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História da Arte: Pré-

História à Idade Média


Prof.ª Clara Aniele Schley

2017
Copyright © UNIASSELVI 2017

Elaboração:
Prof.ª Clara Aniele Schley

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

930.13
S322h Schley, Clara Aniele
História da arte: pré-história a idade média / Clara
Aniele Schley: UNIASSELVI, 2017.

235 p. : il.

ISBN 978-85-515-0076-7

1.História da Idade Média.


I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

Impresso por:
Apresentação
Em muitos livros, textos, artigos, encontramos a seguinte pergunta: O
que é arte? E várias são as respostas. Talvez tenhamos que repensar o sentido
do que seja a arte, reformulando a pergunta para: Onde a arte predomina no
contexto da sociedade? Talvez essa pergunta sendo feita antes, possa auxiliar
as pessoas a entenderem os caminhos percorridos por ela, e de fato entender
qual é o sentido para a transformação humana, de forma mais sensível.

Mas por que essa troca de reflexão sobre a arte? Você já parou para
pensar como as pessoas de modo geral a veem? Como ocorre a compreenção
no âmbito escolar? A arte pode ser percebida como bonita ou feia? Ou mesmo
quando saem dos espaços culturais e se instauram nas cidades, como são
vistas aos olhos da sociedade? São apenas algumas perguntas para reflexão
em âmbito acadêmico.

Se a arte assume diversos sentidos e funções na sociedade, trazendo


do contexto político, histórico, religioso, econômico e raízes para a criação
artística, ela está imersa em nosso cotidiano. Entretanto, percebemos a
presença direta ou indireta, dependendo de todo conhecimento adquirido na
bagagem da vida para então questionarmos, de fato o que ela seria.

O tempo/espaço é importante para o entendimento da arte na relação


para consigo, para com o outro e o contexto onde se está inserido. Onde
algumas pessoas são transeuntes e outras interpenetram nesse mundo para
inspirar/expirar arte em uma caminhada sem fim, pois como em outros
campos profissionais, ela também teve momentos cíclicos, momentos de
descobertas; de mudanças; de inspiração; da não concordância entre a arte de
um povo e outro, da evolução, primando boa parte da sua instauração pela
autonomia do artista.

Nesse leve contexto reflexivo escrito nos parágrafos acima, nos coloca
diante do livro de estudos: História da Arte: Pré-História a Idade Média,
onde o caminhar artístico teve diversas nuances no perpassar histórico, para
o artista fazer sua arte, beber de fontes diversas, mas acima de tudo, construir
uma identidade e ser valorizada por ela.

Portanto, trazemos novamente a pergunta: Onde a arte predomina


no contexto da sociedade? Neste livro, a trama entre as civilizações e os
impérios instaurados mostra como a arte abriu caminhos para mostrar a sua
importância sociocultural.

A caminhada inicia com a Unidade 1, onde é abordada a arte desde a


Pré-História, quando o homem fez experimentos com elementos da natureza
III
e resultam em descobertas, como o fogo, instrumentos rudimentares que
auxiliaram até na concretização de registros artísticos, como o osso virando
pincel. Esse período teve como marca as pinturas nas paredes das cavernas.
Parte dos registros apresenta-se preservados nos dias de hoje para estudos
científicos, e quem sabe, novas descobertas. Caminhando para as civilizações
que surgiram posteriormente, a arte feita em murais e vasos no Egito e na
Grécia, eram as marcas dos feitos do dia a dia, enquanto a escultura começou
rígida, esculpida em bloco puro pelos egípcios, começando a se desprender e
ganhar leveza com os gregos. A arquitetura, teve sua solidez com os egípcios,
com fins de moradia. Já na civilização Romana começaram a introduzir além
da beleza, funcionalidade. Aos poucos, os povos começam a se aprimorar, e
a arte toma rumos diferentes, sendo servil à igreja.

Ela toma, no entanto, caminhada dentro das igrejas, no período da


Idade Média, que será estudado na Unidade 2. Na arte bizantina, o clero
dava os encaminhamentos para os artistas que não eram conhecidos na época
para realizarem as pinturas que nada mais eram, que as interpretações das
passagens bíblicas. Enquanto a igreja se propunha a construir fortalezas para
alimentar a fé do povo e nas pinturas então, decoravam as paredes, auxiliando
os fiéis a entenderem por meio da linguagem visual a compreensão da fé.
Nesse período foram introduzidos a rosácea e vitrais que eram construídos
de forma artística. Mas foi no Renascimento, que o homem toma atitude,
tomando a frente da igreja, assim, iniciando mudanças sociais, e na arte,
começam a realizar pinturas com assinatura, estudando a arte da Idade
Antiga, e se desafiando a criar a sua identidade, por meio da perspectiva,
sfumato, claro/escuro, marcando o período e aparecendo nos períodos
posteriores, como o barroco.

Já, na Unidade 3, a arte começa a se tornar cíclica, onde os [ismos]


surgem, propondo retorno em alguns momentos, que seja da Antiguidade
Clássica ou da Idade Média. No neoclassicismo, o retorno ocorreu na arte
greco-romana. O romantismo, contra o pensamento dos neoclássicos, volta-
se para às fontes das culturas nacionais e a pureza original da Idade Média.
Neste período inicia-se a Revolução Industrial, começando a surgir máquinas,
auxiliando a produção do campo e a venda de produtos para outros países, e
com isso, acarretou a divisão de classes. E na arte teve impacto? Sim! Começam
aos poucos a surgir a seriação, onde artistas se mobilizam podendo ser visto
na “Art Nouveau” com o retorno aos princípios manuais, do artesanato, onde
a peça é única e com valor sentimental infindável, e logo a arte e o artesanato
realizam exposições conjuntas, mostrando a sua unicidade.

No final do século XIX, a arte começa a borbulhar, ou seja, os artistas


começam a olhar também para a natureza, e nela se inspirar, como ocorreu
com os impressionistas. E dele, se ramificou o pontilhismo, posteriormente
veio os pós-impressionistas que não aceitavam a arte dos impressionistas,
buscando pesquisar culturas, lugares diversos para que a arte inovasse.
Inovou, abrindo caminhos para outros campos profissionais, como a
publicidade.
IV
Portanto, a História da Arte deste livro se constitui até o final do século
XIX, onde o artista sai do princípio de ordens e se posiciona em relação às
temáticas, pesquisas nas cores e formas, criando uma identidade artística. Ela
vai se ampliando no estudo do próximo livro, porém, sua tarefa agora, será
de exclusiva dedicação à leitura deste livro de História da Arte e lembre-se,
a arte está por toda parte.

Prof. Clara Aniele Schley

V
UNI

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades
em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o


material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato
mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação
no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

UNI

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos


materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais
os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais
que possuem o código QR Code, que é um código
que permite que você acesse um conteúdo interativo
relacionado ao tema que você está estudando. Para
utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos
e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar
mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

VI
VII
VIII
Sumário
UNIDADE 1 - A ARTE NA ANTIGUIDADE ..................................................................................... 1

TÓPICO 1 - ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ-HISTÓRICA .... 3


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 A ARTE PALEOLÍTICA ....................................................................................................................... 3
3 A ARTE NEOLÍTICA ........................................................................................................................... 10
4 A ARTE PRIMITIVA ............................................................................................................................ 13
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 16
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 17

TÓPICO 2 - ARTE NO EGITO .............................................................................................................. 19


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 19
2 ESTRUTURA DA ARTE EGÍPCIA ................................................................................................... 20
2.1 MONARQUIA ANTIGA – DINASTIAS III A X (2778 – 2040 a.C.) .......................................... 20
2.2 MONARQUIA MÉDIA – DINASTIAS XI A XVII (2040 – 1580) ............................................... 24
2.3 MONARQUIA NOVA – DINASTIAS DE XVIII A XX (1580-1000) a.C. .................................. 26
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 31
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 32

TÓPICO 3 - ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS . ..................................... 35


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 35
2 ARTE DOS SUMÉRIOS ...................................................................................................................... 35
3 ARTE ASSÍRIA . .................................................................................................................................... 38
4 ARTE PERSA ......................................................................................................................................... 40
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 44
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 45

TÓPICO 4 - ARTE GREGA E ROMANA . .......................................................................................... 47


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 47
2 PERÍODOS ARTÍSTICOS DA ARTE GREGA ............................................................................... 48
2.1 PERÍODO ARCAICO ...................................................................................................................... 48
2.2 PERÍODO CLÁSSICO ..................................................................................................................... 52
2.3 PERÍODO HELENÍSTICO .............................................................................................................. 57
3 ARTE ROMANA . ................................................................................................................................. 59
4 MODA NA ARTE/ARTE NA MODA: ENTRE O POVO GREGO E ROMANO ..................... 61
LEITURA COMPLEMENTAR . ............................................................................................................. 64
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 69
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 70

UNIDADE 2 - NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO


VÍNCULO RELIGIOSO . ............................................................................................. 73

TÓPICO 1 - ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS


ROMÂNICO E GÓTICO . ............................................................................................... 75

IX
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 75
2 ARTE BIZANTINA .............................................................................................................................. 75
3 ESTILO ROMÂNICO .......................................................................................................................... 82
4 ESTILO GÓTICO ................................................................................................................................. 88
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 95
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 96

TÓPICO 2 - AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO


ATÉ O ROCOCÓ ............................................................................................................... 99
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 99
2 RENASCIMENTO, DO VERBO RENASCER – DO HOMEM, DA SOCIEDADE
E DA CULTURA ................................................................................................................................... 99
3 MANEIRISMO . .................................................................................................................................... 115
4 BARROCO ............................................................................................................................................. 117
5 ROCOCÓ . .............................................................................................................................................. 134
LEITURA COMPLEMENTAR . ............................................................................................................. 139
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 142
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 143

UNIDADE 3 - CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA ........................................................ 147

TÓPICO 1 - A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO ........... 149
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 149
2 NEOCLASSICISMO ............................................................................................................................ 150
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 161
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 162

TÓPICO 2 - ROMANTISMO ................................................................................................................ 163


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 163
2 ROMANTISMO: UMA RECUSA AO NEOCLASSICISMO E UM RETORNO
ÀS FONTES DA IDADE MÉDIA . .................................................................................................... 163
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 172
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 173

TÓPICO 3 - REALISMO . ....................................................................................................................... 175


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 175
2 REGISTRO SOCIAL NAS TELAS .................................................................................................... 176
3 ART NOUVEAU – RIQUEZAS DA INDUSTRIALIZAÇÃO ...................................................... 182
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 189
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 190

TÓPICO 4 - O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA . .................................... 191


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 191
2 A ARTE IMPRESSIONISTA . ............................................................................................................. 191
3 CARACTERÍSTICAS IMPRESSIONISTAS E SEUS ARTISTAS ............................................... 193
4 FOTOGRAFIA COMO INFLUÊNCIA ............................................................................................. 204
5 SEGUIDORES IMPRESSIONISTAS, OUTRO OLHAR .............................................................. 205
6 PONTILHISMO – EVOLUÇÃO DO IMPRESSIONISMO .......................................................... 208
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 211
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 212

X
TÓPICO 5 - PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS”
PROPORCIONOU ............................................................................................................ 213
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 213
2 A ARTE DOS ARTISTAS PÓS-IMPRESSIONISTAS ................................................................... 213
LEITURA COMPLEMENTAR . ............................................................................................................. 227
RESUMO DO TÓPICO 5 ....................................................................................................................... 230
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 231

REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 233

XI
XII
UNIDADE 1

A ARTE NA ANTIGUIDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Ao final desta unidade você será capaz de:

• compreender que a História da Arte na Antiguidade, por meio de suas ex-


pressões artísticas, serviu de exemplo para outros povos na organização
sociocultural.

• identificar as especificidades das artes de cada civilização, a começar pela


produção artística das culturas antigas, partindo da Pré-História até a arte
romana.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles, você
encontrará atividades que auxiliarão na compreensão dos conteúdos
apresentados.

TÓPICO 1 – ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ-


HISTÓRICA

TÓPICO 2 – ARTE NO EGITO

TÓPICO 3 – A ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS

TÓPICO 4 – ARTE GREGA E ROMANA

Assista ao vídeo
desta unidade.

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS:


ARTE PRÉ-HISTÓRICA

1 INTRODUÇÃO
Em que momento da história se pode compreender o início da arte? De
onde vêm a vontade e a necessidade de criar e se manifestar artisticamente? Esses
questionamentos permitem entender o contexto histórico artístico que tem início
na Pré-História. Durante muito tempo, arqueólogos, historiadores e pesquisadores
fizeram pesquisas aprofundadas sobre este período de grandes indagações.

Se analisarmos o que hoje torna nossa vida mais fácil, poderíamos citar
uma diversidade de criações e as tecnológicas seriam as mais citadas. Mas você
já parou para pensar sobre a importância das ferramentas que nos ajudam a
superar as limitações físicas? Estamos cercados de objetos que foram criados na
Pré-História e aprimorados com outros povos, por exemplo, as machadinhas e
martelos desenvolvidos com materiais que provinham da natureza, e hoje são
industrializados.

Destacamos também que na Pré-História tivemos os primeiros registros


pictóricos, que trazem elementos figurativos de animais e o estereótipo de figura
humana, além de esculturas, com destaque para o feminino. Mas para que possamos
entender a evolução nessa era, vamos estudá-la nas suas divisões em períodos:
Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada; Neolítico ou Idade da Pedra Polida, e Arte
Primitiva.

2 A ARTE PALEOLÍTICA
A Era Glacial durou dezenas de milênios e corresponde a um período de
tempo em que boa parte do planeta estava coberta de gelo, logo, os homens não
existiam. Com as eras glaciais vieram várias mudanças naturais, surgindo assim
o primeiro período, denominado de Paleolítico. Foi neste período que começou a
história humana e da arte. Nesse sentido, podemos dividir o Paleolítico em três
períodos, denominados de: Paleolítico Inferior, Paleolítico Médio e Paleolítico
Superior.

O primeiro período refere-se ao Paleolítico Inferior, conhecido também


como Idade da Pedra Lascada, que corresponde a 200.000 anos a.C. Mas por
que este nome? Devido à criação de instrumentos e armas que foram feitos de
pedra, mas que tiveram as pontas lascadas e bordas cortantes que auxiliavam nas

3
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

caçadas e na luta pela sobrevivência, sendo, assim, caracterizados como caçadores


e coletores, além de se protegerem dos nômades com estas armas confeccionadas
por eles.

Estes objetos foram encontrados na África, confeccionados pelo Homo


habilis, que utilizou ferramentas rudimentares por aproximadamente um milhão e
meio de anos. Depois deste período surgiu o Homo erectus, outra evolução humana,
quando o homem se pôs a andar de forma ereta, permitindo tomar espaço do Homo
habilis e, assim, ocupando outras regiões da Ásia e da Europa.

O segundo período é o Paleolítico Médio, que compreende entre 200.000


a 35.000 a.C., no qual surgiu o Homo neanderthalensis, o Homem de Neandertal.
Sua existência está ligada ao homem moderno. Essa espécie se adaptou ao
período frio da Europa, mais precisamente no Vale de Neander, na Alemanha,
onde os primeiros ossos desses homens foram encontrados. Possuíam ferramentas
como machadinhas, facas e lanças para uso alimentício, e como defesa contra
outros grupos usavam o corpo para as lutas. Desse período datam as primeiras
sepulturas, e isso aconteceu porque o homem, ao perceber que não veria mais
seu companheiro, cavou uma fossa onde o sepultou, colocando junto a seu corpo
nacos de carne, a fim de que ele pudesse se alimentar em algum momento da sua
viagem. Com o passar do tempo, o Homem de Neandertal desapareceu, e surgiu
outro tipo humano, semelhante ao homem moderno, e junto a ele vieram novas
condições ambientais, onde o homem pôde aproveitar melhor os lugares para sua
sobrevivência.

O terceiro período cabe ao Paleolítico Superior, que compreende de 35.000


a 8.000 a.C. Este período caracteriza-se pela fabricação de ferramentas rudimentares
e outros objetos, além de surgirem as primeiras organizações sociais, onde o grupo
se baseava na caça, na pesca e na coleta de folhas e frutos. Enquanto que na arte,
os Homo sapiens realizaram as primeiras manifestações artísticas nas paredes de
cavernas, como em Altamira (na Espanha). Além da Espanha, foram descobertas
ainda pinturas em Lascaux e Chauvet, na França.

Essas pinturas que foram encontradas consistiam em traços nas paredes


das cavernas. Esses traços foram chamados de rupestres, do latim rupes, que quer
dizer “rocha”. Para Proença (2011, p. 10), “[...] as primeiras expressões da arte eram
muito simples. Consistiam em traços feitos nas paredes das cavernas ou nas mãos
em negativo”, como mostra a imagem a seguir:

4
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

FIGURA 1 - MÃOS EM NEGATIVO, FEITAS HÁ 13 MIL E 9.500 ANOS, NA COVA DAS


MÃOS, NA PATAGÔNIA, ARGENTINA

FONTE: Disponível em: <http://lounge.obviousmag.org/psicologia_na_


contemporaneidade/2014/11/as-artes-e-a-evolucao-da-especie-humana.
html>. Acesso em: 3 jan. 2017.

De acordo com Proença (2011), as mãos impressas nas paredes das cavernas
foram produzidas com um pó colorido, por meio de trituração de rochas. Depois,
com um osso, como se fosse um canudo, o pó foi soprado sobre a mão encostada
na parede. Toda a área em volta da mão ficava colorida, assim foi criada uma
silhueta da mão como negativo de uma fotografia.

De acordo com estudiosos, referente à arte da pré-história, as impressões


em negativo realizadas nas paredes, no solo ou em placas de barro, bem como
pinturas de animais, surgiram como possíveis formas de comunicação.

Para a realização de tal feito, que vamos chamar de artístico, Proença (2011,
p. 10) contribui dizendo que nas pinturas encontradas nas paredes das cavernas
eram utilizados “[...] óxidos minerais, ossos carbonizados, carvão, vegetais, suco de
ervas e sangue de animais. Os elementos sólidos eram esmagados e dissolvidos na
gordura dos animais caçados”. Como pincéis, usavam os dedos ou instrumentos
feitos de penas e pelos. Depois de terem os materiais necessários, faziam as
representações figurativas das espécies de animais desenhados, como: “os cavalos
que são os mais numerosos, seguidos pelo bisão, pelo boi, pelo mamute, pelo
cervo, pela camurça, pelas figuras antropomórficas e pelos carnívoros; os peixes
são raros e as aves quase desconhecidas” (ZARATE, BRAGA, 2008, p. 12).

No entanto, as pinturas deste período podem ser compreendidas por


aspectos de naturalismo: o artista do Paleolítico representava seres do modo como
os via em uma determinada perspectiva, isto é, reproduzia a natureza tal qual sua
visão captava, como podemos visualizar na figura a seguir:

5
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 2 - PINTURA RUPESTRE DE BISÃO, CAVERNA DE ALTAMIRA – ESPANHA

FONTE: Museu arqueológico, Barcelona. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/


sociedade/historia/abertura-da-caverna-de-altamira-gera-discussao-sobre-
acesso-do-publico-monumentos-15778878>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Muitas vezes pensamos: como o homem pôde realizar pinturas rupestres


em locais de difícil acesso? Uma das possíveis explicações seria a de que o homem,
que era caçador, realizava pinturas como ritual de magia.

A esta magia coube a hipótese de que eles realizavam pinturas de animais


transpassados por flechas e lanças como modo de aprisioná-los na imagem, e isto
resultaria em maior poder do homem sobre a caça que seria realizada. Janson
(2001, p. 41) nos explica que:

[...] ao matar o animal na imagem, o homem não conseguirá


estabelecer uma distinção nítida entre as imagens e a realidade.
Por isso, as imagens mortas perdiam o seu poder uma vez
efetuado o rito da matança, e deixavam de servir para uma nova
feitiçaria.

6
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

FIGURA 3 - ARTE DO HOMEM DAS CAVERNAS: BISÃO FERIDO POR FLECHAS


(NIAUX, SUL DA FRANÇA)

FONTE: Disponível em: <http://www.coladaweb.com/historia/periodo-


paleolitico-ou-idade-da-pedra-lascada>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Os homens pré-históricos, ao realizarem as pinturas de animais,


proporcionavam uma determinada força como caçadores e, claro, adquirindo
confiança para realizar a caça e matar os animais com as armas primitivas
desenvolvidas por eles. No entanto, bisões, aparentemente veados e cavalos foram
pintados em forma de movimento. Neste caso coube possivelmente a possibilidade
de se usar traços fortes que expressavam a ideia de vitalidade. Como mostra a
figura acima, entender esta ação neste período histórico exige muita pesquisa
científica para desvelar as pinturas que chegaram até nós nos dias de hoje.

Nesse período ainda, esculpir e talhar eram atividades cotidianas do Homo


sapiens. A partir da estabilidade de moradia, o homem se apropriou de outros
materiais, como a pedra e o marfim, e realizou pequenas esculturas. Conforme
Proença (2011, p. 11), “nota-se o predomínio das figuras femininas e a ausência
de figuras masculinas”, como uma série de Vênus que se destacam. São figuras
femininas nuas, tendo algumas características mais exageradas que outras, como
os seios, as nádegas e o estômago, que costumam ser volumosos, enquanto os
pés, as mãos e características faciais são omitidos. A Vênus de Willendorf, vista na
imagem a seguir, é um exemplo.

7
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 4 - VÊNUS DE WILLENDORF, ESTATUETA DE 11 CM


ENCONTRADA NA ÁUSTRIA EM 1908. MUSEU DE
HISTÓRIA NATURAL, VIENA

FONTE: Proença (2011, p. 11)

Denota-se então que a escultura “Vênus de Willendorf” apresenta


desproporção e a falta de partes do corpo humano. No entanto, vale destacar que
o material-base da escultura é pedra, que já apresentava volume, e que lembra
partes da figura humana. Para Proença (2010, p. 9), a Vênus tem

[...] a cabeça como prolongamento do pescoço, a ausência de detalhes


do rosto, os seios volumosos, o ventre saltado e as grandes nádegas. Na
antiguidade, Vênus para os romanos – ou Afrodite para os gregos – era
uma bela deusa que despertava amor nos deuses e nos seres humanos
[...]. No século XIX, em escavações na França, foram descobertas
esculturas de figuras femininas pré-históricas. Os arqueólogos
chamaram de Vênus também a figura de Willendorf.

Nesse sentido (JANSON, 2001, p. 45), destaca que a Vênus de Willendorf


apresenta “[...] o umbigo, que marca o centro do desenho, é uma cavidade natural
da pedra [...] como as pinturas efetuadas nas paredes das cavernas, algumas foram
contornadas, pois as rochas proporcionavam o desenho natural e a imagem então
foi concebida”. Compreendemos então que essas esculturas de pedra, na sua
maioria, foram moldadas pelo próprio meio natural.

8
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

UNI

Uma mãe de 25 mil anos

A cabeça dela era indefinível, uma bola escamada, sem


narinas, sem olhos, boca ou orelhas, mas os seus seios
e o seu abdômen eram imensos, inflados, colossais.
Tratava-se de uma pequena estátua (11.1 cm de altura)
encontrada nas proximidades de Willendorf, na Áustria,
em 1908. Visivelmente era de uma mulher prestes a dar
à luz, uma estatueta de uma futura mãe. Chamaram-na
ironicamente de Vênus de Willendorf. Posteriormente, o
pequeno objeto, submetido às perícias do carbono 14,
um quase exato método científico que apura a idade
dos achados, revelou que aquela senhora esculpida com
as primitivas ferramentas do Paleolítico Superior datava A "Vênus" do Paleolítico, um ícone
de 24 ou 25.000 anos atrás! Não havia nela nem um só da maternidade
traço de beleza. Nenhuma exaltação à feminilidade ou à
graça da mulher. Aquele que a modelou, talvez um xamã,
um sacerdote-artista, viu-a apenas na sua função mais
natural, a mais primitiva da mulher: gerar filhos. Terem-
na cinzelado naquele estado pré-natal, sem nenhuma
preocupação estética, segundo os antropólogos, revelava
que a exclusiva preocupação daquela remotíssima
sociedade era com a reprodução da espécie. A estátua
era um pleito às forças mágicas ou divinas. Desenharam-
na redonda, em formas abundantes, porque esperavam
que as mulheres dessem filhos e mais filhos à tribo. A
mulher era a usina da vida, de cujo ventre saltavam os
guerreiros e os caçadores do clã.

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/


voltaire/artigos/matriarcado.htm>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Você sabia que existiram outras vênus além da Willendorf? A maior


parte delas é naturalista, ou seja, o meio natural moldou – apresentando formas
exageradas, que fazem parte dos pedaços naturais das pedras. Mas existiram
esculturas que foram desenvolvidas de forma simplificada, tendo então ação
humana. Acredita-se que muitas delas foram desenvolvidas para garantir
abundância de alguma forma, em vez de serem símbolos eróticos, pois, no contexto
onde foram encontradas, denotam uma importância doméstica, do cuidado, da
atenção para com o lugar e o outro.

Vejamos algumas das vênus que foram encontradas pelo mundo e, claro,
onde algumas apresentam um refinamento realizado pela ação do homem, que
varia de acordo com o país.

9
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 5 - VÊNUS NO PALEOLÍTICO SUPERIOR


Vênus de Lespugne Vênus de Laussel (França),
Vênus de Vestonice
(França), segurando um chifre de
(República Tcheca).
Museu de Paris. bisão.

Foi desenvolvida de Foi desenvolvida de


forma naturalista, como Foi esculpida em baixo forma naturalista.
a de Willendorf, tendo relevo, apresenta traços Apresentando um corpo
partes mais exageradas desalinhados. mais equilibrado do que
do que outras. a Vênus de Lespugne.
FONTE: Adaptado de Gowing (2008)

No período paleolítico superior, podemos observar que se anunciava uma


vida em grupos, onde de certa forma caminhavam para divisões de tarefas. Desse
modo, entende-se que os povos começaram a se fixar em determinado lugar e a
tirar seu sustento do meio ambiente, além de levar a sua arte, fazendo surgir, assim,
um novo homem e uma nova vida cultural, pertencente ao período Neolítico.

3 A ARTE NEOLÍTICA
O período Neolítico ou Idade da Pedra Polida compreende entre 6.000 até
4.000 a.C, onde o homem passou a construir as primeiras moradias, domesticar
os animais e realizar o plantio. Essas ações ocasionaram aumento da população,
surgindo as primeiras famílias, bem como a divisão de atividades, por exemplo,
o homem voltado à responsabilidade da caça e a mulher ocupada com o plantio.

Nesse período descobriu-se como produzir o fogo através do atrito das


pedras, permitindo ao homem trabalhar com metais. Também se descobriu que
o calor do fogo endurecia o barro, o que possibilitou o surgimento da cerâmica, e
por meio dela, o homem passou a fazer potes onde armazenava água e alimentos.

10
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

Foram criados ainda, novos valores culturais relacionados às suas crenças, pois o
homem começou a enterrar os mortos.

Nesse período, deixou-se para trás o estilo naturalista do Paleolítico,


surgindo o estilo geometrizante.

As pinturas das cerâmicas foram realizadas com o uso de linhas múltiplas


e estreitas. Com o tempo, as linhas deram lugar às pinturas em grandes áreas dos
blocos, com linhas curvas orgânicas e equilibradas. Posteriormente apareceram
círculos, quadrados e formas espirais, distribuídos de forma proporcional nos
vasilhames, muitas vezes formando rostos.

UNI

Pertencentes às linguagens visuais, as linhas curvas orgânicas eram realizadas de


forma livre, fluida, que não permitiram em nenhum momento que se convertessem em linhas
retas.

Vejamos, a seguir, vasos que tiveram a arte da geometrização como marco


artístico.

FIGURA 6 - JARRO ANTROPOMÓRFICO FIGURA 7 - VASOS BICÔNICOS DO


ENCONTRADO NO NORTE DA GRUPO DE TRÍLOPE, ENCONTRADOS
BULGÁRIA – 6.000 a.C NA UCRÂNIA

FONTE: Zarate; Braga (2008, p. 24) FONTE: Zarate; Braga (2008, p. 23

11
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

As pinturas apresentaram mudanças temáticas nas cavernas, onde


começaram a aparecer pinturas com temas de vida coletiva, por exemplo, a dança,
mostrando movimento nos braços e nas pernas das figuras humanas estereotipadas.
Segundo Proença (2011, p. 13), “[...] a preocupação com o movimento levou à
criação de figuras cada vez mais leves, ágeis, pequenas, com poucas cores. Com o
tempo, tais figuras reduziram-se a traços e linhas muito simples, mas capazes de
transmitir sentido a quem as via”.

FIGURA 8 - PINTURA RUPESTRE NAS CAVERNAS DE TASSILI N’AJJER, NA ARGÉLIA

FONTE: Proença (2011, p. 12)

Ainda conforme Proença (2011), pinturas com cenas de dança em grupo


possivelmente estavam ligadas ao trabalho de plantação e colheita.

Foi um período de mudanças em relação à moradia. Começaram a sair


de suas cavernas para fazer as primeiras esculturas monumentais. Surgiu uma
colossal arquitetura de pedras erguidas em duas formas básicas: o dólmen e o
cromeleque.

O dólmen que consiste em enormes pedras verticais cobertas por uma


laje, parecendo uma mesa gigante. Alguns destes dolmens eram túmulos ou casas
de mortos e cromeleques (monumento pré-histórico, composto de menires que
formam um ou vários círculos ou elipses), quando são várias pedras dispostas em
círculos.

O cromeleque, como mostra a figura a seguir, é o “Stonehenge”, que está


localizado na Inglaterra, com pedras medindo até quatro metros e pesando até
50 toneladas. Alguns estudiosos acreditam que essas construções estão ligadas ao
culto ao Sol.

12
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

FIGURA 9 – STONEHENGE, INGLATERRA

FONTE: Disponível em: <http://brasil.visitbritainblog.com/2015/09/alem-de-stonehenge/>.


Acesso em: 3 jan. 2017.

DICAS

Filme para complementação de estudos acadêmicos: A GUERRA DO FOGO


aborda o momento em que o homem descobre o fogo, e toda mudança suscetível após. Este
filme vem como forma de complementar seus estudos com uma fundamentação histórica.
Já OS CROODS traz de forma leve a vivência de um grupo familiar que desbrava o habitat
natural, onde descobriram formas de se relacionar, fazer arte e se adaptar a cada momento
vivido.

Podemos compreender que para haver os períodos da pré-história, o homem


precisou ser nômade, desbravando lugares e, aos poucos, centralizando-se em
um só, onde se firmou para cultivar, caçar e viver em grupos familiares. Nesses
períodos fez várias descobertas, seja de utensílios, ferramentas, que auxiliaram na
realização artística. Mas há outro povo que procurou viver mais isolado, descobrindo
e aprendendo entre eles, chamado de povo primitivo, que viveu na África.

4 A ARTE PRIMITIVA
Após o período paleolítico, surge outro modo de vida, que é a Arte Primitiva,
onde os homens viviam na África e não tinham a intenção de se expandirem
territorialmente. Com isso, os saberes artísticos e culturais provêm dos seus costumes
diários.

Há pouca informação da sua arte, mas muitas tribos desenvolveram uma


arte voltada à cestaria, talhas ou mesmo ao trabalho com metais, que de certa forma
serviam para protegê-los. Para Gombrich (1999, p. 44), “os artistas tribais podem
produzir obras tão corretas na representação e interpretação da natureza quanto o
mais hábil trabalho de um mestre ocidental”.

13
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Um dos trabalhos artísticos realizados por este povo se refere à criação


de máscaras, que auxiliavam nos rituais de dança, para atrair os espíritos. Essas
máscaras eram produzidas em diversos modelos, como animais, humanos e figuras
híbridas, tornando-as muitas vezes assustadoras, com o propósito de assustar e
afastar o inimigo. Nesse sentido, cada máscara apresentava uma peculiaridade para
a função que iria exercer.

FIGURA 10 - MÁSCARA EGBO EKOI – NIGÉRIA

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:M%C3%A1scara_Egbo_Ekoi_-_Nig%C3%A9rie-
Camar%C3%B5es.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Outro ponto a destacar se refere à construção. Os povos primitivos


expandiram suas casas, que eram de madeira, pois gostavam de representar cenas
lendárias. Eles também cultuavam os antepassados. Na Ilha de Páscoa encontram-
se alinhadas figuras gigantes talhadas em rocha vulcânica. De acordo com Janson
(2001, p. 58), “havia o costume de acumular as caveiras dos antepassados em
grandes depósitos, como cemitérios de espíritos [...]”.

14
TÓPICO 1 | ORIGENS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS: ARTE PRÉ- HISTÓRICA

FIGURA 11 - GUARDIÕES NA ILHA DE PÁSCOA (RAPA NUI). FEITOS DE PEDRA.


MEDEM ENTRE 6 A 10 METROS DE ALTURA

FONTE: Disponível em: <http://cazamitos.com/wp-content/uploads/2011/06/Los-


7-Moais-de-la-Isla-de-Pascua..jpg>. Acesso em: 3 jan. 2017.

No campo da expressão da arte, algumas tribos desenvolveram a técnica da


pintura em areia. Segundo Janson (2001, p. 70), “a técnica, que exige considerável
perícia, consiste em lançar pó de pedra ou de terra de várias cores sobre um
leito plano de areia”. Essa pintura em areia era um ritual de grande intensidade
emocional, tanto para o médico como para o paciente, que estava adoecido.
Portanto, os povos primitivos viviam isolados e a troca de saberes e fazeres estava
em torno da cultura deles. Restaram poucos registros documentados sobre eles.

15
RESUMO DO TÓPICO 1
• A Pré-História divide-se em três períodos: Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada,
Neolítico ou Idade da Pedra Polida e Arte Primitiva.

• A Arte Paleolítica divide-se em três linhas: Período Inferior, quando os homens


eram caçadores e coletores. No Paleolítico Médio começaram a construir seus
instrumentos para caça e também lutavam utilizando seu próprio corpo. Já no
Paleolítico Superior os homens começaram a fazer as primeiras impressões
nas paredes das cavernas, como também pequenas esculturas com formas
desproporcionais.

• Na Arte Neolítica, o homem começou a fazer potes de cerâmica, que serviam


para armazenar água e alimentos. Também fizeram pinturas com temáticas
grupais nas paredes e construções grandes que serviam como proteção.

• Na Arte Primitiva, o povo produzia a cestaria e máscaras. As máscaras tinham


intencionalidade de afastar seus inimigos, como também usavam para os
momentos de danças e espanto de espíritos. Cultuavam esculturas que foram
talhadas em rochas vulcânicas.

16
AUTOATIVIDADE

1 Várias Vênus foram criadas ao longo da história da arte. Vejamos algumas:

F I G U R A 1 - Vê n u s d e
Willendorf. Altura: 11 cm. FIGURA 2 - Vênus
Museu de História Natural, de Milo (séc. II a.C).
Viena. Altura: 2,02m. Museu
do Louvre, Paris.

Sabemos que essas versões foram feitas em momentos diferentes,


compreendendo o momento histórico e os preceitos estéticos que também se
diferenciam no contexto artístico. Desta forma, analise as seguintes sentenças:

I- A Vênus de Willendorf é uma pequena escultura pré-histórica. O seu corpo


apresenta características femininas.
II- A Vênus de Milo é uma estátua da Grécia Antiga pertencente ao acervo
do Museu do Louvre, situado em Paris, França. Segundo a história, esta
escultura foi descoberta no ano 2000 na ilha de Milo.
III- A Vênus de Willendorf pertence ao período Neolítico, quando o homem não
era mais nômade, firmando-se em algum lugar onde, na troca de aprenderes
entre os homens, pôde aprender técnicas para esculpir.
IV- A Vênus de Milo apresenta-se como uma escultura mais real que a Vênus
pré-histórica, pois foi realizada na Grécia séculos mais tarde, quando o
homem apresentava domínio sobre técnicas e materiais.

De acordo com as sentenças, assinale a alternativa correta:

( ) As alternativas I e IV estão corretas.


( ) As alternativas I, II e IV estão corretas.
( ) Apenas a alternativa II está correta.
( ) As alternativas I, II e III estão corretas.

17
2 A arte pré-histórica surge a partir da necessidade do ser humano de se
comunicar. Neste sentido, ela é manifestada por meio do desenho, da
gravura, da escultura e da pintura. Com relação à pintura da arte paleolítica
é CORRETO afirmar que:

( ) A pintura busca as formas reais da natureza.


( ) A pintura busca as perfeições em formas geométricas.
( ) A pintura busca retratar homens, animais e aves de forma estilizada.
( ) A pintura busca a idealização das formas humanas.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

18
UNIDADE 1
TÓPICO 2

ARTE NO EGITO

1 INTRODUÇÃO
Este tópico tem como propósito compreender a arte no Egito, considerando
aspectos artísticos que revelam a cultura desse povo. A essência cultural fica em
torno da arquitetura e seus mistérios internos; esculturas rígidas, pinturas murais
chapadas e que contam a realidade diária do povo.

Iniciamos a arte egípcia com as construções, onde os templos eram


preparados para receber o rei (intitulado como faraó) e seus respectivos acessórios,
pois acreditavam em uma vida após a morte.

A preservação da aparência do rei constituiria uma garantia a mais


da continuidade de sua existência por toda eternidade. "Assim,
mandavam talhar a cabeça do monarca em granito, duro e imperecível,
e a depositavam na tumba, longe dos olhares de todos, para lá operar
sua magia e assim ajudar sua alma a manter-se viva na imagem e por
intermédio dela" (GOMBRICH, 2013, p. 50).

Para realizar tal feito, havia a crença de manter vivo aquele que foi uma
pessoa importante para o povo egípcio. Aos poucos, pessoas nobres também
requisitaram túmulos para abrigar seus pertences junto ao corpo.

Você, acadêmico, conhece na cultura de algum povo esse ritual, ou mesmo


a ideia de eternizar junto ao corpo um objeto que esteve presente com a pessoa
durante a vida toda, e que levará junto a si para a eternidade? Reflita!

Para os egípcios, a expressão da pintura estava presente nas paredes dos


túmulos e as miniaturas de esculturas iam junto com o morto. Antes das miniaturas
serem enterradas junto com o corpo, havia o costume de enterrar os servos e
escravos, sacrificados para acompanhar o rei ao outro mundo. Mas essa barbárie
foi extinta, vindo a serem introduzidas as esculturas em miniatura, “[...] com a
ideia de fornecer à alma ajudantes para a outra vida – uma crença muito comum a
diversas culturas antigas” (GOMBRICH, 2013, p. 51).

Podemos compreender, então, que a pintura e a escultura não estavam


ligadas à beleza, mas sim à obrigação de preservar tudo por meio do registro da
arte. Desenhavam o que fosse significativo e que aparecesse de forma clara, sem
seguir regras, por isso você verá, mais adiante, a forma de representação do corpo,
os elementos que faziam parte, sendo simplificados com a intenção de contar por
meio da arte o cotidiano de um homem ou mesmo a história de um povo.

19
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Portanto, as expressões artísticas, sejam elas pintura, escultura ou


arquitetura, apresentavam leis rígidas. As pinturas dos homens tinham o tom
de pele mais escuro que o das mulheres; as esculturas, muitas delas, eram
representações de pessoas sentadas e com as mãos sobre os joelhos e a arquitetura
apresenta mistérios que até hoje muitos procuram desvendar. Para conhecer um
pouco mais sobre o legado artístico desse povo, convidamos você a desfrutar o
texto a seguir.

2 ESTRUTURA DA ARTE EGÍPCIA


A organização social do Egito parecia militar, centrada na riqueza que era
produzida por várias mãos, principalmente de escravos. Uma das riquezas coube
ao desenvolvimento da escrita, ao destaque na matemática, ciência e medicina. Este
povo que teve determinados destaques se desenvolveu nas margens do Rio Nilo,
com as primeiras civilizações divididas em dinastias. A primeira foi a Monarquia
Antiga, que teve como destaque a pintura, a escultura e a arquitetura.

2.1 MONARQUIA ANTIGA – DINASTIAS III A X (2778 – 2040


a.C.)
Esta monarquia evidencia a representação pictórica, onde a clareza da
pintura estava em torno da lei da frontalidade, um marco da pintura durante 2.500
anos.

Arquitetura

Um dos maiores destaques arquitetônicos coube às pirâmides, ainda um


mistério para os engenheiros, devido à sua técnica de construção.

As de maior relevância são as três pirâmides de Gizé: Quéops, Quéfren e


Miquerinos. Para Seidel e Schulz (2006), a Queóps, que é a maior de todas, tem
146,5 m de altura e 230m de lado, e seu maior destaque é a forma de construção,
que se resume a uma parede de blocos, sem nenhum material entre elas para firmar
melhor.

Já a pirâmide de Quéfren, construída décadas mais tarde, tem 143,5m de


altura e é a segunda maior pirâmide do Egito. Apresenta revestimento original de
calcário fino e polido, completando o conjunto das pirâmides com a de Miquerinos.
Esse conjunto de pirâmides servia, provavelmente, para abrigar os restos mortais
dos faraós.

20
TÓPICO 2 | ARTE NO EGITO

FIGURA 12 - PIRÂMIDES DE MIQUERINOS, QUÉFREN E QUÉOPS, EM GIZÉ

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d7/


Pir%C3%A2mides_Qu%C3%A9ops%2C_Qu%C3%A9fren_e_Miquerinos.jpg?uselang=pt-
br>. Acesso em: 3 jan. 2017.

UNI

Como foram construídas as pirâmides?

Para erguer uma delas, era necessário o trabalho de milhares de homens ao longo de mais ou
menos 25 anos. As estimativas variam, mas as pesquisas mais recentes falam de 10 mil a 40 mil
trabalhadores (bem menos que as mais antigas, que mencionavam até 100 mil). Ao construí-
las, era necessário investir praticamente todos os recursos do Estado. Blocos de calcário eram
extraídos com martelos e outras ferramentas e transportados de barco pelo rio Nilo. Depois,
eram arrastados até uma rampa em torno da primeira camada de pedras da pirâmide. Para isso,
usavam-se trenós e rolos feitos de troncos.
Hoje, investir em obras que tivessem comparativamente a mesma magnitude levaria qualquer
país à falência. A expressão "obras faraônicas" é utilizada para indicar coisas construídas com
dinheiro público por políticos, que gostam de se promover gastando muito mais do que podem.

FONTE: <http://educacao.uol.com.br/historia/egito-antigo-verdades-e-mentiras-sobre-a-
civilizacao-multimilenar.jhtm>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Junto a estas pirâmides se encontra a Esfinge, considerada a maior escultura


do antigo Egito. Esta obra foi esculpida a partir de uma rocha e apresenta feições
miscigenadas. Contudo, para Seidel e Schulz (2006), a cabeça da escultura provém
de uma unificação entre parte humana e parte animal, sendo o corpo de um leão e
a cabeça de um faraó, como podemos ver na imagem a seguir:

21
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 13 - ESFINGE – IV DINASTIA, C. 2530 a.C.

FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/9/93/Monumento_Esfinge.JPG?uselang=pt-br>. Acesso
em: 3 jan. 2017.

Escultura

Além da riqueza arquitetônica, houve outras expressões artísticas que se


destacaram, como estátuas-retratos provenientes de sepulcros e templos funerários.
A posição que era acoplada à escultura do Faraó, a arquitetura, como no caso, no
templo, enfatizava a relação e a sua importância que tinha com aquele lugar. Para
assim ter relações com o mundo, mesmo se o túmulo viesse a ser violado. Na
figura a seguir podemos observar esculturas no templo funerário.

FIGURA 14 - MIQUERINOS – MENKAURÉ E KHAMERERNEBTI II

FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/9/98/Menkaure_and_Chamerernebti_
II.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 3 jan. 2017.
22
TÓPICO 2 | ARTE NO EGITO

A figura acima demonstra o poder que uma escultura em pé ou sentada


pode exercer, através da rigidez e da simetria.

Para Janson (2001), as estatuárias deste período, mesmo por serem um


enigma, eram desenhadas sobre três faces (aspectos frontais e laterais) e esculpidas
por todos os lados do bloco de pedra. O resultado consistia em uma escultura
sólida e rígida.

Além das esculturas, produziram vasos de várias formas, dimensões e


materiais, como o alabastro, que é uma pedra branca parecida com o mármore.

Pintura

No que concerne à pintura, Seidel e Schulz (2006) destacam que o corpo


feminino era representado de amarelo claro ou rosa, enquanto o masculino era
coberto por branco para o fundo e depois colorido por castanho avermelhado. Mas,
antes da pintura, primeiramente eram traçadas com todo cuidado as inscrições
(desenhos) nas paredes, para em seguida selecionar as cores e fazer a pintura,
conforme podemos ver a seguir:

FIGURA 15 - CULTIVO DE TRIGO

FONTE: Disponível em: <http://reino-de-clio.blogspot.com.br/2015/04/egito-


economia.html>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Os saberes artísticos e culturais desta monarquia foram preservados,


mas aos poucos começou a haver alternâncias, pois tiveram início as lutas civis,
gerando o enfraquecimento do poder do faraó e resultando na abertura de outra
monarquia. Esses saberes tomaram novas formas, que veremos a seguir.

23
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

2.2 MONARQUIA MÉDIA – DINASTIAS XI A XVII (2040 – 1580)


O Egito passou por conturbadas questões políticas durante 700 anos,
quando várias foram as dinastias que surgiram, mas com curta duração. Nesse
sentido, envolveram aspectos sociais, religiosos e políticos, e na arte também
houve reflexos. O reflexo foi em não seguir regras com base em um realismo físico,
mas dar ênfase à cor, vivacidade e expressões mais melancólicas. Enquanto as
construções arquitetônicas voltaram-se aos templos em honra aos deuses, como
forma de reflexo das alterações religiosas e da situação política no momento.

Nesse período ocorreu o desenvolvimento dos teares e da cerâmica, bem


como novos instrumentos e estilos de música. Dentre as diversas linguagens
artísticas, a escultura teve maior destaque, como podemos ver na imagem a seguir,
representada pela escultura acoplada na arquitetura. Na figura a seguir denota-se
que as esculturas dos faraós que estavam na porta de entrada do templo, além de
serem enormes, tinham a intenção de mostrar o poder deles.

FIGURA 16 - O TEMPLO DE ABU-SIMBELL NA BAIXA NÚBIA - SÉCULO XII a.C.

FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/wp-content/


uploads/2010/03/templo-abu-simbel.jpg>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Escultura

A escultura desta monarquia, ao contrário da Monarquia Antiga, que


marcou o período com esculturas grandes à frente dos templos, ou menores que
estavam nos templos funerários, trouxeram como características, a definição
corporal, pois elas são:

24
TÓPICO 2 | ARTE NO EGITO

[...] menores, em madeira pintada (figuras de animais e humanos),


que apresentavam cenas do cotidiano (barcos de pescadores, artesãos,
tecelões e até pelotões de escravos). Algumas esculturas eram colocadas
próximas ao túmulo e serviam para acompanhar o faraó na vida após
a morte. Como foram feitas em madeira, poucas restaram (LISE, 1992,
p. 154).

FIGURA 17 - SOLDADOS EM MARCHA PARA A GUERRA. MUSEU


EGÍPCIO, CAIRO

FONTE: Zarate; Braga (2008, p. 105)

Essas peças, como mostra a figura acima, foram produzidas como acessórios
funerários, para beneficiar os reis – os objetos eram colocados junto ao túmulo,
como forma de mostrar o que em vida eles dominavam.

Pintura

A pintura apresenta temas como os afazeres do cotidiano dos egípcios,


além de figuras com posições e alturas diferentes, realizadas em pedra, onde
faziam sulcos contornando a imagem, e quanto mais profundos eram feitos esses
sulcos, mais a imagem se destacava. Podemos observar na figura a seguir, em uma
arte realizada em pedra.

25
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 18 - ACKENATON, NEFERTITE E SEUS FILHOS

FONTE: Disponível em: <http://amantesdehistoriadaarte.blogspot.com.


br/2011_06_01_archive.html>. Acesso em: 3 jan. 2017.

Devido a muitos conflitos políticos e sociais, este período entrou em


declínio, abrindo espaço para uma nova monarquia, como veremos a seguir.

2.3 MONARQUIA NOVA – DINASTIAS DE XVIII A XX (1580-


1000) a.C.

Durante essa monarquia, reis poderosos comandaram o Estado e


construíram grandes projetos arquitetônicos, a arte teve maior qualidade e era
muito rica em detalhes.

Arquitetura

Foram construídos vários templos, mas na atualidade um dos poucos


templos funerários intactos é o da rainha Hatshepsut. Para se construir estes
templos na Monarquia foram empregados adobes cozidos ao sol, material que
seria mais econômico, além de algumas construções terem desenhos em que a
burguesia ornamentava as paredes feitas de blocos, como no templo de Luxor,
conforme mostra a figura a seguir.

26
TÓPICO 2 | ARTE NO EGITO

FIGURA 19 - TEMPLO DE LUXOR – TEBAS

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b0/


Entrada_al_templo-luxor-2007.JPG?uselang=pt-br>. Acesso em: 4. Jan. 2017.

Escultura

Período onde a escultura começou a apresentar rigidez e revelar informações


sociais, étnicas e profissionais. Sendo um dos maiores túmulos o de Tutancâmon,
onde se encontram vasos, trono, carruagens e várias peças escultóricas. Dentre as
peças escultóricas encontram-se duas que representam o faraó em ouro, além da
máscara sobre seu rosto. Segundo Proença (2011, p. 23):

A múmia imperial estava protegida por três sarcófagos, um dentro do


outro: um de madeira dourada, outro também de madeira, mas com
incrustações preciosas e, finalmente, o terceiro, em ouro maciço com
aplicações de lápis-lazúli, coralinas e turquesas e que guardava o corpo
do faraó.

27
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 20 - SARCÓFAGO DE OURO DE TUTANCÂMON

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tutankhamon_


sarcofago.tif?uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Os sarcófagos apresentavam detalhes que exaltavam o poder do faraó,


como entalhes e pinturas. Além do faraó, a escultura da rainha Nefertite foi feita
em pedra, e devido ao material usado, proporciona maior rigidez à estrutura. Já na
pintura e nos traços, quebra o vigor rígido, dando mais suavidade e feminilidade
à escultura, como se pode ver na figura a seguir.

FIGURA 21 - ESCULTURA DA RAINHA NEFERTITI

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/9/94/Nefertiti_altes_Museum2.jpg?uselang=pt-br>.
Acesso em: 4 jan. 2017.

28
TÓPICO 2 | ARTE NO EGITO

Para Janson (2001), neste período, a beleza esculpida mostra que houve
alternâncias sociais, políticas e religiosas, e a liberdade artística pôde ser refletida
na beleza com que eram realizadas as esculturas.

Pintura

A escultura foi marcada pela elegância e leveza, enquanto a pintura,


pela “lei da frontalidade”, na figura humana. Assim, o tronco era representado
sempre de frente, enquanto a cabeça, pernas e pés eram retratados de perfil, e
pintados dessa forma em seus afazeres diários, em obras que decoravam murais
ou túmulos. Ao ver uma figura representada dessa forma, Proença (2010) ressalta
que o espectador pode associá-la a uma pintura egípcia.

Além da pintura, os egípcios começaram a empregar vasos, objetos


e hieróglifos como elementos estéticos. Muitos papiros com hieróglifos eram
colocados junto ao morto para confortá-lo em sua passagem, como podemos ver
na figura a seguir.

FIGURA 22 - UM PAPIRO MOSTRANDO O "DIA SEGUINTE APÓS A MORTE", DE ACORDO


COM CRENÇAS RELIGIOSAS EGÍPCIAS

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f5/


Egyptbookdead3.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

29
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

UNI

O papiro (papel fino, feito de uma planta da família das ciperáceas cujo nome
científico é Cyperuspapyrus) foi instituído em rolo. Era ilustrado com cenas muito vivas, que
eram acompanhadas de textos. Podemos destacar o Livro dos mortos, que era posto no
sarcófago com os cadáveres, e que podia ajudar na sua viagem eterna.

Ainda hoje existem muitos mistérios que rondam a história do Egito,


principalmente com relação à organização e à estrutura empregadas na construção
de pirâmides e seus labirintos. Graças a pesquisas semióticas sobre as pinturas
e objetos encontrados, por meio da utilização de instrumentos tecnológicos foi
possível aprofundar os estudos, contribuindo com um maior conhecimento sobre
esta civilização.

30
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você viu que:

• O Egito dividiu-se em monarquias: Antiga, Média e Nova.

• Na Monarquia Antiga destacam-se as pirâmides do Egito. As esculturas eram


acopladas principalmente nas portas dos templos e apresentavam uma pintura
com cenas do seu cotidiano.

• Na Monarquia Média, diferentemente da Monarquia Antiga, as esculturas


tiveram maior destaque, pois acompanhavam o faraó após sua morte. Neste
período surgiu a pintura sobre o sarcófago.

• Na Monarquia Nova, os sarcófagos eram esculturas, que apresentavam uma


verdadeira obra de arte, pois era usado ouro para mostrar o poder que o faraó
exercia sobre seu povo. As pinturas ficaram mais ricas, sendo usados em outros
elementos como vasos, objetos e também com hieróglifos.

31
AUTOATIVIDADE

1 Complete as lacunas do texto a seguir que descreve a arte egípcia:

No Egito antigo, a arte era representada por meio da ____________________, da


escultura e da arquitetura, ligadas à temática ___________________________.

Assinale a sequência que corresponde ao texto acima:


( ) pintura; religiosa.
( ) decoração; política.
( ) decoração; social.
( ) pintura; tecnológica.

2 A pirâmide no Egito precisava ser grandiosa, pois quanto maior ela era, maior
seu poder e glória. Por este motivo, os faraós se preocupavam com a grandeza destas
construções. De acordo com as construções de pirâmides no Egito, assinale V para
verdadeiro e F para falso:

( ) A pirâmide tinha a função de abrigar e proteger a múmia do faraó e toda


a sua fortuna e pertences em joias, objetos pessoais e materiais, da ação dos
saqueadores de túmulos.
( ) As pirâmides eram construídas rapidamente, sem muito planejamento, em
lugares de fácil acesso.
( ) As pirâmides foram construídas de acordo com fórmulas que eram fruto
de longos estudos e pesquisas de diferentes áreas do conhecimento, como:
matemática, geometria e demais técnicas ainda desconhecidas.
( ) As pirâmides eram construções que exerciam uma função de proteção e de
realizações de momentos festivos do povo egípcio.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:


a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) F – V – F – V.
c) ( ) V – F – F – V.
d) ( ) F – V – V – F.

3 As pirâmides são monumentos arquitetônicos conhecidos mundialmente por


sua beleza e grandiosidade. No entanto, a sua construção teve um significado
aos egípcios, pois tinham a função de:

( ) Enterrar peças sagradas junto ao corpo, seja do escravo ou do faraó, pois em


se tratando de cultura do povo egípcio, cabe a todas as classes sociais.
( ) Abrigar e proteger o corpo do faraó mumificado e seus pertences dos
saqueadores de túmulos.

32
( ) Ser centros de referência onde aconteciam os rituais de mumificação para
elevar o espírito do corpo.
( ) Proteger e conservar o corpo mumificado, principalmente do faraó, para
que fique intacto para toda a eternidade.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 3

33
34
UNIDADE 1
TÓPICO 3

ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E


PERSAS

1 INTRODUÇÃO
Nesse tópico será analisada a arte no Oriente, observando as especificidades
artísticas criadas pelos povos sumérios, assírios e pelos persas. Abordaremos o
contexto artístico desenvolvido na região da Mesopotâmia, que está rodeada pelos
rios Tigre e Eufrates e povoada por diferentes povos. Nessa geografia vamos olhar
o legado da arte dos sumérios, assírios e persas. Segundo Baumgart (1999), em
meio a esta diversidade, as formas artísticas conservam certa hegemonia devido à
herança dos sumérios, que foram os primeiros a habitar a região e que, através de
suas descobertas, deixaram um legado aos que vieram depois.

2 ARTE DOS SUMÉRIOS


O povo sumério se desenvolveu ao sul da Mesopotâmia, no atual Iraque.
Seu registro está centrado nas construções arquitetônicas, sendo que as imagens
concretizadas em estátuas presentes nas edificações atuavam de forma significativa
na produção artística desse povo. Representavam seus deuses e, às vezes, faziam
uma fusão com figuras de animais, destacando os olhos.

Um dos grandes legados dos sumérios foi a escrita cuneiforme, representada


com símbolos específicos. Conseguiam transmitir suas ideias e representavam
objetos variados, sempre ligados aos fenômenos de seu cotidiano, contemplando
assuntos administrativos, políticos e econômicos. Foi por meio dos registros
realizados em placas de argila que foi possível conhecer um pouco da vida dos
sumérios. Janson (2001, p. 103) esclarece que “o que sabemos dessa civilização
provém, na maior parte, de restos trazidos à luz por acaso das escavações, incluindo
inúmeros textos gravados em placas de argila”.

UNI

A escrita cuneiforme é um sistema que provavelmente teve origem na Suméria.


Consta de 600 caracteres, cada um dos quais representa palavras ou sílabas escritas em tábuas
de argila ou de pedra.

35
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Espalhados em cidades-estados, a arquitetura suméria foi desenvolvida


em prol da religião, realizando a construção de grandes templos dedicados a seus
deuses e, também como espaço de armazenamento dos grãos necessários à sua
alimentação. Nestas construções destacam-se os zigurates, que são torres em degraus
que completavam as construções gigantescas, assemelhando-se à construção das
pirâmides egípcias. Pode-se afirmar que a arte dos sumérios era fundamentada em
suas crenças religiosas, por isso foram construídos grandes templos destinados ao
louvor de seus deuses.

UNI

Zigurates eram grandes escadarias que completavam as construções em formato


de pirâmides e serviam como locais de armazenagem de produtos agrícolas e também como
templos religiosos. Um famoso zigurate é a Torre de Babel, referenciada na Bíblia Sagrada.

FIGURA 23 - ZIGURATE

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/99/Choqa_


Zanbil_4.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Infelizmente, o tempo não poupou as construções dos sumérios.


Construídas com tijolos, foram destruídas, e o que restou foram ruínas ou parte
das construções. Na organização de suas cidades, a força da religião é representada
pela organização de suas construções, de modo que as casas eram construídas
ao redor dos templos gigantescos. Para Janson (2001, p. 103), o povo sumério
apresenta uma explicação para as construções, baseada em uma crença na qual

36
TÓPICO 3 | A ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS

“nas planícies da Suméria, o homem sentiu que só estes montes erguidos por suas
mãos eram residência própria para as divindades”.

Na escultura dos sumérios, os materiais utilizados eram a pedra e a madeira,


associando alguns elementos essenciais coloridos, conferindo um resultado
surpreendente. Além disso, agregavam materiais como o ouro, o cobre e a prata.

Segundo Janson (2001, p. 104), “os olhos e as sobrancelhas eram inicialmente


de materiais coloridos incrustados, e a cabeça coberta por uma cabeleira de ouro e
cobre. O resto da figura, que devia ter quase o tamanho natural, era, provavelmente,
de madeira”.

Os olhos eram considerados a parte mais importante da representação


escultórica, chamados de “janelas da alma”. O restante da escultura, inclusive os
traços do rosto, não tinha grande semelhança, apenas representação sucinta, onde
formas geométricas foram utilizadas, como cone e cilindro na representação do
corpo, como podemos ver na figura a seguir.

FIGURA 24 - CABEÇA FEMININA, URUK. MÁRMORE, ALT. 0,20M.


3500-3000 A.C. MUSEU DO IRAQUE, BAGDÁ

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/


wikipedia/commons/6/6e/UrukHead.jpg?uselang=pt-
br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Em resumo, as esculturas dos sumérios eram rígidas, como se estivessem


em pose de oração e pouco realistas. Além da sua marca, que são os olhos, havia
diferença nos trajes. As figuras masculinas vestiam saias com franjas, enquanto
as mulheres tinham vestimenta ao longo de todo o corpo, como mostra a figura a
seguir:

37
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 25 - FIGURAS MASCULINA E FEMININA DO TEMPLO DE ABU

FONTE: Disponível em: <https://piramidal.net/category/


tecnologia-antiga/page/2/>. Acesso em: 4 jan. 2017.

O legado dos sumérios revelou ainda descobertas arqueológicas das placas


de argila gravadas por meio da escrita cuneiforme, onde seu cotidiano, suas crenças
e realizações foram registrados.

A arquitetura grandiosa era destinada aos deuses e as esculturas os


representavam. Essas manifestações artísticas influenciaram também os demais
povos, que reconheceram na arte suméria importante fonte de inspiração, como
foi o caso dos povos assírios.

3 ARTE ASSÍRIA
Em comum com os sumérios, o povo assírio também tinha como pano de
fundo de sua sobrevivência, e de sua arte, a região geográfica da Mesopotâmia,
bem como os rios Tigre e Eufrates. No entanto, os assírios são conhecidos pela sua
ativa participação em guerras, voltados à conquista de territórios de outros povos.

Os deuses eram fonte de inspiração da arte assíria, com a inovação de


esculpir em pequenos suportes, resultando em miniaturas. A representação de
animais é bastante significativa, e o marfim foi um elemento bastante utilizado.
Deuses e animais foram os temas esculpidos por esse povo da guerra, configurando
assim a representação de temas religiosos de forma severa compartilhando a
representação realista.

Para Janson (2001, p. 114), na arquitetura:

38
TÓPICO 3 | A ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS

Os assírios apresentaram clara influência dos sumérios. Diz-se que os


assírios foram em relação aos sumérios o mesmo que os romanos em
relação aos gregos. A civilização assíria inspirou-se nas realizações
do sul, mas reinterpretando-as e dando-lhes caráter próprio. Assim,
construíram templos e zigurates inspirados em modelos sumerianos e
os palácios atingiram dimensões e magnificência sem precedentes.

Essas construções em reverência aos seus reis e suas batalhas estão


exemplificadas em gigantescos painéis que, em baixo relevo, representavam cenas
de caça e cenas militares.

UNI

Você sabe o que significa baixo e alto relevo? No alto relevo as figuras sobressaem
sobre o plano de fundo, e são nítidas aos nossos olhos, pois o volume é significativo e faz com
que a figura se destaque em relação à base. Já no baixo relevo, as figuras se sobressaem muito
pouco sobre sua base, pois o pouco volume se torna quase imperceptível aos olhos, causando
a impressão de um desenho, apenas.

Esses painéis assumiram a função de narração das atividades desenvolvidas


pelos assírios, atuando também de forma didática, como podemos ver a seguir:

FIGURAS 26 - ARTE GUERREIRA DOS ASSÍRIOS FIGURA 27 - ARTE GUERREIRA DOS ASSÍRIOS

FONTE: Disponível em: <http://historiadomundo.uol.com.br/assiria/origens-assirios.htm>. Acesso


em: 4 jan. 2017.

Os animais mitológicos e as aventuras da caça eram temas eleitos nos baixos


relevos do povo assírio. Janson (2001, p. 116) descreve que [...] “de magnífica força
e coragem, o animal ferido parece encarnar toda a emoção dramática que falta às
descrições picturais da guerra”. Podemos observar uma figura de baixo relevo, a
seguir:

39
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 28 - RELEVO DE UM LEÃO SENDO FERIDO

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/32/


Assyrian_royal_lion_hunt.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

O legado dos assírios, através de sua arte, confere importante registro de


um povo que teve a sobrevivência e a conquista de territórios como fonte principal
de sua atuação. A influência da arte suméria é visível, no entanto, os assírios
conferem sua identidade na apropriação das formas de representação artística
como a escultura, e principalmente a arquitetura. Sua herança foi assumida pelo
Império dos Persas.

4 ARTE PERSA
A arte persa foi percebida na pintura e na escultura, mas foi na arquitetura
que teve maior destaque, com obras mais significativas.

Na escultura, a representação de animais e homens em seres mitológicos,


ordenava a crença em sua força guerreira de conquistar territórios. Utilizavam
argila e mármore para esculpir suas figuras.

40
TÓPICO 3 | A ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS

FIGURA 29 - ARTE PERSA

FONTE: Disponível em: <http://www.revistazunai.com/traducoes/


poesia_persa_introducao.htm>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Foi na civilização persa que surgiram as famosas tapeçarias, que cobriram


as paredes dos palácios, tendo como tema animais, vegetais e cenas de caça. Foi
neste momento que também surgiu o uso da seda. Atualmente, a tapeçaria é
valorizada como representativa da arte persa.

Os tapetes persas eram fabricados com lã de carneiro, cabras e camelos, que


eram os animais que faziam parte da vida deles. Eles são um legado importante,
além de decorarem paredes em ocasiões especiais. Vejamos um tapete persa, na
figura a seguir:

41
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 30 - TAPETES QUE MOSTRAM A REPRODUÇÃO DE FIGURAS HUMANAS.


LEGADO DA ARTE PERSA

FONTE: Disponível em: <http://www.lusotufo.pt/index.php?id=64>. Acesso em:


4 jan. 2017.

Na tentativa de conhecer as particularidades da arte persa, podemos citar


as características peculiares que são valorizadas até os dias atuais. Para Janson
(2001):

• A figura humana vai ser representada de forma significativa na tapeçaria e na


pintura.
• Abundância na pintura de afrescos e uso dos manuscritos com miniatura.
• O retrato será importante forma de representação da figura humana.
• A arte têxtil tem importância até hoje.
• O metal é um elemento importante nas artes decorativas.

Como já foi dito anteriormente, de todas as manifestações artísticas do povo


persa, a arquitetura foi a de maior representatividade, pois sofreu modificações
representadas em pequenas construções de tijolos e argamassa, enquanto os
palácios vão conservar a grandiosidade da estrutura monumental, que foi uma
criação dos reis para mostrar o seu poder de forma material.

A escultura e a pintura complementam a arquitetura persa, como podemos


observar na escultura em baixo relevo na figura a seguir:

42
TÓPICO 3 | A ARTE DO ORIENTE: SUMÉRIOS, ASSÍRIOS E PERSAS

FIGURA 31 - CIDADE DE PERSÉPOLIS

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/ce/


Persepolis_24.11.2009_11-45-28.jpg?Uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan.
2017.

A civilização da Mesopotâmia tem a arquitetura como legado maior deste


povo. Apesar da ação do tempo sobre suas construções, ainda assim os registros
revelam parte da sua produção artística, uma arte simbólica de registros de crenças
e valores, demonstrando a grandeza desta civilização.

43
RESUMO DO TÓPICO 3
• A arte do Oriente foi representada pelos sumérios, assírios e persas. Em suas
particularidades, cada civilização nos deixou sua marca por meio da sua arte.

• Os sumérios se destacaram na arquitetura e as esculturas eram inspiradas em


seus deuses. Outro legado importante dos sumérios foi a escrita cuneiforme.

• Os assírios eram uma civilização guerreira, conquistando vasto território. Suas


esculturas eram em miniaturas representando seus deuses, utilizando também
esculturas em baixo relevo. Na arquitetura dos assírios houve a presença dos
zigurates.

• A civilização persa foi marcada também pelas requintadas tapeçarias. Na


arquitetura e na escultura ocorreu o uso de argila e mármore, sendo a arquitetura
a manifestação de maior representação para este povo.

44
AUTOATIVIDADE

1 A Arte do Oriente, por meio dos povos sumérios, assírios e persas,


representou conhecimento para as civilizações atuais. Suas manifestações
artísticas foram consagradas na pintura, na escultura e na arquitetura, e por
meio da arte e de seus registros é possível perceber como estes povos viviam.
Neste sentido, leia as afirmativas a seguir:

I – Na arte suméria o aspecto dominante da arquitetura das grandes cidades


era o templo-torre, identificado como zigurate.
II – Na arte persa, as sedas e tapeçarias foram idealizadas como cultura popular.
III – Os assírios foram um povo guerreiro e na arte se dedicaram a glorificar
seus reis e exércitos.
IV – O povo sumério criou a escrita mais primitiva da humanidade, conhecida
como cuneiforme.

De acordo com as alternativas, é CORRETO afirmar que:


( ) Apenas a alternativa I está correta.
( ) As alternativas I, III e IV estão corretas.
( ) As alternativas II e III estão corretas.
( ) Apenas a alternativa II está correta.

2 Na história da arte persa, as manifestações artísticas de maior


representatividade se deram por meio da:

( ) Pintura.
( ) Escultura.
( ) Arquitetura.
( ) Gravura.

45
46
UNIDADE 1
TÓPICO 4

ARTE GREGA E ROMANA

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico será estudado a arte grega, que teve um delineamento para a
escultura esbelta e a arquitetura com marco das colunas, enquanto a arte romana
buscou focar a arquitetura com fim utilitário.

A marca na arte grega coube às esculturas, que foram evoluindo do período


arcaico até o helenístico. Os gregos, ao iniciarem a execução das esculturas,
“[...] estudaram e copiaram os modelos do Egito – com os quais aprenderam a
representar a figura de um homem em pé, marcar as divisões do corpo e músculos
que lhe dão unidade” (GOMBRICH, 2013, p. 65).

Compreende-se que os gregos se espelharam na arte dos egípcios, mas não


se propuseram a uma cópia, e sim, a descobrir como representar corpos de outras
formas. De acordo com a passagem dos períodos, você, acadêmico, verá a evolução
das esculturas, em que a forma de representar se torna cada vez mais real ao corpo
humano, trazendo elementos míticos no que se refere à face.

Já a pintura grega não teve tanto destaque, apenas sua representação


estava marcada nas cerâmicas. Esses recipientes eram conhecidos por vasos, sendo
registradas as cenas das atividades diárias, ideia próxima ao povo egípcio. No
entanto, a pintura teve uma evolução na técnica, tentando trazer questões voltadas
à perspectiva, por exemplo, um pé na frente do outro, o que se desconhece na arte
do Egito. Mas a perspectiva de fato vem a ser aprofundada apenas na Idade Média,
conforme estudo que será realizado na próxima unidade.

Outra grande expressão da arte grega coube à arquitetura. Ao folhear


uma revista, ou ver na TV uma construção com base triangular e colunas com
capitéis diferentes, logo remetemos o pensar para a Grécia. Correto! Eles foram
os idealizadores dessa arte, que foi levada para Roma juntamente com alguns
arquitetos gregos. O desafio seria não trazer requinte arquitetônico, mas utilidade,
porém muitas das construções trazem elementos gregos, como colunas e os arcos,
pouco usados pelos gregos para a arte romana. Uma das mais famosas construções
romanas é o Coliseu, que foi utilitária e hoje esse patrimônio desperta a admiração
de quem o visita.

Convidamos você, acadêmico, a estudar esse legado artístico e cultural de


um povo intelectual que respirava arte, filosofia e cultura. Bons estudos!

47
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

2 PERÍODOS ARTÍSTICOS DA ARTE GREGA


A produção cultural grega foi admirada por eles, pois procuravam chegar
ao ideal de beleza nos feitos artísticos (JANSON, 2001). Para isso a sensibilidade era
essencial para construir uma arte mais expressiva com valores como o equilíbrio, a
harmonia, ordem e medida. Nesse sentido, a arte grega antiga se destacou em três
períodos, sendo eles:

• Arcaico: do século VII à primeira metade do século V a.C.


• Clássico: do século V até metade do século IV a.C.
• Helenístico: do final do século IV até a metade do século I a.C.

2.1 PERÍODO ARCAICO


Durante muitos séculos, a arte expressava-se por meio da cerâmica,
apresentando alternância na decoração. Por vezes, os vasos de cerâmica eram
feitos com linhas geométricas retilíneas, contínuas ou quebradas, frisando-se que
era o estilo mais antigo nas artes plásticas.

Mais tarde vieram os vasos de cerâmica com figuras bastante estilizadas, as


quais apresentavam figuras negras e vermelhas. Inicialmente foi utilizada a técnica
da figura negra sobre fundo vermelho. O artista riscava os detalhes com agulha
ou algo que apresentava uma ponta fina. O maior pintor de figuras negras foi
Exéquias, mais conhecido por suas cenas de batalha.

FIGURA 32 - FIGURA NEGRA SOBRE FUNDO VERMELHO

FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/__


d2B9sUpUVU/SS2Ri-RLNnI/AAAAAAAAB_8/M4e14LzhjPw/
s1600-h/Figura14.jpg>. Acesso em: 4 jan. 2017.

48
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

Mais tarde, o artista Eutímedes inverteu o esquema de cores, deixando


as figuras na cor natural e pintando o fundo de negro, dando início às figuras
vermelhas, como destacamos na imagem a seguir:

FIGURA 33 - CERÂMICA GREGA DE FIGURAS VERMELHAS, ACERVO


DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA DA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/5/52/Cer%C3%A2mica_grega_de_figuras_
vermelhas%2C_MAE-USP.JPG?uselang=pt-br>. Acesso em:
4 jan. 2017.

Segundo Proença (2010), as pinturas nos vasos representavam cenas da


mitologia grega e os afazeres do cotidiano. Já a escultura desenvolveu-se de forma
lenta, mas evoluída, trazendo o corpo em forma de movimento, com uma perna
mais adiantada que a outra, olhos grandes, ombros largos, mas a face sem realçar
expressão.

Nesse sentido, as esculturas masculinas e femininas tinham diferença. A


escultura masculina foi denominada de Kouroi – homem jovem. Para Proença
(2010, p. 25):

O escultor grego apreciava a simetria natural do corpo humano. Para


deixar clara essa simetria, o artista esculpia figuras masculinas nuas,
eretas, em rigorosa posição frontal e com o peso do corpo igualmente
distribuído sobre as duas pernas.

49
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 34 - KOUROI

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/1/1a/Kleobis_and_Biton_statue.jpg?uselang=pt-br>.
Acesso em: 4 jan. 2017.

As esculturas femininas foram denominadas de Korai, que quer dizer mulher


jovem. Para Proença (2011), as esculturas dessas mulheres eram produzidas em
mármore e o tamanho acima do normal com vestes, como mostra a figura a seguir.

50
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

FIGURA 35 - KORAI

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/1/13/Korai_01.JPG?uselang=pt-br>. Acesso em:
4 jan. 2017.

Os gregos, quando construíram os templos, produziram esculturas que


faziam parte deles, como podemos relembrar do período arcaico no Egito, onde as
esculturas dos faraós estavam acopladas aos templos.

Entretanto, os gregos esculpiram grandes figuras femininas, que no período


clássico vieram a substituir por outras colunas, as jônicas. Vejamos então, na figura
a seguir, colunas femininas que serviram de suporte para o teto triangular, que
também é uma característica da arquitetura grega.

FIGURA 36 - COLUNAS FEMININAS ERAM ESCULTURAS QUE SEGURAVAM


O TETO

FONTE: Disponível em: <http://www.coladaweb.com/artes/arte-na-grecia>.


Acesso em: 4 jan. 2017.

51
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Segundo Proença (2011), a arte grega teve evolução principalmente na


arquitetura, substituindo as esculturas na base triangular (teto) por colunas
dóricas, jônicas e coríntias, que vieram com propósitos sociais, assunto que será
estudado no período seguinte.

2.2 PERÍODO CLÁSSICO


É chamado de momento clássico, pois alcançou a clareza absoluta da visão,
em que a perfeição artística teve o seu apogeu. A pintura teve marco nos vasos,
que serviam como oferendas funerárias. Nas esculturas, os corpos pareciam ter
movimento, enquanto a arquitetura teve caráter social com o surgimento do teatro,
e destaque para as colunas com três capitéis (o dórico representa simplicidade
nas formas, o jônico com suas curvas representa elegância, enquanto o coríntio
representa abundância, com as suas folhas cheias de detalhes), que podemos ver
na figura a seguir:

FIGURA 37 - CAPITÉIS DAS COLUNAS GREGAS

FONTE: Disponível em: <http://www.estilosarquitetonicos.com.br/arquitetura-classica.php>.


Acesso em: 4 jan. 2017.

52
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

Na arquitetura grega, os templos com as colunas, sua altura e o espaço entre


elas, destacaram-se esteticamente, seguindo uma planta retangular e horizontal,
onde as colunas suportavam a estrutura.

Como lembra Proença (2011, p. 34):

A ordem dórica era simples e maciça. Os fustes das colunas eram


grossos e afirmavam-se diretamente no estilóbata. Os capitéis, que
ficavam no alto dos fustes, eram muito simples. A arquitrave era lisa
e sobre ela ficava o friso que era dividido em tríglifos - retângulos com
sulcos verticais – e métopas – retângulos que podiam ser lisos, pintados
ou esculpidos em relevo.

A ordem dórica pode ser vista no Partenon, templo que foi uma homenagem à
deusa Atena. O templo consistia essencialmente em arquitetura exterior. Conforme
Robertson (1982), esta construção tinha um friso de 159 metros de comprimento,
esculturas nos dois frontões e nas 92 métopas, como na figura a seguir.

FIGURA 38 - TEMPLO DE PARTENON

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/ba/


Parthenon.jpg>. Acesso em: 4 jan. 2017.

A ordem jônica parecia dar mais leveza e era mais ornamentada que a
dórica, pois seu capitel curvado proporcionava mais delicadeza e feminilidade.
Nesse sentido, para Proença (2011, p. 34): “Os capitéis eram ornamentados e a
arquitrave, dividida em três faixas horizontais. O friso também era dividido em
partes ou então decorado por uma faixa esculpida em relevo. A cornija era mais
ornamentada e podia apresentar trabalhos de escultura”.

Exemplo de ordem jônica é o Templo de Atena Nike, construído em


mármore e enobrecido com colunas jônicas, como mostra a imagem a seguir:

53
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 39 - TEMPLO DE ATENA NIKE

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/


f3/ATENAS_-_TEMPLO_DE_ATHENA_NIKE_-_ACR%C3%93POLE.
JPG?Uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Depois do capitel jônico, surgiu a coluna com capitel coríntio, que acaba
sendo uma derivação do jônico, no entanto, mais adornado e elevado de proporções.
Parece um sino invertido, coberto de folhas de acanto, como podemos visualizar
na figura a seguir:

FIGURA 40 - COLUNAS CORÍNTIAS DO TEMPLO DE ZEUS

FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-aKWr06igk5M/


UeneeNieqwI/AAAAAAAABtE/mokneGOq_FU/s1600/800px-Tempio_
di_Zeus_Olimpo_apr2005_03.jpg>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Além dos destaques arquitetônicos das colunas, outra construção prevaleceu


nesse período, que foi o “teatro”, sendo esse um espaço aberto que desfrutava da
inclinação natural do terreno.

54
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

O teatro divide-se em três partes:

• Orquestra – local para danças, coro e representação de atores.


• Arquibancada – local para o público.
• Palco – lugar onde os atores se preparavam para entrar em cena.

O teatro mais famoso é o “Epidauro”, notável por sua acústica perfeita e


podia acomodar até 14 mil pessoas.

FIGURA 41 - TEATRO DE EPIDAURO (SÉCULO IV a.C.). COMPOSTO DE 55


DEGRAUS DIVIDIDOS EM DUAS ORDENS E CALCULADOS DE
ACORDO COM UMA INCLINAÇÃO PERFEITA

FONTE: Proença (2011, p. 40)

A arquitetura no período clássico ficou marcada pelo seu conjunto de


colunas, que posteriormente foi inspiração em outros momentos históricos, como
no classicismo.

Já a escultura nesse período libertou a figura humana do bloco de pedra,


onde ela era revelada por meio das pernas e braços que ficaram soltos, com
maior naturalidade nas posturas e rostos. As estátuas tendiam para o realismo,
abandonando o idealismo. Os escultores mais consagrados e suas execuções com
maior destaque foram:

• Fídias: Pártenon.
• Míron: Discóbodo.
• Policleto: Doríforo.
• Praxíteles: Afrodite de Cnido, Hermes e Dionísio.
• Leócares: Apolo de Belvedere.
• Lisipo: Apoxiômeno.

55
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

FIGURA 42 - MÍRON: DISCÓBOLO

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/9/97/SFEC_BritMus_Roman_021-2.jpg?uselang=pt-
br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

A obra “Discóbolo” possui cunho esportivo, devido à posição em que se


encontra o objeto, nas mãos do atleta, e o movimento do corpo. Ela foi destaque
nas Olimpíadas de Atenas no ano de 2004. Segundo Gombrich (1999, p. 90):

O jovem atleta é representado no instante em que está prestes a lançar


o pesado disco. Ele dobra o corpo para adiante e projeta o braço para
trás de modo a poder lançá-lo com mais força. No momento seguinte,
vai girar e soltar o disco, sustentando o lançamento com uma rotação
do corpo.

A obra é tão convincente que os atletas modernos adotaram como modelo


a posição do lançamento do disco para exercer tal prática esportiva, sendo
atualmente uma modalidade olímpica.

Para os gregos, as atividades físicas eram tão importantes quanto as


atividades intelectuais, e no final todos recebiam como recompensa bens materiais.
No entanto, todo esse envolvimento dos gregos com o esporte fez com que aos
poucos construíssem ginásios de esporte, abrindo as portas para o desenvolvimento
urbano, onde os romanos se destacaram.

56
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

2.3 PERÍODO HELENÍSTICO


Neste período, modificou-se o caráter da arte grega, sem abandonar as
referências do passado. As esculturas começam a ter expressões de sentimentos
coletivos, além de apresentarem formas humanas diversas (crianças, idosos etc).
Nesse sentido, Proença (2010, p. 31) afirma que:

A escultura apresenta características bem diferentes dos períodos


anteriores. Uma delas é a tendência de expressar, sob forma humana,
ideias e sentimentos, como paz, amor, liberdade, vitória, etc. Outra é o
início do nu feminino, pois no período arcaico e clássico as figuras de
mulheres eram esculpidas sempre vestidas.

Os escultores queriam dar a impressão de movimento, fazendo com que o


observador olhasse em torno da obra para ver seus ricos detalhes.

De acordo com Proença (2010), na escultura “Vênus de Milo” se vê uma nudez


parcial e alternância de membros tensos e relaxados. A perna esquerda inclinada
para frente e o tronco inclinado dão a impressão do corpo estar em movimento.
A veste que cobria parte do seu corpo, esculpida de forma fina, dá a impressão de
que era tecido leve, fino e drapeado, contornando sua silhueta e mostrando sua
sensualidade de forma discreta, como podemos ver na figura a seguir:

FIGURA 43 - VÊNUS DE MILO. DATADA DA SEGUNDA


METADE DO SÉCULO II a.C. ALTURA: 2,04
CM. MUSEU DO LOUVRE, PARIS

FONTE: Proença (2011, p. 39)

57
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Além do nu feminino, outra novidade neste período foi a representação de


grupos ao invés de apenas uma pessoa. O grande desafio era formar um conjunto
de figuras que sugerissem mobilidade e fossem belas de todos os ângulos.

FIGURA 44 - AGESANDRO, ATENODORO, POLIDORO. LAOCOONTE E SEUS


FILHOS, MÁRMORE, APROX. 40 a.C.

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/4/42/Gruppo_del_laocoonte%2C_04.JPG?uselang=pt-br>.
Acesso em: 4 jan. 2017.

A obra “Laocoonte e seus dois filhos” apresenta movimento de força pelo


pai para se libertar das temidas e grandiosas cobras, e seus filhos com um ar de
serenidade, sentindo-se protegidos pelo seu herói. Mesmo assim, procuraram se
contorcer para se livrar da força do animal, que prendia seus braços e pernas.

Para Janson (2001), o período helenístico impressiona, pois começaram a


surgir projetos de urbanização nas ruas e nas construções. Vale destacar, ainda,
o uso das colunas, e as esculturas começam a embelezar partes arquitetônicas,
como as fachadas. As construções arquitetônicas eram verdadeiras obras de arte,
pois cada detalhe da coluna, da escada ou da escultura fazia delas peças únicas.
Mas pouco restou das construções e esculturas gregas. Alguns sítios, templos e
esculturas hoje fazem parte do Patrimônio Mundial da Unesco.

58
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

DICAS

Assista o filme Percy Jackson e os olimpianos: o ladrão de raios (Estados Unidos), 2010.
É um filme que apresenta o mundo atual e o mundo mitológico, em que 12 deuses do Olimpo
estão vivos e criando uma nova raça de jovens heróis mitológicos que são semideuses –
metade mortais, metade imortais.

3 ARTE ROMANA
A civilização romana (753 a.C) demonstra caráter prático em todos os
setores. Para Janson (2001, p. 187), foram “realizadas estradas, pontes, aquedutos
em arco, construções para a massa popular, como circos e teatros. Não podendo
deixar de destacar que boa parte da Arte Romana teve herança grega, pois muitos
escultores foram gregos”.

A arquitetura romana consiste em conciliar os espaços às necessidades


urbanas, com um olhar voltado à funcionalidade e não ao efeito arquitetônico. Um
exemplo de espaço de amplitude e funcionalidade foi o Panteão.

FIGURA 45 - PANTEÃO - PARTE FRONTAL

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/3/30/Piazza_della_Rotonda%2C_obelisco_macuteo%2C_e_
Pantheon_%28Roma_2006%29.jpg?uselang=pt-br>. Acesso em: 4 jan. 2017.

59
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

UNI

O Panteão apresenta uma planta circular fechada por uma cúpula. Lá o povo
se reunia para o culto. O chão e as paredes são feitos em mármore. Ali foram depositados os
restos mortais do artista Rafael Sanzio (1483-1520).

Outro monumento histórico e artístico foi o Coliseu, que teve a combinação


entre arco e colunas (que foi destaque na Grécia). Chamado de anfiteatro, o Coliseu
se destacou pelo fato de que abrigava muitas pessoas. Foi muito popular para as
lutas dos gladiadores e para diversos espetáculos.

FIGURA 46 - COLISEU EXTERIOR – ROMA

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d8/


Colosseum_in_Rome-April_2007-1-_copie_2B.jpg?uselang=pt-br>. Acesso
em: 4 jan. 2017.

Destaca-se ainda que as grandes conquistas romanas favoreceram a


“[...] construção de prédios públicos, privados e obras viárias de toda natureza.
Tudo isso requeria materiais diversos e favoreceu a criação de novas técnicas de
construção” (BETING, 2009, p. 34). Com isso, teve como propósito auxiliar nas
necessidades da população urbana, fazendo das cidades verdadeiros centros de
produção de tecidos, cerâmica, fabricação de ferramentas, armas e outros objetos
da vida cotidiana.

60
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

4 MODA NA ARTE/ARTE NA MODA: ENTRE O POVO GREGO


E ROMANO
A moda não se desvincula da arte, pois notam-se nas passarelas roupas
com estampas artísticas, sejam de movimentos artísticos ou criação de algum
artista contemporâneo. Porém, a moda propicia uma leitura de uma determinada
classe social, como ocorre nos dias atuais, mas já ocorreu na Idade Antiga, como
na Grécia e em Roma.

Na Grécia, a vestimenta constituía-se em peças de tecido enroladas no


corpo, sendo fixadas por broches ou joias que eram verdadeiras obras de arte, pois
eram desenvolvidas à mão. Muitos dos tecidos eram enriquecidos com bordados,
apliques, detalhes geométricos ou figurativos presentes em vasos e/ou tapeçarias.
Esses tecidos viraram túnica para as mulheres, chamadas de quíton, visto que se
usavam dentro de casa e outra para sair (NERY, 2004). Os quítons aparecem nas
esculturas arcaicas, já estudadas anteriormente, onde se percebe a diferença social.
As esculturas mais elaboradas apresentavam um manto plissado que passava
sobre os ombros, cobrindo todo o tórax, enquanto as servas tinham uma única
túnica com mangas, como na figura a seguir:

FIGURA 47 - MODA GREGA - MULHERES

FONTE: Beting (2009, p. 27)

61
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Já os homens usavam um quíton curto, somente as túnicas longas eram


para os mais velhos, sacerdotes ou músicos (Beting, 2009), como mostra a figura a
seguir:

FIGURA 48 - MODA GREGA – HOMENS

FONTE: Beting (2009, p. 27)

As esculturas romanas traziam como vestimenta um ar militar, com


armadura sobre o corpo e uma túnica próximos à cintura. Diferenciam-se das
gregas, por serem mais reais e mostrarem ares de autoridade. As túnicas são a
vestimenta oficial dos nobres romanos e esse misto de vestimenta pode-se encontrar
na escultura do imperador Augusto de Prima Porta, como mostra a figura a seguir:

62
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

FIGURA 49 - AUGUSTO DE PRIMA PORTA

FONTE: Disponível em: <http://mv.vatican.va/3_EN/pages/


x-Schede/MBNs/MBNs_Sala01_01.html>. Acesso
em: 5 jan. 2017.

Muitas vezes nos perguntamos como diferenciar uma escultura grega de


uma romana. Contemplar uma imagem e buscar identificar o período no qual
pertence por suas feições, forma pela qual foi esculpida, são caminhos.

Acadêmico, para finalizar esta unidade, trago um exercício. Procure


identificar na imagem a seguir se a escultura feminina pertence à arte grega ou
romana. Vale como um desafio!

FIGURA 50 - CÓPIA DA ESTÁTUA DA AMAZONA FERIDA POR


POLICLETO

FONTE: Durando (2005, p. 135)

63
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Portanto, a arte grega e a romana têm proximidades na arquitetura, pois


muitos gregos foram convidados em Roma a realizarem algumas construções,
e levaram algumas características da sua cultura. Já na escultura denotam
similaridades, mas a vestimenta, os objetos esculpidos, a face e os movimentos
podem dizer muito do período ao qual pertencem.

Convidamos você, acadêmico, a realizar as autoatividades, fazer anotações


de cada tópico, que auxiliarão nos seus estudos e avaliações.

LEITURA COMPLEMENTAR

EGÍPCIOS

O  povo egípcio  desenvolveu uma cultura avançada em matemática,


medicina e no estudo das estrelas. Essa cultura mais tarde influenciou os gregos e
romanos, formando a base do que hoje conhecemos por “Civilização Ocidental”.

A maior parte dos antigos egípcios eram fazendeiros ou artesãos. Eles


faziam brinquedos para os seus filhos, tinham gatos de estimação, usavam
maquilagem (tanto homens quanto mulheres) e viam a mágica à sua volta.

Os egípcios de classe alta incluíam escribas, sacerdotes e a família real.


Seu governo era fortemente centralizado na pessoa do monarca, chamado faraó,
a palavra “faraó” era um tratamento de respeito que significava “casa grande”, o
palácio onde o rei vivia. Também chefe religioso supremo, como sumo-sacerdote
dos muitos deuses em que acreditavam. O Estado controlava todas as atividades
econômicas.

Os  egípcios  consideravam seu faraó um deus. Eles sentiam que só


ele poderia pedir aos outros deuses que o Nilo pudesse transbordar, para que
as plantações crescessem e que o país tivesse comida o bastante. Eles também
esperavam que o rei liderasse o exército e protegesse o país das invasões estrangeiras.

Muitos sacerdotes ajudavam o faraó a manter a “ordem cósmica” pela


realização de rituais para agradar aos deuses.

Os sacerdotes trabalhavam em templos em todo o país, e geralmente


nasciam numa família de sacerdotes. Um outro trabalho importante no antigo Egito
era o dos escribas.

Os escribas eram poderosos porque sabiam ler e escrever. Toda cidade


tinha um escriba para escrever as estatísticas, recolher os impostos, resolver assuntos
legais e recrutar homens para o exército. Alguns escribas copiavam textos religiosos
nas paredes dos templos e nos rolos de papiros.

64
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

Os escribas escreviam numa linguagem que usava figuras, chamadas


hieróglifos, para representar os sons e as ideias. Mais de 700 figuras diferentes eram
usadas para escrever os hieróglifos. Eram complicados, propositadamente, para que
os escribas pudessem manter o seu poder.

Escribas

Os escribas eram uma classe muito importante no Egito antigo. Somente eles


tinham oportunidade de seguir carreira no serviço público ou como administrador
de uma grande propriedade, pois a escrita fazia parte da profissão especializada.
Eram tantas as exigências para a carreira de um escriba, quanto honrosas e lucrativas
as compensações para quem a seguia.

Um jovem que tivesse a sorte de ter passado pela importante escola de


escribas de Mênfis, ou mais tarde, de Tebas, devia não só saber ler, escrever e desenhar
com o máximo de habilidade, como também dominar perfeitamente o idioma, a
literatura e a história do seu país. Além disso, devia ter amplos conhecimentos
de matemática, contabilidade, processos administrativos gerais e até mesmo de
mecânica, agrimensura e desenho arquitetônico. Quando um homem se qualificava
como escriba, automaticamente se candidatava a membro da classe oficial culta, o
que o isentava de qualquer espécie de trabalho servil e facilitava-lhe galgar uma
série de estágios conhecidos para chegar aos cargos mais elevados do país.

Escribas

No cumprimento de suas funções, o escriba sentava-se de pernas


cruzadas e improvisava com a parte dianteira do seu saiote de linho, bem
esticado, uma espécie de mesa. Empunhando a pena ou o pincel de junco e com
um rolo de papiro estendido sobre o saiote que lhe cobria os joelhos, ele estava
pronto para tomar o ditado.
65
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Os pigmentos para escrever, em geral vermelho ou preto, estavam


em tigelas de alabastro, no chão, ao lado. O escriba escrevia da direita para a
esquerda, adotando a chamada escrita hierática, em geral com um pincel fino
feito de junco, tendo a ponta cuidadosamente desfiada e aparada. O papel era
feito de tiras estreitas de papiro, cruzadas em duas direções, comprimidas juntas
e depois lustradas.

Escrita e pintura

A escrita egípcia, uma das mais antigas do mundo, não utiliza um alfabeto,
mas centenas de pequenos desenhos combinados de diferentes maneiras:  os
hieróglifos. Aprendia-se nas escolas ou nas casas de aprendizagem dos templos,
que eram centros intelectuais completos. O escriba servia-se de uma paleta com
duas pastilhas de tinta e canas adaptadas para pincéis, assim como de um godé de
água. Em algumas épocas, os numerosos textos relativos aos problemas cotidianos
provam que muitas pessoas sabiam ler e escrever. Quanto aos desenhistas, chamam-
se “escribas das formas”.

Cada desenho é utilizado seja por seu valor de imagem, seja pelo som
que representa – e que, junto a outros signos-sons, compõem uma palavra mais
complicada – ou então de maneira abstrata para enquadrar uma palavra em uma
categoria dos sentidos. Na escrita dita “hieroglífica”, os signos (cerca de 700 na
época clássica) são perfeitamente desenhados com todos os seus detalhes e cores.
Os egípcios serviram-se desta escrita muito decorativa durante quase 3.500 anos
sobre as paredes dos templos e túmulos, sobre as estrelas e estátuas e às vezes sobre
os papiros.

Desde o Antigo Império, para escrever muito rápido ou em um suporte


impróprio ao hieróglifo tratado (papiro, óstraco, tábua untada de cera, gesso,
couro…), simplifica-se a escrita, é a “hierática”. Às vezes, o perfil do conjunto do
hieróglifo é reconhecível, outras vezes, só a direção geral do traçado é identificável.

Escreve-se, normalmente, da direita para a esquerda e horizontalmente.


Mais tarde nasceu a demótica, tão simplificada que parece nossa estenografia. É a
escrita da administração e da vida diária a partir de, aproximadamente, 700 a.C.

Um óstraco (do grego “concha”) é um caco de olaria, um fragmento de


pedra no qual anota-se o que não merece o suporte nobre e oneroso do papiro ou
da parede de um monumento: rascunhos, recibos contábeis, exercícios de alunos,
prescrições médico-mágicas.

Quando não há mais lugar nos arquivos, são jogados fora: milhares foram
encontrados no poço ptolomaico, com 52 m de profundidade, cavado em Deir el-
Medineh na esperança (desiludida) de encontrar água. Os óstracos são uma fonte
incomparável de conhecimento da vida cotidiana dos egípcios.

66
TÓPICO 4 | ARTE GREGA E ROMANA

Com a ajuda de ferramentas simples e manejáveis (bastões, cordéis e


fragmentos de carvão), os desenhistas traçam na parede um quadriculado baseado
na medida linear usual (côvado de aproximadamente 50 cm) e suas subdivisões.
Nas representações, respeitam as proporções convenientes. Os olhos de frente
em um rosto de perfil, os ombros de frente e as pernas de perfil, uma perspectiva
traduzida pela justificação do desenho egípcio, identificáveis pelo público, que já
está habituado. A imagem deve falar a todos os que não sabem ler.

A  pintura egípcia  teve seu apogeu durante o Império Novo, uma das
etapas históricas mais brilhantes dessa cultura. Entretanto, é preciso esclarecer
que, devido à função religiosa dessa arte, os princípios pictóricos evoluíram muito
pouco de um período para outro. Contudo, eles se mantiveram sempre dentro do
mesmo naturalismo original. Os temas eram normalmente representação da vida
cotidiana e de batalhas, quando não de lendas religiosas ou de motivos de natureza
escatológica.

As figuras típicas dos muros egípcios, de perfil, mas com os braços e o


corpo de frente, são produtos da utilização da perspectiva da aparência.

Os egípcios não representaram as partes no real, mas sim levando em


consideração a posição de onde melhor se observasse cada uma das partes: nariz e
o toucado aparecem de perfil, que é a posição em que eles mais se destacavam; os
olhos, braços e tronco são mostrados de frente. Essa estética manteve-se até meados
do império novo, manifestando-se depois a preferência pela representação frontal.

Um capítulo à parte na arte egípcia é representado pela escrita. Um sistema


de mais de 600 símbolos gráficos, denominados hieróglifos, desenvolveu-se a
partir do ano 3.300 a.C. e seu estudo e fixação foi tarefa dos escribas. O suporte
dos escritos era papel fabricado com base na planta do papiro. A escrita e a pintura
estavam estreitamente vinculadas por sua função religiosa. As pinturas murais dos
hipogeus e as pirâmides eram acompanhadas de textos e fórmulas mágicas dirigidas
às divindades e aos mortos.

É curioso observar que a evolução da escrita em hieróglifos mais simples,


a chamada escrita hierática, determinou na pintura uma evolução semelhante,
traduzida em um processo de abstração. Essas obras menos naturalistas, pela sua
correspondência estilística com a escrita, foram chamadas, por sua vez, de Pinturas
Hieráticas. Do Império Antigo conservam-se as famosas pinturas ocas de Meidun,
e do Império Novo merecem menção os murais da tumba da rainha Nefertari no
Vale das Rainhas, em Tebas.

Um símbolo hieroglífico popular era a cártula. Quando escrito em


hieróglifos, o nome do faraó era circunscrito numa corda oval com um nó embaixo.
Este círculo representava a eternidade, e colocando seu nome dentro dele, o faraó
esperava viver para sempre. Hoje, os muitos turistas que visitam o Egito têm seus
nomes escritos em hieróglifos dentro de uma cártula de ouro.

67
UNIDADE 1 | A ARTE NA ANTIGUIDADE

Escultura egípcia

A escultura egípcia foi antes de tudo animista, encontrando sua razão de ser


na eternização do homem após a morte. Foi uma estatuária principalmente religiosa.

A representação de um faraó ou um nobre era o substituto físico da


morte, sua cópia em caso de decomposição do corpo mumificado. Isso talvez
pudesse justificar o exacerbado naturalismo alcançado pelos escultores egípcios,
principalmente no Império Antigo. Com a passar do tempo, a exemplo da pintura,
a escultura acabou se estilizando.

As estatuetas de barro eram peças concebidas como partes complementares


do conjunto de objetos no ritual funerário. Já a estatuária monumental de templos e
palácios surgiu a partir da 18ª dinastia, como parte da nova arquitetura imperial, de
caráter representativo. Paulatinamente, as formas foram se complicando e passaram
do realismo ideal para o grande amaneiramento completo. Com os reis ptolomaicos,
a influência da Grécia revelou-se na pureza das formas e no aperfeiçoamento das
técnicas.

A princípio, o retrato tridimensional foi privilégio de faraós e sacerdotes.


Com o tempo estendeu-se a certos membros da sociedade, como os escribas. Dos
retratos reais mais populares merecem menção os dois bustos da rainha Nefertite,
que, de acordo com eles, é considerada uma das mulheres mais belas da história
universal. Ambos são de autoria de um dos poucos artistas egípcios conhecidos, o
escultor Thutmosis, e encontram-se hoje nos museus do Cairo e de Berlim.

Igualmente importantes foram as obras de ourivesaria, cuja maestria e


beleza são suficientes para testemunhar a elegância e a ostentação das cortes egípcias.
Os materiais mais utilizados eram o ouro, a prata e pedras. As joias sempre tinham
uma função específica (talismãs), a exemplo dos objetos elaborados para os templos
e as tumbas. Os ourives também colaboraram na decoração de templos e palácios,
revestindo muros com lâminas de ouro e prata lavrados contendo inscrições, dos
quais restaram apenas testemunhos.

FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/egipcios>. Avesso


em: 10 jan. 2017.

68
RESUMO DO TÓPICO 4
Vamos rever os principais pontos estudados nesta seção:

• A arte grega divide-se nos seguintes períodos: Arcaico, Clássico e Helenístico.

• O período Arcaico teve destaque para as cerâmicas, com figuras negras e


vermelhas, tendo pinturas mitológicas ou cenas do cotidiano. As esculturas
apresentavam tamanhos acima do normal. As figuras masculinas sempre eram
esculpidas nuas e as femininas com vestes.

• No período Clássico começou a evolução da escultura, apresentando maior


leveza, de forma que pareciam mais realistas. Na arquitetura, destaque para
colunas dórica, jônica e coríntia.

• O período Helenístico trouxe mais sentimento e movimento para as esculturas.


Período que se destaca pelas esculturas no coletivo, representando uma ação.
As figuras femininas começam a ser esculpidas nuas. Muitas esculturas também
foram unidas à arquitetura, como no Egito, mas com maior requinte. Começaram
a surgir projetos de urbanização.

• Somente na arte romana são realizadas pontes, aquedutos, construções para a


população e assim começa o início da urbanização.

69
AUTOATIVIDADE

1 A arquitetura grega apresenta delicadeza e ricos detalhes em seus


ornamentos. Suas colunas são verdadeiras obras de arte. Faça uma pesquisa
na internet onde possa encontrar colunas gregas ou que remetam a elas no
Brasil. Pesquise dois locais, anote e socialize esta pesquisa com o grande
grupo.

Site Arquitetura (museu, Local - Estado


casa, comércio etc.)

2 A escultura “Laocoonte” é uma escultura importante da civilização grega,


pois foi a primeira vez na história da arte que foi realizada uma escultura
grupal. Com relação à obra, assinale a alternativa CORRETA:

( ) A obra representa um fato verídico sobre a família Laocoonte.


( ) O grupo de Laocoonte é uma escultura representativa do período clássico
grego.
( ) A escultura traz os filhos sendo protegidos das cobras, pela força do pai.
( ) O grupo é composto por três figuras humanas sendo atacadas por dois
dragões, que se enrolam em seus corpos.

3 Analise as imagens arquitetônicas que caracterizam a arte do Oriente,


compreendendo a Arte Grega e a Arte Romana:

Assista ao vídeo de
resolução da questão 1

70
FIGURA 1 - TEMPLO DE APOLO FIGURA 2 - TEATRO DE MARCELO

FONTE: Disponível em: <http:// FONTE: Disponível em: <http://


upload.wikimedia.org/wikipedia/ upload.wikimedia.org/wikipedia/
commons/8/88/Temple_Apollo_at_ commons/9/9f/Teatro_de_marcelo-
Corinth.jpg?uselang=pt>. Acesso em: 2 roma-2011.JPG?uselang=pt>. Acesso
fev. 2017. em: 2 fev.2017.

I. A figura 1 corresponde a um templo da arquitetura romana.


II. A figura 2 está relacionada à Esfinge, inventada pelos egípcios do Império
Antigo.
III. A figura 2 é uma obra arquitetônica romana.
IV. A figura 1 corresponde a uma obra grega.

Assinale a alternativa correta:


( ) As alternativas I e II estão corretas.
( ) As alternativas III e IV estão corretas.
( ) As alternativas I e III estão corretas.
( ) As alternativas II, III e IV estão corretas.

4 Ao considerar o grande avanço da arte grega na cultura antiga, ampliando


as técnicas escultóricas e arquitetônicas herdadas da antiguidade oriental,
assinale a alternativa correta em relação ao estilo clássico na escultura grega.

( ) Rigidez e frontalidade egípcias.


( ) Realismo e expressividade exagerados.
( ) Tentativa de ampliar o dinamismo.
( ) Movimento delicado e curvas sutis.

71
72
UNIDADE 2

NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE:


UM CAMINHAR PELO VÍNCULO
RELIGIOSO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Ao final desta unidade, você será capaz de:

• compreender que a História da Arte, antes do Renascimento, foi permea-


da por aspectos estritamente religiosos e, a posteriori, teve a valorização
do homem como artista, em um contexto europeu de transformação so-
cial, política e econômica;

• entender que a arte bizantina se expressava por meio de caráter religioso,


através da figura do Imperador, que era o representante de Deus na Terra;

• compreender que de forma generalizada, nos movimentos artísticos, os


artistas eram subordinados ao clero, por isso as pinturas eram religiosas,
para auxiliar a comunidade a entender e estar mais próxima de Deus;

• entender a arte do Renascimento como um rompimento, do teocentrismo


para o homem como centro de tudo, resgatando o valor humano e de ar-
tista, proporcionando o humanismo;

• entender que o estilo rococó, ao contrário do barroco, proporcionou uma


pintura voltada ao registro do cotidiano da alta sociedade.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em dois tópicos. Em cada um deles você encontra-
rá atividades que o auxiliarão na compreensão dos conteúdos apresentados.

TÓPICO 1 – ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTI-


LOS ROMÂNICO E GÓTICO

TÓPICO 2 – AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCI-


MENTO ATÉ O ROCOCÓ

Assista ao vídeo
desta unidade.

73
74
UNIDADE 2
TÓPICO 1

ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E


OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico você compreenderá que a arte na Idade Média possui
um caráter religioso, onde os artistas, ainda desconhecidos, realizavam vários
trabalhos determinados pelo clero. Esses artistas, por meio de várias técnicas de
pintura – conhecidas como ícones, além de mosaicos e esculturas –, decoraram os
interiores das igrejas, auxiliando a população a entender as questões religiosas e
se aproximar mais de Deus. Essa era uma questão pensada pelo clero, pois muitos
não sabiam ler, assim facilitando o entendimento por meio da linguagem visual.

Além das pinturas, outro destaque na Idade Média refere-se às arquiteturas


gigantescas de cunho religioso, trazendo características peculiares, como o vitral
e a rosácea, marcando os estilos que surgiam. Hoje podemos encontrar no Brasil
igrejas que trazem algumas dessas características, pois com o passar dos anos,
muitos europeus que aqui chegaram trouxeram, além da sua cultura, o modo de
realizar sua arte nas mais diversas expressões, carimbando um pouco o lugar onde
nasceram.

A arte da Idade Média, que apresentamos neste tópico, é apenas um


pequeno mergulho cultural, tendo sua caracterização maior descrita acima, para
entender e compreender a idade das trevas – a Idade Média, como por muitos foi
denominada. Bons estudos!

2 ARTE BIZANTINA
A arte bizantina desenvolveu-se em uma colônia grega, localizada entre
a Europa e a Ásia, chamada de Bizâncio. “Nesse local, no ano 330, o Imperador
Constantino (274-337 d.C.) fundou a cidade de Constantinopla, que, graças à
localização geográfica privilegiada, viria a ser palco de uma verdadeira síntese das
culturas greco-romana e oriental” (PROENÇA, 2011, p. 53).

Este local era privilegiado, pois marcava o limite dos continentes asiático e
europeu na Turquia, onde se concedeu o capital do Império Romano do Ocidente,
com capital em Roma. No entanto, após sua ascensão e várias invasões dos bárbaros
no ano de 476, começou a cair, marcando o fim da Idade Antiga e o início da Idade
Média.

75
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Logo o império romano passou a ter outra denominação: Império


Bizantino, comandado por Justiniano, que elevou o lugar política e culturalmente
durante seu governo (PROENÇA, 2011). Mesmo com diversas conquistas no
governo, Justiniano (482-565 d.C.) teve que realizar mudanças, como aumento de
impostos, trazendo insatisfação para o povo e resultando numa nefasta pobreza da
sociedade. O povo, mergulhado na pobreza, era religioso e cultuava vários deuses,
mas com o nascimento de Cristo, muitos se converteram ao cristianismo. Essa
mudança religiosa trouxe preocupação aos governantes Constantino e Teodósio,
que temiam o fortalecimento cristão e a queda do poder romano.

Como o número de fiéis cristãos aumentava diariamente, Constantino, um


imperador romano, também se converteu ao cristianismo, enquanto o imperador
do Ocidente, Teodósio (347-395 d.C.), tornou-o a religião oficial do Império.
Posteriormente o Imperador Teodósio divide oficialmente o império em: Roma
Ocidental e Roma Oriental, para uma melhor organização geográfica.

Como descrito anteriormente, o Império do Ocidente caiu em 476, enquanto


o Império Romano Oriental, com capital em Constantinopla, durou mais tempo,
sendo esse império chamado de Bizantino e comandado por Justiniano.

Com isso, o Imperador Justiniano ordenou a construção de catedrais por


todo o território que ele dominava. Como a religião se tornou, de certa forma, uma
estratégia do seu governo, foi considerado o representante de Deus na Terra para a
sociedade. Para o povo, os governantes eram representados de forma iconográfica
com auréola, como se fossem personalidades sagradas (PROENÇA, 2011).

Nesse contexto, a arte bizantina teve como objetivo expressar a autoridade


sagrada do imperador, como sendo o representante de Deus na Terra, e para isso
foram estabelecidos alguns critérios para os artistas, como:

• Frontalidade, a imagem sendo representada de frente, postura rígida, onde o


observador tenha, diante da imagem, atitude de veneração e respeito.
• Ao produzir a imagem, se preocupava com o observador, vendo nas figuras
sagradas seus protetores.
• O lugar determinado das figuras, além dos gestos, mãos, pés, roupas e símbolos,
ou seja, tudo era determinado por seus sacerdotes e não à escolha do artista.
• Retratavam personalidades sagradas com características das personalidades do
Império, por exemplo, Maria e Jesus retratados como rei e rainha nos mosaicos.
• A arte voltava-se ao tema religioso, por meio do uso de mosaicos ou ícones,
realizados de forma luxuosa.
• Havia ausência de volume, proporção e perspectiva.
• As esculturas eram esculpidas na arquitetura – essa ideia de acoplar a arte da
escultura na arquitetura provém do Egito antigo.

A arte bizantina pode ser reconhecida pela influência da arte grega e de


outros povos da Antiguidade. No entanto, tinha função clara de retratar e divulgar
a vida de Jesus Cristo e a do Imperador, principalmente com o uso do mosaico.

76
TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

FIGURA 51 - PAINEL RETRATANDO O IMPERADOR JUSTINIANO, BISPOS,


DIGNATÁRIOS E SOLDADOS, SÉCULO VI

FONTE: Disponível em: <https://bizantinistica.files.wordpress.com/2012/06/mosaico-


justiniano-sao-vital.jpg>. Acesso em: 6 jan. 2017.

Os mosaicos ganham destaque na arte bizantina, sendo confeccionados com


pequenos pedaços de pedra e vidro sobre uma superfície de gesso ou argamassa.
Além de passagens bíblicas, procuravam ilustrar retratos do imperador, como a
figura acima. O mosaico foi utilizado pelos gregos na colocação de pisos, já os
romanos o trouxeram para a decoração de paredes. Mas foi com os bizantinos que
o auge da técnica foi desenvolvido. Além de quadros de mosaicos, estenderam
a técnica para as paredes e abóbadas das igrejas, pois “[...] os mosaicos de cores
intensas e de materiais que refletem a luz em tons dourados conferem uma
suntuosidade ao interior dos templos que nenhuma época conseguiu reproduzir”
(PROENÇA, 2001, p. 55), como podemos ver na imagem a seguir.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 52 – PROCISSÃO DOS MÁRTIRES, MOSAICO NA PAREDE INTERNA DA


BASÍLICA DE SAN APOLLINARE NUOVO, EM RAVENA, ITÁLIA

FONTE: Disponível em: <http://lealuciaarte.blogspot.com.br/2013/01/a-arte-


bizantina_9226.html>. Acesso em: 7 jan. 2017.

Mas não foi somente por meio dos mosaicos que o interior das igrejas
contavam passagens da Bíblia com cenas do evangelho. Mesmo sendo o destaque
da época, os artistas trouxeram a arte da pintura de afrescos em pequenos painéis,
sempre com motivos religiosos. Essas pinturas na época eram denominadas de
ícones, que são quadros com imagens que representam figuras sagradas, como
Jesus Cristo, a Virgem, com o marco da auréola sobre a cabeça.

Para a realização desses ícones, os artistas usavam a técnica da têmpera ou


da encáustica, além do cuidado com o uso das cores, pela capacidade de refletir a
luz. Mas como ocorria esse processo de pintura?

Em geral, revestiam a superfície da madeira ou da placa de metal com


uma camada dourada, sobre a qual pintavam a imagem. Para fazer as
dobras das vestimentas, as rendas e os bordados, retiravam com estilete
a película de tinta da pintura. Essas áreas, assim, adquiriam a cor de
ouro do fundo (PROENÇA, 2011, p. 59).

UNI

Vamos conhecer um pouco mais a técnica denominada têmpera: consiste em


misturar clara, gema de ovo, ou o ovo inteiro à tinta, para dar brilho à obra, além de facilitar a
fixação da tinta na base pintada.

Também conheça a técnica chamada de encáustica: significa diluir pigmento na cera aquecida
e derretida no momento da aplicação. O resultado é o oposto da têmpera, o efeito é fosco.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

FIGURA 53 - JESUS

FONTE: Disponível em: <http://4.bp.blogspot.com/-l_-lW_mrysI/Tj_


P1QQlLBI/AAAAAAAAAjw/dK-FUDkXH3s/s1600/MudraCristo.
jpg>. Acesso em: 7 jan. 2017.

Os artistas desconhecidos, além de usarem a técnica da têmpera e da


encáustica na pintura, agregavam a ela joias e pedras, dando mais valor à obra.
Com o tempo, os quadros ficaram populares e podiam ser encontrados nas casas
como forma de expressão artística, além de religiosa.

A riqueza artística, seja em mosaico ou ícones, encontra-se dentro de igrejas


que também são consideradas patrimônios. Um dos grandes exemplos é a Basílica
de Santa Sofia, que abriga uma série de mosaicos.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 54 - BASÍLICA DE SANTA SOFIA – TURQUIA, CONSTRUÍDA ENTRE


532 E 537 PELO IMPÉRIO BIZANTINO PARA SER A CATEDRAL DE
CONSTANTINOPLA

FONTE: Disponível em: <http://www.historiadigital.org/visitas-virtuais/visita-virtual-


a-basilica-de-santa-sofia-hagia-sophia-do-imperio-bizantino/>. Acesso
em: 7 jan. 2017.

A Basílica de Santa Sofia foi construída por Justiniano sobre uma planta
quadrada, tem uma cúpula formada por quatro arcos. A nave central tem colunas
com capitéis, que lembram os capitéis coríntios.

FIGURA 55 – INTERIOR DA BASÍLICA DE SANTA SOFIA – TURQUIA. CONSTRUÍDA


ENTRE 532 E 537 PELO IMPÉRIO BIZANTINO PARA SER A CATEDRAL DE
CONSTANTINOPLA

FONTE: Disponível em: <https://belostemplos.wordpress.com/2016/09/19/basilica-de-santa-


sofia-turquia/>. Acesso em: 7 jan. 2017.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

Caro acadêmico! A imagem a seguir é um dos capitéis pertencentes à


Basílica de Santa Sofia. Ele se aproxima do capitel coríntio, que foi estudado na
Unidade 1 deste livro de estudos.

FIGURA 56 - CAPITEL DA BASÍLICA DE SANTA SOFIA

FONTE: Disponível em: <http://estudoarquiteturaeurbanismo.blogspot.


com.br/2014/05/arte-bizantina.html>. Acesso em: 7 jan. 2017.

UNI

Você sabe onde foi construída uma réplica da Santa Sofia no Brasil? Pesquise e,
depois, discuta com seu tutor e colegas do curso.

No que se refere à escultura, os artistas usavam marfim em representações


de baixo relevo, mas há poucos registros escultóricos devido ao movimento
iconoclasta, que era o movimento que não permitia idolatrar imagens, e, portanto,
ficou conhecido como um período de destruição de imagens. Também há casos em
que havia o respeito à imagem, mas não a veneração. A seguir, uma escultura que
ficou como registro para a humanidade.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 57 – TEODORA – ESCULTURA

FONTE: Disponível em: <http://www.beatrix.pro.br/index.


php/a-arte-bizantina-a-imperatriz-teodora/>. Acesso
em: 7 jan. 2017.

UNI

O significado de iconoclasta faz referência aos indivíduos que não respeitam


tradições e crenças estabelecidas ou se opõem a qualquer tipo de culto ou veneração, seja de
imagens ou outros elementos. O termo abrange ainda aqueles que destroem monumentos,
obras de arte e símbolos. Iconoclastia é o nome do movimento político-religioso que iniciou
no Império Bizantino no século VIII e que rejeitava a veneração de imagens religiosas, por
considerar o ato como idolatria. No ano de 730, após o édito publicado por Leão III que proibia
a veneração de ícones e ordenava a destruição de imagens, os membros da iconoclastia
destruíram milhares de ícones religiosos. As destruições cessaram em meados do século IX.
FONTE: Disponível em: <https://www.significados.com.br/iconoclasta/>. Acesso em: 7 jan.
2017.

Depois de compreender que a religião dominou o período bizantino por


toda a Idade Média e que teve seu apogeu cultural dominado pelo Imperador
Justiniano, cabe estudar ainda os dois estilos: românico e gótico.

3 ESTILO ROMÂNICO
No início do século V a arte deslocou-se da cidade para o campo. Logo,
não teve desenvolvimento, pois os mosteiros eram pobres. Somente as igrejas em
meados do século VII contratavam artistas decoradores e escultores, pois eram
as únicas construções públicas. No entanto, a arte começou a evoluir a partir da
coroação de Carlos Magno (747-814 d.C.), imperador romano de 800, que se uniu
ao poder papal, e logo surgiu a academia literária, onde foram desenvolvidos
objetos de arte e manuscritos ilustrados (PROENÇA, 2011).

82
TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

Mas com a morte de Carlos Magno, a arte teve sua queda, e toda produção
ficou restrita no interior dos mosteiros, sendo a ilustração de manuscritos
considerada a arte mais importante. Posteriormente vieram a arquitetura, a
escultura, a pintura, a encadernação, entre outras.

A arquitetura desenvolveu-se entre os séculos XI e XII, sendo denominada


de construções românicas, devido às construções dos antigos romanos – conforme
estudo realizado na Unidade 1, em Arte Romana.

Nesse contexto, os monges tiveram forte influência na arquitetura da


época, principalmente nas igrejas católicas. O que caracterizava essas construções
era o seu tamanho, sendo grandes e sólidas. “A sensação causada por essas igrejas,
interna e externamente, é de robustez compacta” (GOMBRICH, 1999, p. 173).
Surgem, assim, igrejas com abóbada de berço e arco pleno, poucas janelas – com
pouca passagem de luz, paredes sólidas e delicadas e capitéis decorados. Essas
igrejas se espalharam por toda a Europa.

Vejamos uma igreja com poucas janelas e de paredes sólidas, considerada


como lugar santo, pois foi construída na rota dos peregrinos, acolhendo-os quando
necessário.

FIGURA 58 – IGREJA SAINT-SERNIN, TOULOUSSE, NA FRANÇA – EDIFICADA ENTRE OS


ANOS DE 1080 E 1120

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Basilique_St-Sernin_2.jpg>.


Acesso em: 7 jan. 2017.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

As colunas são importantes para os gregos, no entanto, os romanos e parte


da Europa trazem também, nas construções, colunas com capitéis decorados,
e as igrejas românicas fazem parte desse grupo, pois muitos gregos realizaram
construções em Roma, levando com eles seu conhecimento e identidade da
arquitetura grega. Os capitéis românicos, ao contrário dos bizantinos, contam
história por meio de esculturas acopladas no entorno deles, como podemos ver
um detalhe na imagem a seguir:

FIGURA 59 -  CAPITEL REPRESENTANDO CENAS DO GÊNESIS: A


TENTAÇÃO DE ADÃO E EVA

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Capital_temptation_MNMA_Cl18999.jpg>. Acesso em:
7 jan. 2017.

São vários os motivos representados nos capitéis, como animais, folhagens e


personagens da Bíblia que enriquecem esteticamente o ambiente religioso. Era uma
forma de ajudar as pessoas que não sabiam ler a compreender, por meio da arte, os
valores religiosos. Além dos capitéis, podemos encontrar esculturas nos pórticos
das igrejas, que ficam localizadas bem na entrada, em uma base semicircular. Um
dos pórticos com esculturas acopladas encontra-se em Saint-Pierre.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

FIGURA 60 - IGREJA DE SAINT-PIERRE, EM MOISSAC

FONTE: Disponível em: <http://www.wikiwand.com/en/Moissac_Abbey>.


Acesso em: 7 jan. 2017.

Na Itália encontramos ainda arquitetura românica mais leve, pois apresenta


várias colunas e frontões com inspiração grega e romana, como é o caso do
Campanário de Pisa, que deixa a construção mais leve, pois não é uma edificação
com paredes fechadas, como das igrejas. O campanário foi construído à parte da
catedral, para abrigar os sinos. Na figura a seguir, podemos ver o campanário e a
catedral mais aos fundos.

FIGURA 61 - CAMPANÁRIO DE PISA. A CONSTRUÇÃO OCORREU EM


TRÊS FASES, DURANDO 177 ANOS. A PRIMEIRA FASE
INICIOU EM 1173

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Campanario_de_Pisa.JPG>. Acesso em: 7 jan. 2017.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

UNI

Para saber mais curiosidades sobre o campanário, acesse: <http://www.


mundointrigante.com.br/fatos-curiosos-torre-pisa/>.

A escultura está dissociada da arquitetura, com ampla representação


figurativa, enquanto a pintura tem a função de narrar cenas religiosas em telas
pequenas em locais como nas abóbadas e nas paredes laterais das igrejas, por meio
da técnica do afresco, no lugar dos mosaicos.

Nesse tipo de pintura, a preparação da parede é muito importante.


Sobre sua superfície é aplicada uma camada de gesso fina e bem lisa.
É sobre esta última camada que o pintor executa sua obra. Ele deve
trabalhar com a argamassa ainda úmida, pois, com a evaporação da
água, a cor adere ao gesso e o gás carbônico do ar combina-se com a
cal, transformando-a em carbono de cálcio e completando a adesão do
pigmento à parede (PROENÇA, 2011, p. 71).

A técnica do afresco é muito delicada e exige rapidez do artista, pois a


parede deve permanecer úmida ao receber a tinta. O seu descuido pode fazer com
que se retire toda a argamassa seca e necessite iniciar todo o processo novamente.
Muitos murais pintados tiveram como modelo ilustrações dos livros religiosos, pois
na época era uma atividade comum a produção de manuscritos, como podemos
ver na figura a seguir.

FIGURA 62 – AFRESCO CRISTO EM MAJESTADE

FONTE: Disponível em: <http://arteeducacaodf.blogspot.com.


br/2014/08/arte-romanica.html>. Acesso em: 7 jan. 2017.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

Além dos afrescos, havia as ilustrações feitas pelos artesãos, que tinham
como base peles de animais. Faz-se necessário entender o processo de confecção
deste trabalho, que é uma verdadeira obra de arte.

Primeiro, curtia-se de modo especial a pele do cordeiro ou vitela


obtendo-se o velino. Nas oficinas, nos mosteiros ou nos ateliês de
artistas, os trabalhadores cortavam as folhas de velino do tamanho que
teria o livro. A seguir os copistas transcreviam os textos para as páginas
já cortadas. Ao fazê-lo, deixavam espaços para que os artistas fizessem
as ilustrações, os cabeçalhos, os títulos, ou as letras capitulares – as
maiúsculas com que se iniciava o texto. Esse trabalho decorativo ficou
conhecido como iluminura (PROENÇA, 2005, p. 58).

Essas ilustrações são chamadas de iluminuras. A letra inicial de um texto


é em caixa alta, desenhada, colorida e decorada com vários pigmentos, entre eles
o dourado. “A inclusão de animais, plantas e cenas naturalistas como decoração é
típica da arte românica, mas os drapeados das roupas das figuras e outros detalhes
fogem ligeiramente das convenções românicas e apontam para o estilo gótico”
(FARTHING, 2011, p. 109). Dessa forma, a intenção da iluminura era colocá-la na
claridade, para que pudesse refletir luz. E no contexto religioso, o reflexo da luz é
a própria luz de Deus. As iluminuras tiveram destaque no estilo gótico, que será
estudado a seguir:

FIGURA 63 – ILUMINURA DE FRA ANGÉLICO

FONTE: Disponível em: <http://artsfuse.org/wp-content/uploads/2011/05/


GWC-Illuminated_manuscript_2.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2017.

87
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Para sintetizar a arte românica, destacamos algumas características, como:

• As figuras na arte pictórica apresentam proporções disformes, com tendência


para a geometrização dos corpos, além de estarem em primeiro plano.
• Cores planas, sem sombras e volume tanto nas formas humanas quanto nas
vestimentas.
• As composições complexas entre primeiro e segundo plano, sendo que o primeiro
plano se destacava, trazendo a figura principal no centro, olhos expressivos,
mãos maiores, para que o gesto que estava sendo feito fosse valorizado.

Portanto, essas características não objetivavam o realismo, mas proferir o


sobrenatural de forma simbólica.

A seguir estudaremos o estilo gótico, trazendo novos elementos culturais.


Este estilo surgiu na Europa, mais precisamente na França.

4 ESTILO GÓTICO
O estilo gótico surge na Europa, tendo seu apogeu na França em meados do
século XII, mesmo que a arte românica ainda predominasse. No entanto, começam
a aparecer mudanças como na arquitetura, devido à vida social estar fortemente
ligada aos centros urbanos e não mais no campo. Segundo Proença (2011, p. 74).

No século XII uma nova arquitetura foi ganhando espaço. No século


XVI, os estudiosos começaram a chamá-la, desdenhosamente, de
gótica: segundo eles, sua aparência era tão “bárbara” que ela poderia
até ter sido criada pelos godos, povo que invadira o Império Romano
e destruíra muitas de suas obras. Mais tarde o nome gótico perderia
o seu caráter depreciativo e se ligaria definitivamente à arquitetura
caracterizada pelos arcos ogivais.

As mudanças se tornam visíveis nas igrejas. Enquanto a românica tem um


portal de entrada apenas, a gótica terá três, com esculturas associadas a eles, além
de ser enriquecida com outros elementos, como a rosácea – que é um vitral, com
forma semelhante a uma flor, sobre a porta central. Outro aspecto é a abóbada de
nervuras, que deixa visíveis os arcos ogivais, além de deixar as igrejas mais altas
e mais claras, com grandes áreas preenchidas por vidros coloridos chamados de
vitrais. De acordo com Gombrich (1999, p. 189), “as paredes das novas igrejas não
eram frias, nem assustavam. Eram formadas de vitrais policromo que refulgiam
como rubis e esmeraldas”.

Ao entrar em uma igreja gótica você será acolhido pela claridade das
grandes janelas revestidas de vitrais que perpassam claridade e projetam cores no
chão. Já as fortalezas de Deus, que eram as igrejas românicas, por serem construções
robustas, seus interiores são frios e escuros. Exemplos de catedral gótica é a
Catedral de Notre-Dame, com destaque para a rosácea, e a Sainte-Chapelle, por ter
entre as colunas janelas com vitrais. As duas estão em Paris.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

FIGURA 64 – CATEDRAL DE NOTRE-DAME, PARIS, 1163

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c0/Notre_Dame_


de_Paris_DSC_0846w.jpg>. Acesso em: 7 jan. 2017.

FIGURA 65 - INTERIOR DA CATEDRAL SAINTE-CHAPELLE, PARIS

FONTE: Disponível em: <http://www.sainte-chapelle.fr/en>. Acesso


em: 7 jan. 2017.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

UNI

Os vitrais tinham por objetivo ilustrar as cenas bíblicas, contando as histórias


por meio de figuras num tempo em que uma pouquíssima parcela da população sabia ler.
Os vitrais, portanto, eram essenciais para guiar o povo de acordo com os ensinamentos
religiosos através das figuras ilustrativas. E eram uma das primeiras artes góticas da história.
A cor era elemento essencial para os vitrais, que, através da luz que vinha de fora da
igreja, despertavam a curiosidade das pessoas em relação às histórias contadas em forma
de ilustração. Era um meio de atrair a população às igrejas, com adornos e formas jamais
então vistos nas paredes cinzas das catedrais. Há teorias que afirmam que as histórias
eram ilustradas nas janelas, e não nas paredes, por causa da luminosidade que remetia à
ideia do espírito da luz que atingia os lugares santos, dentro de uma concepção religiosa.
A janela, colorida e iluminada, era uma metáfora de portal entre um mundo e outro, entre
o universo terreno e o espiritual. Nos vitrais também se vê a promessa bíblica da salvação,
do paraíso e da vida após a morte terrena, fatos que levavam o povo a frequentar a igreja
na esperança de todos serem recompensados após a morte. Esta arte era mais uma forma
de pregação que a Igreja encontrou para chamar os fiéis a uma vida centrada nas escrituras.
Hoje, os vitrais não são suficientes para atrair as pessoas a uma vida religiosa, no entanto, eles
atraem pelo belo aspecto, pela história e pela riqueza artística.
FONTE: Disponível em: <http://obviousmag.org/archives/2014/03/a_historia_dos_vitrais.html>.
Acesso em: 7 jan. 2017.

A pintura gótica teve um importante espaço, os vitrais dominavam as


igrejas e catedrais góticas. Segundo Janson (1993, p. 481), “o vitral aparece como
um elemento integrante da arquitetura gótica, desde o início [...]”. Nesse contexto,
o vitral ocupa o lugar que antes era das iluminuras – marca das igrejas românicas.

As pinturas, mesmo que não tão aparentes, tiveram seu desenvolvimento


nos séculos XIII e XIV, quando a arte pictórica abriu as portas para o Renascimento,
por meio do aparecimento de figuras mais realistas. Um pintor que teve destaque
nesse período foi Giotto di Bondone (1266-1337). A maior parte de seus trabalhos
se constitui de afrescos que decoravam as igrejas.

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TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

FIGURA 66 - GIOTTO. A LAMENTAÇÃO. CAPELA DE SCROVEGNI, PÁDUA, ITÁLIA,


1303-1305. AFRESCO, 1,85M X 2,00CM

FONTE: Disponível em: <https://www.portalartes.com.br/cl%C3%A1ssicos/154-giotto-


di-bondone.html>. Acesso em: 7 jan. 2017.

Uma das características da pintura de Giotto foi trazer as figuras de santos


como pessoas comuns, que ocupavam posições centrais. Assim, “ele nos prova de
um modo tão convincente como cada figura reflete a dor profunda suscitada pela
trágica cena, que não podemos deixar de pressentir a mesma aflição nas figuras
agachadas cujos rostos não podemos ver” (GOMBRICH, 1999, p. 189).

O artista pode ter sido o fio condutor da mudança na forma de pensar a


pintura, pois na arte bizantina, as imagens, ou melhor, ícones, eram chapadas, sem
vida, apenas retratadas por ordens superiores, sem o artista trazer sua riqueza
estética.

UNI

Assista ao filme O nome da rosa, que poderá auxiliar na compreensão do contexto


religioso e histórico que a Europa viveu entre os séculos XV e XVI.

91
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Para ampliar a riqueza artística, vieram acrescentar os retábulos, que


consistem em dois, três, quatro ou mais painéis, que podem ser fechados uns
sobre os outros, e abertos durante as celebrações religiosas. Para cada número de
painéis há um nome específico: dois painéis, díptico; três painéis, tríptico; quatro
painéis, políptico (PROENÇA, 2011). Um artista que conquistou espaço com seus
painéis foi Jan van Eyck (1390-1441), além de introduzir a pintura a óleo que os
renascentistas usufruirão.

Um dos polípticos mais famosos do artista Jan van Eyck foi composto por
20 quadros. Como podemos ver na figura a seguir, o registro superior traz Deus
entre São João Batista e a Virgem Maria, e ao lado, anjos tocando e cantando. Já na
parte inferior traz a adoração ao cordeiro de Deus.

FIGURA 67 – JAN VAN EYCK. ROTÁBULO DO CORDEIRO MÍSTICO. 1426-1432. ÓLEO SOBRE
TELA

FONTE: Catedral de São Bavão, na Bélgica

As pinturas de Giotto e Jan van Eyck mostram que a pintura não é somente
um registro, mas testemunho de mudanças na arte, proporcionando emoção na
pintura, como no emaranhado político, social e religioso advindo no Renascimento,
que será estudado no próximo tópico.

Para finalizar, trazemos algumas características que foram destaque no


estilo gótico, como:

• Rosácea.
• Vitral.

92
TÓPICO 1 | ARTE NA IDADE MÉDIA: A ARTE BIZANTINA E OS ESTILOS ROMÂNICO E GÓTICO

• Pintura a óleo.
• Retábulos.

Essas características marcam o gótico, sendo a pintura a óleo destaque no


Renascimento, período que vamos estudar posteriormente.

Dica de Atividade: rosácea ou vitral

Para desenvolver a técnica com materiais


acessíveis e de fácil manuseio, você vai precisar de:

- várias folhas de caderno


- cartolina preta
- folha celofane (várias cores)
- tesoura, fita durex.

1º passo: fazer exercício de corte em folhas de caderno. Corte em círculo


a folha, dobre três vezes pelo menos, e faça cortes onde estão os vincos. Abra a
folha e verá várias formas que surgiram, e ficará de forma simétrica. Depois de
treinar, vamos para a próxima etapa.

2º passo: fazer o mesmo processo do passo 1 na cartolina preta. Depois


que estiver pronto, escolha um lado para ser o verso, onde serão colados os
pedaços de folhas celofane.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

3º passo: exposição. Ao trabalhar com seus alunos, procure, juntamente


com eles, um espaço na escola para realizar a exposição do trabalho.

Dica: procure estimular os alunos a cortarem círculos de vários


tamanhos, assim, a exposição ficará com outro visual. E por que não colar
os exercícios em folha branca entre os trabalhos? Discuta a montagem com
eles, é importante a relação professor/aluno nesse momento. Veja a proposta
curricular do seu município ou Estado, para inserir a atividade.
FONTE: A autora

94
RESUMO DO TÓPICO 1
Nesse tópico você viu que:

• A arte bizantina tem forte ligação com a religião, artistas não conhecidos da
época executavam pinturas, mosaicos e afrescos para o clero.

• Os temas de pintura eram religiosos, com passagens da Bíblia, facilitando


o entendimento das pessoas por meio da linguagem visual, pois muitas não
sabiam ler e escrever. Um destaque cabe ao uso de retábulos para a pintura.
Os mosaicos tinham maior destaque, sempre representando o imperador e a
imperatriz como sendo os representantes de Deus.

• A arte românica teve na arquitetura a construção de igrejas pesadas, robustas e


escuras.

• Um marco da arte românica são as iluminuras, mas que tiveram maior


representatividade na arte gótica, que era a arte de desenhar a letra no início do
texto, e ainda, enriquecer com elementos figurativos e dourado que brilhava,
como forma de refletir a luz de Deus.

• A arte gótica está ligada à arquitetura, marcada pelas catedrais com suas rosáceas
e vitrais nas janelas grandes, trazendo claridade para a parte interna.

95
AUTOATIVIDADE

1 A civilização bizantina floresceu na Idade Média e proporcionou sua arte


por meio da religião. A contribuição artística da arte bizantina teve seu
apogeu:

( ) Nas construções de aquedutos e templos de adoração, para a população


admirar as ideias do imperador.
( ) Nos mosaicos são representadas, principalmente, as figuras do imperador
e da imperatriz.
( ) As molduras das pinturas tinham folhas de ouro e pedras preciosas coladas
para mostrar a riqueza e o poder da pessoa representada na pintura.
( ) Nos vitrais das igrejas romanas, que serviam para iluminar os fiéis, quando
entravam e depois saíam, assim, ficaram protegidos contra os males durante
toda a semana.
( ) Nos vitrais das igrejas romanas, que colocavam sobre as duas portas, da
entrada e saída dos fiéis, para iluminar e proteger os fiéis durante a semana.

2 As construções religiosas, como igrejas e catedrais, provêm mais precisamente


da Idade Média. Porém, cada construção teve características peculiares,
devido à interposição de imperadores e o clero, em um período histórico
marcado pelo poder em forma material. Observe as imagens arquitetônicas
que caracterizam a Idade Média, e analise as seguintes sentenças:

Figura 1 – Igreja São Pedro de Rates, século Figura 2 – Catedral de Tours, 1170 e 1547
XII-XIII

FONTE: Disponível em: <http://www. FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.


skyscrapercity.com/showthread. org/wiki/Catedral_de_Tours#/media/
php?t=270373>. Acesso em: 23 jan. 2017. File:Tours_cathedrale_face_NS_ter.jpg.
Acesso em: 23 jan. 2017.

96
I – A Figura 1 corresponde a uma construção pesada, com uma porta central,
marcando o período românico.
II – A Figura 2 corresponde a uma catedral alta, com rosácea e três portas
centrais, marcando o período gótico.
III – Os capitéis das igrejas românicas trazem personagens da Bíblia,
enriquecendo o ambiente religioso.
IV – As catedrais, ao contrário das igrejas góticas, são mais claras internamente
por terem janelas maiores e com vitrais que ajudam a passar claridade e
iluminando o ambiente.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:


( ) Somente a sentença IV está correta.
( ) As sentenças I e III estão corretas.
( ) As sentenças I, II e III estão corretas.
( ) Somente a sentença III está correta.

Assista ao vídeo de Assista ao vídeo de


resolução da questão 1 resolução da questão 2

97
98
UNIDADE 2 TÓPICO 2
AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA:
RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico vamos mergulhar no mundo da arte europeia, como
anteriormente. No entanto, o que difere dos outros momentos históricos é que o
homem começa a entender o ser e estar no mundo. Assim, a Igreja deixa de ser a
redentora e o homem começa a ter identidade, influenciado pelo antropocentrismo,
proporcionando mudanças no contexto onde vive. Claro que não foi um mundo
de sonhos, ocorreram intempéries econômicas e sociais entre a burguesia e a classe
mais baixa.

Porém, o que abrilhantou o Renascimento foram as manifestações artísticas,


fazendo a arte renascer novamente. Você deve se perguntar: como renascer, se no
tópico anterior havia pinturas, mosaicos e esculturas? Sim, elas foram realizadas,
mas você lembra a cunho de quem? De ordens religiosas. Recorde comigo. Na
Unidade 1, nos estudos das civilizações antigas, os artistas não tiveram imposições
para produzir artisticamente, criavam para expressar na arte o que realizavam
no seu cotidiano, ou mesmo para se desafiarem a fazer sempre melhor. Por
isso, os artistas do Renascimento tiveram seu olhar voltado para a arte antiga,
onde estudaram as riquezas culturais e trouxeram para a sua realidade, e claro,
enriquecendo suas produções artísticas. Assim, o renascer artístico trouxe vida
em cada pincelada, em cada gesto ou expressão criados pelos maiores mestres
da pintura e da escultura, que foram o marco do período. E lembre-se, depois do
Renascimento, cada vez mais o artista que dominava várias técnicas pictóricas,
escultóricas e arquitetônicas realiza mudanças nos países europeus. Por onde se
pode passar, a identificação do período se torna mais evidente. Então! Vamos
desvendar a arte do Renascimento até o rococó? Ou melhor, se o Renascimento
impulsionou o renascer, então, – vamos estudar!

2 RENASCIMENTO, DO VERBO RENASCER – DO HOMEM, DA


SOCIEDADE E DA CULTURA
O Renascimento foi um movimento cultural que se desenvolveu no final
da Idade Média, a partir dos séculos XV e XVII na Europa. Para Proença (2011),
o Renascimento não foi apenas um retorno à arte greco-romana, mas a máquina
propulsora que seria o ideal de humanismo. De forma ampla, a valorização do ser
humano, da natureza, e a oposição ao divino, como era imposto na cultura da Idade

99
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Média até o estilo gótico. Nas palavras de Gombrich (1999, p. 223), Renascença
“[...] significa nascer de novo ou ressurgir, e a ideia de tal renascimento ganhava
corpo na Itália desde a época de Giotto”.

A maior mudança, entretanto, foi de mentalidade, pois já tinham


consciência de que os tempos estavam mudando. A partir de Giotto, os italianos
convenceram-se definitivamente de que era possível resgatar o esplendor clássico,
obscurecido por séculos de domínios bárbaros, além da pintura e da escultura
serem considerados “trabalhos manuais”. Foi a partir deste artista que as portas
se abriram para o Renascimento, trazendo uma nova forma de pensar e fazer arte,
pois os homens do Renascimento repudiavam a época medieval e opunham-se
ao misticismo, ao coletivismo, ao antinaturalismo, teocentrismo e geocentrismo,
surgindo o homem que questiona.

Nesse sentido, o traço marcante foi o racionalismo colocando o homem


como o centro dele, começando os questionamentos acerca do papel do homem
no mundo e a capacidade em transformá-lo em seu benefício. A arte começou a
prosperar, onde muitos queriam eternizar o nome da família por meio das diversas
expressões da arte, tendo seus ambientes decorados por eles. Onde muitos artistas
ganharam prestígio não apenas por executar inúmeros trabalhos, mas também por
serem incentivados pelos mecenas, que eram os protetores dos artistas. Eram eles
que tinham status, poder e respeito dentro de uma sociedade, patrocinando a arte.
Os mecenas, por terem prestígio, auxiliaram a economia e a política da época.

Nesse contexto de evolução entram os monarcas, que também investiram


na arte, construindo igrejas, catedrais e capelas, onde enterravam os mortos.
Esculturas foram colocadas em praças e locais públicos para homenagear os heróis,
e ainda, quadros e afrescos adornaram casas e prédios públicos, destacando as
cenas religiosas.

Para Proença (2011), o Humanismo foi o espírito do Renascimento, abrindo


caminhos para o florescimento artístico e cultural, onde o artista pôde expressar
sua racionalidade, trazendo seu lado humano e sensível, emitindo por meio
das esculturas, arquiteturas e pinturas a transformação sociocultural. A palavra
transformação consiste em um esforço que os artistas faziam para imitar a arte
clássica, por isso, eles se educaram para apreciar a arte de maneira mais sensível.
Passaram anos estudando para aprender as técnicas, preparar pigmentos, para
então iniciar suas próprias produções de arte, e com isso surgiu a pintura sobre
cavalete, sendo mais fácil para transportar cenas paisagísticas, inspiração em cenas
religiosas e composições de figuras humanas.

Além da pintura ser destaque no Renascimento, a arquitetura teve seu


espaço, com dois grandes nomes, como Filipo Brunelleschi (1377-1446) e Donato
Bramante (1444-1514). Filipo foi pintor, escultor e arquiteto, mas o lado que lhe
favoreceu mais foi o da construção, que o levou a projetar a Catedral de Santa
Mara del Fiore com colunas coríntias e elementos românicos nesta arquitetura,
tornando-o conhecido na Itália.

100
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 68 - CATEDRAL DE SANTA MARIA DEL FIORE, 1296-1436

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/6/67/santa_maria_del_fiore.jpg>. Acesso em: 9 jan. 2017.

Na escultura, o artista buscou representar o homem real, inclusive em seu


tamanho natural. No entanto, os artistas que se destacaram neste período foram:
Miguel Ângelo di Lodovico Buonarroti Simon, o Michelangelo (1475-1564) e
Verrochio. “Andrea del Verrochio (1435- 1488) trabalhou com ourivesaria, o que
acabou por influenciar sua escultura. Em algumas de suas obras encontramos
detalhes decorados que lembram o preciosismo do trabalho de ourives”
(PROENÇA, 2011, p. 105). Uma das suas obras que trazem marcas do trabalho de
ourives é a túnica na escultura de Davi.

FIGURA 69 – ANDREA DEL VERROCHIO. DAVI. MUSEU


NACIONAL DEL BARGELLO, FLORENCE, 1473 –
1475. BRONZE,125 CM

FONTE: Disponível em: <http://www.italian-renaissance-art.com/


Verrocchio.html>. Acesso em: 9 jan. 2017.

101
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

A escultura de Davi, do artista Michelangelo, traz um corpo mais torneado,


sem vestimenta, de fato, voltando ao período grego. No entanto, “[...] a mão é
colossal, mesmo na proporção da estátua. É a mão de um homem do povo, forte e
acostumado ao trabalho” (PROENÇA, 2011, p. 105).

FIGURA 70 - MICHELANGELO. DAVI - GALERIA DELL’ACADEMIA, FLORENÇA, ÍTÁLIA. 1501-1504.


MÁRMORE DE CARRARA, 4,34M

Detalhe das nervuras na mão


de Davi
FONTE: Michelangelo (2011, p. 49)

Além desses traços físicos mencionados, a expressão facial denota traços


mitológicos, mostrando esse retorno sensível que Michelangelo fez nos estudos da
arte greco-romana. O artista deixou sua marca escultórica, mas, para tal, aprimorou
o que era importante para o desenvolvimento da tridimensionalidade: o desenho.
Aos poucos os traços iam se conectando suavemente, ganhando sombreamento,
volume e surgindo corpos em movimento. Esses desenhos auxiliaram no
desenvolvimento de esculturas, como o Davi, considerado uma das mais notáveis
obras da Renascença.

UNI

Michelangelo não foi um menino estudioso. Seus cadernos estavam permeados


de inúmeros esboços.

102
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

O artista dedicou sua vida à arte, fez esculturas parecendo libertar as


pessoas dos blocos de mármore. Libertou do bloco a escultura, chamada de Pietá.
Nessa obra ele se apoderou de todas as fontes da arte. Além dos maravilhosos
drapeados e ornamentos, destaca-se o corpo de Cristo morto. Para fazer a escultura,
o que muito lhe ajudou, foram os desenhos de anatomia. Na época era possível
desenhar pessoas mortas, onde ele procurava ver cada detalhe da pele, como veias
e músculos. Esses detalhes ele procurou trazer na escultura, tornando-a mais real.
De fato, é um prodígio que, de um bloco tão grosseiro, seja tirada tanta perfeição.
Vejamos a seguir a obra que nos deixa perplexos por sua grandeza.

FIGURA 71 – MICHELANGELO. A PIETÁ, MÁRMORE. 1498- 1499. 1,74 X 1,95M.

FONTE: Proença (2011, p. 106)

Além de sua sensibilidade com a tridimensionalidade, Michelangelo


concebeu a representação da figura humana, sem espaço para as paisagens.
No afresco realizado dentro da Capela Sistina, onde realizou cenas do Antigo
Testamento, podemos notar que o primeiro plano se destaca pelo cuidado com que
foram construídos os personagens, enquanto o segundo plano – o fundo, quase
não se destaca.
Nesse afresco, Deus aparece como um homem de cabelos e barba
branca e corpo vigoroso. Cercado por anjos, ele estende a mão para
tocar a de Adão, representado como um homem jovem, cujo corpo
forte e harmonioso concretiza magnificamente o ideal da beleza do
Renascimento (PROENÇA, 2011, p. 103).

103
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 72 – MICHELANGELO. DETALHE DA OBRA – A CRIAÇÃO DO HOMEM, AFRESCO


DO TETO CAPELA SISTINA, NO VATICANO. 1508-1512. 280 X 570

FONTE: Proença (2011, p. 103)

Entendemos que a figura “A criação do homem” nos proporciona a


ligação entre Deus e o Homem, mostrando a beleza do Renascimento. Para maior
compreensão da grandeza do trabalho do artista, veja a figura a seguir da pintura
do teto da Capela Sistina pintada pelo artista. Vale destacar que foi uma pintura
realizada em todo o teto, mostrando o potencial artístico.

FIGURA 73 - MICHELANGELO. TETO DA CAPELA SISTINA – PALÁCIO DO VATICANO,


ROMA.1508-1512. AFRESCO

FONTE: Michelangelo (2011, p. 55)

O Renascimento abriga um enorme acervo de manifestações artísticas e de


grandes mestres da pintura. Vejamos alguns deles:

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi muito versátil, se tornou pintor, escultor,


engenheiro, matemático, entre outros campos do conhecimento onde teve passagem.
Apesar de uma grande caminhada pelo mundo da arte, realizou poucas pinturas e

104
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

muitas ficaram inacabadas. “Da Vinci manifestou grande interesse pela anatomia
humana e procurou reproduzir com realismo o corpo humano” (PROENÇA, 2011,
p. 101). Esse interesse foi aflorado com as aulas que teve com Verrochio – escultor
e ourives, além de pintor. Ele estudava a anatomia dos corpos, desenhando por
observação, para conhecer melhor como representar na pintura. Para isso chegou
a dissecar cadáveres, inclusive o feto dentro do útero. Percebendo-se assim, a
presença da anatomia em seus quadros. Trouxe ainda uma linha de perspectiva
e uma nova representação do espaço, sendo contínuo e de transformação, bem
como inseriu em algumas pinturas a profundidade. A obra Santa Ceia foi pintada
na parede de fundo da Igreja Santa Maria dele Grazi e mostra o momento em que
Jesus anuncia que será traído por um dos seus discípulos.

FIGURA 74 – LEONARDO DA VINCI. SANTA CEIA, 1495 – 1497. TÊMPERA À BASE DE ÓLEO
SOBRE DUAS CAMADAS DE PREPARAÇÃO SOBRE A PAREDE, 460 X 880 CM

FONTE: Leonardo da Vinci. Grandes Mestres (2011, p. 96)

A partir da visualização da imagem acima é possível perceber que, nesse


momento, os discípulos reagem com expressões e movimentos diversos.

Outro ponto a se destacar é a impressão de profundidade e a claridade


vista no lado direito. O artista dominou o jogo de luz e sombra, parecendo real
(PROENÇA, 2011). Segundo Janson (1993b, p. 639), a obra “tem sido sempre
reconhecida como a primeira afirmação clássica dos ideais da pintura do
Renascimento pleno tradicional. A pintura apresentou problemas anos depois
da sua realização, foi restaurada pelo próprio artista inserindo têmpera de óleo.
A mistura de técnicas não foi bem aceita, mas ela vem sendo cuidada pelos
restauradores para manter a sua integridade histórica e artística.

Outro quadro dele que apresenta sensação de profundidade é “A Virgem


dos Rochedos”, pela luz entre as pedras atrás da imagem de Maria.

105
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 75 - A VIRGEM DOS ROCHEDOS, 1483-1486

FONTE: Proença (2011, p. 103)

Outro quadro muito famoso mundialmente é a Monalisa, conhecida por


Gioconda. A obra apresenta curiosidade para quem a contempla. O seu rosto com
ar de mistério se destaca mais do que todo o trabalho técnico de profundidade
e luminosidade – por meio do sfumato, inovação do artista, onde a técnica da
pintura atenua as linhas e contornos que separam as formas, dando a impressão
de esfumaçado; o chiaroscuro, claro e escuro – estudo do uso da luz e sombra e seus
contrastes, como forma de acentuar a impressão de volume das figuras, como no
drapeado da roupa, nas mãos delicadas, que com suavidade foram pintadas; além
de destacar a mulher em primeiro plano. O uso da luz e sombra será acentuado no
período Barroco para criar imagens mais carregadas de dramaticidade (PROENÇA,
2011).

106
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 76 – LEONARDO DA VINCI. MONALISA, 1503-1505. ÓLEO


SOBRE MADEIRA, 77 X 53 cm

FONTE: Proença (2011, p. 102)

O artista deixa outros legados pictóricos, como: Anunciação, Virgem com


o Menino, Batismo de Cristo, Dama com Arminho, Retrato de Músico, Retrato
de Mulher e outros estudos. De fato, “sua arte, caracteristicamente lírica, revela
uma crença imperiosa na natureza como fonte de inspiração (BECKETT, 1997, p.
80). Portanto, Da Vinci deixou um legado artístico que traz indagações para quem
procura ver de perto sua obra.

107
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

UNI

Na oficina de Verrocchio, Leonardo teve o aprendizado que levaria para toda a


vida. Aprendeu as técnicas da fundição e seus segredos; a partir de modelos nus e vestes
drapeadas, aprendeu a preparar quadros e esculturas; aprendeu a desenhar animais e plantas,
bem como, teve uma base sólida no aprendizado da perspectiva e no uso das cores. Da Vinci
foi um artista cuja genialidade despertou a curiosidade por quase tudo na natureza. Foi um dos
primeiros a sondar os segredos do corpo humano e o desenvolvimento dos fetos no útero,
dissecando cadáveres. Observou o voo dos pássaros e insetos, o crescimento das plantas, as
formas, sons e cores da natureza, que, por sua vez, dariam base à sua arte. Além disso, dedicou-
se a escrever da direita para a esquerda, de maneira que suas anotações só poderiam ser lidas
refletidas no espelho, e foi o inventor de uma técnica que os italianos chamaram de “sfumato”,
que consistia em fazer com que uma forma se misturasse a outra por meio de contornos
embaçados e cores suaves. Leonardo da Vinci recusava-se a entregar uma encomenda de um
quadro enquanto não estivesse satisfeito com ela. Como inventor, criou centenas de projetos
de hidráulica, cosmologia, geologia, mecânica, música e audaciosos projetos de engenharia.
Na década de 1960, em Madri, descobriu-se mais de 700 páginas de desenhos sobre aviação,
arquitetura e engenharia mecânica, datadas entre 1491 e 1495. Muito embora a maioria de seus
projetos nunca tenha saído do papel, é inegável a sua contribuição para as ciências.
Fonte: Disponível em: <http://www.infoescola.com/biografias/leonardo-da-vinci/>. Acesso em:
10 jan. 2017.

Outro importante artista do Renascimento foi Rafael Sanzio (1483-1520),


que trouxe como marca maior os ideais clássicos. Os seus trabalhos eram muito
elaborados e foi transformado como modelo para o ensino nas academias de
pintura. Uma das suas gloriosas obras é “A Escola de Atenas”, além das obras “A
libertação de São Pedro” e “Transfiguração”.

FIGURA 77 – RAFAEL. A ESCOLA DE ATENAS, 1509-1511

FONTE: Proença (2011, p. 104)

108
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Nessa obra, o artista traz no centro os filósofos Platão e Aristóteles e, no seu


entorno, sábios e estudiosos (PROENÇA, 2011), sendo um afresco que apresenta
a sabedoria da antiguidade por meio de muitos estudiosos em volta dos dois
filósofos, enquanto o segundo plano coube a uma enorme estrutura grega, baseada
no período clássico. Esse foi o modo de representar o espaço e ordenar as figuras,
mostrando o profissionalismo de Rafael, cujo trabalho se transformou em modelo
para muitos novos artistas iniciantes.

O modelo greco-romano transcendeu várias regiões da Europa, chegando


aos Países Baixos, território que antes era dominado pelo estilo gótico. Assim,
alguns artistas meio que integraram os estilos gótico e renascentista, como: Dürer,
Hans Holbein, Bosch e Bruegel.

Albrecht Dürer (1471-1528) foi um dos artistas a se consagrar como


protagonista do Renascimento alemão. Se tornou famoso pelos retratos que fez de
si e de outras pessoas. Um destaque, ou característica do seu trabalho, foi eliminar
o uso da geometria para realizar as figuras humanas, de que outros artistas se
apropriavam. Seu feito era usar traços imaginários e observação da natureza para
conseguir produzir seus trabalhos.

O célebre pintor conseguiu fundir o amor pela forma, o uso generoso da


cor e o profundo sentimento típico da tradição italiana com a precisão
meticulosa, a fantasia e as visões exasperadas próprias da cultura alemã,
obtendo resultados de altíssimo nível. (IMPELLUSO, 2009, p. 42).

Denota-se que Dürer foi um precursor no Renascimento alemão, trazendo


desafios da mistura do Renascimento com o gótico e promovendo uma nova
interpretação humanística na arte, como podemos ver na imagem a seguir:

109
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 78 - DÜRER. SANTA ANA, 1519, MUSEU METROPOLITANO DE


ARTE, NOVA YORK

“[...] parece que para o


rosto de Santa Ana – aqui
representada com a mão
apoiada no ombro da jovem
filha em sinal de proteção e
de afeto – o artista executou
o retrato da sua mulher,
Agnes (IMPELLUSO, 2009,
p. 42).
FONTE: Dürer (2009, p. 42)

Além de realizar figuras humanas, buscou reproduzir animais, mas para


isso foi necessário dominar a técnica do desenho, da pintura e da observação.

FIGURA 79 - LEBRE DE CAMPO, 1502

FONTE: Proença (2011, p. 108)

Outro renascentista foi Hans Holbein (1498-1543), conhecido como um dos


melhores retratistas de personalidades políticas e intelectuais dos Países Baixos
(PROENÇA, 2011), como podemos ver nas figuras que seguem, uma personalidade
da época, como Henrique VIII, e um intelectual, por meio da pintura "Retrato" de
Erasmo de Roterdã.

110
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 80 - HOLBEIN. HENRIQUE VIII, 1542. ÓLEO E TÊMPERA, 219 X 66 CM

FONTE: Disponível em: <http://www.portalgosto.com.


br/o-rei-henrique-viii-era-excentrico-e-sabia-disso/>.
Acesso em: 10 jan. 2017.

FONTE: Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Henry_VIII_of_England#/media/File:Hans_


Holbein_d._J._048.jpg>. Acesso em: 10 jan. 2017.

UNI

Se você quiser conhecer um pouco mais sobre Henrique VIII, assista à série “The
Tudor”. É uma série que aborda os primeiros e tumultuosos anos do reinado de Henrique VIII
da Inglaterra.

FIGURA 81 - HOLBEIN. RETRATO DE ERASMO DE ROTERDÃ,


JOVEM QUE ESCREVE, MUSEU DO LOUVRE, PARIS,
1523. 36.8 X 30.5 CM

FONTE: Holbein (2011, p. 14)

111
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

No Renascimento começou a surgir uma pintura com um estilo diferente.


O artista Hieronymus Bosch (1450-1516) trouxe elementos que muitas vezes
parecem sair de sonhos ou delírios. Por que o artista faria uma pintura totalmente
diferente um dos outros artistas?

“Alguns críticos veem na pintura de Bosch a representação do conflito que


inquietava o espírito humano no fim da Idade Média: a tensão entre o sentimento
do pecado ligado aos prazeres materiais e a busca das virtudes de uma vida ascética
(PROENÇA, 2011, p. 110).

Vejamos a obra que apresenta essa mistura de conflitos. Delicie-se ao


contemplar “O Jardim das Delícias”.

FIGURA 82 – BOSCH. TRÍPTICO DO JARDIM DAS DELÍCIAS, MUSEU DO PRADO, MADRI. 1480-1490

FONTE: Quadro à esquerda – O paraíso terrestre. Grandes Mestres (2011, p. 52)


Quadro central – O jardim das delícias. Grandes Mestres (2011, p. 46)
Quadro da direita – O inferno musical. Grandes Mestres (2011, p. 54)

Acadêmico! Sugiro analisar com calma os elementos que compõem a


obra do artista, fazendo-o viajar pelo mundo da astrologia e da magia. Observe
também que o quadro apresenta três divisões, ou melhor, são três quadros que
se complementam. Em outro momento estudamos o nome apropriado para esta
forma de arte. Caso não lembre, volte ao capítulo anterior!

Nesse contexto, as divisões contam histórias. O primeiro painel, na


esquerda, traz dois personagens bíblicos, que trazem vida humana no planeta
Terra. Quem são esses personagens? Pense! O painel central traz o envolvimento
de jovens e nuas que se deliciam entre conversas, bem como se deliciam com aves,
frutas, peixes, mostrando a abundância da vida e o desejo de se agradar com o que

112
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

é oferecido. Um papel especial é ocupado pelos negros, que provocam estranheza


e fascínio pelos jovens europeus.

O terceiro painel, da direita, é o mais escuro, mostrando o lado terrível do


exagero, e descreve o castigo dos pecados da carne e de outras questões, virando
um inferno. A obra traz personagens aflitos, ao fundo chamas, representando
guerra. Esse último painel representa a punição de tudo que o homem fez.

Se fosse fazer uma releitura do quadro, como você iria reproduzi-lo? Qual
expressão artística seria propícia para a execução? Quais seriam os personagens
centrais? Qual seria o lugar? Pois bem, várias foram as perguntas, mas cabe a reflexão
de olhar o trabalho do artista Bosch, ou de outro artista de qualquer momento da
história da arte, e trazer para o tempo presente, para nos questionarmos como
a produção artística e cultural evoluiu e vem evoluindo constantemente, assim,
auxiliando as pessoas a se tornarem mais sensíveis, vendo o mundo não só de
forma objetiva-racional, mas de forma subjetiva – pelas emoções e percepções. Que
tal trazer um pouco do olhar da criança que está adormecida na forma de expor o
que vê e sente quando está diante de qualquer obra de arte?

Nesse contexto, veja, a seguir, a imagem “Jogos Infantis”, do artista Pieter


Bruegel (1525-1569), e escreva o seu relato. Discuta com seu tutor e com seus
colegas do curso. Abra a sua caixa de memórias, viaje no seu tempo de infância
e também procure lembrar e conectar com outras obras de arte que conheça. Mas
não esqueça, o mais importante é exercitar a discussão e a leitura de imagem,
futuro professor de Artes!

FIGURA 83 – BRUEGEL. JOGOS INFANTIS, ÓLEO SOBRE TELA, 1560

FONTE: Proença (2011, p. 111)

113
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Escreva o seu relato da imagem “Jogos Infantis”.


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O artista volta seu olhar para o cotidiano, reproduzindo a vida do povo.


Para saber mais do artista Pieter Bruegel, pesquise! Tente conhecer quais outras
riquezas artísticas ele registrava em suas telas. Faça seus registros!

Estamos finalizando o estudo referente ao Renascimento. Portanto,


trazemos uma charge para reflexão. O despertar do “Renascer”, ocorrido no século
XV, acaba sendo mais atual que o pensar do homem na atualidade no que tange
às artes e à cultura? Veja a charge, reflita e discuta com seus colegas e tutor como
uma pintura ou mesmo escultura de “nus” no tempo presente é recebida pela
sociedade?

FIGURA 84 - CHARGE

FONTE: Disponível em: <http://www.historialivre.com/moderna/renascimento.htm>.


Acesso em: 21 jan. 2017.

114
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Trazemos um pouco deste grande universo da história da arte renascentista.


Se até o momento a arte mexeu de alguma forma com você, é sinal de que provocará
ainda mais. Vamos continuar os estudos avançando, com um pé no maneirismo.

3 MANEIRISMO
Antes de falarmos do movimento do Maneirismo, faz-se necessário saber
que houve um conflito na Igreja Católica, levando a uma reforma religiosa. Essa
reforma levou muitos fiéis e até artistas a se tornarem protestantes. O clero
tentou solucionar, vendendo indulgências, pagando artistas para realizarem
mais trabalhos, mas não adiantou. Com isso, muitos artistas, que moravam na
Alemanha, tiveram dificuldades em ter trabalho, onde se concentrou o maior
número de luteranos. Um artista que mudou de país foi Hans Holbein. Houve
artistas que ficaram, pois pintavam temas diversos, além de retratos, facilitando
seu cotidiano.

A liberdade para se expressar na pintura, quando a convite da Igreja, abriu


portas para desavenças com o clero, pois para este a arte deveria ser a inspiração
para as pessoas analfabetas estarem mais perto da igreja e de Deus. Nesse contexto,
as pinturas de santos que pareciam estranhas eram retiradas dos templos, pois
distraíam os fiéis. Imagens que não estavam dentro do padrão religioso eram
também dúvida para artistas e para o clérigo. Com isso, muitos artistas se
apropriaram do que já era existente na arte e lhe deram uma nova roupagem,
abrindo caminhos para o Maneirismo.

Com a crise religiosa e o desafio de Martinho Lutero (1483-1546), no fim da


Idade Média e início da Idade Moderna, era hora de refletir sobre os conteúdos da
arte e nas suas formas de expressão. Os artistas renascentistas que haviam buscado
inspiração no modelo clássico, ou nos mestres que lhes ensinaram, começaram a
trazer uma identidade artística:

Homens como Miguel Ângelo e Rafael, Ticiano e Leonardo tinham


feito tudo o que gerações anteriores haviam tentado fazer. Nenhum
problema de desenho parecia ser demasiado difícil para eles, nenhum
tema demasiado complexo. Eles mostraram como combinar beleza
e harmonia com as mais célebres estátuas da Antiguidade grega e
romana. Para um jovem que ambicionava tornar-se um grande pintor,
essa opinião não seria, talvez, muito agradável de ouvir. [...] Alguns
pareciam aceitar essa ideia como inevitável e estudavam com empenho
para aprender o que Miguel Ângelo aprendera e imitar seu estilo da
melhor maneira possível (GOMBRICH, 2000, p. 363).

Alguns seguiram os passos de mestres como Michelangelo, outros


estudaram nas academias de arte a “maneira” dos mestres do Renascimento, dando
início ao Maneirismo. Muitas foram as críticas, por copiarem obras de artistas
grandiosos. Mas eles deram um novo traço para a arte – sendo anticlassicistas.
Demonstraram toque pessoal e expressivo, menos carregado de emoção, estilizando
os corpos. Dentre as principais características, podemos encontrar figuras que se

115
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

comprimem em pequenos espaços arquitetônicos; figuras humanas com corpos


alongados; a face apresenta traços misteriosos e melancólicos; o protagonista
da tela não se encontra na parte central, fazendo com que o olho esteja atento,
passando pela tela para encontrá-lo, bem como o sentimento religioso cedeu lugar
para a sensualidade que se deleita com a pureza das formas. Alguns artistas com
riqueza inventiva, exprimindo uma nova atitude, que foram destaque: El Greco,
Giusepe Arcimboldo e Tintoretto.

O artista italiano Giuseppe Arcimboldo (1527-1593) - pouca pesquisa se


tem a respeito da sua arte. Procurou realizar fisionomias humanas e para essas
figuras ele usou verduras, frutas, raízes, animais e objetos do cotidiano.

FIGURA 85 – ARCIMBOLDO VERTUMO,


FIGURA 86 - O ADMIRÁVEL
1591, ÓLEO SOBRE TELA,
70,5 X 57,5 CM

FONTE: Disponível em: <http://www.giuseppe-arcimboldo.org/>. Acesso em: 12 jan. 2017.

UNI

Trazemos algumas músicas, dentre muitas que você possa pesquisar, em que suas
letras remetam à alimentação. Nesse aspecto, que seja possível fazer uma relação com alguma
sequência didática ou projeto que venha a ser desenvolvido trazendo o artista Arcimboldo.
Seguem as sugestões de músicas: Titãs – comida; Gilberto Gil - Sítio do Pica-pau amarelo;
Marisa Monte - Não é proibido; Ney Matogrosso – Yes, nós temos bananas; Silvio Brito –Farofa;
e Gengis Klan – Comer, comer.

116
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

O artista El Greco (1541-1614), na obra Laocoonte, nos proporciona ver o


alongamento dos corpos, que no Renascimento não há.

Caro acadêmico! Você recorda da escultura com o mesmo título pertencente


ao período helênico? Volte à Unidade 1 para verificar. Observe a dramaticidade e a
teatralidade que ocorrem na obra clássica e a pintura reinterpretada por El Greco.

Denota-se que, mesmo sendo expressões artísticas e períodos históricos


diferentes, a forma como o artista entende, interpreta e realiza seu trabalho, mesmo
realizando pesquisas com base no que já existe, sempre haverá novas formas de se
escrever a história, no caso aqui, com foco no artístico.

FIGURA 87 – GRECO. LAOCOONTE – GALERIA NACIONAL, WASHINGTON, EUA,


1610-1614. ÓLEO SOBRE TELA, 142 X 193 CM

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:El_Greco_


(Domenikos_Theotokopoulos)_-_Laoco%C3%B6n_-_Google_Art_
Project.jpg>. Acesso em: 12 jan. 2017.

Essa obra em nossos estudos proporciona o término de mais um período,


onde novas pinceladas na história da arte serão dadas, com ares de mudança, para
o homem antropocêntrico, ávido na busca por mais descobertas e realizações nas
veredas do Barroco, que vai ser estudado a seguir.

4 BARROCO
A Igreja Católica precisava dos artistas para auxiliar na devoção a Deus.
Boa parte das imagens produzidas servia como propaganda para o catolicismo
e como estratégia no conflito entre protestantes e católicos, pois os maneiristas
não agradaram ao clérigo com suas obras inovadoras para a época, pois não eram
dramáticas. O Barroco surgiu no século XVII como forma de trazer novos olhares
diante da situação.
117
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

O mundo católico descobrira que a arte podia servir à religião de um


modo que superava a simples tarefa que lhe fora atribuída no começo
da Idade Média – a de ensinar a Doutrina a pessoas que não sabiam
ler. Agora poderia ajudar a persuadir e converter mesmo aqueles que
talvez tivessem lido demais. Arquitetos, pintores e escultores foram
convocados para transformar igrejas em exibições grandiosas, cujo
esplendor e glória quase nos cortam a respiração. O que importa nesses
interiores são menos detalhes do que o efeito de conjunto (GOMBRICH,
2000, p. 437).

Como Gombrich (2000) destacou, não cabe à singularidade artística, mas


ao conjunto que levará à riqueza do olhar e compreensão das passagens da Bíblia
por meio da contemplação da obra. Por isso, o papado patrocinava a arte para
tornar Roma a mais bela cidade do mundo cristão, e os maneiristas não tinham
o talento que eles queriam, então contrataram outros artistas, criando um novo
estilo de arte.

Esse movimento que surgiu tinha interesse pela arte clássica de Roma, e
mesmo surgindo na Itália, desenvolveu-se na França, Espanha, Holanda e Inglaterra.
Enquanto no Renascimento buscava-se o equilíbrio do intelecto e da razão, no
Barroco procurava-se despertar sensações que mexiam com a ordem emocional
do observador. Para envolver com tal intensidade e segurar o olhar do observador
por mais tempo diante da imagem, os artistas serviam-se de estratégias na pintura,
como gestos e expressões eloquentes, violentos contrastes de luz e sombra, adotando
aspecto cênico, repleto de efeitos teatrais. Um marco da arte barroca era “[...] a
disposição dos elementos na tela, quase sempre em uma composição diagonal”. “[...]
Quanto ao tema, a pintura barroca voltou-se para a religiosidade, a vida da nobreza
e também a vida do povo simples” (PROENÇA, 2011, p. 134).

A pintura, ainda, apresenta maior número de elementos e acentuação


de efeitos cenográficos, iluminação projetada, textura mais opulenta, há maior
profusão e esplendor, mais decoração, equilíbrios sem seguir alguma regra, e o
abandono da simetria. Os elementos não são iluminados por igual, mas recebem
uma iluminação indireta e dirigida. Assim, é difícil demorarmos isoladamente em
cada figura, pois elas fazem parte de um todo, em contínuo movimento.

Na pintura teremos mestres como o artista Miguel Ângelo Merisi,


conhecido como Caravaggio (1573-1610), levado por seu amor à verdade, não
retrocede diante do feio ou do pobre nobre. É o mestre do naturalismo e o primeiro
a utilizar fortes contrastes de luz e sombra e a acentuar o caráter violento em suas
obras. Caravaggio buscava a verdade tal como ele a via. Não se sentia atraído
pelos modelos clássicos e não reverenciava a beleza dita real. “Ele procurava seus
modelos entre os vendedores, os músicos ambulantes, enfim, entre as pessoas do
povo”. Para ele não havia identificação, tão comum na época, entre beleza e classe
aristocrática” (PROENÇA, 2011, p. 135). Trazendo cenas do cotidiano, ele procurava
exercitar a direção da luz, para onde ela projetara, seja na face de alguém, objeto,
mas o que importava era dar emoção com a violência das iluminações. Vejamos
alguns trabalhos desse mestre da luz.

118
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 88 - CARAVAGGIO. SALOMÉ COM A CABEÇA DE SÃO JOÃO BATISTA,


GALERIA NACIONAL, LONDRES, 1607-1610

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Salom%C3%A9_con_la_cabeza_del_Bautista_(Caravaggio).jpg>.
Acesso em: 13 jan. 2017.

Na imagem a seguir, “Vocação de São Miguel”, podemos notar a claridade


vinda da direita e não da janela e iluminando parte dos corpos das pessoas sentadas
em volta da mesa, onde se confirma a fala de Gombrich, onde não vemos um a um,
mas o efeito do conjunto.

FIGURA 89 – CARAVAGGIO. VOCAÇÃO DE SÃO MIGUEL - IGREJA DE


SÃO LUÍS DOS FRANCESES, ROMA, 1599, 3,15 X 3,15 CM

FONTE: Proença (2011, p. 136)

119
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Outro artista imponente é Diego Velázquez (1599-1660), da Espanha. Ele


subordinou os contornos das formas em manchas de tom e cor que compõem a
superfície pictórica. Emprega pinceladas de efeito, que de longe ganham vibração
e movimento. Sua técnica fluida e a pincelada leve o tornaram admirado pelos
impressionistas, movimento que iremos estudar na próxima unidade.

Os temas de seus trabalhos eram voltados a retratar pessoas da Corte


espanhola, além de outras pessoas do seu país, documentando o cotidiano do
povo em um determinado momento histórico (PROENÇA, 2011). Vejamos alguns
de seus trabalhos a seguir:

FIGURA 90 – VELÁZQUEZ. RETRATO DE JUAN PAREJA -


METROPOLITAM MUSEUM OF ART, NOVA YORK, 1971.
ÓLEO SOBRE TELA, 81,3 X 69,9 CM

FONTE: Impelluso (2009, p. 62)

O artista foi um protagonista do Naturalismo europeu. O homem na


imagem acima é o criado de Filipe IV.

O seu olhar exprime uma nobreza quase desdenhosa, e os olhos


profundos e severos desenham uma expressão orgulhosa, perfeitamente
adequada à postura elegante e à vestimenta que usa: a gola de renda –
detalhe não negligenciável – era um ornamento proibido aos escravos
e o próprio soberano evitava usá-la, preferindo uma vestimenta mais
austera; a faixa escura que cruza o casaco como que a tiracolo, além
disso, acentua a atitude de desafio do servo, que mais tarde irá conseguir,
astuto, obter a liberdade graças à intercessão do rei (IMPELLUSO, 2009,
p. 62).

Entretanto, o artista consegue analisar a alma humana e trazer de forma


sutil a figura que fora pintada, não importando a classe social a qual pertence,
como ocorreu com o criado de Filippe IV, na figura acima. Entre outros retratos,

120
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

podemos destacar “As meninas”, uma de suas telas mais significativas, que traz o
registro da família de Felipe IV. É possível perceber profundidade, um jogo de luz
que equilibra no cenário. Nesse contexto,

[...] as pessoas retratadas estão dispostas de modo atraente: em primeiro


plano, sob luz mais intensa, está um grupo feminino – a princesa e
suas companheiras; à esquerda e um pouco afastado, está o próprio
pintor, que olha atentamente o casal real – o rei Felipe IV e sua esposa
–, que aparece refletido no espelho ao fundo do ateliê. É como se o rei
e a rainha estivessem de costas para quem olha a pintura e de frente o
pintor, que os observa atentamente, e para as demais pessoas retratadas,
que parecem se preparar para uma saudação (PROENÇA, 2011, p. 150).

Caro acadêmico! Realizada a leitura da citação, observe a imagem “As


meninas” e procure as pessoas retratadas, grifando, anotando, como forma de
explorar a imagem.

FIGURA 91 – VELÁZQUEZ. AS MENINAS – MUSEU DO PRADO, MADRI, 1656-1657.


ÓLEO SOBRE TELA, 3,18M X 2,76M. FELIPE IV E SUA ESPOSA
Felipe IV e sua
esposa

FONTE: Proença (2011, p. 150)

Outro artista que também se destaca é Paul Rubens (1577-1640), que


dominou a pintura na época, sendo pintor da corte e criador da escola inglesa de
retratos. Para este artista o destaque está nas cores fortes dos vestuários, como
vermelho, verde e o amarelo, equilibrando com a pele clara das pessoas e cenas
que sugerem corpos retorcidos, representando movimento, envolto de Anjos.

121
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 92 – RUBENS. A ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA. 1625,


CATEDRAL DE ANTUÉRPIA

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Paul_


Rubens#/media/File:Baroque_Rubens_Assumption-of-Virgin-3.
jpg>. Acesso em: 10 jan. 2017.

UNI

Procure pesquisar a obra “As Três Graças”, de outros artistas, como também
ocorreu com a Vênus.

Outra pintura do artista foi “As Três Graças”, que na mitologia grega foram
as deusas do encantamento e da beleza. Sua paixão pela antiguidade trouxe o
registro pictórico, como podemos ver na figura a seguir.

122
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 93 – RUBENS. AS TRÊS GRAÇAS – MUSEU DO PRADO,


MADRI, ESPANHA, 1636-1638. ÓLEO SOBRE TELA, 221
por 181 CM

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


Peter_Paul_Rubens#/media/File:The_Three_Graces,_by_
Peter_Paul_Rubens,_from_Prado_in_Google_Earth.jpg>.
Acesso em: 17 jan. 2017.

O artista também realizou pintura onde ele aparece no quadro. Visualize a


seguir, a obra que é composta por ele, sua esposa e sua filha.

FIGURA 94 - RUBENS, SUA ESPOSA HELENA FOURMENT E UM


DE SEUS FILHOS, ÓLEO SOBRE MADEIRA, 203,8
X 158,1 CM. NO ACERVO DESDE 1981. MUSEU
METROPOLITAM, NOVA YORK

FONTE: Coleção Folha – Grandes Museus do Mundo (2009, p. 60)

123
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Da mesma geração de Rubens, trazemos Frans Hals (1581-1666), holandês,


conhecido como retratista da moda. Seus retratos, sejam individuais ou de grupo,
parecem instantâneos fotográficos. Ele fazia parte de um período quando a anatomia
e a vida cotidiana estavam em ascensão, porém, veio enriquecer o mundo da arte
pictórica dando vida a grupos imóveis e congelados, além de fazer dois quadros
– um completando o outro. A sua arte [...] “passou por evolução no domínio da
luz e da sombra. De início, predominam contrastes muito fortes; depois surgem os
tons suavemente graduados; por fim, um equilíbrio da iluminação” (PROENÇA,
2011, p. 144).

FIGURA 95 – HALS. OFICIAIS DA GUARDA CIVIL DE SANTO ADRIANO EM HAARLEM -


MUSEU FRANS HALS, HAARLEM, 1627 1,83M X 2,66M

FONTE: Proença (2011, p. 144)

Na imagem acima podemos notar a presença da luminosidade de forma


generalizada, além de ver a leveza da disposição das pessoas em uma tela que
emana alegria. Destacam-se ainda as cabeças, parecendo retratos, e as mãos em
poses diferentes, dando ares de movimento. O pintor valoriza cada figura e os
menores detalhes, proporcionando até um instante fotográfico. Vejamos outro
marco dele, os retratos. A hipótese é de que para realizar os fundos dos quadros
recorreu a pintores de paisagens. Seus retratos ainda eram realizados por meio de
estudos de expressão de crianças e de mendigos que posavam para ele por livre-
arbítrio. Podemos ver alguns de seus retratos, a seguir:

124
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 96 – HALS. BEBEDOR ALEGRE – FIGURA 97 – HALS. PALHAÇO COM O ALAÚDE


RIJKSMUSEUM, AMSTERDAM, 1628. ÓLEO – MUSEU DO LOUVRE, PARIS, 1623-1624. ÓLEO
SOBRE TELA, 81,5 CM X 66,5 CM SOBRE TELA, 70X62CM

FONTE: Disponível em: <http://prodavinci. FONTE: Disponível em: <http://www.explore-


com/blogs/vermeer-en-mi-casa-por-arturo- drawing-and-painting.com/oil-painting-
almandoz-marte/>. Acesso em: 17 jan. 2017. technique.html>. Acesso em: 17 jan. 2017.

DICAS

Dica de atividade para o futuro docente:


Muitas vezes nos perguntamos: Como realizar um trabalho deste período com os alunos,
principalmente adolescentes? Ao observar que o artista Hals fazia retratos individuais ou cenas
grupais, onde a leveza estava presente nos gestos, movimentos e expressões faciais, como
se fossem instantes fotográficos, podemos trazer para o contexto escolar a apropriação da
tecnologia por meio do “desafio do manequim”. O professor seleciona diversas imagens do
artista, discute com a turma o trabalho do artista e juntamente com eles define os grupos,
duplas ou mesmo que se faça de forma individual o trabalho. Lembrando que o trabalho não
deve ser uma cópia fiel do quadro, mas sim um estudo da imagem, ou seja, como seria o
barroco no século XXI por meio do desafio do manequim?
Para saber mais, realize pesquisas na internet.

No entanto, além de Hals, outro artista se consagra na pintura de


retratos, Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669). Com o tempo ele foi se
aperfeiçoando, não se limitando a gênero algum, fazendo com que se tornasse
o mestre do claro/escuro. “O que dirige nossa atenção em seus quadros não é
propriamente o contraste entre luz e sombra, mas a gradação da claridade, os
meios-tons, as penumbras que envolvem áreas de luminosidade mais intensa”
(PROENÇA, 2011, p. 145). Para chegar a esse domínio, fez diversos estudos de
autorretrato, quadros de parentes e amigos. Nessa época começa o declínio da
encomenda dos retratos focando nas pinturas de retratos grupais, como Frans
Hals. Tanto ele como Hals tentavam transformar os personagens em atores. O seu
primeiro trabalho desse tipo representa uma cena de dissecação.

125
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 98 – REMBRANDT. A LIÇÃO DE ANATOMIA DO DOUTOR TULP, 1,62M X


2,16M. ACERVO DO MUSEU MAURITSHUIS, HAIA

FONTE: Proença (2011, p. 145)

No quadro acima transparece como o artista deu enfoque no claro/escuro.


As fisionomias dos estudantes estão iluminadas e podemos notar o interesse deles
em aprender a dissecar o corpo.

Nos retratos ele procurou focar os temas, ou seja, no que a pessoa estava
fazendo, como podemos ver na imagem a seguir, seu filho lendo um livro, onde
o destaque da luz foi proporcionado no rosto e no livro, enquanto sua vestimenta
quase se contrastava com o fundo.

FIGURA 99 – REMBRANDT. RETRATO DE TITUS, FILHO DE


REMBRANDT, 1657-1658. MUSEU DO LOUVRE,
PARIS

FONTE: Rembrandt. Grandes Mestres (2011, p. 133)

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TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Nas duas imagens que trazemos, cabe a expressão pictórica de alguns


detalhes que acentuam o lado dramático do artista, a tal ponto que, muitas vezes,
chegaram a denomina-lo de artista de natureza morta, pois os objetos presentes
com os personagens ou em um cenário ganhavam destaque com a luz. Mas para
representar a natureza morta na época ele escolheu um boi abatido e esfolado.
A pintura causou estranhamento, pois ninguém havia feito tal registro para este
período histórico.

FIGURA 100 – REMBRANDT. O BOI ESFOLADO – MUSEU DO


LOUVRE, PARIS, 1655. ÓLEO SOBRE MADEIRA, 94CM
X 69CM

FONTE: Disponível em: <https://www.wikiart.org/en/rembrandt/


the-carcass-of-an-ox-slaughtered-ox-1655>. Acesso em: 17
jan. 2017.

O artista apresentava originalidade particular para o século XVII. Os


retratos são mais vivos e uma expressão traduz a participação no mundo exterior.
A instantaneidade do retrato é acentuada pelo jogo de mãos ou segurando um
objeto, promovendo uma intensidade dramática, como visto na imagem que traz
o estudo da anatomia humana. Portanto, a composição diagonal da claridade faz
dele um artista singular.

“Diferentemente de Rembrandt, Johannes Vermeer (1632-1675) trabalha os


tons expostos à claridade. Seus temas são os da vida privada e dos costumes da
Holanda seiscentista” (PROENÇA, 2011, p. 146).

O artista buscou representar os interiores e as paisagens da Holanda, se


encantando com o efeito particular da luz. Ao contrário de Rembrandt, o seu
tesouro é descobrir tudo o que escapa de uma visão utilitária das coisas, trazendo
o lado sensível e valor para cada detalhe pintado com efeito de luz. Vejamos alguns
de seus trabalhos:
127
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 102 – Mulher lendo uma carta,


FIGURA 101 – Vermeer. A Rendeira, 2,39m x óleo sobre tela, 46,5 cm x
2,05m, 1669-1670. Museu de 39 cm, 1665. Museu Real
Louvre, Paris de Amsterdã

FONTE: Proença (2011)

FIGURA 103 - MOÇA COM O BRINCO DE PÉROLA, ÓLEO SOBRE


TELA, 1665. ACERVO DO MUSEU MAURITSHUIS, HAIA

FONTE: Proença (2011)

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TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

UNI

Assista ao filme “Moça com brinco de pérola”. Uma jovem camponesa holandesa
começa a trabalhar na casa do artista Vermeer, pois passava dificuldades financeiras. Aos
poucos o artista faz dela uma musa inspiradora para um dos seus quadros mais reconhecidos
– Moça com brinco de pérola.

Os quadros de Vermeer, além de mostrarem o cotidiano simples das


pessoas, trazem uma referência alegórica, por meio do destaque dos seus objetos
que podem remeter a várias leituras.

Para finalizar os estudos pictóricos da arte barroca, que denota a presença


da luz e sombra, trazemos a artista italiana Artemisia Gentileschi (1593-1653),
conhecida como a pintora violentada que respondeu a essa barbárie fazendo arte.
Sua arte não fora reconhecida na época, primeiro por ser uma mulher pintora,
segundo, por ser rejeitada, mesmo falando da agressão que sofreu. Vejamos alguns
de seus registros pictóricos, que foram reconhecidos como de sua autoria somente
na metade do século XX.

FIGURA 104 - JAEL E SÍSERA – 1620. Museu Szepmuveszeti, Budapeste

FONTE: Disponível em: <http://trianarts.com/el-barroco-de-artemisia-lomi-


gentileschi-o-el-caravaggismo-violento/#sthash.3fl6dgtT.dpbs>. Acesso
em: 16 maio 2017.

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UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 105 - JUDITH DECAPITANDO A HOLOFERNES

FONTE: Disponível em: <https://i1.wp.com/www.epochtimes.com.br/


wp-content/uploads/2013/12/cr-artemisia-gentileschi-04.jpg>.
Acesso em: 17 jan. 2017.

UNI Caro acadêmico, estude um pouco mais da artista, que se tornou,


hoje, referência do feminismo.

Nascida em Roma, em 1593, Artemisia era a primogênita e a única mulher entre


os quatro filhos de Orazio Gentileschi. Aprendeu a pintar no ateliê do pai, influenciada pelo
naturalismo de Caravaggio (a quem, dizem, teria conhecido pessoalmente), em especial sua
dramaticidade e seus fortes contrastes cromáticos. Roma passava por um extenso processo
de transformação urbana que atraía para a cidade inúmeros artistas em busca de trabalho.
Foi o caso de Agostino Tassi, um pintor especializado em paisagens e com fama de brigão.
Ele e o pai de Artemísia foram contratados para fazer os afrescos do Cassino das Musas e do
Palácio Rospigliosi. Os dois ficaram amigos e Orazio abriu as portas de sua casa para Tassi, que
se aproveitou para estuprar Artemisia, na ocasião com 18 anos. Ela demorou um ano para ter
coragem de denunciá-lo. Esse tempo fez com que a opinião pública se voltasse contra ela, com
muitos concluindo que o episódio tivesse sido uma relação consensual. Ainda assim, Tassi foi
condenado em 27 de novembro de 1612. Só que o juiz lhe deu a chance de escolher entre uma
sentença de cinco anos de trabalhos forçados ou a deixar Roma. O pintor, claro, optou pelo
exílio. Orazio mal esperou o escândalo esfriar para organizar um casamento para que Artemisia
"recuperasse sua dignidade aos olhos da sociedade". Em 29 de novembro, apenas dois dias
depois da condenação de Tassi, a filha se casou com o pintor Pierantonio Stiattesi e se mudou
para Florença. Artemisia já tinha começado a pintar figuras femininas fortes, inspirada tanto
pela Bíblia quanto pela mitologia, mas com uma nova perspectiva: a feminina. Em 1610, por
exemplo, pintara Susana e os Velhos, quadro que se baseia no relato da parábola de Susana –
uma mulher casada assediada sexualmente por dois senhores e que foi acusada de adultério
quando se recusou a ter relações com eles. Segundo o escrito bíblico, Susana só escapou da
morte por apedrejamento por intervenção do profeta Daniel. A beleza do quadro fez com que

130
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

muitos considerassem que a artista, então com 17 anos, não o teria pintado sozinha, e sim
orientada pelo pai.

A maioria das pinturas sobre a parábola retrata Susana como uma mulher frívola e namoradora,
mas Artemisia optou por uma imagem vulnerável e assustada. Antes mesmo de ser violentada.
Depois da agressão de Tassi, sua abordagem tornou-se mais aguda.

FONTE: Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/geral-38594660?ocid=socialflow_


facebook>. Acesso em: 17 jan. 2017.

A pintura barroca trouxe a presença da luz e da sombra, riqueza não


somente no personagem, mas em todo o seu contexto. E como era a escultura nesse
período?

As esculturas trouxeram uma carga emocional, expressão dos sentimentos


por meio dos gestos e efeitos decorativos para auxiliar na dramaticidade.
“Predominam as linhas curvas, os drapeados das vestes e o uso do dourado.
Os gestos e o rosto das personagens revelam fortes emoções e atingem uma
dramaticidade desconhecida no Renascimento (PROENÇA, 2011, p. 138). Uma das
obras que registra essas características é a escultura Êxtase de Santa Teresa, feita
por Gian Lorenzo Bernini (1598-1680).

131
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 106 – BERNINI. ÊXTASE DE SANTA TERESA, 3,50M X 1,38M,


1645-1652. CAPELA CORNARO, SANTA MARIA DELA
VITTORIA, ROMA

FONTE: Proença (2011, p. 138)

Enquanto a arquitetura ficou no envolto das igrejas e palácios, em um


período em que governantes queriam construir lugares que demonstrassem poder,
como era o ideal de Luiz XIV da França. Nesse contexto, arquitetos e escultores,
muitas vezes, trabalharam juntos em um projeto para que o lugar fosse carimbado
pela riqueza.

Os arquitetos direcionaram o foco para efeitos decorativos, mas, ao mesmo


tempo, tiveram uma preocupação paisagística, ou seja, a preocupação com o
contexto não estava somente na pintura, mas veio para o mundo real. Exemplos
dessa preocupação em conectar arte com o meio natural vieram por meio da arte
de Bernini, que projetou uma praça com colunas em frente à Basílica de São Pedro,
no Vaticano. De acordo com Proença (2011, p. 140) “é uma obra de grande porte,
pois a colunata circular tem 17 metros de largura, 23 metros de altura e é composta
por 284 colunas. Sobre essas colunas assentam-se uma imensa cornija com 162
estátuas de 2,70 metros de altura. Podemos ver na figura a seguir uma parte dessa
grande construção.

132
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

FIGURA 107 – BERNINI. COLUNAS EM FRENTE À BASÍLICA DE SÃ PEDRO, NO VATICANO

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_S%C3%A3o_Pedro#/


media/File:S%C3%A3opedro1.jpg>. Acesso em: 17 jan. 2017.

Além da Praça na Basílica de São Pedro, no Vaticano, o barroco teve


outro patamar, esteve fortemente presente nas fachadas das igrejas recobertas de
elementos decorativos, nas primeiras décadas do século XVIII. Entretanto, neste
período se teve um trabalho colaborativo entre diversas áreas, como arquitetos e
escultores que trabalharam na realização do canteiro do Jardim de Versalhes em
Paris, na França. Uma grandiosa obra de arte, tendo como base a natureza. Vejamos
a seguir a figura do canteiro do Jardim de Versalhes, em Paris, e da Catedral de
Santiago de Compostela.

FIGURA 108 – CANTEIRO DO JARDIM DE VERSALHES

Fonte: Proença (2011, p. 141)

133
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

Na Catedral de Santiago de Compostela podemos observar ornamentações


nas duas torres da igreja, como colunas acopladas à arquitetura e esculturas ao
longo de toda a estrutura.

FIGURA 109 - CATEDRAL DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedrais_de_


Espanha>. Acesso em: 16 maio 2017.

O estilo barroco foi fortemente desenvolvido no Brasil através da


influência portuguesa. No Estado de Minas Gerais podemos encontrar igrejas
com fundamento do Barroco, e na escultura, o mestre Aleijadinho. Na Bahia, no
interior de igrejas, há uma ornamentação dourada com esculturas que abraçam os
fiéis e turistas, além de permear pelo Rio de Janeiro e Pernambuco. Vale realizar
uma pesquisa e descobrir a riqueza barroca no Brasil, além de contribuir com a
descoberta ou falar da experiência que teve com os colegas do curso e seu tutor!
Portanto, despedindo-se do período barroco, faz-se necessário destacar que a
teatralidade, que eles trouxeram na pintura e escultura, foi levada para o Rococó
de forma mais suavizada, surgindo na França no século XVIII.

5 ROCOCÓ
O Rococó surgiu no século XVIII, em Paris, na França. “O nome rococó é
derivado de rocaille, referente a conchas e seixos que ornamentam grotas e fontes,
e surgiu como um estilo de decoração de interiores” (STRICKLAND, BOSWELL,
2004, p. 64). Nery (2004, p. 136) complementa dizendo que “era um estilo rico
que se caracterizou pelo abuso de ornamentos de flores, conchas e plantas sem a
regularidade geométrica”.

134
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Nesse contexto, podemos compreender que o estilo veio enriquecer os


ambientes internos por meio das artes decorativas. Enquanto o Barroco estava voltado
às pinturas em telas, no Rococó o olhar volta-se para o interior arquitetônico, com
a ornamentação delicada, os pisos elaborados, a mobília envernizada, favorecendo
seu modelo e os detalhes, roupas e talheres com desenhos de flores e conchas,
as carruagens decoradas com arabescos, logo os cavalos eram cuidadosamente
arrumados com plumas e pedras preciosas (STRICKLAND; BOSWELL, 2004).

Nesse sentido, o Rococó teve unicamente efeito estético, sem fim utilitário,
somente voltado à sua beleza (NERY, 2004). Mas quais foram os locais onde
floresceram as artes decorativas? Como foi denominada uma época elegante,
os arabescos rebuscados e as linhas retas presentes no Barroco foram sendo
substituídos por assimetria na ornamentação, que marcou presença nos cultos da
aristocracia.

Os exageros começaram a transparecer nas cortes, como a de Luiz XV, seja


na decoração e continuando na corte de Luiz XVI, quando a indumentária das
mulheres na Corte ficou tão larga, exigindo mudança nos espaços, como alargar
as portas para que pudessem passar. Essas mudanças proporcionaram indignação
à população pelo fato de esbanjar com decoração, que não traria retorno positivo
para a sociedade.

No entanto, o marco maior permanece no governo de Luiz XV, onde o


artista Antoine Watteau (1684-1721) teve que trocar as pinturas barrocas que
demonstravam ares monárquicos do governo antecessor por pinturas que
expressavam graça. Assim, Antonie se tornou o artista da Corte, projetando criar
telas onde havia vida alegre, pessoas bonitas e bem vestidas. A forma de pensar
acabou marcando o estilo, onde “a nobreza tinha uma vida frívola, dedicada ao
prazer, refletida num tipo de pintura bem característico, a “fête galante”, mostrando
jovens elegantemente trajados em brincadeiras ao ar livre” (STRICKLAND,
BOSWELL, 2004, p. 64). Vejamos algumas imagens que registram a vida da Corte
nos bons prazeres da vida.

135
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

FIGURA 110 - WATTEAU. PEREGRINAÇÃO A CÍTERA, 1717, ÓLEO SOBRE TELA, MUSEU
DO LOUVRE, PARIS

FONTE: Strickland, Boswell (2004, p. 64)

Nota-se na imagem que as pessoas estão bem vestidas em um lugar


permeado de verde, contemplando uma estátua no lado direito que é a deusa
do amor, e anjos sobrevoando sobre elas. No Rococó não é marca a presença da
mitologia, mas nesse caso, os anjos remetem à simbologia do amor. Há casais se
abraçando, e outras pessoas retornando ao barco, que se encontra no lado esquerdo,
provavelmente vieram para apreciar a natureza em um lindo dia de Sol.

Outro quadro que mostra momento da Corte é “As delícias da vida”, onde
a aristocracia aprecia o cantarolar do músico enquanto ao lado direito o menino
trabalha, mexendo algo dentro da bacia que parece ser de bronze. São momentos
de lazer, descanso da Corte nos dias que passam, sendo registrados pelo artista
Watteau.

FIGURA 111 – WATTEAU - AS DELÍCIAS DA VIDA, ÓLEO SOBRE TELA, 69 X 90


CM, 1718. THE WALLACE COLLECTION, LONDON

FONTE: Disponível em: <http://www.elamanecerdelapoesia.com/t9232-


anhelada-libertad>. Acesso em: 19 jan. 2017.

136
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Outro representante do movimento foi François Boucher (1703-1770), que


pintou pastores e pastoras entre árvores. “O estilo de Boucher era extremamente
superficial. Ele se recusava a pintar a vida, dizendo que a natureza era “verde
demais e mal iluminada” (STRICKLAND, BOSWELL, 2004, p. 64). Para ele, o
sentido da pintura consistia em fazer nus e retratos da Corte.

FIGURA 112 – BOUCHER - MADEMOISELLE O ‘ MURPHY (ODALISCA),


ÓLEO SOBRE TELA, 53, 5 CM, 1751. WALLACE
COLLECTION, LONDON

FONTE: Disponível em: <http://pintura.blogs.sapo.pt/mademoiselle-


omurphy-francois-2362>. Acesso em: 20 jan. 2017.

Já para o artista Jean-Honoré Fragonard (1732-1806), sua inspiração era


trazer de forma delicada os nus e as relações conjugais e extraconjugais de forma
natural.

FIGURA 113 – FRAGONARD, O BALANÇO, ÓLEO SOBRE TELA, 81 CM X


64 CM, 1767-1768. WALLACE COLLECTION, LONDON

FONTE: Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/destaque/


noticia/2012/02/10/910714/conheca-balanco-jean-honore-
fragonard.html>. Acesso em: 20 jan. 2017.

137
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

A pintura acima foi encomendada pelo amante, em que a mulher seria


balançada por um bispo. O artista se recusou a realizar tal pintura, sugerindo a
troca do bispo por um marido que fosse traído. Assim, a pintura teve o toque
suave das cores no vestido da moça e a claridade introduzida nela e no entorno
avançando para o céu, trazendo leveza ao quadro.

Na arquitetura, o destaque foi para os interiores, onde as cores vivas foram


substituídas por cores mais neutras, ornamentos com motivos florais e espelhos
deixando o ambiente mais aconchegante, enquanto muito da parte externa
permanecia com características do período Barroco e gradualmente foram sendo
substituídas pelo Neoclássico, que será estudado posteriormente (STRICKLAND,
BOSWELL, 2004).

FIGURA 114 – SALÃO DOS ESPELHOS, CUVILLIÉS, PROJETADO POR FRANÇOIS


DE CUVILLIÉS ,1734-39

FONTE: Strickland, Boswell (2004, p. 65)

Na figura acima, exemplo do estilo Rococó, percebe-se que a sala foi


decorada com delicadeza. Contempla uma série de espelhos, portas e janelas em
arco, além de objetos banhados em ouro e prata. Mas esse mundo dos sonhos
de poucos entrara em conflito com filósofos e a sociedade que estava passando
por problemas econômicos, gerando conflitos sociais e culturais, pois os artistas
estavam pintando a realidade da Corte, enquanto a objetividade estava se esvaindo.
Esse contraste entre sonho e realidade deu abertura para o Neoclassicismo, que
será estudado na Unidade 3.

138
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

LEITURA COMPLEMENTAR

LEONARDO E O SEU TEMPO

MARIA DE JESUS MARTINS DA FONSECA*

"Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo..."


(Alberto Caeiro)

"Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,


E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar"
(Alberto Caeiro)

[...] Leonardo vive um tempo histórico que se define a si mesmo como um


tempo de Renascimento. E entende Renascimento, no seu significado literal, como
re-nascença do homem, nascimento, outra vez, do homem, de um homem novo e
renovado (por oposição ao homem medieval). Nascimento ou, mais precisamente,
re-nascimento do homem para o homem, para uma vida autenticamente humana,
porque fundada naquilo que o homem tem de mais seu: as artes, a instrução, a
investigação, e que fazem dele um ser diferente de todos os outros. Enfim, regresso
do homem a si mesmo, regresso do homem à sua dimensão humana. Para que o
homem se possa reencontrar a si mesmo como homem, o Renascimento aponta como
caminho o "regresso às origens", o "regresso às fontes". As fontes originais encontram-
se na Antiguidade Clássica e nas suas produções culturais. O que devia renascer
eram, portanto, a arte e a cultura clássicas e, através delas, o homem.

A Idade Média aparece, aos olhos dos renascentistas, apenas como "uma longa
noite de mil anos", uma época de trevas e de obscurantismo, um tempo em que o
homem, totalmente esquecido de si, morre para fazer viver Deus e, por isso, uma
época a esquecer, um interregno na vida do homem – eis porque lhe chamaram
Idade Média, isto é, uma idade que medeia, que está entre parêntesis e que é
um parêntesis na vida e na história do homem, época de sono em que o homem
adormeceu. Após a longa Idade Média trata-se, agora, de re-acordar o homem, de
re-começar a partir do ponto em que a vida foi interrompida pelo sono, de re-nascer.
E esse ponto original, brutalmente interrompido pela medievalidade, essas fontes
esquecidas, encontram-se na clara luminosidade da época clássica, na Antiguidade
grega e latina, sobretudo nos textos que produziu.

[...] O humanismo renascentista é também um humanismo muito mais


individualista que o da época clássica. Não somos apenas homens, com algo comum
a todos os homens, somos também indivíduos, com algo único. Esta ideia deu
origem, no Renascimento, a uma veneração do génio. O ideal de homem, e todas as
épocas o têm, é precisamente aquilo a que hoje chamamos o homem renascentista,
isto é, um homem que se ocupa e se interessa por todos os domínios da vida, da

139
UNIDADE 2 | NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ARTE: UM CAMINHAR PELO VÍNCULO RELIGIOSO

arte e da ciência, um homem a que nada do que é humano pode ser alheio. E, neste
aspecto, Leonardo da Vinci é o homem típico do Renascimento porque, mais que
em nenhuma outra personalidade, nele se realiza esse ideal.

O Humanismo, considerado como o traço dominante do Renascimento,


permite caracterizar esta época como uma época de antropocentrismo – por
oposição ao teocentrismo medieval. Mas a tese central do humanismo encontra-
se na ideia pedagógica de que o estudo das disciplinas humanísticas – gramática,
retórica, dialéctica – (aquilo a que se veio a chamar trivium e constituía o cerne das
Artes Liberais), aquelas que, segundo os clássicos, proporcionavam uma formação
humanística, porque só elas desenvolviam o homem nas suas qualidades mais
intrinsecamente humanas, eram imprescindíveis para formar o homem. Isto é, o
homem não nasce simplesmente homem, ele forma-se como homem precisamente
pelo conhecimento daquilo que o próprio homem produz e reconhece como produção
própria sua, como produção mais especificamente humana: as letras, as humanae
literae ou studia humanitatis (que só elas autenticamente espelham o homem) e que são
distintas dos estudos teológicos. Por isso só a educação constrói e forma o homem
como homem. A herança clássica revisitada era, pois, instrumento de educação, isto
é, de formação humana; claro retorno ao ideal grego de Paideia, que os latinos tão
bem traduziram por humanitas. Por isso, o Humanismo é, essencialmente, uma
revolução pedagógica.

[...] O Renascimento e o Humanismo trouxeram, pois, uma nova concepção de


homem, onde pontifica a confiança no seu poder e no seu valor, em contraste com a
Idade Média, que apenas considerara o homem como ser decaído e originalmente
pecaminoso. A nova imagem do homem leva também a uma concepção totalmente
nova da vida. O homem não existia apenas em função de Deus, mas também, e
sobretudo, em função de si próprio. O homem tinha possibilidades ilimitadas,
porque era livre!

Nova concepção de homem, nova concepção de vida e, claro, uma nova


concepção de mundo e de natureza. Viver já não era apenas uma preparação para
a vida extraterrena, viver valia por si mesmo. O mundo não era uma passagem
para um outro mundo, mas adquire um valor intrínseco. Descobre-se, ainda, a
historicidade, a dimensão temporal e histórica do mundo e do homem. [...] E o
homem, ser terreno e mundano, ser natural e histórico, inserido no mundo da
natureza e da história, é capaz de neles forjar o seu próprio destino. Porque ser
mundano e natural, assistimos à revalorização do corpo. Porque ser autónomo, há
revalorização da razão, entendida agora como a capacidade natural do homem que
lhe possibilita pensar por si mesmo e conduzir-se a si mesmo, contrariamente ao
homem medieval, guiado pela fé, pela Igreja, pela Autoridade, fosse ela quem fosse.

140
TÓPICO 2 | AS TRANSFORMAÇÕES DA IDADE MÉDIA: RENASCIMENTO ATÉ O ROCOCÓ

Naturalidade do homem e do mundo, confiança na razão, permitem ao homem


do Renascimento considerar que pode conhecer a natureza com as forças da sua
própria razão. O resultado último do naturalismo do Renascimento é, pois, a ciência.
 
* Professora-Adjunta da ESEV.

FONTE: Disponível em: <http://www.ipv.pt/millenium/esf_5mjf.htm>. Acesso em: 11 fev. 2017.

141
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico apresentamos:

• Foi no Renascimento, que o teocentrismo deu a vez para o homem, como centro
do universo. Sendo assim, trazendo mudanças na arte, ciência, política e na
cultura. Alguns artistas se tornaram referências, como Rafael, Michelangelo
e Leonardo da Vinci. Foi um período em que os artistas renascentistas
mergulharam na arte antiga, mas trouxeram novas realidades e identidade
artística, bem como a perspectiva e o sfumato.

• No Barroco a cor foi elemento principal na pintura, contrastando com o claro/


escuro. As pinturas barrocas trouxeram pinturas de retratos grupais, parecendo
cenas teatrais. As igrejas barrocas apresentam-se mais robustas, pesadas tanto
interna quanto externamente.

• O Maneirismo foi uma nova “maneira” de os novos artistas realizarem a


pintura, buscando o aperfeiçoamento nas escolas de arte, em que os artistas do
Renascimento foram a base inicial. Os artistas maneiristas evoluíram na pintura,
buscaram não reproduzir as obras dos renascentistas, mas buscar uma pintura
mais pessoal, por exemplo, as figuras humanas apresentando corpos mais
alongados, ao contrário do Renascimento.

• No Rococó o foco voltava-se para a parte interna das cortes, com paredes claras
e decorações. A pintura no Rococó trouxe cores claras, e os artistas contavam a
história da aristocracia em momentos de lazer, com pessoas sempre alegres e
bonitas.

142
AUTOATIVIDADE

1 A obra renascentista “Santa Ceia”, do artista Leonardo da Vinci, é considerada


uma das obras de arte mais reproduzidas e vendidas. A forma de reprodução
da imagem ocorre em papel, com uma moldura de madeira, barateando o
custo de produção e da própria venda, assim podendo ser encontrada em
várias lojas para aquisição. Nesse contexto, quem tem ou encontrou uma
reprodução na casa de alguém ou em outro recinto? Você sabe o que significa
esta obra? A obra traz o momento onde todos os discípulos de Jesus estão
reunidos em torno da mesa. Como exemplo de reprodução da obra, trazemos
uma charge que apresenta ao fundo o quadro e a frente objetos posicionados
de uma forma que lembra um espaço público, por exemplo, um restaurante.
Observe a charge e redija um texto dissertativo relacionando à obra Santa
Ceia, do artista Da Vinci, com o uso de reproduções da imagem na relação
consigo, com o outro e com o contexto onde se vive, acerca do tema: “Relação
entre obra original do artista e sua reprodução”.

Aborde, em seu texto, os seguintes aspectos:

a) A compra de uma reprodução de obra de arte que não está nos termos legais
de venda pode prejudicar os artistas que realizam suas produções?
b) Como relacionar no contexto escolar a originalidade e a cópia de uma obra
de arte?

A questão foi criada com base nas questões dissertativas do Enade 2011.

FONTE: Disponível em: <http://ensinandoartesvisuais.blogspot.com.


br/2007/11/arte-em-charge-uma-nova-viso-da-ltima.htm>.
Acesso em: 21 jan. 2017.

143
2 O artista brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994) é um dos mais
proeminentes arquitetos paisagísticos do século XX. Seus famosos projetos
variam entre os notáveis ​​pavimentos de mosaico da avenida à beira-mar da
Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para a multiplicidade de jardins
que embelezam Brasília, um dos vários projetos de grande escala que ele
executou em colaboração com o famoso arquiteto Oscar Niemeyer. Embora
seu trabalho do projeto da paisagem seja renovado no mundo inteiro, o
trabalho do artista em outros meios permanece pouco conhecido. Roberto
Burle Marx: o modernista brasileiro, portanto, explora a riqueza e amplitude
da obra do artista – da arquitetura da paisagem à pintura, da escultura ao
teatro.

FONTE: Disponível em: <http://www.archdaily.com/tag/roberto-burle-marx. Acesso em: 22


jan. 2017.

Quando da criação de Brasília, Burle Marx foi convidado pelos amigos


Lucio Costa e Oscar Niemayer a criar algumas de suas maravilhas. O paisagista,
que fazia arte moderna com matéria-prima viva, deixou em Brasília as marcas
de sua genialidade. São dele a Praça dos Cristais (no Setor Militar Urbano),
a Praça das Fontes (no Parque da Cidade), os jardins externos e internos do
Itamaraty, o jardim externo do Palácio da Justiça, o jardim externo do Palácio
do Jaburu.

FONTE: Disponível em: <http://www.paisagismodigital.com/noticias/?id=-Plantas-do-


cerrado-nos-jardins-de-Burle-Marx&in=154>. Acesso em: 22 jan. 2017.

Considerando os dois textos que falam da arte de Burle Marx e as


imagens, analise as sentenças:

144
Figura 1 - CANTEIRO DO JARDIM DE Figura 2 - PRAÇA DOS CRISTAIS – BRASÍLIA –
VERSALHES BURLE MARX

FONTE: Proença (2011, p. 141) FONTE: Disponível em: <http://www.


paisagismodigital.com/noticias/?id=-
Plantas-do-cerrado-nos-jardins-de-Burle-
Marx&in=154>. Acesso em: 22 jan. 2017.

I – A Figura 2 corresponde ao uso do mosaico, que é uma técnica desenvolvida


por artistas da América do Sul e muito utilizada na arquitetura brasileira,
principalmente nas calçadas das cidades praianas, pois a forma de serem
montadas lembra as ondas do mar.
II – A Figura 1 corresponde a um trabalho desenvolvido entre vários
profissionais, como arquitetos e escultor. E os jardins representam a
perfeição paisagística.
III – As duas figuras são concomitantes, no sentido de apresentarem parcerias
no projeto de um trabalho e na execução dentro das suas áreas, sendo um
exemplo de que a parceria na arte, não importando a expressão artística,
resulta em patrimônios culturais como estes.
IV – Foi realizado um Jardim de Versalhes no Brasil – na frente do Palácio
da Alvorada, em Brasília, trazendo características de Burle Marx, onde
os jardins ganharam formas orgânicas com sombreiro, flores brasileiras e
árvores frutíferas da Ásia.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:

( ) As alternativas I e IV estão corretas.


( ) As alternativas II e III estão corretas.
( ) A alternativa III está correta.
( ) As alternativas I, II e III estão corretas.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

145
146
UNIDADE 3

CAMINHANDO PARA A ARTE


MODERNA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Ao final desta unidade você será capaz de:

• compreender que no início da Revolução Industrial, a história da arte vi-


sou novos olhares e anseios artísticos, projetados nas suas mais diversas
linguagens, em que o artista obteve uma identidade artística;

• compreender que a arte evolui juntamente com mudanças históricas, po-


líticas, religiosas, filosóficas e sociais, como ocorreu no início da Revolu-
ção Industrial;

• entender que os movimentos dos “ismos” surgiram no entendimento de


que aqueles criados anteriormente apresentavam para a arte ou para a
sociedade uma projeção inapropriada;

• compreender que os artistas buscaram realizar pesquisas e observações para


a concretização do seu trabalho, sendo inspiração para o trabalho de outros.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. Em cada um deles você encon-
trará atividades que auxiliarão na compreensão dos conteúdos apresentados.

TÓPICO 1 – A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEO-


CLASSICISMO

TÓPICO 2 – ROMANTISMO

TÓPICO 3 – REALISMO

TÓPICO 4 – O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

TÓPICO 5 – PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA


QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

Assista ao vídeo
desta unidade.

147
148
UNIDADE 3
TÓPICO 1

A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”:


NEOCLASSICISMO

1 INTRODUÇÃO

No final do século XVIII e início do século XIX, iniciava uma nova era que
predominou nas criações dos artistas europeus: academicismo ou neoclassicismo.
Foi um novo momento nas artes, reagindo contra a agitação do barroco e a frivolidade
do rococó. O barroco foi julgado pelo exagero, sendo contrário à racionalidade,
além de apegado à Igreja. O rococó é criticado pela falta de severidade, o gosto
pelos interiores decorados, sua superficialidade e por ser considerado uma arte
voltada para a elite.

O movimento desenvolveu-se em meados do século XVIII, mas identificou-


se a partir de 1770 e 1780 até meados do século XIX. Estende-se assim do final
do reinado de Luís XV, passando pelo reinado de Luís XVI, pela Revolução
Francesa e o Primeiro Império. Nesse sentido, o neoclassicismo “[...] expressou os
valores próprios de uma nova e fortalecida burguesia, que assumiu a direção da
sociedade europeia após a Revolução Francesa e principalmente com o império
de Napoleão” (PROENÇA, 2011, p. 171). Mas o que a palavra neoclassicismo
significa? Antes de explicar, vale destacar que em meados de 1800 o mundo da arte
borbulhava de grupos de artistas que reagiam uns contra os outros. Em vez de um
estilo predominar, como ocorreu na época do Renascimento e do barroco, vários
movimentos surgiam, fazendo as eras longas de arte sumirem e darem voz e vez
para movimentos que se chamaram de “ismos”. O primeiro foi o neoclassicismo
ou academicismo, que para Proença (2011, p. 171) foi um estilo que

[...] chamou-se Neoclassicismo por retornar os princípios da arte da


Antiguidade greco-romana. A outra denominação – Academicismo
– deveu-se ao fato de que as concepções artísticas do mundo greco-
romano se tornaram conceitos básicos para o ensino das artes nas
academias mantidas pelos governos europeus.

Assim, o neoclassicismo busca elementos característicos na arte greco-


romana, onde algumas características transmutam, enquanto outros movimentos
“ismos”, como realismo, impressionismo e pós-impressionismo aparecem dando
identidade ao movimento, como será estudado posteriormente. Convido você a
iniciar o estudo dessa “era dos ismos”, iniciando pelo neoclassicismo. Vamos lá?

149
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

2 NEOCLASSICISMO
O neoclassicismo, ou seja, um novo clássico, foi um movimento que buscou,
como no Renascimento, inspiração na antiguidade greco-romana, valorizando
o racionalismo, em que a razão prevalece sobre a imaginação, a capacidade
intelectual sobre a criativa, a disciplina sobre a inspiração, além de resultar no
retorno da harmonia e do equilíbrio.

Com todos esses elementos, uma obra de arte seria bela, no sentido de
não imitar a natureza, mas o que os artistas clássicos gregos e renascentistas já
haviam criado. E para imitar a arte do passado era possível por meio do estudo
de técnicas, que eram ensinadas nas academias de belas artes (PROENÇA, 2011).
Para Gombrich (2013), a academia teve viés de ensinar os homens cultos em busca
de novos aprenderes, deixando assim o velho método de ensinamento – de mestre
para iniciante, muito usado no Renascimento – para trás. Com o surgimento
da academia os alunos puderam, então, estudar as obras-primas do passado e
assimilar as técnicas. “As academias do século XVIII eram financiadas pela Coroa,
como sinal de interesse do monarca pelas artes em seu reino” (GOMBRICH, 2013,
p. 365).

Como a arte borbulhava, era preciso divulgar o trabalho desses artistas,


assim, exposições anuais eram realizadas, virando discussão na alta sociedade.
Muitos artistas procuravam vários meios para atrair atenção para seus quadros,
com cores e tamanhos diversos para impressionar o público. Do outro lado, havia
artistas que queriam divulgar seu trabalho, mas não frequentaram academias,
havendo choque de opiniões. Talvez esse atrito na arte partisse dos artistas que
procuravam novos temas para explorar, possibilitando fama e venda dos quadros.
Mas somente depois da Revolução Francesa é que “[...] os artistas sentiram-se livres
para escolher qualquer tema, de uma cena de Shakespeare a algum acontecimento
local – qualquer tema, de fato, capaz de despertar a imaginação e o interesse do
espectador” (GOMBRICH, 2013, p. 367), podendo, assim, buscar valores artísticos
e culturais fundamentando-se na beleza do mundo clássico.

Agora que compreendemos por que se chamava neoclassicismo ou


academicismo, podemos entender que se propunha uma arte civil, ou seja, seu
centro não é a beleza renascentista, nem a tensão barroca, nem a suavidade pictórica
do rococó, mas a inteligência, a razão e o predomínio científico.

No contexto histórico, era um período de avanços nos campos políticos,


sociais, econômicos, intelectuais e jurídicos, com progressos na tecnologia
industrial e na agricultura, bem como na reforma jurídica. O desejo de igualdade,
de universalização e unificação das leis, projetos de independência dos novos
Estados, alcança a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Revolução
Francesa, quando o homem tentou melhorar suas condições de vida. A mesma
preocupação se estende aos programas de reforma social da época, repercutindo
no campo da arte, com a criação de muitas academias com os ensinos voltados nas
concepções artísticas greco-romanas e destinados à formação de artistas, que eram
mantidas pelo governo.
150
TÓPICO 1 | A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO

Sonha-se com um mundo melhor, como uma espécie de Idade de Ouro,


governada pela razão e pela justiça. O retorno à Antiguidade surge como um meio
de alcançar esse ideal:

UNI

Os assuntos morais provêm da Grécia, enquanto a linguagem formal retoma os


valores da arte greco-romana.

O debate intelectual precede mudanças políticas, e as ideias que surgem


vão trazendo revoluções sociais, a americana e a francesa, de onde surgirá o mundo
moderno. Assim, o Iluminismo, movimento filosófico, desemboca na Revolução
Francesa. É um momento em que se propõe aos jovens exemplos de virtude cívica,
de dedicação ao bem público e abnegação à pátria. Era um momento quando os
filósofos também se manifestaram, tentando transformar a sociedade, seja pelo
progresso científico ou pelo tecnológico, em que a Inglaterra se destacou.

As relações entre os artistas e a sociedade tiveram grande impulso,


com frequentes exposições, como em Paris e Londres, onde essas exposições
converteram-se em bienais com muita repercussão.

O neoclassicismo teve várias fases na França. A primeira fase está associada


ao estilo Luiz XVI, que aparece desde o reinado de Luiz XIV. A fase mais perigosa
é a fase pré-revolução, quando os artistas se revoltam contra a academia, julgada
aristocrática e injusta, em 1793. Uma nova tensão surge com o Império: Napoleão
Bonaparte (1769-1821) distorce em seu proveito, transformando-a em uma arte de
propaganda, ao mesmo tempo em que é um estilo decorativo chamado de Estilo
do Império. Nasce, então, uma grande pintura histórica, com obras-primas que
servirão de exemplo para os mestres do romantismo, além de surgir a crítica de
arte e a cogitação da abertura dos museus a todos – como exemplo, o Museu do
Louvre, em 1793.

O maior representante da pintura foi o francês Jacques-Louis David (1748-


1825). Quando o artista fez uma viagem para Roma, teve contato com a arte clássica,
querendo desenhar “[...] mãos, olhos, orelhas e pés de toda escultura antiga que
encontrava”. Sua afirmação foi: “quero trabalhar num estilo puro” (STRICKLAND;
BOSWELL, 2004, p. 69).

Esse contato que teve com a arte clássica em Roma motivou David a
realizar suas pinturas e mostrar a diferença entre o velho (arte clássica) e o novo
(neoclassicismo). Trouxe contrastes, contornos retos dos homens com as formas
curvas e suaves das mulheres. Mas ele foi muito criativo, pois para realizar
algumas pinturas iniciais, vestia manequins com roupas romanas com capacetes

151
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

que ele mesmo confeccionava, iluminava com um feixe de luz, e no fundo colocava
arcos romanos (GOMBRICH, 2013). Com o cenário pronto, era hora de copiar. Mas
David não ficou apenas nessa rotina. Durante o governo de Napoleão, registrou
fatos históricos ligados à vida do imperador, tornando visível que a Revolução
Francesa deu impulso ao interesse pelos fatos históricos. O artista se tornou, então,
artista oficial do governo revolucionário.

[...] que desenhou figurinos e cenários para peças de propaganda como


o “Festival do Ser Supremo”, “[...] As pessoas sentiam estar vivendo
tempos heroicos, e consideravam os eventos de sua própria época tão
dignos da atenção do pintor quanto os episódios da história grega e
romana” (GOMBRICH, 2013, p. 369).

Toda dedicação que David teve com a pintura levou-o a realizar pinturas
de grande realismo, e os novos clientes que apareceram desejavam ser retratados
de forma realista. O retrato começa então a se tornar acessível a todos que de
alguma forma conseguiam se firmar na sociedade. O artista realizou ainda pinturas
históricas, como ocorreu com um dos líderes da Revolução, seu amigo Marat, que
foi assassinado em sua banheira por uma fanática, como podemos ver na figura a
seguir:

FIGURA 115 – JACQUES-LOUIS DAVID. MORTE DE MARAT,1793. ÓLEO SOBRE


TELA, 1,65 M X 1,28M. MUSEU REAL DE BELAS – ARTES, BRUXELAS

FONTE: Proença (2011, p. 173)

152
TÓPICO 1 | A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO

A pintura foi realizada logo depois do assassinato, quando o artista pôde


enfatizar os detalhes, como o caixote, a toalha manchada de sangue e a faca. De
acordo com Strickland e Boswell (2004, p. 69), “David retrata Marat como um
santo, numa pose similar à de Cristo na “Pietá” de Michelangelo. Completando
esse pensamento, Gombrich (2013, p. 370) destaca que

[...] David logrou revesti-lo de um aspecto heroico, mesmo atendo-


se aos detalhes concretos com a fidelidade de um registro policial.
Havia aprendido, através do estudo da escultura greco-romana, como
modelar os músculos e tendões do corpo, conferindo-lhe uma aparência
de nobre beleza; aprendera também, com a arte clássica, a excluir todos
os pormenores que não fossem essenciais para o efeito central e a ter a
simplicidade por objetivo.

Nesse contexto que a pintura instaurou, o autor Argan (1992) traz a


perspectiva de que o artista não queria descrever as cenas do assassinato, mas trazer
uma reflexão sobre a nossa passagem da vida ao nada. São várias as discussões em
torno desta obra histórica, quando o artista retratou seu amigo como um mártir
que trabalhava pelo bem comum. Sua sensibilidade artística levou ainda a registrar
outras cenas históricas, como a obra “Juramento dos Horácios”, feita em 1784, e
“Bonaparte atravessando os Alpes”, criada em 1801. Ao realizar pinturas históricas,
se apropriou de cores mais vivas e procurava fazer com que as pinceladas não
aparecessem, sendo liso como o verniz. Sua forma de pintura fez com que tivesse
vários discípulos que consideravam sua arte brilhante, como o artista Dominique
Ingres (1780-1867) (GOMBRICH, 2013). Quando iniciou, usava como modelo vasos
gregos para desenhar. “[...] Ingres era desenhista impecável, cuja linha intrincada
influenciou Picasso, Matisse e Degas” (STRICKLAND; BOSWELL, 2004, p. 70). O
desenho levou-o a realizar pintura de nus, retratos e paisagens.

FIGURA 116 – DOMINIQUE INGRES. BANHISTA DE VALPINÇON,


1808. ÓLEO SOBRE TELA, 1,40 M X 95 CM.MUSEU DO
LOUVRE, PARIS

FONTE: Proença (2011, p. 174)

153
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Ingres se tornou mestre em nus femininos, pintando banhistas que, muitas


vezes, a pele parecia de porcelana. Vejamos mais um exemplo:

FIGURA 117 – DOMINIQUE INGRES. A GRANDE ODALISCA,1814. ÓLEO SOBRE TELA,


91CM X 162CM. MUSEU DO LOUVRE, PARIS, FRANÇA 

FONTE: Strickland; Boswell, 2004, p. 70

A pintura de nus foi realizada por outros artistas em diversos momentos


da história. No que se refere à moça deitada, na figura acima, significando menina
de harém, ganhou vida artística pelas pinceladas de diversos artistas. Vejamos
algumas delas:

FIGURA 118 – NU FEMININO DEITADO AO LONGO DA HISTÓRIA DA ARTE

FONTES: Vênus adormecida. Disponível em: <http://www.isleep.pt/wp-content/uploads/2016/01/


Sono-Venus-Giorgione.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2017.
A Maja nua. Disponível em: <https://www.wikiart.org/pt/francisco-de-goya/a-maja-
nua-1800>. Acesso em: 28 fev. 2017.
Olýmpia. Disponível em: <http://www.manet.org/olympia.jsp#prettyPhoto>. Acesso em:
28 fev.2017.
Deitado nú feminino. Disponível em: <http://pt.wahooart.com/@@/8XYNW4-Pablo-
Picasso-Deitado-nu-feminino>. Acesso em: 28 fev. 2017.

154
TÓPICO 1 | A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO

Gosto de Olýmpia de cara preta. Disponível em: <http://lh6.ggpht.


com/_5ZVfrqNx7ZM/S_KM1xBICUI/AAAAAAAAQVg/7p1cIbZEhLY/s1600-h/Gosto%20
de%20Olympia%20de%20Cara%20Preta%2C%20Rivers%2C%201970%5B5%5D.jpg>.
Acesso em: 20 fev. 2017.

UNI

Realize uma pesquisa e descubra outras pinturas de nus deitados. Em cada


período, a forma como o artista retrata a mulher traz aspectos como o momento histórico,
temas diversos, bem como técnicas artísticas que se unem e criam a identidade do artista.

Além do nu, Ingres foi o mestre dos retratos, registrando a fisionomia


das pessoas bem-sucedidas. Ele é lembrado como um retratista que capturava
a essência da aparência física como se fosse uma fotografia (PROENÇA, 2011),
entretanto, dos retratos que executou mais fielmente foram os bem-sucedidos
“Louis Françóis Berin” e a “Princesa de Broglie”, que podemos contemplar a seguir:

FIGURA 119 - DOMINIQUE INGRES. RETRATO DE LOUIS BERTIN,1832.


1,15 M X 93,5 CM. MUSEU DO LOUVRE, PARIS

FONTE: Proença (2011, p. 174)

155
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 120- DOMINIQUE INGRES. RETRATO DA PRINCESA DE


BROGLIE,1853. MMA, NY

FONTE: Strickland, Boswell (2004, p. 70)

O neoclassicismo não ficou estritamente na Europa, como vimos até o


momento, mas com a fundação da república norte-americana, acabou coincidindo
com a popularidade do neoclassicismo.

Como a antiga república romana parecia ser um modelo apropriado, o


novo país vestiu-se com o garbo do velho. Adotou símbolos e termos
romanos como senado” e “capitólio” (originalmente, um monte, na
antiga Roma). Por um século, os edifícios oficiais em Washington foram
derivações do neoclassicismo (STRICKLAND; BOSWELL, 2004, p. 72).

O neoclassicismo teve seu lugar nos Estados Unidos, devido ao arquiteto


Thomas Jefferson (1743-1826), que construiu uma universidade com características
clássicas. O conjunto se constituiu de um panteon e colunas gregas, com a intenção
de mostrar para os acadêmicos vários estilos de arquitetura, como podemos
contemplar na figura a seguir:

156
TÓPICO 1 | A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO

FIGURA 121 – THOMAS JEFFERSON. UNIVERSIDADE DA VIRGÍNIA. ESTADOS


UNIDOS

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:University-of-


Virginia-Rotunda.jpg>. Acesso em: 30 jan. 2017.

No entanto, a arquitetura é a primeira a encarar os novos ideais de


simplicidade, nitidez e pureza. Triunfa nos monumentos o caráter utilitário, além
da beleza, e para os exteriores a cor preferida é o branco.

O estilo mantém uma intensa relação com as colunas e há o predomínio


da horizontalidade. Podemos ver a seguir uma arquitetura pública americana que
traz elementos neoclássicos.

FIGURA 122 – CAPITÓLIO DE WASHINGTON, ESTADOS UNIDOS

FONTE: Disponível em: <http://www.oarquivo.com.br/extraordinario/


lugares-extraordinarios/1581-o-capitolio-de-washington-d-c.html>.
Acesso em: 30 jan. 2017.

157
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Todo repertório da antiguidade é utilizado, menos formas que evoquem


vida orgânica e curvas. Nesse contexto, o espírito da época favorece o surgimento de
construções de caráter público, além de constatar o desenvolvimento urbanístico,
não só na América do Norte, mas na Europa. A arquitetura neoclássica teve
aceitação nos países europeus, mas com obras construídas em menor quantidade,
enquanto o barroco é mais presente na Espanha e na Itália.

Podemos ver essas nuances neoclássicas em alguns países na Europa, como


destacamos na imagem a seguir:

FIGURA 123 - ARQUITETURAS NEOCLÁSSICAS NA EUROPA

1. Porta de Branderburgo em Berlim 3. Museu Britânico em Londres


2. Igreja Madelaine em Paris 4. Palácio Real de Bruxelas
FONTE: 1. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bc/Puerta_
de_Brandemburgo%2C_Berl%C3%ADn_01.JPG>. Acesso em: 28 fev. 2017.
2. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_la_Madeleine#/media/
File:Iglesia_de_la_Madeleine.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2017.
3. Disponível em: <https://mapadelondres.org/museu-britanico-british-museum/.>
Acesso em: 28 fev. 2017.
4. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_Real_de_Bruxelas#/
media/File:Paleis_brussel2.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2017.

Depois de nos deleitarmos com a arquitetura neoclássica, perguntamos:


Como será a escultura? Quais elementos encontraram da Antiguidade Clássica?
Na escultura a preferência é pela sutileza dos contornos e de linhas, levando
naturalmente à ressureição do baixo-relevo. O classicismo recusa os artifícios do
barroco, aspirando as formas calmas, as superfícies lisas e os volumes planeados
para serem vistos de um lado só. A matéria preferida é o mármore branco, que
corresponde à frieza da concepção escultórica.

158
TÓPICO 1 | A ARTE CAMINHA PARA A ERA DOS “ISMOS”: NEOCLASSICISMO

O neoclassicismo, assim, rejeita a mistura de materiais vista no barroco,


preferindo os tons uniformes e incolores. O escultor Jean Antoine Houdon (1741-
1844) destaca-se na França, Bertel Thorwaldsen (1770-1844) na Dinamarca, e o
mais conhecido do período foi Antônio Canova (1757-1822), de origem veneziana
(GOMBRICH, 2013).

A primeira obra importante de Canova foi o monumento funerário de


Clemente XIV. Posteriormente, realizou uma estátua nua de Napoleão, inspirada em
retratos de imperadores romanos divinizados. A seguir, veremos Vênus reclinada
que representa a sua irmã (1), as três graças (2), e a sua obra mais ambiciosa, o
monumento funerário a Maria Cristina, de 1805 (3), que é um esquema piramidal,
com símbolo funerário. “Basta a simplicidade do símbolo geométrico e a pureza
brilhante do plano para dar à área frontal, por onde lentamente avança o cortejo
dos enlutados” (ARGAN, 1992, p. 48). Canova buscou a interpretação clássica,
trazendo a simbologia por meio do sentimento e pensamento ao apreciarmos suas
obras.

FIGURA 124 – ESCULTURAS DE ANTÔNIO CANOVA

FONTE: 1. Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/44/Pauline_


Borghese.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2017.
2. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Canova#/media/File:Le_tre_
Grazie.jpg>. Acesso em: 28 fev. 2017.
3. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Canova#/media/
File:Cenotaph_of_Archduchess_Maria_Christina,_Duchess_of_Teschen_9.jpg>. Acesso
em: 28 fev. 2017.

159
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Estamos finalizando o estudo referente ao neoclassicismo. No entanto, não


podemos deixar de frisar que foi um estilo que também caminhou pela América
do Sul, mais precisamente no Brasil Imperial, através da Missão Artística Francesa,
trazendo o artista Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e mais dezenas de outros
artistas. Convidamos você a ler o Uni, para saber um pouco mais do artista que
trouxe a arte neoclássica para o Brasil.

UNI

O pintor francês Jean-Baptiste Debret foi um dos principais artistas que integraram


a denominada Missão Artística Francesa, isto é, uma expedição de artistas que veio para o Brasil
em 1817, amparada por D. João VI, que havia elevado o Brasil à condição de Reino Unido, em
1808, e aqui residia.
Assim como os outros artistas que aportaram, Debret contribuiu para o desenvolvimento das
belas-artes no Brasil e também soube construir uma interpretação bastante rica da vida nos
trópicos, no século XIX. Nesse sentido, pode-se falar de um “Brasil segundo Debret”, ou seja, um
Brasil interpretado por Debret em suas telas.
Debret e seus conterrâneos que vieram para o Brasil faziam parte do Neoclassicismo francês, um
movimento artístico que entrou em franco declínio após a queda de Napoleão Bonaparte em
1815. Com a oportunidade de partir em direção ao Brasil, Debret viu também um horizonte
de possibilidades para as suas habilidades artísticas e intelectuais. Sua estadia nos trópicos foi
tão profícua que resultou, anos mais tarde, no livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”,
publicado em Paris, no ano de 1831.
As telas de Debret tinham variados temas, indo desde o retrato de cenas do cotidiano até
grandes eventos da alta sociedade brasileira e da corte portuguesa no Brasil. Além disso, Debret
retratou também a vida dos escravos negros e dos índios, bem como reproduziu, em desenhos,
variedades da fauna e da flora. As telas com temas do cotidiano geralmente estabelecem uma
interpretação especial da estrutura da sociedade brasileira do século XIX.

O Brasil segundo Jean-Baptiste Debret. Disponível em: <http://mundoeducacao.bol.uol.com.


br/historiadobrasil/o-brasil-segundo-jeanbaptiste-debret.htm>. Acesso em: 30 jan. 2017.

Podemos concluir que o neoclassicismo foi um estilo do nascer das luzes, por
meio da intelectualidade e da razão, na busca pelo retorno à antiguidade clássica.
Porém, sendo contra o estilo do barroco e do rococó, segue no próximo tópico o
estilo do romantismo, que vem reagir ao pensamento dos artistas neoclássicos à arte.

Acadêmico! Antes de iniciar a leitura referente ao romantismo, convidamos


você a parar um pouco para tomar um chá. Como assim, um chá? O chá fez parte
da cultura europeia. Muitas rainhas paravam um tempo para tomar chá e degustar
doces, bem como esteve presente em festas da corte. Mas o que o chá tem a ver com
a história da arte? Pois ao estudar o romantismo, veremos que, além da reação à
arte neoclássica, borbulha a economia, em que o comércio começa a girar em outros
países, aumentando a economia. E o chá, além de estar registrado em telas, foi um
elemento que se disseminou da Inglaterra para os outros países a partir do século
XIX, onde os homens entenderam a importância da economia, vendo os produtos
serem apreciados e vendidos por determinado valor, trazendo lucro para o país.

160
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico você estudou que:

• No final do século XVIII e início do século XIX surgiu o academicismo ou


neoclassicismo. O academicismo veio abranger a aprendizagem em pintura com
grandes mestres, enquanto o neoclassicismo é o retorno à antiguidade clássica.

• A pintura neoclássica apresentou olhar racional e equilibrado. Os temas eram


históricos e posteriormente surgiram as paisagens. Os representantes do
movimento foram Jacques-Louis David e Dominique Ingres.

• A arquitetura trouxe elementos da arquitetura grega, e templos greco-romanos,


com forte presença nos Estados Unidos e alguns países europeus, onde não
predominava o barroco.

161
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com o neoclassicismo, uma bela obra de arte seria se o artista


bebesse na fonte da antiguidade, mais precisamente no período clássico
grego, possível de realização devido:

a) Ao estudo de técnicas das obras-primas dos grandes mestres na academia.


b) A cópia fiel das obras gregas.
c) Ao contato que tiveram com artistas gregos para orientar nas técnicas de
pintura com apoio de Napoleão.
d) A muitas esculturas gregas serem destruídas e as partes que sobraram
serem usadas para novas esculturas, chamadas de neoclássicas.

2 Podemos dizer que o neoclassicismo buscou introduzir o retorno da arte


greco-romana na Europa, mas os Estados Unidos também o trouxe, com
enfoque na linguagem arquitetônica. Com base na arquitetura neoclássica,
analise as imagens e identifique aquelas que pertencem ao neoclassicismo.

A B C D

Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:

a) Apenas a alternativa A está correta.


b) As alternativas B e C estão corretas.
c) As alternativas B, C e D estão corretas.
d) Apenas a alternativa C está correta.

162
UNIDADE 3
TÓPICO 2

ROMANTISMO

1 INTRODUÇÃO

O movimento é indissociável das transformações sociais e econômicas no


século XVIII. Com isso, nascem novas camadas sociais, fervilha a industrialização,
iniciam as reviravoltas políticas e a revolução da filosofia. Período que compreende
a Revolução Industrial, que começou na Inglaterra, trazendo as divisões de classe e
as descobertas tecnológicas, porém, a revolução trouxe riqueza para os burgueses,
enquanto os trabalhadores viviam na miséria. A revolução criou laços em outros
países, e de certa forma mudou a vida da humanidade.

O romantismo é um movimento europeu que recusa a estética clássica


e preconiza um retorno às fontes das culturas nacionais e a pureza original da
Idade Média. Caracteriza-se por uma mudança de sensibilidade e uma ruptura
em relação ao classicismo e ao racionalismo e, com isso, desenvolve uma estética
de liberdade que recusa as regras formais e convenções rígidas, privilegiando a
expressão individual do artista. Nesse contexto, Proença (2011, p. 75) explica que
“[...] os românticos procuraram se libertar das convenções acadêmicas em favor da
livre expressão da personalidade do artista”. Podemos compreender, então, que o
artista não precisava seguir ordens acadêmicas para realizar seu trabalho. Nesse
sentido, um caminho para a construção identitária do artista estava surgindo.
Vamos estudar a seguir este movimento que faz um retorno à arte da Idade Média.

2 ROMANTISMO: UMA RECUSA AO NEOCLASSICISMO E UM


RETORNO ÀS FONTES DA IDADE MÉDIA
Negando a estética neoclássica, a pintura romântica aproxima-se das
formas barrocas da Idade Média, recuperando o realismo, o dinamismo e a
dramaticidade, conferindo valor expressivo à cor, menos ao desenho, salientando
assim o sentimento.

Os temas da pintura estavam voltados para a valorização da natureza e


do nacionalismo, destacando o claro/escuro, produzindo efeito de dramaticidade.
“Em nome da natureza, exaltou a liberdade, o poder, o amor, a violência, os
gregos, a Idade Média, ou qualquer outra coisa que o estimulasse, embora
realmente exaltasse a emoção como um fim em si mesmo” (JANSON, 1996, p.

163
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

309). Entendemos que os temas estavam vinculados a uma época revolucionária:


descontentamento com o presente, intensidade de sentimentos, imagens tristes,
melancólicas, carregadas de expressão e o desejo de exprimir o inexprimível. Onde
a beleza estava expressa na natureza emocional do artista e na sua capacidade de
expressá-la exteriorizando suas sensações e percepções.

Essa forma de expor na pintura a carga de sentimentos estava vinculada


com o momento histórico-cultural do mundo: o da Revolução Industrial. O
classicismo não respondia mais às mudanças radicais de valores trazidos pelo
dinamismo industrial, resultando em mudanças profundas na economia e
na sociedade, de forma definitiva. Com isso, o artista romântico oferece duas
faces: a do homem que toma posição diante dos acontecimentos e ideias de seu
tempo e o de um homem angustiado, revoltado, melancólico, que se volta para o
passado exprimindo visões oníricas ou cenas inspiradas no gótico – romances de
cavalaria, sagas medievais. A paisagem se torna tema, passando de simples plano
de fundo, ao quadro em si, exprimindo as emoções, angústias, surgindo muitos
artistas paisagistas. Vejamos alguns artistas desse estilo, como Eugène Delacroix,
Francisco José Goya y Lucientes, Joseph Mallord William Turner e John Constable.
Primeiramente, vamos trazer os artistas Goya e Delacroix, que tratam dos temas
históricos.

Francisco José Goya y Lucientes (1746-1828), mais conhecido como Goya,


foi um artista que pintou retratos, fez desenhos e registrou guerras e cenas
históricas. Uma de suas obras mais famosas é o “Os fuzilamentos de 3 de maio de
1808” (PROENÇA, 2011). “Esse quadro representa o fuzilamento, no dia 3 de
maio do ano de 1808, por soldados franceses, de cidadãos espanhóis contrários
à ocupação de seu país pelo imperador Napoleão I” (PROENÇA, 2011, p. 176).
Vejamos na figura a seguir a explicação detalhada da ação que ocorreu e registrado
pelo artista Goya.

164
TÓPICO 2 | ROMANTISMO

FIGURA 125 – GOYA. OS FUZILAMENTOS DE 3 DE MAIO DE 1808, 1814-1815. 2,63M x 4,10M.


MUSEU DO PRADO, MADRI

FONTE: Revista Bravo (2007, p. 33, adaptado)

165
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Para Strickland e Bowsell (2004, p. 75), na obra acima o artista:

[...] iluminou a cena noturna colocando no chão uma lâmpada que


projeta uma luz forte. No fundo, a igreja está escura, como se toda a
luz da humanidade tivesse se extinguido. Cadáveres ensanguentados
se lançam em direção ao espectador, enquanto uma fila de vítimas
se estende na distância. As vítimas do momento constituem o foco
desafiador, mais impotente, lembrando o Cristo crucificado.

Os autores, portanto, escrevem como o artista destacou os personagens


nessa cena de grande violência, sejam os soldados que estão de costas, como os
camponeses que em sua face trazem o momento de desespero. Nessa pintura, ainda,
Goya traz o retorno do gótico, quando se trata da luz em diagonal, passando pelo
personagem central, o homem com os braços abertos, aguardando o fuzilamento,
com a certeza de que a morte estava próxima.

O artista fez registros históricos como forma de fazer um protesto com


relação à crueldade humana. Chegou a pintar 14 murais na sua residência para
mostrar a sua indignação entre a intriga política e a decadência da Corte e da
Igreja. Muitos dos murais com cores escuras traziam figuras assustadoras, como
“Saturno devorando seus filhos”, mostrada a seguir.

FIGURA 126 – FRANCISCO JOSÉ GOYA. SATURNO DEVORANDO


SEUS FILHOS. 1819-1823.ÓLEO SOBRE TELA, 146 ×
83 cm

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/


Ficheiro:Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_
hijo_(1819-1823).jpg>. Acesso em: 3 fev. 2017.

166
TÓPICO 2 | ROMANTISMO

O artista mostrava seus sentimentos não discutindo com as pessoas,


mas colocando na arte a sua inconformidade com o mundo, fazendo crítica ao
comportamento humano que se deixa levar pela irracionalidade, por meio de
temas contemporâneos e nacionais, se apropriando de pinceladas ferozes.

UNI

Assista ao filme “Sombra de Goya”, que


retrata a época marcada pela Inquisição Espanhola
e as guerras napoleônicas, por volta de 1790.

Enquanto isso, Eugène Delacroix (1799-1863) foi um artista que superou


as regras acadêmicas, se aventurando em novas dimensões psicológicas e
antropológicas, propícias do romantismo. Destacamos que o movimento do
romantismo perpassa por temas históricos, literários, exóticos, e que os artistas até
estudaram esculturas da Antiguidade Clássica com artistas neoclássicos, porém o
que mudou foi a transformação da beleza. O artista trouxe o seu modo singular
de ver e refletir a pintura, sendo sinônimo da nova inquietação cultural. Assim,
Delacroix foi chefe de suas escolhas, buscando respostas para a sua inquietude,
procurando em terras exóticas novas culturas e unindo-se à literatura. As novas
terras viraram registro pictórico e a literatura encontrava-se na narrativa que a
pintura proporcionava (DELACROIX – COLEÇÃO GRANDES MESTRES, 2011).

UNI

Delacroix foi um artista que não registrava apenas em tela histórias, mas também
registrava em diários.

Os primeiros trabalhos do artista foram encomendas religiosas, pois


estudava a arte de Rafael e Michelangelo, artistas estes, que influenciaram a
geração de românticos. Procurou seu caminho singular, e com isso buscou divulgar
seu trabalho nos salões, onde se encontravam o público e os colecionadores, e,
portanto, teve resultados significativos. Seu quadro mais conhecido foi “A liberdade
guiando o povo”, como mostra a figura a seguir.
167
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 127 – EUGÈNE DELACROIX. A LIBERDADE GUIANDO O POVO. 1830. 2,60 X


3,25M. MUSEU DO LOUVRE, PARIS

FONTE: Strickland; Boswell (2004, p. 177)

A pintura acima “[...] foi realizada como exaltação da Revolução de 1830.


Apesar de forte comprometimento político e particularizador da obra, o valor
pictural é assegurado pelo uso das cores, das luzes e sombras” (STRICKLAND,
BOSWELL, 2004, p. 177). A forma de pintura será levada adiante por Vincent van
Gogh, Pierre-Auguste Renoir e Edgar Degas.

Nesse sentido, a pintura volta-se a uma realidade que foi traçada pelos
pincéis, onde:

[...] a mulher que agita o estandarte tricolor sobre as barricadas é, ao


mesmo tempo, a Liberdade e a França. E quem luta pela liberdade?
Plebeus e intelectuais burgueses; em nome da liberdade da Pátria sela-
se a union sacrée entre os plebeus despossuídos e os senhores de cartola
(ARGAN, 1992, p. 56).

A pintura de fato retrata a luta política pela liberdade. Mas como podemos
realizar uma pintura histórica trazendo questões políticas e econômicas dos
tempos atuais? Há registros pictóricos desses fatos? Pense e pesquise se há alguma
forma de expressão artística em que ocorra um registro político, econômico na
atualidade. Vale refletir sobre essas questões, pois o que podemos encontrar nos
livros didáticos de história e língua portuguesa são figuras históricas para auxiliar
na interdisciplinaridade. E como serão as figuras do que está acontecendo agora,
expostas nos livros daqui a 10 anos? Qual será a linguagem artística que traduzirá
os acontecimentos em forma de registro? Reflita sobre essas questões e dialogue
com seus colegas e tutor a respeito.

168
TÓPICO 2 | ROMANTISMO

O romantismo não foi marcado apenas por pinturas históricas, mas também
por paisagens, que já foram desenvolvidas no século XVIII, mas que tomaram força
no romantismo, principalmente na Inglaterra. A pintura de paisagens, de um lado,
traz o realismo, mas, por outro, modifica as cores da natureza por causa da luz
solar. As nuances causadas pela luz solar apresentam características dos artistas
impressionistas (PROENÇA, 2011).

Um artista que realizou pinturas de paisagens foi Joseph Mallord William


Turner (1775-1851). Para realizar os movimentos da natureza o artista fez estudos
da luz que a própria natureza reflete. Nesse sentido, suas pesquisas viraram telas,
como as imagens a seguir nos proporcionam conhecê-las.

FIGURA 128 – TURNER. CHUVA, VAPOR E VELOCIDADE.1844. ÓLEO SOBRE TELA, 91 CM x 1,22
M.GALERIA NACIONAL, LONDRES

FONTE: Proença (2011, p. 179)

A imagem acima registra a presença da máquina, marco da Revolução


Industrial. E mesmo a forma de paisagem não sendo muito clara, nos mostra que
“[...] o artista consegue obter emocionantes composições dominadas por atmosferas
invadidas por colorações luminosas e vibrantes" (IMPELLUSO, 2009, p. 82).

169
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 129 – TURNER. VAPOR NUMA TEMPESTADE DE NEVE. 1842.91 CM X 1,22M.


TATE GALLERY, LONDRES

FONTE: Proença (2011, p. 179)

As duas imagens de Turner trazem de forma nebulosa criações do


homem. Para Gombrich (2011, p. 492), “Turner também teve visões de um mundo
fantástico, banhado de luz e resplendente de beleza; mas, em vez de calmo, o seu
era um mundo cheio de movimento [...] reuniu em suas telas todos os efeitos que
pudessem torná-las o mais impressionantemente dramáticas”.

O artista não focava em detalhes, mas tornava a imagem turva, para que
se pudesse adentrar nela e ver o que há, deixando as emoções fluírem pelas cores,
traços, formas que se perdem ora entre traços, ora entre manchas.

Ao contrário de Turner, a natureza retratada por Constable é serena e


profundamente ligada a lugares onde o artista nasceu, cresceu e trabalhou ao lado
do pai. Muitos elementos de suas paisagens – os moinhos de vento, as barcaças
carregadas de cereais – faziam parte da vida cotidiana do artista quando jovem.

O artista John Constable (1776-1837) procurou trazer pinturas de paisagens,


das quais ele via e tinha contato, como a obra “A carroça de feno”, que se encontra a
seguir, onde procurou representar as paisagens que contemplavam o seu cotidiano,
buscando também registrá-lo em suas telas.

170
TÓPICO 2 | ROMANTISMO

FIGURA 130 - JOHN CONSTABLE. A CARROÇA DE FENO. 1821. ÓLEO SOBRE


TELA,1,3 M X 1,85 M

FONTE: Disponível em: <http://noticias.universia.com.br/destaque/


noticia/2012/06/27/946294/conheca-carroca-feno-john-constable.html>.
Acesso em: 25 fev. 2017.

Além da pintura, o estilo arquitetônico também esteve presente. Surgiu


inicialmente na Inglaterra, no século XIX, quando o momento era de grande
desenvolvimento das cidades, com inúmeras construções. Apesar da grande
atividade arquitetônica, essa época não teve estilo. Depois de construir usinas,
escolas, estações, pedia-se para que os arquitetos adotassem esses edifícios com
estilo gótico, renascentista ou barroco. Para as igrejas se escolhia o estilo gótico,
por ser o mais representativo dos séculos da fé. O estilo barroco, tão teatral, foi
escolhido para ser usado nas construções das salas de espetáculos, enquanto que
para o palácio público foi escolhido o estilo da arte renascentista.

Assim, a arquitetura apresenta uma diversidade de estilos, tornando-se


necessária para criar uma tradução visual acessível a todos.

A partir de 1800 começa a introdução de novos materiais e técnicas,


como o uso do ferro, nunca usado anteriormente. Algumas décadas depois do
seu aparecimento, as colunas e arcos de ferro se tornaram habituais em grandes
espaços, como em estações ferroviárias. Mas foi no século XIX que começam a
surgir os arranha-céus, nos Estados Unidos e em outras construções pela Europa,
onde o ferro teve forte presença, trazendo como resultado arquiteturas que se
tornaram pontos turísticos. Vejamos vários exemplos no próximo assunto a ser
estudado, no realismo.

171
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico você estudou que:

• O romantismo surgiu na Europa no ano de 1800. Foi um movimento europeu


que recusava a estética clássica e preconizava um retorno às fontes das culturas
nacionais e a pureza original da Idade Média.

• Os artistas do romantismo buscam trazer a subjetividade e não a objetividade


para as telas, como ocorreu no neoclassicismo. Para os românticos, o sentimento
vinha à frente na criação artística.

• Os temas da pintura estavam voltados para a valorização da natureza e o


nacionalismo, destacando o claro/escuro, produzindo efeito de dramaticidade.
Representantes marcantes da pintura romântica foram Turner, Constable,
Delacroix e Goya.

172
AUTOATIVIDADE

1 O século XIX foi um período complexo, pois havia a Revolução Francesa, que
pregava a igualdade entre os homens, bem como a Revolução Industrial, que
formou uma nova classe social com o surgimento das máquinas, provocando
mudanças nos setores da cultura e da arte. No entanto, surgiram os
movimentos dos ismos na arte, onde um movimento se contrapunha a outro.
Com relação aos movimentos do romantismo e neoclassicismo, analise as
seguintes sentenças:

I – O neoclassicismo traz um retorno da antiguidade clássica, enquanto os


românticos vão beber na fonte da Idade Média.
II - Muitas das arquiteturas neoclássicas se encontram nos Estados Unidos e
parte da Europa, que não têm a presença marcante da arquitetura barroca.
III – Um dos representantes do neoclassicismo foi David, enquanto do
romantismo foi Turner.
IV - As pinturas do romantismo, por meio do artista Turner, trouxeram, em
meio às paisagens, elementos como metrô e trem bala, que surgiram na
Revolução Industrial.

Assinale a alternativa correta:

( ) A alternativa I está correta.


( ) As alternativas II e IV estão corretas.
( ) As alternativas I, II e III estão corretas.
( ) A alternativa III está correta.

2 O classicismo não correspondia mais ao momento histórico que a sociedade


europeia estava passando no início da Revolução Industrial. No entanto, o
romantismo veio trazer outro olhar para a arte, que consistia em:

( ) Expor através da pintura uma carga emocional devido às mudanças


históricas ocorridas com a Revolução Industrial.
( ) Registrar na pintura a violência deste período, trazendo temas como a morte
por armas de fogo, suicídios, explosões por bomba atômica.
( ) Trazer temas históricos, para acalentar a alma sofrida da sociedade, e,
portanto, pintaram temas de paisagens, flores e animais.
( ) Realizar pinturas nos pontos turísticos, como a Torre Eiffel, feita pelo artista
Goya, que estava revoltado com atos incrédulos da política.

173
174
UNIDADE 3
TÓPICO 3

REALISMO

1 INTRODUÇÃO
O poderoso desenvolvimento técnico e industrial da Inglaterra, seguida
pela França, salientou os desequilíbrios econômicos e profundas mudanças sociais.
Teóricos humanistas propagam teorias econômicas e sociais e buscam colocar o
progresso técnico e a arte a serviço do homem.

Como reflexo dessa instabilidade política, das injustiças sociais e da


crescente industrialização da sociedade, surge uma nova corrente estética, o
realismo. Este movimento estava ligado às correntes republicanas e socialistas.

O movimento não constitui uma escola homogênea, mas artistas têm


o desejo de romper com a hierarquia de gêneros, em que a grande revolução
do realismo está na escolha do tema. Segundo a doutrina acadêmica, uma
pintura nobre deveria representar assuntos nobres, enquanto pessoas comuns,
trabalhadores, camponeses, serviriam apenas para pintura de gênero. Por isso, os
artistas reivindicaram o direito de escolher qualquer tema, seja do cotidiano ou da
classe trabalhadora.

O realismo vem reagir ao romantismo, pelo excesso de imaginação, das


narrativas na arte romântica e do intelectualismo do neoclassicismo, em que os
artistas representam as coisas reais e existentes, visíveis, mas, às vezes, eliminando
o que lhes parece inexpressivo.

No entanto, alguns artistas não queriam mais trabalhar somente com


temas de destaques sociais, mas sim, ampliar esse universo plástico. Tinham como
primazia representar a natureza com enfoque na incidência da luminosidade. Além
de estudos de luz, as pinturas eram feitas diversas vezes sobre a mesma temática,
o que desencadeou o contato com a fotografia, buscando uma arte fiel à realidade.

Vamos estudar esta arte que eliminou dois “ismos” – neoclassicismo e


romantismo –, em busca da realidade na arte, bem como, vamos conhecer a criação
do artesanato contra a produção em série causada pela industrialização. Nessa
época, as exposições trouxeram arte e artesanato, mostrando a unicidade entre
eles, podendo fazer parte da sociedade como forma de humanizar os sentidos.
Vejamos a seguir como eram realizados os registros pictóricos e a evolução da
arquitetura.

175
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

2 REGISTRO SOCIAL NAS TELAS


O movimento artístico do realismo surgiu na França no século XIX e se
propagou por toda a Europa onde os artistas procuravam estabelecer outra
realidade na pintura, pois artistas neoclássicos e do romantismo não pintavam
o momento real, a vida da sociedade, muito menos o seu cotidiano, mas sim,
procuraram representar os temas místicos e históricos.

Quando ocorre o rompimento ou a passagem de um movimento para outro,


significa que os artistas buscam novos olhares, ângulos, percepções, se tornando
importantes para o enriquecimento e desenvolvimento da arte.

Os artistas realistas tinham um olhar sensível, pois viam o cotidiano da


sociedade que se tornava inspiração para registrar pictoricamente em tela. Mas
quando se fala em sociedade, qual seria? Tratava-se de uma sociedade burguesa
típica do século XIX, na qual as vestimentas de tecidos luxuosos, bordados e
chapéus serviam para proteger suas peles claras? Não! O enfoque dos artistas
era realizar uma pintura social, onde as pessoas retratadas eram os trabalhadores
humildes, que estavam em primeiro plano nas telas.

Um dos mais importantes representantes deste movimento foi Gustave


Courbet (1819-1919), salientando o realismo como sendo uma “[...] arte
essencialmente objetiva e consiste na representação das coisas reais e existentes”
(CAVALCANTI, 1981, p. 32).

Gostaria que você refletisse um pouco: para os artistas neoclássicos


também não seria possível realizar pinturas nas quais crianças estariam reunidas
se divertindo, ou um homem bebendo algo em um dia muito quente. Esse tipo de
pintura seria inadequado, pois a arte neoclássica deveria reproduzir acontecimentos
da história ou cenas mitológicas. E caso a pintura representasse alguém bebendo,
como seria? Certamente seria a imagem de alguém importante, ilustre ou uma
figura da mitologia grega.

Voltando ao nosso ponto de estudos sobre o realismo: como eles faziam


suas pinturas? Em uma palavra: verdadeiro.

Ser verdadeiro é selecionar, sintetizar e realçar os aspectos mais


característicos, expressivos e, por isso mesmo, mais comunicáveis e
inteligíveis das formas da realidade, não sendo necessário idealizá-
las ou perturbá-las com emoção. Ainda podemos destacar que nas
pinturas procuravam [...] equilíbrio entre a linha e a cor, ou entre as
faculdades intelectuais e as emocionais, no ato da criação artística [...]
será sintético, eliminando os elementos acessórios e insignificantes, sem
força expressiva para definir o caráter do modelo e o ambiente que o
cerca (CAVALCANTI, 1981, p. 77).

Para entender melhor este movimento, é importante visualizar algumas


figuras pertencentes aos artistas realistas, como Gustave Courbet, Edouart Manet
e Jean-François Millet, que estão contempladas a seguir:

176
TÓPICO 3 | REALISMO

FIGURA 131 - GUSTAVE COURBET- MOÇAS PENEIRANDO TRIGO. 1853-1854.


MUSEU DE BELAS ARTES, NANTES, FRANÇA

FONTE: Proença (2011, p. 183)

Podemos perceber que a obra “Moças peneirando trigo”, entre diversas


outras com temática social de um dos grandes expoentes, atenta para o cotidiano e
a vida social dos trabalhadores das classes média e baixa, que trabalhavam muito
e ganhavam pouco para seu sustento no século XIX.

Já a figura “Quebrando linho”, exposta a seguir, se passa no período de


industrialização na Europa, e podemos ver uma mulher realizando um serviço que
requer cuidado e esforço com o uso de equipamentos rudimentares, mas que para
a época eram contemporâneos e ajudavam na realização das atividades diárias.

177
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 132 – JEAN-FRANÇOIS MILLET. QUEBRANDO LINHO,


1857. PINTURA A ÓLEO, 84 x 112 cm. MUSÉE
D’ORSAY, PARIS

FONTE: Disponível em: <http://www.ac-grenoble.fr/


comptesimbriques/disciplines/artpla/eCRAN/wp-content/
uploads/Thomas.jpg>. Acesso em: 4 fev. 2017.

Podemos nos atentar ainda sobre a vestimenta da mulher – saia longa e


blusa muito familiar como a moda nos dias atuais. Se observarmos nas ruas e
vitrines das lojas, as saias estão em destaque e fazendo parte dos armários de muitas
brasileiras. Na obra de Millet, o traje era utilizado por mulheres de uma classe
social inferior ao realizar o trabalho árduo com a intenção de não machucar a pele
durante a caminhada em meio à plantação. Hoje, mostra elegância e sofisticação,
seja para o trabalho ou um happy hour com os amigos.

Entretanto, a moda se apropria do passado e o uso do olhar sobre o rigor


da vestimenta das pessoas nos quadros é um dos indicadores para reconhecer o
período em que a obra foi realizada. Vale lembrar que, na antiguidade grega, a
vestimenta mostrava o caráter social das pessoas ao olhar as esculturas clássicas.

Vamos nos questionar: Em relação ao Brasil, encontramos registros


pictóricos com temas sociais? Sim. Muitos artistas brasileiros registraram em telas
a realidade social brasileira, entre eles temos a artista Tarsila do Amaral (1886-
1973).

178
TÓPICO 3 | REALISMO

UNI

Mas, quem foi Tarsila? Ela foi uma exímia artista brasileira que estudou na Europa,
mas lutou juntamente com outros artistas para que nosso país fosse reconhecido por uma
arte típica “brasileira”. Os temas de seus quadros são inspirados na realidade do povo brasileiro.

A pintura realista abordou o tema social, mas será que a arquitetura também
teve esse enfoque? Antes de abordarmos o caráter arquitetônico realista, vamos
pincelar primeiramente como ocorreu a arquitetura em outros períodos históricos.
Destacamos aqui os romanos, que viam a estética indissociável da funcionalidade,
ou seja, a arquitetura poderia ser bela, mas também funcional. Enquanto na Idade
Média havia uma preocupação com o tamanho, onde as igrejas e as catedrais se
destacavam tanto em comprimento quanto em altura, pois havia uma preocupação
com a elevação espiritual e a sua construção de forma grandiosa, repercutindo a
ideia de que era uma forma de estar mais próximo de Deus.

Nesse sentido, cada sociedade deu importância ao que construiu, contudo,


havia uma significância de tal nobreza arquitetônica. Mas qual seria a grandeza
da arquitetura no realismo? Neste período foram erguidas escolas, lojas, fábricas,
moradias, entre outras construções necessárias para dar subsídio a um novo
momento histórico, a chamada industrialização, e no qual a arquitetura tinha a
necessidade de ter funcionalidade.

Foi nesse período que se destacou a obra arquitetônica conhecida como


“Torre Eiffel”, um dos cartões postais da França, que foi construída com materiais
que estavam em evidência: o ferro e o concreto.

179
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 133 – GUSTAVO EIFFEL. TORRE EIFFEL, 1889. TRIUNFO DA


ENGENHARIA MODERNA, A TORRE EIFFEL OSTENTA
SEU ESQUELETO DE FERRO E AÇO, SEM ALUSÕES A
ESTILOS ARQUITETÔNICOS DO PASSADO. 324 M.

FONTE: Strickland, Boswell (2004, p. 90)

A trajetória arquitetônica, estudada até o momento, mostra a preocupação


estética, como na Grécia, utilitária e bela como na romana, com requinte (ouro
e madeira) mostrando poder, muito consagrado no barroco e na Revolução
Industrial, como na Europa, que foi reduzida à funcionalidade. No Brasil temos
grandes construções no sentido de beleza, bem como de aspecto utilitário.

UNI

Um grande arquiteto foi Oscar Niemeyer (1907-2012), que no nosso país primou
por arte e beleza. Mas será que hoje vivemos um momento realista na arquitetura? Observe as
construções em sua região e reflita a respeito.

Outro destaque social coube à expressão da escultura, em que a inspiração


se voltou ao homem real e o contexto onde estava inserido. Foi então que algumas
esculturas eternizaram os movimentos expressivos de corpos humanos, por
exemplo, a obra de Augusto Rodin (1840-1917), intitulada “O pensador”, onde um
homem sentado sobre uma pedra está em uma posição que remete à reflexão.

180
TÓPICO 3 | REALISMO

Quem nunca fez esse gesto com a mão no queixo? Provavelmente cabe à nossa
realidade atual esse movimento, que foi muito bem esculpido pelo artista. Vejamos
a figura a seguir:

FIGURA 134 - AUGUSTO RODIN. O PENSADOR, 1880. ESCULTURA


DE BRONZE, 68,6 CM X 89,4 CM X 50,8 CM

FONTE: Proença (2011, p. 182)

Entre as muitas esculturas que Rodin fez, poderíamos destacar ainda “O


beijo” e as “Três sombras”.

FIGURA 135 - AUGUSTO RODIN. O BEIJO, 1888-1889.


MÁRMORE, 181,5 X 112.3. MUSEU RODIN, PARIS

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/O_


Beijo#/media/File:The_Kiss.JPG>. Acesso em: 5 fev.
2017.

Será que em outros momentos na história da arte foram criadas esculturas


trazendo o tema beijo? Vejamos, na figura a seguir, algumas criações em diversos
materiais para que você possa contemplar e sentir-se instigado a continuar a
pesquisa.
181
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 136 - ESCULTURAS DE BEIJO AO LONGO DA HISTÓRIA DA ARTE

FONTE: Adaptado de Proença (2011)

Ao realizar uma pesquisa sobre o trabalho de Rodin, poderíamos


enquadrá-lo em outro movimento artístico? Poderíamos sutilmente enquadrá-
lo no expressionismo, que será estudado no segundo livro de História da Arte,
justamente por apresentar expressões carregadas de emoções. Pertencentes ao
realismo, suas esculturas mostram como o corpo humano é de verdade, com suas
imperfeições físicas. Você lembra como eram as esculturas de figura humana na
Grécia, opostas aos realistas? Tinham preocupação com o corpo ideal, o homem
com músculos e a mulher com as medidas perfeitas, somente por eles idealizados.
Muitas das obras de Rodin apresentam-se inacabadas, pois ele deixava parte do
material na sua forma primária e parte dele esculpida.

UNI

O Realismo já era contemporâneo no sentido de deixar o material puro, ou seja,


no seu estado natural e parte dele trabalhado, surgindo a obra. Hoje podemos encontrar obras
de arte assim? Qual é seu pensamento sobre a arte inacabada?

O realismo tinha preocupação em mostrar o cotidiano social daqueles que


tinham como ritmo de vida o trabalho árduo e a vida simples. Como Courbet
dizia: pintura era a arte pela arte. Já o artista Manet discordava, pois acreditava na
pintura pura, essa que será estudada no movimento do impressionismo. A seguir,
vamos estudar o Art Nouveau, movimento em que a criação dos objetos de forma
manual vem responder à sua importância para a industrialização, instaurada no
século XIX, em que podemos perceber suas nuances no neoclassicismo e vem cada
vez mais se enraizar pelo mundo.

3 ART NOUVEAU – RIQUEZAS DA INDUSTRIALIZAÇÃO


“Na última década do século XIX surgiu um novo movimento artístico que
reuniu as diversas tendências: as ideias da industrialização, do Movimento das
Artes e Ofícios, da arte oriental, das artes decorativas e das iluminuras medievais”
(PROENÇA, 2011, p. 186).

182
TÓPICO 3 | REALISMO

Esse movimento que surgiu na Europa, envolvendo a criação de objetos


ornamentados e a arquitetura, foi o art nouveau. Na arte chamada pelos europeus
de aplicadas, o foco estava voltado à produção de objetos decorativos e pela
valorização do trabalho manual, onde surge o art nouveau com a intenção de dialogar
com a produção em série. As máquinas podiam produzir muitas peças iguais em
pouco tempo e, muitas vezes, não tinham um acabamento tão sofisticado, como
quando feito manualmente. Assim, os questionamentos dessa linha de produção
começam a surgir, fazendo com que o art nouveau acompanhasse essas mudanças
na sociedade.

Um dos artistas desse movimento foi Christopher Dresser (1834-1904),


professor de desenho e estudioso de botânica. Ele uniu suas observações das curvas
dos vegetais para criar formas mais elegantes aos objetos de metal, de vidro, de
papel, entre outros. Entretanto, outros artistas focaram em ilustrar livros infantis,
fazer arte em joias e jarros sofisticados com inspiração na natureza, além de
criarem diversas luminárias com materiais diversos (PROENÇA, 2011). Podemos
contemplar o trabalho do movimento art nouveau na figura a seguir:

FIGURA 137 – OBJETOS CRIADOS NA ART NOUVEAU

FONTE: Adaptado de Proença (2011)

Com o crescimento da variedade de objetos, como alguns que você pode


contemplar acima, muitos outros foram desenvolvidos. Estes objetos fizeram parte
de exposições de obras de arte que

[...] tornaram-se famosas porque não se limitavam a mostrar as obras


de cada artista separadamente, mas procuravam apresentar uma
unidade das obras de arte com uma mesma proposta estética. Assim, a
arquitetura, os elementos decorativos das salas, a escultura e a pintura
deveriam formar um todo, mas não um todo em que as individualidades
artísticas se anulassem, pelo contrário, as obras individuais deveriam
dialogar com a proposta da exposição (STRICKLAND; BOSWELL,
2004, p. 190).

183
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Era um período onde a exposição não destacava apenas uma expressão,


mas todas elas, pois uma complementava a outra, ou seja, uma parede com detalhe
de papel decorativo dava ênfase à cômoda de madeira com entalhes, e sobre ela
havia um jarro onde suas curvas chamavam a atenção. Não poderia haver, então,
uma exposição somente com móveis, ou objetos, pois se perderia o sentido da
unicidade.

As constantes exposições nesse viés entusiasmaram os artistas, que


buscaram criar, inovar, para mostrar as obras novas. No entanto, o artista Gustav
Klimt (1862-1918), que iniciou ornamentando uma das exposições, se tornou
famoso, realizando uma das pinturas mais famosas de sua autoria, conhecida
como “O beijo” (PROENÇA, 2011).

FIGURA 138 – GUSTAV KLIMT. O BEIJO, 1907-1908. ÓLEO SOBRE TELA, 1,80 X 1,80
CM. GALERIA AUSTRÍACA, VIENA

FONTE: Proença (2011, p. 190)

Na obra acima podemos notar que as estampas das roupas se diferem. As


do homem trazem figuras geométricas como elementos masculinos, enquanto as
da mulher trazem figuras orgânicas e circulares como elementos femininos, se
misturando e contrastando com o dourado. No meio do universo de cores e do
dourado encontram-se duas figuras no envolto dos braços, onde o calor do beijo se
torna o centro do olhar do espectador. De acordo com Proença (2011, p. 191),

184
TÓPICO 3 | REALISMO

A opção do artista pela postura dos dois amantes – ele com a cabeça
virada, deixando o observador ver menos do que um perfil; ela com
os olhos fechados – pode ser entendida como a intenção de exibir o
distanciamento das pessoas que se amam e que estão apenas entregues
a si mesmas.

A obra “O beijo”, de Klimt, foi muito reproduzida pelo mundo, mas vale
destacar também que outros artistas, em outros momentos da história, já trouxeram
obras referentes ao tema. Veja a imagem a seguir, que proporciona contemplar
diversos beijos criados no mundo da arte.

FIGURA 139 – ARTISTAS QUE TROUXERAM O TEMA “O BEIJO”

FONTE: Adaptado de Proença (2011)

UNI

Para conhecer mais a respeito do artista Klimt, assista ao filme A dama dourada,
onde uma judia tenta recuperar um dos quadros do artista que foi confiscado pelos nazistas
durante a Segunda Guerra Mundial.

Um dos aspectos característicos do art nouveau era integrar as artes aplicadas


(visto anteriormente) com a arquitetura. Na arquitetura, coube a parte decorativa
nos objetos, bem como consistia em dar um ar mais moderno às construções, e
mesmo retomando alguma tendência, se procurava realizar um trabalho diferente.
Neste período “[...] Van de Velde projetou edifícios simples, mas que não eram
imitação das formas preexistentes, e Victor Horta deu nova vitalidade à arquitetura
ao empregar amplamente o ferro e o vidro em edifícios que projetou em Bruxelas”
(PROENÇA, 2011, p. 191). Para Gombrich (2013), o arquiteto Horta buscou se
aperfeiçoar com os japoneses, onde largou a simetria e procurou trabalhar com as
curvas sinuosas da escada, como podemos ver na figura a seguir:

185
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 140 – VICTOR HORTA. ESCADARIA, 1893. HOTEL TASSEL,


BRUXELAS

FONTE: Proença (2011, p. 191)

A arquitetura art nouveau pode ser vista em outros espaços, como entradas
de metrô, fachadas de prédios e igrejas. São novas formas que caracterizam a
arquitetura do fim do século XIX. Um dos destaques é a Igreja Sagrada Família do
artista Antoni Gaudí (1852-1926), que ficará de fato pronta em 2026.

FIGURA 141 – ANTONI GAUDÍ. FIGURA 142– ANTONI GAUDÍ.


PROTÓTIPO DA IGREJA SAGRADA RÉPLICA DA IGREJA SAGRADA
FAMÍLIA. EXPOSTO NO MASC – MUSEU FAMÍLIA. EXPOSTO NO MASC
DE ARTE DE SANTA CATARINA – MUSEU DE ARTE DE SANTA
CATARINA

FONTE: Fotografia. Acervo da autora (2016)

186
TÓPICO 3 | REALISMO

O artista realizou ainda outros trabalhos, como luminária, em que a sombra


projetada parece um delicado papel de parede; cadeiras que são peças exclusivas,
com entalhes e detalhes únicos; mesas com arte sobre elas e pisos únicos, como
visto na imagem a seguir:

FIGURA 143 – ANTONI GAUDÍ. CRIAÇÕES DO ARTISTA. EXPOSTO NO MASC –MUSEU DE ARTE
DE SANTA CATARINA

FONTE: Fotografia. Acervo da autora (2016)

Também se percebe, dentre as obras de Gaudí, mosaicos revestindo


fachadas, como mostra a figura a seguir:

FIGURA 144 – ANTONI GAUDÍ. FOTOGRAFIA DA CASA DE VICENS REVESTIDA DE CERÂMICA,


EXPOSTA NO MASC – MUSEU DE ARTE DE SANTA CATARINA

FONTE: Fotografia. Acervo da autora (2016)

187
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

De modo geral, o art nouveau deixou o artista Gaudí explorar os elementos


que encontramos na natureza para desenvolver seu trabalho. Os artistas nas suas
mais diferentes expressões de alguma forma procuraram escapar da produção
industrial e criar peças únicas, buscando o lado artesanal do fazer. Portanto,
buscaram alinhavar em uma mesma tendência desde objetos até a decoração de
interiores e fachadas.

UNI

Para finalizar este movimento, que inicia no final do século XIX e tem sua
continuidade no início da Idade Moderna, leia o texto intitulado “As características da art
nouveau”, para ampliar o conhecimento sobre esta arte que envolve o artesanal, único e
singular, em meio à industrialização.

“[...] As manifestações do Art Nouveau se mostram constantemente preocupadas em conferir a


habilidade de seus representantes na exploração de traços obtidos na natureza. A sinuosidade
e a complexidade das formas operavam como um tipo de confirmação dos limites que a
produção industrial teria no mundo das artes. Em outras palavras, a existência de formas de
plantas e animais demonstraria a exata distância que difere o labor artístico da reprodução
realizada pelas máquinas.

Ao mesmo tempo, devemos também frisar que as opções desse estilo estavam manifestadas
na escolha de materiais que se afastavam da matéria-prima comumente encontrada nos
ambientes fabris. Os materiais deveriam reforçar a singularidade da ação artística, sendo, dessa
forma, trabalhados por meio de tantas etapas e processos que não poderiam se adequar
precisamente à determinação de um produto que pudesse ser refeito utilizando-se dos
mesmos materiais e da mesma técnica. Sem dúvida, tínhamos uma engenhosa provocação ao
poder que as máquinas galgavam naquela época.

Também devemos aqui salientar que o Art Nouveau teve grande força para que seu estilo se
manifestasse em diferentes campos da arte. Dessa forma, quadros, móveis, objetos de decoração
e edifícios integraram essa mesma tendência. No campo das artes plásticas, podemos destacar
o legado de Gustav Klimt (1862-1918), autor de "O beijo" (1907); Henri de Toulouse-Lautrec
(1864-1901), que assina "Baile no Moulin Rouge" (1890); e Pierre Bonnard (1867-1947), criador
de "Prato de maçãs em cima de uma mesa", de 1905.
Na arquitetura e na decoração é possível encontrar um grande número de objetos representantes
de tal tendência. Tanto na parte externa como interna das construções, observamos a existência
de labaredas, flores, folhagens e animais que conferiam a organicidade e a naturalidade
pretendida pelos seus autores. Entre outros, podemos reservar especial destaque ao legado
de Antoni Gaudí (1852-1926), que se notabilizou pelos mosaicos encontrados no Parque Guell
e as grandes e surpreendentes formas exploradas na Catedral da Sagrada Família, situada em
Barcelona.

FONTE: Souza, Rainer. As características do art nouveau. Disponível em: <http://brasilescola.


uol.com.br/historiag/art-nouveau2.htm>. Acesso em: 4 fev. 2017.

188
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico você estudou que:

• O realismo surgiu na França do século XIX. A sua criação artística priorizou a


volta à razão, influenciada pela ciência. A emoção regida pelos artistas românticos
é rejeitada pelos realistas, onde a beleza é real e objetiva. Na arquitetura realista,
as construções urbanas seguem a lógica da era industrial. O movimento do
realismo tinha o caráter pictórico de resgatar precisamente o cotidiano social.

• A art nouveau veio, por meio do seu artesanato rico em detalhes e preciosidades,
mostrar a sua importância em um momento onde as produções de peças estavam
iniciando de forma seriada. A arte e o artesanato da art nouveau fizeram diversas
exposições conjuntas, mostrando a unicidade entre elas.

189
AUTOATIVIDADE

1 Em meados do século XIX, artistas se opunham a outros movimentos


artísticos, que traziam em suas obras de arte temas mitológicos ou com
enfoque histórico. Dentro de uma conjuntura histórica, era um período
de industrialização. Assim, ao lado desse desenvolvimento, os artistas
caminham para uma arte denominada realismo. Sobre este movimento,
analise as seguintes sentenças:

I – Artistas traziam para suas telas temas mais sociais, ou seja, com uma
abordagem para o cotidiano de atividades diárias.
II – O realismo desencadeou outro movimento artístico de suma importância
para a história da arte, também pertencente ao século XIX, conhecido como
hiper-realismo.
III – Momento em que a industrialização era crescente e a arquitetura tomou
caráter funcional.
IV – As esculturas que remetem à figura humana eram feitas somente com
material apropriado, como a pedra sabão, pois permitiam realizar esculturas
iguais às gregas.

De acordo com as afirmativas acima, assinale a alternativa CORRETA:

( ) Somente a afirmativa IV está correta.


( ) As afirmativas I e III estão corretas.
( ) As afirmativas I e IV estão corretas.
( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.

2 O Realismo ficou marcado por trazer construções arquitetônicas diversas,


como escolas, comércios e fábricas, pois era um momento histórico marcado
pela:

( ) Política.
( ) Religião.
( ) Industrialização.
( ) Filosofia.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

190
UNIDADE 3
TÓPICO 4

O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A
FOTOGRAFIA

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico abordaremos um grupo de artistas denominados
impressionistas que, mais precisamente no final do século XIX, procuraram
estabelecer uma arte contrária ao que estudamos nos tópicos anteriores. Ansiavam
por estar próximos da natureza, e esta proximidade daria uma representação que
caracterizava a incidência da luminosidade na pintura.

Entre esses estudos começaram a ter contato com a fotografia a partir


de Edgar Degas, além de novas descobertas nos estudos pictóricos. Mas como?
Ampliaram o conceito impressionista, agregando pontos na tela, nascendo assim o
pontilhismo. No entanto, o impressionismo ficou marcado pelo registro da natureza
por meio da pintura, onde vamos conhecer os lugares que foram registrados, além
de estudar o pontilhismo, uma ramificação do impressionismo.

Então, convidamos você, acadêmico, a iniciar a leitura e entender o universo


desse momento histórico/artístico.

2 A ARTE IMPRESSIONISTA
O que significa a palavra impressionismo para você, acadêmico? O objetivo
da arte seria, de fato, impressionar? Na verdade, não! Foi um movimento artístico
que teve seu início na França no final do século XIX, com repulsa à arte acadêmica,
aquela ensinada em escolas artísticas europeias. Ela surgiu quando um grupo de
artistas procurou exaltar traços de pintura imediatos. Mas como? Procuravam
registrar as impressões do momento, trazendo pontos de luz e as cores refletidas
pela luminosidade, pincelando rapidamente na tela. Estes grupos de jovens artistas
que faziam pintura dessa forma realizaram uma exposição, no entanto

[...] não foi bem-sucedida pelo público e pela crítica. Apenas pequeno
número de visitantes, intelectuais e artistas pareciam compreender
e apoiar os jovens artistas. A maioria os condenava, considerando-
os falsos pintores, que ignoravam a beleza, as regras tradicionais da
pintura e os princípios eternos da arte” (CAVALCANTI, 1981, p. 71).

Entre esse grupo de artistas, alguns tiveram contato com o realismo de


Gustave Courbet. Porém, essa passagem de artistas do realismo para o movimento
impressionista não foi bem aceita por alguns críticos de arte, porque, na visão

191
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

deles, esses jovens artistas queriam realizar uma pintura que fosse diferente, assim,
trazendo um novo momento na história da arte e promovendo o surgimento de
um movimento chamado impressionismo. Proença (2010) identifica algumas
características que definem o novo movimento, como:

• A pintura deve registrar as tonalidades que os objetos adquirem ao refletir a


luz solar num determinado momento, pois as cores da natureza se modificam
constantemente com a luz do Sol.

• As figuras não devem ter contornos, pois a linha é só uma forma encontrada pelo
ser humano para representar, por meio de imagens, a natureza, os objetos, os
seres em geral, logo, o contorno foi uma criação humana.

• As sombras devem ser luminosas e coloridas, tal como é a impressão visual que
nos causam, e não escuras ou pretas, como os pintores as representavam até
então.

• As cores e tonalidades não devem ser obtidas pela mistura das tintas na paleta.
Devem ser puras e utilizadas na tela em pequenas pinceladas. É o observador
que, ao apreciar a pintura, combina as várias cores obtendo o resultado final. A
mistura das cores passa a ser, portanto, resultado do olhar humano, e não da
técnica do pintor, pois ele não a mistura em sua paleta.

Como os artistas impressionistas não se preocupavam com contornos,


já que na natureza não há linhas de contorno, colocavam suas telas em meio à
natureza e começavam a pintar o que estava diante dos olhos, usufruindo das cores
primárias e das cores secundárias que eram aplicadas diretamente do tubo de tinta
com o dedo, pincel ou da própria espátula na tela, onde as cores se misturavam,
pois uma cor estava sobreposta a outra. E quando o artista pintava desta forma, de
perto observavam-se apenas manchas, mas ao se afastar da tela e apreciar a obra
de longe, aquelas manchas ganhavam forma, ou seja, aos olhos do espectador,
figuras eram visualizadas.

UNI

Foram produzidas por empresas químicas tintas em tubos desde o século XIV
com várias cores, proporcionando aos artistas maior liberdade aos efeitos instantâneos.

Quem de fato começou com essa forma de arte? Foi o artista Claude Monet
(1840-1926).

Monet, durante uma aula de pintura acadêmica, se recusou a fazer a


atividade, pois o professor havia pedido para os alunos pintarem a
partir de modelos antigos. Ele e outros jovens se recusaram, assim, este
grupo de artistas pintou muitas paisagens e fez a exposição onde foram

192
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

recusados, pois pintar sem fazer um esboço e depois cuidadosamente


terminar a obra não era adequado para a época (STRICKLAND;
BOSWELL, 2004, p. 99).

A obra “Impressão: nascer do Sol”, pintada por ele, foi responsável pelo nome
do movimento impressionista dado pelo grupo de artistas de que ele participava.
Isto ocorreu devido ao fato de a pintura ser ao ar livre, podendo trazer efeitos de
luz natural. Quando colocaram esse título, Monet

[...] estava dizendo que o quadro não era simplesmente uma imagem
do alvorecer em uma enseada, mas o efeito da cena sobre o olhar
de um observador. “Impressão”, acrescentada ao título do quadro,
funciona como rótulo de uma tela (“esboço”, “estudo” ou “detalhe”)
(SCHAPIRO, 2002, p, 35).

FIGURA 145 - CLAUDE MONET. IMPRESSÃO: NASCER DO SOL, MONET, 1872.


ÓLEO SOBRE TELA, 48 CM X 63CM

FONTE: Strickland e Boswell (2004, p. 96)

3 CARACTERÍSTICAS IMPRESSIONISTAS E SEUS ARTISTAS

Os artistas deste movimento tinham suas especificidades no uso da cor, nas


temáticas e no próprio estilo de pintura. Procuravam captar a impressão de um
pôr do sol, ou de um passo de dança de uma bailarina em um ambiente fechado,
de modo que o ponto central dos artistas era focar na incidência de luz sobre a
matéria (paisagem), além do estilo de pintura ser pinceladas pequenas e em várias
direções.

Nesse sentido, convidamos você, acadêmico, a entender esses artistas


de um tempo em que a arte era total inspiração humana, em que o olhar era
imprescindível para captar a essência no caso da luminosidade.

193
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Convidamos você para uma viagem pelo universo particular de cada artista
deste movimento, começando pelo expoente Claude Monet.

• Claude Monet (1840-1926):

Foi caricaturista e ilustrador enquanto adolescente, e gostava de expor seus


desenhos na mercearia de seu pai, mas não foi reconhecido. Mais tarde matriculou-
se em uma escola de arte, mas teve que servir o exército na África, onde observou a
luz e as cores africanas na natureza. Retornando mais tarde para seu país, começou
a observar suas paisagens e teve o prazer de pintá-las. Passou por momentos
complicados devido a dívidas, porém com a venda de alguns quadros ele se
reergueu e pôde pintar barcos, pôr do sol, praias, entre outras paisagens. Como
procurava registrar os efeitos de luz, chegou a pintar o mesmo tema (fachada da
catedral de Rouen), entre outros lugares, várias vezes, no mesmo dia. Ao pintar
figuras humanas e flores, eram apenas esboços (lembrando manchas), mesmo
assim, o espectador podia compreender o registro pictórico. Trabalhou como
artista até a morte, aos 86 anos (STRICKLAND; BOSWELL, 2004).

QUADRO 1 - CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO DE MONET


TEMAS CORES ESTILOS RECOMENDAÇÃO
Paisagens marinhas, Tons solares, cores Dissolvia a
séries sobre campos primárias puras forma em Tente esquecer que objetos
de papoulas, em pinceladas luz e clima, têm à sua frente, árvore,
rochedos, montes uma ao lado da contornos casa, campo ou o que for.
de feno, Catedral outra (as sombras suaves, ar Pense apenas: Aqui está
de Rouen; fase final eram cores impressionista um quadradinho azul,
da obra: nenúfares complementares clássico. aqui uma forma oblonga
aquáticos quase em pinceladas cor-de-rosa, aqui uma
abstratos. uma ao lado da faixa amarela e pinte-a
outra). exatamente como você a vê.

Fonte: Strickland e Boswell (2004)

Monet foi destaque neste movimento, pois procurava trabalhar as cores


de um objeto, arquitetura, planta que mudavam ao longo do dia, por exemplo, a
tonalidade do céu que apresentava diversas nuances em diversos horários. Devido
à sua forma de trabalhar:

Monet vai além de Courbet. Ele não estava simplesmente explicando


um efeito incidental ou parcial em um quadro que representava um
grande número de objetos indistintos reconhecíveis; estava criando
um novo método que constituía uma tentativa global de capturar as
qualidades difusas da luz e a atmosfera em um determinado momento
e lugar (SCHAPIRO, 2002, p. 63).

Podemos contemplar algumas obras nas quais ele se propôs, ao longo do


dia, não só apreciar a natureza, mas capturar a luminosidade. Assim, destacamos
que a sensibilidade e a percepção correm em suas veias, o que fica evidente em

194
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

suas telas. Dentre elas, a obra “Catedral de Rouen” e “O lago dos nenúfares” ganham
destaque, pois [...] “a fachada dessa construção gótica, uma das mais significativas
do gótico francês, o artista pintou-a em vários momentos do dia, registrando assim
as diferentes impressões” (PROENÇA, 2011, p. 213). Para o artista, observar o
mesmo lugar durante várias horas do dia mostrava o quanto as nuances de cor e
o reflexo podiam mudar, estimulando-o a realizar várias pinturas, como ocorreu
com a Catedral de Rouen, que pode ser visualizada a seguir:

FIGURA 146 – CLAUDE MONET. CATEDRAL DE ROUEN, FACHADA


OESTE, LUZ DO SOL, 1894. WASHINGTON, DC

FONTE: Strickland; Boswell (2004, p. 102)

Proença (2010) revela que a Catedral de Rouen, pertencente ao estilo


gótico e localizada na França, foi pintada por Monet em diferentes momentos do
dia, mostrando que ao longo do dia os objetos e as cores na natureza mudam,
dependendo da incidência da luz solar.

Embora seu trabalho sobre a catedral seja de riquíssimo esplendor, realizou


também pintura dos nenúfares, fazendo parte de um legado artístico contemplado
e admirado por muitos.

195
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 147 - CLAUDE MONET. O LAGO DOS NENÚFARES. 1899

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Nen%C3%BAfares_-


_s%C3%A9rie_(Monet) >. Acesso em: 5 fev. 2017.

UNI

[...] “Claude Monet (1840-1926) iniciou o seu próprio jardim logo que se mudou
de Paris para Giverny, em 1883. [...] A pequena Giverny, um vilarejo bucólico, na época com
300 habitantes e cerca de 70 km da capital francesa, impressionou muito Monet. A natureza,
as flores e a luz brincavam de revelar e esconder as cores e os aromas, fascinando o artista e
criando o início de uma relação de cumplicidade, emoção e arte. Arte ao ar livre.

Com o sucesso de suas vendas, em 1890 Monet comprou o terreno e foi lentamente
adquirindo algumas terras à volta de sua propriedade, criando um paraíso natural com a ajuda
de uma equipe de dez jardineiros e três motoristas. O artista plantou inúmeras espécies de
flores, plantas ornamentais e árvores frutíferas. Criou espontaneamente dois jardins – Jardim
d'Água e Jardim da Normandia – e deixou que a natureza se encarregasse de ditar a beleza e
a estética visual do lugar.

No final de sua vida, o artista havia plantado mais de 1.800 espécies de flores e plantas, que
conviviam em harmonia singular. Raros bambus japoneses, macieiras, azaleias, framboesas,
íris, tulipas, rosas, limoeiros, rosas chinesas, miosótis, dálias, girassóis e hortênsias – para citar
algumas – em suas cores variadas e cada qual com floração em data específica e planejada,
faziam com que o jardim se mantivesse belo e colorido durante todos os dias do ano. [...].

FONTE: FERNANDES, Ricardo. Jardins de Monet – eles existem. Disponível em: <http://
revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Paisagismo/Jardim/noticia/2013/05/jardins-de-
monet-eles-existem.html>. Acesso em: 5 fev. 2017.

196
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

• Pierre Auguste Renoir (1841-1919):

Entre os impressionistas, foi ele que expressava alegria ao pintar. Seu


início deu-se pintando flores em porcelana, depois trocou por pintura em leques
e tecidos, que são mais difíceis de realizar devido à riqueza de detalhes. O artista
ainda guardou dinheiro e se inscreveu em uma escola de Belas Artes, onde
passou a copiar obras de grandes mestres da pintura e acabou conhecendo outros
aprendizes, como Monet. Na academia não aceitaram muito bem este estilo de
pintura, mas para o artista não havia momento ruim, procurava trabalhar com
sorriso e muita alegria, fazendo diversos retratos. Com isso vendeu quadros
para autoridades, e com o dinheiro pôde viajar e continuar pintando. Mas, com
o tempo, teve artrite, ficando em cadeira de rodas, e mesmo assim se pôs a pintar
incessantemente, trazendo alegria e cor em seus quadros. Mas o que marcou as
pinturas de Renoir? Pintura de flores, mulheres e crianças, onde a captação da luz
dependia sobretudo da sua agilidade).

Strickland e Boswell (2004, 35) nos explicam que:

Ao pintar as cenas, “Renoir fragmentava a forma em manchas brilhantes


de luz, aplicadas como pinceladas curtas, de cores distintas. A ausência
de contorno, a forma sugerida por ênfases e a luz salpicada são outras
características impressionistas, como o eram sua recusa de usar preto.
Não era uma cor, ele dizia, acreditando que o preto fazia um buraco na
tela.

QUADRO 2 - CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO DE PIERRE AUGUSTE RENOIR


TEMAS CORES ESTILOS RECOMENDAÇÃO
Nus femininos, Vermelhos, Inicial: pinceladas rápidas, Pintar com alegria,
com pele de cores primárias, figuras manchadas como quem faria
pêssego, o Café detestava o preto misturadas ao fundo, amor com uma
Society, crianças e usava o azul nubladas; final: estilo mais mulher.
e flores. em seu lugar. clássico, nus solidamente
formados.

FONTE: Strickland e Boswell (2004)

Segue uma obra do artista:

197
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 148 – PIERRE AUGUSTO RENOIR. LE MOULIN DE LA GALETTE.1876

FONTE: Strickland e Boswell (2004, p. 104)

Le Moulin de la Galette era um café em Paris onde se dançava ao ar


livre, sob as árvores e a luz natural do jardim. Com pinceladas coloridas
nas roupas das pessoas, o pintor mostra diferentes modos de os tecidos
refletirem a luz que ilumina a cena. Além disso, com linhas e cores, ele
consegue sugerir não apenas o movimento da dança, mas também o
ambiente alegre em que as pessoas se divertem (PROENÇA, 2011, p.
214).

No entanto, a pintura “Le moulin de la Galette“ traz cenas que envolvem


movimento por meio do uso de traços rápidos. Renoir conseguiu o mais incrível:
captar a agitação das pessoas, bem como os momentos felizes que elas estavam
vivenciando.

Os artistas Monet e Renoir, por coincidência, pintaram a mesma cena. A


pintura refere-se a um restaurante, que era muito frequentado aos domingos,
chamado de “Le Grenouillière”. Ao observarmos as duas telas a seguir, notamos que o
artista Renoir parece ter aproximado mais as pessoas, enquanto Monet distanciou-
as do restaurante. Percebemos que nas duas cenas, as pessoas parecem conversar
e se divertir no local. “Assim notamos o mesmo aspecto do impressionismo: é o
observador que une as pinceladas coloridas e compõe o todo” (PROENÇA, 2010,
p. 152).

198
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

FIGURA 149 – PIERRE AUGUSTE RENOIR, LE GRENOUILLIÈRE, 1869

FONTE: Disponível em: <ttps://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f1/


Auguste_Renoir_-_La_Grenouill%C3%A8re.jpg>. Acesso em: 5 fev. 2017.

São cenas de um mesmo lugar, onde um grupo de pessoas com vestes


próprias de passeio parecem descansar, e ao mesmo tempo, entre diálogos,
aproveitam o passeio em grupo.

FIGURA 150 – CLAUDE MONET. BAIN À LA GRENOUILLIÉRE, 1869

FONTE: Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Bain_%C3%A0_


la_Grenouill%C3%A8re#/media/File:Claude_Monet_La_
Grenouill%C3%A9re.jpg>. Acesso em: 5 fev. 2017.

199
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Um dos exercícios que podemos fazer para enriquecer os saberes sobre arte
é o deleite estético, que é o exercício constante de apreciar obras de arte, o que nos
remete à fruição e à reflexão. Algumas obras de Renoir podem ser apreciadas no
MASP - Museu de Arte de São Paulo, como o famoso quadro “Rosa e azul”, que
faz parte de seu exímio acervo. As imagens a seguir fizeram parte da exposição
História da Infância, em 2016. Uma exposição que reuniu inúmeras representações
da infância. Ao lado da obra de Renoir, podemos ver uma fotografia que remete ao
cotidiano das crianças nos dias atuais e no Brasil.

Acadêmico! Vale refletir sobre estas duas imagens, pois há muito que
discutir com seu tutor e colegas acadêmicos sobre a história da arte nos dias atuais
contrastando com o passado.

FIGURA 151 - PIERRE AUGUSTE RENOIR.


FIGURA 152 – BÁRBARA WAGNER. SEM
ROSA E AZUL, 1881. ÓLEO SOBRE TELA,
TÍTULO (DA SÉRIE BRASÍLIA TEIMOSA), 2005.
1,19 M X 74 CM. MUSEU DE ARTE DE SÃO
FOTOGRAFIA
PAULO, SÃO PAULO

FONTE: Fotografia. A autora (2016)

UNI

Visite o site do MASP e confira as obras do artista Pierre Auguste Renoir que fazem
parte do acervo do museu. Acesse o site: <www.masp.art.br>.

200
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

• Edgar Degas (1834-1917):

Nasceu em uma família de alto poder aquisitivo, sua vida foi de amargura,
com pouco convívio social, principalmente nos últimos anos de vida, quando
começou a perder a visão, tornando-se mais difícil a convivência com ele. No
entanto, quando fora adolescente, pintava telas e realizava desenhos baseados
nos grandes mestres. Posteriormente, teve aulas com artistas, além de visitar
museus, como forma de inspiração para as suas pinturas. O resultado dessa
formação destacou-o mais como desenhista do que pintor, e sobretudo não tinha
interesse em pintar a natureza, trazendo foco para ambientes interiores, onde a luz
era artificial. Nesses espaços procurava captar os movimentos e a expressão dos
rostos, com isso sua maior especialidade voltou-se para a figura humana (GÊNIOS
DA PINTURA,1995).

De acordo com Janson (2007, p. 894):

[...] Degas não abandonou a antiga fidelidade ao desenho. Muitas


das suas melhores obras foram executadas em pastel (bastões em giz
com pigmentos em diversas cores), meio que exercia sobre ele forte
atração, dado que lhe permitia obter simultaneamente efeitos de traço,
tonalidade e cor [...].

QUADRO 3 – CARACTERÍSTICAS DO TRABALHO DE EDGAR DEGAS


TEMAS CORES ESTILOS RECOMENDAÇÃO
Retratos em pastel de Tons Ângulos não Mesmo quando trabalha
figuras humanas paradas vistosos convencionais, onde a partir da natureza, a
ou em movimento, como lado a lado as figuras ficavam pessoa precisa compor.
bailarinas, corridas de para obter amontoadas no lado
cavalo, café-society, vibração. da tela, composição
lavadeiras, circo. Na fase assimétrica com
final da vida pintou nus no vazio no centro.
banho.
FONTE: Strickland e Boswell (2004)

As imagens posteriores mostram a capacidade do artista em captar o


momento em traços rápidos, como podemos observar nas figuras das bailarinas
em primeiro plano. Na figura “Prima ballerina” podemos notar a presença de
figuras humanas mais ao fundo, enquanto no desenho “Nos bastidores”, em poucos
traços se dá notoriedade à presença de um homem. Degas em seus trabalhos não se
preocupava em colocar pessoas de forma centralizada; procurava compor em toda
a tela cenas, onde algumas pessoas estão mais à frente e outras em traços rápidos
(como nas figuras que foram circuladas) aparecem e que são parte importante na
composição.

201
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 153 – EDGAR DEGAS, PRIMA FIGURA 154 – EDGAR DEGAS, NOS
BALLERINA, PINTURA, 1878. MUSEU D’ORSAY, BASTIDORES, DESENHO, 1885. MUSEU
PARIS, FRANÇA BOIJMANS VAN BEUNINGEN, ROTTERDAM

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia. FONTE: Disponível em: <https://upload.


org/wiki/Edgar_Degas#/media/File:Edgar_ wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1e/
Germain_Hilaire_Degas_018.jpg>. Acesso em: Degas_-_Hinter_den_Kulissen.jpeg>. Acesso
5 fev. 2017. em: 5 fev. 2017.

Você já passou a olhar fotografias em que percebeu que aparecem pessoas


nos cantos inferiores ou superiores, bem como parte delas foi cortada nas
fotografias? Pois o descuido com a angulação proporciona fotos que podemos
chamar de cortadas e, com isso, motivo de risos entre os conhecidos para com o
fotógrafo. Se você se lembrou de algum momento, lembre-se de que Degas, em
muitas de suas pinturas, remete a um instante fotográfico, por isso foi um dos
influenciadores desta arte, a de fotografar. Para Proença,

O artista tem uma contribuição importante para a pintura, como a


angulação oblíqua e o enquadramento das cenas, colocando objetos e
pessoas em primeiro plano, dando maior profundidade à composição.
Além de dar impressão de estarem imóveis para o momento da
pintura, mas não, as pessoas nem se preocuparam com a presença
dele, continuando sua rotina, seja dançando, lendo, cavalgando etc.
(PROENÇA, 2010, p. 216-217).

É possível destacar ainda pinturas de vários quadros com bailarinas, nos


quais os ensaios eram o registro, mostrando a beleza dos movimentos, bem como a
postura e a disciplina dessa dança. Mas não pensem que ele levava sua tela sempre

202
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

para esse espaço de dança. Muitas vezes somente havia em suas mãos folhas e
lápis onde os esboços eram o princípio, para depois, em seu ateliê, virar pintura
em tela.

No final de sua vida, Degas apresentava dificuldade de pintar devido à


visão comprometida, onde se apropriou do giz pastel, realizando contornos fortes
nas figuras e preenchendo-as com cores puras. Além de usar este meio na pintura,
se apropriou da escultura, pois, quase cego, moldava em cera seus temas, como
bailarinas e cavalos (PROENÇA, 2011).

FIGURA 155 - EDGAR DEGAS. A PEQUENA DANÇARINA DE 14


ANOS, DEGAS, 1881. CERA, 97CM

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/La_Petite_


Danseuse_de_Quatorze_Ans#/media/File:Glyptoteket_
Degas1.jpg>. Acesso em: 5 fev. 2016.

Outro destaque no trabalho do artista deu-se ao colocar tecido e cabelo


humano na escultura, causando impacto no momento histórico. Após sua morte,
algumas de suas esculturas foram feitas em bronze, servindo de modelo para
outros artistas. O maior legado para a arte foi ser considerado um grande pintor e
escultor do século XIX (PROENÇA, 2011).

203
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

UNI

Na época, agregar materiais como cabelo provocou incômodo para a sociedade.


Hoje (século XXI), ao ver obras de arte com os mais irreverentes materiais, é possível perceber
provocações com relação à sensação de desconforto ou do não entendimento da arte? Pense
nisso e dialogue com seus colegas.

O tema principal deste movimento artístico era a natureza, complementado


com a diversidade de tons e nuances para realizarem suas pinturas, sendo
praticamente uma regra que aquilo que estivesse representado em seus quadros –
objetos, luz atmosfera, cores, contrastes induzidos – fosse percebido diretamente
por eles.

No entanto, entre esses artistas, Edgar Degas trabalhou muito no seu ateliê
e acabou influenciando a arte da fotografia.

4 FOTOGRAFIA COMO INFLUÊNCIA


O ambiente propício para o artista Edgar Degas eram os ambientes internos
para registros pictóricos, resultando em telas que pareciam registros fotográficos,
nesse sentido, a fotografia teve influência sobre ele. Por falar sobre esta influência,
Proença (2010, p. 154) destaca que “é inegável a semelhança de alguns de seus
quadros com fotos instantâneas: as pessoas são pintadas como se tivessem sido
registradas em um momento da ação que realizam, despreocupadas com a
presença do artista”.

Mas, para a época, o registro fotográfico não era um processo como


hoje, demorava muito, levando horas para se obter uma revelação. A fotografia
deixou muitos artistas preocupados, pois seu trabalho poderia ser comprometido.
Enquanto outros tiveram outra percepção, que ela viria para auxiliar, por exemplo,
nas poses difíceis de manter. Mas apenas o tempo trouxe maior compreensão, e
os artistas viram que podiam se apropriar da fotografia. Passaram a usar o retrato
para observar e depois pintar em dimensões maiores, observando detalhes de luz
e sombra. O artista que se apropriou dessa ferramenta foi Manet, enquanto Degas
não usou retratos para realizar suas pinturas, mas imaginava poses incomuns e
composições diferentes para compor suas telas (STRICKLAND; BOSWELL, 2004).

Ele chegou a ser inspiração para quem procurava fotografar, pois se


baseavam nas suas telas, devido às suas composições de enquadramento.

204
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

5 SEGUIDORES IMPRESSIONISTAS, OUTRO OLHAR


Entre os artistas mais conhecidos, destacamos outros pintores
impressionistas que seguiram este movimento, mas pelo olhar feminino, em que
os temas se voltaram mais para o afeto familiar.

A artista Mary Cassatt (1844-1926), nascida em uma família rica norte-


americana, estudou arte na Europa, mas quando se pôs a exercer a prática não
podia ficar sozinha com homens, por isso pintava sua família e imagens de mães
e filhos em momentos de afeto. A composição, luz e sombras com cores que
empregou em suas obras são, sem dúvida, originais. Além da pintura, interessou-
se pelo desenho japonês, trazendo traços em alguns trabalhos, como na figura a
seguir, que é perceptível no traje da mãe.

FIGURA 156 - MARY CASSATT, BEIJO DE MÃE,1890-1891

FONTE: Disponível em: <http://warburg.chaa-unicamp.com.br/


artistas/view/2330>. Acesso em: 5 fev. 2017.

A artista Berthe Morisot (1841-1895), de origem francesa, enquanto pintava


cenas ao ar livre, conheceu Monet e com ele recebeu algumas orientações sobre
pintura. Mas, como Cassat, Marisot também foi proibida de participar de aulas
com modelo vivo, por isso seus registros voltaram-se a cenas domésticas, com
mulheres e crianças. Não usava contorno, o toque de cor era utilizado para dar
impressão de volume, como podemos ver na obra “O berço”.

205
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 157 – BERTHE MORISOT. O BERÇO, 1872

FONTE: Disponível em: <http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.


br/2014/04/mulheres-na-historia-lxviii-berthe.html>. Acesso em: 5
fev. 2017.

O terceiro olhar impressionista coube ao artista Jacob Abraham Camille


Pissarro (1830-1903), que procurou pincelar paisagens rurais e cenas urbanas,
para não registrar momentos sociais, pois, para ela, o artista devia ter muito
conhecimento e experiência para interpretar o que estava vendo e colocar em forma
de pintura. Por isso, os temas eram de coisas úteis, como todos impressionistas
que rejeitaram as questões históricas e sociais em favor de temas leves. Um dos
trabalhos da artista podemos ver na figura “Paisagem de um campo inundado”.

206
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

FIGURA 158 – CAMILLE PISSARRO. PAISAGEM DE UM CAMPO INUNDADO, 1873

FONTE: Disponível em: <http://pt.wahooart.com/@@/9GEGV4-Camille-Pissarro-


Paisagem-com-campos-inundados>. Acesso em: 5 fev. 2017.

Portanto, abordaram temas de afetividade que nos remetem a fotos


emolduradas, penduradas e/ou colocadas sobre cômodos, que estão ao nosso
alcance para lembrar momentos que outrora foram singulares. Hoje, os artistas não
realizam pinturas sobre esta temática, ou talvez não seja tão frequente, sobretudo
porque a fotografia propicia maior rapidez ao registrar momentos muitas vezes
únicos.

UNI

Você conhece alguém do seio familiar que tenha uma pintura em família, talvez
de outras gerações? Pesquise! Nesse momento ocorre a aprendizagem informal, aquela obtida
fora das salas de aula. Caso obtenha êxito, anote alguns dados, que poderão servir para uma
futura pesquisa da história de sua família (técnica – nome e biografia do artista – ano – suporte).
Procure registrar com a máquina fotográfica (sem flash).

 Para refletir: você acredita que uma pintura ou fotografia seja ou possa se tornar história?
Quanto mais dados uma obra possa ter, há mais facilidade de se obter informações pertinentes
e seguras sobre ela. Por isso, as obras em galerias e museus fornecem dados de cada obra,
pois expressam identidade. Auxiliam vários profissionais, como restauradores, críticos de arte,
leiloeiros, investigadores em suas pesquisas.

207
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

No entanto, alguns artistas não usavam apenas cenas afetivas ou a natureza


como representatividade, queriam ir além, assim realizando pesquisas com cores,
fazendo descobertas. Resultando assim, por uma ampliação da técnica, chamada
de pontilhismo, que vamos estudar a seguir.

6 PONTILHISMO – EVOLUÇÃO DO IMPRESSIONISMO


Dois artistas que não faziam parte do grupo dos impressionistas
participaram da última exposição do movimento, sendo eles: Georges Seurat
(1859-1891) e Paul Signat (1863-1935). Os dois fizeram pesquisas para aprofundar
a forma de ver os objetos.

Vamos iniciar nossos estudos conhecendo o artista Seurat. A sua ideia foi
reduzir as pinceladas para pontos uniformes, que, num conjunto, parecem cenas
ao serem observadas, sendo assim chamadas de “pontilhismo” (PROENÇA,
2011). Nesse sentido, Cavalcanti (1981, p. 98) nos diz que “era a tentativa de obter
a limpidez, leveza e transparência das cores naturais, mediante o princípio da
dissociação das tonalidades. Em lugar de mistura de tintas, a mistura ótica”.

UNI

A técnica do pontilhismo é feita por pontos pequenos realizados próximos um do


outro, de tal modo que, ao se afastar, o observador consegue visualizar a cena, provocando
uma mistura ótica na qual surge a forma.

O artista lia muito, além de ouvir os demais artistas, e fazer visitas constantes
a museus para conhecer e estudar o campo das artes. Fez muitos estudos antes de
realizar suas pinceladas. Também observava os trajes, feições e gestos das pessoas
para compor o conjunto de sua obra. Ao realizar obras com pontos, procurou
suprimir as pinceladas impressionistas e substituir por pontos, e para isso escolhia
determinadas cores, como as que estão do lado oposto do círculo cromático. Foram
as diversas leituras referentes à teoria das cores que o levaram a tal feito.

A ideia era que, embora vermelho e verde se situassem em oposição um


ao outro no círculo cromático, quando postos lado a lado sobre a tela
se tornassem complementares, o vermelho parecendo mais vermelho e
o verde parecendo mais verde: um revela o que há de melhor no outro
(GOMPERTZ, 2013, p. 93).

Ele era um artista que pesquisava, criando suas teorias. Com a descoberta
do contraste das cores, as imagens pareciam mais vivas, como uma das suas obras
mais significativas, que veremos a seguir:

208
TÓPICO 4 | O MOVIMENTO IMPRESSIONISTA E A FOTOGRAFIA

FIGURA 159 - GEORGES SEURAT. TARDE DE DOMINGO NA ILHA DE GRANDE JATTE, 1884-1886

FONTE: Argan (1992, p. 119)

Na figura acima, ao observarmos o chão, denota-se que há sombras, isto


acontece devido à presença de pontos amarelos ou claros, que dão a impressão de
luz do Sol, e os pontos escuros sugerem as sombras criadas principalmente pelas
sombrinhas das mulheres e da própria copa das árvores (PROENÇA, 2011). Seurat
de fato equilibrou com perfeição as cores primárias de uso dos impressionistas,
juntando o estudo de cores complementares.

O artista fez ainda estudos em forma de pontilhismo, que ficou como


produção final, mesmo sem terminar a obra. Podemos observar no trabalho “Estudo
para o circo”, que está a seguir:

FIGURA 160 - GEORGES SEURAT. ESTUDO PARA O CIRCO.


EXPOSIÇÃO NO CCBB – CENTRO CULTURAL BANCO
DO BRASIL, SÃO PAULO, SÃO PAULO

FONTE: Acervo da autora (2016)

209
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Já o artista Paul Signat explorou o pontilhismo, onde as pinceladas eram


mais largas, e mesmo assim, colocadas lado a lado, dando a impressão de pontos,
quando a obra vista de longe. Seus temas voltavam-se à sua paixão, o mar, pois
adorava observar a água e embarcações. Ficava horas observando as cores do mar
e das embarcações. Ao retornar para o seu ateliê, passava muito tempo inserindo
ponto a ponto na tela, para de longe poder apreciar. Muitos textos dizem que ele
foi chamado por alguns críticos de artista dos confetes e, não se importando com
isso, continuou seu trabalho, tornando-se o criador desta técnica. Um dos seus
quadros mais famosos é “A boia vermelha”.

FIGURA 161 – PAUL SIGNAT. A BOIA VERMELHA,1895. ÓLEO SOBRE TELA, 81 X 65 CM

FONTE: Disponível em: <http://www.passeiweb.com/galeria/paul_signac/1895_a_boia_


vermelha>. Acesso em: 5 de fev. 2017.

Com esse amadurecimento dos artistas em relação à pesquisa de cores,


técnicas de pintura por meio de experimentos, surge um grupo de artistas,
descontentes com a arte impressionista, porque seus temas envolviam somente a
natureza. Estes artistas queriam ampliar os horizontes por meio da arte, buscando
novas temáticas, surgindo assim um movimento novo, conhecido como pós-
impressionismo. Vamos conhecer este movimento.

210
RESUMO DO TÓPICO 4

Neste tópico você estudou que:

• No movimento do impressionismo, com artistas com alto grau de sensibilidade,


houve o interesse em trazer parte da natureza para as telas, com pinceladas
rápidas, pois o passar das horas poderia fazer as cores tomarem outras nuances.

• Como características de alguns artistas impressionistas, coube a realização da


pintura de um lugar várias vezes ao dia, para o registro da luz e da sombra.
Os artistas que foram seguidores do impressionismo trouxeram para as telas
registros afetivos, como a mãe e seu filho, que hoje são transportados para a
linguagem da fotografia como forma de lembranças.

• Conseguiu unir essas duas artes, sendo em primeiro lugar a pintura, que trouxe
aspectos da fotografia, como a angulação.

• O pontilhismo foi uma evolução do impressionismo, que é a realização de uma


pintura por meio de pontos próximos uns dos outros.

211
AUTOATIVIDADE

1 O impressionismo surgiu no século XIX, na França, negando-se à arte


acadêmica e aos temas singulares, estabelecendo assim novos conceitos
referentes à arte. No que concerne às características e artistas do movimento,
assinale (V) para as sentenças verdadeiras e (F) para as falsas:

( ) As pinturas, para serem mais naturais, não tinham contorno, pois a linha é
uma criação humana para representar formas.
( ) As sombras eram escuras como as pinturas barrocas e o centro das telas era
colorido como no rococó.
( ) Os artistas realizavam misturas de cores para terem maior número de
nuances, assim, trazendo luz nas pinturas.
( ) Um dos artistas que iniciou o movimento foi Claude Monet, pintando uma
paisagem marítima.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:


a) F – V – V – F.
b) V – F – V – V.
c) F – V – F – F.
d) V – F – F – V.

2 Com o surgimento dos movimentos dos “ismos”, percebeu-se que artistas


renegavam algumas ideias de determinado movimento, fazendo surgir outro
movimento. No entanto, houve uma alternância depois do impressionismo,
em que artistas não criticavam tal movimento, mas resolveram realizar
experimentos com a tinta, surgindo a arte do:

( ) Fauvismo.
( ) Realismo.
( ) Pontilhismo.
( ) Pós-impressionismo.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 2

212
UNIDADE 3
TÓPICO 5

PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE
TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

1 INTRODUÇÃO
A Revolução Industrial mexeu com o cotidiano das pessoas, como: jornadas
de trabalho, exploração infantil e muitas construções de forma desordenada,
trazendo sérios problemas sociais e de saúde. No campo das artes, os artistas
observaram o declínio do artesanato, devido às produções em série realizadas
pelas máquinas, e perceberam que usufruir da temática natureza não mais
cabia para o novo momento. Assim, a pluralidade de temas faz os novos artistas
pintarem inúmeras obras com mais enfoque e motivação. Nesse mesmo tempo
surge a publicidade, com a observação e a simplicidade de um olhar artístico, por
meio do artista Toulouse-Lautrec.

Esse movimento, contrário ao dos impressionistas, que reunia vários


artistas para pintar, buscou revolucionar. Eles não se reuniam para pintar, cada
um apresentou um estilo próprio de novas representações, destacando-se por
pesquisas de composições cromáticas. A pintura desenvolveu-se em 1886 com
Gauguin, Cézanne, Van Gogh e Toulouse-Lautrec, que traziam uma identidade
muito pessoal.

Convidamos você a entrar no universo destes artistas de forma simplificada.


Por isso, procure pesquisar mais sobre eles, visitar museus virtuais, visualizar
catálogos desses mestres para enriquecer o campo do conhecimento visual.

2 A ARTE DOS ARTISTAS PÓS-IMPRESSIONISTAS


Chegamos a um momento da história da arte quando os artistas
transportaram o pensar e o fazer diferente na arte, por meio de cores vibrantes,
registros de culturas, e até desenvolvimento de cartazes, que hoje é fonte da
publicidade. Vamos conhecer as características presentes nos trabalhos desses
artistas inovadores? Vamos iniciar nossos estudos conhecendo Cézanne.

• Paul Cézanne (1839-1906):

Quando pequeno, já procurava realizar alguns desenhos, buscando


enquanto jovem se aprofundar na técnica, mesmo que seu pai não gostasse da
ideia, tentando de vários modos fazer o filho mudar de opinião, mas sem sucesso.
Na pintura, começou com pinceladas carregadas de tinta, como podemos chamar

213
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

de pintura empastada, utilizando muito preto com branco. Em suas andanças em


meio ao mundo artístico, conheceu Jacob Abraham Camille Pissarro (1830-1903) e
aprendeu com ele a dar pinceladas mais suaves, abandonando o estilo grotesco de
pintar. Contudo, suas pinturas foram evoluindo, apresentando particularidades
no decorrer dos seus trabalhos (PROENÇA, 2011).

Essa nova forma de pintar faz com que ele amadureça e comece a trazer
novas formas de traços, como objetos que passam a ter aparência geometrizada –
cilindros, cones, esferas nas telas. Entretanto, começa a aplicar esse mesmo efeito
nas pinturas paisagísticas, retratos, (de sua esposa, por exemplo), como também
nas telas em que pintava natureza morta (PROENÇA, 2011).

Mas o que seria natureza morta? Vamos exemplificar com a figura a seguir.
Para realizar a pintura o artista fez uma composição sobre uma mesa, colocou uma
toalha, contendo jarra com detalhes e frutas dentro de suportes e outras expostas
sobre a toalha. Tinha assim, à sua frente, a projeção da sua mais nova tela.

Cezanne adorava pintar frutas, porque elas lhe proporcionavam


modelos obedientes e ele era lento. Sua intenção não era simplesmente
copiar uma maçã, e sim manter a cor dominante e a característica da
fruta, sublinhando o apelo emocional da forma através do uso de um
esquema de tonalidades ricas e o peso, a grandeza, o estilo das formas
imortais [...] “nenhum outro pintor de igual habilidade reservou para a
natureza-morta seus impulsos mais fortes” (CHARLES, et al., 2007, p.
380).

FIGURA 162 – PAUL CÉZANNE. NATUREZA-MORTA COM MAÇÃS E LARANJAS,


CÉZANNE, 1895 1900.

FONTE: Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Paul_C%C3%A9zanne_179.jpg>. Acesso em: 5 fev. 2017.

214
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

O artista buscava novas descobertas em relação ao estudo da forma e da cor,


assim, pintando cores que via e não aquelas como havia aprendido (GOMBRICH,
2011).

UNI

Essa questão nos leva a refletir também acerca de como ocorre a pintura na
sala de aula. Os alunos têm livre-arbítrio para pintar com as cores que desejam e nas diversas
tonalidades? Vale refletir sobre a arte de Cézanne, como forma de o aluno desenvolver a sua
identidade nas produções artísticas.

Mas o auge artístico de Cézanne foi quando ele pintou nus. Como não
tinha modelo vivo, ele usava sua imaginação para criar. Foi muito criticado, mas
dava continuidade ao seu trabalho não se importando, produzindo por anos a
temática de nus com traços leves e abstratos, uso de cores frias para estabelecer
profundidade e cores quentes para avançar as personagens, como se fossem
natureza-morta, mostrando maturidade artística inovadora (GOMBRICH, 2011).

FIGURA 163 – PAUL CÉZANNE. BANHISTAS GRANDES, 1906. 73 × 92 CM

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/


commons/1/1a/Paul_C%C3%A9zanne_047.jpg>. Acesso em: 5 fev.
2017.

215
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Para chegar a essa fase, Cézanne passou por algumas etapas, quando
procurou “[...] simplificar a forma, reduzindo-a a seus elementos geométricos
básicos, para sugerir a sensação da estrutura total, onde estão as sementes
do cubismo” (CAVALCANTI, 1981, p. 105). Enquanto Cézanne introduz a
fragmentação, o artista Paul Gauguin vem destacar o uso das cores, como veremos
a seguir.

• Paul Gauguin (1848-1903):

Gauguin nasceu em Paris e sempre foi lembrado por ser rebelde e


aventureiro. Quando pequeno morou no Peru, depois retornou a Paris. Chegou
a trabalhar no mar, se alistou na Marinha, depois trabalhou na Bolsa de Paris,
onde seu superior possuía muitos quadros, e foi assim que ele começou a se
interessar pela pintura. Com a caminhada artística teve aulas com Pissarro, com
quem aprendeu a selecionar as cores, eliminar preto, terra e ocres e a usar cores
primárias como as secundárias. Seu caminhar apresentava essência de autodidata,
além de ter ideias originais, ser inteligente e muito criativo, pois se preocupava
com a ideia, e não com o efeito da pintura. A forma de pintura era por meio da
memória, ou seja, lembrava de um lugar que conheceu e registrava em tela, onde
destacava as formas e as cores, usando nuances para dar impressão de perspectiva.
Com isso, começou a influenciar outro movimento, chamado de Fauvismo.

Vale destacar ainda que nas suas obras teve influência egípcia nas
composições planas, nas pessoas em primeiro plano, e nas menores ao fundo tendo
pouca profundidade, chamando a pintura de chapada.

Seu trabalho levou a contribuir para uma arte com as formas aplainadas,
inovações em cores intensas e ricas como lilás, cor-de-rosa e limão para obter
impacto emocional. “Gauguin também teve contato com os povos primitivos do
Taiti, a partir daí passando a pintar figuras femininas tímidas, com seus trajes e
cabelos longos, como mostra a figura a seguir. (STRICKLAND; BOSWELL, 2004,
p. 119).

216
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

FIGURA 164 – PAUL GAUGUIN. AREAREA (O CÃO VERMELHO), 1892. ÓLEO


SOBRE TELA, 75 × 94 CM. MUSEU D’ORSAY, PARIS

FONTE: Strickland e Boswell (2004, p. 242)

Porém, a pintura do artista vai para além do intelecto, por isso se afastou
da sociedade para conseguir ter imaginação para efetuar sua arte. Entretanto,
para Gauguin, “[…] cada elemento é antes considerado e estudado atentamente
[…]. Estimular a imaginação como faz a música […] apenas através da misteriosa
afinidade que existe entre certas combinações de linhas e cores e a nossa mente”
(ARGAN, 1992, p. 131).

Podemos compreender então que o artista era meticuloso, se propunha


a estudar os elementos da linguagem visual que iria trazer para a tela, além de
analisar a forma como os artistas impressionistas pintavam, e completando esse
conjunto se fez presente a imaginação, sendo uma extensão da consciência. Essa
forma de ver a arte levou-o a ser respeitado entre os artistas do fauvismo.

• Vincent van Gogh (1853-1890):

Conhecido como Van Gogh, nasceu na Holanda, em uma família onde seu
pai era pastor e sua mãe tinha tendência para a arte, por isso desenhava desde
adolescente. Ao se deparar com a pobreza, procurou ser assistente de um pastor,
seguir o caminho religioso, mas não se adaptou à disciplina rigorosa. Chegou a
ler a Bíblia e outras literaturas e com essas leituras entrou em crise, e devido a
isto resolveu ser artista. Seus temas iniciais foram camponeses, pois mostrava a
dureza diária deste povo sofrido (PROENÇA, 2011). Segundo Proença (2011, p.
244), “[...] sua pintura estava então ligada à tradição holandesa do claro-escuro e à
preocupação com os problemas sociais. As cores que usava eram sombrias, e seus
personagens melancólicos”. A figura “O comedor de batata” nos remete ao trabalho
do artista Rembrandt, com enfoque nas cores escuras. No entanto, o artista muda
de lugar, e assim sua pintura vai também se modificado devido a esses lugares
diferentes, bem como o convívio com outros artistas influenciando sua arte.

217
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 165 – VINCENT VAN GOGH. OS COMEDORES DE BATATA, 1885. ÓLEO SOBRE
TELA, 82 × 114 CM. MUSEU VAN GOGH, AMESTERDÃ

FONTE: Strickland; Boswell (2004, p. 244)

Chegou a ter contato com os impressionistas e à primeira vista se encantou


pela maneira como eles pintavam ao ar livre, bem como também admirou a arte
japonesa. Nessas andanças, conheceu Gauguin e gostava da forma como o artista
usava as cores fortes e vibrantes na pintura (PROENÇA, 2010). Com tantas visões
diferentes que adquiriu pelos lugares por onde passava, chegou a morar em Arles,
por parecer com o Japão, onde passou a colorir seus quadros, pois “o sol forte
da região mediterrânea influenciou sua pintura e ele apaixonou-se pelas cores
intensas” (PROENÇA, 2010, p. 176). A paixão era tamanha por esse lugar que o fez
escrever cada detalhe dos seus momentos em cartas que mandava para seu irmão,
Théo.

Resumindo, sua marca artística foi a pintura de girassóis em jarra, quartos


e muitos autorretratos. Fez vários vasos de girassóis, pois amava o amarelo,
e acabava sendo “[...] uma constante em seus trabalhos, adquirindo um valor
místico e sublime. O amarelo-ouro, o amarelo-luz, o amarelo-sol, que vem do alto
do céu. A presença do amarelo exerce luz” (DERDIK, 1989, p. 180). O artista tinha
um carinho especial pelas flores, mais precisamente os girassóis, como podemos
contemplar na figura a seguir:

218
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

FIGURA 166 – VINCENT VAN GOGH. DOZE GIRASSÓIS NUMA JARRA,


1888. ÓLEO SOBRE TELA,91 X 72 CM. NEUE PINACOTECA,
MUNIQUE

FONTE: Taschen (1990, p. 31)

UNI

Poema: Girassóis, de Vinícius de Moraes, pode proporcionar e enriquecer as aulas


de artes com poética. Veja no site o poema e procure ampliar as linguagens. Acesse o site:
<http://vinicius-de-moraes.blogspot.com.br/>.

Além das flores, registrou seu respectivo quarto em Arles, onde usou cores
puras e eliminou as sombras. Ao olhar um quadro como esse, é sugestivo para
o descanso ou um bom sono. Convido você a contemplar a figura e fazer suas
leituras referente a este espaço de descanso.

219
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 167 – VINCENT VAN GOGH. O QUARTO DE VAN GOGH EM ARLES, 1889.
ÓLEO SOBRE TELA, 73 X 92 CM. INSTITUTO DE ARTE DE CHICAGO,
CHICAGO

FONTE: Taschen (1990, p. 74)

Registrou pictoricamente cerca de 40 autorretratos a óleo, procurando


captar a essência da vida humana. Em cada obra, apresenta os traços de acordo
com seu estado de espírito (STRICKLAND; BOSWELL, 2004).

FIGURA 168 – VINCENT VAN GOGH.


FIGURA 169 – VINCENT VAN GOGH.
AUTORRETRATO COM ORELHA LIGADA. 1889.
AUTORRETRATO. 1889. ÓLEO SOBRE TELA,
ÓLEO SOBRE TELA, 60 X 49 CM. COURTAULD-
65 X 54 CM. MUSEU D’ORSAY, PARIS
INSTITUTE GALLERIES, LONDRES

FONTE: Taschen (1990, p. 59) FONTE: Taschen (1990, p. 73)

220
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

Além de autorretratos, Van Gogh era fascinado por realizar retratos. Mas
quem foram seus modelos?

Os seus modelos foram sempre gente simples, modesta, das suas


vizinhanças. Não era a beleza exterior ou certas feições que lhe parecia
serem essas pessoas dignas de ser retratadas, mas tão somente a sua
humanidade. Embora sempre trazidas no quadro a um primeiro plano,
todas elas conservam alguma coisa de misterioso e irregular. Van Gogh
abandonou completamente o encanto lisonjeiro da habitual pintura
de retratos. Pela textura crespa da cor, o rosto toma a aparência de um
motivo paisagístico, a pele uma constituição rude, natural (TASCHEN,
1990, p. 80-82).

Mas, de fato, seu auge foi em 1890, onde passou a ter crises nervosas, a
ponto de ser internado e passar por tratamentos. Foi nesse período intenso da sua
vida que começou a pintar com cores fortes e linhas retorcidas. Era a cor e não a
forma que determinava a obra expressiva (JANSON, 2001).

Passando então a usar impasto grosso, de forma ondulada, parecendo


movimentar-se na tela, além de cores puras, como mostra a obra “A noite estrelada”.

FIGURA 170 - VINCENT VAN GOGH. A NOITE ESTRELADA. 1889. ÓLEO SOBRE
TELA, 73,7 × 92,1. MUSEU DE ARTE MODERNA, NOVA YORK

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Noite_Estrelada#/media/


File:Van_Gogh_-_Starry_Night_-_Google_Art_Project.jpg>. Acesso em: 10
fev. 2017.

“A cidade adormecida, em primeiro plano, é representada em oposição


às curvas da zona superior, em traços curtos, retilíneos. Mesmo as luzes
amarelas, pequenas, das casas, são todas quadradas ou retangulares, em
contraste com as estrelas”. Enquanto a torre da igreja “corta o horizonte,
assim como os ciprestes, poderosos, flamejantes” (TASCHEN, 1990, p.
72).

221
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

Registro de seu trabalho

Neste fragmento da obra anterior


nota-se a técnica das espirais e
das curvas que ele utilizava, com
camadas muito espessas de tinta.

Portanto, você pode conhecer um pouco do Van Gogh, artista de retratos,


autorretratos, flores, paisagens e de lugares em que morou. Deixou grande legado
de telas, desenhos e gravuras, mas apenas depois da sua morte passou a ser
reconhecido.

Foi um artista incomparável, onde “arte e vida se tornaram para ele uma
unidade inseparável – o que possibilitou tornar realidade um velhíssimo sonho de
artista. Criar arte queria dizer para ele não menos que pintar a vida; não a mera
realidade, mas sim o princípio da força vital” (TASCHEN, 1990, p. 88).

Van Gogh foi marcado pelo homem da cor, vivia para a arte, fazia dela
seu viver, e com isso desenvolveu os princípios básicos da pintura (cor, linha e
composição). Com essa união, criou algo novo que o caracterizou como “Van
Gogh”.

De acordo com Taschen (1990, p. 88-89), ele:

[...] compreendeu e utilizou como novos meios de expressão: a cor como


o espírito, que só então empresta vida a todas as coisas; a linha como
princípio de ação, como dinâmica da vida, como energia indestrutível;
a composição como lugar para sentimentos, para a sua mundividência.
Realização e solidão, anseio e desespero, amor e desalento,
devotamento e renúncia, harmonia e desassossego, proximidade e
lonjura, permanência, foi o que o homem e o artista pintou nos seus
quadros. [...] criou com a sua arte um mundo próprio e novo, colorido e
movimentado que contém tudo o que ele sabia da existência.

222
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

UNI

Para conhecer mais a respeito da arte singular deste exímio artista, sugerimos
assistir ao vídeo que traz o trabalho do artista, curiosidades, forma de se expressar e se inserir
na sociedade. “O poder da arte” (BBC) – Van Gogh: Disponível em: <https://www.dailymotion.
com/video/xlcdjg_o-poder-da-arte-van-gogh-legendado portugues_shortfilms>. Acesso em:
10 fev. 2017.

Portanto, para o artista, a arte deve ir contra a tendência que leva a uma
alienação artística, devendo se opor a uma mecanização, e sim, representar o
mundo trazendo a essência, a vida.

Na era da industrialização, o homem é apenas um objeto, vivendo para


o trabalho e não se vendo como um ser vivo, apaixonado por si e pelo contexto
onde vive. Nesse sentido, o artista busca trazer essa essência através da pintura,
provocando nos homens a busca pela essência.

UNI

Como a arte pode influenciar uma cidade? A Holanda, querendo humanizar


mais seu país, trouxe a arte de um dos seus artistas mais famosos para as ruas, iluminando o
chão por onde as pessoas caminhavam, como se estivessem no céu estrelado de Van Gogh.
Sugerimos que você realize pesquisas sobre este fato onde a arte vem se integrar com as
pessoas e a cidade.
 Disponível em: <http://www.hypeness.com.br/2014/12/holanda-cria-ciclovia-que-brilha-
no-escuroinspirada-na-arte-de-van-gogh/>. Acesso em: 10 fev. 2017.

• Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901):

Foi na vida urbana que o artista francês procurou registrar momentos


interessantes, como dançarinas, cabarés, artistas de circo, bares de café e cervejarias.
De modo geral, Proença (2011, p. 248) explica que:

[...] o que caracteriza a pintura de Toulouse-Lautrec é a sua capacidade


de síntese, o contorno expressivo das figuras e a dinâmica da realidade
representada. Quanto à temática, seus quadros afastam-se da natureza e
voltam-se para ambientes interiores: o circo, o bar, o bordel.

Podemos denotar os estilos de pintura, seja no campo exterior ou


interior, através das figuras que seguem.

223
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

FIGURA 171 - HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC. NO CIRCO FERNANDO, 1888. 98 × 161


CM. INSTITUTO DE ARTE DE CHICAGO, CHICAGO

FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/71/


Lautrec_equestrienne_%28at_the_cirque_fernando%29_1887-8.jpg>. Acesso
em: 10 fev. 2017.

Na figura Baile no Moulin Rouge, o artista propõe o instante dos


movimentos corporais registrados em traços rápidos por meio de desenho, e,
posteriormente, ele o finalizou com as cores em seu ateliê. A pintura, seja ela nos
espaços internos ou externos por ele realizada, ocorria dessa maneira para não
perder as cenas desejáveis e inusitadas que decorrem em instantes.

FIGURA 172 - HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC. BAILE NO MOULIN


ROUGE,1890

FONTE: Disponível em: <https://comartecultura.files.wordpress.com/2014/06/


toulouse-lautrec-moulin-rouge-e1402168439589.jpg>. Acesso em: 10
fev. 2017.

224
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

Devido a essa forma de exercer seu trabalho, desencadeou outra arte, a dos
cartazes e pôsteres publicitários, mesmo que outras pessoas já realizassem, porém,
trazendo mais texto do que imagem. Com Lautrec foi diferente, ele começou uma
inovação na apresentação.

Com seus cartazes anunciando, por exemplo, os espetáculos de dança


do famoso Moulin Rouge, o pintor inaugurou uma nova forma de
publicidade: a que procura conquistar o público por meio de imagens
coloridas e atraentes, e de textos curtos e criativos, que fixam a
informação principal na memória do público (PROENÇA, 2011, p. 248).

Nos cartazes, como na figura “Célebre cartaz de Lautrec”, nota-se a presença


das figuras em primeiro plano, e poucos dados informando a atividade a ser
realizada, sendo este um marco nos cartazes desenvolvidos por ele.

FIGURA 173 – HENRI DE TOULOUSE-LAUTREC. CÉLEBRE CARTAZ


DE LAUTREC NO QUAL APARECEM LA GOULUE E SEU
PARCEIRO DANÇARINO VALENTIN,1891

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/La_Goulue#/


media/File:Lautrec_moulin_rouge,_la_goulue_(poste)_1891.
jpg>. Acesso em: 10 fev. 2017.

Tanto o cartaz acima, como outros cartazes referindo-se a bailes, começaram


a atrair as pessoas, fazendo com que ele fosse reconhecido por uma criação
publicitária tendo um olhar artístico. Enquanto para o próprio artista, realizar este
trabalho era um compromisso sério como pintar um quadro (ARGAN,1992).

225
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

UNI

Conheça como eram produzidos os cartazes na época: Os cartazes foram feitos


em litografia. Trata-se de um método de impressão a partir de imagem desenhada sobre base,
em geral de calcário especial, conhecida como "pedra litográfica". Após desenho feito com
materiais gordurosos (lápis, bastão, pasta etc.), a pedra é tratada com soluções químicas e
água que fixam as áreas oleosas do desenho sobre a superfície. A impressão da imagem é
obtida por meio de uma prensa litográfica que desliza sobre o papel.

Fonte: Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.


cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=5086>. Acesso em: 21 de abril de 2012.

Se os cartazes repercutiram de forma positiva para a época, apresentaram características que


aos olhos do espectador foram exímias entre a linguagem textual e visual. E nos dias atuais,
como você vê a apresentação dos cartazes, folders, banners, informativos, outdoors, entre
outros meios para divulgação?

O artista conseguiu captar o essencial para atrair a atenção das pessoas.


Com Lautrec, o interesse era pintar o interior de algum lugar e não o exterior, como
a natureza, pois tudo era mais animado e se modificava com mais rapidez – era
como uma arte efêmera –, um passo de dança precisava ser rapidamente traçado,
pois não seria mais executado, e ficaria apenas o registro do artista no papel ou na
tela. Era uma nova forma de perceber as coisas e captá-las (GOMBRICH, 2013).

Portanto, finalizamos o estudo do pós-impressionismo, em que podemos


observar que a arte evoluiu muito, não apenas no uso de temas e formas de pintura,
mas dando abertura para outros ramos profissionais, como Toulouse-Lautrec
proporcionou.

DICAS

FILME: Moulin Rouge - amor em vermelho (Austrália), 2001, para compreender o


universo deste artista e o mundo no qual vivia, como aprendizagem acadêmica.

226
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

LEITURA COMPLEMENTAR

Uma breve história dos cartazes


Vosnier Cambeses

“Cartazes são mensageiros. Cartazes são expressão de cultura. Cartazes deixam marcas.
Visíveis e inconfundíveis, como parte de um processo de comunicação, eles dependem do local
e data de publicação. Bons cartazes falam uma linguagem internacional”. Manfred Triesch
 
Relatam os estudiosos que os primeiros cartazes foram desenvolvidos por
meio de xilogravuras, obtidas através da impressão de matrizes de madeira pelos
povos orientais, principalmente japoneses e chineses, ainda no século X. Mas foi
somente no final do século passado que a arte de reunir textos e ilustrações em
uma folha de papel alcançou maior projeção ao ser propagada pelos mercadores
europeus, e um alto grau de sofisticação logo impingida pelos artistas plásticos da
época. A integração entre produção artística e industrial é exemplificada na carreira
de Jules Cherét. Filho de um compositor tipográfico e aprendiz de um litógrafo em
Paris, ele foi para Londres estudar as técnicas mais recentes. De volta a Paris em 1860,
Cherét gradualmente desenvolveu um sistema de três a quatro cores de impressão.

O estilo de Cherét atingiu seu auge por volta de 1880 e foi adotado e
desenvolvido por outros artistas, como Pierre Bonnarde, o famoso Henri de
Toulouse-Lautrec. Consagrado por retratar cenas da vida noturna e do submundo
parisiense, Toulouse-Lautrec, por exemplo, assinou centenas de cartazes de
divulgação de espetáculos de cabaré, então reproduzidos através de pedras
litográficas. Foi nas mãos de Toulouse-Lautrec que a arte publicitária, através do
toque impressionista, tornou-se famosa. Apesar da fotografia já existir há algumas
décadas, suas imagens não podiam ser reproduzidas nem em grandes formatos,
nem em grande escala. Artistas então pintavam o design dos cartazes, que era
transferido à mão para a superfície das pedras para impressão litográfica – uma
para cada cor.
 
Na virada do século, o movimento mais importante no design de cartazes
era a Art Nouveau. Seu expoente mais famoso e extravagante foi o artista checo
Alphonse Mucha. Seus cartazes contêm belas mulheres de longos cabelos
ondulados, emolduradas por uma decoração floral e traços orgânicos. Os cartazes
artísticos deste período demonstraram liberdade estética e ousadia criativa que
acompanhou o primeiro confronto com as inovações tecnológicas em produção
gráfica.

Quando os artistas, ao invés de adicionarem texto com tipos de impressão,


desenharam eles próprios seu lettering, e eram responsáveis por cada elemento
num design que intencionava a reprodução por máquina, eles estavam praticando
o que posteriormente foi reconhecido como design gráfico.
 
O período entre as décadas de 20 e 30 foi bastante rico tanto em movimentos
no design de cartazes quanto na pintura: Bauhaus, De Stijl, futurismo, cubismo, entre

227
UNIDADE 3 | CAMINHANDO PARA A ARTE MODERNA

outros. Entretanto, a maioria dos cartazes produzidos durante essas duas décadas
visava promover produtos comerciais ou eventos culturais. Desenvolvendo
concepções cubistas e construtivistas, os cartazes marcantes de A. M. Cassandre
dominaram a publicidade francesa no período entre-guerras. Ele interessava-se
especialmente pelas letras, segundo ele um elemento indispensável e muitas vezes
negligenciado no design de cartazes. Cassandre acreditava que a função primeira
do cartaz era veicular a mensagem.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os cartazes que anunciavam produtos


deram lugar àqueles que ajudavam a promover os esforços de guerra, por meio
de apelos de recrutamento ou veiculação de informações. Os governos que
encomendavam esses cartazes queriam urgentemente mensagens diretas e eficazes;
assim assumiram o risco de contratar e dar liberdade a jovens designers modernistas.
Os resultados foram, muitas vezes, controversos, mas vêm deste período alguns dos
mais criativos designs de cartazes. As portas também foram abertas para anúncios
comerciais mais inventivos depois que a guerra terminou. Raymond Savignac
foi o mestre da gag visual. Seus numerosos cartazes, produzidos para clientes no
mundo todo, caracterizam-se pelo design simples, direto, bem-humorado e eficaz.
 
Durante a década de 60 os cartazes foram cada vez mais encarados e
vendidos como obras de arte a serem emolduradas e penduradas nas paredes.
Nos EUA e na Europa, museus e galerias de arte encomendavam, publicavam e
comercializavam cartazes de muitos grandes artistas, inclusive Andy Warhol, René
Magritte e Roy Lichtenstein. As décadas de 60 e 70 presenciaram o surgimento de
uma série de movimentos de fundo político/social que acabaram por influenciar de
forma decisiva o design gráfico, entre eles o movimento estudantil, o psicodelismo
e o punk. Os cartazes desta época eram criados para uma plateia exclusiva, com
letreiros praticamente ilegíveis, carregando a mensagem implícita: “Se você não
consegue ler, não é para você”. O psicodelismo começou na costa oeste dos EUA e
se espalhou pela Europa com o movimento hippie.

Por outro lado, os designers japoneses cresciam em importância internacional,


pois estavam mais dispostos do que os demais a abraçar a nova tecnologia.
Na década de 70, a tecnologia ampliou ainda mais a liberdade dos designers,
propiciando-lhes maior controle sobre a composição tipográfica e a reprodução
da imagem. Já na era contemporânea, poucos são os artistas gráficos cujas obras se
destacam quantitativa e qualitativamente. Um exemplo é Ikko Tanaka, que possui
obras fixadas em museus como o MOMA, de Nova York. Os cartazes de Ikko Tanaka
são conhecidos pelo uso sutil da cor. Embora claramente japoneses, demonstram
uma compreensão do pensamento ocidental moderno em relação ao design.
 
Alguns dos cartazes mais controvertidos do século foram produzidos por
Oliviero Tosconi para a Benetton, empresa italiana de confecção. Sob o slogan “The
United Colours of Benetton”, ele expôs imagens chocantes e violentas, inclusive
Cristo como um aidético moribundo, um carro se incendiando e uma mulher dando
à luz. O único ponto em comum entre as imagens é o fato de impressionarem.
Embora alguns críticos questionarem a sua relevância em relação ao produto, os
cartazes atraíram grande interesse.
228
TÓPICO 5 | PÓS-IMPRESSIONISMO: A PLURALIDADE TEMÁTICA QUE O “PÓS” PROPORCIONOU

Apesar dos muitos gastos em campanhas publicitárias pela televisão,


o comércio e o governo não abriram mão da comunicação direta e eficaz do
cartaz. O computador continua cada vez mais importante no design de cartazes, e
novos programas permitem a manipulação da imagem em níveis nem sonhados
anteriormente. O trabalho resultante pode mesclar qualquer combinação de
fotografia, ilustração e tipografia.

FONTE: CAMBESES, Vosnier. Uma breve história dos cartazes. Disponível em: <http://imasters.
com.br/noticia/uma-breve-historia-dos-cartazes/>. Acesso em: 13 fev. 2017.

229
RESUMO DO TÓPICO 5

Neste tópico você aprendeu que:

• Pós-impressionismo foi um movimento em que artistas queriam promover


uma liberdade e individualidade de expressão pictórica. Cézanne, Gauguin,
Van Gogh e Lautrec foram à procura da construção de uma identidade pessoal
projetada em suas telas.

• Cézanne ficou conhecido por visualizar a matéria com formas geométricas. Os


marcos de seus trabalhos foram natureza morta e nus.

• Gauguin, artista que propunha realizar pinturas mais primitivas, como


também procurava fazer estudo de cores, passou a pintar com cores primárias e
secundárias.

• Van Gogh foi um artista que procurava fazer várias versões de uma mesma cena,
bem como procurava criar seus autorretratos por diversas vezes. Teve destaque
para trabalhar com empaste grosso.

• Lautrec, incrível desenhista, trabalhou com tintas e giz pastel, mas a sua
intelectualidade o possibilitou introduzir sua arte em cartazes, principalmente
de festas. Atualmente podemos dizer que o profissional que lida com a criação
deste tipo de material é o publicitário.

230
AUTOATIVIDADE
1 Os movimentos artísticos surgem devido ao rompimento com movimentos
artísticos anteriores, ou seja, anacrônicos, que acarretam a procura de uma
nova identidade aos novos que fazem parte das características dos “ismos”.
Associe os itens, utilizando o código a seguir:

I – Impressionismo.
II – Pós-impressionismo.

( ) Uma pintura que elimina contornos, apresenta sombras coloridas, alguns


artistas costumavam pintar o mesmo local em várias horas do dia, quando
se notam mudanças e nuances de cores, sombras e reflexos.
( ) A natureza é uma bela obra de arte para inspiração, mas a este movimento
cabe a sensibilidade de procurar novos espaços, como interiores, surgindo
pluralidade temática.
( ) Muitos artistas são inspiração para outras áreas profissionais, mas, muitas
vezes, através da arte de que se apropriam, se instauram novas atividades
profissionais. A arte abriu um leque no campo publicitário devido à junção
da linguagem textual e visual, surgindo os cartazes.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:

( ) I – I – II.
( ) II – I – II.
( ) II – II – I.
( ) I – II – II.

2 Lautrec foi um artista que foi além do uso das tintas, iniciou um caminhar
com arte em cartazes. Leia o recorte da reportagem “Gigante Toulouse-
Lautrec”.

[...] Certa manhã de 1891, surgiu um outdoor vibrante nos muros de Paris. Era um
cartaz promocional, convidando às danças do Moulin Rouge, o primeiro de
uma série que irá retratar o novo “parisianismo”: os bares, os cafés-concerto,
as cantoras e dançarinas endiabradas do cancã [...]. Toulouse-Lautrec, então
com 27 anos, contou nos cartazes a vida parisiense, tornando-se um cronista
de sua época. Foi também o primeiro designer moderno, notando que as
pessoas não tinham tempo para ler muita informação nas capas de revista,
nos livros, cartazes, suplementos literários e programas de teatro. Neles,
exprimia o máximo da vitalidade com um mínimo de linhas e cores.
FONTE: Disponível em: <http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/cultura/gigante-toulouse-lautrec>.
Acesso em: 10 fev. 2017.

Considerando as ideias do texto acima, assinale a alternativa CORRETA:

( ) Um cartaz necessita estar carregado de informações e excluir imagens, pois


a informação de um evento é mais valioso do que a linguagem visual.
( ) No período histórico, Lautrec se preocupava em colocar nos cartazes poucas
informações e cores, pois atualmente a população não tem tempo de parar

231
para ler inúmeras informações. Assim, o cartaz precisa trazer a essência do
evento a ser divulgado.
( ) Era uma exigência que os cartazes apresentassem apenas texto informativo.
Caso colocassem imagens, principalmente de figuras femininas, a multa
poderia chegar à desapropriação de imóveis.
( ) Os cartazes eram de eventos ocorridos em bares, cabarés, jogos de futebol,
bola de gude e bingo. Mas o ponto central de divulgação não eram os cartazes
e sim os folders, os lambe-lambe e os jornais.

3 Cézanne foi um artista observador. O seu campo imagético transformava-se


em formas geométricas. Ainda assim, fazia composições com os elementos
escolhidos sobre um suporte e pintava-as na tela. Considerando o pressuposto
e a tirinha a seguir, assinale a alternativa CORRETA:

FONTE: Disponível em: <http://wordsofleisure.com/2013/04/27/tirinha-do-dia-


cezanne-e-o-instagram/>. Acesso em: 10 fev 2017.

( ) O artista, ao observar uma composição de objetos e frutas, procurava


pintar tendo como fundo somente a natureza. Realizava, dessa forma, para
incomodar o olhar dos críticos de arte.
( ) Ao observar as imagens que estão colocadas de determinada forma, que
possamos chamar de composição e seguidamente pintá-la, como mostra a
tirinha, é considerado natureza-morta.
( ) As suas obras são fáceis de identificar, pois colocava contorno preto e de
espessura grossa nos objetos, pois o primeiro plano precisava ser destacado.
( ) Foi na primeira Bienal de Veneza, em 1895, que Cézanne se tornou conhecido,
pois apresentou uma natureza-morta feita com pigmentos naturais e colagem
com jornais e plástico.

Assista ao vídeo de
resolução da questão 3

232
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