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I

No conto El Ojo Silva, do escritor chileno Roberto Bolaño, o leitor vai encontrar uma história que
mais bem se parece a uma tragédia que precisa ser contada e, sobretudo, compartilhada.
Ela tem início no Chile de 1974, quando o personagem Mauricio Silva, com o apelido de Ojo Silva,
decide sair do país rumo ao México, logo depois do assassinato de seu presidente socialista
Salvador Allende, por forças militares.

No México, Ojo Silva faz amizade com outro chileno, que não se sabe o nome. Apenas que é
jornalista e que a partir de então, passa a ser o narrador da história. De Ojo Silva tampouco se sabe
muito. A condição que leva o personagem a sair do país não parece ser a de exilado político, mas de
alguém que decide ir embora por sua conta. O narrador ao início da história o define como alguém
que “siempre intentó escapar de la violencia aun a riesgo de ser considerado un cobarde”. Talvez a
razão de Ojo Silva sair de seu país seja exatamente a de não se admitir viver esse tipo de condição
ditatorial que agora enfrentava. De fato, o personagem quando está em seu auto-exílio no México
não participa de encontros com outros chilenos, que são apresentados mais como “resistentes
fantasmais do que reais”. Nesse círculo de “exilados” Ojo Silva é estigmatizado como homossexual.

Ojo Silva conhece pois, então, seu amigo e narrador na capital mexicana, onde começa a trabalhar
também no meio jornalístico, mas como fotógrafo. Os dois sempre se encontram no café Quito, e é
um desses encontros que um dia o personagem confirma as burlas dos demais sobre sua
sexualidade: ele era de fato homossexual. Como no meio da esquerda essa é uma questão mal vista,
ele diz que sempre a tratava de ocultar. Aquele seria o último encontro dos dois no México, pois
algum tempo depois Ojo Silva iria para França, trabalhar em seu ofício de fotógrafo. Em Paris,
poucos anos mais tarde seu amigo também estaria lá e o procuraria, sem sucesso.

É anos mais tarde, depois de muitos acontecimentos, quando a lembrança do amigo já não passava
de uma sombra, que os dois voltam a se reencontrar, mas em Berlim. Ojo Silva sabendo da vinda do
amigo por meio de uma notícia de jornal, decide se acercar do hotel e acabam encontrando-se em
uma praça. Ojo Silva além de Paris havia estado também em Milão e agora vivia em Berlim.
Além da mudança de cidade, o narrador descreve o amigo como mais magro, com mais rugas e
mais beberrão. Em um bar os dois voltam a conversar depois de tantos anos. Seu amigo contudo
nota que algo não havia mudado: a figura de Ojo Silva que ele recordava, se mantinha. Ele era uma
pessoa tranquila, pacífica e esquisita, ao que para ele parecia ser a de um “chileno ideal”. No bar
contudo a conversa é monótona.
É a caminho do hotel que o diálogo ganha força quando, de volta à praça em que haviam se
encontrado, Ojo Silva decide contar o fato que o havia marcado todo aquele tempo após ir embora
do México. É a partir de aí, de seu relato, que a história começa a tomar forma e o conto se
transforma em uma confissão de seu personagem. Ojo Silva queria não só contar, mas realmente
precisava compartilhar com o amigo o que havia vivido de forma tão forte e traumática. Algo que
ele nunca havia contado a ninguém.

Enquanto fazia mais um de seus trabalhos, dessa vez na Índia, Ojo Silva tinha de realizar uma
reportagem fotográfica sobre bairros de prostituição. A permanência no país não deveria durar mais
de uma semana, contudo é prolonga para mais de um ano quando o personagem, em meio ao
exercício de seu ofício, se defronta com uma situação social que lhe impõe uma necessidade de
intervi-la.

Ao ser acompanhado por locais no bairro da prostituição, em que deveria fotografar, Ojo Silva é
convidado a ter sexo com prostitutas e sair de sua posição de apenas observador. Ao se negar, o
personagem é logo associado a homossexual. Negando mais uma vez ter relação sexual, dessa vez
em um bordel de “maricas”, por fim Ojo Silva é levado ao local que impactaria não só sua ida
àquele país, mas sua vida.
O lugar é uma casa que, apesar da descrição de um labirinto com quartos minúsculos, não tem nome
certo nem definição certa: não se sabe se é um templo ou bordel. Ali, crianças do sexo masculino
são castradas em uma homenagem festiva a um dos deuses locais, ao que posteriormente a criança
castrada logo se converte em objeto de exploração sexual e prazer. Rejeitadas pelas famílias e
abandonadas à própria sorte naquele lugar, Ojo Silva se impacta ao saber do destino inescapável
daquelas crianças “divinas”.

Em meio ao desespero e não podendo ignorar o que presenciava, o personagem decide fugir do
local com duas crianças que havia encontrado ali. Após uma fuga em táxi, ônibus e trem, que
pareceu levar dias, na verdade havia sido em círculos, mas que havia sido longe suficiente para
encontrarem uma aldeia. Nessa aldeia Ojo Silva passa a viver e a cuidar dos dois meninos naquele
tempo impreciso de um ano e meio, até que uma doença súbita os levassem à morte. Com a razão
de sua fuga estando mortos, Ojo Silva decide, por fim, voltar à cidade, onde já não encontra mais o
bordel em que esteve. O local havia se convertido em vivendas e ele nunca havia sido buscado pela
polícia.
Em Berlim, Ojo Silva chora enquanto conta sua história trágica ao amigo, lamentando por seus dois
“filhos” indianos mortos pela doença, por todos os outros meninos castrados que não pode conhecer
nem salvar; por todos os jovens que perderam sua juventude. Por todos que morreram; por todos
que lutaram ou não por Salvador Allende. Ojo Silva chora porque não se pode escapar da violência.

II

Publicado pela primeira vez no livro Putas Asesinas (2001), o conto El Ojo Silva é mais uma obra
emblemática de Roberto Bolaño (1953-2003), que parece se misturar ao de sua história pessoal.
Nascido na capital Santiago, sua família se muda do Chile para o México em 1968. Socialista e
apoiador de Salvador Allende, Bolaño retornar ao seu país alguns anos mais tarde, em 1973, para
acompanhar as reformas políticas que estavam ocorrendo, até que então um golpe de estado em
setembro daquele ano ocorre. Depois de haver estado preso por alguns dias, volta finalmente para o
México no ano seguinte, em janeiro de 1974.

De volta ao México, na mesma avenida Bucareli onde seu personagem Ojo Silva se encontrava com
o amigo narrador, no conto El Ojo Silva, Bolaño também se encontra naquele café com amigos, que
juntos formariam o movimento poético “infrarrealista” na capital mexicana. O autor é igual ao que
o seu personagem uma figura nômada, pois também passa a se deslocar pelo mundo e viver na
Europa, mais precisamente na França e Espanha, sendo a capital catalã de Barcelona o lugar de sua
morte em 2003.

De fato Bolaño se inspirava em si mesmo para escrever suas histórias. Outro exemplo é sua novela
Los detectives salvajes (1998), em que seu alter ego Arturo Belano faz parte. Descrita pela crítica
como uma novela com rasgos de Jorge Luis Borges, do qual Bolaño era mesmo um leitor assíduo, a
obra ganhou prêmios e é uma das mais reconhecidas do chileno.

III

O contexto político em que podemos localizar o conto é o mesmo o que viveu o autor, tantos outros
chilenos e tantos outros latino-americanos. O contexto era o de ditadura, de repressão, de morte e de
violência que seu personagem tanto queria escapar mais não pôde. Bolaño introduz em seu conto
dois narradores: o próprio Ojo Silva e seu amigo. O primeiro a partir de uma perspectiva de alguém
que precisa confessar e compartilhar algo que não pode se esquecido e que não pode ser ignorado: a
violência. O segundo se torna testemunha e cúmplice de todo vivido por seu amigo, ainda que não
possa compartilhar da mesma maneira essa dor: “Nadie se puede hacer una idea. Ni la víctima, ni
los verdugos, ni los espectadores”. Há ainda uma terceira testemunha, que o leitor passa a ser
quando também se informa desses relatos.

Será que essa manifestação de violência compartilhada também não é aquela mesma sofrida por
quem vivia o dia a dia em um país sitiado por forças inomináveis que de repente passaram a ditar os
rumos e o futuro de milhares de jovens. A castração não seria aquela que tira do indivíduo os seus
sonhos. No conto o futuro desses meninos divinos parece comprometido por uma celebração
tradicional que, apesar de seus esforços em resgatar duas vítimas, se repetirá todos os anos. Seus
algozes são sacerdotes, são carniceiros, são legitimados. O que ocorre naquele bairro de prostíbulos
é algo aceito, é algo inevitável, é algo visível e conhecido naquela realidade indiana. Naquela
América Latina dos que viveram nos '50, seus algozes são também os salvadores, os que tem um
papel na hierarquia social; são carniceiros, são legitimados.

Em meio a tantas vítimas de agressões naturalizadas pelo mundo, onde estão as testemunhas? O
silêncio é quebrado através do choque de realidade, em que algo imensurável não pode ser aceito
passivamente. Talvez seja por isso que, apesar de abandonar seu país em meio a violência, Ojo Silva
muda sua posição e decide interferir ao ver aquelas crianças indianas em situação de prostituição e
abandono. Ojo Silva (e o narrador) se dão conta, cada um a sua maneira, de que da violência não se
pode escapar e que ela precisa ser confessada, contada, compartilhada.

IV

O giro em círculos que Ojo Silva dá em volta da cidade enquanto tenta escapar com os meninos
castrados parece não só se uma metáfora deste ciclo de violência inescapável, mas também ao do
movimento de inércia que os países ocidentais compartilhavam após a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto Europa vivia processos de guerra civil e governos fascistas, a América Latina percorria
logo atrás os mesmos caminhos de inércia em um círculo de repressão e violência com governos
ditatoriais.

Em um mundo marcado pela divisão política, social e econômica entre estruturas capitalistas e
socialistas, não tardou muito que essas concepções de sociedade nascidas na Europa logo
atingissem todo mundo, marcando para a sempre a vida de bilhões de pessoas. De fato as
expectativas políticas e os resultados da Guerra Fria se ampliam em escala mundial, gerando
diversos conflitos armados, civis e posteriores guerras de intervenção tanto por parte do bloco
socialista quanto do bloco capitalista. Sobretudo na Europa e Ásia, onde a influência da então
URSS era maior. Enquanto na América Latina, a política de big stick dos EUA cercava o continente
de qualquer possível intervenção socialista.

A guerra que durou mais de 50 anos – ainda que não declarada –, exigiu grande atividade industrial
e desenvolvimento tecnológico, que mais tarde se veria em resultados concretos nos países
desenvolvidos europeus e nos EUA, hoje líderes econômicos e com o maior número de armas
nucleares. Para os países do Sul, os resultados contudo não foram tão felizes, já que resultou em um
modelo imposto baseado em dependência e obediência econômica desproporcional, e, claro, um
ciclo de violência legitimado e, mais uma vez, inescapável.

Em seu conto, Roberto Bolaño, parece querer através de Ojo Silva trazer para o leitor um
personagem que nos faça refletir sobre como o processo de violência pode se naturalizar em uma
sociedade, seja ela estando vivendo um período de intervenção militarizada (no caso da América
Latina) ou simplesmente pelos costumes sociais enraizados (no caso da Índia). Bem como também
traz para a superfície a necessidade do diálogo, espelhada nos dois amigos, em que o outro, mesmo
não tendo vivenciado o registro violento, passa de certa forma a ser também testemunha. Quando
Ojo Silva intervém na vida dos meninos castrados e compartilha sua história, ele quebra o silêncio e
a passividade que o seu exílio lhe vinha proporcionando até então.
A história de Ojo Silva é também, em menor ou maior medida, a história de milhares de pessoas
caladas que viveram as décadas ditaduras no continente. É o registro de uma violência sem nome,
mas que precisa ser desafogada.

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