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UNIVERSIDADE DO PORTO

FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

MESTRADO EM TEMAS DE PSICOLOGIA

De
“O que queres ser quando fores grande?”

Para

“O que podes ser e fazer no momento presente?”

REFLEXÃO CRÍTICA

Discente: Manuel Silva

Porto, 12 de Janeiro de 2009

DISCIPLINA DE: CONSULTA PSICOLÓGICA DE ORIENTAÇÃO VOCACIONAL


O desenvolvimento vocacional deve ser encarado em relação a outros factores que
interagem com o nosso desenvolvimento pessoal e não como um fenómeno isolado. Na
verdade, devemos ter consciência da influência de factores determinantes como as
políticas de emprego, o regime político vigente, o sistema económico, entre outros. Mas
factores mais próximos também são igualmente importantes. Neles se destacam o papel
da família e a qualidade da interacção entre os seus membros, o estatuto relacional, o
nível cultural, social e as práticas educativas.
Neste entendimento é fundamental existirem condições que favoreçam este
desenvolvimento, isto porque, na relação do sujeito psicológico com o mundo existe
sempre uma orientação, seja ela, familiar, política, sexual, histórica, etc.
As questões de Orientação são sempre questões de escolhas do indivíduo com o mundo.
Essa relação do sujeito com o mundo implica uma orientação com o aprender e o
trabalhar. No entanto não podemos deixar de referir que este investimento com o
aprender e o trabalhar têm que ser coordenados com outros elementos da vida, há outros
papéis sociais, outros contextos que podem igualmente ser relevantes.
Esta reflexão, com base nos temas abordados nas aulas e, da leitura da obra “ A
Sociedade Individualizada” de Zygmunt Bauman, enfatiza, algumas das questões que
marcam esta nova era da sociedade contemporânea, caracterizada pela individualização,
ruptura com a tradição e com grande déficit comunitário.
Neste sentido, julgo ser pertinente referir duas noções, frequentemente, no meu
entender, mal utilizadas, e que estão directamente relacionadas com a noção de
Moderno: a ideia de progresso, que faz com que o novo seja considerado melhor ou
mais avançado do que o antigo; e a valorização do individuo, ou da subjectividade,
como lugar da certeza e da verdade e, a origem dos valores, em oposição à tradição.
Estas características da sociedade contemporânea, designadamente, da ocidental, têm
provocado mudanças fundamentais no terreno do mundo do trabalho e das relações
sociais. Ao mesmo tempo em que abandona as crenças, tradições, valores e ideologias o
homem vai-se isolando e perdendo referências.
Considerados dois dos temas de maior relevância nos debates das ciências sociais – a
modernidade e a individualização, constituem temas centrais no trabalho de Bauman.
Nesta reflexão, o capítulo dedicado à “Ascensão e queda do trabalho” um dos temas que
constitui a obra “ A Sociedade Individualizada”, ganha, centralidade à luz destes dois
conceitos

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Considerando que a “existência é moderna na medida em que contém a alternativa da
ordem e do caos.” Bauman, (1999:14), distingue a modernidade em dois períodos:
modernidade e pós – modernidade (1998;1999); ou como tem preferido chamar nos
seus últimos trabalhos: modernidade sólida e modernidade líquida (2001; 2004; 2006).
Para Bauman (2008) a modernidade sólida ou “modernidade pesada” como também
designou, o tempo do compromisso entre o capital e o trabalho corresponde ao modelo
universal de Ford, das intenções e práticas dessa “modernidade” em que “O ideal era
ligar o capital e o trabalho em uma união que, como aquele casamento feito no céu,
nenhum poder humano poderia desfazer” ( p.33).
Neste contexto “para os trabalhadores os horizontes eram marcados pela possibilidade
de um emprego vitalício dentro de uma companhia, que poderia não ser imortal, mas
cujo período de vida se entendia muito além da expectativa de vida dos seus
trabalhadores” (Bauman, 2008, p.34)
No entanto, as transformações ocorridas na sociedade contemporânea, designadamente
na ocidental, têm caracterizado marcadamente o mundo do trabalho.
O fim da estabilidade e a concretização do reino da incerteza no mundo do trabalho,
sobretudo, a partir da segunda metade do século XX, tem suscitado um intenso debate
sociológico.
São vários os autores que sobre este tema, introduzem no mundo académico as suas
análises sociopolíticas. Entre outros, destacam-se, Claus Off; Alan Touraine; Robert
Kurz; Boaventura Sousa Santos; Richard Sennet; Paul Singer; Ulrich Becker e Zygmunt
Bauman.
Durante anos privilegiámos a procura de profissões estáveis, tradicionais, supostamente
rentáveis. Considerávamos que as nossas metas e capacidades eram imutáveis. As
coisas mudaram. Se, por um lado, a segurança de um emprego para toda a vida deixou
de estar garantida pela instabilidade económica e social em que vivemos, Beck(1995)
entende o momento actual do mundo do trabalho como um momento de incerteza, coisa
que se reflecte directamente no trabalho e no emprego, Por outro, os instrumentos de
que dispúnhamos para a conquistar, revelam-se hoje insuficientes.
A insegurança quanto ao presente e as dúvidas no que diz respeito ao futuro são ponto
de referência para o entendimento sobre a concepção e abordagem de Bauman em
relação ao trabalho na actualidade.
Neste conturbado “mundo novo do trabalho” , alguns autores como Lyotard e Bauman
denominam este momento de pós – modernidade e modernidade líquida. Outros como

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Ulrich Beck e Anthony Giddens falam de modernidade reflexiva e segunda
modernidade. Esta constelação conceptual recorrente utilizada para a análise
sociológica, do trabalho, dos nossos dias, reflecte a complexidade da sociedade
contemporânea.
Para Bauman (1998) este é um período que, denomina, numa primeira fase, de “pós -
modernidade “, e que actualmente prefere chamar de “modernidade líquida” (2001).
Na modernidade líquida, ao contrário do observável na chamada modernidade sólida, o
trabalho e as certezas provenientes do seu estatuto tornam-se transitórias e
inconsistentes.
Caracteriza-se, essencialmente, por fazer sentir por parte dos indivíduos, responsáveis
pelas fraquezas, desconfortos e derrotas que enfrentam no dia a dia, seja no trabalho,
escola, família, relações sociais, etc.
Estas consequências, resultantes das grandes mudanças económicas e sociais ocorridas
nos últimos anos, transformaram-nos e obrigam-nos agora a encarar novas formas de
vida, que nos permitem adaptar a uma realidade plena de desafios nunca antes
imaginados. Estes desafios surgem de todos os lados, cruzam todas as áreas da nossa
vida, desde a familiar e profissional, até à relacional e ao próprio desenvolvimento
pessoal. Em tudo nos sentimos postos em causa.
Segundo Bauman, “A apresentação dos membros como indivíduos é a marca registrada
da sociedade moderna” (2001, p.39). Ser indivíduo significa dispor de uma certa
margem de liberdade de acção, margem que só se abre com a modernidade. A liberdade
individual torna-se central e importante. Para este autor, individualização é o
“transformar a identidade humana de um “dado” em uma “tarefa” e encarregar os
actores da responsabilidade de realizar essa tarefa e das consequências (assim como
dos efeitos colaterais) da sua realização.” (Bauman, 2001, p.40)
É nesta relação de “liquidez”, assim caracterizada por possuir particularidades próprias
dos fluidos: a inconstância e a mobilidade, do sujeito com o mundo, e da
imprevisibilidade que actualmente rodeia o mercado de trabalho que se desenvolve este
clima de instabilidade e incerteza quanto ao presente.
Para o autor, no mundo do desemprego (modernidade líquida) não há esperança para o
trabalho seguro, ninguém pode supor que está protegido contra a insegurança no
trabalho. “A incerteza do presente é uma poderosa força individualizadora. Ela divide
em vez de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará no próximo dia em

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qual divisão, a ideia de interesse comum fica cada vez mais nebulosa e perde todo o
valor prático” (Bauman, 2000, p.170).
Os nossos pais e, sobretudo, os nossos avós tiveram uma evolução profissional muito
mais previsível do que nós próprios. E uma estabilidade maior.
A questão “O que queres ser quando fores grande?” marcou normativamente a infância
e adolescência, revelando a centralidade que em termos identitários e sociais, ocupava a
escolha de uma profissão. Entretanto as coisas mudaram de tal maneira e a um ritmo tão
vertiginoso que emergiu a necessidade de colocar a questão de outro modo e de forma
cada vez mais recorrente “O que podes ser e fazer no momento presente?”.
Há quem diga que, no momento em que os nossos filhos nascem, podemos prever que
venham a “mudar de emprego, pelo menos, onze vezes durante a sua vida” (Bauman,
2008, p.31)
Esta insegurança significa desemprego, precarização, e, consequentemente, tem efeitos
na vida das pessoas, nos seus valores e relacionamentos.
Na modernidade sólida a igualdade era, ainda, um valor tão importante, ou mais, que a
liberdade. Nesse contexto a individualização, apesar de importante, era secundária. Na
modernidade sólida os indivíduos já eram entendidos como livres e iguais, podendo
exercer direitos e deveres, sendo responsabilizados pelas suas acções e empreender na
tarefa da construção de uma identidade.
O indivíduo já não era determinado pelo lugar no qual nascia. Com a modernidade
(sólida) os indivíduos deveriam ambicionar a se tornarem alguém e a lidar com as
consequências dessa ambição.
A passagem da economia da produção para a economia do consumo, transforma os
produtores em consumidores e, consequentemente, estes em mercadoria.
A modernidade líquida, torna o indivíduo a lei universal, isto é, agora todos devem ser
indivíduos. A construção da identidade destes indivíduos tem no consumo o seu papel
mais importante.
A identidade individual torna-se passageira, a construção do self é feita através do
consumo.
Sem obrigatoriedade de conduta em conformidade com a comunidade, o indivíduo
torna-se livre, mas essa liberdade é relativa, na medida em que as suas opções de
construção de liberdade são limitadas (ou ilimitadas) pelo consumo. Compromissos do
tipo “até que a morte nos separe” transformam-se em contratos “até que a satisfação
diminua” (Bauman, 2008, p.198). Os laços e parcerias são vistos, na perspectiva de

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Bauman, “...como coisas a serem consumidas, não produzidas; estão sujeitos aos
mesmos critérios de avaliação de todos os outros objectos de consumo”. (2008, p.199).
A sociedade da modernidade líquida, contrariamente à que a precedeu, não se comporta
como produtora, em que os indivíduos tendem a consumir apenas o imprescindível para
atender ás suas necessidades básicas. Não, na vida organizada em torno do consumo o
indivíduo orienta-se por desejos e quereres ilimitados.
As relações sociais, operam uma objectivação e instrumentalização através da
centralidade no consumo. Este torna-se, na “modernidade líquida”, a fonte principal de
satisfação dos indivíduos. Este sentimento resume-se ao prazer imediato, entretenimento
diversão, etc. É o mundo idealizado, através das imagens da TV e de outros meios de
comunicação.
A instrumentalização das relações sociais provocada pelo consumo, reduzem todas as
relações a relações do consumo, inclusive as afectivas.
Nesse contexto, tudo que não tenha utilidade ou não proporcione mais prazer é
descartado. A facilidade com que as pessoas são “substituíveis”, seja no emprego ou na
família, são alguns dos exemplos dessa “fragilidade de laços”.
Além de fonte de satisfação, o consumo torna-se o meio por onde os indivíduos se
constróem como sujeitos. É através da posse de determinados objectos de consumo que
uma identidade pode ser assumida ou não. O ter faz o ser, o indivíduo é identificado
através da marca de roupa que usa, pelo cargo que ocupa, pelo carro que tem.
O lema é se feliz, embora o princípio dessa felicidade seja estabelecido externamente,
por coisas que estão para além do indivíduo
A época em que vivemos, corroborando com a ideia de alguns autores e em especial
com Bauman, é uma era de incertezas, de fragmentações, de desconstruções, da procura
de valores, do vazio, do imediatismo, do hedonismo, do consumismo, etc.
È um período em que os indivíduos tendem a sentir-se confusos diante da velocidade
com o que o seu mundo se modifica, tornando, por isso, nebulosa a sua própria inserção
nesse mundo

Durante décadas privilegiámos a estabilidade das escolhas profissionais. Hoje, sabemos


que o desenvolvimento vocacional é um processo contínuo e que a nossa criatividade e
os nossos potenciais podem ser descobertos, trabalhados e melhorados em qualquer
altura da vida.

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Na verdade tudo indica que é assim que as coisas terão que acontecer e, daí também, a
necessidade de pensar a questão da vocação e perceber as ajudas que existem nas
escolas e fora delas.
Cabe-nos, portanto, lançar a mão a novas ferramentas que favoreçam a nossa evolução
pessoal e nos preparem melhor para a adaptação tempo em que vivemos e que nos
permitam descobrir e aperfeiçoar novas competências, muitas das quais não
sonhávamos ter.
Enquanto sintoma de crise, a instabilidade tem a vantagem de nos obrigar a ir mais
fundo na procura e desenvolvimentos dos nossos recursos, de maneira a usá-los melhor
e o mais plenamente possível para podermos ultrapassar os obstáculos. E se este
princípio se aplica em todas as épocas e nas situações mais variadas da nossa vida, neste
momento, em concreto, não pode ser mais verdadeiro e oportuno.
Esta necessidade de nos ultrapassarmos traduz-se numa procura de aprofundamento do
nosso auto conhecimento. Só isto permite ter uma consciência mais alargada das nossas
competências, tornar mais claros os nossos interesses, conhecer desejo e motivações e
fazer escolhas mediante esta realidade.
Neste sentido, e para que a Orientação Vocacional possa cumprir com a sua real
finalidade, deve ser operacionalizada de maneira coerente, ou seja, mais que informar
sobre as carreiras profissionais a Orientação Vocacional deve promover o auto
conhecimento do indivíduo. Mais do que o ajudar a escolher uma profissão, a
Orientação Vocacional deve auxiliar o indivíduo a adaptar-se à vida.
Todos temos uma diversidade de recursos dentro de nós, um imenso potencial criativo
possível de ser revelado nas mais variadas formas de expressão e desenvolvido em
diferentes graus, dependendo de uma série de factores e condições.
Para que este potencial se revele de forma saudável, têm que estar reunidas
determinadas condições. Destacam-se, entre outras, uma multiplicidade de experiências,
segurança afectiva, aceitação e liberdade de expressão de sentimentos dentro da família.
Mas a interacção fora da família, na escola, junto dos amigos e de todos os que fazem
parte da nossa rede relacional é igualmente fundamental. Todos contribuem, à sua
maneira, para a formação de todos nós pela troca de informação, pelas experiências e
pelos estímulos que oferecem. Escusado será dizer que o meio cultural em que vivemos,
a qualidade de ensino na escola e os métodos de aprendizagem nele utilizados, bem
como as oportunidades sociais e económicas, e os valores estéticos e éticos em que são
educados, são essenciais para a orientação do seu desenvolvimento

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Deste modo, a orientação vocacional, através de uma perspectiva psicológica que dá
prioridade à relação entre o sujeito e o mundo, a perspectiva Construtivista,
Desenvolvimental e Ecológica, permite a integração das várias dimensões do exercício
psicológico que interferem no processo vocacional.

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Referências Bibliográficas

Bauman, Zygmunt (1998). O Mal – Estar da Pós – Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor.
Bauman, Zygmunt (1999). Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor.
Bauman, Zygmunt (2001). Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Bauman, Zygmunt (2004). Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Bauman, Zygmunt (2008). A Sociedade Individualizada: Vidas contadas e histórias
vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Beck, Ulrich (1992). Risk Society. London: Sage.