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TEORIA DO

PROCESSO
JUDICIAL E
EXTRAJUDICIAL

Guérula Mello
Viero
Revisão técnica:

Gustavo da Silva Santanna


Bacharel em Direito
Especialista em Direito Ambiental Nacional
e Internacional e em Direito Público
Mestre em Direito
Professor em cursos de graduação e pós-graduação em Direito

T314 Teoria do processo judicial e extrajudicial / Liliane da Silva


Barberino... [et al.] ; [revisão técnica: Gustavo da Silva
Santanna]. – Porto Alegre: SAGAH, 2018.
370 p. : il. ; 22,5 cm

ISBN 978-85-9502-430-4

1. Direito processual penal. I. Barberino, Liliane da


Silva.
CDU 343.1

Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin - CRB -10/2147


Ação penal versus ação civil
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Relacionar ação penal e ação civil.


 Reconhecer a ação civil ex delicto.
 Identificar os efeitos das sentenças penais.

Introdução
As ações penais e cíveis possuem diversas similaridades, seja no âmbito
da legitimidade dos agentes para ingressar com a ação, seja no pedido
postulado: satisfazer uma pretensão. Os autores das ações penais buscam a
condenação do agente que cometeu o ato delituoso, enquanto nas ações
cíveis a parte pretende obter um ressarcimento, uma indenização pelo
dano material ou moral sofrido. As duas esferas interligam-se quando há
o cometimento de um crime que gere dano à vítima. É a chamada ação
civil ex delicto. O ofendido pode se valer das duas áreas: na penal, para
conseguir a condenação do acusado pelo crime, e, na civil, para reparar
o dano ao qual foi submetido.
Neste capítulo, você vai ler sobre a relação entre a ação penal e a ação
civil, entender como funciona a ação civil ex delicto e compreender os
efeitos das sentenças penais.

Ação penal versus ação civil


Na ciência do Direito Processual, a ação é utilizada para designar o direito
de ação, de procedimento e demanda, ou seja, o direito firmado em juízo.
É um direito fundamental, formado por um conjunto de situações jurídicas
que possibilitam ao titular o acesso a tribunais e o poder de exigir uma tutela
jurisdicional adequada, tempestiva e efetiva (DIDIER JR, 2015).
A ação é o meio pelo qual a parte pode provocar o Judiciário a solucionar o
conflito, dando uma resposta ao sujeito interessado, chamado de provimento
318 Ação penal versus ação civil

ou tutela jurisdicional. A parte que vai a juízo quer esse provimento. Ao


ingressar com a ação, o autor movimenta a máquina judiciária, formando o
processo, que é a relação processual entre as partes e o juiz. Assim, ao final,
há a decisão sobre o pedido postulado pela parte que se sentiu prejudicada
(GONÇALVES, 2015).
Em todas as esferas — seja penal, cível, trabalhista ou tributária —, a ação
tem o mesmo propósito: solucionar a lide, que é o conflito entre as partes.
Algumas áreas, porém, possuem as mesmas condições para o exercício do
processo, como é o caso, por exemplo, da ação penal e da ação civil.
Como base, ambos necessitam do interesse de agir, da legitimidade para
agir e da possibilidade jurídica do pedido. A ação penal ainda possui mais
um requisito, que é a justa causa.

Interesse de agir
Na esfera cível, o interesse de agir da parte diz respeito à obtenção de um
provimento que satisfaça a pretensão material e exige o preenchimento do
trinômio (GONÇALVES, 2015):

 necessidade;
 utilidade;
 adequação.

A necessidade remete ao devido processo legal, pois não há como aplicar


a lei sem ele. A utilidade relaciona-se com a eficácia do sistema jurídico para
satisfazer a pretensão do autor. Já a adequação refere-se à compatibilidade
entre a ação e a pretensão em si. Alvim (2015) destaca que, ao se reconhecer
o direito de agir, não se está dando razão ao autor, apenas lhe proporcionando
o exame pelo juiz.
A ação penal também necessita do trinômio. No âmbito da necessidade,
está o titular da ação penal, o qual precisa se valer do poder punitivo do
Estado para conseguir a condenação do réu. Segundo Cunha (2015), a
necessidade é inerente à ação penal, pois, sem o devido processo legal, não
há como aplicar a pena. No que tange à utilidade, esta relaciona-se com a
eficácia do sistema jurídico para satisfazer a pretensão do autor. Por fim,
a adequação, para Masson (2015), nada mais é do que a compatibilidade
existente entre o meio utilizado pelo titular do direito para satisfazer sua
pretensão, nesse caso, a ação penal, e a pretensão em si, ou seja, a conde-
nação do autor do fato ilícito.
Ação penal versus ação civil 319

Legitimidade das partes


Os legitimados para agir na esfera cível são os titulares da ação, polos ativo
e passivo, ou seja, quem tem interesse de agir e aquele que deu causa ao
interesse de postular. Para que seja possível exercer a ação validamente, a
propositura por parte do autor deve ser em face daquele ao qual se quer que
a esfera jurídica produza o efeito demandado. O art. 18 do Novo Código de
Processo Civil (NCPC) estabelece que “[...] ninguém poderá pleitear direito
alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico”
(BRASIL, 2015, documento on-line). Quando a parte age em nome próprio,
damos o nome de legitimidade ordinária. No entanto, nos casos em que a lei
permite defender direitos alheios, a legitimidade passa a ser extraordinária.
Na ação penal, para propor a ação, ou seja, ser a parte ativa, podem ser
tanto o Ministério Público quanto o ofendido. Já no polo passivo, encontramos
o autor do fato que deu causa à pretensão.
As partes legítimas são os “[...] titulares dos interesses materiais em con-
flito” (CAPEZ, 2015, p. 566), que integram a relação jurídica presente no
processo. Segundo Capez (2015), os interesses em conflito no processo penal
podem ser:

 o direito de punir;
 o direito de liberdade;
 o conteúdo do interesse punitivo.

O direito de punir fica a cargo do Estado, representado por meio do Mi-


nistério Público. Ao autor particular, cabe o direito de acusar. E, ao passivo,
o direito de liberdade, o qual é ameaçado devido à prática da infração.

Possibilidade jurídica do pedido


A possibilidade jurídica do pedido na esfera cível é a admissibilidade do
provimento, isto é, deve ser um tema sobre o qual o juiz pode se pronunciar.
A pretensão não pode afrontar o ordenamento jurídico. No Direito Civil,
ocorre um fato interessante: o objeto da ação não precisa estar expressamente
disposto na lei, contudo, não pode ser vedado por ela, não pode ter conceito
negativo. A pretensão não pode ofender nem afrontar o sistema jurídico
(GONÇALVES, 2015).
No Direito Penal, o conceito de possibilidade jurídica é positivo, ou seja,
a pretensão suscitada pelo autor da ação ao Poder Judiciário só será viável se
320 Ação penal versus ação civil

encontrar respaldo no ordenamento, isto é, na lei penal. Essa positivação é


apresentada no art. 395, II, do NCPC “[...] A denúncia ou queixa será rejeitada
quando faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação
penal” (BRASIL, 1941, documento on-line). Significa dizer que haverá rejeição
da denúncia ou queixa quando, por exemplo, o fato narrado na pretensão do
autor não constituir crime.
Na esfera penal, ainda há mais uma condição, que é a justa causa. Esta
representa o lastro probatório mínimo necessário ao exercício da ação penal,
em outras palavras, uma prova mínima que dê suporte aos fatos narrados na
peça inicial que traz a acusação. Conforme Jardim (1990), a obrigatoriedade de
uma ação penal precisa ser sustentada, ao menos, com os indícios de autoria,
demonstrando a existência de uma conduta típica, alguma prova de antijuri-
dicidade, ou seja, de ilicitude, e a culpabilidade do autor da infração. Essas
provas devem acompanhar a petição inicial e são provenientes do inquérito
policial, procedimentos investigatórios e informativos, como dispõe o Código
de Processo Penal, em seus arts. 12, 39, § 5º; e 46, § 1º. Quando inexiste a justa
causa, o Código de Processo Penal define, em seus arts. 647 e 648, I, como
coação ilegal, o que autoriza a concessão de habeas corpus para a resolução
do problema. Essa mesma ausência de justa causa também ocasiona a rejeição
da denúncia ou queixa, como estabelece o art. 395, III, do mesmo código.

São conceitos importantes:


 Jurisdição — significa o poder que o Judiciário possui para solucionar conflitos,
momento no qual dirá qual o direito e estabelecerá a razão. Em regra, o juiz não
age de ofício, logo, precisa ser provocado pelo titular do direito.
 Tempestividade — relacionada ao prazo. Um recurso é tempestivo se for inter-
posto dentro do prazo.
 Efetividade — diz respeito ao resultado satisfatório obtido com a ação.

Classificação das ações civis e penais


As ações civis são classificadas como:

 individual;
 coletiva.
Ação penal versus ação civil 321

A ação individual tem por objeto material a pretensão pertencente ao autor


ou a mais de uma pessoa solidariamente. Pode ser (ALVIM, 2015):

 Ação de conhecimento — gera uma providência e pode ser subdividida


em declaratória, condenatória ou constitutiva.
■ Declaratória — declara a existência ou inexistência da relação
jurídica ou autenticidade e falsidade de um documento.
■ Condenatória — condena o réu a uma prestação, que pode ser fazer,
não fazer, pagar quantia e entregar coisa.
■ Constitutiva — cria, modifica, conserva ou extingue a relação ou
situação jurídica.
 Ação de execução — gera providências de execução, podendo ser por
meio de um título executivo extrajudicial (duplicata, por exemplo) e
título judicial (sentença).
 Ação cautelar — quando há necessidade de medidas urgentes para
assegurar os efeitos da futura sentença, como forma de resguardar o
direito devido à demora processual.

Já a ação coletiva é utilizada quando um grupo, categoria ou classe de


pessoas possui pretensão material. No âmbito penal, a classificação se dá em
torno do sujeito que promove a ação. É dividida em:

 pública;
 privada.

A ação penal pública pode ser condicionada ou incondicionada. Enquanto


a ação penal privada será exclusivamente privada, subsidiária da pública ou
privada personalíssima:

 Ação penal de iniciativa pública


■ Ação penal de iniciativa pública incondicionada — a ação será incon-
dicionada quando não houver a exigência de qualquer condição para que
o Ministério Público possa iniciá-la ou requisitar a instauração de um
inquérito policial para apuração da infração. A ação começa quando há o
ajuizamento de denúncia pelo Ministério Público. Qualquer pessoa pode
provocar a iniciativa do Ministério Público, quando há a necessidade de
ação pública. Para isso, basta fornecer, por escrito, a notitia criminis,
ou seja, as informações relativas a fato, autoria, tempo e lugar, bem
como os elementos de convicção (art. 27 do Código de Processo Penal).
322 Ação penal versus ação civil

■ Ação penal de iniciativa pública condicionada à representação


do ofendido ou à requisição do Ministro da Justiça — essa moda-
lidade de ação continua sob a titularidade do Ministério Público, no
entanto, ela é condicionada à manifestação de vontade do ofendido
ou ao pedido do Ministro da Justiça, não permitindo ao Ministério
Público que proponha a ação sem prévia provocação, como instituem
o art. 24 do Código de Processo Penal e o art. 100 do Código de
Processo Penal (CUNHA, 2015). Por exigência da legislação penal,
algumas situações demandam que a vítima ou seu representante
acione o Ministério Público para que este possa dar início à preten-
são suscitada. Os princípios que regem a ação condicionada são os
mesmos da incondicionada.
 Ação penal de iniciativa privada
■ Ação penal exclusivamente privada — na modalidade exclusi-
vamente privada, a ação penal tem início com a queixa-crime, que
seria o equivalente da denúncia na ação pública. Da mesma forma, os
requisitos são iguais, ou seja, devem atender ao disposto no art. 41 do
Código de Processo Penal. Caso não cumpra os requisitos impostos
pela legislação, a queixa será considerada inepta, acabando por ser
rejeitada devido à inépcia formal. Também será rejeitada quando
não constar justa causa, mas por inépcia material, pela ausência de
provas mínimas. (CUNHA, 2015). Aqui, o Ministério Público atua
como fiscal da lei. Para ingressar com a ação penal privada, o prazo
é de 6 meses, iniciando a contagem da data em que se conhece o
autor do fato. Nessa espécie, a ação pode ser proposta também por
pessoa jurídica, por exemplo, quando há crime de difamação. A
queixa é oferecida pelo representante legal da empresa, atendendo
aos mesmos termos da representação.
■ Ação penal privada personalíssima — como o próprio nome diz,
quando a ação é personalíssima, apenas o ofendido tem o direito de
propor. Isso se dá pela natureza da ação penal praticada, visto que
atinge a vítima de uma forma tão pessoal e íntima que cabe apenas
a ela decidir se deve ou não a propositura da ação (GRECO, 2015).
Como exemplo, há o induzimento a erro essencial e ocultação de
impedimento de matrimônio, disposto no art. 236 do Código de
Processo Penal, ou seja, quando um dos cônjuges esconde do outro
que já é casado e o induz a contrair matrimônio.
Ação penal versus ação civil 323

■ Ação penal privada subsidiária da pública — quando o Ministério


Público não oferece a denúncia no prazo legal estabelecido, é admitida
a ação privada nos crimes de ação pública, como estabelece o art. 5º,
LIX, da Constituição Federal. Assim, o direito originariamente de
propor a denúncia era do Ministério Público, mas, devido ao transcorrer
do prazo, o particular pode intentar a ação penal de forma subsidiária,
oferecendo a queixa-crime. Se o particular fizer a queixa, ao Ministério
Público cabe aditá-la, “[...] repudiá-la e oferecer denúncia substitutiva,
intervir em todos os termos do processo, fornecer elementos de prova,
interpor recurso e, a todo o tempo, no caos de negligência do querelante
(particular), retomar a ação como parte principal” (art. 29 do Código
de Processo Penal29) (BRASIL, 1941, documento on-line).

Ação civil ex delicto


A ação ex delicto serve para conseguir uma indenização, na esfera cível, por um
dano causado na esfera penal. O dano pretendido pode ser material ou moral,
ou, ainda, cumulativo. A conduta criminosa do agente pode gerar repercussões
sérias ao seu patrimônio. O Código Civil (BRASIL, 2002, documento on-line)
deixa clara a necessidade de indenizar em seu art. 186 (“aquele que causar dano
a outrem, ainda que exclusivamente moral, pratica ato ilícito”), no art. 927
(“aquele que, por ato ilícito, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”),
assim como no art. 935 (“a responsabilidade civil é independente da criminal,
não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja
o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal”).
Reparação esta que também encontra amparo no art. 91, I, do Código de Pro-
cesso Penal, que (BRASIL, 1940, documento on-line) disciplina que é efeito da
condenação “tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime”.
Tal reparação indenizatória ainda pode gerar alguns benefícios ao ofensor,
como:

 diminuição da pena;
 substituição das condições genéricas da pena por específicas;
 concessão de livramento condicional, quando for possível;
 possibilidade de reabilitação;
 extinção da punibilidade em caso de peculato culposo, mediante res-
sarcimento total.
324 Ação penal versus ação civil

O Código de Processo Penal prevê, em seu art. 64, a ação civil ex delicto
“[...] a ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível,
contra o autor do crime e, se for caso, contra o responsável civil” (BRASIL,
1941, documento on-line). Isto é, independentemente de o ofendido ajuizar
ação na esfera penal contra o acusado do fato delituoso, ele pode ingressar
com a ação civil ex delicto, de cunho cognitivo (de conhecimento), e obter
uma sentença condenatória cível para futura execução.
Assim, a vítima pode ingressar imediatamente após o fato, com a preten-
são de buscar a condenação cível do ofensor, evitando aguardar a resolução
do caso penal, que pode absolver o réu da acusação. Ao ser prolatada a
sentença cível, caso procedente, conterá o valor do dano indenizável, sem
a necessidade de uma fase liquidatória. Esse valor pode ser resguardado
por meio de ações cautelares previstas no Código de Processo Civil, uma
vez que há a possibilidade de o réu se desfazer do patrimônio até o final
do julgamento, evitando, assim, que não possua bens para responder pela
obrigação. Importante destacarmos que esse ajuizamento não precisa ser
apenas contra o réu, mas pode abranger todos os corresponsáveis civilmente
por reparar o dano (AVENA, 2015).
Contudo, o parágrafo único do art. 64 do Código de Processo Civil faculta
ao juiz a possibilidade de suspender a ação cível até o término da ação penal
“[...] intentada a ação penal, o juiz da ação civil poderá suspender o curso
desta, até o julgamento definitivo daquela” (BRASIL, 2015, documento on-
-line). Essa opção conferida pelo legislador tem por objetivo evitar decisões
contraditórias entre a esfera penal e cível. Entretanto, percebemos que essa
possibilidade dada ao magistrado ocorre apenas quando intentada a ação
penal. Segundo Avena (2015), isso serve para casos em que, devido à tese
contestatória, o juiz vislumbre a possibilidade de absolvição do réu, mas
sua decisão de suspensão deve ser fundamentada.

Legitimidade ativa e passiva


A vítima, seu representante (em caso de menor de 18 anos ou doente mental)
e herdeiros (em caso de morte ou ausência do ofendido) possuem legitimidade
ativa para ingressar com a ação indenizatória. Ressaltamos que, quando se
fala em herdeiros, não se limita apenas a cônjuge, ascendentes, descendentes
e irmãos, como na ação penal de iniciativa pública condicionada. Aqui con-
templa todos os possíveis herdeiros. Caso a vítima seja pobre, poderá optar por
Ação penal versus ação civil 325

representação da Defensoria Pública ou, por seu requerimento, a ação poderá


ser promovida pelo Ministério Público, atuando como substituto processual
(TÁVORA; ALENCAR, 2015).
Já no polo passivo, encontramos o autor do crime ou o autor do crime e os
demais concorrentes para responsáveis pelo dano. No entanto, na esfera cível,
apenas quem cometeu o ilícito figurará como réu, podendo ou não abranger
todos os corresponsáveis.

Objeto da ação
A ação civil ex delicto tem como objeto a recomposição patrimonial ou pe-
cuniária resultante do ato ilícito cometido pelo infrator, bem como o dano
causado aos valores da dignidade, individualidade e personalidade da vítima
(OLIVEIRA, 2015).

Prescrição
O Código Civil prevê, em seu art. 206, § 3º, V, que o prazo prescricional para
a pretensão de reparação civil é de 3 anos. No entanto, o marco inicial para a
contagem do prazo só começa a valer após o trânsito em julgado da sentença
penal. O art. 200 do Código Civil estabelece que se “[...] a ação se originar de
fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da
respectiva sentença definitiva” (TÁVORA; ALENCAR, 2015).

Competência
O juízo cível competente para ingressar com a ação é o foro do domicílio
do autor ou do local do fato. Desde a vigência do NCPC, em seu art. 53, V,
é competente o foro: “[...] de domicílio do autor ou do local do fato, para a
ação de reparação de dano sofrido em razão de delito ou acidente de veículos,
inclusive aeronaves” (BRASIL, 2015, documento on-line).

Separação de jurisdição
O sistema jurídico brasileiro privilegia a separação de jurisdição. Assim,
a ação penal responde pela condenação do agente pela prática do ilícito,
enquanto a ação civil destina-se a reparar o dano sofrido pelo ofendido
326 Ação penal versus ação civil

(NUCCI, 2015). Conforme dispõe o art. 935 do Código Civil: “[...] A res-
ponsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar
mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando
estas questões se acharem decididas no juízo criminal” (BRASIL, 2002,
documento on-line).

O Código de Processo Penal prevê, ainda, em seu art. 63, a ação de execução ex delicto,
para buscar o ressarcimento do dano. No entanto, nesta modalidade, é necessário
aguardar a sentença condenatória criminal transitada em julgado, que constituirá um
título executivo judicial. A vantagem dessa forma é que o ofendido não necessitará
produzir provas para demonstrar a responsabilidade do acusado, visto que já ficou
provado o ilícito na ação penal.

Efeitos das sentenças penais


A sentença é o meio pelo qual o juiz se pronuncia, com fundamento nos casos
de resolução do processo com ou sem exame de mérito, colocando fim à fase
cognitiva (de conhecimento) do procedimento comum, bem como extingue
a execução, como disposto no art. 203, § 1º, do NCPC. No processo penal, a
sentença deve ser estruturada da seguinte forma, como define o art. 381 do
Código de Processo Penal:

[...] os nomes das partes ou, quando não possível, as indicações necessárias
para identificá-las; a exposição sucinta da acusação e da defesa; a indicação
dos motivos de fato e de direito em que se fundar a decisão; a indicação dos
artigos de lei aplicados; o dispositivo; a data e a assinatura do juiz (BRASIL,
1941, documento on-line).

Na esfera penal, há duas espécies de sentenças:

 absolutória;
 condenatória.
Ação penal versus ação civil 327

Sentença absolutória
A sentença absolutória julga improcedente a acusação feita pelo ofendido
por uma das razões dispostas no art. 386 do Código de Processo Penal,
quais sejam:

 prova da inexistência do fato;


 não haver prova da existência do fato;
 fato não ser infração penal;
 prova de que o réu não concorreu para a infração penal;
 não existir prova de ter o réu concorrido para a infração penal;
 existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o réu de pena.

Efeitos

Os efeitos da sentença absolutória podem ser divididos em:

 principais;
 secundários.

Na sentença absolutória, há as consideradas próprias e as impróprias.


Como efeito principal da própria, consta a absolvição do réu, sem imposição
de medida de segurança, não sendo considerados outros fatores, como
antecedentes, natureza do crime pelo qual responde, entre outros. Assim,
se o réu, no momento da protelação da sentença, encontrar-se preso, deve
ser solto imediatamente. Como dispõe o art. 386, parágrafo único, I, do
Código de Processo Penal, (BRASIL, 2002, documento on-line): quando
houver sentença absolutória, o juiz “mandará, se for o caso, pôr o réu em
liberdade”. O art. 596 do mesmo código também estabelece que “a apelação
da sentença absolutória não impedirá que o réu seja posto imediatamente
em liberdade”.
Na sentença absolutória imprópria, é imposta medida de segurança ao réu
devido à doença mental ao tempo do fato ou se, durante o decurso do processo,
tiver ocorrido internação em estabelecimento psiquiátrico (art. 26 do Código
de Processo Penal).
328 Ação penal versus ação civil

Os efeitos secundários da sentença absolutória são produzidos em relação


a situações específicas:

Levantamento do sequestro incidente sobre bens do acusado supostamente


adquiridos com o produto da infração penal (art. 131, 111, do CPP); cance-
lamento da hipoteca legal do arresto determinados sobre o patrimônio lícito
do acusado (art. 141 do CPP); restituição integral da fiança (art. 337 do CPP);
impedimento da propositura de ação civil de indenização quando fundada a
absolvição em excludentes de ilicitude (art. 65 do CPP) ou no entendimento do
juiz de que comprovada a inexistência do fato, ou de que o réu não concorreu
para a infração penal (art. 935 do CC) (AVENA, 2015, p. 1174).

Sentença condenatória
A sentença condenatória julga procedente o pedido da ação penal, imputando
o fato delituoso ao réu. O art. 387 do Código de Processo Penal disciplina o
conteúdo que deve ser apresentado pelo juiz em sua decisão:

 as circunstâncias agravantes ou atenuantes definidas no Código de


Processo Penal, cuja existência reconhecer;
 as outras circunstâncias apuradas e tudo o mais que deva ser considerado
na aplicação da pena;
 as penas serão aplicadas de acordo com essas conclusões;
 valor mínimo deve ser fixado para reparação dos danos causados pela
infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido;
 atenderá quanto à aplicação provisória de interdições de direitos e
medidas de segurança;
 disporá se a sentença deverá ser publicada na íntegra ou em resumo e
designará o jornal em que será feita a publicação.

Ainda, o Código de Processo Penal, em seu art. 59, apresenta o rol das
demais providências aplicáveis que o juiz estabelecerá, de acordo com a neces-
sidade para a reprovação e prevenção do crime, atendendo à culpabilidade, a
antecedentes, conduta social, personalidade do ofensor, motivos, circunstâncias
e consequências, assim como o comportamento do ofendido:

[...] as penas aplicáveis dentre as cominadas; a quantidade de pena aplicável,


dentro dos limites previstos; o regime inicial de cumprimento da pena pri-
vativa de liberdade; a substituição da pena privativa da liberdade aplicada,
por outra espécie de pena, se cabível (BRASIL, 1940, documento on-line).
Ação penal versus ação civil 329

Efeitos

Assim como na sentença absolutória, a sentença condenatória está dividida


em efeitos principais e secundários. Nos efeitos principais, figura a conse-
quência jurídica penal imediata, ou seja, a aplicação da pena, que pode ser
(AVENA, 2015):

 privativa de liberdade;
 restritiva de direito;
 multa;
 medida de segurança;
 inclusão do nome do réu no rol de culpados (registro realizado no livro
cartorário, em que constará nome do réu, qualificação e referência ao
processo que o condenou).

Os efeitos secundários estão diretamente ligados aos primários e se sub-


dividem em:

 penais;
 extrapenais.

Nos efeitos penais, encontramos os itens dispostos no ordenamento jurí-


dico, como:

 torna-se pressuposto de reincidência;


 causa revogação da condicional;
 aumenta pena de contravenção de porte de arma branca.

Os efeitos secundários extrapenais atendem à uma subdivisão:

 genéricos;
 específicos.

Os efeitos secundários genéricos são vinculativos, isto é, o réu não pode


se eximir. Após o trânsito em julgado, a sentença gera um título executivo
330 Ação penal versus ação civil

judicial, que pode ser executado pela vítima ou por seus herdeiros. Entre os
efeitos secundários extrapenais genéricos, estão:

[...] tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime; perda em
favor da União dos produtos do crime ou de bem decorrente do proveito do
delito, bem como dos instrumentos do crime cujo porte, fabrico, uso, alienação
ou detenção constitua fato ilícito (TÁVORA; ALENCAR, 2015, p. 1042).

Para Avena (2015, p. 1178) “[...] perda, em favor da União, do produto do


crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente
com a prática do fato criminoso”.
No que tange aos efeitos secundários penais específicos, eles não são
automáticos, nem obrigatórios. É necessário que haja declaração funda-
mentada na sentença. Entre eles:

[...] a perda de cargo ou função pública ou mandato eletivo; a incapacidade


para o exercício do pátrio poder, tutela ou curatela, nos crimes dolosos, su-
jeitos à pena de reclusão, cometidos contra filho, tutelado ou curatelado; a
inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática
de crime doloso (TÁVORA; ALENCAR, 2015, p. 1042).

Vamos citar aqui alguns exemplos:


Exemplo 1 — certa pessoa, utilizando-se de arma de fogo de uso restrito, mata
alguém, sendo condenado por sentença transitada em julgado. Ora, tratando-se o
objeto do crime de instrumento proibido, deverá ser confiscado, não podendo ser
restituído ao agente, mesmo depois de cumprida sua pena.
Exemplo 2 — considerando, agora, que o agente tenha sido condenado pelo crime
de falsificação de documentos, o qual praticou com o uso de sua impressora particular.
Apreendido esse equipamento, poderá ser restituído a ele, inclusive antes do trânsito
em julgado da sentença, pois não se trata de objeto de uso ou porte proibido.
Exemplo 3 — suponha-se que um indivíduo venha a matar um desafeto, atrope-
lando-o, dolosamente, na direção de veículo furtado de terceiro de boa-fé. Nesse
caso, o automóvel encontrava-se em situação de ilegalidade quando praticado o
atropelamento, pois foi furtado. Não obstante, tratando-se de bem pertencente a
outrem, poderá ser restituído ao legítimo titular, pois o art. 91, § 11, do Código de
Processo Penal ressalva do confisco a hipótese em que o instrumento do crime pertença
a terceiro de boa-fé.
Fonte: Avena (2015, p. 1.178).
Ação penal versus ação civil 331

1. O interesse de agir na ação penal c) Cautelar, de execução e coletiva.


e na cível precisa atender a um d) Ação penal de iniciativa pública
requisito, que é comum às duas e de iniciativa privada.
esferas. Qual é o requisito? e) Ação penal exclusivamente
a) Interesse de agir, legitimidade privada, privada personalíssima
para agir e possibilidade e subsidiária da pública.
jurídica do pedido. 4. No que consiste a sentença
b) A pretensão suscitada deve penal absolutória?
encontrar respaldo no a) É aquela que julga
ordenamento jurídico. procedente o pedido da
c) Trinômio: necessidade, ação penal, imputando o
utilidade e adequação. fato delituoso ao réu.
d) A pretensão não pode afrontar b) Declara a existência ou
o ordenamento jurídico. inexistência da relação jurídica
e) Apresentar um lastro ou autenticidade e falsidade
mínimo probatório para de um documento.
o exercício da ação. c) Condena o réu a uma
2. Para que serve uma ação? prestação, que pode ser
a) É o meio pelo qual a parte fazer, não fazer, pagar
pode provocar o Judiciário quantia e entregar coisa.
a solucionar o conflito, d) É o meio pelo qual o juiz se
dando uma resposta ao pronuncia, com fundamento
sujeito interessado. nos casos de resolução
b) É a compatibilidade existente do processo com ou sem
entre o meio utilizado exame de mérito, colocando
pelo titular do direito para fim à fase cognitiva.
satisfazer sua pretensão. e) É aquela que julga
c) É o poder que o Judiciário improcedente a acusação
possui para solucionar conflitos, feita pelo ofendido.
momento no qual dirá qual o 5. Qual das opções a seguir representa
direito e estabelecerá a razão. os efeitos produzidos pela
d) A ação legitima o ofendido sentença penal condenatória?
a buscar sua pretensão a) O efeito principal é a absolvição
perante os tribunais. do réu, sem imposição de
e) Para proferir, em favor do medida de segurança.
autor, a pretensão ajuizada. b) O efeito principal é a absolvição
3. Quais são os tipos de ação do réu, com imposição de
de conhecimento? medida de segurança.
a) Ação individual e coletiva. c) Diminuição da pena;
b) Declaratória, condenatória substituição das condições
e constitutiva. genéricas da pena por
332 Ação penal versus ação civil

específicas; concessão de favor da União, do produto do


livramento condicional. crime ou de qualquer bem ou
d) Como efeito secundário, valor que constitua proveito
tornar certa a obrigação de auferido pelo agente com a
indenizar o dano causado prática do fato criminoso.
pelo crime; perda em favor da e) Possibilidade de reabilitação;
União dos produtos do crime extinção da punibilidade em
ou de bem decorrente do caso de peculato culposo,
proveito do delito; perda, em mediante ressarcimento total.

ALVIM, J. E. C. Teoria geral do processo. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015.
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Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
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