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Delírio

Há uma expressão dentro de mim que quer sair…quer sair, mas não

consegue...cada palavra, cada momento é expresso em sentimentos que não cabem nas

palavras. São imagens, são momentos, são o que são e não o deixam de ser por alguém,

ou mesmo eu os querer esquecer. No entanto, as palavras surgem umas atrás das outras

sem porém traduzir tudo o que, elas próprias, querem, desejam relatar. E de desejo

transpira cada espaço vago ou ocupado por estas letras... E de desejo as frases se

preenchem, são desejos que não sabem de onde vieram, para onde vão, ou ainda se têm

uma conclusão. No fundo, todo o sentido das coisas deixou de existir quando tudo que é

esquisito passou a fazer sentido, mas só no coração. A mente tenta e tentou, vezes sem

conta contornar a situação, mas em vez de resolver piorou... Porque agora, já ninguém

consegue enganar ninguém, a bandeira foi içada.

Às vezes, pensa-se que algo material não passa disso, mas (sempre um mas?!), o

tempo molda e acaba por nos surpreender!!! Sem contas, sem contar, sem que haja

nexo, nem mesmo definição, melhor, muito menos definição, os sentimentos se

moldam, com o tempo... e, o não, transforma-se num sim, ou um sim num não e muitas

vezes a resposta é dada em actos no lugar de palavras. Quando a resposta fica indefinida

entre o sim e o não, ou o contrário é porque aquilo a que se está evitar responder é cada

vez mais delicado e, delicado é quando o assunto é demasiado chegado às emoções –

sejam elas quais forem. Neste caso, nesta introdução nada está claro, tudo está confuso,

mas toda esta confusão é apenas uma minúscula parte em comparação com o corpo das

entre linhas! E quando a respiração deixa de respirar, porque a velocidade de entrada e

saída de emoções é tão intensa e, forte que os olhos brilham pela água que pretende

cristalizar para não escorrer pelo rosto... um rosto com e sem expressão tal e qual as
lágrimas: com e sem tristeza... Porque quando acontece o que não devia ter acontecido

passa a existir um acontecimento sem definição (com emoção – da sua própria

existência) – mas com todo o sentido do mundo, movido por algo sem explicação, mas

com todo o sentido que a palavra existir pode conter... e quando o quando é um instante

tão indefinido como o da acção algo nasce – como um embrião no ventre de sua mãe. E

quando o não esconde o sim e este não destingue o certo do errado, mas sente... só

sente, mesmo que por vezes seja o que não deve sentir. E quando se vai na estrada, de

mãos assentes no volante e, se ouve na rádio aquela música que não deveria tocar, mas

que se queria que tocasse, porque na verdade se está a sofrer por não querer e querer

curtir o sofrimento... e quando se canta para decidir e, se passa a desafinar em vez de

cantar, sabendo que essa decisão é uma exclusão de uma parte do nosso ser... e quando a

exclusão dói... e quando a exclusão não deveria ser exclusão, mas algo natural. Eu

quero... eu quero... e não posso querer, ou posso?

Esta é uma história sem história, sem começo nem fim, porque existiu mas não é

parte da vida é aquilo que se pode chamar de bastardo... será um bastardo de amor?

Como todos os bastardos... sendo eles os excluídos, são eles os mais amados... por

alguém e ninguém.

Esta história começa sem começo, sem rumo, sem história… Apenas palavras,

frases e estas palavras e frases são o texto que compõe esta história.

Quando alguém quer comunicar pura e simplesmente procura o melhor meio,

actual ou de há séculos, mas o meio que mais lhe convém. No entanto, nem sempre é

assim que acontece!!! Por vezes, muitas vezes as palavras, ficam inacabadas e as frases

no ar; porém poucas são as pessoas que conseguem entender palavras transportadas no

vento – molécula a molécula... Quando o assunto é matemático: dois mais dois são

quatro e por carta, telemóvel ou mesmo pessoalmente o som chega sempre (boas ou não
tão boas notícias, mas chegam). Quando é de foro emocional as palavras enrolam, os

músculos tremem, as perguntas crescem e multiplicam-se... a palavra: se, repete-se

vezes sem conta e a única coisa que se passa a contar ao pormenor é o tempo que teima

em passar depressa, muito depressa para deixar as dúvidas sem tempo para pensar e,

muitas vezes é melhor nunca ter pensado.

Então... esta é a história do tempo, com várias caras, que se molda a cada

momento e nem sempre como se quer, mas certamente como o fazemos ser. Basta

querer estar uma eternidade a olhar para o olhar de alguém e o tempo de uma hora passa

a ser um milésimo de segundo; não é preciso ser um génio para saber que isto é verdade

– basta algum dia ter estado apaixonado.

E que tal se escrevesse na primeira pessoa? Talvez fosse uma boa solução, é uma

excelente solução – afinal a primeira pessoa não quer dizer: eu. Eu é uma palavra muito

forte e na verdade não tem de ser: eu, é simplesmente alguém que agora é eu. Sempre

me perguntei, como é que grandes escritores conseguem escrever sem parar e tudo

coerentemente, quanto mais escrevem mais querem escrever... Será porque não sabem o

que escrever ou como dizer o que pretendem da forma mais simples e, por isso

escrevem sem parar, para chegar à conclusão que tudo o que disseram podia estar

escrito numa página de uma folha A4, ou mesmo numa frase? Falam tanto quanto

escrevem? Conseguem explicar-se com clareza? Querem mostrar ao mundo todas as

suas ideias ou ideais? Bom... ou é tudo um equivoco na comunicação? Quanto seria

mais fácil se não houvesse entre linhas, mas há, até neste pequeno texto. Seria tão mais

esclarecedor falar tudo até ao fim, propor a essência em vez de uma pequena amostra do

nosso pensamento. Quando existe um quando esse momento não está presente, vale de

algo este texto? Posso desde já sugerir um título para o livro que ainda não escrevi nem

pretendo editar? Posso parar com as questões antes que o leitor se canse de ler e me
pergunte o que quero eu dizer com tudo isto? Para falar sem dizer, por imagem, basta

uma pintura abstracta; para falar sem dizer num texto? Poderá estar codificado? Por

mim, não só pode como está. Tenho de justificar? Acho que não, nenhum escritor

justifica as suas palavras.

Todo o tempo depositado nestas palavras é um pequeno momento do

pensamento de uma pessoa... Tanta confusão torna um diálogo complexo, porém este

diálogo é a imagem do dia a dia de todos. Toda a gente quando vai pela rua em direcção

a algum local vai pensando, sentindo, vivendo, observando, mecanicamente no seu

mundo; basta parar um segundo para saber que isto é verdade. De que se trata então esta

história? De não ter assunto. São apenas pensamentos escritos – será isto, demasiado,

revelador? A poesia é mais discreta, nunca revela o sujeito, é apenas um sujeito poético.

A prosa... é um texto demasiado longo e revelador, isso assusta cada pequeno autor.

Mas aqui não há um eu e sim um alguém, é como na fotografia, não há um fotógrafo só

o modelo. A fotografia revela uma pequena imagem de alguém, uma hipótese de

alguém, apenas um projecto de algo.

É difícil escrever, quando se quer escrever algo diferente, a vontade é muita, mas

falar do assunto sem exposição é tramado... Terão todos os autores este pequeno

problema? É mais fácil fazer ficção ou cantar, pois ninguém pensa: esse és tu.

Comunicar é aquilo que falta ao mundo, todos sabem “descomunicar” – destruir,

mas comunicar – construir... “está quieto”!!! Será que este texto está ou faz algum

sentido? Uma vez mais digo: faz... se existe faz, mesmo que não faça para todos, para

mim (autor) faz – para o eu (indefinido) deste texto faz. Comunicação é uma palavra

muito vasta de amplo sentido, pelo menos parece, no entanto, sendo ela pura acção,

muitas vezes sente-se inútil, pois raramente é aplicada correctamente.


Pois então, porque é que quando se deixa a palavra quando a descansar logo vem

o porquê trabalhar? Porquê... Porquê... Por incertezas, pela insatisfação e pelo começo

de desespero que espreita cada vez que me olho ao espelho. Porque é que é tão difícil

falar, ou mesmo escrever, porque é que falar ou escrever é duro e comunicar só através

de uma transmissão mágica, porque é que a linguagem não completa o que sinto, não

completa justificações ou actos, porque é que o que sinto é a coisa mais esquisita e

bonita, a mais equivocada e dócil, a mais de um tudo em contraste com o resto? E

quando opostos são tudo aquilo que deveria ser apagado, transformado em algo uno.

Ouvi dizer que é bom ter um discurso recheado de prós e contras, mas são estes mesmos

prós e contras que não me deixam viver. Cada vez que penso entro em fusão com o

problema e a solução se afasta lenta e lentamente, mas mesmo esta lenta velocidade

parece mais veloz que eu em qualquer tentativa de me explicar. Uma explicação

continua a ser pouco, pouco demais... palavras soltas, palavras à volta das quais o

mundo faz filosofia são inúteis e vazias – nulas. Porque o mundo não percebe nada

delas e, julga perceber e, julga os outros perante as suas percepções do que pensam/

julgam ser o significado de cada uma dessas palavras. E se eu disser que estão

redondamente enganados com o que pensam ser certo? Julgar-me-ão louca... Pois hoje,

quero e vou correr o risco de “me mandarem montar porcos”... sim, quero dizer, falar ou

escrever (que seja carregado na brisa ou no vento, ou em cada ser voador), é verdade:

quero prolongar cada momento mágico lindo e considerado...seja lá o que for que o

considerem, foi bom, muito bom... E pensem o que pensarem nunca saberão ao que me

refiro, porque esta referência é comum às vossas próprias vidas... Mesmo que não fique

registrado já ficou, mesmo que cada palavra indique o fim, é exactamente aí que vou

incidir, pois não existe fim sem começo, não houve começo nem fim, mas existiu...

existiu, mesmo que se diga que foi inexistente e vai continuar a existir, talvez de outra
forma, talvez não... quanto incerto é o futuro... quantas surpresas traz consigo e quero

ver (amanhã) um sorriso. Quero voltar a provar daquele gosto, quero mesmo que digam

que não devo... mas... dever é uma obrigação e eu não, muito obrigada, mas não, não

quero que me obriguem a pensar se devo, ou me obrigar a tal. Egoísta?! Nem pouco

mais ou menos... egoísmo?! Nem entra perto ou longe no meu dicionário, a

identificação dessa palavra é indefinida – inexistente. Fim de parágrafo.

Antes foi antes e agora? Qual é o limite, ou qual foi o limite? Existe limite? O

que é um limite? É aquilo com o qual se justifica o que se pode ou não fazer e, para lá

da linha (sim) faz-se, para cá da linha (não) deixa-se por fazer; ou deixa quem deixa, ou

quem quer; ou será antes uma espécie de definição matemática que facilmente se

identifica quando representado num gráfico? Porque é que alguém tem de mandar:

acabou... e acaba! Isso existe? Decidir sobre os próprios actos... e os outros...e os dos

outros... e os dos outros?! Quando quis não foi sim, e quando é um duplo sim recebo um

triplo não. E movimentos se agitam sem que eu os manipule. E quando as palavras saem

da boca (escapam) – como sussurro... como silêncio que quis dar a sua opinião... e

quando se ouve um não sabendo que é sim... Mais uma vez, ou sim ou não, parece que

não existe meio termo, existe? Esse meio termo chama-se indecisão?

Irresponsabilidade? Porquê? Porquê? E porquê?

Quando se conduz, no meio da noite, vão passando carros, um de cada vez e

com escassez... as estrelas brilham e o corpo transpira dois cheiros, três... o nosso, o que

passou a ser nosso e a junção do nosso com o nosso... e o pensamento viaja – como se

fosse um sonho – para que não haja confusão de identidades diz-se: acorda, eu, acorda,

que parece que estás a dormir. Dormir é bom, mesmo que seja por preguiça, responde

e/ou não... mas é bom, simplesmente bom.


Um texto que pretendeu ser texto, navegou naquela estrada escura da noite e

calma (tranquila, serena) como paz... é ou será isto verdadeiro? A voz, aquela voz que

se ouve, mas não falou... que diz: calma... está tudo bem... simplesmente tudo bem...

Aquele ser que deixou de nascer por medo e porque assim seria, é melhor;

aquele ser que de (in)certeza se encheu e desapareceu... E que como num círculo se

pede para que volte a acontecer... porque se quer, porque é melhor, porque... porque é

difícil dizer porquê, mas é assim... e se espera que o telefone toque com essa mesma

confirmação... e se espera que o tempo passe e que o tempo surja para dizer aquilo que

se quer e não se quer ouvir (mas que é melhor, certamente, sem dúvida alguma, com

certeza que é melhor)!!! Aqueles seres que de palavras se baralharam, baralham e de

actos estão certos e de outros escondem o que deixou de estar escondido, porque o gesto

mudou a direcção, a cor do olhar, o sorriso suavizou e as palavras arderam em dureza:

içou-se a bandeira!

E cada vez que não sei, passei a saber, porque o tempo passa e faz-me mover.

Movo... simplesmente movo sem saber se existe uma oposição, ou se estou indo ao

sabor da mesma... Movo e movo, mesmo que exista ou tenha de existir opção... Cada

linha de texto é um novo rumo àquilo que escrevo e que irei viver, como misturas

temporais. Porque um texto é vida e, vida é vida e, vida sou eu. Eu, e eu...que palavra:

eu... Fim de linha!!!

E quando lábios secos de tanto imitir sons querem algo que os hidrate... e

quando hidratação faz mil e uma perguntas extra? E não se quer responder nem às

essenciais... E quando escrever se torna um acto de desabafo, mesmo que nada diga está

tudo dito no inverso do texto: vida. Texto é a muleta que pretende igualar qualidade, por

melhores que as palavras sejam serão sempre uma amostra de vida... e se forem tristes

serão uma amostra de tristeza... por isso, antes de ler sintam... será mais exacto do que
calhamaços de folhas cobertas de letras... muito mais que frases bem feitas ou poesia

agradável. Melhor que ler é viver!!! Mas lendo, sente-se e sentindo, vive-se – não

alguém, mas o eu.

E quando esta é a nossa única voz... quando estas letras, que formam palavras e

geram frases são a única voz que se consegue expressar?! E quando isso é muito pouco,

porque nem assim sai uma pura e simples expressão de vida? E complica-se cada vez

mais... mais e mais, porque as placas que indicam o caminho estavam equivocadamente

colocadas... e equívoco é continuar numa divisão...

E quando, numa carteira de senhora, se procura o porta-moedas que guarda

aquele número impossível de gravar no telemóvel... e quando se marca esse mesmo

número no visor do mesmo aparelho e, quando se liga e a chamada é enviada, mas toca

e toca, não pára de tocar e, ninguém atende. Toca e toca (não), toca e toca (sim), toca e

vai tocando até se ouvir silêncio. E quando não se pode dizer mais do que isto...

E quando cada palavra já disse o que não deveria dizer, mas disse, está dito e...

não foi ouvido – passou ao lado – tão fugaz como fuga; fuga de fugir, fuga de “run

away”, fuga de medo... medo... medo... E medo de quê? De ter medo? Medo do medo e

medo faz fugir e sofrer... Então, sofre-se o dobro ou triplo de sofrimento, sofre-se por

medo de sofrer, sofre-se por medo do que possa acontecer: que rigorosa perda de

tempo... “Tempo é dinheiro.”, tempo é vida e noção de tempo é nada... Nostalgia é

tempo parado e tempo parado estagnou e estagnar é: ... um buraco... buraco de nada e ...

“Nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.”. E transformação é algo e algo é

matéria... Matéria, matéria... Matéria é um delírio e delírio é o que escrevo e o que

escrevo faz sentido. Faz sentido porque eu digo que faz, se sou eu que escrevo é porque

faz... Eu sei que quem lê confia em mim, mesmo que não perceba, compreende...

mesmo que não compreenda, sente e se sentir (que sente) sabe... Parágrafo.
E quando o livro é o conto da vida do autor e se diz que não... E quando não o é

e se diz que sim... Este é e não é, diz sem dizer... E o autor não sou eu! Não sou...

E quando se sai de casa de chaves na mão, como usualmente se faz, e o

movimento é diferente, simplesmente diferente – sem que se perceba... e num milésimo

de segundo a barriga transpira vida e no milésimo de segundo seguinte... existe

silêncio... E quando por segundos se pensa: e agora? E se esta fosse a passagem para

outro lado (se é que esse lado existe, seja ele qual for, talvez o inverso!)... E se... eu

diria, nada de ler o que escrevi, nada de arrumar as coisas apenas juntar, colocar algures

(até um dia, qual? Não sei, não sei, um, qualquer um...); eu diria: foi bom, foi muito

bom... mesmo que alguém diga que não, eu digo sim: foi bom, muito bom... é e está

sendo bom... Eu diria: amo cada ser... Estas são as únicas palavras que eu gostaria que

todos lessem, todos, todos... sem excepção... todos...

E quando esse mesmo instante é tão decisivo como respirar ou não, viver ou

não... E quando apetece correr para longe, seja qual for o lugar – esta é a forma delicada

de dizer: FUGIR. E se eu chamar os actos pelos nomes... tudo ficará claro por um lado,

mas ficarão condicionados ao que pensam que aquela palavra significa (podem até

julgar... e nada tem de ser julgado)... Há quem prefira dar nomes que se aproximam,

sinónimos – talvez não doa tanto... talvez doa mais... no entanto, é e continuará a ser

uma fuga!!!

Eu sei que há pelo menos alguém que percebe na integra... Eu sei e agradeço...

Agora, de um momento para o outro, as coisas tornam-se mais escuras e mais

claras... mais nítidas e turvas... há coisas mais calmas e tranquilas e outras mais

turbulentas... é como se uma parte estivesse perto e a outra longe!!!

Há alturas em que uma justificação é indispensável e outras em que é

completamente inútil... Eu gostava que me explicassem porquê que determinadas coisas


acontecem, continuam a acontecer, sem que haja um ponto final e não se vê um final

para aquele ponto. Eu não sei e provavelmente ninguém sabe... E se a soma de todos os

pontos formar um gráfico? Será que alguém o vai conseguir interpretar, ou esse será tão

complexo que nem o mais genial matemático ou físico o consegue transformar em

fórmulas matemáticas simples – em equações de primeiro grau? Quantos

compartimentos tem o meu coração, ou o de mais alguém? Quatro, apenas quatro...

Brincar com palavras é uma viagem que se pode tornar tão longa como perigosa.

Trata-se de uma estrada onde o trânsito flui até que um determinado automóvel pára,

simplesmente estagna no tempo e cria raízes no alcatrão, aquele mesmo que outrora o

alimentou, agora, acaba com ele; transforma-o num monte de lata que deixou de se

transportar. Quando a metáfora se torna tão mais difícil que a realidade recorre-se ao

texto que explica o que não apetece explicar, o inexplicável. É demasiado complicado

fazer as malas, arrumar o monte de lata que empata todo o trânsito. É demasiado árduo

movimentar o que se encontra parado. Quando chega um determinado ponto, num

determinado momento aquela gota de água que fez transbordar o copo vai definir o que

até ao momento estava num impasse. E se as palavras são assim tão perigosas, e como

quando se vai de férias fica-se feliz com a viagem (mesmo que seja pelo caminho mais

longo), então é porque as palavras não são crianças que brincam pelo divertimento

(porque gostam de brincar) e se isso é assim, então é melhor apagar tudo e voltar a

escrever – letra por letra, palavra por palavra, frase por frase. Fim de jogo.

E quando se sabe que não é por ali e se vai. E quando parece que a dor dá lustro

ao ego... Então se chora por falta de solução e quanto mais se chora menos se vê, em

vez de limpar embacia... mas tudo isto parece tão confortável que apetece patinar vezes

sem conta, no mesmo chão molhado, que continua a fazer cair a cada vez que se passa

por lá.
E quando a palavra fácil dói e vai doendo quando pronunciada de certa forma,

por determinada pessoa, aplicada a uma determinada situação... e quando é verdade... e

sendo verdade não o é por completo, não naquele sentido... porque o motivo não incluía

a palavra fácil ou o seu antónimo! E nesse momento a pergunta foi colocada e a

resposta anulou a mesma.

Decidir é sobrenatural, é o de certeza! Se fosse natural fluía como as águas de

um rio...

Prazer com dor é sobrenatural! Se fosse natural dava só prazer – logo deixaria de

ser prazer com dor e seria apenas prazer.

Primeiro ou segundo é sobrenatural, se fosse natural não doía ao primeiro por

existir segundo, nem ao segundo por não ser primeiro.

Desde já digo: que gostava de ouvir em música este texto, mesmo que esta fosse

a maior confusão, que o seria, pois confusão só gera confusão...

Digo, que mais não me apetece dizer... mas no próximo segundo poderá surgir o

parágrafo seguinte.

E quando, de repente uma estrela nos diz que nada é assim tão grave... Nada é

tão mau... nada é tão doloroso... e nessa mesma fracção de tempo tudo se desmancha em

pó... e só a imaginação actua sobre um corpo que se deixou relaxar... E quando dor, a

palavra dor, a emoção ou sentimento dor deixa de fazer sentido... mesmo que a solução

ainda não esteja à vista, o coração sente que ela existe e vem a caminho, vai surgir no

momento, no instante em que a pessoa que transporta esse coração se apercebe que ele

(coração) existe. Porque ele existe, mesmo que digam que não, existe sem que alguém

alguma vez o tenha visto, existe simples existe...

Cada parágrafo é um break na respiração...


Afinal o que são valores? E o que é que tem realmente valor? O que é que

realmente tem valor?

Estou com amnésia... por momentos (sem unidade de medida) esqueci a

consciência...!

A noite é aquele elemento... é a parte que faz o elo de mim para mim...

O vento tem palavras e a estrada vida...

O volante é o corpo, os pedais a consciência e a caixa de velocidades a

emoção!!!

O silêncio é a melodia...

A melodia é o som...

Hei! Hei! Queres dormir... um dia...

Comigo... comigo, quer dizer que se está acompanhado....

Valores!!! Valores são: ... aquilo que nos faz mover...

A culpa bloqueia... destrói...

Dinheiro são moedas sem valor algum, assim como papel fora do comum... que

alguém – uma população, muita gente – lhe atribui extra valor... léguas de valor extra...

extremamente valioso para e por tão pouco!!! Dinheiro é um bem material – palpável –

demasiado palpável!!! A água escorrega entre as mãos e dinheiro fica... fica... fica...

Dinheiro é bandido!!! Se é perseguido só pode ser bandido... e dos piores...

Tudo isto não passa de um delírio... daquele tipo de delírios que se tem quando

nada nos satisfaz... quando se duvida da própria vida e dos próprios actos, quando tudo

não passa de palavras e se quer passar a agir, por qualquer motivo que seja! Quando a

vida é uma profunda SECA e se quer substituir a vida por filmes, cenas ou imagens de

filmes... daqueles filmes que nos colam ao sofá e nós dizemos: é assim que eu gostaria

que fosse a minha vida!!!


Quando se é escritor vive-se de sonhos (mesmo que esses sejam pesadelos) e são

esses que escrevem, formam, criam linhas e linhas de sonhos de outros ou próprios, mas

nenhum pertence ao presente – ninguém escreve enquanto actua, fala sobre um passado

ou um possível futuro, ou mesmo um futuro desejado...

Ninguém escreve por escrever, há um motivo, algo interno e/ou externo que nos

leva a sentar e parar o relógio (sem que ele se convença que está parado) para

escrever...construir montes e montes de castelos de letras... e assim o tempo vai

passando... escrever é como construir outros universos, outras formas de viver (mesmo

que baseadas em algumas existentes). Dá vontade de escrever quando se ouve alguém

com uma resposta fria e se pensa: foi fria de propósito para mim, porque estou a

aborrecer... ou foi fria porque o momento era o menos indicado para a outra pessoa?!

Entretanto, quem recebeu a resposta fria fica mais frio que a própria resposta e se fecha

para escrever as suas lágrimas ou desgraças que podem nem existir. Dá vontade de

escrever quando existe uma fúria, uma ou mais situações que magoam e mágoas é tão

comum ver... basta sair de casa e parece que os rostos de cada pessoa estão cobertos de

máscaras... e essas máscaras... são máscaras – dói demais ter de dizer o que são – aqui

vai um buraco no texto (literário) propositadamente nulo...

E quando a vontade é tão intensa que se faz de tudo para nos mantermos no

lugar, sentados, para evitar fazer aquilo que apetece fazer , mas que pode estragar tudo:

como tirar a semente da terra porque não cresce.

Este é um texto sem nomes, que só utiliza as próprias palavras para se expressar,

porque há uma expressão dentro de mim que quer sair... quer sair... mas não consegue...

Este é um texto que fala da existência de um eu que não sou eu, é um texto que mistura

os tempos e as emoções e que precisa de um bom actor para o colocar em palco, e esse

actor não sou eu. E esse actor dirá o mesmo que eu: nada disto sou eu!
E quando um bom analisador de textos analisar este mesmo... vai ser divertido

ver os inúmeros eus que este (único) texto pode e tem... E as imagens vão continuar a

passar: como um condutor que pensa em tudo menos na estrada, que ouve a música que

aquela estação de rádio emite, que vê as luzes da cidade à noite, e que viu durante todo

o dia pessoas a passar de um lado para o outro, automóveis a estacionar, gente a

dialogar, crianças a brincar... entre muitos e muitos tempos diferentes o desse condutor

é o mais lento que se movimenta lenta e lentamente...

Esta é uma história sem princípio nem fim, porque não existe nem princípio nem

fim... mas que existe e pode continuar a existir, de passado, presente e futuro em aberto

– este é um delírio de braços abertos!!!

E cada palavra foi vivida plenamente, e cada palavra é única – sem sinónimos,

nem antónimos... A bandeira está içada!

As luzes vão elaborando a sua função... e eu... não sei a minha função... nem

mesmo se este texto tem conclusão... mas...mas!...mas!?

Fim de texto...