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PROF.

ENEIDA CUNHA
DOUTORANDA DANIELE RODRIGUES

NEGLIGENCIAMENTO DO FEMINISMO NEGRO NO BRASIL:


O ESQUECIMENTO DE UMA IDENTIDADE
LUIZA KHOURY

Rio de Janeiro
Dezembro de 2020
ÍNDICE DO PROPOSTO PELA ATIVIDADE

Artigo escolhido: “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América


Latina a partir de uma perspectiva de gênero”, de Sueli Carneiro.

1. Comentário Geral:

Encontra-se disperso na articulação dos dois argumentos, ainda que se faça presente
com maior destaque na conclusão final.

2. Destaque de dois argumentos:

(a) A estética da mulher negra como fator de discriminação.

(b) O ideal de que o ser humano deve ser um todo, não apenas “mulher” ou “negra”, e
compreender que cada uma de suas qualificações traz implicações em seu modo de vida.

3. Seleção de um acontecimento discursivo:

O escolhido foi a música “Olhos Coloridos”, interpretada pela cantora Sandra de Sá e


composta por Macau.
A cidade do Rio de Janeiro é um dos principais pontos turísticos nacionais Rica
em beleza natural e urbana, a metrópole é o cartão postal mais famoso do Brasil. Apesar
das muitas atrações, cabe destacar o centro histórico da cidade, repleto de restaurantes,
preservações arquitetônicas e caminhos que contam por si só a história da nação
brasileira. Perto da Praça Mauá, palco da reforma Pereira Passos e recentemente
reformada para sediar as Olimpíadas Rio 2016, há a Pedra do Sal. Às segundas, o local
é palco de rodas de samba que reúnem um público extremamente diverso para cantar,
dançar e experimentar os petiscos de boteco – famosos na região. No entanto, um olhar
mais atento revela algo sobre o local. A própria “pedra do sal” é uma escadaria que foi
lapidada por mão de obra escrava na época da colônia. Contemporaneamente, tornou-se
símbolo de resistência negra, como observável pela parede da escadaria. Dentre grafites 1
de Zumbi dos Palmares2 e Marielle Franco3, uma frase marcante ganha destaque:
“Vende-se carne negra. Tel: 190. ”

Durante séculos a vida negra vem sendo negligenciada no Brasil e no mundo.


Ao trazer a expressão “vida negra” não faço referência apenas à condição de existir,
mas também aos direitos básicos que asseguram a dignidade. Um país de herança
escravagista, como o Brasil, carrega consigo traços estruturais do destrato e da
desconsideração com o povo negro desde a desigualdade no sistema de educação até o
índice de homicídios – dentro do qual os negros representam 75,7% das vítimas 4,
segundo uma reportagem do portal G1.

No entanto, cabe resgatar o conceito apresentado pela estudiosa Sueli Carneiro


em seu artigo “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a
partir de uma perspectiva de gênero”5 quando diz que o ser humano não deve ser
entendido por suas partes, mas sim pelo todo. Não somos metonímicos. Portanto, para
1
Um grafito ou grafite ou grafíti é uma inscrição feita em paredes, existentes desde o Império Romano.
Considera-se grafite uma inscrição caligrafada, um desenho pintado ou gravado sobre um suporte que
não é normalmente previsto para esta finalidade.
2
Zumbi dos Palmares (1655-1695) foi o último líder do Quilombo dos Palmares e também o de maior
relevância histórica.
3
Marielle Franco foi uma vereadora periférica, negra e lésbica do Rio de Janeiro que, em 2016, foi
assassinada em um crime de motivação política. Sua morte permanece impune até a presente data.
4
ACAYABA, C.; ARCOVERDE, L. Assassinatos de negros aumentam 11,5% em dez anos e de não negros
caem 12,9% no mesmo período, diz Atlas da Violência. G1, 2020. Disponível em:
<https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/08/27/assassinatos-de-negros-aumentam-
115percent-em-dez-anos-e-de-nao-negros-caem-129percent-no-mesmo-periodo-diz-atlas-da-
violencia.ghtml >. Acesso em: 4 dez 2020.
5
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma
perspectiva de gênero. In: Hollanda, HeloÍsa Buarque (org). Pensamento feminista - conceitos
fundamentais, Rio de Janeiro, Bazar do tempo, 2019.
de fato compreender a violência contra o povo negro, é necessário, também, analisar
outras questões que os seres humanos carregam em si, como a de gênero. Ao
engrandecer a perspectiva e encaminhá-la ao entendimento de que a mulher negra sofre
tanto a opressão de raça quanto a de gênero, torna-se claro que a fragmentação de sua
identidade apenas atrasa o encaminhamento dos movimentos para a sua libertação.

O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas


maneiras de perder-se são: por segregação, sendo
enquadrado na particularidade, ou por diluição no
universal”. A utopia que hoje perseguimos consiste em
buscar um atalho entre uma negritude redutora da
dimensão humana e a universalidade ocidental
hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser
somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser
mulher negra sem ser somente mulher negra.
(Sueli Carneiro, 2020, p. 4)

Ignorar o caráter racial da perseguição contra a mulher negra, além de dissipar


sua identidade, funciona como uma tentativa de apagar todo o histórico de sua opressão.
Mesmo que toda mulher esteja exposta às mazelas do machismo, as formas que ele se
impôs sob cada uma são diferentes e necessitam de avaliação pessoal. Como bem
colocado por Carneiro, enquanto as feministas brancas tomavam as ruas em busca do
direito de trabalhar, as mulheres negras, vítimas da escravidão, não entendiam aquele
movimento. O feminismo não pode ser pautado apenas na trajetória e na experiência da
mulher branca, mas sim compreender as diferenças existentes entre as mulheres e sair
em busca de mudanças efetivas para todas.

A mulher branca teve sua história pautada na discriminação de gênero. Se


observarmos a partir da época do império, por exemplo, é evidente o ideal da mulher
como frágil e necessitada de proteção. Impedida de trabalhar e privada de direitos civis
no princípio da República, até mesmo a liberdade de ir e vir das mulheres dependia da
presença de um homem que a “cuidasse”. O tal “cuidado”, como indicado por Sueli
Carneiro, tratava-se da justificativa para a manutenção do patriarcado. A mulher negra,
no entanto, se viu em uma narrativa diferente.
Fazemos parte de um contingente de mulheres que
trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras
ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas...
Mulheres que não entenderam nada quando as feministas
disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e
trabalhar!

(Sueli Carneiro, 2019, p. 1)

Vítima precoce do trabalho forçado, a mulher negra nunca foi posta no papel de
desprotegida ou fragilizada. Pelo contrário, a cultura de “coisificação” do negro a
perseguiu e persegue desde o princípio. Forçadas a trabalhar da forma que fosse
possível, as mulheres negras foram expostas a todo tipo de violência. Ainda que o
estupro seja, de forma universal, um crime com alto índice de impunidade
independentemente da vítima – desde que seja mulher – o da mulher negra não foi
apenas relevado. Ele foi romantizado. Enquanto a mulher branca era tratada como a
frágil “sinhá”, escravas negras eram estupradas diariamente pelos senhores de engenho.
A miscigenação, tratada como o belo berço da nação brasileira, foi e ainda é
romantizada em diversos setores, – educacionais, publicitários, etc. – quando, na
realidade, trata-se do resultado da agressão à mulher negra.

Atualmente, a mulher negra segue erroneamente sexualizada, sendo posta em


papéis degradantes. Existe não apenas no Brasil a triste cultura de classificar mulheres
negras como um “tipo”, de modo que muitos homens se referem a elas como tal. Seja
para velar seu racismo dizendo que não se sentem atraídos por mulheres negras ou até
mesmo propulsionando sua objetificação, visto que o termo “negra” foi convertido em
uma categoria de busca pornográfica. A pesquisadora de relações públicas Cáren Cruz,
enquanto elaborava uma tese acerca das mulheres no mercado de trabalho da educação,
foi surpreendida ao atingir a triste constatação de que, ao pesquisar “mulher negra
dando aula” na ferramenta Google, o resultado é direcionado à pornografia6. Tal
acontecimento confirma não apenas a “coisificação” da mulher negra, mas também
implica uma cultura de inferiorização, já que o mesmo não ocorre com a pesquisa
“mulher branca dando aula”.

6
GERALDO, Natália. Buscar "mulher negra dando aula" no Google leva à pornografia: por quê?. UOL,
2020. Disponível em: < https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/10/27/pesquisa-
mulher-negra-dando-aula-leva-a-pornografia-no-google.htm >. Acesso em: 4 dez 2020.
Ainda que altamente sexualizada, a mulher negra ainda sofre inúmeras agressões
– estruturais ou não – em decorrência de sua aparência e da presença de traços
negroides. Um dos exemplos mais claros da discriminação por estética é trazido por
Sueli Carneiro ao abordar as possibilidades de mercado de trabalho.

Quando falamos em garantir as mesmas


oportunidades para homens e mulheres no mercado de
trabalho, estamos garantindo emprego para que tipo de
mulher? Fazemos parte de um contingente de mulheres
para as quais os anúncios de emprego destacam a frase:
“Exige-se boa aparência”.
(Sueli Carneiro, 2019, p. 2)

A exigência da “boa aparência”, bem pontuada por Sueli, encabeça o


questionamento de o que é a boa aparência. Se a beleza é relativa, é cabível questionar
qual seria o conceito de aparência exigido. Infelizmente, ainda que a beleza em si varie
de ponto de vista, o padrão estético não segue o mesmo caminho. Sempre fomentado
pela mídia a partir da caracterização de personagens de novelas e seriados, pelas capas
de revistas ou até mesmo as redes sociais e sua liquidez, o padrão é claro em suas
demandas. A mulher deve ser magra, alta, – ainda que não mais que o homem – branca,
possuir os cabelos lisos e, se possível, ser loira. Olhos claros também são indispensáveis
dentro da compreensão ocidental de ideal estético. Não seria necessário explicitar p fato
para a constatação do óbvio: são ínfimas as mulheres que se encaixariam dentro do
padrão. A mulher negra, por sua vez, não teria sequer a chance.

Como observável pela anteriormente mencionada pesquisa de Cáren Cruz, a


estética da mulher negra já caracteriza como incapaz aos olhos do grande público,
submetido ao racismo estrutural. Diante desse cenário, a exigência de boa aparência em
anúncios de emprego jamais envolveria a mulher negra. Não obstante a pressão de se
enquadrar no desejo do mercado dentro de uma sociedade capitalista, a estética negra
também é vítima de preconceito nas relações sociais.

Ao relatar sua experiência, Yasmin Thayná, autora do conto “Mc K_bela7”,


divaga sobre suas lembranças da experiência de assumir o cabelo crespo em meio a uma
sociedade ainda preconceituosa perante traços negroides. Na infância, sofria com

7
THAYNÁ, Yasmin. Mc K_bela. Flupp- 43 novos autores. Rio de Janeiro: FLUPP, 2012.
ataques de bolinhas de papel e apelidos cruéis. Na fase adulta, após alisar os fios, passou
a sofrer com queimaduras e a sensação de negação de suas origens. Quando, por fim,
assumiu seu cabelo natural, entendeu que foi seu momento de auto aceitação enquanto
mulher negra. A saga de Yasmin não é incomum entre as mulheres. Ao falar em
específico das brasileiras, alisantes ocupam o terceiro lugar na colocação de produtos
capilares mais consumidos8. A negação das origens negras, imposta por padrões e
preconceitos sociais, fere principalmente as mulheres negras há décadas. A busca por
alisamento capilar, rinoplastia para afinar o nariz, dentre outros é extremamente comum
entre as mulheres negras.

Para ilustrar o preconceito estético sofrido pelo povo negro dentro de uma
sociedade racista como a brasileira, a música “Olhos Coloridos”9 foi composta por
Macau e interpretada pela cantora de MPB (música popular brasileira) Sandra de Sá,
tornando-se um de seus maiores sucessos.

Você ri da minha roupa

Você ri do meu cabelo

Você ri da minha pele

Você ri do meu sorriso

Que você

Tem sangue crioulo

Tem cabelo duro

Sarará crioulo

(Macau, 1974)

A música, de letra marcante, aborda a temática da aceitação da estética negra


independente da pressão social e do preconceito sofrido pelo povo negro. Trata-se de
um dos maiores hinos do Orgulho Negro no Brasil. A luta por aceitação e
reconhecimento do povo negro se estende desde a época da escravidão, mas,

8
QUAIS OS 5 PRODUTOS CAPILARES MAIS VENDIDOS NO BRASIL?. Nátum Cosméticos Professional.
Disponível em: < http://natumcosmeticos.com.br/blog/quais-os-5-produtos-capilares-mais-vendidos-no-
brasil/#:~:text=1.,do%20ramo%20de%20itens%20capilares.>. Acesso em: 4 dez 2020.
9
MACAU. Olhos Coloridos. Rio de Janeiro: 1974. Disponível em:
https://www.letras.mus.br/macau/olhos-coloridos/. Acesso em 4 dez. 2020.
ultimamente, tem ganhado mais visibilidade. Apesar de ainda escassas, as mulheres
negras têm conquistado um espaço cada vez maior no mundo da moda e da
teledramaturgia na tentativa de humanizar, ao invés de coisificar, a mulher negra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo que ainda vítimas da constante marginalização, as mulheres negras têm


se mostrado cada vez mais firmes e ativas na defesa de seus direitos enquanto vítimas
de preconceitos de raça e gênero. Angela Davis, uma das maiores ativistas do
feminismo negro em escala mundial, propõe que “temos que falar sobre libertar mentes
tanto quanto sobre libertar a sociedade”. A realidade é que o movimento pode ser muito
bem descrito por essa frase. Adquirir a consciência de que se é mais do que apenas
mulher ou apenas negra é, de certa forma, libertar a mente. Libertar-se da segregação
proposta e se propor a aceitar que o ser humano é plural, tal como suas causas deveriam
ser.

O feminismo negro é, atualmente, um dos maiores exemplos de pluralidade


dentro do ativismo. A ideia de que a mulher negra é a base da estrutura social, também
proposta por Davis, é suficiente para que se entenda o peso do movimento. A mudança
de postura e perspectiva individual da mulher negra – ou libertação de sua mente – gera
também uma mudança na estrutura social – ou libertação da sociedade. O acoplamento
do feminismo com o movimento negro é essencial para que os dois se mantenham. O
movimento negro não pode ignorar as necessidades das mulheres também negras, tal
qual o feminismo, em nome da sororidade, não pode negligenciar os aspectos sociais
enfrentados da perspectiva das negras, também mulheres.

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