difundidos no mundo: a Associação de Mulheres Autónomas (SEWA), na Índia, que

tem mais de 2 milhões de membros, as quais estão entre as mulheres mais pobres.

Funciona como uma associação sindical que promove iniciativas de formação,

financiamento e várias formas de apoio à gestão. O trabalho da SEWA baseia-se

nas crenças fundamentais de que o empoderamento económico leva à justiça

social, que o trabalho deve contribuir para o crescimento e o desenvolvimento

de outros, e que a descentralização da propriedade económica e da produção

cria uma sociedade mais justa (IPSP, 2018, capítulo 8). O que é especialmente

126 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
interessante sobre a sua abordagem é que vincula o empoderamento não

apenas ao acesso a recursos, mas também à melhoria do estatuto social, da

autoestima e da dignidade. Além disso, inspirado pelo pensamento indiano, há

um foco importante nas relações, tanto entre as pessoas como entre as pessoas

e a natureza, com um senso de reciprocidade e uma atenção especial aos

procedimentos democráticos e à garantia de que os mais fracos tenham a sua


palavra a dizer.

Por outras palavras, a sua filosofia é muito sobre a melhoria das relações e

sobre o acesso ao conhecimento, controlo, estatuto social e recursos. Promovem

a descentralização e o trabalho comunitário, com a ideia de que as comunidades

que controlam o seu próprio sustento localmente cuidam melhor do ambiente

e tornam-se mais resistentes. Também visam dar maior reconhecimento ao

trabalho não monetário que desempenha funções úteis na vida da comunidade.

Com base nessa filosofia, a SEWA desenvolveu iniciativas importantes

na área das finanças, através do seu próprio banco cooperativo, em formação,

com uma escola de gestão para microempresários, em segurança alimentar,

com a sua cadeia de distribuição, e em novas tecnologias de comunicação para a

disseminação de informações sobre preços e assistência em transações. Milhões

de indianos beneficiaram destas iniciativas.

Concorrência versus cooperação

Se a procura por uma sociedade melhor não se deve focar ou limitar à

redistribuição de recursos pelo governo, em que direções deve ir essa procura?

Desenvolvimentos recentes nas ciências sociais, tal como refletidos nas análises

do relatório IPSP, sugerem a seguinte visão do que faz a sociedade aumentar ou

minar o prosperar da humanidade: o bem-estar das pessoas depende não só do

seu nível de vida económico, mas também da qualidade das suas relações sociais.

Somos seres sociais, e o nosso prosperar, mesmo nas culturas mais individualistas,
29
é profundamente moldado pelas interações sociais.

29 Ver capítulos 2 e 8 do IPSP (2018a) para uma análise dos determinantes do bem-estar.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 127
Desde as origens, os seres humanos reuniram-se em grupos, nos quais

desenvolveram cooperação para melhor competir com o mundo exterior. A

competição pela liderança e outras vantagens também tem atormentado as

histórias desses grupos, mas os seres humanos estão entre os animais mais

cooperativos, e provavelmente desenvolveram essa capacidade através de um

processo evolutivo que selecionou os grupos mais eficazes, ou seja, aqueles em


que a cooperação funcionou melhor.

A mistura de competição e cooperação tem evoluído ao longo da história

e permanece diferente em várias partes do mundo. Nalguns países, as crianças

são criadas com uma visão patriótica de dedicação aos objetivos comuns da nação,

enquanto noutros, o sucesso pessoal é promovido e a competição individualista

começa cedo na escola. As comunidades locais e as famílias alargadas mantêm

fortes laços de solidariedade em alguns locais, enquanto noutros a solidariedade

não vai muito além da família nuclear ou é partilhada entre a família nuclear e o

Estado social. Como explicado anteriormente, as empresas são organizações em

que os trabalhadores e outros contribuintes cooperam para produzir e vender

no mercado. Uma transação de mercado é, em si mesma, um empreendimento

cooperativo entre os comerciantes: o objetivo comum é chegar a um acordo e

beneficiar mutuamente da transação.

Em geral, a cooperação é mais propícia a relações sociais de boa

qualidade do que a concorrência, mesmo que a cooperação não elimine os

conflitos de interesses, dado que, mesmo numa empresa cooperativa, a partilha

de contribuições e recompensas coloca, de alguma forma, as pessoas umas contra

as outras. Um etos cooperativo também pode ser opressivo. Um dos autores

deste livro, após uma palestra pública sobre cooperativas, ouviu de um antigo

membro da cooperativa que a pressão mútua para trabalhar arduamente era

muito alta (os colegas ligavam-lhe para casa quando ele estava doente, pedindo

que voltasse). A cooperação entre alguns atores também pode ser prejudicial para

outros, como nos cartéis de mercado que prejudicam os clientes. No entanto, em

geral, os incentivos obtidos por um ambiente cooperativo são mais propícios ao

prosperar humano do que a rivalidade competitiva e também aumentam o nível

de confiança e a circulação de informação, tornando o grupo mais eficaz. Portanto,

128 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
incentivar a cooperação em vez da competição dentro das famílias, comunidades,
30
escolas e empresas é geralmente considerado um bom conselho.

A rede das interações sociais

Embora a distinção entre cooperação em matéria de concorrência seja útil, não

fornece uma descrição suficientemente precisa dos vários padrões das relações

sociais. Este livro não é o lugar para fornecer uma teoria geral das relações sociais,

mas aqui estão alguns exemplos típicos das que correm mal – e podem acontecer

tanto em contextos competitivos como cooperativos –, e devem ser evitados tanto

quanto possível quando se procura desenhar melhores instituições.

Vamos começar com más relações envolvendo desequilíbrio de poder

e controlo. As pessoas podem ser privadas de controlo suficiente sobre a sua

vida, pelo menos de três maneiras. Podem ser subordinadas, como a mulher na

família patriarcal e o trabalhador na empresa tradicional. Podem também ser

dependentes sem serem subordinados, quando a sua situação depende de forças

externas que não controlam, como o beneficiário da assistência social que não

tem a certeza de receber apoio constante de uma administração pouco fiável e,

portanto, é incapaz de fazer planos a longo prazo; ou as mulheres, que não podem

andar com segurança nas ruas em determinadas horas. Finalmente, podem ainda
ser obrigadas por deveres que lhe são impostos, como a última filha da família

que deveria permanecer solteira e ficar com os pais para cuidar deles na velhice,

ou a trabalhadora cooperativa mencionada anteriormente, que dificilmente pode

tirar uma baixa médica.

Os problemas de estatuto social constituem outro conjunto de casos

em que as pessoas podem ser privadas de dignidade. Em primeiro lugar, isso

pode passar pela humilhação e vergonha, como descrito pelos pobres citados

anteriormente neste capítulo. Na verdade, é muito problemático que muitas

políticas de assistência social que supostamente deveriam ajudar os pobres

30 Um inquérito IPSP realizado a uma amostra representativa da população dos EUA em 2017 mostra uma clara pre-
ferência pela cooperação. Em média, as pessoas sentem-se melhor em situações de cooperação (menos stressadas e
zangadas, mais entusiasmadas e animadas, igualmente focadas), e a maioria dos inquiridos pensa que o aumento da
cooperação na sua vida a tornaria globalmente melhor (55%), menos stressante (59%) e mais agradável (57%), enquanto
apenas uma pequena percentagem pensa que a agravaria nestas frentes (respetivamente, 10%, 12% e 12%).

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 129
realmente minem a sua dignidade. Muitas empresas também tratam os seus

trabalhadores de forma humilhante, por exemplo, pela forma peculiar como os

submetem a testes de drogas na urina durante os processos de seleção.

Em segundo lugar, as pessoas podem ser discriminadas por serem

excluídas, rejeitadas e ostracizadas, como os ciganos na Europa ou a casta Dalit

na Índia. Em terceiro lugar, a discriminação também pode significar ser incluídas,


mas em papéis sociais inferiores, como na hierarquia de empregos de trabalho

público em muitos países, que muitas vezes segue linhas raciais rígidas.

Todas essas formas de relações sociais opressivas podem ser traduzidas

em situações concretas. Por exemplo, consideremos o caso muito frequente de


31
trabalhadoras assediadas sexualmente por um dado responsável. Isso pode

assumir uma forma humilhante (os colegas riem), transmitindo um sentimento

de extrema subordinação e sendo associada à ideia de que as trabalhadoras têm

um papel inferior na organização. Também pode estar ligada à chantagem sobre

a possibilidade de promoção, exacerbando a dependência do subordinado da boa

vontade do superior.

Dada a importância crescente do ensino superior e do conhecimento na

economia e na política, a circulação de informação fornece outros exemplos

importantes de interações sociais prejudiciais. A falta de transparência na

governança das organizações está muitas vezes na base de práticas questionáveis,

e o crescente papel dos denunciantes tem revelado como a transparência pode ser

uma força transformadora, geralmente para melhor. A distorção da informação

também é profundamente impactante, nomeadamente na política, e a crescente

preocupação com notícias falsas está agora a fazer reviver a velha luta contra a

propaganda.

Em resumo, as pessoas podem ser privadas de informação, como é o

caso de muitas mulheres que não recebem educação ou são dominadas na sua

família, bem como da maioria dos trabalhadores deixados na ignorância pelo seu

empregador sobre decisões que afetam profundamente a sua vida profissional

e pessoal; ou podem ser enganados, como quando os propagandistas procuram

31 Ver http://www.lemonde.fr/societe/article/2017/11/23/violences-sexuelles-chez-les-ouvrieres-la-peur-de- per-


dre-son-travail_5219215_3224.html.

130 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
induzir comportamentos eleitorais que não são do verdadeiro interesse dos

cidadãos.

Estes são apenas alguns exemplos de uma miríade de maneiras em que

as interações sociais podem ser prejudiciais. O que deve ser enfatizado é que

o que acontece numa determinada interação influencia outras interações. Já

foi mencionado que uma mudança na participação das mulheres no mercado


de trabalho – da exclusão para a inclusão e para empregos de maior estatuto –

mudou a sua posição no lar, dando-lhes não apenas mais recursos, mas também

maior controlo e melhor estatuto.

Estas repercussões entre diferentes interações levam as pessoas a fazer

concessões. As pessoas aceitam um mau emprego quando lhes dá recursos

suficientes para pagar um divórcio e adquirir maior independência de uma família

opressiva. O apoio social pode gerar dependência em relação aos assistentes sociais

ou à política governamental, mas pode simultaneamente melhorar a capacidade

do beneficiário de negociar no mercado de trabalho e obter mais recursos, maior

controlo e melhor estatuto. As pessoas podem aceitar a humilhação de certas

formas paternalistas e conspícuas de apoio social (como cupões de alimentos)

para dar aos seus filhos uma melhor educação. Ou, inversamente, podem evitar

mandar os seus filhos à escola, excluindo-se de alguma forma da sociedade, a fim

de esconder a sua miséria e evitar ver os seus filhos serem enviados para lares

adotivos.

Uma sociedade justa é aquela em que as interações sociais são, tanto

quanto possível, desprovidas de todos esses maus padrões de interação que

minam a dignidade das pessoas. Uma sociedade justa é uma sociedade que evita

fazer com que as pessoas enfrentem duros tradeoffs onde devem trocar a sua

dignidade por outras vantagens.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 131
Promover a justiça social

Há duas formas de combater as más interações sociais. Uma maneira consiste em

fornecer às pessoas os recursos que lhes permitem navegar pelas várias interações

com sucesso: apoiar o acesso à escola, à universidade e à aprendizagem ao longo

da vida, bem como fornecer assistência médica; fortalecer os trabalhadores no

mercado de trabalho, com mais segurança de rendimento; oferecer informações

mais precisas aos cidadãos quando participam da política; conceder às pessoas

LGBTQI o direito de se casarem e terem filhos, tornando-as mais fortes e mais

incluídas nas suas comunidades; distribuir apoio de rendimento às mulheres

pode aumentar o seu controlo sobre os gastos domésticos, e assim por diante.

A outra forma de conter as más interações consiste em mudar as regras

do jogo nos vários cenários e organizações em que as interações ocorrem.

Impor limitações estritas à concentração do mercado e às atividades bancárias

protege consumidores e depositantes; democratizar, ou seja, compartilhar poder

e informação nas organizações públicas torna a voz dos cidadãos mais eficaz; e

democratizar as empresas dá aos trabalhadores uma dignidade muito maior. É

mais difícil mudar as regras do jogo nas famílias e nas comunidades, mas isso
32
pode ser alcançado através da pressão dos atores relevantes.

As duas formas não são exclusivas e podem reforçar-se mutuamente, ou

produzir círculos virtuosos. Por exemplo, pagar transferências de rendimento para

as mulheres pode aumentar o seu poder e estatuto e pouco a pouco contribuir

para mudar as normas e tradições que regem os papéis de género na família.

Equipados com esses conceitos, vamos agora revisitar as visões socialista

e de terceira via para uma sociedade melhor. As terceiras vias, que consistem na

redistribuição de recursos pelo Estado após o mercado ou em investir em ativos

das pessoas antes do mercado, dependem principalmente da ideia de apoiar as

pessoas com ativos que aumentam a sua capacidade de sucesso. A redistribuição

de recursos após o mercado permite-lhes ter sucesso como consumidores –

e como membros da família e da comunidade, se o estigma do apoio não for

demasiado nocivo –, enquanto a provisão de ativos para o mercado também lhes


32 A ideia de que é importante pensar em termos de reforma das regras do jogo é defendida em Stiglitz (2015) e no
Banco Mundial (2017).

132 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
permite ter sucesso como trabalhadores – e evita em grande medida as questões

de estigma.

Em contrapartida, a plataforma socialista e a terceira via visam alterar

as regras do jogo de forma mais profunda. A plataforma socialista é imperfeita

porque substitui o privilégio da riqueza por esquemas autoritários que geram

interações sociais altamente deterioradas. A terceira via, que procura desenvolver


a cooperação e aumentar a dignidade dos trabalhadores e dos cidadãos através

da reforma da empresa e de outras instituições sociais, é muito mais promissora

à luz das suas prováveis consequências nas relações sociais. Ideias semelhantes

podem orientar as reformas do Estado social e a forma como se relaciona com os

seus beneficiários.

Nessa linha, os capítulos seguintes exploram como as mudanças no

mercado e na empresa, no Estado social e na esfera política podem aproximar-

nos de uma sociedade justa.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 133
Capítulo 6
Reformar o capitalismo
No capítulo anterior, argumentámos que se deve ir além da oposição antiquada

entre propriedade privada e socialismo e buscar reformas das instituições


predominantes do mercado, da empresa e do Estado, para abrir um terceiro

caminho para uma sociedade mais humana. Neste capítulo, focamo-nos nas

instituições centrais do capitalismo moderno: a empresa, os mercados e as

instituições financeiras.

Max Weber (2001) definiu, de um modo claro, a natureza paradoxal do

capitalismo moderno. Ele via-o como “igual à busca pelo lucro e o lucro sempre

renovado por meio da empresa capitalista, racional e contínua”. Entretanto, ele

também insistiu que o tipo de vida associado a esse capitalismo racional ocidental

moderno apareceu “do ponto de vista da felicidade ou utilidade do indivíduo único,

inteiramente transcendental e absolutamente irracional”. O que foi irracional aqui

de acordo com ele? O facto de que “o homem é dominado pelo fazer dinheiro, pela

aquisição como finalidade última da vida” ao invés de ter “a aquisição económica

tão simplesmente subordinada ao homem como meio para a satisfação das suas

necessidades materiais”. Podemos superar este paradoxo e reformar o capitalismo


de uma maneira que nos permita aproveitar a racionalidade económica ao serviço

do prosperar humano?

Uma exploração empírica e histórica diz-nos que houve uma grande

diversidade, através do tempo e do espaço, nas formas que o capitalismo tomou.

Essa diversidade permanece mesmo que se restrinja a atenção à conceção de

Weber sobre o capitalismo racional moderno. Como se pode descrever o tipo

ideal de capitalismo dominante contemporâneo? Essa forma de capitalismo tem

uma série de características marcantes.

Em primeiro lugar, encontramos a grande sociedade anónima como o ator


dominante em cadeias de valor complexas e frequentemente multinacionais.

Em segundo lugar, a estrutura jurídica empresarial vem com uma separação de

134 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
propriedade e controlo que tem promovido o surgimento e desenvolvimento da

gestão como uma (quase) profissão e até mesmo como uma indústria. Em terceiro

lugar, uma evolução marcante do capitalismo empresarial e de gestão desde o

final da década de 1970 tem sido associada às crescentes buscas por soluções de

mercado. Em quarto lugar, essa mercantilização expansiva tem coevoluído com

o crescimento da finança como um ator dominante na constelação capitalista e,


mais significativamente ainda, como uma cultura hegemónica das economias,

sociedades e políticas contemporâneas.

Este capítulo explora estas características marcantes e algumas das

dinâmicas que levaram ao capitalismo contemporâneo tal como o conhecemos.

Neste processo, identifica uma série de tendências problemáticas ou mesmo

preocupantes e sugere caminhos através dos quais devemos questionar e

reformar o nosso a fim de melhor alinhá-lo com uma agenda progressista que dê

prioridade às necessidades e aspirações humanas.

Reformar a governança e o propósito da empresa

A empresa é um elemento constitutivo do capitalismo contemporâneo e uma

instituição que hoje tomamos como certa. Ainda assim, o seu papel central na

produção, organização e troca económica é relativamente recente. Até meados

do século XIX, as licenças das empresas e as prerrogativas associadas eram

concedidas pelo soberano ou pelo Estado como contrapartidas para a assunção

de riscos ao serviço do interesse público. A difusão de atos de incorporação geral

que essencialmente privatizaram o regime societário foi um desenvolvimento

jurídico que ocorreu na maioria dos países durante a segunda metade do século

XIX.

As características contemporâneas da empresa levaram tempo para

emergir e serem aceites. Na sua forma jurídica moderna, a empresa é, de facto,

bastante notável. Primeiro, é tratada em termos legais como um indivíduo

artificial. Como tal, tem uma existência jurídica independente dos seus membros

e detém direitos e obrigações em nome próprio. Em segundo lugar, a empresa

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 135
moderna traduz a propriedade na posse de ações e, como consequência, induz

uma dissociação entre propriedade e administração. Nesta forma moderna,

a propriedade empresarial tende a ser dispersa, e as ações são facilmente

transferíveis e comercializáveis. Tal estatuto peculiar e padrão de propriedade

implicam que a empresa pode sobreviver à vida útil dos seus acionistas originais,

potencialmente existentes em perpetuidade. Além disso, como pessoa jurídica,


é protegida por uma forte divisão de ativos e proteção da entidade – o que

significa que os credores dos proprietários ou acionistas não têm direitos sobre

os ativos da pessoa jurídica empresarial. Finalmente, e de forma bastante crucial,

a moderna propriedade acionista das empresas está associada ao princípio da

responsabilidade limitada. Os acionistas não podem ser responsabilizados pelas

dívidas e outros passivos da sociedade além do valor das suas participações.

Assim, a sociedade empresarial moderna poderia ser descrita como o

primeiro indivíduo aumentado (artificial): tem todos os direitos e prerrogativas

associados à personalidade jurídica, gozando de imortalidade e de uma limitação

flagrante da sua responsabilidade.

Estas características e prerrogativas explicam o sucesso da empresa como

forma jurídica no século XX. Foram identificadas como motores de crescimento,

assunção de riscos, empreendedorismo e inovação. No entanto, desde o início, ela

e as prerrogativas a si associadas suscitaram uma oposição veemente. Os debates

concentraram-se em dois conjuntos principais de questões: a responsabilidade

limitada e as suas consequências, e a governança e o propósito da empresa.

Entre os primeiros críticos mais violentos da empresa, encontramos nada

menos que Adam Smith. Em An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth

of Nations (1776), Smith argumentou que as empresas tendem a reduzir ou a

distorcer a concorrência, a encorajar a especulação e o desvio de fundos, a permitir

o poder bruto e a opressão e a enfraquecer significativamente todas as formas de

responsabilidade. Nos debates do século XIX em torno da associação genérica de

responsabilidade limitada e incorporação, os opositores preocupavam-se com a

expansão da especulação e de comportamentos arriscados e fraudulentos. Muitos

argumentos eram morais, ligando benefícios e encargos, moralidade pessoal e

plena responsabilidade:

136 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Os defensores da responsabilidade limitada proclamam que o esquema

da Providência pode ser modificado vantajosamente e que podem ser contraídas

dívidas e obrigações que os devedores, embora tenham os meios necessários,

não serão obrigados a cumprir (McCulloch, 1856: 321, tradução nossa)

Um exame contemporâneo a esses argumentos salienta as implicações de

risco moral da responsabilidade limitada. A extensão da responsabilidade limitada


encorajou a assunção de riscos (e, portanto, a inovação e o crescimento) porque

criou uma situação de expansão da irresponsabilidade. Os indivíduos assumiram

mais riscos precisamente porque podiam colher recompensas sem terem de

suportar os custos totais. A responsabilidade limitada tem desempenhado, por

outras palavras, o papel de um poderoso esquema de seguros, criando no processo

um risco moral sistémico no centro do capitalismo moderno. Desse ponto de

vista, o aumento da assunção de riscos associado à responsabilidade limitada

deve ser visto como um desenvolvimento preocupante que provavelmente trará

grande instabilidade, crises e fracassos regulares.

Surgiram preocupações semelhantes em relação à governança. A

dissociação estrutural da propriedade e da gestão das empresas traduziu-se em

múltiplos tipos de falhas de agência. Tal tem produzido, desde a década de 1930

e do trabalho pioneiro de Adolf Berle e Gardiner Means, uma literatura rica e

densa sobre a governança empresarial. Há duas questões principais interligadas

nas discussões sobre essa governança. Uma deles é a natureza da relação e o

equilíbrio de poder entre gestores e acionistas. A outra é a legitimidade de

considerar outros atores e os seus interesses (além de acionistas e gestores) em

sistemas e práticas de governança.

Correndo o risco de simplificar demais, temos duas perspetivas extremas

e parcialmente opostas. De um ponto de vista, os acionistas são definidos como

os proprietários da empresa, os gerentes são agentes seus e o único propósito

legítimo dela é maximizar o valor para os acionistas (Friedman, 1970). Um

argumento contrastante aponta que os acionistas não são donos da empresa e

que a responsabilidade dos gestores é equilibrar os interesses de uma diversidade

de stakeholders (Freeman, 1984). Assim, o propósito da empresa, a partir dessa

perspetiva, é servir o interesse coletivo dessa comunidade de stakeholders que

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 137
representa. No caso de grandes empresas com um alcance quase global, essa

comunidade torna-se muito ampla, e servir o interesse coletivo dos interessados

torna-se quase sinónimo de servir o interesse público e o bem comum.

Historicamente, o capitalismo empresarial tem oscilado entre estas duas

perspetivas. Até ao final da década de 1970, o capitalismo empresarial era do tipo

stakeholder. O final da década de 1970 viu um aumento no poder do acionista –


com uma vingança. A teoria da agência e a sua proposta de que os acionistas eram

os proprietários da empresa e os gerentes os seus agentes (Jensen e Meckling,

1976) reformulou completamente a teoria e a prática da governança empresarial,

transformando as empresas, no processo, em entidades de propósito único que

se focavam apenas na maximização do retorno do investimento para os acionistas.

Tal mudança radical tornou-se ideológica e estruturalmente entrincheirada

ao longo dos últimos 40 anos através da sua profunda incorporação nas

instituições que treinam as elites globais – escolas de negócios, departamentos

de economia, mas também direito e escolas de administração pública. Como

consequência clara, o equilíbrio inclinou-se durante esse período em favor

dos detentores de capital e do capital. O foco no propósito único da empresa

contemporânea é claramente um fator explicativo importante para o aumento

das desigualdades desde a década de 1980 – com as suas consequências sociais

e políticas desastrosas. Por isso, a urgência de hoje clama por um retorno a um

capitalismo mais equilibrado e participativo (Reich, 2015).

Com base nesta avaliação, há pelo menos três caminhos a explorar:

repensar a responsabilidade limitada, transformar a governança e o propósito da

empresa e promover o desenvolvimento de formas alternativas de organização

económica.

Em primeiro lugar, há uma necessidade urgente de questionar o

privilégio exorbitante da responsabilidade limitada. Historicamente, a

responsabilidade limitada tinha sido associada a uma missão de interesse

público. A responsabilidade limitada genérica faz sentido quando as empresas

servem apenas interesses privados? Há diferentes maneiras de pensar sobre

uma reforma da responsabilidade limitada, da mais à menos radical. Poder-se-ia

pensar na abolição total. Poderíamos querer rescindir a responsabilidade limitada

138 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
como um princípio genérico e voltar à concessão excecional com base num

compromisso para com o bem comum. Finalmente, embora mantendo o princípio

da responsabilidade limitada genérica, poderíamos imaginar a introdução

de exceções e a expansão da responsabilidade em certos setores, como, por

exemplo, o bancário e o financeiro.

Em segundo lugar, é mais do que tempo de desmascarar o mito de que as


empresas pertencem aos acionistas. Os estudiosos do direito já demonstraram

de forma convincente que os acionistas apenas possuem ações e, portanto, estão

mais próximos nas suas reivindicações da legitimidade dos investidores do que dos

verdadeiros proprietários das entidades (Stout, 2012). Isso deve agora traduzir-

se numa transformação dos princípios de governo empresarial e até mesmo de

disposições legais, com uma inflexão significativa em direção a uma conceção da

empresa como um bem comum que serve uma multiplicidade de stakeholders e

respetivos interesses. Há muito tempo que têm sido feitas propostas por muitos

pensadores (começando por John Stuart Mill) sobre a associação de stakeholders,

em particular os trabalhadores, à tomada de decisões na empresa. A fórmula mais

natural seria ter um conselho composto por representantes das várias categorias

de partes interessadas: acionistas, credores, trabalhadores, fornecedores, clientes,

comunidades locais. Ao contrário do sistema alemão de codeterminação que, de

facto, confere a maioria do poder aos acionistas, seria importante evitar dar a

maioria absoluta do poder aos acionistas ou aos trabalhadores, a fim de garantir


33
que a multiplicidade dos interesses das partes interessadas é tida em conta .

Essa transformação estrutural deve coevoluir com a reformulação da

finalidade da empresa. A proposta aqui é ultrapassar a maximização do valor

dos acionistas e consagrar os interesses das múltiplas partes interessadas ou

mesmo colocar as questões do bem comum no centro do propósito empresarial.

As experiências atuais com a Benefit Corporation – uma nova forma jurídica

empresarial que impõe uma contribuição para o benefício do público em geral


34
e das partes interessadas – são interessantes a esse respeito. O desafio,

33 Ver IPSP (capítulos 8 e 21) para uma discussão mais aprofundada dos sistemas de governação democrática.

34 Trinta Estados dos EUA autorizaram essa nova forma jurídica de empresa. Noutras partes do mundo, as grandes
empresas podem solicitar a certificação como B-Corp. Tal certificação é administrada por uma organização sem fins
lucrativos, a B-Lab, presente em mais de 50 países, “que serve um movimento global de pessoas a usar os negócios como
força para o bem”. Ver https://www.bcorporation.net/.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 139
porém, não seria trabalhar nisso apenas à margem do sistema, mas transformar

radicalmente a filosofia que impulsiona o funcionamento das nossas grandes

empresas. Para consegui-lo, seria necessário fazer uma mudança nas diversas leis

societárias nacionais.

Em terceiro lugar, há a necessidade de promover o desenvolvimento de

condições em que as empresas com estruturas jurídicas alternativas possam

prosperar. Precisamos de estimular uma ecologia rica de empreendimentos

económicos. O poder e a riqueza das empresas contemporâneas tendem a

sufocar a implantação de alternativas. Cooperativas, parcerias, empreendimentos

de empreendedorismo social, plataformas de economia colaborativa e partilhada

são experiências importantes das quais os modelos de negócios inclusivos e

progressistas de amanhã podem e devem emergir.

Capitalismo empresarial, poder e ameaças à democracia

No início do século XXI, o capitalismo empresarial atingiu uma escala e um alcance

sem precedentes. As empresas estão envolvidas em todas as dimensões das

nossas vidas, economias e sociedades – na produção e distribuição de bens e

de serviços, seguros e bancos, mas também saúde, educação, cultura, desporto

e até mesmo na produção de segurança nacional, na gestão de prisões ou na


organização de protestos e advocacia. Essa expansão do alcance da empresa

resulta da transnacionalização das operações e governo e da concentração sem

precedentes de riqueza e poder. Por sua vez, essa concentração de poder traduz-

se em ameaças diretas e indiretas à democracia e à justiça democrática.

Há muitas formas diferentes de medir e pesar empiricamente a riqueza

e o poder das empresas. Todos os números, no entanto, apontam para uma

rápida internacionalização nos últimos 30 anos, um aumento acentuado da

atividade empresarial, das receitas e da participação no comércio global, e uma

impressionante concentração de capital, riqueza e recursos através do tempo.

Em 1990, o número total de empresas transnacionais foi estimado em cerca de

30.000. Em 2010, o número de empresas-mãe transnacionais foi estimado em

140 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
cerca de 100.000, com cerca de 900.000 filiais estrangeiras (Jaworek e Kuzel, 2015).

É possível argumentar que os números variam de um ano para o outro,

mas a tendência geral, nos últimos dez anos, é clara. Se compararmos os Estados

e empresas nacionais por receita anual, entre as maiores centenas de entidades,

encontramos cerca de 60 empresas e 40 Estados nacionais. O Walmart, a Apple

ou a Shell são mais ricos, em termos de receita anual, do que a Rússia, a Noruega
ou a Bélgica. Mais impressionante ainda: as dez maiores empresas do mundo

possuem uma receita combinada superior à receita combinada dos 180 países
35
mais pobres.

A crescente riqueza das empresas multinacionais traduziu-se em lucros de

crescimento rápido durante este período. Por exemplo, o valor acrescentado das

empresas multinacionais dos EUA e das suas filiais estrangeiras foi multiplicado

por mais de três entre 1989 e 2011. Paralelamente, destruíram uma parte

impressionante dos empregos na indústria transformadora nos Estados Unidos:


36
dos 19 milhões em 1980 restam apenas 11 milhões.

Há mais do que uma simples correlação entre esses dois movimentos. A

destruição de empregos na indústria transformadora nos países ricos e a sua

transferência para partes do mundo onde a mão de obra é mais barata tem sido,

ao longo deste período, um dos fatores importantes que geram um aumento

nos lucros das empresas multinacionais. Outro mecanismo explicativo para o

aumento dos lucros tem sido a diminuição impressionante ao longo do período

das taxas do imposto sobre as sociedades, o que aconteceu em todas as regiões

do mundo, como ilustrado na figura 6.1, que mostra as taxas de imposto legais,

enquanto os impostos efetivamente pagos são ainda mais baixos devido a muitas

isenções especiais e lacunas.

35 Ver http://www.globaljustice.org.uk/sites/default/files/files/resources/controlling_corporations_briefing.pdf.

36 Ver https://www.bea.gov/scb/pdf/2013/11%20November/1113_mnc.pdf and https://piie.com/blogs/trade- invest-


ment-policy-watch/questionable-rationale-behind-washingtons-antitrade-rhetoric.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 141
Figura 6.1
Evolução das taxas
de imposto sobre o
rendimento das pessoas
coletivas, 2003-2017

Fonte:
https://home.kpmg.com/xx/en/
home/services/tax/tax-tools-
and-resources/tax-rates-online/
corporate-tax-rates- table.html

Barkai (2017), baseando-se num modelo de concorrência monopolística da

economia dos EUA, estima que a crescente concentração do setor empresarial

aumentou o poder de mercado das empresas e os seus lucros monopolistas

puros, enquanto tanto a participação do trabalho como a participação do capital

no valor adicionado diminuíram no mesmo período (figura 6.2). Isto significa que a

taxa de retorno sobre o capital de mercado realmente caiu durante esse período e

traz uma variação interessante à teoria de Piketty de uma taxa de retorno estável

e um aumento da participação de capital – é difícil separar o lucro puro do retorno

sobre o capital nos dados.

Figura 6.2
Participação pura
nos lucros do setor
empresarial não
financeiro dos EUA
(1984-2014)

Fonte:
Barkai (2017)

142 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
A crescente riqueza das empresas multinacionais e a sua rápida

projeção transnacional tornaram-nas mais poderosas do que nunca. Uma

das consequências do poder e da mobilidade dessas empresas tem sido a sua

capacidade de selecionar as jurisdições mais favoráveis aos seus interesses.

Outra consequência importante, refletida na figura 6.1, tem sido uma competição

entre os países para oferecer condições tributárias mais atraentes e mercados de


trabalho desregulamentados para as empresas multinacionais. Esse dumping fiscal

e social tem-se combinado com o mecanismo dos paraísos fiscais offshore para

permitir que as empresas multinacionais reduzam ou até mesmo se esquivem da

responsabilidade tributária numa escala sem precedentes.

Estas evoluções tiveram impacto sobre a apropriação da riqueza. As

empresas multinacionais criaram inegavelmente riqueza significativa ao longo

dos últimos 40 anos, mas a maior parte dessa riqueza foi transformada em

lucros em vez de remuneração do trabalho ou investimentos coletivos através de

impostos. Portanto, é justo dizer que tais evoluções contribuíram para o aumento

significativo das desigualdades dentro dos países, particularmente no mundo

ocidental, que está agora bem documentado. Como a figura 6.3 indica claramente,

o aumento das desigualdades levou à compressão das classes médias e ao

aumento da riqueza individual dos já super-ricos. Embora esse fenómeno tenha

sido particularmente forte nos Estados Unidos, pode também ser documentado

no caso de outros países (Piketty e Zucman, 2014; Alvaredo et al., 2018).

Figura 6.3
A ascensão dos super-ricos
nos Estados Unidos

Fonte:
Piketty, Saez e Zucman (2016)

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 143
Estas evoluções traduzem-se em ameaças diretas à democracia. Em 1911,

o juiz do Supremo Tribunal dos EUA Louis D. Brandeis já advertia que “podemos

ter democracia neste país ou podemos ter grande riqueza concentrada nas mãos

de poucos, mas não podemos ter ambos”. A Idade de Ouro foi um período nos

Estados Unidos também marcado pela concentração da riqueza e pelo aumento

das desigualdades. Separação e equilíbrio de poder, a existência de pesos e


contrapesos que podem pesar sobre os nós de poder dominantes são condições

necessárias, sabemos, para o bom funcionamento das democracias (Dahl, 2006).

A extrema concentração de capital e riqueza nas empresas contemporâneas

e a consequente ascensão dos super-ricos fomentam consequentes desequilíbrios

democráticos. No século XXI, isto aplica-se muito além dos Estados Unidos e pode

ser documentado em diferentes partes do mundo.

Um primeiro forte desequilíbrio é criado pela influência política direta e

significativa associada ao financiamento em larga escala de campanhas políticas e

lobbying. Em 2016, o gasto total com lobby nos EUA foi de cerca de 3,45 mil milhões

US$, um aumento de 140% em menos de 20 anos (Opensecrets.org, 2017). A forte

presença e influência do lobby também é generalizada noutras partes do mundo

– inclusive na União Europeia, onde as regras de registo e declaração são menos

rigorosas do que nos EUA, tornando o lobby menos fácil de medir. E como se o

lobby não bastasse, as contribuições políticas e o financiamento de campanhas

também aumentaram significativamente nos últimos vinte anos.

Tal está a levar a uma situação em que muitos argumentariam

veementemente que a política democrática foi capturada e que uma regra

oligárquica está a chegar para se impor. A oligarquia, nesse caso, é uma mistura

de grandes empresas e um pequeno número de indivíduos super-ricos, os dois

estando frequentemente ligados. Em maio de 2017, Donald Trump decidiu

retirar o seu país do Acordo de Paris sobre mudança climática da COP21. Poucas

semanas antes de tal decisão, 22 senadores republicanos enviaram-lhe uma carta

instando-o a fazer isso. É importante saber que esses 22 senadores receberam

enormes contribuições financeiras durante as últimas campanhas políticas das


37
indústrias de petróleo, gás e carvão. Como se pode verificar, a ligação entre

37 Ver https://www.theguardian.com/us-news/2017/jun/01/republican-senators-paris-climate-deal-energy-donations.

144 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
riqueza concentrada e influência política indevida, levando a uma distorção da

democracia, pode ser bastante direta e consequente. A questão geral do papel do

dinheiro na política será examinada mais detalhadamente no capítulo 8.

As empresas podem ter um impacto mais indireto, mas, sem dúvida,

de longo alcance. O exercício da responsabilidade social corporativa pode ser

reinterpretado como uma forma de intervenção política. As empresas estão a tomar


decisões políticas à medida que compensam os Estados falidos, que agem através

da delegação dentro deles ou se tornam cada vez mais envolvidas na criação de

regras transnacionais multiparticipativas. O objetivo da responsabilidade social

empresarial (RSE) é em geral positivo, associado à produção de bens coletivos.

A RSE, no entanto, assim como a filantropia ou o paternalismo antes dela, está

associada ao voluntarismo, à parcialidade, à arbitrariedade empresarial e,

portanto, ao envolvimento subjetivo em certas causas e com certos grupos e não

com outros. Tal, inegavelmente, torna impossível para a RSE implantar soluções

estruturais viáveis para os desafios contemporâneos do bem comum.

Há uma maneira ainda mais subtil em que o mundo empresarial distorce

a política democrática – através do financiamento de uma vasta gama de think

tanks e institutos de investigação que se organizam para a influência ideológica e

defendem modelos de políticas que tendem a favorecer os interesses empresariais.

A negação da mudança climática é, mais uma vez, um exemplo interessante. A

sua prevalência ideológica e política nos Estados Unidos reflete mais do que o

financiamento direto de campanhas. Sabemos agora que ela decorre de mais

de trinta anos de financiamento empresarial de uma densa rede de grupos de

reflexão que empurram essa agenda de formas extremamente ativas (Jacques et

al., 2008; Collomb, 2014).

Tal desequilíbrio de riqueza, poder e influência entre as empresas e a

maioria dos outros atores (incluindo Estados e políticos) na arena política está

potencialmente a ter, como sabemos, consequências preocupantes para as nossas

democracias. A ascensão de governos autoritários, a tentação do populismo

e os apelos à construção de muros e barreiras entre nações, comunidades ou

indivíduos têm de ser compreendidos, pelo menos em parte, nesse contexto.

As desigualdades têm-se tornado cada vez mais oportunidades estruturais para

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 145
muitos e restringido a mobilidade intergeracional. A nível individual, isso pode

traduzir-se num sentimento de alienação, raiva e violência, se não de desespero,

que desencadeia uma viragem para políticas e promessas populistas. A riqueza

e a força das empresas contemporâneas também se traduzem em poder de

negociação significativo perante o trabalho. As empresas estão, em si mesmas,

entre as instituições menos democráticas do nosso mundo – na verdade, tendem


a funcionar muito como autocracias. Caracterizam-se por fortes desigualdades

internas que se materializam em termos de remuneração, recursos, poder

e autoridade. E uma grande maioria dos seus membros não tem qualquer

envolvimento na tomada de decisões e governo societário. Talvez não seja tão

surpreendente que, nessas condições, uma grande parte dos millenials não se veja

com um futuro empresarial.

O que pode ser feito para enfrentar esse desafio? Os desequilíbrios de

riqueza e de poder, quando se tornam demasiado significativos, representam

uma ameaça democrática e podem mesmo pôr em perigo a sustentabilidade

a longo prazo dos acordos capitalistas. A análise acima sugere pelo menos três

cursos de ação.

Primeiro, devemos exigir total transparência no que diz respeito ao

financiamento empresarial de campanhas políticas, lobbying, mas também à

influência nas atividades através de grupos de reflexão e institutos de investigação.

A transparência, porém, não é suficiente. Precisamos de estabelecer limites

claros para os montantes que as empresas ou os indivíduos ricos podem gastar

legalmente na construção de influência política. Mais informações sobre essa

questão estão disponíveis no capítulo 8.

Em segundo lugar, temos de impor uma responsabilidade fiscal. As

empresas têm de assumir a sua quota-parte adequada no financiamento

dos custos coletivos e das externalidades a montante e a jusante. A luta pela

responsabilidade fiscal terá de assumir diferentes formas, mas exige, em qualquer

caso, uma estreita colaboração e cooperação internacional. A luta contra os

paraísos fiscais, que tem feito progressos significativos nos últimos anos, deve ser

acelerada. As taxas do imposto sobre as sociedades têm de ser harmonizadas e

fixadas em níveis que permitam a aplicação de medidas adequadas de segurança e

146 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
bem-estar para os membros das comunidades territoriais envolvidas. A confiança

na responsabilidade social empresarial nunca será suficiente para alinhar as

empresas com os seus níveis reais de responsabilidade quando se trata de custos

coletivos e externalidades.

Finalmente, incentivar a democratização interna das empresas e as formas

de gestão. Isso vai além da redefinição das regras e diretrizes de governo já


propostas na secção anterior. Implica também a transformação desses modelos

ideológicos e culturais que enquadram a educação e a socialização das futuras

mulheres e homens de negócios, em particular dos gestores. Filosofias e

instrumentos de gestão que promovam a participação, a organização horizontal,

a inclusão e a colaboração devem ser valorizados, ensinados e defendidos.

Devemos, paralelamente, identificar e questionar modos de gestão alienantes

que são aclamados hoje, como a inovadora economia digital.

Marketização e financeirização, parceiros inesperados

O projeto liberal, com as suas raízes no Iluminismo, identificou a economia de

mercado como um importante mecanismo de criação de riqueza e libertação

individual. Em contraste com várias formas de corporativismo – incluindo a

empresa, de acordo com Adam Smith – o mercado livre permitiria uma alocação

eficiente de recursos e uma correspondência entre busca e oferta, com distorção

mínima. O mecanismo de concorrência foi o processo-chave através do qual

surgiram os preços justos.

A tradição liberal na economia vê as economias de mercado como o

estado natural da humanidade, um estado que foi impedido, frustrado ou mesmo

bloqueado em diferentes períodos e partes do mundo (Hayek, 1944). Outros

pensadores, no entanto, como Karl Polanyi no seu livro de referência de 1944,

A Grande Transformação, sublinharam a natureza socialmente construída através

do tempo da economia de mercado como uma forma cada vez mais poderosa e

dominante de organização humana. No final, quem está certo em tal debate não

é o mais importante. No entanto, é significativa a tendência de rápido progresso

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 147
da mercantilização no nosso mundo contemporâneo desde o final da década de

1970.

Por mercantilização aqui deve entender-se tanto a crença quanto a

convicção de que os mercados são de eficiência superior para a alocação de bens e

recursos e a reforma e práticas políticas associadas a tal, incluindo a estabilização

macroeconómica, a privatização, a desregulamentação e a liberalização do


comércio exterior.

O progresso da mercantilização ao longo deste período viu um número

crescente de países a transformar-se em economias de mercado ou a expandir o

papel e o lugar das lógicas de mercado na organização das suas economias. Ainda

mais espetacular, porém, tem sido a expansão do domínio da mercantilização.

As lógicas de mercado alcançaram esferas da vida humana e social que

tradicionalmente eram estruturadas e valorizadas através de mecanismos muito

diferentes, como saúde, educação, desporto, artes, cultura, política, religião ou

relações íntimas. O mercado tornou-se um mantra dominante e uma varinha

mágica através de muitas fronteiras.

Três questões principais precisam de ser destacadas aqui. Primeiro, os

mercados inegavelmente podem ser, e têm sido historicamente, mecanismos

eficazes de alocação e criação de riqueza. No entanto, a condição para o

funcionamento não distorcido e livre dos mercados é a de que sejam caracterizados

pela concorrência aberta e justa, em que nenhum ator individual seja capaz de

ditar ou controlar as condições.

A transformação do capitalismo contemporâneo acima descrita vai

contra essa condição. Em particular, a agregação de capital financeiro associada

à empresarialização em larga escala está, em princípio, em contradição com

os mecanismos eficazes de alocação do mercado livre. No nosso período

contemporâneo, muitos mercados evoluíram para equilíbrios oligopolistas e, em

alguns casos, esses oligopólios são estruturados a nível internacional.

Em condições de equilíbrio oligopolístico, o papel virtuoso da dinâmica

de mercado torna-se muito menos óbvio. O poder de certos atores permite-

lhes manobrar as condições de mercado a seu favor e cria espaço para o

desenvolvimento de comportamentos de busca de rendimento. Em tal contexto,

148 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
a magia do mercado não deve ser mais do que um encantamento, fortemente

dissociado das dinâmicas que estão em ação na realidade. Em segundo lugar,

mesmo quando os mecanismos de mercado funcionam de forma satisfatória

em relação à dinâmica competitiva e à produção efetiva de riqueza, subsistem

dúvidas quanto à distribuição da riqueza assim criada. Os últimos 150 anos da

economia de mercado mostram que as duas questões da produção e distribuição


da riqueza não estão miraculosamente ligadas, como a imagem de Adam Smith

da mão invisível leva alguns a argumentar. A produção de riqueza através dos

mercados pode, por outras palavras, estar associada a padrões muito injustos e

antidemocráticos de distribuição da riqueza. Em terceiro lugar, o progresso e o

sucesso da mercantilização colocam a questão dos “limites morais dos mercados”

(Sandel, 2013; Satz, 2010). Afinal, um mercado implica que os bens ou serviços que

são trocados sejam (e possam ser) mercantilizados.

A mercantilização de (quase) tudo, portanto, implicaria a mercantilização e

a imposição da valorização monetária sobre (quase) tudo. A questão que temos

de colocar é se, de facto, tudo (incluindo, por exemplo, órgãos, corpos, crianças,

relações, cultura, educação, influência política, etc.) pode e deve ser transformado

em bens transacionáveis com valor monetário.

Como sugerido acima, uma característica definidora do capitalismo

contemporâneo é a surpreendente coevolução de uma tendência de

mercantilização e financeirização – em que, em teoria, ambos poderiam ser

vistos como em contradição parcial (Krippner, 2005; Palley, 2013). O processo de

financeirização tem, em si mesmo, uma série de dimensões. Refere-se, por um

lado, ao crescente papel e lugar dos mercados financeiros na economia em geral e

ao crescente número de empresas em redor que buscam fundos em tais mercados.

A lógica é simples: à medida que as nossas atividades económicas e sociais vão

sendo transformadas em bens transacionáveis, os mercados financeiros ganham

destaque como as principais arenas onde as empresas que produzem esses bens

são cotados e negociados. A financeirização também se refere, naturalmente, ao

crescente papel desempenhado pelos indicadores financeiros no processo de

tomada de decisão de muitos atores económicos, incluindo as empresas. Como

já indicado, essa importância dos indicadores financeiros atingiu esferas da vida

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 149
humana e social que antes tinham referenciais muito diferentes, como a de

cuidados pessoais. A financeirização também ocorre através do peso crescente

das finanças como indústria e como campo profissional e do grande sucesso

com que essa indústria tem conseguido subjugar todas as formas de restrições –

institucionais, políticas e até mesmo éticas – à globalização e expansão contínua

das suas atividades.


A financeirização também se traduz em números impressionantes que

refletem a agregação de capital numa escala sem precedentes e significativamente

em desacordo com os apelos simultâneos à dinâmica do mercado livre.

Em 1980, a capitalização em bolsa das empresas nacionais cotadas na

Europa era de cerca de 8% do PIB. Esse número subiu para 105% em 1999, tendo
38
flutuado entre 40% e 90% desde 2002. Em 1997, o valor total da titularização (por

exemplo, ativos compostos por várias dívidas) na Europa era de 47 mil milhões de
39
euros. Em 2008, tinha atingido os 2.200 mil milhões de euros. Se deslocarmos

a nossa atenção agora para o mercado global de derivados (a maioria dos quais

são trocados de forma privada over-the-counter), os números são ainda mais

espantosos. De um valor global em 1998 de 72 biliões de dólares, esse mercado


40
cresceu para perto de 550 bilhões de dólares em 2016.

Desde a crise de 2007, sabemos que a intensa e rápida financeirização

das nossas economias e sociedades ocorre numa dimensão especulativa

generalizada. Parte substancial do valor criado nos mercados financeiros antes de

2007 desapareceu com o desenrolar da crise. A forma particular de financeirização

especulativa característica do capitalismo contemporâneo justifica a qualificação

de “capitalismo casino” (Sinn, 2012). Tal criou inexoravelmente pressões

desestabilizadoras e significativas nas nossas economias mundiais, mas também

nas sociedades e nas políticas.

Como podemos enfrentar esses desafios? Paradoxalmente, talvez em

vista da dimensão incansável da mercantilização contemporânea, revela-se

urgente reinjetar dinâmicas verdadeiramente competitivas na organização das

38 Fonte: https://www.indexmundi.com/facts/european-union/market-capitalization-of-listed-companies.

39 Fonte: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/PDF/?uri=CELEX:52015SC0185&from=EN.

40 Fonte: www.bis.org/statistics/derstats.htm. Estes valores representam o “valor nacional”, que inclui a dupla contagem
dos ativos subjacentes. O valor total de mercado dos ativos subjacentes foi de cerca de 20 biliões de dólares em 2016.

150 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
nossas economias. Há uma série de caminhos possíveis e complementares

para isso. Primeiro, trabalhar no contexto das comunidades reguladoras de

concorrência para redefinir os limites da concentração poderia ter um impacto

muito poderoso e estrutural. Em segundo lugar, precisamos de incentivar

fortemente o desenvolvimento das novas empresas e fomentar a intensificação

de ecologias de start-up, particularmente nas indústrias que têm sido dominadas

há muito tempo por grandes oligopólios, como os sistemas energéticos, e por

direitos de propriedade excessivos e superprotetores, como no caso da indústria

farmacêutica. Os incentivos institucionais que precisamos de criar devem não só

promover a criação de empresas iniciantes, mas também desencorajar dinâmicas

de integração e concentração de capital.

Quando se trata do crescimento invasivo da mercantilização e da lógica

de mercado, devemos efetivamente reiniciar um debate público sobre os limites

e as fronteiras moralmente aceitáveis do mercado. Além da adequada avaliação

científica da eficiência das soluções de mercado em diferentes áreas, que já é

esperada, os atores políticos nacionais e transnacionais têm a responsabilidade

de promover debates e resoluções democráticas com vista a conter as lógicas

de mercado e colocar limites à sua expansão. Para reavivar esse tipo de debate

político, é necessário incentivar o desenvolvimento de soluções alternativas e os

seus porta-estandartes, a partir das comunidades, ONG, universidades, institutos

de investigação, da sociedade civil, comunidades de grupos de reflexão e

influenciadores de políticas. Entre este último grupo, os defensores das soluções

de mercado livre têm sido canais particularmente ativos e eficazes de difusão e

institucionalização ao longo dos últimos 30 anos, aproximadamente. É urgente

incentivar o desenvolvimento de ideias desafiadoras (Held, 2004). Enquanto nos

movemos objetivamente, desde a queda do Muro de Berlim, para o domínio de

um paradigma intolerante (Babb, 2012), precisamos de reinventar uma cultura

de debate e dissonância e reviver uma ecologia competitiva de ideias. Isso deve

começar no coração das instituições de socialização: precisamos de repensar a


formação de futuras elites e especialistas, particularmente nos departamentos de

economia, gestão, direito e escolas de administração pública.

Finalmente, em paralelo precisamos de trabalhar sobre os lados

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 151
problemáticos da financeirização contemporânea. Um capitalismo que funciona

bem precisa, naturalmente, de financiamento. No entanto, as finanças devem

ser trazidas de volta para onde pertencem – ao serviço do desenvolvimento

económico e, em última análise, da prosperidade humana. Há muitos caminhos

a seguir se quisermos ir nessa direção. Algumas proposições já foram delineadas

nas duas secções acima, uma vez que uma característica importante das finanças

contemporâneas é a sua empresarialização.


Também precisamos urgentemente de fazer com que a regulação
financeira funcione a nível transnacional. As finanças globais são um bem comum
que precisa de controlo. Uma regulação mais rigorosa pode vir com a reinvenção
e adaptação aos nossos tempos de velhas soluções – como por exemplo, a do
Ato Glass Steagall de 1933, ou mesmo a nacionalização parcial ou completa de
41
alguns atores-chave. Paralelamente, é urgente promover o desenvolvimento
e o crescimento de formas alternativas de financiamento, ou seja, organizações
e arranjos com um enfoque mais providencial, cooperativo e comunitário, e
um forte envolvimento em favor de uma economia e sociedade sustentáveis e
progressistas.

41 Em 1933, o Ato Glass-Steagall separou bancos de investimentos e bancos comerciais para proteger a poupança das
famílias de especulações.

152 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Capítulo 7
Do Estado social ao Estado emancipador
Em A Grande Transformação, Karl Polanyi (1944) argumenta que a economia de

mercado não está bem equipada para lidar com três bens que não são mercadorias
comuns, porque não podem ser produzidos por empresas comerciais: terra,

trabalho e dinheiro. De facto, é aceite que o dinheiro precisa de garantia estatal

para atrair confiança suficiente e afastar a especulação – as bitcoins e as moedas

locais alternativas tentam provar que isso está errado, mas podem acabar por

provar que está certo. O caso da terra também se refere a questões ambientais

de forma mais ampla e, de facto, nesse domínio, as falhas de mercado são

generalizadas e envolvem não apenas a poluição, mas também externalidades

na escolha do uso da terra e do habitat (por exemplo, imóveis urbanos são

vulneráveis a padrões espontâneos de segregação). O caso do trabalho é central

no livro de Polanyi, que é muito sobre o nascimento de protótipos de Estados

sociais na esteira da Revolução Industrial. O trabalho não é um bem comercial

porque as pessoas precisam de viver e não podem simplesmente desaparecer

quando deixam de ser lucrativas. O mercado não garante espontaneamente a

sobrevivência e a segurança económica de qualquer mercadoria, e se o trabalho


é transformado em mercadoria, como acontece no capitalismo, a sobrevivência

e a segurança das pessoas ficam comprometidas. As flutuações selvagens dos

mercados perturbam vidas repetidamente, sob múltiplos choques, e hoje em dia

a globalização e a mudança tecnológica estão a acelerar os movimentos, como

analisado é no capítulo 2.

Polanyi argumenta que, para que a economia de mercado seja compatível

com a segurança da população, tem de ser integrada nos mecanismos sociais de

segurança e solidariedade que vêm em nosso socorro quando os rendimentos do

mercado falham para alguns segmentos da população. Fornece uma descrição


impressionante da Revolução Industrial como um movimento de desenraizamento,

com a economia de mercado a libertar-se dos grilhões das comunidades

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 153
tradicionais, o que, ao mesmo tempo que desencadeou um formidável dinamismo

económico, lançou muitas famílias vulneráveis em transições disruptivas. Foram

feitas muitas tentativas de prestar assistência social às famílias pobres no século

XIX, o que prefigurava desenvolvimentos posteriores nos modernos Estados

sociais pós-Segunda Guerra Mundial – em particular, com hesitações semelhantes

sobre o apoio condicional e incondicional ao rendimento.


O IPSP (2018, capítulo 1) traça um paralelo com o movimento de

desregulamentação do final do século XX, que pode igualmente ser visto como um

desenraizamento do sistema de mercado globalizado a partir das restrições das

instituições keynesianas nacionais e das obrigações fiscais que tinham em prol da

gestão macroeconómica e da solidariedade social. As empresas bem-sucedidas e

os super-ricos de hoje são, com poucas exceções, agentes globalizados. Mesmo

quando retiram a sua principal fonte de riqueza dos privilégios nacionais (como

Carlos Slim no sistema monopolista mexicano ou oligarcas russos na órbita do

Kremlin), os seus horizontes de investimento e estilo de vida e de consumo vão

muito além das fronteiras nacionais e incluem, certamente, paraísos fiscais.

A conclusão óbvia nessa conjuntura é que é necessária uma nova integração

do sistema de mercado com as instituições de solidariedade social. Uma opção é

procurar novamente o conjunto de ferramentas keynesianas, uma vez que ele foi

bastante bem sucedido nas três décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial, e

transpô-lo para o novo cenário globalizado – um governo mundial com impostos

globais e sistemas globais de apoio ao rendimento, permitindo transferências

de regiões em crescimento para regiões em estagnação, de populações

prósperas para regiões em dificuldades –contribuiria bastante para enfrentar

as atuais brechas na coesão social entre e dentro dos países. Os apelos por um

imposto Tobin global ou pelo menos regional sobre transações financeiras, pela

coordenação tributária entre países, pela supressão de paraísos fiscais ou por um

imposto sobre o capital global (Piketty, 2014) são inspirados nesse raciocínio.

Seria, de facto, excelente avançar nesse sentido, mas essa linha de raciocínio

tem três limitações. Em primeiro lugar, a construção de um governo mundial não

está no horizonte ainda, e as atuais dificuldades da Europa não auguram nada de

bom para as perspetivas políticas desse ideal a curto ou médio prazo. A tendência

154 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
atual é, pelo menos, a de dividir os países em regiões autónomas. Em segundo

lugar, dada a necessidade de autonomia local na gestão política e económica, a

centralização pode tornar-se contraproducente além de uma determinada escala.

Portanto, é discutível que as instituições mundiais devam assumir um grande

fardo, e pode haver um perigo real de que elas possam assumir demasiado e

fazer mais mal do que bem. Em terceiro lugar, a cosmovisão keynesiana era
bastante limitada no que diz respeito ao progresso social. Era essencialmente

uma abordagem pragmática da gestão do capitalismo, sem muita ambição no que

diz respeito ao desenvolvimento humano. De alguma forma, precisamos agora de

acrescentar as ideias de John Rawls e Amartya Sen às de John Maynard Keynes, e

isso pode exigir uma reforma mais estrutural do capitalismo, como já foi dito no

capítulo anterior.

Precisamente, este capítulo baseia-se no anterior para explorar como uma

nova integração do sistema de mercado nas instituições de solidariedade social

pode ser concebida para o século XXI. Pode um novo Estado social ser inventado

com a ambição de alcançar um progresso social substancial?

O Estado social sob pressão

Ao longo dos últimos 150 anos, as intervenções nacionais do Estado social têm

desempenhado um papel cada vez mais importante na prestação de solidariedade

coletiva. Apesar de existirem formas antigas de intervenções sociais na história

das sociedades humanas, o contexto mudou radicalmente desde meados do

século XIX.

O desenvolvimento do capitalismo (que substituiu as formas tradicionais

de apropriação e solidariedade feudal, religiosa ou agropastoril), a Revolução

Industrial (que generalizou os modos de produção mecanizada, criou novos

tipos de trabalhadores vulneráveis e fortes recompensas pelas competências

individuais) e a emergência de Estados-nação (que introduziu uma nova camada

de autoridade e de pertença coletiva) criaram a base para o desenvolvimento

de intervenções nacionais do Estado social para aliviar a pobreza e reduzir as

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 155
desigualdades sociais. O desenvolvimento generalizado dos Estados sociais,

desde o núcleo europeu até quase todos os países em desenvolvimento (embora

com variações muito significativas), é uma característica fundamental do

desenvolvimento capitalista no século XX.

Entre as importantes contribuições do Estado social está a redução

da desigualdade. No seu conjunto, os impostos e as transferências reduzem


substancialmente as desigualdades que os rendimentos do mercado geram.

Como mostra a figura 7.1, as desigualdades medidas pelo coeficiente de Gini

seriam muito mais elevadas, quase duas vezes maiores em alguns países

(Irlanda, Finlândia, Bélgica), sem redistribuição governamental. Nos EUA, a

redistribuição governamental é menos eficaz e reduz apenas cerca de um quinto

das desigualdades.

Figura 7.1 - Redução da desigualdade através de impostos e


transferências (2013-2014)
Fonte: OCDE (2017)

Porque é que o Estado social está agora sob pressão, ou mesmo em crise,

como frequentemente é alegado nos meios de comunicação social? Alguns dos

desafios são meramente políticos ou mesmo ideológicos. A onda conservadora

que, após Reagan, argumentou que o governo é o problema, não a solução,

desenvolveu um programa destinado a reverter as disposições sociais e os

serviços públicos sem qualquer razão objetiva, mas com sentimentos abomináveis

e de despeito em relação ao social, com nuances raciais. Vale lembrar que, de

facto, o governo não encolheu tanto assim na administração Reagan, e muito

156 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
pelo contrário, porque na defesa as despesas aumentaram exponencialmente.

Muito mais impactante foi a redução de impostos de George W. Bush (também

acompanhada de despesas na defesa durante a guerra do Iraque), como pode ser

visto na figura 7.2. A figura inclui a previsão para a administração Obama e não

leva em conta a última reforma tributária Trump.

Figura 7.2
Receitas e despesas do governo
federal dos EUA em percentagem
do PIB (1950-2015) e previsão para
2016-2021

Fonte:
https://obamawhitehouse.archives.gov/sites/
default/files/omb/budget/fy2017/assets/
hist01z3.xls

Essa figura deve ser o fim da conversa sobre os governos perderem as

suas capacidades de receita e fazerem recuar as intervenções estatais. A figura

7.3 mostra que não há uma tendência descendente na despesa pública social nos

países da OCDE, mesmo que tenham ocorrido algumas flutuações importantes,


42
em particular na década de 1990.

Figura 7.3
Despesa social pública na OCDE em
percentagem do PIB
(1980-2016)

Fonte:
OECD.Stat

42 Na Grécia, Espanha, Itália e Portugal, a despesa pública em políticas sociais foi estagnada ou ligeiramente reduzida
em termos per capita no âmbito das recentes políticas de austeridade, mas aumentou em percentagem do PIB devido à
recessão reforçada pela própria austeridade.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 157
Outro equívoco generalizado relacionado com o mantra do governo é o

problema de que Reagan também mina o apoio ao Estado social. Essa é a ideia de

que somente o setor privado cria valor, enquanto o governo apenas movimenta

recursos, tirando-os de alguns e dando a outros, sem criar nada. De facto, através da

sua provisão de infraestruturas e serviços e do seu apoio de segurança a negócios

de risco, o governo é um catalisador para as atividades económicas, e a maioria das


despesas governamentais têm um sabor de investimento, que infelizmente não é

reconhecido como tal nas contas nacionais. Algumas dessas chamadas despesas

são extremamente lucrativas, como James Heckman argumenta sobre a educação

infantil: “aqueles que procuram reduzir os défices e fortalecer a economia devem


43
fazer investimentos significativos na educação infantil”.

Atualmente, existe um consenso claro de que a educação e os cuidados

na primeira infância, se forem de boa qualidade, trazem uma ampla gama de

benefícios, incluindo melhores resultados de bem-estar e aprendizagem das

crianças, resultados mais equitativos e redução da pobreza, maior mobilidade

social intergeracional, maior participação no mercado de trabalho feminino

e igualdade de género, e melhor desenvolvimento social e económico para a

sociedade em geral.

Também é possível obter benefícios muito elevados com investimentos

no ensino superior. Em 2015, o Banco Mundial demonstrou que, no mundo em

geral e em África em particular, as taxas de retorno do ensino superior estavam a

tornar-se mais altas do que as do ensino básico e médio. A questão não é escolher

um setor em detrimento do outro, mas sim encontrar o justo equilíbrio entre os

investimentos nos vários níveis de ensino, nomeadamente tendo em conta os


44
fortes desafios colocados pela economia global do conhecimento.

Desafios reais

No entanto, há desafios reais para o Estado social no século XXI. Aqui, apresenta-se

43 Ver https://heckmanequation.org/resource/invest-in-early-childhood-development-reduce-deficits- strengthen-the-eco-


nomicy/

44 Ver IPSP (2018, capítulo 19 e Salmi (2017)).

158 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
uma lista das principais questões que já se colocam ou que surgirão nas próximas

décadas. Em primeiro lugar, como já demonstrado nos capítulos 2 (figura 2.9)

e 6 (figura 6.1), as taxas de imposto sobre as empresas têm vindo a diminuir.

A estabilidade das receitas do governo federal nos EUA, na figura 7.2, esconde

um movimento de tesoura pelo qual um declínio constante na taxa efetiva do

imposto sobre as sociedades foi substituído por uma parte crescente das receitas
provenientes do imposto sobre os salários. Piketty (2014) mostra que a redução

das principais taxas de imposto nos EUA foi acompanhada pela explosão da

desigualdade de rendimentos e da concentração da riqueza observada nos

últimos 30 anos. A globalização está a colocar pressão sobre a tributação de fatores

móveis, capital e mão de obra altamente qualificada, o que mina a capacidade

dos governos em reduzir as desigualdades. De facto, a compensação da redução

dos impostos sobre o rendimento das empresas e do rendimento mais elevado

através do aumento dos impostos sobre os rendimentos das receitas mais baixas

e de uma maior dependência dos impostos sobre o valor acrescentado reduz a

eficácia dos impostos e das transferências. Transferir a carga fiscal do capital para

o trabalho também é insensato num momento de desemprego estrutural (como

em alguns países europeus) e no início de uma onda de automatização que irá

deslocar muitos empregos.

O primeiro desafio relaciona-se com as receitas. Há também desafios

importantes do lado das despesas. Um deles vem do envelhecimento, que

aumenta a carga dos dependentes dos trabalhadores ativos, com mais pressão

para elevar os impostos sobre os rendimentos. Tal desafio pode ser enfrentado

investindo massivamente para aumentar a produtividade do trabalho e gerar

rendimento de capital, desde que o governo se certifique de controlar ou cobrar

esse rendimento de capital através de um sistema obrigatório de pensões

contributivas ou da criação de um fundo soberano. A onda de automação seria

bem-vinda neste contexto, se se pudesse ter certeza de que a força de trabalho

em idade ativa poderia encontrar bons empregos produtivos e não terminaria

massivamente em empregos de serviços de baixa produtividade.

Outra forma de enfrentar o desafio do envelhecimento é convidar jovens

trabalhadores estrangeiros de países com excesso de força de trabalho. Uma

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 159
grande quantidade de jovens de África, coincidindo com o envelhecimento da

população na Europa, parece ser uma solução quase ideal para o problema. A

dificuldade é que, se a ligação assumir a forma de migrações de trabalhadores

e das suas famílias, a heterogeneidade das sociedades europeias irá inflacionar

ainda mais as tendências xenófobas e racistas, minando também o apoio ao

Estado social.
De facto, tal como refletido no IPSP (2018, capítulos 2 e 20), a solidariedade é

um valor fundamental das sociedades humanas, e tal sentido de solidariedade – ou

de responsabilidade coletiva para com o bem-estar – está criticamente relacionado

com um sentimento de pertença e identidade. Essa interação entre bem-estar,

solidariedade e pertença nas sociedades humanas é um aspeto fundamental que

ajuda a compreender por que razão os mecanismos de solidariedade são menos

robustos nas sociedades heterogéneas com ligações frouxas entre as populações

diversas. A perceção de uma crescente diversidade em alguns países pode minar

o etos da solidariedade e corroer o apoio popular ao Estado social.

Outra forma de aproveitar a coincidência entre os trabalhadores dos países

em desenvolvimento e os pensionistas dos países ricos é fazer o investimento

maciço mencionado anteriormente, de forma que se criem empregos nos próprios

países em desenvolvimento. No entanto, muitos desses países têm dificuldades

em garantir a estabilidade e a segurança dos investimentos – na verdade, uma

grande quantidade de jovens é também uma receita para a agitação política e

para a vulnerabilidade ao recrutamento de terroristas. Além disso, esta forma de

explorar o capitalismo transnacional para resolver questões sociais nos países

ricos pode não parecer atraente para os países em desenvolvimento ansiosos por

alcançar a independência económica.

Além do envelhecimento, os gastos com saúde também geram um sério

desafio, o que se encontra parcialmente relacionado com o envelhecimento, uma

vez que um número crescente de idosos dependentes precisará de assistência

por mais anos do que em fases anteriores. Esta assistência, entretanto, assume

a forma de serviços que não são assim tão onerosos. Mais desafiante é a

transformação na inovação na saúde, que agora produz novos dispositivos e

novos medicamentos que tornam possível explorar o corpo humano de formas

160 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
extremamente detalhadas e conceber tratamentos muito personalizados, mas

a um custo que não pode ser suportado por toda a população. O tempo dos

antibióticos simples e dos dispositivos simples de raios-X e ecografia que podem

ser tornados acessíveis a todos já passou. Novos scanners custam milhões de

dólares e medicamentos novos, muitas vezes, custam centenas de milhares de

dólares por ano de tratamento. Podemos também estar à beira de uma nova
onda de infeções bacterianas que resistem ao tratamento com antibióticos e

necessitam de intervenções mais dispendiosas.

A questão-chave para o Estado social é que a escolha dos procedimentos

e tratamentos que são abrangidos e dos que não são pode ser muito mais difícil

do que costumava ser: agora, muitos beneficiários acabam por ter conhecimento

de possíveis tratamentos que não são abrangidos e que os poderiam salvar.

O problema é agravado pela concentração da indústria farmacêutica que lhe

permite praticar preços altos e argumentar que se justificam pelos seus elevados

custos de investigação, o que não pode ser verdade, dado que esta indústria é

extremamente rentável.

Para enfrentar este desafio, deve provavelmente combinar-se uma postura

agressiva no restabelecimento da concorrência na indústria farmacêutica,

recompensando a inovação médica de outras formas que não através de grandes e

arbitrárias margens de lucro, criando um sistema de pagamento único mais capaz


45
de negociar preços e incentivando inovações que reduzam os custos. Muitos

procedimentos dispendiosos viram os seus custos diminuir, o que é promissor.

Por exemplo, o sequenciamento de ADN do genoma humano viu o seu custo

diminuir de milhões de dólares para menos de 1.000, muito mais rapidamente

que a lei de Moore (que foi proposta para a capacidade de computação), como

ilustrado na figura 7.4.

Figura 7.4 Custo decrescente da sequenciação de ADN

Fonte: NIH

45 Há iniciativas interessantes que procuram avaliar o impacto na saúde global das inovações médicas e criar um esque-
ma de recompensa para os inovadores que contornaria o sistema de patentes e tornaria possível incentivar a inovação
em direção às necessidades médicas (em vez da procura do mercado), possibilitando a difusão rápida por meio da
imitação de novas invenções. Ver http://global-health-impact.org/ e http://healthimpactfund.org/.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 161
Figura 7.4
Custo decrescente da
sequenciação de ADN

Fonte:
NIH

A onda de automatização irá desafiar, tanto o lado das receitas, como o lado

das despesas das finanças públicas. Mesmo que, como parece mais provável, ela

não faça com que o trabalho desapareça, mas apenas transforme a composição

dos empregos, a transição pode ser difícil se o ritmo das deslocalizações de

empregos for rápido. Nas próximas décadas, poderemos enfrentar um número

crescente de trabalhadores de meia-idade cujas competências se tornaram

subitamente obsoletas e cujas perspetivas de encontrar um emprego decente

antes da idade da reforma são escassas. Isto irá tanto amortecer as receitas fiscais

como aumentar as despesas de apoio ao rendimento.

É aqui que é importante uma ação política determinada através da

reforma das empresas e de incentivos governamentais para orientar o ritmo da

automatização para um processo mais suave e mais favorável aos trabalhadores,


como defendido nos capítulos 2 e 6. Mas é preciso também reconhecer a

necessidade do desenvolvimento dos sistemas públicos ou subsidiados de

educação ao longo da vida, ajudando os trabalhadores a navegar numa nova era

na qual não é mais padrão manter o mesmo tipo de emprego ao longo de uma

carreira completa.

Um desafio final, hoje em dia, vem de a dívida pública ter sido seriamente

inflacionada pela crise financeira (figura 7.5), e que economias importantes como

as dos países do G7 teriam dificuldade em suportar um choque semelhante no

curto prazo. Infelizmente, não é improvável que a instabilidade financeira continue,


uma vez que os regulamentos estabelecidos após a última crise são considerados

insuficientes pelos especialistas e estão a ser desmantelados nos EUA.

162 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Figura 7.5
Dívida pública nos países do
G7, em percentagem do PIB

Fonte:
OECD.Stat

Um esclarecimento importante que deve ser feito sobre o Estado social


é que as diferenças nos apoios de bem-estar social entre os países são menos
profundas do que parece. Nos países com uma menor expansão da cobertura
pública, os agregados familiares têm ainda de gastar em habitação, educação,
cuidados de saúde e pensões. De acordo com a OCDE, que tem vindo a acompanhar
atentamente essa questão ao longo da última década, quando se incluem as
despesas privada e os sistemas fiscais, as diferenças de despesa total diminuem
entre os países. A figura 7.6 mostra que um reajustamento mais espetacular afeta
os EUA, que passam de uma classificação baixa da despesa pública para a segunda
classificação mais elevada da despesa total. A principal diferença entre a despesa
pública e privada reside muito menos no montante do que na distribuição de
recursos e na liberdade dos cidadãos. Deixar as despesas essenciais para a esfera
privada agrava as desigualdades. A discussão deve, portanto, centrar-se menos na

dimensão do Estado social do que na eficiência dos sistemas de segurança social.

Figura 7.6
Despesa líquida total na
OCDE em percentagem
do PIB (2013)

Fonte:
OECD 2016

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 163
O bem-estar social é só para os ricos?

Outro equívoco generalizado é que só as economias mais ricas podem pagar um

Estado social ambicioso. De facto, a Inglaterra, a Alemanha, a França, a Suécia e os

EUA aumentaram as suas intervenções de Estado social com níveis de PIB per capita

que eram semelhantes aos níveis atuais atingidos pelos países emergentes, como

mostra a figura 7.7. A Indonésia e a China estão agora mais desenvolvidas do que

a América estava em 1935 quando aprovou a Lei de Segurança Social, ou mesmo

do que a Grã-Bretanha estava em 1948, quando iniciou o seu monumental Serviço

Nacional de Saúde (NHS). Os países escandinavos construíram componentes-

chave dos seus estados de bem-estar social antes da Segunda Guerra Mundial – a

Suécia introduziu o seu sistema universal de pensões em 1913 –, num nível ainda

mais baixo de desenvolvimento económico, e o seu processo de desenvolvimento

foi reforçado, e não impedido, por uma força de trabalho mais educada e mais

produtiva, e por um sistema eficiente de formação salarial através da negociação

coletiva centralizada.

Figura 7.7
PIB per capita (1960-2011)
em comparação com os EUA
e o Reino Unido no início das
reformas da segurança social
Fonte:
Projeto Maddison

De facto, o período recente assistiu a um rápido aumento das intervenções

do Estado social nos países em desenvolvimento, embora ainda muito abaixo dos

níveis observados nos países de rendimento elevado (ver figuras 7.8 e 7.9).

164 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Figura 7.8
Despesas públicas e
privadas em saúde em
percentagem do PIB
(2015)
Fonte:
Banco Mundial

Figura 7.9
População acima da idade da
reforma que recebe
uma pensão (%)
Fonte:
OIT (2017)

Tomemos o exemplo da Ásia. Em 2011, o Parlamento indonésio aprovou

uma lei que cria um seguro de saúde para todo o país – o maior sistema de

pagamento único do mundo. A mesma lei também comprometeu o governo a

estender pensões, benefícios por morte e seguro contra acidentes de trabalho

para toda a nação. Nas Filipinas, a seguradora de saúde de propriedade do

governo, a PhilHealth, cobre a maior parte da população. A Tailândia alcançou o

sistema universal de saúde em 2001 e introduziu pensões para o setor informal

uma década depois. A Índia expandiu o seu programa de garantia de emprego

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 165
para todos os distritos rurais em 2008, oferecendo até cem dias de trabalho

com salário mínimo por ano para todas as famílias rurais que se candidataram,

e também estendeu uma modesta fórmula de seguro de saúde a centenas de

milhões de pessoas sem seguro. Em 2008, a Coreia introduziu um crédito de

imposto sobre o rendimento ganho, uma pensão básica universal e um esquema

de seguro que fornece cuidados de longo prazo para os idosos. O sistema de


seguro de saúde rural da China, que em 2003 cobria 3% da população elegível,

quase alcançou cobertura total, de acordo com estatísticas oficiais.

Estes esforços visam combater a crescente insatisfação de grandes

segmentos da população em economias em transição que experimentaram um

aumento do crescimento económico. Conforme relatado no IPSP (2018, capítulo

8), a satisfação com a vida na China diminuiu, em média, nas últimas décadas, e

isso foi acompanhado por aumentos nas taxas de suicídio e incidência de doenças

mentais (Graham et al., 2015). As respostas da investigação por categorias de

rendimento obtidas em 1990 e 2007 mostram que a satisfação com a vida diminuiu

nas duas categorias de rendimento mais baixas, mas aumentou na categoria de

rendimento mais alta (Easterlin et al., 2012). Tal levou as autoridades chinesas a

aumentar os gastos sociais públicos em 50% entre 2007 e 2012, embora o nível de

2012 (9% do PIB) ainda esteja bem abaixo da média da OCDE e da Coreia (11%).

Países como o Chile, México e Turquia gastam menos de 15% do PIB em apoio

social. Embora relativamente baixos em comparações internacionais, nos últimos

25 anos as despesas sociais públicas em percentagem do PIB duplicaram no

México e na Turquia.

A América Latina tem uma tradição muito mais longa de regimes de

segurança social e de intervenções dos Estados sociais. Em países pioneiros

(Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Cuba), os principais esquemas de segurança

social estavam em vigor antes da Segunda Guerra Mundial e foram ampliados

seguindo o ritmo da industrialização e do crescimento económico (com a notável

exceção de Cuba, que seguiu um caminho radical depois da década de 1960).

Esses países, mais a Costa Rica, haviam alcançado altos níveis de cobertura de

saúde em 1980, com mais de 60% da população coberta (Huber e Bogliaccini,

2010). Nos 20 anos seguintes, no entanto, os Estados sociais na América Latina

166 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
passaram por reformas e transformações drásticas no contexto da privatização

em larga escala e das repetidas crises fiscais. A ascensão ao poder dos governos

de centro-esquerda, na primeira década do século XXI, reforçou a política social

abrangente e orientada para a equidade. Alguns programas bem-sucedidos

provam que os custos não precisam de ser muito elevados. Por exemplo, o

Programa Bolsa Família do Brasil custa menos de 0,5% do PIB e atinge 26% da
população, enquanto o Progresa-Oportunidades no México custa 0,4% do PIB e

atinge 5 milhões de famílias (Comissão Europeia, 2010).

Em África, muitos países do Sul já têm sistemas de pensões sociais, e muitos

países subsarianos fizeram progressos notáveis em direção à institucionalização

da proteção social. Burkina Faso, Gana, Quénia, Moçambique, Ruanda, Serra Leoa

e Uganda, entre outros, adotaram ou estão a adotar estratégias de proteção social

como parte da construção de um sistema de proteção social global.

Países como Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Gabão, Mali, Senegal

e Tanzânia têm vindo a reformar os seus mecanismos de proteção social para

implementar a cobertura universal de saúde, inspirando-se nos principais

exemplos do Gana e do Ruanda. Muitos dos programas bem-sucedidos, como o

Sistema Nacional de Seguro de Saúde do Gana, o Programa Umurenge da Visão

2020 do Ruanda e a Pensão de Velhice do Lesoto, parecem muito eficazes para

alcançar os mais pobres, o que, por si só, é um feito notável, especialmente sem

produzir distorções ou desincentivos significativos (Comissão Europeia, 2010). Há

muito a aprender noutros continentes com essas intervenções bem-sucedidas e

fiscalmente sustentáveis do Estado social em África.

Repensar o Estado social

Na história do capitalismo, três conceções de Estado social, identificadas no

trabalho pioneiro de Esping-Andersen (1990), fornecem uma forma muito útil de

compreender as múltiplas e complexas variações das instituições de bem-estar

nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

A primeira conceção pode ser chamada de anglo-saxónica, mesmo que nem

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 167
os EUA nem o Reino Unido ofereçam uma ilustração pura dela. Ela combina uma

economia acionista livre com um estado de bem-estar mínimo que restringe as suas

intervenções ao apoio ao rendimento dos mais pobres (pensão mínima, cuidados

mínimos de saúde, vales-alimentação). Deixa aos ricos opções de autoexclusão

e suplementos privados. Tal modelo tem a vantagem de ser muito magro em

gastos, e portanto sujeito a poucas distorções fiscais da atividade económica e a


um equilíbrio fiscal facilmente alcançável. No entanto, não é promissor em termos

de progresso social, porque não é eficaz para combater as fortes desigualdades

geradas pela economia. É vulnerável a um círculo vicioso, quando as intervenções

direcionadas estigmatizam os pobres e aumentam a polarização social, o que mina

o apoio da classe média ao alívio da pobreza, porque os pobres são então vistos

como um fardo para a população trabalhadora. Isto contribui para a diminuição do

apoio ao bem-estar e polariza ainda mais a sociedade numa espiral descendente.

Essa espiral é ainda mais provável numa sociedade dividida por diferenças étnicas

correlacionadas com desigualdades sociais. De certa forma, pode dizer-se que o

ataque de Ronald Reagan às welfare queens (“rainhas do bem-estar”) iniciou uma

espiral desse tipo nos EUA, pelo menos no que respeita ao apoio ao rendimento

mínimo, que é agora, especialmente depois da reforma de Clinton, de 1996, muito

menos generoso do que era anteriormente.

A segunda conceção é a corporativista, ou bismarckiana. Propõe uma

maior carga tributária, envolvendo seguro para os trabalhadores, financiado por

contribuições salariais, com um tratamento favorável dos que estão dentro e um

apoio governamental direto muito mínimo dos que estão fora. Essa forma tem

sido dominante em parte da Europa continental, assim como na América Latina

e em alguns países asiáticos, onde o Estado surgiu antes da sociedade, fazendo

dessa forma uma opção natural. Tal modelo, como o anterior, também divide

a sociedade e, portanto, é incapaz de realmente fechar a lacuna entre aqueles

que têm sucesso no mercado de trabalho e aqueles cujas carreiras não começam

cedo ou têm um fim abrupto na meia-idade devido a despedimentos. Dada a

crescente complexidade do mercado de trabalho e as carreiras serem cada vez

menos lineares, com a onda de automação, esta fórmula parece agora incapaz

de se adaptar ao novo imperativo de proteger as pessoas em vez dos empregos.

168 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
A terceira fórmula é a social-democrata, bem estabelecida nos países

escandinavos. Ela é precisamente construída em torno do princípio de proteger

as pessoas, não os empregos. Tem três pilares concretos. Primeiro, os serviços

universais são extensos e investem fortemente no capital humano da população. A

sua universalidade, associada a uma gestão eficiente das estruturas governamentais,

atrai grande apoio popular para o sistema e evita estigmatizar os membros mais
desfavorecidos da população. Também reforçam a igualdade de género no local

de trabalho e nas famílias graças aos serviços de cuidados extensivos e às licenças

parentais. Em segundo lugar, a economia é aberta, e a disciplina de mercado opera

para selecionar e promover os negócios mais produtivos, sem qualquer esforço

especial para proteger os empregos, uma vez que os generosos rendimentos e

o apoio à formação tratam de ajudar os trabalhadores na transição para novos

empregos (flexigurança). Em terceiro lugar, a negociação centralizada envolvendo

representantes estatais, empresariais e sindicais determina ganhos relativamente

iguais e estáveis, e a moderação salarial torna a economia rentável e competitiva

no mercado mundial, enquanto a compressão salarial em toda a economia (nas

empresas e entre empresas) incentiva a adoção de tecnologia recente e aumenta

a produtividade, forçando as empresas que não conseguem pagar bons salários

para fora do mercado. Este modelo tem uma coerência impressionante e oferece

uma mistura notável de concorrência no mercado e gestão cooperativa. Ao longo

do tempo, a igualdade alcançada dentro de uma determinada geração aumenta

as oportunidades para a próxima geração e a mobilidade intergeracional. Esses

países têm maior mobilidade social do que países mais desiguais, como mostra a

figura 7.10.

Figura 7.10
A curva de Grande Gatsby – mais
desigualdade associada a menor
mobilidade social
Fonte:
Corak (2013)

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 169
Figura 7.10 A curva de Grande Gatsby – mais desigualdade associada a menor mobilidade

social

Fonte: Corak (2013)

Das três abordagens, a social-democrata é obviamente a mais promissora

para o século XXI, dada a sua compatibilidade com os mercados abertos, a rápida

inovação e o seu sucesso mais substancial na consecução da justiça social. O IPSP

(2018, capítulo 8) argumenta mesmo que a experiência dos países escandinavos

que construíram o seu Estado social numa fase inicial do seu desenvolvimento

prova que a igualdade, tal como alcançada por essa fórmula, é uma boa estratégia

para o desenvolvimento. Isso contradiz a sabedoria convencional de que o

desenvolvimento precisa de passar por uma fase de crescente desigualdade antes

que a redistribuição possa ocorrer. Esse ponto ecoa a defesa de Heckman: um

forte investimento em capital humano é muito produtivo e, portanto, um caminho

de desenvolvimento desigual é realmente um desperdício, falhando em explorar

o potencial da sua população.

No entanto, o modelo social-democrata não é, provavelmente, o fim da

história. Primeiro, pode não ser fácil de transplantar em países onde o sistema

centralizado de negócio iria contra as tradições descentralizadas e sofreria com a


falta de organizações representativas. Mais importante ainda: ele não empodera

os trabalhadores e os cidadãos tanto quanto se poderia esperar. Nenhuma

das três fórmulas de Estado social, sem dúvida, pode abordar com sucesso as

desigualdades de poder e estatuto que são típicas da economia capitalista. Muito

pelo contrário, elas consolidam-nas, tornando tais desigualdades compatíveis

com a igualdade substancial de recursos. A própria proteção do Estado corre o

risco de ser paternalista, enquanto os procedimentos centralizados de negociação

podem sufocar a inovação social local, doméstica ou ascendente.

Mesmo que na fórmula social-democrata os trabalhadores e as famílias

tenham posições de negociação muito mais fortes no seu local de trabalho e

no mercado de trabalho, graças ao seu capital humano e à proteção do Estado,

170 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
o facto é que a maioria das decisões-chave são tomadas acima de si, seja na

ronda centralizada de negociações, seja pelos seus empregadores. O sistema

social-democrata é mais um grande negócio entre capital e trabalho do que

uma transformação dos provedores de capital e dos provedores de trabalho em

verdadeiros parceiros em todos os negócios, como previsto no capítulo 6.

Pode imaginar-se uma nova forma de Estado social, que se baseia na


fórmula social-democrata, mas que substitui o pilar da negociação centralizada

por uma democratização descentralizada da economia, em particular através de

uma reforma da empresa e uma democratização de todas as empresas de acordo

com as linhas discutidas no capítulo 6.

Este novo modelo de social-democracia descentralizada pode valer a pena

ser experimentado. Embora o governo mantenha a sua função tradicional de

fornecer bens públicos, serviços e segurança social, permitindo que os agentes

privados estejam seguros e assumam riscos, adquire o novo papel de garantir

e monitorizar a democracia económica através do envolvimento dos atores em

todos os órgãos de decisão que afetam substancialmente os seus interesses. As

formas participativas de democracia local experimentadas na América Latina e hoje

amplamente imitadas em todos os lugares (ver capítulo 8) também compartilham

da mesma ideia de que as decisões devem ser tomadas sob o controlo daqueles

que são diretamente afetados por elas.

A aplicação dessa ideia à economia, e não apenas à política local, seria o

princípio-chave do quarto modelo de Estado social. Este novo tipo de bem-estar

social substituiria, portanto, a ideia de que o Estado fornece bem-estar pela ideia

de que o Estado emancipa as pessoas, dando-lhes novos direitos e capacidades e

permitindo-lhes florescer por si mesmos.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 171
O Estado emancipador: características e desafios

O modelo proposto ocorreria num movimento maior para abordar mais

profundamente as desigualdades da economia capitalista e para uma nova

forma de economia de mercado democrática, na qual a propriedade privada

permaneceria dominante, mas as típicas desigualdades capitalistas de poder e

estatuto seriam contidas. Tal como a social-democracia, tal modelo reduziria a

necessidade de redistribuição após a formação dos rendimentos no mercado,

intervindo antes do mercado – através do investimento no capital humano – e

no mercado – melhorando a distribuição do poder nas decisões económicas

das empresas e das organizações económicas. Em particular, as empresas mais

democráticas tendem a ter distribuições salariais muito menos desiguais do

que as empresas tradicionais. Dessa forma, os rendimentos do mercado seriam

menos desiguais e, por conseguinte, seriam necessários menos impostos e

transferências, o que reduziria a carga distorcionária da tributação do rendimento


46
sobre a economia.

Uma característica positiva da fórmula social-democrata tradicional é

a compressão salarial obtida através da negociação centralizada. Num sistema

descentralizado, mesmo que as desigualdades salariais permaneçam modestas

nas empresas (democráticas), podem aumentar entre empresas se não houver

restrições às decisões locais. Pode então temer-se ver um setor da economia ficar

para trás em termos de produtividade e rendimento. No entanto, a centralização

da negociação coletiva não é realmente necessária para afastar essa ameaça.

É suficiente implementar uma política de salário mínimo para forçar todas as

empresas a atingirem um nível mínimo de produtividade.

A onda de automatização, no modelo proposto, poderia, pelo menos

em parte, ser abordada através de quatro mecanismos. Em primeiro lugar, as

transformações no local de trabalho seriam mais favoráveis aos trabalhadores

nas empresas, tendo em conta os interesses das partes interessadas. Isso pode

retardar o aumento da produtividade do trabalho, mas ser globalmente positivo

para a economia ao suavizar a transição e, por conseguinte, ao reduzir os seus

46 A distinção entre redistribuição após, antes e no mercado é desenvolvida no IPSP (2018, capítulo 3).

172 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
custos sociais. Em segundo lugar, o apoio ao rendimento e à aprendizagem ao

longo da vida ajudariam os trabalhadores na transição para novos empregos.

Em terceiro lugar, uma redução nos impostos no trabalho faria que as inovações

baseadas na poupança de trabalho fossem menos atrativas. Em quarto lugar,

o desenvolvimento da formação dos preços externos, através de impostos e

subsídios (sobre os quais se dirá mais adiante), faria com que as empresas
internalizassem, pelo menos parcialmente, os custos sociais das suas decisões.

Outro desenvolvimento que parece sensível do ponto de vista do novo

modelo é a expansão da economia gig. A economia da partilha oferece baixa

segurança e uma série de graus de dependência dos participantes em relação às

suas plataformas. Uma rede de segurança para todos (por exemplo, na forma de

um rendimento básico) ajudaria a evitar as piores formas de exploração nesse

setor, mas, idealmente, também seria desejável garantir que a dependência

dos participantes de uma única plataforma-empregador fosse monitorizada

e acionasse a ativação dos direitos apropriados dos stakeholders. Felizmente,

a tecnologia que torna as plataformas possíveis também pode possibilitar que

os participantes se coordenem e tornem os seus interesses mais visíveis e mais

seriamente levados em conta pelas próprias plataformas. Mais uma vez, isso

exigirá que as autoridades públicas assegurem que tal coordenação ocorra.

Em tais debates sobre o futuro do trabalho, a ideia de um rendimento básico


47
universal está a ocupar um lugar central. Há muitos exageros sobre esta ideia,

porque há muitas formas em que uma garantia universal de rendimento pode ser

fornecida, e se essa garantia é incondicional ou orientada não é desprezível, mas

não é realmente uma questão de mudança radical. Com efeito, os rendimentos das

pessoas têm de ser avaliados de qualquer forma quando pagam os seus impostos.

Assim, a diferença entre um rendimento mínimo sujeito à condição de recursos

e um rendimento básico incondicional consiste em saber se o ajustamento das

transferências do Estado em função do rendimento antes de impostos de um

indivíduo acontece aquando da determinação do apoio ao rendimento concedido

a esse indivíduo ou aquando da determinação dos impostos sobre o rendimento

pagos (ou créditos fiscais recebidos) por esse indivíduo. No entanto, isto faz uma

47 Van Parijs e Vanderborght (2017) fornecem uma síntese abrangente do debate sobre o rendimento básico.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 173
diferença real na prática para as famílias pobres cujos rendimentos flutuam.

Os atrasos no ajuste do apoio ao rendimento são um pesadelo para estas, e a

justificação da sua falta de rendimento perante os assistentes sociais pode ser

dolorosa e humilhante. Por essa razão, um rendimento básico universal é muito

melhor para as famílias mais necessitadas do que uma forma de apoio ao

rendimento sujeita a condições de recursos. Essa é uma forte justificação para


formas incondicionais de apoio.

Os criadores de sistemas de Estado social no século passado não tiveram

de lidar com o problema ambiental com a mesma urgência que hoje em dia. Para

lidar com o problema da sustentabilidade, qualquer modelo de Estado social deve

agora incorporar uma gestão exaustiva das externalidades. As externalidades

ambientais, mas também sociais, são omnipresentes e geram alocações

ineficientes de recursos. Se os impostos e subsídios ajudassem os decisores

privados a internalizar os efeitos externos das suas escolhas, a economia poderia

ser muito mais eficiente. Isso abre a perspetiva de reduzir a tributação distorcida,

porque os impostos sobre as externalidades poderiam gerar receitas e, ao mesmo

tempo, aumentar a eficiência da economia. Só um imposto sobre o carbono, no

intervalo recomendado por especialistas em política climática, geraria mais de 2%

do PIB por várias décadas durante o processo de descarbonização. Os combustíveis

fósseis ainda são subsidiados em muitos países em desenvolvimento, com

impacto regressivo porque os ricos beneficiam mais deles, de modo que a sua

retirada gradual e o uso dos recursos para políticas de alívio da pobreza seriam
48
bons, tanto para o meio ambiente, como para a distribuição de recursos.

Outra fonte de receita que melhoraria a eficiência em vez de a distorcer

seria a tributação dos rendimentos, ou seja, rendimentos que não recompensam

a contribuição produtiva, mas apenas a detenção de recursos escassos ou

posições vantajosas. As rendas dos terrenos urbanos, que aumentam com o

desenvolvimento económico, podem ser captadas por uma tributação adequada,

incentivando uma utilização mais eficiente do espaço, e serem utilizadas em

particular para financiar infraestruturas. Os lucros monopolistas que não são

48 Sobre política de carbono e impactos sociais, ver Stern e Stiglitz (2017) e Edenhofer et al. (2017), e respetivas referên-
cias.

174 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
justificados pela necessidade de recompensar a inovação através de patentes e

que não podem ser totalmente eliminados pela política de concorrência poderiam

também ser tributados através de uma modulação dos impostos sobre as

sociedades, o que desencorajaria uma concentração excessiva.

Da mesma forma, as atividades de busca de renda que não estão realmente

a criar valor, mas que visam a captura de valor, tais como publicidade, lobbying
e uma parte dos negócios financeiros e litigação, entre outros, poderiam ser
49
submetidas à tributação destinada a conter a sua expansão (ver capítulo 6).

Tudo isso não será suficiente para substituir os impostos sobre o trabalho,

mas pode reduzir substancialmente o peso de tais impostos distorcionários. Tal

contribuiria para orientar a inovação tecnológica numa direcção mais socialmente

benéfica, porque os preços (incluindo impostos) refletiriam melhor os impactos

sociais das decisões sobre processos e produtos.

O novo modelo de Estado social pode enfrentar a economia globalizada?

Tal como a social-democracia, é compatível com fronteiras abertas ao comércio

e ao investimento de capital. Naturalmente, a perspetiva política dos princípios

democráticos impostos às empresas pode inicialmente assustar os investidores e

gestores. No entanto, a única restrição real no que diz respeito à fuga de capitais

é garantir o mesmo nível de rendibilidade que em qualquer outro lugar, e essa

restrição pode ser tratada da mesma forma que um imposto por qualquer

empresa produtiva que solicite investimento de capital ou qualquer empréstimo

bancário nos mercados internacionais.

Os trabalhadores altamente qualificados, como os gestores, podem ser

tentados a auferir salários mais elevados no estrangeiro, mas existem vantagens

reais para um ambiente de trabalho favorável e uma sociedade socialmente

coesa, o que convencerá muitos a ficarem – de facto, mesmo os gestores de topo

costumam ficar no seu país. Observe-se, por exemplo, que a política democrática

não torna o trabalho do político menos atraente nas democracias do que nos

governos autoritários, e certamente que o torna mais seguro. Da mesma forma,

49 A publicidade é um exemplo proeminente no livro seminal de Pigou, The Economics of Welfare (1920), que introduziu
a ideia de taxar as externalidades. Na verdade, observe-se que a publicidade não é apenas uma atividade de busca de
rendimento, mas também um incómodo para as empresas que são arrastadas para uma corrida armamentista perdulá-
ria entre si para atrair clientes.
Quanto aos negócios, a famosa taxa Tobin, em particular, visaria a especulação a curto prazo através da tributação das
transações financeiras, encorajando os investidores a manterem os seus investimentos durante mais tempo.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 175
na atual economia capitalista, na qual as empresas democráticas têm de competir

com as empresas autoritárias tradicionais, elas não têm falta de voluntários para

cargos de gestão – e precisam de menos gestão intermédia. Curiosamente, o

paralelo entre política e negócios estende-se também ao facto de que, em ambos

os contextos, as estruturas democráticas promovem um tipo diferente de gestão

– menos predatória, mais humana, embora potencialmente demagógica.


Em conclusão, o Estado social não só continua a ser uma ideia viável no

século XXI, como também pode ser um ator-chave na promoção do progresso

social, centrado não só em garantir a subsistência das pessoas, mas também

em garantir a sua dignidade, liberdade e direitos democráticos, contribuindo

simultaneamente para uma economia de mercado eficiente.

176 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Capítulo 8
Da polarítica à política
Nos dois capítulos anteriores, vimos como a reforma da empresa, dos mercados e

o desenvolvimento de um Estado emancipador poderiam moldar os contornos de


uma sociedade melhor. O sistema político também precisa de reformas?

A situação na política tem-se tornado cada vez mais preocupante, devido

à crescente polarização em muitos países democráticos, o que não augura

nada de bom para o futuro da democracia, transformando o nobre confronto

de plataformas num desagradável espetáculo de luta livre que poderia ser

apelidado de polarítica. A polarização está associada a tendências sociais que

separam as populações. Em alguns países, o choque opõe elites às populações

excluídas, que se tornam vítimas da política de identidade. Noutros países, o

choque é uma oposição mais clássica esquerda-direita, trabalhador-elite, mas em

todos os países a política de identidade e as consequências da globalização – e,

secundariamente, a mudança tecnológica – fazem parte da equação. Em particular,

muitos cidadãos pensam agora que o seu governo é um fantoche nas mãos das

forças económicas e financeiras globais e que mudar o governo não traz qualquer

mudança substancial nas políticas. O apoio à democracia permanece forte, mas


parece estar em erosão, especialmente entre as gerações jovens (ver figura 8.1).

De forma relacionada, em muitos países, as questões de corrupção poluem tanto

o jogo político que se tornam uma preocupação central para imaginar sistemas

democráticos mais saudáveis.

As reformas socioeconómicas propostas nos capítulos anteriores são

elas próprias políticas, uma vez que implicam o contágio de princípios de boas

políticas nas atividades económicas em que o poder está em jogo, bem como nas

políticas sociais em que os beneficiários são partes interessadas fundamentais.

Envolvem o reconhecimento da presença da política em domínios que não estão


na esfera clássica e o aprofundamento da democratização como motor essencial

do progresso social na economia, na sociedade civil, nas famílias e na política

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 177
Figura 8.1
Desgaste do apoio
às instituições
democráticas nas
gerações mais
jovens
Fonte:
Foa e Mounk (2016)

social. A política está em toda a parte porque o poder é omnipresente.

Ainda assim, uma boa sociedade precisa de uma boa esfera política e,

inversamente, a política prospera quando as condições sociais são favoráveis.

Neste capítulo, explicamos primeiro porque e como o progresso social e o

progresso político estão interligados, e depois discutimos ideias para melhorar

o sistema político. São necessárias reformas no financiamento das atividades

políticas, na participação dos cidadãos na tomada de decisões, na organização e

gestão dos media e no processo eleitoral.

No entanto, definir como melhorar a política não é o fim da nossa história.

Ainda precisamos de identificar as ações e os atores que podem contribuir para

que todas as mudanças descritas nesta segunda parte do livro sejam possíveis.

Este será o tema do último capítulo, depois deste.

178 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Progresso social e progresso político

São precisos dois para dançar o tango. O progresso social precisa de apoio político,

e o progresso político precisa de um ambiente social favorável.

Porque é que o progresso social precisa de política? Tal pode parecer

óbvio para a visão convencional que confunde progresso social e redistribuição

de rendimento pelo governo, mas, para o tipo de progresso socialmente difuso

proposto neste livro, isso não é tão óbvio. Considere-se, por exemplo, a reforma

do propósito e da governança da empresa discutida no capítulo 6. Tal reforma

pode ser impulsionada pelos movimentos sociais e pela iniciativa da parte mais

esclarecida da comunidade empresarial; porque invocar, então, o apoio do

Estado? A razão é que, em algum momento, a generalização da reforma e a sua

cristalização em instituições robustas requer apoio jurídico; caso contrário, os

desvios em relação à democracia permanecerão omnipresentes. Pode parecer

suspeito que organizações mais democráticas precisem de salvaguardas legais

para sobreviver num mundo competitivo. Isso poderia provar que elas são

realmente menos eficientes do que as empresas tradicionais que maximizam o

valor para os acionistas com uma administração forte?

De facto, existem todos os motivos para pensar que a concorrência não

seleciona necessariamente a melhor forma de organização. Normalmente,

seleciona as melhores organizações aos olhos daqueles que detêm as alavancas

do mecanismo de seleção, com certeza, mas os seus interesses podem não

corresponder ao bem comum. No caso das empresas, pode parecer que a

seleção é feita principalmente por consumidores, ou seja, por todos. As melhores

empresas são, então, as mais produtivas e capazes de propor os preços mais

baixos. Ou poderíamos pensar que os trabalhadores também contribuem para

selecionar as empresas, passando para as que têm melhores salários e melhores

condições de trabalho, enquanto as empresas menos eficientes terão dificuldade

em atrair bons trabalhadores.

Este não é bem o caso. Nem os consumidores, nem os trabalhadores

desempenham realmente um grande papel. O nascimento, a vida e a morte

das empresas são principalmente determinados pela sua capacidade de atrair

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 179
financiamento e gerar lucros. Ora, os lucros são apenas uma pequena parte do

valor criado pelas contribuições coletivas de capital, suor e inteligência feitas pelas

partes interessadas. Se há dois tipos de empresas, com uma gerando um valor

maior, mas com lucros menores do que a outra, é esta última, infelizmente, que

será selecionada. As empresas mais democráticas criarem mais valor, mas com

menores lucros, é de facto provável, porque o tamanho do bolo não é independente


da forma como é distribuído. Uma empresa mais democrática desenha o seu

sistema de recompensas de uma forma que reduz a distância entre os executivos

e os trabalhadores comuns; proporciona melhores condições de trabalho que

favorecem a produtividade do trabalho, mas também inclui benefícios para

os trabalhadores na forma de estabilidade de emprego, acomodações da vida

familiar e similares; e adota uma política mais cautelosa quando as oportunidades

lucrativas entram em conflito com as preocupações ambientais. Tudo isto, em

média, reduz os lucros monetários para os acionistas enquanto aumenta o valor

total criado.

Imagine-se que, com uma varinha mágica, todas as empresas se tornam

democráticas, mas sem salvaguardas jurídicas que protejam os direitos das partes

interessadas. O que aconteceria? A maioria das empresas degeneraria de volta à

forma clássica. A democracia sem salvaguardas não é viável, e isso é verdade em

todos os contextos. O problema com a democracia é que ela é um bem público,

e como qualquer bem público, não se pode confiar que o seu surgimento e

sobrevivência sejam espontâneos. Quando a organização da qual se é membro é

democrática, pode-se beneficiar, pois os seus interesses serão levados em conta

e, se não participar, outros o farão. Quando a organização não é democrática, há

pouco que se possa fazer sozinho para mudá-la. Portanto, seja qual for o contexto,

nunca é do interesse pessoal do indivíduo gastar muito esforço para criar ou

proteger a democracia, a menos que seja um idealista forte e comprometido.

Na esfera política, da mesma forma, a democracia não sobrevive quando os

ricos podem comprar votos livremente. Para os eleitores pobres, qual é o sentido

de manter um direito de voto individual que não muda nada nos resultados

eleitorais, quando algum dinheiro real pode ser ganho, vendendo-o? No mercado

de trabalho, os trabalhadores que assinam um contrato de trabalho também

180 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
vendem a sua dignidade a partes interessadas quando aceitam a subordinação

estipulada no contrato. E vendem-na por nada, dada a pressão do desemprego

que os faz aceitar trabalhar para quase qualquer tipo de organização.

Em resumo, e generalizando além do exemplo das empresas, o progresso

social que assume a forma de democratização em todos os lugares precisa de

apoio político e jurídico, portanto, de um sistema político favorável.


Por outro lado, a política só funciona bem quando o contexto social é

saudável. A experiência histórica mostra repetidamente que as populações que

sofrem de angústia social e económica são mais vulneráveis às sirenes extremistas

que propõem soluções rápidas e radicais, mas traiçoeiras, para os seus problemas.

Além disso, quando a desigualdade cresce, torna-se mais fácil e mais

lucrativo para a elite capturar o sistema político (IPSP 2018, capítulos 9 e 14). Mais

fácil porque com mais recursos é possível fazer lobby ou corromper políticos, apoiar

as suas campanhas e partidos de forma tão pesada que se sentem obrigados

a retribuir, ou dar acesso à esfera pública através dos meios de comunicação.

Além disso, os próprios políticos muitas vezes vêm da elite e, portanto, tendem a

adotar naturalmente os pontos de vista dos super-ricos. Também se torna mais

lucrativo porque as apostas são maiores quando os interesses a defender são

estratosféricos e quando o sistema de redistribuição é laxista e deixa a maior

parte dos ganhos nas mãos dos menos escrupulosos. Círculos viciosos podem

então multiplicar-se, nos quais os interesses dos mais privilegiados se enraízam

num processo político distorcido que os protege e repetidamente promove os

seus interesses (Bartels, 2016).

Tirar o dinheiro da política?

Para parar esses círculos viciosos, tirar o dinheiro da política parece ser uma

componente-chave de qualquer estratégia eficaz. Essa é, para algumas atividades

políticas, uma missão impossível. Bilionários como Charles Koch e George Soros

financiam think tanks e movimentos da sociedade civil, e pouco pode ser feito

para evitar essa filantropia política. Entretanto, impor normas de transparência

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 181
no financiamento de todas as atividades políticas, incluindo grupos de reflexão e

movimentos de base, poderia contribuir muito para esclarecer a situação e conter

os piores abusos – como já mencionado no capítulo 6.

Por exemplo, quando as empresas de tabaco nos EUA chegaram a um

acordo de litígio em 1998 com 46 estados, o acordo incluiu várias restrições à

publicidade e compensações financeiras para despesas médicas, mas o mais


interessante é que também forçou as principais empresas de tabaco a libertarem

toneladas de documentos internos. Esses documentos revelaram recentemente

como uma aliança de longo prazo entre os irmãos Koch e o dinheiro do tabaco,

iniciada nos anos Reagan sob a Coligação para a Restrição Fiscal, tem operado

em segredo, especialmente desde a eleição de Bill Clinton, para fabricar um

movimento popular contra impostos e contra o governo. Muitas campanhas,

grupos e think tanks, tais como Citizens Against Regressive Taxation, Enough Is

Enough, Get Government Off Our Back, Citizens for a Sound Economy (rebatizada

de Americans for Prosperity em 2006) ou a Sam Adams Alliance, receberam

milhões de dólares de uma rede completamente opaca orquestrada pelo setor

do petróleo (os Kochs em particular) e pelo setor do tabaco, durante muitos anos,

e finalmente conseguiram criar um movimento popular, o Tea Party, que parecia


50
emergir do nada em 2009, logo após a eleição de Barack Obama.

Devido às maiorias construídas em muitos distritos eleitorais, feitas

de forma ultrajante à medida dos republicanos, o Tea Party tem sido capaz de

realizar primárias em muitos Estados, criando um forte grupo ultraconservador

no Congresso. O atual vice-presidente, Mike Pence, é um dos poucos políticos

íntimos do círculo interno de Koch. Em muitos aspetos, o Tea Party está agora

no comando, tanto na Casa Branca como no Capitólio. Pode-se apenas especular

sobre quanta diferença teria feito se a transparência sobre o financiamento

desses movimentos pseudopopulares tivesse sido imposta, mas é provável que o

seu ímpeto político e a sua legitimidade tivessem sido seriamente minados.

Muitas pessoas nos próprios movimentos teriam percebido que a sua raiva

contra o governo foi manipulada para servir os interesses dos grandes negócios,

em vez dos seus próprios interesses.

50 A história desta campanha de longo prazo é contada na Nesbit (2016).

182 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Outros canais de influência de dinheiro talvez possam ser abordados mais

diretamente, como o financiamento de campanhas e lobbying. O financiamento de

campanhas é regulado de muitas maneiras diferentes em vários países. Os países

onde o financiamento importante é fornecido pelo Estado estão concentrados

principalmente na Escandinávia, e isso parece reduzir a dependência dos políticos

em relação aos grandes doadores. Na Rússia, no entanto, o dinheiro público é


usado para favorecer o partido dominante, permitindo que os titulares de cargos

façam campanha em eventos oficiais e através de reportagens tendenciosas nos

media. O Brasil e os EUA, bem como países africanos, como a Nigéria, têm um

financiamento esmagador vindo de empresas. Os EUA têm limites rígidos para

doações diretas a campanhas, mas não têm limites para o financiamento de

comités de ação política (PAC) que produzem anúncios na TV e campanhas nos

media que favorecem ou combatem candidatos específicos. No ciclo eleitoral de

2016, mais de 2.000 grupos organizados como super PAC reportaram gastos totais

de mais de um milhar de milhões de dólares. Isso deve ser somado aos gastos do

próprio ciclo eleitoral, em torno de 1,5 mil milhões US$. No Brasil, as doações

privadas de indivíduos são insignificantes, e a maior parte do financiamento vem

de empresas, o que cria um círculo vicioso de desconfiança entre cidadãos e

políticos. A luta pela transparência e contra a corrupção parece não ter fim em

muitos países.

A questão da influência política através dos media é o tema de uma

secção posterior deste capítulo. No que diz respeito ao financiamento político

propriamente dito, a dificuldade em financiar atividades políticas gera uma

tentação óbvia de corrupção, uma vez que os políticos estão desesperados por

dinheiro e os doadores ricos estão interessados em ganhar influência. Como

a política pode ser protegida de tais tentações? Uma forma de pensar sobre

soluções é ver a própria política como um bem público, como já explicado na

secção anterior.

A corrupção é realmente prejudicial, pois privatiza esse bem público ao

criar um mercado de favores políticos, minando a busca do bem comum. Contar

com pequenas doações privadas, empurrando o partido ou candidato mais

favorito dos doadores ainda cheira a privatização do processo político. Se um

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 183
sistema político sólido é um bem público, ele precisa de um sistema coordenado

de financiamento com contribuições obrigatórias.

Assumindo que existe um tal sistema de financiamento central, como alocar

o dinheiro então? O sistema russo de distribuição de dinheiro e tempo de antena

em proporção aos resultados na eleição anterior serve um partido dominante

que esmaga a oposição, e a maioria dos sistemas de financiamento público


inclui alguma forma de proteção. Uma opção alternativa é deixar os cidadãos

indicarem como gostariam que o orçamento político fosse gasto a cada ano e

calcular a média dos seus desejos. Se os militantes partidários comprometidos

defendessem gastar todo o orçamento no seu próprio partido e se eles se

comportarem estrategicamente, os eleitores independentes poderiam adicionar

alguma nuance e propor ações equilibradas. Em geral, o orçamento final refletiria

os números (não a riqueza) dos partidários e as preferências mais equilibradas

dos independentes.

Passemos agora ao lobbying. O lobbying é uma indústria multibilionária

por si só em certos centros de decisão como Washington DC (Estados Unidos)

ou Bruxelas (Bélgica), e uma das suas características mais chocantes é a porta

giratória entre o serviço público e as empresas, o que transforma funcionários

públicos supostamente dedicados ao bem comum em agentes de interesses

específicos que vendem o seu conhecimento interno e vice-versa. A fronteira

entre lobby e corrupção é muito ténue, já que as relações pessoais desenvolvidas

entre políticos e lobistas geram conivências que, mesmo sem subornos explícitos,

destroem a objetividade do trabalho legislativo. A situação é complexa, porque

muitos domínios em que os políticos elaboram leis e regulamentos são bastante

técnicos e exigem a perícia da própria indústria. Portanto, é difícil separar a

necessária troca de informações das pressões problemáticas sobre os políticos

para que simpatizem com os interesses da indústria. Na mesma linha, o lobbying

também opera sub-repticiamente através de estudos especializados feitos por

think tanks com financiamento empresarial opaco. Os produtores de tabaco

e álcool gastaram milhões de dólares para financiar estudos que pretendiam

denunciar resultados epidemiológicos mostrando os perigos dessas drogas. A

concentração das indústrias em oligopólios de empresas gigantes tem piorado as

184 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
coisas, já que essas empresas têm muito mais dinheiro e capacidade de coordenar

ações de lobby.

As medidas típicas tomadas para regular o lobbying incluem o registo dos

lobistas. Nos EUA, o registo e a declaração dos montantes gastos é obrigatório, ao

contrário do que acontece em Bruxelas, onde é voluntário. Os números oficiais

sugerem que a atividade de lobbying na União Europeia é reduzida quando


comparada à indústria de lobbying americana, mas isso deve-se provavelmente à

subdeclaração na indústria da União Europeia. Outra medida importante envolve

impedimentos obrigatórios e períodos de incompatibilidade no sistema de porta

giratória. Escusado será dizer que as empresas resistem tanto quanto possível a

essas medidas, e mesmo os funcionários públicos mostram pouco entusiasmo

em períodos de incompatibilidade que reduzem as suas perspetivas de empregos

bem pagos no setor privado.

O problema do lobbying é que, mesmo que fosse transparente e limpo,

geraria um enviesamento no processo de deliberações políticas. “Fornece às

empresas um mecanismo para que as suas demandas e a sua visão de mundo

sejam atendidas enquanto as preocupações do público não têm tal fórum” (IPSP,

2018: capítulo 6). Portanto, a ação decisiva contra os efeitos nocivos do lobby não

se deve limitar ao lobbying propriamente dito, mas também visar como a política é

feita, no processo deliberativo e decisório. A verificação dos canais de informação

e influência nos gabinetes políticos e a criação de fóruns específicos para os

cidadãos comuns e, especialmente, para os grupos sociais menos favorecidos,

são de suma importância. Este último é o tema da próxima secção.

Representação, participação, deliberação

O debate sobre os prós e os contras da democracia representativa versus

democracia direta decorre desde sempre, pelo menos desde os antigos gregos. A

democracia representativa corre o risco de os representantes se tornarem uma

nova classe, com interesses específicos, algo desligada do cidadão comum. No

entanto, os representantes também podem construir habilidades específicas

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 185
para lidar com assuntos públicos, e há muitos exemplos de amadorismo que se

se revela amargo quando pessoas reais são trazidas para o território político.

Recentes contratempos com o Movimento Cinco Estrelas, em Itália, ilustraram a

dificuldade de improvisar na política, e a experiência semelhante de renovar o

pessoal político, tentada pelo recém-eleito presidente da França, também deve

ser observada com cuidado.


A democracia direta, pelo contrário, aposta na sabedoria da multidão

e na possibilidade de referendos e votações semelhantes para tomar decisões

diretas sobre questões políticas fundamentais. Existe obviamente uma presunção

de que os votos diretos sobre questões representam melhor a opinião do povo

no momento da votação. Se essa opinião é estável e razoável é, evidentemente,

outra questão. Os populistas em geral gostam de promover referendos porque

esperam usá-los como plebiscitos e esperam que o eleitorado apoie as suas

soluções simplistas que envolvem um tratamento severo de bodes expiatórios,

tais como cidadãos ricos ou pobres, criminosos, minorias e imigrantes. No

entanto, parece paternalista acreditar que a multidão é geralmente estúpida e

facilmente manipulada, se a alternativa é ter um grupo de profissionais políticos

para capturar o Estado e administrá-lo em seu próprio benefício.

Como ilustrado na figura 8.2, nos EUA, as preferências dos ricos, que têm

um forte impacto sobre as dos políticos, parecem diferir substancialmente das do

cidadão médio, o que também mostra que uma democracia representativa em

que a maioria dos representantes são os próprios ricos ou sob a influência dos

ricos pode não ser a melhor forma de cumprir os desejos da política.

186 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Figura 8.2
Preferências políticas dos americanos ricos versus preferências políticas do
público em geral
Fonte: Bartels (2016); Survey of Economically Successful Americans (2011); sondagens de opinião pública
contemporâneas

Felizmente, é possível ir além da oposição simplista entre democracia

representativa e democracia direta. A democracia participativa deliberativa é uma

forma de democracia em que os representantes e os cidadãos interagem não só

durante as eleições, mas também nos processos de decisão em que os cidadãos

estão envolvidos em condições semelhantes às do trabalho parlamentar. Eles

recebem conhecimentos especializados, têm tempo para discutir e deliberar e

fazem recomendações com base nesse trabalho, em vez de se limitarem a votar,

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 187
refletindo os seus sentimentos instintivos. Tal trabalho deliberativo não pode ser

feito por todos os cidadãos ao mesmo tempo e tem de contar com pequenos

painéis de cidadãos que podem ser sorteados ou voluntários ou mesmo eleitos

para um mandato curto e específico. Há um continuum de fórmulas que vão da

democracia parlamentar com severos limites de mandato para os representantes

a múltiplos júris de cidadãos dedicados a questões específicas.


Um exemplo famoso é o orçamento participativo, iniciado na cidade de

Porto Alegre, no Sul do Brasil, em 1989, e hoje praticado em milhares de cidades em

todo o mundo. Envolve diferentes assembleias e comités eleitos que apresentam

revindicações e designam fundos distribuídos de acordo com regras endossadas

pelos cidadãos.

A atratividade do orçamento participativo, particularmente na América

Latina, está ligada, em particular, à sua capacidade de gerar uma redistribuição

mais equitativa dos bens públicos e de aumentar os níveis de participação entre

os grupos desfavorecidos, os cidadãos menos instruídos e de baixo rendimento.

Há evidências de que o processo melhorou o bem-estar social, com o aumento

dos gastos em saúde e a diminuição das taxas de mortalidade infantil nas 253

maiores cidades do Brasil (IPSP, 2018: capítulo 14).

A América Latina tem estado realmente na vanguarda da inovação

democrática, com muitas outras formas de participação, como conselhos

deliberativos criados para tratar de questões específicas; conselhos de gestão

dedicados a domínios específicos, como a saúde; conselhos representativos que

dão voz às minorias sub-representadas; e conferências nacionais de políticas

públicas que são estruturas de deliberação em vários níveis para cidadãos e

organizações da sociedade civil.

Os países desenvolvidos têm experimentado estes processos com

reduzidos públicos em muitas áreas (incluindo questões constitucionais no

Canadá, Holanda, Islândia e Irlanda). A seleção estratificada é frequentemente

utilizada para garantir a presença de grupos sociais politicamente excluídos.

Por muito promissoras que sejam estas inovações democráticas, o desafio

consiste em codificá-las para garantir a sua integridade (o orçamento participativo

na Europa é frequentemente uma imitação pálida do modelo latino-americano

188 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
inicial), preservando simultaneamente a possibilidade de inovar. Uma fórmula

interessante é a criação de organizações públicas autónomas dedicadas à

participação pública. Elas são criadas por governos com o mandato de organizar

ou supervisionar inovações democráticas em áreas específicas da política.

Os exemplos incluem o Teknologiraadet dinamarquês, a Comissão Nacional

do Debate Público da França, o Escritório de Consulta Pública de Montreal e a


Autoridade Regional da Toscana para a Garantia e a Promoção da Participação.

O seu “grau de autonomia e visibilidade (...) protege-os, em certa medida, das

pressões políticas quotidianas, assegurando um grau de qualidade e supervisão

dos acordos participativos e uma autoridade competente para promover os

resultados das inovações democráticas nos processos de tomada de decisão”

(IPSP, 2018: capítulo 14).

O quarto poder

Os meios de comunicação social desempenham um papel crucial na política, e

não só. Fornecem a base para uma compreensão coletiva das identidades de

grupo e dos eventos em curso e não pode ser ignorada a sua responsabilidade

em enquadrar as perceções das pessoas sobre as questões sociais. Por exemplo,

mortes por terrorismo têm muito mais cobertura da imprensa do que mortes de

mulheres por agressão de parceiros, mesmo que os números das últimas (cerca

de 10% do total de homicídios, mais ou menos uniformemente espalhados pelo

mundo) superem os primeiros (cerca de 5% no mundo todo, a maioria dos quais


51
no Médio Oriente e Ásia). Por exemplo, uma mulher nascida nos EUA tem cerca

de 500 hipóteses mais de ser morta pelo seu parceiro do que por um terrorista,
52
mas os media raramente mencionam isso. Nos países em que religiosos não

intervêm muito nos debates públicos, os media herdam uma autoridade ideológica

que pode respeitar a pluralidade de pontos de vista na sociedade ou promover

uma visão mais unificada, servindo a quem controla a sua linha editorial. Os

51 Ver IPSP (2018: capítulo 10).

52 Há exceções, claro. Ver, por exemplo, http://www.businessinsider.fr/us/death-risk-statistics-terrorism- doenças-aciden-


tes-2017-1/ ou http://edition.cnn.com/2016/10/03/us/terrorism-gun-violence/.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 189
media têm uma longa história de serem contestados, quando pareciam parciais

e subservientes ao Estado ou a interesses poderosos, mas também de serem

canais de crítica das autoridades, servindo a causa da democracia. Amartya Sen

(1981), na sua análise da fome, considera a imprensa livre como um dos mais

importantes fatores de prevenção, devido ao seu papel na exposição da má

gestão e da privação social.


A imprensa tradicional está agora a lutar sob a pressão dos novos meios de

comunicação, em particular das redes sociais como o Facebook, o Twitter e blogues

independentes. Os novos meios de comunicação social reforçam o fenómeno das

tribos ideológicas. É claro que sempre foi possível selecionar um jornal ou um

canal de rádio do nosso agrado, mas o número de opções era mais limitado. Mais

importante, hoje em dia, o número de produtores de notícias é multiplicado e

inclui todos os tipos de indivíduos, cujas intenções podem ser menos puras do

que as do jornalista típico. Rumores, teorias da conspiração e notícias falsas são

agora propagados muito mais rapidamente e em proporções surpreendentes,

obrigando os media sérios a desviar parte dos seus recursos para desmascará-

los, mesmo que dificilmente possam alcançar os clientes mais crédulos de

tais rumores. Ao mesmo tempo, os novos media ampliam as possibilidades de

coordenação dos movimentos sociais e desempenharam um papel importante na

Primavera Árabe, bem como na exposição de abusos policiais e outros escândalos

que podem ser capturados por vídeos em protestos em vários países.

Outra consequência da reestruturação dos media é um movimento de

concentração em muitos países, produzindo grandes grupos de empresas de

comunicação. Empresários e políticos tornam-se cada vez mais próximos, e

alguns políticos influentes têm um passado como importantes proprietários de

media, como Hary Tanoesoedibjo, na Indonésia, e Silvio Berlusconi, em Itália,

ou produtores de media, como Donald Trump, nos EUA. Além disso, uma nova

indústria digital de coleta de dados rastreia o comportamento online da população

e vende-a a empresas que podem usá-la para direcionar publicidade e operações

comerciais semelhantes. Os cidadãos estão cada vez mais desconfiados de estarem


53
sob vigilância cibernética rigorosa, seja pelo Estado, seja pelas empresas.

53 Por exemplo, “em 2015, o governo indiano lançou a Iniciativa Índia Digital, que é baseada no uso do sistema de Iden-

190 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Uma tendência negativa vem com a penetração dos media no próprio jogo

político. Governos, partidos políticos e políticos ambiciosos empregam cada vez

mais os serviços de gurus profissionais de media, profissionais de marketing e

spin-doctors. Ezrahi (1990) chamou a isso uma mudança de estado de “homens de

Estado” para “homens de palco”. A política tornou-se um palco público, dirigido

por manchetes que chamam a atenção e mensagens no Twitter – uma mistura


de entretenimento encenado e mensagens cuidadosamente elaboradas de que

Maquiavel se poderia orgulhar.

Este complexo padrão evolutivo de concentração e corporativização dos

media tradicionais e crescimento difuso da produção de notícias de baixo custo

e baixa qualidade levanta um sério desafio para a democracia. Como proteger

o cidadão contra a influência do grande capital que controla os grandes media,

bem como contra os falsificadores que propagam notícias distorcidas, às vezes,

sob o impulso de Estados desonestos? Ao mesmo tempo, gostaríamos de reter a

amplificação da voz dos cidadãos possibilitada por um maior acesso à produção

e partilha de notícias.

Para enfrentar tais tendências, a inspiração pode vir mais uma vez da

América Latina. Após o escândalo Snowden, o Brasil desenvolveu uma iniciativa

regulatória chamada Marco Civil da Internet, através de um grande processo

participativo envolvendo organizações da sociedade civil e cidadãos. O Marco

“considera o acesso à internet fundamental para a democracia, pois é essencial

para a participação na vida política e na produção cultural, e parte do direito

à educação e à liberdade de expressão”, e inclui “a proteção da liberdade e

da privacidade, governação aberta, inclusão universal, diversidade cultural e

neutralidade da rede” (IPSP, 2018: capítulo 13).

O princípio orientador da reforma nesse domínio, portanto, é que, dado

o seu papel na educação e informação dos cidadãos e com a possibilidade de

espaço para o debate público, a infraestrutura de comunicação e media deve ser

considerada um bem comum, o que é dificilmente compatível com o modelo de

negócio padrão de media, impulsionado pela procura dos consumidores e pelas


tidade Única Aadhar para autenticação biométrica de beneficiários de políticas e serviços governamentais. O sistema
de Aadhar, que é a maior iniciativa de banco de dados baseado em biometria do mundo, foi desenvolvido por parceiros
de tecnologia empresarial, e os críticos afirmam que se sabe muito pouco sobre as suas capacidades e potenciais usos
futuros” (IPSP, 2018: capítulo 13).

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 191
receitas de publicidade. Isso significa que a sua governação e regulamentação

devem ser abertas e participativas, que a independência e a neutralidade

das principais instituições e intervenientes devem ser preservadas, tanto da

prepotência do Estado como do desvio de empresas, e que o acesso à produção

de conteúdos deve ser garantido a todos, especialmente às minorias e aos grupos

desfavorecidos. Não existe uma fórmula institucional simples que implemente

tudo isso de forma automática, e uma combinação entre financiamento público

e coletivo dos media sem fins lucrativos, mecanismos de certificação e órgãos de

monitorização independentes e participativos deve ser imaginada e adaptada a


54
cada situação local.

E a reforma do sistema eleitoral?

Em muitos países, a política também sofre de regras eleitorais que falharam às

expectativas do eleitorado, traindo os desejos da população e colocando em

funções governos que não refletem as opiniões populares.

Os EUA fornecem um exemplo interessante, com um aparente viés a favor

dos republicanos (figura 8.3). Por duas vezes na curta história do século XXI,

um presidente republicano foi eleito com uma minoria do voto popular. O mal-

afamado colégio eleitoral é responsável por essa incompatibilidade. A ironia é que


esse colégio foi criado para proteger o governo da tentação popular de votar em

demagogos, mas permitiu a eleição de Donald Trump contra os votos populares.

Além disso, o Congresso é controlado pelos republicanos com mais frequência

do que deveria, se considerarmos o voto popular. Os republicanos têm também

manipulado distritos congressionais para obter grandes maiorias na Câmara e até

mesmo serem protegidos de reversões pelo voto popular, como observado, por
55
exemplo, em 2012.

54 É proposto um plano de ação mais pormenorizado no IPSP (2018: capítulo 13).

55 Para uma análise equilibrada do papel da manipulação na era política tardia, ver J.E. Zelizer, “The power that ger-
rymandering has brought to Republicans”, Washington Post, 17 de junho de 2016, disponível em https://www.washing-
tonpost.com/opinions/the-power-that-gerrymandering-has-brought-to-republicans/2016/06/17/045264ae-2903-11e6-ae-
6-ae4a-3cdd5fe74204_story.html?utm_term=.a48864ea72aa.

192 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Figura 8.3
Votos e resultados eleitorais nos EUA
Fonte: Comissão Eleitoral Federal para 2000-2012, Wikipédia para 2016

O surgimento de Trump nas primárias republicanas é atribuído ao sistema


de pluralidade que favorece o candidato com o maior apoio nas sondagens, mesmo

que ele ou ela não seja apreciado pela maioria dos eleitores. Da mesma forma,

em França, a pluralidade seleciona os dois principais candidatos na primeira volta

da eleição presidencial. Como consequência, a Frente Nacional de extrema-direita

foi capaz de perturbar as eleições presidenciais ao chegar à segunda volta, apesar

de haver uma maioria robusta de eleitores que não gosta muito de tal partido.

Isso já aconteceu duas vezes, em 2002 e 2017. O impacto da Frente Nacional no

debate público é então ampliado pelo seu papel potencial nessa fórmula eleitoral

insensata. Isto amplifica o discurso xenófobo e antieuropeu noutros partidos. No

Reino Unido, a pluralidade com apenas uma volta (first-past-the-post) também está

a entrincheirar um sistema bipartidário que restringe severamente a expressão

de opiniões políticas. É possível que um partido que mal se sobrepõe aos outros e

obtém pouco mais de um terço dos votos governe o país com uma forte maioria
de assentos em Westminster, como aconteceu desde 2005.

Uma fórmula eleitoral de duas voltas é usada em 40 países do mundo, e o

sistema first-past-the-post é usado em 58 países. É possível evitar a instabilidade

da pluralidade que mina a legitimidade de tais regras eleitorais? Estudos recentes


responderam um “sim” retumbante a essa questão. Além de introduzir uma

representação parlamentar mais proporcional, com base na distribuição real

dos votos pelos partidos políticos, existem regras de votação que permitem aos

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 193
eleitores aprovar vários candidatos ou classificá-los. Estas regras parecem ser

muito mais adequadas para captar as preferências políticas.

A regra mais simples pede ao eleitor que classifique os candidatos com

apenas dois graus: aprovados e não aprovados. O vencedor da eleição é o


56
candidato que recebe mais aprovações. Uma regra mais sofisticada oferece

uma lista mais rica de notas, como excelente, boa, aceitável, justa, medíocre,

má, e atribui a cada candidato a nota mais alta que ele merece por pelo menos

50% do eleitorado. O candidato selecionado é o que tem a maior percentagem


57
de apoio entre aqueles com a nota mais alta. Por exemplo, se o candidato X

obtiver a nota aceitável ou melhor para 52% dos eleitores, enquanto o candidato

Y obtiver a nota aceitável ou melhor para 53%, e nenhum candidato obtiver uma

nota melhor para mais de 50%, então este último é eleito. O que é interessante

nesta regra é que os eleitores têm incentivos limitados para deturpar as suas

opiniões, uma vez que isso geralmente não altera o resultado (a candidata Y não

tem mais hipóteses de ser eleita se um apoiante lhe der um “excelente” em vez de

“bom” ou “aceitável”). Além disso, o candidato eleito não só recebe o cargo, mas

também uma classificação de aprovação na forma de uma nota, indicando como

está posicionado na estima dos eleitores.

Estas regras foram experimentadas, e os resultados mostram que reduzem

o papel de candidatos minoritários como os da Frente Nacional na França e

tendem a favorecer os candidatos centristas, oferecendo assim uma forma de


reduzir a polarização da política.

Outra questão espinhosa é a abstenção e o registo dos eleitores. Nos

EUA, essa é uma questão muito estratégica. A supressão do voto negro tem

sido cinicamente prosseguida, tornando o registo e a votação difíceis para os

trabalhadores em bairros pobres (a votação ocorre sempre durante um dia de

trabalho, os requisitos de identidade penalizam as pessoas sem passaporte ou

carta de condução, criando longas filas em bairros pobres), bem como pela prisão

em massa de negros acompanhada pela exclusão de criminosos e ex-criminosos

dos registos. Em muitos países, as vozes dos pobres são menos influentes porque

56 Ver Brams e Fishburn (1983).

57 Ver Balinsky e Laraki (2011).

194 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
participam menos nas eleições. Há uma solução simples para este problema:

tornar o voto obrigatório e fácil. Atualmente, apenas 22% dos países têm regras

de voto obrigatório, e apenas metade deles aplicam tais regras. Não existem

argumentos convincentes contra a votação obrigatória, uma vez que é sempre

possível lançar um voto em branco se não estivermos satisfeitos com as opções.

Outras mudanças nas regras eleitorais que podem ter um impacto

significativo envolvem limites rigorosos de mandatos para reduzir o número de

castas de políticos profissionais. Isso já foi mencionado numa secção anterior.

Em conclusão, mesmo que o melhor serviço que possamos prestar à

democracia política seja dar-lhe um ambiente social sólido sob a forma de uma

sociedade justa, há muitas reformas específicas que poderiam ser implementadas

para melhorar a política nacional: combater a corrupção e o lobbying, reformar o

financiamento de campanhas, aumentar a participação dos cidadãos na tomada

de decisões, democratizar os media e as comunicações, e adotar melhores

sistemas eleitorais.

Além de rejuvenescer a política nacional e local, devemos também visar a

construção de uma democracia global? Grandes sistemas federais, como no Brasil

e nos EUA, ou uniões internacionais como a Europa, lutam com o facto de muitos

cidadãos se sentirem afastados do centro. No entanto, muitas decisões exigem

cooperação e coordenação global, sendo que um corpo permanente de decisores

que representem os cidadãos do mundo seria indiscutivelmente melhor do que


as arenas de consulta fornecidas pelas Nações Unidas. Pode esperar-se que a

participação direta dos cidadãos nas eleições centrais ofereça uma perspetiva

melhor do que os sistemas multicamadas nos quais os eleitores não têm influência

direta na seleção dos decisores no centro. No entanto, o Parlamento Europeu, por

exemplo, não parece ser uma história de sucesso, uma vez que a participação nas

eleições tem ficado abaixo dos 50% desde 1999 e a sua taxa de aprovação não é

muito melhor do que a Comissão Europeia não eleita ou o Conselho de Ministros

indiretamente representativo. A democracia em grande escala continua a ser um

domínio difícil em que é necessário imaginar novas instituições.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 195
Figura 8.4
Diminuição da confiança nas instituições europeias
Fonte: http://ec.europa.eu/commfrontoffice/publicopinion/index.cfm/Chart/index

196 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Conclusão
Mobilizando os empreendedores da mudança
Este livro celebrou as grandes conquistas dos séculos de desenvolvimento
passados, alertou para os perigos que ameaçam os fundamentos das nossas

sociedades e ecossistemas e ofereceu uma visão positiva de um futuro possível, no

qual a economia de mercado seria reintegrada nas instituições sociais em busca

da justiça social e da sustentabilidade. Se formos capazes de superar o abismo

aberto pelas catástrofes iminentes e trilhar a transição para um novo conjunto

de instituições que promovam conjuntamente a equidade, a sustentabilidade e

a democracia, podemos esperar uma continuação do progresso social no futuro

previsível.

Entretanto, superar o abismo não acontecerá simplesmente se apenas

alguns ou mesmo se a maioria das pessoas vir a necessidade de mudanças. O

futuro desejável pode ser realista e viável, mas pode permanecer uma utopia

se os obstáculos à transição forem demasiado grandes. E os obstáculos são

realmente enormes. Assumem a forma de poderosos interesses que promovem

um discurso TINA (there is no alternative) persistentemente forte, uma cultura

dominante que geralmente favorece o curto prazo, multidões hipnotizadas por

seguir demagogos, falhas na cooperação devido a egoísmos obtusos, sistemas

educacionais que replicam as suposições e estruturas mentais de outrora e pura

estupidez e fanatismo.

Portanto, precisamos não apenas de uma visão, mas também de uma

estratégia. Os autores deste livro não são estrategistas políticos, mas não se trata

de lançar um novo partido. As apostas são maiores, mais profundas. A mensagem

que queremos transmitir é que todos podem contribuir para a transformação

desejada. Acreditamos que a transformação que é necessária só acontecerá


através de um impulso de bases, e este capítulo final explica porquê e como.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 197
Quem governa o mundo?
Quem Governa o Mundo? é o título de um dos livros de Noam Chomsky, no

qual ele critica o papel nefasto dos Estados Unidos, e especialmente da CIA,

na geopolítica internacional. A questão mais ampla de quem realmente detém

o poder nos assuntos mundiais, não apenas na geopolítica, mas também nos
assuntos económicos e sociais, é aquela que tem agitado muitos pensadores

e permanece em grande parte aberta. Os adeptos das teorias da conspiração

alinhadas à esquerda têm tido os seus olhos não apenas na CIA, mas também

no Fórum Económico Mundial, na Comissão Trilateral e em think tanks, enquanto

os adeptos das teorias da conspiração alinhadas à direita olham para os atuais

centros financeiros na trágica tradição das fantasias antissemitas. Em Who

Governs?, o cientista político Robert Dahl fez uma pergunta semelhante sobre a

cidade de New Haven, no Connecticut: “Num sistema político onde quase todos

os adultos podem votar, mas onde o conhecimento, a riqueza, a posição social,

o acesso às autoridades e outros recursos são distribuídos desigualmente, quem

realmente governa?” (Dahl, 1961: 1) Talvez surpreendentemente, descobriu que

o poder estava realmente espalhado por muitos grupos e não estava nas mãos

de uma pequena oligarquia. Ele cunhou a palavra “poliarquia” para descrever a

situação em que nenhum grupo restrito e coeso concentra o poder.

É muito provável que a distribuição de poder no mundo, hoje em dia, seja

uma poliarquia, mesmo que os interesses empresariais tenham a primazia em

muitas questões ou, pelo menos, como em New Haven, nos anos 50, possam

bloquear desenvolvimentos que percebem como potencialmente prejudiciais aos

seus lucros. Mas o ponto importante que queremos enfatizar aqui é que mesmo

que o poder estivesse concentrado, o que importaria de qualquer forma seria

uma questão diferente: quem pode mudar a sociedade? Aqueles que detêm o

poder podem não ser capazes de mudar a sociedade. Muito provavelmente,

eles só podem – e a maioria deles só quer – preservar um certo statu quo. E,

inversamente, aqueles que podem mudar a sociedade não precisam de pertencer

à oligarquia hipotética que poderia ter poder sobre os assuntos atuais.

Como é que esse paradoxo surge? Trata-se, parcialmente, de uma questão

198 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
de tempo. Aqueles que detêm o poder sobre os assuntos atuais têm um horizonte

de curto a médio prazo e não podem controlar as mudanças mais profundas nas

estruturas, culturas e comportamentos, que lentamente continuam nas diferentes

camadas da sociedade. A longo prazo, a sociedade segue movimentos que são

largamente iniciados por grandes grupos de pessoas com interesses semelhantes

e que alavancam para a mudança, pouco a pouco, até que a barragem quebre ou

a terra deslize.

Veja-se, por exemplo, a mudança espetacular da condição das mulheres

em muitos países ao longo do século passado. Há um século, a maioria das

mulheres não tinha direito de voto, eram consideradas menores, em pé de

igualdade com as crianças das suas casas, e eram quase completamente

dependentes dos homens para a sua sobrevivência e vida reprodutiva, a menos

que se juntassem a uma ordem religiosa feminina onde a liberdade também

era muito limitada. Mesmo que a situação das mulheres permaneça hoje muito

imperfeita e mesmo que alguns países tenham ficado para trás, a transformação

tem sido imensa. Em última análise, mesmo o desrespeito e o assédio diários que

as mulheres sofrem estão sob forte pressão. Poderia uma mudança tão profunda

ser iniciada pela hipotética oligarquia, certamente composta por homens velhos,

pelo menos quando a mudança começou? Tal parece muito improvável. Foi a

pressão implacável das próprias mulheres que mudou as normas. Na verdade,

elas foram ajudadas pela inovação tecnológica, como os recursos de contraceção,


e por acidentes históricos, como esforços de guerra que exigem força de trabalho

feminina, mas estiveram na linha de frente das batalhas históricas por direitos de

voto, direitos reprodutivos e acesso a profissões. O recente movimento #MeToo

tem sido levado avante pela iniciativa das mulheres.

A lição destas observações é, portanto, clara: mesmo que o leitor não

pertença à oligarquia (real ou imaginária), pode contribuir para melhorar a

sociedade, não apenas ao seu redor, mas de forma indireta e em grande escala.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 199
Duas razões adicionais para buscar as bases

Muitas mudanças profundas na sociedade envolvem a evolução dos

comportamentos e normas a longo prazo. Por exemplo, a adoção de determinados

idiomas para a comunicação internacional raramente é uma decisão de cima para

baixo, mas lentamente emerge através de múltiplas decisões e ocasiões em que

várias práticas são testadas. Uma vez que uma língua surge como a língua franca

mais comum, torna-se atraente para mais pessoas aprendê-la, reforçando a

proeminência dessa língua em particular.

No entanto, a mudança em que aqui estamos interessados é especialmente

propensa a exigir o envolvimento das partes interessadas. Na verdade, a visão

de progresso social que propomos neste livro é, em grande parte, uma questão

de empoderar indivíduos e grupos, expandindo o âmbito da democracia e

aprofundando os seus mecanismos. Tal não pode ser plenamente realizado sem

a participação das próprias partes interessadas. Além disso, é improvável que seja

sequer iniciada sem uma alavancagem deles. Pode haver exemplos de autocratas

generosos que, por benevolência, decidem compartilhar o seu poder. Não nos

aventuraremos, entretanto, a dar muitos exemplos sobre isso, porque há sempre

a suspeita de que tais movimentos também foram feitos para evitar uma crise

iminente na qual a sua posição teria sido abertamente contestada. Talvez seja no
mundo dos negócios que tais exemplos plausíveis podem ser encontrados, porque

a cultura autoritária é de tal forma dominante neste mundo que os empresários

que decidem democratizar a sua gestão dificilmente serão submetidos a pressões

sérias para que o façam.

Dane Atkinson, o fundador de uma empresa de big data, escreve: “Quando

eu e os meus cofundadores lançamos a SumAll há quatro anos, decidimos que

não queríamos trabalhar num ambiente mau e miserável. Quando as pessoas

têm gestores maus e CEO enganadores, começam a odiar a vida, e as coisas ficam
más rapidamente. Então, chegamos a uma solução: deixar que os funcionários

elejam os seus próprios líderes e responsabilizem todos os gestores perante as

pessoas que gerenciam. Se os líderes não puderem ganhar respeito e lealdade,

200 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
58
eles não deveriam liderar uma equipa”. Esse tipo de exemplo é raro e, mais

geralmente, a democratização vem da pressão fervente da multidão. Por outras

palavras, há um tipo de progresso social que é especialmente provável que exija

um processo de baixo para cima, e esse é precisamente o tipo de progresso que

propomos aqui.

Outra razão para acreditar num processo de baixo para cima é que há tantas
possibilidades de melhorar as instituições que é improvável que uma direção

central para a experimentação social funcione. É muito mais realista imaginar

um cenário no qual iniciativas locais testam ideias vindas do terreno, e aquelas

que são bem-sucedidas podem então servir como exemplos de liderança que

inspiram outras iniciativas e inovações secundárias. As cidades, principalmente

as maiores, podem desempenhar um papel significativo, como vimos no Grupo

C40 de Grandes Cidades para a Liderança Climática ou, em muitos países, sobre

questões de migração. Nos capítulos anteriores, este livro não propôs um sistema

único, mas apenas ideias gerais de direções que podem ser seguidas em diferentes

domínios. Tais ideias podem ser incorporadas de múltiplas formas, e há uma

tremenda necessidade de melhorar o nosso conhecimento sobre o que funciona

através de experimentação social. Muitas destas experiências podem ser locais –

na comunidade ou na cidade –, mesmo que alguns exijam uma coordenação mais

geral. Além disso, contextos diferentes requerem soluções diferentes, devido a

culturas e tradições específicas ou a possibilidades tecnológicas e económicas

específicas. A diversidade de soluções adaptadas aos contextos locais não pode

ser compreendida por uma liderança central e requer iniciativa e controlo de


59
baixo para cima.

Portanto, identificamos três razões para encorajar todos a tomar

iniciativas: 1) profundas mudanças sociais vêm das pessoas, movimentos

sociais e organizações da sociedade civil, raramente de líderes no topo; 2) isto

é especialmente verdadeiro para a democratização e empoderamento, que


requerem a participação e, geralmente, um impulso dos stakeholders; 3) são
necessárias muitas experiências para explorar como implementar e adaptar

58 Ver https://techcrunch.com/2015/07/21executives-and-managers-should-all-be-elected/.

59 Por exemplo, os grupos religiosos, devido às suas redes e dedicação às causas sociais, podem ser parceiros valiosos
de outras organizações e das autoridades públicas para desenvolver ações sociais (IPSP, 2018: capítulo 16).

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 201
ideias gerais às necessidades e possibilidades locais.

Pensar global, agir globalmente

Uma ressalva fundamental é que não se deve entender a base como pequena

e localizada. Pelo contrário, agora é cada vez mais importante pensar grande e

globalmente. O slogan “pensar global, agir localmente” tem sido popular há muito

tempo e incentiva iniciativas locais para a sustentabilidade, especialmente no

desenho urbano, mas está ultrapassado. Ao coordenar iniciativas, não é apenas

o pensamento, mas também a ação que se pode tornar global e ser amplificada

no seu impacto. Pensar global deve, agora, significar pensar em agir globalmente

sempre que possível.

Uma das principais desigualdades que hoje geram um desequilíbrio

considerável no poder e nas oportunidades resultam da elite ser global, estar

à vontade em qualquer lugar, enquanto os que foram deixados para trás estão

presos num mundo local, incapazes de entender além de um estreito círculo. Na

verdade, esta visão que opõe as pessoas de todos os lugares às pessoas deste

lugar é simplista. Na realidade, os desprivilegiados sabem que os indivíduos

da elite estão mais à vontade apenas nos lugares do mundo que estejam em

conformidade com as suas normas de conforto e comunicação, e que se sentem


mais embaraçados do que qualquer outro quando atirados para ambientes

desfavorecidos. Por outro lado, as pessoas pobres, habituadas a circunstâncias

adversas, são mais capazes de se adaptar às condições de vida em mutação e de

enfrentar o perigo. A superioridade das elites é, em grande parte, uma projeção

da sua própria arrogância.

O que é verdade, porém, é que as elites globais são capazes de coordenar

os seus esforços para defender os seus interesses numa escala maior do que

as pessoas comuns, movimentos sociais ou organizações da sociedade civil, e

isso coloca-as claramente em vantagem. Por exemplo, as empresas promoveram

atividades globais décadas antes das ações coletivas dos trabalhadores

começarem a chegar a outros países. Portanto, era fácil para as empresas colocar

202 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
os interesses dos trabalhadores locais contra os de outros países, ao passo que

fazê-lo em todas as fábricas do mesmo país era dificultado por possíveis coligações

de trabalhadores. Para as empresas que operavam ao nível europeu, por exemplo,

a criação de comités empresariais para informar e consultar os trabalhadores

só foi oficialmente incentivada numa diretiva de 1994. Na verdade, existe uma

Confederação Sindical Internacional, criada em 2006 através da fusão de duas

associações mundiais, que se orgulha de descender da Primeira Internacional e

que comemorou 150 anos de associação mundial de trabalhadores em 2014, mas

que não dá nenhuma contribuição operacional para a negociação diária, e atua

principalmente como uma agência de lobbying.

As ONG e as iniciativas da sociedade civil também têm uma grande

necessidade de coordenação internacional para aumentar a sua eficácia e

partilhar ideias, e ainda há muito a fazer no domínio da coordenação global e da

partilha de informações. Existem bases de dados úteis, como uma que abrange

as ONG internacionais do Conselho da Europa e outra que abrange as iniciativas

de bem-estar e sustentabilidade da Wikiprogress, inicialmente lançada pela OCDE


60
e agora independente. Existem encontros internacionais de iniciativas da

sociedade civil, como o Fórum Social Mundial, eventos da sociedade civil em torno

das reuniões do G20 e uma Conferência de ONG internacionais organizada pelo


61
Conselho da Europa.

ONG internacionais, como a Oxfam, que trabalham na ajuda ao


desenvolvimento, tendem agora a estabelecer parcerias com associações locais

para melhor adaptar as suas intervenções às necessidades locais e respeitar a

dignidade dos beneficiários da ajuda. Há também plataformas de campanha

na internet, como Avaaz.org, MoveOn.org e Change.org, que são incrivelmente

eficientes em reunir um número elevado de assinaturas para petições em poucas

horas.

No capítulo 5, a Associação de Mulheres Autónomas (SEWA) foi descrita

como uma interessante ONG indiana que promove um ideal de dignidade e

empoderamento e é muito eficaz a nível nacional. Esta organização faz parte de


60 ONG internacionais do Conselho da Europa: http://coe-ngo.org/#/ingos; iniciativas de bem-estar e sustentabilidade da
Wikiprogress: http://wikiprogress.org.

61 https://civil-20.org/.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 203
uma rede internacional de ONG similares, chamada WIEGO (Mulheres no Emprego

Informal: Globalizar e Organizar), fundada em 1997 e atualmente ativa em mais

de cinquenta países. No seu manifesto, proclama: “Nenhuma inclusão social dos

trabalhadores pobres compensará a sua exclusão ou a sua inclusão em termos

desfavoráveis em oportunidades económicas, mercados financeiros e de produtos

e planeamento económico. E nenhuma inclusão social dos trabalhadores pobres

compensará a sua falta de poder económico e de direitos económicos”. Esta rede

aumenta a eficácia de cada associação afiliada, compartilhando experiências,

fornecendo apoio técnico e pedagógico, ajudando a promover a sua agenda

em fóruns internacionais de políticas e coletando conhecimentos de um grupo

de académicos internacionais. Este tipo de rede parece muito promissor para

aumentar a eficácia das ONG que buscam agendas semelhantes em diferentes

países. O exemplo da WIEGO prova que a coordenação internacional é possível

mesmo para as populações mais desfavorecidas, como as trabalhadoras informais.

Às vezes, a coordenação internacional de iniciativas locais é realmente

crucial para torná-las poderosas. Por exemplo, o problema da mudança climática

não pode ser abordado localmente. Se um campus universitário decide fazer

grandes esforços para reduzir as emissões, qual é o impacto sobre as emissões

globais? Desprezível, ou mesmo prejudicial, se a redução do consumo de

combustíveis fósseis por tal universidade deixar os combustíveis mais acessíveis

para os consumidores que são mais sensíveis aos preços. No entanto, se todas as
universidades do mundo decidissem fazer um esforço conjunto, isso seria menos

insignificante, e poderiam influenciar a política de mitigação da mudança climática.

Infelizmente, tal esforço internacional das universidades parece não acontecer

por enquanto. A coordenação permanece, nesta fase, nacional, o que é estranho,

dada a facilidade com que as instituições de ensino superior constroem redes


62
internacionais quando se trata de investigação. Noventa e uma grandes cidades

de todos os continentes, cobrindo cerca de 8% da população mundial, lançaram

uma coordenação internacional na rede C40, o que é significativo devido à sua

proximidade com os círculos governamentais.

62 Por exemplo, nos EUA, a Second Nature (http://secondnature.org/) reúne 589 faculdades e universidades (em 22 de
agosto de 2017).

204 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Universidades e presidentes de câmara podem ligar-se além das fronteiras

nacionais. O que continua a ser um sério obstáculo para outros indivíduos é a

dificuldade de comunicar com grandes círculos devido às limitações linguísticas

e ao acesso limitado às redes. Esta limitação, no entanto, encontra cada vez

menos obstáculos, com o uso das tecnologias modernas e a disponibilidade das

organizações da sociedade civil e de voluntários que querem ajudar. Por exemplo,

o lançamento da SEWA na Índia beneficiou muito da iniciativa de alguém como Ela

Bhatt, que veio de uma família abastada (o seu pai era advogado, a sua mãe ativista

de associações de mulheres) e foi bem informada e inspirada pela experiência

internacional. Assim que a iniciativa é implementada e ajuda a preencher lacunas

entre as pessoas carenciadas, elas investem na estrutura e fazem-na prosperar.

Cinco ideias que podem mudar a sua vida e o mundo

Aqui estão ideias sobre coisas que o leitor pode fazer para iniciar o progresso

social à sua volta.

1. Criar a mudança a partir da família

Como enfatizado, a situação das mulheres está longe de ser perfeita em

todo o mundo e devemos continuar e expandir a mudança que já foi alcançada.


A educação das raparigas, a saúde das mulheres e a partilha de tarefas em casa

são três pontos em que o esforço continua a ser necessário e para os quais a

contribuição de todos pode fazer a diferença.

Dependendo do contexto, tal pode assumir muitas formas diferentes.

Em alguns lugares, enviar raparigas à escola é uma ação heroica, enquanto

noutros lugares o que falta fazer é encorajá-las a estudar determinadas áreas

e prepará-las para profissões que foram monopolizadas pelos rapazes. É muito

difícil para ambos os sexos libertar-se dos estereótipos e deixar de projetar em

raparigas e mulheres papéis específicos, mas não é impossível, e é gratificante ver

os seres humanos terem acesso a novas coisas das quais foram artificialmente

impedidos de aceder. Embora as questões das mulheres e a saúde materna

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 205
sejam principalmente de política, também são tarefas familiares permitir que elas

tenham acesso à sua parcela justa de alimento e conforto, ajudá-las nos esforços

de contraceção e incentivá-las a obter o nível desejável de atenção à saúde.

A partilha de tarefas é uma área em que o progresso é deprimentemente

lento, produzindo uma situação em que dar acesso a mais oportunidades

de trabalho às mulheres significa sobrecarregar o seu dia com múltiplas


63
responsabilidades. Não se trata apenas de uma questão de política pública,

mas também de negociação familiar para forçar os homens a dedicarem mais

tempo aos seus filhos, a partilhar a limpeza da casa, a preparação das refeições

e o cuidado dos familiares idosos. Onde quer que esteja, quebre as regras e

convenções que consolidam as desigualdades.

Além da questão das mulheres, há também a questão da orientação sexual

e da identidade de género. A família é um lugar-chave em que a orientação sexual

e a identidade de género podem ser respeitadas ou reprimidas e, portanto, é

muito importante que os membros da família tenham a mente aberta e respeitem

a diferença.

Uma necessidade semelhante de abertura de espírito e respeito surge

quando as relações românticas entre pessoas de religiões ou raças diferentes

quebram as convenções tradicionais.

Acredite que o que acontece na família é uma questão de justiça social

séria. A família é um dos lugares onde mais ocorrem as injustiças flagrantes e


um lugar estratégico onde as raparigas e mulheres são encorajadas e preparadas

para ocupar o seu lugar na sociedade, ou condicionadas a permanecer em papéis

secundários; onde as diferenças de orientação sexual, raças ou religiões podem

ser bem-vindas ou suprimidas, refletindo atitudes que promovem ou impedem o

florescimento de diferenças na sociedade em geral. Mais fundamentalmente, a

família é a primeira e mais importante forma de comportamento cooperativo entre

humanos e ainda envolve, atualmente, poder e mecanismos de distribuição que

moldam a vida das pessoas. A família pode ser um ator de mudança não apenas

para os membros dela própria, mas também como um exemplo e inspiração para

outras famílias na comunidade.

63 Ver IPSP (2018, Capítulo 17).

206 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
2. Criar a mudança através do trabalho

O outro lugar que molda as injustiças mais profundas é o trabalho. O

trabalho é um empreendimento cooperativo em que diferentes participantes

trazem o seu know-how e a sua energia para produzir algo juntos e obter uma

recompensa. No trabalho, não há apenas uma luta pela partilha dos lucros, mas

também uma luta pelos papéis sociais, permanência, reconhecimento, poder,

responsabilidade, autonomia. As hierarquias tradicionais persistem e dividem

os trabalhadores em categorias e também separam os trabalhadores de outros

agentes, como credores e acionistas. Como explicado no capítulo 6, um local de

trabalho justo trataria todos como um par, como alguém que contribui para o

empreendimento coletivo.

É fácil pensar que pouco pode ser mudado a esse respeito por iniciativa

individual ou local. A globalização reforçou o sentimento de que as decisões são

tomadas longe e acima das cabeças dos trabalhadores comuns. A tendência

descendente da sindicalização em muitos países deixa muitos trabalhadores

bastante impotentes e sem voz.

No entanto, a mudança não é tão difícil de implementar em alguns

contextos. Em primeiro lugar, nas pequenas empresas onde é fácil comunicar,

também é fácil para os proprietários e para os trabalhadores discutir melhores

equilíbrios. Em geral, as pequenas empresas têm menor cobertura sindical, mas

estudos em vários países sugerem que as condições de trabalho e as relações


de gestão do trabalho são melhores nas pequenas empresas. As organizações

de tamanho humano são naturalmente mais favoráveis ao prosperar, e se é

um gestor ou um trabalhador comum, impulsionar melhorias no estatuto dos

trabalhadores vale o esforço.

Isto não pretende sugerir que as grandes empresas são um caso perdido.

Como Dane Atkinson escreve sobre o seu esquema democrático:

O modelo de equipa autoeleita poderia funcionar em quase todas

as empresas. As organizações maiores precisariam de mais pessoas para


64
desempenhar papéis intermédios como o nosso vice-presidente de engenharia ,

mas eu ainda procuraria limitar o tamanho das equipas a 10 por uma questão

64 “O vice-presidente de engenharia supervisiona várias equipas, por isso toda a empresa teve de votar que sim ou que
não antes de o poder contratar.”

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 207
de comunicação. Este modelo é bem dimensionado porque cria uma linha de

funcionários experientes que podem chegar ao topo das novas equipas e evitar

que os gerentes atuais fiquem sobrecarregados (Atkinson, 2015).

Também é possível que os trabalhadores recuperem a sua dignidade e

se mudem para outras empresas ou se tornem autónomos. Isso pode não ser

fácil para todos, mas aqueles para quem é fácil podem querer pensar duas

vezes sobre a sua situação atual, em que podem ter algumas regalias e garantias

materiais, mas à custa de relações sociais deploráveis no trabalho. Mesmo que,

e especialmente se, o leitor não for uma vítima num local de trabalho cheio de

práticas injustas, tem uma responsabilidade especial de fazer as coisas mudarem

ou, se isso não for possível, de expressar o seu desacordo. Procure as empresas

com fins sociais e ambientais, cooperativas, e incentive-as, sinalizando o seu

interesse em juntar-se a elas.

Não é normal tratar os trabalhadores como seres humanos inferiores, e

as normas estão a mudar lentamente com o esforço conjunto das vítimas, dos

movimentos sociais, das organizações da sociedade civil e dos empresários com

uma visão mais justa. O local de trabalho também é um local-chave onde as

relações de género e raça podem ser muito injustas e reforçar as discriminações

que ocorrem na sociedade em geral. Embora as relações sociais no trabalho sejam,

em parte, uma questão de política pública, as práticas e iniciativas individuais

podem fazer a diferença e mudar a vida de muitos trabalhadores.


Pensemos nisto: contribuir para tornar o local de trabalho justo é um

elemento central de justiça na vida. Não importa quão injustos outros locais de

trabalho possam permanecer à volta, pelo menos é um exemplo do que pode ser

alcançado numa sociedade melhor.

3. Criar a mudança através das escolhas de consumo e poupança

O leitor também pode mudar de local de trabalho nas suas decisões de

consumo, e isso dá vantagem até mesmo para aqueles que não trabalham.

Infelizmente, continua a ser difícil para os consumidores éticos obter informações

precisas e fiáveis sobre os produtos que compram. Os sites que fornecem

classificações de responsabilidade social empresarial permanecem ocultos

208 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
ou caros, e são concebidos mais para empresas que procuram avaliar o seu

desempenho do que para as famílias. Alguns sites, e até mesmo aplicações

móveis, fornecem orientação ao consumidor sobre produtos, mas continua a ser

complicado obter uma imagem sintética de um produto ou serviço. Assumindo

que tais ferramentas irão expandir e melhorar, confiar nelas pode ajudar a navegar

no labirinto de rótulos e anúncios e não só dar a satisfação de consumir produtos

que foram feitos em boas condições, mas também tornar um contribuinte da boa

causa geral de incentivar as empresas a melhorar as suas classificações a fim de

manter os clientes. Da mesma forma, os fundos de investimento ético tornam

possível para a família comum colocar a poupança em bom uso e influenciar as

empresas, dando vantagem àqueles que têm o comportamento desejado.

A maioria das pessoas diz que está disposta a fazer um esforço, incluindo

um financeiro, para ser ética no seu consumo e poupança. O que é necessário

é um movimento real em favor do consumo e do investimento éticos que irá

desencadear o surgimento de um melhor fornecimento de dados gratuitos sobre

o desempenho social e ambiental das empresas.

4. Criar a mudança na sua comunidade

É aqui que o slogan “pensar global, agir local” permanece válido. Há milhares

de formas de melhorar a vida comunitária e muitas fontes de ideias sobre como

criar ocasiões de interação social, revitalizar bairros, cultivar alimentos juntos,


tornar a vida mais sustentável. A simples participação num clube local contribui

para manter a vida e coesão da comunidade.

Há também inovações fascinantes. Entre as muitas histórias inspiradoras,

está o Comestível Incrível, um movimento que começou em 2008 na pequena

cidade de Todmorden, na Inglaterra, e que já foi implantado em muitos países de

todos os continentes. Estes grupos desenvolvem a vida comunitária em torno do

projeto de cultivar alimentos localmente, aumentando a consciência ambiental

e ajudando a integrar várias partes da comunidade. Muitas vezes, deixam as

pessoas apanhar alimentos de forma livre, mudando a relação entre participação

e trabalho, e transformando a visão das pessoas sobre os espaços públicos.

Outra iniciativa importante é a rede Centros Mãe, também espalhados pelo

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 209
mundo (nos Estados Unidos, na Alemanha e nos antigos países do Bloco do Leste

europeu, mas também em países como o Ruanda e os Camarões), fornecendo

serviços básicos, como cuidados infantis, aulas de educação de adultos e

reciclagem profissional. Baseia-se na filosofia de empoderamento, de fazer as

pessoas participarem e contribuírem em vez de serem recipientes passivos de

ajuda (IPSP, 2018: capítulo 5).


65
Gawad Kalinga é outra história interessante. Uma fundação de

desenvolvimento comunitário, sediada inicialmente nas Filipinas, tem contribuído

significativamente nos últimos dez anos para a redução da pobreza naquela

região, capacitando atores locais e mobilizando empresas e organizações globais

em torno do projeto comum de fomentar o surgimento de muitas comunidades

socioeconómicas locais saudáveis, produtivas e solidárias.

A vida comunitária não é apenas sobre o que as pessoas fazem em

determinados contextos, mas também sobre o design urbano e as infraestruturas.

Participar de decisões locais sobre planeamento urbano que afetem o alojamento,

o acesso a infraestruturas e opções de mobilidade pode ser muito importante,

pois os investimentos moldam a vida de bairros por décadas futuras.

Há um desenvolvimento interessante nos mecanismos participativos,

inspirado em parte em Porto Alegre (Brasil) e em iniciativas similares descritas

no capítulo 8. Um pequeno problema associado a estas iniciativas é que elas, por

vezes, contribuem para dividir ainda mais os grupos sociais, entre aqueles que
estão envolvidos e são capazes de influenciar decisões e aqueles que se sentem

privados de direitos e não são capazes de entrar realmente no circuito.

Portanto, pode valer a pena não apenas fazer um esforço para participar,

mas também procurar formas de fazer com que mais pessoas, de diferentes

grupos sociais, participem. As associações têm muitas vezes pessoas que podem

transmitir a mensagem de que a participação é encorajada. Às vezes, a ação por

uma cidade justa implica resistir à renovação urbana quando essa renovação

anula bairros e reforça a segregação.

65 http://www.gk1world.com/NewOurVision.

210 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
5. Ser o portador da tocha

Muitas pessoas agora tendem a obter notícias através das redes sociais

e de canais não-profissionais, gerando uma proliferação de visões sectárias

que veem o mundo de formas distorcidas, muitas vezes cheias de histórias

imaginárias e teorias da conspiração. Isto torna as pessoas mais crédulas e mais

vulneráveis a demagogos. Como se explica no capítulo 8, a sociedade ideal trataria

a informação mediática mais como um bem público do que como um produto

comercial, oferecendo livre acesso a notícias de boa qualidade. Ainda não estamos

num mundo ideal e, portanto, todos devem fazer um esforço para se manterem

informados de forma responsável, o que envolve contribuir para a sobrevivência

financeira do jornalismo profissional e selecionar as fontes de notícias de forma

cuidadosa, buscando, simultaneamente, evitar o controlo estatal, a influência

empresarial e as vozes sectárias. Manter-se razoavelmente bem informado é um

ato de militância.

Hoje em dia, um novo desenvolvimento surgiu com a disseminação de

novas tecnologias de informação e comunicação. As pessoas agora tornam-se

contribuidoras para os media de várias maneiras. Em particular, todas as pessoas

equipadas com um telemóvel podem ficar atentas aos eventos e gravá-los no

local a fim de reportá-los aos meios de comunicação adequados. Isto tem sido

transformador como forma de minar a impunidade de pessoas abusivas, como

polícias brutais ou violadores. O simples facto de haver uma maior possibilidade


de provas de atuações criminais em vídeo tem mudado as normas sociais. É claro

que algumas pessoas se queixam de que se trata de uma forma de vigilância do

tipo Big Brother, mas, em geral, nós, e especialmente os mais vulneráveis entre

nós, parecemos estar melhor com uma multiplicação de provas gráficas de atos

condenáveis.

Mais basicamente, e mais importante: também se pode ser inovador

escolhendo o tipo e os conteúdos da educação para si e para os seus filhos,

certificando-se de que não se limita ao preenchimento de qualificações

profissionais, mas também dota o estudante da competência cívica e cultural de

que os cidadãos responsáveis necessitam para poderem compreender como vai

o mundo e onde está o bem comum.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 211
Seja um cidadão ativo

Há uma sexta ideia que merece uma secção separada. Os movimentos sociais

têm de pressionar os governos e, em última análise, muitas mudanças têm de

ser consagradas na lei. Todas as mudanças na lei empresarial, no Estado social

e nas regras políticas que foram apresentadas nos capítulos 6, 7 e 8 requerem

implementação jurídica. Transformar a vida da comunidade e o desenho urbano

para uma maior justiça envolve a política local. E muitas das mudanças que o

leitor pode trazer à sua vida pessoal, conforme descrito na secção anterior, seriam

facilitadas com o apoio adequado dos serviços governamentais.

O papel das mulheres na família e na sociedade pode ser reforçado com a

ajuda de serviços públicos adequados de educação, cuidados de saúde, cuidados

infantis e cuidados a idosos, bem como regras para a licença parental equilibrada

em termos de género, igualdade salarial, paridade em cargos eletivos e assim

por diante. Tornar as relações de trabalho mais horizontais e democráticas seria

mais fácil com requisitos legais que eliminariam a concorrência desleal baseada

na exploração dos trabalhadores. Um melhor acesso à educação superior e

à aprendizagem ao longo da vida capacita trabalhadores e cidadãos nas suas

vidas. As transformações comunitárias podem ser fomentadas por políticas

públicas que incentivem as associações e criem mecanismos de participação. Um


melhor sistema de comunicação social exigiria uma regulamentação rigorosa em

matéria de propriedade e controlo dos meios de comunicação para preservar a

independência do jornalismo profissional da influência do Estado e das empresas.

Ser um cidadão ativo pode ajudar a realizar tais mudanças na legislação,

e em muitos países a política é, hoje em dia, realmente volátil e pode ser movida

pela ação de movimentos populares e iniciativas cidadãs. Mas existe uma grande

dificuldade. Podem ser aplicadas muitas reformas nacionalmente, mas algumas

ações exigem ou pelo menos seriam facilitadas pela coordenação internacional.

Aqui estão dois exemplos.

A política climática não pode realmente ser iniciada por um país porque

é um problema global, e a redução das emissões de gases com efeito de estufa

a nível mundial, numa escala suficiente, não pode ser alcançada por um único

212 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
país. Por conseguinte, é importante promover a cooperação internacional de

todos os intervenientes que possam dar as mãos além das fronteiras e apoiar os

esforços globais desenvolvidos pela Convenção Quadro das Nações Unidas sobre

as Alterações Climáticas. O Acordo de Paris, alcançado em 2015, é apenas um

ponto de partida imperfeito, os esforços têm de ser intensificados nas próximas

duas décadas, após as quais será demasiado tarde para implementar esforços

de mitigação de uma forma eficaz e relativamente sem custos. As probabilidades

do Acordo de Paris ser suficientemente eficaz são pequenas, infelizmente,

e o joker que poderia salvar o mundo é o progresso técnico. Se as tecnologias

verdes se tornarem suficientemente baratas com rapidez, poderão substituir os

combustíveis fósseis. No entanto, a ação pública sob a forma de investigação e

de impostos e subsídios pode acelerar a transição tecnológica. É provável que o

apoio dos cidadãos a todos esses esforços seja crucial nos próximos anos.

O outro exemplo para o qual a coordenação seria útil é o governo das

empresas. A governação democrática na economia não se tornará a regra sem

restrições legais, tal como explicado nos capítulos 6 e 8, mas os Estados nacionais

são submetidos à chantagem de empresas que ameaçam transferir operações

para o estrangeiro se as políticas não forem suficientemente favoráveis aos seus

negócios. Os salários mínimos, os impostos e a regulação da concorrência e da

governação empresarial podem ser utilizados pelas empresas como argumentos

contra a ameaça de fuga de capitais. A OCDE e a União Europeia têm vindo a


tomar em devida consideração, lentamente, mas cada vez mais, estas questões.

É importante que os trabalhadores e os empresários com espírito democrático

unam esforços ao nível global e trabalhem em conjunto para impor novas

normas de conduta. A OIT lançou uma iniciativa de trabalho digno que poderia

apoiar iniciativas nesse sentido, mas ela, por si só, é bastante impotente na

atual conjuntura. É necessário um impulso popular por parte das empresas, dos

trabalhadores, dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil.

Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 213
Seja aberto e adaptável

Como foi repetidamente salientado neste livro, não há nenhum modelo único,

nenhuma receita única para transformação. É muito importante adaptar os

princípios gerais da dignidade humana e as necessidades aos contextos e

possibilidades locais e excluir todas as formas de dogmatismo.

O que é fascinante no período atual é a transição de um mundo velho para

um mundo novo. Os partidos políticos e os sindicatos ao estilo tradicional, assim

como as cooperativas de consumo, estão em declínio. Novas formas de ação estão

em ascensão, nas quais se incluem organizações e movimentos mais fluidos, mais

capazes de comunicar e de se coordenar em grande escala, mas também menos

fixos nas estruturas institucionais e menos resistentes às flutuações de adesão e

de interesse. Os novos agentes de mudança devem ser capazes de aproveitar as

oportunidades para novas formas de ação e novas coligações de atores.

Diante deste mundo complexo, muitos analistas simplesmente

abandonam as velhas ideias e princípios da justiça social e imaginam que devem

ser abraçadas causas totalmente novas. Esse é um erro enorme. As causas das

mulheres, de trabalhadoras e trabalhadores, de grupos étnicos dominados ainda

estão connosco e devem permanecer no centro do esforço pelo progresso social,

enquanto as questões de orientação sexual e identidade de género também


merecem atenção crescente. No entanto, as perspetivas para uma sociedade

melhor são novas e envolvem novas combinações de mecanismos de mercado e

outras formas de interação e regulação social. Trabalhar para essa nova sociedade

é a tarefa empolgante da nossa geração e das gerações que vierem depois de nós.

214 Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor
Um Manifesto pelo Progresso Social: Ideias para uma sociedade melhor 215
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221
RESUMO
O “Manifesto pelo Progresso Social - Ideias para humana, sustentabilidade e justiça. Uma nova
Uma Sociedade Melhor” apresenta importantes visão baseada nos resultados de uma pesquisa
conclusões traçadas pelo International Panel colaborativa e interdisciplinar, fundamentada no
on Social Progress (IPSP), avalia os resultados mais recente estado da arte e dados científicos, os
alcançados por diversas sociedades mundiais nos autores revêm as possibilidades e desejabilidade
séculos passados e aponta tendências atuais, os das mais relevantes formas de mudança social
desafios e perigos que enfrentamos no presente e de longo prazo, explorando os desafios atuais e
traçando possíveis cenários futuros para o século sintetizando os seus conhecimentos em princípios,
XXI. A análise é multidisciplinar e cruza perspetivas possibilidade e métodos para melhorar as
relacionadas com as dimensões socioeconómica, instituições das sociedades atuais. O resultado
política e cultural do progresso social, tanto comum é a resposta de que uma sociedade melhor
ao nível global como regional, sublinhando a é, todavia, possível, os seus limites devem ser
interconexão e interação em todos os lugares do discutidos e definidos de forma alargada e todos
mundo. Resulta num discurso que cuidadosamente necessitamos juntar as forças para a realização
equilibra a diversidade de oportunidades e desta visão.
armadilhas, colocados à sociedade humana no
atual cenário económico e político, e convida a Nota Biográfica
integrar as nossas decisões, ações e interações em
novos processos participativos, para a construção O International Panel on Social Progress (IPSP)
de estratégias de mudança e uma visão mais reúne mais de 300 investigadores e académicos
clara do futuro democrático e sustentável que das vàrias áreas das ciências sociais e humanas,
desejamos. provenientes de todos os continentes. Desde 2014
Num período de incremento de sentimentos de persegue a missão de juntar saber especializado
perda de esperança, autenticidade e confiança e disseminar conhecimento sobre as perspetivas
pontuado por conflitos, retorica populista, para o progresso social no mundo, durante as
destruição ambiental, desigualdade económica próximas décadas. O IPSP constitui-se como
e quebras nos valores e nas instituições iniciativa independente através do suporte de
democráticas este livro sublinha como repensar mais de 30 instituições científicas e académicas e
e reformar as instituições pilares da nossa fundações internacionais.
sociedade: os mercados, a empresa, as políticas Sendo Amartya Sem o Presidente, junto com os
de segurança social, os processos democráticos Co-Presidentes Nancy Fraser, Ravi Kanbur e Helga
e os governos transnacionais – para criar Nowotny, o IPSP é dirigido por Olivier Bouin e Marc
sociedades melhores e mais equitativas baseadas Fleurbaey.
nos princípios chaves/centrais de dignidade

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