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Por quem

Cristo morreu?
O assunto que iremos estudar é um
dos mais difíceis de aceitar. Observe que esse
assunto não é o mais difícil de entender, mas
de aceitar. Por que isso é assim? Vou listar
algumas explicações possíveis. Quando somos
salvos não nos tornamos pessoas impecáveis.
Somos libertos da escravidão do pecado e da
condenação que merecemos, mas ainda temos
a possibilidade de pecar. O velho Adão precisa
ser constantemente mortificado. Em virtude
disso, creio que nos revoltamos contra alguns
ensinos bíblicos. Essa é uma explicação
possível para rejeitarmos o ensino que logo
será exposto aqui. Outra razão possível não
está relacionada ao pecado remanescente, mas
aos pressupostos que assumimos. Deixe-me
esclarecer o que tenho em mente aqui. Em
nosso país a crença no livre-arbítrio é muito
popular. Não é necessário ser cristão para
acreditar que temos livre-arbítrio. Mesmo
incrédulos afirmam que possuem livre-arbítrio.
Esse ensino também é ensinado em muitas
igrejas. Crescemos ouvindo que devemos
escolher entre a vida e a morte. E realmente
devemos fazer essa escolha. Mas nunca nos
perguntamos se podemos (se está em nossa
vontade a capacidade para) escolher a vida!
De fato, a Bíblia ensina que esse poder não
está em nossa vontade. A Bíblia diz que nossa
vontade está escravizada pelo pecado até que
sejamos libertos por Cristo: “Respondeu-lhes
Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que
todo aquele que comete pecado é servo do
pecado... Se, pois, o Filho vos libertar,
verdadeiramente sereis livres” (João 8:34, 36).
Mas as pessoas confundem dever com poder.
Porque devem escolher entre a vida e a morte
elas concluem que está em seu poder escolher
a vida assim que quiserem. Mas novamente
Jesus diz: “Todavia, vós não quereis vir a mim
para terdes a vida” (João 5:40). O homem
pecador está escravizado pelo seu pecado e
não quer ir a Cristo para receber vida. Por isso
o apóstolo Paulo escreveu: “pois é Deus quem
produz em vós tanto o querer como o realizar,
de acordo com sua boa vontade” (Fp 2:13).
Em resumo, a crença popular no livre-arbítrio
torna difícil aceitar a doutrina bíblica da
expiação limitada. Outra possível explicação
tem a ver com o tipo de cristianismo
popularizado no Brasil. Esse cristianismo
costuma dar mais valor à experiência do que às
Escrituras. Caso algum ensino bíblico
contradiga a experiência de algum cristão, eles
optam pela experiência e rejeitam o ensino
bíblico. Esse cristianismo popular é avesso à
doutrina. Quando alguém expõe para um
cristão assim doutrinas centrais da fé cristã,
esse cristão logo dirá que temos muita teoria e
eles preferem a prática. Paulo escreveu:
“Porque lhes dou testemunho de que têm zelo
de Deus, mas não com entendimento” (Rm
10:2). Certamente, a fé sem obras é morta.
Mas também é improdutivo o zelo sem
conhecimento. O conhecimento não é pecado.
Dessa forma, muitos cristãos rejeitam essa
doutrina porque têm pouco entendimento e
baseiam seu cristianismo nas próprias opiniões
ao invés de baseá-lo nas Escrituras. Mas que
doutrina é esse que é fácil de entender, mas
difícil de aceitar? Passemos então a esse
tópico.

1. POR QUEM CRISTO MORREU?

Imagine que alguém algum dia lhe


pergunte: “por quem Cristo morreu?”. Qual
seria sua resposta? Talvez fosse algo assim:
“Como assim? Cristo morreu por todos! Isso
não é óbvio?!”. Por mais estranho que pareça,
essa resposta não reflete o ensino bíblico. Para
demonstrar isso, iremos expor adiante alguns
textos-prova que contradizem essa ideia
popular de que Jesus morreu por todos e, na
sequência, analisaremos brevemente passagens
mais difíceis que parecem ensinar que Jesus
morreu por todos.

A doutrina que iremos expor aqui e


que pretendemos demonstrar seu fundamento
bíblico é denominada Expiação Limitada ou
Expiação Particular. Antes de listar o apoio
bíblico, definiremos esses termos. O termo
“expiação” é usado no sentido de que os
pecados cometidos são eliminados e
purificados mediante o sacrifício de um
substituto inocente. A morte de Cristo na cruz,
o Cordeiro imaculado, foi uma morte
substitutiva. Isso significa que ele carregou a
culpa e o castigo do pecador. O termo
“limitada” ou particular” demonstra a extensão
dessa expiação. Por extensão pretendemos
dizer a “quantidade” de pessoas que foram
expiadas pela morte de Cristo. Alguns
afirmam que a morte de Cristo expia todas as
pessoas em todos os tempos. Aqueles que
perecem, portanto, perecem única e
exclusivamente por terem rejeitado o sacrifício
de Cristo. Esse grupo diz que a expiação é
ilimitada, ou seja, ela abrange todas as
pessoas. Há outro grupo, o qual penso ser mais
bíblico, que afirma que a morte de Cristo expia
tão somente aqueles que foram eleitos antes da
fundação do mundo (Ef 1:4). Esse grupo diz
que a expiação foi limitada, isto é, ela abrange
apenas os escolhidos. Vejamos alguns textos
bíblicos que dão apoio a essa visão.

 ISAÍAS 53:11 – “Ele verá o fruto do trabalho


da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu
conhecimento o meu servo, o justo, justificará
a muitos; porque as iniquidades deles levará
sobre si”. O capítulo 53 do livro do profeta
Isaías é um capítulo messiânico. Isso significa
que há ali uma profecia que aponta para o
Messias prometido. Nós cristãos acreditamos
que a promessa do Messias foi cumprida na
primeira vinda de Jesus Cristo. Jesus foi
crucificado sob Pôncio Pilatos e ressuscitou ao
terceiro dia. Sua morte era cumprimento dessa
profecia de Isaías. Aqui o profeta diz que Jesus
“justificará a muitos; porque as iniquidades
deles levará sobre si”. Observe que Jesus
levará a iniquidade de “muitos” e não de
“todos”.
 MATEUS 20:28 – “Bem como o Filho do
homem não veio para ser servido, mas para
servir, e para dar a sua vida em resgate de
muitos”. Aqui Jesus parece está se referindo a
Isaías 53 e Ele diz que veio para “dar a sua
vida em resgate de muitos”. Novamente, a
morte de Jesus não abrange a todas as pessoas
sem exceção, mas a muitos.
 MATEUS 26:28 – “Porque isto é o meu
sangue, o sangue do novo testamento, que é
derramado por muitos, para remissão dos
pecados”. Na instituição da Ceia Jesus afirma
que o vinho é o “sangue da nova aliança” e
esse sangue foi derramado por “muitos” e não
por todos.
 HEBREUS 9:28 – “Assim também Cristo,
oferecendo-se uma vez para tirar os pecados
de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado,
aos que o esperam para salvação”.

Os textos acima ilustram o ponto aqui


defendido. Muitas outras passagens poderiam
ser citadas. A Bíblia diz que Jesus veio dar a
vida por seu povo (Mt 1:21), por suas ovelhas
(João 10:14-15) e por sua igreja (Atos 20:28).
Dessa forma, podemos afirmar, de acordo com
as Escrituras, que a morte de Cristo na cruz foi
intencional e efetivamente em favor dos eleitos
de Deus. Mas aqui surge uma dificuldade.
Assim como há textos nas Escrituras que
ensinam que a morte de Jesus foi a favor de
“muitos” e por suas “ovelhas”, há outros textos
que parecem ensinar que Jesus morreu por
todos. Será que a Bíblia se contradiz?
Ensinamos que a Bíblia nunca se contradiz.
Qualquer contradição é confusão em nossa
mente e com um estudo mais detalhado
podemos solucionar aquilo que parecia
contraditório. Assim, vamos aos textos que
parecem ensinar uma expiação ilimitada.

 JOÃO 3:16 - “Porque Deus amou o mundo de


tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para
que todo aquele que nele crê não pereça, mas
tenha a vida eterna”. Esse é um dos textos
mais utilizados para ensinar que Jesus morreu
por todos. Afinal, lemos aqui que Deus amou o
“mundo”. Agora, existe uma solução
aparentemente fácil para resolver essa
situação. Ela é proposta por aquele grupo que
defende uma expiação ilimitada. A solução
seria algo assim: os textos que indicam que
Jesus morreu por “muitos”, por sua igreja e
por suas ovelhas não sugerem que Jesus
morreu somente por sua igreja ou somente por
suas ovelhas. Assim, é verdade que Jesus
morreu por suas “ovelhas”, mas também é
verdade que Ele morreu pelos “bodes”. Essa
solução parece simples e agrada a muitos. Mas
seria ela uma solução bíblica? O que está em
jogo aqui? Bom, precisamos entender os
pressupostos daqueles que propõem essa
solução. Vou especificar alguns pressupostos e
veremos se eles se sustentam biblicamente.
Um dos pressupostos assumidos nessa solução
é que o ensino de uma expiação limitada
impõe um limite ao amor de Deus. Como Deus
poderia nos ordenar amar os nossos inimigos
quando Ele mesmo não ama? Porventura,
Deus faz acepção de pessoas? Essas são
algumas das perguntas que surgem quando a
expiação limitada é defendida. Agora, vamos
ver os erros por detrás dessas colocações.
a) A expiação limitada impõe um limite ao amor
de Deus? Aqueles que pensam dessa forma são
motivados a pensar assim por terem formado
uma visão prévia sobre o que é o amor de
Deus. Eles não derivam a doutrina do amor de
Deus das Escrituras, mas de suas opiniões. E a
opinião comum é que se Deus for justo, Ele
deve amar a todos igualmente. Agora, algumas
coisas precisam ser ditas sobre o amor de
Deus. Há muitos mitos que são espalhados
sobre o amor de Deus. Um dos mais
conhecidos é que Deus odeia o pecado, mas
ama o pecador. Agora vejamos o que diz os
Salmos 5:5: “Os loucos não pararão à tua
vista; odeias a todos os que praticam a

maldade”. A ira ou o ódio do Senhor repousa

sobre os que praticam a maldade. Aqueles que


dizem que Deus deve amar a todos pretendem
julgar a Deus pelos padrões humanos. Uma
vez que nosso ódio é pecaminoso e viola o
código moral, eles pensam, Deus deve amar a
todos ou estará violando o código moral. E
Deus não é imoral, por isso Ele ama a todos! O
problema com esse raciocínio é ignorar a
natureza do ódio divino. O ódio de Deus nunca
é pecaminoso. Assim, Ele pode amar os eleitos
enquanto seu ódio permanece sobre os
incrédulos, pois o ódio de Deus sempre é
santo. Estabelecer um falso padrão, portanto,
pode levar a confusão acerca do amor de Deus.
“Estas coisas tens feito, e eu me calei;
pensavas que era tal como tu, mas eu te
arguirei, e as porei por ordem diante dos teus
olhos” (Sl 50:21). O amor de Deus não deve
ser medido pela quantidade de objetos que
alcança, mas pela própria natureza de Deus.
Na eternidade, quando nada e nem ninguém
havia, Deus já amava. O amor de Deus não era
menor por não haver 6 bilhões de pessoas para
amar. Assim também, seu amor não é limitado
caso recaia apenas nos objetos escolhidos.
Deus é livre para amar a todos, como também
é livre para amar apenas os seus: “Ora, antes
da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era
chegada a sua hora de passar deste mundo para
o Pai, como havia amado os seus, que estavam
no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1).
b) Deus é obrigado a amar todos os Seus
inimigos? Outra confusão aparece quando
erigimos um falso padrão de julgamento. A
pessoa que sustenta que Cristo morreu por
todos argumentou que Deus mesmo deveria
amar a todos, pois nos ordena a amar os nossos
inimigos. Como Deus pode nos ordenar a amar
nossos inimigos quando Ele mesmo não ama a
todos? Aqui novamente a criatura pensa que o
Criador é seu igual. Como dissemos, o nosso
ódio está manchado pelo pecado enquanto o
ódio de Deus está de acordo com Sua justiça e
santidade. Assim, Ele estabelece um padrão
para criaturas pecadoras enquanto Ele mesmo
não precisa se adequar a esse padrão por ser
inteiramente santo. Deixe-me ilustrar isso.
Deus nos proíbe de roubar no oitavo
mandamento. Estaria Deus obrigado a
observar esse mandamento? Num primeiro
momento você pode achar que sim. Afinal,
seria muito estranho se Deus fosse um ladrão!
Todavia, se analisarmos mais detidamente o
caso veremos que Deus não precisa se sujeitar
a esse mandamento. Por que não? Aqui
podemos ver claramente que o padrão da
criatura não é o mesmo padrão para o Criador
em todas as situações. Enquanto criatura,
minhas posses são limitadas. Eu não tenho o
direito de invadir a propriedade de outrem.
Mas as posses de Deus não são limitadas. Ele é
o Criador. Tudo o que existe é seu por direito.
É, portanto, impossível que Deus roube o que
já é seu. Assim, Deus não está obrigado pelo
oitavo mandamento. Da mesma maneira, Deus
nos ordena a amar nossos inimigos, mas
porque é santo e justo, Ele pode odiar os que
praticam a maldade.
c) Deus faz acepção de pessoas? Ora, mas se o
amor de Deus é restrito aos que são eleitos,
então Deus faz acepção de pessoas, quando
Ele mesmo ordena que não devemos fazer
acepção de pessoas! Mas então a Bíblia diz:
“Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos
deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus
grande, poderoso e terrível, que não faz
acepção de pessoas, nem aceita recompensas”
(Dt 10:17). Ora, afinal Deus faz ou não
acepção de pessoas? Muitas pessoas
confundem eleição divina com acepção de
pessoas. Porém, um pouco de cuidado no
estudo bíblico pode nos ajudar a evitar a
confusão. A ideia de acepção de pessoas
envolve estabelecer padrões de julgamento
baseados na aparência. Assim, se uma pessoa
está bem vestida e tem a aparência de alguém
que tem muitas posses, ela pode ser bem
recebida na sinagoga e assentar-se no melhor
lugar. Já o pobre sequer recebe um assento (Tg
2:1-4)! Mas Deus não estabelece um padrão de
juízo falso. A Bíblia diz que Deus é o reto
Juiz. Ou seja, o cetro de justiça de Deus é o
cetro da equidade. Dessa maneira, podemos
distinguir eleição divina de acepção de
pessoas. Quando Deus escolhe pessoas Ele não
o faz baseado na aparência externa. Deus
escolhe baseado única e exclusivamente em
Sua graça. Paulo chamou essa boa vontade de
Deus de escolher pessoas que mereciam o
inferno de beneplácito. A eleição, portanto, se
baseia na graça e não num falso padrão de
julgamento. Mas então os que não são
escolhidos. Tais pessoas não recebem injustiça
da parte de Deus, pois Deus nunca é injusto.
Antes, enquanto alguns são alvos da graça de
Deus, outros são deixados livres em suas
concupiscências para receberem a justa
condenação de Deus.

Tendo feito essas observações,


podemos voltar ao texto de João 3:16. Esse
texto nos diz que Deus amou o “mundo” de tal
maneira que deu o Seu Filho Unigênito.
Estaria esse texto ensinando que Jesus morreu
por todas as pessoas? Alguns creem que sim.
Entretanto, creio que esse texto não ensina
uma expiação ilimitada. E como posso
sustentar minha crença? Quando olhamos
rapidamente para esse texto ele parece ensinar
que Deus ama todas as pessoas sem exceção e
que Jesus morreu por todos. Todavia, vimos
que Deus odeia os que praticam a maldade.
Como então entender essa passagem? O termo
utilizado por João é κόσμον (kosmon). Esse
termo ocorre 46 vezes no Novo Testamento
com essa declinação. No evangelho de João há
23 ocorrências e nas epístolas joaninas há 8
ocorrências. João usa esse termo mais vezes
com outras declinações. Agora, se quisermos
entender esse termo precisamos determinar o
uso que João lhe dá no contexto. Veja, por
exemplo, João 16:21: “A mulher, quando está
para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada
a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a
criança, já não se lembra da aflição, pelo
prazer de haver nascido um homem no
mundo”. Nesse versículo “mundo” significa
todas e cada pessoa? Um menino nasceu a
todas as pessoas do planeta? Claramente,
mundo nesse versículo tem um sentido
espacial e não extensivo. Ou seja, mundo aqui
não são todas as pessoas. Agora veja João
16:33: “Tenho-vos dito isto, para que em mim
tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas
tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Os
discípulos iriam passar por aflições no
“mundo”. Obviamente, mundo aqui não são
todas as pessoas! Mas eles deveriam ter bom
ânimo, pois Jesus venceu o “mundo”. Será que
Jesus venceu todas as pessoas? A segunda
ocorrência de mundo nesse versículo significa
o sistema de satanás e seus súditos. Mas o que
quer dizer “mundo” em João 3:16? Algumas
soluções têm sido propostas. Como já vimos,
há aqueles que pensam que “mundo” é todas
as pessoas sem exceção. John Owen, teólogo
puritano, diz que mundo representa todos os
eleitos. Embora isso tenha sua aplicação, creio
que há outra solução possível. O teólogo D.A.
Carson afirmou que “o amor de Deus deve ser
admirado não porque o mundo é tão grande e
inclui tanta gente, mas porque o mundo é tão
mau...”.1 Ou seja, em João 3:16 “mundo” não

1
CARSON, D. A. O Comentário de João. São Paulo:
Shedd Publicações, 2007, p. 206.
está se referindo a uma multidão de pessoas.
Tampouco “mundo” está se referindo a um
mundo de eleitos, por mais plausível que a
explicação de Owen seja. Antes, “mundo” é a
qualidade moral das pessoas que são amadas.
Ou seja, Deus amou pessoas pecaminosas.
Realmente, Deus amou aqueles que eram seus
inimigos. Poderíamos dizer que Deus amou
“pessoas mundanas” de tal maneira que deu
Seu Filho! Precisamos então estar atentos para
o seguinte: “mundo” em João 3:16 não se
refere ao mundo dos eleitos, embora isso possa
ser determinado por outras passagens;
“mundo” também não significa todas as
pessoas sem exceção. Você então pode se
fazer a seguinte pergunta: as pessoas
pecaminosas não abrangem todas as pessoas
do mundo? A resposta é sim. Então, você
pergunta, porque João 3:16 não se refere a
todas as pessoas do mundo? Como Carson
observou, esse texto não especifica a extensão
do amor de Deus, mas a qualidade moral do
objeto desse amor. Dessa forma, se
pretendemos descobrir a extensão do amor de
Deus precisamos estudar outros textos das
Escrituras. Todavia, o contexto de João 3 já
nos ajuda a chegarmos a algumas conclusões.
Temos visto que Deus amou o mundo. Mundo
aqui são pessoas pecadoras que não merecem
o amor de Deus. Mas ainda assim Deus, por
pura graça, amou o mundo e enviou o Seu
Filho. O propósito de Deus ao enviar Seu
Filho era dar a vida eterna. Mas quem são as
pessoas que recebem a vida eterna? Leiamos
novamente o versículo: “Porque Deus amou o
mundo de tal maneira que deu o seu Filho
unigênito, para que todo aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna”. Aqui nos
é dito que o propósito da morte de Cristo é
garantir a vida eterna a todo aquele que crê.
“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna;
mas aquele que não crê no Filho não verá a
vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece”
(João 3:36). Observe que a ira de Deus não
virá sobre a pessoa apenas no dia do juízo. Na
verdade, a pessoa que não crê está a todo o
momento debaixo da ira de Deus. Ela pode
estar desfrutando de prosperidade nesse
momento. Contudo, a calamidade virá sobre
ela. Os favores que os incrédulos gozam nessa
vida não é um sinal de que tudo está em paz
com Deus. Eles se casam e se dão em
casamento, mas a ira de Deus permanece sobre
a vida deles. Assim, ao mesmo tempo em que
ama o “mundo”, a ira de Deus permanece
sobre os incrédulos.

 EZEQUIEL 18:23 – “Tenho eu algum prazer


na morte do ímpio? diz o Senhor Deus. Não
desejo antes que se converta dos seus
caminhos, e viva?”. Alguns entendem, a partir
desse texto, que Deus deseja a salvação de
todas as pessoas e, portanto, Jesus morreu por
todos. Bom, esse é um caso curioso de
interpretação bíblica. Se lermos
cuidadosamente a passagem iremos observar
que em nenhum momento é dito que Deus
deseja a salvação de todas as pessoas. E pior
ainda, nada é dito sobre a morte de Cristo.
Concluir que a expiação é ilimitada com base
nesse texto é fazer mau uso das Escrituras. Em
primeiro lugar, o contexto nos mostra que
Deus se dirige aqui à casa de Israel. Mas ainda
que ignoremos isso, o versículo não dá apoio à
afirmação de que Deus deseja a salvação de
todas as pessoas. Para deixar isso mais claro
precisamos entender a diferença entre preceito
e decreto. O preceito pode ser definido como
aquilo que Deus requer de nós. O decreto pode
ser definido como aquilo que Deus causa,
determina, isto é, decreto é o propósito de
Deus com relação a todas as coisas desde a
eternidade. O texto de Ezequiel 18:23 é um
preceito de Deus, mas nada diz sobre Seu
decreto, isto é, sobre Seu propósito eterno. O
preceito de Deus para os pecadores é que eles
se convertam e vivam. Deus manda a todos os
homens se arrependerem dos pecados que
cometem. Ele pode ordenar isso porque Ele é o
Criador. Ele detém o poder sobre o barro. Mas
Deus dá o arrependimento a quem Ele quer
dar. Ele não é obrigado a quebrar todo o
coração de pedra. Quando Paulo debatia com
os filósofos gregos no Areópago ele disse:
“Mas Deus, não tendo em conta os tempos da
ignorância, anuncia agora a todos os homens, e
em todo o lugar, que se arrependam” (At
17:30). Isso é um preceito tal qual o de
Ezequiel 18:23. Agora observe o que Paulo
escreve a Timóteo: “Instruindo com mansidão
os que resistem, a ver se porventura Deus lhes
dará arrependimento para conhecerem a
verdade” (2 Tm 2:25). Veja que Paulo não
sabe se Deus dará arrependimento aos que
resistem, pois isso faz parte do decreto de
Deus.
 ROMANOS 5:18 – “Pois assim como por uma
só ofensa veio o juízo sobre todos os homens
para condenação, assim também por um só ato
de justiça veio a graça sobre todos os homens
para justificação de vida”. O pecado de Adão
afetou toda a humanidade, com exceção de
Jesus. Por mais inocente que um bebê possa
parecer, em seu coração há sementes do
pecado. Mas esse texto de Romanos diz que a
graça veio sobre todos os homens. Alguns
então concluem que Cristo morreu por todos
os homens para que a graça viesse a eles. No
entanto, devemos observar bem o que Paulo
diz aqui. A graça mencionada por Paulo é uma
graça que concede a justificação de vida. O
que isso significa? A justificação é a sentença
de Deus que declara sobre o pecador que crê
que, com base na morte de Cristo, ele é justo!
Ou seja, a justificação é uma sentença
declarativa pronunciada por Deus que anula
todo o pecado e imputa a perfeita justiça de
Cristo ao pecador mediante a fé. Mas nem
todos os homens são declarados justos. Nem
todos os homens recebem o perdão de Deus. A
ira de Deus permanece sobre aqueles que não
creem. Isso significa que essa graça não se
destina a todos os homens sem exceção. Essa
graça se destina aos que são justificados. E
quem são esses? Paulo responde: “E aos que
predestinou a estes também chamou; e aos que
chamou a estes também justificou; e aos que
justificou a estes também glorificou” (Rm
8:30). Esse texto é apelidado Cadeia Dourada
da Salvação. Na eternidade, Deus predestinou
àqueles que seriam salvos. No momento
oportuno o Espírito Santo concede vida e fé a
esse pecador eleito. Tal pecador é declarado
justo sob a base do sacrifício redentor de
Cristo Jesus mediante a fé. Portanto,
concluímos que os que recebem a graça da
justificação são todos os homens e mulheres
que foram predestinados por Deus na
eternidade.
 TITO 2:11 – “Porque a graça salvadora de
Deus se há manifestado a todos os homens”.
Aqui novamente parece ensinar que Cristo
morreu por todos, uma vez que a graça
salvadora se manifesta a “todos os homens”.
Mas assim como a graça que justifica é
destinada aos eleitos, a graça salvadora tem
como alvo os eleitos e não todos os homens
sem exceção. Para entender isso é necessário
fazer a distinção entre todos os homens sem
exceção e todos os homens sem distinção.
“Todos os homens sem exceção” significa
todos os que já existiram, existem e existirão.
“Todos os homens sem distinção” significa
pessoas de todas as classes, isto é, ricos ou
pobres, senhor ou escravo, inculto ou sábio,
judeu ou gentio. A leitura mais correta é que a
graça salvadora tem sido manifesta a todos os
homens sem distinção. Isso fica claro a partir
do contexto. Paulo escreve a Tito para que ele
exorte aos empregados ou servos a se
sujeitarem aos seus senhores. E por que esses
servos devem agir assim? Porque a graça de
Deus não alcança apenas os pobres, mas
também os ricos. Não apenas os servos, mas
também os senhores. Paulo diz ainda que essa
graça salvadora nos ensina a viver uma vida de
retidão e de piedade, aguardando a segunda
vinda de Jesus Cristo que “se deu a si mesmo
por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e
purificar para si um povo seu especial, zeloso
de boas obras” (Tito 2:14). A morte de Cristo,
portanto, teve como alvo “purificar para si
[Cristo] um povo seu especial”. A morte de
Cristo foi pelos eleitos, isto é, por Seu povo.
QUESTIONÁRIO
1 – Explique o sentido do termo “expiação”:

2 – Descreva brevemente a diferença entre


“Todos sem exceção” e “Todos sem distinção”:

3 – Marque a opção correta: Em João 3:16 lemos


que Deus amou o mundo de tal maneira... O
termo “mundo” nesse versículo representa:

A) ( ) Todas as pessoas sem exceção.


B) ( ) Todas as pessoas sem distinção.
C) ( ) O mundo de todos os eleitos.
D) ( ) A qualidade moral das pessoas que foram
amadas, isto é, Deus amou pessoas mundanas,
pecadoras.

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