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A Sabedoria da Alma

ISBN 978-85-7931-045-4

Versão Eletrônica
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EDITORA E LIVRARIA SÊFER LTDA.
Produção: LCT Informática Editorial

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Esta obra está baseada no
DÁAT TEVUNOT

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Em parceria com
OR ISRAEL COLLEGE
R. Gal. Fernando Albuquerque, 1011 – Cotia – Tel.: 4612-2450
Supervisão geral e notas: Rabino Chaim Vital Passy
Tradução: Andrea Z. Diamante
Edição: Betty Rojter, David Gorodovits
Revisão: Ricardo Paulo Novais
Edição Final: Jairo Fridlin
Editoração eletrônica: Editora Sêfer
Capa: Ivo Minkovicius
Agradecimento: Ilana Fridlin

Nota:
Nesta obra, as citações da Torá foram extraídas do livro
TORÁ – A LEI MOISÉS, do Rabino Meir Matzliah Melamed (2001);
dos Salmos, do livro Salmos – com tradução e transliteração,
de David Gorodovits, Vitor Fridlin e Jairo Fridlin (1999),
ambos da Editora Sêfer.

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio,


sem a autorização expressa da Editora e Livraria Sêfer Ltda.
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A publicação desta obra é dedicada
à elevação da alma do saudoso

Haroun Salim Kindi Z”L

/v/c/m/b/,

Este trabalho é dedicado à elevação das almas


de meus queridos avós paternos

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Vital e Frida Passy

e avós maternos

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Isidoro e Renée Papoula

RCVP
Prefácio à Edição Brasileira

O assunto da constante presença Divina neste mundo é de suma importância para o


cotidiano da vida judaica, pois o cumprimento das mitsvót só atinge o seu ponto sublime se
estamos ligados a este conceito.

Da mesma forma que existem vários níveis de como se cumprir os mandamentos da Torá,
também com relação à consciência da presença Divina há vários níveis até que realmente
seja possível se sentir a presença Divina em tudo o que fazemos, desde o levantar até o
deitar.

No Shulchan Aruch, o código judaico de leis, o Rabino Moshe Isserlis, conhecido como
Remá, inicia seu comentário com este assunto, e diz:

“‘Shiviti Hashem lenegdi tamid’ – ‘E habitarei com Deus em todos os momentos da


minha vida’ – é um conceito básico da nossa Torá.”

Em geral, as pessoas buscam em suas ações o objetivo das mesmas. “Por que estou
agindo dessa forma e não de outra?” “Por que devo acender as velas de Shabat?” Ou “Por
que devo colocar os Tefilin?”, mas o principal de todos os motivos é: o que você realmente
está buscando com suas perguntas? Devemos questionar, mas devemos também aprender
a ouvir e a respeitar as respostas.

O Criador nos brindou com um alto nível de senso crítico, e isso não foi por acaso. Cada
um deve usá-lo para realmente investigar dentro do seu coração o objetivo de suas ações
e feitos.

Encontramos na Torá mandamentos que não possuem motivos racionais, como, por
exemplo, a mitsvá de Shaatnez, na qual somos ordenados a não misturar lã e linho numa
mesma trama de tecido. Mesmo nesses casos em que, aparentemente, não há um motivo,
não somos proibidos de questionar. Pelo contrário! Essa busca representa exatamente o
trabalho espiritual que cada judeu deve fazer, ou seja, de enfrentar suas questões e buscar
o entendimento pleno de cada mitsvá, sempre respeitando os limites intelectuais que a
Torá estipulou para cada uma delas.

Aparentemente, não podemos comparar a mitsvá de salvar uma vida com a mitsvá de
Shaatnez, pois salvar uma vida faz parte das nossas atribuições como ser humano e de ter
compaixão pelo próximo, algo que dificilmente é questionável. Mas saiba que até mesmo
estes valores universais também são questionáveis quando estão em conflito com os
nossos sentimentos. Por exemplo, você salvaria a vida de um assassino? Certamente não
há unanimidade na resposta.

Tudo é questionável, mesmo as coisas mais óbvias. Outro exemplo disso é o nazismo,
quando valores “inquestionáveis”, como o respeito ao ser humano, foram violados e
justificados por milhões de pessoas. Eu pergunto a mim mesmo: como pode ser que
pessoas matem pessoas?

Por isso, a importância da consciência Divina ou a consciência plena da presença do


Criador no universo é a base fundamental para que um ser humano saudável possa medir
todas as suas ações na balança da Justiça e da Verdade. A Torá revela no homem o seu
potencial maior como ser humano, como alguém que possa coexistir e respeitar o próximo
e, ao mesmo tempo, sustentar o mundo.

Esse é o motivo de todas as mitsvót: estar sempre na presença Divina, como disse o rei
David: “Em toda a minha vida pedi somente um coisa: habitar na casa de Deus!”

Suportar a dor e o sofrimento

Para tanto, o primeiro passo é ter plena consciência de que tudo vem do Criador; mesmo
um pequeno espetar de alfinete vem dos Céus. Mas, por que a dor? A dor, de acordo à
medicina, é um ótimo sinal que o corpo possui para nos avisar de que algo não está bem.
Por exemplo: alguém que sente dor de dente deve estar com alguma cárie. É graças a
essa dor que podemos tratar o problema o quanto antes. Imagine que, se as pessoas não
sentissem dor ao se cortar, talvez corressem perigo de vida num simples corte no dedo!
Aliás, existem algumas doenças que causam a perda da sensibilidade em partes do corpo,
o que gera um enorme risco de vida.

No mundo espiritual, a dor também é um bom sinal; ela nos indica que devemos prestar
atenção em algo que não está bem e que devemos verificar em nossas ações aonde
devemos melhorar. O sofrimento também pode abater alguém que está aparentemente
saudável. Por exemplo, quando alguém da nossa família está doente, mesmo que a dor
não seja no nosso corpo, compartilhamos esse sofrimento juntos. Da mesma forma, uma
pessoa justa sofre neste mundo mesmo que não tenha qualquer iniquidade em seus atos.

Devemos sempre ter a consciência Divina no momento de aperto, pois isso revela a
ligação que temos com o Criador e nos faz lembra o quanto somos frágeis. Neste
momento, suplicamos por cura e piedade, e pedimos perdão por nossos atos.

Nesta brilhante obra, o Ramchal revela, sem sombra de dúvida, sua profunda sabedoria.
Conceitos básicos sobre o judaísmo são tratados de forma concisa e, ao mesmo tempo,
profunda. O Ramchal conseguiu explicar em “Dáat Tevunot” por que um mais um é igual a
dois. Após sua leitura, você, leitor, verá o mundo por um prisma completamente renovado.
Imagine-se apreciando uma obra de arte mas entendendo realmente o que é arte! Neste
grande obra, o autor trouxe à tona a verdadeira forma de apreciar a maior de todas as
obra de arte – o nosso Universo.

“A Sabedoria da Alma” não é um livro somente de leitura, mas, sim, um livro de estudo no
qual é importante reler os conceitos algumas vezes, até que você interiorize seus
ensinamentos, pois há nele muitos conceitos da Cabalá e da filosofia judaica.

Sobre o Autor
Por ocasião da publicação do livro “O Caminho dos Justos”, o Rabino Raphael Shammah
escreveu um lindo texto sobre ele, e aqui o reproduzimos:

O Rabino Moshe Chaim Luzzatto, o “Ramchal”, assim conhecido por suas iniciais em
hebraico, foi uma das figuras mais extraordinárias da nossa história. Nascido em Pádua, na
Itália, em 1707, revelou ainda criança sua verdadeira genialidade no estudo da Torá. Aos
11 anos de idade, já dominava totalmente o Talmud e, aos 14, escreveu o livro “Leshon
Limudim”. Também muito jovem, exatamente aos 13 anos, mergulhou no estudo da Cabalá
a partir das obras do Ari ZA”L, e seu talento fez com que se tornasse um dos grandes
cabalistas de todos os tempos.

Como havia ocorrido séculos antes com Maimônides, também o Ramchal foi um dos
eruditos mais polêmicos e discutidos de sua geração. Sua extrema capacidade,
especialmente no campo do misticismo judaico, chegou a levantar desconfiança entre os
estudiosos, pois vivia-se a época posterior à dos falsos messias – Reuveni na Itália e
Shabtai Tsvi na Europa Oriental – e as desastrosas deturpações espirituais que produziram
ainda traziam à tona a profunda cautela da comunidade rabínica.

O Ramchal integrava o grupo erudito “Mevakshei Hashem”, de Pádua, que dedicava-se ao


serviço Divino e ao estudo da Cabalá. Neste ambiente estimulante, escreveu livros não só
defendendo o estudo do misticismo judaico mas, também, obras como “Adir Bamarom” e
“Dáat Tevunot”, que abordam os mistérios da Providência Divina, da salvação e dos
Meshichim.*

*A primeira edição do “Dáat Tevunot” foi publicada em Varsóvia em 5649 (1888) pelo Rabino Shmuel Luria sob o título
de “Maamar Havícuach” (Édito da Discussão). (RCVP)

A natureza inovadora e rica de seu trabalho levou outro membro do grupo a mencioná-lo,
talvez de modo algo descuidado, em uma carta enviada a um sábio de Vilna, o Rabino
Mordechai Yafe. O Rabino Moshe Haguiz, de Altuna, outro famoso sábio da época
escreveu aos sábios de Veneza, exigindo que acabassem com os “perigosos” Mevakshei
Hashem e, também, aos rabinos de Ancona, para que investigassem o Ramchal “da
cabeça aos pés”, pois havia sido informado de que ele, o Ramchal, receberia mensagens
de um Maguid (anjo) que, por sua vez, lhe revelaria segredos místicos.
As cartas fizeram com que os líderes religiosos italianos se dirigissem ao mestre do
Ramchal, o Rabino Yaacob Bassan, pedindo-lhe que limitasse as atividades de seu jovem e
brilhante discípulo. Em consequência, o Rabino Moshe Chaim Luzzatto foi obrigado a
assinar um documento permitindo que seus trabalhos fossem escondidos e
comprometendo-se a “parar de estudar com o Maguid”.

Não foi o bastante. As sanções da comunidade rabínica local contra o Ramchal


continuaram até tornarem-no objeto de um Cherem, ou carta de excomunhão. Nesta
situação dolorosa e injusta, ele deixou Pádua e seguiu para Amsterdã, esperando
encontrar um ambiente receptivo às suas ideias e ao seu trabalho. Apenas mais tarde se
tornaria claro que o alto rabinato da Itália e de alguns outros países europeus havia se
deixado tomar pelo medo frente à postura inovadora do Ramchal, e que, na verdade, era
um ilustre estudioso que viria a iluminar o caminho de gerações futuras.

Dentro do contexto religioso da época, não é impossível compreender-se as razões que


determinaram intolerância e medidas extremadas contra o Ramchal. O risco da difusão de
um misticismo pernicioso supostamente “judaico” ainda tumultuavam os meios rabínicos.
Mas, com o tempo, a verdade emergiu mais forte do que nunca, e o Ramchal foi
consagrado como um dos sábios mais importantes de todas as gerações. Seus livros são
tratados até hoje como fontes de referência no estudo da nossa Torá.

Como muitos dos líderes da nossa história, o Ramchal acalentava o sonho de morar na
Terra de Israel, para poder se aproximar ainda mais de Deus. E assim fez, indo morar na
cidade de Aco. Porém, três anos depois de sua chegada, faleceu precocemente aos 39
anos de idade, sendo enterrado na cidade de Tiberíades, ao lado do túmulo de Rabi Akiva.
(RRS)

Sobre o Título

O título desta obra em hebraico é praticamente intraduzível. Em português, optamos por “A


Sabedoria da Alma” porque ele faz referência à sabedoria que a razão (identificada com o
intelecto) elucida e evidencia para a alma (identificada com o sentimento), tornando esse
conhecimento mais consciente e revelado a ela.

Notas (identificadas com a abreviação RCVP) e subtítulos foram acrescentados nesta


edição, a fim de facilitar a leitura e o entendimento de certas passagens e, assim,
possibilitar ao leitor que acompanhasse a linha de pensamento do autor, pois o livro foi
estruturado em forma de diálogo entre a Alma (sentimento) e o Intelecto como expressão
da ideia de união entre corpo e alma no serviço Divino.

A edição em hebraico utilizada foi a do Rabino Chaim Friedlander ZT”L, sem a qual jamais
teríamos o completo entendimento desta obra. Em sua homenagem citamos um pequeno
trecho de sua introdução:

O Rabino Eliyáhu Eliezer Dessler, autor do livro “Michtav Meeliyáhu” [um resumo do mesmo
foi publicado em português sob o título “Em Busca da Verdade” pela Editora Sêfer –
RCVP], tendo verificado constarem deste livro os fundamentos da forma de pensar
caracteristicamente judaica, afirmou: “Considero seu conteúdo consistente e a
apresentação, completa em todos os seus detalhes.”

Quatro dentre os Treze Princípios da Fé Judaica são nele comentados e explicações de


cristalina clareza são apresentadas:

1 A atuação Divina regendo os acontecimentos

2 A relação entre recompensa e castigo

3 A vinda do Mashíach

4 A ressurreição dos mortos

Agradecimentos
Gostaria de expressar meus sinceros agradecimentos àqueles que colaboraram neste
trabalho. Primeiramente, ao colega Rabino Elimelech Katz, por suas felizes observações e
importantes conselhos; ao Prof. Jairo Fridlin, por seu entusiasmo em publicar mais um livro
de Torá para a comunidade de língua portuguesa; ao Rabino Raphael Shammah, Rosh
Yeshiva e diretor do Or Israel College, por seus ensinamentos e por seu exemplo de vida e
de dedicação ao povo judeu; e à minha querida esposa, Adriana, o pilar de nosso lar, pelo
apoio em todos os sentidos.

Por fim, agradeço ao Criador por ter me proporcionado a oportunidade de estudar a Torá e
trilhar este caminho. “Tov lehodot lashem” – “Como é bom louvar o Eterno!”

Rabino Chaim Vital Passy


A Sabedoria da Alma

Diálogo simbólico entre a Alma (sentimento) e o Intelecto (razão) para


compreender as ações pelas quais o Eterno rege o universo

1 ALMA: Está escrito na Torá: “E saberás hoje, e gravarás em teu coração, que o Eterno,
Ele é Deus, em cima, nos céus e embaixo, na terra; não nenhum outro.” (Deuteronômio
4:39) Sendo este um princípio fundamental da nossa fé, quero, dentro das minhas
possibilidades, alcançar sua compreensão da forma mais completa possível.

2 INTELECTO: Treze são os princípios da nossa fé. Você quer analisar todos eles?
3 ALMA: Não tenho dúvidas sobre a veracidade de qualquer um deles, mas há alguns que
não estão bastante claros para mim.

4 INTELECTO: Quais são os que lhe parecem difíceis de compreender?


5 ALMA: Deixe-me antes enumerar o que para mim está sufi-cientemente claro: a
existência de um só Deus, eterno e indefinível em termos humanos, que entregou a
Moisés, o maior de nossos profetas, nossa sagrada, eterna e imutável Torá. Entretanto,
não consigo compreender como Ele supervisiona constantemente o mundo que Ele criou;
como nossas ações provocam, em consequência delas, castigos ou recompensas; quando
ocorrerá a vinda do Mashíach (Messias) e como será possível realizar-se a ressurreição
dos mortos.

6 INTELECTO: Quais são suas dificuldades específicas?


7 ALMA: O caos que reina no mundo me faz pensar que, a princípio, não há supervisão
Divina na sucessão dos acontecimentos. Mas, se é assim, como compreender o que Ele
deseja de Suas criaturas e a que desfecho nos quer conduzir? Tão grandiosos são Seus
feitos, que o coração não consegue compreendê-los. Ensina-me o caminho certo para a
compreensão de Seus desígnios.

8 INTELECTO: Não é tão simples assim... Ocorrem fatos que, às vezes, são de
compreensão complexa e difícil. Por exemplo, por que coisas ruins acontecem às pessoas
boas e coisas boas acontecem às pessoas ruins? Mesmo grandes sábios, como nossos
profetas, e até mesmo nosso mestre Moisés não os compreenderam com clareza.

9 ALMA: Não precisa se ater a detalhes. Quero somente conhecer os princípios gerais
que me permitam alcançar uma visão correta dos acontecimentos, no âmbito de minha
limitada compreensão.

10 INTELECTO: Para ter certeza de que o Criador conduz continuamente o mundo, com
justiça e fidelidade, basta recordar a afirmação de Moisés, nosso mestre: “Ele é nossa
rocha e perfeitas são Suas obras, porque de justiça estão repletos todos os Seus
caminhos; justo e reto, fiel e sem iniquidade é nosso Deus.” (Deuteronômio 32:4)

11 ALMA: O conceito da integridade dos caminhos por Ele traçados e os objetivos por Ele
estabelecidos são os temas que desejo compreender com clareza, e é isto que eu
peço que me explique.

12 INTELECTO: Para podermos compreender qual é o objetivo de toda a Criação,


precisamos primeiro esclarecer a nós mesmos sobre a própria razão da existência do
homem e sobre as obrigações que lhe foram atribuídas em relação ao mundo.
Por que Deus nos criou?

13 ALMA: Com certeza, esse é um assunto em que precisamos nos aprofundar para
tentar alcançar, em detalhe, sua plena compreensão.

14 INTELECTO: O princípio fundamental de tudo é o desejo do Eterno de que todo ser


humano busque alcançar não somente o seu aperfeiçoamento, mas também o de tudo
que foi criado para ele. Seu sucesso nesse empreendimento será, simultaneamente, seu
mérito e sua recompensa. Seu mérito, por se dedicar ao trabalho e buscar, por meio dele,
alcançar a perfeição; e sua recompensa, porque, ao alcançá-la com o fruto de seu labor,
atingirá uma plenitude que o acompanhará por toda a eternidade (uma vez que a
recompensa espiritual é eterna).

15 ALMA: Percebo que este é um princípio que se divide em múltiplas ramificações e


estou ansiosa para ouvir mais sobre este assunto e, assim, compreender todo o seu
significado. O primeiro esclarecimento que desejo é a resposta à pergunta: Por que razão
o Eterno tem esse desejo?

16 INTELECTO: O motivo é simples e está ligado à resposta de outra pergunta crucial:


Por que Deus nos criou?

17 ALMA: Muito bem! Dê-me então uma resposta a ambas as perguntas.


18 INTELECTO: A resposta se baseia no Atributo de Misericórdia do Eterno. Como Ele é
totalmente bom, Ele, em Sua infinita bondade, deseja que haja criaturas para que lhes
possa fazer o bem, ou seja, para lhes transmitir Sua bondade, pois, se não há alguém para
recebê-la, o bem nem sequer tem existência.

Então, em Sua infinita sabedoria, Ele fez com que buscássemos tornar-nos merecedores
dessa bondade, por meio de nossos esforços. Desse modo, quem a recebe se sente
proprietário desse bem e não se envergonha de recebê-lo, como ocorre com aquele que
recebe caridade de outra pessoa, como está escrito: “Aquele que se alimenta do que não
lhe pertence tem vergonha de olhar, de frente, para a face daquele que lhe fez a caridade.”
(Talmud de Jerusalém, Orlá 1:3)
19 ALMA: Compreendi agora o motivo. Continue, agora, e complete sua explicação.
20 INTELECTO: Após essa introdução, é preciso explicar o que realmente significa um
defeito e como pode ser reparado. Devemos compreender a natureza de uma
imperfeição e as consequências dela, para que possamos nos aprimorar, aprendendo a
escolher os caminhos certos a fim de alcançar a realização de nossos objetivos neste
mundo.

21 ALMA: Creio que, primeiro, precisamos entender a natureza da perfeição que é


alcançada quando alguém completa sua tarefa. Só assim poderemos entender tudo o
que já foi mencionado, uma vez que o objetivo do homem é suprir o que falta para a
reparação de suas falhas para, assim, poder alcançar sua compleição.

22 INTELECTO: Estou de acordo, mas creio que somos capazes de entender a perfeição
apenas de uma forma geral e não em todos os seus detalhes. De qualquer forma,
mesmo que só a entendamos dessa forma geral, isso nos permitirá compreender nossos
defeitos em detalhe, pois cada um deles nada mais é do que uma falta de perfeição.

23 ALMA: Explique-me, então, o que você sabe sobre a perfeição.


24 INTELECTO: A perfeição à qual me refiro está implícita nos versículos da nossa Tora,
desde que possamos compreendê-los. Ela significa a aproximação do ser humano à
santidade do Criador, beneficiando-se de seu esplendor sem que nada o impeça desse
proveito. Aprendemos isso dos versículos: “Deleite-se, então, com o resplendor do
Criador...” (Isaías 58:14); “... em Tua Presença hão de viver os íntegros” (Salmos 140:14);
“... em Tua presença a alegria se torna plena...” (Salmos 16:11) e de muitos outros com o
mesmo sentido. Os profetas e as escrituras estão repletos de versículos como esses,
para quem os quiser ver.

Nas interpretações dos nossos sábios encontramos: “No mundo vindouro não há comida
nem bebida, somente pessoas justas, ornadas com suas coroas, usufruindo a Presença
Divina.” (Berachot 17a)

Podemos também, por meio da lógica, elaborar o seguinte raciocínio: a alma provém do
Eterno e Dele nada mais é do que uma pequena parcela. Sendo assim, sua tendência é se
reencontrar com Ele, e não há descanso para ela enquanto isso não ocorrer.

Enquanto estivermos poluídos por nossos defeitos, não poderemos compreender essa
conexão, a não ser que os consertemos e consigamos nos aprimorar. Entretanto, podemos
perceber que, da mesma forma que a perfeição leva a essa conexão com o Criador, a
imperfeição conduz ao afastamento, como se estabelecesse uma barreira entre nós e o
Criador, impedindo que possamos nos unir a Ele. Esse é o defeito do qual precisamos nos
livrar para atingir a perfeição. Neste ponto é preciso fazer uma importante observação.

25 ALMA: E qual é?
26 INTELECTO: O Criador poderia, indubitavelmente, ter feito o ser humano e toda a Sua
Criação absolutamente perfeitos, sem qualquer sombra de defeito. Na verdade, seria
de se esperar que, sendo Ele perfeito, também o seriam todos os Seus atos. Porém,
tendo Sua sabedoria decretado que deveria ser permitido ao homem buscar sua própria
perfeição, Ele o criou imperfeito. Contrariando Sua própria perfeição, Ele criou o homem
de tal forma que lhe fosse permitido trabalhar para conseguir alcançar o fim desejado por
Sua sabedoria.

27 ALMA: Sim. Tudo isso é verdadeiro, pois, sendo o Criador perfeito, nada Lhe é
impossível e não há delimitações para Ele. Compreendo que não foram limites
inalcançáveis por Ele que deram margem aos defeitos, mas, sim, o reflexo de Sua
vontade.

28 INTELECTO: Para concluir o assunto: não foi por incapacidade que o Eterno não fez
Sua Criação perfeita, mas, sim, porque foi de Seu desejo que pudéssemos, por meio
de nosso próprio esforço, desenvolver nosso aperfeiçoamento. Foi numa expressão de
Sua bondade que resolveu nos dar a possibilidade de alcançar e conquistar méritos.

29 ALMA: Muito bem. Mas como podemos nos aperfeiçoar e consertar nossos defeitos?
30 INTELECTO: Para isso, é preciso entender como encontramos forças para realizar tal
feito, uma vez que fomos criados imperfeitos. Este é um assunto muito vasto e várias
explicações precisam ser dadas antes de responder a sua pergunta. O caminho da
sabedoria indica que devemos desenvolver uma ideia após a outra, em sequência, para
adquirirmos uma compreensão do todo.

31 ALMA: Está bem. Enuncie suas explicações na sequência que você considera
adequada e escutarei com toda a paciência necessária.
A unicidade Divina

32 INTELECTO: Antes de qualquer outra coisa, precisamos compreender que, sendo o


Criador infinito, nós, como seres finitos, conseguimos perceber apenas uma faceta de
Sua perfeição e não Sua totalidade.

Criaturas como nós não podem compreender a perfeição de Seu Criador, como está
escrito: “Podes compreender o que há de mais recôndito em Deus? Podes conhecer os
propósitos do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7). Ante a plenitude do Eterno (bendito seja!), o
máximo de perfeição que pode ser alcançada pelo ser humano assemelha-se a uma gota
no oceano.

33 ALMA: Não é preciso ser sábio para compreender isso, pois está expresso nos
Salmos: “Quem encontrará palavras apropriadas para narrar Seus feitos poderosos?”
(Salmos 106:2)

34 INTELECTO: Cumpre ressaltar que, apesar de tudo que dissemos, tentando explicar
qual a função do homem na terra e como ele pode realizar seu objetivo de
aperfeiçoamento em relação ao Criador, somente Sua unicidade pode ser compreendida
por nós. Nosso intelecto é incapaz de alcançar Suas outras características.

Por exemplo: sabemos que Ele possui sabedoria, mas não compreendemos o que é essa
sabedoria; sabemos que Ele de tudo sabe, mas não podemos conceber o que isso
significa, conforme se expressaram nossos sábios: “Você é sábio, mas não alcança o
significado da sabedoria; tem compreensão, mas ela é limitada.” (Tefilat Eliáhu, Ticunê
Zôhar, segunda introdução) Nem sequer devemos tentar nos aprofundar nesses assuntos,
pois nos foi dito: “Não busque o que te foi oculto e não queiras saber o que de ti foi
escondido.” (Chaguigá 13a)

Porém, o fato de existir um só Deus nos foi revelado de tal forma que temos uma
compreensão bastante clara de Sua unicidade. Entretanto, essa compreensão não é o
suficiente. Precisamos que esse conceito esteja enraizado de tal forma em nosso coração
que nenhuma dúvida sobre isso aflore em nossa mente. Foi isso que Moisés, nosso
mestre, nos ordenou, transmitindo as palavras que ouviu do próprio Criador: “E saberás
hoje e considerarás em teu coração, que o Eterno, Ele é Deus, em cima nos Céus e
embaixo, na terra; não há nenhum outro.” (Deuteronômio 4:39) Essas palavras nos
mostram de forma incontestável que todos os acontecimentos que ocorrem no mundo
testemunham que o Eterno é um. Isso é reafirmado também em Deuteronômio 32:39:
“Vede, agora, pelo castigo que inflijo, que Eu rebaixo e Eu exalto, e não há outro Deus
além de Mim!” Esse versículo se segue após uma série de profecias que constam do
Cântico de Haazínu, pronunciado por Moisés em sua mensagem de despedida, antes de
seu falecimento.

Também em Isaías encontramos as seguintes palavras do Eterno ao nosso povo: “Vós sois
as Minhas testemunhas – diz o Eterno – Meus servos a quem escolhi, para que possais
saber, acreditar e compreender que Eu sou o Eterno. Nenhum deus havia antes de Mim e
nenhum haverá depois. Somente Eu sou o Eterno, e outro salvador não existe, além de
Mim.” (Isaías 43:10-11) Mais adiante, no capítulo 44, versículo 6, encontramos: “Assim
disse o Eterno, o Rei de Israel e seu redentor, o Eterno dos Exércitos: Eu sou o primeiro e
Eu sou o último, e não existe Deus além de Mim!” E no capítulo 45, a partir do versículo 6,
encontramos: “Para que todos, do leste e do oeste, soubessem que nada há além de Mim;
Eu, somente, sou o Eterno, e nenhum outro existe. Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu
faço a paz e sou Eu quem cria o mal; Eu sou o Eterno que tudo faz.”

A expressão “para que todos... soubessem” quer dizer “para que todos entendessem”, pois
é Seu desejo que saibamos isso com pleno entendimento e perfeita lógica. Todo o sucesso
prometido ao povo de Israel objetiva esclarecer, aos olhos de todos, a unicidade de Deus.
Isso foi lembrado e relembrado vezes sem conta nas palavras dos nossos profetas (de
abençoada memória): “E neste dia somente o Eterno será exaltado.” (Isaías 2:11); “E o
Eterno será Rei sobre toda a terra; naquele dia, o Eterno será um e Seu Nome, um.”
(Zacarias 14:9); “Farei então com que os povos voltem a conhecer uma língua pura, com a
qual todos possam invocar (do mesmo modo) o Nome do Eterno, para servi-Lo com seus
sentimentos unidos.” (Sofonias 3:9)

Testemunhamos isso todos os dias ao recitar a prece Shemá Israel: “Escuta, Israel! O
Eterno é nosso Deus, o Eterno é um só!” (Deuteronômio 6:4) Vimos que toda a revelação
da essência Divina possui por objetivo demonstrar Sua unicidade e que toda a Criação gira
em torno dessa verdade.

Agora precisamos entender essa unicidade e qual é a sua finalidade. É isto que está
escrito em Deuteronômio 4:39: “... consi-derarás em teu coração, que o Eterno, Ele é
Deus...” Essas palavras indicam que, se considerarmos – ou melhor, ponderarmos –, em
nosso coração, conseguiremos alcançar um entendimento preciso desse tema. Como eu já
lhe havia dito, há um mar de conhecimentos a ser considerado, onde devemos navegar
com toda nossa alma.

35 ALMA: Que tipo de entendimento ainda nos falta, se já sabemos que a unicidade
significa que o Criador certamente é único e não existe nenhum outro? O que poderia
haver a mais para estudar sobre isso?
Existem outras forças?

36 INTELECTO: Concordo que parece muito simples, mas este conceito é geral e
abrangente e é necessário que o assunto seja aprofundado. E é isso exatamente o
que foi dito em Deuteronômio 4:35: “A ti foi mostrado, para que soubesses que o Eterno –
Ele é o Deus, e não há outro além Dele”, como foi explicado por nossos sábios (San’hedrin
67b), ao afirmarem que, mesmo em se tratando de feitiçarias, não há outra entidade que
as permita serem realizadas. Ou seja, quando dissemos que Deus é o único, não basta
entender que a Sua existência é única e que nada há que se Lhe possa assemelhar;
precisamos entender mais, que não há outra força nem outro poder, pois somente Ele
detém e é a origem de toda força e de todo o poder que existe no mundo. A não ser Ele,
não há outro condutor para este mundo. Também não há para Ele nenhum impedimento ou
proibição, pois Seu controle é supremo e único.

São muitos os versículos das escrituras que afirmam isso. Eis alguns exemplos: a segunda
parte de um versículo que já citamos (Deuteronômio 32:39) assim proclama: “Vede agora
que (...) Eu faço morrer e faço viver; Eu firo e Eu saro, e não há quem possa livrar de
Minha mão os que pecam contra Mim.” No Livro de Jó 23:13, encontramos o seguinte:
“Mas como ninguém a Ele se pode igualar, quem poderia dissuadi-Lo?”; e mais adiante
lemos: “... Quem Lhe poderia perguntar: – ‘O que estás a fazer?’” (ibid. 9:12)

Para o entendimento desse conceito, o fundamental é a exclusão de certos pensamentos


negativos que penetraram no coração dos seres humanos, sejam eles idólatras, pessoas
simples, povos diversos e, até mesmo, alguns judeus.

Existem vários tipos de idólatras. O primeiro deles acha que os assuntos simples deste
mundo não são do conhecimento do Criador, uma vez que Ele não exerce supervisão sobre
tais pequenos acontecimentos. Para eles, existem “ministros encarregados”, situados
abaixo de Sua hierarquia, como os astros e as estrelas, cujos poderes supervisionam os
assuntos mundanos. Eis porque o “serviço religioso” idólatra é a eles direcionado, fazendo
sacrifícios em seus altares para influenciá-los em seu benefício.

O segundo tipo afirma (Deus nos livre!) que há dois poderes, um bom e um mau, e que, se
Deus é a fonte do bem, há outra entidade que é a fonte do mal. Seria, a partir dessas duas
fontes, que adviriam todas as ações que ocorrem neste mundo, sendo algumas
direcionadas para o bem e outras, para o mal, conforme está escrito: “Metade do mundo é
elevada e representa o bem, e metade é má e representa o mal.” (San’hedrin 103b)

Um terceiro grupo, do qual faz parte grande parcela da sociedade em geral, pensa que
todos os acontecimentos ocorrem segundo as leis da natureza que o Criador inseriu neste
mundo. Eles pensam que o esforço e a dedicação do ser humano se constituem nos meios
ativos para o seu funcionamento e que a preguiça e o descaso são os fatores que o
impedem, conforme está escrito (Deuteronômio 8:17): “E quiçá dirás em teu coração: ‘a
minha força e o poder da minha mão me conseguiram estes bens.’” Afirmam, também, que
tudo depende da sorte e do acaso, e que é a natureza que governa tanto para o bem
quanto para o mal.

Um quarto grupo é composto por não-judeus que afirmam: “O povo de Israel pecou e, em
consequência disso, sua salvação não é mais assegurada permanentemente – Deus nos
livre! –, pois foram esquecidos pelo Eterno.” Alegam que o povo de Israel foi escolhido
pelo Criador, o Qual lhes concedeu o livre-arbítrio, para que escolhessem entre serem
justos ou ímpios, mas, como optaram pelo caminho do mal, afastaram de si a Presença
Divina, que não mais os beneficiaria, como está escrito: “Ignoraste o Forte que te gerou...”
(Deuteronômio 32:18). Ante isto, segundo este grupo, Ele se viu obrigado a abandonar
este povo e trocá-lo por outro – Deus nos livre! –, pois não há mais como salvá-lo. Esta
seria a explicação para seu prolongado exílio, que atormenta o coração daquele que não
confia completamente no Criador.

Um quinto grupo é constituído pelos ímpios do povo de Israel – aqueles que reconhecem o
Eterno, mas se revoltaram contra Ele, como foi dito em San’hedrin 103b: “Nada mais
quero a não ser enervá-Lo”, e também em Isaías 3:8: “... e suas ações estão voltadas
contra o Eterno...”, pois eles pensam que podem agir contra o Criador – Deus nos livre!
Eles querem enervá-Lo com seus atos maldosos, como aquele que implica com o próximo
somente para deixá-lo nervoso. Outros, ainda, O renegam e se voltam para a feitiçaria;
outros pretendem buscar conhecimentos de anjos e de outras entidades espirituais,
conforme consta no Midrash Echá Rabá: “Invocando os anjos Eu cercarei Jerusalém com
uma muralha de água; Eu cercarei Jerusalém com uma muralha de fogo.”
Aquele que acredita e compreende o conceito da unicidade Divina deve crer, com toda a
força de seu coração e de sua mente, que o Criador é único e exclusivo, não havendo
quem O impeça de fazer algo ou O restrinja sob qualquer aspecto. Este sabe que somente
Ele governa toda a Criação e nem lhe ocorre pensar que possa existir alguma entidade que
seja Seu inimigo ou aja em oposição às Suas determinações – Deus nos livre! Somente Ele
cria o bem e o mal, conforme está escrito em Isaías 45:7: “Eu formo a luz e crio a
escuridão; faço a paz e sou Eu quem cria o mal; Eu sou o Eterno que tudo faz.”

Não há outro como Seu auxiliar, abaixo Dele, nem quem O represente como governador do
mundo. Tampouco existe uma segunda força, conforme pensam os idólatras. Não só Ele,
sozinho, supervisiona todas as criaturas, como realiza essa supervisão de forma contínua e
especial, não havendo nada no mundo que nasça ou exista sem ser por Sua vontade. A
Criação não depende do acaso, da natureza nem da sorte. Somente Ele é o Juiz de toda a
terra e de tudo que nela há; é Ele quem determina o que vai acontecer com todas as
criaturas, das mais elevadas até as mais elementares.

A base de Sua unicidade é o fato de Seu governo não depender de pressões e cobranças;
todas as leis e estatutos dependem somente de Sua vontade, embora Ele mesmo não
esteja subordinado às Suas próprias leis, a não ser que esta seja a Sua vontade.

Quando Ele assim deseja, “subjuga” – como se assim fosse – Sua vontade ao
comportamento dos homens, atendendo a seus desejos, conforme aprendemos em Avót
3:19: “... e tudo está de acordo com a maioria dos atos”. Quando assim deseja, Ele não
julga por um ato específico e, em Sua bondade, beneficia a quem Ele deseja, conforme foi
revelado a Moisés, de abençoada memória: “E Eu serei misericordioso para com quem Eu
desejar, e Me compadecerei quando Me quiser compadecer” (mesmo para com alguém
que não pareça merecê-lo) (Berachot 7a e Êxodo 33:19); e “Se pecaste, o que fizeste
contra Ele? E se muitas foram as suas transgressões, que dano Lhe causaste?” (Jó 35:6)

Também em Jeremias 50:20 encontramos: “... buscarão a iniquidade em Israel, mas ela
não estará lá, e os pecados de Judá, mas não serão encontrados, porque perdoarei aos
que Eu permitir sobreviver”. E em Isaías 48:11: “Por Mim mesmo, sim, por Mim mesmo o
farei (conterei Minha ira), pois como poderia profanar Meu Nome?”; e em 43:25: “Eu, por
Minha graça, apago agora os teus pecados, e deles não Me lembrarei.”; e em Zacarias
3:9 encontramos: “... e farei, de súbito, desaparecer a iniquidade desta terra.”

O Criador não está obrigado a esperar por nossos méritos para então nos recompensar,
ou esperar por nossos pecados para então nos aplicar um castigo (Deus nos livre!), mas
somente por Sua vontade faz o que bem deseja, sendo tudo isso em prol da revelação de
Sua unicidade.

Devemos compreender e acreditar firmemente que, não dependendo o Criador dos atos de
quem quer que seja, nenhuma criatura poderá efetivamente se revoltar contra Ele, mesmo
que para isto se utilize das leis ou ordens que Ele instituiu, pois, como Ele é seu Autor,
pode anulá-las de acordo com a Sua vontade, conforme está explícito em San’hedrin 67b:
“Não há ninguém além Dele, mesmo nas feitiçarias que malévolos praticam.” (Ou seja, não
há uma entidade que dá força à feitiçaria.)

O Criador pode, se assim o desejar, anular todas as regras e influenciar os astros, ao


contrário do que pensam bruxos e feiticeiras, que se acham capazes de utilizar suas
magias contra a vontade do Eterno. Suas afirmações e crenças não passam de mentiras
inúteis, pois somente Ele é o Criador e não há outras forças além Dele.

É de Sua vontade que a revelação de Sua unicidade esteja presente em todos os fatos e
acontecimentos que ocorrem no mundo, e este é o fundamento comum presente em todas
as regras que ele Criou para reger o planeta. As faltas e defeitos humanos, a consequente
busca de aperfeiçoamento e melhoria de seus atos, e o recebimento de recompensa e
castigo – estas são as bases da revelação da unicidade Divina que a fazem acontecer de
forma exclusiva e coerente.

37 ALMA: Quero entender bem esse conceito: como é que tudo o que você falou reflete a
revelação da unicidade Divina? Como se faz essa ligação?

38 INTELECTO: É fundamental entender que o mal que se encontra na Criação está


presente nos defeitos que os homens têm e nas faltas por eles cometidas. Por meio
de um raciocínio lógico, observamos que a essência do Criador é somente o bem e,
portanto, não haveria motivo para criar o ser humano com faltas e defeitos.
Como já falamos, o motivo é que, exatamente por meio de seus esforços para melhorar, o
homem adquire méritos para receber recompensas, demonstrando com isso a bondade
Divina, sempre presente. Mas, de qualquer forma, aparentemente, essas faltas
representam o mal, ou seja, a não-revelação plena do Criador no ser humano.

Quando dizemos que Deus é único, entendemos que não há outra entidade além Dele, mas
que existem obstáculos para a Sua revelação completa, o que acontecerá somente com o
aperfeiçoamento do homem e a melhoria de seus atos. Ao aperfeiçoar-se, ele
automaticamente afasta esses obstáculos e libera a emanação Divina para o mundo e para
si próprio.

Somente para lembrar: isso não se passa dessa forma porque o Criador pode ser
impedido de algo, pois Ele não se encontra subjugado a nenhuma força, mas, sim, porque
Ele estabeleceu que o homem deve ser um sócio em Sua revelação, para que o bem seja
plenamente revelado (inclusive sem essa regra) por meio da participação na criação e no
aperfeiçoamento do mundo, do qual encarregou o ser humano.

Realmente, caso o Criador desejasse revelar todo o Seu poder do bem, não haveria
espaço para o mal. Mas foi a Sua vontade de revelar a unicidade que originou a existência
da força do mal, para que haja um contrapeso e o Seu bem possa vencer. Sem o seu
inverso, não haveria a revelação do bem de forma plena, pois é por meio do oposto que
revelamos os contrastes e compreendemos o todo. Por exemplo, sem a existência da
escuridão não há sentido para a luz, pois não haveria o que iluminar. Da mesma forma,
Deus criou o mal para que o bem possa se revelar de forma clara e perceptível ao ser
humano.

39 ALMA: Está claro que, para um pleno entendimento, é necessário o discernimento


entre os opostos sob todos os aspectos. E, apesar de não ser da natureza da mente
humana compreender a Inteligência Suprema, devemos falar sobre ela em termos
passíveis de serem por nós compreendidos.

40 INTELECTO: Vou lhe expor mais alguns detalhes sobre esse tema. Na verdade, o
Criador poderia ter criado o mundo da maneira que quisesse, sem explicação ou
qualquer forma de lógica passível de ser compreendida pelo ser humano. Se assim fosse,
seria impossível ao homem reclamar de Seus feitos, pois lhe seria impossível entender o
que aconteceu, já que não alcança o entendimento da Vontade Suprema. Mas, já que foi
da vontade do Criador que pudéssemos entender um pouco de Seus caminhos e feitos e,
mais ainda, foi vontade Dele que nos esforçássemos e buscássemos esse entendimento,
Ele fez com que os acontecimentos ocorressem, aparentemente, de acordo com a lei
natural dos fatos, ou seja, numa ordem que indica à compreensão humana uma relação de
causa e efeito, ações e reações.

Foi de Sua vontade que o funcionamento deste universo fosse estabelecido em relação às
suas criaturas, e não em relação a Ele mesmo, dando margem a que pudéssemos refletir
sobre o universo e sua criação, compreendendo, pelo menos, uma fração do que ele é e
como foi formado. A prova disso é a descrição da Criação que consta no Livro de Gênesis,
pois ela testemunha que Ele criou este universo por etapas, em determinado tempo, na
ordem que Ele decidiu, e não de uma só vez, ou em um único comando, como, de fato, Ele
poderia ter feito. Cabe a nós buscar a compreensão de Seus feitos e motivos e as
consequências daí decorrentes sobre toda a Criação, em seus mínimos detalhes.

Retornemos agora ao nosso assunto, a unicidade de Deus. Quando dizemos que Ele é
único, queremos dizer que Ele governa sobre tudo e sobre todos. Descobrimos que Sua
perfeição não é passível de limites, o que nos faz entender que não há outro como Ele e
nem contra Ele e, conforme já esclarecemos, tudo isso faz parte de Sua unicidade.

Há duas coisas que devemos aprender desta introdução: a primeira é que não há nenhum
outro tipo de força superior ou oposta à Sua plenitude. A segunda é que Sua força é
suprema e todas as outras são derivadas e dependentes de Sua existência e de Seu poder
únicos. Já mostramos também que tudo na Criação ocorre para a demonstração de Sua
unicidade, Sua Plenitude e Sua Perfeição. Entretanto, é importante salientar que o Criador
fez com que a revelação de Sua perfeição ao homem fosse feita em sociedade com o
próprio homem, ao fazê-lo um ser imperfeito em busca de aperfeiçoamento, para que
pudesse daí receber sua recompensa e, automaticamente, perceber a revelação da
perfeição Divina por meio da emanação de Seu bem e da compreensão de Seu governo
sobre tudo que há neste mundo, fazendo-nos ver que somos dependentes Dele, pois,
somente por meio das faltas que percebemos, temos a revelação do que é completo.
Mas isso ainda não é a revelação completa de Sua unicidade, pois somente quando o mal
(as faltas) não existir mais e a imperfeição for anulada pelo poder de Sua perfeição é que
toda a Sua unicidade será totalmente revelada.

Aprendemos daí que o defeito atribuído ao ser humano é algo provisório e que precisa ser
consertado. Para isso ele precisará buscar trilhar múltiplos caminhos, para que o bem
venha a prevalecer eternamente. Compreendemos agora que a falha surge somente pela
ausência da Presença Divina, que não desejou revelar-Se às Suas criaturas desde o
princípio de Sua existência. Inicialmente, Ela não quis que fossem perfeitos e, por isto,
escondeu Sua face e nos deixou incompletos. A luz da face do Rei é a vida e a sua
ocultação é a raiz do mal. Voltaremos a falar sobre isto mais adiante.

Todavia, já que o Eterno, embora oculto no princípio, não tem a intenção de que este
estado perdure para sempre, mas, sim, que Ele se revele posteriormente, eliminando todo
o mal que surgiu por causa de Sua ocultação, Ele criou para este propósito leis e
mandamentos que revelam o Seu semblante escondido. Isto se torna possível por meio de
nossos atos meritórios, ou por meio do cumprimento das mitsvót (mandamentos, boas
ações) e de tudo que nos ordena a Torá – a verdadeira Torá, aquela que o homem, ao
obedecê-la, alcança a vida eterna.

O conceito de que a recompensa de uma mitsvá é a própria mitsvá significa que, por seu
cumprimento, revelamos automaticamente a Presença Divina, anteriormente oculta ao
homem. Esse trabalho é bastante árduo, pois o mau instinto nos impede, ou pelo menos
dificulta, realizá-lo. Muitas são as nossas faltas e grande é o afastamento da luz pela qual
ansiamos, mas o cumprimento das mitsvót nos revela essa luz escondida – a luz da vida.

Vemos, então, que o mal é provisório e que a revelação Divina é, no final das contas, o
propósito de todo esse mal. Em relação aos ímpios, a revelação Divina acontece somente
após receberem suas penas, pois elas os redimirão de seus pecados (apagando suas
faltas) e os despertarão para o arrependimento.

O fato de o Criador Se ocultar para que possamos buscar a Sua revelação faz com que
haja o livre-arbítrio, pois é na ocultação do Divino que podemos enxergar o bem, quando
aplicamos na íntegra o nosso livre-arbítrio e optamos pela revelação Divina por meio de
nossos bons atos ou do recebimento do castigo. Na época do Mashíach, esse livre-arbítrio
não existirá mais, pois a revelação Divina estará completa e não mais existirá essa
ocultação, deixando-nos totalmente iluminados pela luz da verdade.

Quanto mais o Criador for ocultado por causa do aparente controle do mal sobre a terra,
no futuro, na era messiânica, Sua revelação será mais forte, como se fechássemos uma
luz dentro de um quarto totalmente escuro: quanto mais escuro, maior a revelação da luz.
Aprendemos daqui que toda a escuridão da nossa diáspora é, em última análise, benéfica,
no sentido de que, no futuro, haverá uma revelação ainda maior da luz Divina. De dentro
das profundezas do sofrimento e da escuridão brotará a salvação com ainda mais força,
ao contrário do que imaginamos, ou seja, de que a diáspora enfraquece a revelação Divina.
De qualquer forma, se o homem conseguisse revelar a unicidade Divina apenas pela
prática de atos meritórios, seria muito melhor. Caso o homem enxergasse com clareza que
é o caminho do mal que causa a ocultação da luz Divina e o abandonasse, não haveria
necessidade do sofrimento na diáspora e seria evitado o crescimento do mal.

Caso Adão (Adam Harishon) tivesse reagido contra a tentação da serpente, em relação à
árvore da Shechiná, o mal teria sido anulado e a unicidade de Deus teria sido totalmente
revelada em um só momento. Caso o mundo tivesse sido criado somente com o lado do
bem, não haveria nenhuma forma de imaginar sequer o que é o mal, e entenderíamos com
clareza o que é o conceito de um Deus único, como já explicamos anteriormente. Mas, já
que o mal foi criado, podemos imaginar e reconhecer, pelo contraste, o bem por meio do
mal.

Adão já enxergava o mal, pois existia no jardim do Éden a Árvore da Sabedoria do Bem e
do Mal, da qual o Criador o proibiu de tirar proveito, mas que ele enxergava e desejava,
conforme está escrito em Gênesis 3:6: “E viu a mulher...” Sua percepção da árvore abria
espaço para o erro e a transgressão – Deus nos livre! –, ao compreender que havia,
perante ele, duas opções: obedecer à vontade de Deus ou dar ouvidos a todo tipo de
argumentos que lhe foram apresentados pela serpente. Adão era um homem muito sábio e
deveria ter usado sua sabedoria para se aprofundar mais sobre esse tema, pois ele tinha
pleno conhecimento de que tudo que se opusesse ao consentimento do Criador não
passava de aparência e falsidade, das quais se deveria afastar. Isso seria apenas a
expressão de uma regra geral, pois, como já vimos anteriormente, o mal é um meio de
revelação do Criador para testar o homem e lhe proporcionar méritos.

Se ele tivesse se mantido firme em sua fé e não tivesse se deixado seduzir pelo Iêtser
Hará (má inclinação), teria alcançado a unicidade Divina (ligação com o Criador) em seu
mais alto nível. O Criador faria então, em um dia, o que precisou fazer ao longo de 6.000
anos, e o mal seria anulado naquele momento de toda a face da terra. Mas Adão se
deixou seduzir, sucumbindo ao desejo que lhe foi provocado, usando argumentos errôneos
para se justificar. Conforme disseram nossos sábios: “O homem encontra justificativas
(errôneas) para lhe permitir coisas proibidas.” (San’hedrin 63b) Após o pecado, Adão quis
justificar o seu erro por meio de diversos argumentos, e foi necessário mostra-lhe o mal
que havia feito ao ignorar a razão.

O mundo hoje funciona dessa forma: por meio da sabedoria seria possível alcançar a visão
do verdadeiro bem e da unicidade do Criador de uma só vez, mas, na realidade, torna-se
necessário compreender sinais e estabelecer comparações para alcançar e esclarecer
esta visão.

Concluímos do que foi dito que, tendo sido a vontade do Eterno que este fosse o caminho,
foi dada às criaturas da terra a oportunidade de melhorar sua conduta até alcançar a
verdadeira perfeição. O Criador, ao ocultar Seu semblante, abriu espaço para que
ocorressem “faltas e imperfeições” e, a partir daí, a oportunidade de se trabalhar para o
aperfeiçoamento das condutas humanas, para que, por meio delas, o mundo pudesse ser
consertado. Resultará daí a recompensa verdadeira por todo esforço despendido, como
afirmaram nossos sábios: “Façamos hoje o nosso trabalho e amanhã receberemos a nossa
recompensa.” (Eruvin 22a)

41 ALMA: Resuma, por favor, o que foi dito, pois o assunto é muito extenso.
42 INTELECTO: O conceito é simples e não será difícil compreendê-lo. Foi da vontade
Divina que Sua unicidade fosse claramente revelada quando não houvesse
manifestação contra a Sua vontade. Sobre isso se fundamenta o universo e sobre esse
princípio se baseiam suas diretrizes.
43 ALMA: Eu ainda tenho uma dúvida. Por que afirmamos que tudo está baseado neste
princípio da unicidade Divina? Não é suficiente a explicação que escutei de sua boca
no início da nossa conversa, de que foi da vontade Divina ser benevolente com Suas
criaturas, e que, para que não sentissem estar recebendo sua recompensa por caridade,
estabeleceu o conceito de “Recompensa e Castigo”, para que houvesse merecimento e
livre-arbítrio para a aplicação de tal regra?

44 INTELECTO: A unicidade será revelada de qualquer forma, mesmo quando o livre-


arbítrio for anulado. Isso comprova que o motivo principal da criação do mal são o
esclarecimento e a revelação da unicidade Divina, e que o livre-arbítrio é, portanto,
secundário.

Nossos profetas nos garantiram que Deus redimirá o povo de Israel de qualquer forma,
mesmo que não tenha méritos, retirando a sua inclinação para o mal e obrigando-o a servi-
Lo. Isso contaria o conceito de recompensa, castigo e livre-arbítrio. Se a intenção Divina
fosse que o livre-arbítrio (com o conceito de Recompensa e Castigo) se constituísse na
base fundamental de nosso planeta, não deveria ocorrer sua anulação ou interrupção, pois
deveriam ser constantes no mundo. Entretanto, está escrito que o mal será exterminado no
final dos dias: “O pecado será exterminado da face da terra.” (Berachot 10)

Percebemos daí que esse conceito é um meio e não um objetivo por si só. O que Deus fez
foi unificar esses dois conceitos – o livre-arbítrio e a unicidade Divina – para que o homem
buscasse o seu Ticun (transformação num ser mais perfeito e completo) de forma
merecedora, mas sem colocar seu livre-arbítrio como um fim por si só, e, sim, utilizando-o
como instrumento para alcançar a revelação Divina somente por meio do bem.

Até o momento nos concentramos nos conceitos gerais. Precisamos agora ser mais
específicos. Dissemos que o mundo está fundamentado na revelação do Santíssimo
(Hacadosh baruch hu) e que, em relação a ela, existem duas eras: a primeira, enquanto
Ele está oculto, vindo a Se revelar posteriormente, e a segunda, após a revelação. Em
cada época devemos entender aonde precisamos chegar e o que devemos alcançar, tanto
na de Sua ocultação quanto na de Sua revelação. Precisamos entender também a ligação
entre elas, já que iremos passar pelas duas épocas, sabendo que haverá também um
momento de transição entre elas.
Comecemos analisando a primeira era, procurando entender, em detalhe, o que significa
Sua ocultação e quais são as condutas Divinas neste período. Precisamos esclarecer
como deve ser nosso labor e tudo que daí deriva para consertar nossos erros e reparar
nossas falhas. Antes, porém, é necessário apresentar uma introdução fundamental e
imprescindível.

45 ALMA: E qual é?
46 INTELECTO: Existem algumas formas de revelação Divina no mundo, tais como:
piedade, misericórdia, força etc. que ocorrem em um nível passível de ser
compreendido pelo ser humano, mas não somos capazes de alcançar e compreender
plenamente as características da Essência Divina. Entender o Criador é algo impossível e
inalcançável, como é afirmado em Chaguigá 13a: “Sobre o Criador, não tente inquirir sobre
o que te foi ocultado (...) não te dedique a mistérios.” Tudo o que chegamos a
compreender sobre o Criador não se aproxima sequer de Sua essência real, pois, como
afirma Isaías (40:25): “A quem, pois, Me podereis comparar – diz o Eterno?”

Todas as formas de revelação Divina estão baseadas na bondade com que Ele decidiu
criar este mundo e, para que tivéssemos alguma relação e entendimento com Ele, foram-
nos mostradas essas características das quais já falamos: bondade, misericórdia, justiça
etc. É importante ressaltar que Ele, de forma alguma, é submisso a essas características,
podendo mudá-las ou transcendê-las conforme a Sua vontade. Mesmo que estudemos
toda a Torá, não teremos sabedoria e conhecimento suficientes para vislumbrar Seu
pensamento e Sua vontade ou compreender Suas ações, pois não se enquadram e não
têm correspondência nas características do pensamento, vontade e ações do ser humano.

47 ALMA: Realmente, é impossível não se deixar perturbar por dúvidas quanto à Criação
e aos acontecimentos a ela conectados, a não ser que reconheçamos a existência de
uma Causa Superior, uma Providência exaltada e onipotente. Sem esse reconhecimento,
não há respostas para a maior parte dos questionamentos sobre esse assunto.
Olam haze e Olam habá

48 INTELECTO: O primeiro dos dois períodos mencionados e no qual estamos vivendo


agora é o da ocultação de Sua unicidade. Como já dissemos, dentro de Sua perfeição,
o Eterno poderia ter realizado todos os atos da Criação de forma perfeita, sem a
existência de qualquer parcela negativa e sem que nada dependesse de aperfeiçoamento.
Entretanto, foi de Sua vontade realizá-la com faltas e defeitos, de modo a proporcionar
recompensa aos que, com seu livre-arbítrio, escolhessem o caminho do bem, e punição
reparadora aos que seguissem o caminho do mal. Ou seja, Ele estabeleceu o sistema de
recompensa e castigo para que o mal, que Ele resolveu criar, viesse a ser anulado.

As forças do bem e do mal estão equilibradas para que, sem impedimento, o ser humano
possa fazer sua escolha. Dessa forma, todas as coisas ruins que acontecem são
decorrentes dessa liberdade de escolha que o Criador colocou neste mundo. No futuro
(olam habá), porém, todo o mal será extirpado, conforme afirmam nossos profetas:
“Desaparecerão totalmente os ídolos” (Isaías 1:18); “Farei com que se retire daqui... o
espírito de impureza...” (Zacarias 13:2); “Afastará a morte para sempre (...)” (Isaías 25:8);
“Não causarão dano e nada destruirão...” (Isaías 11:9 e 65:25)

Sobre a existência atual do bem e do mal, foi dito em Berachot 33b: “Tudo vem dos Céus,
exceto o temor aos Céus.” Ou seja, o Criador não impede o homem, caso este seja seu
desejo, de agir de maneira negativa. O mundo foi organizado para ser assim durante o
período de ocultação de Sua unicidade. Isto só é possível porque Seus atos de pura
bondade também estão ocultos, pois, caso se expressassem de maneira totalmente
revelada, o mal seria eliminado e toda a maldade deixaria de existir, restando apenas o
bem e o resultado alcançado com o pleno aperfeiçoamento, conforme ocorrerá no futuro
(olam habá).

Deveríamos saber que, mesmo agora, apesar de Ele ter ocultado Sua bondade e ter
contido do conhecimento de Suas criaturas toda a extensão de Sua perfeição, não há
dúvida de que Ele as supervisiona; pois de onde derivariam constituição, existência e
continuidade das criaturas se não de Sua providência? Sendo assim, Ele seguramente
exerce Sua providência. Atualmente, entretanto, se comparada ao que ela seria caso Ele
desejasse exercê-la em proporção à Sua perfeição,* Sua providência se assemelha a uma
sombra comparada com um homem, ou a uma leve impressão deixada pela escrita em um
pergaminho depois que foram apagadas as letras que nele estavam escritas. Essa
providência é chamada de “escuridão e não luz” quando comparada à providência perfeita
que se manifestaria caso Ele a exercesse de uma forma que correspondesse à Sua
perfeição.

* Ou seja, a presença Divina neste mundo é considerada oculta quando comparada à do mundo vindouro, onde é
completamente revelada. É como se quiséssemos comparar a claridade do Sol com a da Terra. (RCVP)

Até onde nos interessa, entretanto, isto é tudo de que necessitamos, pois é exclusivamente
em virtude dessa providência que nós vivemos e perduramos. Quando falamos dessa
providência, que tem vigência durante o período da ocultação do semblante de bondade do
Santíssimo, consideramos que, em sua totalidade, ela é apenas a sombra da força do
Todo-Poderoso e nada mais, embora, quando a analisamos em detalhe, encontramos nela
todos os mandamentos e leis que distinguimos em Suas diretrizes. Tudo isso é
insignificante em relação ao poder supremo que se manifestaria se Deus agisse de acordo
com Sua perfeição, como já expliquei.

Entretanto, uma vez que a intenção é a revelação da unicidade, e não seu encobrimento –
como já explicamos, essa ocultação é somente um meio para chegar à revelação final –,
ainda que Ele tenha encoberto Seu semblante para originar esse princípio do bem e do
mal, Ele, mesmo assim, por meio da qualidade de Sua bondade e dentro do contexto de
Sua soberania, lança uma projeção para entretecer a resultante desse princípio com a
Perfeição Universal.

Isso é auto-evidente, já tendo sido explicado que Deus dará fim à escuridão que permite e
permitiu a existência do bem e do mal durante esses seis mil anos, e que Ele já decretou
isso desde o começo da Criação, de modo que virá a acontecer que Sua unicidade
permanecerá revelada e a bondade do mundo será fixada por toda a eternidade. A cada
dia que passa, então, o mundo se encontra mais e mais próximo da perfeição. Mais ainda:
o Criador, no cerne de Seu plano, cria contingências e conduz continuamente os eventos
para trazer o mundo a essa perfeição, conforme nos relatam as escrituras: “Ó Eterno,
quanto fizeste! Desígnios e atos plenos de maravilhas a nós dedicastes, de tal forma que
ninguém a Ti se pode comparar.” (Salmos 40:6); “Ó Eterno, és meu Deus e eu Te exaltarei
e bendirei Teu nome, pois realizaste maravilhas; Teus conselhos são sempre fieis e
verdadeiros.” (Isaías 25:1); “... e Deus não favorecerá ninguém para não lhe tirar a vida,
mas, sim, cogitará pensamentos para que não se desligue Dele o Seu desterrado.” (2
Samuel 14:14)

Pois certamente não é a intenção do Santíssimo manter por muito tempo o princípio do
bem e do mal e, então, de repente, abandoná-lo e fazer valer o princípio da soberania e
unicidade, como um homem que se arrepende e volta atrás do que fez. Ele planeja e dirige
os eventos, em Sua profunda sabedoria, para que nós alcancemos este fim – a revelação
da unicidade do Santíssimo – por meio da própria aplicação do princípio do bem e do mal.
Mais adiante, voltaremos a esse assunto.

Percebemos, então, que o Criador mantém em vigor, por enquanto, esses dois princípios
que Ele estabeleceu quando moldou as fundações da Terra. O primeiro, o princípio da
recompensa e punição, que estabelece um estado de equilíbrio entre o bem e o mal, para
que possa ser atribuído mérito ou sentenciada a culpa, conforme o comportamento
escolhido pelo homem por meio de seu livre-arbítrio. Esse princípio é chamado de
“princípio da justiça”, pois é por meio dele que o Santíssimo sentencia no julgamento sobre
todos os homens, de acordo com seus feitos, bons ou maus. Desse julgamento emerge
Sua bondade, pois, de acordo com Sua perfeição, conduz Suas criaturas a um
aperfeiçoamento contínuo. De acordo com o princípio de recompensa e punição, o
Santíssimo faz com que Suas ações dependam (em nossa forma de falar), como se assim
fosse, das ações dos homens, de modo que, se eles são bons, Ele lhes responde com o
bem, e se forem maus, Ele será compelido (como se assim fosse) a puni-los.

É isto o que sugere o trecho dos Salmos (68:35) que se segue: “Reconhecei e honrai o
poder do Eterno, que está na altura dos céus, e cuja majestade se derrama sobre Israel,
Seu povo.” No sentido contrário, temos em Deuteronômio (32:18): “Ignoraste o Forte que
te gerou e esqueceste a Deus, que te fez sair do ventre materno.” Conforme explicaram
nossos sábios em Echa Rabá 1:33: “Quando Israel faz a vontade do Eterno, isso adiciona
força ao poder superior, e quando não fazem a vontade do Eterno, isso enfraquece o
poder superior.” (Deus não permita!)
Quanto ao futuro, as escrituras afirmam em Zacarias 3:9: “... diz o Eterno dos Exércitos –
e farei, de súbito, desaparecer a iniquidade desta terra”. E em Jeremias 50:20 consta:
“Neste tempo, naqueles dias – diz o Eterno – buscarão a iniquidade em Israel, mas ela não
estará lá, e os pecados de Judá, mas não serão encontrados, porque perdoarei aos que
Eu permitir sobreviver.”

Segundo o princípio do bem e do mal, “os julgamentos do Eterno são verdadeiros”, para
recompensar o homem de acordo com os seus caminhos, medida por medida. O Eterno
tem várias maneiras de recompensá-lo de acordo com os seus feitos e “os caminhos do
homem a ele retornarão”, seja para o bem, seja para o mal. No encaminhamento derivado
de Sua bondade, o final comum de ambos – do bem e do mal –, é evoluir para o bem
perfeito, à Perfeição Universal e definitiva.

É a esse respeito que as escrituras afirmam em Malaquias 3:6: “Porque Eu, o Eterno, não
mudei” (referindo-se a Seu padrão de julgamento). E no Midrash de Rabi Shimon bar
Iochai (Zôhar, Ki Tetsê 281) está escrito: “Eu não mudei em nenhum lugar.” Entretanto, é o
princípio de Recompensa e Punição que é revelado e constantemente percebido por todos;
o processo pelo qual tudo se resolve para o bem é mais complexo e não é destinado a se
tornar aparente até o final – mas o processo está, seguramente, em curso a cada
momento e não cessa.

Está claro, então, que o Criador ocultou Sua perfeição (como se a limitasse) quando, ao
dar vida às suas criações, as fez imperfeitas e incompletas como manifestação da
escuridão que provém de Sua ocultação, que provê o balanço entre o bem e o mal e
permite a existência de pecados, blasfêmias, aberrações e vícios. A despeito disso,
entretanto, Ele, em Sua infinita bondade, projetou para as Suas criaturas uma perfeição
final, completa e universal, em direção à qual o mundo caminha a cada dia e para a qual
Ele direciona concomitantemente o bem e o mal, para resultar em uma perfeição completa
na unicidade da soberania do Santíssimo.

49 ALMA: Por favor, resuma o que você disse até agora.


50 INTELECTO: O Santíssimo empregou dois princípios em Sua condução do mundo; um
é o princípio da ordem da justiça, e o outro, o da soberania e do reinado Divino único.
O princípio da justiça é este do bem e do mal, no qual residem todos os aspectos da
ocorrência de boa sorte ou da calamidade, com todas as suas consequências. A fonte
desse princípio é o encobrimento do semblante de Sua bondade e a ocultação de Sua
perfeição.

O princípio do reinado único é o da perfeição de todas as criaturas por meio do poder do


Santíssimo, ainda que não o mereçam por mérito próprio. É o princípio que opera
secretamente dentro de todos os mecanismos da justiça em si, para tornar tudo perfeito.
Sua fonte é a bondade intrínseca do Santíssimo que, apesar de oculta, não deixa de nos
direcionar para o bem. O princípio da justiça é revelado e manifesto; o do reinado único é
escondido e oculto.

51 ALMA: Eu ainda necessito de esclarecimentos sobre esse princípio do reinado Divino


que você mencionou, pois eu não entendo bem o funcionamento da perfeição
intrínseca do Santíssimo, pois você afirmou que a verdadeira perfeição não é apreensível.
Perfeição Divina

52 INTELECTO: Bem colocado. Vou esclarecer mais esse assunto. A perfeição intrínseca
do Eterno situa-se totalmente além de nossa capacidade de compreensão. Ela é a
verdadeira perfeição, que é completamente desconhecida por nós devido à sua natureza
exaltada e elevada em nível muito acima dos assuntos concernentes a todas as Suas
criaturas. Como Ele desejou guiar Suas criaturas, Ele estabeleceu modos de conduta,
adaptados ao nível de Sua criação, mas, de nenhuma forma, representativos de Sua
essência pura que está acima de nossa compreensão.

Mesmo nesses atos adaptados ao nível de Suas criações, Ele não fez tudo o que poderia
ter feito, mas, pelo contrário, restringiu (por assim dizer) Sua bondade. Mesmo desejando
guiar suas criaturas e a elas Se revelar, não em Seu nível mas no que lhes corresponde,
Ele poderia ter feito isso em perfeição, sem que se apresentassem defeitos, como de fato
virá a ser no futuro. Mas Ele Se limitou (se é que podemos falar dessa forma) e desejou
conferir imperfeições às Suas criações, e assim o fez.

Entretanto, não foi de Seu desejo deixar Seu mundo permanente-mente sujeito a essa
contínua oscilação entre o bem e o mal, mas foi a deliberação de Sua grande bondade
estabelecer uma ordem e um esquema para canalizar todas as coisas, de dentro do
princípio do bem e do mal para a Perfeição Universal à qual estas são suscetíveis. É da
natureza de Sua perfeição assegurar a perfeição final de Seus atos, e não a permanência
desses em um estado de imperfeição.

Entretanto, isso não representa, de forma alguma, a verdadeira perfeição de Seus atos de
acordo com a Sua essência inapreensível, pois tal pureza não está a nosso nível de
alcance em nenhuma circunstância. Mas, conforme já afirmei, em qualquer evento, mesmo
que fosse Seu desejo agir somente de acordo com o nível de Suas criaturas, é da natureza
de Sua perfeição agir com perfeição. Daí provém o esquema complexo, do qual já falei,
que conduz tudo em direção à Perfeição Universal.

Conforme mencionamos, na contenção de Sua piedade (se assim podemos falar), Ele não
age de acordo à Sua perfeição, de modo que Suas criaturas sejam perfeitas desde o
começo, mas para que possuam falhas e pratiquem desvios desde sua formação, embora
Seu final será fazê-las atingir a perfeição por meio de Sua grande bondade, conforme já
explicamos. Se Ele permitisse ao princípio da justiça prevalecer para toda eternidade, o
homem nunca alcançaria um estado de perfeição, pois sempre existiriam os corretos e os
malvados, o bem e o mal, a bênção e a maldição. Entretanto, mesmo sendo esta a
situação desde o princípio, ela não permanecerá assim por todo o sempre. É por essa
razão que o princípio da justiça é manifestado e o da Perfeição Universal, oculta, e Suas
obras destinados a permanecerem escondidos até a realização da perfeição final de toda
existência.
Oculto e Revelado

53 ALMA: Compreendo agora que a ordem da Perfeição Universal provém da natureza de


Sua bondade e em Sua vontade de agir conosco somente de acordo com o nosso
nível, e não de acordo com o Seu.

54 INTELECTO: Devo agora lhe explicar algo mais específico a esse respeito: há duas
dimensões a serem consideradas em todos os relacionamentos entre o Criador e Suas
criaturas: a revelada e a oculta.

A revelada é a dimensão referente a recompensa e punição; a oculta é o esquema


complexo e profundo, sempre inerente a todos os Seus feitos, para guiar a Criação em
direção à Perfeição Universal.

Não há ação pequena ou grande cujo objetivo final não seja a Perfeição Universal,
conforme afirmam nossos sábios em Berachot 60b: “Tudo o que é feito pelo firmamento é
para o bem”, e pelo profeta Isaías (12:1): “... E dirás naquele dia: Agradecer-Te-ei, ó
Eterno, pois embora estivesses zangado comigo, desvaneceu-se Tua ira e me
confortaste.”

Após a vinda do Mashíach, o Santíssimo tornará conhecidos Seus caminhos diante de


Israel todo, mostrando como mesmo punições e tribulações eram precursores do bem e,
na verdade, preparações para bênçãos.* Pois o Santíssimo deseja somente a perfeição de
Suas criaturas, não repelindo categoricamente os malvados. Pelo contrário, ele os refina
no crisol da perfeição para livrá-los de qualquer impureza. Essa intenção caracteriza cada
ato que o Santíssimo faz para nós, seja bom ou mau, conforme explicamos.

* A pós o falecimento, todos passarão por um julgamento no qual o Criador mostrará o motivo de tudo o que aconteceu
na vida de cada pessoa na Terra, e assim ficará claro o julgamento Divino. (RCVP)

Você deve saber que cada ato de Deus é excepcional, infinita-mente amplo e profundo,
conforme as escrituras afirmam nos Salmos (92:6): “Quão magníficos são as Tuas obras,
ó Eterno!” O menor de seus atos contém uma sabedoria de tamanha vastidão e
profundidade que sua intensidade jamais poderá ser medida, conforme finaliza o mesmo
versículo: “... e quão profundos são os Teus desígnios!” Os atos do Eterno são totalmente
incompreensíveis para nós.* Neles percebemos somente sua camada superficial, sendo
seu verdadeiro cerne oculto. Esse cerne é comum a todos os Seus atos, no sentido de que
são bons e nenhum resquício de mal há neles. Isto é algo que certamente não pode ser
visto e entendido agora; mas após a vinda do Mashíach, conseguiremos perceber que tudo
provém do complexo, perfeito e profundo esquema do Santíssimo para nos beneficiar mais
tarde.

* É como explicar o funcionamento de um carro para uma criança. Talvez ela tenha uma percepção, mas certamente
não entenderá todos os conceitos que regem a engenharia do automóvel. (RCVP)

Mas não devemos imaginar, devido a isso, que não devamos reconhecer, mesmo sem
compreender, a vasta sabedoria inerente a esses atos. Pois tudo aquilo cuja compreensão
podemos alcançar em relação aos atos do Criador assemelha-se, em sua proporção, a
uma gota na vastidão do oceano. Saibamos, então, que o Criador, em Seu desejo de
projetar Sua bondade sobre Suas criaturas, conforme já mencionamos, fez com que todos
os acontecimentos provenientes do princípio de Recompensa e Punição não nos sejam
completamente revelados agora, mas que o serão após a vinda do Mashíach, conforme
está escrito em Isaías (35:5) “E abrir-se-ão os olhos do cego e desobstruir-se-ão os
ouvidos do surdo”, em referência à compreensão de Seus atos, pois, assim que nossos
olhos se iluminarem com a luz do conhecimento, nós perceberemos o conceito que os
envolve. Entretanto, esses atos contêm algo que é parte da sabedoria mais profunda e que
não pode, de maneira alguma, ser reconhecido ou compreendido a partir da natureza dos
atos em si, uma vez que estão envolvidos pela sabedoria superior, que não é reconhecida
nem mesmo pelas consequências dela decorrentes. As dimensões dessa sabedoria interior
são nada mais que aspectos da projeção da bondade do Santíssimo em nós – mas
sempre em nosso nível, e não no Dele, conforme já explicamos.

55 ALMA: Por favor, resuma essa ideia também.


56 INTELECTO: Em suma, a perfeição do Santíssimo é absolutamente impenetrável em
si, mas em Seu desejo de manifestar Sua bondade, pelo menos em relação aos atos
que estão em nosso nível, Ele planejou esquemas e sistemas de leis que resultariam em
plenitude e perfeição para toda a Criação. É este o elemento oculto em todas as Suas
ações e o denominador comum de todas elas. E quanto a esse elemento oculto, uma
módica exposição dele será revelada e reconhecida, das próprias ações em si, quando o
Criador decidir abrir nossos olhos. Entretanto, a maior parte desse elemento continuará
elevada e exaltada e totalmente imperceptível, devido à extrema profundidade da
sabedoria do Criador.

Neste ponto você deveria saber que o princípio que pode ser totalmente atribuído ao
Criador é o da perfeição, pois Ele é perfeito e sempre age em perfeição. Tendo planejado
e estabelecido leis e ordens relacionadas à Criação, de acordo com o princípio do bem e
do mal, os efeitos dessas leis e ordens devem ser considerados como provindos Dele, em
acordo com o que nelas foi determinado. Enquanto o princípio do bem e do mal perdurar,
os atos que emanarem desse princípio são derivados da operação da própria perfeição,
pois, em última análise, a fonte de tudo é Sua perfeição.

Mesmo o que é feito de acordo com o bem e o mal faz parte de um ciclo, em que há um
retorno ao ponto da perfeição, mas enquanto a unicidade está oculta, tudo deve seguir
esse curso. Assim, é da perfeição em si que esses atos irão derivar, pois é da vontade e
sabedoria Divinas que eles emanem da fonte da perfeição enquanto a unicidade está
oculta.

Isso constitui uma terceira dimensão a ser discriminada em cada uma das manifestações
do Criador: a da proveniência dos resultados dessa manifestação em relação à operação
da perfeição em si. Essa dimensão é um estágio intermediário (por assim dizer) entre a
perfeição e a manifestação e varia em cada manifestação, de acordo com sua natureza,
sendo ativada pela perfeição, de acordo com seu caráter particular. Também nesse estágio
intermediário é necessário discriminar sua natureza intrínseca e sua maneira de execução,
conforme será explicado.

Além disso, devemos perceber que tudo depende exclusivamente da vontade do Criador,
não havendo nem existência, nem constituição e nem continuidade, a não ser em virtude do
desejo do Criador, que reina em infinita onipotência, como está afirmado nos Salmos
(33:9): “Pois Ele falou e cumpriu; ordenou e assim se fez.” Assim, a força da vontade do
Criador é reconhecida em tudo, pois é Ele que, sozinho, tudo mantém, em seus aspectos,
divisões e detalhes, da mesma forma como é Ele que mantém todas as criações com suas
características e tudo que lhes é pertinente, não tendo elas, nem nada sobre elas,
existência além Dele.

57 ALMA: Em relação a isso não tenho nenhuma dúvida, pois me parece óbvio.
58 INTELECTO: Eu explicarei em mais detalhes e você entenderá mais profundamente,
como o ditado de nossos sábios que consta de Bereshit Rabá 68:9: “Ele é o lugar do
mundo, mas o mundo não é Seu lugar.”

Não há existência que não seja a do Criador, e nada além Dele tem existência a não ser
por meio de Sua vontade e dela dependendo exclusivamente. Toda a existência é,
consequentemente, considerada dependente da palavra do Criador, conforme está dito
sobre as águas superiores no Tratado Taanit 10 a. Em relação a isso, nossos sábios
afirmam em Chaguigá 12b: “Sobre o que a Terra repousa? Sobre os pilares (...) e o vento
repousa nos braços do Criador.” E no Ialcut Shimoni 1:964 consta: “Carne e sangue estão
sob sua responsabilidade, mas o Criador – bendito seja! – está acima de tudo, conforme
está escrito em Deuteronômio (33:27): ‘O Deus imemorial escolheu os céus para Sua
Morada, tendo por baixo os braços dos poderosos do mundo.’” Deus é caracterizado como
aquele que sustenta toda a existência em todos os seus detalhes, a partir de uma posição
superior.

O resumo de tudo é, como já falei, que, como toda existência originada pelo Criador não
Lhe é necessária, ela é sustentada somente em virtude do fato de Sua vontade o desejar.
Entende bem o fato de que somente Sua vontade e Seus decretos formam o lugar de tudo
o que existe; sem eles, nenhum lugar existiria. Assim, o Santíssimo é certamente
primordial, mas a Criação não o é (em oposição ao que dizem os hereges, que afirmam
que, já que Ele é primordial, o mundo também o é), pois enquanto Ele não desejou e
decretou, não havia lugar para a existência de quaisquer criações. Ao contrário da
existência do Santíssimo, elas não têm lugar, pois não são similares a nada que esteja
enraizado na natureza do homem. Somente Ele necessariamente existe, e nada mais além
Dele. Somente por Sua vontade e determinação as criações têm lugar (e de nenhuma
outra forma) e são providos lugares para todas as Suas edificações subsequentes.*

* Mesmo que o Universo não fosse criado, D’us existiria sem que a sua perfeição fosse afetada. (RCVP) É preciso
entender que, apesar de sabermos que o Criador se alegra com todos os Seus feitos e é por eles glorificado,
conforme consta dos Salmos (104:31) – “Perpétua é a glória do Eterno! Possa Ele sempre Se alegrar com o que
criou” –, não devemos pensar que antes de Suas criações virem a existir Lhe faltavam glória e júbilo (Deus nos livre!).
Conforme dissemos, na existência intrínseca do Eterno não há lugar para as criações, e elas não Lhe são
necessárias. Mas, como elas foram de Seu desejo, devido a esse desejo elas Lhe são (por assim dizer) fonte de júbilo
e honra. É Sua vontade que lhes fornece existência, e é considerado como incompleto se sua existência não é efetiva.
Sua vontade é análoga ao terreno de uma construção, que é considerado vago até que surja o prédio projetado.

Não somente as criaturas, mas também todos os princípios, leis e formas de providência
que já mencionamos – que são adaptados ao nosso nível e não ao Dele – nenhum
significado têm, se não por Seu desejo de que existam. Assim, é somente em
conformidade com esse desejo que Ele os trouxe à existência, e eles não Lhe são em nada
necessários, mas também se encontram dentro das “construções projetadas para
preencher o terreno”, pois são todos necessários para cumprir Sua vontade. Creio que isso
está claro e já dissemos o suficiente sobre esse assunto.

59 ALMA: Minha mente está completamente à vontade. Eu gostaria agora de entender a


ideia da existência do homem, um assunto que sinto que deve ser bem entendido, pois
tudo gira em torno dele e é sobre ele que recai o dever do serviço Divino.

60 INTELECTO: Você fala corretamente. O homem é o final de todas as ações do


Santíssimo. Assim, somente aquele que entende isso corretamente pode compreender
a essência do que o precede, pois tudo é direcionado para esse fim.

61 ALMA: Também aqui há muito a perguntar...


62 INTELECTO: Devemos considerar três coisas: a existência do homem, suas ações e
os frutos de suas ações.

63 ALMA: Sendo assim, há ainda mais para perguntar.


64 INTELECTO: Por essa razão, mencionaremos somente as ideias principais e
deixaremos sua elaboração para o entendimento dos sábios.

65 ALMA: Prossiga.
66 INTELECTO: Devemos, neste ponto, considerar a ideia da ressurreição, na qual
acreditamos plenamente.
67 ALMA: Esse é um dos assuntos sobre o qual lhe pedi explicação, para que eu possa
compreender bem.
Ressurreição e Recompensa

68 INTELECTO: De maneira geral, a ideia da ressurreição é bem simples. Em vista do


fato de que o Criador criou o homem com corpo e alma para que, juntos, possam
realizar todo o serviço sagrado – cumprir a Torá e as mitsvót (mandamentos) que lhes
foram dados –, parece lógico que também recebam juntos a recompensa eterna, pois seria
inaceitável que o trabalho do corpo não fosse revertido em seu benefício, e o Criador não
nega a recompensa de nenhuma criatura (Bava Cama 38b). O que requer uma reflexão
são os detalhes dessa união de corpo e alma – sobre sua junção, separação e a
subsequente reunificação completa. Porque o Eterno lida assim com todos os homens, e
certamente não é um assunto vão. Esses detalhes demandam explicação – uma explicação
ampla e adequada.

69 ALMA: Isso certamente precisa ser bem explicado. Por que Deus criou o homem
como uma única entidade e o fez uma composição de duas criações? Certamente não
Lhe faltava capacidade para criar o homem como um ser vivo distinto, sem essa dupla
característica de corpo e alma. Acredito que compreender isso serviria como uma
introdução para o conhecimento dos demais detalhes.

70 INTELECTO: A intenção superior, conforme você já escutou, é somente conceder o


bem ao homem – ou seja, permitir que ele mereça recompensa por seus feitos ao se
aperfeiçoar e completar Sua Criação. Isso está incluído na ideia de defeito e perfeição que
mencionamos acima. Deus fez este corpo rústico de matéria obscura e imprópria (devido à
sua natureza baixa) para receber o brilho da luz da santidade do Eterno, pois somente o
que é completo em perfeição é adequado para se aproximar do portão do Rei e
permanecer em Seu santuário. É essa obscuridade que foi enraizada na natureza deste
corpo, que o investe com toda a luxúria maléfica que o rodeia e o torna vulnerável a todos
os acontecimentos maus que recaem sobre ele.

Em contraposição a isso, Ele fez a alma pura e retirada de sob o trono da glória; trouxe-a
para a terra e a introduziu neste corpo, para purificá-lo e santificá-lo. E o que devemos
compreender é que a intenção final dessa introdução da alma no corpo não é a de vitalizá-
lo para esta vida de futilidades; seu objetivo principal é refiná-lo completamente, elevá-lo
das profundezas da escuridão, do abismo terreno para a estação mais elevada – para o
nível dos anjos celestiais.

Isso, de fato, ocorreu com nosso mestre Moisés, de abençoada memória, que tanto
refinou e melhorou sua materialidade, que realmente alcançou o nível de um anjo, de modo
que Israel todo pôde ver como brilhava sua face. Enoque (Chanoch) e Elias (Eliyáhu)
ascenderam aos céus em seus corpos após terem refinado extensamente sua
materialidade. O meio pelo qual a alma é capaz de purificar o corpo é o cumprimento das
mitsvót e a observância da Torá, pois “a mitsvá é uma vela e a Torá, sua luz”. E quanto
mais Torá e mitsvót a alma adquire, maior refinamento ela alcança para o corpo e mais
méritos para si, ao cumprir a vontade de Seu Criador.

71 ALMA: Descobrimos então o benefício que há no aperfeiçoamento do corpo por mérito


da alma, mas não o benefício que possa haver no aperfeiçoamento da alma.

72 INTELECTO: Com a ajuda de Deus falaremos mais sobre isso, mas vamos agora
completar a exposição do nosso assunto.

Esse refinamento é a atividade principal da alma neste mundo; outras considerações


devem ser tecidas sobre o que lhe ocorre depois (mais apropriadamente discutidas em
outro local). Sobre este assunto foi dito no Zôhar (1:115): “Rabi Chia disse: ‘Venha e veja
que, enquanto o corpo reside neste mundo, falta-lhe perfeição. Se este é correto, tendo
trilhado o caminho da retidão e falecido em sua integridade, é chamado ‘Sara’ em sua
perfeição (e a alma, de Abrahão).’” * E este é o fruto de toda a sua retidão: o aumento da
glória do Santíssimo por meio do aperfeiçoamento de suas criações, tendo Deus criado
tudo para Sua glória.

* Em Gênesis 23:1, a Torá nos relata que os anos de vida de Sara foram 127. O Rashi comenta que os 100 eram
como os 20 em relação ao pecado, e os 20, como os 7 em relação à beleza. O Maharal de Praga, ao comentar este
Rashi, pergunta: Como a Torá pôde elogiar a beleza, se lemos em Provérbios 31:30 que “Sheker hachen vehével
haiofi” (“Passageira é a graça e vã a formosura”)? O Maharal explica que o versículo do Gênesis refere-se à perfeição
de Sara, tanto física quanto espiritual. (RCVP)

Mas o pecado – o pecado de Adão – compeliu toda a Criação a beber do cálice da morte.
Não há alternativa para isso. E é por esse motivo que a alma não é capaz de realizar esse
refinamento completo a não ser após o falecimento, em que a morte serve de purificação
do próprio corpo. Isso explica o fenômeno daqueles homens justos que morreram “por
meio do conselho da serpente”, conforme disseram nossos sábios (Bava Batra 17a) sobre
o fato de só terem sido capazes de atingir a perfeição, mesmo com a abundância de seus
atos corretos, após a morte. Mas, depois que o corpo tiver retornado à terra de onde se
levantou e tiver se purgado completamente da ilicitude com a qual a serpente infectou Eva,
ele será reconstituído e a alma irá descender ao corpo com toda a força de seus atos
virtuosos e o esplendor do brilho do qual ela gozava no Éden, e iluminará o corpo com uma
grande luz, que o purificará completamente e o curará de todo o mal ao qual se tornou
vulnerável no princípio.

Isto está explicado no Midrash Haneelam, Vaierá: “Nossos sábios disseram: A alma,
enquanto no Éden, é alimentada pela luz celestial e veste-se nela; após a vinda do
Mashíach, quando ela entrar novamente no corpo, ela estará com essa mesma luz.” E
(ibid. 116a): “O Santíssimo guarda este corpo no solo até que decai e é purgado de toda a
sua ilicitude.” Sabemos agora que o serviço Divino do ser humano e o recebimento de sua
recompensa giram em torno de dois períodos que compõem toda a sua existência. Por
ora, neste mundo, o corpo é rústico, escuro e defeituoso, e a alma deve enchê-lo com luz
e santidade, para refiná-lo e iluminá-lo. O complemento desse processo conduz ao período
em que ambos (o corpo e a alma) se apresentam para a recompensa eterna.

O que devemos entender agora é o grau de energia investida na alma para permanecer
neste corpo. Pois se sua energia fosse muito grande e sua iluminação, extremamente
intensa, ela inundaria o corpo com tanto esplendor que o corpo passaria por uma
transfiguração sublime, seus defeitos dando lugar à perfeição num instante, e a inclinação
para o mal – a principal ferramenta de imperfeição, ensejada pelo Criador com o objetivo
do exercício do livre-arbítrio e da recompensa e punição – não teria nenhuma influência
sobre o homem, da mesma forma que não influencia os anjos, devido à sua grande
luminosidade, à perfeição de seus conhecimentos e sua natureza exaltada.

Assim será, pois assim está escrito em Isaías 11:9 sobre como será o mundo após a vinda
do Mashíach: “Não haverá mal nem corrupção em Meu sagrado Monte, pois a terra estará
repleta de conhecimento do Eterno, assim como as águas cobrem a extensão do oceano.”
E a respeito dessa mesma época encontramos em Ezequiel 36:26: “Dar-vos-ei também um
novo coração, e vos infundirei um novo espírito, e tirarei de vós o coração de pedra e vos
darei um coração de carne” – tudo isso sob a luz da magnitude da alma, que será ainda
mais exaltada nessa época. Por outro lado, se a alma, em sua essência, não fosse tão
elevada, não seria capaz de sustentar a magnitude e grandiosidade que a aguardam após
a vinda do Mashíach, excedendo aquela dos anjos celestiais.

A verdade é que a alma, em sua essência e origem, é exaltada em magnitude; mas, ao dar
vida a um corpo, o Criador – abençoado seja! – diminui sua luz e energia, deixando
somente o que é apropriado para o corpo neste mundo. Nesse ponto ela pode ser
comparada à lua, sobre a qual foi dito (Chulin 60b): “Vá e se diminua” – enquanto em
relação à era após a vinda do Mashíach foi dito em Isaías 30:26: “Parecerá a luz da lua
como a do sol.” Está no poder da alma, de acordo com a perfeição de seus atos,
ascender mais e mais, até alcançar sua altura suprema. Mas, devido à diminuição de sua
magnitude para que fique adequada a este mundo, ela permanece abrigada e confinada na
simplicidade do corpo durante todos os seus dias na terra, para ser provada e testada
pelas tentativas da má inclinação.

De fato, foi com esse objetivo que a má inclinação foi incutida no homem, conforme
disseram nossos sábios no Zôhar I:106b: “A má inclinação foi criada somente com o
objetivo de tentar o homem.” E, de acordo com a qualidade de seus feitos, a alma merece
a honra de ascender nível após nível. Assim, na época da recompensa, todas as almas
trarão consigo os méritos decorrentes de seus atos e subirão de nível de acordo com eles.
É neste plano que elas retornam e refinam seus corpos na época da ressurreição – após a
qual elas irão regozijar-se eternamente em uma fartura de perfeição, conforme explicamos
acima.

Em suma, as almas em si devem originar-se em magnitude e devem derivar de uma fonte


excelsa e nobre para serem aptas a toda glória que lhes é reservada após a vinda do
Mashíach. Entretanto, sua elevação é diminuída antes que venha a recompensa final, pois
o Santíssimo definiu – “Vá e se diminua” – para que possas entrar neste corpo vil, nele
permanecer por todos os dias de sua vaidade e se elevar gradualmente, obedecendo ao
que prescrevi na Torá, para observar e cuidar. Estas são as coisas pertinentes à alma
enquanto neste corpo.
Entretanto, porque sua força foi enfraquecida e sua luz diminuída por essa redução, o
corpo permanece vil, como o é hoje, apesar de a alma estar contida nele. Mas, de acordo
com a retidão de seus atos, a alma será julgada após a vinda do Mashíach, subindo na
escada de níveis, de modo que, quando ela retornar ao corpo pela segunda vez, com essa
nova luz, ela o afetará de modo como não pode fazê-lo hoje: proporcionar-lhe-á um
completo refinamento, provocando sua transformação num ser glorioso e resplandecente,
conforme já explicamos.

Se, no começo, para entrar no corpo, ela diminuiu sua luz, na segunda vez, pelo contrário,
ela deverá vir com toda a sua luz, de modo que o refinamento possa ser completo. E há
um benefício para a própria alma por aperfeiçoar o corpo – elevar-se mais e mais,
adicionar força à força e glória à glória. E, além disso, mesmo quando está neste mundo,
dentro do corpo, ela alcança ascensão e enobrecimento de acordo com seus feitos. Não
há comparação entre a alma de um homem que se ocupou com o estudo de Torá e o
cumprimento das mitsvót, e alcançou conhecimento da glória de seu Criador, e uma alma
isenta de tudo isso. Mas sua ascensão não chega a permitir que a alma mude o corpo a
ponto de esse refinamento ser aparente, exceto para alguns seres humanos privilegiados,
os poucos escolhidos de Deus, tal como Moisés, nosso mestre de abençoada memória,
Enoque e Elias. Quanto aos demais, entretanto, apesar de se enobrecerem por meio de
seus atos, esse fenômeno não ocorre de maneira a ser evidenciado pelo corpo. Mas “o
bem não será retirado de seus proprietários” após a vinda do Mashíach – cada um de
acordo com suas ações.*

* Assim, fica claro qual é o benefício da alma quando ela se aperfeiçoa. Veja o parágrafo 71. (RCVP)

73 ALMA: Por favor, resuma o que você disse.


74 INTELECTO: Esta é a ideia: o corpo é obscuro e rústico, mas alcança refinamento
por meio da alma. A fonte da alma é sublime, mas a alma se diminui ao entrar no
corpo, para não saturá-lo com refinamento em um único momento e alterá-lo do que foi
criado para ser. Entretanto, aos pouquinhos, por meio de atos virtuosos, a alma realiza o
reparo necessário ao corpo e, depois, o que alcança ascensão proporcional e elevação de
seus atos, aumentando proporcionalmente sua energia a cada ato, até que o corpo esteja
qualificado a se apresentar junto da alma para aproveitar o prazer de Deus e permanecer
em Seu santuário por toda a eternidade.

75 ALMA: A respeito da ressurreição e recompensa futura, consegui compreender o que,


para mim, é o suficiente. Devemos agora terminar os outros assuntos que
começamos.

76 INTELECTO: Agora que já sabemos sobre a essência e natureza do homem – tanto


em termos de sua alma quanto de seu corpo, e em relação a diferentes épocas e à
ordem dos tempos estabelecida para ele –, devemos entender como o Eterno Se relaciona
com ele em todas essas épocas, tanto em relação a seu corpo como à sua alma.

77 ALMA: Seria bom fazer isso segundo certa ordem. Tudo deve ser entendido em seus
vários aspectos em relação a diferentes épocas e circunstâncias. Agora, por favor,
termine sua explicação.
A revelação do Criador neste mundo

78 INTELECTO: Existem entidades espirituais e materiais. Você já sabe da grande


diferença entre elas e que as materiais são, obviamente, inferiores às espirituais, cuja
natureza é nobre e sublime. Você também já sabe do esplendor das espirituais e da
obscuridade e imperfeição das materiais. Temos então diante de nós dois tipos diferentes
de criações: uma criação de grande iluminação e ampla projeção e outra, de pouca
iluminação e projeção limitada.

Em relação a esses dois modos – o da criação iluminada e o da criação não-iluminada –,


sabemos que o primeiro procede de Sua bondade e a segunda, da ausência de Sua
bondade. Você observará que todo o conjunto do que é espiritual está envolto em
santidade, enquanto o que é material é mundano, inferior e desprezível.

A soma do trabalho do homem sob o sol não é nada mais que futilidade, e a superioridade
do homem sobre os animais é diminuta. Comer, beber e se engajar em negócios – tudo
isso é inferior e insignificante.* Em resumo, todos esses aspectos da matéria e natureza
são obscuros e não-iluminados. Eles são resultantes da ocultação do semblante do
Santíssimo neste mundo e da falta do resplendor de Sua santidade, levando o homem a
um vazio não-planejado nesses caminhos inferiores. Mas, em relação ao espiritual, o
caminho é iluminado pela luz do semblante Divino, que brilha em Sua santidade. Creio que
isso está bastante claro.

* Isso acontece quando separamos o material do espiritual, mas quando unimos os dois em prol da revelação do
Criador neste mundo, o material passa a ser também algo sagrado. (RCVP)

Estas são as duas bases e fontes de conduta do Santíssimo com todas as suas criaturas:
a ocultação de Seu semblante – aos ocultar-Se e esconder-Se e não revelar o esplendor
de Sua glória – e a revelação de Seu semblante. É o que ocorre em relação à conduta e
em relação à criação; as criações rústicas e vis, provenientes da ocultação do Seu
semblante – ao não iluminá-las com a luz de Sua santidade –, e as criações nobres e
espirituais, provenientes do brilho do Seu semblante. É sobre essa base que a fusão do
corpo e da alma se efetiva – o corpo e todas as consequências provenientes da ocultação
do Seu semblante, e a alma e todas as consequências de sua luminosidade.
O próprio homem é, ao mesmo tempo, o que aperfeiçoa e o aperfeiçoado, pois ele o faz
por meio de seu serviço Divino, conforme a interpretação de nossos sábios constante de
San’hedrin 99b: “E vocês devem fazê-los”, e também de Deuteronômio 29:8: “E guardareis
as palavras desta aliança e as cumprireis, para que prospereis em tudo que fizerdes.” Pois
está nas mãos do homem fazer com que ocorra a ascendência ao material ou ao espiritual
nele contido. Caso ele siga as incitações materiais de seus olhos e de seu coração, sua
alma, em vez de cumprir sua função de auxiliar o corpo e refiná-lo, conforme já explicamos,
irá, pelo contrário, sofrer uma grande perda e deterioração, afundando na escuridão. Se,
por outro lado, ele superar sua má inclinação e partir dos caminhos da vaidade para seguir
nos caminhos da Torá e das mitsvót, a alma se elevará acima do corpo e o refinará.

Observe agora o progresso do mundo – a diferença entre as primeiras e as últimas


gerações. Pois, na verdade, aquele que refletir sobre esse assunto ficará maravilhado com
o fenômeno de os homens irem para frente e para trás incessantemente, dia e noite, cada
um em seu caminho, desgastado e fatigado. E para que estão trabalhando? Por comida e
bebida? Sim, por futilidades sem sentido, por um mundo de uma noite insignificante – hoje,
aqui; amanhã, na sepultura. Mas aquele que observar bem verá e entenderá que não foi
para isso que o homem foi criado, e que seria apropriado engajar-se somente na
contemplação da glória do Criador, pois foi para isso que ele foi criado e investido de
grande conhecimento e sabedoria, e não para devotar-se ao comércio ou a outros
empreendimentos inconsequentes.* Mas o homem perverteu seus atos e se colocou em
seu presente estado. O mundo está passando por um regresso constante a esse respeito,
tendo as gerações anteriores estado mais perto da sabedoria e dado maior prioridade ao
intelecto e as gerações posteriores, mais distantes do intelecto e se aproximando desses
elementos da matéria e da natureza, do comércio e de todo tipo de empreendimento que
nada deixam atrás de si, conforme já explicamos. Já falamos a fonte de tudo isso. Deus
criou o corpo por meio da ocultação de Seu semblante e não por meio de seu esplendor,
razão pela qual o corpo é obscuro e vil em sua essência. A alma, em contraposição, foi
criada na luminosidade de Seu semblante e com projeção para o bem, razão pela qual ela
é eterna e pura em essência.

* O autor cita, outra vez, a ocupação em assuntos materiais como algo fútil e obscuro. E, novamente, vale ressaltar
que isso se aplica somente àqueles que buscam neste mundo apenas esse objetivo. Mas, aqueles que se ocupam
com assuntos materiais em prol da prosperidade espiritual estão fazendo seu papel nesse mundo, como o próprio
autor cita em outra obra sua (“Messilat Iesharim”, “O Caminho dos Justos”): “Quando direcionamos nossos corações
ao Criador, mesmo que num momento de comércio, e agimos com honestidade, já estamos nos ocupando com algo
sagrado.” Veja o parágrafo 88, no qual o Ramchal louva a união do material com o espiritual. (RCVP)

Entretanto, se o homem se voltar apenas para seu corpo e lhe der prioridade, o
Santíssimo, na base de “medida por medida”, relacionar-Se-á com ele somente por meio
da ocultação do Seu semblante, de modo que ele estará longe da luz da vida, da sabedoria
e do conhecimento, avançando no atoleiro da poluição e das vaidades deste mundo.

Foi o que aconteceu no princípio, com Adão, e depois, até os dias de hoje, com seus
descendentes. Porque se desviaram e perseguiram o que seus olhos viam e deram
precedência ao corpo e não à alma. O Criador, abençoado seja, respondeu com a
ocultação do Seu semblante. Ele disse a Adão (Gênesis 3:19): “Com o suor de teu rosto
comerás teu pão”, e daquele dia em diante, como está dito em Eclesiastes (6:7), “toda a
labuta do homem é para saciar sua boca; entretanto, nunca se sacia o seu apetite.” Assim,
a sabedoria foi minguando progressivamente e deixou o homem.

Esta é a regra: os limites do intelecto do homem ditam os limites de seus desejos e


pensamentos. Uma criança pequena é incapaz de reconhecer a sabedoria, e não a almeja.
Pelo contrário: toda criança deseja fugir da escola, pensando que não é bom e que está
perdendo seu tempo com inutilidades. Mas quando ela adquire maior entendimento e seus
horizontes se expandem, ela passa a desejar coisas mais sofisticadas, e assim por diante,
de acordo com seu progresso. O mesmo se aplica aos homens em geral: quando seus
intelectos são estimulados por uma abundância de luminosidade, eles encontram prazer na
sabedoria por si só e no que é verdadeiramente bom, mas, se seus intelectos não são
estimulados, eles nada reconhecem como bom, a não ser futilidades. E este é o mal
resultante do pecado de Adão: a remoção da espécie humana de sua percepção do
esplendor, de maneira que esta permaneceu conectada somente com elementos materiais
e brutos. O Criador, abençoado seja, corrigiu esse estado entregando-lhe a Torá, mas ela
o reverteu com o pecado do bezerro de ouro, e muitos outros mais, de modo que o mundo
permaneceu na escuridão com Sua ocultação.

Não seria esse o caso se o homem fortificasse sua alma. Pois, neste caso, o Criador faria
Sua face brilhar sobre ele, elevando-o ao nível dos serafins, pois os justos são maiores
que os anjos celestiais. Isso foi vivenciado pela geração da revelação da Torá no Sinai e
será vivenciado após a vinda do Mashíach, conforme está escrito em Joel 3:1: “Eu
derramarei Meu Espírito sobre toda carne...” Dentro disto há vários níveis, que Israel e o
mundo em geral atingiram em variados graus e em diferentes gerações, como nas de
Moisés, David, Salomão e outras. O bem alcançado por tais gerações consistiu no brilho
da Face do Santíssimo sobre eles, de acordo com o enobrecimento de suas almas por
meio da força de seus atos.

Quando entendermos os detalhes da existência do corpo e da alma e as condições a que


estão submetidos nas duas situações, ou seja, na da ocultação ou na da revelação do
semblante Divino, já que foram criados dentro desse contexto, entenderemos também os
princípios pelos quais Deus governou e continua a governar o universo, às vezes para o
bem e às vezes – Deus não o permita! – para o mal. Veremos também a grande sabedoria
inerente a essa ordem, bem como a posição central do homem, ao redor do qual – em
seus atos e assuntos – gira todo o mundo e tudo o que nele acontece, do início ao fim.

79 ALMA: É gratificante perceber a grande sabedoria com que o universo é administrado


pelo Eterno e a correlação entre a criação do homem, e tudo o que lhe acontece, e a
criação do universo, e tudo o que se passa nele.

80 INTELECTO: Você ainda ouvirá mais explicações sobre esse assunto, pois, quando
apresentarmos maiores detalhes sobre a alma e o corpo, compreenderemos como se
relacionam com essa raiz das duas qualidades que mencionamos, cada uma governada em
todos os seus aspectos por sua fonte. Além disso, foi decretada pela sabedoria do Eterno
a revelação da atuação dessas qualidades no corpo e na alma que nelas se originaram.
Assim, o corpo é, em sua constituição e todas as suas partes, um paradigma de toda a
ordem da ocultação do semblante em si próprio, e, da mesma forma, a alma é um
paradigma de toda a ordem da revelação. Esta é uma dimensão específica da forma de
ser do ser humano, tendo sido dito sobre ela no Gênesis (1:26): “Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, assemelhando-se ele, portanto, a todas as
qualidades do Santíssimo.

Como a escuridão é a essência do corpo, mesmo se este percebesse seu enorme


potencial de refinamento, ainda assim se distinguiria da alma, pois, enquanto esta é uma
entidade nobre e iluminada, emanada do brilho do semblante do Eterno, o corpo nada mais
é que uma entidade obscura em sua essência, resultante da ocultação do semblante do
Eterno. Entretanto, ele é suscetível a um refinamento, dentro do limite de sua natureza, até
o nível extremo em que haja somente uma diferença perceptível muito pequena entre ele e
a alma. Apesar disso, a alma ainda será alma, insuscetível a defeitos, e o corpo que, ao
contrário, é defeituoso por natureza, continuará buscando o refinamento possível. Além
disso, o corpo é dividido em partes e órgãos, cada um executando sua própria função: o
olho vê mas não ouve, o ouvido escuta mas não enxerga etc. Mas isso não acontece com
a alma que, apesar de executar todas as funções, o faz sem essa divisão em órgãos
individuais que caracteriza o corpo.

Você perceberá agora como isso segue a lógica daquilo que já falamos antes, isto é, de
que o corpo foi criado por meio da ocultação do semblante, e a alma, por meio de sua
emanação.

Isso nos introduz a um assunto de grande significância. É sabido que a perfeição é


insuscetível a adições ou subtrações, pois é absoluta. Mas quando o Eterno não deseja
agir por meio de Sua perfeição, não lhe faltam maneiras de recompensar e punir cada um
de acordo com seus atos, conforme já explicamos. Por ser um decreto da Sabedoria
Suprema de que a própria Criação mostrasse sua sequência por meio de Sua ocultação ou
de Sua revelação, Ele fez com que houvesse nela diversas partes e órgãos exatamente
paralelos aos aspectos de Suas leis. Esta é a ideia contida no que acabamos de ver e que
está escrita no Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança.” Pois em relação às qualidades que somos capazes de distinguir no Eterno,
por meio das resultantes de Seus atos sobre Suas criaturas, encontramos
correspondentes na figura do homem. Por exemplo: o olho do homem corresponde aos
olhos de sua Providência, que supervisionam todos os habitantes da terra para julgar todos
os seus atos, conforme está escrito em Gênesis (18:21): “Eu descerei e verei...” Isto nos
ensina que “um juiz deve conformar-se com a evidência diante de seus olhos”. (San’hedrin
6b)

Os ouvidos do homem correspondem a como Deus escuta as preces e todos os louvores


que Lhe são dirigidos pelos seres humanos, conforme está escrito no Êxodo (2:24): “Deus
ouviu seus clamores.” Nossos sábios já disseram em Avót 2:1: “Saiba o que está acima de
ti – um olho que vê e um ouvido que escuta.”

A boca do homem corresponde a Deus falando com Seus profetas por meio de visões e
levando a glória de Sua voz a ser ouvida por Seus anjos, poderosos executores da Sua
palavra. Similarmente, todas as demais partes do corpo podem ser entendidas como
paralelos, em suas formas e funções, às qualidades usadas por Ele para fazer Suas
criações. A própria estrutura geral do corpo do homem – direita e esquerda, com partes de
cada lado: dois olhos, dois ouvidos, duas mãos, dois pés –, corresponde ao
desdobramento das qualidades do Santíssimo, seja para o amor, seja para a punição; para
voltar à direita, para o mérito, ou para a esquerda, para a culpa.*

* Em várias passagens da Torá encontramos esse conceito de que o lado direito representa “Rachamim”
(misericórdia) e o esquerdo, “Din” (severidade). O rabino Iossef Caro, em seu comentário sobre o Tur em referência às
leis de “Netilat iadaim”, comenta por que, ao abluir as mãos, devemos encher o utensílio com a mão direita e,
posteriormente, passá-lo à mão esquerda a fim de esta entorne a água sobre a mão direita. O motivo é salientar a
ideia de que o lado direito está pronto para servir com a virtude da misericórdia, e que esta deve ensinar o lado
esquerdo (que possui a característica da severidade) a desenvolver sua misericórdia. (RCVP)

Essa é a ordem adotada pela vontade do Santíssimo para ocultar Sua perfeição e revelar
Sua bondade. E, da mesma forma que as partes do corpo são distintas e diferenciadas em
termos de função, assim também tudo que acontece ao homem dentro da ordem da
ocultação do semblante são aspectos de determinados artifícios empregados por Deus no
governo do universo, de acordo com tudo o que testemunhamos das vicissitudes do tempo,
dia a dia. Entretanto, a perfeição, conforme mencionei, é inteira e uma, impondo-se sobre
toda imperfeição para corrigi-la, não sofrendo nenhuma restrição e efetuando reparos
indiscriminadamente em tudo que necessite dela.

O mesmo se aplica à alma, que foi criada sob o brilho do rosto da perfeição do Eterno,
com o objetivo de ter ascendência sobre o corpo e refiná-lo, de modo que o Santíssimo
responda de maneira benevolente, revelando Sua própria perfeição para, conforme já
explicamos, corrigir qualquer distorção ou defeito do universo.
Conhecendo o Criador

Foi explicado no Midrash do Rabi Shimon bar Iochai (Zôhar, Pinchas 257b): “E deve ser
sabido que Ele é sábio em todos os tipos de sabedoria.” Pois além da interpretação
daqueles que sabem a verdade (Cabalá) em seus caminhos sagrados, também a partir de
uma leitura superficial do acima dito podemos deduzir o que já foi declarado: que o
Santíssimo tem muitos epítetos, e estes estão relacionados a Ele não em termos de Sua
própria natureza, mas, sim, nos termos de Suas criações, conforme foi dito (ibid.): “(Ele
será conhecido) pelos nomes das criaturas que estão destinadas a serem criadas.” ‘Pelo
nome das criaturas’ certamente não implica na manifestação de algo novo Nele, pois Sua
essência não é suscetível a novidades e mudanças. Na verdade, isso deve ser entendido
como a percepção de que sempre esteve em Seu poder gerar tais qualidades, mas que
estas sempre representaram aquilo que se aplica a Suas criaturas e nunca à Sua essência,
como foi dito (ibid.): “Com esta aparência Ele criou a alma (uma alusão ao fato de a
essência da alma apontar para a perfeição do Eterno, por meio de Quem ela foi criada), e
assim também o Senhor do universo (...) mas todos os nomes a Ele atribuídos estão de
acordo com as qualidades que Ele manifesta (...) e, da mesma maneira que Ele não tem
um nome específico, assim também a alma...”

Essa ideia deve ser estudada minuciosamente se quisermos entender corretamente a


essência do corpo, da alma e de tudo que está relacionado a eles. O Santíssimo, em Sua
perfeição, não pode ter nenhum nome ou epíteto atribuído a Ele, pois não somos capazes
de conceituar Sua perfeição. Uma vez que um nome define seu objeto, aquilo que não é
completamente conhecido não pode ser nomeado. Na verdade, nós percebemos na glória
do Eterno qualidades específicas, tais como piedade, supremacia, poder, julgamento,
pena, raiva, força e assim por diante. Todas essas qualidades que percebemos Nele por
meio de Seus atos são as mesmas qualidades que os profetas perceberam Nele
antecipadamente, uma vez que Ele lhes concedeu tal percepção. Em relação à nossa
percepção de Sua glória, nós designamos epítetos tais como “Piedoso”, “Soberano”,
“Todo-Poderoso”, “Juiz” e assim por diante. E apesar de o Santíssimo, em Sua perfeição,
não ter limite nessas qualidades que Ele escolheu, Ele estabeleceu limites.
Assim, uma qualidade é denominada “piedade”; outra, “soberania”; outra, “poder”, “amor”,
e assim por diante, sendo que, na “piedade”, há somente piedade, e na “soberania”,
somente soberania. Além disso, essa piedade e essa soberania alcançam somente o grau
de piedade ou soberania que o Santíssimo desejou, ocorrendo o mesmo com as demais
qualidades. Não deve ser dito, por causa disso, que o Eterno, em Sua perfeição, possui
esses poderes somente nestas proporções, mas, sim, que tudo depende de Sua vontade,
conforme já explicamos, pois está em Seu poder mudar tudo isso. Sua perfeição não está
sujeita a nenhum tipo de limitação, mas devido à Sua vontade de adotar essas qualidades
e agir por meio delas, nós Lhe atribuímos os epítetos correspondentes.

Assim, não devemos achar que quando O chamamos de “Piedoso”, que Ele o é em
essência, conforme diríamos de um ser humano que possui piedade e tem essa qualidade
enraizada em sua natureza. Não devemos assumir, de maneira alguma, que podemos
compreender a essência do Eterno. Nós não temos o direito de presumir tal suposição por
ser-nos impossível formar qualquer ideia do que seja Sua verdadeira essência. Quando O
chamamos de “Piedoso”, devemos entender que Ele deseja uma qualidade denominada
“piedade”, que vai de acordo não com a Sua essência, mas, sim, com a de Suas criações,
e isso é limitado. É por Ele desejar essa qualidade e agir de acordo com ela que O
chamamos de “Piedoso”, mas certamente Sua essência perfeita não faz parte dessas
considerações. Esta deve ser a natureza de nossa fé no Eterno, conforme já expliquei.

A relação entre o corpo e a alma deve ser entendida da mesma maneira. O corpo consiste
em partes e órgãos específicos, cada qual com uma função específica e limitada. A alma,
entretanto, é uma, totalmente à parte dos aspectos do corpo, e suas maneiras são
completamente diferentes das do corpo, até mesmo considerando-se suas sensações.
Porém, como ela realiza todas as ações do corpo enquanto encontra-se dentro dele – é a
alma que escuta através do ouvido do corpo; é a alma quem vê através dos olhos do
corpo, e assim por diante –, referimo-nos a ela com essas expressões: escutar, ver etc.

Mas isso não deve ser entendido como se falássemos de atributos que lhe sejam
intrínsecos, pois, apesar de ser a alma que vê (e não o corpo, que é inanimado), sendo ela
o meio pelo qual o homem, de fato, enxerga as coisas como elas são, não se deve
presumir, por causa disto, que esta é a sua maneira natural de ver as coisas. Pois seus
caminhos são completamente diferentes dos caminhos do funcionamento do corpo, e ela é
completamente impenetrável ao homem enquanto ela existir em um corpo. Mas, porque ela
adota a maneira de enxergar através dos mecanismos do olho, referimo-nos a ela como
uma alma que “vê” e assim nos pronunciamos em relação às demais funções. Em suma, a
alma é uma criação única, totalmente dissociada do corpo em sua essência, mas criada de
maneira tal que realiza tudo o que foi fixado nos órgãos do corpo de acordo com suas
naturezas. E porque ela adotou esses mecanismos e realiza todas essas ações no corpo,
todas estas lhe são atribuídas.

Essa relação é exatamente a mesma que existe entre o Eterno e as qualidades que Ele
desejou. A perfeição não contém nenhum dos aspectos dessas qualidades, pois são todas
qualidades que Ele desejou e delimitou de acordo com Sua vontade. Mas, como o
Santíssimo, o Ápice da perfeição, age por meio dessas características, nós nos referimos
a Ele por meio de nomes e epítetos correspondentes aos Seus atos. Entretanto, Sua
perfeição nada tem a ver com eles, não tendo a Sua essência nenhuma relação com esses
caminhos e ações.

81 ALMA: Essas formulações são convincentes em relação tanto ao corpo quanto à alma
e são um grande portal que conduz a um maior entendimento dos atos dos homens em
todos os tempos.

82 INTELECTO: Chegamos agora à categorização dos vários períodos do corpo e da


alma e seus diferentes estados. Mas, antes, cabe uma explicação: várias regras e
modos de ordenação são básicos e entram no quadro dos modos do homem e da Criação
em todos os tempos, conforme está escrito nos Salmos (40:6) “Ó Eterno, quanto fizestes!
Desígnios e atos plenos de maravilhas...”, e também (92:6): “Quão magníficas são as
obras de Tuas mãos...”, e ainda (104:24): “Quão imensa é a variedade de Sua obra.” Mas,
de qualquer maneira, aquilo que é específico deve ser enquadrado nas regras gerais, que
não são muitas – ao contrário das específicas, que são numerosas para satisfazer toda a
Criação.

83 ALMA: Certamente! Não há instâncias particulares que não derivem de princípios


gerais. Vamos então perseguir os princípios e não os casos particulares.
84 INTELECTO: Esta é a atitude dos nossos sábios: “Permita que as palavras da Torá,
no tocante a seus comandos, sejam sempre princípios e não particularidades.” (Sifri
Haazinu 32:2)

Vamos então retornar ao nosso assunto. Você já sabe que o Eterno emprega dois modos –
ocultação do semblante e revelação do semblante –, que são a raiz e a causa do corpo e
da alma, respectivamente. Devemos entender cada um desses dois modos em seus
mínimos detalhes, os quais derivam de seus princípios de governabilidade, se quisermos
compreender, similarmente, os estados da alma e do corpo em detalhes.*

* A revelação do Criador reflete a alma; a ocultação do Criador reflete o corpo. (RCVP)

Dito isso, devemos saber que esses dois modos operam conjuntamente na direção de todo
o mundo e de seus habitantes. Não existe nenhuma área em que eles não operem –
ocultação manifestada e irradiação oculta –, conforme já explicamos. Devemos agora
prosseguir para entender as consequências da conjunção desses dois modos quando um
ou outro ganha ascendência. Em suma, devemos ter conhecimento de três coisas: dos dois
modos, cada um por si só, e da operação conjunta de ambos, bem como as diversas
consequências dessa conjunção, quando a ocultação ou a revelação ganham ascendência.

85 ALMA: À luz do que você disse sobre o Eterno, de que Ele desejou manifestar a
sequência e os processos de Sua criação, estou pensando que essas duas linhas – os
processos que governam a conduta do homem e de acordo com os quais ele foi criado –
refletem-se no próprio homem nessas duas partes das quais ele é composto e constituído:
o corpo e a alma. Isso corresponde à primeira parte daquilo que você disse que devemos
saber.* A segunda também tem um paralelo no homem, pois, sendo a alma conjunta ao
corpo, ela permeia todas as suas partes, de modo que todo e qualquer ato é resultante
dessa ação conjunta. Mas a terceira, eu lhe pergunto: você percebe algum paralelo? Eu
não o vejo.

* Primeira parte, sobre o corpo; segunda parte, sobre a alma; terceira parte, sobre os dois em conjunto. (RCVP)

86 INTELECTO: Você também encontrará um paralelo para isso se você observar


profundamente a estrutura humana. Pois além da figura do corpo e além da forma da
alma dentro dele, há algo que resulta da união dos dois: o brilho do semblante. É isso que
difere os vivos dos mortos. E não somente isso, pois até mesmo uma mudança na
disposição da alma dentro do corpo é refletida na face. Observe a face pálida de um
doente. E mais: até mesmo as preocupações do coração refletem-se na face!

Uma face sorridente, zangada ou cordial – todas testemunham os pensamentos ocultos no


coração. E essa expressão não pertence nem à alma sozinha (pois esta se manifesta por
meio do corpo) nem ao corpo somente (pois este não tem expressão sem a alma), mas,
sim, nasce da união do corpo e da alma.

E isso não é algo insignificante, pois os profetas comparam a forma a seu Criador.
Conforme disseram nossos sábios em Chaguigá 14a, quando a Glória Suprema lhes
aparece por meio de Suas qualidades, mostrando a eles visões alegóricas – seja
aparecendo uma vez como um jovem guerreiro, outra vez como um piedoso ancião –, “o
olho do profeta imaginará e seu coração conceberá”. Assim, ele apreenderá de sua visão
profética a ocultação de Seu semblante, a iluminação de Sua bondade e a consequência
de suas uniões. Isto se dará por meio da aparição de uma forma humana sublime,
possuidora de um corpo e de uma alma e a expressividade do semblante resultante dessa
união – seja ela cordial, sorridente ou zangada –, de modo que ele saberá tudo o que Deus
quer deste mundo, seja para o bem, seja para o mal.

87 ALMA: Isto já basta para mim em relação aos paralelos. Vamos retornar ao assunto
das ordenações em seus vários estágios.

88 INTELECTO: O que deve ser considerado primeiramente em relação às


consequências da união desses dois modos é o estágio final a ser alcançado pelo
homem na época da perfeição final que lhe será determinada. Não é necessário dizer que
o estágio final, o fim de toda a elevação do homem, já foi antecipado no princípio. Pois,
considerando a nobre fonte da alma, deve haver algo em sua natureza que permita a
obtenção da maior perfeição possível no final. E é exatamente aquilo que lhe disseram
como vimos acima: “Vá e se diminua!”, até que retorne ao seu status original, elevando-se
por meio de seus atos. Mas não devemos entender que a alma tem menor estatura quando
de sua criação e que ela se eleva subsequentemente, pois não há nada de novo sob o sol.
O que ocorre é o contrário: ela é nobre na grandiosidade de sua origem e
subsequentemente diminuída, pendente de um retorno à sua força. De qualquer maneira, o
final do processo é aquilo que foi contemplado inicialmente. Assim, a perfeição do homem
é projetada inicialmente, seguida de sua diminuição que, por sua vez, será seguida por uma
ascensão pelos estágios nos quais ele decaiu até retornar à perfeição estabelecida para
ele no começo.

A perfeição do homem está prevista desde seu começo. Este será o estado, e a época em
que a alma deterá toda a influência e o corpo não exercerá nenhum tipo de dominância,
como se ele não existisse. Ele será totalmente dominado e sujeito ao reinado da alma em
sua pureza, sem ter sequer um nome, possuindo somente existência, mas sem dominância.
Isso é compreensível, pois a dominância do corpo nada mais é do que escuridão para a
alma, e a corporeidade, nada além da ocultação do semblante, que, por menor que seja,
exerce grande influência. É impossível que até mesmo a mínima predominância do corpo
não acarrete uma diminuição proporcional da luz e do poder da alma. Assim, na época em
que a alma reinar com toda a sua força, quando não lhe faltar nada de sua perfeição, o
corpo não exercerá nenhum tipo de dominância (motivo pelo qual não haverá nenhum
impedimento para a alma). Entretanto, não devemos pensar que o corpo não terá
existência nessa época (pois já explicamos que ambos, corpo e alma, devem receber sua
recompensa); apenas não terá dominância, estando totalmente ligado à alma e sendo dela
inseparável. Ele nada fará de acordo com sua própria vontade e não desejará nada que a
alma também não deseje, sendo quase indistinguível como uma só entidade, assimilado
(se assim podemos dizer) pelos poderes da alma.

Um estágio abaixo é aquele em que o corpo exerce, de alguma maneira, certa dominância,
enquanto a alma perde proporcionalmente a revelação de sua perfeição. Essa leve
dominância (do corpo) levará a uma leve falta (por parte da alma), e se a dominância vier a
crescer, também a deficiência crescerá.

De modo geral, há três estágios: dominância completa da alma, dominância parcial do


corpo e dominância total do corpo. Mas se separarmos os estágios de dominância do
corpo, poderemos distinguir cinco:

Primeiro estágio: O corpo possui existência, mas nenhum tipo de dominação, não exibindo
o menor sinal de corporeidade (do tipo que existe hoje em dia). Nesse estágio, o homem é
totalmente livre de qualquer uma dessas qualidades (boas ou más) que ele possui agora,
quando a materialidade o domina. De todos, esse é o estado mais elevado.

Segundo estágio: O corpo experimenta uma dominância restrita, de modo que há como
uma memória no homem de como ele era quando tinha um corpo. Mas não é uma memória
de coisas específicas, mas, sim, lembranças gerais de tudo o que ele experimentou. Esse
estado é análogo ao de um homem que sofreu muito, que trabalhou muito e viu-se em uma
série de situações difíceis, de modo que permaneceu nele um sentimento de fraqueza e
fadiga. Da mesma forma, a dominância do corpo leva a uma deficiência que não pode ser
completamente explicitada, como um homem que carrega uma mágoa em seu coração e
não consegue experimentar a alegria completa, mesmo que não haja nenhum motivo
específico para esse sentimento. Similarmente, nesse estágio a alma não tem força para
expandir-se em todo seu poder e sente certo peso cuja natureza lhe é desconhecida.

Terceiro estágio: O corpo exerce uma dominância específica, não em todos os aspectos,
mas somente em alguns. Assim, alguns elementos de corporeidade permanecem no
homem – muito poucos, mas mesmo assim materiais. Está claro, aqui, que em todas
essas condições não há ramificações substanciais desses elementos de corporeidade,
conforme explicarei mais adiante, com a ajuda de Deus.

Quarto estágio: O corpo exerce dominância em todos os aspectos e sobre todas as


propriedades corpóreas pertencentes a ele. Mas, da mesma forma que a alma neste
mundo é “uma estranha na terra” e deve seguir os passos do corpo, o corpo também será
depois “um estranho na terra” – quando a alma dominá-lo – e tiver que seguir seus
caminhos, conforme está escrito: “Quando chegares em uma cidade, siga os costumes
dela.” (Shemot Rabá 47:6)

A que isso pode ser comparado? À situação de Moisés, nosso mestre, que foi receber a
Torá para Israel. Ele não perdeu seu corpo nem o modificou, mas, porque seu corpo era
um hóspede no mundo das almas, ele deixou seus comportamentos usuais e adquiriu o das
almas.*

* Isso aconteceu quando Moisés não comeu nem bebeu nem dormiu, ou seja, comportou-se como os anjos. (RCVP)
Podemos ver, então, que a mudança do corpo nessas ocasiões não é intrínseca, mas, sim,
uma adaptação a um local específico, de modo que a mudança não é absoluta. (Ainda aqui
não há ramificações provenientes desses aspectos da corporeidade, pois, conforme
explicamos, o corpo é como um estranho que deve seguir os caminhos da alma.) Nesse
quarto estágio, todos os aspectos do corpo são identificáveis e reconhecíveis. O que
ocorre é que eles não estão em seu habitat natural e, por isso, suspendem o
funcionamento normal de sua natureza em respeito à alma. Desse nível em diante, os
aspectos do corpo já não podem mais ser identificados e é desnecessário dizer que estes
não têm ramificações, pois devem seguir os caminhos da alma.

Quinto estágio: O corpo exerce dominância em todos os seus aspectos, como um homem
que é o senhor de sua casa, com todos os seus aspectos manifestando-se com toda força
em todas as suas ramificações. Esse estágio é dividido em duas partes, mas mesmo
assim é um único estágio. Isso ocorre porque os aspectos do corpo podem se manifestar
de duas formas: de maneira mundana, como os animais, típica da maioria dos homens, ou
de maneira sagrada e a serviço de Deus – “Percebe Sua presença, por onde quer que
venhas a andar” (Provérbios 3:6) –, com todos os atos originando-se de intenções
corretas, da mesma maneira que acontecerá na época que está por vir, conforme foi dito
em Ezequiel (36:26): “E Eu lhe darei um coração de carne”, e como teria sido, caso Adão
não tivesse pecado. Mas, de qualquer maneira, ambos são aspectos da corporeidade,
pois é necessário alimentar-se e dessedentar-se, ou seja, mesmo que de maneira elevada,
comer e beber são aspectos da corporeidade.

Mas, uma vez que sabemos que tudo isso é resultante da ocultação ou da revelação do
semblante Divino, nós dizemos que o Eterno varia sua lei de acordo com o que a Criação
demanda, em termos desses cinco níveis. Pois no mais baixo, o quinto, Ele leva o universo
a um alto grau de ocultação de Seu semblante e a um menor grau de irradiação deste. No
quarto nível, ele diminui a ocultação e aumenta a revelação. No terceiro, ele reduz a
ocultação aos poucos e vai aumentando o brilho mais e mais, e assim por diante, até o
primeiro nível, onde o brilho é forte e a ocultação tão diminuta que a dominância
permanece somente com a alma, não restando nada para o corpo.

89 ALMA: E o que torna necessária essa divisão em cinco estágios?


90 INTELECTO: Essa é a natureza do que foi por Ele estabelecido. Todos esses estados
ocorrem por meio de estágios, um após o outro: existência sem dominância;
dominância em geral; dominância parcial; dominância completa, mas como um estranho
fora de sua esfera; e, finalmente, dominância completa em sua própria esfera, como o
dono em sua casa. Esses cinco estágios ocorrem a partir da própria natureza do
processo; eles não estão sujeitos a questionamentos de por que e para quê. Tudo o que
você precisa saber por ora é a divisão que eu mencionei no início – dominação completa
da alma, dominação parcial do corpo e dominação completa do corpo –, pois é isso que é
necessário para compreendermos a supervisão de Deus como um todo. E, em relação aos
cinco estágios que eu mencionei, guarde-os bem em sua memória, pois sei que você
encontrará coisas nas palavras dos sábios cujo entendimento apropriado necessitará
dessa minha explicação. Entretanto, não é aqui o seu lugar.

91 ALMA: Sendo assim, falemos desses três estágios.


92 INTELECTO: Nossos sábios nos ensinaram que este mundo existirá por seis mil anos
e, depois disso – no ano de número sete mil –, repousará arruinado até ser renovado
pelo Santíssimo. (San’hedrin 97b) Eles disseram mais sobre esse ano (ibid. 92a): “O que
os justos fazem? O Eterno lhes cria asas e eles sobrevoam as águas (...) conforme está
escrito: ‘E aqueles que confiam no Eterno sentirão sempre as suas forças renovadas.’
(Isaías 40:31)”

Superficialmente, detectamos três épocas: seis mil anos, o ano de número sete mil e a
renovação do mundo.

Portanto, por seis mil anos o mundo permanecerá como é agora. No ano sete mil, o mundo
não será ainda renovado, mas os justos estarão na forma na qual foram ressuscitados,
com exceção de que o Santíssimo “criará asas para eles...”. No ano oito mil, o Santíssimo
renovará o mundo completamente.

No mundo, conforme ele é hoje, vemos o corpo em um estado de dominância completa,


como um homem que é dono de sua casa, sendo esse e nenhum outro o seu lugar.
Entretanto, no ano sete mil, os justos se levantarão da terra e o corpo permanecerá fora
de sua esfera, como um homem perambulando fora de sua casa ou um viajante buscando
abrigo para a noite. Por essa razão, ele não manifestará nenhuma dominação,
correspondendo ao status de Moisés ao subir no monte Sinai. Após elevar-se da terra, ele
deixou de seguir as maneiras de seus habitantes. E é por isso que nossos sábios se
referem a esse ano como (San’hedrin 97a) “o dia que é todo Shabat, descanso eterno” – o
corpo em repouso de todas as suas funções corpóreas, representadas pelos dias da
semana. Nesse estágio, o corpo não terá se livrado ainda de sua natureza, pois a Criação
ainda não terá sido renovada. Mas, a partir dessa renovação em diante, no período em
que “amanhã receberão sua recompensa” (Eruvin 22a), não haverá mais necessidade da
dominância do corpo (sendo tal dominância necessária somente para realizar o serviço
Divino em seu tempo), pois sua essência será englobada na da alma, de modo que ela irá
regozijar-se eternamente no Bem eterno.

93 ALMA: Mas o ano de número sete mil e a renovação do mundo não estão além da
nossa esfera de entendimento? Como, então, podemos falar sobre isso?

94 INTELECTO: Realmente, não devemos falar sobre isso. Mas podemos falar da
existência dessa época e de suas características gerais com alguma certeza em
relação ao corpo e à alma. Entretanto, não somos capazes de conceber ou conhecer
todos os detalhes dessa época. O período dos seis mil anos nos é conhecido e concebido
detalhadamente, e é nesse período que nossa discussão se concentrará em detalhes. Nós
sabemos sobre as duas outras épocas somente de maneira geral, como as épocas em
que o corpo perderá sua dominância e a alma ascenderá à sua preeminência original.
Por que existe o mal?

95 ALMA: Sendo assim, vamos falar sobre o que nos é permitido e somos capazes de
compreender.

96 INTELECTO: Devemos agora compreender o estado inicial do homem neste mundo e


o tempo para se dedicar ao serviço Divino. A natureza desse serviço já foi explicada: a
remoção de qualquer imperfeição encontrada nesta Criação – o mal que agora existe e
que está destinado a desaparecer. Mas a tarefa do homem é trabalhar para extrair esse
mal de si mesmo e, subsequentemente, de toda a Criação, enquanto estiver em seu
alcance. Conforme disseram os nossos sábios em San’hedrin 37a: “O homem deve dizer:
‘O mundo todo foi criado para mim.’”

Nossos sábios explicaram isso no Midrash (Ialcut Shimoni, Hoshêa 532), sobre o seguinte
versículo de Oseias (14:2): “Retorna, Israel, ao Eterno teu Deus, porque sua iniquidade
provocou todos esses tropeços.” – “Rabi Simai disse: Isto é análogo a uma grande pedra
que fica em uma encruzilhada, fazendo os passantes tropeçarem. O rei ordena: ‘Escavem-
na aos pouquinhos, até chegar a hora em que eu a removerei do mundo.’”

Precisamos agora explicar em detalhe como, por meio do serviço Divino, pode ser
alcançada a perfeição do homem e do mundo. Entretanto, devemos primeiro esclarecer a
ideia da existência do mal – a causa da necessidade de todo este trabalho –, todas as
suas limitações, sua natureza e ramificações, a fonte desse grande poder, o processo por
meio do qual é “escavado” (conforme a analogia dos nossos sábios) e a maneira como
pode ser removido deste mundo.

O mal é um fenômeno totalmente novo que o Criador desejou e criou para testar o homem
e para dar espaço ao serviço Divino. Não havia sinal desse fenômeno, nem nada parecido,
até o Criador determiná-lo, pois Ele é a essência do bem e da perfeição. Tudo aquilo que é
bom, apesar de já criado, é considerado como atribuível ao Eterno e, de alguma maneira,
próximo de Sua natureza.

Entretanto, o mal é, pelo contrário, totalmente oposto à Sua natureza, não tendo nenhuma
ligação ou lembrança de ter sido originado pelo Eterno, conforme explicamos. Mas faz
parte da onipotência Divina criar algo que seja totalmente oposto à Sua natureza, para
torná-lo conhecido e para se fazer saber que Seu poder é totalmente ilimitado, conforme
está escrito em Isaías 45:7: “Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu faço a paz e sou Eu
quem cria o mal; Eu sou o Eterno que tudo faz.”

Ainda assim, o Santíssimo somente o criou para que fosse erradicado, conforme já
mostramos nas citações dos sábios. Ele criou o mal somente dentro desses limites e com
essa natureza, conforme foi de Seu desejo. Em última análise, a intenção é somente tirar
do mal bons frutos para os justos, de modo que aproveitem uma recompensa justa neste
mundo.

97 ALMA: Preciso compreender isto muito bem, pois abrange muitas ideias.
98 INTELECTO: Mas, primeiro, é preciso explicar um princípio fundamental.
99 ALMA: Fale.
100 INTELECTO: Você deve saber que tudo o que possui vida ou existência – a primeira
diretamente relacionada à segunda – existe somente devido à providência do Eterno.
Esse conceito foi bem explicado pelo grande sábio Maimônides no Guia dos Perplexos, em
diversos capítulos da segunda parte, especialmente no décimo. Ele é explicado pela
influência das estrelas, que sabemos terem produzido todas as atividades deste mundo
terrestre, conforme disseram nossos sábios: “Não há sequer uma folhinha de grama acima
da qual não haja uma estrela no céu que aponte e diga: ‘Cresça!’” (Bereshit Raba 10:6)
Entretanto, isso ocorre somente devido aos poderes nelas investidos pelo Criador, e elas
somente exercem influência dentro dos limites por Ele estabelecidos, pois Ele é a fonte de
toda providência.

Em relação a isso, Maimônides, no capítulo 12, cita um versículo de Jeremias (17:13) – “...
o Eterno, a fonte das águas vivas” –, e dos Salmos (36:10), em que o rei David (que
repouse em paz!) afirma: “Pois de Ti provem a fonte da vida e de Tua luz recebemos
claridade”, em referência à recompensa da existência.

A ideia geral, de acordo com Maimônides, é que, estando claro que Ele é incorpóreo e que
tudo que existe e é feito provém Dele, podemos falar do mundo como resultante de Sua
providência. Similarmente, nós nos referimos a Ele como fonte de toda a sabedoria.

Você já me escutou dizer que, em tudo o que é feito para nós pelo Criador, não há sequer
um feito que se relacione com Sua mais pura essência, que é exaltada acima de qualquer
bênção ou louvor, pois Ele é mais elevado do que tudo o que se aplica às Suas criaturas.
Entretanto, todos os Seus atos são aspectos daquilo que Ele originou em Seu desejo e
vontade. Isso são variedades da providência que Ele desejou e criou, para exercer suas
influências dentro da ordem que Ele decretou em Sua vasta sabedoria, todas relacionadas
com a natureza das entidades que Ele trouxe à vida. Deste modo, vemos que tanto causa
como consequência são fontes do Criador, sendo as variedades e modos da providência a
causa, e as criações, o efeito. Ele as criou de acordo com a variedade de entidades que
Ele desejou, pois a cada forma diferente de providência corresponde uma forma diferente
de criação. A providência da sabedoria é um tipo, a da força é outro tipo, o da abundância,
outra variedade, e assim por diante.

101 ALMA: Então o Eterno não é capaz de criar todas as coisas somente com uma
forma de providência?

102 INTELECTO: “Providência” quer dizer tudo aquilo que desce para as criaturas a
partir do Criador, quando Ele faz algo para elas. O que entendemos disso não é o
Criador em Si, pois não sabemos como Ele atua, mas, sim, o que foi feito. E quando a
força e o poder descem do Criador para as criaturas, a providência pela qual estas
descem é a da força, pois foi da Vontade Suprema que essa providência resultasse em
força. Quando é a sabedoria que desce, é a providência da sabedoria que a gera. Mas
voltemos para o nosso assunto, ou seja, o bem e o mal agindo neste mundo. Como você
entende seus canais de providência?

103 ALMA: Não é óbvio? O que é bom vem da providência do bem, e o que é mal vem
da providência do mal.

104 INTELECTO: Vou lhe explicar duas coisas. Primeiro, que não há uma providência do
mal – Deus nos livre! – em relação ao Eterno, pois Ele é a fonte do bem, e o mal não
pode vir da fonte do bem.
105 ALMA: Então de onde vem o mal? Não está escrito em Isaías 45:7 que: “Eu faço
paz e crio o mal”?

106 INTELECTO: Está escrito “criar o mal” e não “fazer o mal”. Ele dá existência ao mal,
pois caso contrário este não existiria; mas Ele não o faz ativamente.

107 ALMA: Então, como isso se passa?


108 INTELECTO: Está escrito: “Foste Tu, Eterno, que por Tua mercê estabeleceste a
minha força como uma montanha, mas ao encobrires Tua presença, fiquei
perturbado” (Salmos 30:8), e também: “Quando escondes Teu rosto se perturbam; quando
lhes tiras o fôlego expiram e ao pó retornam” (ibid 104:29), e Moisés, nosso mestre de
abençoada memória, disse: “Eu ocultarei Minha face deles e eles serão presa...”
(Deuteronômio 31:17). A ideia é que o Eterno faz o bem diretamente, por meio de Sua
providência do bem, e o mal nada mais é que a ausência e suspensão de Sua providência,
em um grau maior ou menor. A providência do bem vem acompanhada de tudo o que é
necessário para o benefício de seu objeto, e sua suspensão e ausência completa
resultariam na nulificação de seu objeto. Mas, se a providência não é totalmente suspensa,
mas somente alguns aspectos de sua perfeição, seu objeto irá refletir essa imperfeição,
mas não será totalmente eliminado.

Por exemplo, a providência da existência e da vida, quando completa em todos os seus


aspectos, produzirá em seus objetos vida e saúde, mas se for removida por completo,
seus objetos perecerão. Se não for totalmente removida, mas somente algumas de suas
características e aspectos da perfeição, então seu objeto não perecerá, mas ficará doente
e viverá uma vida de sofrimento. Fica claro, então, que não podemos falar do bem e do
mal como duas variedades de providência, conforme você pensou, mas, sim, como
resultados da manifestação da providência ou sua ausência, completa ou parcial.

109 ALMA: Esse é o primeiro ponto. Qual era o segundo que você ia mencionar?
110 INTELECTO: Se nós olharmos para a natureza das coisas, descobriremos que as
maldades nada mais são que a ausência das bondades correspondentes. Assim, não
podemos falar de duas variedades de providência, mas, sim, em providência e sua
ausência ou suspensão, seja completa ou não, conforme já explicamos.

111 ALMA: Sendo assim, este mundo, que certamente é uma combinação – onde
encontramos o bem e o mal –, deve ser visto como tendo sido criado de duas
maneiras: por meio da providência e da suspensão da providência.

112 INTELECTO: Podemos ter dúvidas sobre isso? É óbvio e indiscutível que tudo o que
é bom vem da providência do Criador, e tudo o que é mal, de sua ausência. E se nós
testemunhamos o bem e o mal, devemos entender que o Eterno fez as duas coisas – Ele
manifestou e retirou Sua providência, de modo que essas duas criações se realizassem.

113 ALMA: Mas isso eu não compreendo. Dizer que as criações vêm da providência faz
sentido, mas como elas podem se originar em sua ausência? A existência não pode
ser resultado da falta de existência! Parece que não há alternativa: ou o mal foi criado
diretamente pelo Eterno ou não poderia ter sido criado e existir de nenhuma maneira.

114 INTELECTO: Quando dizemos que o Eterno criou este mundo, devemos entender
que, primeiro, existiu uma Criação geral e, depois, uma específica. Ou seja, primeiro
a natureza em si e depois seus constituintes. Quando o Eterno desejou criar a natureza
com o bem e o mal, certamente havia uma providência emanando Dele para esta Criação,
e este é o bem. Mas parte dessa providência estava ausente (ou seja, suas orientações
positivas e aspectos da perfeição que dão à natureza suas características do bem), e foi
essa falta que originou na natureza uma falta de bem correspondente, que é a
generalidade do mal. Pois a natureza certamente é considerada defeituosa quando a
providência não se encontra nela.

Depois que esses dois estados foram criados de maneira geral na natureza, seus
constituintes individuais foram criados, alguns dentro da ordem do bem, outros da do mal.
Esses constituintes certamente também foram trazidos à existência por meio da
providência, pois, conforme já estabelecemos, nada tem existência sem providência. Mas
essa providência segue o que já mencionamos anteriormente – a providência gerou a
natureza como um todo, existência e defeitos. Assim, poderia ser pego da criação geral da
natureza – do bem e do mal já criados – aquilo que é necessário para a composição de
seus constituintes particulares. Observe que eu não estou falando aqui da suspensão
completa da providência, pois isso resultaria na eliminação completa de seus objetos. Essa
providência foi somente parcialmente vedada em relação a algumas de suas
características e elementos de perfeição. Isso é comparável ao homem que cai doente,
mas não falece. Da mesma maneira, a natureza em geral é considerada defeituosa devido
a essa retirada parcial da providência que origina o mal, que nada mais é do que uma falha
na perfeição da natureza. Mas o nosso axioma permanece inviolado: o Eterno faz somente
o bem. Ele não faz o mal. Este é apenas a ausência de sua providência.

115 ALMA: Finalmente eu compreendi como o mal vem a existir. Devemos agora
completar esse assunto falando de todas as suas delimitações.

116 INTELECTO: Antes você deve saber de algo. Apesar de a prática destes atos
preexistir na natureza do Eterno (pois Ele não é suscetível a nenhuma mudança de
tempo), ainda assim não podemos dizer que tudo existia em potencialidade, aguardando
somente a materialização. Este é um dos erros cometidos por aqueles que acreditam na
eternidade do universo. A verdade é que tudo o que se refere a Deus antes da criação do
mundo é absolutamente além de nossa capacidade de compreensão e não pode ser
explicado em nenhum dos termos que nós empregamos. Também não podemos falar de
potencialidade ou realidade, com todas as implicações derivadas dessa relação
potencialidade/realidade.

Mas, quando Ele desejou criar o mundo, Ele mesmo originou o fenômeno da potencialidade
e realidade, e Ele mesmo fez o mundo e todas as suas criaturas – inicialmente em
potencial e, subsequentemente, em realidade, originando esta ordem. Por meio de seu
primeiro comando na criação do universo, o mundo passou a existir em potencial e depois
realmente se materializou. Esta é a ideia embutida no dito dos nossos sábios: “‘No
princípio’ (Gênesis 1:1) também constitui um comando da criação.” (Rosh Hashaná 32a) É
um comando diferente dos demais, pois neste ponto o universo existia em potencialidade e
não havia ainda emergido para a realidade. Entretanto, foi quando o mundo foi criado em
potencialidade que todos esses elementos da providência que nós mencionamos passaram
a existir, passando depois à realidade de acordo com seus status de potencialidade,
conforme explicamos.
Devo ainda revelar outro conceito profundo relacionado a este assunto – a essência geral
do mundo em todas as suas épocas. A fonte de tudo é o desejo e vontade do Santíssimo
de transmitir Sua bondade às criaturas que Ele resolveu criar. E, para isso, Ele criou uma
ordem de iluminação e providência e adaptou ao nível desses seres que Ele criou. O que o
Santíssimo desejou nessa providência é que fosse uma providência de santidade em si,
emanada Dele (sendo Deus a essência e a fonte da santidade), e que esta tivesse
somente consequências de santidade, como no caso dos anjos, que experimentam
santidade e nada mais. Da mesma forma, a intenção por trás da criação dessa providência
é que parte de Sua santidade fosse concedida às Suas criaturas, de modo que pudessem
se expor ao esplendor de Sua santidade.

Mas porque Ele desejou a existência deste mundo inferior, Ele decretou que Sua
providência fosse de uma ordem mais baixa, para elevar coisas inferiores e mundanas.
Certamente isso a diminuiu, pois não foi criada com esse objetivo. O que acontece é que
os aspectos materiais e inferiores de Sua providência, que nós observamos, constituem
uma diminuição dessa providência. A providência do Eterno, fonte de perfeição e
santidade, é obrigada a se limitar a essas formas, que são, de certa forma, uma
degradação. Mas ela assim foi concebida na mente do Eterno: para encobrir Sua
providência nestas formas obscuras até que se livre de todas estas vestimentas e apareça
em sua forma clara e pura, quando toda a Criação e tudo que a ela se relaciona serão
completamente consagrados por Deus.

Durante todo o serviço Divino executado pelo homem, a providência está enrustida nessas
formas, mas no final ela se livrará delas. O Santíssimo criou um mecanismo de causas e
ciclos com este objetivo. Assim, a fonte das variações das épocas do mundo é a
providência do Eterno. Deus altera esta providência, elevando-a até chegar à sua forma
essencial, num estágio em que tudo o que for criado será somente santidade absoluta. Em
suma, o Eterno criou uma forma de providência que é canalizada Dele para suas criações
e cujo objetivo é a emanação de Sua santidade. Ele também criou formas para essa
providência, que são mais baixas e inferiores ao seu nível de santidade. Ele também
originou dentro dessa providência fatores de extinção e obstrução, conforme mencionei.
Tudo isso faz parte da revelação da unicidade que também já mencionei. É a ocultação de
Seu semblante que gera tudo isso dentro da ordem de Sua providência, e a iluminação
subsequente removerá todos esses obstáculos à Sua manifestação. Com a ajuda de Deus,
voltaremos a falar sobre isso. O que devemos saber aqui é que um decreto do Supremo
originou coisas dentro da providência que são a fonte do que é encontrado no mundo. Pois
somente após todas essas preparações Ele criou este mundo inferior – estruturado em
todos esses níveis e composto de todos esses elementos – para passar de uma condição
para outra, de acordo com Sua Vontade Suprema.

117 ALMA: Realmente, tudo o que você me disse é essencial para compreender os
diversos pré-requisitos para a existência deste mundo, que é incompleto até que
todas estas pré-condições sejam atendidas. Vamos agora terminar nosso assunto.

118 INTELECTO: Nós já mencionamos que esse mal foi criado dentro dos limites
desejados por Deus. Apesar de o Criador ter criado a possibilidade de nulificação
para as criaturas, Ele o fez somente em relação às entidades imperfeitas. As entidades
perfeitas não serão nulificadas, mas, sim, existirão eternamente. E é por isso que vemos
atualmente tal nulificação das entidades do mundo, fato que não ocorrerá na época que
está por vir. Pois somente porque a Criação é imperfeita atualmente é que Ele decretou
sua nulificação. Entretanto, na época que está por vir, Ele criará “o novo céu e a nova
terra”. Sua Criação será perfeita e não serão sujeitos à nulificação.

Vemos então que a primeira providência, que criou a natureza de maneira geral bem como
suas obstruções, não era um tipo de providência capaz de criar coisas perfeitas, tal como
o novo céu e a nova terra. Essa providência tinha por natureza criar somente coisas
imperfeitas, e por essa razão foi instrumentada para a nulificação, como um requisito para
a existência de defeitos na natureza. A segunda providência, que criou os constituintes
individuais da natureza, compostos do bem e do mal, é a que isola o mal para que não
destrua a Criação. Ele é mantido dentro dos limites decretados por Deus e contido de
modo a não crescer em força e eliminar o que existe, para assim obter o grau e limites
necessários para estabelecer o caráter da existência. Ele está ajustado para ganhar força
em determinadas épocas, e também a diminuir sua força em outras conforme seja
necessário, tudo conforme é ditado pelas necessidades da época, de acordo com a
Vontade Suprema.

O resultado é que existem certas imperfeições e defeitos na natureza, mas não são tão
grandes a ponto de eliminar a Criação. O mal pode se intensificar em um grau no qual seus
objetos sejam destruídos (pois tudo o que existe é destrutível), de modo que suas
existências estão suspensas em uma linha muito fina no tecido da Sabedoria Suprema.

Devemos notar que a Inteligência Suprema que criou a primeira providência ordenou a
criação da nulificação. E é por isso que essa providência não foi criada perfeita desde o
começo, de modo que haja extinção e mal neste mundo, e não por falta de habilidade do
Criador. Aquilo que está destinado em relação ao novo céu e à nova terra, que nós
mencionamos, poderia ter sido feito desde o começo. Mas o firmamento e a terra foram
criados expressamente imperfeitos, de modo que fossem objetos de nulificação.

Quanto à segunda providência, designada a dar existência a criações individuais, a


intenção do Supremo foi resgatá-los da destruição e sustentá-los até a época designada,
conforme já falamos. Deste modo, não deixou de existir a nulificação, mas o mal foi
delimitado e colocado dentro dos confins necessários para o estabelecimento do caráter
do mundo, até chegar a época em que o mal será removido da existência e todas as
criações se tornem perfeitas e eternas.

Entretanto, lembre-se daquilo que já falei antes em relação à conduta de Deus conosco: há
duas condutas, a ocultação do semblante e a revelação deste, cujos resultados são a
perfeição e os defeitos e, derivado destes, o bem e o mal. A existência do mal é resultado
da ocultação completa do semblante do Santíssimo. O Supremo Desejo quis criar o
homem de alma e corpo (conforme o homem que vemos hoje), nivelando Suas
características de modo a operarem conjuntamente (as qualidades da ocultação e da
revelação do semblante), exercendo um e não abandonando o outro, estabelecendo assim
todas as qualidades do homem proporcionalmente – o forte e o fraco, o nobre e o infame,
tudo o que é necessário em termos do seu objetivo.

Mas devemos esclarecer algo: uma criatura não é denominada má somente porque não é
perfeita. Pois pode haver imperfeições que, apesar de não serem consideradas
absolutamente perfeitas e boas, não são más. Por exemplo: com certeza falta aos anjos a
perfeição completa, um estado atribuído somente ao Criador. E dentre eles há diversos
níveis e hierarquias, um anjo estando abaixo de outro e lhe faltando algo. Mesmo assim,
sua imperfeição não é tão grande de modo a criar nele algo absolutamente mal – eles são
completamente livres de inveja e ódio, não têm má inclinação, não são suscetíveis ao sono
e à fadiga, nem a doenças nem à morte. Já os seres humanos são mais baixos e
deficientes que os anjos, e a deficiência dos humanos é tão grande que há neles o mal,
possuem uma má inclinação e estão sujeitos a doenças e à morte. Os animais são ainda
mais imperfeitos, faltando-lhes intelecto e fala. E há agentes destruidores, anjos da
destruição e espíritos de impureza, que são maus, opostos do bem e da perfeição,
aqueles de quem o Santíssimo Se oculta completamente, conforme a lógica: “O
Santíssimo não une Seu nome ao mal.” (Bereshit Rabá 3,6)

É a cadeia da imperfeição que produz o mal. Pois quando essa cadeia se expandir e a
imperfeição for acrescentada à perfeição, acabará por gerar o que é absolutamente mal.
Antes de o Santíssimo criar a ordem especial de conduta para Suas criaturas, não havia
espaço para nenhum tipo de imperfeição. Mas quando Ele criou essa ordem, isto levou-O a
criar uma ordem que, em sua resolução, produziria o mal. Pois uma vez que a imperfeição
existe, o mal absoluto está destinado a segui-la. Um dos principais fenômenos criados pelo
Santíssimo é o da medida e limite, pois em Seu estado abstrato não existem medidas ou
limites. Mas, de acordo com Seu desejo por uma ordem e por níveis, Ele criou tudo com
medidas e ordenou todas as criaturas por níveis, uma abaixo da outra, da primeira à
última. E em cada nível Ele determinou a quantidade de imperfeição e a quantidade do
bem e da perfeição. Em acordo com essa medida é a natureza de tudo aquilo que é
gerado naquele nível, em todas as suas facetas e modos, tudo operando dentro do seu
contexto, cada coisa dentro de seu quadro.

Porque o Santíssimo manifesta duas qualidades conjuntamente (ocultação e revelação do


semblante, conforme já mencionamos), as entidades do corpo e da alma existem, sendo o
corpo inferior à alma por natureza e contendo imperfeições ausentes nesta. Mas isto não o
torna mal. Já que o Santíssimo desejou criar uma entidade do mal, o que é o oposto à Sua
perfeição, Ele ocultou Seu semblante o máximo possível, até que Se fez completamente
encoberto e sem nenhum brilho, dando origem a entidades malignas, criando o “corruptor
para destruir”. Assim, o mal nada mais é que a retração do próprio Eterno do comando
direto do universo, conduzindo-o de longe, na intensidade da escuridão de Sua ocultação,
investindo nessa natureza todos os mecanismos legais para executar o julgamento de tudo
o que está oculto. Bem como sobre os malvados. Mas a ira do Santíssimo é somente
momentânea, exercendo Sua cólera somente no grau necessário para a criação das
serpentes de fogo destinadas ao guehinom (geena, “inferno”), com as quais castiga os
malfeitores na mesma medida de seu mal. Feito isso, Ele direcionou e depositou Seu
esplendor nas criações individuais – de modo que sejam criadas, existam e não sejam
destruídas, apesar de serem suscetíveis a isso.

O Justíssimo então estabeleceu o Seu caminho de aperfeiçoamento da Criação e voltou-


Se e irradiou Sua face sobre o mundo. Caso Ele tivesse gerado uma iluminação
demasiadamente intensa, as criaturas teriam sido criadas em sua perfeição final, ou seja,
na forma de sua existência eterna. Mas Ele não o fez. Em vez disso, criou seres que
existem e perduram, mas não eternamente. Ele os encarregou, no desenrolar de Sua lei,
de orientar tudo o que Ele criou para Sua honra e a se aperfeiçoar em Sua perfeição, com
o objetivo de iluminar Seu universo com uma luz intensa, da qual resultará a existência
perfeita e eterna do mundo. O mal que Ele criou será removido da terra. Além disso, todas
as criaturas saberão que Ele as beneficiou pelo que fez na época anterior, conforme está
escrito: “Agradecer-Te-ei, ó Eterno, pois (...) desvaneceu-se Tua ira.” (Isaías 12:1)

119 ALMA: Por favor, resuma tudo o que você me disse até agora.
120 INTELECTO: O Eterno, em Seu desejo de instituir uma criação geral do bem e do
mal, de modo que suas criaturas fossem compostas de ambos, manifestou Sua
providência ao criar a presença do bem na natureza. E esse bem foi fixado nela. Depois,
Ele removeu a perfeição dessa providência ao ocultar totalmente o semblante de Sua
bondade, resultando em todos os defeitos que foram fixados na natureza. Em seguida, Ele
fez o contrário e, por meio da iluminação de Seu semblante, criou seres, constituintes da
natureza, em um composto de bem e mal. Nesse estado, esses seres existem mas estão
sujeitos à destruição, não sendo eternos. Mas, no final, Ele fará Seu semblante brilhar com
tamanha intensidade que removerá a extinção da natureza, deixando suas criaturas
perfeitas e eternas.
Devo agora explicar a essência do homem em relação à existência desse mal que
mencionei.

121 ALMA: Continue, estou escutando.


122 INTELECTO: Mas, antes, devo elucidar algo.
123 ALMA: Fale.
124 INTELECTO: A essência do homem vem de uma inteligência profunda, além do
nosso entendimento. O Criador fez diversas criações, uma mais fantástica que a
outra. Nenhuma delas é dispensável, pois nada foi criado em vão e todas se sustentam em
uma só base: o Criador deseja que o homem faça, por meio de seu esforço, a correção de
todas as imperfeições da Criação, elevando-se mais e mais até que venha a se unir com
Ele. Para isso Ele criou o universo com todos os seus mecanismos e ramificações. Tudo
muito complexo, porém conectado numa harmonia e perfeição universal para a qual se
encaminham.

É da Vontade Suprema que o homem se envolva com todas elas e que sejam movidas
pelos movimentos e ações do homem. Elas são comparadas a um grande mecanismo,
como um relógio, cujas rodas encaixam-se de tal maneira que uma roda pequenina move
outras muito maiores. Assim, o Eterno une Suas criações em grandes amarras; e Ele
conectou-as todas ao homem de modo que, por meio de suas ações, é ele quem as move.
E Ele ocultou tudo isso atrás de coberturas de carne e osso, de modo que somente essa
camada corporal é visível. Mas, na verdade, há grandes coisas por detrás disso,
mecanismos magníficos que Ele criou com esse objetivo – em compasso com as ações e o
serviço Divino do homem em direção à sua ascensão e crescimento espiritual, ou em
direção a seu rebaixamento e queda – Deus nos livre! – e seus vários estágios. Mas isso
somente pode ser captado em todos os seus detalhes e fontes pela alma, que Ele incutiu
nesse corpo. E é a isso que o rei David alude: “Ó Eterno, quanto fizeste! Desígnios e atos
plenos de maravilhas a nós dedicastes...” (Salmos 40:6) e “Louvar-Te-ei por me teres tão
maravilhosamente plasmado, pois admiráveis são todas as Tuas obras como bem o sabe
minha alma.” (ibid. 139:14) Pois o corpo não é capaz de conceber muitas coisas como a
alma, pois não são coisas perceptíveis por meio da materialidade, mas somente da
espiritualidade.

Conforme já dissemos, um dos aspectos desses mecanismos é o mal em todas as suas


facetas e tudo aquilo necessário para o primeiro estágio do homem neste mundo. E tudo
isso serve para o objetivo final, que é a revelação da unicidade de Deus, a revelação da luz
em meio à escuridão. Da ocultação inicial do semblante, em todas as suas ramificações,
se seguirá a revelação da unicidade. Agora, entenda que a Vontade Suprema quis a
manifestação ativa da verdade de Sua unicidade por meio de todos os ciclos que Ele
coloca em ação em Seu universo, conforme indicado pelo verso citado anteriormente
(Isaías 43:10): “Vós sois as Minhas testemunhas – diz o Eterno – Meus servos a quem
escolhi, para que possais saber, acreditar e compreender, que Eu sou o Eterno. Nenhum
deus havia antes de Mim e nenhum haverá depois”, e no de Deuteronômio 32:39: “Vede,
agora, pelo castigo, que Eu rebaixo e Eu exalto, e que não há outro deus Comigo.” Pois,
inicialmente, Ele desejou manifestar isso em realidade e estabelecer todo o ciclo em
movimento de modo que se resolva por si só. Mas quando isso for alcançado, ou seja,
quando isso for realmente manifestado em realidade, deste ponto em diante se seguirão
unificação e realização; Suas criaturas com Ele se unirão e terão prazer na perfeição de
Sua unicidade, que será revelada. Elas gozarão do esplendor de Sua presença e
alcançarão, por meio dessa perfeição, estágios infinitamente mais profundos que o
primeiro, por toda a eternidade.

Assim, encontramos dois tipos de ações em relação ao Eterno. A primeira é o que Ele fará
após a Sua unicidade ser revelada e acreditada ativamente pelos seres humanos. Isso
abrange as generalidades da gratificação e recompensa, cuja essência e detalhes não
podem ser captadas pelo corpo. Mas o que sabemos com certeza é que o caráter geral
dessa recompensa pode ser descrito como “gozar do esplendor da santidade do Eterno”,
conforme disseram nossos sábios: “Os justos se sentam, suas coroas sobre suas
cabeças, e gozam do esplendor da Presença Divina.” (Berachot 17a) E, indubitavelmente,
haverá muitas variedades diferentes de prazer, se compararmos com aquilo que já
observamos neste mundo, que é como uma sombra, mas mesmo assim tem diversas
variedades de prazer dadas pelo Criador aos seres humanos para aproveitarem, apesar
de serem somente prazeres dos sentidos e nada mais. Enquanto que, no momento que
está por vir, existirá somente um tipo de prazer – o único bem será o bem espiritual da
compreensão e da união com Deus. E é isso que eu falei sobre a providência do Eterno:
que esta existe somente para gerar estados espirituais de santidade.

O segundo tipo é o processo de revelação que ainda não se completou – ou seja, do início
da Criação até a redenção final (que seja brevemente em nossos dias!), tendo sido dito
sobre esta época: “E o Eterno será Rei sobre toda a terra; naquele dia, o Eterno será um
e Seu Nome, um.” (Zacarias 14:9) Entretanto, todos esses mecanismos já mencionados se
relacionam com o segundo tipo, a revelação da unicidade de Deus por meio da ocultação
do semblante que precede a revelação, conforme já mencionamos. Envolvido com esses
mecanismos está a ideia do mal, sobre a qual também falamos anteriormente.

Assim, enquanto o mal nada mais é do que defeito, perda e destruição, ainda assim,
conjuntamente com outros mecanismos, ele é exatamente o contrário – a fonte da bondade
do homem! Pois é sobre ele que se desdobram todo o mérito e a possibilidade do serviço
Divino. E o objetivo de sua existência (do mal) não é dominar, mas ser dominado. Ou seja,
ele existe somente para ser talhado pelo homem, assim como a pedra na encruzilhada na
parábola mencionada anteriormente. Deste modo, o mal foi criado para ser destruído, e
pode ser considerado de duas maneiras: sob o ponto de vista de sua existência ou sob o
ponto de vista de sua erradicação. Em relação ao seu início, é certamente mal, mas, em
relação ao seu final, tudo é para o bem, pois, ao mesmo tempo que está afirmando seu
poder, está também agindo como precursor do bem. Pois é por meio dessa escuridão que
a luz da Perfeição Suprema será reconhecida quando for a hora. Nesse aspecto, quanto
mais escuro maior a revelação da verdade de Sua unicidade quando Ele destruir esse mal.
Além disso, esse mal provê ganhos para aquele que é por este testado. E mais ainda: ele
cria para o homem a oportunidade do verdadeiro serviço e ação, pois o homem aperfeiçoa
a Criação com suas próprias mãos, removendo a imperfeição da Criação e tornando-se
(por assim dizer) um parceiro do Eterno neste mundo.
Por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?

Outro aspecto é o teste ao qual o mal faz com que os justos sejam submetidos – não no
sentido da tentação pelo pecado, mas, sim, como consequência decorrente da ocultação
do semblante Divino.

Afinal, não foi Deus quem afirmou por meio de todos os seus profetas que é Ele quem
supervisiona todas as Suas criaturas e que seus olhos estão sobre todos os caminhos do
homem, para retribuir a cada um de acordo com o seu caminho e com os frutos de suas
ações, sem jamais cometer injustiças? E após ter-nos dito isso, Ele conduz o mundo como
se estivesse distanciado de tudo, parecendo que está a provar, ostensivamente, o oposto
de tudo isso – Deus nos livre! Isto porque, algumas vezes, parece-nos que tudo está nas
mãos do acaso, ou, em outras ocasiões, como se o trabalho do mal tivesse se elevado e o
homem de valor, aquele que serve a Deus, não tenha recebido a recompensa por todo seu
esforço e trabalho.

Quantos suplicam, mas não vêm suas súplicas atendidas? Considere todas as situações
criadas por Deus para tentar o coração dos homens. E é a isso que o rei David alude:
“Quanto a mim, por pouco não tropeçaram meus pés (...) pois invejei os dissolutos...”
(Salmos 73:2-3) E é exatamente este o teste: saber se os homens permanecerão fortes
em sua fé e não se desviarão da convicção de seus corações, afirmando com toda
convicção: “Ele é certamente um Deus de fé, que não comete injustiças, mesmo que não
entendemos Seus caminhos.” E é em relação a isso que está escrito: “E o justo, porém,
sobreviverá por sua fé” (Habacuc 2:4), conforme já explicamos anteriormente.

Assim, há, em verdade, um ganho, que deriva da ocultação da Perfeição Suprema, tendo
Deus permitido ao mal que obscurecesse a face do mundo para que se realizasse esse
teste. Pense, sob esse aspecto, quão amados pelo Santíssimo serão aqueles que
superarem tal desafio e quão maravilhosa será a recompensa por seu serviço Divino após
a vinda do Mashíach!

É sob esse aspecto, de perseverar em honrar ao Santíssimo, que mesmo a maior


escuridão da ocultação do semblante de Sua bondade leva à Sua glória e resulta em
múltiplas recompensas para o justo. Entretanto, esse mal somente está destinado a
resultar no bem por meio desses mecanismos que nós mencionamos, os mecanismos de
causa e consequência que conduzem tudo para o bem.

Nós já mencionamos que este mal, isolado desses mecanismos, é realmente mal e
amargo, destruição e perda. Entretanto, dentro do contexto desses mecanismos, ele
também pode ser considerado como uma das necessidades do homem e como um dos
complementos essenciais de seu ser. Pois, apesar de sua natureza essencial ser
exclusivamente uma força para o trabalho do mal, ainda assim, combinado com todos os
mecanismos estabelecidos pelo Criador para a busca da perfeição, o mal existe somente
para ser dominado. A má inclinação e todas as suas luxúrias devem ser incutidas no
homem não para que ele seja por elas influenciado, mas, sim, para subjugá-las e livrar-se
delas, apesar de não perder sua natureza má. Mas também isso é bom – que o mal seja
parte da constituição do homem, conforme já dissemos, sabendo que esse mal não causa
perda e deficiência no homem devido aos componentes positivos de sua natureza. No final,
quando os verdadeiros frutos desses mecanismos para os quais foram criados emergirem,
eles se revelarão como o meio de erradicação da existência do mal e o aperfeiçoamento
de toda imperfeição.

Percebemos assim que, quando o Criador estabeleceu este mundo, Ele o investiu com
tudo que fosse necessário para este primeiro estágio do homem, o do serviço Divino.
Depois Ele criou o mal em sua plena natureza e seus poderes, possuindo tanta força
quanto a do serviço Divino e a perfeição relacionados ao homem. Feito isso, Ele completou
seu trabalho ao criar todos os mecanismos que já mencionamos, designados para fazer o
que necessário fosse para a anulação desse mal, a fim de elevar o homem e fazê-lo
alcançar a perfeição. Dentro desse contexto, não foi dado ao mal liberdade total para
exercer todos os seus poderes. Pelo contrário, o mal é vulnerável a todas as forças que o
Eterno criou para sua erradicação. Nessa conjuntura é que este mundo e a humanidade
foram subsequentemente criados.

Resulta daí que todo o atributo do bem (a afirmação desses mecanismos celestiais que
mencionamos) e o atributo do próprio mal são, ambos, instrumentos do bem na construção
do homem. O resultado final de tudo isso é o surgimento do fruto de todo o processo: a
perfeição universal. Entretanto, visto que esse processo ainda não se completou, apesar
de o mal também ser para o bem do homem (para ser dominado por ele), ele também
pode causar danos – Deus nos livre! –, se o homem não o dominar, pois assim será o mal,
e não a perfeição, que prevalecerá. No final do processo, porém, quando o mal tiver sido
erradicado, a tranquilidade da Criação será eterna.

125 ALMA: Até agora você falou do mal somente em geral. Seja mais específico.
126 INTELECTO: O mal se divide em duas categorias: a primeira, relacionada à sua
baixeza e inferioridade; a segunda, com a suscetibilidade da criação à deterioração.
Analisemos cada uma separadamente.

Em relação à primeira categoria – relacionada à sua baixeza e inferioridade –, até mesmo


os anjos são classificados em uma ordem decrescente. Apesar disso, são todos
considerados como estando num estado de pureza, nobreza e preciosidade. A “baixeza” à
qual nos referimos aplica-se somente ao corpo do homem e tudo que está abaixo dele,
trilhando o caminho – por meio de canais corporais e terrenos – do “pó da terra” (Gênesis
2:7). Entretanto, devemos compreender que, se o homem estivesse em seu nível
apropriado, sua condição corpórea não seria considerada baixa ou vergonhosa. Pois
aquele que está no nível apropriado à sua natureza está em seu local adequado e não
deve ser considerado como “baixo”, mesmo que esse nível seja baixo. A “baixeza” e a
inferioridade, em seu sentido verdadeiro, referem-se a alguém que poderia ter alcançado
um nível mais alto, o que lhe seria apropriado, mas, mesmo assim, permaneceu em um
plano mais baixo e inferior.

Mas eu ainda estou falando de maneira geral. Vamos agora descer a particularidades e
entender a essência do homem em sua superioridade, em sua inferioridade e em todos os
seus níveis. Você perceberá a imensa sabedoria do Eterno, que criou uma grande
variedade de condições para o homem, de modo que ele possa experimentar tudo o que
for necessário em relação ao serviço Divino e à sua recompensa em todas as épocas.
Vamos explicar isso em detalhes.
A formação do homem

O homem age, e suas atitudes têm consequências. Pois, à luz dos mecanismos que já
mencionamos, sabemos que o menor movimento do homem é capaz de mover vários
sistemas: criaturas celestiais e terrenas, poderes espirituais e físicos, todas as forças
operantes e a providência do Eterno sobre estas. E, com tudo isso, nenhum homem é igual
ao outro e nem seus atos são iguais, pois o Eterno estabeleceu limites entre todas as Suas
criaturas com uma precisão infinita. Assim, dois homens podem estar sentados à mesma
mesa, conversando, comendo e bebendo, e os atos de um alcançar alturas celestiais
enquanto os do outro não ascendem e nem sequer se aproximam do primeiro.

Vou lhe mostrar isso de forma clara: Ionatan ben Uziel * está sentado estudando. Enquanto
isso, cada pássaro que voa sobre ele queima (Sucá 28a). Milhares e centenas de milhares
de pessoas sentam e estudam e nada semelhante acontece. O mesmo princípio é ilustrado
em relação ao alimento santificado.** Comê-lo é uma grande mitsvá (boa ação), enquanto
comer um alimento não-santificado não o é, apesar de ambos serem comidos da mesma
maneira. O sacerdote que come e se alimenta de uma comida santificada está praticando
uma mitsvá, enquanto aquele que não é sacerdote e o faz incorre em pena de morte.***

* Sábio da Escola de Hilel que viveu na época do Talmud. (RCVP)

** “Codashim” são alimentos ofertados ao Templo e que, por isso, tornaram-se sagrados. Só o “cohen” (sacerdote) e
sua família podiam comê-los em estado de pureza. (RCVP)

** Um estranho (“zar”) que comesse dos “Codashim” estaria profanando o serviço do Templo. (RCVP)

As próprias mitsvót são indicativas desse fato. Nossos sábios disseram: “Aquele que faz
(uma mitsvá) quando ordenado é maior que aquele que faz sem ser ordenado.”* (Avodá
Zará 3a) O primeiro aperfeiçoa toda a Criação, enquanto o segundo não chega a esse
nível. Mesmo assim, ambos estão fazendo o mesmo ato com a mesma intenção! A
verdade é que as condições daquele que atua e do objeto sobre o qual atua, e tudo aquilo
que os auxilia, são o que alteram e modificam as consequências das ações. Uma vez que
Ionatan ben Uziel era um homem extremamente santo, cuja alma era coroada com
santidade e uma grande luz, cada um de seus atos ascendia, alcançando as alturas
celestiais e movendo todas as “esferas”de santidade. Os atos de outro homem, que não
seja tão santo, não terão a mesma ascensão.
* Como no caso de Abrahão, que esperou a ordem de Deus para fazer a circuncisão mesmo já sabendo da
necessidade dessa “mitsvá”. (RCVP)

Existe uma grande variação na escala, que depende da preparação do indivíduo, de seus
atos, da época em que são praticados e de todos os demais fatores subsequentes. Esse é
o estado de preparação que o Eterno – bendito seja Ele! – investiu em seu povo de Israel
no começo, para que ele pudesse cumprir e praticar toda a Torá e suas mitsvót. Pois, sem
essa preparação, ele não seria capaz, por meio de suas ações, de efetivar a grande
perfeição que, em geral, faz o universo alcançar, conforme explicaremos. Com tudo isso,
essas variações de escala que mencionamos ocorrem também em seu íntimo, não
havendo comparação entre os atos de alguém que não é estudioso da Torá e alguém que o
é; ou entre os atos de um estudioso que não é excepcionalmente santo e um que é mais
santo; ou entre os atos de um que é santo e outro que é mais ainda, um dos poucos
escolhidos pelo chamado de Deus; e assim por diante, até chegar Moisés, nosso mestre –
que a paz esteja com ele!*

* Isso também é devido à santidade e pureza de pensamento que se coloca ao praticar alguma ação. (RCVP)

Aqui você precisa aprender algo sobre os seres humanos em geral, descendentes de Adão
e sujeitos a mais diferenciações e variedades de tempo. Antes de seu pecado, Adão era
adornado e coroado com santidade e preciosidade, a tal ponto que os anjos celestiais
queriam entoar ‘Santo, santo, santo’* perante ele, conforme dizem nossos sábios no
Midrash (Bereshit Rabá 88:6). Ele possuía conhecimento, santidade e todas as qualidades
nobres, em alto grau, pois fora feito pelas mãos de Deus, abençoado seja. Assim, suas
ações certamente abalavam todos os mundos, pois, assim como ele, também estes o
eram. Ele poderia ter ascendido a níveis muito mais elevados, caso tivesse obedecido ao
comando do Eterno, e tudo aquilo que está destinado a acontecer depois da ressurreição
poderia ter ocorrido bem no início, mesmo sem que fosse alcançado pela morte.

* Kedushá: trecho lido na repetição da Amidá no qual se diz “Cadosh, cadosh, cadosh”. (RCVP)

Devemos notar, entretanto, que, apesar de ele ter sido muito superior à espécie humana
que nós conhecemos hoje, Adão também era suscetível à deterioração, suscetível ao
pecado e à morte, o que de fato aconteceu. Caso ele tivesse obedecido a Seu comando,
Adão teria alcançado a perfeição absoluta, a existência eterna e a não-suscetibilidade a
qualquer mal. Ao pecar, não só deixou de ganhar aquilo que poderia ter alcançado como
perdeu o que já possuía, tornando-se o homem modesto e vil de hoje. Conforme dizem as
escrituras, “Porém o homem, com toda a sua riqueza, não persiste, pois, como qualquer
ser vivo, é mortal” (Salmos 49:13)

Assim, há três variações do nível do homem: seu nível antes do pecado, seu nível após o
pecado e o nível que poderia ter alcançado caso não tivesse pecado (este será o seu nível
após a vinda do Mashíach). Seu nível antes do pecado era um meio-termo entre o que se
tornou depois e o que poderia ter sido caso não tivesse pecado. Descobrimos, então, que
o homem não foi criado completo, mas, sim, que passou por um rebaixamento preliminar
determinado pelo Criador, tendo sido criado em um estado mais baixo que o apropriado
para ele e sujeito a um rebaixamento ainda maior caso pecasse, como de fato veio a
ocorrer. Todas estas são condições preparadas pelo Eterno, criadas para que seguisse o
mundo por uma trajetória necessária.

Vamos nos aprofundar neste assunto para que possamos entendê-lo bem. Nossos sábios
disseram: “O calcanhar de Adão ofuscava a órbita solar.” (Tanchumá, Acharê Mot 2) E
eles enumeraram seis coisas que Adão perdeu devido ao seu pecado (Bamidbar Rabá
13:11), entre elas “estatura” e “esplendor”. A ideia aqui expressa é de que o Eterno faz
todas as coisas com uma precisão incrível, e todos os seus aspectos são determinados
pela perfeição nelas residente. Em relação ao assunto de que estamos tratando, podemos
afirmar que também a constituição e forma do homem, bem como a de todos que com ele
se relaciona, foram determinados pela importância de sua função. Já citamos o versículo
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). Já
que o Criador desejou fazer o homem superior a todas as demais criaturas, decidiu fazer
também com que sua forma física refletisse essa superioridade. Aliás, não somente sua
forma e constituição, mas Ele quis também que tudo o que acontecesse ao homem e tudo
o que com ele se relacionasse estivesse de acordo com esse estado. Basta observarmos
toda a beleza que Ele investiu na criação do homem, mas que não investiu nas demais
criaturas, no contexto da imensa sabedoria que caracteriza todos os Seus atos, pois Ele
tudo faz da melhor maneira possível.
Note que o homem pode estar somente em um lugar em cada momento, e que necessita
de um período de tempo para se locomover de um lugar para outro. Já os anjos, por
serem mais exaltados que este corpo, não são limitados e, por isso, lhes foi atribuído a
capacidade de voar. Os sentidos do homem funcionam somente dentro dos parâmetros
que o delimitam, o que não ocorre com entidades espirituais. Em suma, todos os eventos
relativos a alguma coisa, em todos os seus aspectos, são sempre relacionados à natureza
essencial dessa coisa.

Verificamos que há duas diferenciações entre o homem e as demais criaturas. Primeiro, o


estabelecimento daquilo que é afetado por sua existência e os eventos daí decorrentes, ou
seja, pelo resultado de sua existência e interação. Segundo, a maneira como operam, ou
seja, sua forma e a de suas atividades. Pois aquilo que move o corpo pode também mover
a alma, ou mesmo um anjo, mas cada um em sua maneira individual.

Dois fatores são considerações soberanas nas atividades do Eterno. Primeiro, o


estabelecimento daquilo que é afetado pela atividade das criaturas (e isso inclui todas as
leis de Sua conduta e ordens de Seus mecanismos, que já mencionamos). Segundo, o
estabelecimento da maneira pela qual essas criaturas conduzem suas ações para alcançar
estes resultados. Também aqui há condições apropriadas e necessárias para o
cumprimento de suas funções.

Sabemos que, no início, antes de seu pecado, Adão estava num nível muito elevado,
primeiro em relação à sua própria existência, ou seja, em relação aos seus atos, que o
elevavam a níveis muito altos; segundo, em relação à sua forma, pois a pureza de seu
corpo era comparada à natureza dos anjos, de modo que o habitat que lhe era apropriado
era o jardim do Éden que é, atualmente, a morada dos anjos e espíritos.

Nossos sábios sugeriram isso ao afirmarem: “Foi encontrado escrito na Torá de Rabi Meir:
‘vestimentas de luz’.” (Bereshit Rabá 20:12) Isso já foi bastante discutido por nossos
sábios, pois quer nos enfatizar a pureza do corpo de Adão antes do pecado, um corpo que
veio depois a tornar-se rústico e bruto, conforme é hoje em dia. Na verdade, nós
testemunhamos um paralelo do corpo de Adão em nosso mundo, quando Enoque e Elias
tiveram seus corpos purificados e exaltados à altura dos anjos. É desnecessário mencionar
que os movimentos e atos de Adão eram também de uma ordem espiritual rara, como,
mais tarde, os de Enoque e Elias. Observe então o que era e continuará a ser o jardim do
Éden: um domicílio espiritual onde os espíritos habitam até hoje.

A Torá testemunha que Adão lá viveu e aproveitou das frutas que lá cresciam. Mas como
vemos que o local é o habitat atual das almas, provavelmente seus frutos não eram
terrenos, mas, sim, muito mais delicados, como na comparação entre o ar e a terra. E não
era um corpo rudimentar que os consumia, mas, sim, um corpo quase espiritual, como os
de Enoque e Elias. Conforme já dissemos, os caminhos de nossos atos seguem a natureza
dos resultados a serem alcançados por meio deles. E há uma correspondência exata entre
a natureza e as condições de todas as criações em termos das ações daquele que as
realiza, dos resultados e do local.

Devemos observar que a corporeidade de Adão antes de seu pecado corresponde


virtualmente à espiritualidade atual do homem. Pense então em como devia ser a sua
espiritualidade e nas ramificações de suas ações. Basta mencionar o que disseram nossos
sábios: “Os anjos celestiais desejavam entoar ‘Santo, santo, santo’ perante ele.” (Bereshit
Rabá 8:10) Daí podemos deduzir o que ele poderia ter sido, caso não tivesse pecado. Ele
teria alcançado o nível que lhe era destinado. Como a corporeidade de Adão antes do
pecado corresponde à nossa espiritualidade nos dias de hoje, podemos concluir que sua
corporeidade, caso ele tivesse se elevado,* poderia ter correspondido à sua espiritualidade
original. Pois assim é a natureza: progredir a níveis cada vez maiores.

* Caso não tivesse pecado. Pois, se antes do pecado sua alma era como a nossa hoje em dia, então, caso não
pecasse, seu corpo passaria por um processo de elevação e se tornaria equivalente à sua espiritualidade original.
(RCVP)

Esta é a ideia oculta sobre as árvores – a árvore da vida e a árvore do conhecimento.


Certamente não devemos dissociar as escrituras de seu sentido mais claro: as árvores
eram árvores, a fruta era uma fruta e comer era comer. Mas as frutas eram, por assim
dizer, etéreas, e comer era um ato também etéreo, algo inconcebível para nossas mentes
que somente visualizam aquilo que é corpóreo. Mas será que não observamos frutas
comuns que se diferenciam dentre outras por terem propriedades curativas? Será que não
fazemos uso de maravilhas que existem como propriedades naturais? Da mesma forma,
aquelas frutas tinham certas propriedades nelas investidas pelo Criador. Os frutos da
árvore da vida continham a propriedade de implementar no coração do homem o
conhecimento correto, a união e o amor pelo Criador e o conhecimento de Seus sagrados
caminhos, além de removerem a luxúria de sua alma. Os frutos da árvore do
conhecimento, ao contrário, imbuíam o coração com luxúrias materiais e físicas e com
todos os pecados.

Se Adão tivesse comido do fruto da árvore da vida, e não do fruto da árvore do


conhecimento, ele teria alcançado uma maior proximidade com a santidade de seu Criador,
regozijando-se com ela eternamente. Mas, ao comer do fruto da árvore do conhecimento,
ele ficou mais próximo da luxúria e da materialidade. Assim, medida por medida (midá
kenégued midá), ele perdeu a glória de sua espiritualidade e tornou-se um ser material na
natureza pelo número de dias decretados, até expiar seu pecado, arrepender-se e curar-
se, dentro do princípio: “Uma vez que ele foi atingido, ele é como seu irmão.” (Macot 23a)
Então ele retornará à sua força original e completará tudo aquilo que é necessário para
sua perfeição.

Tudo isso é parte da primeira categoria do mal.

A segunda categoria do mal é a suscetibilidade da criação à deterioração e à destruição,


conforme já falamos. Saiba que a deterioração é normal somente nesta forma mundana,
mas não em qualquer forma superior. Quando Adão se encontrava em um estado mais
perfeito e exaltado, ele não era suscetível a doenças ou ferimentos. Tudo isso foi
determinado desde o começo e, desde a criação do próprio mal, isso foi implementado nas
leis da natureza. Em relação ao rebaixamento de Adão logo após a sua criação, fica ainda
mais óbvio que isso tinha que acontecer.

Assim, o Santíssimo criou primeiramente a providência necessária para o estado de


perfeição de Adão, que é a derradeira existência do homem em potencial.
Subsequentemente, Ele desejou rebaixá-lo, retirando-o da condição exaltada que lhe seria
apropriada, de modo que houvesse espaço para ele se aperfeiçoar, voltando ao nível que
lhe deveria corresponder. Primeiramente foi rebaixada a providência. Ela teve seu poder
enfraquecido e sua natureza e status diminuídos, de modo a não mais criar os homens
naquele estado exaltado, mas, sim, já rebaixado e com defeitos. A questão crucial aqui é
que essa providência é impedida de criar criaturas exaltadas e perfeitas não como uma
deficiência de seu poder, mas, sim, por um impedimento externo a ela. Ou seja, em termos
de sua natureza, ela deveria gerar uma criação perfeita, mas é impedida de fazê-lo pelo
mal, que leva a esse rebaixamento. Isso está aludido nas escrituras: “Enfraqueceste o
Forte que te gerou” (Deuteronômio 32:18) e “Por não ter o Eterno poder” (Números
14:16), interpretado pelos nossos sábios (Berachot 32a) como uma alusão ao
enfraquecimento de Seu poder como o de uma pessoa fragilizada (sendo isso apenas uma
forma de falar).

E é no rebaixamento dessa providência, por meio do enfraque-cimento de seu poder, que


se abre espaço para o mal absoluto, conforme já explicamos.

E agora retorno ao ponto mencionado no começo: o Criador não implementou extinção e


deterioração na natureza das criaturas perfeitas, mas, sim, na natureza daquelas
imperfeitas, de modo que, quando essas criaturas se aperfeiçoarem após a vinda do
Mashíach, elas não serão suscetíveis a nenhum tipo de extinção. Devo agora lhe explicar a
natureza desse defeito dentro da perfeição que leva à extinção. Você mais uma vez
constatará como é perfeita a sabedoria que emana das leis do Eterno e a preciosidade
singular que é característica de Israel.

127 ALMA: Desejo compreender isso da forma mais completa e profunda possível. Terei
prazer em sua explicação.

128 INTELECTO: Aquele que observa superficialmente os componentes desta criação


irá, em princípio, achá-los dispersos e separados, ou seja, desprovidos de um
objetivo comum, formando cada um deles uma entidade em si e servindo às suas
finalidades específicas, completas em si e independentes de seus elementos adjacentes.
Pois há tantos elementos entre os seres inanimados, entre os vegetais e entre os animais,
que se poderia dizer que não há um relacionamento, uma interdependência e um fim
comum entre todos eles, mas, sim, que cada um foi criado com seu objetivo e que todos
os seus aspectos servem para esse objetivo em particular, e nada mais. Apesar disso, não
se pode deixar de notar uma hierarquia na natureza, e aquele que refletisse sobre os
componentes da Criação acharia todos eles representados dentro dessa hierarquia. Se
começasse das alturas celestiais e fizesse a análise de maneira descendente, até as
profundezas da terra, refletindo sobre o espaço acima de cada componente, achá-los-ia
alocados apropriadamente, um sobre o outro.
Quem, em sabedoria, fizesse um estudo mais profundo, verificaria que todos esses
componentes estão interconectados por um vínculo com o objetivo de completar o que foi
determinado pela Sabedoria Suprema na Criação, reunidos para um só fim, atendendo a
determinadas condições, com uma lógica profunda em sua classificação. São inter-
relacionados segundo a ordem desejada pela Inteligência Suprema, e de todos eles
combinados surgirá o bom fruto que deve produzir a Criação. Como já disse, este é um
assunto profundo, pois neste ponto a sabedoria deveria se ramificar e ser infinita, para
perceber a função de cada componente e seu lugar dentro deste objetivo universal.

Nossos sábios disseram: “Tudo aquilo que o Santíssimo criou neste mundo, o fez somente
para Sua honra.” (Avót 6, final) Precisamos agora entender esse conceito de honra, pois
ele também foi criado pelo Eterno, assim como todos os Seus outros atributos. Quando
entendermos esse conceito, entenderemos também o objetivo de toda a Criação na
realização dessa honra, isto é, como todos os componentes são necessários e como todos
se unem para alcançar esse objetivo.

Por enquanto, é suficiente compreender somente isto: todos os aspectos das criações são
interconectados e operam conjuntamente para alcançar uma mesma finalidade. Daí se
conclui que sua perfeição não é alcançada individualmente, mas, sim, em conjunto, na união
de todos os componentes, tendo em comum o mesmo objetivo. Nisto consiste a sua
perfeição, pois contribuem mais diretamente às finalidades para as quais foram criados –
as finalidades universais já mencionadas.

Não há mal no mundo exceto em elementos isolados, que devem ser vistos como partes
contribuintes de um processo geral. Também não há nenhum mal que seja, em si,
completo. Já que sabemos que tudo que o Eterno – abençoado seja Ele! – faz é
completamente bom; aquilo que nos parece imperfeito em algum de seus aspectos ou em
uma de suas condições é compensado por alguma outra condição, e a imperfeição original
consiste em uma falta de completude do conjunto de condições. Quando essa completude
é preenchida, a resultante é certamente boa. Cada ato em si demonstra isto, e o ciclo
global do mundo também irá confirmar isso no final, com o cumprimento da profecia:
“Agradecer-Te-ei, ó Eterno, pois embora estivesses zangado comigo, desvaneceu-se Tua
ira e me confortaste.” (Isaías 12:1) Pois nessa época, todos os aspectos de todos os atos
terão alcançado a compleição, sendo, portanto, reconhecidos como o verdadeiro e genuíno
bem em toda a sua dimensão.

Isso vale para nossa afirmação de que, no início, o Criador organizou a natureza, como já
explicamos, tendo cada espécie uma escala de graduação.

E é em relação a isso que nós falamos sobre extinção e deterioração, ou seja, como se
aplicam a cada espécie em si. Entretanto, sua interconexão e conjunção rumo ao objetivo
universal é, pelo contrário, uma correção para isso, pois é por meio delas que saem da
esfera do mal e dela são resgatadas.

É isso que já mencionamos: que tudo aquilo que foi criado pelo Eterno foi para a Sua
honra. Essa honra consiste no regozijo que o Eterno sente em todas as Suas obras, dando
lugar, por assim dizer, para que Suas criações, por sua vez, se regozijem em Seu bem. O
objetivo final de todos os Seus atos é trazer tudo para a perfeição absoluta, de modo que
o mal não seja mais existente. Esse resultado só pode ser percebido na conjunção de
todos os atos. Em resumo, é nas espécies da natureza em si, e não nas suas inter-
relações, que a extinção e a deterioração atuam; suas inter-relações são baseadas em
sua perfeição e fogem a qualquer mal.

129 ALMA: O que você disse está claro. Mas você ainda deve me explicar a ideia da
preciosidade de Israel, pois ainda não entendo onde isto se encaixa aqui.
A importância de Israel

130 INTELECTO: Eu já expliquei as variações na providência que levam a variações


correspondentes em seus resultados, ou seja, nos acontecimentos do mundo. Mas a
primeira razão por trás de tudo isso e a razão das variações na providência remetem a
Israel. Deixe-me explicar.

O Eterno Se comporta como um pai diante de seu filho em relação a Israel, ou como um
jovem marido em relação à sua esposa. Todos os Seus desejos estão relacionados
conosco, conforme está escrito no Cântico dos Cânticos (7:11): “Eu sou do meu Amado e
Ele me tem afeição!”; nos Salmos (40:6): “Desígnios e atos plenos de maravilhas a nós
dedicastes...”; e no Levítico (26:9): “E olharei para vós (...) e vos multiplicarei...” Isto quer
dizer que o Eterno deseja, por assim dizer, regalar-Se com Suas criações e com elas Se
alegrar, conforme está escrito nos Salmos (104:31): “Queira Ele sempre Se alegrar com o
que criou.”

Devido a Seu amor e a alegria que estas Lhe proporcionam, Ele Se volta para elas, nunca
deixando de beneficiá-las e multiplicá-las. Ele lhes renova constantemente Sua bondade,
providência atrás de providência, da forma que mais convêm para sua perfeição e para seu
bem, assim como os pensamentos que um pai amoroso dedica a seu filho. O fator central
de tudo isso é Israel, pois é para Israel que Suas aspirações Se voltam, como indicado no
verso já mencionado: “Eu sou do meu Amado e Ele me tem afeição!” Assim sendo, o resto
da Criação depende exclusivamente de Israel. Pois quando Deus Se volta para ele com
amor, gera uma sucessão de atos de bondade que alcançam o mundo inteiro. Porém,
quando ocorre uma transgressão, a punição é severa, pois ela leva o Eterno a voltar Suas
costas (por assim dizer) para Israel, como um marido que está zangado com sua esposa,
ou um pai com seu filho.

Sobre essa situação está escrito no Gênesis (6:6): “... e isto pesou em Seu coração”. Pois
em tais circunstâncias, Ele não Se alegra com o mundo e com Suas criaturas – Deus nos
livre! –, e toda a providência se retira, e toda a sorte se vai – Deus nos livre! Deste modo,
vemos que o mal é criado somente por meio da ocultação do semblante, quando o Criador
não Se volta com amor para Suas criações terrenas e não Se alegra com elas, sendo esta
a causa da remoção da providência.

Na verdade, o Eterno previu tanto as ações dos justos quanto as dos ímpios. Isto nos é
ensinado por nossos sábios no Midrash (Bereshit Rabá 2:5): “No início da Criação do
mundo, o Eterno previu os atos dos justos e dos ímpios” e (ibid. 8:4) “O que Ele fez,
então? Afastou de Seu semblante os caminhos dos ímpios, uniu à Sua justiça Sua bondade
e, com as duas em vigor, criou o universo.” Isso significa que, desde seu começo, a
Criação do mundo se fez por meio de sistemas de previsão do futuro – Deus prevendo
aquilo que estava destinado a acontecer e aperfeiçoando as ordens necessárias para o
desenrolar do futuro. A previsão dos atos dos justos trazia (por assim dizer) alegria ao
Eterno e, por meio deles, foi criada toda a ordem da providência benéfica. A antevisão dos
atos dos ímpios dava lugar à suspensão da providência e à destruição.

Deste ponto em diante, estas foram as regras de Deus: as ações dos justos criavam
alegria (por assim falar) para o Eterno, tornando-se a fonte de todo o bem, e as ações dos
malvados entristeciam Seu coração (por assim dizer), tornando-se a fonte de todo mal.
Devemos notar que, se o Eterno Se tivesse concentrado nos atos dos ímpios, o mundo
não duraria. Mas Ele desviou Seu olhar desses atos por estes não serem eternos, mas,
sim, transitórios e passageiros, e baseou-se nas ações dos justos, que estão destinadas a
perdurar eternamente, e com eles criou este mundo e o fez perdurar. Implantou também na
dinâmica do universo que o bem sempre se deve fortificar e prevalecer, até o mal ser
removido e totalmente anulado do universo.

Assim, na verdade, todas as ordens da Administração Suprema e todas as suas


ramificações são fundamentadas exclusivamente em Israel, ou seja, voltando Ele, com
amor, Sua bondade para Israel, ou – Deus nos livre! – dele Se afastando. Israel emerge,
assim, como a base de toda a Criação, dependendo dele todos os acontecimentos.

Não vou me alongar mais, agora, sobre este assunto, mas, sim, sobre o que mencionei
anteriormente: que as perfeições da providência advêm do amor que Ele dedica às
criaturas terrestres, e o oposto advém de seu afastamento.
Agora já sabemos tudo o que é necessário saber sobre a criação do mal. Devemos agora
explicar o que o Criador providenciou para transformá-lo e removê-lo da Criação, de modo
que toda a Criação se aprimore até o auge da perfeição após a vinda do Mashíach.
Sobre a morte

Primeiramente, devemos entender que, apesar da Vontade Absoluta ter dado origem às
falhas, o objetivo não foi mantê-las, mas, sim, removê-las e suplantá-las pela perfeição
completa. Ele não decretou que essas faltas fossem totalmente removidas, de modo que
nenhuma lembrança delas fosse guardada, mas, sim, que essas faltas fossem passíveis
de consertos e que a essência das criações se mantivesse mesmo em meio às faltas, até
que retornassem à sua força original, assim como se processa a cura de um doente.
Preste atenção na verdade destas palavras em todas as ocorrências do mundo: as faltas
não foram instituídas para destruir o bem, mas, sim, para corroê-lo durante algum tempo,
após o qual são removidas e o bem retorna à sua força original. Observe que, mesmo a
morte, a maior ausência do mundo, não é uma ausência completa, pois há a ressurreição.
Mesmo que o corpo retorne ao pó, ali permanece, conforme sabemos (Vayicrá Rabá
18:1), um osso denominado “luz”, a partir do qual o corpo será reconstituído. O que é
menos que a morte não é, certamente, uma ausência completa, mas, sim, uma falta
passível de correção.

Am Israel (o povo judeu) foi trazido ao pó no exílio, tendo sido escrito sobre ele que “Fez-
me habitar nas trevas como aqueles que já morreram” (Lamentações 3:6). Entretanto e
apesar disto, está escrito: “... mesmo assim, estando eles na terra de seus inimigos, não
os desprezarei e não os rejeitarei para consumi-los...” (Levítico 26:44) e “Porque Eu, o
Eterno, não mudei, e vós, ó filhos de Jacob, não fostes consumidos.” (Malaquias 3:6) O
Eterno não Se arrepende de Suas criações, desprezando-as; e embora as deixe
vulneráveis a defeitos, não as abandona nem as rejeita, antes permite que sofram aquilo
que Ele sabe que é para o seu bem. Este é o motivo pelo qual sustenta a sua existência,
mas permite que se refinem no crisol dos sofrimentos de suas aflições. Depois disto,
florescerão como uma videira e renovarão seus brotos, como a terra que germina após o
inverno e o jardim no qual crescem as plantas, perfumando o ar com seus aromas. Isto
ocorre pela ação das próprias sementes. Apesar de apodrecida sob a terra, ela não está
completamente perdida, pois germinará do pó.

Compreendemos, assim, que o Eterno não ensejou a negação irrevogável de Suas


criações, mas permitiu que ocorressem faltas, sujeitas à correção. Como já explicamos, o
Eterno não associa Seu nome com o mal. Do mesmo modo, é da natureza de Sua
perfeição sustentar todas as coisas boas, mesmo em meio aos defeitos advindos da
época da deterioração, e não abandoná-las, pairando sempre sobre elas para sustentar o
bem, para que este não se perca totalmente.

Isto pode ser bem percebido, no caso do ser humano. Quando um homem morre, sua alma
o deixa e seu corpo retorna à terra, de onde veio. O que acima expusemos corresponde
perfeitamente a esse caso, pois o homem é constituído da escuridão da corporeidade (seu
corpo tendo origem na ocultação do semblante do Eterno) e da espiritualidade, que o
anima e refina (como resultado da irradiação de Seu semblante).

Enquanto o Criador seguir essa lógica aplicada ao homem, ele viverá em seu mundo. Mas
quando o Criador deixar de irradiar o brilho de Seu semblante sobre ele, de modo que
somente a escuridão de sua natureza permaneça, a alma deixará o corpo, que se tornará
tão sem vida quanto uma pedra. Ele também estará sujeito à dissolução e deterioração.
Está escrito: “Quando escondes Teu rosto perturbam-se, quando lhes tiras o fôlego
expiram, e ao pó retornam.” (Salmos 104:29) Mas, uma vez que o Criador não ocultará
completamente o semblante de Sua bondade para sempre, pois alguma centelha de Sua
luz irá iluminar a escuridão da ocultação para dar continuidade ao universo, também este
corpo não passará por uma dissolução completa e a alma não irá deixá-lo completamente.
O que irá ocorrer é aquilo que nossos sábios aprenderam e nos transmitiram por meio da
tradição. Encontra-se entre os ossos da sepultura um elemento de vida denominado
osseous vapor, que sustenta os mortos para fins da ressurreição, de modo que aqueles
que ressuscitarem não sejam criaturas novas, mas aquelas mesmas que morreram,
conforme está escrito: “E o Eterno te guiará continuamente, alegrará tua alma, fortificará
teu corpo...” (Isaías 58:11)

131 ALMA: Tudo isso me parece lógico, pois o Criador não iria desprezar Seu próprio
trabalho. Ele irá sustentar o bem e livrá-lo do mal.

132 INTELECTO: Vamos falar agora sobre a ordem da perfeição universal. O Eterno
criou todos os aspectos de Sua influência no universo em seus diversos níveis, cada
um com sua perfeição correspondente, tendo como objetivo produzir o bem e evitar o mal.
Desse modo, Ele organizou todos os níveis de Sua providência. Primeiro, reverteu a
intenção original de aperfeiçoar somente o bem para a formação das criaturas, como já
dissemos; segundo, afastou-Se da negação já criada para que esta não se anulasse. Na
verdade, Ele não quis destruir o mal, mas somente afastá-lo, de modo que existisse e
perdurasse tanto tempo quanto fosse necessário para o aprimoramento de suas criações.
Assim, também a subsistência do mal é possível somente por meio do poder do Criador. É
inquestionável que é Ele o criador do bem e do mal. Esta é a função mais simples atribuída
à Sua providência e supervisão.

Verificamos, então, que o Eterno organizou todos os níveis de sua providência de acordo
com a demanda do universo, nível após nível, gerando-lhes seu mal e todos os seus
componentes e aspectos. Então há nesse mal, que tem paralelo com todos os
componentes das providências positivas, uma nulificação criada para cada uma delas.
Esse mal foi afastado dos componentes para os quais foi designado, mas não foi
totalmente anulado. Já todas as nulificações designadas para os componentes da
providência positiva são de um tipo somente: um mal geral. E toda essa categoria é
atribuída à providência do Criador somente na camada mais inferior de tudo que existe.
Assim, por exemplo, quando o mais alto nível de providência recebeu sua perfeição, a sua
negação foi afastada e isolada dela. Ainda assim, ela não foi totalmente anulada, tendo se
tornado operável somente no próximo nível abaixo de Sua providência. Por sua vez,
quando esse nível seguinte alcança a sua perfeição, sua negação é isolada e torna-se
existencial somente nos níveis inferiores, em sucessão, até alcançar o nível mais baixo. Em
relação aos níveis de providência, estes se tornam mais propícios à materialização nos
níveis sucessivos do que no início: mais no terceiro que no segundo, e assim por diante,
até o último nível.

Assim, podemos afirmar que o Criador, ao querer investir Sua providência perfeita de uma
vez, ocupou-Se em organizar os níveis do bem e do mal, aperfeiçoando o bem em seus
vários graus, mantendo, porém, o mal em estado de suspensão, do ápice da organização
da providência até seu nível mais baixo, em que todas as suas características habitam em
detalhes. Afinal, o objetivo é forçar o mal para baixo, de modo que ele se torne o menos
significante de todos os elementos da Criação. Esse rebaixamento do mal é uma das
maiores forças de aperfeiçoamento do universo, levando o bem a prevalecer sobre o mal.
E é por esse motivo que, ao estabelecer esta ordem, o Criador isolou os níveis do bem
para seu crescimento e perfeição, e os do mal para uma decaída progressiva, nível por
nível. Desse modo, quando qualquer um dos níveis do bem é aperfeiçoado,
simultaneamente um nível do mal é rebaixado. Quando os níveis do bem alcançarem sua
perfeição completa, o mal será totalmente reduzido e o mundo terá atingido sua
completude.

Isso nos permite compreender o versículo “... Eu me completarei com sua desolação!”
(Ezequiel 26:2), conforme é explicado por nossos sábios (Meguilá 6a): a santidade é tão
“completa” quanto o mal é “desolado”. Pois este é o resultado do serviço Divino do homem,
tendo Deus criado o bem e o mal totalmente dependentes um do outro: a decadência do
mal da ascendência do bem e vive-versa – Deus não permita! O Eterno, bendito seja, nos
deu a conhecer os atos necessários para a ascendência do bem em todos os seus níveis,
a partir dos quais haverá uma queda natural do mal em todos os seus níveis e, finalmente,
a perfeição completa do universo.

133 ALMA: Para mim, isso está claro. E esta é uma maneira mais apropriada de
compreender as condutas do Criador, baseadas em Sua profunda sabedoria e
revelando que os assuntos do mundo e suas ocorrências não são arbitrárias, mas,
baseadas em sabedoria com o objetivo de atingir a perfeição.

134 INTELECTO: Devo terminar a explicação da organização do Eterno, dizendo que a


Vontade Suprema fixou o limite do mal, estabelecendo e delimitando seu espaço e
criando uma ordem benéfica apropriada para o mundo, quando o mal passou a existir. Mas
o que a Vontade Suprema deseja é que haja um tempo determinado para a existência
desse mal, após o qual ele deixará de existir. E desde o princípio do mundo Ele o está
conduzindo para esse fim, no qual o mal será totalmente erradicado. Conforme já
dissemos, esse é um nível específico de revelação da unicidade Divina. Mas, enquanto Ele
desejar a existência do mal, outra ordem se faz necessária, pois a criação desse mal não
foi em vão e, sim, para promover o serviço Divino do homem. Assim, torna-se necessária
uma ordenação apropriada para tal serviço em todos os seus aspectos.
O bem e o mal – recompensa e castigo

Saiba que atos virtuosos não trazem absolutamente qualquer benefício ao Eterno,
tampouco um ato malévolo O “avaria”. Isso já foi dito em Jó 35:6-7: “Se pecaste, o que
fizeste contra Ele? (...) Se és íntegro, o que Lhe proporcionas com isto?” Mas o Eterno
criou um tipo de ordenação com características particulares e caminhos que Ele sabia ser
condutor a esse fim. E nessa ordem Ele estabeleceu um sistema de mérito e
responsabilidade para o homem, sendo possível designar como “benéfico” o cumprimento
das mitsvót, e “prejudicial”, sua transgressão. Benéfico e prejudicial não para o Criador,
mas para aquilo que Ele deseja que funcione em nós. Esse é o objetivo de “Quando Israel
faz a vontade do Criador, acrescenta poder à força do Céu...”, que nossos sábios
explicaram (Ialcut Shimoni, Haazínu, 945). Aqui também o significado não é que Ele
somente pode agir por meio das ações de criaturas terrestres, mas, sim, que Ele não o
fará de outra maneira. E é por esse motivo que atos virtuosos são denominados como a
“honra” do Eterno, e atos maléficos – que Ele não os permita! –, o contrário.

Vemos então que o que Deus estabeleceu no início da Criação foi a possibilidade de se
beneficiar o ser humano por meio de atos justos, e de prejudicá-lo por meio da
performance de atos maléficos, tudo isso dependendo unicamente da vontade do Criador.
E isso é chamado de “a ordem do bem e do mal”, o “bem” se referindo a todos os níveis
aperfeiçoados e a todos os benefícios resultantes de ações virtuosas, e o “mal”, o oposto
disso: todo prejuízo resultante da transgressão.

Precisamos estabelecer agora quais são os elementos da recompensa e da punição, ou


seja, o bem alcançado por aqueles que cumprem as mitsvót e a punição dos
transgressores. As recompensas e punições devem ser de dois tipos: recompensa e
punição neste mundo e a verdadeira recompensa do mundo vindouro. Também deve ser
criada uma ordem hierárquica no status dos seres humanos, status do bem e do mal,
relativos à proximidade ou distância em que estão do Eterno conforme seu
comportamento. Provisão deve ser feita para a reparação dos defeitos com a instituição
do arrependimento, ou para a experiência do sofrimento neste ou no próximo mundo.
A existência de tudo isso é necessária enquanto existir o mal. Podemos perceber como é
profunda a sabedoria necessária para organizar apropriadamente todos esses elementos.
Tudo isso, além da ordem estabelecida para dirigir a existência como um todo, para
alcançar a completude perfeita e a erradicação do mal de toda a Criação, com tudo o que
for necessário para isto. Esta é a ordem baseada na ocultação da Perfeição Suprema e
sua subsequente revelação. E o prazo para a manutenção dessa ordem é o deste ciclo, ou
seja, de todo o ciclo de ocultação da Perfeição Suprema até a Sua revelação. São estas
as duas ordenações que devemos elucidar, mesmo que não em detalhes (porque são
infinitas), mas pelo menos em seus princípios gerais.

135 ALMA: Estes são fundamentos muito importantes e, com certeza, estão permeados
de profundo conhecimento e grande sabedoria.

136 INTELECTO: Vamos começar explicando a recompensa e a punição, pois essa


ordem nos é mais aparente.

137 ALMA: Fale, pois estou ouvindo.


138 INTELECTO: Vou primeiro falar-lhe de dois (na verdade três) principais fundamentos
dessa organização, após o que discutiremos seus detalhes individualmente, para que
seja mais fácil sua compreensão.

Nos atos com que o Eterno trabalha em nós por meio de ordenações específicas e
caminhos que Ele estabelece, devemos discernir entre dois tipos de condução. O primeiro
está relacionado com todos os Seus atos e inclui todos os caminhos e características de
Sua providência. O segundo está ligado ao efeito dessa providência sobre nós, e inclui
todas as nossas características e nossos caminhos por eles afetados.

O primeiro tipo, aquele ligado à Sua providência, também se divide em duas partes. Está
escrito: “... como um homem castiga seu filho, assim te castiga o Eterno.” (Deuteronômio
8:5) Ou seja, quando Deus castiga Israel, não o faz motivado por vingança; não o faz como
um inimigo, mas, sim, em função de Seu amor, como o de um pai por seu filho, conforme
está escrito: “O que poupa seu filho de castigos o odeia, mas se o ama (verdadeiramente),
o disciplina, desde cedo.” (Provérbios 13:24)
Dois resultados positivos advêm dessa raiz. Primeiro, o castigo em si, que mesmo quando
administrado, nunca o é com severidade, mas, sim, de maneira atenuante, devido ao amor
que não permite que a raiva governe e aja em plena crueldade. Segundo, mesmo quando
Ele leva suas criaturas a julgamento, os objetivos ocultos são misericórdia e bondade. Às
vezes, se Ele acha que Suas criaturas não aguentarão esse julgamento, Ele Se volta para
elas em misericórdia e remove totalmente Sua mão do julgamento, conforme está dito: “Ele
Se levanta do trono do julgamento e senta no da misericórdia.” (Avodá Zará 3b)

139: ALMA: Continue.

140 INTELECTO: O grande mestre Maimônides, de abençoada memória, observou


sobre o termo “conceber” (ledá) que, às vezes, não é aplicado nas escrituras em
situação ligadas ao nascimento de uma criança (Guia dos Perplexos 1:7): “A palavra
conceber foi usada figurativamente em relação à criação de objetos naturais, por exemplo:
‘Antes de as montanhas nascerem...’ (Salmos 90:2) Também é usado de maneira figurativa
em relação à origem de pensamentos e das visões e conclusões que advêm naturalmente
desses pensamentos, como em Salmos 7:15: ‘E concebeu a iniquidade...’, e em Isaías 2:6:
‘... e na descendência de estranhos, se rejubila...’” Esses termos e todos os que lhe são
similares podem ser usados figurativamente para pensamentos. Ou seja, da mesma
maneira que podemos dizer que algo criado nasceu, também podemos dizer que algo em
seu estado de potencialidade, esperando por frutificar, também pode ser referido pelo
termo “concepção”, conforme ilustrado na própria escritura: “O perverso concebe a
iniquidade e gera falsidade.” (Salmos 7:15)

Sabemos que cada conclusão tem seu progenitor, ou seja, suas premissas originais. Um
pensamento gerado estava em estado de potencialidade em seu progenitor até ser
realmente gerado. E quando o é de fato, emerge da potencialidade para a realidade. E
mais: uma vez que a perfeição de cada objeto lhe é adicionada ao longo de sua existência
(pois poderia existir sem ela), ainda assim a fonte geradora desse objeto é composta de
dois fatores: sua existência e sua perfeição, pois a causa de sua existência é a causa da
perfeição – e a perfeição do efeito nada mais é que a perfeição implícita na fonte
geradora. Quando esta gera tudo que é inerente à sua natureza gerar, o objeto criado será
considerado completamente perfeito.
Já explicamos acima que todos os aspectos da Criação são inter-relacionados, provindo
uns dos outros, formando juntos uma conexão e uma criação geral que não é completa
senão com todos esses detalhes. A beleza e a perfeição do mundo são inerentes a essa
criação geral.

Tudo isto nos dá um vasto escopo para a contemplação e análise da sabedoria do Criador
na Sua Criação. Pois devemos saber que cada fator dos princípios do Eterno tem um fator
anterior de onde fluiu e que pode ser considerado seu progenitor e sua causa. É esta
causa que gera e aperfeiçoa o fator que foi por ela gerado. Tudo isto é englobado nos
mecanismos já acima mencionados, girando o universo das alturas celestiais até as
profundezas mais inferiores, estando todas as criações celestiais e terrenas, superiores e
inferiores, conectadas umas às outras, e procedendo, necessariamente, umas das outras.
Assim, quando o Eterno opera uma de Suas providências, temos que discernir não
somente Seus efeitos neste mundo, mas também qualquer fator adicional que seja de Sua
natureza gerar obrigatoriamente. Tudo o que for dela emanado será sempre um reflexo
disso. Deste modo, se o Eterno desejar trazer esse fator da potencialidade para a
realidade, também neste mundo ela produzirá um efeito mais claro e delineado, um
resultado da providência ativa. E, se no começo ele era somente um reflexo da providência
da qual foi gerado, sua essência se tornará agora realidade. E a essência desse efeito
também será dividida entre perfeição e imperfeição.

Se pararmos para refletir sobre as criações do Eterno, descobriremos uma grande e


profunda sabedoria. Muitos dos segredos da Torá virão a ser compreendidos e teremos
respostas para muitas dúvidas e questionamentos em relação ao sistema de Deus e da fé
em geral, que são levantados por quem não é versado nesses assuntos.

141 ALMA: Não tenho dúvidas de que é impossível adquirir, mesmo o mais módico
conhecimento da sabedoria do Criador, a não ser por meio do caminho do estudo e
da busca da sabedoria, e que aquele que deseja entrar nessas questões sem a
preparação e o estudo necessários é irresponsável e não terá sucesso.

142 INTELECTO: Vamos falar agora de nossa época, a época do julgamento perfeito do
Santíssimo. A existência do mundo nesses tempos, todo o tempo em que o homem
pratica o serviço Divino em todos os seus aspectos e ramificações, provém diretamente da
justiça do Eterno, pois esta é a época por Ele ordenada para a revelação da justiça de Seu
julgamento. E o final deste mundo somente será alcançado por meio da execução
apropriada desse julgamento, conforme está escrito: “O Eterno tornou-Se conhecido, Ele
executou a sentença...” (Salmos 9:17) e “... o Eterno será exaltado (...) por Sua justiça...”
(Isaías 5:16) e “O rei consolida Sua terra pela justiça...” (Provérbios 29:4) Ou seja, não é
para o benefício do mundo que o Eterno permite que os ímpios se revelem e prevaleçam,
enquanto os justos são oprimidos e o mal prevalece. Certamente, isto não é bom para o
mundo. O bem, ao contrário, consiste no julgamento a ser executado por Deus, humilhando
os ímpios e rebaixando os orgulhosos, enaltecendo o justo e elevando a sua honra,
conforme está escrito: “Agir com justiça é uma alegria para o íntegro...” (Provérbios 21:15)
e “... canções são entoadas quando perecem os ímpios” (ibid. 11:10).
Mundo vindouro (olam habá)

Verificamos que o tempo durante o qual o Eterno dá corda aos ímpios, quando eles se
tornam mais fortes no mundo e destroem a justiça e a retidão, pode ser considerado um
tempo de “sono” (por assim dizer) em relação a Ele.

Está escrito sobre o tempo em que Ele despertará desse sono: “Então, despertou o
Eterno como de um sonho (...) Fez seus inimigos baterem em retirada...” (Salmos 78:65-
66) Pois se o Eterno tivesse realmente desejado conduzir o Seu mundo somente com
bondade e benefícios, então, nele não haveria o mal, mas somente o bem, e isto seria
considerado a perfeição para o mundo, como virá a ser após a vinda do Mashíach, sobre
a qual está escrito: “Quanto aos pecadores, eles desaparecerão da terra...” (Salmos
104:35), e nossos sábios enfatizaram (Berachot 10a) que não é aos “pecadores” que o
versículo faz menção, mas, sim, aos “pecados”. Nessa época, consideraremos o mundo
conduzido somente com bondade. Ou seja, não haverá a má inclinação e o homem apenas
servirá ao Eterno, como consta em Ezequiel 36:27: “... e farei com que saibas cumprir
Meus estatutos...” Se o Santíssimo esperasse até que o limite do ímpio se esgotasse, isso
certamente não seria bondade, mas, sim, um julgamento severo. Mas, pelo contrário,
conforme já explicamos em um verso previamente citado, “... se o ama verdadeiramente, o
disciplina desde cedo” (Provérbios 13:24) e “Dentre todas as famílias da terra só a vós
tenho conhecido, por isso de vós cobrarei todas as vossas iniquidades.” (Amós 3:2)
Nossos sábios (Avodá Zará 4a) nos explicam que o Eterno exige o pagamento de Israel
aos poucos, de modo que o mal não se acumule sobre eles e cause o seu declínio, Deus
nos livre! Pelo contrário, Ele deseja que se redimam.

Assim, parece que o Santíssimo tem uma inclinação positiva em relação ao Seu mundo. Ao
conduzir o mundo, mantendo-o em constante julgamento, Ele o purifica, aos poucos, de
qualquer mal que nele se manifeste. Sob tal programa, os elementos do mundo são
aperfeiçoados e abençoados e tudo prospera. Mas, se não houver mérito no mundo e o
mal aumentar imensamente – Deus não permita! –, o Eterno diz: “Eu encobrirei o Meu
rosto deles.” (Deuteronômio 32:20) Enquanto a escuridão (a maldade e a ignorância)
aumentar, a sabedoria diminui e a verdade é banida, e todos os elementos do mundo
sucumbem ao defeito e à deterioração. Em relação a isto, os nossos sábios afirmaram:
“Não há um dia cuja bênção (eufemismo para maldição) não é maior que a do dia anterior.”
(Sotá 49a) Mesmo o sabor das frutas se perde (ibid. 48a) e não há sucesso, nem material
nem espiritual.

Se o único objetivo do Eterno fosse castigar os ímpios, o mundo já teria sido destruído por
causa deles. Mas, uma vez que a Sua intenção é fazer o bem, e Seus castigos e
repreensões procedem de Seu amor, Ele desejou estabelecer uma existência para o
mundo que perdurasse, que não mudaria nem se debilitaria mesmo na ausência do mérito.
Ele Se prontifica a isto com Sua majestade, soberania e superioridade a qualquer força ou
lei, de modo a que perdure o universo mesmo quando o homem não merece.

Você precisa compreender bem isso, já que muitas distinções devem ser feitas. Pois pode
parecer superficialmente que o pecador prevalece e o mundo perdura sem a necessidade
do mérito, mantendo-se por meio da bondade e amor do Eterno, mesmo em meio aos
pecados dos ímpios! Mas se você fizer todas as distinções necessárias, você encontrará
uma profunda sabedoria nos trabalhos do regulamento do Santíssimo. Pois você já escutou
que foi o próprio Criador Quem originou, por meio de Sua vontade, até mesmo o fenômeno
do defeito produzido pelas transgressões e o fenômeno do benefício produzido por atos
virtuosos, e foi Ele Quem estabeleceu leis justas e perfeitas centradas neste pólo. O
sucesso deste mundo depende disto. Quando Deus exerce o Seu julgamento por meio
desses princípios, o mundo prospera. Mas se as transgressões levarem o Eterno a
desprezar e Se afastar das criaturas do mundo – Deus nos livre! –, esses princípios serão
levados a uma desordem, pois Ele não lhes dará suporte e todos os trabalhos deste
mundo serão debilitados. Mas, se Ele der total suporte, todas as criaturas alcançarão a
plenitude.

Porém, há um princípio diferenciado em uma época diferenciada. Quando Israel for


meritório, o mundo alcançará a perfeição absoluta. Ou seja, o Eterno irá alterar as
condições deste mundo para o bem e erradicará o mal. Não haverá mais a má inclinação
nas almas dos homens nem defeito ou falta em nenhuma criatura, e o mundo será
conduzido a uma grande perfeição. O mal terá sido erradicado e não haverá mais
necessidade de julgamento; o mundo será conduzido totalmente pela misericórdia. E tudo o
que hoje é oculto aos habitantes da terra por ordem Divina (para que a terra seja um local
obscuro cujo objetivo é o serviço Divino, ou seja, para testar o homem, conforme já
falamos) será revelado após a vinda do Mashíach, conforme consta em Isaías 40:5: “Há
de revelar-se a glória do Eterno.”

Porém, há também uma época em que o Santíssimo Se recolherá, por assim dizer, de Seu
mundo, quando Seu julgamento não será realizado e Sua soberania não será revelada, e o
mundo estará destinado para a destruição. Mas, mesmo nessa época, o Eterno desejará a
existência do mundo e o sustentará somente por meio do poder de Sua soberania. Se
fosse pelo critério da justiça, o mundo não mereceria existir. Mas Ele Se utiliza de Sua
majestade, que não é atacada nem afetada pela transgressão do homem, para sustentar o
mundo. Entretanto, Ele não reúne o bem nem o aumenta, mas, pelo contrário, Ele limita
esse bem, provendo somente o mínimo necessário sem o qual não há subsistência. Pois o
mundo não vem sendo aperfeiçoado para que seus méritos sejam conduzidos por meio
dessa benfeitoria. Pelo contrário, não só o mal permaneceu neste mundo como ainda
cresceu em intensidade. O que acontece é que o Santíssimo não deseja que Seu próprio
trabalho seja destruído, então Ele sustenta o mundo, mesmo que de maneira restrita, por
meio do poder de Sua soberania, apesar de a justiça indicar que deveria ser destruído.

Ficará claro que é para o benefício do próprio mundo que ele é conduzido por meio do
julgamento do Eterno, e que seu aperfeiçoamento depende disso, conforme comprovado
pela restrição acima mencionada e pelo aumento na iniquidade. A natureza não ascende
sozinha, como ocorrerá na época que está por vir, mas, pelo contrário, ela permanece
dentro dos limites fixados pelo Eterno para a manutenção dos princípios da justiça. Mas
quando Ele Se recolhe e Se oculta deste mundo, o julgamento não é executado, o mundo
torna-se vazio e sem sentido, os ímpios reinam em toda a sua audácia, como bestas
selvagens na floresta; não há cobranças nem contas, tudo é distorcido e defeituoso.
Somente o Eterno, por meio do poder de Sua vontade, que é superior a qualquer lei,
sustenta este mundo, até o Seu julgamento advir, conforme consta em Isaías 51:4: “Meu
julgamento será uma luz para todos os povos.”

Ao analisarmos os vários estados do mundo em relação à revelação ou ocultação do


julgamento do Eterno, observamos que são organizados em níveis. Existem cinco níveis e
eu explicarei cada um: sua época, como eles eram e como eles serão até o momento da
perfeição completa do universo.

A primeira época foram todos os dois mil anos de desolação (San’hedrin 97a), observados
especialmente no exílio do Egito. Essa é a época em que o Eterno Se oculta totalmente
deste mundo, como se Ele tivesse – Deus nos livre! – abandonado a terra e não visse nem
ouvisse os atos dos homens. Nessas condições, considera-se a qualidade da justiça
totalmente inoperante, estando somente em um estado potencial necessário para a
existência do mundo e demandada de acordo com os princípios que o Criador estabeleceu.
Pois, em Seu amor por Suas criaturas, Ele as observa e contempla para saber o que fazer
para levá-las à perfeição completa. Entretanto, Ele somente pensa, não age; Ele oculta
seu julgamento perfeito e deixa o mundo vazio.

143 ALMA: Preciso interrompê-lo para que isso não se torne confuso em minha mente,
pois você disse e repetiu algo que não consigo entender.

144 INTELECTO: Do que se trata?


145 ALMA: Você disse que, quando o Santíssimo oculta Seu julgamento, o mundo
caminha em defeitos, vazio e sem sentido. Então me diga: a ordem do mundo é
sempre ou baseada no amor ou na justiça. Se for baseada no amor, deve haver bem para
todos; como pode haver uma raiz de existência do mal? Se for baseada na justiça, como
você pode dizer que o julgamento está oculto? Todos os defeitos encontrados neste mundo
não são resultado do julgamento de Deus e de Seu atributo de justiça? Vou concretizar isso
de duas maneiras: primeiro, o mal e o defeito somente podem proceder do atributo de
justiça Divina e da ocultação de Sua bondade. Em segundo lugar, você não atribui essa
ocultação às transgressões, que fazem com que o Santíssimo oculte Seu semblante do
universo? Se assim é, isso é certamente justiça!

146 INTELECTO: Eis aí uma boa questão e eu vou respondê-la. Eu já lhe expliquei que
toda a raiz da existência do bem e do mal neste mundo é a ocultação do semblante
de Sua bondade. Essa ocultação do semblante Divino abre espaço para o mal, conforme
está escrito: “Ocultou-Se num véu de escuridão.” (Salmos 18:12) Existem duas
manifestações desse atributo. A primeira permite que os ímpios cresçam e dominem, sem
que a justiça de Deus se levante contra eles e livre o mundo deles, punindo-os (neste caso,
“uma vez castigado, ele é como seu irmão” – Macot 23a).

O segundo tipo de manifestação também é uma consequência da ocultação do semblante


Divino, mas é benéfico para o mundo e seus habitantes. Esta é uma ordem na qual as
atividades dos princípios Divinos são canalizadas em julgamento correto e por meio do qual
o mundo será liberado das maldades. Não por meio da bondade de apagar os pecados,
mas, sim, por meio da justiça, que dissipará todo o mal pela punição. Todavia, enquanto
esta época na qual o Eterno irá erradicar todos os pecados não chegar, não há outra
maneira de purificar o mundo a não ser pela retidão do julgamento. Deste modo, quando
eu falo a você sobre o atributo da justiça, estou me referindo a essa retidão da justiça que
purifica o mundo do mal. Já a ocultação da justiça é um aspecto de defeito, e não de
perfeição, pelo qual os pecados não são apagados. É como se o mundo estivesse sendo
desprezado e o mal o subjugado. Esse princípio é uma função da ocultação do semblante
Divino de Suas criaturas, cujo resultado é tornar o mundo ao vazio.

Aqui eu preciso lhe explicar algo importante. Na verdade, o Santíssimo nunca despreza
Seu trabalho e nunca abandona ou deixa o mundo. É exatamente quando parece que o
mundo foi abandonado que Ele está planejando o bem para o mundo. Todos os Seus
pensamentos e meditações são direcionados ao aperfeiçoamento do universo e não à sua
destruição. Mas Ele oculta Suas deliberações de modo que o mundo parece estar
abandonado e o homem sofre a punição por seus pecados. E assim disseram nossos
sábios a respeito de nosso patriarca Jacob, de abençoada memória: “‘E Israel disse: Por
que me fizeste mal?’ Rabi Levi disse em nome de Chama bar Chanina: ‘Nosso patriarca
Jacob nunca disse uma palavra em vão, a não ser aqui!’ O Santíssimo disse: ‘Eu estou
ocupado, tornando seu filho o rei do Egito, e ele Me pergunta por que fiz mal a ele?’ E ele
também disse (Isaías 40:27): ‘Meu caminho está oculto do Eterno.’” (Bereshit Rabá 91:10
sobre Gênesis 43:6)

Ou seja, durante todo o tempo em que Jacob estava em desespero devido à separação de
seu filho, o Eterno estava “girando a roda” para tornar José um rei e permitir que Jacob
vivesse com tranquilidade. Mas porque tudo isso estava oculto dele, Jacob passou por um
grande sofrimento. E isso é axiomático: em toda ascensão que o Eterno deseja conceder a
um indivíduo ou ao mundo, durante o tempo em que o bem está em processo de
materialização, o processo ocorre somente nas profundezas do semblante oculto. Por isso
a ascensão é precedida por sofrimento. Conforme disseram nossos sábios, “Três bons
presentes foram dados pelo Eterno a Israel e todos eles foram concedidos somente por
meio de sofrimento.” (Berachot 5a)

Voltemos agora ao nosso assunto.

O primeiro nível nas condições deste mundo é a ocultação do julgamento do Eterno, que
não se revela para poder purificar o mundo da iniquidade. Naquela época, o Santíssimo
não era conhecido em Seu mundo. E nós informamos qual foi essa época – a do exílio no
Egito.

O segundo nível é uma época em que não há profetas nem sinal algum de milagres que
levem o homem a reconhecer a magnitude do Eterno. Ainda assim, há uma revelação
maior do que no estado anterior, e há algum reconhecimento de Sua grandeza. Você irá
perceber que nunca houve um exílio como o do Egito, nem antes nem depois: os judeus se
tornaram escravos quando a Torá não havia sido entregue e Israel não era uma nação
distinta por suas leis e mitsvót como é hoje. Não havia sequer um homem que
reconhecesse o nome do Eterno! Pelo menos temos hoje a Torá, de modo que, apesar de
estarmos em um exílio, este não pode ser denominado vazio como no caso dos dois mil
anos iniciais. Já possuímos a Torá, dada pelos céus em nossas mãos eternamente, graças
a Deus, e Seu nome se fez conhecer entre as nações.

O terceiro nível é uma época em que Ele exerce o Seu reinado sobre o universo com
sinais e maravilhas, manifestados perante todas as nações, para fazer saber que Deus
está em Israel. Essa é a época do primeiro e do segundo templo. Saiba, entretanto, que
mesmo essa revelação é superficial, uma revelação somente por meio de atos, de
maravilhas visíveis em cuja ausência a verdadeira fé não se manifestaria. Mas essa não é
a revelação essencial – o desejo de Deus que Sua glória seja revelada em Seu universo.

O quarto nível é a revelação de Deus para toda a Sua Criação por meio do conhecimento
e conceitualização, e não por meio de maravilhas. A glória de Deus é vista e atingida pelo
excesso de sabedoria e conhecimento. Esta é a ideia em Isaías: “... a terra estará repleta
do conhecimento do Eterno, como as águas cobrem o mar” (11:9); “... com seus próprios
olhos verão quando o Eterno retornar a Tsión” (ibid. 52:8); “Há de revelar-se a glória do
Eterno e a perceberão todas as criaturas” (ibid. 40:5). Os sinais e maravilhas não serão
necessários para fundamentar a fé, que será confirmada por meio do conhecimento e da
percepção, como é o caso de todos os profetas e anjos, que reconhecem Deus por meio
de seus poderes de percepção. E este é um conhecimento verdadeiro e claro, imune a
qualquer tipo de dúvida. E foi esta a percepção de todo o povo de Israel no monte Sinai,
conforme está escrito: “Face a face falou o Eterno convosco do meio do fogo”
(Deuteronômio 5:4) e “Vós vistes que do céu falei convosco” (Êxodo 20:19) e “Eu venho a
ti (...) para que o povo ouça enquanto Eu falo contigo, e também em ti crerão para
sempre” (ibid. 19:9). A fé não dependerá de milagres, pois qualquer dúvida em relação a
estes cria uma confusão na própria fé. O conhecimento será claro, resultado de visão e
percepção, imune a qualquer tipo de dúvida.

Existem elevações na natureza do homem, e é de acordo com o crescimento dessa


natureza e seu refinamento que crescerão a percepção e o conhecimento. E este é, em
geral, o quinto nível: a época da ascensão, do crescimento da natureza do homem e de
sua percepção. Pois enquanto os princípios do Eterno não Se revelarem de maneira clara,
ou seja, por meio do conhecimento, desde o primeiro nível considera-se que a justiça não
foi revelada, e o reinado de Deus, não estabelecido de forma clara. Mas uma vez
revelados, a justiça é reconhecida. Deste ponto em diante, há somente crescimento e
benefício, que ocorrem após essa revelação inicial. Pois o Eterno irá refinar a natureza do
homem e, de acordo com esse refinamento, a glória e a grandeza do Santíssimo serão
reveladas ao homem mais e mais.

Estes são os níveis que o Criador estabeleceu para o atributo da justiça, desde seu início
até sua completude. No começo ela está somente no estado de potencialidade, não de
ação. Depois, ela se revela levemente, mas ainda não é considerada revelada,
necessitando ainda dos elementos que atestam a sua presença, ou seja, milagres e sinais.
A revelação por meio de sinais completa o que é necessário para a revelação da justiça,
mas somente em relação ao que lhe é externo. Há um nível mais perfeito de revelação em
relação a Deus, por meio do conhecimento e da percepção, pelos quais Ele próprio é
percebido. E Dele há uma revelação ainda maior, de acordo com a elevação da natureza
daqueles que aspiram percebê-Lo. Agora vou lhe mostrar alguma coisa muito interessante
e mesmo bonita: como cada um desses níveis têm uma contrapartida neste mundo.

147 ALMA: Certamente quero escutar isso.


A formação do homem

148 INTELECTO: Observe a formação do homem em seus vários níveis. O Eterno com
certeza poderia ter criado o homem formado em todos os seus aspectos, se assim
tivesse desejado. Entretanto, Ele não o fez, pois o homem é incompleto no dia de seu
nascimento, e vai, aos poucos, se desenvolvendo. Esse processo é análogo à glória do
Santíssimo e Sua ordem na revelação de Sua soberania, correspondente à Sua condução
do mundo nesses cinco níveis mencionados, que correspondem, por sua vez, ao
crescimento do mundo e do homem. Sua glória se desdobra em revelação dentro desses
níveis.

O início do homem é resultado da conjunção de parceiros: seu pai e sua mãe (que
correspondem aos progenitores de qualquer objeto gerado). Mas ele é concebido no útero
de sua mãe durante todos os meses da gestação. Depois ele nasce e adentra a roda do
mundo, continuando seu processo gradual de crescimento. Ele ainda não é completo, nem
em termos de altura nem de intelecto até que o processo de crescimento tenha se
completado. Ele primeiro se desenvolve intelectualmente, até ser incumbido de cumprir
mitsvót aos trezes anos. E mesmo com tudo isso, ele ainda não está completo; é ainda um
jovem. O processo de desenvolvimento continua até que seja totalmente completado. Daí
em diante, conforme ele envelhece, experimenta elevações sucessivas; a glória da velhice
é a coroa grisalha de sabedoria dos mais velhos, concedida pelos anos. Tudo isso é uma
contraparte da ordem dos Seus feitos de acordo com os níveis mencionados. Vemos que o
próprio homem, que é guiado pelo Eterno, reflete essa orientação em si mesmo.

149 ALMA: Certamente há razão para que a forma do homem reflita os mistérios
supremos dos atos do Eterno.

150 INTELECTO: E o mesmo se aplica a todas as demais criações do mundo. Cada


uma delas corresponde a um dos mistérios dentre os princípios do Eterno. A
Inteligência Suprema planejou para cada uma das ordens de seus princípios uma
contraparte neste mundo. Esta é a fonte da variedade de criações, refletindo cada uma
delas uma das ordens de Seu princípio. E tudo que se refere a uma criação em particular,
em todas as suas formas e propriedades, é avaliado em relação aos aspectos da ordem à
qual essa criação deve refletir. Deste modo, todos os atributos do Eterno se assemelham,
por assim dizer, às raízes, e as criações aos seus galhos, sendo a essência destas
criações derivada da essência desses atributos.

Esta é a base das visões proféticas pelas quais o Eterno revelou algum de Seus atributos,
quando assim o desejou. Ele mostrou aos profetas uma figura simbólica tal como, por
exemplo, um leão, uma raposa ou qualquer outra imagem que caracterizasse o que Ele
lhes desejava mostrar.

Devemos agora terminar este assunto. A partir do que já foi explicado, sabemos que para
cada qualidade da conduta Divina há a essência desta qualidade e a realização desta, ou
seja, o meio pelo qual a essência é revelada. Pois o julgamento (recompensa e punição,
seja para o prêmio ou para o castigo) está apoiado sobre três pilares: o atributo da
benevolência, o atributo da justiça e o atributo da piedade. Mas a atuação desse
julgamento, em seus vários aspectos, varia de tempo para tempo, aumentando ou
diminuindo, de modo que a revelação é maior ou menor.

Isso pode ser comparado com o seguinte: todos os homens, apesar de terem o mesmo
tipo de corpo, com os mesmos componentes, têm capacidades diferentes, e um homem é
capaz de fazer algo que seu vizinho não é. Mesmo em relação a um único indivíduo, suas
forças variam de uma época para outra. Assim também o Santíssimo conduz o mundo por
meio dessa qualidade de julgamento e mantém todas as leis da Criação enraizadas nos
caminhos de Seu julgamento. Entretanto, Ele o faz por meio de uma maior revelação ou
ocultação, conforme já dissemos. E aqui se encontra a diferença entre os vários dias do
ano, os dias santos e os comuns: a diferença consiste em uma maior ou menor revelação
da providência do Eterno por meio de Sua santidade, conforme explicaremos mais adiante.
Mas, uma vez que todos os aspectos de Seus princípios já estão estabelecidos, assim
como cada efeito e sua causa, torna-se óbvio que as causas devem conter nelas mesmas
tudo o que possa ser discriminado nos efeitos. Deste modo, devemos entender
detalhadamente a natureza das causas e a maneira pela qual elas produzem seus efeitos,
para que possamos compreender os vários estados do efeito. Mas, para compreendermos
tudo profundamente, preciso explicar algo antes.
151 ALMA: O que já foi dito até agora não foi suficiente para compreender a conduta da
criação?
Atributos Divinos

152 INTELECTO: O que já dissemos até agora é correto, mas devemos entender que é
de acordo com a Vontade Suprema que será determinada a essência das criaturas.
E este é o aprofundamento ao qual me referi, ou seja, o conhecimento da essência das
criações e todos os vários acidentes daí decorrentes.

Nós já discutimos o assunto deste mundo tão vil, um lugar tão escuro e imperfeito, como
tudo que ocorre nele. Já explicamos que tudo o que existe se originou a partir de Sua
vontade e é totalmente dependente de Seu decreto e palavra. Também a obscuridade
deste mundo é resultante da palavra do Eterno, que assim estabeleceu seu caráter. Ele
poderia iluminar essa escuridão e elevar e enobrecer o mundo, se assim tivesse desejado.
Isso é óbvio. Mas em relação à essência do mundo e do homem, seja mais elevado ou
mais baixo, temos um amplo escopo para observação e reflexão, pois há uma grande
sabedoria na compreensão dos degraus de ascensão e queda possíveis ao ser humano.
Na verdade, não há limite para os detalhes deste assunto, mas os princípios gerais não
são assim tão numerosos e podem servir de chave para o entendimento do profundo
mistério contido nos feitos do Eterno.

Deixe-me dizer agora que, ao decidir governar este mundo pelo atributo da justiça
(recompensa e punição), o Eterno necessitou da presença do bem e do mal neste mundo.
E, como consequência natural, o homem foi criado a partir dessa natureza e sujeito a tal
princípio do mesmo modo que é sujeito ao bem e ao mal. O oposto também seria verdade,
caso o Criador tivesse desejado governar o mundo, em Sua bondade, sob a luz do
semblante de Sua benevolência. Neste caso, todas as criaturas teriam que ser completas
e perfeitas devido à luminosidade do semblante Divino; não haveria mal no mundo e a
natureza do homem seria tão pura que seria insuscetível ao mal, e suscetível somente ao
bem, à glória, à luminosidade e à sabedoria.

Vemos, assim, que a natureza do homem, seja em ascensão ou em degradação, depende


diretamente da ordem estabelecida para ele pelo Eterno: ele deseja na essência do
homem aquilo que deseja em Sua ordem. A baixeza do mundo é inerente ao atributo do
julgamento pelo fato de que o mundo e seus acontecimentos são baixos e defeituosos.
Isso é o que já lhe expliquei em relação à providência do Eterno: por ser Sua providência,
ela deveria ser somente de santidade e manifestações nobres. Mas o Eterno decidiu cobri-
la com vestes que lhe são inapropriadas, pois assim é necessário para alcançar o objetivo
que é destinado a este mundo.

Apesar de ele ser baixo e obscuro, ao observarmos mais de perto, descobrimos que não é
tão escuro de modo a não possuir nenhuma luz, mas, sim, que há certa luminosidade. Ou
seja, a escuridão que identificamos é a corporeidade atribuível ao instinto que reina neste
mundo. Mas esta não é totalmente privada de todos os aspectos da luz (ou seja, aquilo
que é terreno e não espiritual). Pois, de qualquer maneira, o homem possui também, além
do conhecimento e da sabedoria, a Torá e o espírito – coisas que não são mundanas.

Tudo isso vem nos ensinar que há no mundo uma mescla de luz e escuridão, e que ao
entendermos seus níveis de escuridão e luz em todos os lugares em todas as épocas, e os
níveis de luz e escuridão isoladamente, entenderemos a natureza e todos seus vários
estados. Nós já falamos da natureza e da fonte de escuridão e luminosidade. Escuridão é
tudo aquilo terreno e corpóreo; luminosidade é tudo o que é espiritualidade. E é isso que
separa as criaturas terrenas das criaturas celestiais. A fonte da escuridão é a
manifestação da providência Divina não segundo sua forma própria, mas, sim, no nível
deste mundo. A fonte da luminosidade é a manifestação da própria providência Divina,
santa e espiritual.

Quando o Eterno deseja colocar Seu mundo em julgamento, Ele torna a Sua providência
servil, por assim dizer, aos feitos das criaturas terrenas, de modo que seus atos virtuosos
ativem a providência para o bem, e os atos ímpios excluam as benfeitorias dessa
providência. Mas, quando Ele desejar conduzir este mundo somente com amor, Ele Se
revelará, saindo de Sua ocultação, que não se subjuga a nenhuma lei e é completamente
independente das criações, conforme está dito: “Por mim mesmo, sim, por Mim mesmo o
farei...” (Isaías 48:11) Neste caso, não há espaço para o mal, mas somente para o bem.
Assim, quando Ele conduzir o mundo em Seu amor e soberania, Ele projetará uma
providência Divina, santa, sobre todas as criaturas, de modo que estas se santificarão,
conforme está escrito em Isaías 4:3: “... e cada sobrevivente de Tsión e cada
remanescente em Jerusalém será proclamado santo.” Mas quando Ele desejar conduzir o
mundo com julgamento, Ele não projetará uma providência espiritual, mas somente aquilo
que é apropriado à corporeidade.

Compreendemos então que há três níveis da providência Divina. Primeiro, uma providência
de corporeidade, que cria objetos mais baixos; segundo, uma providência de completa
espiritualidade, ou seja, uma providência que guia todo o universo no caminho da santidade
em todos os seus aspectos; terceiro, uma providência que combina espiritualidade com
materialidade, ou seja, que permite a existência de essências espirituais mesmo nesta
época de corporeidade. Essas essências não alteram o corpóreo, como no segundo nível,
mas, sim, o une à espiritualidade de acordo com seu respectivo nível. Assim, essa terceira
providência não é do mesmo tipo que a segunda, pois a segunda remove a escuridão da
materialidade enquanto a terceira não o faz. Ela é menor em nível que a segunda e dela
deriva. Mas o Criador, que gerou todos os níveis da existência, que gerou todas as
variedades dentro da providência (uma variedade que santifica totalmente seus objetos, da
qual deriva uma segunda que os santifica parcialmente), também gerou a primeira
providência que nós mencionamos, uma providência somente de corporeidade. Ele também
combinou as duas variedades, esta primeira e a segunda, em uma combinação particular,
de acordo com Seu desejo, e fez também combinações alternativas, aumentando ou
diminuindo o teor de uma delas, produzindo resultados alternativos neste mundo.

É a partir dessa combinação que são produzidos, mesmo dentro do homem, entidades
iluminadas, tais como a Torá no universo e o espírito dentro do ser humano, como já
falamos. E é aqui que vemos a alternância de épocas santas para as que não o são. Pois,
com o aumento da mescla entre a providência espiritual e corpórea, haverá um aumento de
espiritualidade na materialidade do homem.

O Shabat é o mais santo de todos os demais dias nos quais o Eterno aumentou as
providências santas e Divinas que mencionamos. Todas as demais festas, de acordo com
seus níveis, são parecidas neste aspecto: todos são dias em que a providência espiritual é
maior, de acordo com seus respectivos níveis.

Outro esclarecimento essencial que já expliquei é o seguinte: o rebaixamento da natureza


do homem após o pecado de Adão. A corporeidade original de Adão antes do pecado
corresponde à sua espiritualidade hoje em dia após o pecado. O mundo deve agora elevar-
se desses rebaixamentos, e é para isso que se voltam Seus princípios, mas ele deve
primeiramente aperfeiçoar-se nesta condição mais baixa, angariando toda a luminosidade
que sua condição lhe permitir. Depois disso o mundo se elevará dessa condição e receberá
tudo o que essa ascensão proporciona, e assim por diante, elevando-se mais e mais.

153 ALMA: Toda essa explicação com certeza é necessária para um entendimento da
condição do homem neste mundo e daquilo que foi decretado para ele em todas as
épocas.

154 INTELECTO: Devemos agora voltar ao assunto do julgamento e amor que


mencionamos anteriormente. Você já ouviu que há duas coisas que devemos
considerar nos atos do Criador, uma conectada à outra: os atributos de Sua lei e a
essência de Seus atributos. Vamos, agora, completar a exposição deste assunto.

Você já escutou que a punição advém do amor, conforme indicado no verso anteriormente
mencionado: “... mas se o ama, o disciplina desde cedo.” (Provérbios 13:24) Pois um pai
que ama seu filho não desejará que ele cresça cheio de vícios e, por amá-lo, irá
esquematizar um plano que lhe permita lidar com esse filho com compreensão, até que
este tenha corrigido seus caminhos. A partir de então, “O pai de um filho justo se
regozijará, e quem tem um filho sábio, com ele se alegrará” (ibid. 23:24). Ele será um pai
gracioso para seu filho, e seu filho, ao solicitar favores a seu pai, vê-los-á atendidos.
Assim, vemos que seu amor por seu filho o fará agir de maneira afetiva quando ele trilhar
um caminho reto e lhe concederá grande recompensa. E devido a esse seu amor, que
deseja somente o seu bem e não o seu mal, ele desejará punir o filho caso tome o caminho
errado. Também devido ao seu amor, ele desejará tomar uma atitude de equilíbrio: com a
mão esquerda rejeitará seu filho e, com a mão direita, o trará para perto (ver Sotá 47a).
Logo, é da própria fonte do amor que emanam as três qualidades de repreensão:
benevolência, justiça e o caminho do meio, misericórdia. E é do feitio do amor temperar o
castigo com atenuação, e não com raiva cruel e cólera, irando-se dificilmente e conciliando
com frequência. E é típico de seu feitio e de seus atos exercer às vezes indulgência
completa e ser totalmente caridoso, não prestando atenção às escalas do julgamento,
mas, sim, multiplicando a bondade, em seu desejo de benevolência.
Ao analisarmos as atividades desse amor no tocante a Deus, encontramos dois elementos
que o caracterizam. O primeiro é o amor pela benevolência e o desejo por bênção e
bondade, que é sua principal característica. Isto, por sua vez, divide-se em duas
ramificações: a primeira é a orientação em direção à atenuação da justiça e da punição,
mesmo nas horas de sua execução, para que o fogo da inveja e a cólera do Eterno não
queimem de maneira ardente – Deus nos livre! – e consumam o mundo. A segunda, uma
contemplação completa da justiça quando o mundo necessita, conforme aludimos várias
vezes (Berachot 7a): “‘E Eu serei gracioso com quem Eu devo ser gracioso’ – mesmo que
ele não seja digno.” Esta é a ideia dos Treze Atributos de Misericórdia que, sempre que
acionados, são atendidos (Rosh Hashaná 17b), conforme atestado pela própria escritura
(Êxodo 34:6): “E a Divina presença do Eterno passou diante dele” – isto se refere a Seu
semblante de raiva, conforme foi dito sobre Êxodo 33:14: “‘Minha presença andará
convosco’ – este é o semblante da raiva.” (Berachot 7a)

O segundo elemento a ser discriminado na natureza de Seu amor é que, dele mesmo, flui
Seu julgamento com características de benevolência, justiça e piedade, e tudo que as
complementa. Saiba que para tudo que é feito há ordens unívocas e específicas, e
condições para que possam ser completadas. Há um atributo de amor, com seus
componentes que o completam, e há também um atributo de justiça, com seus
componentes, que igualmente o completam. Até o fenômeno do julgamento que, em
realidade, provém do amor, tem componentes que o completam e efetivam sua
manifestação. Pois a sabedoria se desenvolve crescendo em diminutas parcelas, até
mesmo da largura de um fio de cabelo, e todo aquele que as incentiva merece elogios.
Apesar de não conhecermos todas as parcelas específicas, por ser infinito seu número,
nos é possível reconhecer os princípios gerais.

A determinação para a manifestação do julgamento necessita de considerações de todas


as criações para determinar o que é necessário em relação às respectivas naturezas e que
tipo de julgamento deve ser estabelecido para as suas necessidades. Também aqui foram
estabelecidas primeiramente as ordens principais de julgamento de uma forma geral, após
o que todas as alternativas foram discriminadas individualmente, uma em seguida à outra,
necessitando todas elas considerações para um estabelecimento apropriado.
Isto é óbvio: não há nada específico sem um princípio anterior. E depois dessa
consideração completa, os julgamentos são estabelecidos dentro de suas ordens; pois
certamente não há julgamentos sem razões suficientes em todos os seus detalhes. Mas os
julgamentos são uma coisa, e suas razões, outra, e não devemos confundi-las! Devemos
saber que todos os julgamentos que Deus estabeleceu para todos os hóspedes do céu e
da terra, e toda a ordem pela qual Ele os governa, são o resultado de Sua contemplação
em Sua sabedoria e compreensão do que lhes é necessário. É nessa contemplação que
todas as razões para esses julgamentos são incluídas. Aquele que sabe o que o Eterno
contemplou e sobre o que Ele refletiu ao estabelecer Seu julgamento saberá as razões do
julgamento.

Ao revelar Seu segredo aos profetas, relatando sobre Seus julgamentos, Ele primeiro
expõe o que contemplou e sobre o que refletiu ao estabelecer todas as ordens desses
julgamentos. Vemos então que é essa contemplação geral e específica que leva ao
julgamento em todas as suas ordens, com tudo o que lhe concerne. Sobre seus
desdobramentos está a alteração do julgamento e suas ordens, conforme ditadas pelas
elevações e quedas requeridas pelo mundo, assim como cada novo reparo por ele
solicitado com a passagem do tempo. Essa contemplação nunca cessará. Ela dá ao
mundo a sua existência, a cada momento, em todas as épocas, no momento apropriado.
Ela também origina para o mundo ascensões à fortificação necessária para a sua
perfeição. Mas devemos investigar mais a fundo essas coisas para entendermos bem.

155 ALMA: Certamente não há fim para a sabedoria e, para entender tudo, muito mais
ainda é necessário.

156 INTELECTO: Em relação a isto está escrito: “... eu disse: ‘Tornar-me-ei um sábio’ –
mas isto estava além de minha capacidade.” (Eclesiastes 7:23) Mas voltemos ao
nosso assunto. O que concluímos de tudo isso que dissemos até agora é que o Eterno
está totalmente além da compreensão de todas as Suas criações, e que Sua natureza está
além de tudo que pode ser concebido por nossas mentes. Entretanto, Ele desejou projetar
a partir de Si mesmo certas providências relevantes e benéficas para nós, em função das
quais Lhe atribuímos diversos atributos e enumeramos Seus méritos, a partir de nossas
limitadas mentes. Já explicamos que o Eterno criou para Seus atos e providências certas
atribuições (com as quais O caracterizamos) assim como investiu a alma de certas
qualidades e características. Já sabemos, porém, a grande diferença entre estas e
aquelas, pois a alma é investida dessas características, que são adicionadas à sua
essência, enquanto o mesmo não pode ser dito em relação ao Eterno.

Sabemos somente que Ele age por meio dessas características, mas não que estas lhe
sejam inerentes ou Lhe tenham sido adicionadas. Pois Ele não é suscetível a nenhum
acontecimento ou tribulação ocorridos com Suas criações, e O caracterizamos com essas
qualidades somente como um meio de expressar o efeito de Sua providência e supervisão
sobre nós, sem que, de forma alguma, as atribuamos à Sua natureza. Maimônides, nosso
grande mestre, discorreu sobre isso no Guia dos Perplexos.

Sabemos, então, que mesmo as qualidades que distinguimos em Seus atos foram criadas
somente para nós, e são representativas somente em nosso nível, e não no Dele. O
conjunto de Suas qualidades, as quais Ele criou para Seus atos, é a fonte de tudo o que é
feito com Suas criaturas em todos os tempos. Elas compreendem uma série de leis
ordenadas em direção à perfeição de todas as criações, organizadas por níveis
sucessivos, um maior que o outro, até o ápice de tudo que é englobado nessas qualidades.
Entretanto, a discriminação dessa hierarquia é percebida somente por meio dos Seus atos.
Ou seja, quando analisamos tudo que é feito pelo Eterno com as criaturas, apreciamos
tudo corretamente e avaliamos todos esses atos comparando uns aos outros, e chegamos
a uma condição em que um ato pode ser considerado mais nobre que outro e, portanto,
acima dele em certa hierarquia.

Atribuímos então ao Eterno qualidades correspondentes aos atos que Dele provêm e, de
acordo com a citada hierarquia, classificamos Seus atributos. Os sábios, que eram
versados nesses conhecimentos e, desta forma, podiam distinguir certas qualidades (e,
consequentemente, os atos delas provindos), perceberam que eram interligadas entre si
de várias maneiras e formas. Pois, apesar de cada qualidade ser uma entidade em si, o
Eterno fez com que as qualidades fossem inter-relacionadas umas às outras, de modo que
a completude de um fator exigisse a assistência de outro.

Há uma sabedoria muito profunda neste assunto de interligação – o conhecimento da


conjunção de todos os aspectos de Seus decretos, como elos de uma corrente, um
inserido no outro.

Maimônides, de abençoada memória, diz em seu Guia dos Perplexos (I:54): “‘Toda a
minha bondade’ refere-se a Deus, mostrando a Moisés todas as Suas criações; ou seja,
mostrando-as de tal forma que ele apreendesse suas naturezas e interligações.”

Entre essas qualidades, há aquelas que, por serem inter-relacionadas por meio de causa e
efeito, serão percebidas com a compreensão de tudo o que é necessário para determinar
a relação de causa e consequência. Há outras que podem ser ligadas por meio da
conjunção de uma capacidade suplementar, em maior ou menor grau. Ou podem estar
ligadas por meio de projeção e recepção, ou seja, certo fator pode ser originado por uma
das qualidades e recebido por outra.

Por exemplo: um homem que pondera sobre algo que vê e cuja natureza deseja
compreender pode primeiro usar a faculdade da imaginação e construir esse objeto em
sua mente. Entretanto, se ele não utilizar outra faculdade além dessa, somente uma
imagem terá sido projetada em sua mente. Se ele deseja realmente entendê-la, usará a
faculdade da reflexão e examinará o objeto, dividindo-o, dissecando-o e, depois, reunindo
novamente as suas partes, dividindo o que é divisível e unindo o que pode ser unido, até
que um entendimento total seja atingido. Tudo isto deve suceder na alma do homem antes
de o objetivo final ser alcançado. Apesar de essas atividades não serem corporais, mas
espirituais, elas devem necessariamente se suceder.

Tomamos então conhecimento do objeto captado pela faculdade da imaginação, partindo


daí para a faculdade da reflexão. Este é um exemplo da conjunção de qualidades por meio
de projeção e recepção. Verificamos, então, na ordem das leis, que cada nível provém do
que lhe está imediatamente acima e que este necessita daquele, fazendo parte do próprio
nível inferior como uma ramificação. Podemos então distinguir no próprio nível inferior uma
causa imediata (do nível imediato que o precede) e uma causa distante (dos níveis
anteriores ao que o precede), sendo tudo organizado da maneira mais refinada e exata
possível, baseado na mais profunda sabedoria.

Em resumo, o Eterno criou uma variedade de providências baseadas em caráter, ordem e


nível, de onde, de maneira geral (cada um de acordo com sua natureza e fatores inter-
relacionados e todos os seus estágios), emerge a perfeita legislação por meio da qual o
Criador governa o mundo desde o dia da Criação até a completude de Seu objetivo final.

A esse respeito, devemos entender o que é uma função da ordem dos níveis em seu
arranjo hierárquico e o que é uma função de diferenciação dentro de seu caráter. Pois
existem qualidades e providências dentro da ordem de recompensa e punição que dão
origem à existência do bem e do mal, enquanto outras, por determinação da soberania do
Eterno, aperfeiçoam todos os defeitos. E, dentro das qualidades de recompensa e
punição, há aquelas enquadradas em Sua benevolência e aquelas enquadradas em Sua
justiça, e outras ainda dentro de um quadro mediano (da misericórdia) – tudo isso
operando em diferentes combinações.

Há várias providências dentro do quadro da escuridão terrena cuja natureza é escurecer e


brutalizar tudo aquilo que surge no mundo. E há também aquelas, dentro do quadro da
iluminação Divina, espiritual, cuja natureza é iluminar a escuridão e espalhar luminosidade
sobre as criações. Dentro desse contexto há vários níveis em escala crescente. Aquele
que procura entender – dentro das possibilidades humanas – os decretos do Eterno deve
considerar tudo isso. Deve entender as raízes e ramificações, ou seja, as variedades de
providências e suas ordens e ramificações, tanto na própria Criação quanto nos
acontecimentos derivados. Tudo se tornará mais claro quando você tiver assimilado tudo o
que expliquei até agora.

De tudo que falei até agora, o mais importante – fora a operação dos decretos em termos
dos fatos que produzem no mundo – é o conhecimento do nível essencial das criações,
seja em termos de seu refinamento e espiritualidade, seja em sua brutalidade e
corporeidade; sua glória e exaltação ou seus defeitos e baixezas; tudo procedente do que
produzem essas variedades de providências originadas pelo Eterno.

Em relação à Sua perfeição, todas as criações seriam iguais na essência de Sua glória e
na sublimidade do Seu refinamento. Mas Ele criou essas variedades de providências cujo
reflexo são todos os níveis correspondentes e diferenciados encontrados na Criação. Tudo
é dependente das providências e de suas ordens. Falarei mais sobre isso depois. O que
eu lhe disse até agora é suficiente para organizar a sua mente em relação à profunda
dinâmica na primeira variedade das leis da ordenação da recompensa e punição, ou seja,
das leis de Sua providência. Vamos agora à segunda variedade – as leis de recepção
dessa providência.

157 ALMA: Até agora eu ouvi explicações convincentes, que me permitiram organizar
minha mente e me sanaram muitas dúvidas. Agora estou preparado para escutar o
resto de suas palavras, que me proverão todo o entendimento daquilo que devo saber.

158 INTELECTO: Até agora falamos da providência do Eterno, que dá lugar a todos os
atos que se originam neste mundo. Devemos agora explicar a essência das criações
terrestres com todas as mudanças que lhes acontecem e com todas as leis de sua
natureza.

Isto também é uma função de uma das providências do Eterno, mas, além disso, é um tipo
especial de providência por si só. Pois as demais providências são as que o Eterno projeta
sobre a Criação, enquanto esta reside na natureza das próprias criações, apesar de ela
depender também das palavras do Eterno e seguir os padrões das outras providências.
Com a ajuda de Deus, falaremos mais sobre isso.

O que devemos entender agora é que os atos realizados pelo Eterno neste mundo
constituem uma categoria, e a existência das criações em relação às quais esses atos são
realizados constitui outra. Ao investigar a primeira categoria, ganhamos entendimento da
providência Divina; ao investigarmos a segunda, o entendimento de todas as ordens de
mudança na essência das criações, seja em ascendência ou queda, em detalhes. Vamos
explicar.
Dando existência à vida

Já lhe afirmei que a existência das criações também deriva de Sua palavra, não havendo
existência a não ser por meio de Sua providência e supervisão. Caso o Criador – Deus nos
livre! – suspendesse essa providência e supervisão, todas as criações se extinguiriam em
um instante. Mas há um poder que Dele emana para todas as criações e que lhes dá
existência. Por analogia, podemos entender que, da mesma maneira que a alma sustenta o
corpo que, sem ela, estaria perdido, a providência do Criador também sustenta todas as
Suas criações que, sem Ele, se perderiam. É por isso que nossos sábios denominaram a
providência do Criador de “alma das almas”.

Já mencionei que esse é um fenômeno por si só, à parte de todas as demais providências
que Ele projeta sobre o mundo. Pois o único objetivo dessa providência é a existência das
criações, e não suas ocorrências. O que deve ser entendido em relação a essa categoria é
somente a diferença nos períodos de tempo da Criação e as mudanças em seus estados,
da ascensão à queda. Pois tudo isso é um aspecto da determinação do Eterno implícita
nas leis que Ele estabeleceu para a essência dos seres criados, que não podem subir
acima ou descer abaixo daquilo que foi implantado em suas naturezas. Vamos agora
entender aquilo que é possível dessa essência derivada da providência e da supervisão do
Eterno
O Homem

O nível superior de toda a Criação é o homem, e a Congregação de Israel lhe é superior.


Nossos sábios disseram (Talmud de Jerusalém, Shabat 6 e Nedarim 32a): “Os anjos
celestiais sentam do lado de fora e Israel, do lado de dentro, conforme está escrito:
‘Ainda, como agora, (...) se poderá dizer a Jacob e Israel as coisas que Deus tem feito!’
(Números 23:23)” Mas devemos discriminar duas condições diferentes no homem,
conforme afirmaram nosso sábios: “Se ele é digno, lhe é dito ‘você precedeu a todos na
Criação’. Mas se ele não é digno, lhe é dito ‘até um mosquito lhe precedeu’.” (Vayicrá
Rabá 14a) Isto se deve ao fato de não haver criatura mais suscetível ao mal do que o
homem, já que somente ele tem a possibilidade de pecar e se rebelar contra seu Criador –
Deus nos livre! A inclinação do seu coração é má desde a sua juventude, algo que não
ocorre com as demais criaturas. Por outro lado, quando ele é perfeito e completo, ele é
superior a tudo. Somente ele pode alcançar uma união com o Eterno, quando então todas
as demais criaturas lhe são subservientes.

Nossos sábios falaram de maneira similar em relação aos filhos de Israel (Meguilá 16a),
que eles são como as estrelas do céu, podendo se elevar às alturas, e como as areias da
terra, descendo a grandes profundidades. Na verdade, a Sabedoria Divina decretou a
verdadeira essência do homem como nobre e exaltada, mas Ele primeiro a rebaixou, de
modo que o mal pudesse dominá-la. Quando o homem se rebaixa, ele é a mais baixa de
todas as criaturas. Mas quando ele alcança a perfeição e completude, ele retorna ao seu
estado preliminar e verdadeiro, e eleva-se acima de tudo, ascendendo a um nível não
alcançável por nenhuma outra criatura.

O objetivo final do ciclo deste mundo é a revelação da Unicidade Suprema, de modo que o
próprio mal testemunhe a unicidade de Deus em sua transformação para o bem, conforme
está escrito em Isaías 12:1: “Agradecer-Te-ei, ó Eterno (...) desvaneceu-se Tua ira”, como
já expliquei. Portanto, nada é feito a não ser por meio desse rebaixamento do homem. Pois
o mal ganha influência sobre o homem por meio dele e, quando este se aperfeiçoa e
ascende, o mal é transformado em bem, pois é a má inclinação que lhe dá esse mérito.
Percebemos, então, que é seu defeito que lhe dá a possibilidade de alcançar a perfeição,
pois, caso estivesse sempre num estado sublime e insuscetível ao mal, não conseguiria
chegar a transformar o mal em bem, o que é a maior perfeição de toda a Criação.

Na verdade, o Eterno fez a essência do homem formidável, mas Ele não implantou a
bondade nele para que não ficasse em um constante estado de glória. Em vez disso, Ele o
fez como a lua, que é escura e deve receber luz do sol, para somente assim ser
luminescente. Da mesma maneira, o homem não é forte por si mesmo, mas aperfeiçoa a
sua força por meio da união com o Eterno, que o ilumina com a luz de Seu semblante e o
torna perfeito. O único objetivo do Eterno em todas as leis de Sua providência é a
Congregação de Israel. Toda sua atenção está direcionada a Israel, conforme consta no
Salmo 40:6: “Desígnios e atos plenos de maravilhas a nós dedicastes...” Assim, os
decretos de Sua providência e os acontecimentos na existência de Israel correm em
paralelo. Desse modo, em cada ordem de Sua providência consuma-se a união do Eterno
com a Congregação de Israel.

Você deve estar ciente de um grande princípio que governa o serviço designado ao
homem, haja vista que todas as criações dependem do Criador e nada são a não ser o que
Ele projeta sobre elas. Desse modo, não são donas de seus atos e feitos, mas todos os
seus feitos são determinados por Sua providência sobre elas. Somente o homem possui
essa faculdade especial do livre-arbítrio, tendo o poder de atuar de acordo com a sua
própria vontade, sem compulsão, conforme afirmaram nossos sábios: “Tudo depende dos
Céus, com exceção do temor aos Céus.” (Berachot 33b) Compreendemos, então, que o
homem é dependente do Criador, assim como todas as demais criaturas, mas, em relação
ao serviço Divino, ele foi investido com a qualidade de não ser dependente do Criador,
mas, sim, de seu livre-arbítrio. Conforme dissemos, “tudo depende dos Céus, com
exceção do temor aos Céus”. E as próprias almas, antes de descerem aos corpos, são
como todas as demais criações (dependentes do Criador), mas não têm nesse estado
nenhum serviço Divino por livre-arbítrio. É somente quando descem ao corpo que são
investidas do livre-arbítrio, e somente nesse aspecto tornam-se independentes do Criador.
Mas em todos os demais aspectos não há dúvidas que o homem também é
completamente dependente Dele, conforme disseram nossos sábios: “Tudo depende dos
Céus.”
Observe agora quanta honra o Criador concedeu aos justos ao considerá-los parceiros
Dele no universo, conforme disseram nossos sábios: “Você é minha nação (ami), você está
Comigo (imi).” (Zôhar I:5) Na verdade, Ele lhes deu uma parte na perfeição do mundo e na
melhoria da Criação, de modo que a perfeição da Criação se encontrasse – por assim
dizer – dividida entre o Eterno e os justos, sendo completada somente por meio de ambos.
Se valessem termos de familiaridade com relação ao Eterno, poderíamos dizer que a
Congregação de Israel seria como uma mulher junto a seu marido (Deus), que dividem
entre si a responsabilidade pela perfeição do mundo. Por essa razão, ela pode falar diante
Dele, de cabeça erguida, e não “como aquele que come daquilo que não é seu e tem
vergonha de olhar para aquele que o provê” (Talmud de Jerusalém, Orlá 1:3). Mas ela se
regozija perante a presença Divina com alegria e de cabeça erguida, o que não é o caso
das almas antes de entrarem nos corpos neste mundo. Pois, nessa época, são como
servos que se arrastam atrás de seus donos, certamente em parte de maneira elevada,
mas recebendo caridade de maneira vergonhosa, como explicamos.

O Rabi Shimon bar Iochai nos proveu de uma ótima analogia sobre isso. Em relação à
reza, ele afirmou que existe aquele que é como um servo não muito amado pelo rei, que
elevará sua voz para implorar ao rei quando este estiver de costas. O rei decretará que
seu pedido seja concedido, mas ele não voltará a sua face para esse servo e não olhará
para ele. Há outro servo que é amado pelo rei, que o receberá cordialmente, com sua face
voltada para ele, e conversará com ele tanto quanto ele desejar. Isto é que foi dito sobre
Moisés e Israel: “Face a face o Eterno falou...” (Deuteronômio 5:4) e “E o Eterno falava a
Moisés face a face, como fala um homem ao seu companheiro” (Êxodo 33:11), e conforme
a bênção sacerdotal (Números 6:25): “Faça o Eterno resplandecer o Seu rosto sobre ti.”
Mas em outro lugar está dito: “... e verás Minhas costas, e o Meu rosto não será visto.”
(Êxodo 33:23) Tudo isso é natural. Dois amigos que se voltam um para o outro com amor
voltam suas faces um para o outro, manifestando sua proximidade. Mas se dois homens se
sentem distantes um do outro, um vira sua face para um lado e o outro, para o outro lado.
Pois olhar face a face representa inclinação, e dar as costas, estranhamento.

Todas essas condições podem ser alcançadas em relação à união das criaturas terrestres
com o Criador. Pois quando tiverem se aperfeiçoado em seu nível apropriado, elas se
tornarão fortemente unidas ao Criador em uma ligação de amor, como dois amigos que
viram suas faces um para o outro. Mas, caso não tenham alcançado esse nível e estejam
despreparadas, são sustentadas e toleradas por Ele, pois, de qualquer maneira, as almas
são uma parte Dele e constantemente O desejam como sua fonte, mas não de maneira
familiar e digna, mas como dois amigos que viram seus rostos em direção opostas,
demonstrando seu estranhamento e evitando um ao outro. O mesmo se dá com essas
almas: elas são por Ele sustentadas como algo que não é plenamente amado. Elas não
têm face para Ele e Ele não lhes volta Sua face. Quando elas tiverem se aperfeiçoado,
terão uma relação de amor, conforme está escrito: “... mostra-Me a tua face, a tua face
aprazível.” (Cântico dos Cânticos 2:14)

A partir daquilo que dissemos, você entenderá que, apesar de não haver corpo ou forma
nas alturas, há formas de supervisão e providência que podem ser referidas
figurativamente como “face” e outras, como “costas”, como no verso já mencionado: “...e
verás Minhas costas, e o Meu rosto não será visto.” E entende-se que os tipos de
providência referidos como “face” correspondem à face de um homem expressando
proximidade e amor, e aquela referida como “costas”, às costas de um homem,
expressando estranhamento. Em referência a esses dois atributos, definimos o estado de
proximidade ou distância entre Israel e o Eterno.

Também devemos saber que, apesar de Israel conter em si mesmo a capacidade


necessária para cumprir o serviço Divino e agir com seu livre-arbítrio sem nenhum tipo de
compulsão, o poder desse serviço vem somente do Eterno. Foi isso que Ele lhes deu na
época da entrega da Torá e que Ele sustenta e renova constantemente. Note que é essa a
diferença entre alguém que é ordenado por Deus e faz aquilo que lhe foi ordenado e aquele
que age sem ter sido ordenado. Aquele que foi ordenado possui poder, investido pelo
Eterno, para alcançar a perfeição exigida pela Criação, ao contrário daquele que não foi
expressamente ordenado.

Isso pode ser ilustrado por meio da instituição do sacerdócio. O cohen (sacerdote) que faz
o serviço Divino aperfeiçoa todo o mundo, enquanto aquele que não é cohen e o pratica é
acusado de profanação e incorre na pena de morte. E mais: o próprio cohen que oficiar
sem as roupas sacerdotais não é considerado um cohen, pois tudo depende do poder
Celestial, das ordens do Rei, que somente o comandado recebe. E esse poder só é
investido naquele que se adequar para recebê-lo. Ele não foi dado aos animais nem aos
anjos, mas somente aos filhos de Israel, que estavam prontos para isso desde o começo.

Deve-se notar que foi isso que Deus fez com Israel no monte Sinai. Ele não lhes deu toda a
Torá na época, mas o episódio serviu de preparação geral para todo o serviço das mitsvót
(mandamentos Divinos). Lá, Ele aperfeiçoou todas as graças e qualidades apropriadas
para alguém designado a servir o Criador. Pois, no começo, Ele rebaixou o status do
homem para torná-lo suscetível à má inclinação, conforme já explicamos. Nessa época, o
homem poderia ser comparado aos animais. Mas quando os filhos de Israel vieram ao
monte Sinai, o Criador os investiu com toda a grandeza necessária para a sua perfeição,
para que tivessem o poder de servi-Lo. Então, Ele os aproximou com amor, como está
escrito na Hagadá de Pêssach: “Ele nos aproximou no monte Sinai”, e conforme afirmamos
todos os dias: “Tu nos aproximaste de Teu grande Nome”, e com Ele se uniram em Seu
amor. Foi então que Ele lhes deu, pela primeira vez, o poder de cumprir todas as mitsvót e
os proveu de seus atos a Seu serviço, resultando em bons frutos para a perfeição da
Criação. Esse é o objetivo de “E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e um povo
santo!” (Êxodo 19:6) Daí em diante, Israel permaneceu distinto das demais nações e
agraciado com o poder Celestial de observar todas as mitsvót e aperfeiçoar toda a
Criação por meio delas. Esse fenômeno se renova constantemente, nunca cessando,
conforme está escrito: “Hoje vieste a ser o povo...” (Deuteronômio 27:9), e cada judeu
deve se ver como se tivesse recebido a Torá no monte Sinai, esse grandioso evento que se
renova para Israel a cada dia.

Devemos agora explicar a natureza da parceria que mencionamos acima entre o justo e o
Eterno no aperfeiçoamento da Criação. O Eterno criou o fenômeno da escuridão
implantada nos seres terrestres e constituinte da fonte do mal, bem como a possibilidade
de sua remoção e transformação em bem, como já falamos. O Eterno aplica Sua
providencia às criaturas terrestres somente em acordo com seu estado de prontidão.
Desse modo, recai sobre a sorte dos justos aperfeiçoar essa natureza escura aos poucos.
Pois, conforme o justo as aperfeiçoa, na mesma proporção o Criador irá manifestar
providências novas e benéficas de forma correspondente ao cultivo e aperfeiçoamento
efetivados na natureza dos seres terrestres. Assim, os justos colocam diante do Eterno
uma nova prontidão e perfeição na natureza escura e Ele lhes responde com uma
providência restauradora, correspondente a essa prontidão. Logo, é conveniente aos justos
multiplicarem preparações e aperfeiçoamentos nos seres terrestres, pois, em
correspondência, o Criador projetará uma providência que levará a uma elevação em níveis
cada vez mais altos.

Após o pecado de Adão, o mundo decaiu muito, e defeitos após defeitos foram
adicionados à natureza dos seres humanos. O que deve ser corrigido primeiramente são
esses defeitos que foram adicionados, e é isto que vem sendo feito até a época da
redenção. Pois esta é a finalidade de todos os exílios: aperfeiçoar aquilo que foi
considerado defeituoso e recuperar o que foi perdido, para que possamos entender o bem
que se seguirá, da mesma forma que ocorreria caso Adão não tivesse pecado. Quando
esse processo já tiver se completado, vivenciaremos a redenção completa. Nossa tarefa é
levar o mal de volta de seus limites expandidos, em consequência do pecado de Adão, e
recuperar o bem que perdemos. À medida que melhorias nesse sentido sejam feitas
constantemente por meio dos atos dos justos no cultivo da natureza dos seres terrestres,
nessa mesma medida, o Eterno os atenderá com Sua providencia.

O Eterno divide sua ordenação com a Congregação de Israel, tornando-a Sua parceira no
aperfeiçoamento da Criação – Ele aperfeiçoando de um lado e ela, do outro, uma
perfeição completa sendo alcançada entre eles. A esse respeito nossos sábios afirmaram
no Midrash (Shir Hashirim Rabá e Ialcut Shimoni 2:5): “‘Minha pomba, minha inocente’ –
minha metade.” Encontramos essa ideia da conjunção da providência e da receptividade
para o aperfeiçoamento das criaturas também nas escrituras: “Minha mão (esquerda)
estabeleceu o fundamento da terra, e Minha direita expandiu os céus. Quando os chamo,
erguem-se juntos.” (Isaías 48:13) Os céus manifestam a providência e a terra a recebe,
mas são ambos iguais em respeito à perfeição efetivada entre as duas. Esta é a intenção
no verso já mencionado (Ialcut Shimoni, ibid.): “Mesmo assim não sou maior, nem ele o é.”
A providência é referida aqui como a “mão direita” por ser a dominante, e a necessidade e
a recepção são referidas como a “mão esquerda” por ser secundária em relação à mão
direita.

Você já escutou que todos os acontecimentos terrestres dependem do comando de Deus.


Logo, a raiz de tudo isso é a existência de um poder Supremo, que a tudo sustenta sob
todas as condições. E os elementos desse poder correspondem e são relativos às
providências do Eterno, em todas as suas ordens, conforme lhe expliquei acima na
interpretação do verso “... e verás Minhas costas, e o Meu rosto não será visto.” (Êxodo
33:23) Pois há uma variedade de providências pelas quais pode-se medir a relativa
proximidade e distância entre Israel e seu Pai que habita nos Céus. E as condições dos
seres terrestres em todos os seus aspectos irão variar de acordo com a relação e
correspondência do poder terrestre com as variedades de providência do Eterno, pois eu
já lhe expliquei como elas formam uma só ligação, como as ramificações de uma só
árvore.

159 ALMA: Certamente há uma razão por trás das mudanças da essência dos seres
terrestres de uma condição para outra, isto é, deve haver alguma fonte de mudança
que efetua alterações perceptíveis nos seres terrestres e que está (a fonte) associada
com as mudanças correspondentes das variedades da providência.
Presença Divina na terra

160 INTELECTO: Há espaço aqui para detalhamentos adicionais sobre a relação entre
esse poder e os próprios seres terrestres. Ou seja, o homem é constituído de corpo
e alma, e nós sabemos que todos os movimentos corporais são originados na alma. Mas
devemos também entender como a alma reside no corpo e como ela funciona para
propiciar esses movimentos. De maneira similar, devemos entender a ideia do poder dos
seres terrestres e sua relação a eles mesmos.

Vou lhe falar de algo muito profundo a esse respeito. A Glória Suprema é onipresente e é
isso que dá vida a todas as criações, conforme testificam as escrituras: “Tu lhes
proporcionas vida.” (Neemias 9:6) E a esse respeito está escrito em Isaías 6:3: “Sua glória
envolve o mundo inteiro.” Entretanto, os pecados dos homens levam a glória a partir dos
seres terrestres, conforme consta (ibid. 59:2): “Foram vossas iniquidades que vos
separaram de vosso Deus.” Já os méritos, pelo contrário, fazem a glória de Deus se
estabelecer entre elas, conforme consta: “... e morarei entre eles.” (Êxodo 25:8) E essa
glória é elevada e exaltada ao residir entre os seres terrestres, conforme disseram nossos
sábios (Iomá 38a): “Tudo o que o Santíssimo criou em Seu mundo, criou somente para a
Sua glória.” E a respeito do exílio está escrito em Lamentações 1:6: “... e partiram
exauridos diante do perseguidor”, pois o poder Supremo estava distante deles, conforme
está escrito em Números 14:9: “... o seu amparo retirou-se...” Entretanto, em relação à
redenção de Israel está escrito: “... e brilha sobre ti a glória do Eterno.” (Isaías 60:1)
Nessa época, a própria glória será elevada.

Saiba que esse fenômeno é essencial em relação aos anjos e suas atividades. O Criador
desejou realizar Seus feitos por meio de intermediários, os anjos, motivo pelo qual fez
residir Sua presença entre eles, que são seus mensageiros, que carregam todos os Seus
decretos. E Seu domínio está sempre dentro deles, conforme disseram nossos sábios: “‘O
Eterno está com eles’ – Seu domínio está neles” (Ialcut Shimoni. 2:797) e “O nome do
Eterno está unido a cada anjo” (Tanchumá, Mishpatim 18). E essa glória preside sobre
todos esses hospedeiros e os abraça constantemente, mas de maneira proporcional ao
nível e importância do anjo, pois eles também têm uma ordem de classificação, cada um
de acordo com o seu nível.
Saiba também que, apesar de a glória de Deus ser onipresente, ela se revela mais em
alguns lugares do que em outros, especialmente em lugares consagrados para a Sua
glória, onde Ele é rodeado por aqueles que desejam se unir a ele, conforme está escrito:
“... pelo lugar de Sua morada perguntareis, e lá ireis” (Deuteronômio 12:5) e “... aparecerá
todo homem de teu povo diante do Senhor, o Eterno, Deus de Israel.” (Êxodo 34:23)
Diversos arranjos e ordens são necessários nas várias graduações antes que essa união
com a santidade do Eterno seja alcançada. Sobre essa fundação descansa toda a
estrutura do tabernáculo e do santuário, um lugar dentro do outro, até o santuário interior,
onde reside a glória de Deus, para ser rodeada e encontrada por aqueles que desejam a
Ele se unir. Há um santuário superior correspondente ao santuário inferior (Tanchumá,
Mishpatim 18) e toda a multidão do céu exalta a Sua glória, dizendo: “... Sua glória envolve
o mundo inteiro” (Isaías 6:3) e “Bendita seja a glória do Eterno desde Seu lugar” (Ezequiel
3:12), pois Ele sozinho é o poder de tudo que foi criado, conforme explicamos. Este é o
significado do que encontramos nos Salmos (104:31): “Perpétua é a glória do Eterno!
Possa Ele sempre Se alegrar com o que criou”, Sua glória sendo exaltada por meio dos
louvores de suas criações. Foi a respeito disto que nossos sábios afirmaram: “Este verso
foi proclamado pelo regente do mundo.” (Chulim 60a)

Essa elevação da glória de Deus é resultante dos trabalhos de várias criações, cada uma
de acordo com a sua função única. E esta era a meditação do cohen no serviço de
sacrifício, especialmente da oferenda diária, a respeito da qual foi escrito: “Meu sacrifício,
Meu pão.” (Números 28:2) Pois este era oferecido diariamente diante do Santíssimo para
benefício de toda a Criação, e significava a elevação da glória por meio da colocação de
todas as espécies em existência, cada uma em seu domínio. E, de fato, isto requeria
grande sabedoria por parte dos cohanim, para que pudessem se aproximar de Deus em
nome de todo o povo de Israel, com um serviço Divino que fosse verdadeiramente aceito.
A respeito disso está escrito: “Porque os lábios dos sacerdotes devem salvaguardar o
conhecimento, e de sua boca deve o povo buscar o conhecimento...” (Malaquias 2:7) Eles
se concentravam em unir toda a Criação a seu Criador, sabendo aquilo que era necessário
para alcançar essa condição e, dentro desse contexto, eles realizavam tudo o que era
necessário no sacrifício ritual, como aspergir o sangue e queimar o incenso, tudo
correspondendo a profundos mistérios no aperfeiçoamento de toda a Criação em união
com o Eterno.
Há muito mais a ser dito em relação a isto, mas não é aqui o lugar apropriado. A ideia
geral é unir todas as criações – das mais baixas até as mais elevadas – à Glória Suprema,
conforme está escrito em Jeremias 23:24: “Acaso não preencho totalmente os céus e a
terra?” Isto é feito por meio das ordenações criadas para esse propósito e de acordo com
a capacidade dos servos, unidos sob o abrigo de Seu mestre.
O tsadic (o justo)

Os justos, entretanto, atuam em uma função especial nessa área, conforme já explicamos:
eles realizam reparos e melhorias na própria Criação, estabelecendo uma nova perfeição a
cada dia, dentro dos limites de seus poderes, por meio dos quais o Criador Se manifesta a
eles numa providência de bênção correspondente a seu despertar e prontidão. Você já
escutou que todos os defeitos da Criação são resultado da ocultação de Sua perfeição e
de Sua unicidade. Pois quando Sua unicidade dominar, aperfeiçoará totalmente a Criação,
removendo todo e qualquer impedimento entre o Criador e Suas criaturas, conforme
explicamos em relação ao verso de Isaías 59:2: “Foram vossas iniquidades que vos
separaram...” Mas, quando os justos atuam, a Unicidade Suprema desperta e é
parcialmente revelada de acordo com o reparo efetuado, de modo que mais um pouco de
perfeição é adicionado à Criação de maneira proporcional ao serviço. Pois não há serviço
Divino que não adicione perfeição ao universo por meio da revelação da Unicidade Divina,
que remove tudo aquilo que separa as criações do Criador e as une com a Glória
Suprema. Os seres terrestres se unirão com a santidade do Eterno por meio de todas as
formas às quais Ele conferiu Sua santidade, por meio da variedade de Seus decretos e
das bênçãos que Ele confere à Criação.

No início, será fortificada a união entre as almas e a santidade do Eterno, como uma parte
que se une ao todo, como na analogia das escrituras: “Pois a porção do Eterno é Seu
povo...” (Deuteronômio 32:9) e conforme mencionado no início do Cântico dos Cânticos
(1:2): “Que Ele me beije com os beijos de Sua boca...”, que denota a força da união. É o
tipo de união estável que pode ser criada entre o Eterno e a Congregação de Israel e para
a qual um beijo humano pode servir como imagem. Por meio da força dessa união, o
Eterno projetará sobre a Congregação de Israel e sobre todos nesta órbita um manancial
de santidade, ou seja, um manancial espiritual Divino de bênçãos que leva ao sucesso
mesmo neste mundo. Quando os seres terrestres se unirem ao Eterno numa união de
amor, Ele irá despertar Seu amor para com eles e desejará seus serviços, conforme
afirmaram nossos sábios: “Que escolhe Seu povo de Israel com amor”, e “o Eterno, nosso
Deus, deseja Seu povo de Israel e suas rezas”. Pois é por meio desse desejo que o
serviço obtém o aperfeiçoamento da Criação, conforme já explicamos. É somente o poder
do comando e desejo Supremos que conferem eficiência e perfeição às mitsvót. É o poder
desse desejo que investe o serviço Divino de qualquer eficiência que este possa ter e que
permite a afluência de bênçãos por todos os meios estabelecidos para tal. Traz bênçãos
às criações terrestres como um todo e, subsequentemente, as confere sobre cada
indivíduo em particular, cada um conforme o que merece.

Estes são os caminhos do Eterno – “Os caminhos do Eterno são retos” – em Sua conduta
para com as criaturas terrestres. Aquele que observá-los, neles, encontrará perfeita lógica.
Que ele teste toda a Torá e as mitsvót. Nada deixará a desejar.

Devo agora revelar outro princípio central. A Congregação de Israel possui uma raiz de
santidade que é universal dentro dessa nação santa pelo simples fato de ela ser Israel, e
que persiste, mesmo que haja ímpios nela. Conforme nossos sábios afirmaram (San’hedrin
44a): “Mesmo que ele tenha pecado, ele é parte de Israel.”

Está escrito: “‘O Eterno é minha porção’, proclama a minha alma, ‘e por isto Nele deposito
minha esperança’.” (Lamentações 3:24) Ainda assim, a maior parte das ordenações dos
mundos, em todas as ordens das criações do bem e do mal, não dependem disto, mas,
sim, das ações dos homens, cada um sendo julgado de acordo com os seus feitos. Parece
então haver um tipo de existência genérica para a Congregação de Israel que não é
extremamente crucial, mas que é especialmente elevada. Além disso, há a existência
essencial relacionada com a indicação do serviço Divino que devem prestar, sobre a qual
estão suspensos todos os aspectos dessa profunda ordenação.
A estrutura espiritual – emanação Divina

Os dias da semana constituem um ciclo contínuo sobre o qual daremos mais explicações
posteriormente. O centro da semana é o Shabat, e o resto da semana somente completa
aquilo que nele está implícito. No Shabat há uma emanação que produz tudo aquilo que é
necessário para as criações durante todo o resto da semana, dia a dia, de acordo com a
sua magnitude e as ordens do ciclo. O centro do dia é a manhã, os demais períodos do dia
complementam aquilo que já foi originado.

A providência essencial será inferida pelos seres terrestres de acordo com sua capacidade
essencial, e os demais aspectos secundários da providência, de acordo com sua
capacidade não-essencial. Isto é evidente, pois tudo decorre de maneira paralela e
correspondente: a providência com seus objetos, e os atos com aqueles que os
executaram. Entenda que o Criador criou variedades de santidades que Dele emanam para
os seres terrestres. Essa santidade não é como Sua santidade oculta e impenetrável, mas
corresponde ao estado de prontidão de seus recipientes. Isso está sujeito a uma
graduação, pois uma santidade pode ser maior que outra, da mesma forma como há
santidades maiores e menores. Agora, o Eterno origina constantemente novos
aperfeiçoamentos nas generalidades da Criação de acordo com o despertar das criaturas
terrestres, conforme já dissemos. Cada aperfeiçoamento requer todas as condições
necessárias para a sua completude e a completude dos resultados que dela advirão. Tudo
isso se realiza por meio de Sua união com Suas criações.

Todas essas informações deviam ser do conhecimento dos sacerdotes que faziam as
oferendas ao Eterno: os sacrifícios diários, de acordo com a sua ordem, e os sacrifícios
suplementares, de acordo com as suas leis; tudo de acordo com as divisões dos períodos
de tempo. Em relação a essa união das criaturas com o Criador, eles deveriam saber em
qual dos diversos níveis a união teria lugar, qual revelação da Vontade Suprema seria
experimentada por eles e que emanação fluiria para eles – tudo de acordo com o tempo e
exigências do momento.

Até aqui Deus me ajudou a lhe explicar aquilo que é necessário em relação ao principio da
recompensa e punição. Chegamos agora à explicação do segundo princípio que mencionei,
aquele oculto, que trabalha com o objetivo da perfeição universal. E em relação a isso será
explicado o conceito de “Tudo depende do mazal (literalmente, constelação)” mencionado
por nossos sábios.
Justiça Divina

161 ALMA: Você mencionou algo que eu gostaria muito de entender.


162 INTELECTO: Aqui está envolvido também o conceito de “o mau que prospera e o
bom que sofre”, que não conseguimos entender.

163 ALMA: Então por que você mencionou se não é capaz de explicar?
164 INTELECTO: Nosso entendimento tem um limite. Vou explicar somente o necessário
para esclarecer o assunto; entretanto, aquilo que não pode ser compreendido não
debilita nossa fé nem confunde nossos pensamentos. Você deverá reconhecer que isso
seria somente mais um conhecimento agregado que não nos é indispensável. Aquilo de que
precisamos para assentar nossa mente e clarificar nossa fé, certamente, nós possuímos.
Deus não criou uma condição segundo a qual a fé seria debilitada pela nossa incapacidade
de entender algum assunto. Está escrito: “E saberás hoje, e considerarás no teu coração,
que o Eterno, Ele é o Deus...” (Deuteronômio 4:39)

165 ALMA: Sendo assim, diga-me aquilo que devo saber.


166 INTELECTO: Uma vez que o Eterno estabeleceu uma ordem de recompensa e
punição, todos receberão os frutos de seus atos – bons frutos para quem pratica o
bem e maus para quem pratica o mal. Entretanto, o Eterno orienta os fatos para que estes
se encaminhem numa ordenação somente do bem, sem a existência no mundo do mal. Isto
seria a perfeição e o refinamento da própria ordenação. Mas essa perfeição universal deve
ser produzida por meio da raiz da existência do bem e do mal. Pois aquele que deseja
alcançar uma cura completa para determinada doença deve buscar a sua causa e,
somente então, estará em posição de remover seu efeito. Aqui também: para originar uma
ordenação somente do bem, sem espaço para nenhum tipo de mal, é necessário saber a
causa do mal na presente ordenação e, em relação a essa causa, orientar tudo para que o
resultado seja sua eliminação.

Obviamente, o Eterno não deseja renunciar como alguém que se arrepende de seus feitos
anteriores e busca outro caminho; Ele tudo faz baseado na premissa original, e tudo
orienta de modo a que resulte na perfeição que Ele deseja. A raiz da existência do mal na
ordenação é inerente à revelação final da unicidade do Santíssimo, como já falamos, sendo
necessário que Ele revele o mal e permita que este faça tudo o que está em sua natureza
para, depois, revelar Sua soberania ao transformar o mal em bem.

Entretanto, recompensa e punição não se constituem num intensificador do mal, pois, de


qualquer maneira, mesmo sob essa ordenação, o mal somente assola os ímpios e aqueles
que renunciam ao Criador, enquanto que aqueles que O buscam são recompensados com
Seu favor. A intensificação do mal consiste, na verdade, na ocultação total do semblante
Divino do universo, conforme consta em Provérbios 1:28: “... chamar-Me-ão, mas não
responderei...” e “E falta a verdade, e o que se afasta do mal vem a se tornar uma
presa...” (Isaías 59:15) Isto é considerado uma ocultação total cujo propósito é somente a
subsequente revelação da perfeição completa, conforme indicado no verso que se segue:
“Então Seu próprio braço Lhe trouxe a salvação, sustentado por Sua benevolência.” (ibid.
16)

Nessa ordem e ordenação não se presta atenção ao mérito ou à culpa; somente há


permissão para que o mal se intensifique, para que o reino do bem seja revelado
posteriormente. E, todo o tempo em que o mal se intensifica, os justos também têm que
suportar a opressão, não porque isso é o Seu decreto, mas porque assim requer o
momento. De qualquer maneira, quando o bem se revelar e reassumir seu reinado, eles
receberão toda sua recompensa em proporção adequada ao mal que sofreram
anteriormente, conforme está escrito nos Salmos (90:15): “Alegra-nos na proporção dos
dias em que nos afligiste...” Mas durante todo o período de intensificação do mal, seus
méritos não se propõem a salvá-lo do mal, conforme está escrito: “O que é prudente
guarda então em silêncio, porque este é um tempo de maldade.” (Amós 5:13) Nesse
período, a ordem da justiça estará debilitada pela natureza do mal, e não só o mérito dos
justos não lhes permitirá escapar do mal, mas, pelo contrário, os ímpios irão prosperar e a
fortuna lhes sorrirá, enquanto os justos serão torturados e oprimidos, conforme disseram
nossos sábios: “Nos passos da vinda do Mashíach, a audácia prevalecerá e a sabedoria
dos escribas se dissipará...” (Sotá 49a) e conforme a própria escritura afirma: “E estará
oculta a verdade, e o que se afasta do mal vem a se tornar uma presa.” (Isaías 59:15)
Vemos então que, se o Eterno deseja conduzir o mundo de acordo com a ordenação da
unicidade, quando a luz é reconhecida por entre a escuridão e o próprio mal é
transformado em bem, Ele deve permitir que o mal se intensifique, sem levar em conta os
méritos dos justos. Pelo contrário, nessa época, aqueles que exercem o mal se fortalecem,
enquanto os justos se rebaixam até o chão. Depois disso, Ele revelará Seu reinado, e o
fruto dessa revelação será a transformação do mal em bem. Nessa época, não haverá
mais nenhum mal no mundo, mas somente o bem, e assim os justos aqui receberão sua
recompensa.

Se Ele conduzisse o universo somente de acordo com a ordenação da recompensa e


punição, o mundo seria somente bem para o bom e mal para o mau. Mas nada disso traria
a perfeição por meio da remoção do mal. Pois por que ele deveria ser removido, se assola
somente os ímpios e é mantido sem agir com a força total de seu poder? Mas já que o
Santíssimo realmente deseja o aperfeiçoamento total do universo e a remoção total do
mal, Ele age com os justos de acordo com a ordenação da unicidade que mencionamos,
na qual a retidão não evitará que passem pelos sofrimentos deste mundo. E certamente
isto não se dá dentro do quadro da recompensa e punição, mas somente dentro daquele
em que a perfeição universal será alcançada.

Certamente, isto é para seu próprio benefício, pois, no final, receberão uma recompensa
maior do que receberiam somente por seu mérito. É também para benefício do mundo,
pois se Ele agisse com eles de acordo com a ordenação da recompensa e punição,
nenhum fruto resultaria de seus atos a não ser a recompensa correspondente, mas não a
eliminação do mal do mundo. Uma vez que aquilo que eles sofrem não é por virtude de
seus atos, mas, sim, da ordenação, o benefício da recompensa não será privado, mas,
sim, público em termos da ordenação, para revelar por meio de seus méritos a Unicidade
Suprema e remover o mal da própria ordenação.

Você irá notar uma vantagem a mais nisto: que a revelação da Unicidade Suprema será
por mérito e não por caridade total. Pois mesmo podendo ser considerado caridade em
relação aos demais homens, para os justos é uma recompensa por mérito, e sua bondade
cria benefício para o mundo como um todo, de modo que toda a Congregação de Israel é
beneficiada.
Motivos ocultos

167 ALMA: Mas, de acordo com isso, todos os justos do mundo não conheceriam nada
além do sofrimento, e a realidade nos mostra que não é assim.

168 INTELECTO: Há um motivo profundo para isso. O Eterno criou o mal com as
características e limitações que Ele desejou, e tudo estabeleceu para que fosse
erradicado totalmente da Criação, conforme já falamos. Mas Ele deve conduzir o processo
de acordo com a natureza do mal e as ordens que Ele criou para este. Assim, tendo Ele
criado o mundo imperfeito, regula tudo para que seja alcançado o aperfeiçoamento da
Criação por meio da eliminação de seus defeitos. Somente Ele sabe a base de todas as
coisas que deseja fazer e as razões de todos os Seus decretos, que são ocultos às Suas
criações. Elas só têm conhecimento dos decretos da Vontade Suprema, mas tudo aquilo
que a transcende, ou seja, o motivo de tais decretos, é um conhecimento não revelado.
Estes são os questionamentos que nos são proibidos, pois são baseados na magnitude do
Criador, algo em que não somos capazes de nos aprofundar.

O Eterno sabe que a perfeição do mundo requer duas coisas: a intensificação da


iluminação, ou seja, a intensificação e o engrandecimento de Sua providência e influência
no mundo, e também Sua diminuição e ocultação. Há coisas que se aperfeiçoam por meio
de uma intensificação da iluminação e providência e outras que, pelo contrário, por meio da
ocultação e diminuição, permitindo que o mal se intensifique. Isto fica claro para quem quer
que preste atenção em tudo o que acontece no universo. Ele não encontrará nenhum
acontecimento bom ou ruim que não resulte em benefício e bem para o mundo, conforme
afirmaram nossos sábios (Berachot 60a): “Tudo que é feito pelos Céus é para o bem.”
Mas o Eterno tem muitos caminhos, alguns se dirigindo para uma direção e outros para
outras direções, independentes de ações e méritos, mas do caráter e essência da
Criação. Somente o Eterno, que realmente sabe a essência da Criação, sabe do que ela
necessita.

Nós sabemos somente de uma coisa: há algo na essência da Criação cuja perfeição
necessita de aumento e diminuição. Esta é a natureza dos vinte e oito “momentos”*
mencionados em Eclesiastes (3:2-8), correspondendo a uma testemunha no céu: a lua,
cujo crescente e minguante ilustram esse conceito. Os sábios, que conhecem em
profundidade os caminhos e movimentos da lua e sua relação com o sol em todos os seus
estados, compreendem bem isso.

* Momentos de aumento e diminuição fixados pelo Criador desde o princípio, proporcionais ao cumprimento das
mitsvót, como um gráfico de um eletro-cardiograma. (RCVP)

Os caminhos servem de exemplo de todos os aspectos gerais da ordenação que se


encaminha para o aperfeiçoamento da Criação, necessitando de aumento e diminuição de
acordo com as características que possui. E é por esse motivo que a Congregação de
Israel foi comparada à lua. Segundo nossos sábios (San’hedrin 42a), “Israel está
destinado a se renovar conforme a lua”. O Criador distribuiu a perfeição da Criação entre
todas as almas por Ele criadas para servi-Lo de acordo com o que sabia ser apropriado
para cada uma delas, em função do motivo pelo qual fora criada. Esse saber oculto é de
grande profundidade e nunca pode ser percebido por qualquer profeta ou visionário.

Isto está incluso na categoria dos decretos que mencionamos e que estão totalmente fora
da providência das criações, sendo conhecidos somente seus derivados. Deste modo,
pode haver um homem que, em termos dessa distribuição, é designado para receber mais
influência da providência Divina, que é uma das maneiras pelos quais o universo é
aperfeiçoado; pode haver outros homens cujos objetivos básicos lhes ditam uma diminuição
da providência, e também eles são necessários para o aperfeiçoamento do mundo. Tudo
isso se relaciona não com os feitos dos homens, mas, sim, com a distribuição de perfeição
entre as criaturas feita pelo Eterno, cada uma se aperfeiçoando de seu próprio jeito. Mas o
julgamento cabe ao Eterno, de modo que, no final, uma boa recompensa será dada aos
justos (pois eram, de fato, justos, embora escolhidos pela Ordenação Suprema para a
opressão e aflição), tanto pelo sofrimento que passaram quanto por seus bons atos. A
generalidade dessa ordenação é orientada não por mérito ou culpa, mas, sim, por aquilo
que é necessário para o aperfeiçoamento do universo em termos de sua essência e é
referido por nossos sábios como mazal (literalmente, constelação). Pois sua natureza é
decretada e não depende do livre-arbítrio do homem nem de seus méritos. Entretanto,
conforme já afirmei, essa ordenação é operante somente neste mundo, enquanto no
mundo vindouro há somente recompensa pelos atos, medida por medida, mesmo em
relação a palavras que foram pronunciadas.
169 ALMA: Neste caso, pode-se dizer que neste mundo não há recompensa ou punição,
mas somente no mundo vindouro?

170 INTELECTO: Não é assim. Preciso lhe explicar algo. Nossos sábios afirmaram
(Bereshit Rabá 25:3): “‘E houve fome nos dias de David’ (2 Samuel 21:1) – esta
deveria ter ocorrido não nos dias do rei David, mas, sim, nos do rei Saul, mas já que o rei
Saul não seria capaz de tolerar isso, o Santíssimo fez com que a fome ocorresse nos dias
de David.” E, similarmente (Bereshit Rabá 55:22): “Quando o mercador de linho testa sua
mercadoria, ele o faz somente com os produtos mais fortes.”* Verificamos assim que nem
sempre o Criador leva o mazal a cabo, somente utilizando-o quando assim é desejável.
Pois Ele planejou ordens adequadas para o aperfeiçoamento da Criação e, para tal,
conforme dissemos, estabeleceu duas ordenações: a da recompensa e punição e o mazal.
É Ele quem decide quando usar uma ou outra, de acordo com o Seu conhecimento para o
bem de Seu universo. Entretanto, quando Ele age por meio da recompensa e punição, todo
o resultado será de acordo às ordens e leis destes, e quando Ele age por meio do mazal,
todo o resultado será de acordo com este.

* Quando o linho é de má qualidade, o mercador não o estica muito, pois acaba estragando-o, mas quando o linho é de
boa qualidade, quanto mais esticar melhor. Assim também é a analogia com os ímpios, em que o Criador não os testa
demais pois não aguentariam, diferentemente dos justos, que estão preparados para o sofrimento. (RCVP)

Também daí resultará um grande mérito para os justos, pois se o Criador afligisse somente
os justos, isto ainda seria um teste, pois poderiam se consolar por saberem que eram
inquestionavelmente justos, já que seriam sempre afligidos. E qualquer pessoa sensata
sofreria tais aflições com alegria, pois elas seriam uma confirmação de sua justeza, já que
os ímpios não seriam afetados. Mas o Criador desejou criar um teste maior, no qual
nenhum homem entenderia claramente como Ele age com cada homem em Seu mundo,
mas, sim, que, aparentemente, a ordenação parecesse como se fosse ao acaso. Com
encontramos em Eclesiastes 9:2: “Da mesma forma chegam os acontecimentos para
todos, o mesmo ocorre quer ao justo, quer ao ímpio.” Isto foi explicado por nossos sábios
no Midrash (Ialcut Shimoni, Cohelet 989): “Salomão olha para o fim do corredor das
gerações e vê as mesmas coisas acontecendo aos ímpios e aos justos...” Ou seja, o
Eterno vê que certo acontecimento que recai sobre um ímpio que comete certa
transgressão (ao qual tal punição é atribuída) também recai sobre o justo que é
absolutamente correto e que se afasta exatamente daquela transgressão! E essa verdade
é trazida à tona de maneira incontestável por meio do exemplo de Abrahão* e Nimrod e
todos os demais mencionados nesse Midrash.

* Com relação à idolatria, quando Abrahão se recusou a se ajoelhar perante uma estátua e foi atirado numa fornalha
por causa disso, mas se salvou, enquanto seu irmão, que também se recusara a se ajoelhar, acabou perecendo.
(RCVP)

Tudo é ordenado de maneira a resultar em uma boa recompensa para os justos, que se
fortificam em sua fé, conforme está escrito em Habacuc 2:4: “E os justos viverão em sua
fé.” Pois é impossível para qualquer um se lançar nas profundezas daquilo que o Eterno
está preparando para ele, pois, se numa época Ele pode estar Se conduzindo por meio da
ordenação da recompensa e punição, em outra pode o estar fazendo por meio do mazal. A
respeito de tudo o que recai sobre o homem, ninguém é capaz de determinar se ele está
sendo conduzido pelo aspecto de recompensa e punição, baseado em seus atos, ou se
está sendo conduzido pelo aspecto do mazal decretado sobre ele. Em tudo há um aspecto
de ambos, de modo que qualquer tentativa de tentar alcançar uma definição levará o
indivíduo à confusão. Mas aquele que é fiel a Deus deve ancorar sua fé firmemente no
conhecimento de que cada uma das ações do Eterno, qualquer que seja a sua forma, é
inquestionavelmente reta e justa, e jamais será errada – Deus nos livre! Ele não deve ser
como o ímpio, que diz: “O caminho de Deus não é certo”, mas deve manter-se firme,
servindo Seu Criador de maneira pura, aceitando com a mesma graça cada medida de
punição que lhe for aplicada. Se assim o fizer, será considerado puro.

Existem, em suma, dois caminhos: o caminho da recompensa e punição e o caminho do


mazal; o Criador os utiliza de acordo com Seu conhecimento do que é benéfico ao mundo.

No Midrash de Rabi Shimon bar Iochai aparece uma declaração que lida com as mais
profundas verdades sobre os mistérios dos atributos celestiais, mas que, mesmo assim,
parece muito estranha à primeira vista daqueles que não estão familiarizados com as
explicações por mim mencionadas (Ticunê Zôhar 70): “E quando o Santíssimo Se levanta
do trono da justiça e do trono da piedade, não há nem recompensa nem punição.” O
verdadeiro sentido da afirmação é que há um tempo em que o Criador não conduz Seu
mundo de acordo com a ordenação da recompensa e punição, mas, sim, com o mazal.
Certamente, recompensa e punição serão alcançados no mundo vindouro, cada homem
recebendo os frutos de seus caminhos e seus feitos. Mas o que nos é dito aqui é que, nas
“pegadas da vinda do Mashíach”,* não devemos considerar insuportável o fato de justos
serem humilhados ou não serem atendidas as súplicas dos seres humanos, e muitas
coisas ruins, de outros tipos, ocorrerão, pois nossos sábios mencionam dentro desse
contexto (Sotá 49b): “Nas pegadas do Mashíach a audácia prevalecerá.” Tudo isso advém
do fato de os justos, mesmo com todo o seu mérito, não poderem remediar esses
acontecimentos, pois esse momento os impele ao objetivo final da perfeição por meio da
revelação da unicidade do Santíssimo.

* Época que antecederá a vinda do Mashíach. (RCVP)

Preciso ainda dar algumas explicações para que fiquem esclarecidas todas as dúvidas.
Mesmo quando o Criador deseja conduzir o seu mundo por meio da ordenação do mazal,
Ele também orienta e direciona tudo para que aquilo que foi decretado pelo mazal se
encaixe dentro da ordenação da recompensa e punição, conforme encontramos em
relação às aflições do Rabi Iehudá Hanassi, a respeito das quais nossos sábios disseram
(Bava Metsia 85a): “Por meio de um ato (negativo) de Rabi elas chegaram, e por meio de
um ato (positivo) elas partiram.” * Na verdade, essas aflições eram nada mais que as
aflições dos justos, mas assim é o atributo Divino: o Eterno combina essas duas
ordenações de modo que mesmo os decretos do mazal se materializem somente por meio
da agência de algo que é atribuído à recompensa e punição, que é o catalisador de tudo
que deve acontecer, por mais insignificante que seja.

* Certa vez, um bezerro assustado que fugia do abatedor escondeu-se embaixo das pernas do Rabi Iehudá Hanassi,
que o tratou com desprezo, dizendo que o animal fora criado para esse fim. O Rabi foi castigado com dores
fortíssimas pelo corpo por causa disso. Posteriormente, o Rabi se redimiu ao proteger um camundongo de ser varrido
por uma faxineira. (RCVP)

Em suma: a essência da ordenação de Deus é o aperfeiçoamento universal de toda a


Criação que aciona os pólos da natureza das próprias criações, assim instituídas pelo
Criador. E todos os complexos detalhes dessa ordenação são orientados para o
aperfeiçoamento universal final por meio da remoção da imperfeição dessas criações.
Nessa ordem estão implícitas leis e ordens profundas completamente impenetráveis. Em
meio à “movimentação dessas rodas” encontra-se a ordenação da recompensa e punição,
a ordenação revelada da qual dependem todas as leis do céu e da terra. Entretanto, o
centro de todas as ordens e leis está no aperfeiçoamento universal que mencionamos, pois
estas não são duas ordenações opostas e excludentes entre si, mas, pelo contrário, a
base de ambas é a ordenação da perfeição universal. Só que o Criador, em Sua exaltada
sabedoria, planejou ordenar leis de recompensa e punição apropriadas a todo o período
da resolução dessa ordenação, e essas leis se relacionam e correspondem aos ciclos
governantes dessa perfeição. Desse modo, a ordenação da recompensa e punição não
advém do centro da ordenação do aperfeiçoamento universal, mas, pelo contrário,
corresponde e a ela se une, e os trabalhos da ordenação do aperfeiçoamento se
materializam dentro da ordenação da recompensa e punição, conforme falamos.

Mas o Criador ocultou de Suas criações os trabalhos dessa majestosa ordenação, de


modo que nem ela nem suas facetas e nem sua relação e a ordenação da recompensa e
punição são reveladas. Nenhum profeta ou visionário alcançou este conhecimento, mas
viveram acontecimentos sem jamais os entender completamente, permanecendo envoltos
num mar de dúvidas, conforme disseram nosso sábios em relação ao versículo de Êxodo
33:19: “... e farei misericórdia quando Eu quiser fazer misericórdia e Me compadecerei
quando Eu quiser Me compadecer.” (Ver Berachot 7a)

Saiba que o fruto dos atos virtuosos realizados pelos justos é o que eles aproveitarão após
a vinda do Mashíach no mundo da recompensa, o mundo eterno. Entretanto, esses
próprios atos virtuosos contêm a perfeição que eles produzem na Criação de acordo com a
ordem que os caracteriza, e também a recompensa que os justos merecem devido à
perfeição que eles produziram. Desse modo, o Criador deve levar em consideração os
atos dos homens tais como são e julgá-los em termos dos resultados, de acordo com o
que Ele deixou ao homem para aperfeiçoar em toda a Criação. Isto deve ser realizado de
acordo com a essência da Criação, conforme Ele a fez e de acordo com todas as
definições inerentes a essa estrutura.

Saiba que nada é esquecido diante do trono de Sua glória e nada deixa de ser percebido
por Ele na execução desse julgamento. Ou seja, não se deve pensar que, se algo se
tornou defeituoso e depois foi aperfeiçoado, Ele Se lembra somente da perfeição e Se
esquece dos defeitos. E o contrário também não é verdadeiro: algo que era perfeito e se
tornou defeituoso, também não é lembrada somente a perfeição. Não é assim que
funciona. Não há esquecimento diante do Trono da Glória. Não há comparação entre aquilo
que foi produzido pela perfeição que veio após o defeito ou a perfeição que vem após
outra perfeição ou a perfeição que vem depois de dois defeitos e assim por diante,
infinitamente. Pois, em termos do ciclo de toda a Criação, cada ato deve ser julgado em
termos de seu passado, presente e futuro, a Criação como um todo se aperfeiçoando
somente por meio da totalidade dos elementos cíclicos de todos os seis mil anos deste
mundo.

O Criador, em Sua onisciência, julgará tudo de acordo com esses três tempos
mencionados. Pois o resultado de qualquer ato somente pode ser medido em termos
daquilo que o precedeu, daquilo que é no presente e daquilo que virá a ser. Somente após
tudo isso ter sido levado em consideração é que a recompensa pode ser prescrita para
após a vinda do Mashíach, sendo ela proporcional aos atos praticados por cada um. No
Grande Dia do Julgamento, o Criador irá revelar tudo o que foi feito desde quando Ele
criou o homem sobre a terra até aquele dia. O ser humano perceberá a justiça de seu
julgamento em cada ato, grande ou pequeno, e do que for decretado em função desse
julgamento verdadeiro, para receber como recompensa após a vinda do Mashíach. Depois
disso, os justos se adiantarão para o recebimento de suas recompensas – cada um de
acordo com os seus atos.
Conclusão

171 ALMA: Certamente aprendi muito. Pelo menos tenho agora uma ideia lógica que
deixa a minha mente em paz em relação à Sua providência. Percebi o grande
objetivo contido no serviço Divino praticado pelo ser humano. Aprendi o que é e quais são
os seus benefícios; vi coisas recorrentes ao longo do tempo e suas fontes: o atributo
Divino da justiça e da piedade, a ordenação do mazal e o objetivo de tudo isso.
Compreendi a essência do homem no presente e sua ascensão no futuro. Entendi a ideia
da vinda do Mashíach, da ressurreição dos mortos e do mundo da recompensa, o que são
e qual é seu objetivo. E, acima de tudo, fortifiquei minha crença na certeza de que tudo
provém do Eterno, que não há nada acidental ou vão, seja grande ou pequeno, que tudo é
parte de um ciclo que caminha para a perfeição de toda a Criação, e que essa perfeição
universal será alcançada com a resolução desse ciclo.

Compreendo agora serem estes os princípios da sabedoria. O resto é comentário: o


entendimento de todas as particularidades no mundo, cada uma em sua categoria. Para
mim é suficiente ter estas fontes em mãos, de modo que eu fique pelo menos claramente
resolvido em minha fé.
Sobre os astros e o tempo

172 INTELECTO: Preciso ainda explicar-lhe a questão do tempo, que afeta todos os
homens igualmente. Encontramos diferenças dentro de certo tempo, porém não em
relação aos atos nele originados, mas em sua distribuição no próprio período, conforme
consta em Eclesiastes 3:1: “Para tudo existe uma época determinada, e para cada
acontecimento há um tempo apropriado...” Certamente há uma fonte convincente para isso
também.

173 ALMA: Eu também gostaria de entender bem isso.


174 INTELECTO: Cada estrela e cada uma das constelações exercem influência sobre
alguma entidade específica no mundo terrestre. Alguém que é influenciado por uma
estrela não é influenciado por outra, e tal influência é exercida em qualquer lugar em que a
pessoa esteja. Entretanto, além dessa função específica, as estrelas têm soberania e
dominação dentro do ciclo do tempo, cada uma exercendo dominância no tempo
assinalado para ela.

Contudo, há uma grande diferença entre esses dois tipos de dominação. A dominação
exercida sobre corpos específicos é extremamente ligada à essência do receptor. E todos
os receptores são dependentes dela, pois sua essência mais íntima é afetada por essa
influência. Mas a dominação geral é universal, e a soberania é exercida sobre todo o
universo, tanto em termos daquelas criaturas especificamente quanto em relação às
demais. Mas, por outro lado, esta não é uma dominação absoluta em relação a nenhuma
delas, pois são afetadas somente de uma forma geral. Certamente essa dominação
deixará uma impressão sobre a Criação, pois nenhum dos trabalhos do Eterno é em vão,
mas a essência de sua atividade é em relação às criaturas que lhe são especificamente
designadas, conforme dissemos.

Este é o protótipo da mais exaltada e misteriosa das criações. O Criador gerou múltiplas
variedades de providência para a Suas criações, e cada uma delas está perfeitamente
adaptada à sua criação. Além disso, Ele decretou um ciclo que engloba cada uma dessas
variedades de providência, dentro do qual exercem sua dominação do mundo, sendo a
ordem de sua soberania e atividades posicionadas dentro do ciclo do tempo. A cada dia
reina uma variedade de providência dentro da ordenação. Seu reinado é universal,
englobando toda a Criação, mas sua atividade dentro desse reinado não é sua atividade
essencial, pois é limitada aos recipientes específicos dessa influência. Mesmo assim,
coisas serão geradas em toda a Criação de acordo com tal providência como resultado de
sua dominação. Há que considerar aqui também a santidade inerente aos dias festivos e
todos os seus fenômenos condicionados às suas épocas.

175 ALMA: Há somente mais um assunto que eu gostaria de esclarecer. Não é muito
longo e não se enquadra nos assuntos cuja ignorância confunde a mente, ao
contrário daquilo que discutimos até agora. Mas é algo que eu gostaria muito de entender.

176 INTELECTO: E que assunto é esse?


Profecia

177 ALMA: É o assunto da profecia – sua natureza, modo de operação e seu benefício.
178 INTELECTO: A profecia é um conhecimento e uma concepção da glória do Eterno
proporcionada por Ele ao profeta. Entretanto, você já deve ter escutado que Sua
verdadeira essência e Sua própria perfeição são completamente incompreensíveis para
nós, e que Ele pode ser percebido somente em termos dos atos e atributos que Ele
estabeleceu para Seu governo neste mundo. Assim, os profetas O percebem emanando o
bem, punindo, sendo piedoso, julgando, dando vida, curando e em termos de todos os
atributos que Lhe são atribuídos em função de Seus atos.

Ele revelará aos profetas, em detalhes, todas as manifestações de Suas providências e


eles verão todos os trabalhos decorrentes delas e sobre as quais estão suspensas as leis
do céu e da terra. Assim, os profetas saberão o passado e o futuro dos trabalhos do
Eterno neste mundo. Pois, quando eles percebem que Ele está agindo por meio de um
atributo em particular, eles perceberão os resultados derivados em todas as criações. Eles
também O perceberão agindo por meio do atributo anterior e do posterior, na totalidade de
seus detalhes. Mas eles não perceberão Sua essência pura, e mesmo a percepção que
lhes é conferida não será totalmente clara, e somente por meio de visões.

179 ALMA: É isto que eu quero saber. Qual é a natureza de tais visões?
180 INTELECTO: Está explicitamente dito: “Tenho falado aos profetas e lhes feito
perceber visões...” (Oseias 12:11) Em relação a Moisés, nosso mestre – que a paz
esteja com ele! –, está escrito: “... com palavras claras, e não com enigmas...” (Números
12:8), de onde se pode entender que com os demais Ele falou por meio de enigmas,
conforme está, de fato, escrito: “Faço-Me conhecer a ele (qualquer outro profeta que não
Moisés)... num sonho.” (ibid. 6) E, com sabedoria, diz a tradição dos nossos sábios: “Um
sonho é um sessenta avos de uma visão profética.” (Berachot 57b) Ou seja, os profetas
não podiam testemunhar a Glória Suprema abertamente, e a glória que lhes era revelada
vinha a seus corações como visões proféticas, como máscaras e enigmas em relação
àquilo que se faz reconhecido, como no caso geral de parábolas e adivinhações em geral.
Entretanto, a sua maneira de percepção não corresponde à percepção natural e intelectual
de um homem, pois a percepção dos profetas é como uma emanação, uma cognição
detalhada que não está sujeita a dúvidas e que não requer reflexão e reforço empírico. É
claro para eles, sem nenhum tipo de dúvida, que aquilo que lhes foi revelado e comunicado
é a glória de Deus, e que é Ele que desperta tais visões proféticas em seus corações. E
fica gravado em seus corações, por assim dizer, o modo como eles desvendarão a visão e
o enigma para perceber o que o Criador deseja lhes revelar. Isto foi dito por Maimônides,
de abençoada memória: “A profecia vem ao profeta por meio de um enigma, e seu
significado é imediatamente gravado em seu coração juntamente com a visão profética, de
modo que ele saiba o seu significado.” (Mishnê Torá, Iessodê Hatorá 7:3)

Devemos fazer uma distinção entre enigmas de atributos e enigmas de acontecimentos, ou


seja, existem enigmas nos quais a Glória Suprema é entendida em termos de Seus atos e
atributos e outros que predizem aquilo que será feito por Deus. Por exemplo, quando Ele
decide revelar Sua glória ao profeta em relação à Sua bondade e piedade, Ele pode
aparecer para ele como um velho senhor, conforme está escrito: “E um ancião, avançado
em dias, sentava...” (Daniel 7:9) E quando Ele deseja manifestar-Se como um herói
vitorioso sobre os inimigos, Ele pode aparecer como um jovem guerreiro, conforme
disseram nossos sábios: “Ele surgiu no mar como um jovem, e no monte Sinai como um
ancião.” (Mechilta, Itró 20:2) “Pois um jovem se encaixa em uma guerra, e um ancião, na
liderança.” (Chaguigá 14a). Já os enigmas de acontecimentos são da natureza do cajado
de amendoeira de Zacarias, o caldeirão fervente, a escada de Jacob, o pergaminho de
Ezequiel, o medidor de Zacarias e os candelabros de ouro. Em relação aos enigmas de
atributo, assim que a Glória Suprema aparece ao profeta em uma forma particular, ele
percebe o significado da visão. Mas, em relação aos enigmas de acontecimentos é
possível que seu significado não seja percebido até ser revelado, conforme consta: “‘Não
sabes o que são?’ E lhe respondi: ‘Não, meu senhor’.” (Zacarias 4:5) (Ver Maimônides,
ibid.)

É possível que, nessas visões, uma série de figuras apareçam, mesmo simultaneamente, e
até mesmo figuras contraditórias, conforme ensinam nossos sábios: “‘Face(s) a face(s) –
panim el panim – o Eterno falou convosco’ – ‘faces’, duas; ‘a faces’, mais duas; quatro
faces no total: uma face de terror, para as escrituras; uma face comum, para a Mishná;
uma face sorridente, para o Talmud; uma face pensativa, para a Agadá.” (Sofrim 16:2) E,
de forma similar: “‘Eu sou o Eterno, teu Deus’ – Rabi Chama bar Papa disse: ‘O Eterno
mostrou-lhes uma face raivosa, uma face pensativa... Ele lhes disse: ‘Apesar de verem
todas estas figuras, Eu sou o Eterno, teu Deus.’” (Ialcut Shimoni, Itró 286) Certamente Ele
pode criar as figuras que desejar, que são completamente independentes das leis materiais
naturais, feitas somente para entidades corporais. Mas uma coisa é certa: nenhuma das
palavras do Eterno é em vão – Deus nos livre! – e cada figura que Ele revela ao profeta foi
designada para representar um de Seus atributos ou um dos aspectos desses atributos. E
quando Ele desejar revelar ao profeta uma série de aspectos, Ele revelará várias figuras,
mesmo que sejam contraditórias entre si, pois o objetivo da profecia não é a figura
revelada, mas o significado dela extraído pelo profeta.

181 ALMA: Mas o versículo diz: “... porque não vistes imagem alguma no dia em que o
Eterno vos falou.” (Deuteronômio 4:15) Isso fica difícil de entender, pois contradiz
tudo o que você falou!

182 INTELECTO: E, mesmo sem o que eu disse, não é estranho que os versículos se
contradigam? Um versículo diz “... porque não vistes imagem alguma” e outro diz
“Claramente falarei com ele...” (Números 12:8) e outro diz ainda “e sobre isso uma figura
que parecia ser a de um homem...” (Ezequiel 1:26), e assim por diante.

183 ALMA: Então me responda ambas as questões.


184 INTELECTO: Está escrito: “A quem, pois, Me podereis comparar como se Eu lhe
fosse igual – diz o Eterno?” (Isaías 40:25) e “A quem, pois, podeis comparar o
Eterno? Ou a que O podeis assemelhar?” (ibid. 18) O que entendemos é que, certamente,
Ele não desvia o profeta, mas, sim, o torna mais sábio e lhe dá uma avaliação da verdade.
Pois se Ele lhe mostrasse imagens que não deveriam ser reveladas, seria como lhe impor
um obstáculo. Mas o que ocorre é que a alma do profeta percebe claramente a verdade.
Conforme você já escutou, a percepção e o conhecimento do profeta não correspondem à
percepção e conhecimentos normais, pois estes se encontram implantados nele de tal
maneira que esse conhecimento torna-se completamente claro e livre de qualquer dúvida.
É o tipo de conhecimento que não é entendível ao homem comum. Do mesmo modo, a
alma do profeta percebe cada mensagem profética de acordo com a verdade desta. Ou
seja, é claro para ele que é o Criador quem lhe aparece e revela o que quer que seja
revelado, e é igualmente claro para o profeta que Ele não pode ser visto por um olhar
comum, nem mesmo por meio de uma percepção espiritual, que nada mais é que
apreensão e entendimento, pois a alma não é capaz de perceber Sua essência.

É claro que a glória revelada origina figuras proféticas, de onde a alma do profeta extrai o
conhecimento que deve receber, conforme consta no verso previamente mencionado:
“Tenho falado aos profetas e lhes feito perceber visões...” (Oseias 12:11)

Assim, a verdade é clara para a alma do profeta e não há espaço para erros, pois o
verdadeiro conhecimento está gravado nela e toda a verdade lhe é aparente. A alma
jamais perceberá uma imagem profética sem perceber, ao mesmo tempo, que é somente
uma imagem profética e não a essência do próprio Criador. Então, apesar de estar escrito
“falei aos profetas por meio de enigmas”, a explicação é sempre “Em qual figura Ele estará
investido?” Pois um profeta não vê uma imagem sem saber que se trata de uma imagem
profética – e não a essência verdadeira! – adaptada ao seu entendimento, que não é
capaz de conceber a pura essência do Santíssimo.

Do mesmo modo, Moisés, nosso mestre, exorta Israel: “... porque não vistes imagem
alguma...” (Deuteronômio 4:15) Ele se refere aqui à pura essência do Criador, e está lhes
dizendo: “Tomem muito cuidado, pois vocês já perceberam a verdade. Vocês perceberam
que não viram nenhuma forma do Eterno, mas, pelo contrário, vocês compreenderam (uma
vez que a pura essência Dele é desprovida de qualquer forma) que não podem percebê-Lo
até que Ele tenha criado uma imagem profética para vocês.” O verso está abreviado, mas
não mais que os demais: “A quem, pois, podeis comparar o Eterno? Ou a que O podeis
assemelhar?” “Em qual figura Ele estará investido?”, pois Moisés, nosso mestre de
abençoada memória, que testemunhara toda a verdade, falava com Israel, e ele os
lembrava do que eles realmente tinham visto.

185 ALMA: Você explicou “... porque não vistes imagem alguma”, mas não “a forma do
Eterno verás”.

186 INTELECTO: Mesmo a imagem que aparece para a alma do profeta é denominada
“a forma do Eterno”. Pois não há dúvida nas mentes dos profetas que a imagem que
lhes foi revelada nada mais é que o Criador – bendito seja Ele! –, e por essa razão eles
podem afirmar: “Esta é a imagem da glória do Eterno” (Ezequiel 1:28) e “... vi o Eterno...”
(Isaías 6:1) No fluxo da percepção fica claro para eles que a imagem que vêem se origina
na revelação da Suprema Glória e que essa forma é somente o meio pelo qual eles
recebem essa revelação. A que podemos comparar isto? A alguém que vê seu amigo em
um espelho. Apesar de a essência do amigo não estar no espelho, o que ele vê é somente
o reflexo do seu amigo no espelho. Uma prova disso é que, se o espelho estiver distorcido,
a imagem do amigo também estará. Agora, não há dúvidas na mente daquele que observa
o espelho que o corpo que ele vê não é o de seu amigo, e que, se seu amigo ficar diante
de um espelho distorcido, é assim que a imagem se apresentará a ele. O mesmo se aplica
em nosso caso. O profeta sabe que é o Criador Se revelando a ele na visão, mesmo que a
visão se materialize aos olhos do profeta por meio da atuação de sua própria alma ou de
qualquer outro meio. Assim, justificadamente, ele pode afirmar: “A forma do Eterno verás.”

187 ALMA: Mas isto cria uma dificuldade, pois, de acordo com o que você disse, não há
diferença entre a profecia de Moisés, nosso mestre, e a dos outros profetas – todos
vêem da mesma forma e percebem que o Eterno não tem forma em relação à Sua
verdadeira essência.
Moisés e os profetas

188 INTELECTO: Vou explicar a diferença entre o nosso mestre Moisés e os demais
profetas. Os outros profetas não podiam sequer captar completamente as imagens,
pois elas apareciam a eles como se estivessem atrás de paredes, ou refletidas em
diversos espelhos, ou refletidas em um único espelho, estando ele embaçado.

Nossos sábios nos explicam isto em relação ao seguinte verso: “Qual é a diferença entre
Moisés e os demais profetas? Rabi Iehudá diz: ‘Todos os profetas viram por meio de nove
espelhos (...) e Moisés viu por meio de um.’ E os rabinos disseram: ‘Todos os profetas
viram por meio de um espelho embaçado, e Moisés, por meio de um espelho polido.’”
(Midrash Rabá, Vayicrá 1:14) Em vista do fato de que mesmo a imagem vista por eles não
podia ser bem visualizada, eles não podiam assimilá-la completamente e, assim, também
sua compreensão de seu significado era imperfeita. Há uma razão para isso: o Eterno
revelava tais imagens somente com o objetivo de que vissem a ideia implícita na visão
profética, de modo que, quando vissem a imagem, percebessem a ideia nela contida. Mas
se pudessem perceber somente uma pequena parte da visão, certamente esta
corresponderia à ideia não compreendida no todo, correspondendo ao pouco que eles
foram capazes de observar. Por outro lado, Moisés percebia as visões proféticas
claramente. Assim, seu conhecimento era perfeito em termos da capacidade de cognição
humana e ele alcançou o nível mais elevado de sabedoria profética. Mas ele também
somente percebia aquilo que lhe era permitido.

Vou explicar outra faceta da visão profética. Apesar de os profetas terem visões, eles não
necessariamente as viam através de olhos físicos, mas, sim, de uma visão espiritual. Um
objeto pode ser visto tanto pelo olho físico quanto pelo espírito abstraído do corpo, apesar
de cada um enxergar de uma maneira. O espírito é capaz de ver aquilo que está dentro de
um barril ou através de uma parede, enquanto o olho físico não, sendo capaz de ver
somente aquilo que está dentro de sua capacidade prescrita pelo Criador. Mas o barril em
si será visto pelo olho físico de sua maneira e será confirmado como tal, e pelo espírito da
sua maneira e também confirmado como um barril. O mesmo se aplica aqui. O profeta não
precisa ver a figura denominada “leão” e a figura chamada “águia” (Ezequiel 10:14), e
assim por diante, como um olho que as vê, mas, sim, pela visão espiritual.
189 ALMA: Eu ainda gostaria de saber por que essas imagens são necessárias. O que
faltaria se o Santíssimo revelasse a sabedoria que é de Seu desejo ou
acontecimentos futuros sem o uso dessas imagens?

190 INTELECTO: Eu poderia responder de maneira simples, dizendo que o Santíssimo


desejava Se revelar ao homem nos caminhos do próprio homem de uma maneira que
ele pudesse entender, conforme já lhe expliquei. Pois as criaturas refletem em suas formas
as providências e os atributos Divinos, sendo, na verdade, exemplos deles. O Eterno
revela Sua glória aos profetas por meio de uma imagem criada, e a imagem é uma
correspondência da providência e dos atributos superiores. E note que isto também é um
dos atributos do Eterno: a materialização de aspectos de Sua providência e atributos em
formas terrestres, de modo que a imagem formada sirva de exemplo para esses aspectos
mencionados. E o Criador fundou toda uma ordem na qual as figuras criadas pudessem
servir de exemplares dos aspectos celestiais que elas foram criadas para refletir. Assim,
há um motivo para todas as partes das imagens da Criação, não sendo nenhuma delas
arbitrária, mas todas crescendo a partir desta raiz: os fatores espirituais refletidos em
formas inferiores das próprias criações. E é na majestade da Suprema Glória que o
profeta vê esses fatores celestiais, mas somente conforme se relacionam com as próprias
criaturas e nelas se refletem, conforme falamos.

Há algo ainda mais profundo aqui, que são a ordem e a atuação reunidas pelo Criador,
pois a materialização dos aspectos da providência dentro das formas terrestres, conforme
expliquei, contribui enormemente para a existência dessas criações em todas as suas
formas. Por exemplo: foi porque o Eterno desejou materializar a ideia de Sua providência
na forma de um olho que o homem tem olhos. E porque Ele desejou materializar os
atributos de Sua providência (bondade, justiça, misericórdia) na forma das cores branca,
vermelha e verde, respectivamente, é que o olho do homem possui essas três cores. E,
caso Ele não tivesse desejado materializar esses fatores dessa maneira, o homem não
possuiria esses órgãos e partes, mas, sim, outros diferentes. Do mesmo modo, em
relação às demais características das criações e suas qualidades, e sua inserção em
certas épocas e maneiras, de uma maneira ou de outra, foi determinada uma variedade de
condições para todos os objetos criados, tudo funcionando de acordo com o desejo do
Criador, de materializar fatores celestiais nas formas e estruturas da Criação. Isto emerge,
então, como a fonte principal para as criações e para os acontecimentos deles derivados.

Assim, o Criador revela a Sua glória ao profeta por meio dessas imagens, de modo que
ele seja capaz de entender os atributos correspondentes; Ele também materializa esses
atributos em formas terrestres para que o profeta perceba e compreenda bem o efeito das
providências sobre as criaturas terrestres por meio das ordens compostas de imagens e
de seus distintos elementos. Desse modo, os profetas são capazes de enxergar por meio
de visões espirituais, conforme dissemos. Ele vê uma imagem com luzes grandes ou
pequenas, subindo ou descendo, paradas ou em movimento, e diversas figuras que
correspondem a formas terrestres, conforme consta nas escrituras, e, por meio delas, os
profetas refletem e adquirem conhecimento das ordens das providências celestiais e da
direção de todas as suas ordens. E a natureza dos atributos aos quais as imagens se
relacionam é derivada de um entendimento da própria forma. Por exemplo: uma forma
circular totalmente fechada que não possua nem direita nem esquerda, nem topo nem
base, irá aludir a uma ideia geral que abrangerá de maneira igual tudo o que nela está
incluído, enquanto uma forma reta, delimitada pela direita e pela esquerda, com um meio e
possuindo uma cabeça e uma base, irá iludir a uma ideia específica, englobando aquilo que
está afetado pela figura em uma graduação do topo para a base. De maneira similar, em
relação a elementos distintos, irá aludir uma orientação em direção à direita ou à esquerda,
e assim com todas as outras formas.

Ou seja, todo este mundo é supervisionado pela Vontade Suprema e passa por uma
providência geral que dá continuidade à sua existência. E em relação à existência não há
diferença entre espécies ou entre um homem e outro – as maiores esferas necessitando
de existência do mesmo modo que o menor dos insetos. Assim, a providência do Eterno
inclui todas as criações igualmente, todas sustentadas por Ele e mantidas por meio de Seu
poder. Mas a providência judicial relacionada ao serviço Divino tem muitos detalhes, pois o
Eterno mede tudo em escalas justas, para o bem e para o mal, cada qual de acordo com a
sua natureza específica. Quando o Criador deseja revelar a Seus profetas Seu grande
poder, que mantém toda a Criação, e Sua providência, que a tudo compreende e que inclui
a todos de maneira igual, ninguém sendo ignorado ou oculto de Seus olhos que tudo vêem,
Ele mostra ao profeta a luz – como se assim fosse – que emana Dele e engloba todo o
universo, do mesmo modo que a atmosfera engloba toda a terra por todos os lados,
conforme está escrito: “Acima de suas cabeças havia algo que se assemelhava a um
firmamento...” (Ezequiel 1:22) E quando Ele deseja revelar a eles Sua justiça, aparecerá
como um rei sentado em Seu trono, a retidão em Sua mão direita e a justiça em Sua
esquerda, para julgar todas as Suas criações na justiça de Sua retidão. E caso Ele deseje
revelar aos profetas as forças específicas reguladoras do universo, uma junto à outra,
conforme disseram nossos sábios: “Sobre o que se sustenta a terra? Sobre os pilares, e
os pilares sobre as águas (...) e tudo é segurado pelo braço do Santíssimo” (Chaguigá
12b), Ele mostrará ao profeta várias esferas, uma dentro da outra, com o mundo no centro
e Ele, o Eterno, supervisionando e mantendo tudo. E quando Ele desejar revelar as
relações graduadas de todas as forças, uma emanando para a outra, e o mundo mais
baixo emitindo para todas, conforme já expliquei, Ele mostrará vários níveis, um acima do
outro, e o mundo sob todos. E quando Ele desejar revelar o contraste entre os níveis
daqueles mais perto Dele e aqueles mais distantes de Sua presença – na ordem de seus
níveis, de acordo com as qualidades mais próximas da perfeição do Eterno e aquelas mais
distantes Dele, mais ligadas ao plano terrestre –, Ele mostrará ao profeta vários níveis, um
dentro do outro, como câmaras dentro de câmaras ou uma roupa sobre a outra, e o mundo
fora de tudo mais distante de tudo.

E mais, Ele lhe mostrará todas essas visões simultaneamente – caso deseje revelar todos
os aspectos que mencionamos e suas ramificações de uma só vez –, pois aquilo que está
acima da natureza não é restrito às leis naturais. E mesmo em um sonho, que é como uma
profecia, conforme disseram nossos sábios: “Um sonho é um sessenta avos de uma visão
profética” (Berachot 57b), coisas dessa natureza ocorrem, ou seja, visualizamos formas de
uma maneira que não faríamos acordados, e as imagens de um sonho substituem umas às
outras em um instante, com o modo de transmissão totalmente despercebido. Uma pessoa
pode entender uma figura em seu sonho como sendo “fulano” e, no momento seguinte,
como uma casa ou uma pedra. Em suma, as configurações são formadas de uma maneira
totalmente estranha ao processo normal da visão. Quanto mais uma profecia, que está
completamente fora da natureza real, em que o Eterno faz os profetas verem Suas
vontades, conforme falamos acima.
191 ALMA: Estou satisfeita com estas palavras. Mas, antes de concluirmos, deixe-me
perguntar algo mais, que não é crucial, mas que me dará muito gosto compreender.

192 INTELECTO: Fale.


O Surgimento da Criação

193 ALMA: A ideia da Criação. É ou não é possível compreender como algo surge a
partir do nada?

194 INTELECTO: Eu já expliquei que é impossível entendermos como o Eterno age e a


maneira como Ele realiza os Seus atos. Nós podemos somente questionar aquilo
sobre o qual Ele agiu e a ordem na qual Ele agiu. Agora, em relação à matéria, aquilo que
Ele originou é totalmente novo e foi criado por Ele para exaltar Sua onipotência de uma
maneira que não somos capazes de compreender. O que podemos entender é a ordem na
qual Ele agiu para originar, mas, ao entender isso, entendemos somente estágios do ato.

Digamos que, em relação à criação dessa matéria, ela certamente preexistia na essência
do Eterno, que Ele poderia criá-la e que Ele iría criá-la. Não Lhe podemos atribuir nenhuma
adição ou alteração, como dizer que Ele criou algo que não existia Nele antes, mas, sim,
que a criação da matéria preexistia em Sua vontade. Entretanto, isto não pode ser
considerado como a existência do mundo em potencial, pois não há relação entre a
essência pura do Eterno e Suas criações, e tudo que pode ser atribuído às Suas criações
não é em nada atribuído à Sua essência. Foi somente quando Ele realmente quis originar
esta matéria que Ele criou várias providências em cujas naturezas estava implícita a
materialização dessa matéria. Agora, em relação a essas providências, Eu já mencionei
que elas se manifestam numa gradação sucessiva e que o único nível de providência que
pode ser considerado a causa imediata da matéria é a última e mais inferior de todas. Eu
já lhe expliquei isto em detalhes.

Vemos, então, que no início da primeira providência existia nela a materialização da


matéria. A matéria então pode ser considerada como sendo incluída dentro dela, pois
estava implícito na natureza da providência que foi criada somente para essa matéria. A
segunda providência é uma causa mais imediata, a matéria implícita em sua natureza e
mais próxima da materialização que na primeira providência. E assim por diante, por meio
de todas as providências originadas para a matéria, que emerge da última delas. A
primeira providência então nada mais é que a existência da matéria projetada pelo Eterno
com maior intensidade do que realmente é necessário para a sua materialização. Do
mesmo modo, a segunda providência é a existência dessa matéria projetada com menor
intensidade que a primeira, pois as providências nada mais são que a existência de
entidades emanadas e projetadas pelo Eterno. Enquanto ainda for uma de Suas
emanações e não tenha ainda realmente se materializado é designada “providência”.
Quando a providência se materializa na forma de uma criação, ela é denominada
“resultado”. Vemos, então, que providências e resultados são, essencialmente, uma só
coisa. A diferença é que a providência é a generalidade de Sua ordenação e os resultados
são as criações que procedem dessa ordenação. Mas a Sua ordenação é da mesma
natureza que todos os Seus atributos, tais como Seu conhecimento, lembrança, piedade
etc. Nada disso é distinto de Sua essência, diferente de nosso conhecimento, lembranças
e memórias. Mas essas providências são percebidas por nós por meio de seus efeitos,
que nada mais são do que a criação destas criações e seu encaminhamento rumo à
existência independente da emanação do Santíssimo. Isto deve responder a sua pergunta.

195 ALMA: Eu me alegro de minha sorte por ter adquirido de você ideias tão profundas,
que solidificaram minha convicção na verdadeira e perfeita fé em relação a tudo
aquilo que os seguidores da fé de Moisés e Israel devem saber, e que haja paz sobre
Israel. Bendito seja o Eterno para todo o sempre, Amém e Amém.

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Esta obra foi encerrada e concluída em louvor ao Criador do universo na quinta-feira,


véspera do início do mês de Adar II do ano de 5494 (1734).

“Perpétua é a glória do Eterno! Queira Ele sempre Se alegrar com o que criou.”

“Exulte Israel no louvor a Seu Criador; que se alegrem com Seu Rei todos os filhos de
Tsión.”

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