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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

SUMÁRIO

Aula 01 – INTRODUÇÃO AO DIREITO PROCESSUAL ............................3


1. Introdução........................................................................................................3
1.1 Conflito de interesses.................................................................................4
2. Aplicação da Lei Processual Penal..................................................................5
2.1 Lei Processual Penal no Espaço.................................................................5
2.2 Lei Processual Penal no Tempo.................................................................5
3. Interpretação Extensiva e Aplicação Analógica da Lei Processual Penal.......6
3.1 Prazo na Lei Processual Penal...................................................................6
4. Princípios.........................................................................................................6
4.1 Devido Processo Legal..............................................................................7
4.2 Ampla Defesa............................................................................................8
4.3 Contraditório..............................................................................................9
4.4 Presunção de Inocência..............................................................................9
4.5 Verdade Real..............................................................................................9
4.6 Juiz Natural..............................................................................................10
4.7 Motivação das Decisões...........................................................................11
4.8 Publicidade...............................................................................................11
4.9 Duração Razoável do Processo................................................................11
4.10 Identidade Física do Juiz.......................................................................11
5. Ação Penal....................................................................................................12
5.1 Conceito...................................................................................................12
5.2 Finalidade.................................................................................................12
5.3 Classificação............................................................................................12
5.4 Condições Gerais da Ação.......................................................................14
Exercícios.............................................................................................................16
Aula 02 – BUSCA E APREENSÃO.................................................................18
1. Fundamentos da Busca e Apreensão...............................................................18
2. Espécies de Busca...........................................................................................19
2.1 Busca Pessoal........................................................................................20
2.2 Busca Domiciliar...................................................................................23
3. Conceito de Domicílio....................................................................................24

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Exercício..............................................................................................................26
Aula 03 – PRISÃO.............................................................................................29
1. Tipos de Prisão................................................................................................29
1.1 Prisão em Flagrante..................................................................................29
1.1.1 Hipóteses de Prisão em Flagrante................................................30
1.1.2 Sujeitos do Flagrante....................................................................30
1.1.3 Fases da Prisão em Flagrante.......................................................31
1.2 Prisão Preventiva.....................................................................................31
1.3 Prisão Domiciliar.....................................................................................32
1.4 Prisão Temporária....................................................................................33
Exercícios.............................................................................................................34
Aula 04 – PRISÃO (continuação).....................................................................35
1. Direitos e Garantias do Preso..........................................................................36
2. Prisão de Magistrados e Membros do Ministério Público..............................36
3. Considerações Gerais sobre a Prisão..............................................................38
3.1 Momento da Prisão..................................................................................38
3.2 Imunidades Prisionais..............................................................................39
3.3 Emprego de Força....................................................................................40
3.4 Uso de Algemas.......................................................................................41
3.5 Medidas Cautelares de Natureza Pessoal Diversas da Prisão..................42
4. Cabimento do Habeas Corpus........................................................................42
Exercícios............................................................................................................43
Aula 05 – PROVAS...........................................................................................46
1. Legalidade das Provas...................................................................................46
2. Cadeia de Custódia das Provas......................................................................47
Exercícios.............................................................................................................49
Aula 06 – JUIZADOS ESPECIAIS CRIMINAIS – JECRIM.......................52
Exercícios............................................................................................................ 53
Referências ........................................................................................................56

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Aula 01 – Introdução ao Direito Processual.

A garantia do processo penal


1. Introdução
Uma das garantias mais
O ser humano é social e, portanto, não
importantes que nos foram legadas
pode viver senão em sociedade. Sabe-se que
pelas declarações universais dos
desde os primórdios da humanidade existem
direitos é, inegavelmente, a do
agrupamentos sociais. Para a harmônica
devido processo legal para
convivência dos integrantes de determinado
imposição de penas criminais.
grupo, é necessária a imposição de normas
O sistema constitucional
de conduta. Com a evolução das sociedades,
brasileiro não só estabelece tal
o controle das relações sociais passou a ser
garantia, mas também a cerca de
formalmente exercido pelo Direito.
requisitos básicos importantíssimos,
Assim, as normas jurídicas surgem
como a ampla defesa e o
para regular a relação entre os
contraditório.
integrantes de uma sociedade e também as
A ordem jurídica atribui ao
relações entre os indivíduos e o próprio
indivíduo a liberdade de agir, de
Estado. Aquele que desrespeita uma norma
modo que só em virtude de lei
de conduta está sujeito à sanção estatal.
alguém poderá ser obrigado a fazer
Existem normas, contudo, que dizem
ou deixar de fazer alguma coisa.
respeito ao interesse de toda a coletividade,
As restrições da liberdade
ou seja, à ordem social. Um homicídio, por
decorrentes de sanção penal, além da
exemplo, intranquiliza a sociedade. Logo,
prévia cominação da pena e da
por seu alcance, não poderia tal ilícito ficar
descrição típica do delito, há
unicamente na esfera de interesse do autor
necessidade de que seja a pessoa
do fato e da vítima, ao contrário do que
submetida ao devido processo legal.
ocorre com um acidente de automóveis,
(Greco Filho, Vicente. Manual de
onde ocorra somente dano material. Neste
Processo Penal. São Paulo: Saraiva,
2010, fls. 41/42).
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caso, apenas os dois envolvidos possuem interesses na lide.
Os bens cuja proteção importa a toda a coletividade recebem a tutela do Estado, o
que significa ter como reação à sua violação a mais grave das sanções, que é a pena –
podendo ser privativa de liberdade -. Desta forma, quando um ilícito penal é
praticado, surge para o Estado o direito de punir – jus puniendi - o autor do ilícito.
Cometido o crime e surgido o jus puniendi para o Estado, nasce uma relação
jurídica de direito penal, isto é, de um lado, o órgão estatal investido do poder de punir
– Estado - juiz – e do outro, aquele sobre quem recai a imputação de haver infringido a
lei.

1.1 Conflitos de Interesses


Instaura-se, deste modo, um conflito de interesses entre o Estado e o indivíduo -
ou, em casos excepcionais, a pessoa jurídica (Lei nº 9.605/98). Trata-se de conflito entre
o direito de punir e o direito de liberdade da pessoa - jus libertatis. É certo que nas
infrações penais de maior potencial ofensivo o direito penal se utiliza da privação de
liberdade como sanção.
Ao interesse de o Estado impor a sanção penal denominou pretensão punitiva.
No instante em que uma parte se opõe à pretensão punitiva estatal, gera a lide
penal. ( CARNELLUTI; Francesco ,2015) ensina que: lide “é um conflito de interesses
qualificado por uma pretensão resistida e insatisfeita.” Já Fernando da Costa Tourinho
Filho esclarece que ocorre a lide, quando o sujeito de um dos interesses em conflito
encontra resistência do sujeito do outro interesse. (Manual de Processo Penal, São
Paulo: Saraiva, 2009, p. 2). Tal conflito de interesses não pode permanecer sem solução.
De fato, de nada adiantaria o Direito estabelecer regras de conduta para a melhor
convivência entre as pessoas se um conflito permanecesse sem solução; a ordem social
estaria comprometida do mesmo modo. É preciso, então, utilizar-se de mecanismo
dotado de regras e garantias destinadas aos sujeitos nele envolvidos. O instrumento
estatal destinado a solucionar a lide penal é o Processo Penal.
Tourinho Filho, citando José Frederico Marques, conceitua Processo Penal como
sendo o "conjunto de normas e princípios que regulam a aplicação jurisdicional do
Direito Penal objetivo, a sistematização dos órgãos de jurisdição e respectivos
auxiliares, bem como da persecução penal" (Manual de Processo Penal, São Paulo:
Saraiva, Processo Penal, 2009, p. 13).

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2. Aplicação da Lei Processual Penal

2.1 Lei Processual Penal no Espaço

Em conformidade com o Art 1° do Código de Processo Penal - CPP (Decreto-


Lei no 3.689, de 3 de outubro de 1941), os processos em regra serão regidos pelo próprio
Código - sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional -,
exceto se houver lei especial regulando a matéria. Nestes termos, a lei processual penal
brasileira só vale dentro dos limites territoriais brasileiros. Se o processo tiver
tramitação no estrangeiro, ficará sujeito às leis processuais do respectivo país. Se o
crime, apesar de cometido no exterior, desenrola-se no Brasil, é a lei processual
brasileira que o regula.
Devemos recordar que o Brasil se submete ao Tribunal Penal Internacional - TPI,
criado pelo Estatuto de Roma em 1998. Sua incorporação se deu por meio do Decreto n.
4388/02, havendo disposição expressa também no Art 5°, § 4°, da Constituição Federal,
sem que isto configure conflito jurisdicional, levando-se em conta que não se trata de
jurisdição estrangeira, e sim de jurisdição internacional, à qual todos os signatários
se submetem.
Além disto, o TPI tem caráter subsidiário à jurisdição interna de um país, isto é,
nos casos dos crimes de sua competência só deverá agir se o Estado-membro "não teve
vontade" ou foi incapaz de levar adiante inquérito ou procedimento. São crimes da
competência do TPI: genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra etc.

2.2 Lei Processual Penal no Tempo


A lei processual penal adotou o princípio da aplicação imediata das normas
processuais - tempus regit actum - sem efeito retroativo, conforme inteligência do Art
2° do CPP: "A lei processual penal aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo dos atos rea-
lizados sob a vigência da lei anterior".
Diante disto, a lei processual penal que entra em vigor passa a reger os atos
processuais a partir de então. Os atos praticados sob a égide da lei anterior são
considerados válidos.

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3. Interpretação Extensiva e Aplicação Analógica da Lei Processual Penal
O Art 3° do CPP prevê que "a lei processual penal admitirá interpretação
extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de
direito". Assim, dentre as várias formas de interpretar a lei, o processo penal autoriza
expressamente a interpretação extensiva, isto é, ampliando o alcance da lei, extraindo-se
de sua análise que o dispositivo disse menos do que pretendeu o legislador. Exemplo:
onde se lê "réu", no Código, pode-se ler "indiciado". Da mesma forma, autoriza a
aplicação analógica, que "significa o emprego da analogia, que é a aplicação da lei a
casos semelhantes por ela regulados" (DAMÁSIO, 2007, p 04).

3.1 Prazo na Lei Processual Penal

A contagem dos prazos processuais - ao contrário dos prazos penais -, não se


computa o dia do começo e inclui-se o do final, nos termos do Art 798, § 1°, do CPP.
Assim, se a parte for intimada em determinado dia para conhecimento de uma decisão,
seu prazo somente começará a correr no dia seguinte, a menos que não haja expediente
forense. Confira Súmula 310 do STF: "Quando a intimação tiver lugar na sexta-feira,
ou a publicação com efeito de intimação for feita nesse dia, o prazo judicial terá início
na segunda-feira imediata, salvo se não houver expediente, caso em que começará no
primeiro dia útil que se seguir". Caso o término do prazo ocorra no domingo ou feriado,
será prorrogado até o dia útil imediato - Art 798, § 3°, do CPP -.
Os prazos processuais passam a correr: - Art 798, § 5°, do CPP:

a. Da intimação;
b. Da audiência ou sessão de julgamento em que for proferida a decisão, estando
presente a parte;
c. Do dia em que a parte manifestar, nos autos, ciência da sentença ou despacho.

Sobre prazo, a Súmula 710 do STF define: "No processo penal, contam-se os
prazos da data da intimação, e não da juntada aos autos do mandado ou da carta
precatória ou de ordem".

4. Princípios (Segundo Tourinho Filho, 2009).

Os princípios são enunciados que orientam a compreensão do ordenamento


jurídico, quer para sua aplicação e integração, quer para a elaboração de novas normas.

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Podem ser explícitos, isto é, estampados em norma legal, ou implícitos, ou seja,
extraídos da interpretação que se faz do conjunto de normas.
No Brasil, tendo em vista a importância do bem jurídico em questão na discussão
de uma causa penal - via de regra, a liberdade -, boa parte dos princípios informadores
do processo penal está disposta na Constituição da República, entre os direitos e
garantias individuais. A maioria deles, por seu turno, é repercussão da adesão do Brasil
à Convenção Americana de Direitos Humanos, conhecida como Pacto de San José da
Costa Rica, ratificada pelo País em 25 de setembro de 1992 e promulgada por meio do
Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992.
Não bastasse a inspiração, a própria Convenção pode vir a ganhar status de
emenda constitucional se aprovada em cada Casa do Congresso, em dois turnos, por 3/5
dos votos, nos termos da redação do Art 5°, § 3°, da Constituição da República,
acrescido pela Emenda Constitucional nº 45/2004.
Vejamos quais são os mais importantes princípios informadores de nosso processo
penal:

4.1 Princípio do Devido Processo Legal - CF, Art 5°, LIV.

Estabelece a Constituição da República que "ninguém será privado de sua


liberdade sem o devido processo legal". É a garantia de que só será considerada legítima
a condenação de alguém se o processo for desenvolvido na forma que estabelece a lei,
ou seja, observando-se as regras e os princípios processuais. É a consagração da
impossibilidade de o Estado impor uma sanção a alguém, direta e arbitrariamente, tão
logo tome conhecimento da prática de uma infração penal.
Em relação ao Processo Penal, exige-se maior rigor na observância de formas
legais, uma vez que ele é informado por inúmeras garantias constitucionais. Observar o
devido processo legal é assegurar as garantias constitucionais das partes. Pode-se dizer
que o devido processual legal também importa diretamente à sociedade, pois a eventual
condenação com desrespeito às normas vigentes poderá vir a ser desconstituída,
confrontando o interesse social, que é o da repressão do delito.
Na realidade, o princípio em foco é a verdadeira reunião da observância de todos
os demais aplicáveis ao processo penal. A propósito, indicando a incidência de regras
processuais especificamente do campo penal, Tucci (2003) menciona a existência do
devido processo penal, com as seguintes garantias:

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a. de acesso à Justiça Penal;
b. do juiz natural em matéria penal;
c. de tratamento paritário dos sujeitos parciais do processo penal;
d. da plenitude de defesa do indiciado, acusado ou condenado, com todos os meios e
recursos a ela inerentes;
e. da publicidade dos atos processuais penais;
f. da motivação dos atos decisórios penais;
g. da fixação de prazo razoável de duração do processo penal, e;
h. da legalidade da execução penal.

4.2 Princípio da Ampla Defesa - CF, Art 5°, LV.

Consiste em o Estado proporcionar ao acusado todos os meios lícitos para se


defender da imputação que lhe é dirigida. Em outras palavras, tudo o que não for
contrário à lei pode ser utilizado, com o amparo estatal, pelo acusado para a promoção
de sua defesa.
A ampla defesa se perfaz pelo desdobramento de duas modalidades de defesa: a
autodefesa - a pessoal - e a defesa técnica - por defensor. Não se pode olvidar que faz
parte também da ampla defesa assegurar ao acusado hipossuficiente a assistência
judiciária gratuita (Art 5°, LXXIV, da CF/88).
A autodefesa se realiza notadamente no interrogatório, ato em que o acusado é
ouvido a respeito da imputação que lhe é dirigida, mas se perfaz também com a
participação na colheita da prova, precipuamente na participação em audiência.
A defesa técnica é aquela exercida por profissional habilitado, ou seja, o
advogado. Pode este ser constituído, ou seja, escolhido e nomeado pelo acusado, ou
dativo, nomeado pelo juiz. A defesa técnica só atenderá ao princípio da ampla defesa se
for eficiente. A respeito, a Súmula 523 do Supremo Tribunal Federal - STF: "No
processo penal, a falta de defesa consiste em nulidade absoluta, mas a sua deficiência só
o anulará se houver prejuízo para o réu". Lembre-se de que a nomeação de defensor
dativo ao acusado antes que ele possa constituir um de sua confiança fere o princípio em
questão. A nomeação pelo juízo é sempre subsidiária.
Cumpre ressaltar que no Júri, nos termos da Constituição da República/88, Art 5°,
XXXVIII, vigora a plenitude de defesa, que alguns entendem ser ainda maior do que a
ampla defesa garantida nos processos penais comuns, como será visto quando da análise
do rito para apuração dos crimes dolosos contra a vida.
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4.3 Princípio do Contraditório – CF, Art 5°, LV.

O princípio basilar da sistemática processual estabelece que as partes devam ser


ouvidas e ter oportunidade de se manifestar em igualdade de condições. O processo só
atingirá seus fins se houver equilíbrio entre as partes. É conhecida a expressão "paridade
de armas", pela qual alguns autores se referem ao contraditório. Ela condensa a ideia de
que, no processo, as partes devem ter as mesmas oportunidades, não devendo uma ser
mais "municiada" do que a outra. É o tratamento paritário dos sujeitos parciais da
relação jurídica processual.
O contraditório é essencial ao processo, porém dispensado no inquérito policial.
Por essa razão, não se pode condenar um acusado baseando-se exclusivamente em
provas colhidas na peça informativa.

4.4 Princípio da Presunção de Inocência- CF, Art 5°, LVII.

Na redação constitucional, "ninguém será considerado culpado até o trânsito em


julgado de sentença penal condenatória". É também chamado de princípio da presunção
de não culpabilidade, pois a Constituição da República não presume a inocência, mas
diz que o sujeito não é considerado culpado, ou, ainda, de princípio do estado de
inocência, uma vez que indica o estado jurídico do acusado durante o processo.
Diante da presunção de inocência e do enfoque constitucional que merece o
processo penal, a prisão cautelar passou a ser medida de exceção em nosso sistema
processual, ou seja, ela só deve ser imposta em caso de comprovada necessidade, como
medida cautelar que é.
Na mesma esteira, se o réu é presumidamente inocente, só poderá advir
condenação se o julgador tiver plena convicção de sua culpa, bastando para a absolvição
à dúvida. Se não foi possível afastar a presunção, deve-se absolver. Da mesma forma
deve ser feita a valoração das provas: na dúvida, decide-se em favor do réu (princípio do
favor rei, corolário da presunção de inocência).

4.5 Princípio da Verdade Real

No processo penal, deve-se buscar recriar os fatos como se passaram na realidade,


não devendo o juiz se conformar com a eventual verdade formal criada nos autos. Ainda
que se saiba que tal tarefa é um tanto quanto difícil no caso concreto, deve-se buscar

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aproximar-se o quanto possível da realidade dos fatos. É a busca da "verdade
verdadeira".
Difere do processo civil, no qual vigora a verdade formal, pois neste, para aplicar
o direito, via de regra, basta ao juiz conformar-se com a verdade trazida aos autos; não
há necessidade de buscar a verdade real.
Tal princípio, contudo, comporta algumas exceções no processo penal, a saber:

a. impossibilidade de apresentar documentos no Plenário do Júri, sem ter dado ciência à


outra parte, no mínimo, três dias antes (Art 479 do CPP);
b. impossibilidade de revisão criminal em favor da sociedade (Art 621 do CPP);
c. inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos (Art 5°, LVI, da CF);
d. transação penal (Art 76 da Lei n. 9.099/95); e extinção de punibilidade (Art 107 do
CP).

4.6 Princípio do Juiz Natural – CF, Art 5°, LIII.


Estabelece o princípio do juiz natural que o autor de uma infração penal só poderá
ser processado e julgado perante o órgão jurisdicional competente, conforme previsão
da Constituição Federal, ou seja, juiz natural é aquele conhecido anteriormente ao fato
acontecer.
Daí decorre que não haverá tribunal nem juízo de exceção (Art 5°, XXXVII, da
CF/88), isto é, aquele criado para julgar fatos determinados, praticados anteriormente à
sua existência, como ocorreu com o Tribunal de Nuremberg, na Alemanha, criado para
julgar os crimes cometidos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e, mais
recentemente, com os tribunais de exceção na ex-Iugoslávia e em Ruanda.
A título de ilustração, é válido lembrar que o Tribunal Penal Internacional
consistiu na tentativa de acabar com os tribunais de exceção pelo mundo, buscando
concentrar o julgamento de determinados crimes, basicamente quando o país envolvido
não desenvolve o regular processo para sua apuração.
Cumpre lembrar, ainda, que o Supremo Tribunal Federal tem adotado, em suas
decisões, o princípio do promotor natural, que segue o mesmo raciocínio do juiz natural,
isto é, pelas regras de atribuição de funções, o membro do Ministério Público já deve
ser previamente conhecido e não ser designado para um fato específico, após sua
ocorrência.

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4.7 Princípio da Motivação das Decisões- CF, Art 93, IX.

As decisões judiciais precisam sempre ser motivadas para garantir as partes contra
o arbítrio do julgador, que deve, assim, expor os motivos pelos quais decidiu de tal
forma, ou seja, o porquê decidiu em determinado sentido.
Tal princípio encontra grande exceção em nosso sistema processual no que diz
respeito à decisão proferida pelos jurados, integrantes do Conselho de Sentença, no
Tribunal do Júri. Os jurados decidem por íntima convicção, sendo impedidos de mani-
festar as razões que os levaram a adotar um ou outro caminho na decisão da causa.

4.8 Princípio da Publicidade – CF, Arts. 5°, LX e 93, IX.

Princípio que determina que os atos judiciais devam ser públicos, afastando, via
de regra, o sigilo, que caracteriza os procedimentos inquisitivos. Tal princípio é
verdadeiro instrumento de controle social, pois com a publicidade dos atos a sociedade
se garante contra eventual arbítrio do julgador.
A regra é que a publicidade seja ampla, porém comporta exceções. Ela será
restrita nos casos em que a defesa da intimidade e o interesse social exigirem. Neste
caso, a publicidade dar-se-á somente em relação às partes e aos seus procuradores ou
somente em relação a estes.

4.9 Princípio da Duração Razoável do Processo – CF, Art 5°, LXXVIII.

Presente na Convenção Americana sobre Direitos Humanos foi adotado


explicitamente pela Constituição da República, após a edição da Emenda Constitucional
nº 45/2004. Estabelece que o Estado deve garantir a celeridade necessária para que o
processo termine em "prazo razoável", ou seja, no tempo adequado para atingir a sua
finalidade, sem constrangimentos inúteis.
Especial atenção deve ser dada ao processo em que o réu esteja preso
cautelarmente, evitando que perdure por longo tempo, pois, neste caso, além do natural
constrangimento por responder a processo criminal por longo período, a liberdade
cerceada pode trazer sérias consequências para o indivíduo, mormente se vier a ser
absolvido.

4.10 Princípio da Identidade Física do Juiz- CPP, Art 399, § 2°.


Antes presente no processo penal apenas a título de exceção - no julgamento pelo
Conselho de Sentença, no Júri - o princípio da identidade física do juiz surge como

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regra através da nova redação dada ao Art 399 e parágrafos, do Código de Processo
Penal, pela Lei nº 11.719/2008. Estabelece que o magistrado que presidiu a instrução
criminal é quem deve julgar o processo, ou seja, o juiz que tomou contato com a
produção da prova é quem vai decidir a causa.

5. Ação Penal
5.1 Conceito

É o direito de pedir a tutela jurisdicional representada pela aplicação da lei penal


ao caso concreto.
Ensinam Alexandre Cebrian A. Reis e Victor Eduardo R. Gonçalves, que AÇÃO
PENAL é o procedimento judicial iniciado pelo titular da ação quando há indícios
de autoria e materialidade a fim de que o juiz declare procedente a pretensão
punitiva estatal e condene o autor da infração penal.
Durante o transcorrer da ação penal será assegurado ao acusado pleno direito de
defesa, além de outras garantias como a estrita observância do procedimento previsto
em lei, de só ser julgado pelo juiz competente, de ter assegurado o contraditório e o
duplo grau de jurisdição etc. (Direito Processual Penal Esquematizado. São Paulo:
Saraiva, 2012, p. 71).

5.2 Finalidade

Através da ação penal o Estado exercita o direito de punirem face do agente da


infração penal.
O Estado, detentor do direito de punir (jus puniendi), concede o direito exclusivo
da iniciativa da ação penal ao Ministério Público (129, I, da CF e Art 24 do CPP) ou
à vítima (Art 30 do CPP), dependendo do tipo de delito cometido.
Desta forma, para cada crime previsto na lei, o legislador estabeleceu previamente
uma espécie de ação penal, ou seja, de iniciativa pública ou de iniciativa privada.
Fundamento legal
A Ação Penal tem previsão legal no Código Penal/CP, Art 100, Código de
Processo Penal/CPP, arts. 24 a 62 e na Constituição Federal- CF, Art 5°, XXXV e LIX.

5.3 Classificação
A ação penal pode ser pública ou privada, conforme a iniciativa.
Pública = Promovida pelo MP (denúncia).

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Privada = Iniciada pelo ofendido (queixa-crime).
A ação penal pública divide-se em incondicionada = a atuação do Ministério
Público não está sujeita a nenhum tipo de condição -, e condicionada = o MP só
pode agir se houver representação da vítima (exemplos Arts. 130, § 2º, 147, parágrafo
único, etc., do CP) ou requisição do Ministro da Justiça (exemplo: Art 141, I, do CP -
confira Art 145, parágrafo único do mesmo diploma legal).
Na ação penal pública condicionada a titularidade é do Ministério Público
que, todavia, só pode oferecer a denúncia se estiver no caso concreto à representação
da vítima ou a requisição do Ministro da Justiça que contituem, assim, condições de
procedibilidade.
Na ação penal pública condicionada, o ofendido (ou seus sucessores = CPP, Art
24, § 1°), tem o prazo de seis meses, a contar da data em que souber quem é o autor do
crime – Art. 38, CPP -, para oferecer representação. Se não agir nesse período,
ocorrerá a decadência = perda do direito de ação - e, consequentemente, provocará a
extinção da punibilidade do autor do delito = CP, Art. 107, IV.
Por ser regra no processo penal, no silêncio da lei, a ação será pública
incondicionada.
Importante salientar que nos crimes em que se procede mediante ação penal
pública, havendo indícios de autoria e materialidade colhidos durante as investigações,
o oferecimento da DENÚNCIA - pelo MP - é obrigatório.
Ação Penal Privada é aquela em que a iniciativa da propositura da ação é
conferida à vítima. É certo que a peça inicial da ação se chama QUEIXA-CRIME.
Confira Art. 145 1ª parte do CP “Nos crimes previstos neste Capítulo somente se
procede mediante queixa, [...]”.
A ação penal privada divide-se em:

 Exclusiva = A iniciativa da ação penal é da vítima.

Se a vítima for criança, adolescente ou incapaz, a ação poderá ser proposta pelo
representante legal.
Na hipótese de morte da vítima, a ação poderá ser proposta por seus sucessores
(cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão – Art. 31 do CPP). Se a
vítima morrer quando a ação já estiver em andamento, estes (sucessores) poderão
prosseguir com a ação.

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A ação privada deve ser intentada no prazo de seis meses, a contar da data em
que o ofendido souber quem é o autor da infração penal - Art 38, CPP. Se nada for feito,
ocorrerá a decadência = perda do direito de ação e extinção da punibilidade do autor
do crime.
 Personalíssima = A ação só pode ser proposta pela vítima.

No caso de morte da vítima a ação NÃO PODERÁ ser proposta pelos


sucessores. Se já estiver sido proposta ação, esta será extinta na data do falecimento da
vítima.(Confira Art. 236, parágrafo único do CP).

 Subsidiária da pública = Nos casos em que a ação penal seja de iniciativa pública e
o Estado, através do Ministério Público, não intenta a ação penal no prazo legal (cinco
dias, em caso de indiciado preso e quinze dias, se estiver solto ou afiançado, conforme
Art. 46, CPP), o ofendido ou seu representante legal poderão subsidiariamente, ajuizá-
la. (Confira Art. 5º, LIX, da CF; Art. 29, do CPP e Art. 100, § 3º, do CP).
A existência da ação penal privada susidiária da pública constitui garantia
constituicional do ofendido contra possível desídia ou arbitrairedade do Estado
(representado pelo MP).
Esta deve ser ajuizada no prazo máximo de seis meses (Art. 38, parte final,
CPP); se não o fizer, cabe apenas ao MP promovê-la, desde que a punibilidade não
esteja extinta pelo decurso do prazo prescricional (Art. 109 do CP).

5.4 Condições Gerais da Ação

 Possibilidade jurídica do pedido

Para que o pedido seja juridicamente possível é preciso ser endereçado ao juízo
solicitando a condenação do réu a uma pena ou, se inimputável, a imposição de uma
medida de segurança. É necessário que o fato descrito na denúncia ou na queixa seja
típico, ou seja, que a conduta do agente se amolde a um tipo penal (crime ou
contravenção) qualquer.

 Legitimidade para agir (Legitimatio ad causam)

Para haver legitimidade para agir, se a ação for pública, só pode ser proposta pelo
Ministério Público e, caso seja, de iniciativa privada, deverá ser proposta pelo ofendido
ou seu representante legal.

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
 Interesse de agir (Interesse processual)

No processo, para que a ação penal seja admitida é preciso que existam indícios
suficientes de autoria e de materialidade para permitir sua propositura. É, também,
necessário que não esteja extinta a punibilidade pela prescrição ou por qualquer outra
causa.

SAIBA MAIS...

A mídia e até mesmo alguns operadores de Direito costumam confundir o


crime de Injúria Qualificada, também chamada de “Injúria Racial” previsto no Art.
140, § 3º, do Código Penal, com o delito de Racismo, esculpido no Art. 20, da Lei
nº 7.716, de 05.01.1989.
A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém com a utilização de
elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Recentemente, a ação
penal aplicável a esse crime tornou-se pública condicionada à representação do
ofendido, sendo o Ministério Público o detentor de sua titularidade.
Nas palavras de Celso Delmanto, "comete o crime do Art. 140, § 3º do CP, e
não o delito do Art. 20 da Lei nº 7.716/89, o agente que utiliza palavras
depreciativas referentes à raça, cor, religião ou origem, com o intuito de ofender a
honra subjetiva da vítima" (Código Penal comentado, 8ª ed., São Paulo, Saraiva,
2010, p. 305).
Já o crime de racismo implica em conduta discriminatória - por exemplo:
impedir o exercício de cidadania - dirigida a um determinado grupo ou coletividade.
Considerado mais grave pelo legislador, o crime de racismo é imprescritível e
inafiançável, que se procede mediante ação penal pública incondicionada,
cabendo também ao Ministério Público à legitimidade para processar o ofensor.

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Exercícios

1- Caberá ação penal privada subsidiária da pública se o representante do


Parquet (Ministério Público)
a) excluir algum indiciado da denúncia.
b) determinar o arquivamento do inquérito policial.
c) determinar o arquivamento das peças de informações.
d) Se mantiver inerte, não oferecendo a denúncia no prazo legal, sem motivo que
justifique sua conduta.
e) requisitar novas diligências a autoridade policial.

2- Marque a alternativa correta, no que tange ao princípio da presunção da


inocência.
a) Determina que o poder punitivo estatal não pode aplicar sanções que atinjam a
dignidade da pessoa humana ou que lesionem a constituição físico-psíquica dos
condenados.
b) Determina que todos são iguais perante a lei penal.
c) Determina que a pena não pode ser superior ao grau de responsabilidade pela
prática do fato.
d) Proíbe a adequação típica por semelhança entre fatos.
e) Determina que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de
sentença penal condenatória.

16 | P á g i n a
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ACONTECEU...

Adolescentes retirados de ônibus indo à praia

Era por volta das 14h30m do dia 23/08/2015, quando 15 jovens, a maioria da
periferia do Rio, se revezavam em um banco para quatro lugares no corredor
externo do Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente (Ciaca),
em Laranjeiras, após terem sido recolhidos pela Polícia Militar. O motivo?
Estavam indo para as praias da Zona Sul do Rio.
“Tiraram “nós” do ônibus pra sentar no chão sujo e entrar na Kombi. Acham
que “nós” é ladrão só porque “nós” é preto” - disse X., de 17 anos, morador do
Jacaré, na Zona Norte.
Do grupo que havia sido retirado de um ônibus que chegava a Copacabana, só
um rapaz era branco. Os outros 14 tinham o mesmo perfil: negros e pobres. Todos
os jovens estavam em linhas que saem da Zona Norte em direção à orla. Nenhum
deles portava drogas ou armas.
Fonte: http://extra.globo.com/noticias/rio/pm-aborda-onibus-recolhe-adolescentes-
caminho-das-praias-da-zona-sul-do-rio-17279753.html

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Aula 02 – Busca e Apreensão.

A busca e apreensão constitui-se em uma medida de natureza cautelar, de caráter


instrumental cuja finalidade é a de encontrar pessoas e bens - objetos, cartas,
documentos, armas etc. -, que tenham utilidade ou função probatória, ou seja,
interessem ao processo penal.
Ensina Aury Lopes Jr. que “A sistemática do CPP não é, tecnicamente, a melhor,
pois mistura uma medida cautelar com meios de prova e, ainda, sob a mesma
designação, dois institutos diversos ,busca de um lado e a aprensão de outro.” –
(Direito Processual Penal. 9ª ed. São Paulo: Saraiva 2012, p. 701 -)
Prosseguindo, o citado mestre, referindo-se aos ensinamentos de Cleonice B.
Pitombo, in( Da Busca e da Apreensão no Processo Penal. São Paulo: RT, 2005, p.
102), afirma que há que se distinguir os dois institutos:
 Busca: é uma medida instrumental – meio de obtenção da prova – que visa encontrar
pessoas ou coisas.
 Apreensão: é uma medida cautelar probatória, pois se destina à garantia da prova
(ato fim em relação à busca, que é do meio) e ainda, dependendo do caso, para a própria
restituição do bem ao seu legítimo dono ,assumindo assim uma feição de medida
assecuratóri).
São institutos diversos, mas que foram tratados de forma unificada. Nem sempre a
busca gera apreensão ,pode ocorrer que nada seja encontrado e nem sempre a apreensão
decorre da busca ,pois pode haver a entrega voluntária do bem. –( idem, fls. 701/702).

1. Fundamentos da Busca e Apreensão

Diante do seu carater cautelar, a medida de busca e apreensão exige a existência


de risco de perda do bem ou do desaparecimento da pessoa, que se quer conservar, o
que constitui o periculum in mora e da existência de indícios de que o objeto da busca
tenha relação com o fato crimnoso, caracterizando, deste modo, o fumus boni iuris.

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No dizer de Rogerio Greco: “A busca domiciliar, em veículos ou mesmo pessoal é
uma constante na atividade policial. No entanto, não se tolera que seja arbitrária ou
desnecessária.” (Atividade Policial. 6ª ed. - Niterói/RJ: Impetus, 2014, p. 35.)
Diante disto, o CPP relacionou as hipóteses em que pode ocorrer tal medida
(busca e apreensão):
Art. 240. A busca será domiciliar ou pessoal:
§ 1º proceder-se-a a busca domiciliar, quando fundadas razões a
autorizem, para:
a. prender criminosos;
b. apreender coisas achadas ou obtidas por meios fraudulentos;
c. apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos
falsificados ou contrafeitos;
d. apreender armas e munições, instrumentos utilizados na prática de
crime ou destinados a fim delituoso;
e. descobrir objetos necessários à prova de infração ou a defesa do
réu;
f. apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em
seu poder, quando haja suspeita de que o conhecimento do seu
conteúdo possa ser útil à elucidação do fato;
g. apreender pessoas vítimas de crimes;
h. colher qualquer elemento de convicção.
§ 2º Proceder-se-á busca pessoal quando houver fundada suspeita
de que alguém oculte consigo arma proibida ou objeto mencionado
nas letras b e f e letra h do parágrafo anterior. (Grifamos)

2. Espécies de Busca

A busca, no processo penal, poderá ser pessoal ou domiciliar, conforme o caso.


Ocorre busca pessoal quando houver indícios de que a coisa “buscada” pode estar
em poder da pessoa ou nos objetos que esta carregue, enquanto, a busca domiciliar
deverá ser realizada sempre que houver indícios de que o objeto da medida possa estar
em domicílio determinado, ou do proprietário da coisa ou de seu detentor/possuidor.
Importante salientar que a busca pessoal se diferencia da busca domiciliar porque
enquanto a primeira recai sobre a própria pessoa, a segunda se realiza em locais como
casas ou compartimentos de residência particular, de habitação coletiva, ou, ainda, nos
locais onde alguém exerce profissão ou qualquer atividade, remunerada ou não.

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
2.1 Busca Pessoal

A busca pessoal é rotineiramente denominada de “revista pessoal”, sendo


efetuada pela autoridade ou seus agentes, munidos ou não de mandado judicial.
Na prática, é mais comum sua realização sem ordem judicial, quando estiver
presente qualquer das condições previstas no Art. 244 do CPP, que permite a autoridade
policial efetuar revista sem mandado judicial no caso de prisão ou, quando houver
fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida, objetos ou
papéis que constituam corpo de delito, ou, ainda, quando determinada no curso da
busca domiciliar.
Vejamos o texto legal:
“Art. 244. A busca pessoal independerá de mandado, no caso de
prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na
posse de arma proibida ou de objetos ou papeis que constituam corpo
de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca
domiciliar.
É salutar ter em conta que a Constituição Federal protege
incondicionalmente, dentre outros, o direito de ir e vir, verbis:
CF, Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coia
senão em virtude de le;
[...]
XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz,
podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer
ou dele sair com seus bens”.

Diante disto, a autoridade ou seus agentes somente poderão realizar a busca


pessoal motivada por fundada suspeita de que a pessoa a ser revistada está nas
condições descritas no CPP, (arts. 240/244), já mencionados, evitando, deste modo, a
violação dos direitos individuais e a ofensa ao princípio da dignidade da pessoa
humana.

20 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Não resta dúvida de que a subjetividade da expressão fundada suspeita permite
inúmeras interpretações, possibilitando a realização de condutas ofensivas aos direitos
do cidadão, podendo caracterizar crimes de abuso de autoridade, conforme estatui os
(arts 3º e 4º, da Lei nº 4898/65).
Cabe alertar, que a busca pessoal em mulheres, prevista nos (Art.s 249 do CPP e
183 do CPPM), deve ser efetuada preferencialmente por outra mulher, confira:

“Art. 249. A busca em mulher será feita por outra mulher, se não
importar retardamento ou prejuízo da diligência”.

Não havendo possibilidade de realização da busca por policiais femininas, o


policial do sexo masculino encarregado da abordagem, deve evitar o constrangimento
desnecessário limitando-se a prática das ações no mínimo possível desde que não
comprometa a segurança e o sucesso da atividade policial, evitando, em última análise,
o excesso.
O assunto, por sua importância, tem sido objeto de inúmeras decisões nos
tribunais superiores. Veja a jurisprudência:

TRF-1 - APELAÇÃO CRIMINAL ACR 18394 GO 2006.35.00.018394-6 (TRF-1)


Data de publicação: 04/04/2013
Ementa: PENAL E PROCESSO PENAL. MOEDA FALSA. BUSCA PESSOAL E
RESIDENCIAL. ILEGALIDADE. APREENSÃO DE CÉDULAS FALSAS.
ILICITUDE DA PROVA OBTIDA. 1. A busca pessoal ou residencial imprescinde de
fundadas razões (Art. 240, §§ 1º e 2º), sob pena de nulidade e de ilicitude da prova
obtida. São inadmissíveis no processo as provas obtidas por meio ilícito (Art. 5º, LVI -
CF). 2. A busca pessoal e residencial realizada por policiais civis, por conta própria, na
pessoa e na residência do agente, já que ali estavam em função de um suposto delito,
não confirmado, de transferência ilegal de energia elétrica, afigura-se sem cobertura
legal e, portanto, ilegal. As provas colhidas a partir dessa origem ilícita (apreensão de
cédulas contrafeitas) revelam-se igualmente ilícitas (Art. 573, § 1º - CPP). 3. Apelação
desprovida. Sentença absolutória confirmada.

TJ-DF - Apelação Criminal APR 20130310382278 (TJ-DF). Data de publicação:


27/04/2015

21 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Ementa: PENAL E PROCESSUAL PENAL. PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO.
CRIME DE MERA CONDUTA E DE PERIGO ABSTRATO. BUSCA PESSOAL
LEGÍTIMA. ARMA PARCIALMENTE APTA PARA EFETUAR DISPAROS.
TIPICIDADE. FIXAÇÃO DA PENA AQUÉM DO MÍNIMO. IMPOSSIBILIDADE.
SÚMULA 231, DO STJ. SENTENÇA MANTIDA.
1. O delito de porte de arma, tipificado no Art. 14, caput da Lei nº 10.826 /03 é de
natureza permanente, o que significa dizer que o estado de flagrância se protrai no
tempo, tornando legítima a atuação policial;
2. A arma de fogo, ainda que defeituosa, pode caracterizar o crime de porte ilegal, por
se tratar de crime de perigo abstrato, sendo irrelevante o perfeito funcionamento do
artefato, especialmente quando os peritos conseguiram obter disparos operando em ação
simples ,com o engatilhamento prévio, seguido do acionamento do gatilho;
3. Ademais, no caso concreto, em poder do réu também foi apreendida munição, o que
por si sóconfigura o tipo penal previsto no (Art. 14, caput, da Lei 10.826 /2006);
4. O reconhecimento de atenuante não autoriza a redução da pena aquém do mínimo
legal, conforme jurisprudência consagrada no enunciado da Súmula 231, do STJ;
5. Recurso conhecido e desprovido.

Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios-TJDFT: Processo: APR


20100410089483. Relator: SILVÂNIO BARBOSA DOS SANTOS. Julgamento:
21/05/2015. Órgão Julgador: 2ª Turma Criminal. Publicação: DJE: 29/05/2015. Pág.: 85
Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. DESOBEDIÊNCIA. SUBMISSÃO DE TODOS
OS FREQUENTADORES DO LOCAL A BUSCA PESSOAL. NEGATIVA DO RÉU
A PERMITIR A REVISTA. DÚVIDA ACERCA DA EXISTÊNCIA DE FUNDADA
SUSPEITA PARA AUTORIZAR A BUSCA. DENÚNCIA ANÔNIMA. RECURSO
PROVIDO.
1. A busca pessoal é um meio de prova previsto no Art. 240, parágrafo 2º, do Código de
Processo Penal, cuja realização independe de mandado (Art. 244 do Código de Processo
Penal), condicionada a fundada suspeita de que o sujeito oculte consigo arma proibida
ou objetos ou papéis que constituam corpo de delito;
2. Em atenção ao aspecto invasivo e vexatório do procedimento, a própria lei reforça
que a suspeita de que o indivíduo esteja ocultando consigo algum dos materiais
previstos no dispositivo deve ser “fundada”, ou seja, é necessário que exista indício

22 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
concreto de ocorrência de alguma das situações que autorizam a busca pessoal,
evitando-se submeter pessoas aleatoriamente à revista pessoal;
3. Embora a suspeita de porte de substância entorpecente ilícita possa justificar a adoção
dessa medida, não se pode considerar a comunicação genérica de que havia pessoas
consumindo drogas em determinado bar como indício concreto de que o apelante estava
nessa situação, pois não constam dos autos que tenham sido informadas características
dos suspeitos para que os policiais pudessem identificar o recorrente como um deles.
Tampouco há relato de que a equipe tenha realizado alguma diligência antes da
abordagem a fim de que, diante dessa informação imprecisa, eles concluíssem que o
apelante poderia ser uma daquelas pessoas que supostamente estariam consumindo
drogas no bar. Também não há notícia de que havia poucos clientes no estabelecimento,
reunidos numa mesma mesa, de modo que aquela comunicação não poderia ser
referente a outros indivíduos, senão àquele único grupo ali reunido;
4. Uma vez que não existe nos autos prova suficiente de que havia suspeita fundada de
que o apelante estava em alguma das situações que justificam a busca pessoal, há
dúvida acerca da legalidade da própria ordem emanada pelos policiais, de modo que o
recorrente deve ser absolvido com fundamento no (Art. 386, inciso VII, do Código de
Processo Penal, em consonância com o princípio “in dubio pro reo”. 5. Recurso
provido).

2.2 Busca Domiciliar

A busca domiciliar é aquela realizada pela autoridade policial ou judiciária em


residência ou em qualquer compartimento habitado, ou aposento ocupado de habitação
coletiva ou em compartimento não aberto ao público no qual alguém exerce profissão
ou atividade. Só pode ser realizada após a expedição da ordem judicial, como regra,
conforme inteligência do Art. 5º, XI, da CF:

Art. 5º. [...]


XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nele podendo
penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante
delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial;

23 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Excepcionalmente, poderá ser feita sem a ordem judicial: em casos de flagrante
delito ou desastre, quando realizado pela própria autoridade judiciária ou com o
consentimento prévio do morador.
Por ser medida de caráter cautelar e excepcional a busca domiciliar, guarda
relação com alguns direitos e garantias fundamentais, como já foi dito, em especial a
garantia da inviolabilidade do domicílio (Art. 150, do CP).
As buscas, bem como, a apreensão são importantes formas de coleta de provas no
processo penal. Em muitos casos, as provas obtidas através de tais procedimentos
constituem a sustentação da acusação, e delas depende o resultado da lide penal.

3. Conceito de domicílio
O conceito de domicílio para o direito penal deve ser compreendido em sentido
amplo como está contido no Art. 150, § 4º, do CP, ou seja, é considerado domicílio,
além da casa, qualquer compartimento habitado, aposendo ocupado de habitação
coletiva e o compartimento não aberto ao públlico, onde alguém exerce profissão
ou atividade.
Diante disto, estão incluidos no referido conceito, portanto, casas - incluindo suas
dependências: garagem, quintal, etc., apartamentos, quartos de hotel ou motel, barracos
de favela, etc, desde que devidamente habitados, além de escritórios, consultórios e a
parte interna das oficinas.
O mencionado Art. define que não estão incluídos no conceito de domicílio, as
hospedarias, estalagens e habitações coletivas, desde que abertas ao público - ou seja,
em atividade, além de tavernas, casas de jogos, bares, igrejas e estabelecimentos
comerciais em suas dependências de acesso livre ao público.
Os veículos não são considerados casa para efeito de proteção legal, salvo se
houver parte destinada a moradia ou repouso, como nos trailers.
Veja como vem decidindo a jurisprudência mais recente do Superior Tribunal de
Justiça no que tange a questão da inviolabilidade do domicílio: STJ, RESP
1.574.681/RS, SEXTA TURMA, Julgado em 03/05/2017.
[...] 3. O ingresso regular de domicílio alheio depende, para sua validade e regularidade,
da existência de fundadas razões (justa causa) que sinalizem para a possibilidade de
mitigação do direito fundamental em questão. É dizer, somente quando o contexto
fático anterior à invasão permitir a conclusão acerca da ocorrência de crime no
interior da residência é que se mostra possível sacrificar o direito à inviolabilidade

24 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
do domicílio. 4. O Supremo Tribunal Federal definiu, em repercussão geral, que o
ingresso forçado em domicílio sem mandado judicial apenas se revela legítimo – a
qualquer hora do dia, inclusive durante o período noturno – quando amparado em
fundadas razões, devidamente justificadas pelas circunstâncias do caso concreto,
que indiquem estar ocorrendo, no interior da casa, situação de flagrante delito (RE
n. 603.616/RO, Rel. Ministro Gilmar Mendes) DJe 8/10/2010). [...]12. A mera intuição
acerca de eventual traficância praticada pelo recorrido, embora pudesse autorizar
abordagem policial, em via pública, para averiguação, não configura, por si só,
justa causa a autorizar o ingresso em seu domicílio, sem o consentimento do
morador – que deve ser mínima e seguramente comprovado – e sem determinação
judicial. 13. Ante a ausência de normatização que oriente e regule o ingresso em
domicílio alheio, nas hipóteses excepcionais previstas no Texto Maior, há de se aceitar
com muita reserva a usual afirmação – como ocorreu na espécie – de que o
morador anuiu livremente ao ingresso dos policiais para a busca domiciliar,
máxime quando a diligência não é acompanhada de qualquer preocupação em
documentar e tornar imune a dúvidas a voluntariedade do consentimento. 14. Em
que pese eventual boa-fé dos policiais militares, não havia elementos objetivos,
seguros e racionais, que justificassem a invasão de domicílio. Assim, como
decorrência da Doutrina dos Frutos da Árvore Envenenada (ou venenosa, visto que
decorre da fruits of the poisonous tree doctrine, de origem norte-americana), consagrada
no art. 5º, LVI, da nossa Constituição da República, é nula a prova derivada de
conduta ilícita – no caso, a apreensão, após invasão desautorizada do domicílio do
recorrido, de (18 pedras de crack )–, pois evidente o nexo causal entre uma e outra
conduta, ou seja, entre a invasão de domicílio (permeada de ilicitude) e a apreensão de
drogas.
No mesmo sentido vem decidindo o Supremo Tribunal Federal: STF, PLENO, RE
603.616, Relator Ministro Gilmar Mendes. Julgado em 05/11/2015.
[...]5. Justa causa. A entrada forçada em domicílio, sem uma justificativa prévia
conforme o direito, é arbitrária. Não será a constatação de situação de flagrância,
posterior ao ingresso, que justificará a medida. Os agentes estatais devem demonstrar
que havia elementos mínimos a caracterizar fundadas razões (justa causa) para a
medida. 6 . Fixada a interpretação de que a entrada forçada em domicílio sem mandado
judicial só é lícita, mesmo em período noturno, quando amparada em fundadas
razões, devidamente justificadas a posteriori, que indiquem que dentro da casa

25 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e
penal do agente ou da autoridade e de nulidade dos atos praticados.

Exercícios
1- (Oficial da PMEMG-2013) – Sobre a busca e apreensão, marque a
alternativa CORRETA:
a) É meio de prova produzida desde o início sob o amparo do princípio do
contraditório, com a participação de ambas as partes.
b) Não é possível o emprego de força e o arrombamento em casos de ausência do
morador ou de qualquer pessoa no local da realização da diligência, devendo neste
caso, a autoridade certificar no mandado o ocorrido.
c) A busca pessoal não depende de autorização judicial, ainda que haja violação ao
direito constitucional à intimidade.
d) No curso da diligência de busca domiciliar é proibido realizar busca pessoal.
2- (Del. Pol. SP-2008) – A diligência de busca efetuada em trailer rebocado por
automóvel que se destina à habilitação do motorista:
a) Prescinde de mandado judicial por se equiparar à busca pessoal.
b) Prescinde de mandado judicial, porém necessita de ordem escrita da autoridade
policial.
c) Não prescinde de mandado judicial e simultaneamente de auto de busca policial.
d) Não prescinde de auto policial de apossamento e constrição.

26 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

SAIBA MAIS...

PM cumpre mandado de busca e apreensão e prende 4 em Bambuí


Grupo é suspeito de tráfico de drogas no Município.
Com eles a polícia encontrou mais de 10 porções de maconha.

Quatro pessoas foram presas suspeitas de tráfico de drogas na Rua Vigário


Protásio, no Bairro Cerrado, em Bambuí.
A prisão ocorreu em cumprimento a um mandado de busca e apreensão da
Polícia Militar nesta quarta-feira (29).
Entre as pessoas presas está uma jovem de 19 anos e um de 18, que já era
conhecido no meio policial quando era adolescente, além de outros dois jovens de
22 e 28 anos.
Ainda segundo os militares, no local foram localizadas dois tabletes grandes
de maconha e oito tabletes médios da droga, mais diversas porções prontas para o
comércio.
Os quatro presos e o material apreendido foram encaminhados a Delegacia de
Polícia Civil de Bambuí. Fonte: Globo.com

27 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
ACONTECEU...

(Fato ocorrido em 17/01/2015)

Policiais Militares do 8º Batalhão prenderam neste sábado duas mulheres


portando uma escopeta e uma barra de maconha, no KM 25, da BR-364, sentido
Rio Branco/ Sena Madureira.
Viviane da Silva Pontes Dacal e Lígia Cristina Jerônimo Monteiro da Silva,
ambas com 26 anos, seguiam na estrada em uma caminhonete modelo Toyota os
PMs abordaram o veículo e encontraram uma escopeta calibre 12 de marca e
numeração não identificada, uma barra de maconha e um pequeno volume
acondicionado em papel também de maconha.
Diante do flagrante de tráfico de entorpecente e porte ilegal de arma de fogo,
foi dada a voz de prisão e as acusadas foram conduzidas para a unidade de
Segurança Pública em Sena Madureira, juntamente com a arma e os entorpecentes.
Ao chegarem à Delegacia de Polícia Civil, foi solicitado que as policiais
femininas de plantão efetuassem uma busca pessoal nas acusadas, sendo encontrado
ainda em poder de Viviane uma trouxa de substância aparentando ser cocaína.
Fonte: http://www.3dejulhonoticias.com.br/?p=42213

28 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

Aula 03 – Prisão.

A prisão consiste na privação de liberdade de locomoção da pessoa, determinada


por ordem escrita (mandado de prisão) da autoridade competente ou em caso de
flagrante delito.
Em matéria processual penal existem duas formas de prisão:
A prisão pena, aquela decorrente de sentença penal condenatória transitada em
julgado, sendo a única espécie de prisão definitiva.
A prisão processual (sem pena), aquela decretada antes do trânsito em julgado de
sentença condenatória, nas hipóteses permitidas pela lei. É também chamada de prisão
provisória ou prisão cautelar.

1. Tipos de Prisão.
São as seguintes as hipóteses de prisão processual:
1.1 - prisão em flagrante;
1.2 - prisão preventiva;
1.3 – prisão domiciliar e;
1.4 - prisão temporária.

1.1 Prisão em flagrante


A expressão flagrante significa ardente, queimante, evidente, visível etc. Assim,
o flagrante delito seria a infração que está sendo cometida ou acabou de sê-lo;
permitindo, diante disto, a prisão do agente, mesmo sem autorização judicial
(mandado), em virtude da certeza visual do crime.
Compreendida a prisão em flagrante como uma medida de autodefesa da
sociedade, podemos relacionar suas finalidades:
a. evitar a fuga do infrator;
b. auxiliar na colheita de elementos informativos;
c. impedir a consumação do delito, no caso em que a infração está sendo praticada, ou
de seu exaurimento, nas demais situações.

29 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
1.1.1 Hipóteses de prisão em flagrante

O Art. 302 do CPP enumera as hipóteses de prisão em flagrante:

 Flagrante próprio (ou real) - abrange as situações descritas nos incisos I e II. De
acordo com o inciso I, considera-se em situação de flagrância aquele que está
cometendo o crime. Na hipótese do inciso II, o agente é flagrado quando acaba de
cometer o crime, estando ainda no local;
 Flagrante impróprio (ou quase flagrante) - considera-se em flagrante quem é
perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer outra pessoa, em
situação que faça presumir ser o autor da infração. Se a perseguição for iniciada logo
após a prática do crime, não existe prazo para sua efetivação, desde que seja
ininterrupta;
 Flagrante presumido (ou ficto) - considera-se em flagrante quem é encontrado, logo
depois do crime, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele
autor da infração.
 Flagrante retardado (prolongado, prorrogado, etc.) - Hipótese prevista na Lei nº
12.850/13, Art. 3º, III (Organização Criminosa). Decorre da chamada ação controlada,
onde o agente policial devidamente autorizado é infiltrado em uma organização
criminosa e pode deixar de intervir quando presenciar a ocorrência do delito, desde de
que mantenha a observação e o acompanhamento das ações, para efetuar a prisão no
momento mais oportuno do ponto de vista da produção de provas. Há também previsão
semelhante na Lei de Drogas, Art. 53, inciso II, da Lei nº 11.343/06, veja: “a não-
atuação policial sobre os portadores de drogas, seus precursores químicos ou outros
produtos utilizados em sua produção, que se encontrem no território brasileiro, com a
finalidade de identificar e responsabilizar maior número de integrantes de operações de
tráfico e distribuição, sem prejuízo da ação penal cabível.”

1.1.2. Sujeitos do flagrante

 Sujeito ativo - conforme constante no Art. 301 do CPP, o flagrante obrigatório, é


aquele em que as autoridades policiais e seus agentes têm o dever de prender quem se
encontra em situação de flagrância, e o flagrante facultativo, onde qualquer pessoa
pode prender quem se encontra em flagrante delito. Trata-se de mera faculdade, e não
obrigação;

30 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
 Sujeito passivo - em regra, qualquer pessoa pode ser presa em flagrante; há,
entretanto, algumas exceções: o Presidente da República (Art. 86, § 3º, da CF/88), os
menores de 18 anos e os diplomatas estrangeiros, desde que haja tratado assinado pelo
Brasil nesse sentido, não podem ser presos em flagrante, qualquer que seja o delito
praticado.
Não podem ser presos em flagrante por crimes afiançáveis os deputados e os
senadores, os juízes e promotores de justiça e os advogados, se o crime for cometido no
desempenho de suas atividades profissionais.
1.1.3. Fases da prisão em flagrante

A prisão em flagrante funciona como mero ato administrativo, dispensando-se


autorização judicial. Inicia-se com a captura, seguida da condução coercitiva à presença
da autoridade policial e posterior comunicação da prisão e do local onde o preso se
encontra ao juiz, ao Ministério Público, à família ou à pessoa indicada pelo autor da
infração. Depois, deve ser lavrado o auto de prisão em flagrante (Art. 304 do CPP), com
posterior recolhimento do capturado ao cárcere, salvo nas hipóteses em que for cabível a
concessão de fiança pela autoridade policial, ou seja, infrações penais cuja pena
privativa de liberdade máxima não seja superior a quatro anos, conforme disposto no
Art. 322 do CPP. Ao preso, deve ser entregue nota de culpa, em até vinte e quatro horas
após a captura (Art. 306, § 2º do CPP).
Posteriormente, a prisão em flagrante converte-se em ato judicial, a partir do
momento em que a autoridade judiciária é comunicada da detenção do agente, a fim de
analisar sua legalidade, para fins de relaxamento, necessidade de conversão em prisão
preventiva, ou acerca do cabimento de liberdade provisória, com ou sem fiança (Art.
310 do CPP).

1.2 Prisão Preventiva

Cuida-se de espécie de prisão cautelar decretada pela autoridade judiciária


competente, mediante representação da autoridade policial ou requerimento do
Ministério Público, do querelante ou do assistente, em qualquer fase das investigações
ou do processo criminal (Art. 311 do CPP), sempre que estiverem preenchidos os
requisitos legais (Art. 313 do CPP) e ocorrerem os motivos autorizadores listados no
(Art. 312 do CPP), e desde que se revelem inadequadas ou insuficientes às medidas
cautelares diversas da prisão (Art. 319 do CPP).

31 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
A prisão preventiva é cumprida por meio de mandado de prisão.

 Requisitos: O Art. 312 do CPP inicialmente prevê que a preventiva só é cabível


quando há indícios de autoria e prova da materialidade do crime (fumus boni iuris).
Esses são os chamados pressupostos da prisão preventiva.
O mesmo Art. 312 acrescenta que também deve estar presente ao menos um dos
chamados fundamentos da preventiva (periculum in mora):
a. garantia da ordem pública;
b. conveniência da instrução criminal;
c. garantia da futura aplicação da lei penal;
d. garantia da ordem econômica.
O Art. 313 do CPP traça as chamadas condições de admissibilidade da prisão
preventiva.

1.3 Prisão Domiciliar


A prisão domiciliar está prevista no Art. 318 do CPP, constituindo-se em uma
forma alternativa de cumprimento da prisão preventiva, considerando que, ao invés de
manter o preso em cárcere fechado, é inserido em recolhimento em seu domicílio,
durante as vinte e quatro horas do dia.
Trata-se de uma faculdade do juiz, atendendo às peculiaridades do caso concreto,
desde que respeitado algum dos seguintes requisitos que foram alterados pela Lei
13.257/16:

a. ser o agente maior de 80 anos;


b. estar o agente extremamente debilitado por motivo de doença grave;
c. ser o agente imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de seis anos ou
com deficiência;
d. ser gestante. (Redação dada pela nova lei 13.257, de 2016 onde não mais se exige
tempo mínimo de gravidez nem que haja risco à saúde da mulher ou do feto.)
e. mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos. (Incluído pela Lei nº
13.257, de 2016)
f. homem, caso seja o único responsável pelos cuidados do filho de até 12 (doze) anos
de idade incompletos. (Incluído pela Lei nº 13.257, de 2016).

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Segundo constante no parágrafo único do Art. 318, para deferir a substituição, o
juiz exigirá prova idônea dos requisitos estabelecidos no referido Art., em seus incisos I
ao IV.

1.4 Prisão Temporária


É uma medida restritiva de liberdade de locomoção, decretada por tempo
determinado, destinada a possibilitar a investigação de crimes considerados graves
durante o inquérito policial. A prisão temporária está prevista na Lei nº 7.960/89.
No Art. 1º da citada lei, encontramos os requisitos de tal medida cautelar.
A prisão temporária somente pode ser decretada pelo juiz, dependendo da
existência de requerimento do Ministério Público ou de representação da autoridade
policial.
O prazo de duração da prisão temporária é de cinco dias, prorrogáveis por mais
cinco dias, em caso de extrema e comprovada necessidade (Art. 2º).
Nos casos de crimes hediondos e equiparados a hediondos (Lei nº 8.072/90), tal
prisão poderá ser decretada por prazo de trinta dias, prorrogável por mais trinta dias.
Assim como a prisão preventiva, a temporária também é cumprida por meio de
mandado de prisão, expedido por autoridade judiciária competente.
Terminado o prazo, o preso deve ser imediatamente solto, salvo se tiver sido
decretada a prisão preventiva.

33 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

Exercícios

1- Assinale a alternativa INCORRETA.


a) Considera-se em flagrante delito quem caba de cometê-lo.
b) Considera-se em flagrante delito apenas quem está cometendo a infração penal.
c) Considera-se em flagrante delito quem é perseguido, logo após, pela autoridade,
pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da
infração.
d) Nenhuma das alternativas está incorreta.

2- Não será admitido o uso de força para efetuar a prisão, salvo:


a) a indispensável no caso de resistência.
b) a indispensável no caso de tentativa de fuga do preso.
c) se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à
determinada por autoridade competente
d) Todas as alternativas estão corretas.

34 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

Aula 04 – Prisão (Continuação).

Como vimos, a prisão consiste na privação de liberdade de locomoção da pessoa e


só pode ser realizada nos casos da prática de infrações penais (crimes e contravenções)
por ordem escrita (mandado de prisão) da autoridade competente (juiz) ou em caso de
flagrante delito.
Ressalvando-se, entretanto, as seguintes hipóteses, onde “não se imporá prisão
em flagrante”:
 Nos casos de infração de menor potencial ofensivo (pena de até dois anos), ao autor
do fato que, após lavratura do termo circunstanciado, for imediatamente encaminhado
ao Juizado Especial Criminal ou assumir o compromisso de a ele comparecer (Art. 69,
parágrafo único da Lei 9.099/95);
 Quando se tratar de conduta de porte de drogas para consumo pessoal, devendo o
autor ser apresentado ao juizado competente ou assumir o compromisso de a ele
comparecer, lavrando-se o termo circunstanciado (art. 28, da Lei nº 11343/06);
 Ao condutor de veículo, conforme dispõe o Código de Trânsito Brasileiro, nos casos
de acidentes de trânsito de que resulte vítima (fatal ou não), nem se exigirá fiança, se o
motorista prestar pronto e integral socorro à vítima (Art. 301, caput, da Lei nº 9503/97).

Obs: Não obstante a lei use a expressão “não se imporá prisão em flagrante”, deve-se
entender que é perfeitamente possível à captura e a condução coercitiva do agente até
presença da autoridade policial, estando vedada somente a lavratura do auto de prisão
em flagrante (APF) e o subsequente recolhimento ao cárcere.

35 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
1. Direitos e Garantias do Preso

O Art. 38 do CP prevê, verbis:


O preso conserva todos os direitos não atingidos pela perda da
liberdade, impondo-se a todas as autoridades o respeito à sua
integridade física e moral.
É certo que a prisão cautelar evidencia um enorme conflito no Processo Penal,
pois, ao mesmo tempo em que o Estado se vale de instrumento extremamente gravoso
para assegurar a eficácia da persecução penal, deve também preservar o indispensável
respeito a direitos e liberdades individuais que condicionam a legitimidade da atuação
do próprio aparato estatal em um Estado Democrático de Direito. Assim, o( Art. 5º,
inciso XLIX da CF/88, declara): “é assegurado aos presos o respeito à integridade
física e moral”. Ao assim proclamar, a Carta Magna garante ao preso a conservação de
todos os direitos fundamentais reconhecidos à pessoa livre, à exceção, é claro, daqueles
incompatíveis com a condição peculiar de uma pessoa presa.

2. Prisão de Magistrados e Membros do Ministério Público

Magistrados bem como os membros do Ministério Público, de acordo com a Lei


Orgânica da Magistratura Nacional e Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, têm
como prerrogativas não serem presos senão por ordem escrita do Tribunal ou do Órgão
Especial competente para o julgamento, salvo nas hipóteses de flagrante delito de crime
inafiançável, casos em que a autoridade fará imediata comunicação e apresentação do
preso ao presidente do Tribunal a que esteja vinculado.
Além disso, quando no curso da investigação houver indício da prática de crime
por parte do magistrado, a autoridade policial remeterá os respectivos autos ao Tribunal
ou Órgão Especial competente para o julgamento, a fim de que prossiga na
investigação.
O mesmo se aplica aos membros do Ministério Público, por força da Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público.
No caso de flagrante de crime inafiançável, é possível a captura do magistrado ou
membro do Ministério Público, porém o auto de prisão em flagrante não pode ser
presidido por Delegado de Polícia.
Cabe salientar que as ocorrências que envolvem a prisão em flagrante de
membros da Magistratura e do Ministério Público são raríssimas, contudo,
vejamos os fundamentos legais:

36 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Prevê a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Lei Complementar à CF nº
35/79), que:

Art. 33. São prerrogativas do Magistrado:

II – não ser preso senão por ordem escrita do Tribunal ou do Órgão


Especial competente para o julgamento, salvo em flagrante de crime
inafiançável, caso em que a autoridade fará imediata comunicação e
apresentação do Magistrado ao Presidente do Tribunal a que esteja
vinculado;

III – ser recolhido à prisão especial, ou a sala especial de Estado


Maior, por ordem e à disposição do Tribunal ou do Órgão Especial
competente, quando sujeito a prisão antes do julgamento final;
Parágrafo único: quando, no curso de investigação, houver indício da
prática de crime por parte do Magistrado, a autoridade policial, civil
ou militar, remeterá os respectivos autos ao Tribunal ou Órgão
Especial competente para o julgamento, a fim de que se prossiga na
investigação.

A Lei Orgânica Nacional do Ministério Público (Lei nº 8.265/93) estatui:

Art. 40 – Constituem prerrogativas dos membros do Ministério


Público, além de outras previstas na Lei Orgânica:
III - ser preso somente por ordem judicial escrita, salvo em flagrante
de crime inafiançável, caso em que a autoridade fará, no prazo
máximo de vinte e quatro horas, a comunicação e a apresentação do
membro do Ministério Público ao Procurador-Geral de Justiça;
IV - ser processado e julgado originariamente pelo Tribunal de
Justiça de seu Estado, nos crimes comuns e de responsabilidade,
ressalvada a exceção de ordem constitucional;
V - ser custodiado ou recolhido à prisão domiciliar ou à sala especial
de Estado Maior, por ordem e à disposição do Tribunal competente,
quando sujeito a prisão antes do julgamento final.
Art. 41 – Constituem prerrogativas dos membros do Ministério
Público, no exercício de sua função, além de outras previstas na Lei
Orgânica:
II - não ser indiciado em inquérito policial, observado o disposto no
parágrafo único deste Art.

37 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
[...]
Parágrafo único - Quando no curso de investigação, houver indício
da prática de infração penal por parte do membro do Ministério
Público, a autoridade policial civil, ou militar, remeterá
imediatamente, sob pena de responsabilidade, os respectivos autos ao
Procurador-Geral de Justiça, a quem competirá dar prosseguimento
à apuração.

É correto que o Art. 33, parágrafo único, da Lei Complementar à CF nº 35/79,


estabelece que: “se houver indício da prática de crime por parte de Magistrado ou
Membro do Ministério Público, devem os autos ser remetidos de imediato, no caso do
primeiro, ao Tribunal ou Órgão Especial, e, no caso do segundo, ao Procurador-Geral
de Justiça, para que se prossiga na investigação”.
Já a Lei 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do Ministério Público), determina que
“a autoridade policial ou militar remeterá imediatamente, sob pena de
responsabilidade, os respectivos autos ao Procurador-Geral de Justiça, a quem
competirá dar prosseguimento à apuração” (Art. 41, parágrafo único).
Isso significa que, diante da prerrogativa de foro especial, inclusive a investigação
deve ser conduzida pelo presidente do Tribunal ou procurador-geral de Justiça,
cessando, desta forma, por determinação legal, a possibilidade de delegado de Polícia
ou autoridade policial militar continuar a investigar magistrado ou membro do
Ministério Público.
Assim, não pode o auto de prisão em flagrante ser presidido por delegado de
Polícia.
Cabe alertar que prisão em flagrante em questão só pode ocorrer se o crime for
inafiançável.

3. Considerações Gerais Sobre a Prisão

3.1 Momento da prisão

Conforme o Art. 283, §2º do CPP, a prisão poderá ser efetuada em qualquer dia e
a qualquer hora, respeitadas as restrições relativas à inviolabilidade do domicílio.
Além das restrições à inviolabilidade do domicílio o Art. 236, caput, do Código
Eleitoral (Lei nº 4.737/65), proibe (veda) a prisão do eleitor nos cinco dias que

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
antecedem as eleições, até quarenta e oito horas após o encerramento da votação. Essa
norma não se aplica à prisão em flagrante, por expressa disposição legal.

3.2 Imunidades prisionais


A regra geral é que toda e qualquer pessoa pode ser presa; no entanto, há
exceções, a saber:
O Presidente da República, nas infrações comuns, enquanto não sobrevier
sentença condenatória, não estará sujeito à prisão (Art. 86,§3º da CF/88);
Os chefes de governo estrangeiro ou de Estado estrangeiro, suas famílias e
membros das comitivas, embaixadores e suas famílias, funcionários estrangeiros do
corpo diplomático e suas famílias, assim como funcionários de organizações
internacionais em serviço (ONU, OEA etc.) Gozam de imunidade diplomática, que
consiste na prerrogativa de responder no seu país de origem pelo delito praticado no
Brasil (Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas). Em virtude disso, tais
pessoas não podem ser presas e nem julgadas pelas autoridades do país onde exercem
suas funções (Art. 1º, I, do CPP). Quanto ao cônsul, este só goza de imunidade em
relação aos crimes funcionais. Deve ser ressaltado que essa imunidade não impede que
as autoridades policiais investiguem o delito praticado, colhendo as informações
necessárias referentes à autoria e materialidade do ilícito, que deverão ser encaminhadas
às autoridades do país de origem do agente;
Senadores, deputados federais, estaduais ou distritais, desde a expedição do
diploma, não poderão ser presos, salvo em flagrante delito de crime inafiançável (Art.
53,§2º da CF/88, c/c, Art. 27,§1º, da CF/88), nesse caso, os autos serão remetidos dentro
de vinte e quatro horas à Casa Legislativa respectiva, para que, pelo voto da maioria de
seus membros, resolva sobre a prisão. A impossibilidade de se prender em flagrante os
membros do Legislativo por crimes afiançáveis não significa que nada possa ser feito
quando colhidos em situação de flagrância. Nesse caso, seja a autoridade policial, seja
qualquer um do povo, poderão ser adotadas as medidas no sentido de interromper a
atividade ilícita, registrando a ocorrência, mas não lavrando o auto de prisão em
flagrante. Na hipótese de prisão em flagrante por crime inafiançável, a autoridade que
presidir o auto deve encaminhá-lo à Casa respectiva para deliberação sobre a prisão.
Vale ressaltar que vereadores, ao contrário, não gozam de incoercibilidade pessoal
relativa.

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
Supondo que um embaixador seja flagrado desferindo tiros contra uma pessoa,
sua captura poderá ser efetuada, de modo a evitar a consumação do delito. No entanto,
uma vez impedida à prática criminosa, o auto de prisão em flagrante delito não poderá
ser lavrado. A ocorrência será registrada para efeito de se enviar provas ao seu país de
origem.
Magistrados e membros do Ministério Público, de acordo com a Lei Orgânica da
Magistratura Nacional, têm como prerrogativas não serem presos senão por ordem
escrita do Tribunal ou do Órgão Especial competente para o julgamento, salvo em casos
de flagrante delito de crime inafiançável, caso em que a autoridade fará imediata
comunicação e apresentação do magistrado ao presidente do Tribunal a que esteja
vinculado. Além disso, quando no curso da investigação houver indício da prática de
crime por parte do magistrado, a autoridade policial remeterá os respectivos autos ao
Tribunal ou Órgão Especial competente para o julgamento, a fim de que prossiga na
investigação. O mesmo se aplica aos membros do Ministério Público, por força da Lei
Orgânica Nacional do Ministério Público. No caso de flagrante de crime inafiançável,
figura-se possível a captura do magistrado ou membro do Ministério Público, porém o
auto de prisão em flagrante não pode ser presidido por Delegado de Polícia;
Advogados, por motivo ligado ao exercício da profissão, somente poderão ser
presos em flagrante em caso de crime inafiançável, assegurada a presença de um
representante da OAB para a lavratura do auto respectivo;
Menores de 18 anos. Deve ser diferenciada a situação da criança (até doze anos
de idade incompletos) e do adolescente (com idade entre doze e dezoito anos
incompletos). Cuidando-se de criança, segundo o ECA (Lei nº 8.069/90), não é possível
a privação de sua liberdade em razão da prática de ato infracional, devendo a criança ser
apresentada ao Conselho Tutelar para as devidas providências (Medida de Proteção).
Quanto ao adolescente, nenhum será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato
infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente,
assim é possível sua apreensão.

3.3 Emprego de força


Conforme o previsto no Art. 284 do CPP, não será permitido o emprego de força,
salvo a indispensável no caso de resistência ou tentativa de fuga do preso (desde a
captura até o recolhimento ao cárcere). O emprego de força é medida de natureza

40 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
excepcional, devendo o agente limitar seu emprego àquilo que for indispensável para
vencer a resistência ativa do preso ou sua tentativa de fuga.
Agindo assim, não há que se falar em conduta ilícita por parte do responsável pela
prisão, uma vez que sua ação está acobertada pelo estrito cumprimento do dever legal
(se agente público) ou pelo exercício regular de direito (se particular), podendo, a
depender do caso em concreto, caracterizar também legítima defesa (Art. 23 do CP). Na
hipótese de resistência ativa por parte do preso, com a prática de agressão injusta ao
responsável pela prisão, pode este agir amparado pela legítima defesa, desde que se
valha dos meios necessários de maneira moderada e proporcional (Art.25 do CP), nessa
hipótese, ocorrendo à morte do opositor, será lavrado o Auto de Resistência(atualmente
com a nomenclatura de “homicídio decorrente de oposição à ação policial” ou no caso
de lesão corporal “ lesão corporal decorrente de oposição à interveção policial”).
Instaurado o competente inquérito policial para apurar as circunstâncias do fato e a
conduta do executor.

3.4 Uso de algemas

O CPP trata das algemas ao regular a instrução e os debates em plenário do Júri,


prevendo que seu uso será permitido somente em caso de absoluta necessidade à ordem
dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da integridade física dos
presentes (Art. 474, §3º).
Sobre a questão, o Supremo Tribunal Federal-STF editou a Súmula Vinculante nº
11, verbis:
“Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado
receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por
parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por
escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do
agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual
a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.”

Recentemente, a Lei nº 13.434/2017, trouxe ao CPP a regra de que “é vedado o


uso de algemas em mulheres grávidas durante os atos médico-hospitalares preparatórios
para a realização do parto e durante o trabalho de parto, bem como em mulheres durante
o período de puerpério imediato.”

41 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
3.5 Medidas cautelares de natureza pessoal diversas da prisão

O CPP em seu Art. 319 relaciona nove medidas cautelares alternativas à prisão,
ou seja, medidas coercitivas que substituem o cárcere cautelar, com menor dano para a
pessoa humana, porém com similar garantia da eficácia do processo.

4. Cabimento do Habeas Corpus

A CF/88 prevê em seu Art. 5º, inciso LXVIII, que será concedido habeas corpus
sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua
liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder.
Diante disto, o habeas corpus destina-se a fazer cessar coação ou ameaça de
coação a direito de locomoção da pessoa, por ilegalidade ou abuso de poder.
São duas as espécies de habeas corpus: o preventivo, quando determinada pessoa
corre o risco de ter seu direito de locomoção cerceado, e o repressivo ou liberatório,
para quando a pessoa já está com a constrição de sua liberdade consumada.
Este é o remédio para o caso de prisão ilegal, quando não for cabível o
relaxamento de prisão previsto no Art 5º, XLV, da CF, sendo certo que uma medida não
impede a outra.
As partes em uma ação de habeas corpus são: impetrante, que pode ser qualquer
pessoa, o paciente, que é a pessoa em nome de quem é impetrado o HC e a autoridade
coatora, que é a pessoa responsável pela coação ilegal.
O CPP prevê em seu Art 647 a concessão do habeas corpus e no Art. seguinte
(648), enumera as hipóteses de coação consideradas ilegais que autorizam a sua
concessão:
a. quando houver falta de justa causa (para a ação, prisão ou investigação);
b. quando alguém estiver preso por mais tempo do que determina a lei;
c. quando quem ordenar a coação não tiver competência para fazê-lo;
d. houver cessado o motivo que autorizou a coação;
e. quando não for alguém admitido a prestar fiança, nos caos em que a lei autoriza;
f. quando o processo for manifestamente nulo, e;
g. quando estiver extinta a punibilidade.
A ordem será impetrada sempre perante o órgão judiciário imediatamente
superior à instância da autoridade coatora, que poderá requisitar as informações desta.
Não havendo prazo estabelecido para impetração do habeas corpus.

42 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

Exercícios

1- Dentre os remédios constitucionais é correto afirmar que:

a) Habeas data será concedido para proteger direito líquido e certo, não amparado
pelo habeas corpus, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for à
autoridade pública;
b) Mandado de segurança é concedido sempre que a falta de norma
regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais
e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania;
c) Mandado de injunção será concedido para assegurar o conhecimento de
informações relativas à pessoa do impetrante ou até mesmo, para a retificação de
dados, em alguns casos;
d) Habeas corpus é concedido sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de
sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção;

2- Sobre o uso de algemas, é CORRETO afirmar que:

a) Não há necessidade de justificativa, por escrito, do emprego de algemas por parte


da autoridade ou de agentes públicos.
b) O uso indevido de algemas por autoridades ou agentes públicos não implica
quaisquer responsabilidades para o Estado.
c) O uso de algemas é permitido, desde que haja fundado receio de fuga ou de
perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, com
justificativa por escrito.
d) Fica a critério da autoridade ou do agente público o uso de algemas diante das
circunstâncias reais que envolvem o caso concreto.
e) O uso indevido de algemas não pode resultar na nulidade da prisão e em qualquer
consequência processual.

43 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

SAIBA MAIS...

DECRETO REGULAMENTA USO DE ALGEMAS

DECRETO Nº 8.858, DE 26 DE SETEMBRO DE 2016

Regulamenta o disposto no art. 199 da Lei nº


7.210, de 11 de julho de 1984 - Lei de Execução
Penal.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o


art. 84, caput, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 199 da
Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 - Lei de Execução Penal,

DECRETA:

Art. 1º O emprego de algemas observará o disposto neste Decreto e terá como


diretrizes:

I - o inciso III do caput do art. 1º e o inciso III do caput do art. 5º da


Constituição, que dispõem sobre a proteção e a promoção da dignidade da pessoa
humana e sobre a proibição de submissão ao tratamento desumano e degradante;

II - a Resolução nº 2010/16, de 22 de julho de 2010, das Nações Unidas sobre


o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para
mulheres infratoras (Regras de Bangkok); e

III - o Pacto de San José da Costa Rica, que determina o tratamento


humanitário dos presos e, em especial, das mulheres em condição de
vulnerabilidade.

Art. 2º É permitido o emprego de algemas apenas em casos de resistência e de


fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, causado
pelo preso ou por terceiros, justificada a sua excepcionalidade por escrito.

Art. 3º É vedado emprego de algemas em mulheres presas em qualquer


unidade do sistema penitenciário nacional durante o trabalho de parto, no trajeto da
parturiente entre a unidade prisional e a unidade hospitalar e após o parto, durante o
período em que se encontrar hospitalizada.

Art. 4º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 26 de setembro de 2016; 195º da Independência e 128º da


República.

MICHEL TEMER

44 | P á g i n a
LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

ACONTECEU...

Judiciário concede habeas corpus a servente acusado de tráfico


A 2º Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Rondônia concedeu liminar em
habeas corpus a um servente de pedreiro acusado da prática dos crimes previstos
pelos artigos 33 e 35 da Lei 11.343/06 (tráfico de drogas e associação para o
tráfico). Além de ser primário, sem antecedentes, com profissão definida e
residência fixa, a defesa argumentou que não foi encontrado qualquer substância
entorpecente com o mesmo, apenas com outra pessoa, que também seria usuário
de drogas, a quem ele deu carona no dia da prisão. A distribuição do processo
ocorreu no último 11/4, com julgamento no dia seguinte, ou seja, em 24 horas
após a entrada do pedido. "Quando um advogado entra com habeas corpus, o
processo é distribuído eletronicamente entre os desembargadores. O pedido de
liminar é julgado no máximo em 48 horas, mas na maioria das vezes é julgado em
24h, a exemplo deste caso", explicou Jucélio Scheffmacher, o secretário judiciário
do Tribunal de Justiça.
Na análise do pedido, foi registrado que em se tratando de liberdade, o perigo da
demora está evidente pela própria natureza do direito, havendo que se demonstrar
somente a probabilidade do direito alegado, ou seja, o chamado fumus boni iuris.
Com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou
incidentalmente a inconstitucionalidade do artigo 44 da Lei 11.343/06, que
impedia a concessão de liberdade neste tipo de crime, esse direito tem sido
efetivado rotineiramente.
O acusado foi preso em flagrante delito, com cerca de 25 gramas de maconha, no
entanto, pelo que se denota, o paciente não foi encontrado em situação que
demonstrasse gravidade justificadora da prisão, medida mais rígida. Para a
relatoria do processo, a situação permite concluir, mesmo nesta fase liminar, que a
prisão preventiva do paciente é desnecessária, principalmente porque é viável sua
substituição por outras medidas cautelares alternativas.
O pedido liminar foi deferido e a decisão tida como alvará de soltura. No entanto,
o réu continua respondendo ao processo e está submetido a outras medidas
cautelares, como o comparecimento mensal em juízo para informar e justificar
suas atividades; a proibição de ausentar-se da comarca sem prévia autorização do
juíz; e o recolhimento domiciliar no período noturno. Conforme informado pelo
oficial de Justiça no momento da soltura, eventual descumprimento ensejará em
prisão preventiva. O acusado também deve informar à Vara de Delitos Tóxicos da
comarca de Porto Velho em qual endereço ficará recolhido no período noturno, no
prazo de 24 horas.
A decisão liminar (parcial) no processo 0003305-52.2013.8.22.0000 foi publicada
na edição desta segunda-feira, 15/4, do Diário da Justiça Eletrônico.
Assessoria de Comunicação Institucional

Fonte: https://tj-ro.jusbrasil.com.br/noticias/100456747/judiciario-concede-habeas-
corpus-a-servente-acusado-de-trafico

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Aula 05 – Provas.

1. Legalidade Das Provas

Conceito: Provar é demonstrar, no processo, a existência ou inexistência de um fato, a


falsidade ou a veracidade de uma afirmação. Assim, prova é aquilo que permite
estabelecer a verdade de um fato ou circunstância, ou seja, aquilo que autoriza a afirmar
ou negar determinada suposição.
Objeto: Busca-se, com o processo, a reconstrução histórica do fato trazido como
criminoso. São objetos de prova todos aqueles fatos, acontecimentos, coisas e
circunstâncias relevantes e úteis para formar a convicção do julgador acerca do
ocorrido, a fim de que se possa dar solução à lide penal.
Meios de prova: Em princípio, pode servir de prova tudo o que, direta ou
indiretamente, seja útil na apuração da verdade real.
O CPP dispõe sobre provas nos arts. 155 a 250, onde relaciona as chamadas PROVAS
NOMINADAS (enumeração não é taxativa), ou seja, podem servir de prova outros
meios não previstos na lei e as PROVAS INOMINADAS.
Provas ilícitas: Em princípio, são admissíveis os meios de prova de qualquer natureza,
entretanto, a busca pela verdade real não confere aos agentes policiais, às partes ou ao
juiz a faculdade de violar normas legais para obtenção da prova. Assim, em nosso
sistema legal, há a proibição de uso das provas obtidas ilegalmente, por exemplo,
mediante tortura, indevida violação da intimidade, do domicílio ou de correspondência,
mediante coação física ou moral etc.
A previsão da vedação da utilização de provas ilícitas, isto é, daquelas obtidas em
violação às normas constitucionais ou infraconstitucionais, pode ser encontrada no Art.
5º, inciso LVI da CF/88 e no CPP (Art. 157).
 Prova ilícita por derivação – Com a edição da Lei nº 11.690/08, o CPP passou a se
perfilhar com a Teoria dos frutos da árvore envenenada (fruits of poisonous tree), em
consonância com entendimento jurisprudencial, o que significa que a prova em si

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
mesma lícita, mas que foi obtida por intermédio de ação ilícita, deve também ser
considerada ilícita.
Exemplo: Apreensão de drogas em veículo abordado por policiais (prova obtida, a
princípio, por ação lícita), porém decorrente de informação acerca do transporte da
substância obtida por meio de interceptação telefônica ilegal. (A Lei nº 9.296/96
disciplina as hipóteses e a forma como é admitida a interceptação telefônica, para fins
de investigação criminal ou instrução processual penal).
Para que haja a contaminação da prova pela ilicitude do meio de obtenção, é
necessário que haja inequívoco nexo de causalidade entre ela e a ação ilegal, ou seja, é
preciso constar que a ação ilícita foi condição “sine qua non “do alcance da prova. Por
tal motivo, não será impregnada pela ilicitude a evidência obtida por meio de fonte
independente (Art. 157, § 1º, do CPP).
O Brasil adotou como regra o sistema da livre convicção do juiz ou da persuasão
racional do magistrado como o sistema de valoração da prova, conforme o Art. 155,
caput, do CPP.
Deve ser ressaltado que, diante do princípio do contraditório e da ampla defesa
(Art. 5º, inciso LV da CF/88), a prova obtida na fase investigativa, para servir de base à
decisão, deverá, necessariamente, ser confirmada por elemento de convicção obtido em
juízo, salvo no caso de se tratar de:

 Prova antecipada = é aquela colhida em razão da existência de fundado receio de


que não exista ao tempo da instrução – ex.: oitava de testemunha enferma ou em idade
avançada – Art. 225 do CPP);
 Não repetível = aquela cuja reprodução em juízo mostra-se inviável – ex.: provas
periciais);
 Cautelar = a obtida em decorrência da adoção de providência de natureza cautelar,
como a busca e apreensão domiciliar.

2. Cadeia de Custódia das Provas

Cadeia de Custódia consiste basicamente em um registro documental e


cronológico sobre o manuseio de um meio de prova.
Visa primordialmente garantir a idoneidade de uma prova. Apesar de sua
importância, não se encontra definida de forma clara e expressa na legislação brasileira,

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
existindo apenas referências em Arts. e decisões relacionadas ao tratamento da prova e
ao trabalho pericial em si.
O Superior Tribunal de Justiça - STJ em sede de habeas Corpus, na operação
denominada “Negócio da China”, onde os réus questionaram a legalidade da
preservação das fontes de prova, através de duas indagações importantes, a saber:
1) O conteúdo das interceptações telemáticas foi extraviado no âmbito da Polícia
Judiciária; e;
2) Os arquivos de áudio das interceptações telefônicas, ao serem requeridos pela defesa,
não continham todas as ligações telefônicas interceptadas; concedeu ordem para
determinar o desentranhamento das provas produzidas nas interceptações
telefônica e telemática, por constituirem provas ilícitas. Em seu voto, a Relatora Min
Assusete Magalhães advertiu que [...] constitui constrangimento ilegal a seleção do
material produzido nas interceptações autorizadas, realizadas pela Polícia Judiciária, tal
como ocorreu, subtraindo-se do Juízo e das partes, o exame da pertinência das provas
colhidas [...] Decorre da garantia da ampla defesa e direito do acusado à
disponibilização da integralidade de mídia, contendo o inteiro teor dos áudios e diálogos
interceptados. (STJ, HC nº 160662/RJ – 6ª Turma, j. 18.02.2014);
O habeas corpus mencionado cuidou de uma questão processual preocupante,
relacionada à preservação da confiabilidade dos atos que compõe a cadeia de custódia
da prova como registro documentado de toda a cronologia da localização, posse e
armazenamento do material probatório, no que diz respeito à sua integridade.
Sobre a questão nos reportamos aos ensinamentos do mestre Geraldo Prado:

“O rastreamento das fontes de prova será uma tarefa impossível se


parcela dos elementos probatórios colhidos de forma encadeada vier
a ser destruída. Sem esse rastreamento, a identificação do vínculo
eventualmente existente entre uma prova aparentemente lícita e outra,
anterior, ilícita, de que a primeira é derivada, dificilmente será
revelado. Os suportes técnicos, pois, têm uma importância para o
processo penal que transcende a simples condição de ferramentas de
apoio à polícia para execução de ordens judiciais.” (Prova penal e
sistema de controle epistêmico: a quebra da cadeia de custódia das
provas obtidas por métodos ocultos. São Paulo: Marcial Pons, 2014,
pág. 79.).

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Exercício

1 - A prova produzida no processo pode ser utilizada:

a) somente pelo juiz.


b) somente pela parte que produziu a prova.
c) somente pelas partes, tanto pela que produziu a prova, quanto pela parte
adversária.
d) tanto pelo juiz quanto pelas partes.

2 - A busca é meio de prova:

a) ilícita, pois é um constrangimento.


b) que não pode ocorrer durante o inquérito policial.
c) de natureza acautelatória, pois procura evitar o perecimento das coisas.
d) que não pode ser determinado de ofício pelo juiz.

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SAIBA MAIS...

 Casa de máquinas
É possível condenar alguém por homicídio sem encontrar o cadáver?

E alguém pode ser condenado por um homicídio sem que haja um cadáver? Existe
um mito de que, sem cadáver, não há como alguém ser condenado por homicídio.
Não existe nada na lei brasileira que impeça um magistrado de condenar alguém por
um homicídio sem que o cadáver seja encontrado. Para que alguém seja condenado
pelo homicídio basta que o magistrado esteja convencido de que ocorreu um crime e
que o acusado é o culpado.

Às vezes, para entendermos o absurdo de uma ideia, basta levá-la ao limite.


Imaginemos, por exemplo, a seguinte situação: uma pessoa mata a outra em um
barco, na frente de mais de cem pessoas. O criminoso então pega o cadáver e o joga
na água. O corpo afunda e nunca mais é encontrado. O corpo não foi encontrado,
mas ainda assim a pessoa será condenada pelo homicídio pois há evidências
suficientes (no caso, cem testemunhas) para convencer o magistrado de que o
acusado matou a vítima.

Algumas pessoas acreditam que, se esconderem o cadáver, não poderão ser


condenadas pelo homicídio. Na verdade, não só poderão ser condenadas pelo
homicídio como também serão condenadas por um segundo crime: ocultação de
cadáver, como é o caso da matéria acima.

PS: a matéria termina dizendo ‘um silêncio torturante, principalmente para os


amigos e familiares (da vítima)’. Pois mais poética que tenha sido a intenção do
autor, vale lembrar que o acusado ainda não foi condenado. O jornalista dá a
entender que o acusado é culpado e que esconde algo com seu silêncio. Afirmar que
alguém é culpado de um crime sem que isso seja verdade constitui um outro crime:
calúnia. E se o acusado for absolvido, poderá processar tanto o veículo de imprensa
quanto o jornalista que o ‘pré-condenou’ indevidamente. Só depois que há o trânsito
em julgado podemos presumir que alguém é realmente culpado.

Fonte: http://direito.folha.uol.com.br/blog/-possvel-condenar-algum-por-homicdio-
sem-encontrar-o-cadaver

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

ACONTECEU...

Bruno revela detalhes de como Eliza foi assassinada

O goleiro, chorando, admitiu nesta quarta-feira, que sabia que Eliza Samudio
foi morta no dia 10 de junho de 2010

O goleiro Bruno Fernandes descreveu, no terceiro dia de julgamento da morte de


sua ex-amante Eliza Samudio, como ela foi assassinada. A versão teria sido contada
por seu primo Jorge Rosa, adolescente na época.

"O Jorge falou comigo que o Macarrão (Luiz Henrique Ferreira Romão) foi até o
Mineirão, e conversou com uma pessoa no orelhão e naquele momento começou a
seguir um cara de moto até uma casa na região de Vespasiano e lá entregou Eliza
para um rapaz chamado Neném”, afirmou Bruno. E que lá um rapaz perguntou para
Eliza se ela era usuária de drogas, segurou a mão dela e pediu para que Macarrão
amarrasse as mãos dela para frente, e deu uma gravata nela. E o Macarrão ainda
chutou as pernas de Eliza. "Foi o que o Jorge me falou. E que ainda tinha
esquartejado o corpo dela, tinha jogado o corpo dela para os cachorros comerem”,
contou.

Bruno disse ainda que, segundo relato de Jorge, o rapaz foi até um porão e pegou
um saco preto e perguntou se eles queriam ver o resto. "Aí os meninos falaram que
não queriam ver nada, e foram embora com o Bruninho."

Perguntado se sabia que Eliza seria executada, Bruno disse: “Eu não mandei, mas
eu aceitei”. Afirmou que, posteriormente, Macarrão revelou que havia contratado
Marcos Aparecido, Bola, para que ele matasse Eliza. Apelido que ele só ficou
sabendo pela imprensa. “Pelo Macarrão e Jorge fiquei sabendo dele apenas como
Neném”, afirmou.
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/bruno-revela-detalhes-
de-como-eliza-foi-assassinada.

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Aula 06 – Lei Nº 9.099/95 – Juizados Especiais Criminais

Ao final desta aula você deverá:


 Entender o funcionamento do Jecrim;
 Conhecer os institutos despenalizadores da
Lei nº 9.099/95.

A Lei nº 9.099/95 fez nascer o Juizado Especial Criminal para julgar as infrações
penais de menor potencial ofensivo. Segundo o Art. 61 da referida lei, infrações de
menor potencial ofensivo são todos os crimes e as contravenções penais a que a lei
comine pena máxima de até dois anos.
Tal dispositivo legal busca dar celeridade a apuração e julgamento das infrações
penais de menor potencial ofensivo, desafogando as unidades de Polícia Judiciária e,
principalmente, as Varas Criminais. Procura ainda evitar os transtornos do
encarceramento dos autores de delitos de menor lesividade, tendo como metas a
conciliação (acordo entre agressor e ofendido) e a transação penal (decisão de não
litigar, aceitando o agressor, desde logo, a penalidade – restrição de direito ou multa –
sugerida pelo órgão acusador).
Existe ainda a possibilidade de ocorrer à suspensão condicional do processo,
conforme estabelece o Art. 89 da Lei nº 9.099/95, nos delitos não abrangidos pela lei em
estudo, que tenham pena mínima de até um ano, como por exemplo, no crime de
Estelionato simples, previsto no Art. 171, caput, do CP.
Nos casos de flagrância, o autor dos delitos abrangidos pela lei em questão
poderá deixar de ser preso (em flagrante), com a lavratura do respectivo auto, se for
imediatamente apresentado pela autoridade policial ao juízo competente, ou assumir o
compromisso, por escrito, de a ele comparecer (Art. 69, Lei nº 9099/95). Nesse caso, a
autoridade policial lavrará o Termo Circunstanciado, que substituirá o auto de prisão em
flagrante(APF). Se o conduzido se recusar a assumir o compromisso, deverá então ser
autuado em flagrante delito.
Deve ser ressaltado que, ao assumir o compromisso de comparecer ao juizado, o
conduzido não estará confessando a autoria do delito.
O Termo Circunstanciado é a formalização da ocorrência policial, referente à
prática de uma infração de menor potencial ofensivo, em uma peça escrita, contendo
dados detalhados, tais como a data e a hora do fato, o local e a natureza da ocorrência,

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM
os nomes e as qualificações do condutor, de outras testemunhas, do ofendido e do autor
do fato com resumo de suas declarações (no caso deste, se ele quiser prestá-las), com
indicação dos eventuais exames periciais requisitados e outras diligências realizadas,
bem como com a juntada de informe sobre a vida pregressa do autor.

Exercícios
Após a leitura dos artigos mencionados no texto, responda:

1- Aplica-se a Lei nº 9.099/95 ao agente que induz ou instiga alguém ao uso


indevido de drogas ou auxilia nessa utilização?
2- De que tipo é a ação nos casos de lesões corporais leves e de lesões corporais
culposas?
3- No caso de infrações penais de menor potencial ofensivo, se o autor for
apanhado em flagrante, deverá obrigatoriamente ser autuado em flagrante e
recolhido à prisão?
4- Identificar o que são delitos de menor potencial ofensivo;
5- Compreender qual a finalidade da Lei nº 9.099/95 e quais suas particularidades
que interessam à atividade policial militar expressa do Art. 69 do diploma legal.
Nesse caso, a autoridade policial lavrará o Termo Circunstanciado, que substituirá o
auto de prisão em flagrante (APF). Se o conduzido se recusar a assumir o
compromisso, então será lavrado o devido APF.
Deve ser ressaltado que, ao assumir o compromisso de comparecer ao juizado,
o conduzido não estará confessando a autoria do delito, porém deverá
obrigatoriamente ser autuado em flagrante e recolhido à prisão?

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SAIBA MAIS...

Juizados criminais de BH estão usando o Whatsapp para enviar intimações

(29/06/2017)

Iniciativa tem o objetivo de agilizar o processo na Justiça e reduzir custos. Porém, os


interessados devem se cadastrar para receber o documento no celular.

Intimações emitidas pelos juizados especiais criminais de Belo Horizonte já podem ser
enviadas pelo WhatsApp. De acordo com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a
novidade, que começou a valer no dia 21 de junho, tem o objetivo de acelerar os processos.
Porém, as partes interessadas devem se cadastrar no cartório dos juizados para receber os
documentos no aplicativo do celular.
A medida já vinha sendo realizada na comarca de Vespasiano, na Região Metropolitana de
Belo Horizonte, desde janeiro deste ano. Nesta terça-feira (27), o Conselho Nacional de
Justiça aprovou por unanimidade a utilização do WhatsApp como ferramenta para
intimações em todo o Judiciário.
Além de agilidade, o aplicativo deve gerar economia para o tribunal. "A redução de custos é
uma das vantagens do projeto que também pretende simplificar o trâmite do processo", disse
o coordenador dos juizados especiais de Belo Horizonte, Francisco Ricardo Sales Costa.
As pessoas que quiserem aderir à iniciativa deverão declarar que concordam com os termos
da intimação pelo WhatsApp e terão que manter ativa a opção de recibo ou confirmação de
leitura de mensagens.
A imagem do despacho, decisão ou sentença, com a identificação do processo e das partes,
será enviada para o número de celular informado no ato de adesão. Assim que a mensagem
for visualizada, a intimação será considerada como entregue.
Caso não haja confirmação de leitura em três dias, a intimação será feita tradicionalmente,
por mandado ou carta. Quem deixar de ler as intimações por duas vezes será excluído da
modalidade via aplicativo e não poderá se cadastrar novamente por seis meses.
A expectativa é expandir a iniciativa para os juizados cíveis e depois para todo o estado, de
acordo com Costa.
Fonte: http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/juizados-criminais-de-bh-estao-
usando-o-whatsapp-para-enviar-intimacoes.ghtml

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ACONTECEU...

Após discussão com PM em micareta na BA, cantor e vereador Igor


Kannário será indiciado por desacato
(27/06/2017)

Cantor e vereador Igor Kannário prestou depoimento à polícia, sobre a discussão com uma
policial militar na Micareta de Feira de Santana, cidade distante cerca de 100 km de
Salvador, em maio deste ano. O cantor esteve na delegacia do município no final da manhã
desta terça-feira (27). Segundo o delegado João Uzzum, coordenador da Polícia Civil em
Feira, Kannário alegou ter agido sob "violenta emoção". Ele será indiciado por desacato a
funcionário público.
A discussão entre Kannário e a policial ocorreu no último dia da Micareta de Feira. De cima
do trio, durante a apresentação na festa, Kannário afirmou ter mais autoridade do que a
PM, pelo fato de ser vereador na capital baiana. As declarações dele foram filmadas e o
vídeo repercutiu nas redes sociais.
Na época, o cantor postou nota em uma rede social, onde se disse abismado e surpreendido
com o que viu do alto do trio elétrico, e que precisou parar de tocar várias vezes por causa da
violência policial.
Conforme Uzzum, o vereador disse no depoimento desta terça que reprovou a atitude da
policial, mas que não teve intenção de ofender a PM e nem a corporação.
O G1 procurou o cantor Igor Kannário para comentar o caso, por meio de sua assessoria,
mas não conseguiu contato até a publicação desta reportagem.
Fonte: http://g1.globo.com/bahia/noticia/kannario-presta-depoimento-apos-de-
discussao-com-pm-em-micareta-ele-sera-indiciado-por-desacato.ghtml

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LEGISLAÇÃO PROCESSUAL PENAL COMUM

REFERÊNCIAS

CARNELLUTI, Francesco. Como Nasce o Direito. Guarulhos/SP : Pillares, 2015.

GONCALVES, Victor Eduardo; REIS, Alexandre. Direito Processual Penal


Esquematizado. São Paulo: Saraiva, 2012.

GRECO, Rogério. Atividade Policial. 6ª ed. - Niterói/RJ: Impetus, 2014.

GRECO FILHO, Vicente. Manual de Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2010.

JESUS, Damásio E.De. Direito Penal do Desarmamento. 6ª ed. São Paulo: Saraiva,
2007.

TOURINHO FILHO, Fernando C. Direito Processual Penal. 9ª ed. São Paulo: Saraiva
2012.

TOURINHO FILHO, Fernando C. Processo Penal. 31ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009.

TOURINHO FILHO, Fernando C.Manual de Processo Penal, São Paulo: Saraiva,


2009.

TUCCI, Rogério Lauria. Teoria do direito processual penal – jurisdição, ação e


processo penal (estudo sistemático). São Paulo: Ed.RT, 2003.

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