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*

A LITERATURA BRASILEIRA
ESP Reitor Jacques Marcovitch
VUe-reitor Adolpho José Melfi

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EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Presidente Plinio Martins Filho (Pro-tempore)

nnlsido Editorial
Plinio Martins Filho (Presidente pro-
tempore)
José Mindlin
Oswaldo Paulo Foratimi
TupS Gomes Corrêa
Unioni Editorial
retara Comercial nr
Administrativo Silvana Biral Eliana Urabayashi Renalo
idilora-assistenie Calbucei Cristina Fino
JOSÉ ADERALDO CASI
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A L ITER ATURA BR AS IL E IRA


ORIGENS E UNIDADE (1500 -1960)

V OLUME I

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>•« Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(CAmura Brasileira do Livro, SP, Brasil) Universidade Estadual de
>Ȏ Adcruldo, 1921-
•uitura Brasileira: Origens c Unidade (1500-1960) / José
Londrina Sistema de
Bibliotecas 'fr)à
astelli» /Silo Paulo : IvdèfciTn
da Universidade de
São Pau-
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n depósito legal
i Bra/.il 1999

n depósito legal
Ao

Marcos e Paulo, o Vô
.
SUMÁRIO GERAL

Volume I

INTRODUÇÃO CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA

17 I — A LITERATURA BRASILEIRA. 1. Identidade. 2. A relação homem!terra, os influxos e a periodicidade.


Io Período ou Período Colonial; 2“ Período ou Período Nacional I - Século XIX; 3“
Período ou Período Nacional II — Século XX; Autor-síntese.

PARTE l AS FUNDAÇÕES: O 1“ PERÍODO OU O PERÍODO COLONIAL

37 II — DEFINIÇÃO DO PERÍODO COLONIAL. I. Condicionamento. 2. Ação dos influxos externos e


internos.
51 III - PRODUÇÃO INTELECTUAL DO PERÍODO COLONIAL - I - O SÉCULO XVI - As
FUNDAÇÕES. 1. As origens. 2. A prosa informativo-descritiva: Cronistas portu- |iiii ‘.i 'i. A <<1 ii . 1 dos
jesuítas; Cronistas estrangeiros. 3. José de Anchieta. 4. EscD- >in Hito oí hila,a.
I\ i'miiMK.An INTELECTUAL DO PERIODO COLONIAL - II - SÉCULOS XVII/ X\ III PRESENÇA DO
BARROCO. 1. Primeiras reflexões sobre poética-. Bento Tei- ' i i i PosiçAcs barrocas: Manuel
Botelho de Oliveira, Gregório de Matos e Gurí i a 2, Poetas seiscentistas-. Bento Teixeira, Manuel
Botelho de Oliveira, (ilegòrio de Matos. 3. A oratória religiosa: Pe. Antônio Vieira. 4. Os cronistas:
Ainhrôsio Fernandes Brandão, Frei Vicente do Salvador, Sebastião da Rocha Pila. 5. O
movimento academicista: cronistas e genealogistas. 6. Dois destaques: Domingos do Loreto Couto e
Nuno Marques Pereira.
V PRODUÇÃO INTELECTUAL DO PERIODO COLONIAL - III - O ARCADISMO. 1. O Arcadismo
— Reações ao Barroco e reflexões internas. 2. A poesia arcádica — I — Os líricos. Cláudio Manuel da
Costa, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Tomás Antônio Gonzaga, Inácio José de Alvarenga
Peixoto. 3. A poesia arcádica — II - Os épicos: Frei |osé de Santa Rita Durão, José Basilio da Gama,
Cláudio Manuel da (Insta. 4. Poetas pré románticos,
VI A CAMINHO DA UNIDADE. 1. Esquema geral das manifestações literárias do Enlodo ( olonial, 2.
Nativismo. 3. Indigenismo!indianismo.

II II l) 2' PERÍODO OU O PERÍODO NACIONAL - I - O SÉCULO XIX E A IDENTIDADE


DEBATIDA

RUPTURA E AUTO-RECONHECIMENTO. 1. Renovação pré-romântica epropostas nacionalizantes Os últimos


neoclássicos; Nossos primeiros periódicos; A vi- sao de estrangeiros e suas propostas
nacionalizantes. 2. A proclamação nacional da reforma romântica — a ação decisiva dos periódicos. 3.
Romantismo e identificação da nacionalidade: o Romantismo de época; o Romantismo interno; ação dos
influxos e transformação das coordenadas; a centralização da vida intelectual.

VII - AINDA A AUTOREFLEXAO COMO RECONHECIMENTO. 1. Poética romântica: O grupo de Gonçalves de


Magalhães e suas ideias; Restrições a Magalhães - novas posições; Alencar versus Magalhães
— nova poética romântica. 2. Um crítico de síntese e transição: Machado de Assis.
VIII - PRODUÇÃO LI TERÁRIA DO ROMANTISMO DE ÉPOCA - 1“ - POESIA E PROSA.
1. A poesia: Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela,
Alvares de Azevedo, Junqueira Freire, Castro Alves, Tobias Barreto. 2. A narrativa ficcional os
iniciadores; Joaquim Manuel de Macedo, Manuel
Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, Franklin Távora. 3. Folhetim/Crônt
ca/Revista ou Hebdomadária.
259 X - PRODUÇÃO LITERÁRIA DO ROMANTISMO DE ÉPOCA - 2“ - AUTOR-SÍNTESE: JOSÉ DE
ALENCAR - SEU PROJETO DE LITERATURA NACIONAL E SUA OBRA.
281 XI - O ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCUI.O XIX - Io - Ou A FALSA RUPTURA. 1. Novos estilos de época:
A poesia em crise ou a poesia científico-filosófica. A produção poética pós-romântica: a
contribuição “científico-filosófica” e realista; A poética parnasiana ou a “disciplina do
bom gosto”; Destaques da contribuição parnasiana: Machado de Assis, Alberto de
Oliveira, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, Francisca Júlia, Olavo Bilac.
329 XII - O ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCULO XIX - 2" - AINDA A RENOVAÇÃO POÉTICA: O
SIMBOLISMO. 1. Decadismo, nefelibatismo, simbolismo ou "a arte pela arte” - poética, grupos e revistas.
2. As realizações simbo/istas: Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens e outros. 3.
Reconsiderações sobre a poesia pós-romântica. APÊNDI- CE: grupos e revistas simbolistas nas
Províncias.
363 XIII - O ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCULO XIX - 3" - A NARRATIVA FICCIONAL. 1. O Realismo-
naturalismo. 2. Machado de Assis, autor-síntese. 3. Contribuições realistas-naturalistas: Ar»pliação do
quadro social da “Corte” — Aluísio Azevedo e Raul Pompéia; Inglês de Sousa - um caso
de revisão; Outras contribuições: Coelho Neto, Manuel de Oliveira Paiva, Domingos
Olímpio e Rodolfo Teófilo; Manuel Benício, Afonso Arinos e Os Sertões.
415 XIV - As COORDENADAS INTERNAS - VERSO E REVERSO. I. Do nativismo ao na cionalismo e suas
derivações. 2. O primeiro grupo das derivadas nacionalistas: A lor tuna camoniana; Antilusismo,
língua e nacionalidade literária. 3. () segundo grupo de derivadas ou a narrativa ficcional de
representação do Rrasil: A narrativa social urbano-metropolitana; A narrativa de
ambientação rural c suas sequências temáticas; a) patriarcalismo; b) cangaço; c)
messianismo e fanatismo; d) outras sequências temáticas; e) regionalismos? O
urbano/provinciano. 4. Passado histórico e indianismo mítico.

441 ÍNDICF. REMISSIVO DE AUTORES


i (' i ll'RfODO OUO PERÍODO NACIONAL-II -O SÉCULO XX: i ' M< IDKRNISMO
COMO RI FORMULAÇÃO

V AN I I < TDENTES IMEDIATOS DO MODERNISMO - 1“ - PERSISTÊNCIAS E REAM, <


ti s LITERÁRIAS. 1. A poesia — persistências e continuidade. Os últimos par- isiiinos;
Augusto dos Anjos; simbolistas - Mário Pederneiras; Raul de Leoni.
A prosa - persistências e continuidade: Xavier Marques; Graça Aranha; Lima irreto;
Simões Lopes Neto, Valdomiro Silveira e Hugo de Carvalho Ramos; Os timos
prosadores; Adelino Magalhães e Godofredo Rangel.
VI - ANTECEDENTES IMEDIATOS DO MODERNISMO - 22 - POSIÇÕES PRENUN-
ADORAS. 1. Monteiro Lobato ou a provocação nacionalista. 2. Ainda Monteiro
0 bato ou de Euclides da Cunha e Graça Aranha à Revista do Brasil. 3. Vanguar- /( europêias.
vil O MODERNISMO As PROCLAMAÇÕES DOS ANOS 20/30. l. Limites do Iodei ninini I h
lotos d.is proclamações modernistas, grupos e revistas; Os ma- ilrsios ■ I dotiiiMI.I,,ao.
Nacionalismo, regionalismo, brasilidade. Mário de mhadi i "hiasilidadc”; Um esclarecimento
de Tristão de Ataíde; Gilberto cvrc c o regionalismo ilo Congresso de 1926.
VIII PRI )i HJÇAO LITERARIA DO MODERNISMO - A FASE HERÓICA: 1“) A POE- A.
I. A poética modernista em Mário de Andrade. 2. Mário de Andrade e a poética •monstrada. 3.
Manuel Bandeira - sob o signo da infância. 4. Oswald de Andrade: tu Brasil ou brasilidadét Raul
Bopp. Ascenso Ferreira. 5. “O verdeamarelismo"— assiano Ricardo e Menotti Del
Picchia. 6. Ainda entre o tradicional e o moder- ismtr. Guilherme de Almeida, Ronald de
Carvalho e Rui Ribeiro Couto. 7. O •upo de Festa - Tasso da Silveira, Cecília Meireles e
outros. 8. Continuadores.
IX - PRODUÇÃO LITERARIA DO MODERNISMO - A FASE HERÓICA: 2e) A PROSA
1 FlCÇAo. 1. O grupo paulista nos anos 20: Oswald de Andrade, Antônio de li .lniara
Machado, Plínio Salgado, Mário de Andrade..2. Memória, poesia e feto em Jorge de Lima. 3.
Ainda regionalistas anteriores a 22.
\ Pm >nu<,:Ao LI TERARIA DO MODERNISMO - PLENITUDE E TRANSFORMAÇÃO: I A
Ptil MA. Desdobramento dos anos 20 e outras transformações. 1. Murilo lende\ ( 'arloi
Drummond de Andrade — poética e poesia. 3. Augusto Frederico
hiuidi I Vinícius de Moraes.
\ I I'm ti it n, AO |,i 11 RARIA DO MODERNISMO - PLENITUDE ETRANSEORMAÇÃO:
2U) A PROSA DE I H :«, Ao 1. Os ROMANCISTAS DO NORDESTE. 1.1. José Américo de
Almeida, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. 1.2. José Lins do Rego, autor- síntese. 1.3.
Graciliano Ramos, autor-síntese.
323 XXII - PRODUÇÃO LITERÁRIA DO MODERNISMO - PLENITUDE E TRANSFORMAÇÃO: 2°) A
PROSA DE FICÇÃO - 2. NOVAS CONTRIBUIÇÕES. 2.1. AS novas contribuições de 30 a 40:
Ciro dos Anjos, Cornélio Pena, Otávio de Faria, Érico Veríssimo, Vianna Moog, José
Vieira, José Cândido de Cavalho, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Dionélio
Machado, Lúcio Cardoso, Clarice Lispector. 2.2. Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas.
3. Posições ideológicas de narradores dos anos 30 a 40. 4. As coordenadas da narrativa ficcional do
Romantismo ao Modernismo. 4.1. Antecedentes históricos do regionalismo. 4.2.
Coordenadas da narrativa ficcional. 4.3. Indigenismo/indianismo. 5. Ampliando
perspectivas. 6. Autores e obras-sínteses. Apêndice: cronologia da narrativa ficcional dos anos 30.
377 XXIII - PRODUÇÃO LITERÁRIA DO MODERNISMO - CRÓNICA E MEMORIALÍSTICA.
I. Crónica — Antecedentes. Destaques: V. Cy, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de
Queiroz, Rubem Braga e outros. 2. Memórias — Antecedentes; Humberto de Campos,
Medeiros e Albuquerque, Rodrigo Otávio, Paulo Setúbal, Gilberto Amado. Destaques:
Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, José Lins do Rego, Pedro Nava.
AI 1 XXIV - PRODUÇÃO LITERÁRIA DO MODERNISMO - Dos ANOS 40 EM DIANTE: 1“) A
POESIA; 2“) A PROSA DE FICÇÃO. Os anos 40: grupos e revistas; a geração de 45
pronunciamentos. P) A Poesia. 1.1. João Cabral de Melo Neto - suapoéti ca e o Nordeste.
1.2. Novos rumos: concretismo e poesia práxis. 21) A Prosa de Ficção. 2.1. Quatro posições
singulares: Lúcio Cardoso, Clarice Lispector, |ov; Geraldo Vieira e Anibal Machado. 2.2.
Novas contribuições regionalistas Má rio Palmério, João Clímaco Bezerra, Fran Manins,
Moreira < lampos, I lerherto Sales, Paulo Dantas, Rui Santos, Antônio Calludo, |osé
Condé. 2. V Outras contribuições diversificadas: Adonias Filho, Josué Montello; a
infância Oríge nes Lessa, José Mauro de Vasconcelos; o fantástico — José J. Veiga,
Murilo Rubião; Lygia Fagundes Telles, Maria de Lo urdes Teixeira, Waldomiro Silveira,
Autran Dourado, Fernando Sabino e outros. Apêndice /— Poetas da “geração de 45"; Apêndice
ll - Narradores estreantes das décadas de 40 e 50; Apêndice 11 I - Estreantes das décadas de 60 a 70.
IV KM ONSIDKRAÇÕES GERAIS

C\\ K11 ONSIDKRAÇÕES GERAIS A UNIDADE NA CONTINUIDADE E SUAS ETA- ' v. I(t p.issiiido
circunstâncias e condicionamento da atividade intelectual - .ice. ruipas: O Período
Colonial; O nal i visillo base do nacionalismo/brasilida- li () romantismo e o século
XIX; Do indianismo histórico ao nacionalismo/ naàlidade/regionalismo. O
modernismo. Romantismo/modernismo.

»ICES

I. A LITERATURA BRASILEIRA: HISTÓRIA E PESQUISA


II. ROTEIRO BIBLIOGRÁFICO

1. Bibliografia (das bibliografias) gerais e parciais.


2. Dicionários biobibliográficos (estaduais,.nacionais e internacionais).
3. Historiografia literária.
3. 1. Histórias gerais - Século XIX.
3. 2. Histórias gerais - Transição para o século XX.
3. 3. Histórias gerais - Século XX.
3. 4, Histórias parciais e estaduais.
3. 3. Histórias por gêneros - narrativa ficcional e poesia.
4. Antologias gerais e parciais.
5. Bibliografia seletiva da produção literária: “informação", narrativa ficcional, poesia, crónica e
memória.
5. 1. Período colonial (1500-1822/1836): Quinhentismo, Barroco,
Arcadismo, Pré-romantismo.
5. 2. Período Nacional I (1836-1902); 1. Romantismo.
5. 3. Período Nacional 1 (1836-1902): 2. Realismo e Naturalismo.
5. 4. Período Nacional I (1836-1902): 3. Poesia científico-filosófica, socialista
e realista.
5. 5. Período Nacional I (1836-1902): 4. Parnasianismo.
5. 6. Período Nacional 1 (1836-1902): 5. Simbolismo.
5. 7. Período Nacional II (1902-1960): 1. Antecedentes imediatos do Modernismo —
Persistências parnasianas, simbolistas e realistas.
5. 8. Período Nacional II (1902-1960): 2. O Modernismo.

ÍNDICE REMISSIVO DE AUTORES


C O N C E I T O D E LITERATURA BRASILEIRA

*
CAPITULO I

CONCEITO DE LITERATURA BRASILEIRA1

1. IDENTIDADE

A contar de princípios do século XVI, a literatura que se cultiva no


Brasil Colónia vem progressivamente conquistando sua auto-identifica-
ção. Esse processo começa desde que se estabelece a relação homem <->
terra1 com a presença do colonizador. Será revigorada pelo pensamento
u ■!<■ .< rulo XIX e proporcionará a prdgressiva consciemi/ação da io
mdivíduo/pátria, do sentido local ao nacional. É um esforço in- 1 lie
identificação e também de reidentificação, abrangendo dos ad- i ios r
autóctones aos seus descendentes. Reverte-se às atividades em ,

1 V. Advertência, cm apêndice, no final desta introdução.


I, A expressão e mesmo o conceito da relação homem/terra pode ser encontrada em outros autores. Ela tem sido
usada por nós em diferentes oportunidades, como resultado de nossas investigações. Preferimos relacioná-
la diretamente com reflexões de Tristão de Ataíde (Alceu de Amoroso Lima), daiadas de 1925, a propósito
de regionalismo: “(...] O regionalismo í a predominância da terra sobre o homem; da nação sobre o
continente; da aldeia sobre a nação” (v. Estudos Literários, Rio de Janeiro, Aguilar, 1966, vol. 1, p. 1039).
sobretudo às intelectuais. Acompanhada de conflitos, sejam rea-
idiológicas, alimentou nas criações literárias freqiiências e constan-
•ináticas sob condicionamento americano. Elas delineiam a trajetó-
iterna da nossa literatura em etapas sucessivas correspondentes aos ro
grandes períodos de nossa história social e política: o nativismo,
eríodo Colonial (séculos XVI ao XVIII); o nacionalismo romântico
npério (da Independência à República, ou seja, o século XIX); e du- • a
República, subdividida em “velha” e “nova”, o neonacionalismo e sil
idade. São coordenadas interpenetrantes e interdependentes. José
ísinio já afirmou que os dois grandes momentos da literatura brasi-
•,.ui ni.tu ados pelo nativismo no Período Colonial e pelo nacionalis- i
p.uiii d.i Independência'. Mas escrevia em princípios deste século, .i
\e, portanto, à sua perspectiva o neonacionalismo que correspon-
República “velha”, projetando-se com intensidade polêmica nos 20 e
30 do nosso século, para se diferenciar em “brasilidade”, con- le
esclareceremos oportunamente.
Evidentemente, no estudo da formação da Literatura Brasileira, não
>de fugir ao reconhecimento simultâneo dos legados europeus e áme-
los. O primeiro se achava há muito definido quando nos foi transmi-
durante a nossa formação, a contar do descobrimento do Brasil, co-
iicando-nos idéias, atitudes de vida, estilos e modelos literários. Mas é
» que, atuando em novo condicionamento ou sob circunstâncias de
íovo contexto, desencadearia o processo de interação com a paisagem
ultura nativas. Dessa maneira se transforma e ao mesmo tempo reativa
o i|iu |oaé Veríssimo escreve a propósito, referindo-se ao Romantismo, em História da Literatura

italtira, Hio de Janeiro, Francisco Alves, 1916, pp. 1 e ss., e o destaque que daí fazemos na nota do

capitulo II: “Definição do Período Colonial".


raízes americanas: desencadeia mútuas interferências nessa paisagem físi
ca c humana inteiramente nova, o Brasil. Quaisquer que sejam as ponde-
rações de ordem metodológica, pois, para fundamentar a compreensão in-
terna da Literatura Brasileira, é conveniente considerar a inspiração cons-
ciente ou não de uma temática originária do nosso universo e a linguagem
adequada à fixação e transmissão dessa temática. Esboça-se uma pers-
pectiva que abre a visão singular do processo literário interno para o com-
paratismo, sem ofuscar, porém, a preponderância da contribuição portu-
guesa e espanhola, ou seja, hispânica, entre outras. Resta então investigar,
para saber até que ponto a heterogeneidade continental em que nos situ-
amos é produto diversificado ou não do legado eurolatino transplantado
para um espaço geográfico novo3. Certamente, é preciso levar em conta a
diversificação de condicionamentos e o que tenha persistido em cada país
e entre países no todo hispano-americano.
Pressupomos desde o início o enquadramento do Brasil e sua litera-
tura no panorama mais geral dos estudos ditos ‘'latino-americanos”. Em
outras palavras, reconhecemos um ângulo de visão “latino-americano” em
busca da compreensão do papel histórico e cultural de Portugal e da I
spanha na América Latina. Mas também é possível admitir que as missões
portuguesa e espanhola são tanto expressões próprias quanto portadoras
de uma missão mais geral, a européia. E, do mais restrito cm âmbi to
peninsular ibérico ao mais amplo em âmbito europeu, o desempenho das
atribuições portuguesa e espanhola no novo contexto em que se pio jetam
pode ser pensado em quatro grandes etapas: lJ) .1 Iteróit .1 o épii .1 do
século XVI; 2a) a de exploração e de vigilante contenção, dos sei ulos

y Já sc generalizaram os estudos e discussões cm torno do conceito e idcmldiidr da Aun'iii ,i latina, retomada


recente de preocupações que, nos limites n.n ¡intuis, vmliiun sendo aguadas«ritlcnmcnti desde o
Romantismo, alargando-se em Ambito coiiiineiiiiil iniiudunn un di litis do siSatlo passado ao principio do
atual. As posições que assumimos neste lis io loiam pela pioneira Ve» sistematizadas em confprência
realizada em 1972 na Universidade di Ais en 1‘rnvenic e na de l’arls III Nouvcllc Sorbonne. É deste mesmo
ano a importante col« tilm a d> • mam oiguni/udii sob o patrocínio da Uncsco, América Latina cu su
Literatura, ttordonn nhi r intimliu iilu poi (lesar Fernandez Moreno, Mi'xicod’aris, Siglo Veintiuno, Uncsco.
1972,

II ao XVIII; 3a) a de reação nacionalista e afirmação ameritanis-


nlo XIX; 4a) finalmente, no século XX, a conquista definitiva da
ide.
eramos a nossa intenção de sugerir a perspectiva que se descor-
em i o para fora. Certamente, tal enfoque favorecerá, de maneira
da c autónoma, as buscas de explicação de culturas e de civiliza-
ditas “latino-americanas”, como incorporação de legados euro-
cos e fecundos no contexto americano portador de património ,
além da contribuição africana. Por outro lado, os expansionis-
nquistas de Portugal e da Espanha permanecem respeitados com
atidão histórica. E sem dúvida será possível avaliar com rigor o
cc singular, isto é, a transplantação que se faz sob a vigilância
administrativa, por um lado de Portugal e por outro da Espa-
|iii ( pacífico, conforme já admitimos, que aqueles países eram rs
ilc sementes comuns ou igualmente fecundadas no resto da uma
I i satamente a sobreposição ou soma do específico portu-
t. mhol mais o comum europeu que alimentará, para a definição

ii a I alma , os germes de um amplo arejamento aquém das frontil

as. f. o caso então de dizermos que os americanos de hoje se


"latino-americanos” à medida que todos aqueles germes fecun-
n ta mente com as sementes indígenas e também com as africa- ;
cedo ou mais tarde, a contar mesmo do Período Colonial, eles a
frutos de alimento comum. De fato, é em dado momento de e
mudança repentinas, com a Independência e o início do Ro- >,
que se verifica a retomada ostensiva de nossas fontes originá-
itrimônio autóctone, então glorificado e mitificado. Rompiam- de
contenção e vigilância impostos pela colonização.

u, AO HOMEM/TERRA, OS INFLUXOS E A PERIODICIDADE

lido a esclarecer origens, evolução e conseqüente definição da


brasileira, propomos um esquema de periodização fundamen- 2

2 I 111 RATURA BRASILEIRA


tacla na atuação do que consideramos “influxos externos” - tudo o que
resulta da ação adventícia, e “internos” - tudo o que resulta da reação
autóctone, “brasileira” e mestiça, ambas estimulando a relação homem «-»
terra.

lu) Período Colonial- Sécs. XVI/XVII/XVIII - Quinhentismo, Barroco,


Arcadismo, Pré-romantismo, em que inicialmente os “influxos externos”
são preponderantes sobre a “relação homem/terra”, constrangendo os
“influxos internos”. Logo a seguir, porém, com a fixação do colonizador e a
miscigenação, os primeiros começam a sofrer a interferência dos segundos.
Principia, então, o desencadeamento do processo, lento, de conquista da
identidade.
2°) Período Nacional - I — Séc. XIX - Romantismo, Poesia Científica,
Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo. Cessada a pre-
ponderância do colonizador, diversificam-se espontaneamente as fontes
dos “influxos externos”, cuja interação com os “internos” passa a ser d e
nossa livre preferência.
3°) Período Nacional — II - Séc. XX - Pré-modernismo, Modernismo.
Consolidando a nossa maturidade, sob a reflexão crítica de equilíbrio entre
aceitação e rejeição, possibilita-se definitivamente a expressão própria, e a
universalização do regional ao nacional, da nossa temática.

No Ia Período ou Período Colonial, as reações alimentadas pelos efeitos dos


“influxos esternos” e “internos” na “relação homem«-»terra” logo se
confundem ao tentarmos apreendê-las e caracterizá-las em termos gt>. rais
e envolventes de coordenadas - ideologia, freqiiências temáticas, idéias
críticas e poética. Registramos, assim: 1) nativismo dc exaltação <las coisas
materiais e de louvor servil, transformando se até o reconhecimento de
valores, legendas e tradições; 2) indigcnisino/indianismo, compreendido
desde a observação c infoi mação subordinadas a objetivos políticos,
económicos, administrativos, religiosos, até os contatos e conflitos
geradores da imagem histórica e legendária ou mítica do índio; 3) for-
I.i consciência crítica, ern que 1) e 2) elevem ser relacionados com i
n lh xóes das poéticas tradicionais. A preponderância dos influ- ■ i
nos aos poucos acentua sua interação com os internos, propor- lo o
sincretismo.
i história da colonização portuguesa no Brasil, destaca-se o con- om
o elemento indígena. As tensões que eclodem no processo geral
»Ionizador, indígena, descendentes diretos do primeiro e mestiços
Ivos a princípios do século XIX entre portugueses e brasileiros) m
no século XVI. Acompanham a miscigenação paralelamente
complexos por ela gerados e por nós alimentados com relação ao
Messe primeiro momento, predomina a visão do colonizador,
manifestações literárias no Período Colonial aos poucos se enraí-
ernamente. A reflexão crítica se torna de fato significativa já no
<VIII, revelando a procura de uma expressão literária em função
analidade em formação. Caminha-se para a reação a estilos literá- :,
transpostos e impostos, se sucedem, sem possibilidades favorá-
ísimilação, salvo o Barroco, facilmente reconhecível entre nós pela
incia da linguagem, forma, cor e visão do mundo, ites do Barroco -
aqui ressaltado como o primeiro grande momen- ircar a nossa
formação -, convém investigar com o Humanismo s da cristandade
que presidiram o expansionismo e as ambições adoras4. Com o
Barroco, é necessário considerar a composição de isagem urbana
que acumula os componentes de tradição artística al a ser
preservada pela posteridade, ampíamete incorporada. E Barroco e o
Romantismo, é preciso avaliar o papel do Arcadis-

tno» .1 atenção para a posição assumida porTristão de Ataíde, e cremos que em primeiro lu- allrmar:
“os tris grandes aconrecimentos histórico-culturais, a cuja luz vamos considerar a IO de nossas
condições literárias nacionais, são o Renascimento, a Reforma, a Revolução". Ao i « i tita, logo oíais:
"Esse termo humanismo é, por ventura, o que mais claramente reflete e it/a o Renascimento, pois como
que resume aqueles três aspectos acima apresentados. Hu- iit n pn i tua, ao mesmo tempo, uma
tríplice afirmação - primazia do homem, expansão uni- la i Wllhaçlto t lista, incorporação da cultura
clássica greco-latina” (v. Introdução ã Literatura i,i lllo di lancho, Agir, 1 pp, 17, 25, 23 e ss., grifos do
próprio autor).
mo. Visando à retransmissão de valores clássicos e de formas universais,
não resta dúvida de que este se impõe no estudo dos estilos na Literatura
Brasileira, ainda que a projeção de sua temática entre nós tenha-se limitado
à das incursões “americanistas” e se tenha contestado a adequação da
linguagem neoclássica e mitológica à visão da nossa paisagem física. L)e
qualquer maneira, é para o Arcadismo que se voltam os nossos românticos:
1“) pela procura e superestimação por parte deles mesmos de uma criação
literária anterior; 2“) como reflexão sobre poéticas em confrontação,
contribuindo para a formação da consciência crítica da Literatura Brasileira;
3fi) pela ligação do episódio da Inconfidência com a ideologia nacionalista;
4a) quanto à temática americanista (indianista), é preciso lembrar que ela
provém do século XVI. Contudo, na apreensão global dos três primeiros
séculos da nossa formação, apesar da valorização do período arcádico pelos
românticos, é o Barroco que de fato se projeta até aos nossos dias. Coloca-se
em primeiro plano no século XVII, para expandir-se durante o XVIII na
arquitetura, pintura, música, literatura, e alimentar uma tradição
reconhecida pelos nossos modernistas5.
Com o 2J Período ou Período Nacional I - Século XIX, dá-se a inversão da
interferência de “influxos”, em que os internos se fazem ativamente
atuantes sobre a relação homem <-► terra, inspirando teorias, enquanto a
nossa história geral começa a ser repassada pela revisão crítica. Uma coisa e
outra revigoram as coordenadas da primeira e da segunda fases do Período
Colonial, a saber: a) o nativismo evolui para nacionalismo; b) o indianismo
triparte-se: Ia) pelo campo da literatura, sob acentuado tratamento mítico,
2a) pela administração e política de defesa c proteção do índio, 3a) pelo dos
estudos definidamente científicos; 3
m.ição da consciência crítica ganha em auto-reflexão e se volta cpresentação

3 (ionsidere-se a criação cm 1936 do Serviço do Património Histórico e Artístico Nacional; v. também Guilhcrmino
César, “O Barroco c a Crítica Literária no Brasil”, cm Tempo Brasileiro, Rio de lunciro, Gráfica Editora Livro
S. A., de?,. 1963, ano II, n. 6, pp. 140-152. Por outro lado, retroa- gittdo, adotamos a expressão “manifestações
literárias" para caracterizar a produção literária ou intelectual do Período Colonial, esclarecida adiante (v.
nota 11 do capítulo II: “Definição do Período Colonial”).
do Brasil. Em suma, nativismo e indianismo en- i se agora para o
revigoramento da ideologia nacionalista. Atu- "e ,i relação homem <->
terra, ela alimenta constantes temáticas s: uma de ambientação rural,
envolvendo a sociedade rústica6; e ambientação urbano-metropolitana; e,
entre elas, outra de in- füral-urbano-provinciana. Desdobrando-se em séries
temáticas, iflguram ciclos regionalistas: patriarcalismo ou coronelismo lati-
io, cangaço, messianismo, seca etc. Naturalmente dão ênfase ao
0 rural brasileiro com suas características de sociedade rústica, mas ojeção
no universo urbano, desde que aí se observa o abalo, da- > século XIX, de
estruturas herdadas, concomitantemente com a •io c .1 extinção do trabalho
escravo7. Preenchendo o século XIX, itindo período tem como ponto de
partida o fermento das refor-
I > |u,u> VI no Brasil, de 1808-1820, e todas as conseqiiências Uiiil.e. A',
transformações literárias, com afirmações novas, en-

’ '■■.ui • .i ti iomnio, fundamentais para nós, provêm de Antonio Candido: “Convém agora “ i o mo, no texto, de
duas expressões: Cultura (c sociedade) rústica; cultura (e sociedade) l, O termo rilslicoí empregado aqui não como
equivalente de rural, ou de rude, tosco, embora lobt , Rural exprime sobretudo localização, enquanto ele pretende
exprimir um tipo social e ■d. indicando o que é, no Brasil, o universo das culturas tradicionais do homem do
campo; os snliaiam do ajustamento do colonizador português ao Novo Mundo, seja por transferência e tração dos
traços da cultura original, seja em virtude do contato com o aborígene” (v. Os Pardo Rio Hondo: Estudo sobre o
Caipira Paulista e a Transformação dos Seus Meios de Vida, Rio de t». José Olvmpio, 1964, p. 7). E Maria Isaura
Pereira de Queiroz observaria que aquela cultu- mada no decorrer dos dois primeiros séculos da colonização do
Bfasil, persiste “apresentando de cultura nativa com traços de cultura negra, mas tudo vitoriosamente colorido
com as to- des portuguesas”. E comenta ainda que, não sendo auto-suficiente, trata-se, no caso, com base •Hcito
de Gcorgcs Gurvith, de “sociedade parcial dotada de cultura parcial, isto é, de um pele sociedade global,
completada pela primitiva c pela citadina” (v. O Messianismo no Brasileño Sito Paulo, Dominus-Edusp, 1965, p.
140). Ainda mais, com relação aos dois conceitos reíos ui ¡111,1, i justo relembrar Euclidcs da Cunha (Os Sertões),
que batizou aquela mesma socie- le ",o, leiladc rude",
tu lai > ui II.IIIO e classe burguesa no Brasil, num esboço de perspectiva a partir do século XIX,
1 la 11,1111,1 IVu ira de Queiroz, Cultura, Sociedade Rural, sociedade Urbana no Brasil, São Paulo,
• dtlq, 19 ,'H
I juta / >om lo,lo VI no Brasil - IB0B-I82I, 2. ed„ Rio de Janeiro, José Olympio, 1945,

lã» sc operam em profundidade, entre elas uma de grande repercussão


social: a visão do índio em termos de condição humana e social, durante o
Período Colonial* cede esse lugar, no século XIX à do elemento escravo - o
negro, gerador de novas tensões4. Ao mesmo tempo, procede- se nessa nova
etapa da nossa história ao reconhecimento interno dos três séculos do
Período Colonial, agora não mais sob o ângulo de predominância do
colonizador, mas sob o de confrontos e aproximações entre ele e os
elementos e expressões nativas de identificação5 6.
Torna-se evidente que a partir do começo do século XIX, desde
quando se define o segundo período, se alternam os enfoques que eram
tidos como fundamentais para o primeiro. Atingimos naquele século a
definição nítida de campos culturais e intelectuais, com estímulos, ini-
ciativas e condições internas livremente atuantes, o que não foi de todo
possível no Período Colonial11. Portanto, no segundo período, modelos,
estilos, ideais, teorias e poéticas podem ser verdadeiramente submetidos ao
comparatismo, independçnte da conceituação de preponderância, uma vez
que evidenciam um movimento de procura com aceitação seletiva da nossa
parte, acompanhada de reflexão crítica, isto é, adequação e programação.
Modelos, teorias e poéticas passam a ser progressivamente submetidos à
nossa reanálise crítica intimamente comprometida com a representação da
realidade brasileira. Desde então até hoje, é o caso em que às designações
dos sucessivos movimentos ou estilos podemos apor seguramente o
adjetivo “brasileiro”: Romantismo, Realismo-Naturalismo, Parnasianismo,
Simbolismo. E o mesmo também com o Modernismo, no século,
compreendido como um complexo de atitudes e tendên- mutismo,
dadaísmo, surrealismo, primitivismo, inclusive aque- |.i se apresentam
brasileiras, como “antropofagia”, “verde-amare- "pau-brasil”.
IIc segundo momento, ou Período Nacional - I - Século XIX, é i nte marcado
pelo Romantismo. Poderia mesmo ser chamado de ;> Romântico. E isso se

4 V. Raymond S. Sayers, The Negro in Brazilian Literature, New York, Hispanic institute in the United States,
1956; Evaristo de Morais, A Escravidão Africana no Brasil- Da Origem à Extinção, São Paulo, Cia. Ed.
Nacional, 1933; Eduardo Etzel, Escravidão Negra e Branca: O Passado através do ¡‘resettle, São Paulo,
Global, 1976.
I (I. Considere-se a bem dizer toda a historiografia do século XIX, do Romantismo, com um Francisco Adolfo
Varnhagen por exemplo, até a revisão de pesquisa e crítica de um Capistrano de Abreu.
I I. V. Oliveira Lima, op. cit., e José Aderaldo Castello, A Literatura Brasileira - /- Manifestações Literárias do
Período Colonial, 3. ed., 5. imp., São Paulo, Cultrix, 1981.
deu porque o Romantismo encontrou mre nós. É certo que, no Brasil,
pronunciamentos e posturas lite- imediatos ou paralelos à implantação do
Romantismo pesaram „•ravelmente no sentido da formação da consciência
crítica interna 'el à sua aceitação. Também, e ainda internamente, devemos
con- os reflexos dos estímulos anteriores. É o caso da experiência do o
Colonial, com o nativismo e o indigenismo/indianismo, em par- o Barroco -
ainda mais se lembrarmos a aceitação hoje generaliza- aproximações do
Barroco com o Romantismo12. E ainda a relação itica”, que se tornou
tradicional, do movimento da Independência Inconfidência Mineira e o
Arcadismo. Tudo isso alimentou a defi- r o reconhecimento da consciência
da nacionalidade e possibilitou ição das nossas origens européias às raízes
americanas, para a inves- > dos componentes autóctones de valores e
tradições e de pesquisa sibilidade nacional. Dessa maneira, não resta
dúvida, a valorização adismo em Minas Gerais com a sua associação ao
episódio da In-

Rousset, depois de admitir i]ue um romantismo interior a Rousseau, Nerval, Victor Hugo, alis, não se apresenta
idêntico ao Barroco, reconhece outro romantismo “mais periférico, tea- ilusionista, que carrega certos caracteres
exteriores do Barroco”. Mas interroga, com dúvida, is semelhanças são apenas exteriores, lembrando crítica de
Baudelaire a Delacroix e a aplicação .ritérios de Wõlfflin, para reconhecer que Barroco e Romantismo apresentam
pontos comuns nsihilidade: o movimento, a denúncia da violência e dos contrastes, a visão de um destino hu-
0 sujeito .1 instabilidade etc. Isso explicaria a posição de alguns, “Eugenio d’Ors à frente, coñudo uni barroco
permanente, do qual o Romantismo e o pós-romantismo dos impressionistas, uniliiilislas do I ')()() seriam
encarnações sucessivas. Pode-se ver assim a história como um longo , inin.iiitíin barroco que classicismos
precários interrompem” (e a propósito cita M. Schmidt, •loiiiieinenl de poésie”, cm La Jeune poésie et ses
harmoniques, Paris, Alain Michel, 1942). V. La hiKMii </« / ./qr baroque en /■rance - Circe et le paon, 7. réimp.,
Paris, José Corti, 1954, pp. 251- . "M| y iitiiihéui do mesmo autor L’Intérieur et l’extérieur: Essais sur la poésie et
sur le théâtre il II, S l é i h , Pans. José Corti, 1968; Emilio Carilla, La Literatura Barroca en Hispanoamérica,
1 Voit Abaya Ititoit, 1972.

confidência, conforme já foi proposto, leva os românticos brasileiros à


criação do mito ou dos mitos da Inconfidência Mineira, a que estiveram
ligados alguns poetas arcádicos. E é assim que eles - poetas editados e
reeditados sobretudo a partir do Romantismo - e a Inconfidência Mineira se
tornam alvo de valorização e também assunto de criação literária 13.
Decorre das aproximações acima a nossa intenção de ampliar os fun-
damentos internos da incorporação do Romantismo. Em outras palavras,
sugerimos, em termos de continuidade, que se investigue o fundamento
interno do romantismo brasileiro no “sentimento nativista”, conjuntamente
com o indigenismo/indianismo, e na mitificação da Inconfidência e de
poetas arcádicos como Tomás Antônio Gonzaga (Marília de Dirceií). Ou, ainda,
que se reconheça a correlação das etapas fundamentais do complexo de
nossa formação, legados de linguagem, de valores e tradições. De fato, o
sentimento nativista e o Barroco prenunciam os traços predominantes do
nosso caráter, da nossa maneira de ser e ver: sensualismo e imaginação,
entusiasmo fácil e desilusão, deformação crítica - exaltação e caricatura. É
um acúmulo de alternâncias e alternativas que resultarão na procura do
equilíbrio de autocompreensão, construtivo. Foi no decorrer do século XIX
que elas se revelaram plenamente polêmicas e generalizadas, às vezes
contraditórias. Explica-se: é o século da procura vigilante e contínua de
atualização em relação à Europa, quando fazemos sucessivas importações
de idéias, correntes renovadoras, oferecendo apoio aos estilos literários —
Romantismo, poesia científica, Parnasianismo, Realismo-naturalismo,
Simbolismo. Ao mesmo tempo, é o século de procura da auto-afirmação
nacional com ênfase na definição de uma identidade própria, quando se
debate conscientemente o primeiro esforço totalizador da nossa realidade -
o da experiência acumulada. 7
) . <" Período ou Período Nacional II - Século XX foi por excelência tese e
maturidade. Com ele, o nacionalismo, proveniente do século ui
bovarista ou pessimista, se transforma e se enriquece pela incor- lo
do sentido e do sentimento da “brasilidade”14. Distingue-se en- u)
pelo neo-indianismo de “devoração”15 das persistências externas
Icilamente não assimiladas e pela investigação do caráter nacional;
la análise das poéticas em voga em termos de rigorosa adequação i

7 l I embramos as edições dos épicos Frei José de Santa Rita Durão e José Basilio da Gama, feitas por Francisco
Adolfo Varnhagen, e de M. I. da Silva Alvarenga e I. J. de Alvarenga Peixoto, feitas por Joaquim Norberto
de Sousa e Silva, auror também de uma história da Inconfidência Mineira; o poema (lonzaga de J. M.
Pereira da Silva; o romance de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, (imitaci ou a Conjuração de Tiradenter,
da peça teatral de Castro Alves, Gonzaga ou a Revolução de Minas, além dc outros.
nossa expressão e criação próprias; 3a) pela observação objetiva e ciai
do social já abalado em fins do século XIX, quando se abrem
perspectivas com a imigração e o fim da escravidão. Prosseguem os
ciclos regionalistas já indicados, agora enriquecidos por novas
temáticas: a da cana-de-açúcar, a da imigração, ao mesmo tempo ¡tas
e outras tendem para as suas expressões sintéticas finais. O ur-
desdobra-se por força da progressiva cosmopolitização.
Consideramos o Período Romântico um dos fundamentos da revi-
odernista dos nossos dias. Ele se projeta no Modernismo, por sua
ualmente renovação geral, nacional, ampla e complexa, também ida
em termos brasileiros: nacionalismo/regionalismo, brasilidade. ida
revisão geral do Brasil, sobre a primeira, - a do Romantismo, ia vez
sobre raízes do Período Colonial - o Modernismo tão logo .■ atitudes
ostensivas de combate, evolui construtivamente para a ada das
contribuições passadas. Assume uma amplitude de visão
perspectiva romântica ainda não podia alcançar, mas para a qual
buiria poderosamente. Sob muitos aspectos, do ponto de vista in-
0 Modernismo é uma forma de neo-romantismo.
nscrindo a nossa história literária no sistema geral da História do ,
podemos investigar esse terceiro momento, em que vivemos,

■IIIIII ¡ empregado conforme conceituação de Mário de Andrade, exposta neste trabalho no ■ I oí rilo
"Nai lunatismo, regionalismo, brasilidade. Mário de Andrade, a brasilidade. Um cs-
1 i ui. ui ■ • de I Vial Ao de Araíde. Gilberto Freyre e o Regionalismo do Congresso de 1926”, do
mio XVII
i bm .ild .1. Andrade. "Manifesto Antropófago’1, em Revista de Antropofagia, ano 1, n. 1, maio N |i|> I
ii /,

como período tendente para a síntese, apesar dos seus programas e pro-
postas, tidos como inovadores. Da bipartição tradicional de nossa história
literária - Período Colonial, Período Autonômico ou Nacional -, passamos,
portanto, para a tripartiçao, com o Modernismo incorporando experiências
dos momentos anteriores de nossa formação. Implicitamente se supõe o que
vem antes ou depois de cada um deles, quer dizer, as manifestações
estéticas e poéticas, com a presença de estilos de abrangên- cia limitada,
preenchendo fases consideradas de transição. E admitimos que a unidade
que se reconhece entre os três movimentos resulta das coordenadas
ideológicas e temáticas, indicadas.
Finalmente, no todo ou em etapas sucessivas dos espaços históricos
propostos, se distribuem presenças centralizadoras, nomeados autores-sín-
tese ou apenas obra-síntese8, para os quais, em definição, convergem re-
flexão, reação e expansão afetivas da inteligência, da sensibilidade, da
imaginativa e do potencial expressivo do brasileiro. Permitem-nos avaliar
melhor o nosso anseio de identidade através da representação literária,
primeiro voluntária, depois intencionalmente dirigida, de quadros que se
justapõem de nossa vida, organização, tradições e paisagem. Autores e
obra-síntese se exprimem assim atentos à formação da consciência crítica
que tem presidido a transformação literária simultaneamente com o pro-
cesso de nossa formação. Em última análise, sob a intuição capaz de gerar
visões antecipadoras ou mesmo proféticas e a sensibilidade mais a reflexão
voltadas para a sondagem do Brasil, exprime-se um esforço descritivo e a
seguir analítico de compreensão. Da descrição à análise é que se caminha
para a síntese, concomitantemente com teorias e ideologias.
***
Pensamos esboçar um quadro geral em que fique delineada a busca
progressiva da criação literária interna, distinguida até se tornar distinta,

8 Neste sentido, e com referência específica às origens, é importante lembrar a observação de Sílvio Romcro:
“Todo o movimento literário do Brasil no século XVI deve girar em torno do nome de José de Anchieta”
(História da Literatura Brasileira, 2. ed. melhorada pelo autor, Rio de Janeiro, Garnier, 1902, 2 vols., vol. 1, p.
141).
mesmo tempo assimiladora de modelos externos. Equivale a dizer: si ,i
de identidade própria rastreada em sucessivas etapas, três enfoques tu
ip.iis, interpenetrantes. Um, de estudo dos estilos de época, inclusi-
form.is literárias, ideais e atitudes de cada momento, com ênfase nas
lições críticas e no conhecimento das poéticas dominantes. Outro, de
onhecimento do substrato americano, alimentador de constantes e
dências temáticas e ideologias internas. E o terceiro, voltado para o 01
ou para a obra-síntese, situados, entre outras contribuições, nos •
grandes movimentos que progressivamente se erigiram em totalizais de
nossa cultura e civilização - Barroco, Romantismo e Modernis- ,
naturalmente sem omissão das posições intermediárias.
Em suma:
1“) Reconhecemos o que se escreveu sobre o Brasil e no Brasil desde
•culo XVI.
2“) Ressaltamos as condições indispensáveis à atividade intelectual
ultaneamente com a formação de centros que a comportavam.
3") Fundamentados na pesquisa17, rastreamos constantes e freqiiên-
temáticas e atitudes críticas, em busca do reconhecimento de cooradas
visando à unidade, tradição e identidade. Elas são expressas e ivadas,
numa primeira etapa, por escritores que no Período Colonial istiveram
no Brasil, passando a admiti-lo como pátria “imposta” ou eleição”18, ou
nasceram brasileiros. Traduzem, por um lado, a forma- dc origem e, por
outro, aquilo que provém de Portugal, da Espanha nbém da Itália, no
decorrer da colonização, e finalmente o que se ela- i e rcelabora entre
nós. Então foi também íundamental o papel da npanhia de Jesus 19 e de
outras ordens religiosas (precariamente, a ini- va leiga) no
desenvolvimento do ensino das humanidades e na pró-

Uhrr limiti, cm anexo.


I t lllvtliii ! .utili c «cu conceito de nativismo, cm Aspectos da Literatura Colonial Brasileira, 111 • /111. I A Unii
khuus, 18%, pp. 65 c ss.
IS ‘ ....... Imi I clic, S. | História da Companhia de Jesus no BrasilLisboa-Rio de Janeiro, Portugá-
i i ivilo n, io Itiiinilflru, I'MH-1950, lOvols.

I I III III I II I II M PUA hit ASI I I MM


pria formação religiosa da maioria dos escritores do Período Colonial,
lunadamente cronistas. Sem dúvida, os colégios da Companhia de Jesus,
juntamente com os conventos de outras ordens religiosas, marcam, su-
cessivamente - no que pese de modo fundamental o desenvolvimento geral
da colonização —, os principais campos de atividade intelectual e cultural
do Brasil Colónia, situados em Salvador - Bahia (século XVI em diante);
Recife/Olinda - Pernambuco (século XVI em diante); Rio de Janeiro (século
XVII em diante); São Paulo (século XVIII em diante); Ouro Preto ou Minas
Gerais do século XVIII.
4“) Acentuar, a partir do Período Colonial, o traço de unidade,
constituído por constantes e freqiiências temáticas e por atitudes críticas
que se revigoram a partir do Romantismo.
5“) No estudo das origens e transformações da literatura no Brasil c
brasileira, cremos que as tensões se diluem, não chegam à marca de
rupturas profundas, salvo como reflexo do nosso processo histórico global
com a passagem do colonialismo à autonomia. Mesmo assim, a maior
%
interferência no campo literário foi a do enriquecimento rápido de
condicionamentos favoráveis às tendências e coordenadas, que delineiam a
unidade, e ao nivelamento de discrepâncias e contradições internas, em
busca da representação ideal. Por isso mesmo, a periodicidade,
compromissada com o modelo europeu, é uma hipótese de trabalho que
facilitará essencialmente a compreensão totalizadora e inter-relacionada de
certos componentes de transformação: freqtiência de idéias críticas,
persistências temáticas, teorias, ideologias relacionadas com formas ou
gêneros literários e estilos, enquanto as especificidades internas, que de-
terminam as limitações temporais, só se explicam esclarecedoramente se
subordinadas à evolução do quadro abrangente do nosso processo histórico
geral, a partir das nossas origens.
Dado o critério proposto, não pretendemos traçar o panorama da
scqiiência de autores sob o enfoque predominante e praticamente “isolado”
das obras. Embora pressuposto que partimos da obra, como objeto de
investigação, visamos à apreensão da linha temática, formal e
eológica, que possa reverter-se em benefício do estudo do indivíduo/ itor e
obra.
I .sforçamo-nos em busca de uma teoria interna, quer dizer, própria, i I
itera tura Brasileira: o que se pensou como autocrítica, qual o senti- t e .1
repercussão entre nós de teorias e propostas de procedência exter- t; qual a
contribuição da pesquisa e quais os seus vazios. Em síntese, tal o estágio de
evolução de ideias atingido pela nossa crítica com rela-
0 a uma compreensão da identidade interna tão marcadamente busca-
1 pela criação literária. Se admitimos que, de início, ela se manifestou
conscientemente voltada para o problema, para a seguir se pronunciar
inscientemente dirigida e aplicada pelo próprio criador à sua criatura, tais
os caminhos que seguimos e sobre os quais podemos refletir.
Preocupados com conteúdos novos cultivados, ao mesmo tempo
>rimos pistas para o estudo das formas em condições ou de transferên- as c
persistências ou de transformações em linguagem que se fará igual- icnte
adequada aos aspectos físicos e socioculturais de nossa paisagem e alidade.
Também em função do porquê, do como e para quem dirigir * estudos
literários20, aspiramos de alguma maneira a estimular a inves- gação ou a
pesquisa, para que ela se desenvolva em condições adequa- as e planejadas
e enriqueça os fundamentos da nossa auto-reflexão.
Ao cabo, não custa lembrar que não temos uma literatura como tan- is
outras do Velho Mundo. Estas - nossas matrizes - são expressão de altura e
civilização de longo e remoto passado, tanto mais obscuras uanto distantes
no tempo e difusas no espaço, de maneira que seus pri- «órdios estão presos
a um conglomerado de legendas e mitos. Desde o lício conquistariam
formas progressivamente incorporadas a modelos ássicos simultaneamente
com o aprimoramento do gosto estético. Ao asso que nós somos projeção
dessa experiência já amadurecida. Parcial- tente transferida a um
condicionamento novo, exigiria adequação para inirgiaçao, dc maneira a
proporcionar a formação da consciência críti- 9
ca da diferenciação com ou para a conquista de nova identidade. Só isto
basta para que a nossa literatura imponha a si mesma uma orientação de
abordagem e compreensão históricas próprias. Assim, pois, ainda que se
inspire nos métodos de estudo das matrizes externas, estes certamente não
podem nem devem ser exclusivistas e abrangentes.

APÊNDICE

Advertimos que nos fundamentamos em pesquisas em revistas e


jornais do século XIX, em arquivos e bibliotecas e também sobre o Período
Colonial. O material recolhido, de interesse crítico, teórico e histórico, nós já
o divulgamos em livros: A Polêmica sobre “A Confederação dos Tàmoios”{\953);
Textos que Interessam à História do Romantismo (4 vols., 1960, 1963, 1964); O
Movimento Academicista no Brasil (¡641-1820) (14 vols., 1969-1978). Já os
aproveitamos parcialmente para elaborar dois capítulos para a obra
coordenada por Afrânio (ioutinho, A Literatura no Brasil{ 1955), para volumes
na coleção “Nossos Clássicos”: e publicações em revistas e suplementos
literários. Quanto à minha história anterior, A Literatura Brasileira -1—
Manifestações Literárias do Período Colonial (1962), com relação ao presente livro,
ela continua autónoma: aqui, o Período ( ólonial é submetido a novo ângulo
de visão e se apresenta bastante resumido. Vem a propósito lembrar
pesquisas semelhantes e ensaios de Afrânio Coutinho: A Polêmica Alencar-
Nabuco (organização e introdução de Afrânio Coutinho, Rio dc Janeiro,
Tempo Brasileiro, 1965); A Tradição Afortunada: O Espírito de Nacionalidade na Crítica
Brasileira (Rio de Janeiro, José Olympio, 1968); e Caminhos do Pensamento Crítico
(organização de A. Coutinho, Rio de Janeiro, Palias, 1980, 2 vols., reedição,
sendo a primeira pela Editora Americana, 1974).
Esclareço, também, que, fundamentado direta e essencialmente nas

9 i I Si i |ii I )iiul>roviky ct T/vcnin Todorov (dirs.), LEmeignement de la littérature. Paris, Plon, 1971.
obras ilos autores selecionados e estudados do século XVI ao XX, só
excepcionalmen- tc cito críticas e histórias da bibliografia geral sobre a
Literatura Brasileira. Neste caso, remetemos o leitor para o “Apêndice II —
Roteiro bibliográfico” e recomendamos a consulta a um bom dicionário
biobibliográfico.
***

I )urantc a elaboração deste trabalho, por mais de vinte anos,


contamos .1 assistência da Profa. Yêdda Dias Lima, do Instituto de
Estudos Brasilei- ,i Universidade de São Paulo, a quem registramos
aqui nosso reconheci- o c gratidão; e à Profa. Maria Neuma Barreto
Cavalcante pela digitação igilAncia critica. 10

10 lio DI' IITKRATURA BRASILEIRA


AS FUNDAÇÕES: О 1° PERIODO
OU O PERIODO COLONIAL
CAPITULO II

DEFINIÇÃO DO PERÍODO COLONIAL 11


s descobrimentos, quando se propagava o Humanismo, e só pouco
tarde Portugal sofreria o constrangimento da barreira, que se im- lo
sistema de censura1.
Curiosidade e ambições despertadas, com incursões e invasões de is
europeus2, levam o colonizador português à ação de defesa de >s da
extensão litorânea e de combate aos invasores. Consolida-se a
ominação, enquanto a penetração continental, com o apresamento
avização do índio e a busca de riquezas, ampliava as nossas frontei-
Jentro. Na perseguição ao índio, feriam-se os ideais humanísticos,
iados à propagação da cristandade, inspiração do expansionismo,
ontrapartida, a Companhia de Jesus se oporia à política do coloni- r,

11 CONDICIONAMENTO

Os limites do primeiro período da Literatura Brasileira são os da


história da colonização - 1500 a 1808/1822-, preenchido pela transmissão
de cultura, civilização e de modelos intelectuais de procedência euro-
péia. Ao chegar à parte da América que nos caberia, o adventício-con-
quistador principiou por interrogar-se sobre seu novo comportamento,
sob intenções de posse da terra e colonização. Entre valores e objetivos de
que foram portadores, ganhariam vulto algumas possíveis respostas de
início contidas na criação literária, da Carta de Caminha à obra do Pe. |osé
de Anchieta. Transmitiam a impressão de que, além do contexto his-
pânico, Portugal refletia o mais geral, do europeu. Estava-se então à altu-
empenhando-se na obra de catequese e de defesa do índio. No selo
caso, revigora-se a “visão do paraíso”. E, em conseqiiência de ,
surgiria o sentimento nativista e suas derivações.
Apesar da reação da Companhia de Jesus, Estado e Igreja estavam
lamente associados na organização portuguesa, interpenetrando-se
nlítica e na administração. Coube à Igreja o domínio e a liderança
n,sino, atingindo a vida cultural e intelectual3. Distingue-se o papel
irdens religiosas beneditina, franciscana, carmelita, sobretudo da
ipanhia de Jesus, de 1549 até sua extinção no domínio português,
1759, por força do Marquês de Pombal. Assim, na abrangência do >do
Colonial, predominaria entre nós o ensino de orientação religio- hens

Borba de Moracs, Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial, Rio de Janeiro-São Paulo, LTC- usp, 1979, v. capítulo

“A Censura", p. 52.
iresença espanhola se faz sobretudo como reflexo do próprio domínio espanhol em Portugal, de Hl a
1640, período também de frequentes incursões de estrangeiros pelo Brasil, além das inva- •v as francesas
de 1555-1560, 1612-1615, 1710 e 1711 ; a holandesa, de 1624 e 1630-1654. Ao •smo tempo, o próprio luso-
brasileiro alargava as nossas fronteiras para o Centro e Sul e para o irte, com a conquista da Amazônia (v.
Sérgio Buarque de Holanda e outros, História Geral da i'tltM\iUi Brasileira, tomo 1, vol. 1: A Época Colonial,
Do Descobrimento à Expansão Territorial 5.
, San Paulo Rio de Janeiro, Difel, 1976, e vol. 2: Administração, Economia, Sociedade, 4. ed., lug. „ 1977),
I a, H, U.unos de ( ai valho, As deformas Pombalinas da Instrução Pública, São Paulo, J. Magalhães, V, I os,' 11
neii.i ( 'arraio, Igreja, Iluminismo e Escolas Mineiras Coloniais, São Paulo, Cia. Ed. Nain il I do ,|> I9ÍIM; |. P (
àilógeras, Os Jesuítas e o Ensino, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1911.
sa. Sem ensino superior leigo, o brasileiro que o aspirasse devia ir para
Portugal.
A participação da Igreja também se fez presente através da censura,
que exerceu conjuntamente com a do Estado e a da Inquisição, a partir de
1536, compondo-se um sistema tríplice, severamente atuante na Mo-
narquia Portuguesa e seus domínios do século XVI até o XVIII, quando
0 Marquês de Pombal o substituiu por um órgão único de ação moderada
- a Real Mesa Censória. Com a queda do instituidor, esta por sua vez se
transforma em Comissão Geral para o Exame e a Censura dos Livros,
continuando atuante, entre nós, até a Independência. Decorrente desse
esquema, são impostas as restrições voltadas especificamente para a vida
cultural e intelectual do Brasil Colónia: proibição da implantação de es-
tabelecimentos tipográficos, vigilância oficial sobre a perspectiva e efeti-
vação de organizações ou de associações culturais e intelectuais e publi-
cações só feitas em Portugal4.
Finalmente, constata-se a extrema precariedade do sistema de co-
municações: utilizavam-se preferencialmente as vias naturais, o mar na
extensão litorânea, os rios para o interior adentro. As estradas eram pre-
cárias e o correio se fazia por meio de particulares ou “próprios” 5. Tam-
bém a administração pública, o poder militar e o judiciário permaneceram
sob a dependência da metrópole portuguesa, apesar da criação em 1549 do
Governo Geral com sede em Salvador, com a outorga, a partir de 1640, do
título de Vice-rei e com sua sede transferida em 1763 para o Rio de Janeiro.
Contudo, a convergência das diretrizes administrativas, que internamente
deveriam incidir em Salvador, depois no Rio de Janeiro, relacionavam-se
com além-mar, onde se achava a sede da monarquia portuguesa.
Transforma-se a bem dizer em virtualidade a ação do Governo Geral,
como também a seguir a do Vice-rei, ambos convertidos em 12
ciarários. Toda essa perspectiva se agrava com as limitações de comér-

12 V. Rubens Borba de Moracs, op. cif, Carlos Rizzini, O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, Rio de janeiro,
Kosmos, 1946.
V V, ( apistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial (1500-1SOO), Rio de Janeiro, Briguier, 1934 (edição da
Sociedade Capistrano de Abreu).
intercâmbio externos, só possíveis com a metrópole, uma vez que o il
Colónia estava fechado aos contatos livres com o resto da Europa 6, i
vedadas também a entrada de estrangeiros e as viagens de brasilei-
lém-Portugal, as quais, sobretudo para estudos, só seriam registradas
ficativamente em fins do século XVIII.
Outro aspecto fundamental a ser considerado é a ocupação do espa-
•ográfico descoberto e conquistado. Em virtude da defesa de sua in-
dade, alongou-se de um extremo a outro da faixa ocidental do con- ite
sul-americano e alargou-se continente adentro com a penetração
onções, entradas e bandeiras em busca de riquezas ou em lutas pelo
amento e escravização do indígena7. Mas, na verdade, a colonização
começo do século XVIII foi predominantemente litorânea. Pelo JS é
assim que a delineamos em relação à investigação cultural e in- ual,
voltada para a literatura que aqui se projetou ou foi cultivada, eiro
para traduzir impressões e reações geradas pelos contatos inici- >m a
paisagem física e humana autóctone, depois para exprimir um rsso
progressivo de identificação da e com uma nação mestiça que
trochava.
A história responde à avaliação dos efeitos do rápido panorama aci-
elineado. Comecemos pela visão inicial do espaço ocupado, que nos a
pela literatura dita informativa ou, antes, testemunha do expan- ¡mo.
Do descobrimento ao primeiro Governo Geral, colhemos, a • da data
do próprio descobrimento, as impressões da Carta de Pero le Caminha
e, de 1530/1532, as do Diário da Navegação de Pero 5 de Sousa; essas
impressões ou, mais do que isso, descrições e infor- es, continuam a
enriquecer-se com o estabelecimento do primeiro

Hlvm.i Urna, oft. cit., c Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira, trad. de Aurelio «, Kio de Janeiro,
Leitura, 1944; Brasil Bandccchi, História Económica e Administrativa tiaid I eil, rcv., SJo Paulo, Obelisco,
1967; Rodolfo Garcia, Ensaio sobre História Política c liililtnillM ilo llnisil (I “¡00-1H10), Rio de Janeiro, José
Olympio, 1956.
V" llinm|UC de I Iolanda, <>p. cit.

>.M ili S O I l'l 1(101)0 OU 0 1’KRÍODO COLONIAL


(iovcrno Geral e a chegada, ao mesmo tempo, dos primeiros jesuítas, de
quando data a primeira carta que escrevem13. A rigor, entre 1500 e 1549 se
conhecem apenas estes três documentos significativos. É explicável, uma
vez que só a partir da implantação do Governo Geral é que se intensifica a
obra de colonização e o florescimento de núcleos urbanos; antes,
registram-se o estabelecimento de feitorias para defesa do litoral; a
expedição de Martim Afonso de Sousa (1530/1532), tocando do litoral
pernambucano ao de São Paulo, onde se funda São Vicente; e a implan-
tação do sistema de capitanias hereditárias. Finalmente, é sabido que o
Governo Geral foi instituído em virtude dos resultados nem sempre fa-
voráveis do sistema de capitanias hereditárias. Implantou-se com o apa-
rato administrativo e de poder irradiador necessário e contou destacada-
mente com o apoio da Companhia de Jesus para a vida espiritual e para a
catequese do índio. Data do mesmo ano de sua instalação a fundação do
primeiro colégio da Companhia de Jesus. Ainda com o apoio de outras
ordens religiosas — franciscana, beneditina, carmelita, a ação colonizadora
expande-se pela vida cultural e intelectual. Salvador seria, assim, a partir
de 1549, o primeiro centro urbano do Brasil Colónia a criar condições de
vida cultural e intelectual. Cresce em significado sobretudo pelo século
XVII, com projeções no XVIII. Acumula um património arquitetônico e
artístico paralelo à atividade religiosa e caldeia uma população de
brancos, negros e índios.
Cronologicamente, o segundo centro de formação urbana se biparte
entre Olinda e Recife, em Pernambuco, a contar ainda do século XVI, no
qual se destaca Jorge de Albuquerque Coelho, segundo donatário e
capitão-mor dessa capitania. Acumularia com o tempo rico património
arquitetônico e artístico-religioso, à semelhança de Salvador, e já no século
XVIII, também das Minas Gerais. O Rio de Janeiro é outro núcleo

13 A primeira carta foi escrita pelo Pe. Manuel da Nóbrega, em 10 de abril de 1549 (v. Serafim Leite, S.J., Cartas
dos Primeiros Jesuítas do Brasil / (1538-1553), São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1956,
pp. 108-115).
mbém proveniente do XVI. Desde então contou com a obra
intelectual dos jesuítas, que lá implantaram o colégio da Com-
Je.sus, além dos conventos de outras ordens9. Mas só registraria
içôes literárias no século XVII, quando também principiam i
uções arquitetônicas religiosas e civis e a acumulação de patri-
tístico-religioso. São Paulo, apesar de fundada no século XVI,
ítaria vida cultural e intelectual digna de nota bem mais tarde,
XVII1, e não apresenta destaque de património arquitetônico . O
que ainda possui do seu passado é a imagem do antigo Co-
(csuítas, fundado no século XVI, reconstruído conforme com o
/111; contam-se também a sede de um convento setecentista e
¡»rejas pobres. Finalmente, nos limites do Período Colonial, mas
ilo XVIII, surgem a Vila Rica de Ouro Preto e outros núcleos la
região aurífera, no Brasil Central. Ouro Preto, sede da Capi-
Minas Gerais, se fez em cerca de cinquenta anos um centro de
jueza arquitetônica e artística, com atividade igualmente artís-
iosa e literária, o que Salvador só conseguiria de dois a três sé- ia,
para a posteridade, a vantagem da preservação da integrida- todo
urbano. Confrontado com outros centros da constelação •
possível entrever e sentir a atmosfera do século XVIII, barro- oso,
ambicioso e despótico, que o envolveu10.

> XVI, tendo como ponto de partida Salvador, os jesuítas se expandiram para o Nordeste Grande
do Norte c Ceará, para o Sul até Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com incur- interior.
Estabclcccram-se em diferentes lugares, cabendo destaque a Salvador, a partir de ’ernambuco,
desde 1550, Rio de Janeiro, a contar de 1552-1560-1565, e São Paulo, de 554. Nas très primeiras
capitanias fundaram colégios com dotações reais, devendo-se con- mbém o Colégio de São Paulo.
V. Serafim Leite, S. J., História da Companhia de Jesus no I : Século XVI - O Estabelecimento, ed. cit.; Eduardo
Hoornaerf e outros, História da Igreja Ensaio de Interpretação a partir do Povo — Primeira Época, 2. ed.,
Perrópolis, Vozes, 1979, < Época A Igreja no Brasil no Século XIX, lug. cit., 1980.
I Azevedo, Vilas e Cidades do Brasil Colonial - Ensaio de Geografia Urbana Retrospectiva, I, I ,II oldudc de
filosofia, Ciências e Lctras-USP, 1956; Nelson Omegna, A Cidade Colo- ib liniclro, |o»é Olympio,
1961; Wanderley Pinho, História Social de Salvador- Aspectos ia Sai ml da ( idade 1549/1650, ed. póst.,
Salvador, Publicações da Prefeitura Municipal lui 1'iiiM, vn|, I; Manuel bandeira. Guia de Ouro
Preto, Rio de Janeiro, Publicações do lo 1'niliiiõiilo Histórico c Artístico Nacional, 1938; Gilberto
Frcyre, Olinda -2a Guia
Os núcleos urbanos em que se concentraria a vida cultural e inte-
lectual do Brasil Colonia - Salvador, Recife/Olinda, Rio de Janeiro, Sao
Paulo, Ouro Preto — caracterizam-se, portanto, em momentos sucessivos,
do século XVI ao XVIII. Por isso, a visão de conjunto do espaço geográfico
partilhado só seria possível a contar do século XVIII. Mas em todos eles se
constata uma população de brancos reinóis, superiores e prepotentes, e de
seus descendentes em linha direta, já fixados; assim também os mestiços,
os negros e os indios, estes em progressivo desaparecimento, por força do
extermínio ou da miscigenação. Sobretudo, constata-se entre aqueles
centros uma quase completa falta de intercâmbio, salvo, assim mesmo com
restrições, o que aflora com o movimento academicista do século XVII ao
XVIII. Estão praticamente isolados num espaço imenso e pouco povoado.
Contudo, opera-se em todos eles, haja ou não manifestações culturais e
intelectuais concomitantes, uma unidade, na verdade uniformidade,
espantosamente surpreendente, capaz mesmo de à primeira vista
confundir, no sentido da existência de intercâmbio". É que a ação da
política colonizadora portuguesa, atuando diretamente e a partir de certo
momento simultaneamente sobre todos

Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira, 3. cd. rev., atual, c aum. Rio dc Janeiro, José Olympio, 1960;
Ernáni Silva Bruno, História e Tradição da Cidade de São Paulo, Rio dc Janeiro, José Olympio, 1953, 3 vols.;
Vivaldo Coaracy (V. Cy), Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, Rio dc Janeiro, José Olympio, 1955.
11. Nos nossos estudos do Período Colonial, sempre adotamos a expressão “manifestações culturais" ou
“intelectuais” ou, mais precisamente, “literárias”, conforme o título do nosso ensaio A Literatura Brasileira - I -
Manifestações Literárias do Período Colonial (1500-1808/1836), ed. cit., uma vez que não se reconhece neste período
uma atividade literária regular, transformações ao mesmo tempo sistemáticas, sob o sentimento de
autonomia que se alimenta da identidade própria. Reconhecemos a origem da expressão em José
Veríssimo, como exemplifica a citação seguinte: “Entretanto no tempo de Vieira, a maior parte do século
XVII, já no Brasil havia manifestações literárias no medíocre poema de Bento Teixeira (1601) e nos poemas e
prosas ainda inéditos mas que circulariam em cópias ou seriam conhecidas dc ouvido, de seu próprio irmão
Bernardo Vieira Ravasco, do padre Antônio de Sá, pregador, de Eusebio de Matos c de seu irmão Gregório
de Matos, o famoso satírico, de Botelho de Oliveira, sem falar nos que incógnitos escreviam relações,
notícias e crónicas da terra, um Gabriel Soares ( 1587), um Frei Vicente do Salvador, cuja obra é de 1627, o
ignorado autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil c outros de que há notícia” (cf. História da Literatura Brasileira -
De Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908), Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1916, p. 26, o grito da expressão
é nosso).
ano também proveniente do XVI. Desde então contou com a obra dosa c
intelectual dos jesuítas, que lá implantaram o colégio da Comina de Jesus,
além dos conventos de outras ordens 9. Mas só registraria nilcstações
literárias no século XVII, quando também principiam s construções
arquitetônicas religiosas e civis e a acumulação de patri- nio artístico-
religioso. São Paulo, apesar de fundada no século XVI, ipresentaria vida
cultural e intelectual digna de nota bem mais tarde, século XVIII, e não
apresenta destaque de património arquitetônico tístico. O que ainda possui
do seu passado é a imagem do antigo Coei dos Jesuítas, fundado no século
XVI, reconstruído conforme com o ulo XVIII; contam-se também a sede de
um convento setecentista e amas igrejas pobres. Finalmente, nos limites do
Período Colonial, mas 10 século XVIII, surgem a Vila Rica de Ouro Preto e
outros núcleos »anos da região aurífera, no Brasil Central. Ouro Preto, sede
da Capi- ia das Minas Gerais, se fez em cerca de cinquenta anos um centro
de nde riqueza arquitetônica e artística, com atividade igualmente artís- t,
religiosa e literária, o que Salvador só conseguiria de dois a três sé- os.
Teria, para a posteridade, a vantagem da preservação da integrida- do seu
todo urbano. Confrontado com outros centros da constelação •ífera, é
possível entrever e sentir a atmosfera do século XVIII, barro- e religioso,
ambicioso e despótico, que o envolveu10.

No século XVI, tendo como pomo de partida Salvador, os jesuítas se expandiram para o Nordeste até o Rio
Grande do Norte c Ceará, para o Sul até Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com incursões pelo interior.
Estabeleceram-se em diferentes lugares, cabendo destaque a Salvador, a partir de 1549, a 1‘crnambuco, desde
1550, Rio de Janeiro, a contar de 1552-1560-1565, e São Paulo, de 1553 a 1554. Nas três primeiras capitanias
fundaram colégios com dotações reais, devendo-se considerar também o Colégio de São Paulo. V. Serafim Leite,
S. J., História da Companhia de Jesus no Brasil, t. I; Século XVI - O Estabelecimento, ed. cit.; Eduardo Hoornaerf c outros,
História da Igreja no lirasil Ensaio de Interpretação a partir do Povo - Primeira Epoca, 2. ed., Petrópolis, Vozes, 1979, i 'seguitila
Epoca - A Igreja no Brasil no Século XIX, lug. cit., 1980.
V Amido Azevedo, Vilas e Cidades do Brasil Colonial - Ensaio de Geografia Urbana Retrospectiva, ' ni l'olio, faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras-USP, 1956; Nelson Omegna, A Cidade Coloni,d Il in ili lanei to, José Olympio, 1961;
Wanderley Pinho, História Social de Salvador - Aspectos ,l,i I Iniih to Vu, tal da Cidade - 154911650, ed. póse, Salvador,
Publicações da Prefeitura Municipal di Vili nini, I'»681 vol. I; Manuel Bandeira, Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro,
Publicações do Si u lto do Pioitmõnlo Histórico e Artístico Nacional, 1938; Gilberto Frcyre, Olinda — 2" Guia

Os núcleos urbanos em que se concentraría a vida cultural e inte-


lectual do Brasil Colonia - Salvador, Recife/Olinda, Rio de Janeiro, São
Paulo, Ouro Preto - caracterizam-se, portanto, em momentos sucessivos, do
século XVI ao XVIII. Por isso, a visão de conjunto do espaço geográfico
partilhado só seria possível a contar do século XVIII. Mas em lodos eles se
constata uma população de brancos reinóis, superiores e prepotentes, e de
seus descendentes em linha direta, já fixados; assim também os mestiços, os
negros e os indios, estes em progressivo desaparecimento, por força do
extermínio ou da miscigenação. Sobretudo, constata-se entre aqueles
centros uma quase completa falta de intercâmbio, salvo, assim mesmo com
restrições, o que aflora com o movimento academicista do século XVII ao
XVIII. Estão praticamente isolados num espaço imenso e pouco povoado.
Contudo, opera-se em todos eles, haja ou não manifestações culturais e
intelectuais concomitantes, uma unidade, na verdade uniformidade,
espantosamente surpreendente, capaz mesmo de à primeira vista
confundir, no sentido da existência de intercâmbio". E que a ação da
política colonizadora portuguesa, atuando diretamente e a partir de certo
momento simultaneamente sobre todos

Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira, 3. ed. rev., atual, e aum. Rio dc Janeiro, José Olympio, I960;
Ernâni Silva Bruno, História e Tradição da Cidade de São Paulo, Rio dc Janeiro, José Olympio, 1953, 3 vols.;
Vivaldo Coaracy (V. Cy), Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, Rio dc Janeiro, José Olympio, 1955.
11. Nos nossos estudos do Período Colonial, sempre adotamos a expressão “manifestações culturais" ou
“intelectuais" ou, mais precisamente, “literárias”, conforme o título do nosso ensaio A Literatura Brasileira - I -
Manifestações Literárias do Período Colonial (1500-1808/1836), ed. cit., uma ver que não se reconhece neste período
uma atividade literária regular, transformações ao mesmo tempo sistemáticas, sob o sentimento de
autonomia que se alimenta da identidade própria. Reconhecemos a origem da expressão em José
Veríssimo, como exemplifica a citação seguinte; “Entretanto no tempo de Vieira, a maior parte do século
XVII, já no Brasil havia manifestações literárias no medíocre poema de Bento Teixeira ( 1601 ) e nos poemas e
prosas ainda inéditos mas que circulariam cm cópias ou seriam conhecidas de ouvido, de seu próprio irmão
Bernardo Vieira Ravasco, do padre António de Sá, pregador, de Eusébio de Matos e de seu irmão Gregório
de Matos, o famoso satírico, dc Botelho de Oliveira, sem falar nos que incógnitos escreviam relações,
notícias e crónicas da terra, um Gabriel Soares (1587), um Frei Vicente do Salvador, cuja obra é de 1627, o
ignorado autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil e outros de que há notícia” (cf. História da Literatura Brasileira -
De Bento Teixeira ( 1601) a Machado de Assis (1908), Rio de Janeiro, Francisco Alves. 1916, p. 26, o grifo da expressão
é nosso).

eles, fez convergir para a metrópole aquelas linhas de comunicação já


referidas, retransmissoras dos mesmos modelos, no seu movimento de vii
voltar-vir. O melhor exemplo neste sentido é a organização e freqUên- cia,
do século XVII para o XVIII, em todos os centros indicados, dos festejos
públicos comemorativos, dos atos acadêmicos e das academias científicas,
históricas e literárias14.
Mas não esquecer que a política colonizadora se exerceu no meio
brasileiro colonial sujeita às limitações, também já apontadas, da censura,
da implantação da tipografia, do ensino e do livre intercâmbio com a
Europa. Os efeitos só poderiam ser negativos para o surgimento de uma
mentalidade interna, cujo afloramento e expansão seriam continuamente
tolhidos ou refreados. A censura atuaria severamente sobre o pensamento
escrito, a criação literária, em suma sobre as atividades culturais e
intelectuais. Não contamos no Brasil com o aparato censório da metrópole,
mas seus efeitos foram os mesmos tanto lá quanto aqui. Nada se publicava
sem as licenças da tríplice censura, mais tarde Real Mesa Censória e de sua
sucessora15.
A ausência de estabelecimentos tipográficos no Brasil Colónia, além
das conseqtiências da vigilância censória, reflete interesse do governo da
metrópole de nos privar de poderoso instrumento ativador da inteligência
e da mentalidade, conforme opinião generalizada entre os nossos
historiadores. Eliminava-se a possibilidade, ainda que limitada e precária,
de uma imprensa informativa, de condições de atividade editorial, só
possível em Portugal e sob rigoroso controle. O que escrevíamos devia ser
remetido à metrópole, onde a publicação, sujeita ao crivo severo da
censura, ainda dependia do mecenatismo de poderosos ávidos de bajulação
e elogios1''. E havia a incerteza dos transportes: sabe-se de manuscritos
importantes que se extraviaram ou se perderam em naufrágios, além de
muita coisa que não logrou ser publicada 16 17. Podemos então dizer que as

14 V. Josê Adcraldo Castello (org.), O Movimento Academicista no Brasil- 1641-1820/1822, São Paulo, Conselho Estadual
de Cultura, 1969-1978 (vol. 1, tomos I a VI: “Academias”, 1969, 1970, 1971, 1971, 1978; vol. 2, tomos I c II:
“Atos Acadêmicos”, 1977, 1978; vol. 3, tomos I aVI: “Festejos Públicos Comemorativos”, 1974, 1975, 1975,
1976, 1976, 1977). Com a colaboração de Ytdda Dias Lima e, para a leitura dos textos latinos, de Isaac
Nicolau Salum (a publicação ainda 11.1o está concluída).
I I. V. notas I e 4 deste capitulo.
16 Nesse sentido, basta examinar as dedicatórias das obras impressas do século XVI ao XVIII, além da
literatura encomiástica nela contida.
obras publicadas representam seleções do que foi escrito. Sem dúvida a
justa avaliação do seu conteúdo continua a depender da pesquisa que
localize manuscritos, sobretudo dos editadas, para uma releitura criteriosa,
com a ajuda da edótica, de maneira que também se analise em extensão a
ação da censura.
A mentalidade que se desenvolveria no Brasil Colónia não poderia
ser senão a imagem da metrópole. Mas esse sistema político de vigilância
sobre a atividade intelectual na verdade teve sobretudo efeitos negativos
imediatos. Pois, à medida que tolhia a transformação e a expansão, em
contrapartida gerava tensões que mais cedo ou mais tarde eclodiriam em
reações quase agressivas, como foi o caso do antilusismo de princípios a
fins do século XIX, revigorando a ideologia nacionalista, antecipado pelas
revoltas nativistas do Período Colonial. Antes, portanto, da eclosão
patriótica a contar da Independência, é preciso considerar do Período Co-
lonial aquelas reações chamadas nativistas simultaneamente com as ten-
tativas, embora ainda incaracterizadas, de encontro com uma identidade
nova nascente. Demonstram-nas certos eventos da história, a temática
americana de exaltação das coisas da terra em confronto com os modelos
externos, reflexões críticas sobre transposições de estilos e formas literárias,
o louvor da participação igualmente de portugueses, negros e índios na
nossa formação, não obstante a subserviência e o elogio à metrópole 18.
Por seu lado, o próprio Portugal se achava muito preso à tradição
insular ibérica. Escritores que se prendem às manifestações literárias
Brasil Colonia — desde Anchieta, com obras em português, espanhol, i
guarani e latim, mas sobretudo os escritores do século XVII ao XVIII
uderam conhecer com certa intimidade os autores espanhóis e escre- im

17 V. Capisrrano de Abreu, op. cit. Da nossa parte, desenvolvemos mais longamente os problemas indicados em
A Literatura Brasileira — I — Manifestações Literárias do Período Colonial, cit. (qualquer edição, a partir da terceira).
18 As chamadas lutas ou revoltas nativistas, traduzindo uma reação interna de afirmação própria, começam com
as insurreições maranhense c pernambucana, que resultaram na expulsão dos holandeses, que como
invasores, de 1630 a 1634, dominaram a faixa litorânea de Pernambuco ao Maranhão; prosseguem com a
Revolta dos Beckman (1684), a Guerra dos Emboabas (1708), a Guerra dos Mascates (1710), a Inconfidência
Mineira (1789) e a Conjuração Baiana (1798). Quanto aos
também em espanhol, latim e português. Na verdade, o estudo das
ercussões do barroco literário no Brasil não pode ser feito apenas e
■tamente com relação a Portugal. Reconhecemos um barroco penin- ir
ibérico do qual derivam as nossas manifestações barrocas e através
|ual repetimos e incorporamos processos, atitudes e ideologias que nos
am no movimento barroco em geral. A própria arquitetura barroca e te
plástica correspondente, assim também a música, devem ser penis
dentro desse contexto mais arejado de interinfluéncias e coinciden- de
freqüéncias universais. Nesse caso, a Companhia de Jesus, com lito de
ação e unidade universais, mas sem prejuízo de adaptações e ¡tamentos
a cada povo ou nação e respectivo condicionamento, exer- sem dúvida
uma elevada função de irradiação e inter-relação.
Ainda mais, no século XVIII, com a abertura das reformas do Mar- s
de Pombal, atingindo o sistema de censura, e o ensino em geral,
tacadamente a universidade, Portugal procurou reconquistar a sua
dização no universo intelectual europeu17. E o momento em que há or
freqiiência de brasileiros na Universidade de Coimbra e em que ins, à
semelhança de portugueses, viajam e estudam pela Inglaterra, liça e
Itália18. Como os portugueses, brasileiros também podem assi- ar
diretamente influências agora notadamente da Itália.

nitrou aspectos enumerados — temática americana etc. serão demonstrados no desenvolvimento leste livro.
/, noi.i I deste capítulo.
'rltu ipnlmrme pelo século XVIII, vários brasileiros se destacam na Universidade de Coimbra: os tltiitos
h.iriolomeu c Alexandre de Gusmão, José Joaquim da Cunha de A/eredo Coutinho, Antô- iio de Moines
Silva, Alves Maciel (ligado à Inconfidência Mineira), os irmãos Antônio Carlos e o« ItoiiiUi lo de Andrnda
c Silva, o l’c. Antônio Pereira de Sousa Caídas. As viagens destes dois
... ........ pi la l .uropa liália, França, Inglaterra - foram importantes para as repercussões pré-ro-
... ........ ...........no,

Ora, a perspectiva geral até aqui esboçada marca pelo menos quatro
pontos destacáveis: a persistencia, do século XVI ao XVIII, do modelo
português sobreposto e preponderante; a participação do modelo espanhol,
notadamente barroco e atenuador do primeiro, à medida que acentúa o
denominador comum do modelo cultural e intelectual ibérico; o papel da
Companhia de Jesus como uma instituição universal, cuja mis- s.ío
espiritual se estendeu fecundamente sobre nossa vida intelectual e artística;
e a influência italiana19. Certamente o núcleo, o pivô de giro comparativo, é
Portugal, mas também é certo que sua ação, embora preponderante e
restritiva, não foi exclusiva nem exclusivista. Tivemos assim outros fatores
atuantes e atenuantes, fundamentais no processo de diferenciação de uma
atividade interna do Brasil Colónia, a qual tem sido correntemente apenas
posta em confronto direto com os modelos portugueses dominantes.
Reinsistimos, contudo, que é o pivô, isto é, a geratriz portuguesa,
que possibilita a visão de conjunto e de unidade, a qual de outra ma-
%
ncira seria seccionada ou intermitente, fracionada. E é por isso, como
também pelas circunstâncias gerais de condicionamento acima indicadas,
que no estudo das manifestações literárias do Período Colonial não nos
preocupamos tanto com o debatido problema da delimitação de períodos
caracterizados por determinados estilos ou por movimentos culturais.
Devemos antes pensar no conjunto mais abrangente daquele período,
conforme com sua delimitação na história geral do Brasil 20. É aí, nesse
espaço amplo e pouco informal, que devemos investigar freqiiên- ci.ts,
incidências e imitações dos modelos de determinados estilos, como de suas
poéticas, com relação à expressão de uma temática de dupla origem -
externa e interna. É assim uma maneira de dar abertura à visão das
transformações internas sob a constante da ideologia nativista, a partir do
século XVI.

19 Ainda é matéria para pesquisa e estudo a presença espanhola nas manifestações literárias do Brasil Colónia;
quanto à Companhia de Jesus, veja-se a obra monumental do Pe. Serafim leite. História da Companhia de Jesus
no Brasil, ed. cit., 10 vols., e o trabalho pioneiro de Paulo F. Santos, O Barroco e Jesuítico na Arquitetura do Brasili,
Rio de Janeiro, Kosmos, 1951 ; sobre o Arcadismo e a in- fluência italiana, além da obra fundamental de
Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira (Momentos Decisivos), São Paulo, Martins, 1959, 2 vols. (v. voi.
1, 1750-1836); v. o ensaio de Carla Inama, Metastasio e i Poeti Arcadi Brasiliani, São Paulo, Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras- USP, 1961.
20 Mais uma vez damos razão a José Veríssimo, cujas sugestões temos retomado. Em primeiro lugar, ele
reconhece aquela bidivisão abrangente já referida, com fundamento na nossa formação e trans- fiu inação
históricas - Período Colonial, Período Nacional; em segundo lugar, ressaltando a subor-
2. AÇÃO DOS INFLUXOS EXTERNOS E INTERNOS

Já demarcamos a cronologia do Período Colonial, de 1500/1600 ao


1800, ou melhor, até princípios do século XIX, englobando o processo da
Independência, de 1808 a 1822 e projetando-se ao advento do Romantismo
nos anos de 1830. E se Portugal é o seu núcleo irradiador, veículo
preponderante dos fatores externos e modelos, caso se insista — na
verdade com validade didática - na reperiodização do Período Colonial, é a
Literatura Portuguesa que servirá de referência básica comparativa para a
análise da frequência de estilos - temática e formal, sem falar na língua
dominante que é a mesma. Assim, a seqúência sabida - é melhor dizer
sucessão, sem prejuízo da visão das transformações - são Humanismo e
Classicismo renascentista no século XVI, Barroco e academicismo
historiográfico do século XVII ao XVIII; Arcadismo e Pré-romantismo da
segunda metade do século XVIII, no Brasil, simultaneamente com a
persistência do Barroco, mas invadindo o princípio do século XIX, para
atingir o Romantismo. E seria quase inadmissível qualquer esquema que,
mesmo didaticamente, se subordinasse à definição rígida de datas deli-

dinaçáo do Período Colonial à literatura de Portugal, não reconhece, por isto mesmo, a possibilidade de
divisão sistemática ou metódica para este período; mas, em terceiro lugar, referindo-se de início ao
Romantismo e à nossa “emancipação literária”, dá relevo ao fato de que “o sentimento que
0 pinmovcu e principalmente o distinguiu, o espírito nativista primeiro e o nacionalismo depois,
1 MC a veio formando desde as nossas primeiras manifestações literárias, sem que a vassalagem ao
prmaitncnto e ao espírito português lograsse abalá-lo”. É exatamente essa persistência no tempo e no espaço
de tal sentimento, manifestado literariamente, que dá à nossa literatura a unidade e lhe justifica a
autonomia (v. op. dt., pp. 5 e 1).

limadoras. Reconhecem-se, no conjunto, a freqiiência e a transformação: lu)


da prosa informativo-descritiva e da crónica histórica ou da literatura de
expansionismo e da dominação portuguesa; 2fi) da poesia épica e lírica; 3“)
da poesia dramática (teatro e verso); e 4U) de formas quinhentistas
ncomedievalistas e clássicas, formas barrocas e finalmente arcádicas,
neoclássicas e pré-românticas. As formas refletem, pois, embora superfi-
cialmente, princípios das poéticas clássica, barroca e neoclássica. Já os te-
mas, ao mesmo tempo que exprimem os modelos externos, são enxertados
pela inspiração interna, tanto no dominio da historia que se compõe do
Brasil Colonia, do descobrimento aos contatos e reações com o habitante
autóctone, quanto nas impressões da paisagem física e dos recursos
humanos. Geram, alimentam e se alimentam do prenúncio do “sentimento
íntimo” que então nasce e desabrocha, o chamado sentimento nativista.
Reflexões sobre poéticas dominantes e sentimento nativista são duas
coordenadas que possibilitam a configuração da unidade interna das
manifestações literárias do Período Colonial brasileiro. Dessa maneira,
%
fundamentam e esclarecem a identidade de que se revestirá a Literatura
Brasileira posterior.
Em suma, admitimos que a produção e a criação literária brasileiras,
como a nossa cultura, são ativadas por fatores designados como influxos
externos e internos21. Eles são atuantes desde os primeiros contatos e
transplantações que vêm dos momentos iniciais. Os influxos externos
constituem os modelos transpostos por vias diversas: l u) sutes vivamente
de fora para dentro, com a ação do colonizador, e também, mais tarde, com
a presença de intelectuais estrangeiros que nos visitam n determinados
momentos; 2a) pela assimilação de dentro para fora >r parte do brasileiro,
seja de formação intelectual realizada em Porral, excepcionalmente em
outros centros universitários europeus, seja mbém por brasileiros de
formação em nosso meio, notadamente nas dens religiosas. Graças a esse
mecanismo transmissor, os influxos ex- rnos estimulam o receptor
constituído pelos influxos internos. Eles se ojetam até nós: a) através de
ideais humanísticos como também de nbições diversas, nos limites do

21 A nossa posição, embora se harmonize com a de Antonio Candido, na verdade é distinta, pois que,
esclarecendo perspectiva semelhante, ele fala em “visão interna’’ e “visão externa”, conforme o seu ensaio
“Introducción a la Literatura de Brasil”: “EI sentido y Ia importancia de una literatura se hallan
íntimamente ligadas a la visión interna y a la visión externa que la misma determina. Expliquemos tales
expresiones. Visión interna es la que poseen los escritores, críticos o lectores directamente interesados, com
mayor o menor consciencia del hecho literario. Visión externa es la que se constituye en la sociedad en
general, o en otros ramos de la cultura, o en la vaga opinión colectiva, c incluso en la aparición de leyendas
y mitos sobre los escritores” (Venezuela, Monte Ávila, 1968).
século XVI; b) através de elementos spersos da poética clássica, barroca,
neoclássica ou arcádica conjunta- ente com reflexos do Iluminismo e Pré-
romantismo, de fins do sécu- XVIII para princípios do século seguinte. As
manifestações nativistas riam geradas pelos influxos internos, uma vez
estimulados pelos ex- rnos em reações e respostas ao condicionamento
novo em que estes cidem, desde os primeiros colonizadores à sua
descendência mestiça, o manifestações nativistas que se transformarão no
nacionalismo do rulo XIX, simultaneamente com o indigenismo e o
indianismo tamul provenientes do Período Colonial, em marcha, para
chegarmos fílmente à brasilidade do Modernismo.
CAPITULO III

PRODUÇÃO INTELECTUAL DO PERÍODO COLONIAL -1


O SÉCULO XVI - As FUNDAÇÕES

I. As ORIGENS

Admitida como nosso primeiro documento literário, a Carta de Pero


Vaz de Caminha22, ela anuncia o princípio da interação dos influxos
externos com os internos. Noticia, à maneira de diário, a presença inicial e
impressões do futuro colonizador em terras do Brasil, “novamente des-
cobcrtas”. Sua proposta, inspirada pelo Humanismo e expansionismo
portugueses, reflete-se nos séculos seguintes, XVII e XVIII, sujeita a re-
jeições e conflitos. É o ponto de partida da prosa informativo-descritiva,
que prossegue compondo uma visão unitária e enriquecida pelos três sé-

22 V. Jaime Cortesão, A Carta de Pero Vaz de Caminha, com um estudo de..., Rio de Janeiro, Livro de Pnuu|(4l, 1943.
culos do Período Colonial. Das impressões dos descobridores, esta
literatura evolui, amplia o conhecimento da terra, relata governo, fatos,
acontecimentos. Acompanha o surgimento do “sentimento nativista”, de
.mlo-reconhecimento. Podemos dizer o mesmo da poesia, ainda que não
tenha sido tão ampla quanto a prosa. No século XVI, porém, as formas
poéticas cultivadas demonstrariam melhor os ideais humanísticos defen-
didos pela Companhia de Jesus.
Projeção de influxos externos, a prosa e a poesia a serem consideradas
no todo do Período Colonial, com as características universais de épocas,
de que são portadoras, passam sucessivamente do humanismo
quinhentista, ao Barroco, ao Arcadismo e ao Pré-romantismo. Sua unidade
entre nós residirá na progressiva ação dos influxos internos, reconhecível
no que podemos designar como “temática do colonizado”, sempre a
caminho da identidade.
Durante o século XVI, o espaço de observação e ação, gerando a
perspectiva acima delineada, restringe-se à faixa litorânea de Pernambuco
a São Vicente e até mesmo ao Paraná. Mas os centros urbanos que aí sc
implantam e se desenvolvem, como São Vicente, São Paulo, Rio de Janeiro,
principalmente Salvador, Recife e Olinda, a contar da expedição de Martim
Afonso de Sousa, 1530-1532, aos primeiros governos gerais, 1549 em diante,
só paulatinamente apresentarão condições propícias a atividades de vida
cultural e intelectual. Prendem-se a grandes destaques desse século: à
instituição do Governo Geral, com a pacificação de índios, e à expulsão de
invasores, à prosperidade do comércio de pau-brasil e da cultura da cana-
de-açúcar; à ação da catequese jesuítica e à criação de seus colégios em
Salvador, Olinda, São Paulo, Rio de Janeiro 2. A obra de observação e
informação descritiva sugere nitidamente o processo de adaptação ou a
rejeição à integração do colonizador na terra. Indica-nos o princípio do
cumprimento de uma missão humanística de cristianiza- i,.io que passa à
responsabilidade principal da Companhia de Jesus, en-

! V, noia •) (lo capitulo II: “Definição do Período Colonial”.


quanto permaneciam com o colonizador os objetivos da exploração da terra,
sempre motivada pelos sonhos do eldorado ou pela ilusão ú0 pa- raíso”23.
Contudo, as duas posições, a primeira, sob o desprendimento do apostolado
jesuítico, a segunda, sob os impulsos da ambição, estavam destinadas a um
contínuo conflito de objetivos espirituais e de interesses materiais. Constitui
exceção um dos momentos — e inicial — dos mais expressivos e nobres da
colonização portuguesa, representado pela ação do terceiro Governo Geral, o
de Mem de Sá (1556-1570)24 25.
O século XVI foi por excelência de contatos, com implantações iniciais
de núcleos urbanos, sob um clima a ser disciplinado tanto em nível de
consolidação de conquista quanto de organização administrativa e ordem
espiritual, conforme a primeira carta que Nóbrega escreveu aos seus
superiores em Portugal. Só lentamente surgiriam condições favoráveis à
vida cultural e intelectual. Sem dúvida, elas requeriam concentração urbana,
que lhes fosse ao mesmo tempo condicionadora, transmissora e receptora.
Neste caso, os pontos de partida foram Salvador e, em fins do século, Recife
do governo de Jorge de Albuquerque Goelho3. Contudo, no decorrer desse
nosso primeiro século, destacadamente com os colégios dos jesuítas, é
possível identificar núcleos iniciais comportando atividades culturais e
intelectuais, principalmente em virtude da adoção do teatro como
instrumento pedagógico26. É o caso de Salvador, centro que,
i o Recôncavo Baiano, desde cedo se apresentou como convergente e Jiador
de observações . Foi aí que aportou o primeiro jesuíta, o Pe. mel da Nóbrega

23 V. Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Coloniza- fão do Brasil, 2. ed.
rev. e ampl., São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1969.
24 O Pe. José de Anchieta dedicar-lhe-ia um poema épico descritivo de seus feitos - De Gestis Mendi de Soa. Adiante
comentado, foi publicado na época, mas por longo tempo esquecido. V. nota 18, a seguir.
3, lodos os historiadores são unânimes em falar da prosperidade de Pernambuco no século XVl ( atingindo com o
governo de Jorge de Albuquerque Coelho o gosto pela vida intelectual, ele mesrtio homem dado às letras (cf.
A. V. A. Sacramento Blacke, Dicionário Bibliográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, vol. 4,
pp. 259-260). V. Oliveira Lima, Pernambuco - Seu Desenvolvi. mento Histórico, Leipzig, F. A. Brockhaus, 1895.
(}, Trata-sc da literatura informativa ou descritiva da terra e do homem e da obra de Anchieta, a seguir apreciadas.
Sobre expansão geográfica, v. Basílio de Magalhães, Expansão Geográfica do Brasil Colonial 3. ed. cor. e amp„ Rio
de Janeiro, Epasa, 1944; Sérgio Buarque de Holanda e outros, História Geral da Civilização Brasileira -1 - A Época
Colonial ed. cit.
e a seguir o Pe. José de Anchieta, síntese representarlo nosso século XVI ao
tentar harmonizar o universo de origem do mizador com o universo
conquistado e a ser colonizado. E também
ii imeiros cronistas portugueses.

t PROSA INFORMATIVO-DESCRITIVA

Grande parte dessa prosa informativo-descritiva, com traços de crô- i


histórica, é variante da literatura de viagens portuguesa, francesa e esa8. Para
nós, no seu todo, ela relata: a) informação sobre a terra e seu itante primitivo;
b) fatos e acontecimentos que compõem a história «Ionização; c) em
destaque, a obra da catequese desde a preparação e K ilação interna para
executá-la, oriunda da observação direta do meio ) estudo da cultura e
língua indígenas; d) as aventuras, impressões e •s invasoras de estrangeiros.
Comporta a divisão em quatro, com tra- omum de unidade, a saber, a visão
de um novo mundo freqiiente- ne deslumbrada, a curiosidade e mesmo a
atração do exótico, sob o IUISO da aventura. E são implícitos, mas sob
enfoques distintos, os reros eventuais da história. Assim, em a) e b) se situam
os cronistas por- jeses; em c), como também em b), os jesuítas; em d) e b), os
viajantes ’entureiros estrangeiros. O fato de essa literatura ter sido em parte
1 içada na época, em parte só bem mais tarde, do século XIX aos dias loje,
não faz diferença. E isso naturalmente do ponto de vista em que

I'. Gabriel Soares de Sousa, Tratado Descritivo do Brasil em 1587 (ou Noticia do Brasil), a seguir ferido.
nino uma das primeiras tentativas de sistematização informativa em geral, inclusive de viagens, que m icvc sobre o
Brasil de 1 SOO aos séculos XVIII-XJX, lembramos o estudo de Almir de Andrade, >i ma\<1o da Sociologia Brasileira - I
- Os Primeiros Estudos Sociais no Brasil - Séculos XVI, XVII e VIII, Rio ilr janeiro, José Olympio, 1941, sem esquecer Artur
Mota, História da Literatura Brasi- i KI , San Paulo, Cia. F.d. Nacional, 1930, 2 vols. V. também Alfredo de Carvalho,
Biblioteca Exóti- Inuiilrini, Rio de janeiro, Empresa Gráfica; São Paulo, Pongetti, 1929-1930, 3 vols.

sc toma aqui a visão das origens ou raízes do que somos como expressão de
cultura e em particular da representação literária de nós mesmos. Como
ponto de partida é sobretudo documento válido para o historiador c outros
estudiosos. Igualmente, é fonte esclarecedora ou inspiradora da nossa
literatura e, em alguns casos, criações literárias legítimas.

Cronistas portugueses. Destaca-se, em primeiro lugar, a visão do con-


quistador e colonizador português desde o século XVI, de acentuada re-
percussão notadamente a contar do século XIX ao Modernismo. Abre-se com
a Carta de Pero Vaz de Caminha, amplia-se no mesmo século XVI com o
Diário da Navegação, de Pero Lopes de Sousa, o Tratado da Terra e Gente do Brasil e a
História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente Chamamos Brasil, de Pero de
Magalhães de Gandavo, e a Notícia do Brasil (ou, conforme a edição, Tratado
Descritivo do Brasil em 1587), de Gabriel Soares de Sousa. Generalizando,
diremos que estas obras acumulam intenções, interesses e reações^que
explicam e estimulam a obra colonizadora empreendida pelo português,
descobridor e conquistador.
A Carta de Caminha27, desde que foi reconhecida pelos modernistas
brasileiros, deixou de ser apenas um documento histórico. Passou a ser
valorizada como uma página de observação espontânea, até ingénua, de
legítima criação literária, mitificadora da visão primeira. Atinge o leitor atual
com o seu lirismo espontâneo e o seu humor rude, o seu impressionismo.
Além do mais, o interesse lingüístico que representa ao exprimir as
primeiras soluções de comunicação com o novo mundo descoberto, tão
oposto ao universo de onde provinha o descobridor. Também a ênfase dada
a um programa humanístico e cristão do expansionismo, caso a “visão do
paraíso”, o eldorado entrevisto, de todo não se objetivasse.Transformou-se
num foco de renovação afetiva, de permanente vibração, ao mergulharmos
no passado, em busca das emoções iniciais das nossas origens.

27 V. cd. cit. c Carta a El-rei D. Manuel Introdução, organização de texto, glossário, bibliografia e índices de Leonardo
Arroyo, São Paulo, Dominus, 1963.
*rn.y+/mi) MOOt yyt^^^fjv+^-y ¿A, Je*
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ui Inltlitl iln mm, da Carta de Caminha, de Io de maio de 1500, com “Adaptação à


..... ...... ..... , d, laime Cortesão, A Carta de Pero Vaz de Caminha, Lisboa, Imprensa
m,il/t 1,1 di Moeda, 1944, pp. 156-157.
Senhor:

Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa
Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não
deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que —
para o bem contar e falar -, o saiba fazer pior que todos.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que,
para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o
não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei-de falar
começo e digo:
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de Março. Sábado, 14
do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achámos entre as Canárias?mais perto da Grã-
Canária, onde andámos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E
domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das Ilhas de Cabo
Verde, ou melhor, da Ilha de S. Nicolau, segundo o dito Pêro Escolar, piloto.
Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com
sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas
diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo até que, terça-feira das Oitavas
de Páscoa, que foram vinte e um dias de Abril, estando da dita ilha obra de 660 ou 670 léguas,
segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de
ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de
rabo-de-asno. E, quarta-feira seguinte, pela manhã topámos...
\s impressões de Caminha, podemos juntar as do Pe. José de An- ., desta
vez captadas na divisão da orla marítima com a selva a ser lidada. Não
menos ricas literária e lingüisticamente do que as pri- s, essas outras
impressões também em carta foram escritas em quando Anchieta, já
peregrino amoroso de nossas terras, andava
0 Paulo ao Paraná10. Para arquitetarmos a perspectiva do século as cartas
de ambos dão a medida inicial do que se escreveu nesta ria: a prosa
informativa dos cronistas portugueses e a poesia do pró- úichieta. Nos dois
casos, ressaltam-se preocupações, quando não sos, dirigidos para a
adequação a um novo condicionamento. Su-
1 mesmo a identificação com a terra por amor, depois que o coloni-
imposto a converte em “terra de eleição” e logo mais em “terra de nento” 11.
Paralelo com o sentimento de repulsa, depois de frustra- esde que o amor
da terra começa a fermentar os germes do “senti- > pátrio” - com o sentido
de local de nascimento - motiva-se o mento nativista” e suas derivações. E
aquelas duas cartas se comple- omunicando-nos o deslumbramento inicial
do colonizador caúsala exuberância e pela promessa de riqueza da terra a
ser revelada e ísões e dificuldades da perspectiva do desbravamento.
«las obras dos cronistas portugueses que virão a seguir, desdobra-se tetído
das cartas, isto é, as impressões da terra e de seu habitante :ivo, relacionadas
com os objetivos do expansionismo, acrescidas de 5 de fatos da história da
colonização. A primeira dessas obras é o fim Leite S. J„ Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil - III
(1558-1563), São Paulo, Comissão V Centenário da Cidade de São Paulo, 1958 - v. carta “Do Ir. José de Anchieta ao

Pe. Diego tes, Roma”, datada de São Vicente, 31 de maio de 1560, pp. 202-236 e “Apêndices - I - Traio Portuguesa

da Carta de Anchieta, de São Vicente, Último de Maio de 1560 (Carta 34)”, pp. (II. V. também vol. 2 (1553-1558),

lug. cit., 1957, outra carta, “Do Ir. José de Anchieta ao Pc. io de Loyola, Roma”, de São Paulo, 1* de setembro de

1554, pp. 83-118; e Carta (...) seguida iiinas (...), traduzidas do latim por João Vieira de Almeida, prefácio de

Augusto César de mda Azevedo, São Paulo, Casa Eclesiástica, 1900.


lomie conceito de nativismo, com base em Oliveira Lima, a ser exposto no capítulo VI, “A inibo da l Jnldade”; v.
também no último capítulo “A Unidade na continuidade e Suas Etapas”.

Diário da Navegação, de Pero Lopes de Sousa28. Além do que oferece de


interessante para o estudo da expedição de Martim Afonso de Sousa, re-
gistra impressões do litoral, de Pernambuco a São Vicente. E é talvez, diga-
se de passagem, a primeira manifestação da “obnubilação” do português ao
contemplar a mulher índia, compensação que se lhe oferecia pela
companheira de origem que permaneceria ausente 29 30. Com Gandavo

28 Pero Lopes de Sousa (século XVI), Ditino da Navegação de... (1530-1532), Estudo crítico pelo comandante Eugênio
de Castro, prefácio de J. Capistrano de Abreu, 2. ed., Rio de Janeiro, Comissão Brasileira dos Centenários
Portugueses de 1940, s. d., 2 vols.
29 A expressão, seguida de adjetivo e por ele mesmo grifada - obnubilação brasílica -, provém de Araripe Jr., com
bastante fundamento, e lhe surgiu a partir de suas reflexões sobre o nosso século XVI, cujo estudo não pode
se subordinar aos mesmos métodos dos séculos seguintes. Assim é que, depois de propor sua teoria ou
orientação metodológica, a da “obnubilação brasílica”, efeito da “poderosa influência do ambiente
primitivo” no homem civilizado, atenuando-lhe “todas as camadas de hábitos que subordinavam” esse
homem à civilização, o crítico interroga: “Qual foi o sentimento que se gerou no português, logo que se
sentiu abandonado às suas próprias forças no solo americano?” “Qual a nova direção que tomaram as suas
tivemos a primeira tentativa sistematizada de descrição da terra, acentu-
ando o enfoque comparativo com as coisas distantes de além-mar, e tam-
bém o primeiro esboço da história do Brasil Colónia, do descobrimento ao
Governo GeraPL Com ele, o índio não é mais visto com a simpatia dos
autores anteriores, e se põe em dúvida o programa da cristianização. E em
fins do século XVI surge Gabriel Soares de Sousa, com a Notícia do Brasil31. É a
grande obra descritivo-informativa do século. Acentuando as intenções
orientadoras da colonização e de suas possibilidades, com ricas observações
sobre o habitante autóctone, é a mais completa e objeti-

faculdades estéticas, em consequência dessa queda psíquica, ou, para exprimir-me melhor, dessa regressão
ao tipo mental imediatamente inferior, por desagregação da placenta européia?” (v. “Literatura Brasileira”,
em Obra Crítica de Araripe Júnior -1- 1868-¡887, Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa-MEC, 1958, pp. 489-497 (trechos
citados da p. 497).
30 Pero de Magalhães de Gandavo (século XVI), Tratado da Terra e Gente do Brasil, no qual se Contém a Infortnação das
Coisas que Há nestas Partes e História da Província de Santa Cruz, a que Vulgarmente Chamamos Brasil (ed. conjunta), Rio de
Janeiro, Publicação da Academia Brasileira de Letras, 1934; Tratado da Província do Brasil Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro-MEC, 1965 (ed. fac-similar e diplomática, com introdução e comentários de
Emmanuel Pereira Filho).
31 Gabriel Soares de Sousa (século XVI), Tratado Descritivo do Brasil em 1587, ed. de Francisco Adolfo Varnhagen, 3.
ed., São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1938 (Col. Brasiliana, 5. série, voi. 117) ou Noticia do Brasil ed. de Pirajá da
Silva, São Paulo, Martins, s. d., 2 vols.

c então se escreveu sobre o Brasil. Todas elas, no conjunto, somam ição,


informação e história. Distinguem-se, em confronto com ou- ontribuições:
primeiro, por se voltarem para a colonização portu- , de maneira a propor e
a orientar; segundo, por exprimirem rea- jã conllitivas internamente;
terceiro, por registrarem o avanço das formações do comportamento geral
do colonizador e do autóctone ido a dilatação da presença, mais do que isto,
a permanência do coador, que logo passaria a enfrentar a certeza da sua
fixação na terra » um lato incontornável.
MUI Eli, SOARES DE SOUSA
Capa de Notícia do Brasil, também
editada sob o título Tratado
Descritivo do Brasil em 1587. A
primeira edição foi da Academia
de Lisboa, 1825.

ria do Brasil
COMENTARIOS E NOTAS
DE
iKN. PIRAJA DA SILVA E EDELWEISS

EDIÇÃO PATROCINADA
PELO
JTO DE ASSUNTOS CULTURAIS DO M E C.

SAO PAULO-BRASIL
MCMLXXIV
A obra dos jesuítas. Não resta dúvida de que os jesuítas ampliam a obra
dos cronistas portugueses. Mas o que eles escrevem — consideremos os
padres Manuel da Nóbrega, José de Anchieta, Fernão Cardim - deve ser
visto como programa de uma instituição que se distingue com proce-
dimentos próprios. A obra deles documenta e esclarece objetivos e reali-
zações precipuos da Companhia de Jesus no Brasil: a catequese do gentio e
o ensino. Além do mais, os jesuítas tiveram um desempenho notável na
colonização. Em contínuo conflito com os interesses portugueses, projetam
uma imagem talvez a mais discutida do Período Colonial. Nos limites do
século XVI, o que eles escreveram visava essencialmente à informação e à
orientação ligadas ao seu programa humanístico em execução. Com
fundamento na observação da paisagem física e humana, feita de maneira
disciplinada ou orientada, a obra deles proporcionou o conhecimento dessa
paisagem, do indígena e das relações com ele estabelecidas pelos jesuítas e
colonizadores; deixou informações sobre a sociedade que aqui se
implantava desde os contatos iniciais do adventício com o autóctone;
também sobre a obra espiritual e as manifestações intelectuais, in-
tensificadas nos colégios da Companhia de Jesus. Tudo isso é registrado a
partir de 1549, ano da primeira carta de Nóbrega, precioso documento sobre
o caos moral e espiritual de Salvador por ocasião da chegada do primeiro
Governo Geral32. Prosseguem as indicações em cartas, relatórios,
“narrativas”, sermões, pesquisas e trabalhos lingiiísticos. Do ponto de vista
ideológico, não se pode compreender a passagem do indigenismo para o
indianismo sem o recurso dessa soma considerável de cartas, que aumen-
taria enquanto os jesuítas participaram da nossa formação33.
Cronistas estrangeiros. O terceiro grupo de escritores situados no sé- culo
XVI é representado por aventureiros ou viajantes estrangeiros: Hans

32 Serafim Leite S. )., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil - / (1538-1553), São Paulo, Comissão do IV Centenário da
Cidade de São Paulo, 1956, v. carta “Do Pe. Manuel da Nóbrega ao Pe. Simão Rodrigues, Lisboa", datada da
Bahia, 10 de abril de 1549, pp. 108-115.
33 V. Serafim Leite S. J., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil, ed. cit-, 3 vols.; Manuel da Nóbrega, Cartas do Brasil -
1549-1560, Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1931; Cartas Avulsas (1550- 1568), lug. cit., 1931; José de Anchieta,
Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões (1554- 1594), lug. cit., 1933; Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente
do Brasil, 2. cd., São Paulo, Cia. Kd. Nacional, 1939 (introdução e notas de Batista Caetano, Capistrano de
Abreu e Rodolfo Garcia).
Staden, Anthony Knivet, Jean de Léry e André Thevet18, os dois últimos
ligados à invasão francesa do Rio de Janeiro — a França Antartica, de 1555.
Escreveram um misto de relato de aventuras trabalhadas pela imaginação,
de observação sobre a paisagem e o autóctone e de matéria de interesse
histórico. Admitimos que eles se apresentam, de origem, seduzidos pelo
amor ou pela atração do exótico, que então se generalizava pela Europa,
estimulando a aventura e o seu relato. Também é preciso levar em conta o
aguçamento das ambições européias pelos sucessos dos descobridores
espanhóis e portugueses, descortinando-lhes visão de riquezas. Por isso
mesmo, Portugal evitou o quanto possível a revelação das possibilidades de
sua conquista na América, impedindo mesmo os contatos livres do
estrangeiro. Mas, iniciada essa obra informativo-descritiva e histórica de
estrangeiros, quer tenha sido ela produto de curiosidade e observação de
aventureiros ou invasores durante o Período Colonial, deve ser relacionada
com outras escritas bem mais tarde, a partir de Dom João VI, produto de
missões culturais e científicas que se estendem pelo século XIX. Ambas se
converteram, sabidamente, em fonte preciosa dos estudos sobre o Brasil, do
antropológico, social e histórico ao naturalista, e até ofereceram matéria
para a inspiração literária. Elas se situam na bibliografia estrangeira sobre o
Brasil, mas, particularmente nos limites do século XVI, oferecem confronto
curioso e ilustrativo com as impressões dos cronistas portugueses.

IH. Citamos divulgação recente de suas obras: Hans Staden, Duas Viagem ao Brasil - Arrojadas Aventuras no século
XVI entre Antropófagos do Novo Mundo, trad. de Guiomar de Carvalho Franco, com introdução c notas de
Francisco de Assis de Carvalho Franco, São Paulo, Hans Staden, 1942; 11 André Thevet, Singularidades da
França Antártica, a que Outros Chamam de América, pref., h,id c notas do Prol'. Estêvão Pinto, São Paulo, Cia.
Ed. Nacional, 1944; Jean de Léry, Viagem à tersa do Brasil, trad. int. c notas de Sérgio Milliet, São Paulo,
Martins, 1941. V. nota 8 deste I ,l|llllllo

àh I I I IJ I , Al t I I > . I l l u n tnli inn nu n Rcnl nnn nm nvil AI


Cf. Be. Serafim Leite S. J.,
História da Companhia de /etui no
BrasiL, Lisboa/Rio ile Janeiro,
Portugalia/ Civilização
Brasileira, 1938. t. 2.

3. JOSÉ DE ANCHIETA

Figura síntese do nosso século XVI, o Padre José de Anchieta é mo-


delo de linguagem, de formas e de criações literárias então cultivadas entre
nós. Reflete, no que escreveu, a sua formação humanística. E escreveu
bastante: teatro em verso e formas livres e dialogadas de declamação
instrumento pedagógico da catequese; poesia épica; poesia religiosa. Jesuíta
e apóstolo, humanista, cronista, poeta e lingüista, a obra em prosa c verso
de Anchieta é paralelamente instrumento e reflexo dos objetivos da
cristianização do gentio, propostos pelo expansionismo decorrente da
descoberta e conquistas portuguesas que culminaram no século XVI. Mas
ele conta também criações independentes destes compromissos, traduzindo
acentuado misticismo, sobretudo naquelas em que expri-
mc sua devoção à Virgem Maria. E todas elas, sejam voltadas para a
catequese sejam de sentimento religioso, apresentam características e valor
literários indiscutíveis, apoiados na cultura latina e na tradição literária
proveniente da Idade Média, do Humanismo à Contra-Reforma19.
A obra considerada instrumento da catequese se reveste de duplo
aspecto: um predominantemente pedagógico, outro narrativo e impregnado
de louvor ao mandatário, mas somente o merecido e justo. Na experiência
declamatória, Anchieta evoluiu das formas mais simples para o teatro em
verso, quando se identifica com o modelo do auto de Gil Vicente,
proveniente da tradição medieval ligada à Igreja. Seus objetivos eram a
transmissão da fé e dos ensinamentos básicos da Igreja, como norma de
conduta, portanto, didáticos e pedagógicos. O que escrevia era para ser
declamado e representado, sendo que o principal elemento visado era o
índio já agrupado pela ação missionária. Pressupunha simplicidade de
linguagem e de estrutura, acessibilidade à compreensão rudimentar que
devia ser tanto do catecúmeno quanto da maioria do colonizador. Um e
outro, mais o elemento religioso, comporiam um público relativamente
heterogéneo, levando o apóstolo ao emprego de três a quatro línguas em

19. São as seguintes as principais edições das obras conhecidas - poesia, teatro (em verso) e prosa informativa c
Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões (1554-1549), ed. cit.;
histórica do Pe. José de Anchieta:
Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro-Imprensa Nacional, 1933: Poema da Bem-aventurada Virgem Mãe de Deus Maria, ed. c trad. Pc. A.
Cardoso, Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1940; Poesias, manuscriro do século XVI, cm português,
castelhano, latim e tupi, transcrição, traduções e notas de Maria de Lourdes de Paula Martins, São Paulo,
Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954; Excelentíssimo singularisque fidei ac pietatis uiro
Mendo de Saa, Australis seu Brasilicae Indiae praesidi praestantissimo - Conimbricae apud Joatinen Aluarum
Typographum Hegiurn - MDLXIII (cf. comunicação leita por Luís de Matos ao II Coloquium Internacional
de Estudos Luso-brasileiros, São Paulo, set. 1954, sob o título “O Poema de Anchieta sobre os Feitos de Mcm
de Sá”); De Gestis Mendi de Saa, original acompanhado da tradução vernácula pelo Pe. Armando Cardoso, S.
I„ Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1958 (v. reedição nas Obras Completas, São Paulo, 1970, vol. 1); Poemas
Eucarísticos e Outros - De Eucaristia et aliis - Poemata Varia - Obras ( ompletas, São Paulo, Loyola, 1975, vol. 2;
Teatro de Anchieta, originais acompanhados de tradução versificada, introdução e notas pelo Pe. Armando
Cardoso S. I., São Paulo, Loyola, 1977 (Obnu Completas, vol. 3). O quarto volume das Obras Completas é uma
reedição do Poema da Bem- aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus (sic), originais latinos, trad. e introdução do
Pe. Armando (lardoso, S. L, São Paulo, Loyola-INL, 1980, 2 tomos.

AS FUNDAÇÕES: O I” PERIODO OU O PERIODO COLONIA!


suas peças: a língua geral (tupi-guarani), o português, o espanhol e o latim,
conforme o assunto e a origem da parte do público diretamente visada.
Conhecedor da psicologia, língua e valores indígenas, ele os exploraria
simultaneamente com a psicologia e valores do cristão. Inauguraria assim
uma forma literária sincrética que se acentuaria desde então na nossa
formação. Foi um ponto de partida, produto de ação estimulada pelo
Humanismo, pela riqueza espiritual, tolerância e compreensão da própria
condição humana, sob o respeito devido. Certamente, Anchieta teve cons-
ciência crítica do seu procedimento, de tal maneira a poder cultivar formas
literárias simples com linguagem adequada à rusticidade da sociedade que
aqui se esboçava nos contatos do colonizador com o autóctone. Mais do que
um ensaio, foi um exemplo do que deveria ser a nossa verdadeira e ideal
expressão literária, marcada de início pela diversificação de linguagem e
sincretismo temático diferenciadores de matrizes européias? Sem dúvida,
embora o exemplo não tenha prosseguido, o missionário- poeta lançava
sementes suficientes para se fazer iniciador-precursor. Podemos enfatizar
que a obra do dramaturgo, mais do que a restante, salvo o poema Dos Feitos
de Mem de Sá, caracteriza-se em síntese pela ativação da interação de cultura e
de civilização do adventício com a cultura autóctone, sob a bandeira da
colonização e da cristianização.
A poesia dramática de Anchieta amplia-se com a poesia épica, escrita
em latim, língua também escolhida para a poesia religiosa, ascética ou
mística, uma e outra exemplificativas do humanismo e do sentimento
religioso do catequisador. Tanto num caso como noutro, ele se desprende
do comprometimento com a catequese à medida que ela lhe exigia a
comunicação de acordo com o receptor. É o caso do poema épico referido,
que só recentemente a nossa história literária pôde conhecer para leitura,
Dos Feitos de Mem de Sá (De Gestis Mendi de Saa/0.
Escrito em latim e publicado no século XVI, não se tem notícia,
contudo, da repercussão desta obra até a sua redescoberta recente. Mas, 34

Poesías, de Anchieta.

à semelhança do que já observamos sobre a aceitação pela historia tanto do


editado quanto do inédito, considerados representativos das manifestações
do da cidade de são paulo

JOSE DE AKCHIF.TA, S J.

POESIAS
Msnjwnta Uu *4«. XVI. tm portuguto «»Ulhaoo.

Istlm « tupi. TranscrlQâo, tratioçíe* a notas

de

M. DE L. DE'PAULA MARTINS

são paulo

literárias do Período Colonial, o poema de Anchieta amplia o significado de


sua obra de dramaturgo e se impõe igualmente como visão literária dos
contatos iniciais de culturas e de interesses, os do colonizador com o
habitante subjugado da terra conquistada. F. expressão dos ideais
humanísticos que presidiram o expansionismo portugués. Para esta
temática correspondente aos momentos e procedimentos dos contatos
iniciáis - conquista, dominação e esforço de assimilação do autóctone pelo
adventício -, impunha-se novamente urna forma que lhe fosse adequada. 1
OUtro prenuncio de uma expressão literária, que se auto-identi-
mm
. ESCLARECENDO AS RAÍZES
Capa do Gestis Mendi de Saa, edição (3a.)
do Pe. Armando Cardoso, com
original em larim c tradução para o
português.

OBRASCOMPLE
Ji VOLUME

ficava, relativamente livre no seu ajustamento ao conteúdo descritivo e


épico que propunha a presença do europeu no Novo Mundo. Mas aguar-
demos outro passo em que consideraremos o poema de Anchieta sob este
aspecto formal e temático, já diferenciador, propondo a nossa poesia de
inspiração indianista, ou mesmo americanista. Porque de fato ele se an-
tecipava às transformações subsequentes do indigenismo/indianismo,
este, bem mais tarde, já no século XVIII, ainda representado pelo poema dc
Frei José de Santa Rita Durão - Caramuru, com ressalvas ao de José Basílio
da Gama - O Uraguai, talvez exceção apenas para o de Cláudio Manuel da
Costa - Vila Rica.

m U I l U h l / ' / * % I ? / \ • , 1 I l D D Í A n n r\ I t f\ n c o f n n n m i r \ M I A l
A produção informativo-descritiva e literária do século XVI marca s
origens do que continua a ser escrito nos séculos seguintes, XVII e (VIII.
Para os estudos específicos da história literária por essa época, ela los
testemunha o sentido do Humanismo que presidiu os princípios da
olonização. É principalmente a fonte que gera e alimenta constantes te-
náticas, freqiiência de atitudes e inspirações: 1“) a curiosidade e o lou- or
dos recursos e aspectos naturais da terra; 2 U) a relação homem —► pai-
agem americana —> terra brasileira, que se traduz, de início, pelo amor la
terra com o oposto paralelo do seu repúdio, de qualquer forma de-
encadeando o processo da identificação. Em outras palavras, inspira o jue
se chamaria - expressão já consagrada - de “sentimento nativista”, ambém
alimentador de valores e legendas criados no decorrer da nossa ormação.
E desde a Carta de Caminha, amplia-se com outros cronistas Hirtugueses e
com os jesuítas a visão comparativa da terra feita sempre om as
persistências evocadoras de além-mar e multiplicam-se os relatos le leitos
e acontecimentos históricos. Neste caso, ressaltam-se progressi- 'amente: a
participação portuguesa e a indígena (a africana seria desta- :ada mais
tarde) e a intromissão dos invasores estrangeiros enquanto o ndio, objeto
de programas humanísticos, é defendido pelos jesuítas con- ra a intenção
escravagista.
Sob o aspecto entrevisto, o século XVI é o fundamento indispensável
para os estudos e compreensão das origens da formação da Literatura
Irasileira. Nos seus limites e inserido nos do Período Colonial, ele deve á
ser pensado em termos da rusticidade e da agressividade da natureza
•nfrentada e, não obstante os ideais de cristianização, dos interesses ma-
criais. Mas não se impede o desabrochar da sensibilidade, da consciên- ia
peculiar e da imaginativa que exprimirão mais tarde a realidade e o aráter
do brasileiro. Os modernistas de 1922 reconheceriam a impor- Altcia c o
significado de ir até ao século XVI em busca das origens. Sob •ssc aspecto,
lembremos manifestações e atitudes que eles rotulariam de
“Pau-brasil”, “Primitivismo”, “Verde-amarelismo”, enquanto reviam os cronistas
. ESCLARECENDO AS RAÍZES

seiscentistas e neles se inspiravam35.


Sempre tendo em vista as interpenetrações dos procedimentos do século
XVI, é também aí que tem origem a visão guerreira do índio, não obstante as
críticas que seriam feitas à sua condição selvagem. Seria o princípio da sua
exaltação épica. Novamente evocamos Anchieta: além do que ele documentaria
como realização e registro do programa humanístico e cristão; da legítima criação
literária representada por poesias e autos; da poesia religiosa que inaugura a
poesia de inspiração no culto da Virgem Maria, projetada até princípios do século
XIX; o seu poema épico inaugura o nosso indianismo literário, cujo estudo
também deve levar em conta os fundamentos que provêm das impressões,
observações e reflexões dos cronistas, de Caminha, ao Diálogo sobre a Conversão do
Gentio do Pe. Manuel da Nóbrega36, e à obra de Pero Lopes de Sousa. Estes e outros
vão da ingenuidade, sensualismo e simpatia, às observações objetivas e

35 V. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano I, 1928, 10 números (corresponde à chamada l" dentição); e Revista de
Antropofagia (órgão do clube de Antropofagia), 2‘ dentição, página do Diário de S. Paulo, semanalmente, 1929, 15
números, de 1 jul. 1929 a 1 ago. 1929 (v. edição fac-simi- lar, São Paulo, Abril-Metal Leve, 1975, com introdução de
Augusto de Campos); Monteiro Lobato, O Primeiro Livro sobre o Brasil, sobre Hans Staden, de 1926, e que integra o
Na Antevéspera, e a adaptação para a literatura infantil da obra desse viajante sob o título de Hans Stadetr, v.
livro
Oswald de Andrade, destacadamente alguns poemas de Pau-Brasil, c alguns manifestos modernistas: Gilberto
Mendonça Teles, Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro, apresentação e crítica dos principais manifestos
vanguardistas, 6. ed. rev. e ampl. com does., Petrópolis, Vozes, 1976; alêm de outras referências.
36 V. Padre Serafim Leite S. J., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil - II (1553-1558), ed. cit.: “Diálogo sobre a conversão do
gentio do Pe. Manuel da Nóbrega”, datada da Bahia, 1556-1557, pp. 317-345; em pequeno “Prefácio” ao texto, o Pe.
Serafim Leite observa e resume: “Este Diálogo, pelo gênero, ó o primeiro documento verdadeiramente literário escrito
no Brasil. Tema de missio- logia fundamental, a capacidade dos índios para se converterem. Os índios, não obstante a
antiga condição em que vivem e se criaram, são capazes de se converter: em direito, porque são homens; e, dc fato,
porque já muitos se converteram. Mas imporra criar novas condições, extrínsecas aos índios, aptas a facilitar a
conversão: umas, da parte dos missionários, que devem tender cada vez mais á perfeição dc evangelizadores; outras da
parre dos índios, com uma sujeição moderada. Com santidade de vida, atrairão de Deus a graça da conversão dos
Gentios; com a sujeição, facilita-se a reedu- cação dos adultos com a aprendizagem e prática da lei cristã, na medida do
possível (sempre foi difícil em todas as partes do mundo a conversão de adultos), e promove-se a educação cristã dos
filhos sob um regime de autoridade paterna” (pp. 317-318).

m U I l U h l / ' / * % I ? / \ • , 1 I l D D Í A n n r\ I t f\ n c o f n n n m i r \ M I A l
CAPÍTULO IV

rragmáticas. Mostram-se preocupados com o convívio com o selvagem, :om


a obra da catequese, além do conhecimento da terra a ser explorada. >.10 posições,
de colonizadores e jesuítas, conflitivas, que se tornarão fre- jücntes por quase toda
a história do Período Colonial, culminando, lite- ariamente, com o poema de José
Basilio da Gama - O Uraguai.
Do final do século XVI e princípios do seguinte, com a prosperida- 1c de
Pernambuco, aponta-se Recife como o primeiro centro urbano a ,'omportar nos
seus limites certa efervescência intelectual23. Continua a ucessão indicada de
centros idênticos no Período Colonial, precedidos ror Salvador. Em Pernambuco, a
nossa tradição histórica destaca Bento Peixeira, a rigor projeção do Quinhentismo
sob o modelo camoniano, lorém medíocre.

' I mu iimiim, ciiamiu, não obstante o toque de bairrismo: Aníbal Fernandes, Pernambuco, Berço da I ilrntlUM Hnuihira, Recife,
1953 (texto mimeografado).
PRODUÇÃO INTELECTUAL DO PERÍODO COLONIAL - II SÉCULOS XVII-XVIII -
PRESENÇA DO BARROCO

1. P RIMEIRAS REFLEXÕES SOBRE POÉTICA1

A incorporação de normas poéticas importadas contribuiu para a


formação da consciência crítica da Literatura Brasileira. Estimulou a nossa
inspiração própria e aquele “sentimento íntimo” de que falaria logo mais
Machado de Assis, e recentemente José Lins do Rego, que não fosse
simplesmente a “cor local”, a exaltação da natureza, a sensualidade e o
patriotismo37 38.
Podemos rastrear reflexões teóricas e posições polêmicas de poetas,

37 V. “Advertência" em apêndice no capítulo I, “Conceito de Literatura Brasileira".


38 Machado de Assis (Joaquim Maria), Crítica Literária, Rio de Janeiro, Jackson, 1955, p. 135- Nos nossos dias, José
Lins do Rego escreveria em um de seus comentários críticos reunidos em Bota de Sete Léguas (Rio de Janeiro, A
Noite, 1952, p. 195): “(...] Para Eliot os maiores poetas, aqueles que têm uma importância internacional ou
universal, são todos locais. Porque quanto mais são eles da
CAPÍTULO IV

mancistas, ensaístas, críticos militantes - sem falar nos pesquisadores,


ógrafos e historiadores - através de prefácios, artigos e ensaios divulgais
em livros, revistas e jornais. Correspondem, no Período Colonial, às
anifcstações do Barroco, do Neoclassicismo e Pré-romantismo, ampli- rt-sc
no século XIX, com o Romantismo principalmente, e assim pros- guem com
o Modernismo. Esboçaremos o roteiro dessa seqiiência, à edida que se
processam as transformações históricas nos espaços indi- dos e de maneira
a delineá-la como uma das coordenadas de unidade i Literatura Brasileira.
***
Do período colonial a princípios do século XIX, é possível reconhe- r
reflexões sobre poética e orientação crítica, mesmo que sob a dependida
preponderante das posições externas. Provenientes de Portugal »Ionizador,
da Espanha e da Itália, apóiam-se em princípios, às vezes dtos, das “artes
poéticas” de origem clássica e se relacionam com o ccenatismo literário.
Reconhecemo-las em alguns autores, a rigor iso- dos no nosso espaço
geográfico: Bento Teixeira, Manuel Botelho de 'liveira, Domingos do Loreto
Couto, Cláudio Manuel da Costa, Ma- jel Inácio da Silva Alvarenga, José
Basilio da Gama, em participantes a “movimento academicista” e em
poetas dos antecedentes imediatos do omantismo, neoclássicos, do
primeiro quartel do século XIX.

Bento Teixeira. Entrevemos na obra de Bento Teixeira - o poemeto


rosopopéia (1601) — uma referência à Arte Poética de Horácio e crítica

terra natal, de seu povo, de sua língua nacional, mais são eles poetas eternos [...] E Eliot conclui: O lato é que um
poeta, se ele não é um grande poeta cm seu país, não será grande poeta em parte nenhuma”. Acresccnte-se, ainda
de José Lins do Rego, a propósito de Charles Vildrac e a discussão, na França, em torno do romance proletário:
“Vildrac, no entanto, insurgiu-se contra o evangelismo de Itarbussc para afirmar que a arte vai mais além da
pátria ou da classe (...) tudo que lhe revele qualquer coisa do mundo é obra que fica, pouco lhe importando o
local ou a qualidade das criaturas cvoi.idas, desde que a evocação seja autêntica e que comova. Assim, tudo que
sai do povo é vivo e palpitante e i arrega a seiva que vem das entranhas da terra e da gente” (v. Homens, Seres e
Coisas, Rio d. laurirn, MEC Serviço de Documentação, 1952, pp. 42-43).
ao estilo mitológico, não obstante a tentativa que ele mesmo fez de trans-
plantação do universo mitológico para a paisagem americana. Ressalte-se
também o caráter encomiástico do poemeto, dedicado a um nobre pode-
roso e escrito em seu louvor, procedimento geral, corrente por muito
tempo, mas contestado a certa altura.
O preceito horaciano aconselhava que, antes do desenho definitivo, o
poeta fizesse uni debuxo, escrevesse um rascunho, para depois refazê- lo
lentamente39. Admitimos que Bento Teixeira encontrava um apoio, embora
desvirtuasse seu verdadeiro sentido, para justificar a irregularidade, as
insuficiências e o caráter de obra inacabada, que é a Prosopopéia. Com
semelhante justificativa que se lê no prólogo e mais de uma vez no contexto
do poemeto40, evidencia-se uma formação literária falha, embora o poeta se
comprometa com o clássico, tanto pelo modelo camoniano, que
pretensiosamente corrige, quanto por contradição. Considera a mitologia
um “vão estudo”, opõe os deuses mitológicos ao Deus do cristianismo41,
mas termina adotando o estilo mitológico, ao atribuir a Proteu a
%
função de narrador dos acontecimentos perante uma assembleia de deuses
situada em recifes de Pernambuco. Poderíamos a propósito levantar a
hipótese da relação desta atitude com a condição de cristão novo, de Bento
Teixeira42. De qualquer forma, ele se antecipava à posição de princípios do
século XIX, com Frei Francisco de S. Carlos e logo depois à de Gonçalves de
Magalhães, quer dizer, de repúdio ao estilo mitológico.

Posições barrocas. O que pode aproximar o poeta seguinte, Manuel


Botelho de Oliveira (século XVII ao XVIII) de seu antecessor Bento Teixeira
é a preocupação com certos preceitos poéticos e com os compromissos
encomiásticos que ambos assumem. Porque, não resta dúvida, as idades de

39 Bento Teixeira, Prosopopéia, ed. cit. da Academia Brasileira, p. 22; e v. nota 15, a seguir.
40 Idem, pp. 22-23.
41 Idem, p. 27.
42 V. J. Galante de Sousa, Em torno do Poeta Bento Teixeira, São Paulo, IEB-USP, 1972; e Luís Roberto Alves,
Confissão, Poesia e Inquisição, dissertação de mestrado no Departamento de Lingüística c Letras Orientais,
USP, texto datilografado, 1977.
Manuel Botelho de Oliveira são superiores. Ele foi porta- de pensamento
crítico importante sobre o estilo dominante, o Bar- i, conjuntamente com a
consciência de sua posição na atividade lite- i que se esboçava no Brasil. Na
dedicatória da Música do Parnasso )S), dirigida a um nobre da época, Dom
Nuno Alvares Pereira de o, Duque de Cadaval, e no “Prólogo ao Leitor”
está bem definido o cdimento indicado7. E isso sem contar com o contexto
da obra, npanhada de duas comédias — “Hay Amigo para Amigo e Amor,
años y Celos” —, escritas de acordo com o modelo da “Comedia /a", dado
por Lope de Vega8.
Manuel Botelho de Oliveira principia com um rápido esboço das ¡situdes
da poesia: desde a Grécia com Homero, Roma antiga com ;ílio e Ovídio, até
a Itália com Tasso e Marino. Também a Espanha Lope de Vega e “o culto
Gôngora”, merecedor de “extravagante es- ição”, e Portugal com Camões,
Jorge Monte-Maior e Gabriel Pe- i de Castro. Evidenciam-se fontes ou
modelos preferidos. O poeta aproxima desses antecedentes, observando
que a “inculta habitação gamente de Bárbaros índios”, onde “mal se podia
esperar que as as se fizessem Brasileiras”, contava já em princípios do
século XVIII muitos poetas que imitavam os da Itália e Espanha. Manifesta
cônscia crítica que leva a reconhecer no Brasil - barroco e academicista
éculo XVII para o XVIII - condições de cultivar a literatura. Tan- ¡sim que
ele mesmo diz ter resolvido divulgar a sua obra “para ao os ser o primeiro
filho do Brasil, que faça pública a suavidade do •o Declaração que nos
remete ao problema da nacíonalida-
ívil do escritor, antecipando discussões do século XIX, voltada para

Manuel Botelho de Oliveira, Música do Parnasso - A Ilha de Maré, Academia Brasileira, pp. 49- (deilii .uória ao
Excelentíssimo Senhor D. Nuno Alvares Pereira de Melo, Duque de Cadaval) e 57 NH ("Prólogo ao Leitor”).
laipc d< Vcp,.i, Arte Nueva de Hacer Comedias - La Discreta Enamorada, 2. ed., Buenos Aircs- ‘nlio, I ip.iv.,1 ( alpe
Argentina, 1948, pp. 11-19. mm I Boi> llm de ( Xivcira, op. cit., p. 51.

KlIl il lAl 1 I» I 1hl lln r\n /M l f \ nl lÚA rvO A I A


o critério de levantamento de autores e obras dos três séculos do Brasil
Colonia43 44.
Quanto à atitude encomiástica - em Manuel Botelho de Oliveira mais
do que em Bento Teixeira —, não foi somente expressão de servilismo, vi-
sava também a afugentar detratores da obra, preservando-lhe o valor:

[...] Por isso encolhido em minha desconfiança, e temeroso de minha insuficiência, me


pareceu logo preciso valer-me de algum Herói, que me alentasse em tão justo temor, e me
segurasse em tão racionável receio, para que nem a obra fosse alvo de calúnias, nem seu autor
despojo de Zoilos, cuja malícia costuma tiranizar a ambos, mais por impulso da inveja que por
arbítrio da razão para segurança pois destes perigos solicito o amparo de Vossa Excelência, em
quem venero relevantes prerrogativas para semelhante patrocínio; [...]1 ’.

E ninguém em pleno absolutismo ousaria desmerecer o que se fazia


digno de nome poderoso.
No “Prólogo ao Leitor” da Música do Parnasso, o autor dá conta do
conceito então vigente dç valorização formal da poesia, que ele definia
como “um canto Poético, ligando-se às vozes com certas medidas para
consonâncias do metro” 45. A parte temática, em certo sentido, era um
denominador comum, universal. Portanto, continha-se a inspiração, a
experiência pessoal reduzia-se a uma expressão metafórica generalizada. Se
a essa temática, um tanto estereotipada, ele acrescentava outros “vários
assuntos”46, e escrevia em quatro línguas, era porque visava ao des-

43 José Veríssimo, ao colocar o problema da “nacionalidade literária”, prende-se a três critérios: primeiro, o da
distinção entre o Período Colonial e o Período Nacional, este, da Independência em dianre; segundo, o do
nascimento, que não se dissocia do sentimento nacional correspondente, donde excluir todos os
estrangeiros que aqui exerceram atividade literária; e, terceiro, relacionando o primeiro com o segundo
critério, a afirmação seguinte, referindo-se naturalmente à Literatura Brasileira: “No seu primeiro período
ela é a dos escritores portugueses nascidos no Brasil, no segundo dos escritores brasileiros de nascimento e
atividade literária” (op. cit., pp. 15-16). Mas o problema vem desde princípios do século XIX para atingir
Sílvio Romero e o citado José Veríssimo, dos quais se projeta ainda nos nossos dias, conforme veremos no
momento oportuno.
44 Manuel Botelho de Oliveira, op. cit., p. 51.
45 Idem, p. 57.
46 Idem, p. 57-58, onde se Ic: “!...] No princípio celebra-se uma dama com o nome de Anarda, estilo antigo de
alguns Poetas, porque melhor se exprimem os afetos amorosos com experiências próprias:
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duai Comediatt
FFER EGIDA
NTISSIMO SENHOR DOMNUNO yn dt Mrllo ,
Duquc do Cadaval, &c.
E E N T O A D A
AM MOR MANOEL BOTELHO
veyra,FidilgodaCaza de Sua
Magesladc.
L I S B O A .

Pàgina de rosto de A Mùsica do


Parnaso.

o, ao mesmo tempo que demonstrava “a notícia, que tinha de toda esia”, e


porque desejava que se estimasse a sua obra “quando não ■ pela elegância
dos conceitos, ao menos pela multiplicidade das lín- "M. Também, ao anexar
duas comedias à Música do Parnasso, pre- ia “que participasse este livro de
toda a composição poética”. Re- irma-se a compreensão
predominantemente formal ou a importância irtim porque não parecesse fastidioso o

objeto, se agregaram ourras Rimas a vários assuntos: e as- n como a natureza se preza da variedade para a

formosura das cousas criadas, assim também o irndímrnto a deseja, para tirar o tédio da lição dos livros”.
'rm. pp, S7-SB.
que então se dava à estrutura da composição literária. São normas e ati-
tudes próprias do estilo a que se prende, o Barroco, e dos modelos se-
guidos. Sob esse aspecto o poeta adquire relevo em sua época: demonstra
em primeira mão, com reflexões de valor crítico e realização, um aspecto da
poesia barroca, a ser relacionada com a que foi executada nas academias do
século XVIII.

2. POETAS SEISCENTISTAS

Bento Teixeira, de fins do século XVI para princípios do seguinte, em


Recife, é uma figura isolada e não pode ser considerada precursora ou
iniciadora, em detrimento da importância de Anchieta. Conforme vimos,
seu objetivo foi homenagear o segundo donatário da capitania de
Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho, homem também dado à vida
intelectual, contemporâneo do poeta. Mas a ação administrativa e a
pacificação de lutas entre colonizadores e índios da parte do homenageado
e louvado ainda eram matéria insuficiente para as intenções do poeta47. Ele,
contudo, pode ser apontado como nossa primeira expressão literária de
influência camoniana, no verso, na estrofação, nas soluções mitológicas e
do maravilhoso da poesia épica, embora sem grandeza e sob uma
estruturação irregular e inconsistente. Foi assim mesmo o primeiro a
documentar a influência clássica quinhentista, além das veleidades críticas
já referidas. De qualquer maneira, ele se insere na história literária em
posição retomada pela poesia do movimento academicista e também por
árcades ou neoclássicos.
Salvador, por sua vez, amplia as condições de atividades literárias, em
que se destacam, neste século XVII, entre outros, Gregorio de Matos e

47 Bento Teixeira, Prosopopéia, reprodução fiel da edição de 1601 segundo o exemplar existente na Biblioteca
Nacional e Pública do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Tipografia Imperial Instituto Artístico, 1873 (ed. de
Ramiz Galvão); “Bento Teixeira Pinto [...] e aProsopopéia , Revista de História de Pernambuco, Recife, ano I,
agosto de 1927, n. 1 ; Prosopopéia, Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1923 (sobre o problema
biobibliográfico que envolve o poeta e sua obra, v. J. Galante de Sousa, Em torno do Poeta Bento Teixeira, São
Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros-USP, 1972).
iiicrra, Manuel Botelho de Oliveira e Frei Manuel de Santa Maria aparica,
além da oratória religiosa e do academicismo que então princi- ia. Mas não
podemos pensar em grupo literário. Eles atuam quase que ncessiva e
isoladamente, destacando-se Gregório de Matos a ser conside- ido figura-
síntese do seu século, ao lado do Pe. Antônio Vieira, prosador.
Manuel Botelho de Oliveira apresenta-se com uma dupla impor- Incia:
a das preocupações poéticas sobre aspectos formais da poesia da poca, já
ressaltada; e a do ajustamento de linguagem cultista à expresso nativista,
independentemente da temática barroca. O nativismo des- ritivo do poeta,
exaltando e louvando as coisas da terra e a natureza, ncontra antecedentes
na prosa informativo-descritiva. O traço de sen- ualidade nele se excede por
força do estilo literário a que se prende. Lpresenta nesse sentido a
composição “Silva à Ilha de Maré”, responsá- el pelo renome do poeta e até
em detrimento do restante da sua obra, nde melhor reconhecemos
compromissos barrocos: a fugacidade dos entimentos e da beleza ou a
transitoriedade da vida e a exploração de ímbolos como o da rosa,
expressos com acentuada habilidade formal em |uatro línguas - português,
espanhol, italiano e latim. Acrescentem-se quelas duas comédias em
espanhol16, sob o modelo da “comedia nueva” le Lope de Vega, ampliando
a influência literária espanhola entre nós, i remarcável na obra de Gregório
de Matos. Completa-se sua expres- ão barroca com a inspiração religiosa
das composições até há pouco iné- litas sob o título de Sacra. Itaparica
seguiria igualmente a linha de poe- ia de sentimento e de inspiração
religiosa, escrevendo o poema sobre a ida de Santo Eustáquio, ao qual se
juntou também uma silva descriti-

6. Mainici Botelho de Oliveira, Música do Pamasso - A Ilha de Maré. Rio de Janeiro, Academia Brasileira
(reproduz apenas as poesias em português da 1. ed. de 1705);Música do Pamasso, Rio de Janeiro, Instituto
Nacional do Livro-MEC, 1953, 2 tomos, prefácio e organização do texto por Antenor Nascente. A edição
prínceps, em um só volume, traz como título completo: Música do Pai nano/ dividida em quatro coros/ de rimas/
Portuguesas, Castelha/ nas, Italianas, & Latinas/ Com ieu deu,mie comico reduzi/do em duas Comédias,/ oferecida!
[etc.]. São títulos das comédias, escritas i in espanhol! I lay Amigo para Amigo” e “Amor, Engafios, y Celos”.
De publicação recente é Lyra S a, hi, San I 'nulo, < ’onselho Estadual de Cultura, 1971; leitura paleogràfica
de Heitor Martins.
va inspirada na ilha de Itaparica, paralela à da ilha de Maré, situadas no
Recôncavo Baiano48.
O cultismo de Manuel Botelho de Oliveira talvez deva ser pensado
como uma postura assumida, em que os ideais do homem barroco e suas
contradições, tomados como conteúdo, cedem lugar às preocupações for-
mais. Sua atitude não corresponderia à inquietação e à projeção sensua-
lista como visão do mundo, que revelaria no escritor barroco o homem
barroco, interdependência que é uma das características da poesia de
Gregório de Matos. Este, retornando ao Brasil depois de sua formação em
Coimbra, marcado pela influência de Gôngora e Quevedo, enfrentaria um
desajustamento que acentua as contradições e conturbaçÕes do seu
temperamento. Oporia, assim, a expressão lírica, amorosa e religiosa do
mais alto nível e inspiração à agressão e ao deboche da sátira social e
individual. Sua glória se fez de satírico, mas é pelo confronto contrastivo
desta expressão poética com a lírica amorosa e religiosa que ele deve ser
projetado como o maior poeta barroco da língua portuguesa 49.
O caso de Gregório de Matos é paralelo, embora substancialmente
diferente em atitude, ao do Pe. Antônio Vieira: ambos são escritores de

48 Frei M. de Santa Maria Itaparica, Eustachidos. Poema sacro, e tragicomico, Em que se contem A Vida de Sto
Eustachio Martyr, chamado antes Plácido, E de sua Mulher, e Filhos. Por hum anonymo. Natural da Ilha de
Itaparica, termo Da Cidade da Bahia... Dado à luz por hum devoto do santo. [s. n. t.]; conte!m, a partir da p. 105, a
“Descrição da ilha de Itaparica, termo da cidade da Bahia, da qual se faz menção no Canto quinto”, cf.
Rubens Borba de Moraes, Bibliografia Brasileira do Periodo Colonial, São Paulo, Instituto de Estudos
Brasileiros-USP, 1969, p. 195, em que faz referência a outras composições poéticas do autor em Relação
Panegírica... de João Borges de Barros. Francisco Adolfo Varnhagen reproduz o poemeto descritivo em
Florilégio da Poesia Brasileira, 2. ed., Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1946, 3 tomos, t. I, pp. 197-216-226.
49 O poeta ainda aguarda uma edição crítica de sua obra (Guilhermino César vinha trabalhando neste sentido),
indispensável à exata e desapaixonada análise crítica, não obstante o louvável esforço de James Amado, cm
edição sob o título Crónica do Viver Baiano Seiscentista Feita em Verso Intitulada Obras Completas de Gregório de
Matos - Sacra - Lírica - Satírica — Burlesca, Salvador, Janaína, 1968, 7 vols.; v. também Obras de Gregório de
Matos, Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1923, 1929, 1930, 1933, 6 vols., I: Sacra, 11: Lírica, III: Graciosa, IV-
V: Satírica, VI: Última. Fernando Percz divulgou os resultados de suas pesquisas sobre o poeta, cujo nome
correto é Gregório de Mattos e Guerra: Os Filhos de Gregório de Mattos e Guerra, Salvador, Centro de Estudos
Baianos, 1969; “Documentos para uma Biografia de Gregório de Mattos e Guerra”, em Ocidente, Lisboa, v.
LXXVI, 1969, pp. 194-201; e Gregório de Mattos e Guerra: Uma Re-visão Biográfica, Salvador, Macunaíma, 1983.
Capa de um dos
apócrifos do poeta.

'~^JJariaspc>c2¿¿b.
'ComoojlajmUjame^r
^Joclai cinJLani poda dons
JSafcadt^ÜYLfí sjipddtJAsJoj yrd
lurUdxÇieJTÍ Volume pelili CacriOJOenríanCom
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rulli iftContetrr.

F^fiu
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dJcêtÁa
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'/

cnoatmoi£*•> Capa da Crònica do Viver Baiano (obras


completas) de Gregório de Matos e
Guerra, edição de James Amado,
tìlino Salvador, Janaina, 1968, reproduzindo
r>V>~ página inicial de um dos apócrifos do
poeta.
Portugal, como são do barroco hispánico e do Brasil. Mas é o primeiro
quem nos exemplifica modelarmente não apenas a sobreposição, também o
início da interação dos fluxos inspiradores de fora para dentro do contexto
da sociedade colonial, como Anchieta havia pressentido no sé- culo XVI.
Nesse caso, pesa consideravelmente a linguagem do poeta satírico. Na
linha de crítica social, caminha do improviso à elaboração literária, da
originalidade à paráfrase e verdadeira tradução livre de Quevedo ajustada
ao contexto social baiano. Em muitos casos, ressalta as formas flexíveis com
versos de fácil dicção em relação com o contexto inspirador e receptor.
Crítica aguda e desnuda, atinge o reinol, o “brasileiro”, brancos, negros e
mulatos, o clero como os mandatários, nivelando-os sem distinção,
anulando assim fatores de complexos que os “brasileiros” alimentavam -
como não obstante continuariam a alimentar - exaltações do nativismo
descritivo e louvores às autoridades. Também exprimiria as frustrações e
revoltas do homem, isto é, dele Gregorio de Matos, que não se readaptou
ao meio de origem, num processo de desajustamento que atinge as raias do
seu famigerado desregramento. De qualquer forma, chegaria a sofrer, por
um lado, a reação punitiva da autoridade colonial, em virtude da rebeldia
emancipadora - às avessas - de e contra uma sociedade que idealizaria
diferentemente. Por outro lado, o poeta acentuava a força, a elevação e a
beleza do lirismo amoroso e religioso. Expresso em formas já consagradas
da poesia portuguesa, a partir do soneto camoniano, traduziria, no
tratamento temático, os procedimentos barrocos: instabilidade e
transitoriedade dos valores e desejos humanos; reconhecimento, nos limites
da existência material, da supremacia de exigências e solicitações da
condição humana, mas sob a esperança da bem-aventurança no reino
espiritual, além morte; em suma, a confiança que o homem alimentaria,
mergulhado assim nas suas fraquezas, de ser redimido pela bênção e pelo
perdão incansavelmente concedido pela infinita compreensão, bondade e
tolerância de um Deus, que complacentemente o assistia aqui e o
aguardava em seu seio. O satírico que se degrada com o meio social, ao
mesmo tempo que o critica, e o lírico que se reabilita espiritualmente
marcariam, portanto, com fundamento na conduta pessoal e na formação
intelectual, o dualismo contraditório que caracterizaria a personalidade e a
obra literária de Gregorio de Matos. Acrescente-se- Ihc o que representa
reação ao nativismo, e se justifica que ele seja distinguido como figura-
síntese do nosso século XVII.

3. A ORATÓRIA RELIGIOSA

É de relativa fortuna, com acentuada importância nos três séculos da


nossa formação colonial, dado o papel que a Igreja representou neste
período, destacadamente a Companhia de Jesus, a contar de Anchieta.
Sendo então a oratória religiosa ou o púlpito católico um dos veículos mais
combativos e de grande poder de irradiação e influência, desenvolveu-se,
na própria Companhia de Jesus, uma teoria da parenética jesuítica, da qual
o Pe. Antônio Vieira seria, no século XVII, não só o seu principal expositor
em língua portuguesa como igualmente o seu maior modelo. Nesse
contexto, a ação do jesuíta-missionário, no Brasil, do político-diplomata na
Corte portuguesa e além-fronteiras - considere-se a sua posição na questão
do domínio holandês no Brasil —, defensor dos cristãos- novos e vítima da
Inquisição, confunde-se com a obra do pregador e do missivista 19. E ainda
teve tempo suficiente para o aprimoramento das suas qualidades literárias
- estilísticas e retóricas, sob a cerrada lógica do conceptismo barroco. Esse
envolvimento com o momento nos limites duplos ou múltiplos de seu
campo de ação - Brasil, Portugal e outros países da Europa - se fez em
função da sua formação e do compromisso com a Companhia de Jesus,
voltados para objetivos universais da Igreja. Por tudo isso, o Pe. Antônio
Vieira, enquanto jesuíta é ao mesmo tempo o exemplo mais significativo e
evidente de escritor que se reparte e o é

I'1 I'' AncAnlo Vieira, Sermões, reprodução fac-similada, organizada pelo Pe. Augusto Mague, São Piiulu, Aiulmt.i
(1943-1945) e Cartas, coordenadas e anotadas por J. Lúcio d’Azevedo, Coimbra, Imph nvi d.i Universidade.
1925, 1928, 1928, 3 vols.
Cf. Serafim Leite, História da
Companhia de Jesus no Brasil[ Rio de
Janeiro/Lisboa, INL/ 1’ortugalia,
1943, t. 4.

indistintamente de
Portugal, do Brasil
Colónia e da
Companhia de Jesus,
com a particularidade
de ser um clássico da
língua portuguesa.
Como pregador,
modelo da oratória
conceptista, irradia sua
influência e exige
confronto com outros
pregadores do século
XVII ao XVIII no Brasil
Colónia, notadamente
da sua época, com Frei Eusébio de Matos, na Bahia, e o Pe. Antônio de Sá,
no Rio de Janeiro. Mas o clássico da língua se projetaria mais longe. Depois
do período romântico — quando, entre nós, um Frei Francisco de Monte-
Alverne, como este mesmo o confessa, buscaria modelos franceses50 -, o Pe.
Antônio Vieira atingirá o último

50 V. Fr. Francisco de Monte Alverne, Obras Oratórias, nova edição, Rio de Janeiro, Garnier, s. d., 2 tomos. No
“Discurso Preliminar” (t. I, pp. V-XX), observa Monte Alverne: “[...] entregando-se i
dos nossos grandes oradores, Rui Barbosa, de reconhecido nível literário,
ostensivamente preocupado com a pureza da língua.

4. Os CRONISTAS

São exemplos três figuras de prosadores de princípios do século XVII:


Ambrosio Fernandes Brandão, em Pernambuco; Frei Vicente do Salvador,
na Bahia; e o Pe. Simão de Vasconcelos, da Companhia de Je- sus. Ainda
ligada a Pernambuco há a crónica da dominação holandesa.
O primeiro, autor admitido dos Diálogos das Grandezas do Brasil, ileixou
sua obra inédita21. Escreveu-a em forma dialogada, cujos interlocutores
representam: um, o português fixado na terra, conhecedor dela, de suas
possibilidades, do comportamento do colonizador com seus interesses
imediatistas de exploração; o outro, portador da curiosidade do recém-
chegado, comenta e, direta ou indiretamente, também critica o pro-
cedimento do colonizador que, mal fixado na terra, não sabe ou não quer
iproveitar os recursos naturais de sobrevivência e bem-estar que ela lhe
proporciona. Procedem, comparativamente com as coisas de Portugal ou
.la Europa, exaltando as de cá. E o ponto de partida de suas observações
reflete mesmo uma visão profética:

...) um astrólogo [diz o primeiro interlocutor, Brandônio] achara que a terra nova- ncnte
descoberta havia de ser uma opulenta província, refugio e abrigo da gente por- uguesa...

cultura da eloquência, o jovem orador brasileiro era condenado a ficar na obscuridade, estudando os
oradores portugueses, cujos sermonários eram comuns entre nós; ou procurar na leitura dos pregadores
franceses as inspirações, de que carecia para ilustrar o seu espírito, e abrilhantar seus discursos. Havia
porém neste estudo um grande inconveniente; c era a corrupção da língua portuguesa. I i i preciso
responder à glória, que nos chamava; era possível abnegar os pundunores do amor-pró- prio; convinha
ceder ao nosso entusiasmo. Não havia tempo para ler Freire de Andrade, estudar F. 1 uís de Sousa, c o Padre
Antônio Vieira” (p. XII).
1 1 Anthiósio Fernandcs Brandão (séculos XVI-XV11), Diálogos das Grandezas do Brasil, 2. ed. inte- gl il M gundo o
apógrafo de Leiden, aumentada por José Antônio Gonsalves de Mello, Recife, Im- piensa Universitária,
A
1966, pp. 11-12. (Sobre o problema de autoria que envolve essa obra, v. I I ii In > di is Santos Ramos,
Autoria dos Diálogos das Grandezas do Brasil, Recife, Imprensa Ofi- i ial, l'M6, separata da Revista do
Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco.)

\ I UNHAÇOESi O I PERIODO OU O PERÍODO COLONIAL


ao que retruca o segundo interlocutor, Alviano:

Não permita Deus que padeça a nação portuguesa tantos danos que venha o Brasil a
ser o seu refúgio e amparo.

E Brandônio, falando de jardins e pomares, ouviria de Alviano:

Se isso é assim, e se pode fazer desse modo, confessarei que lhes ficam inferiores os
jardins lavrados e cultivados a tanto custo no nosso Portugal, pois não vejo lá haja mais castas
de fruto de espinho do que tendes apontado51.

A linguagem, marcada por certa objetividade informativa, quebra a


sua monotonia, em casos semelhantes, pelos apostos caracterizadores das
qualidades e virtudes das coisas descritas, para as quais se dão nomes in-
dígenas ou batismos portugueses num processo de incorporação de um
novo vocabulário:

(...] camacarim apropriado para taboada; outro pau chamado d’arco, porque se fazem dele muita
fortaleza e rigidão; aflbucai também muito estimado para eixos de engenhos e estearia;
canafistula, de cor parda; camará, rigidíssimo, e por esse respeito assaz estimado; pau-ferro, que
lhe deram este nome por ser igual a ele em fortaleza52.

E a comparação com similares conhecidos de além-mar também é


uma maneira de definir, para orientar o uso, como agora neste trecho de
Frei Vicente do Salvador:

Mucurandubas, que é a madeira mais ordinária de que fazem as traves e todo o


mantimento das casas, por ser quase incorruptível; seu fruto é como cerejas, maior e mais
doce, mas lança de si leite como os figos mal maduros53.

Assim, marcada pelas descrições das coisas da terra, a obra de Frei


Vicente do Salvador desdobra e até mesmo corrige a obra de Ambròsio

51 Idem, p. 143.
52 Idem, p. 108 (as palavras grifadas são do próprio texto).
53 Frei Vicente do Salvador, História do Brasil - 1500-1627, 3. ed. rev. por Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia,
São Paulo, Melhoramentos, s. d., p. 32

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I dlvAo revista por Oapistrano de Abreu e Rodolfo ( iareia, I


sta obra, concluída em 1627, teve sua piiim iia pul)lica<,Ao
nos Anuis du Biblioteca Nacional: IBMs IBH6, Rio de Janeiro, I »88,
vol. 13.
h RE!
Fernandes Brandão. VICE* TE
Muito DO SALVADOR
mais ampla e totalizante, também é história:
partindo da apresentação da terra, de excelentes possibilidades de cultivo
conjuntamente com as de exploração de recursos naturais, além das pers-
pectivas de sobrevivência saudável e farta, Frei Vicente do Salvador escreve
sobretudo a nossa história, quer dizer, a história da colonização desde o
descobrimento à invasão holandesa. E não disfarça a crítica às ambições e
erros da política colonizadora, defendendo, como então já propusera
Ambrosio Fernandes Brandão, o desenvolvimento do Brasil Colónia e os
interesses dos que aqui se haviam fixado e dos seus descendentes.
Se retroagirmos à visão histórica do século XVI, a obra de Ambrosio
Fernandes Brandão limita-se à perspectiva sua contemporânea, enquanto a
de Frei Vicente do Salvador abrange das nossas origens a princípios do
século XVII. Podemos considerá-la ampliada com as obras do Pe. Simão de
Vasconcelos - Crónica da Companhia de Jesus e Vida do Venerável Padre José de
Anchieta1’’, voltadas, evidentemente, para a ação no Brasil da Companhia de
Jesus.
Contamos, portanto, com a contribuição de obras de cronistas por-
tugueses, de jesuítas (e de estrangeiros) que escreveram sobre o Brasil,
desde o século XVI. De início, entrevemos as observações de adventícios
que acabavam de chegar; mas progressivamente eles a ampliariam com a
experiência da aventura e da conquista da colonização, duplamente
marcada pela exploração da terra com a utilização do índio e pela catequese
e defesa deste contra a escravização. E a partir de princípios do século XVII,
com os três nomes acima destacados, o que prossegue é marcado pelas
transformações das perspectivas entrevistas. Exprime-se a consciência que
se formaria da permanência do colonizador na terra e, ainda mais, o
conseqiiente conformismo dele com a continuidade da obra 54

54 Pe. Simão de Vasconcelos (século XVII), Crónica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil\ 2. cd. cor. e aum.,
Lisboa, Fernandes Lopes, 1865, 2 vols. (1. ed. de 1663);Vida do Venerável Pe. José de Ancbieta, ed. de Serafim
Leite, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1943, 2 vols. Na primeira obra, publica-se pela primeira vez, em
1663, o poema de Anchieta, Jesus Maria - De Beata Vtrgine Dei Matre Maria (vol. 2, pp. 139-274-8).
História da América Portuguesa.
de colonização e exploração, não obstante aqueles que vinham com a
intenção de retornar. E entre os que vinham aceitando a fatalidade da
permanência e os que se alimentavam da esperança do retorno, se
estabeleceria certa distinção, compensada pela valorização das nossas
coisas em comparação com similares de além-mar. Alimentava-se, então,
uma visão interna, de efeito retroativo, para compor-se aos poucos a nossa
própria história, da qual os primeiros exemplos marcantes foram Ambrosio
Fernandes Brandão, Frei Vicente do Salvador e o Pe. Simão de Vasconcelos.
Contadas outras contribuições do século XVII, seja a crítica contida
nos sermões e na correspondência do Pe. Antônio Vieira, seja a crónica da
guerra holandesa de um Frei Manuel Calado - O Valeroso Lucideno55, exprime-
se logo mais um sentimento de luso-brasileirismo paralelamente com as
posições que acabamos de esboçar. Trata-se de um falso equilíbrio de
posições - internas e externas, do brasileiro em formação e do reinol e
mandatário, traduzida em princípios do século XVIII por Sebastião da
Rocha Pita.
Com a História da América Portuguesa, desdobra modelos anteriores:
descrição informativa da terra e narrativa dos acontecimentos históricos do
descobrimento a princípios do século XVIII. Mas o espírito que impregna
essa obra gera aquele falso equilíbrio: traduz a transformação na maneira
de ver e apreciar, não propriamente na de criticar. Em primeiro lugar, o
louvor exagerado da visão material da paisagem e da terra, das suas
possibilidades incomensuráveis, superafeta o nativismo de des-

55 Frei Manuel Calado, O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade, primeira parte, 2. ed., São Paulo, Cultura,
1945, 2 vols. Esta foi a única parte da obra publicada pela primeira vez em 1648. Sabe- sc que o autor, antes
de morrer, já tinha pronta para publicação a segunda parte, a qual, contudo, permanece desconhecida. A
publicação da Cultura, dada como “2. ed.”, é na verdade a terceira, sendo a segunda de 1668, conforme
Alfredo de Carvalho, op. cit., pp. 274-275. O texto da obra alterna prosa c verso. V. ainda Fr. Rafael de Jesus,
Castrioto Lusitano ou História da Guerra entre o Hrasil e a Holanda, durante os Anos de 1624 a 1654,... Obra em
que se descrevem os beróicos feitos de loão Fernandes Vieira... Nova edição segundo a de 1679..., Paris, Aillaud,
1844. E Gaspar Bailéu, História dos Fritos Recentemente Praticados durante Oito Anos no Brasil e noutras partes
sob o governo do ilustríssimo lodo Maurício conde de Nassau \etc...\, tradução e anotações de Cláudio Brandão,
Rio ile lanclro, Ministério da Educação, 1960. A primeira edição data de 1647.
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XA OFPICINA DE JOSEPH ANTONIO DA SILVA,
ImprOMor itn Academia Real

M.ÜOC.XXX.

Com todas as Hcençat nctvsiarias.

crição e valorização objetivas, apesar dos traços de deslumbramento já


observados a propósito das reações dos impactos iniciais. E além do
subjetivismo a posição de Rocha Pita seria agravada pelo estilo barroco.
Em segundo lugar, no relato do que poderia ter sido história interna, ele
tende muito mais para a visão externa, isto é, escreve-a muito mais do
ponto de vista lusista do que americanista. Ele pensa, conforme se intitula a
sua história, é na “América Portuguesa”, realização louvada do colo-
nizador, destituída daquela visão crítica prenunciada anteriormente e de
maneira acentuada em Frei Vicente do Salvador. Mas não consideramos
recuo: é, na verdade, o oposto da face da moeda apresentada por este úl-
timo - cronista franciscano de princípios do século XVII, estimulado então
por outras posições do século XVI. Rocha Pita nos apresenta mes-
História da América Portuguesa.

lo um anverso ofuscante: a sua linguagem, caracterizada pelos períodos


mgos numa torrente de informações comparativas e de alusões eruditas,
colorida, luminosa, bem o exemplo do mais exagerado preciosismo e
udição da prosa barroca da época, com marca profunda na nossa ma- cira
posterior de ver e sentir o Brasil - o neíasto ufanismo do século XIX:

Em nenhuma outra região se mostra o Céu mais sereno, nem madruga mais bela
Aurora: Sol em nenhum outro Hemisfério tem os raios tão dourados, nem os refle- >s
noturnos tão brilhantes: as Estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre ale- cs: os
horizontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros: as águas, ou se unem nas
fontes pelos campos, ou dentro das Povoações nos aquedutos, são as mais iras: é enfim o
Brasil Terreal Paraíso descoberto, onde tem nascimento, e curso os aiores rios; domina
salutífero clima; influem benignos Astros, e respiram auras lavíssimas, que o fazem fértil, e
povoado de inúmeros habitadores, posto que por fi- ir debaixo da Tórrida Zona, o
desacreditassem, e dessem por inabalável Aristóteles, ínio e Cícero, e com Gentios os Padres
da Igreja Santo Agostinho, e Beda, que a rcm experiência deste feliz Orbe, seria famoso
assunto das suas elevadas penas, aon- ' a minha receia voar, posto que o amor da Pátria me
dê asas, e a sua grandeza me late a esfera" .

Sc esta foi a posição de Sebastião da Rocha Pita, a seguir outros re-


>marão a linha anterior já voltada para as distinções internas.

, O MOVIMENTO ACADEMICISTA

Entre os poetas, de Bento Teixeira, Gregório de Matos, Manuel otelho


de Oliveira a Itaparica e a poesia neoclássica e arcàdica da se- inda
metade do século XVIII para o XIX, situa-se o movimento aca-

Sebastião da Rocha Pita, História ria América Portuguesa, desde o ano de mile quinhentos, do seu descobrimento, até o de mil
e setecentos e vinte e quatro, 2. ed., Salvador, Imprensa Económica, 1878, pp. 3-4. Editada pela primeira vez em
1730, já na época se falou com certa reserva do seu caráter panegírico. Assim o diz Antônio Rodrigues da
Costa, da Academia Real da História Portuguesa, cm parecer sobre a obra: “[...| e ainda que me parece
mais elogio ou panegírico, que História, não entendo, que desmerece o Autor” (no início das “Licenças”,
sem numeração). E Rocha Pita era sócio provincial daquela Academia. Considere-se que um pouco antes
era publicada, e logo confiscada, a importante obra de André João Antonil, Cultura e Opulência do Brasil por
suas Drogas e Minas (li me de IVdilion tle 1 7 1 1 , traduction française et commcntaire critique par Andrée
Mansuy), Pa- i!» lusiluui tlt s I Unte» Êtudesde 1’Amérique Latine, 1965.
demicista, na prosa e na poesia. Movimento de ampla filiação barroca,
reflete a transposição de procedimentos europeus freqiientes em vários
países desde o século XVI ao XVIII, ligado à atividade cultural e intelectual
da nobreza, mas em alguns casos com a participação do povo, receptor'1.
Prestava-se, sob a ação vigilante da censura, às expansões do servilismo
áulico. E o foco de sua irradiação ao Brasil Colónia foi Portugal.
Manifestou-se entre nós em centros urbanos maiores e menores, nota-
damente Salvador, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Ouro Preto, pelo
Norte/Nordeste, Centro e Sul. Ocorrência simultânea, excepcionalmcnte
intercomunicante, sua unidade derivava da irradiação do foco português
atuando sobre uma mesma uniformidade de vida e de condições culturais
e intelectuais. Imperava um comando único, controlando expansões sociais
em núcleos vigiados e isolados.
Amplamente documentado desde 1641, de quando conhecemos a
primeira notícia de um festejo público, estende-se até princípios do século
XIX. O seu caráter de movimento consiste tanto na distribuição geográfica
e na continuidade quanto na similitude de procedimentos no âmbito da
vida cultural e da atividade intelectual - literária, histórica e científica. A
análise de textos publicados e inéditos, que chegaram até nós, leva-nos à
tentativa de aglutinação e classificação das atividades e produção desse
movimento em três grupos:
1-’) O de celebrações oficialmente autorizadas e também regulamen-
tadas de festejos públicos e de comemorações solenes, subdivididos em: a)
atividades recreativas ou lúdicas, com festas tradicionais e populares -
¡luminárias, cavalhadas, procissões, cortejos, danças, representações tea-
trais; b) solenidades religiosas, com Te Deum, sermões, procissões; c) às
vezes, umas e outras ampliadas por “atos acadêmicos”. 56

56 V. Claude-Gilbert Dubois, Le Batoque - profondeurs de l'apparence, Paris, Larousse, 1973; Ycdda Dias Lima, O Festejo
Público de 1770 em São Paulo, edição diplomática, com estudo crítico e vocabulário, Aix-en-Provence, 1973
(monografia mimeografada); e Affonso Ávila, Resíduos Seiscentistas em Minas — Textos do Século de Ouro e as
Projeções do Mundo Barroco, Belo Horizonte, Centro de Estudos Mineiros, 1967, 2 vols.
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1/ ( I lut^TTubJcu i
)i ** í ' /* Cabeçalho do apócrifo da Academia
k» tirw jutn ¿urna
[ Jfcnul tuii -JUPLJJU rutCTC:

rm<ru fHíCírc Brasílica dos Esquecidos (1724), existente no


Jcdcril X" Instituto Histórico e Geográfico
< 57 58 59 60 61 62-Li: 1; Brasileiro.

57a) Atos acadêmicos que resultavam do propósito de “fazer uma aca


demia”, com programa específico para um único ato, às vezes de longa
duração, dias ou semanas. Tinham base num programa previamente or-
ganizado, com indicação de temas, formas poéticas e língua - português,
latim e excepcionalmente espanhol, italiano e francês; eram abertos pela oração
acadêmica e comportavam também representação teatral. Convocava-se a elite
intelectual do centro urbano - naturalmente os mais desenvolvidos, onde
foram organizados aqueles atos, com presidente, secre
tário c censores. Correspondia, em suma, a uma sessão de uma academia,
le.ili/adn uma única vez, embora em horários consecutivos, contando
i. unbém com a participação religiosa.
i*
3“) A academia, como associação permanente, com estatutos, sede -
provisoria que tenha sido - de funcionamento, com presidente, secretário e
censores. Foi dedicada à historia, à literatura - poesia - e também às ciencias.
Os socios eram de duas categorias - numerários ou efetivos, residentes onde
ela estava sediada, e supranumerários ou correspondentes, habitantes de
outras cidades. Entre civis e militares, sobressaía a presença religiosa ligada
a ordens, principalmente à franciscana. Para a atividade histórica chegaram
a ser distribuídas tarefas a longo prazo, atribuindo-se, no caso da Academia
Brasílica dos Esquecidos, a cada um dos seus sete sócios a elaboração de
uma história (militar, eclesiástica etc.) e, no caso da Academia Brasílica dos
Acadêmicos Renascidos, foi feita a distribuição, pelos seus quarenta sócios
numerários e 115 extranumerários, de temas para a realização de
monografias sobre múltiplos aspectos do Brasil Colónia, como etapa
preliminar do projeto de uma “história universal da nossa América”.
Paralelamente a essa atividade a longo prazo, a academia promovia reuniões
regulares, abertas com uma oração acadêmica e seguida da apresentação da
produção poética sobre temas pré-indicados e em formas fixas escritas em
português, latim, espanhol, italiano, francês, por quem se interessasse. Como
toda a atividade intelectual da academia passava por censores, tanto em
termos ideológicos, mas sobretudo em função da crítica apreciadora do
mérito do trabalho.
Os festejos públicos e comemorações solenes, dos quais nos chegaram
relações descritivas, com matéria literária, estenderam-se pelo Brasil Colónia
de 1641 (Relação da Aclamação que se Fez na Capitania do Rio de Janeiro do Estado do Brasil,
e nas mais do Sul, ao Sr. Rei Dom João IV) até princípios do século XIX; os atos
acadêmicos, em bem menor número, datam do século XVIII, como
exemplifica um dos mais conhecidos, a Academia dos Seletos, no Rio de
Janeiro, em 1752; e as academias, ainda em menor número, foram
destacadamente três: Academia Brasílica dos Esquecidos, em Salvador, 1724-
1725; Academia dos Felizes, no Rio de Janeiro, 1736-1740; Academia
Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, em Salvador, 1759. Fizemos o

i*
levantamento de 48 progra-
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A|MPI nln tl.i "Academia dos Felizes”, São Paulo,


I ' ’(), rxiiiemc na Coleção Laniego (IEB-USP). t I . I 11 v di
í r s t c j n público comemorativo, M guldo dc ato acadêmico.

t
JÚBILOS

A ME R IC A , NA GLORIOSA EXALTAÇAÔ,E PROMOÇÃO


IX) ILLUSTRISSIMO E EXCELLEJST1SS1MO SENHOR

GOMES FREIRE
DE A N D R A D A ,
Do Conte lho dc Sua Magefladc, Governador, e CapitaS General das Ca-
pitaniasduRio.MinasGeraes, eS. Pauto , Cavallciro profcffo na Ordem
dc Chriflo, ao Polio ,e Emprego de Mettrc de Campo General , e Pri-
meiro Commiffario da Mcdiçaõ , c Demarcaçaõ dos Domínios Mcri-
dionaes Americanos entre as duas Coroas, Fidelilfima, e Catholica:

COLLECÇAQ
Das Obras da Academia dos Seleäos , que na Cidade do Rio

de Janeiro (e celebrou em objequio ,


c applaufo do dito
Excellentijimo Heroe.
DEDICADA, E OFFERECIDA AO SENHOR
TOZE* ANTONIO FAEIRE
DE A N D RA DA ,
Cavallciro profeíTò na Ordem de Chrifto , Tenente General
da Cavallaria , e Governador das Minas Geraes.
PELO DOUTOR
MANOEL TAVARES DE SEQUEIRA E SA*,
3*U At jirt, 4M fit At Vili* d* RtAtuAt MA PnvmtH At AUm-Hit, t Fx- Quvidtr Girti At Ctmtrtu dt
PtruttuÁ ut Elitit At trtfit,
íurtttrtt Attdtmt,
ISBOA: : m
L MANOEL ALVARES SOLI.a:.-‘ : :

Na Officina do D**
_____ A ano dt MDCCUV.
Com todas as licenças ttecejjartas.
Página cie rosto de Os Júbilos da América.
mas de festejos públicos, comemorações solenes, atos acadêmicos e aca-
demias, documentados63 64.
Foi, pois, imensa a produção deixada, entre publicações, direta ou
indiretamente ligadas ao movimento, e inéditos, recentemente divulgados.
Do programa histórico das duas mais importantes, a Academia Brasílica dos
Esquecidos e a Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, conta-se
número considerável de “dissertações” e monografias sobre variados
assuntos de interesse para a história, para a geografia.
Estão ligados direta ou indiretamente ao movimento academicista: Frei
Antônio de Santa Maria Jaboatão, poeta acadêmico, cronista religioso do
Novo Orbe Seráfico Brasílico, e genealogista do Catálogo Genealógi- coV); o beneditino,
Dom Domingos do Loreto Couto, de Pernambuco, sócio correspondente da
Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, da Bahia, cronista dos
Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco, e a quem devemos a visão mais
avançada do reconhecimento de valores, legendas, tradições, atividades
culturais e intelectuais resultantes dos contatos de portugueses, índios,
africanos, no processo da nossa formação; José Mírales, cuja história militar
do Brasil também está ligada àquela academia; o genealogista paulista Pedro
Taques de Almeida Pais Leme, que escreveu sobre a genealogia paulistana, e
Borges da Fonseca, sobre a genealogia pernambucana, ampliando, com
Jaboatão, a contribuição de Loreto Couto ao reconhecimento da linhagem
das famílias que, de origem portuguesa e outras, se faziam brasileiras 65.

63 V. José Aderaldo Castello, “Éditos c Inéditos do Movimento Academicista no Brasil - 1641-1820/ 1822 -
Apresentação”, em O Movimento Academicista do Brasil, ed. cit., vol. 1,1.1, pp. VII-XXI, c A Literatura Brasileira -1 -
Manifestações Literárias do Período Colonial, ed. cit., pp. 97-124, na qual sc encontra a bibliografia conhecida sobre o
assunto. Acrescente-se: André Camlong, O Movimento Academicista no Brasil - A Academia Brasílica dos Esquecidos -
Étude de langue et de style - Thesepour le Doctorat d’État, Toulouse, Université de Toulouse-le-Mirail, 1976, 4 tomos;
João Palma-Ferreira, Academias Literárias dos Séculos XVII e XVIII, Lisboa, Biblioteca Nacional,
1982; Ycdda Dias Lima, op. cit., e Academia Brasílica dos Académicos Renascidos — Fontes e Textos, tese de doutoramento
apresentada à Área de Literatura Brasileira-FFLCH-USP, São Paulo, 1980 (mimeografada).
64 V. Novo Orbe Seráfico Brasílico, ou Crónica dos Frades Menores da Província do Brasil, por Fr. Antônio de Santa Maria
Jaboatão, impressa em Lisboa em 1761 c reimpressa por ordem do Instituto Illntôrico e (ieogrãflco Brasileiro,
vol. I, Rio de Janeiro, Tip. Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro, IH58;c Parte Segunda (inédito), loc. cit.,
1859; Catálogo Genealógico das Principais Fami- lliil que 1‘rocederam de Albuquerques e Cavalcantes em Pernambuco e Caramurus
na Bahia, Salvador, lltsiilllto t ienealógico da Bahia-lmprensa Oficial da Bahia, 1950.
65 Domingos do I-orero Couto, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Datada de 1757, esta obra permaneceu
Por outro lado, ainda em complementação da criação em prosa, é
preciso considerar o exercício da oratória acadêmica. Juntamente com a
poesia, foi forma de comunicação imediata. Ambas corroboram o auli-
cismo, revigorado por uma temática de paralelos de autoridades da época
com grandes exemplos da história antiga. Enfatizava-se ao mesmo tempo o
gosto dominante da erudição, traduzida em linguagem rebuscada,
destacadamente nos períodos longos da prosa, em que predominavam as
comparações e alusões. A poesia, porém, mais do que a prosa, tem sido alvo
da crítica histórica, apontando-lhe a artificialidade e sensabo- ria,
depreciando-a como produção literária, sem levar em consideração que era
produto de uma atividade de origem associativa ou acadêmica marcada pela
erudição e pela habilidade formal. É, pois, primeiro dentro da perspectiva
da época e a seguir em relação com a evolução formal da poesia que se deve
dar atenção à produção literária academicista.
Na avaliação do movimento, o que nos parece verdadeiramente im-
portante, em primeiro lugar, é o princípio de disciplina e aglutinação dado
aos trabalhos e estudos históricos. Estimulava o esforço de equipe para o
desenvolvimento de pesquisas destinadas à elaboração de monografias que
pudessem levar à composição de obra geral e complexa. Sem dúvida
prenuncia-se uma atividade universitária, ausente entre nós, assim
compensada pelas academias. Marca-se de qualquer maneira um nível já
desenvolvido e relativamente condicionado de atividade intelectual apoiada
pelo espírito associativo. Poderíamos dizer que não há outro ca

inédita até que se publicou a sua primeira parte nos Anais da Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, 1902-1903, vols.
24 e 25; José Mirales, “História Militar do Brasil" em Anais da Biblioteca Nacional Rio de Janeiro, 1900, vol. 22, pp.
1-238; PedroTaques de Almeida Pais Leme, Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica, São Paulo, Martins,
1953, 3 vols.; Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, Nobiliarquia Pernambucana, Rio de Janeiro, Biblioteca
Nacional, 1935, 2 vols.
minho para se enxergar e analisar a vida cultural e intelectual internas
do Brasil Colonia, sem que se pretenda subestimar outras atividades isola-
das e mesmo de grupos. Em segundo lugar, reconhecemos nos festejos
públicos sementes de muitas de nossas práticas folclóricas e de outras
manifestações de cultura popular simultaneamente com o interesse que
representam para o estudo da historia do teatro no Brasil Colonia e do
espetáculo aberto e lúdico. Em terceiro lugar, desenvolveram o princípio da
vida literária; levaram a criação poética e teatral à comunicação direta com o
público, erudito e seleto de um lado, popular de outro, numa época em que
as publicações impressas, além de raras, só se faziam em Portugal, e em que
eram poucos os letrados ou leitores; exerceram uma disciplina
preestabelecida, normativa, quase pedagógica, sobre a atividade criadora e
os trabalhos eruditos; em consequência desse procedimento, principiaram o
exercício da crítica, embora agravada pelo auto-elogio e pelo aulicismo
devido ao absolutismo e à censura ideológica; apresentam grande interesse
lingüístico. Finalmente, foi um movimento geral e concomitante por toda a
extensão do Brasil Colónia em que se pontilhava o desenvolvimento urbano,
simultaneamente com as manifestações barrocas na arquitetura e na pintura
acrescidas da atividade musical.
Entre os vários aspectos de que se reveste o movimento academi- cista
no Brasil, do século XVII ao XVIII, como vimos sugerindo, merece destaque
a função crítica exercida por academias e atos acadêmicos. Naquelas como
nestes, a criação literária em prosa e principalmente em poesia, esta em
observância às formas fixas e artifícios, consistiam no desenvolvimento de
temas ou assuntos militares, morais, religiosos e históricos, previamente
enunciados e distribuídos aos participantes do ato acadêmico, oficialmente
convidados, ou aos sócios das academias. E uma vez elaborados, estavam
sujeitos à apreciação dos dirigentes responsáveis pela programação. Misto
de crítica e censura, este procedimento predominou sobretudo nas
academias propriamente ditas cujas propostas dc trabalho pressupunham
planejamentos e avaliação extensivos â criação literária, aos trabalhos
científicos e aos históricos. Relem-

AS HUNDACÕKS: o I" PFRfonO OU O BCílnnn rninmii


bremos a Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, que nos deu
o primeiro exemplo de trabalho de equipe 66.
Academias e acadêmicos, porém, nem sempre atingiram seus obje-
tivos. Estas sociedades duraram pouco, interrompidas certamente contra a
vontade de seus idealizadores. Mesmo assim, contribuíram para o melhor
conhecimento do Brasil e estimularam nossa vida intelectual.

6. Dois DESTAQUES

Das obras da época, há duas já referidas de particular importância.


Uma do beneditino Dom Domingos do Loreto Couto, natural de Per-
nambuco, escrita um pouco antes da fundação da Academia Brasílica dos
Acadêmicos Renascidos, mas à qual se prende, por expressa vontade do
autor67. Até mesmo antecipa objetivos do programa monumental desta
academia. Datada de 1757, só veio a ser editada em princípios do século
atual. Com dedicatória a Dom José I, por intermédio do Marquês de Pombal,
o autor confessa no “Prólogo ao Leitor” as melhores e mais patrióticas
intenções:

[...] fui somente levado da justa mágoa de ver o grande descuido, que teve Pernambuco em
perpetuar as virtudes de seus filhos, que com elas o ilustraram: e que insensivelmente ia o
tempo consumindo a notícia de tantos esclarecidos Heróis, por faltar quem se resolvesse a
escrevê-las. Por esta razão, mais atento à glória da Pátria que à reputação do tneu nome,
pretendi romper o tenebroso caos, em que estavam sepultadas tantas glórias ilustres, para fazer
patentes aquelas notícias, que o Mundo ignorava. Acrescentando-se ao motivo referido outro
maior estímulo, que foi avaliar como obrigação precisa, refutar alguns erros, e calúnias, com

66 "Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, “Distribuição dos Empregos para os quais a Academia dos
Renascidos Elegeu por Votos Conformes, Depois de Repetidas Conferências, Alguns de Seus Sócios e
Dissertações Distribuídas pelos Sócios da Academia dos Renascidos”, cm Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, 3. ed., 1908, t. I (t. I, 2 trimestre de 1939, n. 2, pp. 68- 76). E a recomendação: “Para compor na língua
portuguesa as Memórias Históricas para a Biblioteca Brasílica, incluindo todos os autores naturais do Brasil, e
todos que escrevessem na América, ainda que não fossem naturais da mesma, e os que ex-profcsso
escrevessem da América em qualquer parte do Mundo, ou as suas obras se achem impressas ou manuscritas.
Foram escolhidos nomeadamente quatro membros”, lug. cit.
67 Cf. carta de Domingos do Loreto Couto ao secretário da Academia dos Renascidos, transcrita por Alberto
Lamego, A Academia Brasílica dos Renascidos - Sua Fundação e Trabalhos Inéditos, Paris- Bruxelas, LÉdition d'Art
Gáudio, 1923, pp. 11-114.
que alguns Autores, que têm escrito do Brasil, mancharam a opinião dos nossos índios, e de
algumas pessoas beneméritas, sem mais fundamento, que o de umas tradições tão suspeitosas,
como mal nascidas, e falsas54.

Ressalta-se o espírito da obra, misto de crónicas históricas e de casos


exemplares, portanto, prosa moralista, além de panegíricos e dados biobi-
bliográficos, repassado de certo valor crítico. Os títulos das partes ou dos
livros de que ela se compõe são igualmente significativos e definidores dos
propósitos já ressaltados: “Pernambuco conquistado”, “Pernambuco
vencido, e gloriosamente restaurado”, “Pernambuco renascido”, “Per-
nambuco ilustrado com virtudes”, “Pernambuco ilustrado com as letras”,
“Pernambuco ilustrado pelas armas”, “Pernambuco ilustrado pelo sexo
feminino”, e “Pernambuco constante, valeroso e fiel nas calamidades”.
Capistrano de Abreu, grande entusiasta da obra de Loreto Couto, lhe
deu atenção destacada nos Capítulos de História Colonial. Apontou, sobretudo, a
posição que o beneditino pernambucano assumiu em defesa do índio
americano35, alvo de ataques e menosprezo de bom número de cronistas. A
defesa dispensa qualquer argumento ou fundamentação etnográfica, para
dar relevo à natureza e à condição humana do indígena. Através de
situações exemplares, em diversas conjunturas, o índio é comparado em
virtudes, em inteligência, em capacidade criadora, com o europeu ou com o
elemento civilizado colonizador36. Talvez seja este o aspecto da obra de
Loreto Couto que primeiro se impõe ao estudo da evolução de duas
constantes ideológicas fundamentais da literatura brasileira - o nativismo e o
indianismo. Somos levados a admiti-la como uma antecipação importante
do nosso indianismo romântico, contor- l't, l im ili ( omo, op. cil.
Vi ( I ( o i liai tuno de Abreu, op. cit., pp. 183-185.
Wi ( I I oino ( '.onto, op. cit.. p. exp. Livro VI, cap. 9, voi. 25, pp. 97-103; e outros passos da mesma obra.
Frontispício da Ia edição.
nando a noção que se fazia corrente da “bondade” rousseauniana. Consistiu
na reavaliação das qualidades do selvagem americano, consideradas agora
através dos contatos com o colonizador e seus herdeiros diretos.
Ainda se destaca a contribuição biobibliográfica desta obra, fonte
reavaliável a serviço do estudioso de certas manifestações artísticas no Brasil
Colonia, como a música e a pintura, do estudioso do ensino ou da instrução
pública e particular, e sobretudo do historiador de nossas manifestações
literárias nos três séculos coloniais. Neste último caso se situa o “Livro
Quinto — Pernambuco ilustrado com as Letras”. Merece reparos e correções,
mas em compensação nos leva a uma visão razoavelmente ampla e segura
de nossa atividade intelectual, do século XVI ao XVIII, notadamente em
Pernambuco. Mas o autor não fica só na informação erudita, nos dados
biobibliográficos, ou em referências a representações teatrais, de qualquer
forma passo inicial para a elaboração de nossa história literária.
Freqiientemente emite juízos críticos, ainda que encomiásticos, a exemplo do
seguinte:
%
Padre Miguel Ribeiro nasceu na vila do Recife em 9 de janeiro de 1716, sendo seus pais
Simão Ribeiro Riba fidalgo da casa real, cavaleiro professo da ordem de Cristo, comissário geral
da cavalaria; e Da. Clara Gomes de Figueiredo filha do coronel Miguel Correia Gomes, fidalgo
da casa de Sua Majestade, cavaleiro da ordem de Cristo, escrivão proprietário da fazenda real.
Quando contava a tenra idade de 16 anos recebeu a roupeta da Companhia de Jesus, em 24 de
dezembro de 1730. Nesta ilustre, e virtuosa palestra aprendeu as ciências severas com aplicação,
e saiu nelas muito perito. Por justas causas obteve de seus prelados faculdade para sair a tratar
de várias dependências da sua casa, e vive com exemplar procedimento retirado no seu
engenho novo do Cabo.
É elegantíssimo poeta, e entre os canoros cisnes do Parnaso merece lugar eminente,
assim pela cadência do metro, como pela elegância das vozes, e discrição dos conceitos, ou seja
metrificando em assuntos heróicos, ou líricos. O sublime entusiasmo, de que o dotou a
natureza, se admira ornado de vária erudição, de cujos versos, em que imitou a majestade de
Virgílio, e a agudeza de Marcial, compôs em um tomo de 4.
Quinhentos epigramas ao nascimento do menino Deus5 . 68

68 Domingos do Loreto Couto, op. cit., vol. 25, p. 32.


M Q J I E S C T R A T A M V Á R I O S DISCURSOS l
ípirmuc*, c moracs, com rr.imas auvcrttncías, c documentos
contra os abulos, que te achaò inuo- «Sufidov pela malícia
utabolicano tilado do Brafú.

M
DedicadoT àI Virgem
A R R A V O
DO
da

A U T O
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COMPENDIO
? E R EG RIN O
DA A M E R I C A
'JUNO MARQUES
P E R E I R A .
~í«(>g)í?9-
L 1 S B O A OCCJDRNTAr
Ñ. Officina de MANOEL FERNANDES DÃÕÕSTÃ-
lir.nrííTnr IJA O, _ rwr
C-nr. iteci ei Lmnça.

A segunda obra é o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno


Marques Pereira, residente em Salvador. Compõe par com a
de I .oreto Couto, como se uma respondesse à outra. Mas não podemos
dizer que ela tenha antecedente interno, “brasileiro”, quando muito, va-
gamente, e pelo inverso, podemos apontar a sátira à sociedade colonial tie
Grcgório de Matos e Guerra. Seu modelo está na prosa moralista es-

punhola do século XVII e parece-nos mais interessante que venha a ser


onlronuda, de início, com obra semelhante do narrador inglês João
Ihmy.m (século XVII), O Peregrino. Escrita em forma de diálogo, fan- .isios.i c
comprometida com o ficcional, entremeia verso na prosa bar-
Frontispício da Ia edição.

roca, compondo um tecido de casos e fatos exemplares, episódios cie


fundamentação verídica com alegorias. O espaço da narrativa se estende de
Salvador pelos caminhos da mineração até Ouro Preto, com incursões em
Pernambuco, ao mesmo tempo que se sobrepõe a todo o Brasil uma visão
profética, de conjunto. E relevante nessa narrativa o conteúdo social e
moralizante refletido pelas descrições e narrações de situações e fatos,
convertidos em modelos exemplares subordinados à boa doutrina da Igreja,
conforme o autor. Narrativa com características ficcionais, tem sido por isto
mesmo apontada como precursora do gênero na Literatura Brasileira 69.
Essas duas obras — Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco e Compêndio
Narrativo do Peregrino da América - talvez sejam o ponto de maior relevo do
desenvolvimento da prosa escrita sobre o Brasil e no Brasil, já definida como
brasileira. E isso graças a um condicionamento que progressivamente
acentuava na sociedade colonial o sincretismo da participação portuguesa,
indígena e africana. Chegamos então à melhor compreensão das distinções
que presidiram manifestações nativistas e indigenistas/indianistas.
Queremos dizer que seus autores refletem a preocupação com o
conhecimento e a valorização do Brasil, não mais exclusiva ou
predominantemente através da paisagem física, de recursos naturais, mas
agora pelo relevo dado a acontecimentos notáveis aqui ocorridos e a
homens nascidos em nosso meio. Corroboram programas de estudos das
academias - históricos, políticos, económicos, sociais, religiosos, literários -,
destacadamente os da Academia Brasílica dos Esquecidos e da Academia
Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, onde se concentrava o que havia de
mais expressivo da mentalidade da época.

69 Nuno Marques Pereira, Compêndio Narrativo do Peregrino da América, 6. ed. completada com a segunda parte, até
agora inédita, acompanhada de noras e estudos de Varnhagen, Leite de Vasconcelos, Afrânio Peixoto,
Rodolfo Garcia e Pedro Calmon, Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1939, 2 vols. (a 1. ed. data de 1728).
Sobre o problema referido do início da narrativa ficcional no Brasil, v. José Aderaldo Castello, A literatura
Brasileira - I - Manifestações Literárias do Período Colonial, ed. cit., pp. 124-130.
CAPITULO V
CAPITULO V

PRODUÇÃO INTELECTUAL DO PERÍODO COLONIAL - III


O ARCADISMO 70

70 O ARCADISMO - REAÇOES AO BARROCO E REFLEXÕES INTERNAS

Dentre as figuras destacadas da Literatura Brasileira do Período Co-


lonial - Anchieta, Bento Teixeira, Manuel Botelho de Oliveira e outros,
barrocos ou árcades —, nenhum se manifestou com a consciência crítica de
Cláudio Manuel da Costa. É considerado um poeta de “transição”. Foi o
primeiro a reconhecer os fundamentos de sua formação nas últimas
manifestações barrocas, para aperfeiçoá-la sob a renovação arcádica ou
neoclássica. No “Prólogo ao Leitor” das Obras Poéticas (1768), informa que a
maior parte desta obra foi escrita quando estudante em Coimbra, “ou
pouco depois”, “tempo em que Portugal apenas principiava a melhorar de
gosto nas belas letras”, o que quer dizer, no início da refor-
ma arcádica. Ainda sob as sugestões do Barroco, compôs várias poesias,
notadamente as pastoris, ornados de elegância (deu relevo ao estilo, sem cogitar
da parte temática), enquanto em outras não ignorou “o estilo simples” e
soube “avaliar as melhores passagens de Teócrito, Virgílio, Sanazzaro, e
dos nossos Bernardes, Lobo, Camões etc.”. E conclui: “A li- ,ão dos Gregos,
Franceses e Italianos, sim, me fizeram conhecer a dife- ença sensível dos
nossos estudos, e dos primeiros Mestres da Poesia. É níelicidade, que haja
confessar, que vejo, e aprovo o melhor, mas sigo o ontrário na execução” 1.
Fez severas restrições aos excessos do estilo bar- oco, à semelhança do que
também veremos em Silva Alvarenga. E justi- Ícou o louvor da autoridade,
se merecido, conforme seu discurso de bertura da “Academia” em
homenagem ao Conde de Valadares, embora academias” ou “atos
acadêmicos” tenham sido manifestações literárias ependentes do cultismo e
comprometidas com o louvor da autoridade onstituída. No caso, porém, ele
argumenta que a defesa e a valorização a poesia já haviam merecido a
atenção de ilustres e poderosos, também :us cultores, com exemplos na
ascendência do homenageado2.
No geral da posição assumida por Cláudio Manuel da Costa, a que os
parece mais relevante resultou na “Fábula do Ribeirão do Carmo” e :>
poema épico Vila Rica, este consequência daquela. Podemos entrever tenções
a propósito no “Prólogo ao Leitor”3 das Obras Poéticas, em que paisagem
luso-arcádica, de concepção límpida e tranquila, é confronta- i com a
rudeza da paisagem pátria.

( iláudio Manuel da Costa, Obras Poéticas, nova edição, Rio de Janeiro, Garnier, 1903; vol. I, pp. 99-101.
V. "O Parnaso Obsequioso” em O Inconfidente Cláudio Manuel da Costa, de Caio de Melo Franco, Rio de Janeiro,
Schmidt, 1931, pp. 80-90. A presença “academicista e cultista" na proposta de Cláudio Manuel da Costa,
confirmando a associação da iniciativa acadêmica - “atos acadêmicos”, “festejo* públicos” ou “academias” -
ao elogio do poderoso, está claramente expressa no “Problema”, constituído ile duas “perguntas” que deviam
ser confrontadas competitivamente, sem dúvida formuladas pui eh- mesmo (v. Caio de Melo Franco, op. cit., p.
92). E Cláudio foi sócio supranumerário da Aca- ilenii» brasílica dos Acadêmicos Renascidos, chegando a
rejubilar-se com a sua eleição e a se corres- ofn i,ilmcme com sócios efetivos, na Bahia (v. cartas de Cláudio
Manuel da Costa, em Alberti I dinego, op, cil., pp. 98-105).
I,linho Manuel da Costa, Obras, Rio de Janeiro, Garnier, 1902, vol. 1, pp. 98-105.
[...] destinado a buscar a Pátria, que por espaço de cinco anos havia deixado, aqui entre
a grossaria dos seus genios, que menos pudera eu fazer, que entregar-mc ao ócio, e sepultar-
me na ignorancia! Que menos, do que abandonar as fingidas Ninfas destes rios; e no centro
deles adorar a preciosidade daqueles metais, que têm atraído a este clima os corações de toda
a Europa! Não são estas as venturosas praias da Arcádia; onde o som das águas inspirava a
harmonia dos versos. Turva, e feia a corrente destes ribeiros primeiro que arrebate as idéias de
um poeta, deixa ponderar a ambiciosa fadiga de minerar a terra que lhes tem pervertido as
cores71.

Consideremos, de início, a objetividade e o realismo da visão crítica


na maneira de sentir e compreender a paisagem americana, cuja recriação à
semelhança da paisagem arcádica lhe pareceria improvável. Contudo, ele
tentaria harmonizá-las, na “Fábula” e no poema, mal compreendido pela
crítica posterior. Ao contrário dela, o que vemos no poema, e
evidentemente na atitude crítica do poeta, é um impulso momentâneo de
liberdade de criação em benefício de nossa identidade literária. Sem
dúvida, depois da obra de Anchieta, a “Fábula do Ribeirão do Carmo” e o
Vila Rica são também sugestões para a poesia que o nosso romantismo
batizaria de americana. Eles rompem, mesmo que parcialmente, os cânones
clássicos e arcádicos. Podemos então conjecturar; se já não era possível a
transposição e a adaptação dos ideais de época à nossa paisagem, ao
mesmo tempo que reconhecemos o conflito do poeta entre a sua formação
lusa e o sentimento “pátrio” que nele despontava. Não exageramos, se de
alguma maneira ele antecipava o que alguns anos mais tarde nos
aconselharia Ferdinand Denis. Porque Cláudio Manuel da Costa debate a
impossibilidade de “substabelecer aqui as delícias do Tejo, do Lima e do
Mondego”, mas reconhece que uma “maior paixão” “o persuadiu a invocar
muitas vezes, e a escrever a Fábula do Ribeirão do Carmo, rio o mais rico
desta Capitania que corre, e dava o nome à Cidade Mariana, minha pátria,
quando era Vila”72. Viria a seguir o poema Vila Rica e ainda não esquecer
como precedente o segundo soneto das obras poéticas:

71 Idem, pp. 99-100.


72 Idem. p. 100.
Página inicial do ms. existente na Torre
do Tombo, Lisboa, das Obras de Cláudio
Manuel da Costa, submetido à
Real Mesa Censória, que eliminou
alguns sonetos com riscos transversais.

l.ei.i a posteridade, ó pátrio Rio,


Em meus versos teu nome celebrado,
Porque vejas uma hora despertado O
sono vil do esquecimento frio:

Niio vôs nas tuas margens o sombrio,


Fresco assento de um álamo copado;
Niio vis Ninfa cantar, pastar o gado Na
tarde clara do calmoso estio.

lutvo banhando as pálidas areia Nas


porções do riquíssimo tesouro t t vasiu i
ampn de ambições recreias.
Frontispício da Ia. edição.

OR B AS
CLAUDIO
MANOEL DA COSTA,
Arcade Ultramarino , chamado
GLAUCESTE SATURNIO,
OFFEitECIDAS
Ao
mo mo

I L L. E E X. S N R.
DJOZE LUIZ DE MENEZES
ABRANCHES CASTELLO BRANCO,
Conde de Valladares , Comm: idad >r di»% Com-
mendai de S Joaó da CjOanhcira. S Jtilia6 de
,
Aloiuc'iìegro S. MJ ria d: V iode . eh Maria
de I.ocores. da Ordcm de Chnflo. Governa,
dor , e Opti ¿ó General da Capitanía das
Minas Geraes, dee. £u*. «xc.
*
**
♦**
c O I M B R A.
Na Officina de Luiz Secco Ferrei™.’

M.DCC.LXV11I.
Cm /<«*?< “a R«r M-ct.i Co/rr a.

Que de seus raios o Planeta louro,


Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro73.

Indiquemos ainda a “Écloga V - Arúncio”, o “Canto heroico” a Dom


Antônio de Noronha e várias passagens do “Ato acadêmico” citado, a
serem relacionadas com o problema do ambiente intelectual ou das
condições da atividade literária entre nós e que talvez tenha agravado o

73 Idem, pp. 103-104.


nllito vivido pelo poeta. É certo que nesse debate, envolvendo ajusta-
.'iito individual, o poeta enfrentava mais a perspectiva de coexistência i
que de conciliação do bucolismo e sua paisagem ordenada e limpa lo
ancinho da idealização com a rudeza da paisagem americana. Certo,
nbém, que, se ele não superou de todo o impasse da contradição, dei- u,
contudo, uma importante contribuição, suficiente do ponto de vis- do
nativismo para colocá-lo em destacado relevo. E bem distante do
scritivismo e do ufanismo de Manuel Botelho de Oliveira e de Sebas- ,o
da Rocha Pita. Em suma, ele opôs uma visão de realidade americana
espírito europeu, refletindo conseqiiências do esforço contínuo de
tnsplantação ou sobreposição de valores externos à paisagem brasileira i
Período Colonial. Teria sido o primeiro brasileiro a sentir-se estran- iro
em sua própria terra, como talvez dissesse José Américo de Almei- , em
outras palavras, ou Sérgio Buarque de Holanda 7.
Ao lado de Cláudio Manuel da Costa, coloca-se Manuel Inácio da Iva
Alvarenga. Combateu, como também cultivou, justificando-se, a eratura
encomiástica do momento. Procurou assumir uma atitude de
dependência, que deve ser relacionada com o enriquecimento progresso
do sentimento nativista. Exprimiu-se, sobretudo, em crítica acentu-
amente caricaturesca, como exemplificam as quintilhas “ao vice-rei Luís
Vasconcelos e Sousa no dia dos seus anos”8. Registrando o procedi-

Sérgio Buarque de Holanda afirma, logo no início de Raízes do Brasil: “A tentativa de implantação da cultura
curopéia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua
tradição milenar, c. nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqiiências.
Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, c timbrando em
manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda boje uns desterrados em
nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e
imprevistos, elevara perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso
trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra
paisagem” (Raízes do Brasil 3. ed., Rio de Janeiro, José Olympio. 1956, p. 15).
Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Obras Poéticas, coligidas, anotadas e precedidas de juízos críticos dos i v
rllotes uai ionais c estrangeiros e de uma notícia sobre o autor e suas obras e acompanhadas d> dm unientos
históricos, por J. Norberto de Sousa e Silva, Paris, Garnier, 1864, 2 tomos; Glaura Mi, ui,,, / iiHiivs Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Livro-MEC, 1943, p. 86.

mento generalizado, regular e oficioso, do elogio à autoridade, acentuou


ainda o seu artificialismo formal e temático, agravado pelo cultismo. Fez
dessa composição, portanto, um verdadeiro documento da reação que já se
processava contra a poesia encomiástica associada às persistências bar-
rocas, estereotipadas — vocabulário, paralelos, metáforas, lugares-comuns.
São críticas que atingem também o Arcadismo, fundamentado em
Aristóteles e Horácio diretamente ou através de divulgadores italianos,
franceses e portugueses do século XVIII. E as exemplifica com produções
correntes, melhor avaliando o estado geral das “artes” em Portugal, então
sob os influxos das reformas pombalinas, extensivas ao Brasil Colónia.
Escreveu a propósito três composições: a sátira “Os Vícios”, o poema “As
Artes” e o poema herói-cômico “O Desertor”. A sátira ainda é de pouca
importância: o poeta traçou um esboço das origens e evolução do gênero,
da Antiguidade ao século XVIII, e reconheceu, no momento em que vivia,
que novas e maiores possibilidades se apresentavam às musas para
entoarem o seu canto, uma vez favorecidas por mecenas ligados ao poder.
E condenou a vida cortesã, a vida na cidade, sem dúvida movido pelos
ideais do Arcadismo de exaltação do campo74. Na segunda composição,
“As Artes”, prevaleceu o reconhecimento dos melhores resultados das
reformas promovidas pelo Marquês de Pombal. Constitui uma síntese de
valor histórico, em que se destacam as inovações introduzidas nos estudos
superiores em Portugal, nesta época de D. José I. Neste caso, ele
reconheceu a função laudatória da poesia 75 76, como se admitisse o dever de
fazê-la porta-voz de feitos e fama de heróis e reis. E através de Calíope, ele
prosseguiria com o canto de louvor à Dona Maria I ao lado de D. José, para
ser “recitado na sociedade Literária do Rio de Janeiro, no dia dos anos de
sua Majestade fidelíssima D. [sic\ Maria I, em 17 de dezembro de 1788”".
Infelizmente, Silva Alvarenga cumpria a obrigação que
cie mesmo havia satirizado, a do “anual tributo” devido aos poderosos,
ainda que se justifique, numa sociedade considerada de ideias avançadas,

74 Idem, pp. 307-317.


75 Idem, pp. 331-338, citação da página 331.
76 Idem, p. 341.
o reconhecimento da repercussão das reformas pombalinas “até nestes
confins do Novo Mundo”, a “inculta pátria minha”, como escreveu.
Devíamos ter apontado antes de “As Artes”, o poema herói-cômico
"O Desertor”, caricatura do estado da Universidade de Coimbra antes das
reformas de Pombal, pois desenvolve assunto que se encontra resumido
em “As Artes”. Contém, a mais, reminiscências nativistas e crítica a
determinadas obras, algumas do domínio da literatura, com circulação em
Portugal e Brasil, apontadas como expressão do mau gosto e do obs-
curantismo, dos vícios e defeitos do cultismo:

Dum lado o Sol nascido no Ocidente,


E a Mística cidade, doutro lado Cedem ao
pó e à roedora traça.
Por cima o Lavatório da consciência.
Peregrino da América, os Segredos Da
natureza, a Fénix Renascida,
Por baixo está de Sam Patrício a cova\
A Imperatriz Porcina, e quantos Autos A
miséria escreveu do Limoeiro para
entreter os cegos e os rapazes12.

Ao que acrescenta: “Todas as obras nomeadas neste lugar são conhe-


cidas, e quando o não fossem bastaria ver os títulos para julgar do seu
merecimento, e da barbaridade do século em que foram escritas. Talvez
não sejam estas as mais extravagantes à vista do Crisol Seráfico, da Tuba
concionatória, Sintagma comparístico, Primavera sagrada etc.”13.
Certamente, o melhor sobre a poética de então se encontra nas con-
siderações preliminares que Silva Alvarenga escreveu ao poema “O De-
sertor”. Aproximadas da epístola “A José Basilio da Gama - Termindo

11 lilnn, I. II, p. 67.


1,1, Hm, p. 77.
Cr L AU R A:
POEMAS EROTICOS,
D E
MANOEL IGNACIO DA SILVA
ALVARENGA,

Bacharel pela Univer\fidade de Coim-


bra. e Vrofeffor de Rbetorica no
Rio de "Janeiro.

N A AHCADIA,

ALCINDO PALMIRENO

V
LISBOA:
» N A O PFICINA N UKESIAHA .
ANHO M. DCC. XClX.
CcmliçeH{S de Mefa do Dcfer.bargO do PdfO;
Página de rosto da Ia. edição, cf.
reedição de Afonso Arinos de
Melo Franco, Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional, 1943.

Sipílio”, temos a medida dos conhecimentos teóricos que ele nos transmite.
Exalta as qualidades de O Uraguai e o toma como exemplo de livre
aplicação dos preceitos que deviam guiar a criação literária. Indica as fon-
tes das quais eles provêm: resumo parcial da poética retomada a Horácio,
Aristóteles, Lucrécio, aos seus divulgadores da época arcádica, nomeada-
mente Boileau. Tratava-se de procedimento geral, mas Silva Alvarenga só
propõe o que ele mesmo adota na criação literária ou reconhece em bons
exemplos. De O Uraguai, ressalta a pintura da natureza “em quadros mil
diversos” e o domínio da língua adequada ao assunto: se “trágico coturno”
não comportava arroubos furiosos nem humildade chã, e sim um tom
nobre, sóbrio e elevado. Aborrece o mau gosto do preciosismo ainda fre-
quente, por ser contrário ao excitar “do humano coração a origem das
paixões”, a exemplo do episódio da morte de Lindóia, em que não cabiam
“alambicadas frases e aguados epigramas ”. Prossegue com observações,
sobre a boa arte de escrever, normas que fundamentam uma possível ori-
entação crítica adequada ao estilo arcádico. Ao comentar aquele preceito
sobre a pintura da natureza “em quadros mil diversos”, escreve que o
poeta precisa seguir as leis mais simples da própria natureza, com conhe-
cimento e senso de oportunidade, para não forçar o que pretende dizer ou
pintar. A pintura tanto quanto o fato narrado devem brotar espontâneos
da composição. A exibição erudita leva ao artificialismo de concepção e de
expressão, à semelhança do academicismo barroco. Em síntese, a forç.
criadora do poeta é a originalidade, ao passo que a imitação inferioriza, se
faz repetitiva e desordenada, sem interesse, pois “o que se fez vulgar
perdeu a estimação”. Modéstia, tempo e trabalho são privilégios de eleitos,
a exemplo de José Basilio da Gama77. Reconhece, enfim, que o Arcadismo,
salvo uma ou outra restrição, abriu novas perspectivas da criação
literária78, num momento adequado, o do governo de D. José I.
José Basilio da Gama completa o panorama que esboçamos. Sua
contribuição seria a da sátira “O Entrudo”79, que lhe é atribuída, e onde são
repudiados rivalidades e elogios fáceis. Mas o que a faz significativa é a
observação, coincidente com Filinto Elisio, sobre o abandono da “antiga
locução, áspera e dura”:

77 Idem, pp. 290 c 292.


78 Idem, pp. 5 e 7, onde conceitos e fontes se desdobram: a arte como imitação da natureza, segundo
Aristóteles, Poética (capítulo IV), e Lucrecio (liv. 1, v. 1378); ainda conforme a fonte grega, a definição do
épico, do trágico e do cómico; o reconhecimento a favor de sua obra de que a ação é mais direta e eficiente
no poema herói-cómico do que no cómico, satisfazendo melhor os fins da poesia; admite, cm consonância
com o épico c o trágico, a fusão do heróico com o cómico, firmado na autoridade de Platão (Diálogo 3 da
República) de “que autores trágicos e cómicos jamais serão per- leitos em ambos". K justifica-se pela escolha
do herói-cómico: “porque imita, move e deleita, e porque mostra ridículo o vício, e amável a virtude,
consegue o fim da verdadeira poesia”, evocando a A)ir Poética de I lorácio.
líi |nn‘ llasílio da ( l a m a , Obras Poéticas, precedidas de uma biografia crítica e estudo literário do poeta pui |nMl
Vei íntimo, Kio de Janeiro, Garnicr, s. d., p. 2 0 1 .

I: I I Kl I I A 1 lll > l\ I u ||| .| )I/ MW\ /\ II nr nl nnn /^rtt rsi n «


Faze outra vez viver as esquecidas,
Adota embora as novas, funde as velhas,
Lima os informes, pule as escabrosas,
Enriqueça-se a língua portuguesa Com
prudente licença e boa escolha;
Porém nunca vocábulos nos digas
Que arranham os bichinhos dos ouvidos80 81.

Outra contribuição de Basílio da Gama é a tradução parcial de obra


de Dorat, A Declamação Trágica — Poema Dedicado às Belas-artes™. De acentuado
caráter didático, a parte traduzida, sobre o ator, suas qualidades e a arte de
representar, é de interesse para o estudo da criação e da vida teatral da
época. Também admitimos que tenha tido repercussão nos momentos
definidores do nosso teatro romântico.

2. A POESIA ARCÁDICA - I - OS LÍRICOS

Na segunda metade*do século XVIII - ao mesmo tempo que persiste o


movimento academicista na prosa e na poesia, conjuntamente com o
Barroco na arquitetura, nas artes plásticas e na música -, registra-se a re-
ação renovadora da poesia arcádica, do neoclássico ao pré-romântico, em
dois centros urbanos já de acentuado desenvolvimento — Rio de Janeiro e
Ouro Preto. Neste último, apontam-se Cláudio Manuel da Costa, Inácio
José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, os dois primeiros
nascidos no Brasil, o último em Portugal, todos com formação na Uni-
versidade de Coimbra. Um segundo grupo é do Rio de Janeiro, mas apenas
com uma figura de destaque, Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Também
brasileiro, formado em Coimbra, fundou a Sociedade Literária do Rio de
Janeiro, enquanto Cláudio Manuel da Costa promoveria a Arcádia
Ultramarina, isto é, um ato acadêmico em Ouro Preto. Os dois, portanto,
estão relacionados com o movimento academicista. Contam-se ainda

80 Idcrn, p. 202.
81 Idem, p. 1 5 1 .
ci José de Santa Rita Durão e José Basilio da Gama, este, noviço egres- da
Companhia de Jesus, brasileiros, com experiência brasileira, reabriam suas obras
em Portugal, mas sobre temática nossa.
Todos eles compõem um conjunto representativo da poesia arcàdica
neoclássica, de início ainda não contaminada pelo Iluminismo. Logo ais surgem
os poetas ditos pré-românticos: Pe. Antônio Pereira de >usa Caídas, com
viagens pela Itália, realizando sua obra em Portugal; ei Francisco de São Carlos,
religioso do Rio de Janeiro; José Bonifácio ■ Andrada e Silva, paulista que
retorna ao Brasil e se fixa no Rio de Ja- ■iro, depois de longa experiência em
Portugal e outros países da Euro- i; Domingos Borges de Barros, baiano que
também se fixará no Rio de neiro, com experiência na França. É quando o Rio de
Janeiro, com a esença da Corte Portuguesa e a consequente independência do
Brasil, issa a ser foco de convergência e irradiação da vida do país. Concentra
itão o nosso Pré-romantismo com suas reminiscências arcádicas e neo- íssicas, as
consequências políticas, intelectuais e culturais da passagem ) Estado colonial
para o Brasil-nação, as sugestões renovadoras de es- ingciros, e a busca
reativada e intensa da identidade nacional.
Com os dois agrupamentos indicados, o de Ouro Preto e o do Rio : Janeiro,
define-se, pois, de fins do século XVII1 para princípios do IX, uma fase arcàdica
e neoclássica ainda muito presa aos modelos ou íluxos externos portugueses
predominantes e também à influência ¡tana. A fase subsequente, a pré-
romântica, daria a abertura para a subs- uição dos modelos portugueses pelos
modelos franceses, que por sua z se tornariam igualmente predominantes. Mas
então a substituição é nossa livre escolha.
Do primeiro momento, não resta dúvida, provém, com Cláudio anuel da Costa,
Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão e Baio da ( ¡ama, o melhor
conjunto da produção poética de todo o Perío- i < olonial, o que em grande
parte foi favorecido pelo estágio de de- ivolvimcmo cm que se encontrava o
Brasil Colónia. Estes poetas dão IMIIO ao denominador comum da poética e da
temática da época o

PUNDACÕHS O I* PERIODO OU O PERIODO COLONIAL

toque pessoal de cada um, acentuando influxos internos bem como distinções em
nivel de valor literário, se postos em confronto com seus colegas portugueses.
Nesse sentido, Cláudio Manuel da Costa é o mais consciente de todos eles.
Reconhecemos que ele sentiu na criação, e da mesma maneira exprimiu na
reflexão poética, o problema da inadequação de uma linguagem de
condicionamento europeu - a do arcadismo neoclássico - ao ambiente inspirador
americano. Por isso, entre outras razões e por ter realizado a maior parte de sua
obra em Portugal, ele muito pouco lhe acrescentasse aqui. Deixou-nos, todavia, o
Vila Rica, inadvertidamente subestimado pela crítica voltada para a valorização da
obra escrita em Portugal. Na fase européia, a poesia de Cláudio Manuel da Costa
reflete modelos portugueses e italianos — do Renascimento e Quinhentismo
clássico, com Petrarca e Camões, até o Arcadismo notadamente com Metastásio 82.
Habilidade no manejo do verso de construção conforme o gosto clássico, marca
aliás dos bons neoclássicos em língua portuguesa, escrevendo também com
domínio em italiano, o poeta se destaca como sonetista e cultivador de outras
formas - églogas, idílios, cantatas. Deu ao tratamento temático, como a maioria dos
seus contemporâneos, o toque pessoal suficiente para desfavorecer os lugares-
comuns. É o que podemos observar, sobretudo quando ele exprime sentimento
sombrio de desencanto. Jogou então com comparações e oposições que
confrontam beleza e natureza, freqiientemente noturna, estado de espírito
desesperançado e incorrespondencia amorosa mais beleza e natureza. E o fez seja
em composições líricas inspiradas em sua musa seja em poesias em que finge
sentimentos através dos amores descritos de pastores, estas de mais acentuado
bucolismo arcádico do que aquelas. Temos, na verdade, um poeta da mais
legítima tradição européia, embora, como já vimos, ele tenha sido o primeiro a
acentuar o contraste e a difícil conciliação dessa expressão poética com a paisagem
e inspiração pátrias. Não pretendeu
ia linguagem nova, a rigor tentou adequar a experiência do momento xpressão
da visão e até dos seus sentimentos pátrios americanistas, sem qetivismo,
simplesmente de maneira evocadora e relativo orgulho de •ntidade.
Lembramos a “Fábula do Ribeirão do Carmo”, mesmo que lha sido inspirada no
modelo camoniano - o episódio do gigante amastor - e expressa em linguagem
mitológico-arcádica. Mas aqui, ja-se de passagem, a transparência cristalina e

82 V. Carla Inaina Queiroz, np. cit.


tranquila do bucolismo 1c lugar à realidade turva e sangrenta de águas
conturbadas pelas am- r'ões do explorador de nossas riquezas. Sem dúvida, daí
saiu uma senda experiência do poeta, a do poema épico Vila Rica, compondo a
logia dos épicos brasileiros do século XVIII com o Caramuru de San- Rita Durão e
O Uraguai de Basilio da Gama, situando-se em desta- c no processo da
diferenciação interna da Literatura Brasileira.
A experiência lírica de Cláudio Manuel da Costa, a mais expressiva ra nós
enquanto vislumbramento da identidade de nossa criação lite- ria, amplia-se
com Gonzaga, Silva Alvarenga e Alvarenga Peixoto, incipalmente os dois
primeiros, pois o último, cuja produção conheci- , insuficiente para uma
avaliação, não ultrapassa o denominador co- um da época, mesmo que avance
até a Ilustração20. Tomás Antônio onzaga - Dirceu — realiza uma obra lírica,
cujo segredo das qualida- :s, que a distinguem do conjunto da época, reside nas
circunstâncias itobiográficas que a envolveram21. Superou limitações a ponto de
gerar

Inácio Josc! de Alvarenga Peixoto, Obras Poéticas, coligidas, anotadas e precedidas de juízos críticos dos escritores
nacionais e estrangeiros e de uma notícia sobre o autor e suas obras e acompanhadas de documentos históricos, por J.
Norberto de Sousa e Silva, Rio de Janeiro, Garnier, 1865; M. Rodrigues Lapa, Vida e Obra de Alvarenga Peixoto, Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Livro- MF.C, 1960.
Tomás Antônio Gonzaga, Marllia de Dirceu e mais Poesias, Lisboa, Sá da Costa, 1937, com prefácio c notas de Rodrigues Lapa;
Obras Compleuts - I - Poesias - Cartas Chilenas; II - Tratado de Direito Natural- Cartas sobre a Usura - Minutas - Correspondência - Documentos,
edição crítica de Rodrigues Lapa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro-MEC, 1957, 2 vols. Sobre o problèma ila
autoria das Cartas Chilenas, v. Critilo (Tomás Antônio Gonzaga), Cartas Chilenas, precedida de uma epístola atribuída a
Cláudo Manuel da Costa, introdução e notas por Afonso Arinos de Melo [‘ranco, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional,
1940.

envolvimento mítico de poeta e musa — Maria Dorotéia, a Marília do Dirceu.


Numa época em que o lirismo amoroso, ainda que inspirado na realidade, era
excessivamente disfarçado pela linguagem mitológica ou pelo racionalismo
clássico persistente, verifica-se com Gonzaga um verdadeiro rasgo no
convencionalismo reinante. Ele sobrepõe a confidência ao fingimento das
comparações, alusões, metáforas e mitos, graças à simplicidade da linguagem, ao
seu tom quase coloquial de comunicação direta com a musa inspiradora,
esclarecendo-lhe o que pudesse restar obscuro, como o convite epicurista. Acresce
que a obra comporta uma leitura que marca nitidamente três fases no processo de
revelação amorosa: l2) o conhecimento da musa, com o deslumbramento que causa
no poeta; 2U) o amor correspondido e a preparação psicológica para o relaci-
onamento dos amantes, visando ao matrimónio, mas em função de um dado
biográfico - a grande diferença de idade entre ambos e de status — Gonzaga um
magistrado, dado à vida intelectual, ao estudo e à reflexão no meio das ambições e
riquezas geradas pela mineração; 3“) finalmente, a separação dos amantes por
força do “ideal” de libertar a “pátria adotiva”, o que levaria o poeta à condenação
e ao desterro, frustrando-se o seu outro ideal pessoal ou de vida íntima.
Elaboradas as poesias em Ouro Preto, no convívio com Marília, e na prisão no Rio
de Janeiro, é possível que Gonzaga já tivesse escrito algumas dessas liras (espécie
formal de ode lírica) em Portugal, e as tivesse adaptado às circunstâncias do seu
novo amor. No todo, elas caracterizam evidentemente o bafejo do clima e do
espírito da sociedade da mineração, contendo mesmo referências informativas
sobre processos de exploração do minério. Ouro Preto, com a mineração e a
revolta da Inconfidência Mineira, o amor, a ideologia da liberdade responsável
pela frustração do ideal de vida conjugal e sentimental (embora o poeta se
inocentasse da sua participação na revolta), a reconhecida beleza
permanentemente comunicativa da obra, são sem dúvida as qualidades pelas
quais os românticos a exaltaram. Essas qualidades seriam imitadas, com muita
artificialidade, mas prevaleceria a mitificação da vida e dos ideais do poeta,
projetados com sua amante, sa-
Retrato de Tomás Antônio Gonzaga,
cf. reprodução em Marílta de Dirceu, de
Fernando Cristovão, Lisboa, Temas
Portugueses, 1 9 8 1 .

Içados, na tradição brasileira22. Podemos dizer que é fato único de a a


produção do Período Colonial, espontaneamente aceito pela pos- dade. Nesse
caso, a tradição é mais importante do que a revisão da ória em busca da
exatidão biográfica e da veracidade do envolvimen- dcológico.

>» rmnílmicos não só mitificaram a Inconfidência Mineira como também o fizeram em destaque mu liimâs Antônio
Gonzaga, o lírico de Marília, que sacrifica o amor pela liberdade da pátria ado- i v , i ; I m a punir daí que sc falseou a
sua biografia, com o retrato do poeta desterrado, solitário e lumliisn. enquanto os românticos ainda se inspiravam em
sua vida e mesmo obra como assunto li- • i u|o i Imuuvam as suas liras. Contudo, não se pode falar da influência da
obra poética de iim/aga na pm sia brasileira, a não serem casos excepcionais.
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M A R I L I A
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L I S B O A :
NA TYPOGRAFIA NUNESIANA
ANUO M. DCC. xai.

Com Licença da Real Aíeyi da Commifsão Cera! Jobrc o


Frontispício da 1“. edição Exame, t Ccnfura dos Lixrct.

Silva Alvarenga deixou-nos a obra Glaura, Poemas Eróticos, composta de


rondós e madrigais, traduzindo seu amor por uma única musa 83. Sem
dramaticidade, sem predominância de lamentações, exprime-se com a
ligeireza que caracteriza aquelas formas poéticas. Deu preferência às
comparações com a natureza, despojando-se do mitológico, e até desta-
cando árvores e frutos existentes no Brasil - a mangueira, a laranjeira -
como componentes de uma paisagem propícia aos idílios. Mas é apenas a
“cor local”, destituída de sentimentos e sem intenções de adequar a nos-

83 Manuel Inãcio da Silva Alvarenga, op. cit.


sa paisagem aos ideais da paisagem-modelo-arcádico. E continua uma li-
nha de tradição de fora para dentro, em outras composições poéticas, por
exemplo o poema “O Desertor”, sobre a reforma da Universidade de (
ioimbra pelo Marquês de Pombal, ou odes em que presta, como diz, o
"tributo”, indispensável e regular, à autoridade constituída, não obstante
ter-se manifestado em contrário84. Foi professor de retórica no Rio de Ja-
neiro, fundador da Sociedade Literária, que seria fechada pela autoridade
sob a alegação de difundir idéias avançadas para a época, as “idéias
francesas”, provenientes do Enciclopedismo e da Revolução. Deixou-nos
também, como vimos, a importantíssima “Epístola/A José da Gama,
Termindo Sipílio”, síntese admirável da poética arcádico-neoclássica es-
crita a propósito d’O Uraguai, e a tradução adaptada do poema “As Artes”,
de Dorat, sobre o teatro e a arte de representar85 86 87.

3. A POESIA ARCÁDICA - II - OS ÉPICOS

Frei José de Santa Rita Durão, Caramuru, José Basílio da Gama, O


Uraguaie Cláudio Manuel da Costa, Vila Rica21’, apresentam-se sob formas
tradicionais e transformadas, e sob a presença do modelo camoniano17,
mas inteiramente voltados para uma temática representativa da história do
Brasil Colónia. O primeiro se mantém fiel ao esquema básico da estrutura
de Os Lusíadas-, divisão do poema em cinco partes — invocação, proposição,
dedicatória, narrativa e epílogo; a oitava rima; e outros recursos da
narrativa épica, sobretudo o maravilhoso. Abrangendo a nossa

84 Idenr, v. “O Desertor ”, r. 11, pp. 3-44, e quintilhas “ao vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa no dia dc seus
anos”, t. 1, pp. 227-232.
23. Idem, "A José Basílio da Gama” (epístola), op. cit., 1.1, pp. 289-294.
26 Frei Josd de Santa Rita Durão, Caramuru (poema ¿pico do descobrimento do Brasil), Lisboa, 1 7 8 1 , c a nova
edição brasileira, precedida de biografia do autor pelo Visconde de Porto-Seguro, Rio de lanciro, Garnicr,
s. d.; José Basílio da Gama, O Uraguai (poema), Lisboa, Régia Oficina Tipográfi- i a, 1769, c Obnis Poéticas,
precedidas de uma biografia crítica e estudo literário do poeta por José Vi l Isaimo, Rio de janeiro,
Garnier, s. d.; Cláudio Manuel da Costa, “Vila Rica”, em Obras Poéticas, ed, cit,, 2 vols, w

' 1 illberio Mendonça Teles, Camões na Poesia Brasileira, 3. ed. rev., Rio de Janeiro, LTC, 1979.

A k ii i .iit i i II • i i i .. i ii .nliii wt i \il /1 i»i t >i /M \/\ rmmiiAi


historia do século XVI ao XVIII, toma como episodio central, unificador do
poema, a legenda de Diogo Álvares Correia, apelidado o Cara- muru, no
seu relacionamento com índios, cujos hábitos, costumes, valores, guerras
sáo minuciosamente descritos. Para a legenda do Caramuru, apóia-se em
cronistas, destacadamente em Sebastião da Rocha Pita, que lhe deu a
versão definitiva.
Se Santa Rita Durão se mantém na revivescência do nativismo e do
indigenismo mais do que do indianismo do século XVI, fiel ao mesmo
tempo às características formais do Quinhentismo clássico, os dois outros
épicos se enquadram no século XVIII entre os árcades, um passo à frente.
E certo que o modelo camoniano persiste no verso, sobretudo na sugestão
do episódio lírico: no Caramuru, Moema versus Diogo Alvares, em O Uraguai,
Lindóia e Cacambo; e no Vila Rica, diluindo-se no poema, Aurora e Garcia.
São reflexos da associação amor e morte, e caminho da repercussão no
Brasil do mito de Inês de Castro, fixado por
Camões88. Contudo, nos dois últimos épicos brasileiros a forma evolui %
para uma expressão menos disciplinada. O maravilhoso, se ainda está
presente, cede lugar às sugestões da cosmogonia indígena, embora comi
nuem fiéis à distribuição da matéria em partes, cantos e episódios.
Considere-se, em contrapartida, a limitação temporal c espacial da
matéria épica: em O Uraguai, as lutas de portugueses contra índios
catequizados e assistidos por jesuítas ao se fazer cumprir o tratado de 1750
entre Espanha e Portugal, afetando a situação dos Sete Povos das Missões
do Uruguai; no Vila Rica, a penetração bandeirante, a descoberta do ouro
das Minas Gerais e a fundação de Ouro Preto. Em José Basilio da Cama - o
nosso primeiro poeta engagé— o apoio à política do Marquês de Pombal,
antijesuítica, que culminaria com a expulsão da Companhia de Jesus dos
domínios portugueses; em Cláudio Manuel da Costa, o compromisso
único com a história interna. Nos dois últimos,

88 Lembramos apenas Jorge de Lima, “Invenção de Orfeu: Canto II - Subsolo e Supersolo - XIX", em Obra Completa - I
- Poesia e Ensaios, Rio de Janeiro, Aguilar, 1958, pp. 704-706.
DARAMUItU.
»©»ata ss»!©©
DO

DESCOBRIMENTO
DA

BAHIA.
COMPOSTO
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. JOSt- DE SANTA RITA DURÍO ,
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turai da Catu-Preta nas Minas GeraeS.

BAHIA*
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5<s/*> Co se ». ° ¿0.

18377
Página de rosto do
Caramuru.

contudo, a matéria é historicamente limitada, o que já por si só impunha um


tratamento diferente daquele que pudesse ser dado a uma matéria
abrangente, de projeção ou vinculação retroativa e prospectiva, como em
Santa Rita Durão. E Basílio da Gama encontraria soluções melhores do que as
de Cláudio Manuel da Costa. Sem prejuízo da força épica, ele abre um
cenário amplo, a um tempo cinza e luminoso, recortado pelo volume de água
em movimento e com detalhes de refugio quase sombrio na MU composição
de verde com a natureza tímida - considere-se a gruta em que I indóia se
isola à procura da morte. Nesse cenário, a açã® se desenvolve corrida em sua
sequência cronológica, traduzida em linguagem
Página de rosto de
O Uraguai.

OURAGUAY
P O E M A
JOSÉ BASIUO DA GAMA
NA ARCA DIA DE ROMA
TERMINDO SIPJLIO
DEDICADO
AO I LL . MO
E EIC."" SENHOR

FRANCISCO XAVIER
DE MENDONÇA FURTADO
SECRETARIO DE ESTADO

S. M A C E S T A D E F I D E L Í S S I M A
c?v. te.

LISBOA
NA RECIA OFFICINA TYTOCRAPJCA
* A«NO HDpctxix
Com licença da Ru! Mexa
Cenftrlñ.

que foge aos lugares comuns da época, moldada em versos brancos e


estrofação livre, com imagens sóbrias. Tudo isso faria do poema um mo-
delo das transformações e renovação da poesia da época. Se o seu con-
temporâneo Silva Alvarenga foi o primeiro a louvá-lo como exemplo da
boa poesia a ser cultivada, os românticos o consagrariam como expressão
de poesia americana. E há razão em ambos, se considerarmos particular-
mente a visão do índio, ainda que tenha sido apreendida já em estágio
avançado de aculturação em conseqiiência da catequese jesuítica.
Se Basilio da Gama contou com o espaço plano e livre da paisagem dos
pampas, que ele conheceu, já Cláudio Manuel da Costa delinearia
im cenário denso, irregular e hostil, sugerindo a travessia dos bandeiran-
es até o local montanhoso da descoberta das minas. A ação do poema,
ambém em sequência cronológica, se agravaria com a monotonia do de-
assílabo emparelhado, embora de estrofação livre. É pesado, escoa len-
amente. E o poeta não atingiu as qualidades literárias do seu antecessor,
le quem chegou mesmo a refletir alguma influência. Sem dúvida, pro-
urou enobrecer a imponência da paisagem selvagem, mesmo sob o peso
Ic sugestões provenientes da linguagem mitológica dos clássicos e neo-
lássicos, enfatizando as alegorias. Assim, sua visão do índio talvez tenha-
E constituído na maior abertura até então sugerida para o tratamento li-
srário do indianismo romântico.

. POETAS PRÉ-ROMÂNTICOS

Em prosseguimento do Arcadismo, segue-se a fase de produção poé-


ca ligada às transformações pré-românticas. A partir de raízes setecen-
stas, ela preenche o primeiro quartel do século XIX, limitada ao Rio de
meiro. Para aí converge a ação do Pe. Antônio Pereira de Sousa Caídas,
rei Francisco de São Carlos, José Bonifácio de Andrada e Silva, Domin- ;>s
Borges de Barros e até Antônio Peregrino Maciel Monteiro. Os dois
rimeiros se destacam pela poesia de inspiração religiosa, cabendo a >usa
Caídas posição de maior relevo, não obstante estar mais enraizado o
século XVIII do que em princípios do XIX. Cultivando a poesia de
ispiração “profana”, ao lado da religiosa, em formas tradicionais, nos tria
uma obra de publicação póstuma, Poesias Sacras e Profanau29. Inspi- IU-SC na
Bíblia, nesse momento em que o Velho Testamento é descoberto »mo fonte de
poesia pelo Pré-romantismo, e foi o primeiro entre nós a sentir aspecto do
famoso discurso de Rousseau sobre a desigualdade

IV /\ni6llio Pcreiia ilc Sousa Caldas, Obras Poéticas, Paris, Oficina de P. N. Rougeron, 1820-1821, lumiM (ni.
pdsuima dévida a Antonio de Sousa Dias, com notas de Francisco de Borja^îarçâo Sim Ider),

IdlNUAl l O i ’ S i I) 1 PUUlnnn ni t n DCDfnnn mim.in


entre os homens, opondo as vantagens do estado selvagem ao estado social.
Ele e Frei Francisco de São Carlos, autor do poema sobre Nossa Senhora - A
Assunção™, são as últimas expressões de uma poesia de inspiração religiosa e
de culto da Virgem Maria que provém do século XVI.
Os três seguintes - José Bonifácio de Andrada e Silva - Poesias Avulsas de
Américo Elísio, Domingos Borges de Barros - Poesias Oferecidas às Senhoras Brasileiras
e Os Túmidos, e Maciel Monteiro - Poesias11 - são líricos e patrióticos: caminham
para os objetivos dos românticos. Além de influências portuguesas,
exprimem influências italianas, inglesas e sobretudo francesas, propagando o
Pré-romantismo europeu tomado a fontes diretas. José Bonifácio foi leitor e
tradutor de Walter Scott, de Byron, da Bíblia, de gregos e latinos, revela
consciência crítica da renovação literária que se processava e chegou mesmo
a propor o enriquecimento da língua pelo uso literário do nosso vocabulário
diferenciado. Domingos Borges de Barros encontrará consolo pela perda do
filho nas sugestões de confidência e lamentação da “poesia dos túmulos” que
se propagava nos primeiros momentos do romantismo europeu, lodos eles,
inclusive Maciel Monteiro, cultivam certo subjetivismo amoroso e
sensualista, ao lado da poesia já de feição patriótica e de exaltação da
liberdade.
Esses poetas, dos árcades aos pré-românticos, refletem os efeitos dos
influxos externos atuantes sobre nós, sujeitos às tensões dos influxos in-
ternos: o que predomina, como formas literárias, poéticas, deriva dos in-
fluxos externos, cujas transformações, no que pese a tradição da língua e do
verso, continuarão assim sob a aceitação de modelos, sugerindo uma 89 90

linha igualmente externa de propostas românticas para nós. Mas, o trata-


mento temático prossegue pressionado pelos influxos internos, envolvido
pelas coordenadas do nativismo e do indigenismo/indianismo, que por sua

89 Frei Francisco de São Carlos, A Assunção - Poema Composto em Honra da Santa Virgem..., Rio de Janeiro,
Impressão Régia, 1819, e nova ed. cor., Rio de Janeiro, Garnier, 1862 (introdução de J. C. Fernandes Pinheiro).
90 José Bonifácio de Andrada c Silva, Poesias Avulsas de Américo Elísio, Bordéus, 1825; ed. fac-simi- lar, Rio de
Janeiro, Academia Brasileira, 1942; Domingos Borges de Barros, Poesias Oferecidas às Senhoras Brasileiras,
por um Baiano, Paris, Aillaud Librairie, 1825, 2 vols.; Novas Poesias Oferecidas às Senhoras Brasileiras, por um
Baiano, Rio de Janeiro, Laemmert, 1841; Os Túmulos, Bahia, Tipografìa de Carlos Pongetti, 1850; Maciel
Monteiro, Poesias (ed. póstuma), texto organizado e apresentado por José Aderaldo Castello, São Paulo,
Conselho Estadual de Cultura-Comissão de Literatura, 1962.
vez alimentarão o nosso nacionalismo romântico, aguçando a busca de
identidade própria.
CAPITULO VI

A CAMINHO DA UNIDADE

1. ESQUEMA GERAL DAS MANIFESTAÇÕES LITERÁRIAS DO PERÍODO

COLONIAL

Visando a uma reapreciação conclusiva do Período Colonial, pro-


pomos o quadro a seguir, com esclarecimentos necessários e reconsidera-
ção das coordenadas - nativismo e indigenismo/indianismo, que unificam
as manifestações literárias deste período:
1. As Fundações - Século XVI

1.1. O espaço litorâneo é predominante como foco


de observação e inspiração.

1.2. Surgem os primeiros centros urbanos que se


organizarão progressivamente — Salvador,
Recife/Olinda, Rio de Janeiro — onde principiará a
concentração de atividades culturais e intelectuais;
afirmar-se-ão neste sentido nos séculos seguintes,
ampliados, no século XVIII, por São Paulo (fundada no
século XVI) e por Ouro Preto e a constelação de cidades
da região aurífera.

1.3. Prosa — informativo-descritiva, com conteúdo


histórico, de cronistas portugueses, jesuítas e viajantes
aventureiros estrangeiros.

1.4. Poesia - formas monologadas, dialogadas e


dramática, visando à catequese; épica e lírico-religiosa.

1.5. Figura-síntese — Pe. José de Anchieta.

1.6. Coordenadas que surgem e prosseguem em


transformação pelos séculos seguintes: a) nativismo e
suas diversificações; b) indigenismo/indianismo. O
conteúdo ideológico dessas coordenadas incide e se sur-
preende nas manifestações indicadas nos itens 1.3., 1.4.
e 1.5., com função de unificação interna, a caminho da
identidade própria.

iK fUNDACÔES O 1« l>FRlnnn nu n i>EUÍíinri


mi/uim
2. As Construções - Séculos XVII e XVIII-XIX

2.1. REFLEXOS DO POESIA TEATRO CRÓNICA ORATÒRIA


4 CLASSICISMO
4 Recife (Séc.
o XVI)
Ë
• Bento
Teixeira

o 2.2. BARROCO
c
to Recife (Séc.

A T\ XVII) • Ambròsio
Fernandes
Brandão
O • Manuel
c Calado
<u
Influxos Externos

4—)
C Festejos e Atos Acadêmicos

(Séc. XVI ft)


O • Jesuítico
X
3
(erudito) • Domingos do
Loreto Couto
• V. Borges da

V ; Fonseca (Frei
Caneca)

V
Salvador
na (Séc. XVII) • Gregório • Manuel • Frei Vicente
• Pe. Antônio
H de Matos Botelho de de Salvador Vieira

's e Guerra Oliveira • Pe. Simão de


Vasconcelos
• Pe. Eusébio de

« • Manuel • Jesuítico Matos

s Botelho de (erudito)

o Oliveira
X • Frei Itaparica
o
O'
ní F i gur as-sin te se : Vieira e Gregàrio de Matos e Guer
0 Festejos e Atos Acadêmicos

0
4
• POESIA TEATRO CRÓNICA ORATÓRIA

i (Séc. XVIII) • Jesuítico • Sebastião da


I (erudito)
Rocha Pita
• Frei Jaboatão
o
• José Mirales
E
• Nuno Marques Pereira

U
Festejos e Atos A
A cc a
add eê m
m ii a
c os ,s
c
Rio de Janeiro
(Séc. XVII) • Jesuítico • Pe. António de

Academias, Festejos e Atos Académicos

(Séc. XVIII) M. I. da
Silva
o o Alvarenga
X X
3 3
t-fc* <-4—
São Paulo
c c
(Séc. XVIII) • Frei Gaspar
da Madre
de Deus
• Pedro Taques

na Festejos e Atos Acadêmicos


H
E Ouro Preto
OJ (Séc. XVIII) F e s t e j o s e A t o s A c a d ê m i c o s
E
o
X 2.3. ARCADISMO
o
icfl
ta» Ouro Preto
« (Séc. XVIII) • Cláudio
V
o£ Manuel da
Costa
• I. J. de
Alvarenga
Peixoto
• Tomás
Antônio
Gonzaga
I
i POESIA TEATRO CRONICA ORATÒRIA

i Épicos: Frei José de Santa Rita Durão José Basilio

o da Gama F i gura - si nte s e : Cláudio Manuel da

e Costa

2 . 4 . PRÉ-
ROMANTISMO
V
c /RUPTURA
lo

r Rio de Janeiro
(Séc. XVIII XIX)

o
cT \
\o
• Pe. A. P. de
Sousa Caídas
• Frei
Francisco de S.

c • Frei Paio
Francisco de S. • Frei Monte
Carlos Alverne
• José
o o Bonifácio (o
x X
3 3 Velho)
d • Domingos
c 3
Borges de

vT Barros

v
Reformas de D. João VI

<L>
H
2.5. FREQUÊNCIA 2.5.1. E COORDENADAS POÉTICAS E DESABROCHAR DA CONSCIÊNCIA CRÍTICA
s
2.5.2.
<u NATIVISMO E SUAS DIVERSIFICAÇÕES INDICENISMO/INDIANISMO

& 2.5.3.
o
X
o
irt Raízes Internas do Romantismo

rt
U
cC

Conforme sugerimos, pretendemos visualizar o todo dasatividades literárias do


Período Colonial e ao mesmo tempo seu isolamento em núcleos diversos. Num caso e
noutro, delineia-se a marcha das transformações que então se fazem paralelas,
sendo^eu traço de unidade qs frequências temáticas e as coordenadas internas. Em
primeiro lugar, em função
istória geral e, em segundo, das manifestações culturais e literárias das em
núcleos urbanos no Período Colonial, é que diferenciamos e lesmo tempo
relacionamos: 1) o século XVI; 2) os séculos XVII e
I. E acentuamos também o seguinte:
lu) As manifestações literárias isoladas cm seus respectivos núcleos nos às vezes
ocorrem simultaneamente com as de outros centros.
2") A unidade possível nas transformações só é reconhecível através oordenadas
internas do nativismo e do indigenismo/indianismo e ámente pelas reflexões
sobre poética.
3“) O compromisso histórico-literário que passa a operar de dentro fora é por
sua vez uma imposição constrangedora da transposição tilos literários, a
despeito da teoria e da ideologia que presidiram freqíiências na Europa.
Pelas razões acima é que reafirmamos não saber como seria possível mstrar
convincentemente uma periodização, que de maneira abran- • delimitasse ao
mesmo tempo espaços de atuação e transformações tilos, como o Quinhentismo
clássico, o Seiscentismo barroco e o elitismo arcádico-neoclássico e pré-
romântico. Suas freqiiências en- Vs se fizeram seguidas e concomitantes, mas
sempre isoladas em nú- diversos, quase sem condições de intercomunicação,
fato devido mente àquela política colonizadora de Portugal, ao exercer sobre
centro controle direto de um ponto único - a metrópole. Houve ;overno geral, o
que seria de pressupor uma administração interna atizadora e inovadora. Se
voltada para a unidade, poderia ter sido ável às transformações internas livres e
conscientes em busca da idade, o que, contudo, não se verificou 1. Portanto, é a
partir do nú- gerador dos reflexos externos - a metrópole - que podemos enxer-
o ponto de vista literário uma sucessão de procedimentos suscetí-

isldi u m < ,is restrições c vigilâncias impostas: proibição de estabelecimentos tipográficos: cen- siibn a atividade
intelectual, destacadamente sobre os livros que só se editavam em Portugal; lu l i dr ensino oficial de nível superior;
proibição de intercâmbio com o estrangeiro etc. (v. noli S f ó lio capitulo II). ®

veis de periodização, que refletido entre nós, repetiria a periodização da Literatura


Portuguesa. Nossa unidade depende da função incorporadora dos fatores internos,
agindo da reação à assimilação, com poderes incor- poradores. Só debaixo desta
perspectiva podemos chegar ao delineamento sumário da freqiiência de estilos e de
poéticas no Brasil Colónia. Por outro lado, evitamos o perigo de distorcer o
reconhecimento da unidade interna, decorrente das coordenadas do nativismo e do
indianismo. Embora, nos limites de nossa formação, devamo-nos confrontar
inicialmente com o quadro português.
A prosa portuguesa quinhentista projetada entre nós pela obra de cronistas do
século XVI foi enriquecida pelos ideais humanísticos do expansionismo e suas
transformações decorrentes das ambições de dominação e da possibilidade de
exploração dos recursos da terra conquistada. A história lirerária portuguesa
reconhece, no século XVI, uma linha de raízes medievais, em que se situa a atividade
poético-dramática de Gil Vicente91 e a crónica histórica^e de viagens. Com o
Humanismo, elas nos chegaram naquele mesmo século XVI, com os cronistas
portugueses que escreveram sobre o Brasil e com o Pe. José de Anchieta. Não se
caracteriza como literatura clássica, que seria a de um Sá de Miranda, Antônio Ferreira
e Camões. Ora, tanto a prosa de cronistas, João de Barros ou Fernão Mendes Pinto, ou
a linguagem gilvicentina retransmitidas ao Brasil foram caminhos que se abriram para
o Barroco: emoções e impressões geradas pela exuberância das paisagens descobertas;
contradições entre os sentimentos de conquistadores e conquistados; a obra de
catequese expondo Deus, o castigo e o perdão ao herege ou ao gentio pagão, este in-
corporando um novo conceito de vida marcado pela dualidade virtude/ pecado
segundo o cristianismo propagado. Essas sementes germinariam no século XVIII,
quando já estão definidos estilo e ideologia do Barroco. Neste momento contamos com
a implantação do que se tornou uma tra

91 V. Hernâni Cidade, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas (Séculos XVa XVIII)t 2. ed. rct. e ampliada, Coimbra, 1942, vol. I;
Fidelino Figueiredo, História da Literatura Clássica (1502-1580), Lisboa, Clássica, 1917, vol. 1.
ição de linguagem e de sentimentos contraditórios, cujas transfórmanos e
enriquecimento metafórico são propiciados exatamente pelo Bar- DCO, do século XVII
ao XVIII. Portanto, a prosa que se cultivou não só >lm- o Brasil e no Brasil, mas
também a própria prosa portuguesa, do ■culo XVI ao XVIII, caminham nas suas
transformações para a caracte- i/ação barroca. E é assim também que os nossos
cronistas e prosadores, ompreendida aí a oratória sacra e acadêmica, se nos
apresentam ao mes- 10 tempo distinguidos pelos influxos do condicionamento
interno. E bservemos que na literatura do Brasil Colónia, curiosamente, só pódelos
divisionar a diferenciação de estilos e formas literárias, a contar do dassicismo
quinhentista ao Barroco e Arcadismo, no domínio da poesia rica e épica, na qual,
contudo, prevalecerá o modelo camoniano. Mas, mto a prosa quanto a poesia
acentuarão sempre a sua marca diferencia- ora interna com relação aos modelos
externos por força da ação dos in- uxos do condicionamento interno, alimentadores do
sentimento nati- ista e do indigenismo/indianismo. Finalmente, consideremos ao
mesmo •mpo que, com as atividades literárias locais, se registram a partir de içados
do século XVII promoções e realizações de festejos públicos, en- (| nocidos no século
XVIII pelos atos acadêmicos e pelas academias his- íricas, literárias e científicas.
Em síntese, reconhecido o filão barroco do século XVI-XVI1 ao VIII, devemos
considerar através dos séculos indicados:
1“) A prosa descritivo-histórica, a genealógica e até a narrativa modista, além da
oratória sacra, cultivadas em centros urbanos em desen- ilvimento como Salvador,
Recife/Olinda, Rio de Janeiro e São Paulo.
2“) A poesia épica, a satírica e a lírica, que na segunda metade do VIII evoluem do
Barroco para o Arcadismo e Pré-romantismo. Foram iltivadas, desde o século XVI,
sucessivamente em Salvador, Recife, Rio • Janeiro e Ouro Preto. Elas traduziam, para
nós, como imposição dos fluxos externos, as repercussões e poéticas da época.
'“) A frcqüéncia de festejos, atos acadêmicos e academias, em todos < nitros indicados
de meados do século XVII a princípios do MX, aos

t.l là.1 I . A . . ^
quais se acrescentam outros centros menores. Marcadas pelo Barroco, estas
manifestações, a que chamamos “movimento academicista”, foram muito mais
propriamente simultâneas pela extensão do Brasil do que inter-relacionadas, embora
apresentem as mesmas características temáticas e quase toda a gama das formas
estereotipadas dos artifícios e da temática da poesia barroca.
Em conclusão, contam-se dtujs linhas de produção literária: a primeira
compreende prosa e poesia, que em determinado momento, sobretudo no século
XVIII, se interligará com o movimento academicista, passando assim de individual a
atividade de grupo; a segunda, restringe-se somente à poesia da segunda metade do
século XVIII, arcádica, ao lado da linha da prosa barroca.
Finalmente, se admitimos que para chegarmos à visão de conjunto e da unidade
proposta o ponto de fuga é a Literatura Portuguesa, é certo também que para a sua
análise o ponto de partida é a freqiiência das reflexões sobre poéticas, traduzindo o
desabrochar progressivo da consciência crítica interna, a contar do século XVII,
antecedida pelo reconhecimento das coordenadas do nativismo e do
indigenismo/indianismo, provenientes do século XVI.

2. NATIVISMO

Relembremos que a prosa e a poesia do Período Colonial traduzem impressões,


emoções, objetivos e conflitos da colonização que se acentuam progressivamente.
Persistentes, alimentam com o desabrochar da consciência crítica as diversificações do
chamado “sentimento nativista” 92, aqui entendido como uma coordenada que
fundamenta a procura da identidade interna. Destacamos pelo menos quatro
diversificações do nativismo: 1 - ) o louvor da terra; 2“) o louvor da autoridade; 3“) a
visão retrospectiva de tentativas de reconhecimento conciliador de valores internos e
IIDS ; 4U) as relações do português conquistador versus jesuíta catequi- ■ com o
indígena. Dessas quatro vertentes, que se interpenetram, as •l imeiras definem
um processo de transformações, que caminha para eração de nossos complexos
de colonizado. A quarta, porém, ganha- nificado próprio, justapondo-se às três
anteriores. Derivada do nati- ), ela se destaca no comportamento geral que, das

92 Já conceituado anteriormente, cf. passagem correspondente à nota 11 do capítulo III.


reações simplistas erficiais dos primeiros momentos, se avoluma e ganha
complexida- Lcconhecemos, pois, que as três primeiras vertentes do nativismo
anecem específicas dele mesmo, enquanto a Quarta, que se fará in- ídente,
define-se como indigenismo/indianismo. Mas ambos, nati- ) e
indigenismo/indianismo, continuam interpenetrantes. Devemos derar então
que essa justaposição resulta sobretudo dos germes que mda coordenada
cultiva para posições futuras, isto é, os da mitifica- o nosso passado e origens
americanistas. Dessa maneira nativismo e enismo/indianismo do Período
Colonial se projetarão harmoniosa- e como componentes do nacionalismo
romântico.
Ktapas de uma sequência — nativismo —> indigenismo/indianismo —»
nalismo -> brasilidade - a contar de princípios do Período Colonial,
0 é que todas refletem aquela relação de ordem geral - homem/ter- er dizer,
adventício/autóctone/terra conquistada, estimuladora, pelo do tempo, da
representação da realidade e paisagem brasileiras pela
:ura. A terra ofereceria e proporia de início um condicionamento ao
colonizador, que oscilaria da sedução à repulsa, do amor ao des- 93 94
dade e malícia, pelo autóctone. Esboça a perspectiva da relação homem/ terra e das
duas coordenadas que daí resultariam: nativismo e indigenis- mo/indianismo:

Viu um deles [um índio] umas concas de rosário, brancas; fez sinal que lhas desse, e folgou muito
com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e
novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

, da solicitação do retorno à acomodação da permanência, sob o jogo jeranças e


ambições. (Subordinava-se à possível conciliação de pro- 5 das quais ele
mesmo era portador - com a indispensável ou ine-
94 procura de respostas a serem geradas pelo contexto novo e numa igem
que a este também correspondesse. Resulta em nativismo, de poi ii.i vez
desabrochará uma forma híbrida de sentimento pátrio. > primeiro contato por
ocasião do descobrimento e posse oficiais i .1. lixado por ( aminha, registra
impressões exteriores da paisagem,
dtide mais entrevista do que vista, e a simpatia, misto de ingenui-
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as
contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque lho não havíamos de dar! E depois tornou [a
entregar] as contas a quem lhas dera.
[••.]
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta geme, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã,
do que entenderam-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde
pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm.
[...]
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha
vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e tempe- rados como os de Entre-Douro e Minho,
porque neste tempo dagora assim os achávamos como os de lá. [As] águas são muitas; infinitas. Em tal
maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser
a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza
aqui esta pousada para essa navegação de Calicut [isso] bastava. Quanto mais, disposição para se nela
cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé95.

Caminha também sugere a busca às riquezas fáceis, visão de eldorado que,


porém, por mais de dois séculos esconderia os seus tesouros. Sob o ideal da
cristianização do gentio, portanto, o expansionismo de ambições materiais; e nas
relações de um com o outro, as posições que adviriam inconciliáveis. Mas pesa e se
propõe a expansão da fé, a ser compensada, em caso de inviabilidade, pela sedução da
riqueza ofertada com os estímulos para buscá-la. São dois pólos incertos de ideais e de
interes-

95 Pero Vaz de Caminha, Carla a El-rei D. Manuelcit. (Leonardo Arroyo), pp. 35, 65 e 67.
scs: o índio em estado pagão e selvagem, a perspectiva de exploração de
riquezas possíveis mesmo em terra ainda desconhecida. Dá-se origem ao nativismo,
com inspiração na paisagem a serjouvada em superlativo. Mas houve exceções, isto é,
descrições objetivas ou da paisagem realmente sentida em oposição à entrevista sob o
recurso das comparações. Como ponto de partida, Caminha é deslumbramento,
enquanto Anchieta- e o Pe. Manuel da Nóbrega o antecede da mesma maneira 5 - é a
visão do observado e ao mesmo tempo sentido, mas sem que os sentidos perturbem a
objetividade. Quando não é possível, resta perplexidade, por :xemplo, sobre
superstições que chegaram até nós. Em carta de Anchie- a‘\ é longa a descrição de
partes sul do Brasil: situação geográfica; esta- ,óes do ano e frequência das chuvas;
peixes, cobras, lagartos, animais diversos, até formigas, abelhas, insetos, aves; ervas e
árvores, dando ênfase is medicinais; e, finalmente, antes de concluir com referência à
sanidade lo índio, a observação sobre superstições:

Quanto ao que costuma atemorizar os índios, os espectros noturnos ou antes emônios, o direi em
poucas palavras. É conhecido, e anda na boca de todos, haver ns demónios que os brasis chamam corupira,
que muitas vezes no mato acometem os idios c os ferem com açoites, atormentam e matam. Disto são
testemunhas os nossos mãos que viram algumas vezes os mortos por elas [sic\. Por isso, os índios, num ca-
linho, que por matos ásperos e montes íngremes vai para o sertão, ao passar no cimo D monte mais alto,
costumam deixar penas de aves, abanos, flechas e outros objetos melhantes, rogando-lhes muito que lhes
não façam mal. Há outros nos rios, que di- ■m igpupiara, isto é, “moradores da água”, que do mesmo modo
matam os índios, um rio, que fica perto de nós, antes de para lá irem os cristãos, afogavam muitas !Z£S os
índios ao atravessarem-no em pequenas canoas, que fazem de um só pau ou sca. Há outros, sobretudo nas
praias junto do mar e dos rios, que se chamam baè tá, isto é “coisa de fogo”, que é mesmo que uma faúlha de
fogo a correr com veloci- dc dum lugar para outro. Ataca os índios e os mata como o corupira. O que isto seja
ida não consta7.

'» iti fim Ixitc, Cartas lios Primeiros Jesuítas do Brasil-1- 1538-1553, cit., pp. 108-115 (carta datá- «l.i <l.i b.ilii.i, "| I0(?) dc
abril]”, 1549, c, a partir desta, várias outras).
V noia 10 <1« < spinilo MI.
'M I IIMII I me, ii/i rii., Ili - (1558-1563), “Apêndices”, pp. I-XVI1, citação de páginas )^1-XV1I.

l'ONIIAl Ol'S n i* iMinlrtnn IMI r, ~


Prevalecerá, contudo, a linha do deslumbramento superlativo, su-
blirn^çõgíLdas situações de fato. O melhor e mais conhecido exemplo é o de
Rocha Pita,Agravado pelo preciosismo da linguagem, e cujo superlativo é quase
sempre absoluto. Entre ele e Caminha, e dele para a frente, a terra foi amplamente
descrita: ares e clima, águas e aguadas, madeiras e frutos, florestas virgens e
litoral propício à navegação, terras férteis para a agricultura e riquezas minerais
imaginadas e imaginárias, luz e cor, num permanente convite aos sentidos, ao
apetite do corpo e às ambições. Esse nativismpMe louvor da terra seria uma
espécie de nativismo matcri al e pragmático, descritivo por excelência, mas com
grande poder de agu çar os sentidos e inocular para sempre cm nós o sentimento
sensual da paisagem. Teve também o já lembrado aspecto psicológico, com a sua
rtoçar a história no Período Colonial - e o mesmo em alguns casos pelo ulo XIX
- leita muito mais como a história de Portugal projetada_so- e nós do que como
história da colonização que caminhasse a passo lar- para o reconhecimento da
nossa história interna. Esta só vislumbrais pela segunda metade do século
XVIII, com Loreto Couto e os nealogistas. Apenas reconhecemos exceção Ao
poema de Anchieta so-
L ------- - f
: Os Feitos deMém de Sá\ também na sátira de Gregorio de Matos, ape-
• de algumas atitudes dúbias do poeta; e naquela denúncia sutil da
rigatoriedade de pagar o jmual tributo” de louvor da autoridade, feita r Silva
Alvarenga7.
Caminha-se para a síntese, tentativa de harmonização de atitudes i choque.
Quer dizer, a prosa e a poesia, com destaque em Rocha Pita /lanuel Botelho de
Oliveira, foram pelo decorrer de quase todo o Perí- o ( lolonial compensações
ao impedimento de expandirmos valores Sprios, tradições, lendas e legendas.
O reconhecimento desse processo acterizava a terceira linha do nativismo, que
a partir de certo momen- atua em visão retrospectiva em busca do
reconheçimgnto de valores ei nos e externos, sem que estes ofuscassem
aqueles. É com os prosares do séculçTxVÍII -/e também na poesia - que então,
justapondo-se louvor das coisas materiais, contamos com a identificação e
engrande- lento de feitos internos de brasileiros - tanto de linhagem direta por-
;uesa, quanto índia ou negra, oq de mestiços ao lado de ‘reinóis”. Por mplo,
nas obras de Loreto Couto e dos genealogistas, semeando o or- ho da tradição
de famílias brasileiras, a ser alimentado do século XIX diante; e na poesia de
Cláudio Manuel da Costa, nas suas posições ticas e experimentais. Por outro
lado, as duas linhas de louvor, a da ra e a da autoridade e metrópole, mesmo
antes do século XVIII, já 'iam solí ido os eleitos da crítica à sociedade da época.
É o caso da sá ti - Ic ( .n gório de Matos, e de outra obra satírica do século
XVIII, As ríos (Filenos, de Tomás Antônio Gonzaga, ou do enfoque moralista

imliHim i.inltliloanterior.
de Nuno Marques Pereira. Talvez provenham daí futuras posições pessi-
mistas, do século XIX, em choque com o otimismo irradiante dos “ufa-
nistas”, herdeiros da linha de louvor da terra.

3. I NDIGENISMO /I NDIANISMO

Reconhecemos que a quarta perspectiva do nativismo se conduz para


a composição de uma segunda coordenada interna, o indigenismo/
indianismo, mantendo-se, porém, em interação com o próprio nativis- mo.
Manifesta-se igualmente através da obra de cronistas e poetas do Período
Colonial eaté nas-obras de viajantes e aventureiros estrangei- ros c
daqueles que, em nível filosófico e depois científico, escreveram sobre o
índio, Devemos assim levar em consideração pelo menos três posições enríe
e.xig.rnas e internas, com um ponto comum de convergência e de
representação universal,' a Igreja. São elas: as reflexões de fora ji
para dentro, na trajetória que se exemplifica de Jean de Léry, Montaigne,
Puffendorf a Rousseau96; a do catgquisador versus colonizador, que â.—- se exerce
internamente; e a da própria Igreja. Na verdade, o papel vigi- lante e
intervencionista da Igreja atua de uma maneira geral sobre os ideais e as
ambições do expansionismo ibérico. Apóia, disciplina e adverte, de maneira a
chamar a atenção universal para a condição huma- na e os direitos à liberdade,
devidos ao índio. Não acataria a posição daqueles que apontavam o índio como
impermeável à civilização cristã ou o viam como atração exótica e como modelo
misto de ingenuidade e pureza. Dadas essas posições, damos a esta coordenada
interna a designação dupla de indigenismo/inçlianismo, acentuando de um lado
'•tu,
a visão que se tornará científica, além de política, do outro, a literária. O

96 V. Afonso Arinos de Melo Franco, O índio Brasileiro e a Revolução Francesa: As Origem Brasileiras da Icaria
da Bondade Natural, Rio de janeiro, José Olympio, 1937; Lewis Hauke, Aristóteles e os índios Americanos,
trad. de Maria Lúcia Galvão Carneiro, São Paulo, Martins, s. d.; Demetrio Reñios (apresen.) e outros,
Estudios sobre Política Indigenista Española en América, Seminario de Historia de América, Universidad
de Vallodolid, I - 1975; II - 1976; III - 1977.
Indigenismo, digamos, histórico, compreende propriamente a observação
empírica que daria materia para a antropologia e para a política de defesa e
proteção do índio, preservação da sua cultura, ou o inverso, a aculturação,
não só da época, mas sobretudo posterior, até os nossos dias". Das mesmas
observações e descrições empíricas, como da crónica sobre relações quase
sempre conflitivas entre colonizadores e catequi- sadores, em função do
índio, nasceria,o indianismo^ isto é, o tratameji- to literário da visão
tendente ao legendário e mítico. As interpenetrações de um no outro, do
indigenismo ao indianismo, geram a complexidade própria da coordenada,
distinguindo-a do nativismo.
No principio, o indio é visto como um dos elementos vivos que in-
tegravam os aspectos físicos da terra. De objeto de curiosidade, ele passará
logo mais a objeto de cristianização do programa expansionista com os
jesuítas, em confronto com os propósitos escravagistas do portugués, e
atuará na miscigenação do brasileiro. De início, ainda apenas descrito nos
limites da faixa litorânea, foi visto com simpatia por Caminha e^Pero Lopes
de Sousa. Os contatos que se seguem, com aproximações e conflitos entre
colonos e catequisadores, ampliam as observações que enriquecem as
descrições informativas. Se nem sempre os textos de outros cronistas
passam a exprimir antipatia e mesmo repulsa, de qualquer maneira eles
confirmam aquelas intenções escravagistas. Agravam-se então as pos-
sibilidades de integrar-se o índio na civilização cristã, conforme já entre-
vemos em Pero cie Magalhães de Gandavo, o primeiro cronista português a
tentar sistematizar informações gerais sobre o Brasil Colónia. Em
contrapartida, os jesuítas seriam mais observadores que os portugueses,
além de portadores de certa imparcialidade informativa e descritiva 12. Era
fundamental para o programa de defensores da liberdade e da cristiani-
zação do índio. Eles precisavam de dados completos sobre o autóctone, pois
seria exatamente a objetividade das observações uma garantia para 97

97 V. I lerbert H.ildus, “Métodos e Resultados da Ação Indigenista no Brasil”, em Homem, Cultura e WIHIMU
no Uniu1 (org. Egon Schaden), São Paulo, Vozes, 1972, pp. 209-228.
12, V, upltulo III, •

AS I lINDACAlfS O I» PBBlnnn nu r> DBOfnrsrt eniruim


os sucessos da catequese. Podemos lembrar que nem sempre se acreditava
nela, a exemplo do “Diálogo sobre a Conversão do Gentio”, do Pe. Manuel
da Nóbrega, lição de fé na obra que outros punham em dúvida, também
testemunho da posição oficial da Igreja, ao reconhecer o direito do índio à
liberdade e à religião, contradizendo argumentos e sustando propósitos
escravagistas, chegando mesmo a antecipar reflexões de Rous- seau sobre
a natureza do homem primitivo ou em estado selvagem, no confronto que
estabelece com o homem civilizado98 99:

M. N. Da parte do gentio digo que uns e outros tudo são ferro frio, e que quando [os]
Deus quiser meter na forja logo se converterão; e se estes na frágua de Deus ficaram para se
meterem no fogo por derradeiro, o verdadeiro ferreiro, senhor do ferro, lá sabe o porquê,
mas de aparelho de sua parte tão mau o têm estes como o tinham todas as outras gerações.
[••.]
M. N. Contai-me o mal de um destes e o mal de um filósofo romano. Um destes, muito
bestial, sua bem-aventurança é matar e ter nomes, e esta é sua glória por que mais fazem. A
lei natural não a guardam porque se comem; são muito luxuriosos, muito mentirosos,
nenhuma coisa aborrecem por má, e nenhuma louvam por boa; têm crédito em seus
feiticeiros: aqui me encerrareis tudo. Um filósofo é muito sábio, mas muito soberbo, sua bem-
aventurança está na fama ou nos deleites, ou nas vitórias de seus inimigos; muito malicioso,
que a verdade que lhe Deus ensinou, escondeu, como diz São Paulo; não guardam a lei
natural, posto, que a entendam; muito viciosos no vício contra a natura; muito tiranos e
amigos de senhoriar; mui cobiçosos e mui temerosos de perderem o que têm; adoram ídolos,
sacrificam-lhe sangue humano, e senhores de todo o gênero de maldade: o que não achareis
nestes porque, segundo dizem os padres que confessam, em dois ou três dos Mandamentos
tem que fazer com eles; entre si vivem mui amigavelmente como está claro: pois qual vos
parece maior penedo para desfazer?
G. A. De ruim gado não há que escolher, mas todavia queria que me respondêsseis as
razões de riba mais distintamente.
M. N. Pelo que está dito bem clara está a resposta1'1.

98 V. Jean Jacques Rousseau, Discours sur Ies sciences et les arts/Discours sur l'origine et les fondements de
l'inégalité parmi les hommes, Paris, Garnier-Flammarion, 1971.
99 Manuel da Nóbrega, “Diálogos sobre a Conversão do Gentio”, em Serafim Leite, Cartas dos Primeiros
Jesuítas do Brasil — II, ed. cit., pp. 317-345; citação de páginas 344-345. Modernizamos a ortografia,
respeitamos a pontuação e indicamos os nomes dos interlocutores pelas iniciais M. N.: Mateus Nogueira e
G. A.: Gonçalo Alvares.
C) certo é que o retrato composto por Caminha, ressaltando traços nireza e
ingenuidade, ou de beleza no caso de Pero Lopes de Sousa 15, edendo espaço
aos traços negativos. Seria contestado, até mesmo com i agressividade, pelos
cronistas seguintes, salvo a objetividade de Ga- I Soares de Sousa e o fato,
quase singular, de ainda ter sido com eles primeiro se fixou a lenda de
Caramuru e Paraguaçu16. Também se •tua a compreensão cristã dos jesuítas.
Em última análise, os cronistas im sob o dualismo do programa
expansionista da Metrópole, oscilan- intre simpatia e repulsa, respeito ou
não à condição humana do au- one, deformação, fantasia ou objetividade
mesmo que fundamenta- em observações superficiais. Também narrariam
guerras e atritos •e portugueses e índios - estes às vezes solidários orà com
invasores, ranceses, ora com os próprios portugueses. No todo, cronistas e
poe- inclusive viajantes estrangeiros, do século XVI ao XVIII, forneceram
éria para a antropologia e para a história. Interligados pela posição da ja,
além da informação, são portadores de legendas e de procedimen-
ideológicos, devem ser relacionados com a mitificação posterior do «>
passado. Nesse sentido, não temos dúvida de que o ponto de parti- .1
cnlatizado é o Pe. José de Anchieta, síntese antecipadora de posi- i conflitivas
no condicionamento americano.
A poesia destinada à declamação constituiu a experiência inicial do anismo
de Anchieta. O conhecimento que adquiriu da língua, sensi- lade e costumes
do índio, o conduziu ao cultivo da poesia simples e à na teatral voltada para
a catequese. Expressão de tolerância e compre- io, tudo indica que Anchieta
aspirava integrar o indígena na civiliza-

Pcro Va/. dc Caminha, op. cit., em quase toda a sua extensão; e Pero Lopes de Sousa, op. cit., em tlc se lê,
rcfcrindo-sc à Bahia; “[...] A gente desta terra é toda alva; os homens mui bem dispostos, i, mulheres mui formosas,
que não hão nenhuma inveja às da Rua Nova de Lisboa” (p. 157). I III Iaipis dc Sousa (op. cit., p. 155) faz referência
a Diogo Alvares Correia. Destacamos, a semi t iahlicl Soares dc Sousa, Noticiai do Brasil, vol. 1, p. 246; Frei Vicente
do Salvador, Histó- ,i ilo llimil 1100-1627, ed. cit., pp. 105 e 150-151; Sebastião da Rocha Pita, História da América
'oiinyiii > , i , ed, cit., pp. 38-41, cm que se lê a versão completa da aventura legendária de Diogo Ivarm Correia.
* ção cristã,
respeitando a sua cosmovisão ingénua e simplista, seu espírito guerreiro,
manifestações lúdicas, canto e dança: conseguia naquele momento o milagre
do sincretismo cultural. Ao mesmo tempo que desempenhava uma função
pedagógica, ele não “ensina” mas “realiza” a catequese, em função da qual
surge a criação literária. Ajustada a formas da tradição medieval, ela
exprime uma temática que é um misto de duas culturas em contatos iniciais,
a do adventício com a do autóctone, como se abrisse para o futuro a
perspectiva para a retrovisão romântica mitifi- cadora. Nesse sentido, avulta
a contribuição do poema épico sobre Os Feitos de Mem de Sá, no qual Anchieta
conciliou um duplo ângulo dc vi são, o do colonizador e o da Igreja, na
proposta do ideal de cristianização do indígena. Pacifica-se o índio rebelado,
vítima da escravização arbitrária, impõem-se a lei e a ordem, visando à
harmonia e à justiça entre as partes. Retoma-se a proposta da Carta de
Caminha, com a contribuição da Companhia de Jesus, que juntamente com o
governo estabelecia regras, nova maneira de vida e organização social do
subjugado, quer dizer, de convivência com o dominador:

Vão ter com o ilustre Chefe e imploram sua aliança e direitos de


amigos. Leis que impuser, sejam quais forem, prontificam-se a
cumpri-las. Pedem paz e perdão.
Recebe-os com mansidão o Chefe valente.

Dá-lhes a paz e mais as leis. Em seguida manda que se


abstenham das lestas sangrentas, onde dantes soíam cevar-se em
carne humana, como feras vorazes.
Reúnam-se em aldeias, onde possam aprender a lei santa e os
mandamentos divinos do Pai celestial.

Comecem finalmente a sacudir dos ombros o jugo do tirano cruel


e a voltar à justiça de Cristo.
Submetem-se alegres à invencível bandeira
do Rei supremo e regozijam-se de seguir no futuro
as divinas campanhas de Cristo. O furor e a cólera antiga

desaparecem por completo: das ávidas fauces desterram


o sanguinoso apetite de espedaçar membros humanos.
Também ordena por fim que, pacificados e mansos, paguem tributo
anual ao grande Rei lusitano, cujo maior anseio é espalhar entre os
povos selvagens a doutrina de quem é eterno Senhor do universo.
Não foram as pedrarias do Oriente e as riquezas do Ganges, nem as
especiarias perfumosas que a índia derrama do seio fecundo, terra
donde o sol lança à corrida seus chamejantes cavalos: foi, sim, o
zelo abrasado

de levar teu nome, ó Cristo, a todas as gentes, em qualquer clima da


terra, o que moveu o régio peito a afrontar sendas desconhecidas,
trabalhos na terra, ameaças no mar, e a rasgar com esquadras
inteiras oceanos enfurecidos e dantes jamais navegados.

Por isso o Pai onipotente, rei do imenso universo, tornou temido de


todos o nome do nosso monarca: depois da Europa, Ásia e África
com seus vastos desertos, deu-lhe agora o domínio desses povos
brasis, peitos ferozes, gente indomável que no sangue dos homens

dessedenta as fauces sequiosas. Ele os curvou ao Império c os fez


tremer diante das lusas quinas gloriosas.
Que alegrias não alvorotaram teu peito fiel, piedoso Chefe, ao veres
povos, selvagens há pouco, dobrar a cerviz, ao jugo, aceitar a
amizade
i
do Pai celeste e abraçar suas leis de bom grado, ansiosos por
conhecer o excelso nome de Cristo17.

Domados e aliados, esses índios contribuirão para a defesa da inte-


gridade do domínio português contra o invasor francês de 1555, en- pianto
este, por sua vez, contava com a colaboração de outros que con- inuavam
rebeldes. A batalha da expulsão dos franceses, episódio no >ncma de
Anchieta, reveste-se de proporções épicas, assim como também tutus
batalhas entre portugueses e índios ainda indomados do litoral

' |IIM i|r Atu hicta, l)r íirstis Mendi de Sua, ed. cit., das Obras Completas, vol. 19, p. 1 <v

baiano ao Espírito Santo. Com a ação dos guerreiros, a nossa paisagem sc


redimensiona, surgindo c ressurgindo não como cenário mas como ele
mento ativo, ora favorável ora desfavorável. E tudo se engrandece: com
solenidade tranquila pela propriedade da linguagem, que se mantém na
passagem do original latino para o português; pela liberdade formal ade-
quada à matéria do poema; e pela convicção profunda nos ideais alimen-
tados, em virtude dos quais o louvor da autoridade, que os defende, é
respeito justo e não servilismo. E não é descritivo nem do indígena nem da
ação da autoridade: os dados informativos operam diluídos como devera
ser, para dar vigor ao ideal projetado, defendido e implantado. í' a primeira
visão épica das nossas origens, em que vencedor e vencido sc opõem
equilibrados em coragem e grandeza, para se harmonizarem cm nome do
ideal da cristandade. Infelizmente, contudo, não teve repen. us sões
posteriores. Apesar de publicado no século XVI. os épicos do sei ulo XVIII
não revelam conhecê-lo, tampouco os românticos. Mas cm qu< OS épicos
do século XVIII excederiam esse modelo esquecido? E, entre uns e outros,
quafi o que mais se aproxima e se identifica com a visão romântica das
nossas origens? O mais certo nessas aproximações sem ligação documentada
é a surpresa do sentido mais oculto da história, esse mistério que
pos^frãsta~«&4Jossas origens e justifica ou explica, na nossa_ literatura, um
José de Alencar?)
Foram, contudo^ os-épiéos do século XVIII - Frei José de Santa Rita
Durão, José Basílio da Gama e Cláudio Manuel da Costa, mais o segundo do
que o primeiro - que repercutiram no romantismo brasileiro. Foram então, e
desde então, discutidos como autores de obras brasileiras, conforme a
exaltação da época voltada para a nossa autovalorização. E antes deles,
reflexo da mesma atitude romântica, a Prosopopéia de Bento Teixeira seria
apontada como o início da Literatura Brasileira, a ponto de ainda hoje tocar
o orgulho de uma tradição local100, embora o índio apareça aí apenas em
referência à ação pacificadora de Jorge de Albuquerque Coelho.

100 V. nota 23 do capítulo 111.


Capa de um dos
apócrifos de Vila
Rica. A Ia. edição é
de 1839.

No poema de
Santa Rita
Durão -
Caramuru, o
indio voltaria
a ser o i orno
objeto da
historia e da
etnografía:
contatos e
conflitos com
o mizador,
descrição de
hábitos,
costumes,
i
espírito
guerreiro, em suma, tspectos de sua vida e organização, à maneira dos
cronistas. O poeta envolve como assunto central a legenda de Diogo
Alvares Correia, »vendido entre índios antropófagos e guerreiros.
Fundamentado na s.i de cronistas anteriores19, Santa Rita Durão
continua a ser um cro- .1 i|tic escreve em verso, embora tenha tido a
ambição de escrever os 101

101 di'Miii adamen» Sebastião da Rocha Pita, op. cit.


P.ígin.i de rosto da Ia. edição dos
Feitos de Mem de Sá,
I 563. cf. reedição fac-similar da Í^EXCELLEN
Fundação Biblioteca Nacional. O ^ TÍSS1MO, SING VLARÍS - f
exemplar único conhecido é da QVB FlDS l lAC PIBT^ÍTIS '
V I R O ,YF..vI'0 HP e j a j \r
Biblioteca de Évora.

CON1MBIUCÆ.
cdPnd loe.nntm cJìuttrum Tjpogra-

th m 'F^tgthm.
^.O.tAUI,., r.
'C-
Si
-

feitos portugueses no Brasil considerados não menos dignos de louvor do


que aqueles celebrados por Camões 102. Essa intenção expressa acentua o
retorno do poeta à visão já assinalada, do século XVI: retomada fiel da
forma camoniana, descritivismo informativo dos cronistas, aceitação da
defesa do índio, quer dizer, da sua liberdade e direito à cristianização.
Neste último caso, procede conforme o Diálogo sobre a Conversão do Gentio,
portanto, em fidelidade à posição oficialmente assumida pela Igreja103.

102 V. Santa Rita Durão, “Reflexões Prévias e Argumento" ao Caramuru, ed. cit.
103 V. nota 14 deste capítulo.
in todo caso, projetou um mito pouco convincente na tradição brasilei-
i, à imitação do de Inês de Castro, o de Moema e Caramuru, mas em et
ri mento daquilo que poderia ter resultado na recriação legendária de
araguaçu.
José Basilio da Gama e Cláudio Manuel da Costa também apare-
•in comprometidos com a história, mas não enfática e abrangentemente
im a história dos feitos portugueses na América. Sem dúvida, José Basí-

atado 22/ Defendendo ou justificando a política do Marquês de


>mbal, que resultou na expulsão dos jesuítas dos domínios portugue-
> da Gama se limita a um momento culminante de atritos entre man-
itários e jesuítas. Toma como matéria do poema o episódio guerreiro, ■
destruição de missões jesuíticas, decorrência imediata da execução do
s, o poeta assumia uma posição de engajamento, atuante sobre a visão is
acontecimentos. Mas não sacrificou as qualidades poéticas, justa-
ente reconhecidas, ressalva feita à visão histórica do índio submetido
■ jugo do vencedor, depois de lutar heroicamente. O poeta, porém, lhe
ribui dignidade e sentimento de liberdade, embora sob a visão dos
nipos e domínios devastados e o destroço de habitantes e habitações de
n índio já catequizado, no qual, muito do guerreiro que nele ressurge,
■mpanado pela obediência e submissão a uma ação e disciplina impos-
i. Também, o famoso episódio de Lindóia e Cacambo, amor e morte, ais
um conforme a mitificação camoniana de Inês de CastroT^ião con- nce
como poetização do índio, isto é, como criação que se lhe ajustasse que
emanasse dele mesmo. Não obstante, é inquestionável a sua bele-
poética, absorvido pela tradição a partir da exaltação que se tem feito
todo o poema, desde o Romantismo.
Cláudio Manuel da Costa, com o Vila Rica, ao contrário desses dois imos
antecessores, busca verdadeiramente o sentido épico da história

Secundo CMC tratado, celebrado em Madri, permutava-se, entre outras providencias, a Colónia do
Sacramento pela dos Sete Povos das Missões Orientais do Uruguai, o que motivou a rebelião de índio» i
jeiultai destas Missões, não só por ser materialmente uma violência como, por outro lado, porque não
convinlu aos missionários cm virtude da política antijesuítica do Marques de Pombal.

l U N D A C Ò t S i ( 1 1 I M Rlnnn n n n D K B l o n n r n m u i n
interna. Sob este aspecto, ele parece intencional, não importa que o poema
seja considerado medíocre104. Entende-se também que use um processo
criativo, que já podemos considerar experimental, embora ainda im-
proprio para suas verdadeiras intenções. Traduz o esforço de adequar ou
harmonizar a herança barroco-arcádica com as sugestões da paisagem e
com o aproveitamento poético do habitante primitivo. Procede surpre-
endendo-o no envolvimento de lendas, isoladamente ou em contatos com
os desbravadores do sertão, descobridores das minas e fundadores de Vila
Rica, que seria o nosso núcleo urbano mais agitado do século XVIII. Se se
deixa seduzir por mitos e alegorias camonianas - o gigante Adamastor -
não persiste, porém, na reelaboração do episódio amoroso clássico: dilui o
conteúdo essencial da associação amor e morte no desenrolar da ação.
Tenta assim harmonizar a idealização arcádica com a ingenuidade do
fantástico indígena, alimentado por lendas, na paisagem americana.
Aproximar-se-ia muito mais do que seria o traço essencial do indianismo
romântico - a mitificação.
Chegamos ao momento em que o desenrolar dessa temática indígena
se opõe à supremacia da visão da história externa, ou seja, da nossa
história tomada como capítulo da história do expansionismo português.
Então, a obra dos poetas épicos do Arcadismo, antecipados por Anchie- ta,
se completa com a posição assumida por Loreto Couto, e até mesmo com a
repercussão da teoria de Rousseau na famosa ode de Sousa Caldas105. Mas
é destacadamente o beneditino cronista que reconhece a participação
positiva do índio na nossa história interna e na nossa realidade, já bem
diferenciada das origens portuguesas.

104 Sempre subestimado pela crítica histórica, mesmo omitido, procuramos reabilitá-lo na parte que lhe coube
em nosso estudo - A Literatura Brasileira - /- Manifestações Literárias do Período Colonial, ed. cit., pp. 178-
188. Posteriormente Hélio Lopes também o fez de maneira exaustiva em Introdução à Leitura do Poema
“Vila Rica", São Paulo, 1979 (trabalho mimeografado, apresentado como tese de livre-docência na
Universidade de São Paulo).
105 Pe. A. P. de Sousa Caldas, “Ode. Ao homem selvagem", op. cit., pp. 125-132. Citamos ainda a observação de
Afonso Arinos de Melo Franco: “É interessante lembrar que um brasileiro do século dezoito também
aparece influenciado pelas doutrinas educacionais do ‘Emílio’. Santa Rita Durão leu, seguramente, o
tratado de educação de Rousseau”, op. cit., p. 147.
Não esquecer еще o quadro delineado com as coordenadas do nati- ю e
indigenismo/indianismo se completa com a poesia cultivada com lamento
em reflexões sobre as poéticas do século XVI/XVII e do Ar- smo.
Acompanhado de observações relativamente à inspiração inter- à
linguagem apropriada, juntamente com a prosa-informativa, desva e
histórica, de uma maneira geral a poesia do Período Colonial itua a
persistência de modelos e de outras linhas temáticas de procedas externas.
Primeiramente, aquelas próprias do Barroco, além da lição e das propostas
artificiais do academicismo; em segundo lugar, icolismo arcádico e o
Iluminismo neoclássico; e, finalmente, o prin- > das inovações pré-
românticas, tudo de mistura com motivos bragi- s já ressaltados. Além de
certas constantes: a poesia encomiástica, a .'nça camoniana e a poesia de
inspiração religiosa com destaque ao ) da Virgem Maria, provenientes do
século XVI. Com as formas po- s от voga, traduzem influxos externos sob
tensões dos internos, isto » nativismo e do indigenismo/indianismo.
Avançamos, finalmente, para o Romantismo, confirmado pelos anos 830,
e suas transformações subseqüentes. No caso da coordenada
'cnista/indianista, que vimos rastreando, opera-se definitivamente 1
bifurcaçãoásm indigenismo e indianismo, embora ambas continu-
nterpenetrantes; segundo, ainda relativamente ao índio, teorizam- Im-
posições humanísticas do século XVI, na linha que provém da a e de
Montaigne; terceiro, propõem-se novas sugestões de fora para ro em
termos de criação literária histórico-indianista. Dada, por sua i inter-relação
das duas coordenadas, reiteramos a observação de que de modo
abrangente, ao atingirem o século XIX, se constituem os »olientes
fundamentais do nosso nacionalismo romântico. A primei- ib os efeitos da
ruptura com a dominação portuguesa, gera o anti- no. O momento crítico
da ruptura são as três primeiras décadas do
0 X I X , literariamente caracterizadas pelo Pré-romantismo e suas |
nelas neoclássicas e pelas reformas administrativas e políticas de
1 Jn.io VI. Paralelamente se destacam, para se imporem, os progra-
«
mas literários renovadores de fora para dentro, mas agora amando num
contexto profundamente transformado por efeito daquelas reformas.
Caminha-se a passo largo para a progressiva afirmação crítica, teorica-
mente orientada, da busca da identidade própria. Será um novo período da
vida brasileira.
O 2o- PERÍODO OU O PERÍODO NACIONAL - I
O SÉCULO XIX EA IDENTIDADE DEBATIDA
CAPÍTULO Vil

RUPTURA E AUTO-RECONHECIMENTO 106

106 RENOVAÇÃO PRÉ-ROMÂNTICA E PROPOSTAS NACIONALIZANTES

De 1808 a 1821, a permanencia de Dom João VI no Brasil criou


condições indispensáveis à nossa expansão cultural e intelectual. Não
custa rememorá-las, mesmo enumerativamente: contatos diretos com o
estrangeiro, abrindo perspectivas de intercâmbio; fim da ação estrangu-
ladora da censura; importação de livros e seu comércio; estabelecimento
de tipografias, dando início à atividade editorial e à implantação da im-
prensa periódica - jornais e revistas; formação de bibliotecas públicas e
particulares; criação das primeiras escolas superiores; desenvolvimento do
gosto pelo teatro, música e oratória religiosa nas freqúentes solenidades
da Igreja; museus, arquivos, associações culturais; e sobretudo a me-
Retrato de D. João VI.

horia das condições de vida social e a presença de estrangeiros — lembre-


:e a missão artística francesa de 1817 que vêm ao Brasil e realizam >bras
importantes sobre nosso país1. Pouco depois, em 1827, seriam cri- tdos os
cursos jurídicos de Olinda e de São Paulo, e em 1836 seria fun- lado o
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, os rês maiores
focos das atividades intelectuais do país no século XIX2. 107

107 (llivciru Lima, D. João VI no Brasil, ed. cit.


História da ¡-acuidade de Direito do Recife, Rio dc Janeiro, Francisco Alves, I '>27, 2 vols.;
V. t Jòvi» Beviláqua,
Spcnccr Vampré,Memórias para a História da Academia de São Paulo, São Paulo, Sa- MÍ VU , l‘)24. 2 vols.; J. L.
de Almeida Nogueira, A Academia de São Paulo - Tradições e Reminiscén-
A revolução atinge os principais centros urbanos - Recife e Olinda,
Salvador, São Paulo, mas é o Rio de Janeiro que desde então se torna o
grande polo de todas as atrações. Ai se concentra o melhor da representa-
ção da nossa vida política e intelectual. É onde se encontram remanescen-
tes do Arcadismo e a presença pré-romântica ao lado das manifestações
iniciais da narrativa ficcional, da oratoria, do jornalismo voltado para a
divulgação literária, a publicação de obras de ensaístas, finalmente, onde
mais se destaca a grande sedução que passaremos a cultivar pela França.
Se nos preocupasse uma periodicidade minuciosa, destacaríamos as três
primeiras décadas do século XIX como urna fase ainda de caracterís- i icas
neoclássicas, mas onde se acumulam impregnações anunciadoras da reforma
romántica que logo nos atinge. Internamente e consideradas aqui do ponto
de vista literário, aquelas reformas sociais, políticas, económicas e culturais
de D. João VI, superando limitações e restrições do Período Colonial, operam
livremente no campo que se abre e se prepara para o debate e a ação
románticos entre nos. Define-se um momento dos mais significativos do
nosso pensamento crítico, com os últimos árcades, as nossas primeiras
revistas literárias, até as propostas e sugestões de estrangeiros. Logo mais,
tudo isso seria apreendido e sistematizado por ' Gonçalves de Magalhães,
espécie de patriarca da independencia romántica do Brasil. Evidentemente,
essa fase seria de ruptura com a hegemonia do colonizador. Substitui
conscientemente modelos e reflexões poéticas canalizados por Portugal pela
presença francesa, simultaneamente com a investigação nacionalizante, sob o
clima propiciado pelas reformas. É o nosso pré-romantismo.

Os últimos neoclássicos. Foram Frei Francisco de São Carlos, José


Bonifácio de Andrada e Silva, Pe. Antonio Pereira de Sousa Caldas e mes-
mo Domingos Borges de Barros, os quais, contudo, já se apresentam ei-

cias: Estudantes, Estudantões, Estudantadas, São Paulo, s. ed., 1907/1912, 9 vols.; e Virgilio Correa Pilho,
“Como se Fundou o Instituto Histórico”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v.
255 (separata), abr.-jun. 1962, 1963.

vados de procedimentos românticos, tanto do ponto de vista europeu


quanto brasileiro. Sem dúvida mais do que a criação poética, pesarão de
fato as propostas do pensamento crítico reformador. Destacadas do nosso
contexto, elas não passariam de diminutas reflexões críticas e poéticas.
Mas a posição daqueles poetas, do ponto de vista da perspectiva brasileira,
é importante para o estudo entre nós da evolução de temas e linguagem.
Por exemplo, em Frei Francisco de São Carlos - de lado o prefácio cm que
ele justifica a elaboração do poema religioso A Assunção, com referências a
antecedentes ou a fontes utilizadas - apontamos um pequeno trecho do
canto IV desta obra, em que o poeta renega o estilo mitológico:

Fugi do canto divinal, sublime,


Vós, ó fábulas vãs, fugi: que é crime
manchá-lo da falaz mitologia,
Com que a filha do Caos, a idolatria,

Banida já das terras, e dos mares, Proscrita


sem mais templos, nem altares, Inda quer
ostentar de majestade Nas inóspitas aras da
verdade!3

É claro que a contestação reflete a influência da formação religiosa do


autor. Anticipado põr~Bema,Teb(eira, é por sua vez, antecipador da
restrição que Gonçalves de Magalhães! oportunamente fará ao estilo clás-
sico e, em particular, à linguagem mitológica.
Nas mesmas condições, a formação religiosa do Pe. Antônio Pereira
de Sousa Caldas, com seus contatos culturais na Europa, levaram-no a um
ou outro pronunciamento crítico. Foi secundado pelo amigo, editor e
comentador de sua obra, Francisco de Borja Garção Stockler, a quem
coube fazer um estudo sobre a poesia hebraica, à guisa de prefácio ao
tomo 1 - Salmos de Davi, das Obras PoéticaE o fez num momento em 108

108 Frei Francisco de São Carlos, A Assunção, nova ed. corr., cit., p. 103. I IV
A. 1’ de Sousa Caldas, Obras Poéticas, ed. cit.
que a Biblia, considerada fonte de inspiração poética, correspondia a certas
manifestações pré-românticas\ Também assumiria outras atitudes crí- t
icas nas notas que acompanham a obra citada. Ressaltando-lhe o caráter
religioso e moralizador, admite que é missão de todo poeta despertar o
amor da virtude, os sentimentos nobres e generosos, o horror ao crime.
I outra antecipação da atitude igualmente religiosa e moralizante de
(ionçalves de Magalhães, várias vezes exposta em páginas críticas ou nas
próprias composições deste poeta.
Dentre os pré-românticos, quem chegou, contudo, a um melhor
pronunciamento crítico, foi José Bonifácio de Andrada e Silva, lambón se
prende à atitude, já dominante, de atribuir à poesia uma função mora
tizante e civilizadora. Veja-se a “Dedicatória” às Poesias Avulsas. Repudia
manifestações bajulatórias da poesia anterior, para advertir que o papel do
"escritor honrado” devia ser o de atacar o crime e o vício, o de procu- i.n
instruir e enobrecer a humanidade, estimular a virtude e ao mesmo lempo
“deleitar o coração”. E ao tecer considerações sobre aspectos formais da
poesia, José Bonifácio faz ainda algumas observações curiosas, realmente
inovadoras. É quando escreve a propósito dos seus versos:

[...] Fui neles assaz parco de rimas, porque nossa bela língua, bem como a ingle- '..I,
espanhola e italiana, não precisa, absolutamente falando, do zum-zum das conso- anics para
fixar a atenção e deleitar o ouvido; basta-lhe o metro e ritmo: e quanto à monotônica
regularidade das estanças, que seguem à risca franceses e italianos, dela às vr/cs me apartei
de propósito, usando da mesma soltura e liberdade, que vi novamen- lr praticadas por um
Scott e um Byron, cisnes da Inglaterra6.

E cita suas fontes de inspiração: o Velho Testamento, a poesia grega e


latina, “os cantos da soberba Albion e da Germânia culta”, enquanto cri- i
ica a poesia barroca e até mesmo a neoclássica: 109

109 Cf. Paul Van Ticghcm, Le Préromantisme, Études d’Histoire Littéraire Européenne, Paris, Sfclt, 1947/8, 3 vols.
(>, |osé Bonifácio de Andrada e Silva, Poesias (...), ed. fac-similar. cit. p. VI.
0 KS 7AS
S r. 1'ROFANAS
1)0
Pl.lii:iRA DE SOUZA CALDAS,
COM
IAS K ADDITAMEKXOS
OK »no AMIUO

O TcXEKTk-GlXtRAL

HOHJA CAHÇAO-STOCKLER,

DADAS A' LUZ


nlMIO DO D KKUn TO POETA ,

MO DE SOUZA DIAS,
,1 |.ioímo na Ordem «1« Christn ,
ii MrigctUili? Pidcliiisiiua na Cúlwledo llavre

'AHI Z,
N H O U G E R O N , rua de
rondelle, N.° as,

1021.

Ia. edição

(...) Quem folgar de Marinismos e Gongorismos, ou de Pedrinhas no fundo do ri- dos


versejadores de freiras e casquilhos, fuja desta minguada rapsódia, como de imarela 7.

Portanto, harmoniza a formação neoclássica com atitudes pré-ro- icas


do primeiro quartel do século XIX. Lembremos ainda algumas osições
poéticas e a “Advertência” a uma tradução de Píndaro. Des- mos a
proposta de criação de vocábulos novos necessários à expres- aética, a
exemplo de “auricômoda”, “roxicômoda”, “boquirubra”.

k p. VII.

RlOIK) OU O PFRfnnn KlAfínKi*T O CÍrni n viv r> *


IWliiis dc José Bonifácio dr
Aiulrada c Silva.

JOSÉ BONIFÁCIO
(Aincrico Elysio)

POESIAS
Edição fac-slmllar <la prliu-lpc, de 1825,
cxlrcmnnicnte rara; eom ns poesias
ajunladas na edição do 18(11, iiinUo rara;
eom uma eonlrlliuleão inédlla.

19 4 2
PUBLICAÇÕES DA ACADEMIA BKASILEIRA
KIO IlE JANEIRO

Complementada com a recomendação seguinte, retomada por Gonçalves de


Magalhães:

[...] Ousem pois os futuros Engenhos Brasileiros, agora que se abre nova
época no vasto e nascente Império do Brasil à língua Portuguesa, dar este nobre
exemplo; [.„1®.

Tais considerações sobre a finalidade da poesia, condenação de certos


recursos expressivos, acréscimos ao vocabulário da língua de palavras
usuais do Brasil, criações de vocábulos foram no todo antecipações de

H. Ir/rm, pp. 114-115.


atitudes discutidas e firmadas pelo nosso romantismo. Elas se intensificam
com o grupo da Revista da Sociedade Filomática de Sao Tàulo e o grupo da Niterói
- Revista Brasiliense, liderado por Gonçalves de Magalhães. Acrescente-se,
relativamente ao ideal da prosa, musical, uma das características do
Romantismo, a importância da obra de Frei Caneca9 e a observação de Frei
Francisco de Monte Alverne — mestre de Gonçalves de Magalhães — às
Obras Oratórias-, ao falar dos pregadores brasileiros da época de Dom João VI:

[...) A riqueza da dicção reunia-se à pureza do estilo, e à força da


argumentação: r para que não faltasse uma só beleza; a doçura e amenidade da
expressão aumentava :>s encantos e a magia da ação. Assim verificou-se este
pensamento de um escritor fran- :cs: Que a língua de Camões, pronunciada por um
brasileiro, devia realizar todos os prodígios, e todas as seduções da harmonia 10.

Nossos primeiros periódicos. Concomitantemente com as afirmações


denunciadoras do Romantismo, se manifesta o germe da imprensa peri-
klica no Brasil". Nossos primeiros jornais e revistas de feição literária,
ambém com veleidades filosóficas e científicas, são: As Variedades ou En- aios de
Literatura; O Patriota; Anais Fluminenses de Ciências, Artes e Lite- atura; Jornal Científico,
Económico e Literário; O Beija-flor, e o Correio brasiliense. Evidentemente, com uma
ou outra exceção, são superficiais. )e qualquer maneira, exprimem a
vontade consciente de ilustrar e de liscutir a realidade brasileira, que então
se nos apresentava em condições c ser por nós mesmos compreendida em
debate livre.
O primeiro dos periódicos indicados se define pelo título e melhor í
esclarece em palavras de apresentação:

>. Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, Obras Políticas e Literárias, 1. ed., Recife, Tip. Mercantil, I87V76, 2
tomos (v. tomo I, Tratado de Eloquência, pp. 63-155).
I frei Francisco de Monte Alverne, Obras Oratórias, nova ed.. Rio de Janeiro, Garnier, s. d., 2 tomos, (. I, p.
VII.
I lêlio Vianna, Contribuição à História da Imprensa Brasileira (1812-1869), Rio de Janeiro, Imprendi
National, 1945; e Nélson Werneck Sodré, História da Imprensa no Brasil Rio dc Janeiro, Civili- /aiplo
brasileira, 1966.

>• l'l Mono OU O PP.RlOnn NA r inU lI l <1 cÉemr, v.~ .• .


[...) Discursos sobre os costumes e as virtudes morais e sociais, algumas
novelas dc escolhido bom gosto e moral; extratos de história antiga e moderna,
nacional c estrangeira, resumo de viagens, pedaços de autores clássicos
portugueses, quer em prosa, quer cm verso, cuja leitura tenta a formar gosto e
pureza na linguagem; algumas anedotas e boas respostas etc. - tais são os materiais
de que tencionamos servir-nos para a coordenação desta obra, que algumas vezes
oferecerá artigos que tenham rela- ção com os estudos científicos propriamente
ditos, e que possam habilitar os leitores a fazer-lhes sentir a importância das novas
descobertas filosóficas110.

No programa de As variedades, lançado na Bahia, em 1812, sob a direção


de Diogo Soares da Silva de Bivar, há, sem dúvida, uma vontade expressa
não só de divulgar, mas também de ilustrar, orientando. 1'ressu põe uma
atitude crítica dirigida, embora ela não tenha sido exercida de maneira
expressa. Talvez esteja contida num artigo ou ensaio — “1 ).is t i ências e
das belas letras ”111 112. O exercício do que seria chamado de “crítica
militante”, a apreciação imediata das obras publicadas, simplesmente no-
ticiosa ou emitindo juízo de valor, nós só encontramos no Correio Brasi-
lienseeem O Patriota. O primeiro foi o nosso mais importante periódico de
então, editado em Londres de 1808 a 1822, sob a direção de Hipólito José da
Costa Furtado de Mendonça13. Circulou paralelamente com outro
periódico, este português - O Investigador Português -, que o combatia. Destaca-
se a função política predominante destes dois órgãos que se destinavam a
circular no Brasil. Mas o que nos interessa é a notícia do movimento
científico e literário da Europa e da América, princípio da
bcrtura e informação estimuladoras de nossa consciencia crítica. O Pa- •iota,
jornal literário, político, mercantil etc., fundado no Rio de Janeiro nr Manuel
Ferreira de Araújo Guimarães, circulou de janeiro de 1813 dezembro de

110 Apud Hélio Vianna, op. cit., pp. 28-29.


111 Hélio Vianna, em quem nos fundamentamos, pois não conhecemos As Variedades (...), informa que é esre “o
primeiro e único artigo propriamente literário” que encontrou naquele periódico, acrescentando: “Depois
de referir-se à literatura na Grécia e em Roma, não deixa de tendenciosamente criticar os escolásticos, que a
seu ver não lhes seguiram os exemplos, pois ‘suas obras não passam de serem uma farragem não só
ininteligível, mas até desprezada de toda a gente de bom senso’. Con- clui, porém, afirmando que ‘sem
receio de sermos taxados de prejuízos ou de exagerados, nós avançamos finalmente por honra das letras e
das ciências, que são elas que fazem florescer uma nação, c que espalham no coração dos homens as regras
da boa razão e as sementes de doçura, de virtude e de humanidade, tão necessárias para a felicidade da
espécie humana ”' (op. cit., p. 30).
112 V. Barbosa Lima Sobrinho, Antologia do Correio Brasiltense, Rio de Janeiro/Brasília, Cátcdra/INL, 1977.

I'l MliMm nu o l’l'.RlODO NACIONAI. -J - n cliruin viv c «


1814. À semelhança do Correio Brasiliense e de O Investi- tdor Português, foi
divulgador e repositório no Brasil da cultura da épo- t. Manteve várias
seções: literatura, mineralogia, topografia, história, dítica nacional e
estrangeira, medicina, estatística, geografia, agricultu- , química,
hidrografia, artes, navegação, hidráulica, comércio, mate- ática, botânica,
gramática filosófica, eloqiiência e a seção “Obras pu- icadas”. Esta última
marcaria o exercício da “crítica militante” no asil, mesmo que as
apreciações de obras do momento tenham sido su- rficiais ou simplesmente
noticiosas.
Os demais periódicos mencionados - Anais Fluminenses de Ciências, tes e
Literatura, fundado no Rio de Janeiro, em 1822, o Jornal Cientí- o, Económico e
Literário, também do Rio de Janeiro, 1826, e O Beija- r- Anais Brasileiros de Ciências,
Política, Literatura etc., ainda da Cor- datado de 1830-1831, foram de efémera
duração e de escasso interesse tico e literário. Quando muito, alimentaram a
continuidade da cria- ) de periódicos, sem dúvida estimuladores da vida
intelectual e políti- Mas serão outros, de 1833 em diante, inaugurando nova
fase, que >rcssarão de fato a consciência crítica da atividade literária
brasileira, tforme veremos oportunamente. Foram eles a Revista da Sociedade
omática, a Niterói - Revista Brasiliense, a Minerva Brasiliense e a Guayara, as duas
primeiras ainda nos limites das manifestações pré-român- is e as duas
últimas de pleno romantismo no Brasil. Nesse caso, e por- ■ vem antes
dessas revistas, consideremos primeiramente a participação rst range iros
na renovação que se processava.

A visão de estrangeiros e suas propostas nacionalizantes. Em ordem lológica, e


sempre nos limites rigorosos das três primeiras décadas léi uln XIX,
contamos com as contribuições de Friedrich Bouterwek, nondc dc
Sismondi, Ferdinand Denis, Almeida Garrett e C.
Schlichthorst113. Sabidamente o mais completo ou abrangente de todos eles

113 V. Guilhermino César, Sismonde de Sismondi e a Literatura Brasileira, Porto Alegre, Lima, 1968; Bouterwek -
Os Brasileiros na “Gescbichte der Poesie un Beredsamkeit", Porto Alegre, Lima, 1968. Em ambos os trabalhos
se encontram, traduzidos, os respectivos textos dos dois historiadores estrangeiras. Posteriormente,
Guilhermino César nos daria trabalho mais completo, redivulgando cm tradução os textos críticos de
Bouterwek, Sismondi, Schlichthorst, de Ferdinand Denis (a parte relativa ao Brasil na íntegra), de
Ferdinand Wolf, além dos de Almeida Garrett, José da Gama e Castro e Alexandre Herculano, no volume
Historiadores e Críticos do Romantismo - l-A Contribuição F.uropíia: Crítica e História Literária. Introdução
é Ferdinand Denis. Mas os dois primeiros, um em 1805, o outro em 1813,
fariam observações que repercutiriam na obra do escritor francês, de 1826.
Bouterwek comentaria de passagem a obra de Antônio José, acentuando-
lhe a influência da ópera italiana, sob a restrição de que, além de
popularesco, o comediógrafo não chegava a contribuir para a “renovação
estilística da língua portuguesa”. Sismonde de Sismondi, da mesma
opinião, estuda-lo-ia melhor, no que seria corroborado por Ferdinand
Denis. E todos eles destacam Antônio José com relação ao Brasil,
naturalmente levados pelo que seria então o discutível conceito de
nacionalidade literária apoiado na nacionalidade civil. São posições que
tomarão vulto na crítica brasileira do século XIX. Quanto ao mais,
Bouterwek aprecia apenas a obra de Cláudio Manuel da Costa, chamando a
atenção para a sua descoberta da poesia italiana de Petrarca e Me- tastásio:
são influências que fazem de Cláudio Manuel da Costa “um dos primeiros
que voltaram a introduzir um estilo mais nobre na poesia portuguesa”, nos
sonetos, “os mais perfeitos da língua”, nas cançonetas e cantatas. Aponta-o
também sujeito à influência francesa nos epicédios 114.
Sismonde de Sismondi pensaria com o mesmo entusiasmo de Bou-
terwek ao destacar, com Cláudio Manuel da Costa, a contribuição do Brasil
Colónia para a Literatura Portuguesa:

e apresentação de... Rio de Janeiro/São Paulo, LTC/Edusp, 1978.


114 Idem, lug. cir., pp. 9-10. A obra de Bouterwek em que se encontra o trecho traduzido relativo ao Brasil
intitula-se Gescbichte der Portugiesischen Poesia und Bered-Samkeit, Gottingen, 1805, 412 pp. (História da
Poesia c da Eloquência Portuguesa).

I'l MliMm nu o l’l'.RlODO NACIONAI. -J - n cliruin viv c «


[...] O novo império dos portugueses, aquele sobre o qual repousam, doravante, odas as
suas esperanças de independencia e de grandeza futura, começou por sua vez i cultivar as letras,
e produziu neste século um homem superior na poesia lírica, Gálibo Manuel da Costa, natural da
circunscrição das Minas Gerais, Brasil1 .

Se Sismondi ressalta no poeta as canções e cantatas, censura-lhe, >orém,


o gosto da égloga ligada ao que considera uma falsa e artificial radição
portuguesa de poesia pastoril. Mas o que constitui uma adver- ência é o
comentário às elegias:

Costa escreveu muitas elegias em versos brancos ou iâmbicos não rimados, (tetro pouco
empregado até agora pelos poetas portugueses, o que parece ter feito ont que perdesse alguma
coisa do seu colorido e da sua elevação poética; como se as icas línguas do Sul tivessem sempre a
necessidade de enganar o ouvido com o estrépi- :> das rimas18.

Bouterwek já pensara semelhantemente, salvo quanto ao comentá- io


que coincide com o de Ferdinand Denis. E também, antes ou ao mesto tempo,
com o de José Bonifácio, a ser retomado por Gonçalves de áagalhães. E daqui
por diante, seria a fortuna do verso branco entre nós. leste caso, ao tempo de
Cláudio Manuel da Costa também é preciso ■mitrar José Basilio da Gama, a
ser estimado pelos românticos.
Um segundo nome destacado por Sismondi é o de Manuel Inácio a Silva
Alvarenga, cujo “principal atrativo é ainda a cor local, as imams sugeridas
pelas árvores, pelas borboletas, pelas serpentes da Améri- i". Com
fundamento em Silva Alvarenga e em Cláudio Manuel da Cos- , Sismondi
profetiza sobre o destino da nossa literatura, à semelhança : Ferdinand Denis,
também repercutindo nos nossos primeiros romaneos e historiadores:

[...] No mais aprazível dos climas e no mais rico dos solos, fundaram [os portu- I M-S| uma
colónia que ultrapassa doze vezes a superfície da antiga mãe-pátria; para 115
lá transportaram hoje a sede de seu governo, sua marinha e seu exército; acontecimentos de todo
imprevistos conferem à nação outra juventude e novas energias; e não estarão próximos os
tempos em que o império do Brasil venha a produzir, em Ifngua portuguesa, dignos sucessores

115 t iiillhrunino t.ésar, op. cu., p. 23. A obra de Sismondi em que este se refere ao Brasil intitula-se / >■ hi
liiifnilurr ilu Midi de L'Europe, Paris, 1813 (2. ed., 1819; 3. ed., 1827).
I ii|t tit., pp. 24-2V

I I ! HlDiltl OU O IM.ItlODO NACIONAL - 1 - 0 SÉCULO XIX K A


de Camões?1”'

Chegamos às reflexões e propostas objetivas, bastante amplas, de


Ferdinand Denis no capítulo introdutório “considerações sobre o caráter que
a poesia deve assumir no Novo Mundo” com que abre a parte de sua obra
dedicada ao Brasil116 117. Segue-se-lhe o apanhado sumário dos nossos três
séculos coloniais de produção literária, vistos com a simpa tia e entusiasmo
daquela introdução, que melhor se colocaria cm con clusão. Respeitamos a
vontade do autor, talvez contornando o impado que pudesse causar a
abertura estimuladora e meio profética que pro punha. O certo é que sua
proposta teve imediata repercussão, seria amplamente reaproveitada pela
criação, pela poética interna, pelos nossos historiadores. Em síntese: I a)
Inicialmente delineia a situação passada da América, explorada em seus
recursos, enquanto o povo era mantido em subjugo e ignorância. Mas em
princípios do século XIX, as coisas mudam, quando Portugal, menos rigoroso,
favoreceria o Brasil graças à mudança da Corte portuguesa para o Rio de
Janeiro. Se até então tomávamos de empréstimo as glórias de lá, apesar de
contarmos com algumas nossas, logo se evidencia “a necessidade de ir beber
inspirações poéticas a uma fonte que verdadeiramente” nos pertencesse 118. 2a)
O Brasil ou a sua literatura “não poderá passar sem tradições respeitáveis”:
primeiro, a conquista da nossa independência se revestirá com o decorrer do
tempo de “comovedoras evocações”; segundo, nossas “fábulas misteriosas e
poéticas serão os séculos em que viveram os povos que" os europeus
conquistadores exterminaram, povos de “grandeza selvagem”, em

116 Lug. cit., p. 26.


117 Ferdinand Denis, Résumé de l'histoire littéraire du Portugal suivi du résumé de l’histoire littéraire du Hrésil.
Paris, Lecointe et Durey, 1826. Continuaremos a usar os textos organizados e traduzidos por Guilhermino
César, op. cit.
118 V. Guilhermino César, op. cit., p. 36

I I ItlMMii (Hl 0 1'HRlODO NACIONAI .J - n «tfrinr. viv L- .


Página de rosto da obra de
Fcrdinand Denis, um dos
principais fundamentos da

HÉSUM introdução do romantismo no

É
Brasil.

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os costumes se encontrará “o maravilhoso, tão necessário à poesia”, o oísmo


dos combatentes, sua resistência aos sacrifícios a que foram sub- tidos. 3“)
Também nas “viagens dos primeiros exploradores” se vis- tbra “todo o
heroísmo da Idade Média, todo o espírito ardente e aven- :iro dos tempos
da cavalaria22. 4a) Ferdinand Denis reinsiste em que ndoncmos a inspiração
numa natureza extenuada, a européia, subs- indo-a pela americana, cheia
de belezas, onde o homem vive com >i v liberdade. 5“) Adverte que se
relacionarmos o exposto acima, ad-

>lrm, p 37.
mitiremos que um dia visitamos a Europa em busca de “lembranças poéticas”,
reconhecendo que lá também se prendem as nossas raízes, cujos reflexos
continuam em nós. 6a) Delineia finalmente os traços psicológicos do
brasileiro, portador de “disposições naturais para receber impressões
profundas”119 120, resultantes de três raças: arrebatado, como o africano;
cavalheiresco, como o português; sonhador e amante da liberdade, como o
indígena; amante e cultivador, no campo e nas povoações, dos relatos ou
narrativas da tradição oral, do canto aos acordes do violão ou do bandolim,
da poesia improvisada dos repentistas, talvez herança de longa data; ama
exaltar a pátria e é seduzido pela aventura na natureza. Relembra, também, o
papel desempenhado pelas três raças na expulsão dos holandeses,
representadas por Fernandes Vieira, Henrique Dias e Felipe Camarão, além
do mestiço Calaban
O panorama histórico, que se segue, arrola poetas de Bento Teixeira a
Domingos Borges de Barros; refere-se ao teatro; à “propensão dos brasileiros
pela música”; a oradqres; a historiadores, à geografia e às viagens. E tudo isso
depois de reflexão e conselho sobre a criação de periódicos que, sabemos,
desde então representam papel importante na nossa literatura:

Para a literatura, e mormente para as ciências, seria muito conveniente a fundação de um


jornal hebdomadário, onde se estampassem as memórias enviadas das províncias, ao lado das
tradições orais que diariamente fossem recolhidas; por esse meio, tão somente os produtos
naturais seriam mais bem conhecidos, e o comércio se enriqueceria, mas redundaria também em
se obterem informes do maior interesse a respeito dos povos selvagens que habitam ainda essa
vasta porção da América do Sul. Os habitantes do interior vêm incessantemente ao litoral realizar
suas trocas; conviria interrogá-los, e não desprezar nenhuma tradição interessante, mesmo
quando não agrade inteiramente ao homem instruído2'1.

Ferdinand Denis foi o primeiro a traçar um esboço de visão histórica das


manifestações literárias no Brasil Colónia e a sugerir a projeção de

119 Idem, p. 40.


120 Idem, p. 78.

I I ItlMMii (Hl 0 1'HRlODO NACIONAI .J - n «tfrinr. viv L- .


uma Literatura Brasileira, traçando os rumos que lhe convinham 25. Teria
sido conduzido por ideias que coincidiriam com características fundamentais
do romantismo nascente: a volta para o passado histórico de cada nação; e a
inspiração poética popular. Mas ele não se antecipa propriamente ao
Romantismo. Quer dizer, embora reflita o que já se inovava neste sentido, as
reflexões e o programa de reformas de Ferdinand Denis nasceram em função
do conhecimento direto de um país jovem, que surgia cheio de entusiasmo
sob a bandeira da independência recente. País moldado pelo subjugo, sem
condições de criação espontânea, ilém da agravante do sistema de censura,
Ferdinand Denis entendia que ¡ó lhe restava reconhecer-se em si mesmo, quer
dizer, na sua paisagem; ias suas raízes americanas; tradições; na imaginativa e
poética do seu )ovo. O momento histórico de então lhe era o mais propício.
Com a In- lependência e a nova organização que se imprimia no país, era
também ndispensável cuidar da independência literária. Era preciso ativá-la
in- crnamente, rejeitando uma linguagem anterior de empréstimo e inade-
[uada, e criando uma que fosse autêntica em comunhão com novos sen-
imentos, aspirações e idéias. Seria dar expansão às nossas próprias forças
juventude, abandonando a imitação européia. Se Ferdinand Denis se lorificou
ao reconhecer, no momento em que escrevia, a presença da ífluência francesa,
provavelmente já enxergava a nossa liberdade de es- ;>lha ou substituição de
modelos. Sem dúvida, ela seria estimuladora, e ão constrangedora, das nossas
expansões:

Mas, fato verdadeiramente notável é a influência que nossa literatura exerce hoje n dia sobre a dos
brasileiros. Orgulham-se estes dos autores que fixaram a sua lín- la; mas lêem os poetas franceses, conhecendo-os
a quase todos. O papel que nos cabe sempenhar nesse país é ainda muito significativo, e se os ingleses têm, mais

do que

Sobrepapel dc ferdinand Denis na literatura brasileira, o primeiro trabalho significativo i o de Paul I l i/ird,
As Origens do Romantismo no Brasil”, Revista da Academia Brasileira de Letras, XXV, set. I‘)J7, pp, 24-4V
Recomendamos o escudo mais recente dc Guilhermino César não só sobre Ferdi- IMIUI I )cni» mas também
sobre os demais estrangeiros aqui abordados, em “Inrrodução” à op. cit., |*oi t Ir niganí/ada. com traduções
para o português, pp. IX-LVII.
nós, a influencia comercial que em toda a parte lhes caracteriza a atividade, devemos contentar-

I * I l ' h M n • I H I O l » l R l n n n N A r t O M A i I r\ r « V
nos com ver uma nação esplendente de juventude e de engenho afeiçoar-se i\s nossas produções
literárias, por causa destas modificar suas próprias produções, e estreitar através dos liames
espirituais os que devem existir na ordem política121 122.

Acrescentem-se de 1826 a publicação do ensaio de Almeida Garre»,


“Bosquejo da História da Poesia Portuguesa” e de 1829 o livro de C.
Schlichthorst, O Rio de Janeiro como ele é11. Cabe aqui ressaltar pontos cm comum
entre estes dois e Ferdinand Denis, e também Bouterwek e Sismondi. Garre»
distingue novas contribuições dadas à Literatura Portuguesa por Santa Rita
Durão, Cláudio Manuel da Costa, Basílio da Cama e Tomás Antônio
Gonzaga, todos assinalados brasileiros. Destaca os três últimos, mas censura
“vários resquícios de gongorismo e afetação seiscentista' de Cláudio, e neste, e em
Gonzaga, o receio “de se mostrarem americanos”. Com preferências pelas
sugestões europeias, eles teriam desprezado a riqueza e variedade de cenas
da majestosa natureza que os rodeava, enquanto Josf Basílio da Gama
cultivaria uma poesia reconhecida “verdadeiramente nacional e legítima
americana”123. Os conselhos se repetem, de Ferdinand Denis a outros. Assim,
o conceito de legitimidade americana, sinónimo de nacional, repousa na
inspiração da paisagem e na linguagem adequada e despojada de artifícios
arcádicos e mitológicos, estes, quando muito, substituíveis pela cosmogonia
indígena. Propõe-se até a simplicidade da expressão. O mesmo diríamos da
compreensão de Schlichthorst, mais próximo de Ferdinand Denis pelo perfil
que traça do brasileiro, considerado produto de três raças. Reite rando o
historiador francês, distingue o brasileiro filho de português c
dia, e o mulato, com suas características próprias: contemplação e amor i
liberdade em um, vivacidade e imaginação no outro, enquanto ao esmo
tempo os brasileiros - de ascendência branca? - se identificam m sentimentos

121 Guilhermino César, op. rit., p. 41.


122 Almeida Garrett, “Bosquejo da História da Poesia e Lingua Portuguesa", cm Parnaso Lusitano ou PoesiasSeletas
tlosAutoresPortugueses AntigoseModemos, Paris, Aillaud, 1826, 5 tomos, 1.1, pp. VII- LXV11; e Shlichthorst, Rio
de Janeiro wie es ist. Beitrage zur Tages - und Sittengeschichten der Hauptstadt von Brasilien, Hanöver, Im
Verlog der Harnischen Hofbuchhaudlung, 1829 (O Rio de Janeiro corno eie é (1824-1826), trad, de Emmy Dodt e
Gustavo Barroso, Rio de Janeiro, Gcttdio Costa, 1943).
123 Almeida Garrett, op. rit., pp. XLIV-XLVIII c Guilhermino César, op. rit., pp. 87-92.

II 101)0 Oll O PBRfODO NACIONAI I - íi cernir.


do português, a saber, amor e vingança, linguagem ele- da c maneirosa
mesmo quando exprimem “violenta sensualidade”. E ida faz referência ao
gosto da música, do canto, da poesia improvisa- c da narrativa oral, e a visão
profética de um destino brilhante para a ssa literatura, uma vez encontrado o
caminho da originalidade que lhe nvinha 29.
Tanta simpatia e tanto interesse de todos esses estrangeiros observares de
nossas transformações internas indicam que foram espontâne- voltados para
nós, nesse momento de elaboração e caracterização da isciência e do
sentimento nacionais. E foram não só oportunos, em nunhão com a conquista
da nossa independência, também ouvidos e uidos, forças externas de atuação
interna na nossa ruptura com os delos clássicos e neoclássicos anteriores,
salvo o barroquismo tão itificável conosco.
Dc uma maneira geral vivíamos reações contra a preponderância
strangedora dos modelos portugueses e de livre procura dos europeus
geral. Sobretudo e ao mesmo tempo, vivíamos um momento de sín- das
transformações internas voltadas para o reconhecimento da nos- nidade e
identidade histórica. Nativismo e indigenismo/indianismo nçariam assim
o século XIX, para estabelecer a conexão do Período miai com a autonomia
e a auto-escolha dos estímulos externos, lidos pela contribuição francesa,
em harmonia com os internos: da ica romântica européia à ideologia
nacionalista do nosso momento •rico. Ajustam-se engrenagens, refugando-
se peças desgastadas, ape- o problema maior, o do acabamento adequado
da infra-estrutura |UC a máquina pudesse operar livremente, mal grado o
seu aspecto nico.

llllu iitiiixi I > op. dl., pp. 03-102.


2. A PROCLAMAÇÃO NACIONAL DA REFORMA ROMÂNTICA - A AÇÃO DECISIVA DOS

PERIÓDICOS

De acordo, pois, com o pensamento anterior, o romantismo de época no


Brasil — tradicionalmente considerado dos anos de 1830 aos de 1870 - deve
incorporar as três primeiras décadas do século XIX. É a nossa lase pré-
romântica, em que se estabelece a engrenagem do Período Colonial com o
século da Independência, o do romantismo interno, esclarecido pelas
propostas externas. Compõem-se grupos de intelectuais abertos ao debate
crítico. Os periódicos se fazem veículo de difusão, através dos quais surgem a
narrativa ficcional e um gênero novo, a crónica dos acontecimentos do dia ou
da semana, ambos rotulados de “folhetim”.
Veiculam-se idéias teóricas e críticas de interesse literário, agora in-
comparavelmente mais ricas e voltadas para o Brasil do que aquelas do
Período Colonial. Mais importante, porém, é a correlação que as novas
posições estabelecem com a dupla visão do romantismo no Brasil, a externa e
a interna, principalmente à medida que dão abertura para a auto- avaliação
de nossas possibilidades e destino literários. Se os liames entre antecedentes
coloniais e o indianismo romântico - e de uma maneira geral o Romantismo -
se encontram na fase pré-romântica, os passos decisivos para os
pronunciamentos reformadores de Gonçalves de Magalhães principiam com
a Revista da Sociedade Filomática e a Niterói — Revista Hrasiliense, ligadas a grupos.
Desde então foi raro o escritor romântico que não oferecesse sua contribuição
ou teórico-poética ou de reflexões sobre o destino da Literatura Brasileira, sua
valorização e interpretação histórica. São pesquisadores, biógrafos,
historiadores, organizadores de antologias, Joaquim Caetano Fernandes
Pinheiro, J. M. Pereira da Silva, Varnhagen, Joaquim Norberto de Sousa e
Silva, Sotero dos Reis, e ainda os estrangeifosTerdinand Wolf e Eduardo
Perié. Também romancistas e poetas, José de Alencar, Bernardo Guimarães,
Franklin Távora, Álvares de Azevedo e outros, entre estes os dois pioneiros
da nossa crítica mili- :e c do ensaio de relativa ambição, Antônio Joaquim de
Macedo Soa- j Aureliano Cândido Tavares Bastos.
Em vários centros, capitais de províncias - Pernambuco, Bahia, Rio ndc do
Sul, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo, surgirão reis, além de jornais,
em cujos objetivos se destacam a preocupação liria e a intenção crítica. Da
Faculdade de Direito de São Paulo, reper- ; em todo o país um entusiasmo
intenso, expresso em revistas não lorta que de vida efémera, congregando
esforços de grupos.
Datada de 1833, a Revista da Sociedade Filomática, órgão oficial des- jciedade,
também fundada no mesmo ano por professores e estudan- laquela
Faculdade. É o marco inicial de um movimento de sociedades urais e de
revistas que traduziriam muito bem a efervescência literária, ica e criadora
daquela instituição, principalmente durante o século i. Da apresentação da
revista, assinada por nomes já então representa- s do nível intelectual do
momento, transcrevemos o seguinte trecho:

Com estas vistas nós abaixo-assinados, Redatores nomeados, pretendemos dis- lir a Revista da
Sociedade Filomática em duas divisões — Literatura — Ciências — E uma destas se subdividirá
em três classes - trabalhos da Sociedade - trabalhos os trabalhos oferecidos.
Na parte Científica daremos maior apreço às Ciências Sociais, e procuraremos nder as mais
sólidas ideias que se têm discutido na Europa acerca da Economia ica, do Direito Público, e da
Metafísica da organização Social. Olhos fitos no bem uiblico sempre propugnaremos pela
estabilidade, e adequada aplicação dos princí- racionais: só defenderemos ideias justas que não
utopias ou sistemas quiméricos, idade - Indústria - Racionalidade - e Associação hão de ser a um
tempo nossa ola, e o Norte a que deveremos tender.
Entregando-nos ao estudo da Filosofia, isto é, da Metafísica geral, base dos princí- abstratos de
todas as Ciências, a que somos constantemente obrigados a descer na sc profunda de qualquer
dos seus ramos, procuraremos quanto em nós couber cin- IOS ao Ecletismo: nem por sombra
abraçaremos as doutrinas de Spinosa, e Gassen- n trotante não seremos também sectários cegos
do absoluto espiritualismo Alemão. I ni I iteratura nossos princípios serão os da razão, e do bom
gosto, combinados
0 espírito, e necessidades do século: tão longe estaremos do Romantismo frenéti- imo d.i servil
imitação dos antigos. Desde já estamos convencidos que a I.iteratu-
1 i spn V..HI colorida do pensamento da época: esta idéia nos servirá para extremar- i iiiodilh
.IÇ.IO justa, c adequada nas antigas conveniências - do esquecimento
absurdo dos princípios da Natureza. Voltando as vistas para a Literatura nacional, protestamos
não dar guarida ao Elmanismo, e Galicismo, filhos bastardos de nossa linguagem pura e nobre;
nem ao Arcaísmo insosso, que nodoa suas feições varonis, porém modernas: poremos todo o
peito em sustentar a casta sisudez da escola respeitável de Camões, Ferreira, e Garção; e
repeliremos com azurrague crítico toda a inovação desnecessária, e que não seja consentânea com
a índole do nosso desprezado, mas tão formoso idioma'0.

A Revista contou com a colaboração de José Marciano Gomes Batista,


Francisco Bernardino Ribeiro, Justiniano José da Rocha, Antônio Augusto
Queiroga. Destacam-se entre os artigos: “Ensaio sobre .1 Tragédia”, assinado
por F. Bernardino Ribeiro, Justiniano José da Rot ha e An iònio Augusto
Queiroga; elogios dramáticos; poesias, traduções; o ensaio “Vista d’olhos à
poesia portuguesa desde os últimos anos do século XVIII e em particular
sobre o Poema Camões, geralmente atribuído ao Sr. Garrett”, sem assinatura e
parece que incompleto; o “Ensaio Crítico sobre a Coleção de Poesias do Sr. D.
J. G. Magalhães”, por Justiniano José da Rocha; e a tradução do prefácio de D.
Gavet e P. Boucher ao seu romance - Jakaré-ouassou, ou les Tupinambas, Chronique
Brésilienne", além de “elogios dramáticos” e poesias. Atinge o sexto número em
dezembro de 1833, quando se encerra com a extinção da sociedade, carente de
estímulos do público124 125 126.
Depois da iniciativa da Revista da Sociedade Filomática, surgiram vários
outros periódicos de real interesse, notadamente pelos anos de 1850 a 1870,
portanto em pleno Romantismo: Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano (1851-
1864); O Acaiaba (1852-1853); Guaianá 1856); Revista da Academia de São Paulo (1859);
Ensaios Literários do Ateneu Paulistano (1852-1860); Trabalhos Literários - Sociedade Amor à
Ciência (1860); Revista da Sociedade Recreio Instrutivo (1861); Revista Mensal do Instituto
Científico (1863); Revista do Ensaio Literário (1871);
ff /<: T I S TA
nj
& OCIE DA D IS !

*./11L
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JUNIIO HE IS33.

124 Revista da Sociedade Filomática, São Paulo, Novo Farol Paulistano, 1833, 6 números, de junho a dezembro de
1833, São Paulo, Edição fac-similar patrocinada pela Metal Leve, 1977, pp. 15-16.
125 Editado em Paris, Timothée Dehay, 1830.
126 Cf. advertência final “Ao Público”, n. 6, p. 198, ed. cit.
N.° 1.«

Joio Rodrigues oo Jesus


Parfiahybj»

s. PAULO.

¡..¡raphia do A ovo Farol Paulistano*


Frontispício da Revista da
Sociedade Filomática, um dos
antecedentes imediatos do
nosso romantismo.

Revista da Sociedade Fénix Literária (1879). São muitos os colaboradores, entre os


quais Justiniano José da Rocha, Francisco Bernardino Ribeiro, A. Simplicio
de Sales, Pedro Luís, Macedo Soares, A. da Silva Prado, lavares Bastos,
Cândido José Rodrigues Torres, Amaral Gurgel, Antônio Ferreira Viana,
Cirilo de Lemos, Morais Costa, Luís Ramos Figueira, Pessanha Póvoa,
Couto de Magalhães, Costa Pereira, Lindorf França, Paulo Egídio, Pedro
Fernandes, A. Correia de Oliveira, Pedro Ivo33. De

M. < I um Textos </ue Interessam à História do Romantismo no Brasil, org. por José Aderaldo Castello, San Piiulo, (
amsclho lisiadual de Cultura - Comissão de Literatura, vols. I e II, 1960. (V. também

todas essas revistas, sem dúvida a mais importante é a Revista do Ensaio 1'ilosófico
Paulistano, fundada por iniciativa de Alvares de Azevedo em 1850. Foi órgão
oficial da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, cujo presidente de honra foi
Manuel Joaquim do Amaral Gurgel e efetivo, em 1857, Lafaiete Rodrigues
Pereira. Com o primeiro número, datado de maio de 1851, contou sempre
com uma quantidade considerável de colaboradores. Na crítica, no noticiário
literário e na crónica teatral se des- lacariam A. J. Macedo Soares, A. C.
Tavares Bastos e Pessanha Póvoa’ 127. Constitui uma amostra excelente do
pensamento da época, na filosofia, direito, história e literatura. É nela
principalmente que veremos coloca da a questão do sentimento nacionalista e

127 N I I I HII Rrviua tttmilirmr, Paris, Dauvin et Fontaine, 1836, t. I, n. 1, pp. 5-6. I hbm, l I. n
.!, pp. 261-262.
do sentido da poesia brasileira, Equacionada com tendências e características
das literaturas europeias, prevaleceria, na abordagem do sentimento da
natureza, o paralelo com a Literatura Norte-americana, além de freqiientes
reações à imitação da Literatura Francesa.
No Rio de Janeiro, ^ parte jornais e periódicos que surgem desde 1808
— o principal deles foi o Correio Brasiliense, editado no estrangeiro. Foi ponto de
partida de iniciativa literária de mais outra revista, a Niterói - Revista Brasiliense,
também editada no estrangeiro, em Paris. Data de 1836, fundada por um
grupo de jovens brasileiros - Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo
Porto Alegre, Francisco Sales Torres Homem, C. M. Azeredo Coutinho,
desejosos de transmitir à vida intelectual do Brasil o influxo renovador do
romantismo europeu. Apesar de ter circulado apenas duas vezes, a revista
pôde atingir o objetivo propugnado na apresentação “Ao leitor”, com que
abre o primeiro número: “[...] refletir sobre objetos do bem comum, e de
glória da pátria”, e, voltados para o “justo, santo, belo e útil', ver “a pátria marchar
na es-

a Antologia do Ensaio Literário Paulista, org. por José Aderaldo Castello, São Paulo, Conselho Estadual de
Cultura - Comissão de Literatura, 1960.) Cf. ainda Caminhos do Pensamento Crítico, org. por Afrânio Coutinho,
Rio de Janeiro, Comp. Americana/Prolivro, 1974, 2 vols. (Não mencionamos, mas trata-se de reedição, embora
incompleta, da edição de 1972, com o mesmo título, cit.)
34. Deste último, reeditamos Anos Acadêmicos. São Paulo — 1860-1864, São Paulo, Conselho Estadual de Cultura —
Comissão de Literatura, 1964.

rada luminosa da civilização, e tocar ao porto da grandeza, que a pro- idência


lhe destina”35. A dissolução do grupo de Paris, no mesmo ano c 1836, foi feita
com a esperança de continuar no Brasil - Rio de Ja- ciro, o que havia sido
principiado no estrangeiro. Confirmar-se-ia o uc eles prometeram na
“Observação final” que se lê no segundo e últi- 10 número da Niterói - Revista
Brasiliense.

Esperamos contudo, que, no seio do nosso país, reunidos, se nada houver que ' oponha ao
nosso ardente desejo de vermos o nosso país marchar na estrada da civi- lação e do progresso,
que parece hoje obstruída, continuaremos a sacrificar os nossos itudos em proveito do país, sem
esperança de outra recompensa que a satisfação de ¡ivcrnios lançado uma pedra para o edifício
da nossa ilustração3*’.
No Rio de Janeiro, o programa iniciado em Paris é acrescido com a
ontribuição de outros nomes, todos eles conduzidos pelos mesmos pro-
ósitos: Frei Francisco de Monte Aiverne, a quem Magalhães devia boa arte de
sua formação, Teixeira e Sousa, Francisco Adolfo Varnhagen, laquim Manuel
de Macedo, Gonçalves Dias, Melo Morais, João Caeta- o. Confirma-se a
continuidade do programa de Paris com a publicação as nossas duas
primeiras grandes revistas literárias - a Minerva Brasilien- ' e a Guanabara, ambas
no Rio de Janeiro. A primeira teve o subtítulo e Jornal de Ciências, Letras e Artes,
com a indicação: “publicada por uma ssociação de Literatos”. Circulou de fins
de 1843 a 1845 e contou com colaboração de escritores, quase todos eles
preocupados com pronunci- nentos e julgamentos críticos. Além de alguns
nomes já citados, menci- namos ainda Odorico Mendes, Santiago Nunes
Ribeiro, Emílio Adêt. bdos eles, através da Minerva Brasiliense, contribuíram
decisivamente para amadurecimento do pensamento crítico em torno do
romantismo no rasil. Cumpria-se o que afirmou F. S. Torres Homem, ao
traçar o pro- ama da revista, no artigo “Introdução — Progressos do Século
Atual”: I
Frontispício da Niterói, Revista
limsiliense, uni dos marcos de
definição de nosso romantismo.

REVISTA BRASIEIENSE.

■a.lKNCIAS, I.K1TKAS. K MI1I.S


(«il« |»l < KIIMI »1«


itmmi prlmrll'0.
v. i-

Nas belas artes, e em todos os ramos da literatura, longo tempo se haviam reduzido a
imitar invariavelmente tipos antigos de admirável beleza, mas cuja reprodução contínua vinha
a ser monótona. Deixando as vestes e as cores do politeísmo, a que nada correspondia em
nossas crenças e sentimentos, a moderna poesia voou sobre as asas da musa cristã, através de
regiões misteriosas, até a fonte suprema do belo e do santo. Espíritos independentes, deixando
a trilha batida do gênio clássico, se aplicaram a estudar, e a pintar a natureza sob novos
aspectos3 .

Interrompida em 1845, ela na verdade se renovou cinco anos mais


tarde na Guanabara - “revista mensal - artística, científica, e literária - 128

128 Minerva Brasilieme, n. 1, p. V.


.•eligida - por uma Associação dcTiteratos - e - dirigida - por - Manu- I de
Araújo Porto Alegre, Antônio Gonçalves DiàTfc Joaquim Manuel c
Macedo”. Portanto, expressões do mesmo grupo já mencionado. Du- >u
de 1850 a 1855, coroando então um esforço congregado desde o rupo de
Paris. Foi mesmo a redação desta revista que a reconheceu em mtinuação
da Niterói — Revista Brasiliense e da Minerva Brasiliense'*. lompõem todas elas
uma cadeia, antes e depois, com outros periódicos: a Revista da Sociedade
Filomática aos Ensaios Literários, em São Paulo; o rogresso e a Aurora Olindense, em
Pernambuco; a Revista Nacional e Es- angeira, Voz da Juventude, Harpejos Poéticos,
Revista Popular, Iris, Quesees do Dia, ainda no Rio de Janeiro; o Partenon, no Rio
Grande do Sul. crescente-se, também, a importância literária de que se
revestirão al- ms jornais, destacadamente o Diário do Rio de Janeiro.
Através desses caminhos, incluindo publicações em livros, e tomada n
referência inicial a Revista da Sociedade Filomática, oportunamente lalisaremos:
primeiro, o debate em torno de idéias estéticas e atitudes erárias; segundo,
o esforço de pesquisadores, biógrafos, antologistas e storiadores no
sentido de reconhecerem a existência de fato da nossa eratura, de
conceituá-la, caracterizá-la e revigorá-la. Tanto um caso mo o outro, com
as reflexões que mergulham adentro de nossa forma- o colonial, se
completam num objetivo literário: o de alimentar a cons- íncia crítica da
própria criação. É assim, pois, que paralelamente se de- icm as formas e os
temas literários e se organiza o quadro caracterizador uma literatura que
se propõe nacional, inclusive em linguagem.

ROMANTISMO E IDENTIFICAÇÃO DA NACIONALIDADE

O século XIX, não obstante a sucessão de estilos literários que apre- ita, foi
para nós predominantemente romântico. E se aceitarmos as

Scilm a* duas revista», Minerva brasiliensee Guanabara, chamamos a atenção para o trabalho de I lt*IÍM I
aipes, A Divisão das Águas - Contribuição ao Estudo das Revistas Românticas", São Paulo, Vi U i.uia de <
ailtura, Ciência cTecnologia, 1978.
distinções — estilo individual, estilo de época e estilo nacional 129, constatamos
que elas se aplicam perfeita e harmoniosamente ao nosso caso: lu)
exemplificando estilos individuáis macantes, com Gonçalves de MagaY Ihães,
Gonçalves Dias, José de Alencar, Machado de Assis, Raul Pompéia, Manuel
de Oliveira PaiVa^2lJ. estilos de época: sucessivamente o Romantismo, o
Realismo-naturalismo, o Parnasianismo e o Simbolismo; 3“) estilo nacional,
sob o predomínio do Romantismo. Admitimos, assim, um romantismo que se
projeta de fora para dentro, e um romantismo nacional, ou melhor, interno. A
poética e os ideais românticos universais, os reconhecidos estilo de época,
harmonizam-se com a nossa herança colo nial, convergindo para a busca
consciente da identidade nacional. |uma mente com a elaboração da
modalidade brasileira da língua portuguesa, alimentam a caracterização
brasileira do Romantismo - o nosso romantismo interno. Sobrepondo-se a
todo o século XIX, ele resistirá às tentativas de ruptura alimentadas por
importação de outros estilos e pelas próprias revisões internas. Rrojetar-se-á
no Modernismo dos anos de 1920 em diante, de tal forma que para
compreendermos as transformações ideológicas que refletem a nossa
realidade é fundamental o equaciona- mento de um momento com o outro.

O romantismo de época. São conhecidos os ideais românticos voltados para


as tradições, sentimentos e valores nacionais, no sentido de surpreender e
ressaltar, distintamente, os característicos de cada povo. Ao ser difundido no
Brasil, voltado para reformas, da poética à temática, nós já contávamos com
uma agitação coincidente com o sentido mais amplo do próprio movimento
romântico, aquele estimulador de ideologias nacionalistas, que procuramos
demonstrar. De fato, a introdução do Romantismo de modelo europeu no
Brasil coincidiu com um momento agudo
•linições políticas e afirmações patrióticas e nacionalistas, ou seja, da
ncia (1831) à Maioridade (1843), antecipado pelo período de Dom VI ou

129 Rene' Wellck y Austin Warren, Teoría Literaria, Madri, Gredos, 1953 (v. particularmente o capítulo XIV - Estilo y
Estilística) e Domício Procura Fillio, Estilos de Época na Literatura (através de textos comentados), 5. ed„ rcv. e
aum., Sao Paulo, Ática, 1978.
o período da Independência e pelo Primeiro Reinado. É quan- rompem
aquelas manifestações de patriotismo e nacionalismo, revi- las pela
procura de valores internos e tradições com fundamento no
> passado histórico. Exaltavam-se as raízes americanas, reconhecidos
jonentes legitimadores dos sentimentos que eclodiam, quer dizer,
malistas, provenientes do Período Colonial, com o nativismo e in-
lismo/indianismo. É certo que estas coordenadas, juntamente com ido
que nos deixa o Barroco, já condicionavam muitos traços signi- vos de
característico nacional: sensibilidade, sensualismo, imaginarei
igiosidade complacente, amor exaltado da terra. Fundamentos do
> romantismo interno, foram reconceituados pela estética, poética e ¡
universais importados, do romantismo de época.

O romantismo interno. Considere-se a complexidade do movimento utico


na sua abrangência universal, isto é, européia: idéias, política, ;to,
música, pintura, escultura, sobretudo literatura e história. No particular
do Brasil, e acabamos de sugerir, confrontaram-se e en- ram-se com
aquelas posições outras tantas internas, a contar do Pe- Colonial. Foram
revigoradas pelas nossas experiências simultanea- e em dois campos, o
cultural e o intelectual, sob o ideal da unidade nal. Destaquemos o
apoio de duas instituições reconhecidas entre lis responsáveis pela
formação da nossa mentalidade em todo o sé- XIX: as Faculdades de
Direito de Olinda/Recife e de São Paulo. As oes preservadas por estas
instituições, ainda hoje vivas, são predo- ntemente românticas, até
mesmo na evocação da tentativa de rup- le uma delas com o
Romantismo, a do movimento chamado “Esco- Rccife".
!\ com o Romantismo que se desencadeia uma preocupação que
ii.ii.i .1 nossa literatura: o compromisso estreito da inspiração e da ¡o
mm a realidade brasileira, em última análise uma retomada da
tradição colonial alimentada por aquele binómio ou relação homem/ter- ra. E
no momento romântico, do ponto de vista da criação, sob formulações críticas
discutidas e aplicadas. É assim que se equaciona o universal das poéticas
importadas com o nacional fornecedor principal da matéria- prima da
Literatura Brasileira. Também se intensifica a intimidade entre nossa
literatura e outras áreas do conhecimento e da cultura do Brasil: a sociologia,
o folclore, as tradições populares, a literatura oral, a música. E o que a
literatura oferece de melhor para esse relacionamento provém notadamente
da narrativa ficcional e também do teatro, muito mais do que da poesia. A
crítica lhes fará eco, agitando de maneiras diversas o problema da
nacionalidade literária, da linguagem brasileira, de uma temática específica
nossa.
! Contudo, o entusiasmo romântico seria inevitavelmente levado aos
exageros de uma visão totalizadora ainda imatura. Pesaram nesse caso as
circunstâncias em que nos fizemos independentes, as conseqiientes agitações
internas e a procura de auto-suficiência política e administrativa. E também a
euforia nacionalista, logo alimentada pelo bovarismo e pelo otimismo
projetado daquele ângulo de visão único, o Rio de Janeiro, reconhecido desde
então e por largo tempo centro de convergências diversas, internas e externas,
e de irradiação. Tudo isso pode ser demonstrado através de figuras-síntese da
Literatura Brasileira, notadamente do Romantismo^ e também por outras.
Citamos Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, destacadamente José de
Alencar; responsável pela redefinição do nosso romantismo. Virão logo mais
reações teóricas ao Romantismo, ditadas de fora para dentro, atingindo fins
do século XIX. Caracteriza-se então o dualismo da ideologia nacionalista, isto
é, o pessimismo final contra o otimismo deformador inicial. O melhor
exemplo da reação nos dois níveis ressaltados, externo e interno, e tendendo
contraditoriamente para o equilíbrio da síntese, é a obra de Sílvio Romero.
Delineia-se, pois, uma trajetória que preenche o século XIX, com a so-
brevivência do romantismo brasileiro, ao encontro com o Modernismo.
Ação dos influxos e transformação das coordenadas. Em suma, admiti- s uma
linha de unidade no nosso século XIX, que chamamos roman- no,
alimentada pelas transformações provenientes do Período Colo- 1. Mas
ao traçar essa linha de unidade interna, devemos levar em sideração suas
implicações com os influxos externos e reconhecer a essão de estilos
literários. Na primeira perspectiva, a do romantismo ■rno, distinguimos
a projeção no século XIX das coordenadas provenes do Período Colonial:
o nativismo e a sua derivada indigenismo/ ianismo. O nativismo
converte-se em nacionalismo, expresso inicial- íte através de
manifestações sucessivas e concomitantes de antilusis- e do patriotismo
exaltados, da deformação bovarista ao seu oposto. ;loba ainda outras
derivações ideológicas: língua nacional = literatura ional, e paradigma
urbano = sociedade em mudanças (cosmopolitiza- I x universos rurais =
sociedade tradicional (regionalismos). A segun- oordenada derivada do
nativismo, o indigenismo/indianismo, passa ra a relacionar-se com o
nacionalismo, distinguindo-se em indigenis- defensivo e indianismo
mítico. Tratamentos da temática daí decor- e e da temática universal
independente estariam sujeitos aos influxos poéticas e teorias externas
por nós aceitas, assimiladas e reelaboradas, este aspecto, é através da
evolução do pensamento crítico, ou seja, reflexões sobre poéticas e da
historiografia literária em formação que çamos, de dentro para fora, ao
reconhecimento e definição dos movidos e estilos literários de época:
Romantismo, Realismo/Naturalismo, lasianismo e Simbolismo, nos
limites englobantes do século XIX, igurando a segunda perspectiva.

A centralização da vida intelectual. As condições, progressivamente piadas de


intercomunicação e intercâmbio, favorecidas pela Indepen-
i.i e pela unidade política, concentraram-se, já o dissemos, no Rio liteiro,
então a capital do Brasil. Externas e internas, foram de irra- lo nacional. E o
Rio de Janeiro exerce o poder de revigorar a uni- llti iária, ao mesmo tempo
que proporciona a visão diversificada
cío país por força da confrontação que será feita entre ele, paradigma urbano,
e os centros provincianos, estes mais próximos dos universos rurais. Dos
provincianos, apontamos dois: São Paulo e Recife, além de outros menores,
que se definem notadamente na segunda metade do século XIX - Salvador,
São Luís, Fortaleza, Pelotas/Porto Alegre. Em todos, a atividade literária está
ligada ao pensamento crítico, ao ensaio e à historiografia geral. Mas a
literatura é agora uma unidade bem caracterizada, enquanto no Período
Colonial, momento de sementes e elaboração de raízes, as espécies ainda não
estavam definidas. Então, toda a atividade intelectual e cultural era
importante para valorizar aquilo que fosse reconhecidamente literário, a bem
dizer nivelando-se - da poesia, narrativa ficcional etc., até a informação
descritiva, a crónica e a genealogia, que eram do domínio da história e do
campo das idéias a prosa moralista. É evidente que no século XIX, e depois, as
correlações persistirão. Mas dos limites iniciais daquele século aos anos 60 do
atual, limitar-nos-emos à poesia, à narrativa ficcional, que surge logo
triunfante, e a mais duas outras formas que progressivamente ganham vulto
na nossa literatura - a crónica e a memória. Sobre todas elas, focalizamos os
reflexos de poéticas e teorias da criação literária, além de enfatizarmos as
coordenadas internas. A oratória religiosa e a acadêmica, transformadas, mais
a oratória política que surge e o teatro - este só excepcionalmente considerado
- ganham o seu destino próprio. No enfoque que nos propomos - ver nossa
introdução geral - continua nossa orientação fundamental do critério seletivo
de autores e o destaque de autores-síntese, ou obras-síntese, diluindo-se os
demais, explícita ou implicitamente, na visão do todo. E continuaremos a
ressaltar a função dos jornais, periódicos, associações e instituições culturais.
CAPITULO VIII

AINDA A AUTO-REFLEXÃO COMO RECONHECIMENTO

1. POÉTICA ROMÂNT ICA

As reflexões sobre poética provenientes do Período Colonial se con-


vertem em passos iniciais do nosso percurso de imitação e definições
próprias. Continuados na fase pré-romântica, eles alcançam o romantismo
interno, revigorados pelo sentimento de nacionalidade em expansão. A
propósito, bem mais tarde, em 1870, Machado de Assis advertiria que não
bastavam à Literatura Brasileira, para ser nacional, somente “cor local”,
exaltação da natureza, sensualidade e patriotismo 130. Relacio-

130 V. Machado de Assis, “Literatura Brasileira: Instinto de Nacionalidade”, em Crítica Literária, Rio dc Janeiro,
Jackson, 1955, pp. 129-136.
essas perspectivas, reconhecemos a necessidade de reapreciar o de-
lvimento do nosso pensamento crítico, com suas impregnações ticas e de
procedência externa, expresso por ensaístas, críticos, bi- >s, historiadores,
poetas e romancistas através de jornais, revistas e entre os limites que vão
da Revista da Sociedade Filomâtica2 ao apo- i crítica machadiana.

) grupo de Gonçalves de Magalhães e suas idéias. O ponto de parti- s idéias críticas da


Revista da Sociedade Filomâtica - ainda oscila as últimas pressões neoclássicas e o
começo da abertura românti-
0 caso do estudo sobre o Camões de Garrett, com opiniões con- loras,
contrariamente às inovações introduzidas pelo poema, ao nar-lhe o
desprezo das regras clássicas. Mas na mesma revista, uno José da Rocha
aplaude a reforma: necessidade de atividade ; estímulo justo às verdadeiras
vocações; os novos rumos da nos- piração poética, cm que aponta o
predomínio do “amor” e da nuosuladc". Ao referir-se ao romantismo
europeu, prevê que cer- ie seríamos sensíveis às novas tendências, a saber:
o “triunfo da
1 idade”; o desejo de “penetrar os corações”, dando os exemplos irrons, e
Delavignes; a oposição à tirania e à afirmação do “amor ria, e da
liberdadç!!A-Ê-5ê-doRm£eliz em destacar o livro recém- ado — Poesias,de
Gonçalves de Magalháes'V, provavelmente o fez íizade, limitando-se
apenãs~ao5Ttspeífõstemáticos da obra. Não a supor que Magalhães, no
prefácio aos Suspiros Poéticos e Sau-

Ito mais uma vez o aproveitamento dessas fontes do pensamento crítico brasileiro por Anto- andido, Formação da
Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, ed. cit. (1. ed. de 1959); e io Cominho, A Tradição Afortunada, Rio de Janeiro, José
Olympio, 1968; além de outros. I SS . I parte, fundamentamo-nos em pesquisas que já divulgamos: A Polêmica sobre "A
Confede- dot Tamoiot“, críticas coligidas e precedidas de uma introdução por [...], ed. cit., 1953; An- i do Tnsaio Literário
Paulista, ed. cit. (1961); Textos que Intercsssam à História do Romantis- l v t l t a , vol. 1 (1961), vol. 3 (1964) (v. notas 33 e
34 do capítulo VII - Ruptura e Auto- luwlnunto),

dihl da Sociedade Filomâtica, ed. cit., n. 2, jul. 1833, pp. 47-57. e


liklm . ili a» HUI» kii/MAU*t • -A « ..... - .

dades, de 1836, renegasse aquele seu primeiro livro, sem dúvida de sabor
neoclássico. Nele, contudo, repousa a essência das idéias do autor,
entrevista no prefácio, datado de 1832, em que o poeta se define: se havia
menosprezo pela atividade poética, observa, cumpria-lhe justificá-la e
enobrecê-la, atribuindo-lhe exaltação patriótica e, na parte da filosofia
moral, a elevação das virtudes humanas. Num momento em que a nação
era dominada por lutas, ódios e ambições, esclarece, nada mais oportuno e
necessário a todo bom patriota do que dirigir seu canto poético contra
vícios e crimes, reconhecer a bondade do coração humano e estimular as
ambições de glórias necessárias à ilustração da “cara Pátria” 131. Destaca-se
ainda outra importante contribuição daquela revista, devida a D. Gavet e P.
Boucher, com a transcrição do prefácio ao romance da autoria de ambos -
Jakaré-ouassou, ou les tupinambas, cronique brési- lienne, reiterando a proposta
indianista de Ferdinand Denis e a inspiração na natureza e na paisagem
humana do “novomundo”132. São propostas que incidirão também nas
reflexões de José de Alencar )das Cartas sobre “A Confederação dos Tamoios”, e dão
à Revista da Sociedade Filomâtica e ao primeiro pronunciamento de Gonçalves de
Magalhães a função de elo entre o pensamento de Ferdinand Denis exmtras
colocações da Niterói — Revista Brasiliense, na qual Gonçalves de Magalhães
começa o seu desempenho de reformador, ao publicar õ “Ensaio sobre a
História da Literatura do Brasil — Estudo Preliminar”. Escrito com a ênfase
de manifesto, é síntese e ampliação do primeiro pronunciamento dele mes-
mo. Está dividido em quatro capítulos. O primeiro contém considerações
de natureza teórica, indicando as proposições básicas para o estudo da
nossa literatura: “Qual a origem da literatura brasileira? Qual o seu caráter,
seus progressos, e quais as circunstâncias que em diversos tem-
pos favoreceram ou tolheram o seu florescimento?” Magalhães considera
então a dificuldade de elaboração de uma história da literatura do Brasil em
virtude da escassez da bibliografia crítica e histórica: contava-se apenas
com os sumários de Bouterwek, Sismondi, Ferdinand Denis e Almeida
Garrett. O capítulo seguinte é de considerações sobre os três séculos
coloniais de nossa formação e sobre as condições da produtividade literária

131 V. Gonçalves de Magalhães, “Prefácio ”, Poesias, Rio de Janeiro, Agier, 1832. A exposição c comentário que
passamos a fazer do pensamento crítico de Gonçalves de Magalhães é extraído dos nossos trabalhos:
Gonçalves de Magalhães — Introdução, Seleção e Notas por (...), São Paulo, Assunção, 1946 c Gonçalves de
Magalhães - Trechos Escolhidos, Rio de Janeiro, Agir, 1961.
132 V. Revista da Sociedade Filomâtica, ed. cit., n. 3, ago. 1833, pp. 92-98.
de então. Já o capítulo terceiro assume valor de pronunciamento crítico,
primeira síntese de debates imediatamente anteriores: a precariedade do
ensino que nos foi dado por Portugal; a literatura dos nossos três primeiros
séculos, cultivada sob o modelo europeu, que transpôs para a paisagem
americana os deuses do paganismo e a impregnou de reminiscências de
origem extracontinental, sedução de todos os brasileiros daquele período.
Devíamos então buscar inspiração na natureza que nos cercava e no
verdadeiro sentimento religioso que nos animava. Também, com a
Independência, o Brasil se tornara “filho da civilização francesa”; enquanto,
com as mudanças experimentadas no princípio do século, se impunha uma
idéia absorvente, “a ideia de pátria”:

[...] Ela domina tudo, e tudo se faz por ela, ou em seu nome. Independência, liberdade,
instituições sociais, reformas políticas, todas as criações necessárias em uma nova Nação, tais
são os objetos que ocupam as inteligências, que atraem a atenção de todos, e os únicos que ao
povo interessam.

Desdobrando essas reflexões, Magalhães jmncipia a última parte do


seu ensaio com a pergunta: “Pode o Brasil inspirar a imaginação dos poetas,
e ter uma poesia própria? Os seus indígenas cultivam porventura a
poesia?” A sua resposta novamente retoma Ferdinand Denis: a natureza
brasileira apresenta imensa e variada beleza que tanto impressiona os es-
trangeiros que a conhecem. Nesse caso, é plausível admitir que os primi-
tivos habitantes do Brasil também se inspiraram nela e que pode e deve sei
fonte de inspiração para os nacionais. Se chegamos ao século XIX, pondera
Magalhães, sem contarmos com uma poesia original foi porque si mpiv
preterimos imitar os modelos antigos sugeridos pelas literaturas européias.
E conclui o ensaísta “que mais vale um vôo arrojado [do gênio] que a
marcha refletida e regular da servil imitação” 133.
As observações e propostas de Gonçalves de Magalhães, por ele mes-
mo complementadas ainda no ano de 1836 com o prefácio “Lede” aos
Suspiros Poéticos e Saudades, foram igualmente reiteradas por Pereira da Silva e

133 V. Niterói — Revista Brasiliense, Paris, n. 1,1.1, 1836, pp. 132-159; o ensaio de Magalhães, mudado o título para
“Discurso sobre a História da Literatura do Brasil”, foi reproduzido na sua obra Opúsculos Históricos e
Literários, Rio de Janeiro, Garnier, 1815, pp. 241 -271.
Francisco Sales Torres Homem. Do segundo e último número da Niterói -
Revista Brasiliense, vejamos, primeiramente o ensaio de J. M. Pereira da Silva
— “Estudos sobre a Literatura”. Reiterativo, o que nos interessa nele é o
cotejo com ideias e atitudes já ressaltadas, no sentido de surpreender uma
orientação comum que se propunha: a poesia compreendida como
“representante dos povos”; “arte moral”, capaz de influir sobre a
civilização e a sociabilidade e de traduzir os ideais de liberdade. Cita o
exemplo da França, com Chateaubriand, B. Constant, Mme. De Staél,
Lamartine, Víctor Hugo; da Itália, com Manzoni, Foscolo, Pellico; e também
cita Schiller, Martínez de la Rosa e Garrett. Arremata: esse sopro renovador
ainda não nos atingira, senão agora com os Suspiros Poéticos e Saudades,
festejada obra de “chefe de urna nova escola”134. A seguir vem a apreciação
crítica de F. S. Torres Homem ao mesmo livro. Reiterando Pereira da Silva,
mas de maneira mais completa, ele ressalta a renovação poética que a obra
representa, contrária aos moldes poéticos greco-latinos, expressão agora do
infortúnio humano e da religião, sob a influencia do cristianismo. Se
seguíamos até então os velhos modelos, ainda distantes da renovação já
triunfante da Europa, chegava a propósito o exemplo de Maga i hijos. Sua
obra, pautada no novo gosto, era também expressão de uma poesia de
sentimento melancólico, impregnada de “pensamentos filosóficos,
inspirados pela escola idealista alemã e pelas doutrinas do cristianismo”.
Merecia destaque a pureza e pompa da versificação; e ainda mais - o que
sem dúvida seria muito mais grato para
lagalhães a obra era um “código de moral na sua expressão a mais iblime,
nas suas formas as mais ternas e consoladoras”, “produção de n novo
género”, “destinada a abrir urna era à poesia brasileira”8. Era, ifim, a
consagração de quem foi considerado, e também discutido, befo de escola”.
E não foram outros o pensamento e o desejo de Gonçalves de Ma- ihães.
Estão claramente expressos tanto no contexto dos Suspiros Poéti- s e Saudades,
quanto no prefácio “Lede”, que acompanha o livro. Se- mdo o autor -
mesmo que ele nos pareça artificial, mas bem à imitação mântica -, sua obra
resultou de impressões locais e de momento, da spiração motivada pelas

134 V. Niterói — Revista Brasiliense, ed. cit., n. 2,1.1, pp. 214-243.


saudades da pátria, pelas cenas da natureza. :us propósitos renovadores se
apresentam religiosos, morais e estéticos, :ntro do domínio da razão. Estaria
aí o “romântico arrependido” de que laria Alcântara Machado9.
Curiosamente - e agora se coloca a sua rea-
0 ao formalismo neoclássico —, condena a obra de Sousa Caldas, ressal- do
pelas traduções e destacado apenas pela sua ode “Ao homem selva- m”.
Também condena a poesia sensualista daqueles que se voltaram ntra as
“leis da decência” - a decadente poesia arcádica, de inspiração igã, frígida
ou artificial. E aconselha, reinsistindo, a poesia pautada na oral da religião
cristã10. Salvo a liberdade formal proclamada, o mais que
1 dito por Magalhães é uma ampliação do que ele mesmo já havia escriño
prefácio das Poesias, de 1832". Entre neoclacissismo e Romantis-
o, Magalhães procuraria sempre manter o fiel da balança. Visava evitar
excessos e até mesmo o que ele consideraria “monstruosidades” român- :as.
O que lhe impressiona de fato no Romantismo são certos compontes
patrióticos, nacionalizantes e nacionalistas, os ideais de liberdade, 135
o sentimento religioso. E até o espiritualismo filosófico que aprendeu com
Frei Francisco de Monte Alverne, além do que ele assimilou ou fixou do
conhecimento de Jouffroy e Victor Cousin136. É o que concluímos da leitura
das Poesias Avulsas de 1864, reproduzindo parcialmente as Poesias de 1832, e dos
Cánticos Fúnebres137 138, também de 1864, revivescência um tanto tardia da
“poesia dos túmulos” de princípios do Romantismo.
A mesma preocupação reformadora pode ser reconhecida na intenção
de Magalhães de cultivar a poesia épica e o teatro. Sempre manifestou o
desejo de escrever um poema épico nacional, talvez porque visse na

135 Ittg. cit., pp. 246-256.


AI. ini.ii a Machado, Gonçalves de Magalhães ou o Romântico Arrependido, São Paulo, Saraiva, 1936. I) | < inuçulves dc
Magalhães, “Lede”, em Suspiros Poéticos e Saudades. Edição de Sousa da Silveira, Klo .1. hmeiro,
Ministério da Educação, 1939, pp. 1-6 (a primeira edição desta obra é de Paris, I >wuvlit et Eontuinc, l.ibraires,
1836).
V nula 4, deste capitulo.
136 V. também Roque Spencer Maciel de Barros, O Significado Educativo do Romantismo Brasileiro: Gonçalves de
Magalhães, São 1’aulo, Grijalbo/Edusp, 1973.
137 Cânticos Fúnebres, Rio de Janeiro, Garnier, 1864.
138 Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios (poema), ed. de Sousa da Silveira, Rio de Janeiro, Paula
Brito, 1856 (in foL). A edição comum data do ano seguinte, Rio de Janeiro, Tip. de Paula Brito, 1857.
solenidade dessa forma poética a melhor maneira de exaltação patriótica.
Em pleno domínio do Romantismo, Magalhães tenta reativar essa forma da
tradição clássica, certo que com veleidades de modernização. Ainda
procede com o propósito de cumprir um programa patriótico confirmado
pelo patrocínio que lhe oferece o jovem imperador, Dom Pedro 11,
proporcionando-lhe a edição imperial do seu poema, A Confederação dos
Tamoios, em 1856'4.%Somente assim, portanto, se pode justificar a
apresentação desta obra já em estágio avançado do Romantismo. Apesar de
certas afirmações críticas no prefácio, pressupondo atitudes renovadoras,
Magalhães se apresenta diretamente filiado na tradição épica do Período
Colonial, em que avulta Frei José de Santa Rita Durão e José Basilio da
Gama. Do primeiro, além da sugestão indianista e do sentimento cristão ou
religioso, retomou as intenções patrióticas de realizar uma epo- péia
nacional; do segundo, à parte também a sugestão indianista, observou o
abandono das principais características de estilo e de estrutura externa
impostas pela épica tradicional: a linguagem mitológica (o que aliás a
formação religiosa de Magalhães de qualquer maneira renegaria) e
litava rima, substituída pelo verso decassílabo branco de estrofação li-
Ninguém melhor definiria este poema do que Frei Francisco de ante
Alverne, ao considerá-lo intensamente patriótico, religioso e mo-
izante15. Medíocre, como o conjunto da produção literária de Maga- ícs,
o seu valor reside de fato, e suficientemente, apenas naqueles sen- tentos
e nas intenções reformadoras e estimuladoras. Se o autor não nseguiu
realizar um poema épico nacional, exprimiu, porém, uma in- isa
vibração patriótica ao lado do sentimento antilusista que nos danava e
da preocupação de reconhecer raízes autóctones de tradições e lores
nacionais. Daí a defesa histórica do índio, feita ainda à maneira scritiva
do Período Colonial, para apontá-lo o mais legítimo elemento nossa
formação, em oposição a injustiças e menosprezo que lhe devora o
elemento adventício. Mas a valorização histórica fica muito aquém um
Loreto Couto. Também não conseguiu realizar o que propôs Fer- íand
Denis: explorar poeticamente as sugestões deixadas pelo passado noto e
pelas lutas entre índios e portugueses nos momentos iniciais da nquista
da terra. Talvez a grande projeção do poema no momento, ím de ter sido
lançado em edição imperial, tenha sido a polêmica que ■ motivou a
partir das críticas de José de Alencar, no Diário do Rio de nciro. Contou com
a defesa de Manuel de Araújo Porto Alegre, Dom dro II, Frei Francisco
de Monte Alverne, além de outros, motivando 1 Alencar idéias sobre
poética indianista e romântica em geral16.
Sempre conduzido pelo propósito de propor teoricamente e realizar
quanto possível criativamente a reforma romântica da Literatura Brasi-
ra, a ação de Gonçalves de Magalhães se completa neste sentido com
cocupações em torno do teatro. Pretendeu um teatro de legítima ex-
essão nacional, acatando sugestões temáticas de Ferdinand Denis. mtou
com a colaboração do grande ator da época, João Caetano 17, o 139
primeiro a organizar uma companhia de teatro que pudesse ser conside-
rada brasileira. Antes de Gonçalves de Magalhães, de João Caetano e
Martins Pena, não podemos falar em teatro de tradição brasileira, com-
preendendo-se, nesta expressão, o autor, a obra, o ator ou companhia, o
edifício adequado à representação e o público realmente interessado.
Dentro dos limites da história, não se podia falar igualmente em literatura
dramática brasileira. E certo que houve espetáculos, foram escritas,
traduzidas e representadas peças no Período Colonial. Mas o que poderia
realmente ser teatro nosso, deixou suas raízes perdidas no século XVI, com
o exemplo de Anchieta. E já no século XIX, no momento da reforma de
Magalhães e João Caetano, o que interessava ao nosso público eram os
dramas febricitantes, que viciavam a imaginação e a sensibilidade, segundo
a crítica da época. Escritores, Sousa e Silva, Lemos Magalhães, Antônio José
de Araújo, Pinheiro Guimarães Júnior, Odorico Mendes e mesmo
Gonçalves de Magalhães limitavam-se a traduzir By- ron, Arnaud,
Delavigne, pucis (adaptações de Shakespeare) 140. Mas, de qualquer forma,
Gonçalves de Magalhães - ele mesmo tendo traduzido Arnaud e Ducis, por
exemplo, a adaptação de Otelo ou o Mouro de Veneza - sentiu aquela
necessidade de estimular a criação de peças de assunto e de interesse

139 Monte Alverne, Obras Oratórias, ed. cit., t. II, pp. 461-482.
V |n«< Adrmldo C.astcllo (org.), A Polêmica sobre "A Confederação dos Tamoios", ed. cit.
V I >i*i in di' Almeida Prado, João Caetano - O Ator, o Empresãrio, o Repertório, São Paulo, Perspec- llvn/l dmp, l‘)72.
140 Cf. Múcio da Paixão, O Teatro no Brasil, Rio de Janeiro, Brasília Ed., s. d., p. 158.
nacionais. Seria o ponto de partida para a organização de um teatro que
correspondesse à nossa realidade. Mais uma vez o que vale é a intenção de
Magalhães, pioneiro, pois o teatro que ele escreveu, a ser considerado
nacional, é bastante discutível.
A sua primeira peça, a tragédia Antônio José ou o Poeta e a Inquisição, é de
1838141. A 13 de março foi representada pela primeira vez no teatro da Praça
da Constituição, no Rio de Janeiro, pela Companhia de João Caetano, que
acabava de ser organizada. Foi distorcidamente considerada de assunto
nacional pelo próprio autor. Dividida em cinco atos, escrita em verso, metro
decassílabo, nos moldes clássicos, inspirava-se

I1). Editada no Rio de Janeiro, Tip. de Paula Brito, 1839.


'KDEBACÀO
i
008

M O YOS.
POEMA

ron

)E MAGALHAENS,

i, CQRII.lTA V. AfWCÍCEUTAtoA rKWAUHW.

1804


JANEIRO
A DE B. L.
QARKIEB

l'A HO OUVIDOR R»i».

A Confederação dos Tamoios.

iltimos momentos da vida do comediógrafo, que dá o nome ao títu- n 1739,


depois de submetido a segundo processo pela Inquisição, a queimado vivo
em Lisboa. Naturalmente — e é esta a única expli- i razoável - a peça seria
de assunto nacional apenas pelo fato de An- i José, um autêntico escritor
português, haver nascido no Brasil, tido, é preciso considerar que nos
momentos iniciais do nosso ro- ismo, sob a ação renovadora de Magalhães,
o que prevalecia era a ç.to patriótica, no caso presente levada ao extremo de
incorporar ao i passado um episódio da história e da literatura portuguesas.
Quan- oi ma c ás limitações impostas ao tratamento do assunto, novamen-

t
riilitiiii itii ii iii.ofrmii Miciíum i— c\ cénti n viv c A
BRASILIANAS
POR

M. DE ABAUJO PORTO-ALEGRE.

VIENNA.
IMPKMAL K >1KAL. TtlMlC.ltAl'NIA 1803.

As Brasilianas.

te as vemos em função do já acentuado fundamento neoclássico e espírito


religioso que presidiram a formação de Magalhães. Ao prefaciar aquela
tragédia, ele declarava não seguir nem o “rigor” dos clássicos nem o
“desalinho” dos românticos, mas reconhecia o direito de fazer o que en-
tendia e podia142. Na verdade, manteve-se predominantemente clássico.
Ao mesmo tempo, mostra-se influenciado por Víctor Cousin, a quem cita
ao prefaciar a sua segunda tragédia - Olgiato, representada em 1839,

142 V. Gonçalves de Magalhães, Obras (de), t. Ill, Tragédias (Antonio José, Olgiato e Otelo), Rio de Janeiro, Garnier, 1864.
ambém escrita conforme com a tradição. Fundamenta-a em episódio
história italiana e ainda à semelhança da anterior considerada propícia i
ítica aos abusos da tirania e às reflexões moralistas. E Magalhães en- issa a
opinião daquele pensador francês, reafirmando que o fim da arte > belo
moral, e a sua liberdade reside apenas nos meios de exprimi-lo. ,ií porque
renega o que considera verdadeiros “horrores” do estilo ro- ântico,
caracteres monstruosos, paixões desenfreadas, amores licencio- s. E ainda
que faça concessões ao teatro romântico, que diz conhecer ficientemente,
confessa preferir Alfieri a Corneille2'. Certamente, com lhas as tragédias
Gonçalves de Magalhães ampliou sua intenção de re- rma, abrangendo
criação e vida teatrais.

Restrições a Magalhães; novas posições. Ficou claramente implícito le o


pensamento dele é síntese das idéias, afirmações e atitudes prove- :-ntes de
Ferdinand Denis e de Almeida Garrett, revigoradas pelos con- os diretos
com o romantismo francês e italiano. Também se enraíza no isso passado
literário, tanto do ponto de vista das transformações das fias críticas,
quanto pela intenção de revê-las. Abre caminho igualmen- para a história
literária. Mas ele teve o seu momento, a partir de 1836, ando lidera grupo
renovador, até que se expõe, mais tarde, à contro- rsia c à contgstação. Ela
não tardaria: viria com o reconhecimento da esia de Gonçalves Diàs, desde
os Primeiros Cantos, de 1846, e se inten- icou cofn a crítica de José de Alencar
ao poema A Confederação dos moios. Gonçalves de Magalhães cumprira o seu
papel entre 1836 e 46, embora posteriormente continuemos a sentir a
projeção de suas fias básicas, quer dizer, exatamente aquelas inspiradas por
Ferdinand :nis. H o que também podemos constatar em revistas românticas
de o Paulo. Na Acaiaba, revista que circulou de 1852 a 1853, Manuel itônio
Duarte de Azevedo publicou uma série de artigos - “Literatura tua . cm que
se firmava exatamente na necessidade de estimularmos

Ui III, l i t ,
uma expressão literária nossa. Parodiando o batido conceito de BufFon,
escrevia que a literatura é o povo, concluindo que foi “pela epopéia, pela
filosofia, ou pelo romance” que se distinguiram “no vasto quadro das
nações, aquelas que mais se têm compenetrado das ideias do grande, do
verdadeiro e do belo”. Combate o descaso em que eram tidas nossas ma-
nifestações literárias passadas. Aponta originalidade em Basílio da Gama,
Silva Alvarenga e Gregório de Matos, não obstante admitir que eles não
souberam compreender o espetáculo novo que lhe oferecia a paisagem
americana, deixando-se dominar por “antigas tradições”. F. evidente a re
petição de Ferdinand Denis, de Garrett e de Gonçalves de Magalhães. Mas
ao mesmo tempo aplaude a valorização que então j.i se lazia do indianismo
de Gonçalves Dias, por ele apontado “chefe de escola", 11 ia dor de uma
poesia que sugeria a matéria de nossa epopéia nacional, numa franca
oposição a Gonçalves de Magalhães. Referindo-se ainda a poetas do
passado, Basílio da Gama, Santa Rita Durão e até Frei Francisco de São
Carlos, concliú com uma advertência que já se fazia pensamento geral,
revertida em crítica ao programa de acentuada influência francesa que
culminou exatamente com Gonçalves de Magalhães: “Resta porém que não
sejam os Brasileiros os primeiros a esquecê-los e desprezá- los: convém que
o francesismo não invada até a literatura nacional, e que sejamos ao menos
gratos à memória dos que trabalharam para nós, e se esforçaram para dar
nome ao país e deixar-nos alguma coisa”143.
Entramos assim numa fase imediatamente posterior a das afirmações
quase dogmáticas, reconsiderando-as sob controvérsias e críticas. Aure-
liano Cândido Tavares Bastos escrevia para a Revista Mensal do Ensaio Filosófico
Paulistano, corroborando Antônio Joaquim de Macedo Soares sobre a
valorização literária do nosso passado histórico. Só o louvor ou a exaltação
da natureza, em termos puramente descritivos, não bastava para criar uma
expressão literária brasileira, opinião também de Duarte de

143 V. Textos que Interessam à História do Romantismo - //- Revistas da Epoca Romântica, José Aderaldo Castello (org.), ed.
cit., pp. 183-197.
Azevedo, acima citado. Coube a Macedo Soares formular melhor o pro-
blema ao traçar um paralelo da Literatura Brasileira com a norte-americana,
afrontando mais uma vez o modelo francês. Vale a pena relembrar
textualmente este excelente crítico da época romântica:

Deste esboço comparativo entre as literaturas norte-americana e brasileira


acerca do sentimento da natureza, decorrem conclusões das quais não tirarei senão a
que mais importa agora: há na poesia do Norte mais sobriedade de imagens, mais
sábia economia no emprego delas, de modo que o pouco que há de descritivo, é
asselado da elevação de idéias de que há pouco falei; o contrário é justamente o
defeito capital dos nossos poetas. A causa disto parece-me que se deve buscar na
maneira errada por que tem sido compreendido o nacionalismo na arte. Tem-se feito
deste caráter de toda verdadeira poesia um sistema, quando não devia ser senão uma
condição local, necessária embora, de sua projeção no espaço e no tempo. O próprio
chefe da escola nacional, o Sr. Gonçalves Dias não escapa a esta observação. Há nos
Timbiras demasiada profusão de cores, cruzam-se os ornatos como as laçarias de um
templo gótico, sobre as quais mal podem fixar-se por momentos os olhos do
observador23.

Datadas de 1859, as reflexões de Macedo Soares já exprimiam um grau


de amadurecimento crítico que marca de fato uma etapa nova no
romantismo brasileiro. Principiando pelo esvaziamento da onda nacionalista
de exaltação de nossa paisagem, ele põe em foco Gonçalves Dias,
confrontando-o mais uma vez com Gonçalves de Magalhães em nível de
“chefe” da Literatura Brasileira. Ele insiste no paraleloJ_çq^forme o que
lemos no seu excelente ensaio sobre a poesia de (Gonçalves Dias, de 1861 24.
E também com o que lemos em Duarte de ÀZevedo e ainda na resposta de
Luís Ramos Figueira, em 1864, em proposição claramente formulada sobre
se era “justo o título de chefe da Literatura Brasileira, dado ao Sr. Domingos
José Gonçalves de Magalhães”. Luiz Ramos Figueira, ao admitir que a
Literatura Brasileira era guiada apenas pela “imaginação do brasileiro”,
quando muito reconhece que Gonçalves de Magalhães “chamou os
guerreiros à luta, mas não marchou adiante deles

), t V, l»n til., |i, 84. A Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano durou de 1852 a 1864.
1 l Mili i do Soarc«, "Tipos Literários Contemporáneos - I - Gonçalves Dias”, lug. cit., pp. 97-116.
e não mostrou mais valor no combate”. O articulista ressalva que foi grande
o papel de Magalhães na reforma do nosso teatro, desde a tragédia Antônio
José, com sugestões que foram retomadas por outros. Mas, no que concerne à
poesia, quem se faz modelo a ser seguido é Gonçalves Dias 23. Podemos
reconhecer nesta opinião um equívoco de perspectiva histórica, projetando a
ação de Magalhães para depois dos Suspiros Poéticos e Saudades. Interessa,
porém, a agitação que o articulista documenta, caracterizando aquela fase
do processo de amadurecimento do pensa mento crítico da época romântica
no Brasil. Mas é novamente com Ma cedo Soares que reconhecemos uma
visão crítica e até mesmo histórica equilibrada. Ao discutir o valor e a
popularidade da poesia de ( ionçalvcs Dias, ele se firma numa perspectiva
igualmente válida para Gonçalves d<- Magalhães, cada um desempenhando
o_seu-papdem momentos adequa dos. Escreve o ensaísta, talando de
Gonçalves Dias: )

O segredo dessa popularidade acha completa decifração na nossa história em


sua dupla fase literária e polítiía. Os Primeiros Cantos souberam chegar a propósito. An-
tes, não teriam sido compreendidos; depois, já não seriam novidade que despertasse
a atenção do povo.

O país então já havia consolidado a Independência, já havia cessado a


revolução de 1842 e, à altura de 1848, entrávamos numa fase política de
conciliação. Por outro lado, “os literatos debatiam a grande questão da
nacionalidade, a fórmula poderosa e enérgica do novo espírito da socieda-
de”. Também eram estudados os poetas dos séculos XVII e XVIII, apesar de
excessivamente portuguesa a sua poesia, pouco satisfatória para a solução
do problema, ao que Macedo Soares associa os Primeiros Cantos, arremate da
obra reformadora iniciada por Gonçalves de Magalhães. Admite, pois,
implicitamente, a importância histórica e o valor literário de Magalhães,
reconfirmado ao responder perguntas que situavam este renovador no
debate em torno da obra de Gonçalves Dias, sobre quem interroga: 144

144 V. lug. cit., pp. 171-177.


Grupo formado por Gonçalves Dias,
Manuel de Araújo Porto Alegre,
Gonçalves de Magalhães. Cf. ed.
Aguilar das Poesias Completas de
Gonçalves Dias.

Mas são verdadeiros os seus


dogmas? Pregaram seus
adeptos um evangelho eter-
capaz de resistir aos abalos dos
furacões revolucionários? E os
Primeiros Cantos se- > a
expressão fiel da nova poesia?
Encerram em si elementos de duração? Que alcan- têm para as nossas letras? Que serviços
prestaram à literatura, à língua, à poesia, à ilização, enfim, do país?
f \
\
Sabemos que a poesia de Gonçalves Dias foi entusiasticamente aco-
ída pelo público e pela crítica, exaltando-se a beleza e o significado da a
expressão. Para Macedo Soares - ele valoriza sobretudo a temática - o
icta se apresenta essencialmente lírico, debaixo da inspiração americana
e dos sentimentos religiosos, resumindo-se em três pontos a sua poe-
“Deus, Pátria e Mulher”, firmados nas qualidades artísticas do verso 26.
Certamente, porém, não devia ficar somente aí, no sentimento da
lurc/.a, nos temas tradicionais ou americanistas, sem falar no lirismo
igioso e amoroso, o caráter da poesia brasileira, a ser posta em confron-
com a poesia moderna em geral. Respondendo à pergunta, Macedo 145

145 lii|> til., |i|i. ‘>7-103-116, citações das pp. 98 e 99.


Soares, juntamente com Silva Prado e Salvador de Mendonça, apontariam a
mais a dúvida, a descrença, o desalento do espírito, traços dominantes da
poesia romântica universalmente considerada, entre nós representada por
Alvares de Azevedo, enquanto Gonçalves Dias exemplificava o sentimento
nacional e a temática americana146. E retomavam-se sob alguns aspectos
propostas românticas iniciais, entrevistas em Gonçalves de Magalhães, de
poesia associada à missão moral e social, sob o sentimento de Deus, voltada
para o progresso dos povos. Macedo Soares afirmaria mesmo que para o
Romantismo atingir seus objetivos era preciso “cia mar para a regeneração
das sociedades”, pois lhe faltava algo de essenci.il, aquilo que nasce do
trabalho alimentado pela fé: ordem, progresso, vida e movimento. E isso que
determina a “unidade na variedade”, a beleza, “alguma coisa de divino no
coração do homem”,

segredo da grande poesia, da filosofia do sentimento, da poesia como tém-na compreendido os


homens do Norte, Waldo Emerson, Longfellow, Poe, Nathaniel Hauthorne e toda essa plêiade
de poetas e j-omancistas de que se ufana a sábia literatura dos Estados Unidos,

embora reconheça, desalentadamente, que estávamos bem longe de atingir


esse ideal147.
Talvez a incerteza quanto ao que poderíamos fazer, levasse Macedo
Soares à reação, de maneira a combater o que denominou de “realismo
grosseiro dos talentos gastos”, isto é, a dificuldade da poesia nacional re-
lativamente à expressão da realidade quando uns apresentavam uma “rea-
lidade nua”, outros, deformada e exaltada “à altura do ideal”. Para ele, esta
última atitude parecia a mais conveniente para presidir a interpretação da
natureza “na vitalidade do espírito que a anima”. Volta-se, então, contra o
descritivismo, a superficialidade da nossa criação, tornando a nossa
literatura muito fácil:
nao consta um esforço generoso para a criação de obras duradouras, e no pouco : se faz
revela-se uma inconsistência, uma falta de estudo que força a descrer do so espírito

146 V. lug. cit., pp. 118-122. A proposição foi a seguinte: “Qual o caráter da poesia moderna cm geral, e da poesia
brasileira em especial?” (p. 118).
147 V. lug. cit., pp. 86 e ss.
literário29.

A coerência, o equilíbrio e também a penetração e advertencias con- as


na crítica de Macedo Soares fazem dele a primeira figura de desta- e do
nosso pensamento crítico de avaliação interna. Escrevia pelos anos 1860,
e vimos, a propósito de debates governados pelo espirito nació- lista e
patriótico ainda exaltado, espirito que presidiu a implantação do sso
romantismo e que não cessaria tão cedo. Era realmente urna toma- de
posição corajosa que atribuía ao crítico uma função de vigilancia m das
limitações pessoais e das consagrações fortuitas. Tratava-se de o de
compreensão mais ampla e arejada do sentido e do destino da nos-
literatura, superada a onda de programas e manifestos nacionalizantes 5
primeiras décadas da implantação do Romantismo, então proposto m o
objetivo de reformá-la. E para urna literatura ainda incipiente, reina que
se fazia debaixo da influencia francesa, logo a seguir também inglesa,
com a geração byroniana, mesmo que tenha sido via França30.
Nesta última linha se situam Alvares de Azevedo, Bernardo Guima- :s
e até certo ponto Fagundes Varela31. Se eles também se apresentam
¡pirados pelo patriotismo e nacionalismo sobre o propósito de criação
Literatura Brasileira, não quer dizer que se exprimissem sempre em
munhão com a maioria dos nossos românticos. Em páginas de Alvares
Azevedo também reconhecemos a repercussão das reações que foram
nivadas entre nós por atitudes de escritores portugueses, Antônio liciano
de Castilho e Pinheiro Chagas. Ao contrário de Garrett e Ale- ulre
Herculano, eles se opunham às sugestões favoráveis a nossa auto-

V, lug. ch„ pp. 96 c ss.


( I 1’lri-i de Almeida, A Escola Byroniana no Brasil. São Paulo, Conselho Estadual de Cultura - CuinUtAo dc l iteratura,
1972.
As págioni critica» dos três poetas - Alvares de Azevedo, Fagundes Varela e Bernardo Guimarães - i»lílo reunida»
no volume por nós organizado, Textos que Interessam à História do Romantismo, vol. I, tnl dt.
nomia literária, visando sobretudo ajosé de Alencar’LjNesse jogo, Alvares de
Azevedo - também Adolfo Varnhagen — às vezes assume posições
contrárias aos propósitos acentuadamente nacionalizantes do nosso ro-
mantismo. Ambos se igualam, quando fazem a defesa, clara ou implícita cm
suas páginas críticas, do reconhecimento e persistência do enraizamento da
Literatura Brasileira na tradição portuguesa, sobretudo no que diz respeito
ao problema da língua. Contudo, o que predominou em Alvares de
Azevedo foi a atitude crítica que reflete uma curiosidade de espírito ampla,
universalista e unlversalizante, em que se manifesta a impressionante
fecundidade e curiosidade intelectual do jovem poeta e crítico. Falecido aos
vinte e um anos de idade, foi de uma prematuridade espantosa, desde cedo
saturado de leituras que vinham dos clássicos aos românticos, da Bíblia aos
poetas byronianos, criadores dos seus protótipos e ideais, marcados pelo
destino de sofrimento físico e moral, de angústia, desespero, vício e
degradação. É mesmo difícil saber o que é crítica ou recriação nas páginas
em prosa de Alvares de Azevedo: até que ponto ele emite um juízo de valor,
algo ponderável ou objetivo, ou até quando a sua fantasia mórbida se
converte na única realidade ao seu alcance. Porque de fato a sua vida se
transformou em fantasia eivada de subjetivismo: o poeta, sobrepondo-se ao
homem, fez com que este último passasse para o plano da imaginação e da
conseqiiente imposição a si mesmo de uma antevisão literária do mundo ou
pelo menos do seu mundo próprio. É um caso curioso de aguda
sensibilidade e de inteligência bem dotada, que se deixaram arrebatar, em
mútuas interferências, pela confusão entre criação e criatura, entre
concepções estéticas mais tendências literárias exacerbadas e valores
humanos. Contudo, pressente-se que o crítico-poeta superaria esse estado
meio caótico de seu espírito e deixa- 148

148 Cf. José de Alencar, “Bênção paterna”, prefácio ao seu romance Sonhos d'Ouro e o periódico dirigido pelo
escritor português José Feliciano de Castilho com a colaboração do romancista Franklin Távora, intitulado
Questões do Dia, Observações Políticas e Literárias escritas por vários e coordenadas por Lúcio Quinto Cincinato, Rio
de Janeiro, Imparcial, 1871,2 tomos (reúnem um total de 40 números da publicação, em que José de Alencar e
sua obra foram os alvos principais).
expandir a lucidez equilibrada de sua inteligência, a exemplo das pá- las
de reflexões sobre o estado do teatro brasileiro em sua época, cuja
portância documental e segurança de observação nos conduzem a re-
tões idênticas de Machado de Assis. Quanto ao mais, suas páginas so- ■
tendências, atitudes e criações byronianas documentam exatamente i
estado de espírito pessoal afetado pelas manifestações mais caracte-
icamente extranacionais do nosso romantismo. Mas é por onde pode- >s
penetrar no mundo deste poeta, na verdade irrealizado.
Embora ligados a Alvares de Azevedo pelas tendências byronianas, não
sentimos o mesmo conflito em Fagundes Varela e menos ainda Bernardo
Guimarães, quer em páginas críticas, quer na poesia. Ali-
0 que Fagundes Varela deixou, que possa ser considerado do ponto
vista crítico, é muito pouco significativo. Apresenta antes de mais la
valor de autojustificativa, de esclarecimentos, denotando às vezes lor
patriótico, outras vezes preocupações formais. Quase o mesmo emos de
Bernardo Guimarães, companheiro, com Aureliano Lessa (de rm ele traça
excelente perfil), do byroniano Álvares de Azevedo, quan- estudavam na
Faculdade de Direito de São Paulo. Certamente Berilo Guimarães se
destacaria como narrador ficcional, neste caso por- lor de algumas
reflexões críticas interessantes para a caracterização da ssa narrativa
romântica.

Alencar versus Magalhães - nova poética romântica. A reação às pro- stas de


Gonçalves de Magalhães manifesta-se no Rio de Janeiro e para- imente
em São Paulo. Retornando ao Rio de Janeiro depois de recém- lo da
Faculdade de Direito de São Paulo, e de haver passado por Recife, ■ncar
é o primeiro a discutir o significado nacional da obra de Maga- es, ao
apreciar o poema A Confederação dos Tamoios, em 185633. Provo-
1 uma polêmica que lhe deu oportunidade, como já referimos, de refle-
sobre os fundamentos estéticos do indianismo romântico, sua poética e
149

149 il» Alrikut r outros, A Polemica sobre A Confederação dos Tamoios", cd. cit.

i »M/iili ti ii» <»n <> m ufnnn M A ti n \i A i — i n çtfrmn YIY P A


o problema sempre agitado do nacionalismo literario. Pomos agora em re-
levo apenas o debate em torno de unta poética em transformação, preocu-
pação que foi também, em outro sentido, do grupo de revistas paulistas.
A “Advertência” à reedição de 1864 de A Confederação dos Tamoios (a
primeira edição data de 1856) é mais um passo retardado de Gonçalves de
Magalhães. Ele continuava fiel às primeiras posições, sem querer reconhecer
as transformações subseqiientes. Preocupava-se ainda com problemas já
superados do verso em correlação com a linguagem romântica. E a
explicação que nos dá, persistentemente tardia, não diferia da posição
retrógrada daqueles que, por volta de 1856, haviam reclamado para o poema
dele o uso da oitava rima. Só admitindo recnquadramento histórico anterior
à reforma romântica, podemos levar em conta suas observações de 1864
sobre métrica e outros aspectos do poema épico tradicional, uso da oitava
rima, sua estrutura, ritmo proveniente da rima. Enquanto Basilio da Gama já
havia avançado ao abandonar o uso do maravilhoso pagão e da linguagem
mitológica, Magalhães se insurgiria contra um e outra levado, porém, por
princípios religiosos moralizantes e não por compromisso romântico e
muito menos estético. Na verdade, faz substituições: invoca o sol em vez das
musas; os gênios feiticistas da tradição indígena em lugar das
representações mitológicas; finalmente, transforma valores religiosos em
instrumentos vaticinadores e forças protetoras dos seus heróis.
Todavia, Gonçalves de Magalhães, com a tentativa de poesia épica, não
desmerece a posição conquistada de reformador, se levarmos em conta o
papel dela de proporcionar aproximações e motivar reações. Por exemplo,
exatamente porque era uma deficiência do poema, deu-se destaque na
polêmica, que o envolveu, aos aspectos sonoros e plásticos da palavra, traços
da aventura expressiva e da sensibilidade românticas. Em três passos
significativos da segunda das Cartas sobre “A Confederação dos Tamoios”34, José de
Alencar insiste na tentativa de conceituação da poesia '4. Indicamos aí o título do

volume cm que Alencar reuniu as suas “Cartas”, publicadas no Diário do ^relacionada com o valor da
palavra, considerada exatamente na sua otcncialidade plástica e sonora. O
poeta épico - e mais tarde Raul ampéia também o diria a propósito do
romancista - é considerado au- >r c ator, devendo por isso mesmo
preocupar-se com a propriedade da nguagem adequada aos grandes
sentimentos e pensamentos. Alencar rnbra o exemplo e modelo do segundo
canto do Paraíso Perdido. E centra Gonçalves de Magalhães, que não soube
explorar lances teatrais e Feitos cênicos, nem os correspondentes e
necessários recursos plásticos, cm a sonoridade da palavra 35.
Ao procurar definir melhor a associação entre poesia, música e pin- tra,
um ideal romântico, Alencar é mais explícito na quarta carta. Diva- a sobre a
poesia, lembra a Grécia, Roma antiga, a França com Racine, fictor Hugo e
Lamartine, e insiste finalmente no profundo traço de ir- tandade entre
aquelas três artes: “a forma, o som e a cor são as três mi- rgens que
constituem a perfeita encarnação da idéia; faltando-lhe um esses elementos,
o pensamento está incompleto”, pois ele fala pela tríplice frase da razão, do
coração e dos sentimentos”36. Ainda voltaria a nsistir no assunto ao escrever
a quinta Carta, onde o estudo da lingua- ;em e o emprego da palavra são
considerados arte e ciência, para a expressão fiel do pensamento e o ornato
fascinante da idéia. Para ele, “o erso é a melodia da palavra, como a música
é a melodia do som”37. Mon- e Alverne já havia pensado de maneira
semelhante, embora não fale em nelodia mas em harmonia, conforme
observa ao escrever que “a língua 1c Camões, pronunciada por um
brasileiro, devia realizar todos os pro- lígios, e todas as seduções da
harmonia”38. E essa observação se desdobra

Rio, sob o pseudónimo de Ig, nos meses de julho c agosto de 1856, Rio de Janeiro, Emp. Tip. do Didrio, 1856.
5. V A PoUmica sobre “A Confederação dos Tamoios", ed. cit., p. 11. Conferir o que se segue com a IntrnduçAu que
escrevemos à reunião dos rextos sobre a polêmica indicada.
6. I U(i,. dl,, pp. 11 c ss.
7. I ng, i !i„ p. 32.
M I u i I nindu n de Monte Alverne, op. cit., v. “Discurso Preliminar”, t. I, pp. V-XX.

c melhor se identifica com Alencar, quando o orador sacro, ao tomar partido


na polêmica, embora a favor de Magalhães, comenta:

É incontestável que o poema dos Tamoios contém muitos defeitos de estilo; uma grande
quantidade de versos carece de harmonia e cadência; falta mecanismo no metro; o número e a
colocação das sílabas é muitas vezes mal empregado.
No bom uso destes meios consiste o principal segredo da poesia que, semelhante à
música, possui a gama e o compasso.
Elas vão ao entendimento pela palavra e pelo som; por isso se chama canto as diferentes
frações da epopeia. Na justa distribuição da luz c da sombra está o auano da pintura; sua
linguagem é muda; fala à inteligência pelos olhos.
Na música, assim como na poesia, o elemento primordial repousa ua exata apir ciação
dos sons ou das sílabas, que constituem a cadência e harmonia dos versos. I l.i mister cantá-los;
e o canto supõe as gradações da escala.
Essas condições exigem-se mesmo em prosa. Não é preciso ser contrapuntista para
conhecer o desafinamento e a desarmonia dos tons; nem pintor c arquiteto para julgar da beleza
de um quadro ou da fachada de um edifício. Aqui cabe o epifonema de Montesquieu:
‘Desgraçado do artista se pretende que só os homens da arte conheçam os seus defeitos’39.

São reflexões duradouras, no domínio da estética e da poética, de largo


curso do Romantismo ao Simbolismo. Nesse caso, ainda no Romantismo é
preciso lembrar Junqueira Freire, do prefácio às Inspirações do Claustro, em 1855:

Pelo lado da arte, meus versos, segundo me parece, aspiram a casar-se com a prosa
medida dos antigos.
Sabe-se que os Latinos modulavam os períodos do discurso. Sabe-se que os Italianos, em
seu século clássico, imitaram miudamente àquele, de quem tinham herdado a literatura. Sabe-
se que os primeiros escritores portugueses cadenciavam igualmente suas construções. Sabe-se
que, atingindo a música prosaica a uma perfeição absurda, desterrou-se completamente do
discurso todo o artifício. A versificação triunfou sobre as ruínas da prosa. Bocage deixa de ser
poeta, para ser músico. A prosa tinha expirado.
Começa-se então a procurar um acordo. O módulo dos Latinos, estudado e seguido
pelos Italianos, quase aperfeiçoado pelos Portugueses, tinha algum tanto de justo c de belo. A
prosa recobrou os seus direitos.

.W. Monte Alverne, cm A Polêmica sobre “A Confederação dos Tamoios", ed. cit., pp. 130-131.
ludo isso traz consigo algumas perguntas necessárias:
Até onde irá a melodia da prosa? Será a prosa um dia tão acabada de melodia, de mo, de
harmonia mesmo, que venha a ser inútil a música da forma poética? Chega- um dia a literatura
a um tal grau, que distinga a prosa e a poesia tão somente pelo anee dos pensamentos? Nascerá
um dia destas duas expressões mais ou menos belas ia forma intermediária, que espose tanto
da singeleza da prosa, quanto do artifício versificação? Será o futuro o mesmo que o passado, -
e a prosa, em um círculo nstantemente vicioso, voltará para a poesia e a poesia de novo para a
prosa? O lêmaco de Fénelon, os Mártires de Chateaubriand, os Dramas modernos, os Roman- ¡
mesmo de agora, que são por ventura, arremedos de epopéias, não se levantam, mo brados
majestosos, contra esta última hipótese?
[...]
Presentemente, - cuido eu, — nenhuma resposta pode dar-se a estas questões, tão uma
dúvida. Pois bem: - meus versos representam esta hesitação, segundo pen- Procuram, a pesar
meu, a naturalidade da prosa, se receiam desprezar completarme a cadência bocageana40.

E já em pleno triunfo do Simbolismo, qualquer que seja a classifi- ção que


se dê a Raul Pompéia, estas reflexões repercutem tanto nas inções sem Metro
quanto no pensamento de um dos figurantes de O 'eneü". E nos aproximamos
de Mário de Andrade.

UM CRÍTICO DE SÍNTESE E TRANSIÇÃO: MACHADO DE ASSIS

No quadro que delineamos, é esta a posição de Machado de Assis, ítico:


síntese e transição. Sua atividade estende-se de 1858, com o en- io “O
Passado, o Presente e o Futuro da Literatura”, até 1879, com a iblicação de
outro sobre “Nova Geração”42. Evidentemente as datas são

lunqticira Freire, Obras Poéticas, 4. ed. org. por J. M. Pereira da Silva, Rio de Janeiro, Garnier, s. d., 2 tomo», t. I, pp.
4-6.
V K.ml Pompéia, O Ateneu (Crónicas de Saudades), 6. ed. definitiva, Rio de Janeiro, Francisco Alves, s. d, (
Jiamamos a atenção para as reflexões sobre a arte feitas através do personagem Dr. t láudío, em forma de
conferência, pp. 134-144.
Mac liado de Assis, Critica (coleção feita por Mário de Alencar), Rio de Janeiro, Garnier (1910?) e i 'itili a II lenirla, Rio
de Janeiro, Jackson, 1938; Crítica Teatral, ibidem, 1938; e Critica, em Obra i innfilrln, s ol, 3, Poesia, Crónica, Crítica,
Miscelânea e Epistolàrio, Rio de Janeiro, Aguilar, 1959, pp 'ISO, (atamos a» edições Jackson.
apenas pontos de referencia para melhor situá-lo no momento histórico da
sua atuação de crítico, considerada regular e intensa. Correspondem dentro
da nossa perspectiva literária ao apogeu, já pelos anos 70, e declínio do
romantismo de época, quando sofre o impacto de teorias renovadoras: com
o surgimento da “Escola do Recife” e o advento do Rea- lismo/Naturalismo,
da poesia científica e da parnasiana, conforme páginas críticas do próprio
Machado de Assis: “O Primo Basilio, por Eça de Queirós”, de 1878 e do ano
seguinte “Nova Geração”150. E aquela década

150 Idem, Crítica Literaria, ed. cit., pp. 160-186 e 187-255.


csponde também à maturidade do escritor, com a passagem da sua ncira
fase de formação, sob os influxos do Romantismo, para a segun- ein que,
livre de compromissos limitadores, ele conquista uma forma cadamente
singular, de expressão original adequada à sua criação ional analítica e
reflexiva. Neste sentido, diga-se de passagem, o exer- ) da crítica lhe foi
fundamental44.
Nos antecedentes nacionais da crítica machadiana, assinalamos dois •is de
cogitações. O primeiro foi sobre poética, com relevo dado aos ;ctos formais,
mas sempre equacionados com o conteúdo ou com o amento temático, o
qual, em última análise visava ao problema da sa identidade. Relaciona-se,
pois, com debate histórico, que constitui gundo núcleo de cogitações sobre a
caracterização e o destino^pató^ 5, presente e futuro - da nossa literatura45.
Veremos a seguir José de :icar, o promotor da revisão desse processo
complexo, transformando projeto nacionalista o nosso romantismo interno46.
Concomitante- ite, Machado de Assis assumia aqueles dois níveis de
cogitações com ituado grau de coerência e maturidade, universalizante,
embora sem ibjetivos da dimensão e sistematização do projeto nacionalista
de Alen- Pois a atuação de Machado de Assis, crítico, foi de militante, sob
ân- ) de visão de quem observa, assimila e reflete. A sistematização de suas
as revela a busca da teoria, relacionada com as posições indicadas.
Tornou-se clássico o seu ensaio “Literatura brasileira - Instinto de
ionalidade”, de 1873, ao qual acrescentamos “Idéias sobre o Teatro”, n de
opiniões que se colhem dispersas em outras páginas críticas47, onhece-se
no todo a filiação ao pensamento crítico que orientou e ins- >u o nosso
romantismo, no sentido da reforma nacionalista da Litera- i Brasileira.
Machado de Assis o revigora ao sugerir que “poesia, ro-

\ narlal iva ficcional de Machado de Assis é analisada no Capítulo XIII.


I cipítuloi VII e VIII.
I • ipliulo A Produção Literária do Romantismo de Época, sliii li.uln ile ASM», Critica Literária, cd. cit.. pp. 129-136 e
Critica Teatral, Rio de Janeiro, Jackson, 191 ', pp IS 20.

mance, todas as formas literárias do pensamento” buscassem “vestir-se com


as cores do país”. Em outras palavras, ele constatava transformações e
resultados positivos das sugestões reformadoras e orientadoras anteriores,
ao mesmo tempo que implicitamente as reformulava. Assim, apontava a
nossa inspiração na “vida brasileira” e na “natureza americana”, obra do
momento e para o tempo, conforme escreveu. Mas nos advertia sobre a
precipitação em aplaudir, sem a necessária meditação, autores do passado já
reconhecidos antecipadores deste tipo de inspiração, seja José Basílio da
Gama ou Frei José de Santa Rita Durão. Sabemos que eles já haviam sido
destacados por Garrett e Ferdinand Denis, e tiveram repercussão nos pri-
meiros momentos do nosso romantismo. Mas Machado de Assis faria res-
trições ao Arcadismo em Portugal e no Brasil e observaria que a indepen-
dência política era condição para a existência da independência literária. E
acrescentava, mais uma vez se aproximando nomeadamente de Almeida
Garrett, que Basílio da Gama e Santa Rita Durão “quiseram antes ostentar
certa cor local do que tqrnar independente a Literatura Brasileira”151.
De lado a controvérsia, ele perguntava se o “instinto de nacionali-
dade”, sobre qual se pronunciava, refletiria “todas as condições e motivos
históricos de uma nacionalidade literária”. Respondia apontando a poesia
de Gonçalves Dias, voltada “para a história e os costumes indígenas”. Mas
reconhecisAjue no caso houve reações, e ele mesmo observava que “erro
seria” constituí-la “um exclusivo património da Literatura Brasileira; erro
igual fora certamente a sua absoluta exclusão”, embora ao mesmo tempo
admitisse “opinião triunfante” - e outra vez nos remete a reflexões dos seus
antecessores, com Ferdinand Denis à frente - de que: “A piedade, a
minguarem outros argumentos de maior valia, devera ao menos inclinar a
imaginação dos poetas para os povos que primeiro beberam os ares destas
regiões, consorciando na literatura os que a fatalidade da história
divorciou”.
Ainda lembrando seus antecessores, reconheceu a inspiração nos cos- res
civilizados do passado histórico e do presente, e na natureza amena, com
sua “magnificência e esplendor”. Mas fez restrições ao debate re o problema

151 Estas e outras citações tomadas ao ensaio “Instinto de Nacionalidade” foram tiradas da ed. cit., na nota 1.
da “cor local”. Condenou a posição extremada de quem reconhece espírito
nacional nas obras que tratam de assunto local, itrina que, a ser exata,
limitaria muito os cabedais da nossa literatura”, lepois de indicar nomes
nacionais e estrangeiros autores de obras de intos universais ou estranhos às
origens de cada um, observava que o • faz um escritor ser nacional é aquele
“sentimento íntimo, que o torne nem do seu tempo e do seu país, ainda
quando trate de assuntos remo- no tempo e no espaço”, opinião já citada,
mas novamente lembrada, a melhor avaliarmos a dimensão dada por
Machado de Assis a um pro- nra de tão larga fortuna na Literatura
Brasileira, amplamente debatido os modernistas, envolvendo
regionalismo/universalismo.
Machado de Assis também se pronunciou sobre o compromisso da : com
a sociedade, observando que à primeira “cumpre assinalar como i relevo na
história as aspirações éticas do povo - e aperfeiçoá-las e íduzi-las, para um
resultado de grandioso futuro”49. E ao apreciar o tro brasileiro da época, ele
se exprimia de maneira a complementar a lexão anterior:

Pelo lado da arte o teatro deixa de ser uma reprodução da vida social na esfera da
localidade. A crítica revolverá debalde o escalpelo nesse ventre sem entranhas próis, pode ir
procurar o estudo do povo em outra face; no teatro não encontrará o lho nacional; mas uma
galeria bastarda, um grupo furta-cor, uma associação de ionalidades50.

Contudo, contornando possíveis contradições, esclarecia que não se /c


entender de maneira absoluta o compromisso da obra com a socie- Ic cm que
se situe. E também - acrescentava - “quer a lei dramática t o poeta aplique o
valioso dom da observação a uma ordem de idéias

M i, lindo ili A*»í», Critica Teatral ed. cit., pp. 19-20. hinii, lii(t dt,, p.
17.

mais elevadas”, isto é, aos elementos que guardam a vida, mesmo através
das mudanças do tempo”’1, certamente harmonizada com aquele “senti-
mento íntimo” de cada povo, mas em nível menos comprometido do que o
da “cor local”.
Coerente com suas reflexões sobre o “instinto de nacionalidade” na
nossa literatura, Machado de Assis definiu-se também reconhecedor e
defensor da tradição, mas da tradição equacionada com a transformação.
Defendia, pois, a renovação das teorias sobre formas literárias sob a con-
vicção de que de um movimento literário extinto “alguma coisa entra e fica
no pecúlio do espírito humano” 152 153. Portanto, não se deve “continuar
literalmente o passado”, uma vez que o ideal deve ser o “acordo do mo-
derno com o antigo”154, respeitando-se assim a tradição:

[...] Que a evolução natural das coisas modifique as feições, a parte externa, ninguém
jamais o negará; mas há alguma coisa que liga, através dos séculos, Homero e l.ord Byron,
alguma coisa inalterável, universal e comum, que fala a todos os homens e a todos os tempos.
Ninguém q desconhece, de certo, entre as novas vocações; o esforço empregado em achar e
aperfeiçoar a forma não prejudica, nem poderia alterar a parte substancial da poesia - ou esta
não seria o que é e deve ser155.

Por esses caminhos Machado de Assis conquistaria seu próprio


equilíbrio de escritor coerente com os estilos literários do momento e
anteriores, do Romantismo ao Realismo/Naturalismo e Parnasianismo, com
retorno à experiência clássica. Distinguiu em todos eles o transitório da
conquista efetiva, que possibilita o enriquecimento de legado sobre legados.
E também o reconhecimento nesse processo dos “eleitos da glória” erigidos
em modelos.
Por outro lado, no exercício da crítica normativa, quer dizer, corretiva,
interpretativa ou reflexiva, deu igual importância aos componentes
lis c de conteúdo da obra literária. Nosso primeiro critico segura- :
apoiado em teoria e poética esboçou um código definidor de qua- •s
intelectuais e éticas necessários ao seu exercício. Ele propunha ao )
consciente do seu ofício, conhecimento das poéticas, fundamen-
estética, respeito à tradição e à língua, objetividade e imparcialida-
lerância e compreensão, urbanidade e respeito, qualquer que fosse i,

152 Idern, lug. cit., p. 231.


153 ídem, Crítica Literária, cd. cit., pp. 187-188.
154 ídem, lug. cit., p. 110.
155 ídem, lug. cit., p. 329.
filiação, ou autor55. Sem dúvida ele mesmo, cujo pensamento e ação,
sob o gosto e a reflexão alimentados pelos grandes modelos ios
estrangeiros e em língua portuguesa, de diferentes momentos, -se
teoricamente ao século XVIII. Passou pelo crivo das liberdades lis e da
renovação temática introduzidas pelo Romantismo, sempre isca
daquele equilíbrio que lhe proporcionava a aceitação do gosto o
através da herança persistente. Esse procedimento se reflete na do
momento: militando regularmente do Romantismo ao Realis-
Parnasianismo, Machado de Assis testemunhou - e ainda voltare- 10
assunto — a transição entre novos estilos e reconheceu oposições a
geração que se impunha em renovação e a que passava.

U n liado <I, Assis, “O Ideal do Crítico”, em Crítica Literária, ed. cit., pp. 12-19. Da nossa parali mais tini*
outros lugares tentamos analisar o pensamento crítico de Machado de Assis: Matto tir Aliti ■ Critica, Rio de
Janeiro, Agir, 1959; e o capítulo “A Veracidade do Escritor”, em •liti,i,le r lini,tu em Machado de Assis, São
Paulo, Cia. Ed. Nacional/Edusp, 1969.
CAPITULO IX

PRODUÇÃO LITERÁRIA DO ROMANTISMO DE ÉPOCA - 1Q


POESIA E PROSA

Podemos antecipar que o legado do romantismo literário brasileiro foi


bastante fecundo, dos mais relevantes, de excelente nível em alguns casos. A
poesia, produto imediato dos pronunciamentos crítico-teóricos, apresentou
inicialmente mais destaque do que a prosa,-desencadeando a reforma da
literatura brasileira. Liderada por Gonçalves de Magalhães, com a colaboração
de Manuel de Araújo Porto Alegre e outros, aproximou desde logo as ligações
intelectuais do Brasil com a França, cujo romantismo absorveríamos. Vimos,
também, que a Gonçalves de Magalhães devemos a implantação do teatro
entre nós, parte daquela reforma, com autores, peças e atores brasileiros 156; o
princípio da investi-

156 V. Múcio da Paixão, op. cif, J. Galante de Sousa, O Teatro no Brasil\ Rio de Janeiro, Instituto Nacio-
.lo de nossa história literária, cujo ponto de partida foi Ferdinand li is; e até
o projeto de uma “epopeia nacional”, tardiamente elabora- caso
semelhante ao de Porto Alegre, por sua vez voltado para o pai-
americano.
Mal termina a repercussão do programa reformador de Magalhães,
espaço que se estende da Niterói — Revista Brasiliense e Suspiros Poéti- e Saudades
às revistas da década de 1840 — Minerva Brasiliense e Gua- uira, começam a
aparecer os nossos grandes poetas românticos./Eles pliam as propostas,
iniciais, formais e temáticas, dando caráter e dis- ;ão à poesia romântica
brasileira|Sobretudo, atingem nossa sensibili- le com o lirismo amoroso,
o indianismo épico e lírico, o sentimento natureza e o patriotismo, a
religiosidade, associados às preocupações iais sob os ideais do homem
livre, cuja expresSãoé acómpanhada pela oridade e colorido da palavra)j
Assim, Çonçalves Dias, Casimiro de •eu, Fagundes Varela, Álvares de
Azevedo, Junqueira Freire, Castro cs e mesmo Tobías Barreto, e poetas
menores em que surpreendemos >lclórico e o popular - e também nos
principais além do freqiiente t de intimidade quase doméstico ou familiar.
j
Quanto ao teatro - aqui referido apenas em virtude de ter sido envido
pelas discussões da reforma romântica ojiestaque que lhe da- s provém,
no caso, da proposta teórica de Magalhães, permanecen- o mais nos
limites da história. Mesmo que apenas para lembrar, mos João Caetano,
ator e também teórico da dramaturgia2, Martins ra, e com este outros
dramaturgos ou comediógrafos do momento, í de Alencar, Joaquim
Manuel de Macedo. Mas a implantação do ero entre nós, à parte as
manifestações do Período Colonial, seria de cedo marcada por crise
discutida e denunciada por um Álvares de

.il do l.ivro, 1000. 2 tomos (t. I - Evolução do Teatro no Brasil, t. II — Subsídios para uma Biblio- laliii do lí atro
no Brasil); Sábato Magaldi, Panorama do Teatro Brasileiro, São Paulo, Difusão Eu- <|M'M do Livro, 1%2.
I *i i lo di Almeida Prado, op. cit., c do mesmo autor João Caetano e a Arte de Representar, São atilo I mlIIII
o|i,ialado, aguardando publicação).

Azevedo ou pelo nosso melhor crítico, também de teatro, de meados do


século, Machado de Assis157.
A narrativa ficcional, do romance ao conto, definiu-se gênero forte da
literatura brasileira. Suas origens entre nós podem ser consideradas a partir
da segunda metade do século XVIII, porém preferencialmente do terço inicial
do século XIX, de quando datam traduções, adaptações e nossas primeiras
realizações românticas158. Educa-se então o gosto do leitor para a aceitação do
gênero. Um pouco mais tarde, registra-se o grande sucesso de A Moreninha
(1844), de Joaquim Manuel de Macedo, aclamada justamente a primeira
realização romântica de acentuado conteúdo e preocupações brasileiros159.
Manuel Antônio de Almeida passava des- percebido, enquanto ganham fama
desde o começo José de Alencar(\ Visconde deTaunay, Bernardo Guimarães,
FranklinTávõrarsem-esqué- cer que o Machado de Assis da primeira fase de
sua carreira literária se inclui perfeitamente neste grupo de românticos. E é
preciso salientar sempre o papel que as revistas e notadamente os jornais, com
seus “folhetins”, diários ou semanais, desempenharam na divulgação do novo
gênero na Corte ou nas províncias, além de através deles surgir a nossa
crónica com foros literários.

1. A POESIA

Qualquer que seja o valor e os compromissos neoclássicos da poesia de


Gonçalves de Magalhães, ela se reveste de duplo objetivo: divulgar o
romantismo europeu entre nós e propor uma temática americanista, com
fundamento indianista. Seu livro de estreia, Poesias, de 1832, ele incoe-

157 V. Alvares de Azevedo, “Carta sobre a atualidade do teatro entre nós”, em Obras de (...) precedidas de juízo
crítico de escritores nacionais e estrangeiros e de uma notícia sobre o autor e suas obras por J. Norberto de S.
S., 7. ed., Rio de Janeiro (Paris), Garnier, 1900, 3 tomos, t. III, pp. 237-241; e Machado de Assis, “Ideias sobre
o teatro", cm Crítica Teatral, op. cit., 1938, pp. 7-24.
158 Como resultado de pesquisas, revendo o que já se fez e sugerindo novas pistas, já tratamos desse problema
das origens do romance no Brasil em artigos depois reunidos em volume sob o título Aspectos do Romance
Brasileiro, Rio de Janeiro, MEC - Serviço de Documentação (1961).
159 É o seguinte o depoimento de José de Alencar em Como epor que Sou Romancista, Rio de Janeiro, \ Leuzinger,
1893, pp. 27-28; “Que estranho sentir não despertava em meu coração adolescente a notícia dessas homenagens
de admiração e respeito tributadas ao jovem autor da Moreninbd. Qual régio diadema valia essa auréola de
entusiasmo a cingir o nome de um escritor?”
rentemente renegaria. Seguem-se os Suspiros Poéticos e Saudades, de 1836,
consagrado através da história literária inaugurador da poesia romântica
no Brasil; de 1839, a tragédia Antônio José ou o Poeta e a Inquisição-, A Confederação
dos Tamoios, de 1856, Urânio, de 1862, e Cânticos Fúnebres, de 18646.
O primeiro livro — Poesia - é um composto de formas clássicas ou
neoclássicas: ode sáfica e pindárica, cantata, égloga, nênia, elegia, epicé-
dio, soneto, “lira”, epístola, sátira, epigrama, apólogo, cujo conteúdo pré-
romântico sob muitos aspectos condiz com o momento histórico brasileiro
e traduz o fundamento da formação do escritor, inclusive a religiosa.
Caminha da idéia de pátria à de liberdade e justiça; da exaltação das vir-
tudes morais ao compromisso com a religião católica; da natureza ainda
bucólica ao amor personificado nas Marílias de Dirceu; da poesia do culto
da amizade exagerada pelos louvores a uma poesia melancólica eivada de
reflexões sobre o homem, a morte, a miséria moral. Quatro anos depois, o
poeta proclamaria a liberdade formal, adotando nos Suspiros Poéticos e
Saudades a variedade de metros e os agrupamentos estróficos livres, embora
mantenha o gosto das composições longas e de conteúdo prolixo.
Destacam-se os temas novos: ruínas históricas da Europa; a evocação
saudosismo? - da pátria distante; a finalidade da poesia e o papel do poeta,
expressão de um espírito divino, escolhido por Deus; a natureza já
associada a Deus; persistem a lamentação que não convence, a temática da
infância, da mocidade e da velhice. Além dos motivos de Urânia- imitação
tardia e intelectualizada do já então famoso Marília de Dirceu - e tios Cânticos
Fúnebres, retomada igualmente tardia da “poesia dos túmulos”, dos albores
do Romantismo. É certo que reflexões ou lamen- i ações envolvendo
sentimentos pela perda de entes queridos, entre nós provenientes de
Domingos Borges de Barros e Firmino Rodrigues da Sil-

íi V tillillugrafiu de Magalhães no Apêndice - “Roteiro bibliográfico" no final deste trabalho.


va, ainda encontraríamos no nosso romantismo com Fagundes Varela, e mesmo
posteriormente160. Certamente evolui livre dos compromissos daquele
romantismo inicial que acentuava as divagações sobre a morte, o destino do
homem e a consolação em Deus, o que não deixava de ser uma revivescência
barroca.
Situamos também sob a mesma perspectiva de recuo o poema épico A
Confederação dos Tamoios. De 1856, ainda relacionado com a reforma romântica e
apesar da justificativa da reedição de 1864, esta obra, contudo, constitui
historicamente um anacronismo no estágio já avançado do nosso romantismo.
Expunha-se inevitavelmente^o confronto com o modelo novo da poesia
indianista de Gonçalves Dias, cujos Primeiros Cantos datam de 1846. E se o
confrontarmos com modelos do Período Colonial, ele deve ser visto como
reflexo da ideologia patriótica e antilusista posterior à Independência. E sem
dúvida, da feitura ao assunto, Gonçalves de Magalhãesjçonsidera sua obra um
“poema épico”, cujos argumentos e ação evocam a confederação dos índios
tamoios em reação contra os portugueses, em São Vicente. O cenário das
primeiras lutas é pois o litoral paulista, deslocado depois do rompimento do
acordo de paz para o Rio de Janeiro, onde os índios se aliam aos invasores
franceses de 1555 e são definitivamente derrotados. O poema apresenta-se
marcado por recursos da épica tradicional, apesar da tentativa malograda do
autor de superá- los: o maravilhoso pagão é substituído pelo maravilhoso
cristão e a previsão de acontecimentos futuros da nossa história do século XVI à
maioridade de Dom Pedro II é atribuída ao velho pajé. A ação presente, que dá
título à obra, ressalta a defesa organizada da “vida e liberdade” dos índios,
conforme o que lemos no segundo canto. O poeta pretende refletir sua simpatia
pelo indígena, cujas ocupações, costumes, espírito guerreiro, amor da liberdade,
docilidade, amor da música e da dança, inclinação à observância dos princípios
cristãos e religiosos são apontados pelo decorrer da obra. Remete-nos aos épicos

160 Fazemos alusão ao poema Os Túmulos (1825), 4. ed., Rio de Janeiro, Academia Brasileira, 1945; c à “Nènia a F. B.
Ribeiro” (Francisco Bernardino Ribeiro, ligado à Sociedade Filomática, Faculdade de Direito de São Paulo, datada
de 1837), em J. M. Pereira da Silva, Parnaso Brasileiro ou Selelção de Poesias dos Melhores Poetas Brasileiros, (...) por (...), Rio
de Janeiro, Lacmmert, 1848, 2 tomos, t. II, pp. 193-199, de Fagundes Varela, “Cântico do Calvário” e de Vicente de
Carvalho, “O Pequenino Morto”.
do Período Colonial, ressalvado o antilusismo, pós-independência, de
reavaliação do nosso passado em busca de raízes americanistas e não obstante
os louvores ao imperador.
Além de mal realizado^ o objetivo inovador atribuído ao poema fica
apenas na intenção de Magalhãé). São visíveis suas dívidas à tradição clássica:
ao substituir a oitava rima pelo verso decassílabo branco (raramente rimado) ele
retomava um procedimento da poesia neoclássica; não superou o esquema
básico do modelo camoniano (cinco partes, dez cantos); impregnou o poema do
culto à autoridade constituída, além daquele malogro da substituição do
maravilhoso e do vaticinador.
Não esqueçamos também a presença dominante do índio numa obra, cujo
autor ainda a aponta, em 1856, como exemplo de poema épico nacional. Ora, a
temática indianista romântica vinha sendo cultivada havia mais de dez anos.
Essência da poesia então dita “americana”, revertia-se às nossas raízes
autóctones diferenciadoras no processo de caractè- rização da nacionalidade.
Gonçalves Dias já era considerado novo modelo, pela linguagem, ritmò^em
suma, pelo cultivo adequado daquela temática. Em virtude desses antecedentes
e das impropriedades formais e de anacronismo, José de Alencar analisou o
poema de Magalhães, contestando não a intenção patriótica, mas a sua
realização. Advertia que “uma nova escola de poesia nacional”, de inspiração
indianista, já era mérito incontestável de Gonçalves Dias, conforme o que
escreve em uma das “Cartas” de critica ao poema.
Ao estrear em 1846, com os Primeiros Cantos8, entre outras preferências
românticas Gonçalves Dias apresentava composições indianistas que foram logo
reconhecidas exemplo de verdadeira “poesia americana”. Nao era só a
inspiração no índio isoladamente: também na paisagem e

M V lillilliigrafla no Apéndice 2. cit. (cf. nota 6).

CANTOS.
COLLECQÁO DE EÜEZ1AS
m;

A. GONÇALVES DIAS.

„ LEIPZIG:
F. A. B It O C K II A U S.

1857.
Página de rosto dos Cantos,
cuja 2a. edição é considerada
a melhor.

na evocação de legendas, em que o autóctone ressurgia em primeiro plano.


Pretendeu de início um poema de longo fôlego, que viria a ser Os Timbiros.
Mas realizou-se melhor em outras formas diversas, harmonizando lirismo e
criação épica sobre componentes da saga indígena: “O Canto do
Guerreiro”, “Deprecação”, “O Canto do Piaga”, “Tabira — Poesia
Americana”, “Canto do índio”, “Marabá” e “Y-Juca-Pirama”. Em todos,
soube fundir ação com sentimentalidade romântica. Narrativo a mais ou a
menos em um ou outro caso, o que prevalece é a síntese poética, a
apreensão simbólica de situações, conflitos e reações sob a fatalidade
histórica, que gerou o confronto de valores antagónicos. Acentuou
traços característicos do indígena, naturalmente sob aquele ângulo de visão
romântico, de maneira sugestiva, à medida que representa, para nós, a
incorporação dos traços legendários e míticos das nossas raízes. Preferiu
surpreender componentes da saga indígena no momento final, embora ainda
épico, da raça, quando ela já se debatia, enfraquecida sob a pressão do invasor e
dominador, também diluidor da pureza do sangue indígena. Mas não
glorificaria a síntese étnica, o surgimento do brasileiro. Se o processo de
miscigenação fica entrevisto, o poeta acentua porém a reação por parte do índio
e dramatiza o destino da mestiça, a marabá lamentosa, repudiada em sua tribo.
O espírito guerreiro associado ao sentimento da liberdade; elementos da
cosmogonia e dos valores indígenas; fidelidade e certa resignação; sobretudo o
orgulho da dignidade do guerreiro que se põe acima da sentimentalidade: tudo
isso atinge de fato em Gonçalves Dias a expressão a mais elevada desse nosso
tipo de poesia romântica. Imitada por outros poetas, ela se torna medíocre.
Ainda mais: com Gonçalves Dias, o indianismo só deve ser avaliado
sob^r^streita.dependência da ideologia que refletia. Neste caso, ao surgir, José
de Alencar se coloca em posição paralela, mas sem ser imitador nem seguidor
de Gonçalves Dias) e sim portador de uma visão própria. Amplia a do poeta
com os recursos da prosa - prosa poética — propícia à abrangência do complexo
universo indígena, dando à saga americanista grandeza épica e mítica, para
configurar as origens americanistas do brasileiro.
Gonçalves Dias, além da inspiração indianista, também é síntese,
abrangendo os demais aspectos formais e de conteúdo da poesia romântica
brasileira. Foi realmente o primeiro dos nossos poetas a se proclamar romântico
em intimidade sóbria com a nova sensibilidade e imaginativa, tanto do ponto de
vista formal quanto da subordinação temática ao subjetivismo harmonizado
com o sentimento de Deus através da natureza. O que ele afirma no “Prólogo”
de 1846 aos Primeiros Cantos confirma na poesia de então e na posterior sua
grande intimidade com a tradição po- étii .1 cm I íilgua Portuguesa, não no
sentido de repetir modelos clássicos, ui.r. di contribuir poderosamente para sua
transformação equilibrada:
Muitas delas (poesias) não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de
mera convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me
pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.

Pode-se dizer quedenabraafiçmações idênticas provenientes dos pré-


românticos a Gonçalves de Magalhães, já vistos. Mas pesa a seu favor, em
confronto com os outros, a indiscutível contribuição pessoal de uma obra
formalmente bem realizada. O mesmo podemos dizer de observa ções sobre a
origem de sua inspiração poética:

(...] Casar assim o pensamento com o sentimento — o coração com o i ntendi mento - a
ideia com a paixão - cobrir tudo isto com a imaginação, luiulii ilido isio com a vida e com a
natureza, purificar tudo com o sentimento da religião <• da divin dade, eis a Poesia - a Poesia
grande e santa - a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a
poder traduzir.

Definidamente romântico, ele se coloca ao nível da maior sobrieda de. Foi


favorecido, ma^s do que qualquer outro, pelo domínio da língua e da técnica,
com o equilíbrio que soube estabelecer no jogo de emoções e idéias
disciplinadoras. Todos os temas românticos passaram por ele: o indianismo, o
sentimento da natureza associada à idéia ou à presença de Deus; impulsos de
solidão e contemplação; saudosismo pátrio; sentimento e ideal amoroso,
despojado de sensualidade, em certo caso impregnado de incompreensão e de
inquietação, autobiográfico.
À sua contribuição romântica, feito exceção ao indianismo, juntamos as de
Casimiro de Abreu, Alvares de Azevedo, Fagundes Varela, Junqueira Freire,
Castro Alves e Tobias Barreto161 162. Cada um, naturalmente, com os seus toques
pessoais: das evocações juvenis e saudosistas à fé ingénua e à dicotomia
amorosa, amor e medo, impulso e timidez, em Casimiro de Abreu; conflito,
imaginação e realismo mórbido, insatisfação e

Dia),

161 ¿jonçalves Dia), Cantos. Coleção de Poesias de (...), 2. ed., Leipzig, F. A. Brockhaus, 1857, pp. XIX

162 V. bibliografia desses poetas no Apêndice cit-, cf. nota 6.


Retrato de Fagundes Varela, cf.
revista Kosmos, ano 3, fev. 1906, n.

DETfi vmim 2.

I Ü U.5.C K I 1 o.'S

ietação repassadas de um misto de tristeza e desencanto até a exacer- o sob o


modelo byroniano, com Álvares de Azevedo, marcando uma ;ao"; a
tranquilidade religiosa e panteista, que atingiria a mais alta :ssão do nosso
romantismo, e também a simplicidade e suave ternu- •s motivos campesinos
em Fagundes Varela; o conflito religioso, cri- monge, logo mais egresso, do
impressionante impacto emocional à

l'ilr* de Altnoiil.i.
A ¡inula Byroniana no Brasil, cd. cit.; e Maria Alice de Oliveira Faria, Asiane e ! '/mal I hn Confronto
enne Alvares de Azevedo e Alfredo de Musset, Sao Paulo, Conselho Esta- iil dr < idilli,i, ( lonmsSo de Literatura, 1973.
Retrato de Castro Alves, em C.
A. Urna Página da Escola Realista,
Rio de Janeiro, ABL, 1943.

denúncia, em
Junqueira Freirejlp
ardor sensual, poesia
amorosa inspirada
ñas aventuras do
poeta e por isso
mesmo conduzida
por intenso realismo
erótico, ou a vibração
social e humana a
serviço da liberdade
e da dignidade da
condição humana,
com a denuncia
dramática da escravidão negra, em Castro Alvesi* também poesia social com
Tobías Barreto. Eles expressaram a essência da temática romântica, ressalvado
aquele individualismo que distingue a posição singular de cada um, Variam
entre maior ou menor espontaneidade e, à exceção de (Gonçalves Dias e Fagun-
des Varela, inquietações e ânsia de afirmações devem ser enquadradas nos seus
limites de adolescentes românticos. O importante é que ampliaram
¡varam a nossa sensibilidade que despontava. E com um grande
■ de comunicação: pela leitura direta; pela declamação pública ou a sso
familiar; pela transmissão oral a ponto de se fazerem anôni- n ui tas de
suas composições, até mesmo versos destacados; pelo canela música12.
Talvez esteja aí uma das maiores contribuições de nos- •sia romântica,
resposta solicitada pelo sentimento de nacionalidade
proclamado e debatido. Propunha-se, ao mesmo tempo, o apuro
isibilidade. Essa poesia se despojaria da capa tecida pelas variadas ões do
romantismo europeu, para fazer-se adequada e oportuna à ¡ta da
solicitação interna.

NARRATIVA FICCIONAL

iob influência da narrativa histórica européia, surgem entre 1839 e


as primeiras narrativas românticas de autores brasileiros: João Ma-
Pereira da Silva, Justiniano José da Rocha, Joaquim bjofbeffffáea
c Silva, Luís Carlos Martins Pena, Domingos Josó^Gonçalves de
Ihães e Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. Exemplificam momen-
iciais. Pereira da Silva apresenta-se próximo de Garrett, ao tentar a
iva histórica romântica: reconstituição de um passado histórico em
■ situava uma ação dramática nele mesmo inspirada 13. No caso eu- , a
fonte de inspiração provinha da sedução romântica pelos ideais paisagem
física e social da Idade Média, pelo seu espírito cavalhei- e de aventura,
enfim pelo passado histórico em geral. Harmoniza-

rstudos ainda para serem pesquisados em sua extensão. Colhem-se sobre o assunto reflexões ma, como por
exemplo em Lopes Rodrigues, Castro Alves, Rio de Janeiro, Pongetti, 1947, 3 , voi V pp. 1301 a 1310; Uditene
Matos, Castro Alves no Folheto de Cordel (Salvador, Funda- I diluirai do listado da Bahia, 1982?)
npliílcum-no muito bem suas narrativas Jerônimo Corte-Rcal — Crònica do Século XVI, Manuel rloian, ( rùnica do
Século XVII, o primeiro de 1840, o segundo de 1866, além de outros: O >ri nino ilr I >, Miguel em 1828 e Religião,
Amor e Pátria, ambos de 1839; D. João de Noronha, < II i a do Sèi alo XVIII. Todos eles fogem aos temas históricos
brasileiros e assim outra narrativa ui mu .iiiior, de assunto contemporâneo, Asbàsia.

va-se com a concepção de amor leal e redentor e com os ideais de justiça c


liberdade do Romantismo. Contudo, esses sentimentos e ideais coexistiam em
contínuas tensões com os seus opostos, até que finalmente se impunham
vitoriosos. Aspirava-se à apreensão do clima das legendas históricas, caso em
que, quanto mais o romancista se afastava no tempo, tanto melhor. Mas
também ele se aproximaria do presente, se a matéria histórica nacional mais
distante ou remota lhe fosse escassa, atenuando ao mesmo tempo aquelas
características gerais indicadas. Pereira da Silva evidentemente se coloca no
nível de narradores medíocres e de assunto histórico ainda preso à tradição
portuguesa. Exemplifica influências recebidas e talvez se limite a jsso a sua
contribuição. Caberia também a Martins Pena e a Varnhagen outras tentativas
de narrativa histórica de assunto nacional. E com o mesmo sentido de
exemplificar modelos europeus, Justiniano José da Rocha nos oferece duas
pequenas narrativas em outra linha temática, acentuando o gosto do mistério
sobre assuntos de interesse social. No mesmo sentido, ainda Joaquim Norberto
de Sousa e Silva. Mas é preciso lembrar a contribuição deixada por Justiniano
José da Rocha, tradutor de Alexandre Dumas, Eugene Scribe, de Victor Hugo e
outros, divulgados entre nós a partir de 1845'4.
Teixeira e Sousa coloca-se numa situação diferente. Tendo estreado em
1843, com O Filho do Pescador*5, prosseguiu até 1856, sem que se impusesse bom
romancista. Mesmo sem projeção, ele desempenhou o seu papel histórico.
Situando suas narrativas em Cabo Frio, na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil
Central, chega também às Missões dos Sete 163 164

163 Martins Pena, que se consagra comediógrafo, é autor da narrativa Duguay- Trouim, que infelizmente não
conseguimos localizar; de Varnhagen é a Crónica do Descobrimento do Brasil de Justiniano José da Rocha, Os
Assassinos Misteriosos ou a Paixão dos Diamantes, de 1839, cuja ação se passa em Paris e O Pariá e a Sociedade
Brasileira. Deste último autor, contam-se as traduções que divulgaram entre nós O Conde de Monte-Cristo e Os
Miseráveis. De Joaquim Norberto, lembramos As Duas Orfiís, de 1841, e Maria ou Vinte Anos Depois, de 1843, que,
com mais duas outras narrativas, ele as reuniu no volume Romances e Novelas, 1852. Também é justo mencionar
Gonçalves de Magalhães, que, divulgador-reformador, ampliou sua experiência com a novela Amãncio, de 1844.
164 Abaixo do título, lê-se a indicação “Romance Brasileiro Original”. Mereceu reedição com introdução por Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira, São Paulo, Melhoramentos/1NL-MEC, 1977.
MITEREAL
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1 KIVA
A Ia. edição é de IH-ÍO

Povos do Uruguai. Prende-se mais ao romance histórico, e, sem dúvida, nos dá


o nosso melhor exemplo do romance de capa e espada, justiceiro, cm que o bem
triunfa sobre o mal e cujas situações de impasse depen dem de soluções
fantásticas ou de intervenções sobrenaturais, além do gosto acentuado pelo
mistério. Explica, por outro lado, a continuidade ou persistência de certos
assuntos, circunstâncias ou fatos históricos do Período Colonial, descritivos uns,
mitificados outros, até o testemunho evocador da vida aventurosa pelo interior
do Brasil de então. São exem pios Tardes de um Pintor ou as Intrigas de um Jesuíta,
Gonzaga e a Conju ni(tlo de I iradentes, As Fatalidades de Dois Jovens - Recordações dos Tempos
ANTÔNIO GONÇAI.VES TEIXEIRA E SOUSA

O FILHO DO PESCADOR
Romance brasileiro
Original

Introdução dc
AURELIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA

EDIÇÕES MELHORAM!MOS
Ì
cm convenio com o
INSTITUTO NACIONAL 1)0 l.IVRO
MINISTERIO DA EDUCAÇAO E UH TURA
• I»|M dti .?**. edição.

N I ' ile* 1843.

i n/iiiirais. O primeiro, relembrando a temática de O Uraguai de Basilio di (


..ima, também retomada por Alencar no drama histórico OJesuíta\ o ..
|i,mulo coloca-se sob as preocupações românticas de mitificação de fi-
l i n i ' . da Inconfidência Mineira - Gonzaga, o lírico de Marília e idealista
da nossa Independência ao lado do visionário Tiradentes; o terceiro, um
Injii.iiçado que foge à punição indevida, faz-se bandido temido e amo-
loso, em aventuras pelas fazendas isoladas de fins do Período Colonial, é
matèria para o estudo das manifestações iniciais do banditismo ou can-
gaço, temática de tão extensa fortuna da nossa literatura. Essas obras são
de concepção ainda comprometida com aventuras e conflitos entre o
•m e o mal e com tentativas de romance histórico, mas revelam uma
irpreendente imaginação na arquitetura da trama.
O primeiro exemplo de linguagem romântica, caracterizada pelo li- smo
das situações simples, quase ingénuas e também lúdicas do viver i família
brasileira surpreendidas na espontaneidade do universo do lolescente ao
adulto, nos seria dado pela primeira vez no romance de 'aquim Manuel de
Macedo - A Moreninha, em 1844. O então jovem Icncar o consideraria modelo
de romance brasileiro, talvez não só pela são lírica da vida, ou melhor, do
universo adolescente, mais ainda por iusa daquela intimidade do nosso
viver, que seria uma das preocúpales dele ao esboçar a sociedade brasileira16.
E Macedo inaugura a coor- rnada do nosso romance social de
condicionamento urbano no Rio de neiro, centro que logo passou a ser foco
das atenções gerais. Ele situa aí itros romances, fixando temas históricos e
sociais, a escravidão, hábi- is, costumes, tradições persistentes, também do
mundo rural. Escreveu esmo a crónica daquela cidade, do passado próximo
ao seu momento, mbora mereça ser valorizado pelo todo da obra escrita, a
grande contri- iição que ele nos deu, em termos destacados da sensibilidade
brasileira, com características definidamente românticas, é representada
particu- rmente pela ingenuidade e pureza sentimental de A Moreninha}7.
Talvez circunstâncias de então marcadas pela sentimentalidade ex- iquem
certa indiferença pela publicação em folhetins, no Correio Mer- mtiU de 1852 a
1853, das Memórias de um Sargento de Milícias, de Ma- ael Antônio de Almeida. Era
um desvio da proposta bem sucedida, tanto ao acatamento público, do romance
de Macedo. Contudo, Ma- icl Antônio de Almeida retomava um veio da
narrativa romântica presa modelos peninsulares ibéricos - Almeida Garrett de O
Arco de SantAna . por extensão a picaresca espanhola, com situações vagamente
amorais, as não característicamente picarescas, sob a leveza da graça e do hu- 165

165 |MM‘ cli' AlriK .it, Como e por que Sou Romancista, ed. cit.
V Iiililni( i ili.i de Muerdo, no Apêndice - 2.
^fêwtumcÂa«m/'d>Macédp

Capa de A Moreninha, com


ilustrações de Noemia. A Ia.
edição é de 1844.
conseqiientc. Disfarçaria sobretudo a sentimentalidade subordi-
perspectiva do triunfo do primeiro amor. Ao mesmo tempo, se-ia fiel a esta
tese romântica, que também atribuía à pureza >r um poder reabilitador e
reintegrador numa sociedade em que na ético se impunha fortemente
disciplinador. Por outro lado, reno tempo, porém próximo, para nos
oferecer uma representa- lórica da sociedade delineada à época de Dom
João VI no Bra- isto mesmo, narrador situado propriamente no seu
momento, ) ele “ouve” ou “finge ouvir” a evocação oral do modelo vivo de
s dois heróis da narrativa, ao mesmo tempo herói memorialista iprias
aventuras paralelamente com as aventuras do segundo he- iaber, os dois
Leonardos, o pai e o filho, na verdade romantica- anti-heróis sem vilania,
Manuel Antônio de Almeida curiosamente na a visão do memorialista com
a do presente18. Assim, dois pla- dois universos temporalmente separados,
mas no mesmo espa- idem a completar-se. Mais do que isto, se fundem e se
confun- o romance se faz a um só tempo histórico e expressão de um
quadro contemporâneo. O nexo entre as duas perspectivas repousa nas )es
persistentes, sendo o romance também representativo da linha rativa
social-urbana voltada para o Rio de Janeiro.
>sé de Alencar se apresenta síntese da sua época, retomando todas ções
anteriores e se projetando juntamente com outros, para a pri- revisão
significativa do nosso romantismo. Paralelamente com a leste romancista e
também com formulações críticas, afirmam-se ficcionistas: Bernardo
Guimarães, Visconde deTaunay e Franklin a. O primeiro marcaria a nossa
tradição com A Escrava Isaura, dra- uma mucama mestiça, lutando pela
preservação da pessoa moral e . O romancista defendia de fato a pessoa
humana, o direito de pfe- .1 dignidade, sem preconceitos. Romance
exemplo da temática só- l'il Informante (la* aventuras dos dois Leonardos, o Leonardo Pataca e o

Leonardo Filho, que se «•Mitrino de milicias, que Manuel Antônio de Almeida o teria ouvido, v. Marques

Rebelo, Vida fin de Marniti Antônio de Almeida, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro-MEC, 1943.

dal derivada das relações entre negros e brancos na sociedade brasileira


entre rural e urbana, enquadra-se na literatura de crítica e combate ao
sistema escravocrata. É irmão mais velho do romance de Aluísio Azevedo
— O Mulato, com as diferenças das vestes românticas de um e realistas do
outro, mas em ambos a mesma situação explícita ou implícita - o
matrimónio considerado caminho da dignificação do mulato e acesso à
sociedade dita dos brancos166. Bernardo Guimarães ainda assumiria papel
importante no romance voltado mais exclusivamente para a representação
d.o Brasil rural, da sociedade rústica à paisagem natural. Reveste-se mesmo
de valor documental, segundo o que desejou fazer e de fato o fez. O Ermitão
do Muquém ou História da Fundação da Romaria do Muquém na Província de Goiás
inaugurou a temática relacionada com o fanatismo e o messianismo
caboclo, inspirador de um dos ciclos de nossa narrativa ficcional. Ao
escrevê-la, Bernardo Guimarães afirmava que a sua história “repousa sobre
uma tradição real mui conhecida na província de Goiás”, por ele ouvida em
andanças pelo Brasil Central. Apontou a mesma origem, em fatos e
protagonistas, da novela O índio Afonso, também uma das contribuições
iniciais formadoras do ciclo temático do cangaço ou banditismo.
Acentuando preocupações de objetividade e documentação descritiva,
fundamento das suas criações, observou que naquela pequena narrativa, e
por extensão em outras, a “descrição dos lugares foi feita ao natural, pois” -
acrescenta - “os percorri e observei mais de uma vez”. Citando Fernandes
Pinheiro, ele concordava em que o romancista devia ser fiel ao descrito,
fosse natureza ou costumes, para melhor fazer conhecido o nosso país. E
arrematava:

(...) faço sempre passar a ação dos meus romances em lugares que me são conhecidos, ou pelo
menos de que tenho as mais exatas e minuciosas informações, e me esforço por dar às
descrições locais um traçado e colorido o mais exato e preciso, o menos vago que é possível 167.

166 Cf. também Álvaro Lins, Jornal de Crítica, 2. série, Rio de Janeiro, José Olympio, 1943, pp. 138-152.
167 Bernardo Guimarães, O índio Afonso Seguido de a Morte de Gonçalves Dias, canto elegíaco por (...), Rio de Janeiro,
Garnier (1900), pp. VI1I-9 (sic).
A 1». edição é de 1854-1855.
¡CA DE LITERATURA BRASILEIRA

limuel António de Almeida

nórias de um
;ento de
Milícias
IntroduçAo d« Mário de Andrade.
Iluatraçõcs de F. Acquarone.

LIVRAHIA MARTINS
MUA It UR KOVRMHKO. 181 SÀO fAUU)

Mas antes dessa afirmação, de 1873, Bernardo Guimarães, em outro


prefácio “Ao Leitor”, do romance acima referido, O Ermitão do Muquém ou
História da Fundação da Romaria de Muquém na Província de Goiás, de 1'8,58, faria
observações que prenunciam reflexões posteriores de Alencar no prefácio
do romance Sonhos d’Ouro, de 1872. Ao mês* mo tempo, devemos relacionar
essas observações com outras anteriores também de Alencar das Cartas sobre
“A Confederação dos Tamoios”, de 1856, Dado esse entrosamento de ideias de
valor autocrítico, torna-se indispensável conhecer melhor as reflexões que
Bernardo Guimarães es- i leveu sobre aquele romance:
1“. edição, de 1858, com
prefácio do autor. 0

ERMITÃO DO MllODEM
00
HISTORIA DA FUNDAÇÃO DA ROMARIA DF MIIQ1IRH
NA PROVINCIA RE COYAI

BERNARDO GUIMARÃES

■ RIO HE JANEIRO
I.IVRAim !)K II. I,. l'.AItMKK, EDITOU
M, BI'» 1*0 Ol VIlkill, I»
PARIS, — fi. UKLIIATIK, 1,1 YÍIKIRO
MU I»B L'ABIUYK, II

Cumpre-me dizer duas palavras ao leitor a respeito da composição do presente


romance, o qual (seja dito de passagem) repousa sobre uma tradição real mui conhecida na
província de Goiás.
Consta este romance de três partes mui distintas, em cada uma das quais forçoso me
foi empregar um estilo diferente, visto como o meu herói em cada uma delas se vê colocado
em uma situação inteiramente nova, inteiramente diversa das anteriores.
A primeira parte está incluída no Pouso primeiro, e é escrito no tom de um romance
realista e de costumes; representa cenas da vida dos homens do sertão, seus folguedos
ruidosos e um pouco bárbaros, seus costumes licenciosos, seu espírito de valentia e suas rixas
sanguinolentas. É verdade que o meu romance pinta o sertanejo de há um século; mas deve-
se refletir, que é só nas cortes e nas grandes cidades que os costumes e usanças se modificam
e transformam de tempos em tempos pela continuada comunicação com o estrangeiro e pelo
espírito da moda. Nos sertões, porém, cos-
turnos e usanças se conservam inalteráveis durante séculos, e pode-se afirmar sem
receio que o sertanejo de Goiás ou de Mato Grosso de hoje é com mui pouca
diferença o mesmo que o do começo do século passado.
Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo o nosso herói passa a
viver vida selvática no seio das florestas no meio dos indígenas. Aqui força é que o
meu romance tome assim certos ares de poema. Os usos e costumes dos povos
indígenas do Brasil estão envoltos em trevas, sua história é quase nenhuma, de
suas crenças apenas restam noções isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo de
seu viver nos escapa, e só nos resta o idealismo, e esse mesmo mui vago, e talvez
em grande parte fictício. Tanto melhor para o poeta e o romancista; há largas
enchanças para desenvolver os recursos de sua imaginação. O lirismo, pois, que
reina nesta segunda parte, a qual abrange os Pousos segundo e terceiro, é muito
desculpável; esse estilo um pouco mais elevado e ideal era o único que quadrava
aos assuntos que eu tinha de tratar, e às circunstâncias de meu herói.
O misticismo cristão caracteriza essencialmente a terceira parte, que
compreende o quarto e último Pouso.
Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal
sublimidade do assunto. Reclama pois esta parte um outro estilo, um tom mais
grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem
falar quando tratam de tão elevado assunto21.

Bernardo Guimarães não teria pensado propriamente em fazer ro-


mance histórico, mas ao explorar lendas e tradições da região de origem,
as Minas Gerais, antecipava-se às preocupações de outros narradores pos-
teriores, ligados à mesma região, de Afonso Arinos a Autran Dourado.
Taunay deu exemplo semelhante ao de Bernardo Guimarães quanto
às intenções de fidelidade à paisagem, tipos e fatos. Teve a seu favor as
qualidades de notável paisagista, em que o realismo da descrição da na-
tureza cede lugar à beleza dos quadros compostos. Observador dos nossos
costumes, tipos humanos e circunstâncias de vida sob o efeito de es-
truturas ainda rigidamente patriarcalistas, deixou alguns livros nos quais
se disseminam os componentes básicos do seu famoso romance - Inocência.
Por exemplo, sobre suas viagens do Brasil Central ao Sul e de sua
participação na Guerra do Paraguai: Visões do Sertão, Viagem de Regresso,

! I hlein, 0 Irmitão do Muqutm ou História da Fundação da Romaria de Muquém na Província de (toiili por („.), Rio de Janeiro,
Garnier, s. d. (1. cd.), pp. V-VI1.
ALFREDO D’ESCRAGNOLLE TAUNAY
VISCONDE DE TAUNAY

* 22 do Fevereiro de 1843. «f» 25 de Janeli» dc

Cf. Inocência, São Paulo,


Francisco Alves, 1941.

Céus e Terras do Brasil. Houve por parte do autor a intenção de indii .11
modelos, circunstâncias e impressões de uma sociedade fechada, enraiza
damente patriarcalista, com zelos excessivos pela preservação da pureza e
da honra da mulher, conforme o que lemos naquelas obras indicadas.
Chega ao ponto, paisagista de quadros acabados, definitivos, de transpor o
primeiro capítulo — “O Sertão e o Sertanejo”, de Céus e Terras do Brasil para o
início de Inocência, mantendo até o mesmo título168. O enredo des-

168 Já fizemos esse rastreamento em artigo depois transcrito em Aspectos do Romance Brasileiro, ed. cit., pp. 49-53.
te romance, espécie de tragédia shakespeareana sertaneja, de extrema
simplicidade, no seu lento fluir ilustra-se com quadros naturais. Harmo-
niza-se com sugestões plásticas, quase estáticas. E o desfecho trágico da
narrativa emana de uma estrutura reacionária que se autodefende de
maneira a quase neutralizar emocionalmente o comportamento dos pro-
tagonistas. O tom evocador que impregna toda a narrativa nos dá também
a sugestão do acontecido reconstituído pela memória visual e sentimental
do autor-testemunha. O romance delineia o universo sertanejo, acentua
muito bem o conservadorismo patriarcalista e sua intransigente autodefesa
indiferente aos impulsos do coração. Não reconhecia nem admitia a
autonomia das aspirações sentimentais individuais. A obra se faz, de tal
forma representativa do universo sertanejo reorganizado, que é mais um
exemplo de ficção brasileira que atinge profundamente a nossa
sensibilidade e se converte em “fato real” pela tradição oral.
Passando por Bernardo Guimarães e pelo Visconde de Taunay, e
sempre à sombra de Alencar, Franklin Távora chegou mesmo a propor uma
diferenciação “regional” bipartida - Norte/Sul, com distinções geográficas,
embora distorcidas, pois na verdade opõe uma sociedade provinciana à
sociedade da Corte. Ele se situa entre exemplos finais de posições
“regionalistas” assumidas no século XIX. Falaria então de “literatura do
Norte” e “literatura do Sul”:

As letras têm, [escreve Franklin Távora na Carta-prefácio a O Cabeleira, de 1876] como a


política, um certo caráter geográfico; mais no norte, porém, do que no sul abundam os
elementos para a formação de uma literatura propriamente brasileira, filha da terra.
A razão é óbvia: o norte ainda não foi invadido como está sendo o sul de dia em dia
pelo estrangeiro.
A feição primitiva, unicamente modificada pela cultura que as raças, as índoles, c os
costumes recebem dos tempos ou do progresso, pode-se afirmar que ainda se con- sciva ali cm
sua pureza, em sua genuína expressão23.

) \ li mklin Távora, O Cabeleira - História Pernambucana por (...), nova edição, Rio de Janeiro, Garnier, l'NM, pp XII-
XIII. Lé-se no cabeçalho da página de rosto: “Literatura do Norte / Primeiro livro”.

Prossegue, depois do balanço dos valores enumerados do Norte e do


Sul, em que inclui' Alencar, e nos reverte às reflexões citadas de Bernardo
Guimarães sobre províncias do Brasil Central:

Quando, pois, está o Sul em tão favoráveis condições, que até conta entre os primeiros
luminares das suas letras este distinto cearense, têm os escritores do Norte que
verdadeiramente estimam seu torrão, o dever de levantar ainda com luta c esforço os nobres
foros dessa grande região, exumar seus tipos legendários, fazer conhecidos seus costumes,
suas lendas, sua poesia máscula, nova, vivida e louçã tão ignorada no pró .prio templo onde se
sagram as reputações, assim literárias, como políticas, que se en viam às províncias.
Não vai nisto, meu amigo, um baixo sentimento de rivalidade que náo aninho cm meu
coração brasileiro. Proclamo uma verdade irrecusável. Norte e Sul sao irmãos, mas são dois.
Cada um há de ter uma literatura sua, porque o gênio de um nao se confunde com o do outro.
Cada um tem suas aspirações, seus interesses, e há de ler, se já não tem, sua política.
Enfim, não posso dizer tudo, e reservarei o desenvolvimento, que tais ideias exi gem,
para a ocasião em que te enviar o segundo livro desta série, o qual talvez venha ainda este ano,
à luz da publicidade.
Depois de haveres lido'0 Cabeleira, melhor me poderás entender a respeito da criação da
literatura setentrional, cujos moldes não podem ser, segundo me parece, os mesmos em que
vai sendo vasada a literatura austral que possuímos169.

Com a obra e as posições assumidas por Franklin Távora, voltadas


para o Nordeste do Brasil, acentuam-se então as preocupações com a re-
presentação das diversidades regionais brasileiras definidas por Bernardo
Guimarães, mas inspiradas e finalmente sistematizadas por Alencar.
Lembremos que Franklin Távora, ligado aos primeiros momentos da
chamada “Escola do Recife”, movimento de renovação que se efetivará logo
mais a partir dos anos de 1870, mesmo assim escrevia suas primeiras obras
sob a voga do indianismo romântico. Não obstante, ele tentou abalar o
prestígio de Alencar, aliando-se a José de Castilho, numa retomada das
posições hostis contra a “nacionalização” da Literatura Brasileira partidas
do grupo que em Portugal era liderado por Antônio Feliciano

169 Idem, lug. cit., pp. X1V-XV.


Capa da Ia. edição.

..UHI;» Hi NORTE 'V

\HKLLKIK
A ■ I
'LRNAMBUCA
NA

iiiihlia (Favor;!

in >1 mmui
•I O A y U I .» il lì 3 Ili .1 L I N»«l

asti lho e Pinheiro Chagas. As Questões do Dia2*, publicação periódi- 1 8 7 1 a


1872, divulga críticas injustas que ele fez à obra de Alencar, indo as de José
de Castilho neste mesmo periódico. Reuniu em livro rtas de Sempronio a
Cincinato - o que ali escreveu, cujo valor é ape- i dc documento da persistente
defesa da hegemonia lusitanizante sonila literatura que ganhava
rapidamente foros de autonomia. O cerine Franklin Távora não conseguiu
disfarçar a influência, sobre ele no, das idéias críticas defAlencar\embora se
conduzisse para extre- 170

170 ii
mo radical. E também continuava a refletir conceitos provenientes dos
primeiros momentos do Romantismo, mesmo que sob a bandeira da re-
novação. Leia-se, a propósito, o que escreveu ao reeditar a narrativa Um
Casamento no Arrabalde.

[...) Hoje em dia eu não poria em letra de imprensa produção de horizonte tão estreito,
porque entendo que nas letras, ainda as amenas, não é lícito prescindir de um ideal que
represente a vitória de um princípio, uma instituição, uma ideia útil ã sociedade. O romancista
moderno deve ser historiador, crítico, político ou filósofo.
O romance de fantasia, de pura imaginativa, este não quadra ao ideal dos nossos
dias.
Ora, ali, se não há pura imaginação, não há todavia um princípio vigoroso, nfio há o
estudo, a crítica de grandes forças, a aplicação de grandes leis sociais'1'’.

Não deixa de ser princípio de reação ao romance romântico, embora


mal formulada e ainda comprometida com o próprio Romantismo, além de
tardia com relação à obra que ele já havia escrito: O Cabeleira, 1876, O Matuto,
1878, sendo» Lourenço e a reedição de Um Casamento no Arrabalde, de 1 8 8 1 . É
verdade que estas narrativas foram escritas sob o clima dos primeiros
momentos da “Escola do Recife”, embora esta reação renovadora ainda não
estivesse de todo definida em seus objetivos. Talvez por isso mesmo, a obra
de Franklin Távora, do ponto de vista de estilo de época, possa ser
considerada expressão de transição marcada pelo espírito polêmico do
autor171 172.
Sem dúvida foram o bairrismo e a parcialidade, levados ao desafeto,
que impediram Franklin Távora de amadurecer idéias novas equilibra-
damente com a transformação de propostas anteriores, já sufiçientemente
divulgadas e conhecidas. E vimos que elas não foram só de José de Aleií-
car, houve a contribuição de Bernardo Guimarães e de Taunay para a

171 Franklin Távora, Um Casamento no Arrabalde - História do Tempo em Estilo de Casa por (...), Rio de Janeiro, Garnier,
1903. (Traz no cabeçalho da página de rosto a indicação: “Literatura do Norte / Quarto Livro”.) As reflexões
citadas datam de 1879, v. p. 94.
172 Visconde deTaunay (Alfredo d’EscragnolleTaunay), Brasileiros e Estrangeiros, São Paulo, Melhoramentos, 1931 (a
segunda edição da obra que, em 1883, foi publicada sob o título de Estudos Críticos). Sempre fiel ao
Romantismo, ao criticar o Naturalismo nascente, atua igualmente na transição dos estilos (V. capítulo XII).
representação daquele “viver brasileiro”, componente, diria Bernardo
Guimarães, da “formação de uma literatura propriamente brasileira, filha
da terra”, referindo-se à região Centro-Sul do Brasil28. Implicava igualmente
no contraste que se acentuava entre a sociedade urbana e a sociedade rural,
rústica. Enquanto esta se mantinha conservadora, aquela sofria mudanças
aceleradas, representada pela Corte, o Rio de Janeiro, para onde convergiam
as atenções estrangeiras, conforme também já havia observado José de
Alencar. % o que este último propunha era a visão de dois Brasis em linha
verticaf, o da faixa litorânea e o interiorano, para acentuar a diversidade,
entre urbano e rural29. Visão de dois Brasis em que já se delineava a
perspectiva da sua complexidade, sob a tentativa de compreensão e síntese
expressa por uma literatura cuja unidade interna se traduzia no confronto
de duas coordenadas, que eram ou são aquelas duas distinções - a urbana e
a rural. Mas Franklin Távora simplificaria essa visão reduzindo-a à
bipartição horizontal e ingénua de Norte e Sul, sob a vaga suspeita de
separatismo. Contudo, ele cumpria um papel nas transformações da
ideologia nacionalista, propiciando uma espécie de derivação
“regionalista”. Podemos mesmo admitir a projeção do romancista se
lembrarmos que bem mais tarde, em pleno Modernismo — naturalmente
em outro nível de formulação - Gilberto Freyre sublimaria a decadência
económica do Nordeste açucareiro, exaltando o papel permanente desta
região como expressão preservadora das tradições brasileiras30. Finalmente,
Franklin Távora também ainda nos ofereceu contribuição temática. Cultivou
a narrativa de características históricas românticas e explorou em extensão
um fenômeno que comporia um dos ciclos mais importantes da nossa ficção
- o cangaço. Mas este também

¿8, V. notas 21,23, 24 deste capítulo.


2'). V. o capítulo X.
'll II. (iilbcrto Freyre, Região e Tradição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1941; Nordeste - Aspectos da Influência di Cana sobre a
Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil, ibidem, 1937; e Interpretação do Brasil ■ Aipeclm da Formação Social Brasileira como
Processo de Amalgamento de Raças e Culturas, ibidem, 1947.

em continuação de contribuições românticas reconhecidas em Teixeira e


Sousa, Bernardo Guimarães e até mesmo em José de Alencar.
Se as posições e pesquisas entrevistad podem ser consideradas regi-
onalismo, a palavra, porém, ainda não circulava como rótulo. Importa que
estávamos na fase da pesquisa e do debate da identidade nacional da nossa
literatura, neste caso voltada para um “tipo brasileiro” de narrativa
“realista”, quer dizer, informativa ou verdadeiramente documental, tam-
bém preocupada com registros de vocábulos regionais, procedimento mais
intuído do que lingüístico. Prevalecia o reino da “cor local" - cx pressão
então corrente - que pode ser amplamente exemplificado em le lação ao
Brasil, pois as observações e busca de inspiração já se distribuí am por áreas
geográficas que pouco a pouco compunham o mapa das diferenciações
regionais sobre o substrato da unidade do todo. Unidade cultural
finalmente reconhecida sobre estruturas de uma sociedade pa- triarcalista,
latifundiária e escravocrata, por vezes aristocratizante da cana-de-açúcar, do
c^fé, ou rude e violenta do cacau, mas sobretudo do gado, nos sertões-
sertão e nos pampas. E se pensarmos não em regionalismo,
independentemente de sua conceituação atual, mas na relação homem/
terra, matriz de tudo, constatamos o surgimento de ciclos, séries temáticas
que exprimem a diversidade imposta por diferentes condicionamentos
físicos, componentes daquele denominador comum que repousa sobre
estruturas de raízes coloniais. Configuram-se, no todo do século XIX, o
universo dos coronéis do sertão, o da violência do cacau e da visão
amazónica, o da associação seca-messianismo, e em todos eles, a
coexistência do cangaço. Oportunamente falaremos sobre os chamados
ciclos ou “correntes” ou séries temáticas, ditas regionalistas, tecendo con-
siderações para a composição de um quadro abrangente. E porque ele
requer o reconhecimento das suas transformações, veremos sob a pers-
pectiva modernista a sua retomada agitada sob designações sinonímicas:
nacionalismo, regionalismo, brasilidade.
Em geral, todos os romancistas da época romântica realizam formal-
mente uma narrativa presa ao modelo europeu. Certamente, eles se fize-
ram nacionais pela ênfase do sentimento implícito na representação da
realidade brasileira, desde a mitificação do passado à análise da sociedade
contemporânea - urbana e rural, e sem dúvida pela adequação da temática à
linguagem. Pelo compromisso externo, eles se ligam a uma concepção de
narrativa - de resto dominante em todo o século XIX - que repousa na
arquitetura de uma história, ou enredo, com princípio, desenvolvimento e
fim, ou melhor, desfecho conclusivo, pois a trama, as intrigas ou tensões que
tecem o enredo subordinam-se em última análise às relações de causa e
efeito. O seu desenvolvimento podia ser linear, a partir de determinado
momento da trajetória percorrida pelos protagonistas. Contudo, a
necessidade de quebrar-lhe a monotonia levava o narrador a cortes com
inserções de referências curtas ou longas a momentos anteriores aos do
ponto de partida escolhido, o que também ocorre em virtude daquelas
relações de causa e efeito. Sobretudo, considerada a motivação da leitura,
recorria-se ainda à interrupção brusca do fio central da narrativa, às vezes
em momento de maior tensão, para o desenvolvimento de situações
paralelas, complementares ou esclarecedoras, gerando suspense. Aquele fio
central era conduzido pelos protagonistas de primeiro plano, ou conduzia
os protagonistas. Situações paralelas ou complementares, ainda que às
vezes pudessem constituir enredos secundários, surgiam, desapareciam,
ressurgiam. Excepcionalmente apresentavam seqiiência estrutural básica de
princípio, desenvolvimento e fim. Exerciam principalmente a função de
auxiliar da tessitura que envolve a situação, sentimental, bem ou mal
sucedida, dramática ou trágica, vivida pelos protagonistas do primeiro
plano da narrativa. São estes exatamente os que se distinguem nas
categorias de herói e vilão, representação mani- queísta da condição
humana, mais do que do destino, pois se apresentavam sempre
equacionados com a sociedadey suas tradições e seu sistema » t i c o
dominante. O conceito de herói conforme a tradição clássica, representação
de valores e virtudes coletivos, só ressurgiria num tipo muito distinto c
excepcional de romance romântico, o romance poema, vi- i" m í t h .1 e
lendária de origens ou raízes de um povo ou nação, entre
nós os romances indianistas de Alencar/^ora isso, herói e vilão são para-
digmas, estereótipos destacados,'matrizes ou tipos representativos da he-
terogeneidade social representada por protagonistas subsidiários do fio
central da narrativa. O romance romântico e o que vem em prosseguimento,
salvo raras exceções, subordinou ao social a conduta e a trajetória do
homem. Talvez por isso, os protagonistas da narrativa ficcional do século
XIX, com projeções posteriores, se definam melhor em termos de categorias
do que de personagem, se, evidentemente, aceitarmos a com preensão mais
ampla de personagem, a saber, criação que se erige cm universo autónomo,
cujo componente existencial independe do momcn to e contexto ou tempo e
espaço condicionadores da tessitura ciri unsi.m ciai que o envolve.
Na narrativa romântica, a sentimentalidade ocupava um lugar pre
ponderante. Deriva dela o subjetivismo, seja de conotação afetiva, seja
moral, mas voltado precipuamente para o ideal amoroso, que prevalecia.
Gera também a característica confidencial, às vezes, tão intensa que a forma
de narrativa lírica ou idílica não bastava, fosse em terceira, fosse em
primeira pessoa. Apelava-se, então, para a forma epistolar, mais propícia à
confidência. Mas, escrita em primeira pessoa, ainda não configurava a
noção de narrador-personagem ou de personagem-memorialista. Ela
continuava a utilizar ou sugerir a função retransmissora de autor-narrador,
quer dizer, do intermediário que assume também a função de testemunho
do drama verídico, pondo-se assim em posição onisciente com relação ao
receptor.
Características universais da narrativa romântica, evidentemente elas
também foram nossas. Ajustaram-se às necessidades da representação de
nossa perspectiva histórica, legendária e mítica e da realidade con-
temporânea do Brasil. Esta dupla perspectiva gerou a nossa narrativa his-
tórica, não importa que às vezes realizada paralelamente com a crónica,
salvo a narrativa indianista, e a narrativa social contemporânea de condi-
cionamento urbano, ou do universal rural. Nesta última, se acentuam
tipismos, cor local, realismo descritivo, linguajares, tradições populares
de transmissão oral, manifestações messiânicas, tudo relacionado com a
persistência de estruturas patriarcalistas conservadoras. A síntese modelar
de todas estas conquistas foi José de Alencar, igualmente teórico da

3. FOLHETIM/CRÔNICA/REVISTA OU HEBDOMADARIA

O “folhetim” foi introduzido no Brasil com o Romantismo, importado


da França. Surge sob dois conceitos. De acordo com o primeiro, sob aquela
designação, apresentava-se em rodapé de página de destaque do jornal.
Divulgava narrativas ficcionais capítulo por capítulo, no dia-a-dia ou
semanalmente. Essa difusão imediata da produção literária ampliava a
função jornalística da época, enquanto levava a criação a uma comunicação
rápida com o público - um público leitor/ouvinte, do lar, reunido em serões
habituais173. Fazia concessões ao público receptor, além de esclarecer a
leitura na passagem de capítulo para capítulo, com explicações rápidas ou
referências a situações anteriores para encadeá-las com as seguintes.
Recurso circunstancial de divulgação da narrativa ficcional, foi suficiente
para marcar linguagem e construção, a partir do qual, muitas dessas
narrativas passaram para a forma do livro, carregando consigo as
peculiaridades indicadas. Foi comum desde suas origens entre nós até pelo
restante do século XIX. Também, sem tais peculiaridades, muitas das
principais criações ficcionais brasileiras do século XIX foram divulgadas
naquele espaço jornalístico.
O segundo conceito de “folhetim” envolve a criação literária ligada à
atividade jornalística174. José de Alencar, um dos seus primeiros e prin-

173 ('.f. José dc Alencar, Como e por que Sou Romancista, ed. cit., pp. 15-22.
174 Em nota a uma das crónicas dc França Júnior, R. Magalhães Júnior comenta uma citação feita a Alphnnsc
Karr, nos seguintes termos: “Este jornalista francês exerceu forte influência, quer no Brasil, quer em
Portugal, onde Eça de Queirós c Ramalho Ortigão imitaram seu panfleto "Les Gucpes’ em As farpas'. D.
Pedro 11 lia-o c admirava. Machado de Assis cita-o à miúde. Nascido em 1808, h ,m Biiptilte Alphonsc Karr
deixou vários livros e colaborou em ‘Le Figaro’. Desapareceu no ano «I* IH‘111 Mus acrescentamos não
somente em destaque Machado de Assis e França Júnior: antes
cipais cultores, ressaltou a heterogeneidade e a consequente versatilidade
do conteúdo de um gênero nascente. Obrigava “um homem a percorrer
todos os acontecimentos, a passar do gracejo ao assunto sério, do riso e do
prazer às misérias e às chagas da sociedade”; e isto com graça e nonchalance,
dizia ele, finura e delicadeza, fazendo “do escritor uma espécie de colibri” a
sugar “a graça, o sal e o espírito que deve necessariamente descobrir no
fato o mais comezinho!” Acrescentava: as reações que o “lo- lhetim”
provocaria em múltiplos leitores, de diferentes preferências, abrangiam
desde o crítico “de opinião que o folhetinista inventou em vez de contar, o
que por conseguinte excedeu os limites da crónica", até ao “literato”,
passando pela “amável leitora”, pelo “velho” exigente, o “na morado”, o
“caixeiro”, o “negociante”. E comparava-o ainda com outras atividades
regulares e disciplinadoras, para interrogar, censurando c ao mesmo tempo
completando seu conceito de “folhetim”:

[...] Somente o folhetim é que há de sair fora da regra geral, a ser uma espécie de
panacéia, um tratado de obini scibili etpossibili, um dicionário espanhol que contenha todas as coisas
e algumas coisinhas mais? Enquanto o Instituto de França e a Academia de Lisboa não
concordarem numa exata definição do folhetim, tenho para mim que a coisa é impossível 33.

Alencar escrevia por volta de 1854. Cinco anos mais tarde, e também
ainda nos primeiros momentos da carreira de escritor, Machado de Assis
ocupava-se do mesmo assunto, ele, que seria com o tempo o paradigma
dos nossos cronistas. Apontava o folhetim originário da França, de onde se
espalharia através do seu veículo de difusão - o jornal, mas de maneira a
acomodar “a economia vital de sua organização às conveniências das
atmosferas locais”. A afinidade do folhetinista com o jornalista “desenha as
saliências fisionómicas na moderna criação”, isto é, o “folhe-

destes, Jos í de Alencar, que lhe aporia o adjetivo grande. V. França Júnior, Política e Costumes - Folhetins
esquecidos (1867-1868) (org„ introd. e notas de R. Magalhães Júnior), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1957, citação de p. I.
33. Josú de Alencar, Ao Correr da Pena (revista hebdomadária). Rio de Janeiro, Garnier, s. d., pp. 19-21.
tim”, “fusão admirável do útil e do fútil”, “parto curioso e singular do
sério, consorciado com o frívolo”. Do jornalista que há no folhetinista,
provém “a luz séria e vigorosa, a reflexão calma, a observação profunda.
Pelo que toca ao devaneio, à leviandade, está tudo encarnado no folheti-
nista mesmo; o capital próprio”. Curiosameiyer^não bastassem reflexões
paralelas àquelas que foram feitas por Alenca}, Machado de Assis retomava
a mais a comparação do folhetinista com o colibri:

O folhetinista, na sociedade, ocupa o lugar de colibri na esfera vegetal; salta, esvoaça,


brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas
vigorosas. Todo o inundo lhe pertence; até mesmo a política.

Depois de mostrar as glórias e as angústias do folhetinista, virtudes e


degradação a que podia expor-se, advertia sobre o seu freqúente desvio ou
distanciamento do caráter nacional, pois, normalmente se observava entre
nós que ele se entregava à imitação do modelo francês, acrescentando
conforme com sua maneira de considerar o problema da nacionalidade
literária:

Entretanto, como todas as dificuldades se aplanam, ele podia bem tomar mais cor local,
mais feição americana. Faria assim menos mal à independência do espírito nacional, tão preso
a essas imitações, a esses arremedo, a esse suicídio de originalidade e iniciativas3'.
i ■/** V
N

Reconsideremos as ideias de Alencar equacionadas com a crónica que


ele mesmo escreveu, e as de Machado de Assis, reconfirmadoras.
Chamamos inicialmente a atenção para a coexistência da designação “fo-
lhetim” com outras como “crónica” e “revista”, associadas ao adjetivo
hebdomadário, ou também simplesmente o substantivo “hebdomadá- ria”,
neste caso indicativo do ritmo semanal de coleta da matéria e de sua
divulgação pela imprensa. Aquele conteúdo heterogéneo e versátil, pas-

M Mui liado dc Assis, Obra Completa, vol. 3 - Poesia, Crónica, Crítica. Miscelânea e Epistolário, Rio di laneiro,
Agilitar. 1959, pp. 968-969.

sando ás vézes abruptamente, mas sem quebra de unidade, da idéia séria,

II ' N MUDO Olí O l'l KlODO NACIONAL - 1 . 0 círmo viv c «


grave, para a leveza do riso, do humor ou ao ferino da ironia, deveria ser
abrangente dos acontecimentos mundanos, políticos, económicos,
financeiros, de paz e de guerra, do homem em si e da natureza, no decorrer
de urna semana em ámbito local-nacional e internacional. O folhetim exigia
assim a observação e a participação do cronista nos limites do seu contexto,
ou da sociedade. Ele devia ser conhecedor dos incidentes do dia-a-dia,
freqüentador da vida artística e intelectual - o teatro e a ópera tão do gosto
da época —, dos clubes, da sociedade mundana. I )cvia passar da
observação à leitura dos jornais: nacionais, para melhor acom panhar a
política e o governo, reforçando a observação direta, e dos cs trangeiros,
aguardados entre um paquete e outro, fonte da “revista" dos
acontecimentos internacionais.
O folhetim era em suma um complexo de jornalismo de conteúdo
noticioso, seletivo e concentrado, de crítica do registro também seletivo e
informativo do cotidiano, do mundano à vida intelectual e artística, tudo
sob o crivo da reflexão e da graça, da imaginação à fantasia, ou à
contemplação, oscilando do lírico ao dramático ou mesmo trágico. Com tais
qualidades, mais as de linguagem literária, o folhetim/crónica/revista
hebdomadária surgia num momento em que o nosso jornalismo também
nascente era na maior parte e essencialmente exercido por escritores já
conhecidos ou que logo se consagrariam. Marcado, de origem, pelas
quajkbtíes literárias, são estas mesmas que lhe imprimem, a partir de um
AlencaCa um Machado de Assis, as características que o erigiriam entre
nós, com triunfante projeção nos dias atuais, em gênero literário brasileiro,
confirmando a proposta implícita nos comentários de Machado de Assis.
Evoluindo com o decorrer do tempo, conservaria muito do tom de sua
linguagem coloquial, maneira de voltar-se para a comunicação imediata e
direta, chamando o leitor à reflexão, ao envolvimento em atmosfera lírica
ou à abstração. Também, formalmente e de acordo com as conveniências de
expressão e comunicação, absorveria características, embora fragmentárias,
de outros gêneros. Seria recurso para vencer a
monotonia que pudesse resultar de uma uniformidade repetidamente
oferecida ao público. Por exemplo, Alencar, em um de seus folhetins em
forma de carta, observava em P. S.N--, ____

(...) A liberdade do folhetinista é ilimitada, a carta longa: portanto escreva-lhe cm cima


o nosso título - ao correr da pena - e mande para a composição. Não deixe transpirar coisa
alguma; e amanhã o leitor com toda a sua finura pensará que isto foi uma ideia original que
tivemos175.

As características gerais do folhetim acima indicadas, reconfirmadas


por Machado de Assis, são as mesmas do folhetim cultivado por Alencar
de 1854 a 1855, portanto, nos momentos de definição do novo gênero entre
nós. Alencar o cultivou em importante jornal da época, o Correio Mercantil do
Rio de Janeiro, onde iniciou a carreira de jornalista e escritor a convite de
Francisco Otaviano de Almeida Rosa. A seguir, ao passar a redator-gerente
do Diário do Rio de Janeiro, continuaria a escrever crónicas sob o mesmo título
geral de “Ao Correr da Pena”, mas logo definitivamente interrompidas176.
Machado de Assis, cronista, com ação pelo resto do século XIX, es-
treou também na época de Alencar. Sua atividade regular datou de 1876,
com “Histórias de Quinze Dias”, prosseguiu com “Notas da Semana” a
partir de 1878, “Balas de Estalo” de 1883 a 1896, “Bons Dias” de 1888/ 1889,
finalmente com a “Semana” de 1892 a 1897177. Ultrapassou os limites e as
limitações do Romantismo e caracterizou o gênero entre nós de maneira
definitiva.

175 José de Alencar, op. cit., pp. 32-33.


176 V. José de Alencar, op. cit., eAo Correr da Pena- Crónicas publicadas no Correio Mercantil, de 3 de setembro de 1854
a 8 de julho de í 855, e no Diário do Rio, de 7 de outubro de 1855 a 25 de novembro do mesmo ano, ambos os
jornais do Rio de Janeiro, prefácio de Francisco de Assis Barbosa, São Paulo, Melhoramentos, s. d.
177 V. Machado de Assis, op. cit.-. Crónicas, 4 vols, e A Semana, 3 vols, das edições Jackson; Crónicas de
l. /iio, org., prefácio c notas de R. Magalhães Júnior, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958; e Ditptnot
de... (coligidos c anotados por Jean-Michel Massa), Rio de Janeiro, Instituto Nacional do livro, 1965.

O ri UlODO OU O PERIODO NACIONAL - I - O SÍCUI O viv R *


Muitos outros nomes de escritores da época romântica im a
crónica, mas aqui nos restringimos aos exemplos de José de e de
Machado de Assis, a serem reconsiderados mais à frente.
Citemos ainda Joaquim José da França Júnior, comediógrafo que se inicia
sob o chamado “realismo” que caracterizou o teatro nos momentos finais
do Romantismo. Foi em fins da década de 70 que ele começou a cultivar o
folhetim de costumes, colaborando na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro’8.
Em alguns casos, a crónica apresenta íntima relação com a obra de
criação - narrativa ficcional e teatro. Oferece-lhe rica matéria social, tam-
bém política e mesmo económica, nos limites de época em que se situa. Há
ainda os aspectos da linguagem, cujo exercício contínuo visava à graça, ao
humor, à leveza da crítica e da caricatura, ao diálogo com o leitor. A
crónica contribuiu consideravelmente para a diferenciação e conquista da
nossa linguagem literária, além de refletir, com o tempo, um forte conteúdo
lírico. 178

178 V. França Júnior, op. cit., e Folhetim, prefácio e coord. de Alfredo Mariano de Oliveira, 4. ed. aum. com
folhetins publicados nos jornais O Globo Ilustrado, O País e o Correio Mercantil\ Rio de Janeiro. Jacinto Ribeiro
dos Santos, 1976.
CAPÍTULO X
CAPÍTULO X

PRODUÇÃO LITERÁRIA DO ROMANTISMO DE ÉPOCA - 22 AUTOR-SÍNTESE: JOSÉ DE


ALENCAR - SEU PROJETO DE LITERATURA

NACIONAL E SUA OBRA

efeitos da reforma romântica liderada por Gonçalves de Magalhães, e


proclamada em 1836 com Suspiros Poéticos e Saitdadesi-htíçp a seguir
testemunhou o sucesso de A Moreninha e
da poesia de Gonçalves Dias. Sob o clima de exaltação nacionalista, já no 179

179 O que se segue é assumo que já abordamos mais dt- uma vez, e sempre reformulando. Cf. “Bibliografia e
Plano das Obras Completas de José de Alencar”, em Boletim Bibliográfico, vol. XIII, 1949, Publicações da
Biblioreca Pública de São Paulo; “A Literatura Brasileira do Romantismo ao Modernismo —Teoria e
Ideologia”, I e II, em Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, citados; “ Iracema e o Indianismo de
Alencar”, em Iracema, Edição do Centenário, org. por M. Cavalcânti Proen- ça. Rio de Janeiro, José Olympio,
1965, pp. 270-280; e na forma final aqui apresentada reproduz na parte inicial o ensaio - também revisto -
“Projeto de Literatura Nacional de José de Alencar”, em Boletim Bibliográfico, São Paulo, Biblioteca Mário de
Iracema, ed. cit., e outro sobre
Andrade, vol. 38, jul.-dez. de 1977, pp. 17- 32, seguindo-se-lhe o ensaio sobre
Senhora, divulgado em Misselánea de Estudos Literários (homenagem a Afrânio Courinho), Rio de Janeiro,
Palias, 1984, pp. 223-228.
segundo terço do século, ele principiava suas múltiplas atividades de po-
lítico, publicista, escritor, advogado, homem público180. Elas abrangiam
três etapas interpenetrantes: a primeira, nos limites da infância e adoles-
cência, marcada pela presença em família, envolvida em lutas políticas e
revolucionárias, na província natal e na Corte 181; a segunda, quando estu-
dante em São Paulo e no Recife182, é o momento crítico de formação183; e a
terceira, a contar do início da carreira de jornalista, advogado e político.
Ao fixar-se na Corte, estreia no jornalismo junto ao Correio Mercantile ao
Diário do Rio de Janeiro, nos quais publica crónicas semanais e as Cartas sobre “A
Confederação dosTamoios' (1856)184.
O poema de Gonçalves de Magalhães acabava de sair em luxuosa
“edição imperial”, portanto, ofrcíaímente patrocinada. Representava a
persistência de Gonçalves de Magalhães no desempenho da missão de
reformador, historicamente já cumprida. Retomar este propósito inicial era
um anacronismo, que ia de encontro à progressiva renovação. José de
Alencar também percebeu a ameaça que representava para a nossa litera-

180 Para o conhecimento da bibliografia completa de Alencar, v. José de Alencar, Obras Completas, Rio de Janeiro,
Aguilar, 1965 (4 vols.) e Fábio Freixieiro, Alencar - Os Bastidores e a Posteridade, Rio de Janeiro, Museu Histórico
Nacional, 1977; para a biografia, v. Raimundo Meneses, José de Alencar — Literato e Político, São Paulo, Martins,
1965 (2. ed., Rio de Janeiro, LTC, 1977).
181 Ele o diz em carta a Joaquim Serra: “Em minha infância, passada nas cercanias da lagoa de Mecejana (...)
quase todas as noites, durante os invernos, ouvia eu ao nosso vaqueiro o romance ou poemeto do Boi Espácio"
(v. José de Alencar, Obras Completas, ed. cit., vol. 4, p. 968). E evoca a tradição familiar, escrevendo a biografia
de seu pai, José Martiniano de Alencar, revolucionário de 1824, Governador do Ceará, Senador do Império.
182 Inicia-se com a leitura de Macedo a Alexandre Dumas, Alfredo de Vigny, Chateaubriand, Victor Hugo,
Lamartine, Balzac, sobre os quais comenta: “A escola francesa que eu então estudava nesses mestres da
moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde de romance, (...] fui encon- trá-lo fundido com
elegância e beleza que jamais lhe poderia dar”. Acrescentando: “O romance, coitro eu agora o admirava,
poema da vida real, me aparecia na altura dessas criações sublimes, que a Providência só concede aos
semideuses do pensamento” (v. José de Alencar, Obras Completas, ed. cit., vol. 1, p. 139).
Araripc Júnior nos informa do cuidado que Alencar teve com o estudo e domínio da língua, “copiando
trechos de João de Barros e Damião de Góis, decompondo os períodos monumentais desses ■ a rilorrs,
diluindo frases, compondo de novo, buscando com paciência beneditina descobrir o sego do da
originalidade dos seus dizeres tão pitorescos" (v. Araripe Júnior, José de Alencar, 2. cd„ Rio d, lanrirn,
Pauchon, 1894, p. 14).
li r I dr Alencar c outros, A Polêmica sobre “A Confederação dos Tamoios", ed. cit.
Renato de José de Alencar, d.
“Edição do Centenàrio” de Iracema,
organizada por M.
( Cavalcanti Proença, Rio de
Janeiro, José Olympio, 1965.

tura o mecenatismo tio jovem imperador Dom Pedro II, ainda alvo de
uma prática laudatoria ultrapassada. Mas não se deteve neste problema.
O importante era não alimentar fantasmas, cessar o elogio fácil e analisar
com isenção os modelos de reforma apresentados. Em suma, alimentar a
consciência crítica interna. Mas surgem os defensores de Gonçalves de
Magalhães e com eles a primeira e mais importante polêmica do nosso
romantismo, de significado relevante e indispensável ao estudo do india-
nismo como ideologia e poética romântica. E o primeiro grande prefácio
de Alencar ao que ele mesmo viria a escrever, em particular aos romances
chamados indianistas - O Guarani, Iracema e Ubirajara. Teria inspirado
mbém o plano do poema Os Filhos de Tupã e, no mesmo ano de 56 ira 57,
propulsionado a elaboração e publicação de O Guarani.
Definia-se uma carreira que desde então seria marcada pela crítica ■
autodefesa, na literatura e na política. Destacamos ainda mais dois
omentos de polêmica e também em defesa própria, entre 1871 e 72,
sencadeado pela crítica já mencionada do escritor português José liciano
de Castilho, então no Brasil, com a colaboração do nosso ro- incista
FranklinTávora, através das Questões do Dia. Investiram contra )bra de
Alencar, quer dizer, contra o nacionalismo romântico e contra inguagem
literária brasileira, da qual Alencar oferecia o modelo e na al se
aprofundava em estudos e pesquisas que iam até à poesia popu- . Pouco
depois, em 1875, a propósito do drama O jesuíta, Joaquim ibuco se
voltava contra o escritor, provocando outra polêmica 7.
Do que ele escreveu em autodefesa e esclarecendo seus objetivos de t
itor, em primeiro lugar destacamos o prefácio “Bênção Paterna” ao
n.mce Sonhos d’Ouro, de 1872. Datado do auge da carreira literária e iximo
da sua morte, este prefácio é de inquestionável importância para ilicar o
que o ficcionista escreveu - e ainda escreveria8. Confirma tam- m a
impressão de que o escritor foi portador de uma inteligência in- tiva que
inspirava seu pensamento reflexivo e sua criação, de maneira onduzi-lo
para uma realização abrangente. A posteriori, ele mesmo a onheceu como
um projeto totalizador e sintético da visão humana e valores e tradições
da nossa sociedade, do estratificado às mudanças, rural ao urbano, e da
nossa história das origens ao presente. Debaixo ;ta perspectiva,
tentaremos redelinear o painel que ela compõe, dando

lcconheccndo-se injusto, Joaquim Nabuco escrevia em A Minha Formaçãcr. “Travei com José de dentar uma
polémica em que receio ter tratado com a presunção e a injustiça da mocidade o granir CM ntor, - digo receio,
porque não tornei a ler aqueles folhetins e não me recordo até onde foi a ninha critica, sc cia ofendeu o que
há profundo, nacional, em Alencar: o seu brasileirismo. (Cf. aluiu m Aliánio Cominho, A Polêmica Alencar-Nabuco,
ed. cit., p. 1 1 . )
i« IIMque o primeiro a reiterar c defender a importância deste prefácio foi Olívio iMontenegro, O tomam r
Hnuileiro As Suas Origens e Tendências, Rio de Janeiro, José Olympio, 1938, pp. 37-47 e
relevo apenas aos componentes essenciais de sua extensão e complexidade
c readmitindo a classificação tradicional dos romances de Alencar em
indianistas, históricos, sertanistas e urbanos.
Com relação à própria obra, Alencar reconheceu três momentos da
nossa formação: O primeiro, o das lendas e mitos da terra selvagem e conquistada'^.
O segundo representado pelo Consórcio do povo invasor com a terra americana,
marcado pela assimilação mútua de conquistador e conquistado, de
maneira a alimentar o processo da gestação lenta do povo americano que devia sair
da estirpe lusa, — esclarece - para continuar no Novo Mundo as gloriosas tradições de seu
progenitor. O terceiro, a contar da Independência, voltado para a sociedade
brasileira contemporânea, urbana e rural.
Os dois primeiros períodos, contudo, são passíveis de reinterpreta-
ção desde que reapreciemos suas características em confronto com as
obras correspondentes apontadas por Alencar: O Guarani, Iracema e Ubirajara.
Rompemos a cronologia de suas edições mas não descartamos a unidade
das três obras, que compõem de fato uma trilogia, ao mesmo tempo que
admitimos a distinção seguinte: 1. No caso específico de Ubirajara,
reconhecemos o predomínio da poética indianista, exclusivo e retroativo à
nossa pré-história, que, considerada em si mesma, mantém traço de união
com as outras duas narrativas. Ubirajara, em tempo e espaço pré-colonial,
corresponde àquele primeiro período da proposta de Alencar, o “das
lendas e mitos da terra selvagem e conquistada”, quer dizer, a ser
“conquistada”. É a antevisão dos nossos primórdios americanistas. 2. O
Guarani e Iracemayk inserem na temática indianista a retrovisão histórico-
colonial, aproximando-se da narrativa de preponderância histórica, a
exemplo de As Minas de Prata, que, conjuntamente com outras, configura o
segundo período dito do “consórcio do povo invasor com a terra
americana”. A temática correspondente a este “período” passa a represen-
185

185 Os trechos grifados, daqui em diante, são transcrições textuais do prefácio “Bênção Paterna”, em Obras
Completas, cd. cit., vol. 1, pp. 691-702.
iativa do colonialismo, pelo que reconhecemos nele dois subgrupos de
narrativas: 2.1. Um com O Guarani (1857) e Iracema (1865), equilíbrio da poética
indianista com o modelo de narrativa histórica do Romantismo; 2.2. outro
sob predomínio do modelo histórico, com As Minas de Prata (1862; 1864-1865),
Alfarrábios — Crónicas dos Tempos Coloniais {O Garatuja, O Ermitão da Glória e A Alma do
Lázaro, 1873); A Guerra dos Mascates (1873-1874); e o drama histórico O Jesuíta
(1875). Desdobrando-se a sequência do painel, admitimos que O Guarani e
Iracema inter- medeiam a ligação do primeiro com o segundo período.
1 e 2. O primeiro período e o início do segundo - Eles se inter-relacionam,
conforme vimos, pela trilogia Ubirajara, O Guarani e Iracema, voltada para o
indianismo, específico na primeira narrativa e predominante nas outras duas.
Seu fundamemarepousa na poética indianista das Cartas sobre “A Confederação dos
lamoios ” e no plano de elaboração do poema épico Os Filhos de Tupã.
0 projeto deste poema de conteúdo indianista, talvez seja melhor dizer
americanista, era realmente ambicioso. Alencar chegou a iniciá-lo, mas o
abandonou em virtude das dificuldades de exprimir-se em versos. Vocação
de prosador, certo que de acentuada sensibilidade lírica, ele tenderia antes
para a expressão livre da sua prosa renovadora, favorecida pelo
Romantismo. Ele mesmo nos esclarece na “Carta ao Dr. Jaguaribe”, espécie
de prefácio a Iracema, referindo-se ao poema:

É, como viu e como então lhe esbocei a largos traços, uma heroica que tem por assunto as
tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse
gênero de literatura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces
arroubos da juventude. Suporta-se uma prosa medíocre e até estima-se pelo quilate da ideia: mas
o verso medíocre é a pior triaga que se possa impingir ao pio leitor.
(iomcti a imprudência quando escrevia algumas cartas sobre A Confederação dos Hnnoios de
dizer: ‘as tradições dos indígenas dão matéria para um grande poema que liilve/ um dia alguém
apresente sem ruído nem aparato, como modesto fruto de suas vigília»',
1 .i li to bastou para que supusessem que o escritor se referia a si, e tinha já cm
.. ....... poema: várias pessoas perguntaram-me por ele. Meteu-me isto em brios literá-
rios: sem calcular das forças mínimas para empresa tão grande, que assoberbou dois ilustres
poetas, tracei o plano da obra e a comecei com tal vigor que a levei quase de um fôlego ao quarto
canto.
Esse fôlego susteve-se cerca de cinco meses, mas amorteceu, e vou confessar o motivo.
Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos literários, uma espécie de instinto
me impelia a imaginação para a raça selvagem indígena. Digo instinto, porque não tinha eu
então estudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma literatura; era
simples prazer que movia-me à leitura das crónicas e memórias antigas.
Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as produções que sc publicavam sobre o
tema indígena; não realizavam elas a poesia nacional, tal como me apara ia no estudo da vida
selvagem dos autóctones brasileiros. Muitos pecavam pelo abuso dos termos indígenas
acumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da língua portuguesa, como
perturbava a inteligência do texto. Outras eram primorosas no estilo e ricas de belas imagens;
porém falta-lhes certa rudez ingénua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos
indígenas.
[-]
conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura.
Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu
pensan^nto, as tendências de seu espírito, e até as menores particularidades de sua vida. É nessa
fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há de sair o verdadeiro poema nacional, tal
como eu o imagino186 187.

O que Alencar se propunha realizar em Os Filhos de Tupã, nos limites do


espaço americano nos remete ao “Génesis”: sua visão partiria da criação do
homem, ou melhor, o americano; atingiria o dilúvio universal e a seguir o
repovoamento continental, até aqui conforme com as tradições indígenas das
origens; finalmente a presença do invasor europeu, o surgimento e definição
da nacionalidade brasileira11. Das proporções grandiosas da antevisão, ele
passaria aos limites do verossímil, para configurar a génese do nosso povo.
Em primeiro lugar, reconhecemos que parte inicial do plano do poema sem
dúvida inspirou Ubirajara, por nós já considerado o primeiro da “trilogia
indianista”. Também é certo que nestas três narrativas se disseminam
sugestões tomadas ao projeto do po
cma. Alencar a seu gosto cede à flexibilidade da prosa, favorável à clareza
das imagens indígenas, também favorecido pelas suas pesquisas lingüísticas
em busca da modalidade brasileira da língua portuguesa.
Ubirajara, abrindo a trilogia, propõe espaços primitivos e grandiosos da
terra selvagem a ser conquistada. Os componentes da paisagem física
equilibram-se com as reservas de energia inesgotáveis do autóctone, titânico
e invencível, banhado pelo sol e alimentado pela caça, abatida pelo braço
capaz de esmorecer o jaguar. Mas nada se acumula ou se empasta no painel
formado por elementos de imponente beleza, envolvendo seres primitivos de
gestos leais e tradições guerreiras, com a presença lírica da mulher escolhida.

186 V. José de Alencar, Obras Completas, ed. cit., vol. 3, pp. 305-306.
187 Idem, op. cit., vol. 4, pp. 557-560 e ss.
A concepção tradicional do herói, tomada aos poemas épicos clássicos,
funde-se com ideais cavalheirescos, no sentido de acentuar a seleção de
valores e sentimentos comuns. E o que acontece com a coletividade converge
para o herói, soma das qualidades e destinos de sua raça. Daí a depuração de
linhas e relevos, luz e cor, naquele painel em que o dinamismo da ação épica
é desimpedido e inspirado essencial mente na índole guerreira do selvagem
americano, paralelamente com o poder estimulante da presença da mulher.
Em perspectiva americanista, sugere-nos o homem refeito após o dilúvio ou
às vésperas da extinção de nações que se fundiriam em nova nação. Ubirajara
corresponderia, por isso mesmo, à realização literária parcial do plano épico
de Os Filhos de Tupã. Admitida a inversão da cronologia das edições, equivale
ao introito de O Guarani e Iracema.
Em O Guarani, misto de ficção histórico-indianista, já reconhecemos as
intenções apontadas em Ubirajara, de criação do herói clássico, síntese de
valores e aspirações coletivas. Ele é o liame entre a natureza ainda selvagem e
primitiva, em que se situa, e a presença do adventício, portador de valores e
ideais conforme suas origens peninsulares. Prende- s e á tradição
cavalheiresca, entre ambições e traições em confronto com i lealdade c o amor
do autóctone. É um suposto flagrante de duas cultu- t a s a s e fundirem para
uma civilização nova. Ainda nos remete a Ubira- l.iia, e também a Iracema:
justapõe a dupla visão épica e lírica do herói e
da heroína, ressalvada a diferença fundamental de que neles ambos so-
breviverão, projetando valores, tradições e sentimentos pelo decurso daquela
“gestação lenta do povo americano”, sugestão final da narrativa, em que, na
opinião de Machado de Assis, Alencar compõe uma das mais belas alegorias
da nossa literatura. Sem dúvida inspirou-se na versão indígena do
repovoamento da terra após o dilúvio universal 188.
Iracema apresenta de maneira condensada características dos dois

188 Machado de Assis refere-se à página final de O Guarani, associando-a à projeção de Alencar na posteridade: “[...)
O autor dc Ira cr ma c do Guarani pode esperar confiado. Há aqui mesmo uma inconsciente alegoria. Quando o
Paraíba alaga tudo, Peri, para salvar Cecília, arranca uma palmeira, a poder de grandes esforços. Ninguém
ainda esqueceu esta página magnífica. A palmeira tomba. Cecília é depositada nela. Peri murmura ao ouvido
da moça: Tu viverás, e vão ambos por ali abaixo, entre água c céu, até que se somem no horizonte. Cecília é a
alma do grande escritor, a árvore é a Pátria que a leva na grande torrente do tempo. Tu viverás." Machado de
Assis, Critica Literária, cd. cit., p. 348.
romances - Ubirajara e O Guarani, às quais não deixamos de associai .1 presença
dos sentimentos mais íntimos do autor voltados para o berço natal,
reminiscências da sua paisagem, de tradições orais, acumuladas na infância.
Esta narrativa, sem dar vulto ou ênfase às proporções ambii 10 nadas em
Ubirajara e às preocupações históricas e de densidade de O Guarani, se
apresenta desde as primeiras páginas sob a pressão pungente da nostalgia,
do fatalismo, da resignação. Seu argumento depurado ou reduzido ao
essencial, flui sobre inspirações líricas, também envolvendo o épico e o
histórico com significados idênticos aos das outras duas. Para dar destaque
ao herói e à heroína, o primeiro representação do adventício, a segunda, do
autóctone, em comunhão com a beleza plástica e luminosa da paisagem, em
encontro de amor e predestinação eles também se perpetuarão, mas agora
simbolicamente na figura do descendente. Configuram a “lenda” — “lenda
do Ceará” - que, a partir de dado instante histórico, passa a traduzir a
significação mais profunda da sentimentalidade e do destino de um povo
mestiço - aquele que habitará a “pátria” do poeta.
Ao chegarmos ao fim do romance-poema de Alencar, nos surpreen-
demos com a impressão de que elementos dispersos da paisagem conjun-
tamente com o quadro do desfecho da ação recompõem o seu painel de
crtura. Antes iluminado e colorido, ele desdobra-se em impregnações
stálgicas motivadas pela inevitável fuga, quer dizer, “retorno” do he- -
adventício. O seu deslocamento pelo espaço imenso entre o mar e o t, não
perturba o silêncio, mas acentua a sensação de solidão e de tris- a de
quem parte e de quem fica. Na terra, restariam os valores fecun- los pela
hospitalidade e pela aceitação do inevitável. É uma concepção nântica -
em que pesa a sentimentalidade - dos que desaparecem para •m
continuados pela reconstrução. Também com a mesma conotação
náutica, arremata-se a “lenda” constituída pela narrativa, antevisão
doininantcmente lírica do momento originário da formação de nosso o 1
aqui novo paralelismo com O Guarani.
(ptíg. ao lado) Iracema, quadro de J.
Mcdciro, cf. “Edição do Centenário",
cit. O original pertence ao Museu
Nacional.

(à dir.) Detalhe do monumento a José de


Alencar, em Fortaleza, de autoria do
escultor Humberto Cozzo, cf. “Edição
do Centenário”, cit.

Em termos românticos, ao passar do projeto do poema épico para a


narrativa em prosa, Alencar encontrava a solução de dar forma literária e
artística à confluência de elementos dispersos de lendas e tradições. O crivo
artístico da recriação seria alimentado pela sensibilidade e imaginativa, pela
sentimentalidade e visão da fusão do homem americano com o europeu, até
ao reconhecimento já avançado da nossa formação.
Ele desdobraria a perspectiva da trilogia através de outras narrativas:
As Minas de Prata, A Guerra dos Mascates, os Alfarrábios e mesmo o drama O Jesuíta,
também sob a inspiração do sentimento nacionalista cultivado pelo
Romantismo em geral, voltado para a exaltação ou valorização do passado
lendário de cada povo. Mas para tanto é preciso que
nao esqueçamos as distinções na unidade histórica do painel: romance
puramente indianista do primeiro período, romances indianistas-histó- ricos
a seguir e finalmente os predominantemente históricos, do segundo período.
Se, quanto ao primeiro, a criação exclusivamente indianist^ deriva em linha
reta da poética conforme as Cartas sobre "A Confederarão dos Tamoios", quanto ao
segundo, lembramos outras fontes; a Bíblia, i poesia épica, com Homero, e o
romance histórico romântico, cujos modelos lhe foram dados por Walter
Scott e sobretudo pela ficção his- órico-peninsular de Alexandre Herculano.
Para comunicação do senti- nento da paisagem, encontraria inspiração em
Chateaubriand e Bernar- lin de Saint-Pierre.

3. O terceiro período orgânico. Conforme Alencar, datado a partir la


Independência, é considerado sob duplo aspecto: 3.1. O primeiro cor-
esponde à infância da nossa literatura. É a persistência, em sua pureza mginal, sem mescla, do
viver singelo dos nossos pais, tradições, costumes e inguagem, com um sainete todo brasileiro'3.
3.2. O segundo, mas simul- aneamente com o anterior, exprime as alterações,
isto é, as mudanças |ue se processam no viver brasileiro. É a consequência da luta
entre o escrito conterrâneo e a invasão estrangeira, inevitável numa sociedade que em a fisionomia
indecisa, vaga e múltipla, tão natural à idade da adoles- ência. As influências são de várias
nacionalidades adventícias: é a inglesa, italiana, a espanhola, a americana, porém especialmente a
portuguesa e francesa, que todas flutuam, e a pouco vão-se diluindo para infundirse alma da
pátria adotiva e formar a nova e grande nacionalidade brasilei- i. Evidentemente, esta
bifurcação se refere, por um lado, ao Brasil ■rtanista e provinciano, por
outro, ao Brasil-Corte, isto é, ao Rio de ineiro. Contamos, então, com dois
agrupamentos de romances:
3.1. — Narrativa social rural: 1. O Gaúcho (1870), 2. O Tronco do (1871), 3.
Til(1872) e 4. O Sertanejo (1875).

Vri «i.> I . I 10 III HIC capitulo.


3.2. - Narrativa social urbana, com ambientação na Corte - Rio de
Janeiro: 1. Cinco Minutos (1856), 2. A Viuvinha (1860), 3. Lucióla (1862), 4. Diva
(1864), 5. A Pata da Gazela (1870)) 6. Sonhos d’Ouro, 7. Senhora (1875), 8. Encarnação
(ed. postuma, 1893, publicada em vida do autor em folhetim no Diario Popular).
A estes romances podemos acrescentar o teatro: 1. O Demonio Familiar (1857), 2.
Verso e Reverso (1857), 3. As Asas de um Anjo (1860), 4. Mãe (1862).
No romance de ambientação rural, Alencar amplia o cenário da re-
presentação do Brasil parcialmente delineado em termos lendários e míticos
ñas narrativas indianistas e históricas. Não dispensa, porém, o lendário e o
mítico, embora seu objetivo fundamental seja dimensionai o homem e a
paisagem interiorana, de maneira abrangente e contrastante, às vezes
relacionados com o urbano metropolitano ou provinciano. Esboça uma
galeria de tipos — o “senhor” proprietário, peão gaucho, o vaqueiro
nordestino, também a presença do animal selvagem ou domesticado. As
raízes dos padrões e valores deste universo provêm da nossa formação
colonial.
Certamente os quadros geográficos em que se situam aqueles romances
não seriam marcados pelo realismo da descrição como em outros romancistas
do momento. Meio físico para Alencar é cenário aberto em três grandes
dimensões - terra e céu e entre terra e céu o espaço imensurável da liberdade,
para o grande impulso de vida e ação de seus heróis portadores de gestos
cavalheirescos, destemor, generosidades, amor não raro contido, marcado
pela renúncia, pela abnegação. Mas essas impressões partem da realidade e
assim é possível reconhecê-las. No caso das narrativas sertanistas,
distinguimos muito bem o que é do Rio Grande do Sul - dos pampas, do
extremo Sul do Brasil; o que é das províncias de São Paulo e do Rio de
Janeiro; o que é dos sertões cearenses. Por estes espaços se situam O Gaúcho,
Til, O Tronco do Ipê, O Sertanejo. Nos dois extremos, a rusticidade dos hábitos e
costumes; no centro, um estágio evoluído cuja atmosfera já comunga com os
hábitos e costumes da Corte, em mudanças. E a preocupação do
enraizamento colonial para acen-
uar o que há “de viver brasileiro” naquelas narrativas é tão dominante )ue
uma delas, O sertanejo, se apresenta com acentuadas características lo romance
histórico do Romantismo. É curioso lembrar que suas ori- çens se prendem a
reminiscências da infância do escritor, quando ele se leixava emocionar
ouvindo o romance popular do Boi Espácio, que ele »reservou, divulgou e
reelaborou na criação do “Boi Dourado”. Inspira- e na memória coletiva,
enraizada numa das riquezas da nossa economia - o ciclo do gado, criado
livre e selvagem em espaços imensos, o gado iarbatão, indo até às suas
origens, do século XVII ao XVIII. E nos deu íais um exemplo, o dessa
temática que se imporia na ficção brasileira té Hugo de Carvalho Ramos e
Guimarães Rosa, antecedidos por Inglês e Sousa e narradores gaúchos.
Porque os outros romances também xemplificam tratamento temático
“regionalista”, à medida que dão ên- ise à visão do patriarcalismo rural,
latifundiário e escravocrata e aa po- erio desses grandes proprietários rurais.
José de Alencar situou na Corte todos os romances do grupo “nar- itiva
social urbana”. Eles acentuam perfis femininos esboçados sob a são
romântica e mesmo romanesca do comportamento afetivo e soci- da mulher.
São passíveis e merecedores de análise em que avulte, em inteiro plano, a
presença da mulher numa sociedade em mudanças, arcada pela ascensão da
classe burguesa de comerciantes e banqueiros iriquecidos honesta ou
inescrupulosamente, ao lado da classe aristo- atizada ligada à economia
rural, tanto uma quanto a outra à procura ! títulos de pseudonobreza ou de
posições de relevo na vida pública e is profissões liberais. Contava também
com ociosos dados aos praze- i sensuais ou a parasitas aproveitadores de
oportunidades. É esse o lindo complexo que os romances sociais de
ambientação urbana deli- iam. Predomina neles o elegante, o bem vestido,
calçado e perfuma- por Paris, os freqiientadores assíduos de óperas, de
saraus familia- i, de passeios à inglesa, de jantares em hotel da moda ou de
noitada, •gói ios, interesses recíprocos ou individuais, com a mira no dinhei-
sc misturam com o objetivo matrimonial. Mas existe uma força coer- 189

VrA
189 KlODO OU O PERI ODO NACI ONAI ... i n (írm r\ v.
citiva - o amor, suficiente para restabelecer o equilibrio do ideal afetivo com a
sociedade e mesmo de reabilitar o indivíduo que com ela se de- grade(E ao
demonstrar compreensão bastante avançada da autonomia afetiva da mulher
- espécie de feminismo romântico - ainda reconhecemos em Alencar certa
preocupação psicológica igualmente romântica, a fisiologia de que ele falava190.
.É a dissecação descritiva dos sentimentos, mais exteriorizados do que
íntimos, equacionando temperamento, personalidade, comportamento
individual com educação, nível social, mudanças sociais, tudo sempre sob o
poder auto-identificador, reabili- tador e humanizador do amor em que pesa
a autenticidade afetiva a par com o equilíbrio moral, a moral romântica.
A Além da importância que damos a Como epor que Sou Romancista, ponto de
partida para a análise de qualquer obra do romancista, consideremos a mais,
para o caso específico das narrativas de ambientação urbana, os “folhetins”
ou crónicas semanais de Ao Correr da Pena, publicadas inicialmente no Correio
Mercantil. E do grupo de narrativas urbanas - Cinco Minutos, A Viuvinha, Lucióla,
Diva, A Pata da Gazela, Sonhos d'Ouro, Senhora, Encarnação - consideramos Senhora
demonstração de criação romântica e de visão social contemporânea no
projeto de literatura nacional do romancista. Lembremos de início uma das
crónicas, datada de 31 de dezembro de 1854, em que Alencar se vê
dialogando com um ser misterioso, representação do tempo, portador da
experiência de todas as glórias vividas, com o seu cortejo de ambições e
decepções, também de amor e ilusões. É na contra-resposta, em diálogo, que
Alencar exprime a sua concepção essencial da condição humana:

— Meu caro senhor, sinto dizer-lhe que o senhor, embora me desse alguns mo-
mentos de prazer, contudo fez-me muitos males, e um principalmente que eu não lhe
posso por maneira alguma perdoar.
— Qual, senhor?
— O ter-me feito mais velho um ano.
O homem ficou fulminado. Eu continuei:
- Roubou-me uma boa parte daquelas doces ilusões dos primeiros anos da
mocidade; desfolhou-me algumas dessas flores que nascem nos seios d’alma,
orvalhadas com as primeiras lágrimas do coração, e que perfumam os sonhos mais
belos desta vida.
UI
O que há neste mundo que valha os nossos sonhos cor-de-rosa, as nossas noites

190 Cf. José de Alencar, Obras Completas, cd. cit., vol. 1, p. 1 2 1 2 .


d ; mtlOlH) Ol) O PPRfnnn WAí-iriKi»! I
de plácida contemplação, os idílios suaves de nossa imaginação a conversar com algu-
ma estrela solitária que brilha no céu, semelhante a essas amizades santas.
[...]
- Não. Com os anos aí vêm os pensamentos sérios, as grandes coisas, a glória, a
ambição, a política, as honras, os estudos graves. Confesse que isto vale mais do que
todas estas frivolidades que preocupam o espírito da mocidade, e com as quais se
gasta o tempo inutilmente.
- Chama a isso frivolidade? O que é então que há neste mundo de sério e de
real? A glória, porventura? É interessante; trata-se de bagatela o amor, as verdadeiras
afeições, as mais belas expansões de nossa alma.
[■••]
Entretanto vós, homem sério e grave, que calculais refletidamente, que do alto
da vossa importância lançais um olhar de desprezo para essas futilidades do mundo,
que fazeis vós?
Sacrificais a vida, a preguiça, o prazer, como diz Alfonse Karr, para um dia atar
à gola da casaca uma fita de uma certa cor. Enquanto nós suplicamos um sorriso de
uma bela mulher, vós dareis um dedo da mão pelo sorriso do ministro ou do
conselheiro de Estado.
Desprezais a moda; é uma coisa ridícula, mas sonhais noite e dia com a farda
bordada. [...] vós renegais os amigos, prostituís a consciência unicamente para ter o
prazer de ouvir (que glória!) um passante dizer-vos - Sr. Barão.
Oh! Se tudo é ilusão e quimera neste mundo, meu Deus, deixai-me os lindos
sonhos da mocidade, deixai-me as visões poéticas de meus vinte anos, as minhas
horas de cismar, deixai-me todas estas futilidades, e reservai para outros as coisas
sérias, calmas e refletidas. Mas isto é um vão desejo [...]15.

Desta citação, combinada com a definição de romance dada por Alencar


“poema da vida real”, podemos inferir a posição existencial que teria
presidido as representações dos universos ficcionais do romancista. Coloca-
se em perfeita consonância com a idealização romântica. Machado de Assis
mais tarde se colocaria em ângulo idêntico, embora sob pre- 191
paro filosófico que Alencar desconhecera. Sob os toques líricos de sensi-
bilidades distintas, mas sob a certeza comum das mutações impostas pelo
escorrer do tempo ou sob o compasso das repetições inesgotáveis, o cerni é
que para ambos, Alencar e Machado, a visão existencial do homem se reduzia
às aspirações do amor e da glória. Na verdade, uma e outra s.io ilusões que
alimentam a existência ou que impulsionam nossa conduta e podiam atuar
isoladamente ou em harmonia. Mas também podiam tornar-se conflitivas
entre si, sobretudo por ser uma do domínio do universo individual, girando

191 Itlrm, op. eli., voi. 4, pp. 713-714.


a outra nos limites das relações sociais. No caso de conflitos, é possível
romper tensões, estabelecer equilíbrio? A ivs posta - e uma vez que evocamos
Machado de Assis ao lado de Alem ar está em cada um dos romancistas. Ela
decorre da evolução de uma con ccpção inicial do homem e da vida, ao
mesmo tempo que do exercido contínuo da reflexão sobre a criação do
universo ficcional. Quanto a José de Alencar, é certo que a visão lírica,
geradora do mito amoroso, ou do amor regenerador e^reparador, à maneira
romântica, opõe-se às ambições tla glória e termina triunfando por força de
seu poder regenerador e reparador. Dessa maneira, alimenta-se a ilusão
existencial, ao mesmo tempo que se resguardam valores.
Em Alencar, sendo próprio do romance romântico e de todo o romance
do século XIX- naturalmente feitas as exceções, caso de Machado de Assis - o
social sobrepôs-se ao individual. Por isso mesmo, sua visão existencial, nos
termos da concepção acima ressaltada, subordina-se à tentativa de
representação do comportamento e da condição individuais em relação com
o social. Em outras palavras, tende a reduzir o indivíduo à matriz ou
estereótipo. Resulta daí o seguinte esquema, chave de todo o seu romance
aqui dito social-urbano: individual + individual social, ou seja, configurações
de universos individuais de aparente ou de relativa autonomia, são postos
em confronto com o todo da sociedade. Universos individuais equacionam-se
entre si para se equacionarem com o sistema vigente gerador de conduta.
Reconhecemos, portanto, que o universo ficcional do romancista caminha do
nível individual ao nível

d ; mtlOlH) Ol) O PPRfnnn WAí-iriKi»! I


SENHORA
ífwfil de mulher

»*XT»X-XO^OO
POR

G. M.

8» bt |aneiro
B. L. GARNIER
LIYUIBO-EDITO* DO INSTITUTO HIITDUW
#9, Ru» d« Ouvidor, 09
isrí
Senhorti, tie Josc de Alencar.

das contingências humanas em geral. E se avançarmos, somos levados, por


um lado, à investigação das noções de tempo e de espaço interiores, em
termos de indivíduo, e por outro lado à definição ou delimitação de tempo
e de espaço exteriores, em termos de cronologia e condicionamento. Talvez
seja o que nos permira conciliar o nível individual com o das inter-
relações, mas sempre sob o predomínio do social sobre o individual.
Mesmo assim, não se verifica o sacrifício do universal gerado em nível
individual.
Pensamos que dentro das possibilidades ainda imaturas da narrativa ficc
ional brasileira, mas desde cedo subordinada à observação e crítica de
nossas estruturas sociais, Alencar teria chegado à realização do modelo do
romance brasileiro de representação da realidade contemporânea versus
tradição. Senhora é o paradigma que destacamos.
A ação delineada em Senhora passa-se no Rio de Janeiro, sede da C !ortc,
O ' l'l ItlODO OU O PF.RlODO NACIONAL - 1 - 0 Sfintin YTV C »
em meados do século XIX. Nas crónicas Ao Correr da Pena, aponíamos aspectos
das observações de Alencar sobre este universo composto dc funcionários
públicos, de titulados pelo Imperador, de comerciantes, banqueiros,
corretores ávidos no mundo dos negócios, que se abria e prosperava, de
moças casadouras freqüentadoras de bailes, da ópera itali ana e do teatro,
elas e os jovens, seguidores do gosto e do luxo parisienses.
I i .i um mundo de diletantismo, aspirações e ambições burguesas em as
tensão sobre uma aristocracia de raízes rurais e também sobre a humil dade
de algumas famílias ainda à sombra de valores passados e tradições, em luta
pela sobrevivência ou adaptação à nova realidade. Esse quadro do cronista
seria desdobrado, ampliado e aprofundado nos romances urbanos. Em
Senhora, o tema investigado é o do matrimónio por amor, sob a ameaça da
instituição do dote. Amor versus ambição, o que equivale a dizer: ameaça de
degradação do amor pela força corruptora do dinheiro, dominante na
ascensão social. Valores a serem preservados entram em choque, sofrem o
impacto de fatores novos no meio das mudanças sociais, propícias às
aspirações de gloria. O desdobramento temático, fazendo girar o eixo amor *-
* indivíduo «-> sociedade <-> dinheiro, estimulado pelo tema central, o amor,
visa paradigmáticamente à autenticidade do universo matrimonial.
Movimentos circulares e cruzados determinam as opções que à maneira
romântica é o triunfo do amor.
O casal, Aurélia e Seixas são duas perspectivas que se harmonizam e se
projetam num universo ideal, com reivindicações de direitos iguais, da
mulher e do homem. O autor nos expõe todos os dados e elementos no
sentido de nos convencer. Aparecem claros, analisados, até mesmo
discutidos, em termos de família, educação tradicional, mudanças, valores
ameaçados. Com tais componentes é que se arma a intriga romanesca, cujos
protagonistas principais compõem a famigerada trilogia
romântica: (o herói), a heroína - reparadora e redentora - Aurélia, o anti-herói
(ou anti-heroína) a ser redimido - Seixas, e o vilão, sempre
irremediavelmente condenado — Lemos. Os demais protagonistas, dentre
tantas matrizes, são indispensáveis ao desdobramento analítico da ação
proposta. São antes agentes ativadores de interdependências, dos conflitos à
harmonia final.

O ' 1'IWlOnO Oll O PPBlono sueiokiii n ri*


Podemos, pois, relembrar a fundamentação inicial que apontamos
indispensável ao estudo da obra de Alencar: modelo romântico europeu
equacionado com o passado e o presente da sociedade brasileira, subor-
dinando-se tudo a uma visão lírica e ideal da vida. ¿Nela, o amor é o único
caminho para atingirmos a autenticidade e preservarmos as boas qualidades
da pessoa humana. Sobrepõe-se ao jogo social das ambições e interesses ou
contra a corrida em busca da glória sob as concessões impostas pelo poder do
dinheiro. O romancista fazia-se assim coerente com a sua sensibilidade
romântica e até mesmo com a extrema suscetibilidade do seu temperamento.
Em identificação profunda com a nossa realidade, projetando-se na visão de
um mundo ideal, conforme o Romantismo, e num momento decisivo de
procura de identidade nacional, Alencar, com seus romances do universo
urbano, ampliava o modelo mais legitima- rnente brasileiro da nossa
narrativa ficcional. A influência em Machado de Assis é evidente na visão
que este último teve da condição humana, como vimos, e também na posição
de crítica social assumida notadamen- te nos romances ditos da primeira
fase192.
***

Com o fim de sua vida em 1877, José de Alencar deixava, simulta-


neamente com auto-reflexões e autocrítica, amplo e diversificado painel do
Brasil. Síntese do romantismo brasileiro, para ele convergiram os esforços
criados e as propostas teóricas e críticas dos escritores anteriores, desde as
nossas raízes. E dele se irradiaram propostas fecundas. Recon-

192 V. Roberto Schwarz, Ao Vencedor as Balatas - Forma Literária e Processo Social nos Inícios do Romance Brasileiro,
São Paulo, Duas Cidades, 1977 e Raimundo Faoro, Machado de Assis: A Pirâmide r o Ihtpétio, São Paulo, Cia. Editora
Nacional, 1974.
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Dedicatória de Mário de Andrade, autógrafa, IEB/USP.

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ceituou a Literatura Brasileira, preocupado com a nossa realidade e com a
extensão geográfica do país marcado por diversidades.
Na sua obra, por convergência e derivação, reconhecemos coordenadas e
posições ideológicas que caracterizan! nossa literatura até hoje: antes dele, o
indianismo descritivo, informativo e de defesa do índio; com ele mesmo, a
visão mítica de nossas origens americanas e passado histórico-colonial; e
depois dele, o indianismo do Modernismo, instrumento da revisão nacionalista
ou de investigação do característico brasileiro. Também relacionado com
indianismo e nacionalismo românticos, o problema da língua portuguesa no
Brasil, sua diferenciação em relação a Portugal, até a conquista de uma
expressão brasileira distinta. Essas preocupações, que começam com os
primeiros românticos, encontram em Alencar seu primeiro estudioso, apoiado
no conhecimento da tradição e em teorias filológicas e lingüísticas da época.
Tornou-se o grande exemplo para modernistas, igualmente preocupados com
o problema, então amadurecido. Conceitua, enfim, tendências da narrativa
ficcional brasileira, voltadas para nossa realidade contemporânea, com seus
contrastes e desequilíbrios. Parte da narrativa social-urbana, com o Rio de
Janeiro considerado ângulo de visão da realidade brasileira, pois para ali
convergiam as atenções das províncias e dali partiam decisões ou modelos
nacionais; e da narrativa social rural e provinciana, acentuando contrastes com
a vida da Corte de então e recompondo ao mesmo tempo valores e tradições,
marcas de estruturas herdadas, persistentes pelo interior do Brasil 17.

I ' MArio de Andrade deixou em manuscrito de Macunaimaa seguinte dedicatória: “A José de Alencar | M I d» vivo que
brilha no vasto campo do céu”. V. ed. crítica deTelê Porto Ancona Lopez, São Paulo. i ix ;/scer-sp, 1978,
p.210.
O ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCULO X I X - Ia
Ou A FALSA RUPTURA

<» .. Ill.lll..
CAPÍTULO XI

1. Novos ESTILOS DE ÉPOCA

Falando sobre a “nova geração”, cuja produção literária, em 1879, já


possibilitava uma visão de conjunto generalizadora, Machado de Assis
escrevia em artigo na Revista Brasileira, 2a fase: “se não tem por ora uma
expressão clara e definitiva, há de alcançá-la com o tempo; hão de alcançá-las
os idóneos”193 194, quer dizer, aptos ou capazes. Mas a eliminação com o passar
do tempo - próximo e curto — dos “não-idôneos”, não os apaga do

193 Machado de Assis, “A Nova Geração”, em Revista Brasileira, Rio de Janeiro, Midosi, 1879, ano I, t.
194 pp. 373-413. Citação da p. 373. Passaremos a citar a reprodução deste ensaio conforme o volume Crítica Literária,
Rio de Janeiro, Jackson, 1938, pp. 187-235.
Frontispício da Revista
Brasileira, 2a. fase, secretariada

REVISTA por Franklin Távora, com sua


colaboração, de Machado de
Assis, Sílvio Romero,

BRAZILEI
Visconde de Taunay, Luís
Delfino, A. J. de Macedo
Soares e outros.

RA
— 4F-—

PRIMEIRO ANNO

TOMO I
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seu tempo inicial. Pois é sabido que eles caracterizam, com acentuado
valor documental, reações e propostas inovadoras, legítimas ou não, de
qualquer forma geradoras de mudanças. E para bem avaliar as transfor-
mações é sempre indispensável repassar tanto as adesões quanto as rea-
ções às novas propostas, aí compreendidos pensamento crítico e estético
ou posições formalistas e preferências temáticas, antes mesmo de serem
reconhecidas através da criação, portanto, quase que lhe servindo de
corolário. Trata-se de fenômeno freqiiente, quase regra, na Literatura
brasileira: ao dar-se início a um novo processo, ativa-se a criação renova-
do!.i ,i partir dos paradigmas externos. Foi assim com o Romantismo e a
chamada reforma “nacionalizante” da nossa literatura, seria agora com
este novo período, que ficaria conhecido pela qualificação de “realista”, e
seria mais tarde com o “Modernismo”.
Reconhecida uma “nova geração”, essa de fins da década de 70,
cumpre investigar origens e intenções iniciais. Também as reações às vezes
pouco convincentes a um Romantismo ainda atuante, uma vez que aquela
geração emergeria sob o peso de modelos poderosos, como o de Victor
Hugo2. Sílvio Romero afirmaria que a reação ao Romantismo no Brasil
principiou com o movimento de renovação centralizado na l ami dade de
Direito do Recife, com uma primeira fase a partir de 1 Kó.’ I .ssa reação,
porém, não chegaria a configurar uma ruptura: veremos que alu aria
sobretudo na sentimentalidade e no patriotismo do nosso romani is mo;
afetaria a linguagem literária, disfarçaria o subjetivismo sob a prole rência
artificial de uma temática ou realista ou exótica; e refleti ria na
transformação da ideologia nacionalista. Sob o efeito de teorias novas
importadas, reage-se cpntra o bovarismo, a caminho do extremo oposto, o
pessimismo, embora sem nos libertarmos daquela nossa marca essenci-
almente romântica.
A renovação iniciada em Pernambuco, a que Sílvio Romero daria o nome de
“Escola do Recife”, para sempre consagrado, se foi por ele mes-

C il. a propósito o considerável número de tradutores, de românticos aos primeiros parnasianos, reunidos
em volume por Múcio Teixeira, Hugonianas - Poesias de Victor Hugo Traduzidas por Poetas Brasileiros, Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1885.
I. De acordo com Sílvio Romero, é a data da chegada de Tobias Barreto ao Recife, onde, ao lado de Castro Alves,
Victoriano Palhares, Plínio de Lima, Guimarães Júnior, Castro Rebelo Júnior, desencadearia o romantismo
social à Victor Hugo, combatendo as influências de Byron c Lamartinc. Sc- guem-se: invadindo a década de
70, o “realismo” de Celso de Magalhães, Generino dos Santos c Sousa Pinto: com o próprio Sílvio Romero: a
poesia voltada para uma nova “concepção crítica do universo, que é o grande feito da ciência do dia,
concepção que tem o tríplice apoio do positivismo de Coirne, das idéias monistica; de Darwin e da ciência
religiosa alemã”. Observando-se, contudo, “que do positivismo só a fecunda noção dos três estados” seria
“aproveitada para a intuição crítica da literatura de hoje”; finalmente, o princípio do “moderno naturalismo
do romance brasileiro”. Cf. Sílvio Romero, “Vista Geral sobre a Escola Literária do Recife”, em Estudos de
Literatura Contemporânea - páginas de crítica. Rio de Janeiro, Laemmert, 1 8 8 5 , pp. 87-98, citação de pp. 88 c ss.:
v. também “A Prioridade de Pernambuco no Movimento Espiritual do Recife”, em Revista Brasileira, cit., pp.
86-96.
mo datada de princípios da década de 1860\ só tomaria vulto a contar de
meados da década seguinte com a publicação dos Ensaios e Estudos de Eilosofia
e Crítica, deTobias Barreto (1875). É dos anos 60 aos 70 que se registram o
clímax do romantismo externo no Brasil e o princípio de sua deterioração,
concomitantemente com a divulgação de novas correntes de idéias e a
procura de novas preferências literárias. A segunda década, a de 70, é
também o momento em que se concentra a atividade crítica de Vlachado
de Assis, já apontado pela preocupação com o equilíbrio da orma com o
conteúdo, com a linguagem vernácula, correta e essencial :m função da
temática, “nobre e elevada”, conforme expressões suas.
À renovação geral que se processa a partir dos anos de 1870, José
/eríssimo proporia a designação de período eclético, englobando: evolu-
ionismo, positivismo, naturalismo científico e literário, Realismo, Parna-
ianismo, Simbolismo. Sem dúvida era difícil dar-lhe um rótulo abrangen-
e, satisfatório, sobretudo porque comportava contradições ou oposições,
das José Veríssimo ainda pensaria em outro: - Modernismo5. Finalmente,
ilvez em oposição ao romantismo anterior, prevaleceria a designação
Realismo” - período realista, na verdade válida essencialmente para a rosa
literária. Sem dúvida, período eclético ou Modernismo, são de- gnações
que se tornam vagas e imprecisas com o tempo.

A poesia em crise ou a poesia científtco-filsófica. Talvez o início do eríodo


“realista”, marcado pela proclamação de novos modelos, ainda Pereça
muito campo de pesquisa. Sobretudo com o ponto de partida
reconhecido, que leva em conta a história das idéias no Brasil e a persis-
ncia do Romantismo reconhecível no temperamento e na sensibilidade
■asileiros. Dentro desta perspectiva, avulta a figura de Sílvio Romero,
uante desde a década de 70 até princípios do século atual. Gostando
propagar suas idéias renovadoras, não é de estranhar, ao publicar em 195

195 nntii «merior.


V )o«í Vcilmimo, História da Literatura Brasileira, ed. cit., pp. 10 c ss.
1882 o ensaio O Naturalismo em Literatura - data do ano anterior O Mulato, de
Aluísio Azevedo - que ele reivindicasse a glória de introdutor do Naturalismo
no Brasil. Na “Advertência” ao ensaio, lembra que em 1869 já divulgava ideias
catorze anos mais tarde ainda dadas como novidade. E cita de então o ensaio A
Poesia Contemporânea e sua Visão Naturalista, quando Emílio Zola ainda era
desconhecido no Brasil, conforme ressalta. Escreveria outros trabalhos,
divulgados por diferentes periódicos: Crença, Movimento Americano, Trabalho, Jornal
do Recife, Cor- trio Pernambucanob. Não resta dúvida da importância do papel
divulgador c agitador de Sílvio Romero, ainda que ele mesmo tenha
considerado Tobias Barreto o inspirador, o “chefe” da renovação da “Escola do
Re cife”. Contudo, o alvo inicial foi a literatura, atingido pela proposta da
“poesia científica” e filosófica, apesar de pouca fortuna e expressividade ainda
com Sílvio Romero, Martins Júnior, Farias Brito. Proclamada anti-romântica,
ela foi propícia à aceitação do Realismo-naturalismo e do Parnasianismo, salvo
lqgo mais a insurreição do Simbolismo. Finalmente, é também fundamental
lembrar a renovação da historiografia literária, precedida do debate crítico,
novamente com Sílvio Romero, além de José Veríssimo e Araripe Júnior 196 197.
Ao prefaciar sob o título “A Poesia de Hoje” os seus Cantos do Fim do Século
(1869-1873)198, Sílvio Romero salientava “a grande transformação das ciências
da natureza, invadindo a esfera das ciências do homem”.
Religião, linguagem, história, direito, política, literatura passavam a su-
bordinar-se a novos métodos de estudos, ao mesmo tempo que se popu-
larizava a ciência, rechaçavam-se o mistério e o sobrenatural e afirmava- se o

196 Com referência à publicação de Os Cantos do Fim do Século (¡869-1873), Rio de Janeiro, Tip. Fluminense, 1878, Sílvio
Romero observa em nota ãs pp. 242-244 que, já preocupado com essa renovação geral e, voltando-sc contra o
romantismo c o indianismo brasileiros, escreveu uma série de artigos, dos quais cita 20 títulos divulgados entre
1869 e 1874, prosseguindo até 1876.
197 V. Apêndice - 1, Pesquisa c Historiografia na Literatura Brasileira.
198 Sílvio Romero, Cantos do Fim do Século, ed. cit., pp. I11-XX11. Os textos-documentos que passaremos a usar
relativamente ao advento da poesia “científico-filosófica", “socialista” e parnasiana, com algumas exceções entre
as que citamos, já foram também selecionadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos c organizadas em volume
com introduções geral e parciais sob o título Flistória, Teoria e Critica do Parnasianismo Brasileiro, originalmente
destinado à Biblioteca Universitária de Literatura Brasileira. Também nos servimos de material pesquisado e
cedido por Lizir Arcanjo Alves, professora da Universidade Católica de Salvador, a quem registramos os nossos
agradecimentos.

O ' ri 1(101)0 OU O PERIODO N ACION A i i


relativismo das coisas e do homem no Universo. A poesia, que devia ajustar-se
a novas afirmações, já apresentava algumas mudanças: os últimos românticos
já em descrédito, ainda byronianos e lamartinianos; posições novas, sempre
harmónicas - revolução, socialismo, positivismo, romantismo transformado “ao lado da
metafísica idealista de alguns”9, mas também ainda se constatavam persistências
românticas, pois “no meio da inconsistência de tantas reformas pretendidas,
existiu sempre a beleza das concepções suaves e delicadas da lírica”, que não
deve ser confundida “com a melancolia romântica”. E lembra “Sara la Baigneuse
de Victor Hugo, ou The Possession de Lord Lytton”, embora não os considerasse
suficientes para o momento que exigia, ainda segundo ele, “uma intuição mais
vasta e mais segura”. E conclui advertindo contra o dogmatismo e a
sistematização, sob a convicção de que “a arte funda-se hoje na intuição
novíssima que a ciência desapaixonada e imparcial vai divulgando. Deve ser
uma conseqiiência e uma síntese de todos os princípios que até aqui hão
agitado o século”10.
Entre a concepção estético-romântica da poesia e uma ordem nova,
pretende-se substituir a missão social daquela pela adesão ao progresso e à
ciência, uma espécie de mudança de conteúdo mas sem a correspondente
formal. De qualquer maneira, a agitação era denunciadora do esgotamento e
do cansaço românticos, sob o impacto de novas idéias e teorias provenientes
da Europa. E novamente Sílvio Romero, agora sob uma visão mais ampla,
convida-nos a reagir contra “meia dúzia de célebres questões” que
preocupavam a nossa literatura, a saber:

1. esquecer indios e lusos, “para lembrar-se da humanidade";


2. abandonar a indagação “se é nacional para melhor mostrar-se humana”;

Silvio Komcro, op, til., pp. VI-V1I e ss.


III liinn, lu«. t l t , , pp. Xl-XIV.
3. em história literária, superar as preocupações em classificar o nosso passado,
corno no caso da “escola mineira", em fazer biografias de poetas e “citar fora de momento
uns versos de Caídas ou Dirceu”; sobretudo, repudiar outras tantas preocupações que
ele qualifica de estéreis ou banais, como as de “Enumerar as excelências do gênero épico e
as propriedades dos gentios para ele, namorar a solidão das selvas seculares e a frescura da
primavera eterna do pátrio céu, sonhar o caboclo ou o campónio, pesado de encantos e
maravilhas”; finalmente, a necessidade de livrar-nos “de um pesadelo terrível: o célebre
debate da nacionalidade literária, feroz Adamastor de espécie nova, que há feito os
tormentos dos Gamas do romantismo”, conforme, pois, com o já indicado no item 2,
acima".

Está claro que Sílvio Romero se refere aos primórdios da nossa histo
riografia literária da época romântica, marcada de início e durante o séi u lo
XIX por aquelas preocupações. Mas elas não só exprimiam uma ideolo gia
interna como também um procedimento universal, de posições teóricas e
metodológicas na busca e discussão do reconhecimento das nacionalida des
literárias. Ele mesmo, Sílvio Romero, como Araripe Júnior e José Veríssimo não
escapariam ao envolvimento de um debate que preencheria todo o século XIX
brasileiro. Sílvio Romero certamente prenunciava uma nova abordagem de
procedimentos12 que seriam substituídos pela objetividade dos “realistas” (ou
“naturalistas”), até o impacto de Os Sertões.
Voltando aos limites universais, fiquemos com as atitudes inovadoras
imediatas. Também comprometidas com o condoreirismo romântico199'. Sílvio
Romero e outros contemporâneos o exemplificam, ainda bem próximos de
Tobias Barreto e Castro Alves. É a persistência de um estilo, que Sílvio Romero
classificaria com muita justeza de “poética recitató- ria”H. Mas ele não se livrou
desta pecha, ainda presente nos seus “cantos do fim do século”. Inspirado,
segundo ele mesmo, na humanidade e na natureza, o poeta lembra a Légende des
siècles, embora contestando a vi-

199 I. Idem, lug. cit., pp. XV-XVII. As palavras grifadas são do original. V. também “Vista Geral sobre a Escola Literária
do Recife”, em Estudos de Literatura Contemporânea - páginas de crítica, cd. cit., pp. 87-98 e o Naturalismo em Literatura,
São Paulo, Tip. da Província de São Paulo, 1882.
12. V. capítulo XIV: As Coordenadas Internas - Verso e Reverso.
I I. líssa designação provém de Capistrano de Abreu.
N. Sílvio Romero, Estudos de Literatura Contemporânea, ed. cit., pp. 327-328.

O ' ri 1(101)0 OU O PERIODO N ACION A i i


são da “Humanidade”, do “Mal” e do “Infinito” em Víctor Hugo, como
também rejeitaria o “didaticismo poético”. Coloca-se ao lado das “grandes idéias
que a ciência de hoje certifica em suas eminências”, elevándose ao “belo com
os lampejos da verdade, para ter a certeza dos problemas além das miragens
da ilusão”200. Com relação ao Romantismo, é um acrescentamento de conteúdo
em concessão à renovação científica e à idéia de progresso, do momento.
Notadamente sob este último aspecto, não seria outra a posição do
segundo teórico e agitador desta década, Izidoro Martins Júnior. Sílvio Romero
falaria em “impregnação da ciência contemporânea”, “intuição filosófica”,
“espírito crítico”, em poesia ligada à Revolução, em outra socialistas coletiva,
também positivista, finalmente de “síntese filosófica”. E contestava a que era
batizada de “realista”, na verdade marcada pelo erotismo. Citava Comte,
Búchner, Darwin, Haeckel, Strauss e Harttman 201. Martins Júnior foi menos
ambicioso: igualmente se colocaria ao lado da ciência, mas se limitaria, e assim
o diz, à “generalização filosófica estabelecida por Augusto Comte sobre
aqueles seis troncos principais de todo o conhecimento humano”202. Opondo-
se ao didatismo atribuído à poesia de inspiração positivista, ele a aponta como
expressão de uma “concepção filosófica do universo”, enunciadora de
“verdades gerais que decorrem para a vida social”, porém, revestidas pelas
“faculdades imaginativas, e nunca deixando de obedecer à emoção poética que
dá nascimento à obra de arte”203. O seu ponto em comum com Sílvio Romero é
a adesão ao cientificismo e ao progresso. Pois ao afirmar-se precipuamente
positivista, Martins Júnior seria indiretamente atingido pela crítica de Sílvio
Romero, quando este já então considerava o Positivismo “acabado como
MMcma”, ainda que admitisse que a filosofia de Comte deixava “uma boa
direção e nada mais” e lhe ressalvasse como fecunda a “noção dos três es- i

200 Idem, Cantos do Fim do Século, ed. cit., pp. XXI-XXII e p. 240.
201 Idem, lug. cit., pp. 239-240, 244. Acentua também o papel de Litrré como difusor do positivismo.
202 V. Isidoro Martins Júnior, Visões de Hoje, 2. cd., completamente refundida c acrescentada de uma Síntese Artística,
Pernambuco, Tip. Apoio, 1886. V. os prefácios “Linhas Explicativas” à 1. ed., datada de 1881, pp. 9-12, e “Novas
Linhas”, a esta 2. ed. (citando Comte, Martins Júnior refere-sc à i lassifieaváo seguinte: Matemática, Astronomia,
Kísica, Química, Fisiologia, Física Social).
203 Idem, lug. cit., p. 11

O 1» 1'I KlOOO OU O PERIODO NAC.IONA1 . I - n t C r n m v i v n .


.idos '1''. Mas talvez possamos considerar pelo menos mais três pontos em
mimiin: o reconhecimento da concepção lírica da poesia proclamada mino
renovadora, a que Martins Júnior chamaria finalmente de “cicntí- lii o
filosófica”; a contestação da característica didática que seus adversá- i ios lhe
atribuíam; e o reconhecimento ou adoção de Víctor Hugo como modelo ao
qual se acrescentariam tantos outros nomes de Lucrécio a André Chenier,
Goethe, e imediatos - Berthèzene, Sully Prudhommc, André Leftvre,
Baudelaire204 205 206.
As posições assumidas em Visões de Hoje, Martins Júnior as reafir inaria ao
escrever ou divulgar poucos anos mais tarde o pequeno ensaio manifesto - A
Poesia Científica1'. Além de Sílvio Romero, apontado como iniciador com uma
poesia dita “protocientífica”, de Sousa Pinto e Celso de Magalhães, dados
como divulgadores do “realismo-naturalismo” - lunadamente o último, que
“deu nascimento ao vasto beaudelairianismo- hugaico-parnasiano que
dominava agora a nova geração” - Martins lúnior lembraria Clóvis Beviláqua,
dado sob influência de Sterpui e Ackcrmann. E acrescentava outros seguidores
da nova poesia: Teixeira de Souza e Generino dos Santos, Luís de Sá Lima,
Leovigildo Figueiros, Anízio de Abreu e Phaelante da Câmara207.
Nascida com a “Escola do Recife”, a renovação poética dita “científico-
filosófica” se projetaria além fronteiras provincianas de origem, pa- raídamente
com a poesia “realista” ou o “naturalismo”, de maneira que o seu maior foco
de irradiação passaria a ser a Corte. E ambas as tendencias sofreriam críticas
tanto neste foco centralizador como em algumas províncias, a exemplo de
Xavier Marques e Castro Rebelo Júnior, na Bahia, de Damasceno Vieira,

204 Silvio Romero, Cintos do Fim do Século, ed. cit., pp. VIII-IX; v. nota 3, anterior.
/0 Isidoro Marrins Júnior, op. cit., pp. 14 e 16. Em A Poesia Cientifica, a seguir citada, ele afirmaria i|uc essa poesia tanto
pode ser do “terreno dos sentimentos” quanto do “terreno das ideias”, segundo a Fsthétitjue positive, sendo que a
segunda posição é uma conquista do século (p. 28).
2 I Isidoro Marrins Júnior, A Poesia Cientifica (Escorço de um livro futuro), 2. ed., destinada a auxiliar a construção do
monumento do autor, Recife, Imprensa Industrial, 1914. O prefácio da 1. ed., por ele assinado, data de 1883.
207 Idetn, lug. cit., nota 5, pp. 10-11 e 34, e nota 14, p. 49. França Pereira, prefaciando a edição citada, arrola como
seguidores dos ideais positivistas Artur Orlando, João Bandeira, Clóvis Beviláqua, (iarlos Porto Carreiro c
Teotônio Freire; e como poetas: Pardal Mallct, Phaelante da Câmara, Adelino Filho, Germano Hasloscher (p.
XVI).

1“ 1’KRlODO OU O PERIODO NACIONAL - I - O SÍCUIO YIY C A


gaucho, e Raimundo de Farias Brito, no Ceará. O primeiro, apesar de ser
portador de uma formação que jamais se desprenderá do Romantismo, adere à
poesia nova, voltada para os problemas sociais ou para as “transcendentais
questões que interessam à humanidade”. Se condena o lirismo pessoal, em
contrapartida faz o mesmo com a poesia “realista” caracterizada como literatura
pornográfica. “A nova poesia”, que ele reconheceria, seria a da “genuína escola
realista”, de combate ao “lirismo” puro. E ainda com fundamento em
Jouffroy23, condena a “arte (eroto-realista)” e opta pela combinação do real com
o ideal24.
Um ano depois da publicação do livro de Xavier Marques - que se
definirá sobretudo como ensaísta e ficcionista 25 — seu conterrâneo, Castro
Rebelo Júnior, ligado que fora à “Escola do Recife”, publicaria um opúsculo - O
Pseudo-realismo - Sátira, de 1881, data de divulgação no )ornai de Notícias, da Bahia26.
Reflete debates da época: idealismo versus realismo/pessimismo, ciência,
“teoria nova” versus Deus; e, proclamándose - “sou verdadeiramente eclético” -,
reconhece Zola, Dumas Filho, Feuillet, Gomes Coelho como Eça de Queirós,
Tomás Ribeiro,"Guerra unqueiro, Alencar, Fagundes Varela, Tobias Barreto,
Gonçalves Dias, '.asimiro de Abreu, Alvares de Azevedo, e condena de vez a
visão pessi- nista das novas tendências ou as “aberrações da Idéia nova': “[...] o
ro- nance, o poema, o drama realista!”27.

). Xavier Marques, “Estrofes à Emancipação”, em Temas e Variações (Poesias), Bahia, Tip. de João Gonçalves Tourinho,
1884, pp. 183-189, citação da p. 187. i. idem, v. cm Temas e Variações, ed. cit., pp. 174-176, a composição crítico-satírica
às novas tendência* poéticas realistas a Zola e positivistas, que ele chama de “poesia do delírio”.
1 V. David Salles, O Ficcionista Xavier Marques: Um Estudo da Transição Ornamentai, Rio de ¡anci rn, ( avili/ação
Brasileira/MEC, 1977.
A Indicação da primeira publicação da sátira de Rebelo Júnior c as cópias de sua edição de 1883 e do livro de
poesias Temas e Variações de Xavier Marques nos foram dadas por Liiir Arcanjo Alves.
, V 1 iuilhermino César, História Literária do Rio Grande do Sut cd. cit., pp. 282-285.
Nosso terceiro exemplo, o gaúcho Damasceno Vieira, repartiria suas
atividades entre Porto Alegre, Santos e Salvador, mas sem jamais perder os
contatos com as origens. Deixou extensa produção literária e foi um dos
participantes do Partenon Literário28. Dele, Guilhermino César indi- c .1 o livro
Musa Moderna como tendo inaugurado “no Rio Grande do Sul i lasc da poesia
dita moderna ou científica, lamentável concepção terato- lógica que teve no Brasil
a sua época, ao mesmo tempo que o positivismo i omtista” 29. Mas o que nos
interessa são idéias e circunstâncias que envolveram a divulgação do livro, isto
é, as repercussões da “nova poesia" lio extremo sul. Em comunhão com o
positivismo, Damasceno Vieira .nua o “realismo contemporâneo adaptado à
poesia”, para usar expressão dele no prefácio “A Musa Moderna - Estudo
Crítico”, que escreveu para o seu livro30. Coloca-se na linha crítica de Xavier
Marques e Castro Rebelo Júnior e prende-se a formulações dos iniciadores
Martins Júnior e Sílvio Romero. Representa convergência de idéias e definições,
ainda que ingénuas. Em síntese: Byron e Victor Hugo são dados como os
iniciadores da “musa moderna”. Esta, cuja evolução, a datar dos rapsodos
gregos, p.issou do “estado teológico ao metafísico”, encontrava-se então no
“estado positivo”, aquele que a humanidade atravessava, donde o poeta não
poder ser senão positivista. O progresso científico levava o poeta ou a poesia a
romper com o passado. Contesta então posições de um Teófilo Braga (Visão dos
Tempos) em Portugal, ou de Aníbal Falcão (prefácio às ()/>alas, de Fontoura
Xavier), no Brasil; e adere à visão racional, sem prejuízo da sensibilidade e da
imaginação. Era preciso, porém, que o “realismo moderno” superasse dois
defeitos que o ameaçavam: a “inconveniên- cia em descarnar fatos repulsivos
sem um fim moral” e a “parcialidade” daí decorrente, com desprezo dos
sentimentos bons. Provém da última restrição um preceito que tanto nos
lembra a doutrina crítica de Macha-

2H. tdem, lug. cit., p. 283.


2‘) V. I lamasceno Vieira, A Musa Moderna, Porto Alegre, Tip. do Jornal do Comércio, 1885. V. “Estudo Critico” deste
autor, pp. V-XXV.
30. (:f. Damasceno Vieira, lug. cit., pp. V-XXV.

do de Assis quanto posições românticas anteriores, a saber: “O realismo deve


ser sempre justo e criterioso nas suas apreciações, porque só assim atingirá a
verdade estética que lhe é correspondente”. Quanto à temática, rechaçado “o
velho e monótono estribilho de mintialma é triste", proclama-se “a musa da
alegria”, inspirada na “convivência social” e em “levantados assuntos: o
trabalho das indústrias, as enérgicas aspirações republicanas, o amor a todas as
belezas típicas, a apologia às artes, aos artistas, à nova religião congraçada com
a ciência, à escola, à imprensa, ao progresso e finalmente a todas as
manifestações da liberdade”; e, com Taine, pede-se que a obra se apresente
com “um fim nitidamente expresso”. Do ponto de vista formal, o poeta
condena as hipérboles, as comparações enigmáticas, a ênfase e pede a “clareza
do estilo” e a harmonia do verso, pois a “poesia é uma música especial”. E
aponta Bocage como modelo a seguir'1. Finalmente, reinsistindo na condenação
da posição dos que “só encaram a humanidade pelo que ela tem de pior”, e
lembrando a propósito a sátira de Castro Rebelo Júnior — O Pseudo-
realismoDamasceno Vieira é talvez o primeiro a comentar mais detidamente a
poesia de Jean Richepin, cujas obras repercutiram entre nós e foram certamente
influen- ciadoras do realismo erótico de alguns dos nossos poetas 33.
Finalmente, já nos últimos momentos da década de 80, Farias Brito 34
manifestaria sua posição, prolongando o debate em torno da “poesia ci-
entífica”, quando o Parnasianismo já era triunfante. Sob a interrogação “A
poesia ainda tem razão de ser?”, prefácio aos seus Cantos Modernos, ele chegaria
à conclusão de que a poesia como as belas artes são “um produto mental sem
aplicação útil no mecanismo da sociedade”, pois, “em uma concepção
rigorosamente utilitária da sociedade, a poesia, como todas as 208 helas artes,
não pode ter uma explicação verdadeiramente racional das Iunções que
exerce”. E com apoio em Letourneau — Fisiologia das Paixões, apontaria como

208 V. nota 30. anterior.


2. I himasceno Vieira cita as obras de Richepin, La cbanson des gueux, Les caresscs e Les blaspbemes, contentando, entre outras
coisas, com referência ao último livro: “Mas, por isso mesmo que este último livro 6 indecente, corre mundo com
extraordinária aceitação: onze edições sucessivas o espalham pela l;rança, Portugal e Brasil". (V. lug. cit., pp. XXI
e ss.)
' ( auto Keltclo júnior, O Pseudo-realismo (sátira), Bahia, Imprensa Económica, 1883.
I It,dimitido de f arias Brito, Cantos Modernos - poesias, Rio de janeiro, Laemmert, 1889.
missão da poesia “entrever a possibilidade de um mundo melhor” no “quadro
terrivelmente esmagador da realidade” em que o homem se situa. Assim, uma
poesia que pretendesse vulgarizar a ciência, “ficaria inteiramente afastada da
sua missão, que é a criação do ideal”, ao que acrescentaria que se “o fim da
ciência é a verdade, o fim da filosofia é o bem” 35. Condenação das pretensões
anteriores dc transformar a poesia numa vulgarizadora da ciência ou
debatedora de propostas sociais, colocava-se o pensador, com suas veleidades
de poeta ainda mar cudo pelo Romantismo, na posição de restabelecer para a
poesia um uni verso autónomo. Corroborava, de alguma maneira, certas
intenções parnasianas. Embora estas se voltassem para um ideal de beleza e
aquelas para um ideal de libertação, no fundo ambas proporcionavam a
evasão.
Sem dúvida, todo o debate que se estende de Sílvio Romero às re- llcxões
estético-filosóficas%de Farias Brito caracteriza um momento de transição do
Romantismo para a reconquista de formas renovadoras com o triunfo final do
Parnasianismo. Nesse quadro, pelos anos 70 sobretudo, a poesia “científico-
filosófica”, conforme a designação de Martins lúnior, ou os “chacalistas”,
cientistas, beaudelarianos, positivistas, realistas, segundo Valentina
Magalhães36 - e aí fica a distinção entre beaude- lairianos e “realistas”, cuja
confusão Machado de Assis já contestara 37 - voltavam-se principalmente para a
inspiração no progresso, ou melhor, para a difusão de um conteúdo científico,
filosófico e socialista como re- ílexo da renovação do momento. Quanto aos
aspectos formais, mantinham-se presos às últimas conquistas do romantismo
social com Victor

tV Idrm, lug. cit., pp. 14-15, 21,23-24.


l(>. Valcntim Magalhães, A Literatura Brasileira: 1870-1985, Lisboa, A. Maria Pereira, 1896.
\7, Machado de Assis no ensaio "A Nova Geração”, talando dos seguidores de Beaudelaire no Brasil, contesta que este
seja realista: “Quanto a Beaudelaire, não sei se diga que a imitação é mais intencional do que feliz. O tom dos
imitadores é demasiado cru; e aliás não é outra a tradição dc Beaudelaire entre nós. Tradição errónea. Satânico,
vá, mas realista o autor de D. Juan aux enfers e da Tristtsse de la luná", Crítica Literária, ed. cit., p. 198.

Hugo, revigorados também pela poesia de Guerra Junqueiro, além de outras


influências já apontadas e discutidas na época: Antero de Quental, Gomes Leal,
Guilherme de Azevedo, Edgar Allan Poe, Beaudelaire.
Vemos em síntese uma efervescência gerada pela convergência de idéias
novas do campo da ciência e da filosofia, refletidas de fora para dentro,
estimulando seguidores jovens, ainda presos às nossas raízes românticas, sem
originalidade, embora ansiosos de novidades. Faltava-lhes: primeiro, dar
relevo crítico à tradição interna como procedimento indispensável ao seu
equacionamento com propostas externas e daí com o momento brasileiro em
que eles se situavam, de modo a favorecer o processo de assimilação em
proveito da criação; segundo, ativar a reflexão crítico-teórica sobre o literário e
com este a incorporação de uma experiência formal; terceiro, mesmo
hostilizando o Romantismo, todos eles traziam os ouvidos impregnados das
ressonâncias discursivas e sonoras do condoreirismo. Naquela “confusão de
gerações”, eles são numerosos38.

A produção poética pós-romântica: contribuição “científico-filosófica” e realista.


Apontamos como exemplo quatro poetas menores, com o tempo afastados do
gosto público: - Isidoro Martins Júnior, Sílvio Romero, Farias Brito e Carvalho
Júnior, portadores iniciais de intenções de rup- tura com a poesia romântica
não obstante a dependência condoreira. O primeiro estreou em 1881 com as
Visões de Hoje, das quais a primeira visão descrita na “Introdução”, é a “Musa do
Porvir”, a serviço de um “princípio - a Evolução”39. Não disfarça a influência
preponderante de Augusto Comte, expressa em versos alexandrinos cantantes,
propícios à linguagem grandiloquente. Seu condoreirismo enfatiza o discurso
revolucionário ou o didatismo das composições ilustradas com epígrafes to-
madas a Victor Hugo, Lucrécio, Sully Prudhomme, Alfredo Berthezène,
Beaudelaire. Apesar da mediocridade, o poeta desempenha muito bem

(M V. Apíndicc Poetas de Transição Pós-romântica no final deste capítulo. 1‘) Ulduto


Martins Júnior, Visões de Hoje, op. cit., pp. 37-51.

o seu papel: documenta um momento de entusiasmo que se apossou de moços


sugestionados pelo positivismo, pelo processo de transformações do século,
sobretudo política e também em oposição à igreja tradicional. (lomba te, então,
o Império Brasileiro, já ameaçado pelo ideal republicano, exatamente sob a
égide do positivismo.
Embora distanciados em concepção poética, de forma e conteúdo,
podemos dizer que a atitude de Martins Júnior contou com as intenções
também renovadoras de Sílvio Romero, sem dúvida melhor definidas no
pensamento crítico do que na criação deste autor dos Cantos do Fim do Século.
Lançados sete anos depois de Martins Júnior (1878), entre um e oUtro se
entremeiam aquelas reflexões críticas, combativas e polêmicas, vistas
anteriormente. No livro de Sílvio Romero — cujo título nao coi responde de
todo ao conteúdo - além de uma posição que se definiria em termos
americanistas - ou pan-americanista40, da qual ele seria um ilos propagadores
em princípios do século, apontamos o gosto condorei- ro de temas como
Humanidade, Natureza, Infinito, Nada, Religião, IVnsamento, Destino,
Liberdade e tantos outros. Mas o poeta freqiien- t emente se distancia do tema
proposto e continua romântico, não obstante sua preocupação com a
renovação do pensamento e do progresso do século. Também continua
romântico na linguagem, compondo em ritmos vários de 2, 3, 5, 7, 9, 10, 11
sílabas, em quadras, oitavas, décimas, sem nada acrescentar às experiências
anteriores. Como outros tam- bém de intenções revolucionárias, ele é
sobretudo um sintoma de efervescências voltadas mais para uma visão de
imediata atualização de idéias de progresso e renovação geral do que
propriamente em defesa de novas posições estéticas que equilibrassem,
harmoniosamente, forma e conteúdo para a conquista de estilo novo.
Bem depois de Martins Júnior e cerca de dez anos após Sílvio Romero,
em fins dos anos 80, a poesia “científico-filosófica”, talvez mais
pretensiosamente filosófica do que científica, é passada a limpo por Fa 209

209 Silvio Romero, Cantos de Fim do Século, op. cit.


rias Brito. A substância essencial do livro que publicou continua seme-
lhante à de outros, isto é, fiel ao condoreirismo. Sob o título geral de Cantos
Modernoé", compõe-se de três partes: “Cantos de Liberdade”, cuja temática é
sugerida pelo subtítulo; “Cantos Diversos” em que predomina o lirismo
amoroso; e “Cantos da Natureza”. Em geral, sua linguagem continua
discursiva, em metros variados, com preferência pelo alexandrino condoreiro.
Há certa aproximação entre estes três poetas - Martins Júnior, Sílvio
Romero, Farias Brito, mas se situa entre os dois últimos um exemplo de poesia
dita “realista”, com Francisco Antônio Carvalho Júnior, de exaltada
sensualidade210 211. Em sonetos de forma correta, decassílabos ou alexandrinos,
o erotismo do poeta - embora não se compare a certos parnasianos que
também desenvolveram temática idêntica - se não atinge de todo a beleza
plástica, foi sem dúvida em virtude dos excessos.
Finalmente, na mesma linha da poesia realista de Carvalho Júnior, pelos
anos 70, ainda deve ser lembrado Teófilo Dias212. Esses adeptos das novas
ideias abriram caminho para a renovação parnasiana que surgirá, esta, porém,
sob preocupações predominantemente literárias, compondo uma poética bem
definida.

A poética parnasiana ou a “disciplina do bom gosto”. As primeiras manifestações da


renovação parnasiana datam de fins dos anos 70 e começos da década
seguinte, ainda concomitante com posições científico- filosóficas, socialistas e
realistas. Surgem em defesa de uma linha de renovação temática e formal, de
acentuadas impregnações clássicas. Volta- va se para o literário, embora entre
os que seriam consagrados como “parnasianos” houvesse alguns ex-adeptos
da poesia “científico-filosófica”, ou da “realista” ou “socialista”. Por exemplo:

210 Raimundo Farias Brito, Cantos Modernos (poesias). Rio de Janeiro, Laemmert, 1889.
211 Francisco Antônio de Carvalho Júnior, Parisina, Rio de Janeiro, Agostinho Gonçalves Guimarães, 1879 (com
introdução de Artur Barreiros).
4 1. IVricles Eugênio da Silva Ramos já fez essa associação, ressaltando Carvalho Júnior “como o principal poeta do
realismo brasileiro" com influências no companheiro (v. Panorama da Poesia Brasileira 10)1, III Parnasianismo, Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1959, p. 17. Teúfilo Dias é autor di l lorri r Amores, 1874; l.ira dos Verdes Anos, 1876; Cantos Tropicais,
1878; Fanfarras, 1882; A < omtdia doi Deuses, 1887.

tl I'l ItlODU OU O 1'HRlODO NACIONAL - I - O SÉCUI O XIX P A


Fontoura Xavier, Augusto de I ima, Lúcio de Mendonça, e mesmo Teófilo Dias
e Raimundo Correia. I )cstaca-se Machado de Assis, proveniente do
Romantismo. Desde a es- tréia, com Crisálidas e Falenas (1864-1870) e depois nas
Americanas (1875), ele se apresenta portador de forma correta. E Teófilo Dias,
com Fanfarras (1882), sob influência de Beaudelaire e Leconte de Lisie, seria
reconhecido como prenunciador do Parnasianismo213 214 215. Lembramos que
quatro anos antes, ele era apontado como “o bardo da verdade, da jusii ça e do
direito”, contrário à “poesia do Eu”, indiferente ao homem e á sua realidade43.
Talvez por isso, bem mais tarde, ao rever as Cam ões lio ¡náuticas ( 1877-1878) de
Alberto de Oliveira, ele mesmo as tenha con siderado como “poesia socialista”,
“parte da espécie de renascença liierá l ia" que então surgiu em substituição à
“literatura clássico-romântica''"’.
ludo indica que as posições se misturavam nesse final da década até que
Alberto de Oliveira reúne suas poesias de 1879-1883 sob o título de Meridionais.
Machado de Assis ressaltaria o soneto “O Leque” como representativo do
poeta: “imaginoso, vibrante, musical, despreocupado dos problemas da alma
humana, fino cultor das formas belas, amando por ventura as lágrimas,
contanto que elas caiam de uns olhos bonitos”, além de portador de uma
temática composta de “reminiscências helénicas ou medievais”, de “quadros
antigos”, e também de “amor da natureza” e da "paixão dos espetáculos
naturais”. E tudo sob “o amor voluptuoso da forma”216. A abertura das
Meridionais equivale a uma “profissão de fé”:
Resplandecentes crianças,
Rimas dispersas em danças,
A voltearem suave.
Como aves;
[•••]

213 Cf. Valcntim Magalhães, op. cit., pp. 56-57 e ss. V. nota a seguir.
214 V. Valcntim Magalhães e Silva Jardim, Idéias de Moço, São Paulo, Tip. Comercial, 1878, pp. 26- 28. São de 1876 e
1878: Lira dos Verdes Anos e Cantos Tropicais, deTeófilo Dias.
215 V. Icófilo Dias, “Carta a Artur Barreira”, em Alberto de Oliveira, Poesias (¡877-1895), primeira série, cd.
melhorada, Rio de Janeiro, Garnier, 1912, pp. 3-9.
216 V. Machado de Assis, “Meridionais (1879-1883)”, prefácio ao livro indicado de Alberto de Oliveira, cm Poesias
(¡877-1895), ed. cit., pp. 71-74. Alberto de Oliveira declararia que “o chamado parnasianismo" nasceu com Artur
de Oliveira, com quem se reuniam cm um café da rua do

) I I HlilIfO OU O 1’ERlODO NACIONAI. - I - O SÊCUI.O X I X P *


Willis, sereias e nixes.
Turquesas, rubis, onixes,
Granadas, berilos, prázios,
Topázios;

Bandos de fadas errantes,


Chusmas de gênios brilhantes,
Sombras de ignotas Ilírias,
Walkyrias;
[...]
Dos verdes bosques sombrios,
Dos claros, límpidos rios
Trazei, sagradas redomas,
Aromas!
[.••]
Chegai, ó anjos dispersos,
Ó anjos que encheis meus versos,
Poesia, sombras cheirosas
De rosas!48

Alberto de Oliveira dá indícios claros de procedimentos do nosso


parnasianismo. A ele se associam outros seguidores, Valentim Magalhães,
Machado de Assis, Fontoura Xavier, Assis Brasil, Augusto de Lima, com

Ouvidor por volta de 1877 ele mesmo, Fontoura Xavier, Teófilo Dias, Francisco Antônio de Carvalho Júnior, c
outros, para ouvi-lo ler Gautier, Banville, Sully Prudhommc, Beaudelaire, com os quais havia convivido em Paris.
Refere-se também à “guerra do Parnaso entre 1880-1881 pelo Di- Ario do Rio de Janeiro, combatendo os românticos, e
a repercussão entre nós, a contar de 1878, da “Escola Coimbrã” (principia em 1865-1866) com Teófilo Braga,
Antero de Quental, Vieira de < .astro, Guilherme Braga, Cláudio José Nunes, Guerra Junqueira, que exerceriam
“alguma influência" sobre cies. Finalmente, faz referencia ao naturalismo e cita Tomás Alves Filho, presente na
"guerra do Parnaso". V. Alberto de Oliveira, entrevista a Prudente de Morais, Neto, em Terra Roxa t OutraJ Terras,
São Paulo, ano 1, n. 7, 17 set. 1926, p. 4, e “O Culto da Forma na Poesia Brasilei- f a . cm Conferências (1914-1915),
diversos autores, São Paulo, Sociedade de Cultura Artística,Ttp. I evi, 1916, pp. 27-31.
!M Alberto de Oliveira, Poesias, cd. cit., pp. 77-78.

ii llcxos do Leconte ele Lisie, Gautier, Banville, dados como amantes do dii
ionário, conforme recomendação de Artur de Oliveira41’. Apesar das
qualidades literárias, esses renovadores não escapam aos ataques dos so-
breviventes do “didatismo” da poesia “científico-filosófica” de compro-
metimento extra-literário, ou dos defensores do naturalismo. Sílvio Romero
aproveita-se da crítica de Zola e Leconte de Lisie, ataca Luís Delfino e seu
“levantismo charlatanesco, incongruente; e, sem perdoar a Machado de Assis,
condena a “impassividade” parnasiana, dando como exemplo .1 "Mosca Azul”,
ao lado de “Trote de Camelos”217 218, enquanto em Portu gal, Fialho de
Almeida, escrevendo sobre Luís Guimarães, se voltava (. (>n tr.i os atacantes do
Parnasianismo:

Os poetas propagandistas, cantando a justiça, derruindo velhas fórmulas p tl|(n i.is


c religiosas, fazendo a apoteose da oficina e da blusa, ou conclamando, cm rutilantes
alexandrinos, descobertas e sínteses da ciência e da indústria, são prosadores Cas tr,mdo
em rimas imprevistas ou sonoras os períodos que vão escrevendo11.

%
Mas a poesia parnasiana prossegue triunfante. Definem-se princípios da
sua poética, ou melhor de um parnasianismo adaptado e transformado .)
brasileira. Supera a acusação de impassividade sentenciada por Urbano I
)itarte, que opôs o primeiro livro de Alberto de Oliveira - Canções Románticas, aos
dois subseqiientes - Meridionais e Sonetos e Rimas. Bilac reagiu, para esclarecer o
equívoco do crítico, afirmando categoricamente:

No Brasil nunca houve parnasianismo. O que há entre nós atualmente é a febre da


Perfeição, a batalha sagrada da Forma, em serviço da Idéia e da Concepção.
O Parnasianismo — o verdadeiro, o autêntico, o de Catulle Mendès e M,i||,llm(<
tem a sua profissão de fé nestes versos do poeta de “Philomela” citado por Zola nos
Documents littéraires.

217 Vnlemim Magalhães, Subsídios Literários, Rio de Janeiro, Continental de Faro e Lino, 1883, pp. 44 c ss.
Ml, Sílvio Romero, Estudos de Literatura Contemporânea, ed. cit., pp. 276-279.
41. Fialho de Almeida, “Luiz Guimarães”, em Sonetos e Rimas de L. G. J., 2. ed., Lisboa, Tavares Cardoso, 1886, pp. VII-
XXV. A 1. ed. é de 1880.

) I I HlilIfO OU O 1’ERlODO NACIONAI. - I - O SÊCUI.O X I X P *


La grande muse porte un péplum bien sculpté
et le trouble est banni des âmes quelle bante
Pas de sang/ots humain dans le chant des poetes!
Mas, por Apoio! não é essa a musa que serves, meu Alberto, nem a que servem o
Raimundo, o Delfino, o Rodrigo Otávio, o Valentim, o Alberto Faria, o Filinto, o Tcófilo
e outros.

E acrescenta logo a seguir:

Nenhum dos poetas da nova geração quer fazer do verso um instrumento sem
vida: nenhum deles quer transformar a Musa num belo cadáver. O que eles não querem
é que a Vénus grega seja coxa e desajeitada e faça caretas em vez de sorrir.

E quando Urbano Duarte lhes propõe Gonçalves Dias como modelo,


Bilac retrucaria que eles mesmos, os da nova geração, assim já o consideravam,
pois

Não houve nunca no Brasil um poeta que tratasse com mais carinho a harmonia
do verso e cultivasse com mais primor o ouro puríssimo da língua portuguesa (...E2.

E se houve tentativa de ruptura por parte dos adeptos da poesia ci-


entífica, filosófica ou progressista com relação ao Romantismo, no caso dos
parnasianos, prevaleceriam a coerência e o equilíbrio com o passado, do qual,
como aconselharia Machado de Assis53, se procurava aproveitar o que se
harmonizasse com os ideais comuns de renovação. Reconheceremos, pois, os
princípios de uma poética parnasiana brasileira, com o enriquecimento e
melhor esclarecimento de legítimas intenções internas, como veremos, em
Olavo Bilac, ou em Alberto de Oliveira, este talvez o seu verdadeiro e maior
teórico e de quem o primeiro diria, já em 1917: “Foste e és o chefe da nossa
escola poética”54. E reiterava, na mesma ocasião, que o nosso parnasianismo
pretendeu de fato restaurar “a simplici-

(2. Apiiit Antônio Constammo, "Olavo Bilac, Estudante em São Paulo”, em Revista Brasileira, Rio de Janeiro, ano I, n. I,
jun. 1941, pp. 183-185.
1.1. V, Machado dc Assis, log. cit., pp. 252-254.
14 V. t )lavo Bilac, Últimas Conferências e Discursos, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1924, p. 21.

tlíide c a correção”, combatendo as “extravagâncias da imaginação e o de-

I 1 II Hl« MH» OU 0 PERIODO N ACIONAI - i - n cíz-m^ - •


salinho da forma” românticas em proveito da sobriedade, clareza e justeza,
“virtudes máximas do gênio greco-latino”. E mais uma vez contesta
i) uc tenham sido “impassíveis”. Acima de tudo pretenderam a
“disciplina do bom gosto”, expressão que para Bilac substitui “escola
parnasiana” ou simplesmente “escola” ou “teoria””.
Alberto de Oliveira, sem dúvida contrário ao radicalismo de alguns,
afirmava que “nós não tivemos propriamente parnasianismo”, salvo com
algumas exceções já proclamadas, como Francisca Julia ou com alguns sonetos
de Raimundo Correia, de Bilac, dele mesmo, Alberto de Oli veira. À
semelhança de Bilac, negava a impassibilidade, talvez confim dida com a
reação que desencadeariam contra a lamúria romântica, de excessivo
subjetivismo e tristeza. Pois que, ao contrário, numa forma res taurada, eles
buscaram a “alegria”, uma poesia inclinada “para as coisas mais saudáveis” 56.
L)e criações e teorizações, aos poucos se compõe a poética parnasiana,
graças a Alberto de Oliveira, Bilac, Guimarães Passos, Magalhães de Azeredo,
a seguir resumida:
Io) Poesia objetiva, em vez de subjetiva. Contudo, se “houve a princípio
na musa parnasiana retraimento de expressões íntimas”, isso foi breve e não
chegou nunca à ‘impassividade’”.
2o) Reconhecimento dos aspectos positivos dos românticos, geradores de
heranças para a renovação, a saber: “a emoção mais ou menos sincera dos
primeiros tempos e sentimentos da natureza manifestado em alguns cantos e
descrições de cenas da nossa terra”.
3o) A poesia parnasiana “não deixa [...] de ser essencialmente nossa por
peculiaridade de sentimentos”, exprimindo assim “um caráter nacional".
4o) Ela promove o culto da forma em geral, “versificação e elocução”,
acentuado a partir da década de 1880. No exame e correção da lin- 219
guagem poética “reside o ponto fundamental” da proposta ou do programa do
parnasianismo brasileiro:
a) Metrificação - Considerada estacionária a partir dos nossos primeiros

219 Idem, lug. cit., pp. 21-23.


56. V. Entrevista com Prudente de Morais, neto, lug. cit.

! !• IM lilitim mi <> nunt«'»«' *■


românticos, além de prejudicada pela freqiiência de “ecos e colisões,
consonâncias, cacófatons e dissínclises intoleráveis”. Procura-se restaurar as
boas qualidades dos versos, caso em que é importante a retomada do
alexandrino, porém não o alexandrino arcaico, condenado, e sim o modelo
clássico francês, observando-se que Teixeira de Melo e Machado de Assis já o
viessem fazendo. Recomenda-se variar “os agrupamentos das unidade
rítmicas” do alexandrino, deslocando-se-lhe as pausas e dando-lhe nova e mais
bela harmonia”.
b) Sem condená-lo de todo, propõe-se que se faça uso moderado, na
rima, das consoantes ditas vulgares -ão, -ar, -oso, -ado, de “desagradável
efeito, mormente quando em vocábulos da mesma categoria gramatical”.
Critica-se também a confusão entre “toantes e consoantes”, enquanto se rejeita
o verso branco, que fora comum entre os românticos. Pretende-se, em síntese,
“o apuramento do verso, da sua dicção e sonoridade, com rima igualmente
perfeita” - rimas ricas em palavras de diferentes categorias gramaticais — “mas
sem rebuscamento” ou seja de maneira a não “prejudicar a própria inspiração
do poeta”.
c) O soneto - praticamente banido pelo romantismo - é restaurado e
passa a ser a forma preferida dos parnasianos.
5o) A expressão exata - ou “expressão perfeita” - para a idéia a ser
transmitida, conforme a “Profissão de fé” de Bilac na citação de Alberto de
Oliveira, constitui, ainda conforme o item 4o, talvez a maior preocupação
parnasiana. Exigia-se, portanto, conhecimento e respeito da língua, repúdio
aos epítetos gastos e imprecisos, às imagens vulgarizadas, às monofo- nias, em
suma, “elevação, pureza e distinção da linguagem poética”220.
Esses princípios da nossa poética parnasiana seriam confirmados pelas
obras de seus principais seguidores, caracterizando a expressão parnasianismo
brasileiro”, que vimos adotando. Porque, sem dúvida, os lundamentos de sua

220 Cl'. Alberto de Oliveira, “O Culto da Forma na Poesia Brasileira”, lug. cit., pp. 263-288. V. também como páginas
importantes para o estudo da poética parnasiana: do mesmo autor, “A Rima e o Ritmo I,i(,ftcs Prolessadas na
Escola Dramática”, em Revistado Brasil, São Paulo, n. 1, ano I, vol. I. jan. I*>16, pp. 24-30 e n. 3, ano I, vol. 1, mar.
1916, pp. 272-276 e “O Soneto Brasileiro (De
poética repousam na tradição literária interna, sufi- i icntc para assimilar e
reformular as sugestões externas.

Destaques da contribuição parnasiana. - Desde os primeiros momentos, o


parnasianismo brasileiro contou com numerosos seguidores, alguns
inicialmente comprometidos com as manifestações da poesia científico-
filosófica, socialista e realista. Poucos, porém, restaram reconhecidos i omo
grandes poetas, à semelhança de Machado de Assis, Alberto de Oliveira,
Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, Francisca Júlia58.
Machado de Assis, parnasiano, se situa numa posição de aproximadlo
entre a herança reconhecida do neoclássico e romântico à renovação
parnasiana, conceituada como correção formal e contenção emocional.
Prenunciador, ele é um qjo entre contribuições anteriores e as novas aspi- i
ações independentemente das limitações do modismo transitório dos estilos
literários. E, como outros parnasianos de relevo, apontaria como modelo, entre
nós, a poesia de Gonçalves Dias. Exerceria ele mesmo uma

Grcgório de Matos a Raimundo Correia)”, em Revista da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, n. 8, 1920; Olavo Bilac e
Guimarães Passos, Tratado de Versificação - A Poesia no Brasil, A Métrica, Gêneros Literários, 8. cd., Rio de Janeiro, Francisco
Alves, 1944; Magalhães de Azeredo, “Nota Necessária a Odes e Elegias", em Odes e Elegias, mesmo autor, Roma, Tip.
Centenário, 1904 (sobre os metros bárbaros e seu uso entre nós).
58, Ainda cabe, porém, assinalar três nomes: 1. Antônio Valentim da Costa Magalhães (1859 a 1903), escritor c
jornalista, figura ativa no seu momento, dedicou-se à poesia (em oposição à poesia realista), á crónica, ao
romance e ao teatro, e se destacou como diretor de A Semana, desde 1891, importantíssima revista literária,
antiabolicionista e republicana. 2. Luís Dclfino dos Santos (1834- 1910). Participou do mundo literário de seu
tempo, com vasta colaboração cm revistas e jornais. Proveniente do Romantismo, passaria pelos parnasianos e
simbolistas, acatado por todos e reconhecido como excelente poeta e exímio sonetista. Com exceção de In Excelsior,
1884, seus demais livros de poesias são de publicação póstuma: Poemas, 1928; Algos e Musgos, vol. 1, s. d.; íntimas e
Aspásias, 1935; A Angústia do Infinito, 1936; Atlante Esmagado, s. d.; Rosas Negras, 1938; Esboço de Epopéia Americana, s. d;
Imortalidade, Livro de Helena, vol. 1, 1941; Imortalidade, vol. 2, 1942. 3. l uís Guimarães Júnior, presença obrigatória em
nossas antologias c cm saraus de declamações com o fitmoso soneto “Visita á Casa Paterna”, talvez por causa da
imediata comunicação ao traduzir a tentativa da memória de recuperar imagens, vozes de um passado afetivo.

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Mi* i (tgutiti «t ilma JO» man oUw» -Pelava

Um r<m«Iw vUvonlr., para teda» o» males t


uro kmliito jcho p*j loda» u Joro. •Mr a (»Irada
que Indio i rotu-rta «Ir (loro

Ai di nun que nul mraha nmuo na Una


Con hierra' Ai ir min que nlo «bu quanto .A»
almas [MirifKj 0 hopíuroo «io rank»

Retrato de Francisca Julia, cf.


Kosmos, ano 2, out. 1905, n. 10.

autovigilância de maneira a ser o primeiro a oferecer, com a criação poética,


exemplo do que a sua crítica sugeria aos poetas jovens daquela década de
70. Como tributo ao bom gosto, ele se propunha equilíbrio e correção de
linguagem, sobriedade no tratamento temático, tendente à reflexão. De tal
maneira, contorna o emocional, quase racionalizando a comunicação de
sentimentos, sempre de maneira elegante e discreta. Sem dúvida, ante- cipa-
se às propostas de renovação formal dos nossos parnasianos que, se foram
descritivistas e objetivos em busca da linguagem plástica, foram também de
expressão reflexiva, opondo-se ao emocional epidérmico. Machado de Assis
seria, pois, desde o inicio considerado mestre pelos nossos chamados
“parnasianos”, mestre tanto pelas suas reflexões de críti-

i I IMIKlODO Od O PERIODO NACIONAI. - I - O sPrum v.v c .


I a edlçlo.

CHRYSALIDAS
POESIAS

i)K

MACHADO DE ASSIS
CO» t'< l'iti:in ...................... ..... curisi) HI.nomi,

1U0 I)K JANEIRO


I.1VRARIA DE !). |.. O.MINIKII
lina «lo Outidor, U'J.
inni

CO como pelo exemplo da criação poética. Desde o livro de estreia - Cri-


sálidas, de 1864 - como o demonstra este canto de alegria interior:

Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O


beijo Numa hora de amor, de ternura e
desejo,
Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,
Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;
Depois, depois, vestindo a forma peregrina,
Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corinaf ’

V), Machado dc Assis, Poesias Completas - Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais, Rio dc Janeiro, ( iarnicr, 1901, p.
30. Alberto de Oliveira, em considerações sobre o verso alexandrino cm língua portuguesa, observa que o
alexandrino clássico, conforme o modelo francês, chegou i poesia pomi-
Depois deste livro virão em 1870, Falenas, cinco anos mais tarde,
Americanas, e finalmente Ocidentais. Reunidos e acrescidos de composições
posteriores, formaram o volume das Poesias Completas, de 1901, de onde se
destacam algumas poesias verdadeiramente antológicas, do lirismo
amoroso à reflexão: os “Versos a Corina”, poemas e sonetos: “Menina e
Moça”, “A Morte de Ofélia”, “O Desfecho”, “Círculo Vicioso”, “Mundo
Interior”, “A Mosca Azul”, “Soneto de Natal”, “Carolina”; além daquelas
em que ele revela seu culto literário a Dante, Camões, José de Anchieta,
Shakespeare, José Basilio da Gama, Víctor Hugo, Edgard Poe, Gonçalves
Dias, Alencar e ao contemporâneo Artur de Oliveira — hoje desconhecido,
mas então proclamado mentor dos jovens parnasianos brasileiros.
A caminho da perfeição, a poesia de Machado de Assis é pautada pela
evolução gradativa, à semelhança da obra do prosador. Depura a forma,
inova o alexandrino, impõe-se como sonetista. Sempre com sobriedade,
cultiva desde temas e motivos americanistas, ao início, e destacase pelo
lirismo amoroso, atinge a intimidade da condição humana, nos convidando
à reflexão conjuntamente com ele. Assumiu uma posição de relevo no
nosso parnasianismo, acrescida da contribuição do crítico. An- tecipador
imediato, colocar-se-á ao lado dos consagrados: Alberto de Oliveira,
Raimundo Correia, Olavo Bilac, Vicente de Carvalho.
E foi Machado de Assis, como crítico, o primeiro a chamar a atenção
para a poesia de Alberto de Oliveira, estreante de 1878, com Canções
Românticas. Desde então, este poeta preencheria uma longa trajetória, até
1927/1928, ultrapassando os limites históricos do Parnasianismo entre nós.
Já não foi tão longo o percurso de Raimundo Correia, com produção entre
1879 e 1892, e de Vicente de Carvalho, de 1885 a 1912, en-

gucsa provavelmente por iniciativa de Bocage. Outros árcades, Silva Alvarenga, José Basilio da Gama,
usaram o “alexandrino antigo”, à maneira espanhola e italiana. No Brasil, Teixeira de Melo - Sombras e Sonhos
- foi provavelmente o primeiro a cultivar o alexandrino clássico. E caberia a Machado de Assis “deslocar as
pausas clássicas do alexandrino, quebrando-lhe a forma rígida em que se ínteiriçava, alando-o, sutilizando-
o, como neste verso das Crisálidas (1864): ‘Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor’” (em Almanaque
Brasileiro, Rio de Janeiro, Garnier, 1914, pp. 249-251).

quanto Olavo Bilac, como poeta, cronista e conferencista, se justapõe a

O 2" PERIODO OU O PERIODO NACIONAL - I - O SÉCULO XIX E A. ..


Alberto de Oliveira, com atividade de 1888 a 1919/1921. E cada um i oni
suas características bem definidas.
Talvez seja Alberto de Oliveira, entre os parnasianos, quem se apre-
sente com a mais acentuada preferência pela natureza, decorrente do seu
lelacionamento com o universo rural. Ele mesmo o confessa em página
autobiográfica - “Começo de vida”, onde evoca a casa da fazenda “com o
seu largo campo estendido e verde e a mata perto, rumurejando...”; as I n
imeiras leituras, entre elas a de Camões - “o escritor português”, escre ve,
“que mais vim a ler e a admirar” - além de outros que se fizeram pre
diletos: Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Alvares de Azevedo, T.tgiin
tl< ■ Varela, também Gonçalves de Magalhães, Porto Alegre e Joaquim
Norberto de Souza e Silva, portanto, quase todo o nosso elenco de grau d>
s poetas românticos. Reiterativo, escreve que a poesia lhe “veio talvez d'
um esforço que [...] bateu de outra poesia, a poesia máxima, a poesia
da nossa terra a qual na adolescência me ficou misturada a saudade do %
meu Palmitai e do mar forte que atroa nas praias de Saquarema e cuja
ressonância de quebros influiu de algum modo no ritmo de alguns dos
meus versos. Veio embalada pela música dos cantos dos poetas nacionais,
os primeiros que conheci, ao desabrochar-se-me o espírito com a leitura de
seus versos”“. E o depoimento se confirma com a criação, a exemplo de
“Entrada de um Livro”61 e “Introdução”, como nos versos seguintes:

Natureza imortal, o carme peregrino Entrelaça


com o teu, ao concerto divino Prende a elegia
humana, o seu grande lamento!

Seu canto inspira! InHui-lhe a força que não


passa E orbes e almas no vôo à perfeição
governa.

(ill Alberto de Oliveira, Póstuma, Rio de Janeiro, Publicação da Academia Brasileira de Letras, 1944, pp, 9-15. Kssa
página vem com a data dez. 1929).
fil Alberto de Oliveira, Meridionais (1879-1888), em Poesias (¡887-1895), 1. série, ed. melhorada, Rio de Janeiro,
Garnier, 1912, p. 269.
Tudo entre nós se extingue e se evola em fumaça,

O 2« ffeRlODO OU O PERIODO NACIONAL - I - O SÉCIIl o YIY pa


Eterno em ti somente esplende o amor, a graça,
E somente em teu seio há poesia eterna!221 222

- persistente em plena maturidade:

[...] inda abençoando o doce e amigo


Instrumento em que canto e a alma me encerra;

Abençoando-o por sempre andar


comigo E bem ou mal, aos versos me
haver dado Um raio do esplendor de
minha terra.62

E nessa evocação das raízes rurais como fonte inspiradora, também se


faz presente o amor fugaz:

iMelhor cantei quando cativo, ourrora,


Os carmes modulava acompanhado
Do som dos elos do grilhão dourado
Que me impôs quem se foi tão cedo embora.223 224

Delineiam-se assim as coordenadas temáticas da poesia de Alberto de


Oliveira: - natureza/alegria, universo rural, amor espiritualizado, além do
toque erótico e da concessão “parnasiana” ao exotismo oriental - tradição e
mitologia greco-latina, e outros temas ditados pela experiência ou pela
maturidade atingida, como o envelhecimento e a morte.
Desde o seu primeiro livro, cujo título - Canções Romântica?5, sugere a
persistência romântica, o poeta se exprime com delicadeza e equilíbrio
lírico: da inspiração na natureza ao amor e aos temas tomados à

221 Idem, Poesias, 3. série (1904-1911), 3. ed., Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1928, pp. 9-16.
222 Idem, Poesias. 4. série (1912-1925), 2. ed., Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1928, p. 7.
223 Idem, Póstuma, ed. cit„ pp. 17-18.
224 Canções Românticas datam de 1878, com produção poética situada entre 1877-1878. É o primeiro a integrar a 1.
ed. das Poesias (1877-1895), 1. série, juntamente com Meridionais (1878-1883) de 1884, Sonetos e Poemas (1884-1886) de
1886, Versos e Rimas (1887-1894), de 1894, Por Amor de uma Lágrima (1885).
AII M - II » ilc
Oliveira, > I Koimos,
ano 2, uni 1*105, n,
10.

tradição antiga, greco-latina, e ao orientalismo. Também o culto do corpo


feminino, enquanto forma estatuária, delineando a beleza nua, além dc
certo sensualismo com concessões ao “realismo” do momento.
Isso que se observa nas Canções Românticas, ainda o vemos nas Mc
ridionais. E sob o culto da forma, do vocabulário raro, a natureza é para o
poeta som, canto, luz, cor, movimento, refúgio de bem-estar, de tran-
quilidade e alegria de vida simples, em harmonia com o ideal amoroso. Em
síntese, associam-se mulher, amor-desejo, alegria225, natureza, expres-

225 V. 1’oeiias (1877-1885), 1. série, ed. cit., p. 115.


sos em formas variadas, com preferência pelo verso curto, em oposição ao
alexandrino:

Olha o alexandrino, poeta,


De que outras vezes te vales,
Não cabe dentro do cálix
De uma violeta.

Forma uma quadra pequena,


F.m redondilha menor,
Fresca, orvalhada, serena,
Como uma flor.67

Contudo, a alegria, que se confirma nos Sonetos e Rimas, não chega a


contrastar com a presença da morte, pelo poeta associada à metempsicose -
espécie de metempsicose panteísta, em que o ser se reintegra na natureza,
espiritualizado:

E como sei que em mágico transporte


Amas da selva a música sombria,
Farei gemer tualma à ventania,
Num cedro altivo de um pinheiro forte.68

- ou, talvez, sob sugestão do modelo beaudelairiano, como húmus


originário, alimento de flores. A morte impressionou o poeta desde cedo,
relacionada com o ideal amoroso.
Os aspectos biográficos da inspiração de Alberto de Oliveira - a
evocação da natureza e o amor adolescente interrompido pela morte da
amada, conforme o que sugere o Livro de Ema69 - projetados em toda a obra
que escreveu sem dúvida teve a sua maior fonte na evocação da fazenda em
que ele viveu parte da vida. A evocação seria inevitavelmente

67. läem, lug. cit., p. 138.


68. Idem, lug. cit., p. 287.
69. V. IWiiai (IN02-1903), 2. série, ed. melhorada. Rio de Janeiro, Garnier, 1912. Contém Livro de l »M (IN92-I897X, Alma
Livre (1889-1901)-, Terra Natal (1900-1901X Alma em Flor (1900).

' i'IHllllllMUltl Pl'Ulnnn wtHOK.il


c onlmntada com a visão posterior de decadência, abandono e ruína da
propriedade rural, cujas impressões, não obstante sua carga afetiva, se fa-
zem extensivas às fazendas fluminenses do corte marcante do rio Parnaí- lu
do Sul. O poeta chegou mesmo a escrever livros somente com esta temática
de retorno à casa paterna, ao universo de imagens, primeiras emoções, em
busca da reidentificação sentimental. Terra Natal., por exemplo, em que
impera o grande rio, que em enchente lhe faz evocar “a lenda/De Cecília e
Peri sumidos no horizonte...”70 Prossegue no livro seguinte - Alma das Coisar71
em que às lembranças da fazenda, da casa I',ronde, do engenho, dos rios,
das pedras se associam episódios, lendas legionais e mesmo mitológicas,
comunicando vida - alma ou vibraçao mítica. Em Natália, deixa bem clara
essa busca nostálgica: .

- Velho, ao ver-te em caminho essa figura,


Tornando a entrar o pátrio ninho amado,
Onde do que ontem fui vinha a procura, 72

Encontraria, porém, ruínas e abandono, do que foi esplendor e


trabalho:

(...) pois lhe falta o braço Do escravo prestadio, ao clima afeito,


Mortas lavouras vê de espaço a espaço. 1

Em “Rimas que Falam”, poema dialogado entre dois velhos, quase


uma cena dramática, ainda que pareça reacionário, o poeta é mais objetivo:
um dos velhos é senhor de grande propriedade rural, mas em ruínas, o
outro, é o único escravo que lhe restou fiel dos quatrocentos de que
dispunha outrora. São fantasmas do passado no velho casarão, sede da

70. Idem, lug. cit., p. 216.


71.
V. Poesias (1904-1911), 3. série, 3. ed.. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1928. Contém: Sol eie Venia ( / 904} Céu
Noturno (1904- ! 905} A Ima das Coisas (1905-1906} Sala de Pa ile (1907}, Rimas Várias (1907-1909} No Seio do Cosmos, Natália (191
ll- ltlem, lug. cit., p. 248.
72. Idem, lug. cit., p. 269.
73.
fazenda-engenho. Contrastam o esplendor passado com ruínas do presente:
da fase áurea das fazendas do estado do Rio, de vastos canaviais e cafezais,
com centenas de escravos, passa-se ao mergulho rápido na decadência em
virtude da extinção da escravatura.
De extensa obra e trajetória literária, Alberto de Oliveira manteve- se
sempre fiel a si mesmo, satisfeito com o que exprimiu e nos comunicou,
conciliado com a vida e com a morte, admitida a presença de Deus. Foi,
portanto, de grande autenticidade e independência literária, cultor da forma
desde o gosto pelo vocabulário raro, pela correção e elegância do verso, pelo
domínio da técnica versificatória sob ampla variedade rítmica, até a
realização final que se fazia sempre pela adequação da forma ao conteúdo.
Olavo Bilac o considerou o maior de todos, exemplo dessa “escola do bom
gosto”, de apuro formal e contenção subjetiva, conhecida um tanto
equivocadamente como Parnasianismo74.
Como Alberto de Oliveira, Raimundo Correia surge, em seu livro de
estréia - Primeiros Sonhos77 - também compromissado com o Romantismo.
Chega mesmo a citar em epígrafes versos de Gonçalves de Magalhães:

Meus versos são suspiros de minh’alma


Sem outra lei, que o interno sentimento.

e de Fagundes Varela:

Pensava em ti nas horas de tristeza


Quando estes versos pálidos
compus76.

74. É certo o que Aloysio de Castro diria de Alberto de Oliveira, ao prefaciar-lhe Póstuma: “Dele se disse
parnasiano, e é certo não se pode separar Alberto de Oliveira de Olavo Bilac e de Raimundo Correia. Mas a
verdade é que não poetou para servir a escolas ou grupos. Fez a poesia que sabia fazer - a alta poesia -,
sentimento, razão e forma, na majestade de uma língua de ouro”, cm Póstuma, cd. cit., pp. 5-6.
75. V. Raimundo Correia, Poesias Completas (org., prefácio e notas de Múcio Leão), São Paulo, Cia. I d, Nacional.
1948, 2 vols. Aí se encontram - ¡Vimeiros Sonhos, 1879; Sinfonias, 1882; Versos e 1 rriõei, 1887; Aleluias (1888-1891),
1891. Reunidos sob o título de Poesias, teve sua 1. ed. em IH9H c a quatta cm 1922.
76 Itimi, big. clt„ pp. 8-9.

ti . ' l'I Ninno t i l l it t ut #Inno kiwi' ' «. ! *.


Ao escolher estas epígrafes, Raimundo Correia revelava preferências
românticas. Oscilaria, porém, entre a tristeza e o gesto risonho que lhe
proporcionam os “primeiros sonhos” dos “dezenove anos”, e também
certas aspirações da poesia do momento, ainda não defmidamente
parnasianas:

Somente inspiram-se esses pobres versos,


Deus, o amor, a família,
E a paz nas solidões onde sem máscara A
natureza brilha226.

Ainda a exemplo de outra composição, a inspiradora é convidada a


“gozar [...] o amor na solidão” com o “pálido poeta”, sob o “pálido cia rao"
do “céu”227. E propondo-se cantar Deus, o amor e a família, confies sa-se
adepto da “idéia nova”, expressa conforme linguagem e ritmo então
preferidos:

O cérebro febril da ardente juventude é um


vulcão também; a luz da Nova Idéia Há de
romper de lá em súbita explosão!

Atlético lutar! Tomba a decrepitude!


Mas das ruínas vis da sórdida Pompéia A
cidade - Progresso — há de surgir então!228

no mesmo tom condoreiro de “Novos Bardos”:

Na alma do poeta voam beija-flores,


Mas também seu diâmetro comporta A
envergadura altiva dos condores229.

226 Idem, lug. cit., pp. 11-13.


227 Idem, lug. cit., p. 48.
228 Idem, lug. cit., p. 50.
229 ídem,
I I 'lug.
l ' lcit.,
II1p.
1 237.
Hii i i >i ' «
Nos Primeiros Sonhos-. - seja quanto ao lirismo amoroso, seja pela
inspiração em Deus e natureza, associados à morte, muito ao gosto das
meditações românticas; seja ainda em evocações históricas, ruínas, Oriente;
ou na preferência pelos poetas que ele traduz, como Victor Hugo, ou
homenageia, como Alexandre Herculano; finalmente no repúdio à
sociedade:

Eu amo a solidão! A natureza Lá


de si não expulsa os filhos seus!
A natureza inteira fala ao homem,
E o homem fala a Deus!81

— o poeta está mais preso ao Romantismo do que às renovações, apesar


das referências explícitas à “ideia nova”. Mesmo as formas poéticas, metros
e ritmos também refletem traços de influências de Castro Alves e Gonçalves
Dias. E nos lembra até Tomás Antônio Gonzaga, idealizando a vida futura
com a amada ou convidando-a para os desfrutes do amor, porém, sem
concessão ao realismo poético.
Esses reflexos da “idéia nova” acentuam-se no livro seguinte, Sinfonias,
mas onde já reconhecemos claramente determinados tiques parnasianos. E
também certo sensualismo, ou erotismo, embora sóbrio, pois o poeta
prefere ressaltar a beleza e pureza da mulher. Se cultua a nudez, o faz
voltado para a composição do quadro artístico distanciado da emoção
sensual. Procedimento do Parnasianismo em geral, como em Alberto de
Oliveira e outros, aspirava-se à composição do quadro estatuário feito para
dar relevo à beleza em si da nudez feminina. E assim o poeta procede com
outros motivos, quando aglutina componentes móveis, como um
instantâneo, de maneira a acentuar a sugestão da impassibilidade. É o caso
em que Raimundo Correia, antes de pedir emoção, propõe contemplação,
às vezes enriquecida pela reflexão, como em poesias que o deixaram
célebre e lhe garantiram o atestado de parnasiano: “As Pombas”,

Hl. hirm, lug. ci'.. p. 33.


"Anoitecer”, “A Cavalgada”, e outras notadamente sobre a fugacidade das
ilusões, como em “Cair das Folhas” que nos lembra “As Pombas” 82.
Ao lado do culto dedicado a certos românticos - Alvares de Azevedo,
(unqueira Freire, Fagundes Varela, além de Gonçalves Dias e Castro Alves,
ou a heroínas literárias, como Ofélia e Julieta (o culto shakespca- II.IIIO),

Graziela, Fiero, Marília, Beatriz, Natércia, Virgínia, acentua-se- llie o gosto


das traduções destacadamente de Victor Hugo83. E também pei sistem
aqueles compromissos indicados com a poesia social ainda em tom
discursivo, bombástico a Castro Alves, a exemplo da ode inspirada no povo
subjugado, que não se curva, ou quando exalta o progresso, de "A
Locomotiva”; ou aplaude a revolta do povo, estimulada pela força do
pensamento novo “contra a tirania”, ou seja, o combate ao “trono" e à
igreja”, em “Os Dois Espectros”84. E em Sinfonias e Versos e Versões se encontra
grande freqiiência de sonetos, destacadamente em decassílabos, pois o
poeta não se revelou seduzido pelo alexandrino. Quanto a Aleluias i Poesias
Avulsas nada acrescentam em novidade à poesia anterior 84.
Vicente de Carvalho, o terceiro dos consagrados “parnasianos” bra-
sileiros, apesar de estreante nos anos 80, surge, como se pode reconhecer,
também sob reflexos do Romantismo. Seria portador de certa cons- i iéneia
crítica do seu procedimento e conseqüentemente de sua evolução poética.
Ele mesmo estabelece uma distinção entre Versos da Mocidade (1885-1895) e
Poemas e Canções, ou mais precisamente Rosa, Rosa de Amor... (1902)86. São duas
fases, com interregno de “mais de cinco anos

K.V Idem, lug. ci(. V. Sinfonias, de 1882. A propósito da discutida originalidade deste soneto, v. a nota do
organizador da edição indicada, Múcio Leão, de pp. 272-277.
H.l No livro seguinte - Versos e Versões- também de 1882, contam-se 20 traduções entre 44 composi ções originais, de
diferentes poetas: Heine, Coppée, Gautier, Victor Hugo, J. Kicltepin, M. Rollímat, J. Autran, Catulle
Mendès, Leconte de Lisle, Le Brilly, Mme. Ackermann.
H4. V, Sinfonias, lug. cit.
HV V. 1‘oesias Completas, ed. cit.; Aleluias (1888-1890), 1891; Poesias Avulsas, reunidas pela primeira voz nesta edição
citada de Múcio Leão.
H(> Versos t!a Mocidade, Porto, Chardon, 1912, reúne Ardenlias (1885), Relicário (1888), Avulsas (1889-1895) c traz
prefácio datado de 1909. Poemas e Canções teve sua primeira edição cm 1908, contudo, entre outras muitas
produções - Rosa, Rosa de Amor... é datada de 1902.

I I ' l ' l II1 1 H i i i i > i ' «


cie absoluta e intencional abstenção”, em virtude da conversão do poeta ao
positivismo, de maneira a relegar a segundo plano sua produção poética de
Ardentias, Relicário e Avulsas. A segunda fase230 data de Rosa, Rosa de Amor... até
Poemas e Canções, obra que mereceu sucessivas edições, alcançando o
Modernismo. Por ela, seria consagrado como parnasiano. Na verdade, em
Vicente de Carvalho e nos anteriores, a renovação dita parnasiana se
processou em geral sob sugestões de normas da poética do momento, além
do modelo clássico, Camões, e também românticos, quer dizer, da tradição
da poesia em língua portuguesa.
Na primeira fase, o poeta reconhece defeitos de forma que procurou
eliminar na reedição de 1912 dos Versos da Mocidade. É quando se dá como
revolucionário a favor do “falar brasileiro”, embora continuasse a admirar
os “chamados clássicos da língua”. E auto-analisa-se: “Quanto à fatura
material do verso, à precisão e sobriedade das expressões, à variedade dos
sons, que tanto contribuem para a musicalidade do ritmo, à propriedade da
rima - pensava o autor que a forma não passava de um pretexto à
inspiração”. Voltava-se até mesmo contra o Parnasianismo, contra os seus
“pavões bizarros”, pois não admitia, então pelos seus vinte anos de idade,
que se pudesse fazer da “beleza da frase o valor exclusivo do verso”.
Preferia separar “na poesia, o fundo e a forma, para atribuir àquela uma
absoluta supremacia, e a esta uma função acessória”. Mas já na segunda
fase, ele reconsideraria esta posição, aderindo à linhagem parnasiana, “cer-
to de que na obra de arte, que é um luxo, a perfeição da forma é uma
necessidade, e a ambição de a realizar uma condição da capacidade cria-
dora”, pois, invocando Goethe, “um poeta, enquanto apenas dispõe de uma
rica idéia, não possui ainda coisa nenhuma” 231. Reconfirmando a nova
posição, ao escrever sobre outro parnasiano da época, Gustavo Teixeira,
reconhece que este poeta - hoje já quase completamente esquecido232 -
'.idquiriú, ou adivinhou, os segredos da forma; e esse elogio inclui o da Mia

230 V, n prefácio dc Versos da Mocidade, ed. cir., pp. V-XVI.


HH. Idetn, lug. cit.
H‘>, Paulo Duarte teria a iniciativa dc reeditá-lo num esforço de reavivar-lhe a memória. V. Gustavo

o • l'l ItlOIK) OU O PERlODO NACIONAL - 1 - 0 Sfrtn n viv c .


inspiração”. Vicente de Carvalho readmite a harmonia da forma e
conteúdo, acentuando que no “verso, as idéias fundem-se na expressão, e
n.1o há meio de as separar”, proclamando mesmo: “Não creio que haja
poetas da forma, e poetas de outra espécie”. É assim que ele almeja a per-
feição, também exigindo a sobriedade e condenando “o abuso das ima-
gens”, que lhe parece “tentador como quase todos os vícios”'"’. Mas, ao
(.il.tr de Francisca Júlia, a quem aponta como o “mais vigoroso e legítimo
representante do parnasianismo” “na poesia brasileira”, ele reconhece que
esta tendência é a “menos sentimental da nossa literatura”'".
Assim, nas reflexões de Vicente de Carvalho, com valor de autocrí
lica, encontram-se os fundamentos de Poemas e Canções1, nem romântico nem
parnasiano, antes, soma equilibrada de sugestões clássicas com lie rança
romântica, umas e outras subordinadas ao modelo clássico. Kesul (ou daí a
sobriedade no tratamento temático, sob a correção e a elegância da forma,
sem prejuízo, contudo, do traço sentimental de procedência romântica. E
Gonçalves Dias (também Fagundes Varela), depois Camões, e ainda Olavo
Bilac deixaram marcas na criação do poeta.
A variedade temática de Vicente de Carvalho, com preferência pelo
decassílabo e pela redondilha maior e também pelo alexandrino, já está no
livro de estréia - Ardentias, em que é rara a inspiração mitológica, de gosto
parnasiano, ao contrário, presente o sentimento de solidão e angús- ti.i
associadas à maneira romântica92. Também à semelhança de outros poetas,
evoca fases anteriores da vida, tempo passado, irreversível. Seja a infância,
seja a adolescência. Retoma, pois, a temática da “volta â casa paterna”,
conforme o famoso soneto de Luís Guimarães Júnior. Como

Teixeira, Poesias Completas, São Paulo, Anhembi, 1959. Prefácios de Cassiano Ricardo, Gustavo Teixeira,
presença de Vicente de Carvalho, Ementário.
90, V. Vicente de Carvalho, Páginas Soltas, vol. 1, São Paulo, Tip. Brasil, 1911, pp. 64-65.
91, hlem, lug. cit.
92, V. cm Versos da Mocidade, ed. cit., p. 32, a composição “Spleen”, em que, evocando preferências do momento,
se destaca o seguinte verso: “Sinto ansiarem-me nalma instintos de chacal...”.

. O 2» PERÍODO OU O PERlODO NACIONAL - I - O SÉCULO XIX f A


Retrato de Vicente de
Carvalho, cf. Versos da
Mocidade, Porto, Chardon,
1912.

também,
frequente no seu
momento, a
paráfrase e a
tradução de
românticos como
Byron ou Victor
Hugo, ou a
inspiração na
tragédia de amor
shakespeareano.
O lirismo
amoroso ainda nesta fase é a descoberta do amor, a sedução que lhe exerce
a formosura jovem. Este impulso, porém, é refreado pela sugestão de
pureza da idade adolescente, donde sobriedade e alegria interior, que se
farão persistentes até à experiência neoclássica de Poemas e Canções, quando
predomina o modelo camoniano. Se diviniza a mulher, e lhe ressalta a
esquivança, também exalta aquela alegria que lhe proporciona o amor.
Tanto assim que, se o amor cessa por qualquer motivo, o poeta se resigna
sem lamúria, ao contrário, aceita o fato como uma consequência de nossa
condição, reconhecida. Daí, às vezes, a retomada da metáfora do pássaro
que chega para depois partir e não
HUÍS voltar, numa evidente reminiscência de Raimundo Corrcia; o u da
ii|;i'si.u) do movimento em contínuo, que não retorna, já da poesia cie »
mnçalvcs Dias; como também lembra este poeta romântico ao louvar a
beleza dos olhos da amada.
Retomando Ardentías, a temática da criança e a morte aparecem pela
primeira vez como contraste que se estabeleceu freqiientemente entre o
esplendor externo da vida e sua decomposição no seio da terra. Projetada >
m “Pequenino Morto”, de Poemas e Canções9\ aquela temática ganha nuira
dimensão, de acentuado toque emocional, pela destruição do pe queno ser
arrebatado à vida e conduzido ao túmulo. Aproxima se do po i ma
romântico, de emoção autobiográfica, de Fagundes Varela,"( .mino do C
àtlvário”. Mas prevaleceria pelos anos 70/80 a visão da vida, tida romo
beleza em oposição à morte, considerada decomposição do corpo cm vci nu
e lama, conforme o vimos em Alberto de Oliveira e Raimundo ( 01 leia,
prenunciando Augusto dos Aaijos, que igualaria uma e outra.
Contudo, o que mais avulta em Vicente de Carvalho dos Poemas e \
( ançõesé a presença da natureza e sobretudo a presença do mar, as quais se
tornarão progressivamente maiores e constantes. O mar, em destaque, t
apreendido desde os aspectos ingénuos do viver praieiro, de sabor qua se
popular, até às impressões de grandiosidade, motivando reflexão, no-
vamente nos revertendo a Gonçalves Dias. Sem dúvida, a sugestão dos
espaços imensos, a ânsia panteísta do poeta:

O derradeiro sono, eu quero assim dormi-lo:


Num lago descampado,
lendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado'1'1.

E em versos de igual simplicidade, quase coloquial, chega a confes sai


que a inspiração de sua poesia provinha da contemplação da natureza:

•M, V. Poemas e Canções, 10. ed., São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1938. A primeira edição é de 1908 e contém Rosa,
Rosa de Amor, de 1902.
94. Idem, lug. cit., p. 236.

. O 2» PERÍODO OU O PERlODO NACIONAL - I - O SÉCULO XIX f A


A inspiração de um poeta é como solo inculto Que à
toa se abre em flor:

Todo esse turbilhão de ideias em tumulto Que, nem


eu sei porque, rimei com tanto ardor, Veio-me de ter
visto
— Pela janela do meu quarto de doente - Que
maravilhas?
— Isto:

Um trecho muito azul de céu alvorecente;


Um pedaço de muro engrinaldado de hera;
E, resumo feliz de toda a Primavera,

Ao leve sopro de uma aragem preguiçosa,


O balanço de um galho embalando uma rosa...9^

Se em Alberto de Oliveira a natureza tem implicações nas origens


rurais do poeta, quase telúrico, em Vicente de Carvalho o que se dá é a
busca exaltada de comunhão. Curiosamente, em poema-carta a Valdomi- ro
Silveira233 234, ele se confessa um bugre que não resiste aos chamados da
natureza, e talvez o tenha dito metaforicamente, para melhor enfatizar que
a ama, sobretudo o mar. Pois é ali que gosta de permanecer em refúgio,
perto de Deus e distanciado das convenções e limitações da civilização.
A natureza também assumiria papel importante nos poemas de Vi-
cente de Carvalho “Fugindo ao Cativeiro” e “A Partida da Monção” 235. A
primeira parte do primeiro poema, espécie de retrovisão histórica anties-
cravagista, descreve a natureza à noite, quando um grupo de escravos gal-
ga a Serra do Mar. Em busca da liberdade, o drama desses fugitivos e seu
sofrimento físico se dimensionam à medida que mais e mais a natureza se
faz misteriosa e ameaçadora sob as sombras noturnas. Lembra-nos Olavo
Bilac de “O Caçador de Esmeraldas”, da mesma maneira que “A
I'.II tida da Monção”, poema sobre a penetração bandeirante, rio adentro do

233 Idem, lug. cit., p. 105.


234 Idem, lug. cit.. pp. 151-158
235 Idem, lug. cit.

O 2 « P É R l O D O O U O PERIODO NACIONAL - 1 - O SÉCULO X I X F A


brasil, varando o sertão. Visando ao apresamento do índio, opõe-se, i
ontudo, ao ideal de “Fugindo ao Cativeiro”.
1 )os quatro consagrados “parnasianos”, Olavo Bilac, através da sua
longa trajetória de escritor atuante, foi sempre fiel à poética parnasiana que
ele propugnou. Estreou cm 1888 - Poesias, com reedição aumentada, cm
princípios do século, e uma terceira quase vinte anos depois, in-
corporando seu último livro - Tarde1'1'. Reflexo da atuação de intelectual
participante, escreveu poesia para a infância; de parceria com Manuel
Bonfim, a narrativa educativa, Através do Brasií, e atuou na campanha cívica e
na instituição do serviço militar obrigatório, pronunciando dis cursos e
conferências; em colaboração com Guimarães Passos, escreveu o tratado de
Versificação-, e cultivou a crónica", contribuindo destacada mente para a
consolidação deste gênero entre nós100.
Ao contrário de contemporâneos, Bilac surgiu independente da po-
ética romântica remanescente, porém herdeiro de uma tradição que ele
enriqueceria. Neste sentido, se distingue, em primeiro lugar, pelo cultivo de
nossa temática de compromisso nacionalista. Bastaria lembrar “O ('açador
de Esmeraldas”, se não fossem alguns sonetos de Tarde. “Pá- u ia", em que
se identifica com ela; “Língua Portuguesa”, procurando conceituá-la ao
mesmo tempo do nível afetivo ao intelectual; “Música Brasileira”, essa
“Flor Amorosa de Três Raças Tristes”; “Anchieta”, evocando nossas origens
- o desbravamento e a catequese. Tudo, em suma, reconhecimento da
identificação do poeta com o seu povo, desde incertezas, inquietação,
aventura e tumultos da nossa alvorada. E é esta uma das sugestões finais
de “O Caçador de Esmeraldas”, retrovisão poética

OM. V. Poesias, 19. ed., Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1942, contendo Panóplias, Via Linea, Sarças de Fogo,
Alma Inejuieta, As Viagens, O Caçador de Esmeraldas e Tarde (1. cd., 1919). As Poesias, assim constituídas,
tiveram sua primeira edição em 1921.
99. V. Critica e Fantasia, Conferências Literárias, ultimas Conferências e Discursos, Ironia e Piedade, e em
colaboração: Cantos Pátrios, Livro de Leitura, Teatro Infantil, A Pátria Brasileira, Tratado de Versificação,
Livro de Composição, Através do Brasil.
100. V. nota anterior.

da bandeira de Fernão Dias Pais, tomada como paradigma. Em versos

O }• PERIODO OU O PERIODO NACIONIAl _ i n cíf'ii.r, v,v - .


alexandrinos de grande efeito plástico, este poema nos delineia um painel
ampio, dilatando no tempo a visão histórica do nosso espaço continental,
em que avulta a figura de desbravador, mais lírica do que épica, quer dizer,
sonhadora, de Fernão Dias Pais. Aqui, o tratamento poético do assunto
histórico, não obstante a vibração patriótica de que se reveste, remete-nos
ao Romantismo, mas enquanto reflexo da ideologia nacionalista do século
XIX.
Outra contribuição do poeta é o lirismo amoroso, a que se associa por
vezes o erotismo, não só por influência da poesia “realista”, também por
ser traço sensual do seu próprio temperamento. Entre ânsia, satisfação,
temor, expectativa, conflito, contradições, é possível um amor único -
autobiográfico - de riqueza afetiva e discreto. É o que sugere o soneto
XXXV de Via Láctea:

Esse dirá: “Pode viver tranquilo


Quem assim ama, sendo assim amado!11’1

contrariamente ao soneto “Última Página” de Alma inquieta236 237, em que a


mulher é inspiração sensual, objeto do culto da nudez, tão freqüente na
poesia do momento. Nesse sentido, talvez os melhores exemplos se en-
contrem em Sarças de Fogo, onde, entre outras composições, apontamos
“Satânia”, solicitação de corpo jovem em que falam impulsos e desejos,
embora o erotismo seja contrabalançado pela sugestão da beleza em si da
forma feminina desnudada. Assim também “De Volta do Baile”. Mas onde
ele atinge a dimensão maior da beleza como esplendor da nudez é sem
dúvida em “O Julgamento de Frinéia” e mesmo em “Tentação de
Xenócrates”, nas quais a palavra se converte em forma plástica, sugestão
serena e triunfante da beleza física que se visualiza ex-abrupto, anulando
Kwtito de Olavo Bilac, 11,
Husmos, ano 1,
«br, 1904, n. 4.

236 V. Poesias, cd. cit., p. 77.


237 Uem, lug. cit.. p. 231.
restrições ou convenções que sejam morais ou sociais, ao mesmo tempo que
se refreia o impulso sensual.
Lembremos ainda outros aspectos da poesia de Bilac, a saber: os te-
mas propriamente do gosto parnasiano, “exóticos” para nós, tomados a
tradição clássica - história, mitologia e mesmo literatura, principalmente
gregas, também latinas; gosto por metáforas que sugerem mobilidade e
escoamento; reminiscências literárias, a exemplo de temas shakespearca-
nos, ou da presença de Homero, Camões, Calderón, Bocage, Goethe, I amai
tiné, Gonçalves Dias; já na maturidade, gosto pela reflexão, com o
reconhecer tranquilo do envelhecimento, sensação da plenitude de vida

O }• PERIODO OU O PERIODO NACIONIAl _ i n cíf'ii.r, v,v - .


e aceitação da morte que se aproxima, lembrando-nos Alberto de Oliveira.
Veja-se em Tarde, além de todo o conjunto deste livro, destacadamente os
sonetos finais “Frutidoro” e “Sinfonia”103.
No conjunto da obra de Bilac, a forma é múltipla, perfeita desde o
inicio, comportando exemplos de formas fixas como o pantum e tercetos,
variedade de metros e de ritmo, com preferencia pelo soneto, em
decassílabo ou alexandrino. Talvez seja o domínio da língua, com correção,
ritmo e harmonia, elegancia e ao mesmo tempo sobriedade, um dos
maiores segredos da maleabilidade e perfeição formal do poeta. Foi assim
desde a primeira à última página das Poesías, em que se destaca Tarde, seu
derradeiro livro. Dele não se pode falar na impassibilidade que urna
Francisca Julia proclamaria em “Musa Impassível”:

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero


Luto jamais te afeie o cándido semblante!104.

Ao final de sua obra, repassaria a “Profissão de Fé”, do inicio, inspi-


rado em longa experiencia vivida e interior, sempre em busca da expressão
perfeita:

Longe do estéril turbilhão da rua,


Beneditino, escreve! No aconchego Do Claustro,
na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego Do


esforço; e a trama viva se construa De tal modo,
que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício Do mestre. E,


natural, o efeito agride,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

lot. hlrm, lug. cit., pp. 381-383.


104 ífuncUi .1Jillia da Silva, Mármores, São Paulo, Horácio Belfort Sabino (1895), pp. 1-2.
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,

II >■ I ' r u l o 1)0 Olí O P P H Í o n o N J A r i o M A i r\ c 1 1 « vil/ i- k


Arte pura, inimiga do artifício,
P. a força c a graça na simplicidade105.

Essa posição é confirmada pela própria criação, além de explicita-


Mitiitc reiterada em quatro sonetos anteriores - “Perfeição”, “Inania Ver-
IM", "Penctrália” e “Fogo Fátuo”106. Neste último, o poeta condiciona sua u
ic ao mundo interior, feito de ansiedade, insatisfação, sonhos inatingi- dos,
No caso, a comunicação ou a expressão é uma luta sem vitória, uiiiio em
“Inania verba”, incessante procura de “Perfeição”. Talvez haja i M eção à
disciplina que a maturidade imporia à vida interior, conforme "Penctrália”.
Parnasiano? Sim, mas a seu modo, isto é, como resultado dc uma poética
que, a partir de outras sugestões do momento, foi do prin i (pio ao fim
essencial a uma criação pessoal, integrada na nossa tradição literária, em
processo.

APÊNDICE: POETAS DA TRANSIÇÃO PÓS-ROMÂNTICA

Olavo Bilac e Guimarães Passos, no Tratado de Versificação, mencionam ou "últimos


românticos” - Castro Alves, Tobias Barreto, Vitoriano Falhares, Melo Moraes Filho,
Luís Guimarães Júnior107, Luís Delfino dos Santos, Carneiro Vilela, Santa Helena
Magno e Machado de Assis - e observam, com justeza:

É difícil separar dos últimos poetas que aí ficam citados os que se lhes
seguiram. A» duas gerações confundem-se. Machado de Assis (1839-1909) e Luís
Delfino

ItlV Itilac, Poesias, cci cit., p. 339.


I(K), lodos estes sonetos, como o anterior, transcrito, e cujo título é “A um Poeta’’ pertencem .i última obra do
poeta, Tarde (p. 348), assim também “Fogo Fátuo", “Perfeição”, “Penctrália", cf. obra citada,
respectivamente pp. 339, 343, 348, 375; “Inania Verba” pertence à Alma lut/uiela, lug. cit., p. 149.
107. Na verdade, Luís Guimarães é apontado como “lírico de primeira ordem, que sob certo ponto dc vista, pode
ser considerado como um parnasiano ”, Tratado de Versificação, ed. cit., p. 31.
(1834-1910) acompanharam a evolução da poesia e alistaram-se como chefes e mes-

II ' l'l lllODO OU O PERIODO NACIONAI - l _ n tímm Vtv r .


tres entre os parnasianos238.

Referem-se também às manifestações de “uma poesia científica”, situada


“antes ou simultaneamente com os parnasianos”, mas sem a possibilidade de
“formar escola”. E apontando o Simbolismo depois do Parnasianismo, admitem que
aquele “nada teve de característico”239’. Finalmente, batizam todos de “modernos” e
citam cerca de 69 nomes entre poetas ligados à poesia científico-filosófica, realista,
parnasiana, simbolista, invadindo o século atual, de Martins Júnior, ou Alberto de
Oliveira, ou Medeiros de Albuquerque a Amadeu Amaral e Hermes Fontes, sem
preocupação de classificação ou agrupamento e cronologia240 241. Contudo, para
Bilac e Guimarães Passos, apesar da suspeição de ambos, o valor dessa poesia
“moderna” residiria essencialmente no Parnasianismo.
Outra classificação de Valentim Magalhães, contemporâneo das renovações
das décadas de 70 a 80, distribui os poetas de então em quatro grupos.
Primeiramente, os da “Musa cívica ou escola do chacal” - Fontoura Xavier, Assis
Brasil, Isidoro Martins Júnior, e com restrições Augusto de Lima, Teófilo Dias,
Raimundo Correia. Mas estes três últimos se definiriam pelo Parnasianismo, que,
observa, “ia-se insinuando brandamente e conquistando os chaca- listas, os cientistas, os
beaudelaireanistas, os positivistas e os realistaé". E na linha parnasiana, além daqueles três, são
enfileirados Machado de Assis, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Luís Delfino dos
Santos, lembrando que este último vinha sendo requisitado por todas as tendências
que coincidiram com sua carreira de poeta. Considerados “poetas menores”, mas
também ligados ao Parnasianismo, seguem-se Francisca Júlia da Silva, Júlia
Cortines e outros. Como “emancipados” aponta Medeiros e Albuquerque, Filinto de
Almeida, Rodrigo Otávio, João Ribeiro, Guimarães Passos, Magalhães de Azeredo,
Antônio Sales e outros. Finalmente, refere-se aos simbolistas como sendo “Os
desorientados”
i il i unno predecessores imediatos os “hugoanos, ou a Escola do Condor” cm
■ 1«ir se destacaram Castro Alves e Tobias Barreto"2.

238 tdem, ibidem.


I0‘). tdem, ibidem.
240 Idein, lug. cit., pp. 32-33.
III Valentim Magalhães, A Literatura Brasileira (1870-1895), cd. cit., pp. 53 ess., cit. de p. 57.
Sao duas classificações, uma de Bilac/Guimarães Passos, outra de Valcn- imi
Magalhães, que sugerem interferências e interposições, mas em busca de ileliniçfies
que vão do Parnasianismo ao Simbolismo. Então, a observação llil,li /Guimarães
Passos de que as duas “gerações se confundem” provém das Indecisões iniciais. Elas
traduzem os efeitos imediatos de uma crise gerada pela • *,iustão já saturada de
processos e atitudes que deviam ser superados, para o n nu outro com forças de
renovação. Por isso, devemos citar Sílvio Rumerò, que •nube distinguir com
bastante objetividade atitudes criadoras, como reflexos de pronunciamentos
filosóficos e sobre poética"3. Sob a designação de "Período di reação contra o
Romantismo”, ele situa entre 1870-1880 primeiro “o filoso !r,ino ou cientificismo
poético” dele mesmo, de Teixeira de Sousa, Martins Iunior, Aníbal Falcão, Prado
Sampaio. Segundo, aponta a “poesia realista umas vezes, social, revolucionária
outras, de Celso Magalhães, Sousa Pinto, ( ìcnet ino
■ l o s Santos (estes dois últimos logo mais adeptos do positivismo), Carvalho Iunior,
Fontoura Xavier, Lúcio de Mendonça, Assis Brasil, Augusto de Lima, Valcntim
Magalhães, aos quais se prende Medeiros e Albuquerque, sendo que i todos
precedera José Jorge Siqueira Filho — (século XIX, de 1872 ou 73 em diante)”. Em
terceiro lugar, de fins da década de 70, precisamente a partir de IH78, indica os
primeiros parnasianos - Teófilo Dias, Raimundo Correia, ( )luvo Bilac, Alberto de
Oliveira, Afonso Celso, “aos quais se prendem Artur A/evcdo, João Ribeiro, Adelino
Fontoura, Guimarães Passos, Rodrigo Otávio, Magalhães de Azeredo, Mário de
Alencar, Luís Guimarães Filho, Paulo Arruda, ( Kório Duque Estrada, etc.”, que se
projetam pelos anos 80/90. Ainda é Sílvio Rumerò"4 quem aponta como
“divergentes mais ou menos pronunciados” des ta nova tendência: Luís Murat,
Múcio Teixeira, Emílio de Meneses, Tcotónio I reirc, França Pereira, João Barreto
de Meneses, João Pereira Barreto c Fausto 242

242 Idem, lug. cit., pp. 53-82.


I 1.1, Reconsidcrc-se neste capítulo o subtítulo “1. Novos Estilos de Época".
II -I, Sílvio Romcro, Evolução da Literatura Brasileira (Vista sintética), Campanha, 1905 (posterior íi 2.
ed. da sua História da Literatura Brasileira, que é de 1902), pp. 54-56.

II ' l'l lllODO OU O PERIODO NACIONAI - l _ n tímm Vtv r .


Cardoso. E ressalta a reação que logo surge contra o Parnasianismo com a “escola
decadista e simbolista, com Cruz e Sousa, Bernardino Lopes, Alphonsus de
Guimarães [«'<■], Francisco Mangabeira, Nestor Victor, Silveira Neto, Félix Pacheco,
Mário Pederneiras”."5 Sem dúvida alguma, na classificação, com distribuição por
agrupamentos, feita por Sílvio Romero, além do seu testemunho, reconhecemos
melhor a existência de uma fase de transição, talvez mais caótica que eclética,
mesmo que sob a intenção comum de renovação, marcada, porém, pela presença de
Victor Hugo.

11V litnii, lujv cit.

O.' NldODO OU O PKRlnnn NATIONíl i r\ C Én ri r\


CAPÍTULO XII

O ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCULO XIX - 2“ AINDA A

RENOVAÇÃO POÉTICA: O SIMBOLISMO

I. DECADISMO, NEHELIBATISMO, SIMBOLISMO OU “A ARTE PELA ARTE” -

POÉTICA, GRUPOS E REVISTAS

Superadas as veleidades da poesía “científico-filosófica”, “realista” e


"socialista”, o Parnasianismo triunfa e domina a sensibilidade dos anos 80 a
90, e estende-se às duas primeiras décadas do século atual. Contudo,
somente no limite final do século XIX ele deve ser reconhecido como
movimento de grupo, ou aglutinador. No mesmo período, a narrativa
ficcional se conduz pelo Realismo/Naturalismo. Aquele e esta, avançando
adentro do nosso século, aos poucos serão submetidos a um processo dc
diluição, cedendo lugar a novas transformações. O mesmo também
acontece com o Simbolismo, cujas manifestações iniciais e combativas
datam dos anos 90. Caracteriza-se uma fase de transição.
Nascido na França por volta de 1880, o Simbolismo se define como
um movimento artístico, relativamente complexo, abrangendo música,
pintura e literatura, na qual se destaca a poesia. Foi com poetas, inicial-
mente chamados hidropatas, a seguir decadentes e finalmente simbolistas,
orientados e inspirados por Mallarmé e Verlaine, que adquiriu maior
relevo e projeção entre seguidores de outras literaturas. Antes que se ad-
mita a existencia de urna “escola”, reconhecem-se atitudes generalizadas
acentuadamente individualistas, donde a sua heterogeneidade. Apresenta
posições comuns, reivindicatorías e de reação contra a ciência e a disciplina
social. O símbolo é o recurso mais adequado para exprimir a evocação,
principalmente as mais abstratas, as aspirações e os impulsos dos instintos
humanos. Ainda conforme teóricos do Simbolismo, a tendência ao
individualismo alimenta o emocional, opõe-se à expressão das idéi- as e ao
uso das imagens. Torna-se fundamental exprimir a emoção em si mesma,
captar a sensibilidade indizível, harmonia, emoções, instintos obscuros,
correspondências entre as impressões, impondo-se a revolução formal com
o verso libertado de Verlaine, o verso livre de Gustave Kahn e a poesia
influenciada pela música.
O verso livre em definição de teóricos (Auguste Dorchain, por exem-
plo) é aquele em que o poeta usa à vontade, em períodos de extensão ir-
regular, versos de diferentes metros e diversas combinações de rima. A
versificação é despojada do seu formalismo tradicional, desaparecem
regras e alternâncias das rimas, transformadas em assonâncias. E, sem a
quantidade uniforme de sílabas em cada verso de um mesmo poema, o
ritmo se torna variável, rompe-se a sua fixidez tradicional. Nele, a
musicalidade é obtida pela sucessão de sílabas, gerando uma sonoridade
capaz de provocar emoção e mais importante do que o sentido da palavra.
Na observação de teóricos, o sentimento traz consigo o som e é o sentido
da palavra que deve adaptar-se à música. Desaparece a estrutura lógica do
poema, para prevalecer nele o emocional que, em alguns casos, se
confunde com alucinação. Resulta daí também uma revolução sintática,
com o uso repetido do estribilho, o deslocamento voluntário de elementos
da frase,
i nm proposições e palavras intercaladas, silepses e inversões. Introduzem-
te neologismos, recorre-se a arcaísmos e a nomes próprios. Por tudo isso, it
poesia simbolista se faz anti-intelectualista, voltada para a musicalidade,
sugestões vagas e evocações muitas vezes difusas. Embora os simbolistas se
tenham insurgido não só contra os clássicos, também contra os românticos,
é certo que se estabelece um nexo nas transformações formais da poesia do
Romantismo ao Simbolismo e deste ao Modernismo. Essa intcr n l.içlo
repousa essencialmente no início da abertura romântica para li hn tar a
criação artística e sua expressão correspondente, opondo se ás lotinas fixas
e à rigidez das estruturas. Pretendendo exprimir sentimentos pioprios,
individuais, bem como a inquietude que refletia a falta ou o i« 11lilfbrio da
harmonia interior; aspirando, igualmente, a musicalidade da palavra a
ponto de reconhecer poesia tanto no verso quanto na prosa, o Romantismo
abriu, portanto, caminhos para os extremos da poesia sim hnlista, que
atingirá as últimas consequências de uma experiência libei i adora, e
favorece a aventura das vanguardas modernistas 243.
I )e que maneira esses princípios fundamentais da estética e da poé
lua simbolista foram aceitos entre nós? Atingem-nos em pleno apogeu lo
Parnasianismo e do Realismo/Naturalismo, na década de 90, em oposição
a estas tendências e seus fundamentos estéticos. Não foram facilmente
aceitos pela opinião pública, embora contassem desde logo com

243 Suo obras básicas para o estudo do Simbolismo, entre outras: Guy Michaud, Message poétique du
symbolisme, Paris, Nizet, 1951 e 1947, 3 vols.,e La doctrine symboliste (Documents), lug. cic.. 1947; Sverni
(oliatiseli, Le symbolisme - Étude sur le style des symbolistes français, Copenhague, linai Munksgaard, 1945;
Alain Mercier, Les sources ésotériques et occultes de la poésie symboliste (IN '0 1914), Paris, Nizet, 1969, 1974,
2 vols.; José Carlos Seabra Pereira, Decadismo e Simbolismo nu Po nia Portuguesa, Coimbra, Centro de
Estudos Românicos, 1975; C. M. Bowra, La Herencia de! Sim Iwlitmo, Buenos Aires, Losada, 1951. E para o
seu estudo no Brasil, sobretudo como documenta çâo, são fundamentais: Andrade Muricy, Panorama do
Movimento Simbolista Brasileiro, 2. cil,, Ilia •Ilia, INL-MEC, 1973, 2 vols., (1. ed„ 1952); e Cassiana Lacerda
Carollo, Decadismo e Simbolismo no Brasil: Critica e Poética (seleção e apresentação de...), Rio de
Janciro/Brasllia, L.ivros Técnico» e Científicos, INL/MEC, 1980, 2 vols. No nosso caso, usamos
independentemente desia» obras por lima questão de uma documentação de fontes primárias que
igualmente se encontram nelas; este i apltulo é uma reclaboração de nosso pequeno ensaio,
“Apontamentos para a História do Simboli» mo no Brasil”, cm Revista da Universidade de São Paulo, n. 1,
São Paulo, 1950, pp. 111-121.
seguidores ardorosos e combativos. Talvez tenha sido Araripe Júnior o
primeiro crítico de destaque a compreendê-los e discuti-los. Em 1893
escrevia para a revista A Semana - em sua segunda fase dirigida por Va-
lentim Magalhães e Max Fleiuss - vários artigos, três anos mais tarde
publicados em volume sob o título Movimento de 1893. Observava que o
acontecimento de maior relevo da vida literária do ano anterior (1892)
havia sido “a tentativa de adaptação do decadismo à poesia brasileira”, sob
a responsabilidade de Cruz e Sousa. Mas, antes dessa tentativa dada como
definitiva, ele mesmo registra outras, de divulgação e adaptação das ideias
simbolistas. É o caso de Medeiros e Albuquerque, em 1887, quando
conseguiu reunir as melhores produções de Verlaine, René Ghil, St. Merril,
Jean Moréas, Mallarmé, e revistas em que Vieille Griffin, Paul Adam,
Charles Viguier e outros difundiam as novas idéias e combatiam o
Realismo. Teriam resultado daí, ainda conforme Araripe Júnior, as Canções
da Decadência1.
Em que consistiu este livro de Medeiros e Albuquerque, com prefácio
datado de 1889? Reúne poesias de 1883 a 1887, dos 15 aos 18 anos de idade,
quando, confessa, desembaraçando-se“das peias do Espiritualismo, exultava em
uma alegria ruidosa e descomedida”. Procedeu, porém, voltado
propriamente para o cientificismo e filosofia daquela década, não obstante
o título do livro, em que a palavra decadência pode remeter de início à
influência possível da poesia simbolista, também dita decadente. Medeiros
e Albuquerque mesmo nos esclarece, em nota final: “O título deste volume
dependeu das poesias com pretensões científicas que há nele e da convicção
filosófica de que a arte tende a desaparecer e precisamente, na Poesia, pelo
Cientificismo”. A composição que abre o livro — “Introibo ad..." - é uma
profissão de fé caricaturando a poesia “científico-filosófica” e o erotismo
“realista”3, mas não encontramos naquele vo-

2. T. A. Araripe Júnior, Movimento de 1893, Rio cie Janeiro, Tip. da Empresa Democrática, 18%, pp.
66-112.
3. V. Medeiros e Albuquerque, Canções da Decadência, Pelotas, Carlos Pinto, s. d., citação de pp. 3,
227 e 5-6. Tem valor documental sobre esta fase da poesia brasileira a seguinte confissão de

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DA

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lume qualquer relação com o Simbolismo. Neste sentido é mais expressiva
a publicação anterior - Pecados, com produção de 1887-1888, onde Medeiros
e Albuquerque, embora ainda se mostre preso às posições iniciais, nos
oferece duas composições significativas. A primeira é o “Soneto
decadente”, com epígrafe tomada a Verlaine —

Car nous voulons la nuance encore,


Pas la couleur, ríen que la nuance

— embora o autor o considere “imperfeitíssima tentativa da poesia deca-


dente: a única inovação em poesia, que - boa ou má - tem razão de ser, como
progresso na direção da Arte pela Arte”. E virá a propósito outra citação do
poeta francês:

Il faut aussi que tu n’ailles point Choisir


tes mots sans quelque méprise:
Rien de plus cher que la chanson grise Où
l’Indécis au Précis se joint.
Art poétique, Paul Verlaine4

A segunda composição - “Proclamação Decadente”, apesar de dedi-


cada a Bilac, também está acompanhada da seguinte adevertência:

Medeiros e Albuquerque em Quando Eu Era Vivo - Memórias (1867 a 1934), ed. póstuma c definitiva, Porto
Alegre, Globo, 1942, pp. 64-65. “Foram desse período os meus dois primeiros livros de versos - Pecados e
Canções da Decadência. O último, embora de poesias que precederam as dos Pecados, saiu após este. / “A
crítica foi muito amável comigo, apesar de eu náo fazer parte de corrilhos literários. / Quem ler os versos que
eu então fiz (é uma distração a que certamenre bem pouca gente se entregará) há de verificar que são muito
sensuais. Em alguns casos, vão quase até a obscenidade. No entanto, toda essa exibição imoral não passava
de literatura: eu era um sujeito castíssimo. [...) Pensava, sobretudo, em dois poemas de que há fragmentos
naqueles livros: um de poesia científica, reminiscência de minhas leituras das Blasfêmias de Richepin,
cantaria a criação dos mundos, a evolução universal e atacaria as ideias religiosas; o outro seria uma epopeia
brasileira no gênero da Légende des Siècles de Victor Hugo e do Espoir du Monde de Haraucourt: poesias
soltas sobre os grandes episódios e os grandes vultos de nossa história, encadeados em ordem cronológica”.
4, Medeiros c Albuquerque, Pecados. Rio de Janeiro, Tip. da Papelaria Parisiense, 1889, citações das
pp, 76 e 161-162.
(Carta escrita por um poeta a 20
de Floreai sendo Verlaine Profeta
r Mallarmé - deus real).
I referindo-se a “tempos malditos”, ao “esquecimento” que envolví i.i
"os Poetas do Sentimento”, ele proclama:

Pode a Música somente do Verso


ñas finas teias conservar no tom
fluente tênue fantasma de idéias;

Que importa a ldéia, contanto


que vibre a Forma sonora,
Se da Harmonia do canto Vaga
ilusão se evapora?5

Acatamos, porém, a crítica de Araripe Júnior sobre as Canções da I


>¡cadência, ao dizer que Medeiros e Albuquerque, “aproveitando muito
pomo dos cânones revelados pelos mestres da escola, apenas procurou i ti
.ti alguns efeitos da instrumentação inventada pelo autor do Tratado Jo \ érso
e do policromatismo estilístico deduzido das letras do alfabeto”'". A
observação deve ser extensiva a Pecados, pois, conforme o que ressaltamos,
foi pouco significativo o aproveitamento do material documental i m posse
de Medeiros e Albuquerque. Sem dúvida, seria melhor explotado por
Araripe Júnior, secundado por Gama Rosa.
Araripe Júnior assumiria, portanto, uma atitude de expositor teórico
io mesmo tempo que de informante e crítico. Assim, pelo exame daquele
material, o crítico chegaria “a concluir que o Decadismo ou Simbolismo em
Paris constituía o sintoma ou a repercussão de um fenômeno misteri oso,
algures agitado em virtude de causas muito poderosas”. Ou por ou- 244
tra, tratava-se de “uma nova forma de chauvinismo parisiense”, produzido
por um movimento geral que agitava a Europa, apesar de desconhecido ou
rejeitado pela maior parte dos decadistas e simbolistas. “Convencido disto”
- continua - “escrevi então, em 1888, no Novidades alguns artigos
intercorrentes à crítica de um livro em voga, nos quais procurei demonstrar
que a nova escola, sendo historicamente uma transformação do

244 Idem. op. ¡-it., pp. 147-149.


(i Auripc liínior, op. cit., p. 67.
parnasianismo, em cuja alma se injetara um raio desse espírito que no
princípio do século dera como produtos a poética religiosa dos Saint-
Simon, dos Enfantin, dos Pierre Leroux, tomava a forma simbólica do
orfismo de Mallarmé”245. E observa que o grupo de invasores simbolistas os-
cilava entre dois pólos: de um lado, as sutilezas gramaticais, com os capri-
chosos truncamentos de sintaxe visando a determinados efeitos; “de outro
lado, o horror às literaturas militantes de estranhos países e a infernal as-
piração de criar aptidões novas ao espírito, nova afirmação aos nervos, e de
exprimir o inexprimível, tudo isto, porém, mais ou menos subordinado a
um ponto de vista galo-latino”246. Ainda mais, encontra nos diversos
representantes das novas tendências ponto de contato com a poesia de La-
martine, de Victor Hugo, de Beaudelaire, e até de Ronsard e Villon.
Mas reconheceria que, de qualquer forma, o decadismo constituía um
simples acidente literário, prenúncio de fenômenos mais elevados. Do
ponto de vista social e político, parecia-lhe um movimento continental.
Concentrara-se em Paris todo o exotismo europeu, traduzido pelo
tolstoísmo, vogueísmo, ibsenismo, ocultismo, orientalismo, japonismo,
americanismo. Havia a necessidade de defesa dos nativistas franceses. Daí
o Decadismo, forma de reação que ainda se fundamentava em três pontos
principais: erudição românica, medievalismo e filologia comparada. Mas
nem todos conheciam história e filologia, e esses que se apresentavam
insuficientes declararam-se “simples” e passaram a copiar vilancetes, “
aubades", “Leitmotiv” dos menestréis247.
A exposição de Araripe Júnior devemos apor, reiterando-a, o artigo
• 111> no mesmo ano de 1892 se lê no Jornal do Comércio do Rio de Janei- i o ,
i r i seção “Paris literário”, colaboração assinada por Theodore Child. I n ii.i
sido de relativa repercussão nacional, pois com certeza foi reproduzido no
Jornal de Notícias de Salvador. O autor começa por explicar a
• H pressão decadente, pejorativamente atribuída por jornalista parisiense à

245 Idem, op. cit, p. 68.


246 Idem, op. cit., pp. 69-70.
247 Araripr Júnior no seu ensaio, falando das novas tendências como demolidoras do naturalismo, men-
ui iva poesia”, em 1885, em contrapartida seria logo adotada pelos próprios
criticados. Suas características: “certa tendência para o que é raro, pu i toso,
esquisito, e mesmo depravado”, sendo seus adeptos tidos como
niúrbidos e aristocráticos e cheios de desdém para a multidão irremissível"
Prendiam-se a Bcaudelaire e se destacavam entre eles Paul Vcrlainr i
Siéphane Mallarmé, ambos provenientes do Parnasianismo. Mas, como i
síes dois, havia outros - por exemplo René Ghil - que teorizavam, res
•.aliando correspondências e afinidades entre sons, cores, vogais, diton
l'iIN, “certos estados anímicos”, instrumentos musicais. Dessa maneira,
piovocavam uma revolução formal, cujo ideal seria “a música primeiro que
tudo”, maneira de “evocar sensações e idéias que fiquem indeterminadas,
como as evocadas pela audição de uma composição musical”, paitando no
vago, nas nuances, conforme recomendaria Verlaine. E, indo mais além,
deixava-se “a quantidade do verso à escolha do poeta, de modo que a
poesia ficaria sendo uma arte absolutamente livre”. E o crí- lu o ainda
acentuaria: a tendência para o “mandarismo”, visando-se a "i riar uma
literatura esotérica”; o ódio ao “burguês”; o fato de ambicionarem
“unicamente a aprovação do escol intelectual”10.
No todo são conceitos e esclarecimentos que se harmonizam com relação à
poética simbolista, à qual associamos, já como criação significa

ilonaria os nomes de alguns críticos preocupados com a sua divulgação (...] “Não tardou que os I lureis, nas
suas Enquêtes, os Childs, nos seus a vol d'oiseau, que as Nuevas Antologias, as Revistas e os Magasins se
ocupassem longamente com os novos poetas, e até entre nós houve um Karl Marx, que, pelo Jornal do
Comércio, pretendeu excluí-lo imediatamente das pretensões à partilha do Ocidente*, op. cit., pp. 71-72.
III, V. "1’aris Literário”, em Jornal de Notícias, Bahia, 4 nov. 1892, p. 2. Este texto nos foi cedido por l.izir Arcanjo
Alves.

tra, tratava-se de “uma nova forma de chauvinismo parisiense”, produzido


por um movimento geral que agitava a Europa, apesar de desconhecido ou
rejeitado pela maior parte dos decadistas e simbolistas. “Convencido disto”
- continua - “escrevi então, em 1888, no Novidades alguns artigos
intercorrentes à crítica de um livro em voga, nos quais procurei demonstrar
que a nova escola, sendo historicamente uma transformação do
parnasianismo, em cuja alma se injetara um raio desse espírito que no
princípio do século dera como produtos a poética religiosa dos Saint-
Simon, dos Enfantin, dos Pierre Leroux, tomava a forma simbólica do
orfismo de Mallarmé”248. E observa que o grupo de invasores simbolistas os-
cilava entre dois pólos: de um lado, as sutilezas gramaticais, com os capri-
chosos truncamentos de sintaxe visando a determinados efeitos; “de outro
lado, o horror às literaturas militantes de estranhos países e a infernal as-
piração de criar aptidões novas ao espírito, nova afirmação aos nervos, e de
exprimir o inexprimível, tudo isto, porém, mais ou menos subordinado a
um ponto de vista galo-latino”249. Ainda mais, encontra nos diversos
representantes das novas tendências ponto de contato com a poesia de La-
martine, de Víctor Hugo, de Beaudelaire, e até de Ronsard e Villon.
Mas reconheceria que, de qualquer forma, o decadismo constituía um
simples acidente literário, prenúncio de fenômenos mais elevados. Do
ponto de vista social e político, parecia-lhe um movimento continental.
Concentrara-se em Paris todo o exotismo europeu, traduzido pelo
tolstoísmo, vogueísmo, ibsenismo, ocultismo, orientalismo, japonismo,
americanismo. Havia a necessidade de defesa dos nativistas franceses. Daí
o Decadismo, forma de reação que ainda se fundamentava em três pontos
principais: erudição românica, medievalismo e filologia comparada. Mas
nem todos conheciam história e filologia, e esses que se apresentavam
insuficientes declararam-se “simples” e passaram a copiar vilancetes,
“aubades”, “Leitmotiv” dos menestréis250.

248 Idrm, op. cit., p. 68.


H, Idtm, np. cit., pp. 69-70.
250 Aruripe Jitnior no seu ensaio, falando das novas tendências como demolidoras do naturalismo, mcn-
A exposição de Araripe Júnior devemos apor, reiterando-a, o artigo
i|ii' no mesmo ano de 1892 se lê no Jornal do Comércioáo Rio de Janei- IM na
seção “Paris literário”, colaboração assinada por Theodore Child. I n 11,1
sido de relativa repercussão nacional, pois com certeza foi repro- iln/ido no
Jornal de Notícias de Salvador. O autor começa por explicar a . i'irss.io decadente,
pejorativamente atribuída por jornalista parisiense à "iniv,i poesia”, em
1885, em contrapartida seria logo adotada pelos pró- |H n is criticados.
Suas características: “certa tendência para o que é raro, 1'iei luso, esquisito,
e mesmo depravado”, sendo seus adeptos tidos como 'mórbidos e
aristocráticos e cheios de desdém para a multidão irremissí- vi I Prendiam-
se a Beaudelaire e se destacavam entre eles Paul Verlaine
• Siéphanc Mallarmé, ambos provenientes do Parnasianismo. Mas, como
• M i •. dois, havia outros - por exemplo René Ghil - que teorizavam, res-
illando correspondências e afinidades entre sons, cores, vogais, diton-
(iiis, "certos estados anímicos”, instrumentos musicais. Dessa maneira,
provocavam uma revolução formal, cujo ideal seria “a música primeiro
i|in rudo”, maneira de “evocar sensações e idéias que fiquem indetermi-
narias, como as evocadas pela audição de uma composição musical”, pai-
tando no vago, nas nuances, conforme recomendaria Verlaine. E, indo in.iis
além, deixava-se “a quantidade do verso à escolha do poeta, de modo que a
poesia ficaria sendo uma arte absolutamente livre”. E o crí- iiio ainda
acentuaria: a tendência para o “mandarismo”, visando-se a "i liar uma
literatura esotérica”; o ódio ao “burguês”; o fato de ambicio- n,nem
“unicamente a aprovação do escol intelectual”10.
No todo são conceitos e esclarecimentos que se harmonizam com
nilação â poética simbolista, à qual associamos, já como criação significa-

ilonaria os nomes de alguns críticos preocupados com a sua divulgação [...] “Não tardou que os I lureis, nas
suas Enquêtes, os Childs, nos seus a vol d'oiseau, que as Nuevas Antologias, as Revistas e os Maga/.ins sc
ocupassem longamente com os novos poetas, e até entre nós houve um Karl Marx, que, pelo Jornal do
Comércio, pretendeu excluí-lo imediatamente das pretensões à partilha do Ocidente”, »p. fit,, pp. 71-72.
III, V. “ 1’uris Literário", cm Jornal de Notícias, Bahia, 4 nov. 1892, p. 2. Este texto nos foi cedido por l.izir Arcanjo
Alves.
tiva, a composição de Augusto de Lima de 1890 (ou de antes) - “Corres-
pondências”, reflexo de fato de princípios estéticos fundamentais do
Simbolismo:

“Prisma, disse a Harmonia, dá-me as tintas


com que no íris a luz etérea esgotas.”
Responde o Prisma: “Dá-me as sete notas Com
que os humanos sentimentos pintas.”

Intervém o Perfume: “Inutilmente unir-vos-eis


sem mim, alma das flores: das sete notas e das
sete cores guardo a aliança no meu seio
ardente.

Há com efeito acordes no perfume, de intenso


colorido harmonioso, que, no delíquio do
supremo gozo, as sensações universais resume.

Nossos olhos não vêem, nossos ouvidos não


escutam; mas a alma inebriada ouve cantar na
abóbada azulada os cintilantes astros
comovidos.

Na embriaguês das flores, quando assoma


entre sonhos a morte, há de ser grato a alma
romper nas sensações do olfato e a vida
evaporar em pleno Aroma!11.

O princípio da arregimentação simbolista data de 1890-1891, quando


se forma em torno da Folha Popular, então secretariada por Emiliano Perneta,
um grupo de inovadores, que adotam como insígnia um fauno 251 252.
t t impunha-se de Bernardino Lopes, Emiliano Perneta, Oscar Rosas e
< H I / c Sousa. O primeiro havia publicado Cromos, livro de inspiração hm

251 Esta composição se encontra no segundo livro de Augusto de Lima, Símbolos - 1888-1890, Reproduzimo-la
conforme a edição das Poesias, contendo Contemporâneos, Símbolos, l-uutias Inéditas, Rio de Janeiro,
Garnier, 1909, pp. 136-137.
252 Cassiana Lacerda Carollo liga este grupo, dito dos novos, ao periódico O Pierrot, retificando a informação de
Araripe Júnior, cf. Decadismo e Simbolismo no Brasil - Crítica e Poética. Seleção e apresentação de C. L. C..
ed. cit., vol. 1, p. 491.

II M ni H o um mi i, 1 f\ r-\.
olita, mas evolui para motivos de castelos e duquesas ideais. Araripe Iunior
lhe reconhece tiques decadistas, antes da divulgação do simbolism o no
Brasil, e o aponta como influenciador dos companheiros'253.
Do mesmo grupo, porém comprometido com as renovações natu-
ralistas, Oscar Rosas retoma a proposta de Franklin Távora, de “separa-
tismo" nas letras: “Literatura do Sul” e “Literatura do Norte” 14. Se não i
oiitou com o apoio de todos os simbolistas, apesar de secundado por
< ni/ e Sousa e outros, também não é inteiramente certo, conforme oh
■ i vou Lima Campos, simbolista do momento, que a pretensão deles não
lussava de blague aos meios literários nortistas. Mas a proposta teve re |n
u ussões fora do núcleo de liderança do Rio de Janeiro e apresentava
.ugumentos que refletiam teorias novas voltadas para a influência ilo meio
e das nossas etnias. Quer dizer, sem compromissos com o Siinbolis mo,
prendia-se à teoqa deTaine, atuante na nossa historiografia literária i m
processo. Em segundo lugar, traduzia efeitos da centralização da nossa
vida literária no Rio de Janeiro, de onde dependia o sucesso do escri- ioi
provinciano que se deslocava para ali, em detrimento de sua afirma- i,ao na
província. Vem a propósito o ensaio de Xavier Marques divulgado na
imprensa baiana, colocando esses problemas com lucidez 15. Dessa maneira,
se confirmará com o tempo a crescente importância de uma proposta que
logo deixará de lado a idéia simplista de separatismo.

253 I V. Araripe Júnior, op.cit., pp. 88-90; e Andrade Muricy, “B. Lopes”, em Poesias Completas de U.
Rio de Janeiro, Zélio Valverde, 1945, 2 vols., vol. 1, pp. 19-20. V. nota 16, a seguir.
H <11, Franklin Távora, O Cabeleira — História Pernambucana, Rio de Janeiro, Tip. Nacional, 1876, lob a
indicação: Literatura do Norte - Primeiro Livro; v. aí o prefácio de pp. 5-14. V. também Um (latamento no
Arrabalde - História do Tempo em Estilo de Casa, nova edição, Rio de Janeiro tiarníer, 190.1, igualmente
com a indicação: Literatura do Norte - Quarto Livro; v. prefácio “Ao leitor”, datado de 1881, pp. V-VIII.
IS V, Xavier Marques, “Notas Literárias", “A Fantasia duma Federação Literária - Diferenças Existentes entre a
Literatura do Norte e a do Sul - Questão de Primazias - Necessidade de Descentralização Literária no
Brasil”, em Jornal de Notícias, Bahia, 20 e 22 out. 1890. A cópia destes artigos me lol gentilmente cedida pela
professora Lizir Arcanjo Alves, como resultado de suas pesquisas. V. nota 10.
Incidia na discutida e combatida hegemonia intelectual do Rio de Janeiro e
na conceituação da Literatura Brasileira em termos de geografia literária e
de regionalismo, repercutindo em nossos dias. Desdobrando-se, portanto, a
proposta separatista inicial ganha vulto com implicações na hegemonia
literária da Corte e no regionalismo, um dos problemas mais complexos e
debatidos de nossa historiografia literária até hoje. Aos simbolistas,
interessava realmente o próprio Simbolismo.
A manifestação definitiva de sua implantação no Brasil coube de fato
a Cruz e Sousa, que, ainda conforme Araripe Júnior, procede “no intuito
claro, manifesto, de acompanhar o nefelibalismo português”, publicando
Missal c Broquéis, ambos em 1893254. Ele se impõe desde logo como “chefe” da
renovação, seguido por Saturnino Meireles, Félix Pacheco, Néstor Vítor,
Gonçalo Jácome, Colatino Barroso, Wenceslau de Queirós255, Carlos Dias
Fernandes256, todos, porém, acentuadamente individualistas. Néstor Vítor
também se impõe tornando-se o principal responsável pela interpretação
crítica257.
Mesmo que aqueles simbolistas tenham sido artificiais, eles alimen-
taram uma atmosfera singular, formaram grupos que foram combatidos e
também combateram. Assumiam posições essencialmente divergentes da
forma literária consagrada, também extensivas às artes plásticas. Carlos
Dias Fernandes refere-se à dissidência que, por volta de 1887, houve entre
os alunos da Escola de Belas-Artes no Rio de Janeiro. Dividi-
MIM sc c m dois grupos: “um, fiel à tradição didática dos professores;
■ •ui io infenso aos métodos, que se ali praticavam, jungindo muito à cul-

254 Araripe Júnior, op. cit., p. 90. Em página anterior, ele já havia apontado a projeção do Simbolismo no Brasil
com escala primeiramente em Portugal. Subestimava, assim, o papel de Medeiros e Albuquerque, o de
Gama Rosa e o dele mesmo (idem, ibidem, p. 70).
255 Eloy Pontes, A Vida Exuberante de Olavo Bilac, Rio de Janeiro, José Olympio, 1944, voi. 2., pp. 506 e 509.
256 Carlos D. Fernandes, “Um dos Pintores Dissidentes”, em Amores e Livros, suplemento literário de A Manhã,
ano II, voi. 3, n. 17, Rio de Janeiro, 6 dez. 1942, pp. 263 c 266.
257 Sobre as atitudes iniciais dos simbolistas, ele depôs: "Nós, sobretudo Cruz e Sousa, eu, Emiliano Perneta,
Gonzaga Duque, Colatino Barroso, trazíamos o ar mais desesperado, por antecipação, de quem não confia
na atmosfera em torno. O sentimento inicial nosso era o de que vínhamos declamar, lembrando aquele
grande clássico orador português, para os peixes". Nestor Vítor, “O Suave Convivio“ (livro de Andrade
Muricy), cm O Mundo Literário, ano I, voi. 3, n. Vili, Riode Janeiro, 5 dez. 1922.

I II ». llliUlnim tui
iiii.i clássica as aspirações estéticas dos insurretos”. Décio Vilares, que
■ I<1 luva os dissidentes, formou com Carlos D. Fernandes eTibúrcio de I n
iias o grupo mais achegado a Cruz e Sousa, a quem muito admira- v .mi
como artista e como homem20. E contaram com mais dois companheiros,
pintores revolucionários: Maurício Jubim e Gonzaga Duque,
i MC também crítico de artes plásticas. Chamados insubmissos, aqueles
ii i ist.is se relacionavam estreitamente com outro grupo, de Mário IV «li
meiras, Lima Campos e inclusive Gonzaga Duque. Por esse tempo, liim do
século XIX, Paris, com Verlaine, Moréas, Barrès, Samain e ou lios, era o
centro para onde convergiam todas as atenções. Imitando os I MOCCSCS ,
fazendo o que já haviam feito os simbolistas de Lisboa, i licfi idos por
Eugênio de Castro, os do Rio de Janeiro também instituíram
0 seu François I, que era o Cabaré Pelotense. Sem modéstia, julgavam os
“Magnificenjes da Palavra Escrita”, proclamando-se “Romeiros da
1 si rada de San-Tiago”. Eram ao todo uns vinte e procuravam oportu-
nidades para se exibir em jornais, revistas, editoras, palcos. Pouco tempo,
porém, se mantiveram coesos. Dispersam-se, três ou quatro anos mais
tarde, permanecendo solidários apenas Gonzaga Duque, Mário Pederneiras
e Lima Campos21.
Com uma intensidade sem precedente, fundaram várias revistas,
quase todas de curta duração, sempre ligadas a grupos22. A principal - liosa
Cruz (1901) - ressurgirá em 1904, com a sobrevivência do grupo d<
Saturnino Meireles (então falecido). F. o arremate histórico do simbolismo
no Brasil, uma vez que o consideremos “movimento literário" co- .'II (lurloi D.

Fernandes, lug. cit.


! I l.lma Campos, “Gente de um Tempo -Toda uma Época - Gonzaga Duque - Mário Pederneiras '()*
simbolistas’”, em Autores e Livros, suplemento literário de A Manhã, ano II, vol. 3, n. 17, Rio de janeiro, 6
dez. 1942. Ainda são merecedores de destaque: B. Lopes, Emiliano Perneta, Félix Bocaiuva, Virgílio Várzea,
Araújo Figueiredo, Azevedo Cruz, Alphonsus de Guimaraens, Oscar Rosas, além de Emilio de Meneses e
Luís Delfino, que vinham comprometidos com o Parnasianismo.
• ' V , Apéndice: Grupos e Revistas Simbolistas nas Províncias.
I
tuoi IOTI» № 9.1
1901

ROSA- * DIRECTOR
SATURNINO DE MEJRELLBS
CRUX ■ «um »AtVBXItfO nr.
ПОИ »CNTfMCNTAL C KI»OBIQАО OC
HtSKKibM CARLO» ». РХЙХЛАТСЯ
PINTURA A VOI DA» ORIOCNS ИГ
VIVIBCt NOIA •’IRTI» AMICO»
Шкшпо JOHN JoAo

ROSA*ALPC»TRE О АОV»МО INA NIA B.UUt»RA A. 8. CANTRO

VCROA A MONOOR АРМIA DO MK9XHB Г ARRAL П«

»NR. SVLVIO ROMÉfiO ЛХ.ПГСАК box DKUUXO

ODIO SAORADO DO "MÌO POEMA' Ряих РЛСНВСО


CONTI ANTE CMUA»8OUAA
NOI T С ОГ NO PCI A» С. TAYAXKL ItAtrrON
VIA-CRUCIS MUNOO l N ACCESSI V t L ^ATUtCOKO DK MlSfHRbLB«
LCS CMANTSOC MACOOROR A MASCARA Joio AMIRÍA
AD INPCUCCM CONSOL A TRICCM ICS Л. ». CASTRO Minan
FRACMCNÌS CAOS К BOOM
RCTRATO ro« MAURICIO JCIHM
OOXTR 1ДО LAUTRftAMOKV
ОМЛЛТ1ХО ВлШЮКО
CttoWD. РИЖХАЯПК* MAI; OC«
МлХтсюлхск

MO DS JANEIRO
TrPOORAPNU OO INSTITUTO PROTlSSIONAl

flOOl Frontispicio da revista


Rosa Cruz, principal
periódico simbolista.

ordenado e atuante. Certamente, de 1904 em diante, ele continua a existir,


mas apenas através de expressões individuais, algumas de grande valor,
como Alphonsus de Guimaraens e Mário Pederneiras, poetas, e Nestor
Vítor, o crítico que foi o principal unificador daquela tendência literária
entre nós. Contam-se, a partir de então, herdeiros do Simbolismo,
írequentemente também portadores de preferências parnasianas. Ocupam
as duas primeiras décadas do século atual, de transição ampla para a
revolução modernista de 1922. Foi um momento marcado por outras
revistas, pelo gosto das conferências e dos salões literários e pela art
nnuveau. Ainda Nestor Vítor, prosseguindo na sua atividade de críti-
tu’’, aproximar-se-ia dos novos já da segunda para a terceira década des- h ,M iilo,
delineando assirn urna ponte de ligação com as manifestações . 111 il M >1 istas.

As REALIZAÇÕES SIMBOLISTAS

A propósito do Simbolismo, a crítica histórica cita vários nomes de lili', da


última década do século XIX às duas primeiras do século atual, i iipjobando até
alguns de transição do Parnasianismo para o Simbolismo • i mibém pré-
modernistas. Novamente as imprecisões inevitáveis, alem .1. nem sempre haver
coincidência entre as diversas opiniões e seleções \ '■ IO todas classificações
caprichosas, sempre passíveis de revisões, sohie iinln se considerarmos posições
interpenetrantes assumidas por muitos I" N ias naquele momento de debate sobre a
“poesia científico-filosófica",

M V, Nestor Vítor, Obra Critica, Rio dc Janeiro, MEC-Casa de Rui Barbosa, 1969 e 1973, 2 vols.
' l Ronald dc Carvalho aponta como simbolistas Cruz e Sousa, B. Lopes, Emílio de Meneses, Nestor Vllor (ressaltado como
crítico), Fcílix Pacheco, Alphonsus de Guimaraens, Silveira Neto, Mário IVdcrnciras, e prosadores, Cruz e Sousa e
Gonzaga Duque. Nélson Werneck Sodré indica Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens, Nestor Vítor (ressaltado como
crítico), B. Lopes, Mário Pederneiras, Gonzaga Duque, Emílio dc Meneses, Augusto dos Anjos, sendo que este último é
dado Como preso ao cientificismo introduzido no Brasil por intermédio de Portugal. Agripino Gricco i IIa Cruz e Sousa,
Emiliano Perneta, Silveira Neto, Alphonsus de Guimaraens; coloca (conforme o llliilo de um capítulo da obra que
citamos) “entre o Parnasianismo e o simbolismo" os seguintes: Augusto dos Anjos, Raul de Leôni, Alceu Warnosy,
Eduardo Guimaraens, Amaral Orneias, Teodo- iii o de Brito, Alberto Ramos, Pereira da Silva, Belmiro Braga, Olegirio
Mariano, Pinheiro Viegas, Oncstaldo de Penaforte, Atílio Milano, Da Costa e Silva, Cleômenes Campos, Paulo
Gonçalves, (íliveira e Silva, Angelina Macedo, Auta dc Sousa, Cecília Meireles, Lia Correia Dutra; e menciona tomo
sonetistas exímios: Júlio Salusse, Ciro da Costa, Padre Antônio Tomaz, Raul Machado, Aníbal Teófilo. Jaime de Barros
menciona Cruz e Sousa, Emiliano Perneta, Silveira Neto, Mário Pederneiras, Nestor Vítor, Francisco Mangabcira,
Alphonsus dc Guimaraens c Augusto dos Anjos, rsle entre o Parnasianismo e o Simbolismo; como pré-modernistas:
Raul de 1-coni, Hermes Fontes. Pereira da Silva, Da Costa e Silva e vários outros. Finalmente, Edison Lins arrola como
simbolistas os mesmos nomes apontados na obra de Ronald de Carvalho. Ronald de Carvalho, Pequena Hilló- ria tla
Literatura Brasileira, com pref. dc Medeiros e Albuquerque, 2. ed. rev. e aum., Rio de Jtnci ro, Briguict, 1922, pp. 352 e
ss; Nélson Werneck Sodré, História da Literatura Brasileira. 2. cd., Rio de Janeiro, José Olympio, 1940, pp. 201 e ss;
Agripino Grieco, Evolução da Poesia Brasileira, 2, cd., Rio de Janeiro, H. Antunes, 1944, pp. 106-121, 122 e ss; Jaime de
Barros, Poetas do Brasil Rio dc Janeiro, José Olympio, 1944, pp. 111-119, 121 e ss; Edison Lins, História e Critica da Poe-
sia Brasileira, Rio de Janeiro, Ariel, 1937, pp. 189 e ss.

à realista e à parnasiana. Ressaltamos os seguintes: poetas - Cruz e Sousa, Mário


Pederneiras, Saturnino Meireles, Silveira Neto, Alphonsus de Guimaraens e com
algumas restrições B. Lopes e Emiliano Perneta; prosadores - Cruz e Sousa e
Gonzaga Duque; crítico - Nestor Vítor. E observamos que ao se projetar no Brasil, o
Simbolismo não foi bem aceito por toda a crítica da época. Sílvio Romero não lhe
deu importância e só quando se comoveu com o drama pessoal de Cruz e Sousa
reconsiderou a crítica que havia feito ao poeta. José Veríssimo manteve sempre suas
restrições. Araripe Júnior, segundo Félix Pacheco, foi o único que reconheceu o
valor de Cruz e Sousa, apontando Missal, em prosa, e Broquéis, em verso, como
inauguradores do simbolismo no Brasil258. As observações de Araripe Júnior
continuam válidas e esclarecedoras. Seu ponto de partida é a aproximação que faz
de Missal com as Canções sem Metro, de Raul Pompéia, embora um e outro apresentem
atitudes diferentes em face da vida: Raul Pompéia é a penetração psicológica,
aquilo que Araripe Júnior chama de “filosofia sugestiva”; Cruz e Sousa,
considerada a sua origem de ascendência africana direta, representa as qualidades
de uma raça em choque com um meio civilizado, proporcionando-lhe a visão do
“maravilhado”. As surpresas resultantes dos contatos do poeta com o universo do
branco resultariam em gestos de adoração, em que avulta a mulher na sua correção
de formas. E as impressões mais profundas do poeta, revertidas em recalques,
exigiriam dele um novo vocabulário e uma nova técnica de expressão. Das leituras
de Cruz e Sousa, admitindo-se ao mesmo
tempo que de se julgava um sacerdote da arte, permaneceria apenas o que é formal,
verbalmente esquisito, sob a sedução do paradoxo e da antítese. Araripe Júnior
lembra ainda que as origens do poeta favoreceram o seu retorno às formas poéticas
da África setentrional, com a sua cadência e mesmas idealizações primitivas, e
assim procedendo com relação à mulher, embora com a diferença da adjetivação
erudita e das volúpias modernas- Resume-se aí o que o crítico vê em Missale em
Broquéis, salvo neste último algumas diferenças de ordem técnica: a frequência do
compasso ternário e a preferência pelas rimas com qualificativos 259.
Posteriormente, José Veríssimo contestaria o valor artístico ile ( áu/ e Sousa,
mesmo apontando nele aquilo que seria exatamente caratteristi ca da poesia
simbolista: música das palavras, dom da melodia. Nilo lhe nega matéria de poesia,

258 Escreve Félix Pacheco: “Quando Cruz e Sousa apareceu com o Missal e os Broquéis, todos se conclamaram contra o esteta
novo e estranho, apedrejando-o como um vazio e campanudo arrumador de frases. Araripe, não. Deteve-se a examinar
longamente aqueles dois livros, que já anunciavam o poder das Evocações, a claridade dos Faróis e a sabedoria dos
Últimos Sonetos". E lembra logo a seguir a reconsideração de Sílvio Romero: “Seis anos depois, na monografia do Livro
do Centenário, Sílvio Romero incluía o negro admirável entre os reis do verso no Brasil, dizendo que ele era a muitos
respeitos ‘o melhor poeta que o nosso país tem produzido’, o verdadeiro ‘ponto culminante de nossa lírica após
quatrocentos anos de existência”’. V. “Recepção do sr. Félix Pacheco”, em Discursos Académicos (1907-11113), vol. 2, Rio
de Janeiro, Civilização Brasileira, 1935, p. 343, e Sílvio Romero, "A Literatura”, cm Livro do Centenário (1560-1900), Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional, 1900, vol, I, pp. 110-112.
259 Araripe Júnior, Movimento de Ifi93 - O Crepúsculo dos Povos, Rio de Janeiro, Tip. da F.mprcsa Democriti«. *896,
pp. 90-100.
mas ressalta a expressão próxima da inibição pa tológica. Não aceita ou não
compreende em Cruz e Sousa a revolução sintática. Considera-a um defeito do
poeta, o qual, além do mais, exire mamente sensível às grandes sonoridades
ruidosas. Por isso, embora ad mira que a poesia, como roda a arte, tende ao
absoluto, ao vago, ao indefinido > Cruz e Sousa, contudo, não conseguiu exprimir a
sua dor de maneira a realçá-la em expressão clara. Sua poesia resultou numa
espécie de alucinação, caso único, isolado ou particular, na Literatura Brasileira.
Imitá-la seria impossível, pois ela traduz o que foi o poeta: “um negro bom”,
“sentimental , “ignorante”, “de uma esquisita sensibilidade”, cujos “choques com o
ambiente social resultaram em poesia” 260.
Não resta dúvida de que encontramos muitos pontos de contato entre
Araripe Júnior e José Veríssimo, com a diferença que este último contesta a poesia
simbolista em geral. Caso contrário, José Veríssimo leria reconhecido a poesia de
Cruz e Sousa como expressão própria ilo Simbolismo, marcada exatamente, além
daquela revolução sintática e ila
musicalidade, pela quase alucinação, dada a omissão da ideia e da lógica da
linguagem, além do excessivo individualismo. Em última análise, o crítico se
deixou trair pelo poder da sua intuição, não obstante a frieza e o equilíbrio que
acompanham de ordinário sua análise ou interpretações. E é assim que ele, Araripe
Júnior à frente, e também Sílvio Romero, são o ponto de partida de outras críticas
posteriores, de Néstor Vítor a Andrade Muricy e Roger Bastide261.
Reconsideramos, contudo, que Cruz e Sousa não surgiu sob a influência
imediata do Simbolismo. Bem jovem ainda, pelos dezoito anos, entre 1881-1882,
fundou com Virgílio Várzea, em Desterro, hoje Florianópolis, um jornal de feição
literária, A Tribuna Popular. Seria o começo de sua carreira literária, numa primeira
fase, adepto do Naturalismo e do Parnasianismo, em oposição ao Romantismo.

260 José Ver'“1"'0' Uma Poetisa c Dois Poetas", em Estudos de Literatura Hrasileira, Rio de Janeiro, Garnier, 1907, sexta série,
pp. 176-185.
261 Depois de Araripe Júnior, o simbolismo no Brasil teria seu próprio crítico em Nestor Vítor, também poeta. Divulgador,
como o primeiro, foi orientador ao mesmo tempo dos poetas ligados às novas tendências. Ele se tornaria com a sua
crítica um elemento de ligação com outras novas tendências que viriam com o Modernismo. V. de Nestor Vítor, Obra
crítica de..., Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa-MEC, 1969, vol. I ; A Crítica de Ontem, Rio de Janeiro, Leite
Ribeiro &C Maurillo, 1919; Cartas à Gente Nova, edição do Anuãrio do Brasil, 1924; Os de Hoje, São Paulo, Cultura
Moderna, Rio de Janeiro, Moderna, 1938. De Andrade Muricy, O Suave Convívio. Ensaios Críticos, Rio de Janeiro,
Anuário do Brasil (e outros), 1922, e Panorama do Movimento Sim- bolista Brasileiro, Rio de Janeiro, Instituto Nacional
do Livro - Ministério da Educação e Saúde, 1952, 3 vols. (2. ed., 1973, 2 vols.). De Roger Bastide, “Quatro Estudos sobre
Cruz e Sousa”, “A Nostalgia do Branco”, em A Poesia Afro-brasileira, São Paulo, Martins, 1943, pp. 87-128.
Ainda com Virgílio Várzea, fundaria outro jornal, Colombo. Comporiam um grupo
de novos, dessa vez antecedentes imediatos do nosso Simbolismo que se
manifestaria conscientemente na década de 1890262.
Néstor Vítor aponta a transferência de Cruz e Sousa para o Rio de Janeiro,
entre 1888-1889, como responsável pela transformação do poe-
la sob influências novas, de Schopenhauer, Beaudelaire, Sar Peladon, Villii is. Pouco
depois, ele se proclamaria simbolista radical, então sinónimo de decadismo à
Verlaine, de satanismo à Beaudelaire, de nefeliba- lismo à Eugênio de Castro, até
mesmo de Naturalismo à Flaubert c à ( ioncourt. Exemplifica a poesia simbolista
com Missalc Broquéis, rcco- nlu i idos como iniciadores da revolução do verso entre
nos, até mesmo I>01 parte daqueles que a seguir adotariam o verso polimórfico e a
estro l.içáo assimétrica, renegados por Cruz e Sousa. Deixar-nos-ia inédito o sou
melhor livro, de publicação postuma - Ultimos Sonetos. Depois da morte, em 1898,
passaria a ser cultuado pelos nossos simbolistas"1.
A fase inicial do poeta está documentada pela produção reunida sob a
designação de Inéditos e Dispersos, na seguinte ordem: 0 Livro Denuda n>, Campesinas,
Cambiantese Juvenília1'. No primeiro destes livros ja pir domina uma poesia que
exprime todas as características do Simbolismo. I xprime desprezo pela construção
sintática, gosto pela sequência de subs tantivos e derivados,xde adjetivos do mesmo
campo semântico, tudo vi- s.mdo à musicalidade e a uma atmosfera urbana, quase
mística. Postas de lado as composições posteriores à definição simbolista,
predomina na primeira fase o neobucolismo de Campesinas, em cuja forma
reconhecemos vagamente traços parnasianos; e, sob influência de B. Lopes, agora
em

Kl. Lembramos o grupo da revista Rosa Cruz, lançada em 1901 no Rio de Janeiro e cujo objetivo principal foi o de cultuar a
memória de Cruz e Sousa. Liderada por Saturnino Meireles, contou com a presença de outros simbolistas: Carlos Dias
Fernandes, Gonçalo Jácome, Pereira da Silva, Castro Meneses, Paulo Araújo, Tibúrcio de Freitas, Alphonsus de
Guimaraens, Maurício Jubim, Rocha Pombo, Félix Pacheco. (Cf. Tavares Bastos, nota 45 deste capítulo.
11 A primeira publicação conjunta de obras de Cruz e Sousa é devida a Nestor Vítor, seu prefaciado! c anotador, Obras

262 Este grupo receberia de Gama Rosa uma orientação na linha do evolucionismo spenceriano e do Naturalismo literário.
Comunicar-se-ia com escritores residentes no Rio de Janeiro, como Oscar Rosas, Luís Delfmo, B. Lopes. Em 1885, Cruz e
Sousa lançaria o livro de prosa Tropos e Fantasias, cm colaboração com Virgílio Várzea, que bem mais tarde já cm 1907,
reuniria os versos da primeira fase do companheiro, sob os títulos de Campesinas e Versos Modernos, que seriam
publicados pela primeira vez eni 1945, na edição das Obras Poéticas de Cruz e Sousa, org. de Andrade Muricy, Rio de
Janeiro, INL-MEC, 1945, 2 vols. (I - Broquéis e Faróis, II — Últimos Sonetos — Inéditos Disper- im). V., a seguir, nota 31.
Completas de Cruz e Sousa, Rio de Janeiro. Anuário do Brasil, I923,2vols. (I Poesias - Broquéis - Faróis - Últimos Sonetos, e II
- Prosa - Missal - Evocações). Seguem-se: Poesias Completas de... (revista, com introdução deTasso da Silveira), Rio de
Janeiro, Zelia Valverde, 1944 (Broquéis, Faróis, Últimos Sonetos) reeditados pelas Edições de Ouro, Rio de Janeiro, s. d.i Obra
Completa (org. geral, introdução, notas, cronologia e bibliografia por Andrade Muricy), Rio de Janeiro, Aguilar, 1961 (Poesia -
Broquéis; Faróis; Últimos Sonetos; O Livro Derradeiro: Cambiantes, Outros Sonetos, Campesinos e Dispersos-, Prosa - Tropos e
Fantasias, Missal, Evocações, Várias Outras Evocações, Formas e Coloridos, Dispersos); Poesia Completa (introdução de
Maria Helena Camargo Regis), Florianópolis, Fundação Catarinense de Cultura, 1981 (Cf última edição citada de Andrade
Muricy).

Autógrafo e retrato de Cruz e Sousa, cf. Poesías, Rio de Janeiro, Anuário do Brasil, 1923.

Cambiantes, os temas artificiais, envolvendo a nobreza: duque, condes, fidalgos


em ambientes de requinte e de luxo. O ideal parnasiano será reconhecível
numa espécie de profissão de fé - “Arte”, contudo, antecipação de
“Antífona” em Broquéis. Na primeira, preocupações formais provenientes do
Parnasianismo alternam com sugestões etéreas de acentuado efeito sonoro,
que seriam peculiares de “Antífona”. Esta, por sua vez, carrega
reminiscências parnasianas, ao referir-se à “rima clara e ardente”, com a
“correção dos alabastros”, “brilhando “sonoramente, luminosamente”.
“Antífona”, de Broquéis, e “Violões que choram”, de Faróis, exemplificam a
essência da poesia simbolista de Cruz e Sousa, circunstâncias exis-
iniciáis apontadas por Araripe Júnior. O poeta então se deixa envolver pelo delírio da
sonoridade, pelo nebuloso e pelo misticismo, abusando dos ici ursos que lhe
possibilitam a acumulação do jogo de vogais, de sílabas c de palavras sinonímicas,
homófonas e homógrafas, locuções, substantivos, adjetivos, além do predominio da
assonância sobre a rima e do uso restrilo de formas verbais. Basta uma primeira
leitura para reconhecermos a preferência vocabular de Cruz e Sousa, corroborando
procedimento iiuli- i ado: formas alvas; luares; neves; vagas; fluidas; vaporosas;
dolencias; indefiníveis; músicas; trémulas; extremas; réquiem; sol; dor; luz; visões;
salmos; sofrimentos; volúpias; sutis; suaves; mórbidos; inefáveis; edénicos; aéreos;
eflúvios; éter; cristais diluídos; vibrações; ansias; negros; tedio; tantálico; doentio;
turbilhões; quiméricos; sonho; cabalístico; morte.
Os Ultimos Sonetos, se ainda apresentam características dominantes ilos dois livros
anteriores, são, porém, contidos, disciplinados. Seu con teúdo se faz mais claro e mais
refletido sobre a dor arrastada pela vida dramática do poeta^ traduz melhor a
angústia em busca do inatingível, mesmo etéreo, das formas brancas e luminosas, a
preocupação que se intensifica com a idéia da morte, maneira de libertar-se
definitivamente. Néstor Vítor aponta neste livro influência de Maeterlinck e Ibsen*2,
mas consideramos fundamental a presença de Antero de Quental.
Em última análise, prevalece em Cruz e Sousa uma poesia profundamente
individualista, que não deve ser confundida com o subjetivismo dos románticos,
marcado este pela expressão de uma sentimentalidade comum à sensibilidade da
época. Ela exemplifica os fundamentos inicialmente ressaltados da poética e da
estética simbolistas, salvo o uso não seguido por Cruz e Sousa do verso polimórfico.
Esse individualismo, mais tarde atenuada a linguagem e introduzido o verso
assimétrico, também caracterizaría em destaque, e naturalmente à maneira de cada
um, pelo menos mais dois poetas simbolistas - Alphonsus de Guimaracns e Mário
Pederneiras.

.12. Cf. Prefácio às Obras Completas de Cruz e Sousa, cd. cit.


Cf. Poesias, 2. cd., Rio
dc Janeiro, Simões,
1955.

Alphonsus de Guimaraens seria profundamente marcado por um amor de


adolescência, sacrificado pela morte prematura daquela que seria a inspiradora a bem
dizer de toda a sua poesia33. Desconhece-se um

33. Afonso Henriques da Costa Guimarães: constata-se, por parte do poeta, a procura de um nome poético, talvez
por influência do Simbolismo - Afonso Henrique de Guimarães, Afonso Guimarães, Alfonso Guy, Alfonso
Guimaraens, Alphonsus de Guimar, Alphonsus dc Vimaraens, escolhendo, definitivamente, Alphonsus de
Guimaraens. V. de Alphonsus de Guimaraens, Poesias, ed. dirigida c revista por Manuel Bandeira com retrato
do poeta e notícia biográfica e notas por João Alphonsus, Rio dc Janeiro, Ministério da Educação e Saúde, 1938,
com 2. ed. aum. por Alphonsus dc Guimaraens Filho, Rio dc Janeiro, Simões, 1955, 2 vols.; e Obra Completa,
org. e preparo do lento por Alphonsus de Guimaraens Filho, introdução geral de F.duardo Portela e notícia
biográfi- i.i de Joio Alphonsus, Rio de Janeiro, Aguilar, 1960.

i ’ l'l HIODO OU O PERIODO NACIONAI - I - o eliririn viv c .


i ulto semelhante na nossa poesia lírica, expresso em linguagem simples,
11 lailora de uma atmosfera evanescente e espiritualizada pela musicalidade suave
do verso. De poema para poema opera o envolvimento dessa a l mosfera mística,
tranqiiila e resignada, cujo sentimento converge, numa Ius.io de imagens, da virgem
amada e sacrificada para o culto de Santa li rc/.inha e de Nossa Senhora. Dá às vezes
a impressão de orações a meio tom, lamento puro, com o sentimento aceito da morte
e sem conflitos espirituais. E muitas vezes uma poesia de prece, voltada para as coisas
san- t.is e santificadas, alvas e serenas, de “uma palidez ebúrnea”, lembranças tl.i vida
em vida, mas como evocação etérea, de pura espiritualidade.
Esses traços marcantes da poesia de Alphonsus de Guimaraens já se pressentem
no seu livro — Kiriale, afirmam-se em Septenario (fas Dores de Nossa Senhora e Dona Mística,

prosseguem de Câmara Ardente até Pulvis. Mas é no penúltimo livro que publicou - Pastoral

aos Crentes do Amor e da Morte, que se encontram de maneira acabada aquelas como todas as
demais características do poeta. Dá-se aí sua iniciação no verso polimõr- fico e
constata-se outra preferência que vem do início da sua carreira, a das reminiscências
medievais, idealizando nesse passado remoto o cavalheirismo amoroso e a fé
religiosa; acentua-se a expressão terna e comovedora do poeta para consigo mesmo34.
No todo da obra de Alphonsus de Guimaraens não há obscuridade; o poeta é

claro, comunicativo de imediato, sabendo usar liberdades e recursos expressivos


introduzidos pelo Simbolismo, com o equilíbrio que lhe proporcionaria a
simplicidade da linguagem. Seleciona uma espécie de vocabulário litúrgico, os termos
mais sonoros e suaves, usados às vezes repetitivamente. Também soube usar o refrão,
para melhor acentuar os efeitos melódicos e a atmosfera envolvente ao mesmo tempo
evanescente. Reflete tradição de poesia medieval, e também, como já se acentuou, a
influência da Bíblia e dos simbolistas, de Beaudelaire a Verlaine e

1-1. Cf. o poema “A Catedral ", do livro Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte, eds. Cits (nota 33 anterior).

Mallarmé35. Apesar de ter vivido a maior parte de sua vida em duas cidades históricas de
seu estado natal — Minas Gerais —, conviveu com o nosso meio literário de parnasianos
a simbolistas, quando estudante em São Paulo, pela década de 1890, e mais tarde, em
contatos com o grupo de Rosa Cruz e da Revista Contemporânea do Rio de Janeiro36. Participou
assim pessoalmente da renovação simbolista, impondo-se entre os renovadores daquela
década para o início do século atual.
Na mesma linha de simplicidade e de fácil comunicação vemos a poesia de Mário
Pederneiras. Nas duas primeiras décadas do século atual, ele participa de grupos e
revistas, ouvindo e orientando, ao lado de Lima Campos, Gonzaga Duque, Colatino
Barroso. Com os dois primeiros, fundou Fon-Fon, em 1908, contando com a colaboração de
Olegário Mariano, Felipe de Oliveira, Hermes Fontes, Álvaro Moreira 37. Teve intensa
atividade literária e jornalística, mas publicou pouco em livros, verdadeiras plaquetes,
conforme o gosto gráfico dos simbolistas: de 1900 a 1921, deixou Agonia, Rondas Noturnas,

Histórias do meu Casal, Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida, Outono’*'. Respondendo a inquérito de João do
Rio, reconheceu em si mesmo influências da poesia de Tomás Antônio Gonzaga e
Casimiro de Abreu3'3. Relacionam-se de fato com esses modelos o neobucolismo e o
caráter intimista, voltado para o campo, o

35. Cf. eds. cits., nota 33 deste capítulo e Henriqueta Lisboa, Alphonsus de Guimaraens, Rio de Janeiro, Agir, 1945.
36. Quando estudante na Faculdade de Direito de São Paulo, a partir de 1890, trabalhou no Diário Mercantil, no
Comércio de São Pauto, no Correio Paulistano e sobretudo em O Estado de S. Paulo, onde, na seção “Parnaso”,
publicou vários poemas. Também manteve contatos com parnasianos, chegando a colaborar em O Vassourense,
jornalzinho mantido por Raimundo Correia em Vassouras, estado do Rio de Janeiro, com colaborações de Olavo
Bilac, Coelho Neto, Júlio Ribeiro, Alberto de Oliveira (cl. estudos nas edições citadas, nota 33 deste capítulo).
37. Antes disso, Mário Pederneiras, em 1895, estava ligado à Rio Revista, logo depois ao jornal Mercúrio, com
colaborações de Raul Pederneiras, Julião Machado e Benedito Calixto, artistas plásticos, que ilustraram algumas
composições do poeta. Em Fon-Fon manteve as seções “Crónicas”, “Bilhetes a Cora”, “Notas de Bom-humor”,
“Diário das Ruas”. Também colaborou no Novidades e na Gazeta de Notícias, todos do Rio de Janeiro. Cf
depoimento de Mário Pederneiras em O Momento Literário, de João do Rio, Rio de Janeiro, Garnier, s. d., pp. 214-
216.
38. Cf nota anterior.
39. João do Rio, O Momento Literário, ed. cit., v. depoimento citado de Mário Pederneiras.

O 1" ITHlUDO OU O PBRlOUO N Ar i n M AI I n rt r m A» .


MMMo
m
v

I romiipício do RontLu
Nnturnus, capa c ilustrações
ili| Raul Pederneiras.

I.ii, a família, da poesia de Mário Pederneiras, de acentuada simplicidade r vaga


melancolia, aceita. Mas há um outro aspecto importante, renovador da temática da
poesia brasileira: a inspiração na paisagem urbana c social da sua cidade natal, o
Rio de Janeiro, captada desde os movimentos anónimos até as impressões de frieza
deixadas pela arborização organizada. Fluente, descritivo e evocativo, é a atenuação
dos momentos finais do nosso simbolismo, em que já começam a surgir os seus
herdeiros.
Nesse sentido, salienta-se o ritmo tranquilo do verso de Mário Pedernei- ras,
alongando-se a partir do mínimo de sílabas, no melhor exemplo que então teríamos
do verso assimétrico ou polimórfico. Com esse poeta co-
existiriam outros simbolistas, com características formais bem próximas, embora
de temática distinta, como por exemplo Raul de Leoni.

3. RECONSIDERAÇÕES SOBRE A POESIA PÓS-ROMÂNTICA

Quaisquer que tenham sido seus resultados, as manifestações de poesia


“científico-filosófica”, socialista e realista representaram uma intenção ostensiva de
ruptura com a poesia anterior. Mas se limitaram à temática representativa da “idéia
nova”, a que se acrescenta o realismo erótico. Na “ideia nova” estava o propósito
filosofante, positivista, o aplauso do progresso associado ao combate ao
despotismo, ou melhor, ao Império e à Igreja, em prol da democracia, pela
liberdade como um direito do homem, e pelo advento da República. O realismo na
poesia, sinónimo de erotismo, voltava-se contra o lirismo subjetivo e sentimenta- 1
izado dos românticos, embora a proposta erótica já se encontrasse no Romantismo.
É certo que neste caso era uma espécie de poesia marginal, oculta, quando não se
apresentava subjacente no lirismo amoroso. Mas, seja como for, contou com
cultores desde Gregorio de Matos e Guerra, no século XVII, e disfarçada ou
explícitamente, com alguns poetas já de pleno Romantismo. Quanto à forma, a
poesia da “idéia nova” se satisfez com o modelo hugoano, ou com a expressão
condoreira, conforme designação inspirada nas imagens arrojadas e grandiosas da
poesia de Castro Alves, além da acentuada preferência pelo metro alexandrino. É
explicável: a temática da “idéia nova” - menos, evidentemente a erótica - se
harmonizava muito bem com o condoreirismo, de pronunciamentos
grandiloqüentes e preocupações sociais.
Já o Parnasianismo não pretendeu a ruptura, pelo menos ostensivamente.
Implícita na poesia cultivada e nos modelos proclamados, propugnou uma poética
de aperfeiçoamento formal, correção e disciplina de linguagem exercidas sobre a
emoção, em certo sentido tendente a racionalizá-la, donde certo gosto pelas
reflexões ou construções raciocinadas. I lc* foi, em suma, essencialmente renovação
formal entendida como ide-
al tic correção, perfeição e simplicidade. Convém distinguir entre nós, i nino
excrescência, a temática generalizada universalmente pelo Parnasianismo:

It I’l Klono OU 0 PERIODO NACIOMAT I r\ CÉnil v iv p *


sugestões tomadas à história ou às legendas gregas e latinas, à n adição mitológica
ADDO I N. 5 МАЮ-1904 Rs. 2$000
e literária gregas, ao mundo oriental, ou o culto da liudez feminina, proveniente da
sugestão da estatuária grega, de maneira i|iic o Parnasianismo passa a constituir-
se então “nosso parnasianismo", < niiiinuação reformulada do nosso romantismo
interno, conjuntamente tom a retomada de uma experiência mais abrangente.
Considerem-se, • ui termos de Romantismo: lirismo amoroso - também
contaminado I•• l.i concepção camoniana presença da natureza e em particular do
in.o; apego às origens locais alimentando raízes telúricas, germes aiitobi i*)'.i
áticos ao lado de certo reacionarismo contra mudanças em nossas t s i ruturas
rurais tradicionais, com a extinção da escravidão: gosto de temas históricos
realimentadores daquela ideologia que, de patriótica, se lana ii.u ionalista, de
raízes coloniais. Até mesmo aquele lirismo amoroso tios inmànticos, interiorizado
e confidencial, marcado pela lamentação em virtude da recusa, da perda ou da
incompreensão. Comportamento acei- m e não fatalizado, o amor, não é mais
objeto precipuo de imploração, é decantado com a alegria de quem ama e de quem
é amado, ainda que se admitam, camoneanamente, as contradições deste
sentimento. Humani- /.I se a mulher amada ou inspiradora. Caminha-se para a
aceitação tranquil.i da existência até à aproximação do envelhecimento e com ele a
presença da morte. Ressaltam-se aqui modelos, notadamente internos de
momentos diversos, do Classicismo ao Romantismo: Camões, Bocage, Gonçalves
Dias, Machado de Assis, este, contemporâneo, mas eleito mestre pelos
parnasianos. Continuando o romantismo interno, nosso parnasianismo foi
igualmente herança de antecedentes clássicos, cujo rigor formal lhe imprime
traços neoclássicos.
O Simbolismo, na verdade amadurecido em princípios do século atual,
desencadeou preocupações estéticas que, à parte a libertação formal,
intensificaram o triunfo do individualismo. Mais do que os adeptos da poesia
“científico-filosófica” e realista, provocou o debate, aguçando o
(yirónica. . ídJQiL
SUMMARIO Um pastel. ?t> Lindolpho Azevedo.
Stingrávida (rteaptc tcrvM, Gonzaga Duque. 20f Vida Utero ria. .............ff//osé Verissimo.
Idade de Ouro. . . /d9Coelho Nidio Olhos Irteles Matto Grosso ................/¿fTT СГ Avlla Franca.
[****»). tid'Luiz Edmundo. Symphoniu . . ................SM Luiz Guimarães (Fi/hoJ
Nossos concursos . . /// Manhas de Campinos. /¿¿Garcia Redondo.
Conuucntarios ............. ¿/¿Suncho Alves. O Doutor Conceição.. ./¿/Domingos Olympio.
Divina Comedia ¿/d / P. Xavier PinJíríro. Aguas da
Thcalros ......................... MúArthur Azevedo.
Cidade de Sanios Dr. Alfredo Lisboa.//S Tres
De Victoria a Diamantina. L. A. /ff
saneias inéditos ¿¿ff
r*r$S.

Capa da revista Kosmos. Contou com


importantes colaboradores de fins do
sdeulo XJX para o atual. Ocstaca-sc a
participação efetiva de Olavo Hilac
como cronista.
i niilionto de gerações. Com os parnasianos, projeta-se no primeiro quar- icl do
século atual, deixando importante legado para herdeiros que se !a- num grandes
poetas do Modernismo.
Finalmente, em princípios do século atual, as revistas, umas já citadas Arntis. Kosrnos
{1904-1906), Renascença {1904-1908), Fon-Fon refleti- i iam a persistência das
manifestações parnasianas e sobretudo simbolistás.

APP.NDICE: GRUPOS E REVISTAS SIMBOLISTAS NAS PROVÍNCIAS

Andrade Muricy chega a arrolar 29 revistas, sendo 7 no Rio de |ancim, e as


demais nas províncias, principalmente no Paraná263 264. No Rio de Janeiro, como
Imo centralizador, principia-se com a Rio-Revista, de 1895, seguida pouco de pois de
Mercúrio, esta com ilustrações de Raul Pederneiras, Julião Machado < Benedito
Calixto, além de outros. Anos mais tarde, já em 1908, Mário Peda liaras, Gonzaga
Duque e Lima Campos, sempre juntos, lançariam a revista Ion Fon, de longa duração e
em cujos primeiros números se encontra apreciável material literário e documental.
Sua importância já se reverte ao estudo agota das transições que marcam o
momento. É bastante lembrar que esta revista contava também com a colaboração
de Olegário Mariano, Felipe de Oliveira, I lermes Fontes, Álvaro Moreira. Mas as
revistas simbolistas mais importantes, i igorosamente organizadas, planejadas e
executadas de acordo com os ideais e processos simbolistas, foram a Rio-Revista, a Vera-
Cruz e a Rosa CruV1.
O principal fundador da Rio-Revista foi Gonzaga Duque. Na revista Terra de Sol,

fundada e dirigida porTasso da Silveira, já na década heróica do Modernismo,


encontram-se algumas cartas de Gonzaga Duque dirigidas a Emiliano Perneta, em
duas das quais há referências à Rio-Revista. Dão-nos uma idéia do que deveria ser esta
revista e do que pretendiam seus organizadores. Na primei ra carta, datada de
09.05.1895, Gonzaga Duque escrevia, deixando bem claras reações próprias dos

263 Andrade Muricy, Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, 2. ed„ cit., vol. II, pp. 1208-1212.
4 I, V. Antonio Dimas, Rosa-Cruz, Contribuição ao Estudo do Simbolismo, São Paulo, Universidade dc São Paulo,
FFLCH, Boi. 31 (Nova série), Curso dc Literatura Brasileira, J, 1980.
simbolistas:

Com esta remeto-te o Io número da Rio-Revista, que conseguimos fundar. Aí verás a


nossa gente, toda a bande joyeuse da boémia dissidente, lutando pelo Grande Ideal. Falta o teu
nome [...]

E numa segunda carta, ainda acentuaria outros procedimentos:

Manda-me também os teus novos versos, temos a “Rio-revista para publicá-los, para ter
a honra, o orgulho de os compor em tipo elzevir, e os imprimir em cetinoso papel branco como
os linhos claros ao luar de Junho265.

A propósito da Vera-Cruz, retomamos informações de A. Austregésilo.


Testemunho das repercussões dos simbolistas, ele principiou a participar desses
novos grupos literários em 1896, ao lado dos primeiros combatentes, Cruz e Sousa,
Gonzaga Duque, Lima Campos e Mário Pederneiras, e de outros ainda jovens,
Néstor Vítor, Oliveira Gomes, Gustavo Santiago, Cardoso Júnior, Neto Machado,
Luís Edmundo. Ao fundarem a revista Vera-Cruz em 1898, instituíram o grupo “os
novos”. Obedeciam a um decálogo simbolista que fora impresso em vermelho e
negro e se propunham à defesa da arte simbolista ou decadista ou nefelibata. Foram
combatidos, mas guerrearam bastante:

Ninguém medianamente sensato - escreve Austregésilo — nos tomava a sério, mas


publicávamos livros, revistas, escrevíamos em jornais, reuníamo-nos em tertúlias e tínhamos a
bandeira escandalosa de guerra para derrubar os velhos parnasianos, românticos e realistas266.
Devotavam admiração a Mallarmé, Moréas, Verlaine, Rimbaud, Eugênio di
('astro, Antônio Nobre, João Barreira. Viviam cheios de ilusões e cultivavam a
“tortura literária, a dor artificial, o sofrimento imaginário e o pessimismo mórbido”,
contaminados como estavam pelo nefelibatismo. No Rio de Ja- iii im, reuniam-se

265 Gonzaga Duque, “Carras Inéditas de Gonzaga Duque”, em Terra de Sol, Rio de Janeiro, 1924, voi. I, p. 29. E a
Rio-Revista, como as demais revistas simbolistas, seria de efémera duração. Causas principais: dificuldades
financeiras, exigências relativas ã feição material do periódico e à colaboração literária. Os trechos de cartas
transcritos já nos sugerem isso mesmo. E é sabido como em vão tentariam fundar revistas que não passavam
de simples projetos.
I I. A. Austregésilo, “Reminiscências do Simbolismo”, em Autores e Livros, suplemento literário de A Matthä,
ano II, voi. 3, n. 12, Rio de Janeiro, 18 out. 1942, p. 186.
diariamente nos cafés ou na Rua do Ouvidor, para discutir valores, nomes
estrangeiros e nacionais já consagrados, usando e abusando da i xprcssão medíocre.
Sentiam-se orgulhosos e ao mesmo tempo insatisfeitos: para eles “não havia grandes
brasileiros: tudo, rasteiro e trivial ".
Atitudes idênticas seriam retomadas pelo último grupo entre os mais ex pn
ssivos do Rio de Janeiro, formado por volta de 1901, com o objeiivo pu cí puo de
reavivare homenagear a memória de Cruze Sousa. Fundariam .1 ie\ IM.I liosa Cruz.
Aparecida em junho, manteve-se até setembro daquele ano, atin 1 indo o quarto
número. Ressurgiria mais tarde, de junho a agosto de I90 i, quando foram
publicados mais três números. Este grupo, a que podemos 111.1
m.11 da Rosa Cruz, chefiado e inspirado por Saturnino Meireles, contou com .1
participação de Carióos D. Fernandes, Conçalo Jácome, Pereira da Silva, (lastro
Meneses, Paulo Araújo, Tibúrcio de Freitas, Alphonsus de Guimaracns, Mau rício
Jubim, Rocha Pombo, Félix Pacheco. Acrescentem-se, como simples colaboradores
da revista, na primeira fase: Luís Delfino, Cabral de Alencar, Rafae-
I111.1 de Barros, João Andréia, Colatino Barroso, Carlos Góis, Archangelus de
Cuimaraens, Miguel Melo e Amadeu Amaral; na segunda fase: Flávio da Silveira,
Mário Tibúrcio Comes Carneiro, H. Malaguti, Bernardes Sobrinho c Roberto
Gomes267 268. E quase todos os nomes acima já foram mencionados anteriormente: o
grupo não passava, portanto, de uma sobrevivência dos anterio res, os quais, por sua
vez, se interpenetram.
A Rosa Cruz apresentava um programa de intransigente guerra aos metía Hiñes e
contra a burguesia endinheirada, conforme sua linguagem e exprimia ódio ao que os
simbolistas em geral chamavam - profundus vulgus. Sousa Ban deira também a menciona
como tendo sido urna revista dedicada unicamente à arte269. Seu mantenedor,
Saturnino Meireles, e colaboradores não admitiam anuncios, mesmo que fossem
disfarçados em versos, conforme procedimento de outros periódicos. Idealismo e

267 Idem, lug. cit.


268 C/I ávares Bastos, “Como Surgiram os Místicos da ‘Rosa-Cruz’ - O Simbolismo 110 Brasil - A I11 fluência de
Saturnino Meireles - Os Discípulos de Cruz e Sousa - Vicissitudes de uma Revista de Arte", em Jornal do
Comércio, Rio de Janeiro, 14 mar. 1947, p. 7.
269 (Sousa Bandeira) - Félix Pacheco, Discurso de Recepção na Academia, Seguido da Resposta do sr. Sousa
Bandeira, Rio de Janeiro, Tip. do Jornal do Comércio, 1913. pp. 69 e ss.
abnegação ao mesmo tempo, marcando uma geração, conforme o que nos sugerem
trechos de cartas de Saturnino Meireles, dirigidas a Tavares Bastos 270. Também, o
sentimento de admiração a Cruz e Sousa, alvo de irrestrito louvor, elevado ao mais
alto grau da consagração. É suficiente lembrar as expressões que então usavam,
quando se referiam ao poeta negro: Peregrino das Ânsias, Incomparável Eleito,
Negro de Ouro, Glorioso Artista, Dor Personificada, Ser Privilegiado, Magoado
Eleito, Semi-Deus, Tedioso e Torturado Sonhador, Grandioso e Imaculado Cenobita,
Formidável Dante Negro. Cruz e Sousa era considerado assim o “Deus tutelar da
publicação”, que acintosamente, exceção feita a Luís Delfino, desprezava os
consagrados, chamados fósseis e desonestos. Por isto, se faltava matéria da autoria de sim-
bolistas brasileiros, preferiam transcrever Nietzsche, Sar Peladon, Mallarmé, de uma
maneira geral os poetas malditos271.
Relembremos agora o que se passou nas províncias. De fins do século XIX a
começos do atual, destacam-se o Paraná, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Ceará, Rio
Grande do Sul, onde além da formação de grupos houve a fundação de revistas. Eles
se projetam no Rio de Janeiro, com a presença de escritores, ou poetas,
destacadamente do Paraná. Em Curitiba, a partir da revista do Clube Curitibano, de
1890, dirigida por Dario Veloso, destacamos entre as 16 revistas indicadas por
Andrade Muricy'w : O Cenáculo, de 1895 a 1896, dirigido por Dario Veloso, Silveira
Neto, Júlio Perneta e Antônio Braga, com a colaboração dos principais simbolistas,
já citados, além de Cruz e Sousa, Nestor Vítor, Jean ltiberé, Emiliano Perneta,
Emílio de Meneses, Gustavo Santiago. E Pallium, de 1900; até Victrix, de Emiliano
Perneta, em 1907. É ao “Clube C àiritibano”, agora com a revista O Cenáculo, que está

270 Destacamos o seguinte trecho: “(...] continuo exilado entre as paredes do meu quarto, tendo somente a
consoladora companhia de Macterlinck, Emerson, Carlyle, Novalis, Helio, Swedenborg, Platão, Spinosa,
Pascal e tantos outros que das minhas estantes me ensinam a ter sábia resignação de rudo aceitar com um
sorriso nos lábios. E por isso eu encontro sempre uma desculpa para todos vocês que me não procuram. Mas
agora preciso de ti um conselho: que hei de fazer para sair o 3o número da Rosa-Cruz, se tu mesmo e todos
os demais companheiros náo me vêm animar com a sua presença, com o produto do seu espírito e com os
meios pecuniários necessários? Manda-me um trabalho teu, a contribuição que prometeste e vem até cá,
para não assistirmos aos Riñerais de tão bela revista”. E cm outro trecho de uma segunda carta: “[...) manda-
me o teu trabalho e o mais que prometeste; mas caso só tenhas o trabalho, manda só o trabalho. Não
compreendes o quanto luto para dar essa revista. Além de falta de recursos, falta o auxílio espiritual”. Apud
Tavares Bastos, lug. cit.
4H. Sousa Bandeira, lug. cit.
ligado o grupo cujos nomes já foram indicados como diretores desta revista. Em
Salvador, presos á Nova Cruzada, continuada por Os Annaes, mencionam-se os nomes de
An lun de Salles, Caldino de Castro, Carlos Chiacchio, Godofredo Viana, I r.musi o
Mangabeira, Pedro Kilkery, Pethion de Villar (Egas Muni/ Barreto de Arag.io) e
outros. Em Belo Horizonte, compõe-se um grupo em princípios do século, nomeado
“Romeiro do Ideal”, com Edgar Mata, Álvaro Viana, Eduardo ( ri queira, Carlos
Raposo, Alfredo Sarandy Raposo, Archangelus de Vim.ir.iens, que se correspondia
com Alphonsus de Guimaraens e também com I TCÍI . IS Valle, ambos em São Paulo.
Contava com as revistas Horus, a principal, de 1902, precedida dcç Minas Artística, de
1901, e seguida por A Época, de 1905. São Paulo não fundaria revistas, mas contaria
com a “Página Literária”, sema nal, do Diário Mercantil com a colaboração de Scveriano
de Resende, Alphonsus de Guimaraens, que estudava na Faculdade de Direito,
Wenceslau de Queirós, Leo Fonseca, além de nomes de fora, corno Cruz e Sousa,
Virgílio Várzea, Emiliano Perneta. E, em 1906, aqueles três primeiros, mais Adolpho
Araújo, fundariam A Gazeta. Mas, é curioso considerar a Revista do Brasil em fins do
século, sob a direção de Cunha Mendes, com Carvalho Aranha, Amadeu Amaral e
Teófilo Dias, além da colaboração também de fora, de Araripe Júnior, Adolfo
Caminha, Figueiredo Pimcntel, Júlio Perneta, Emiliano Perneta, Silvei ra Neto,
Dario Veloso70. No Ceará, como reflexos mais gerais da renovação i i cntífica,
filosófica e literária a partir dos anos 70, depois da “Academia I rance 272 273
sa”( 1873-1875) — agremiação que se faria paralela ao movimento da “Escola do
Recife” —, organizar-se-ia a “Padaria Espiritual” (1892-1898), da qual Araripe
Júnior, apreciando o movimento literário de 1893, apontaria a produção poética de
Lopes Filho e Sabino Batista274. Reconsiderado por Sânzio de Azevedo, foi Lopes
Filho quem estampou no periódico da “Padaria Espiritual”
- O Pão, o soneto - I — sob o título da série “Musa Nefelibata”275. Pretende assim que

272 Andrade Muricy, lug. cit. V. também Cassiana Lacerda Carollo, op. cit., vol. I, pp. 211-305.
273 V. Andrade Muricy, Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, ed. cit., 2 vols.; Cassiana Lacerda
Carollo, Decadismo e Simbolismo no Brasil, ed. cit., 2 vols"; Cecília de Lara, Nova Cruzada (contribuição para
o estudo do pré-modernismo), São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros-USP, 1971; Antônio Dimas, Rosa-
Cruz (contribuição ao estudo do simbolismo), ed. cit.
274 V. Araripe Júnior, op. cil.tpp. 100-112. Também faz referência a Clóvis Beviláqua, que não pertenceu àquela
agremiação.
275 V. O Pão da Padaria Espiritual, ed. fac-sitnilar (introdução de Sânzio de Azevedo), Fortaleza, Edições
este soneto seja um marco inicial que comprovaria a independência de
manifestações simbolistas no Ceará com relação a núcleos irradiadores do sul,
notadamente o Rio de Janeiro. O Simbolismo ali teria surgido sob a influência direta
de Portugal, com Antônio Nobre, embora cite Antônio Sales que, em prefácio ao
livro de Lopes Filho — Phantos, reconheceria neste poeta influências conjuntas dos
mestres franceses do Simbolismo, ao lado de Eugênio de Castro e Antônio Nobre 276.
Sânzio de Azevedo indica ainda outros simbolistas cearenses
— Tibúrcio de Freitas, Cabral de Alencar e Lívio Barreto, considerando este último o
mais expressivo de todos, com o livro de publicação póstuma — Dolentes277. Quanto ao
Rio Grande do Sul, a repercussão do Simbolismo se dá um pouco tardiamente, já
pela primeira década do século atual278.

Universidade do Ceará, 1983. Circulou, irregularmente, em 1892 (6 números) e de fins de 1895 a 1896, com 30
números, totalizando, pois, 36 (na edição citada falta o n. 6). O soneto “Musa Nefelibata - I - Antônio Sales”,
encontra-se no n. 3, ano I, p. 6.
52. V. Sânzio de Azevedo, A Padaria Espirituale o Simbolismo no Ceará, Fortaleza, Secretaria de Cultura e
Desporto do Governo do Ceará, 1983, pp. 42-43 e ss. e p. 146 e ss. O livro de Lopes Filho (João Lopes de
Abreu Lage), Phantos, foi editado em Fortaleza, Padaria Espiritual Editora, Ttp. Universal, 1893, com “Carta-
prefácio” de Antônio Sales.
277 Idem, Padaria Espiritual (1892-1898), Fortaleza, Imprensa Universitária, 1970, p. 28; v. também do mesmo
autor A Academia Francesa do Ceará (1873-1875), lug. cit., 1971, e O Centro Literário (1894-1904), lug. cit.,
1972; e Leonardo Mota, A Padaria Espiritual, Fortaleza, Edésio, 1938.
278 Observa Guilhermino César: “Cruz e Sousa, vizinho de Florianópolis, Alphonsus de Guimaraens, mineiro, e
o grupo de O Cenáculo, de Curitiba, lograram rápida difusão em Porto Alegre e no interior do Estado.
Eugênio de Castro, Antônio Nobre e mesmo Cesário Verde haviam encontrado também ressonância entre os
nossos poetas do novo século, penetrando-lhes profúndamente a sensibilidade, acordando-os para a batalha
do anti-materialismo". E logo a seguir considera, também, as influências “francesas e belgas - Verlaine,
Rodenbach, Samain -, sobretudo a partir de Eduardo Guimaraens, cuja estréia em livro se dá em 1908”,
História da Literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902), Porto Alegre, Globo, 1956, pp. 392-393.
CAPITULO X

O Ú LTIMO Q UARTEL DO S ÉCULO X I X - 3 U


A N ARRATIVA F ICCIONAI

I. O REALISMO-NATURALISMO

Referindo-se à “guerra do Parnaso” e à repercussão entre nós da “questão


coimbrã” Alberto de Oliveira observava, em 1878, em páginas do Diário do Rio de Janeiro:

Ocorre-me lembrar datarem de então os primórdios da escola naturalista, c n tre nós,


sob a forma de contos, publicados por Hop-Frogg (Tomás Alves Filho) no mesmo Diário do Rio
de janeiro c Gazeta de Notícias. Aluísio Azevedo aparece pouco mais tarde279.

279 Alberto de Oliveira, “O Culto da Forma na Poesia Brasileira”, lug. cit., p. 272.
E o Visconde de Taunay, embora reconhecendo que o Naturalismo já havia
deitado raízes maiores em Portugal que no Brasil, coloca-nos “quase que
diretamente sob a influência das idéias parisienses”, ao mesmo tempo que informa:

O crime do Padre Amaro foi para Portugal a revelação de Zola, quando no Rio de Janeiro já
era muito lida e comentada a obra do ilustre realista280.

Mas a repercussão no Brasil, ainda em 1878, dos dois romances de Eça de


Queirós - O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, alvos de ataques e defesas, notadamente
da crítica de Machado de Assis281, foi fato marcante na difusão do Naturalismo entre
nós. O escritor português, de longa fortuna na Literatura Brasileira, um dos
principais modelos de alguns dos nossos melhores romancistas, desde então foi
dado por nós como um seguidor de Zola, considerado amante da minúcia, do
detalhe, voltado para o comportamento sexual descrito quase sem reservas. Ma-
chado de Assis, conhecedor do mestre francês, a quem cita na análise dos dois
primeiros romances do discípulo português, contesta os excessos e desenvolve
conceitos que certamente serviriam muito mais a ele mesmo, Machado de Assis, do
que a contemporâneos que foram seguidores quase sem restrições das novas
tendências. Condenou o que chamava de “obscenidade sistemática do realismo”,
mescla de “toda sorte de idéias e sensações lascivas”. Não pretendia defender os
“estafados retratos do romantismo decadente”, voltava-se contra os exageros tanto
de um quanto do outro, mas reconhecia “alguma coisa no realismo que pode ser
colhido em proveito da imaginação e da arte”. Censurava-lhe o tom carregado das
tintas, o amor à “reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e
ignóbeis”, a insistência no “escuso” e no “torpe”, “tratados com um carinho
minucioso e relacionados com uma exação de inventário”. Lembraria, a propósito,
“o próprio chefe da escola”, para quem “o perigo do movimento realista é haver
quem suponha que o traço grosso é o traço exato”. E feria o problema moral, cujo

280 Visconde de Taunay, Brasileiros e Estrangeiros, ed. cit., p. 24. Obs.: No prefácio a esta edição, Afonso
dclaunay adverte tratar-se de uma reedição dos Estudos Críticos de Alfredo de Taunay, editados em 1883 c
publicados antes na imprensa do Rio de Janeiro, notadamente na Gazeta de Notícias. É provável que os
artigos sejam de 1880, ano do lançamento do romance Nana, ou de um pouco depois, a propósito do qual o
escritor brasileiro critica o naturalismo de Zola.
281 Machado de Assis, Crítica Literária, ed. cit., pp. 160-185.
alcance ou distorção foi tão deba- i ido na época. Tocava-se no ponto que talvez
tenha sido o mais visado: a sedução que a descrição minuciosa dos “latos viciosos”,
descrição “quase técnica, das relações adulteras” exerceria sobre o leitor282 283.
Ampliando a crítica aos compromissos do Naturalismo com a t iên cia da
época, não é outra a posição do Visconde de Taunay ao escrevei sobre Nana, romance
então de impressionante sucesso na França e igual mente de repercussão mundial.
Apesar de apoiados na ciência e na filo sofia, conforme o indica, com Darwin e
Haeckel, Comte e Spenccr, Taunay acentua a “inconveniência desses estudos
naturalistas que gene ralizam fatos destacados e, de um tipo quase sempre mau e
odiento calcado em circunstâncias especiais, inferem a feição, a expressão última e
completa de uma classe, de uma sociedade inteira e até de uma nação” Voltados
para uma visão dos “fenômenos teratológicos, quer de ordem física, quer moral”,
enfatizando as descrições lúbricas e sensuais da prática sexual, para ele os
naturalistas não reconheciam na condição humana o antagonismo dominante do
bem e do mal. Quanto à dependência da ciência em que se colocava então a
literatura, ele defendia a autonomia da última, ressaltando sobretudo a força do
estilo que a caracteriza e, portanto, a distingue284.
Uma terceira posição nos é dada pela crítica polêmica de Sílvio Romero.
Destaca-se com o opúsculo O Naturalismo em Literatura, em que cita diretamente, além de
romances de Zola, os Documents littéraires e l.es romanciers naturalistes, conhecidos também dos
críticos anteriores. Dis-

282 V. Machado de Assis, lug. cit., pp. 160 e ss.


283 Visconde de Taunay, op. cit., p. 9.
284 Idem, op. cit., v. os capítulos: “Zola c o Naturalismo”, pp. 5-18; “Ainda o Naturalismo", pp. 19-34 c “Zola e
Victor Hugo”, pp. 34-49.
tingue nas tendências renovadoras do momento um ponto comum que lhe permite
propor o termo naturalismo como indicativo de todas elas, preferível a realismo. E para ele
“o naturalismo é o contrário da intuição fantasista, do romantismo aéreo, mórbido,
inconsistente, histérico”. Entre os seus seguidores, contudo, pode “predominar a
impressão subjetiva e idealista”, como em Sully-Prudhomme, ou a objetiva, como
em François Coppée. Mas Zola seria o maior e o mais célebre do momento, com a
vantagem que lhe dava a sua preferência pela narrativa ficcional. Exaltadas as
qualidades de estilista e de narrador do francês, Sílvio Romero reinsiste no ponto de
debate comum, ou seja, a “imoralidade” dos quadros que aquele romancista pinta
em seus romances. Defende-o, porém, com fundamento nos métodos adotados pela
teoria naturalista, de observação direta, na análise das paixões humanas, decalcados
em “documentos humanos tomados ao vivo ”, com o objetivo que não é outro “senão
estudar e comentar”; e argumenta que dar preferência a um determinado lado da
vida não elimina o outro, que pode ser de terceiros. Finalmente, ao censurar os
seguidores que não compreendiam bem o mestre, Sílvio Romero toca num ponto
também já referido por Machado de Assis e Taunay, a linguagem. Cita a crítica de
Emílio Zola a Jean Richepin, acusado de “afetar uma impudicicia falsa e calculada ”,
e apesar das restrições que faz ao próprio Zola285, observa o seguinte:

[...] O trecho é instrutivo, e eu chamo para ele a atenção de alguns realistas brasileiros
que jogam nas páginas dos jornais uma gíria grosseira, falsa e fátua na sua pretensiosidade de
naturalismo. Antes de tudo a verdade, a lógica, o bom senso e o talento. Zola tem razão
quando escreve: Dans le mouvement naturaliste qui s’opére, on prend trop souvent l’audace
pour la verité. Une note crue n’est pas quand même une note vraie286.

Acrescentemos ainda a ponderação de Urbano Duarte, semelhante ,i dos


anteriores:

O período literário que atravessamos não tem acentuação definida, é de transição, de


laboração, para assim dizer, química. Desse ecletismo, dessa mistura, há de surgir, após longa
e incruenta luta, a combinação de todos os elementos bons dos sis- temns estáticos que nos
precederam, e os pontos de vista hão de ir reunindo num só, grande, verdadeiro, e elevado. O

285 Considere-se no seu todo o ensaio de Sílvio Romero - O Naturalismo em Literatura, aqui apenas
parcialmentc citado pelo seu interesse imediato de conceituação brasileira do naturalismo. V. nota seguinte.
H. Silvio Romero, O Naturalismo em Literatura, São Paulo, Tip. da Província de São Paulo, 1882, pp. 11 e ia.,
citação da p. 12.

ti' 1*1 ItlODO OU O l'l Rfonn WArmwAi r\c én i *


espírito científico do século fecundará a inteligência dos homens de letras, e dessa benéfica
hematose provirá a literatura naturalista, o rei no da verdade escrita, estudo racional, verídico, e
sobretudo inteiro, do homem e tla sociedade, com a explicação das causas e dos efeitos'’.

íl certo que cm termos de estilo de época, sob o enfoque interno, .1 narrativa


ficcional do período dito realista, dos anos de IHKO em diante, apresenta
transformações mais uniformes e maior vigor de contribuição individual do que a
poesia concomitante - “realista”, científica ou filoso lu a, parnasiana e simbolista.
Em primeiro lugar, pelo menos cinco nat i.tdores ficcionais ass^imem grande
relevo: Machado de Assis, Aluísio A/evedo, Inglês de Sousa, Manuel de Oliveira
Paiva, Raul Pompéia. (!om o primeiro, “autor-síntese”, todos os demais apresentam
obras poderosamente revigoradoras das principais coordenadas da nossa narrativa
ficcional, ou lançam propostas novas que prosseguirão com outros. É o que se
verifica desde os anos de 1880 aos do 1890, marcando o apogeu do Realismo, do
Naturalismo e do Simbolismo na prosa. Acentua-se a persistência destas tendências
através de figuras remanescentes e de outros escritores que surgem pelas duas
primeiras décadas do século atual, de 1900/1902 a 1920/1922, para atingir o
Modernismo. Contam-se, além dos principais já indicados, mais alguns nomes:
Araripe Júnior, Manuel Benício, João Ribeiro, Rodolfo Teófilo, Domingos Olímpio,
Adolfo Caminha e, impondo-se no século atual, Afonso Arinos, Xavier 287
Marques, Simões Lopes Neto. Finalmente, Lima Barreto arremata a visão urbana do
Rio de Janeiro, Graça Aranha e Euclides da Cunha se projetam no Modernismo.
***

Impõe-se uma referência ao papel que a Revista Brasileira da fase de 1879-1881,


editada por N. Midosi e secretariada por Franklin Távora, desempenhou na difusão
final das novas tendências literárias e correntes de ideias, marcadas como vimos
pelo ecletismo ou pela diversificação de posições. Ela divulgou artigos de Machado
de Assis - “A Nova Geração”, de Sílvio Romero — “Prioridade de Pernambuco no
Movimento Espiritual Brasileiro” e de Urbano Duarte - “O Naturalismo”, cujas
opiniões já ficaram devidamente ressaltadas. Destacam-se também estudos de fi-

287 Urbano Duarte, “O Naturalismo”, em Revista Brasileira, Rio de.Janeiro, Midosi, 1880, ano II, t. V, pp. 2S-30,
citação da p. 27-28. José Veríssimo também, embora mais tarde, teria visão idêntica - v. História da
Literatura Brasileira, cd. cit., pp. 9 e ss., v. nota 5, anterior.

O I'l RIODO OI) O PKRÍOnO NACIONAI 1-0 SÍriIlO XIV P A


losofia de A. H. de Sousa Bandeira e de A. Zeferino Candido; de lingüística, sobre
diferenciações da Língua Portuguesa no Brasil; de crítica e história literária, de
Sílvio Romero (“Introdução à Fiistória da literatura brasileira”); de Araripe Júnior
sobre José de Alencar; crónicas literárias de Carlos Laet e crónicas teatrais de
Visconti de Coaracy; de folclore e tradições populares de José Barbosa Rodrigues e
Sílvio Romero. Finalmente, colaborações de poetas, dramatugos e romancistas —
Valentim Magalhães, Luís Delfino, Alberto de Oliveira, Teófilo Dias, que logo se
destacariam como parnasianos; de Artur Azevedo, comediógrafo, também poeta e
contista; de Celso de Magalhães, que aí principiará a publicar, a partir de julho de
1881, o romance dado como naturalista - Um Estudo de Temperamento; de Machado de
Assis, além de críticas e poesias, a publicação de janeiro de 1880 em diante de
Memórias Póstumas de Brás Cubas. Interrompida, a Revista Brasileira ressurge mais tarde sob a
direção de José Veríssimo. É a terceira vez que revive, agora de 1895 a 1898, sem
dúvida de maneira mais relevante que as anteriores e ao lado de outros periódicos
literários desse período “realista”: A Semana (1885-1895) de Valentim Magalhães e
Max Fleiuss, Os Anais (1904-1906) de Domingos Olímpio, a Rosa Cruz{de 1901 a 1904)
dos simbolistas.
tín iilii Ih,mirim, 3“. lise, dirigida pui In«1 m:\isr \
Verissimo, com a colaboração di li, de Araripe
Júnior, Afonso Arinos, Silvio Homero, Artur
Azevedo, Magalhães de Azeredo, Visconde di
liiunay, Machado de Assis, UIIAZIUII
; \
I oelho Neto entre outros.

1'MMKIUO ANNO
TOMO 1'IIIM UI I 1« O

RIO DB JA NEI RO — H. I* AU l,i >


189»

2. MACHADO DE ASSIS, AUTOR-SINTESE

Antecedido por José de Alencar, ao mesmo tempo seu contemporâneo,


Machado de Assis foi igualmente figura síntese do nosso século X I X . Crítico,
cronista, poeta, comediógrafo, contista e romancista, e l e conviveu com o
Romantismo, o Realismo/Naturalismo, o Parnasianismo e o Simbolismo. A sua
forma literária preferida foi a narrativa ficcional, na qual, salvo a iniciação
romântica em que pesa a influência de |osé de Alencar, ele se afirmará
independentemente dos estilos literários dominantes. Contribuiu de maneira
relevante para o enriquecimen-

O ÙLTIMO QUA RTEL DO SÉCULO XI X - 3" - A NARRATIVA HCCI ONAL


to do gênero entre nós: primeiro, com a sobreposição do individual ao social, na
investigação do destino humano; segundo, pelo aproveitamento equilibrado daquilo
que ele reconhecia como positivo nos estilos literários do momento, enriquecidos
pela herança da tradição. Nesse caso, sob a atividade global do escritor explica-se o
ficcionista em particular: a crónica e a crítica, também o teatro e a poesia, lhe darão
o exercício da expressão exata juntamente com a seleção, depuração e aprofunda-
mento temático, sob tratamento que se definirá, dissemos, independentemente dos
estilos dominantes10.
Em Machado de Assis, romance, conto e crónica são formas narrativas que se
identificam pela observação subordinada à reflexão e ao humor, mais a linguagem.
Da crónica para o conto e o romance, a distinção substancial consiste no
compromisso direto da primeira com a realidade cotidiana, do nível individual ao
social e político, enquanto os dois outros, visando à criação de universos
autónomos, são síntese da condição humana em determinado espaço e tempo. A
crónica antecipa a reflexão existencial na narrativa ficcional, esclarece o seu conteú-
do ou intenção, e em alguns casos pode ser tomada como um exercício preparatório
para o conto ou para capítulos de romance".
Entre as reflexões que podemos extrair das crónicas, em busca da
sistematização de ideias, pomos em primeiro lugar aquela em que Machado de Assis
aproxima “amor” e “glória”:

Velha verdade que o amor e a glória são as duas forças principais da terra".

escrevia em 1892, comentando episódios da época: o rapto de duas moças de vila no


interior da Bahia por rapazes da vila vizinha; e a disputa de 288 289 290
poder entre as cidades de Bagé e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul291. A
propósito, retoma reflexões de José de Alencar, também como cronista". M is
lembramos que Machado de Assis, desde seus primeiros romances, |.i Itavia
reconhecido que a aspiração precípua da existência é o amor, ao lado, também ou
em oposição ao poder. Este, pois, gerador de glórias, ora ■ ni harmonia ou em

288 Resumimos sobre Machado de Assis o que já desenvolvemos no nosso ensaio Realidade eIlusão em
Machado de Assis, São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1969.
289 V. o subcapítulo “3. Folhetim/Crônica/Revista ou Hebdomadário” do capítulo VII - A Produção Literária do
Romantismo de Época.
290 Machado dc Assis, Obras Completas, Rio de Janeiro, Aguilar, 1950, voi. 3, p. 566.
17. Idem. ibidem, p. 659.
conflito com o amor, demonstrava, portanto, que rsias duas aspirações tanto
uniam quanto dividiam os homens. Mas é pre- i iso ponderar que Machado de
Assis, seja como homem ou escritor, abor in ia o poder e a glória em suas
múltiplas manifestações. Lembremos tre
i ho de carta íntima, de março de 1868, à sua futura companheira:

Depois... depois, querida, queimaremos o mundo, porque só é vml.ideii.imenn


ii nhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições
estérus I sumos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti".

E em duas outras crónicas, ele escrevia, na primeira:

Tenho horror a toda superioridade16, e na segunda:


O grande Erasmo (Ó Deus!) escreveu que andar atrás da fortuna e de
distinções i292 uma espécie de loucura mansa1.

As reflexões são chaves para o estudo da obra de Machado de Assis, .1 serem


relacionadas com pelo menos mais duas perspectivas. Uma, a da memória, com
ponto de partida na infância, equacionando tempo objetivo - passado, presente,
futuro - com tempo subjetivo, ou seja, a dura çlo, que é preservação ou
permanência do mito existencial. A outra, cm
torno da consciência que cada um alimenta de sua própria condição, de maneira a
fazer-se responsável pelo que é. Em outras palavras, a maneira de se reconhecer e
respeitar a verdade de cada um, não obstante as restrições ou parâmetros de fora
para dentro. Por sua vez, Machado de Assis, escritor, consegue atingir a plenitude
da complacência pautada pelo humor. Veja-se, a propósito, o que diz em outra
crónica também de 1892:

Para não mentir, direi que o que me impressionou, antes da eletricidade, foi
o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu
bond\ com um grande ar de superioridade. Posto não fosse feio, não eram as prendas
físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convicção de que inventara,
não só o bond elétrico, mas a própria eletricidade. Não é meu ofício censurar essas

292 Idem, ibideniy pp. 759-760.


14, V. nota 11, deste capítulo.
IV Machado de Assis, o[>. cit., p. 1045.
I(i. Idem, ibidern, p. 568.
meias glórias, ou glórias de empréstimo, como lhe queiram chamar espíritos
vadios. As glórias de empréstimo, se não valem tanto como as de plena
propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia. Para que arrancar um
homem a essa agradável sensação? Que tenho para lhe dar em troca?18

Não é de estranhar, portanto, que sua atitude de complacência se estenda ao


sistema vigente de normas e padrões de comportamento, tanto no plano social
quando jurídico, conforme o que se lê a seguir:

O código, como não crê em feitiçaria, faz dela um crime, mas quem diz ao
código que a feitiçaria não é sincera, não crê realmente nas drogas que aplica e nos
bens que espalha? A psicologia do código é curiosa. Para ele, os homens só crêem
aquilo que ele mesmo crê; fora dele, não havendo verdade, não há quem creia
outras verdades - como se a verdade fosse uma só e tivesse trocos miúdos para a
circulação moral dos homens19.

Finalmente, como se buscasse uma conclusão, considera o papel da


consciência que cada um tem de si mesmo, do que é e do que dispõe como condição
de vida. Citamos uma de suas melhores crónicas, inspirada na notícia do suicídio
de um fazendeiro que, sem a convicção de sua riqueza, temia a miséria. O cronista
reconhece que o suicida alimen-

IH. Idrm, íbidem, p. 577.


I'). Idrm. ibidrm, p. 669.

lava “a convicção de não ter nada” sem qualquer “ambição de possuir in.iis". 1\
lembra em oposição a conhecida anedota do cidadão pobre de Atenas que se
julgava dono de todos os navios que aportavam no Pireu, p.ii.i concluir:

A lição é que não peçais nunca dinheiro grosso aos deuses, senão com a
cláusula i q nessa de saber que é dinheiro grosso. Sem ela, os bens são menos que
as flores de um dia. Tudo vale pela consciência. Nós não temos outra prova do
mundo que nos i rn a senão a que resulta do reflexo dele em nós: é a filosofia
verdadeira. [...] A veril.i de, porém, ó o que deveis saber, uma impressão interior’0.

Ao contornar os julgamentos definitivos, o romancista conseguiu .imbuir ao


personagem, ao leitor e a ele mesmo, ângulos de visão cxclu sivos. Revigorando
essa posição, contou com o humor e o gosto das cit.t ções, principalmente nas
crónicas.
Inicialmente, recorreria com freqiiência ao trocadilho como arma que abala a
gravidade das situações e fatos, discussões ou controvérsias, acentuando o ridículo,
quando existe. Mas sua maior arma seria mesmo o humor. De difícil definição ou
caracterização, compreendemos o seu mecanismo como uma forma de raciocínio,
que parte de sugestões tomadas aos componentes objetivos e subjetivos de uma
situação em foco, geradora de associação inesperada entre o que implica de
maneira abstrata num conceito universal ou num juízo de valor, situação
individual, de maneira a torná-la paradigmática. Visa, por exemplo, ao contraste
entre a grandeza do que traduz o triunfo da solidariedade coletiva e a vulgaridade
dos interesses e reações pessoais, de maneira que é, ao mesmo tempo, a sondagem
que se abre para as lutas do indivíduo com a espécie, cm que o primeiro se
amesquinha. O gesto heroico do indivíduo se reduz â medida que é isolado da visão
que se tenha da grandeza humana. Forma dc disfarce, instintivo ou consciente, do
egoísmo humano no seu aía de subsistência e de afirmação sobre o semelhante,
pode resultar em acomodo. Irían, ;birlan, pp. 759-760.
Retrato de Mm ludo
de Assis.
dação. f. exemplo o episódio do almocreve, em Memórias Póstumas de lirds Cubas.
Quanto às leituras preferidas de Machado de Assis, ampiamente ciladas por ele,
estão os Testamentos, dos quais ele sublinha risonhamente, tom certa malícia,
determinadas situações, enquanto impõe, por outro lado, a meditação sobre os seus
ensinamentos. Entre os mortais, lembra I legcl, Schopenhauer, Spencer, Renan,
buscando sempre relacioná-los i om a realidade.
Por tudo isso, chegaria a uma definição clara da orientação dada ao t u
pensamento como visão do mundo - homem c sociedade, numa pá (•ina datada de 1897,
que é ao mesmo tempo um testamento espiritual:

C) essencial aqui é dizer que não faço confissão alguma, nem do mal, nem ilo hem. Que mal
me saiu da pena ou do coração? Fui antes pio e equitativo que rigoroso c injusto. Cheguei à elegia e
à lágrima, e se não bebi todos os Cambarás c Jataís deste mundo, é porque espero encontrá-los no
outro, onde já nos aguardam os xaropes do Mosque e de outras partes. Lá irá ter o grande Kneipp, e
anos depois o Kneíppismo, pela regra de que primeiro morrem os autores que as invenções. Há
mais de um exemplo na filosofia e na farmácia.
Não tireis da última frase a conclusão de ceticismo. Não achareis linha cùfica nestas minhas
conversações dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada há
mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la. O
verdadeiro cético não crê, como o dr. Pangloss, que os narizes se fizeram para os óculos, nem, como
eu, que os óculos é que se fizeram para os narizes; o cético verdadeiro descrê de uns e de outros.
Que economia de vidros e de defluxos, se eu pudesse ter esta opinião!293

Em suma, o que Machado de Assis diria de Renan - “tão plácido para com as
fatalidades, tão prestes a absolver as coisas irremissíveis" - transpõe-se perfeitamente
para ele mesmo.
O crítico, solidamente fundamentado em princípios da teoria literária de fins do
século XVIII para o XIX, completaria com o cronista o preparo e a capacitação do
ficcionista. O pequeno ensaio - “O Passado,

293 Idem, ìbidem, pp. 784-785

rt.rum nmoTDi nnclnnnviv io A NARRATIVA FICCIONAI. I


o Presente e o Futuro da Literatura” marca o início da atividade crítica de
Machado de Assis, em 1856. Ela não preencheria toda a sua trajetória de escritor, mas
ocuparia um bom espaço inicial. Principia preocupado em esboçar um código da
atividade e finalidade da crítica, firmado na independência de posição, na urbanidade e
no conhecimento das formas literarias, da poética tradicional aos estilos de época.
Sobretudo, defenderia a imparcialidade com a sinceridade, isenta do elogio ou da
consagração fácil. O que lhe parecia importante era a contribuição que o crítico pudesse
oferecer ao criticado e ao leitor, como esclarecimento e orientação. Deixou assim alguns
ensaios definitivos: “O Ideal do Crítico”, “Idéias sobre o Teatro”, “Notícia sobre a Atual
Literatura Brasileira — Instinto de Nacionalidade”, “Literatura Realista - O Primo Basi-
lio, romance do Sr. Eça de Queiroz - Porto — 1878”, “Nova Geração”.
Começando nos momentos finais do nosso romantismo, passaria pelo Realismo e
Naturalismo, pelo Parnasianismo, com a poesia científica e realista ou social. A sua
própria formação geral acompanharia essas renovações, antecedidas pelo conhecimento
dos clássicos, do que havia de melhor nas literaturas do passado. Certamente a evolução
do escritor seria feita sob a reflexão do crítico, repercutindo, no ficcionista, como
também no poeta e no comediógrafo, tudo revigorado pela observação do cronista.
Chamamos a atenção, no caso, para os comentários sobre estilos literários, sobre a
narrativa ficcional, o compromisso do escritor com o seu momento e o seu povo,
finalmente para as exigências com as formas e a linguagem.
Com relação ao momento, incluindo os compromissos do escritor com estilo ou
estilos literários dominantes, firma-se na defesa da herança que se transmite de geração
para geração, expressão de legados de valores que se destacam como contribuições
universais sucessivas, para o enriquecimento do que ele mesmo chamaria de pecúlio
comum. Assim, se as inovações são necessárias, elas, contudo, não devem ser
exclusivistas. Chega mesmo a citar Renán:
“As teorias passam, mas as verdades necessárias devem subsistir”. Isto que Renán dizia há poucos meses
da religião e da ciência, podemos aplicá-lo à poesia c
à arte"’2.

No respeito à persistência da herança incorporada pela renovação, Machado de


Assis reconheceria as qualidades que por sua vez caracterizan! universalidade e
originalidade, aquilo que transforma escritores em modelos perenes e os aproxima entre
si, expressão de “alguma coisa inalterável, universal e comum, que fala a todos os
homens e a todos os tempos”294 295 296. Daí então a necessidade de estudar-lhes “as
formas mais apuradas de linguagem”,

desentranhar deles mil riquezas, que, à força de velhas se fazem novas, nao me partee que se deva desprezar. Nem tudo
tinham os antigos, nem tudo têm os modernos: com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio
comum' .1

Exigiria dos criticados, como se imporia a si mesmo, a forma perlei ta e a


propriedade vernácula, a serviço do que consideraria conteúdo ele vado, isto é, aquele
que foge à vulgaridade, minúcias, pormenores desnecessários, e se apresenta conforme
com uma verdade moral. Por sua vez, a emoção e a sinceridade deveriam corresponder à
verdade subjetiva, reforço da unidade substancial da obra. Em relação ao compromisso
com o momento e o povo a que pertence o escritor, ressalta a necessidade de que este se
faça “homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no
tempo e no espaço”. De que maneira? fundindo o sentimento íntimo ou interior do país a
que pertence com o contemporâneo e universal da natureza humana, ao mesmo tempo
desprezando "localismos”, “tipismos”, valores transitórios ou circunstanciais, efémeros.
Contudo, pondera, reafirmando o pensamento exposto, que, se ó preciso que o escritor,
para ser do seu tempo e do seu país, reflita uma certa parte dos hábitos externos, e das condições e

usos peculiares da sociedade em que nasce, [por outro lado, a obra de arte requer] que o poeta

aplique o valioso dom da observação a uma ordem de idéias mais clevadas 2\

Condenaria, pois, reproduzir a vida pela reprodução da vida, o abuso da descrição


minuciosa, que resulta em documentário, fazendo restrições ao Realismo/Naturalismo:

O realismo não conhece relações necessárias, nem acessórias, sua estética é o inventário“6.

E acatou o princípio estético desta tendência, de que nem um motivo é proibido em


arte, mas não reconheceu os processos de sua aplicação.
Como ficcionista, proveniente do Romantismo, ele passa pela presença debatida do

294 Idem, ibidem, p. 823.


295 Idem, ibidem. p. 924.
296 hiem. ibidem. p. 822.
Realismo e do Naturalismo, mas sem se comprometer com esses dois últimos estilos de
época. Confirma o compromisso inicial, ao conceituar romance, muito à semelhança de
José de Alencar:

Pelo que diz respeito às letras, o nosso instinto é ver cultivado, pelas musas brasileiras, o
romance literário, o romance que reúne o estudo das paixões humanas aos toques delicados e
originais da poesia, — meio único de fazer com que uma obra de imaginação, zombando do açoite
do tempo, chegue inalterável e pura, aos olhos severos da posteridade2'.

Contudo, às peripécias da narrativa romântica, ele deu preferência à ação simples,


derivada dos caracteres:

O drama existe, porque está nos caracteres, nas paixões, na situação moral dos personagens;
o acessório não domina o absoluto28;

2V tdem. ibidem, p. 882. l(i, Idem.


ibidem, p. 839.
27, idem, Ibidem, p. 859 (esta citação data de 1866). 78 Idrm,
ibidem, p. 920.
advertindo que essa análise dos caracteres é |...) na verdade uma das partes mais difíceis do
romance, e ao mesmo tempo das mais superiores. Naturalmente exige da parte do escritor dotes
nao vulgares de observação, que, ainda em literaturas mais adiantadas, não andam a rodo nem são
a partilha do maior número297 298.

Caminha para a concepção do personagem como uma realidade au- tônoma,


definida nos limites do seu universo. Verifica-se, então, que o processo dedutivo do
equacionamento do personagem com um esquema dramático preestabelecido é
substituído pelo processo analítico do cará ter do personagem, de maneira que o próprio
personagem alimenta a ação romanesca ou ficcional. A ação é reflexo da realidade
interiot do personagem, ganhando em complexidade, à medida que esta realidade sc
confronta com outras tantas distintas ou paralelas, conflitivas ou liarmó nicas, em
termos de relações humanas e sociais. Em suma, o romance é o personagem, tomando
aqui, para o caso de Machado de Assis, uma deli nição que posteriormente seria dada
para o gênero.

297 Idem, ibidem, p. 818.


298 Cf. José Veríssimo, História da Literatura Brasileira, ed. cit., pp. 415-435.
Sabidamente a carreira deste escritor tem sido dividida em duas fases: a romântica
e a realista. E desde que se fez esta distinção, devida a José Veríssimo, generalizou-se a
opinião de que ele teria dado um salto desconexo da primeira para a segunda fase,
iniciada com Memórias Póstumas de Brás Cubas™. Seria assim um segundo Machado de Assis, dis-
tanciado e diferente do primeiro. Mas a análise interna das transformações temáticas e o
aperfeiçoamento formal, confrontados com as coordenadas propostas - a da crónica e da
crítica —, revelam um escritor cuja coerência e unidade se estendem da primeira à última
página que escreveu. A transformação que se opera de obra para obra é equilibrada c
segura: aquele aparente distanciamento da primeira para a segunda fase provém de
abordagens que isolam as obras, omitindo os nexos de
transformações. Na verdade, o que se exprimiria no conto, a partir de “O Alienista”, e no
romance, a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, resultaria da retomada sintética da visão
da sociedade e do homem, pro-

veniente da chamada primeira fase, relacionada com a reflexão filosófica e a análise


psicológica, que se enriquecem e caminham a passo largo para a maturidade. Neste caso,
a transformação mais substancial é exatamente a que decorre do amadurecimento da
idéia de que o homem e a sua condição existencial importam muito mais do que a sua
subordinação ao contexto social e condicionador em termos presentes. Quer dizer, o
compromisso do homem com a sociedade deriva existencialmente de uma cadeia
hereditária multissecular, de ideias e valores. Latentes em geral, essas ideias e valores
podem fazer-se indiscriminadamente atuantes, em limites de tempo histórico e espaço
social, por força das relações do indivíduo com a sociedade, com determinado sistema
ético. Em suma, o indivíduo pode vir a ser uma vítima inocente. Ao reconhecê-la,
Machado de Assis demonstraria que ela não deve ser tomada como portadora de culpa
discriminada, ao mesmo tempo que isenta o homem - isto é, a pessoa humana - de
responsabilidade e remorso. O escritor passaria, na construção dos seus universos
ficcionais, da preferência do social à valorização do individual como destino. Em outras
palavras, o homem deixava de ser visto através da sociedade - o
XIX -, enquanto a sociedade é que passava a ser vista através do homem. Sem prejuízo
da primeira, o romancista enfatizava a condição existencial, e a narrativa ficcional
ganhava artística e formalmente.
Contudo, mesmo caminhando para a

que caracterizava de uma maneira geral supremacia do tratamento universalizante,


a narrativa fiçcional do século que se acentuaria na maturidade, Machado
de Assis nos
daria também um rico material de observação social”, o que ocorre tanto

SI. Cl. Raimundo Faoro, Machado de Assis: A Pirâmide e o Trapézio, ed. cit.; Flávio Loureiro Chaves, O Mundo Social de

irtlor tu lUlahts - Forma Literária e Processo Social nos Inícios do Romance Brasileiro, ed. cit.

Quíneos tiorba. Forro Alegre, Movimento, 1974; e Roberto Schwarz, Ao Ven-


na narrativa ficcional como na crónica. Repassado pela análise e reflexão
generalizadoras, esse material proporciona ao mesmo tempo a investigação do
sentido de época que ele retrata. Por outro lado, ao contrário dos románticos,
Machado de Assis, até mesmo nos seus primeiros romances, de Helena a Iaiá
Garcia, mas sobretudo nas obras posteriores concomitantes com o Realismo, não
pensou em reorganizar a sociedade, degradada ou não, em proveito do bem
estar coletivo. Compreenderia que esse bem estar, ou seja, a felicidade e a
alegria de viver, é um problema de cada um, dos universos individuais e de
suas interdepcn dcncias, estas muito mais existenciais do que sociais. O homem
pode sei espelho da sociedade, retomando-se o velho chavão, mas o ser existen
ciai, analisado preferencialmente na dependência daquela cadeia heir ditária de
idéias e valores, sobrevive principalmente pela sua capacidade de gerar ilusões
ou mitos. Contudo, ilusões ou mitos se manifestam e atuam nos limites da
sociedade da qual o homem participa, de maneira a equacioná-los com
o^sistema ético vigente. É assim que se torna possí vel analisar
interdependentemente a conduta humana e a social, admitindo-se que o amor e
a glória são os impulsos e ao mesmo tempo os objetivos precipuos do homem.
As observações e reflexões machadianas se desdobrariam. Nos seus
registros, o escritor buscaria sempre o sentido da existência, acentuando aquele
dualismo: do equilíbrio tranqiiilo e realizado dos impulsos de amor e de glória
às tensões inconciliáveis entre ambos. Seu ponto de partida são os romances da
primeira fase, que aqui preferimos chamar de formação: Ressurreição, A Mão e a
Luva, Helena, Iaiá Garcia. Ainda bastante comprometido com o Romantismo,
Machado de Assis, ao esboçar sua tese naqueles romances, o faz sob o
pressuposto da preservação da integridade da conduta moral, projetada no
contexto social. Contornam- se as ameaças de degradação. É o caso, por
exemplo, do primeiro romance - Ressurreição, que dá relevo ao poder do amor de
reabilitar ou reintegrar, para o retorno à vida e à sociedade. Já o segundo, A Mão
e a Luva - abandonada essa preocupação corretiva -, propõe a harmonia do amor
e
da glória, embora sempre sob o pressuposto da integridade moral. A bem dizer,
esses dois primeiros romances formam um par.
Também se emparelham os dois seguintes — Helena e Iaiá Garcia. O
penúltimo anuncia o sentimento trágico da vida, que impregnaria a temática
machadiana: o homem responde, mais cedo ou mais tarde, pela violentação dos
valores transmitidos de geração para geração. Acentuando o caráter trágico da
obra, exatamente a punição ou reparação recairá, indiscriminadamente, sobre
vítimas inocentes daquele processo, de tal forma que o sacrifício daí decorrente
equivale à catarse ou à advertência purificadora. Mesmo ainda voltado para um
contexto social conservador, representado pela sociedade patriarcalista e
aristocratizada, este romance já dava um grande passo além do Romantismo.
Assim também Iaiá Garcia, em contexto idêntico: confrontam-se agora o amor e
glória em termos dos desníveis sociais, mas sempre em defesa da pessoa moral
equacionada com o ideal amoroso. E, em ambos, novas contribuições
enriquecedoras da temática. Helena apresenta como elemento a mais a
complacência por um lado, por outro, a esperança cristã sobre o que, não
compreendido em sua aparência, passa a ser aceito como fatalidade. Iaiá Garcia
propõe o problema da reversibilidade do tempo: a ilusão ou o mito existencial
não identificado em determinado momento é posteriormente reconhecido para
a possível recuperação. Tempo e memória passam então a operar no esforço
conjunto muito mais a favor da reversibilidade reparadora do que da
recuperação daquele instante, cuja identificação fora sacrificada por uma
situação equívoca. Daí a impossibilidade de se compor o par amoroso, com a
desilusão para quem repele a intenção degradante do companheiro - situação
chave deste romance. Aproximados naquele instante equívoco, por motivos que
desde logo se manifestam conflitivos, configurava-se, portanto, a impossi-
bilidade da harmonia moral com a afetiva. Cria-se implicitamente o
impedimento para sempre de qualquer tentativa de reversão recuperadora. Ela
poderá quando muito ser reconfortadora para aquele que se lei hará no seu
universo solitário, carregando ilusão incomunicável, uma
vez que esta não pode ser correspondida; e reparadora para terceiros, fa-
/rildo-os compreender que a pessoa moral e afetiva deve ser preservada ,n una
das convenções e distinções sociais.
Fica evidente que do primeiro para o quarto romance se opera urna
iransformação que enriquece a escolha temática. Machado de Assis, com i
maturidade que vai conquistando, tende para o aprofundamento des- ,.i
temática e para a superação completa das limitações de estilo de épo- i .1, seja
então o Romantismo, seja a seguir o Realismo. O mesmo podemos dizer dos
contos escritos concomitantemente com aqueles romances. No romance, com a
transformação também da forma que fosse nuis ade qtiada à ampliação daquela
investigação temática, a entrada na plenitu de tla maturidade se dá com
Memórias Póstumas de Brás Cubar, no con lo, igualmente com forma renovada, essa
maturidade é reconhecida desde "O Alienista”.
Com base nos dois pares de romances - A Mão e a Luva e Ressur
reição, Helena e Iaiá Garcia, deftne-se em síntese o dualismo da temáti %
(a machadiana, pondo em oposição no contexto social os componentes
essenciais de ilusão existencial: a glória e o amor. Se no primeiro par esboçou a
harmonia de ambos, no segundo já principiou a investigar as tensões geradas
pelo contexto social, impedindo a harmonia ideal. Compreenderá então a
oposição implícita na dualidade. De glória igual a amor, ele passa para glória
versus amor. Nesta segunda perspectiva, a glória, seduzida pela projeção social,
é portadora da degradação do amor; mas, em contrapartida, amor, como
expressão da identificação afetiva e moral, pode ter o poder de dignificar a
glória, independentemente ou não de uma sociedade ideal.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, complementado por Quíneos Borba, com
ênfase na sedução da glória, demonstra-se como esta pode exercer o seu papel
de degradação quando aguçada pelas ambições. Sob as convenções, no jogo de
ambições e vaidades, o homem na sociedade vale pelas aparências. Mas é
preciso também que saiba respeitá-las. Sem a convicção de saber usá-las como
instrumentos de poder, de riqueza, de
MACHADO DE ASSIS
ILUSTRAÇÕES DE PORTINARI

1948

Capa da edição de O Alienista, traçada por Raimundo de


Castro Maya, com ilustrações de Portinari em
colaboração com Loy Portinari, Rio de Janeiro, 1948.

prazer, de luxo c de conforto, o homem se torna instrumento delas, sua


vítima. Pois, para tê-las como comparsa, com a convicção de usufruí-las, ele
se faz egocentrista e se despoja de afetividade e de escrúpulos, desde a
piedade à solidariedade. E assim mergulhado em si mesmo, isto é, no
egoísmo da sua condição humana, ele traduz também o egoísmo da pre-
servação. Dessa maneira, transfere para as relações sociais a frieza seletiva
da eliminação do fraco, que não merece usufruir os bens materiais da glória.
Trata-se de uma perspectiva unilateral e pessimista, fria c calculis i .1, cuja
linguagem, mais do que em outras obras de Machado de Assis, é i
aracterizada pelo humor, forma de riso com poder quase invencível con ira
as expansões da sentimentalidade. Faz de surpresa o jogo das aproxi
mações do particular das situações humanas com o mais geral e abran gente
do egoísmo, em que prevalece o interesse sobre a solidariedade.
Iolhe as possibilidades de demonstração de reconhecimento ou gratidão. I
)estacam-se também a técnica e a estruturação daquelas duas narrativas,
Não poderiam ser mab a sucessão de episódios estruturados em suas re
Iações de causa e efeito à semelhança dos quatro primeiros romances. Pois
estes, à maneira romântica, ainda compõem uma ação com princípio,
desenvolvimento e desfecho compreendido como solução final, satisfatória
ou não, de qualquer maneira exemplar. Resultam na configuração de um
universo estático, estrangulado em determinado tempo e em determinado
espaço, em detrimento de sua autonomia.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, por traduzir a potencialidade
devoradora do indivíduo pela espécie, que elimina o fraco como imposição
para preservar-se, exigiria a complementação esclarecedora de Quíneos Borba.
Na primeira narrativa o personagem ainda se impõe em função da
conciliação do universo individual mais sociedade com aquela
potencialidade devoradora. Ao mesmo tempo, desprendendo-se dos com-
promissos temporais, ele é emocionalmente neutralizado a ponto de sedar
como morto para, feito memorialista, melhor retratar e analisar os outros,
aqueles que restam vivos, em nível das interrelações sociais. Debaixo dessa
visão, recompõe seletivamente o traçado da existência com
absoluta frieza, livre, pois, de envolvimento emocional abrangente, isto é,
correspondente ao todo do percurso existencial. Quer dizer, cada ação ou
reação tem a sua emoção no instante em que elas ocorrem e cessam com
elas, naquele mesmo instante, conforme Machado de Assis. Elas são,
portanto, isoladas no seu presente, sem antecedentes e sem futuro, sem
possibilidade de permanência conseqiiente ou de duração interior. Dessa
maneira, a trajetória do personagem morto, memorialista, se confunde com
a geral, a da espécie, acentuando-se a sucessão inesgotável de contradições,
incoerências, ambições, vaidades, derrotas, triunfos etc., num desfde sem
fim. O famoso capítulo do delírio de Brás Cubas, figurando o escoar
incessante, seria a sua representação sintética a ser posta em confronto com
a do protagonista-memorialista, conforme o todo da narrativa. De tal
forma, o universo de Brás Cubas, não mais individual ou do personagem,
se projeta abrangente. O seu eu, como eu-narrador, não se faz
propriamente o eu do memorialista, pois este poderia ser emocionalmente
envolvido. É antes o eu do indivíduo versus espécie, ambos empenhados na
luta fria da sobrevivência amparada pela seleção dos egoísmos individuais,
isto é, pelos mais fortes e dominadores. E como há seleção, há eliminação.
A luta, porém, é mais subentendida do que explícita em Memórias Póstumas
de Brás Cubas. A rigor, Brás Cubas a neutraliza, abdicando do amor e da
glória, ao pressenti-los irreconciliáveis e admitindo que o que mais valia
era a aparência. Resulta pôr-se em competição não com o seu semelhante,
mas em competição com a própria vida, acatando o fim com o humor, ou
os fins repetidos, para observar triunfalmente o espetáculo, também
repetido, da competição entre os homens. Era, pois, uma maneira de
dissecar as intenções da vida de cada um, até o desafio final do balanço
com o vazio da solidão. Dada a condição neutra em que aí se colocam os
competidores, o “haver” e o “deve” não poderiam ser nem de triunfo nem
de derrota, fosse dele Brás Cubas, ou da vida, isto é, da espécie. Apenas
ficava implícito que a luta entre os homens seria em última análise uma
projeção do instinto de preservação.

i l l M | H l i f i » I \t \ / \ I I i\ n n o f n n n k i A n w u m » A r i k p . t i A H *
Tornava-se fundamental demonstrá-la também em nível social, con-
frontando o homem com o homem no jogo das ambições e competições.
I o que Machado de Assis faz em Qtiincas Borba. Como complementado de
Memórias Póstumas de Brás Cubas e relacionado com a parte fraca di espécie a
ser eliminada, Quincas Borba derivaria explicitamente do nexo proveniente
daquele egoísmo seletivo, demonstrado no romance anterior e teorizado
pelo “filósofo” Quincas Borba. A partir daí, propon- • lo se uma análise de
fora para dentro, impunha-se necessariamente a uansformação do eu-
narrador em ele-narrador. Em ambos os casos, o autor prossegue sem
exercer a sua função de conhecedor onisciente da quclcs universos. É antes
um observador, cujo ângulo de visão é igual ao do leitor, ou simultâneo.
Para manter o direito de comentar em pé de igualdade, ele renuncia ao
poder de interferir na autonomia dos univci sos interpenetrados de cada
um dos dois romances.
Em Dom Casmurro, propõe-se a visão sintética da aproximação do amor
e da glória. Mas^a perspectiva harmoniosa será desfeita pelo coníli to
moral e afetivamente inconciliável, latente nas raízes, de maneira a
desencadear um desfecho irreversível. Confronta, portanto, dois proce-
dimentos, o do amor e o da glória, destacando o primeiro como ângulo di'
visão dominante. Ao contrário, em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas
Borba a glória foi dominante e desindividualizada. Em Dom Casmurro, a
individualização desta visão faz com que o contexto da sociedade
contemporânea, em que se situa o romance, seja enfatizado como
condicionador da conduta em procura da glória. Torna-se fundamental o
delineamento de uma sociedade em mudanças, com a ascensão da classe
burguesa, envolvendo os impulsos de glória, situação até certo ponto
também reconhecível em Quincas Borba. Quanto aos do amor, embora
equacionados com a sociedade tradicional, base daquele contexto em
mudanças, na verdade mergulham adentro do universo existencial. Assim,
a sobrevivência da ilusão repousa na possibilidade do reconhecimento da
verdade de cada um em função da reciprocidade. Se triunfa a
incomunicabilidade, a ilusão se desfaz ou se retrai, deixando fluir o po-
absoluta frieza, livre, pois, de envolvimento emocional abrangente, isto é,
correspondente ao todo do percurso existencial. Quer dizer, cada ação ou
reação tem a sua emoção no instante em que elas ocorrem e cessam com
elas, naquele mesmo instante, conforme Machado de Assis. Elas são,
portanto, isoladas no seu presente, sem antecedentes e sem futuro, sem
possibilidade de permanência conseqiiente ou de duração interior. Dessa
maneira, a trajetória do personagem morto, memorialista, se confunde com
a geral, a da espécie, acentuando-se a sucessão inesgotável de contradições,
incoerências, ambições, vaidades, derrotas, triunfos etc., num desfde sem
fim. O famoso capítulo do delírio de Brás Cubas, figurando o escoar
incessante, seria a sua representação sintética a ser posta em confronto com
a do protagonista-memorialista, conforme o todo da narrativa. De tal
forma, o universo de Brás Cubas, não mais individual ou do personagem,
se projeta abrangente. O seu eu, como eu-narrador, não se faz
propriamente o eu do memorialista, pois este poderia ser emocionalmente
envolvido. É antes o eu do indivíduo versus espécie, ambos empenhados na
luta fria da sobrevivência amparada pela seleção dos egoísmos individuais,
isto é, pelos mais fortes e dominadores. E como há seleção, há eliminação.
A luta, porém, é mais subentendida do que explícita em Memórias Póstumas
de Brás Cubas. A rigor, Brás Cubas a neutraliza, abdicando do amor e da
glória, ao pressenti-los irreconciliáveis e admitindo que o que mais valia
era a aparência. Resulta pôr-se em competição não com o seu semelhante,
mas em competição com a própria vida, acatando o fim com o humor, ou
os fins repetidos, para observar triunfalmente o espetáculo, também
repetido, da competição entre os homens. Era, pois, uma maneira de
dissecar as intenções da vida de cada um, até o desafio final do balanço
com o vazio da solidão. Dada a condição neutra em que aí se colocam os
competidores, o “haver” e o “deve” não poderiam ser nem de triunfo nem
de derrota, fosse dele Brás Cubas, ou da vida, isto é, da espécie. Apenas
ficava implícito que a luta entre os homens seria em última análise uma
projeção do instinto de preservação.
lòrnava-se fundamental demonstrá-la também em nível social, con-
frontando o homem com o homem no jogo das ambições e competições.
I o que Machado de Assis faz em Quincas Borba. Como complementario dc
Memórias Póstumas de Brás Cubase relacionado com a parte fraca >l.i espécie a
ser eliminada, Quincas Borba derivaria explícitamente do u> so proveniente
daquele egoísmo seletivo, demonstrado no romance anterior e teorizado
pelo “filósofo” Quincas Borba. A partir daí, propondo sc urna análise de
lora para dentro, impunha-se necessariamente .1
n.iiislormação do eu-narrador em ele-narrador. Em ambos os casos, o
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do leitor, ou simultâneo. Para manter o direito de comentar em pe de
igualdade, ele renuncia ao poder de interferir na autonomia dos uiiivei ■.os
interpenetrados de cada um dos dois romances.
Em Dom Casmurro, propõe-se a visão sintética da aproximação cio
amor e da glória. Mas a perspectiva harmoniosa será desfeita pelo conlli lo
moral e afetivamente inconciliável, latente nas raízes, de maneira a
desencadear um desfecho irreversível. Confronta, portanto, dois proce-
dimentos, o do amor e o da glória, destacando o primeiro como ângulo de
visão dominante. Ao contrário, em Memórias Póstumas de Brás Cubas e (guineas
Borba a glória foi dominante e desindividualizada. Em Dom Casmurro, a
individualização desta visão faz com que o contexto da sociedade
contemporânea, em que se situa o romance, seja enfatizado como
condicionador da conduta em procura da glória. Torna-se fundamental o
delineamento de uma sociedade em mudanças, com a ascensão da c las se
burguesa, envolvendo os impulsos de glória, situação até certo ponto
também reconhecível em Quincas Borba. Quanto aos do amor, embora
equacionados com a sociedade tradicional, base daquele contexto em
mudanças, na verdade mergulham adentro do universo existencial. Assim,
a sobrevivência da ilusão repousa na possibilidade do reconhecimento da
verdade de cada um em função da reciprocidade. Se triunfa a
incomunicabilidade, a ilusão se desfaz ou se retrai, deixando fluir o po-
tendal de solidão que a acompanha, como condição primordial do homem.
Machado de Assis, ao admitir que o “eu” se reconhece no “ele” — ou seja,
pela sua projeção na realidade exterior — fazia pressupor a corres-
pondencia do “ele”, como ilusão ou não, mas de qualquer forma necessária
para compor o par ou alimentar a reciprocidade. Mas o mito poderia ser
confundido, isto é, a falsa correspondência de um poderia responder à
ilusão do outro, ainda que ambos - mais o segundo do que o primeiro —
estivessem sujeitos à derrocada de seus universos ideais.
No confronto amor e glória, exposto em Dom Casmurro, dissemos que o
ângulo dominante é o do amor, com sua carga subjetiva e existencial,
donde a escolha que Machado de Assis novamente faz do eu-narra- dor.
Procede à semelhança do que fez em Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas ao
mesmo tempo em oposição. Ainda mais, acentuado o subjetivismo daquela
narrativa, firma-se a impossibilidade do eu-narrador penetrar na verdade
do “ele”, ressaltando-se conseqüentemente a condição essencial do ser
solitário, isto é, a incomunicabilidade. Quer dizer, o eu-narrador,
memorialista, ao reconstruir sua existência, reduz a verdade de outros ao
ângulo dele mesmo, não reconhecido por aqueles. Sendo a verdade de
Capitu a verdade dela mesma, a verdade que dela delineia Bentinho passa
a ser a do próprio Bentinho. Ou por outra, desde que ele desfaz a aparência
de correspondência à sua ilusão de amor, à medida que também
aparências exteriores concorriam para isso, gerando incertezas ou dúvida,
a verdade que se tenta recompor sob a ação da dúvida é existencialmente
de quem assim procede. Nesse sentido, a narrativa não deixa transparecer
nada proveniente de Capitu, notadamente em discurso direto, de maneira
que se possa recompor a verdade moral e afetiva dela paralelamente com a
verdade de Dom Casmurro. Mesmo o seu impulso para a glória,
alimentando a ascensão social, só pode ser analisado através dos dados de
Bentinho, isto é, do eu-narrador. Torna-se importante, também, a
visualização do universo ficcional. Nesse sentido, oferece-se um tríplice
ângulo de visão: o de Bentinho, enquanto Bentinho, projetando- se da
infância à velhice solitária - que seria a de Dom Casmurro -, deli-
ncando a ilusão enquanto ela lhe parecia correspondida; o de Bentinho
ir.msformado em Dom Casmurro, da velhice solitária à infância, minado
pela dúvida e derruindo a ilusão de Bentinho; e o do narrador igual a
leitor, pois aquele deixa livre para este, ou admitir a incomunicabilidade
igual à solidão, reconhecendo portanto a verdade de Dom Casmurro,
apesar da dúvida; ou optar pela aparente verdade de Capitu, rejeitando a
dúvida de Dom Casmurro. Pelo autor, diríamos que a escolha é secun-
daria, uma vez que importa existencialmente a verdade de cada um, con-
siderada em si mesma. Por isso o romance não propõe julgamento mo ul,
mas sim a superação do conflito que destruiu a ilusão existencial,
lemetendo o homem à solidão e recolocando-o no seu universo intei ior, ii
sombra da memória. De lato, considerando-se que o ângulo de vis.io
principal opera do fim para o começo da vida do memorialista, propõe se
dessa forma a reversão ao tempo da ilusão ainda não desfeita. Tratava '■e
reconhecê-la na sua duração interior, que fosse ilimitada, como única força
capaz de neutralizar a solidão, mesmo já desaparecida a pessoa físi- i a de
Capitu. Mas, desfeita a ilusão pela incorrespondência e pela dúvida, a
reversão para a recuperação se tornaria impossível.
Entre Dom Casmurro e Memorial de Aires situa-se Esaú e Jacó. Retoma uma
concepção trágica da vida incidindo na eleição do mito amoroso. Como
vimos, em Helena se arma um esquema com complicações so- i iais de
maneira a reativar o indiscriminado poder punitivo sobre a culpa
hereditária. Em Esaú e Jacóy as implicações dessa indiscriminação vão além
dos limites sociais. Elas são primordiais, instinto competitivo nascido com
o homem voltado contra a semelhança, isto é, do homem como duplo, ora
fundindo-se consigo mesmo ora se auto-repelindo. Semelhança igualmente
absoluta e relativa, projeta a confusão dos componentes do duplo e ao
mesmo tempo sua distinção. É um jogo que acentua pela competição o
desdobramento da dualidade do ser ou dos seus impulsos conflitivos
tomados como inatos. Projetam-se, distinta e contraditoriamente, duas
imagens que alternam com .a própria fusão delas em uma única.
Simbolizam a contradição que marca a natureza humana, fazendo
começar nos limites da individualidade a luta devoradora. Luta que se
projeta em terceiro, transformando-o em vítima inocente, indiscrimina-
damente eleita. Dado que esta vítima expiatória é individualidade una,
sem culpa ou mácula, é por sua vez símbolo que sugere de origem a nati-
vidade perfeita. Ela é confrontada e se conturba com a ilusão visual que, a
partir de individualidade física aparentemente desdobrada, configura de
fora para dentro a duplicidade do ele - eu x eu - que devera ser também
uno, enquanto nessa realidade física desdobrada, cada “eu” do “duplo”
que devera ser “uno”, torna-se competidor um com o outro. Como não se
destroem, comprazem-se com a conturbação de terceiro. Este, uma jovem
perplexa dominada pelo conflito, que nela não tem causa moral nem
afetiva. Só lhe restaria, e inexplicavelmente para testemunhos, a aceitação
complacente da condição humana sujeita à fatalidade indiscriminada. Essa
tolerância exprime-se finalmente pela palavra re- confortadora atribuída ao
Conselheiro Aires, figura a ser retomada no Memorial de Aires, e prenunciada
no padre Melchior, de Helena.
Em Memorial de Aires, Machado de Assis reorganiza seletivamente o
complexo universo que vinha construindo, no sentido da harmonia ideal.
Obra cie arremate, ela é elaborada sob a visão do Conselheiro Aires,
memorialista que passeia entre os vivos com a tranqüilidade que é mais do
contemplador que do observador. A aparente neutralidade que o ca-
racteriza, ou melhor, a sua serenidade reflete as qualidades supremas da
maturidade: tolerância, complacência, severidade e auto-satisfação na
idade, em grau de reconhecimento da correspondência dos sentimentos
que identificam as pessoas em harmonia com as legítimas aspirações à
glória, aquela que se volta para o bem comum e compreensão humana. O
par que se extingue fisicamente, o casal Aguiar, símbolo da harmonia no
amor, tranqiiilo, arrastaria apenas “saudades de si mesmos”, sem dúvida
porque, independentemente da vontade própria, ele não se podia
reconhecer continuado nos filhos adotivos, nos quais, contudo, projetara
sua harmonia. Eles, ao deixarem o casal de pais adotivos, o fazem porque a
vida pede sucessão, não para substituir, mas para prosseguir, e ago-
i.i harmonizando o amor correspondido com o brilho da glória em justa
causa. Impera neles o altruísmo que anula o egoísmo comum à glória,
possibilitando seu equilíbrio com o amor.
Retomando-se uma metáfora de Machado de Assis, a da esfera divi-
dida - de um lado o amor, do outro, a glória -, observa-se que nos ro-
mances da fase inicial ele propôs primeiramente a visão harmoniosa do
todo. Contudo, deixava esboçada a separação, que poderia ser inconcili-
ável. Na segunda fase, com Memórias Póstumas de Brás Cubase Quinais Borba nos
apresenta a perspectiva da supremacia de uma das metades, a glória.
Admitindo o confronto dos opostos, prossegue depois tanto para
demonstrar o conflito quanto a harmonia. É o que se verifica com Com
Casmurro e com Memorial de Aires. Esaú e Jacó, por sua vez retomada da visão
trágica de Helena, coloca-se como um traço de união entre esles dois
romances, da mesma maneira que Helena assume posição idêntica entre A
Mão e a Luva e laiá Garcia. Ressurreição restaria isolado e sim plista, ponto de
partida mais comprometido com o Romantismo do que os três outros da
primeira fase.
Sem dúvida, a obra de Machado de Assis é subordinada a um tra-
tamento universalizante e desde cedo progressivamente independente de
vinculação limitadora. Também, reinsistimos, oferece rico material para
que se pesquise a sociedade contemporânea do Rio de Janeiro, em que se
situa e o mundo que o romancista observou e sobre o qual refletiu. í. certo
que no conjunto de toda a sua obra - na seleção temática, reflexões, análises
críticas e observação do cotidiano registrada pelas crónicas, nos romances,
contos, até poesia e teatro - prevalece a investigação do sentido da
existência. Machado de Assis pensou uma filosofia de vida que pudesse
proporcionar ao homem o equilíbrio perfeito ou ideal. I se traz a marca do
humor e do pessimismo, estes são contrabalançados pela tolerância. Com
processos expressivos tão peculiares e a multiplicidade de propostas,
colocou-se em função de uma perspectiva aberta, de livre escolha, seja de
aceitação, seja de.contestação, tanto para ele quanto para o leitor.
Para o romancista, sem dúvida o maior campo de experiencia re-
flexiva foi a crónica. De variada materia, estendeu-se por toda a atividade
do escritor. Fez o registro do cotidiano observado e informado de
diferentes maneiras, nos limites da vida no Rio de Janeiro - mundanismo,
vida artística, política nacional representada por deputados, senadores,
ministros - até outros fatos em âmbito nacional e mundial. Acumulou
dados diversos, associados, para a procura de um denominador comum. E
o cronista extrairia do gênero, em que se tornou mestre, sugestões e
situações decisivas para a ficção. Aperfeiçoaria uma linguagem
inconfundível, de tal maneira, como já o dissemos, que muitas páginas de
romances e contos tiveram nas crónicas a primeira forma de tratamento.
Por outro lado, a crítica cultivada durante a primeira fase de formação
literária daria a Machado de Assis o testemunho seguro das mudanças e
inovações do Romantismo ao Realismo e Parnasianismo. Como experiência
e orientação, revela segurança, preparo e imparcialidade, enquanto, pelo
exercício dessa atividade, se tornaria severo observador e aperfeiçoador de
si mesmo.
Sem dúvida, atitudes críticas, ideias estéticas e o conhecimento da
tradição deram ao Machado de Assis da maturidade - de Memórias Póstumas
de Brás Cubas em diante — total independência como escritor. Mas essa
independência se faria com dívida ao Romantismo e à tradição re-
presentada pelos grandes modelos literários. Oferecia à nossa ficção, em
primeiro lugar, técnica acentuadamente original; em segundo lugar, pro-
blemática nova: tempo, memória, análise psicológica, investigação exis-
tencial em que avultam incomunicabilidade e solidão em oposição à defesa
da persistência ou sobrevivência da imagem de cada um projetada em seu
semelhante, através da ilusão ou do mito. Nesse sentido, como narrador
ficcional e como cronista, ressalvada sua filiação romântica e participação
nas posições nacionalistas do momento, ele se destaca cronologicamente
como o segundo autor-síntese do século XIX - o anterior foi José de Alencar
- com projeção decisiva no processo de maturidade da Literatura Brasileira,
atingindo alguns dos nossos maiores escritores
ilo Modernismo: Ciro dos Anjos, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de
Andrade, entre outros.
Com relação às coordenadas principais da nossa ficção, Machado de
Assis retoma a linha de continuidade proveniente do Romantismo, ou seja,
a do romance social urbano com ambientação no Rio de Janeiro. Através da
ficção, esboça a sociedade da época, a ascensão da classe burguesa e, à
semelhança dos românticos, o poder do dinheiro nessa so- i iedade,
delimitada do Segundo Império à implantação da República.
Complementam-na os registros e as reflexões das crónicas, destacada
mente as de comentário sobre a vida política e cultural.

3. CONTRIBUIÇÕES RKAUSTAS-NATURALISTAS

Ampliação do quadro social da “Corte” — Aluísio Azevedo <• Paul Pompéia. Na


linha do romance de ambientação social urbana no Rio de laneiro, situam-
se no mesmo período de Machado de Assis outros dois romancistas
importantes: Aluísio Azevedo e Raúl Pompéia, cada um com marca
acentuadamente individual. Aluísio Azevedo estreou com Uma Lágrima de
Mulher, ainda sob a pressão romântica32. Mas seu primeiro romance de
sucesso - O Mulato, de 1 881, o segundo que escreveu, embora ainda com
algumas impregnações românticas, reflete predominantemente o modelo
realista de Eça de Queirós. Tornou-se lugar comum indicá-lo como o
iniciador, para uns, do Realismo entre nós, para outros do Naturalismo. A
referência é secundária e o problema histórico evidentemente não pode ser
colocado dessa maneira. Os anos de I 870 foram de transformações, com
posições teóricas e críticas de novos enun

,12. Sua estréia data de 1880, seguindo-se O Mulato, 1881; Memórias de um Condenado, 1882, muda do o título para
Condessa Vesper em 3. ed. de 1902; Mistérios da Tijuca ou Girândola de Amores, 1883; Casa de Pensão, 1884; O Homem,
1887; O Cortiço, 1890; O Esqueleto (Mistérios da casa de Bragança), 1890, de parceria com Coelho Neto, Olavo Bilac c
Pardal Mallet; Filomena Borges, 1884; Demónios (contos), 1893; Pegadas (contos); Mortalha de Alzira, 1893; O Coruja,
1895; Livro de uma Sogra, 1895.

ciados por Machado de Assis e pelo grupo da “Escola do Recife”, Sílvio


Romero à frente. Também de transformações significativas na ficção: do
Romantismo para novas tendencias, seja com o final romántico deTaunay e
Franklin Távora, seja com a posição singular ainda de Machado de Assis. E
citemos a intenção naturalista do famigerado Um Estudo de Temperamento de
Celso de Magalhães33; e o “realismo” (regionalismo) inicial de Inglés de
Sousa, significativa representação de diversificações. Importante é acentuar
historicamente as repercussões imediatas de uma obra, favorável ou
desfavoravelmente alvo de reações da crítica e a da sensibilidade geral. Foi
o caso de O Mulato. O assunto não era novo nem tampouco a tese que
propunha em torno da conquista de status para o mestiço na sociedade
brasileira. Já aparecera, vimos, em Bernardo Guimarães, poucos anos antes,
com o romance A Escrava Isaura e também no teatro de José de Alencar com o
drama Mãe, expressões românticas da temática social da escravidão. Aluísio
Azevedo, porém, renovava o tratamento dela e da visão da sociedade que a
condicionava. Ao contrário de Bernardo Guimarães, preso à sociedade
patriarcalista e escravocrata de raízes rurais, esteio da aristocracia urbana,
Aluísio Azevedo caminha da visão de uma sociedade urbana degradada
para a sugestão de uma sociedade ideal, em que se admitisse a integração
do mulato. Neste caso, coincide com o seu antecessor, mas acentua a
“ilegitimidade” do mestiço, solicitado apenas como instrumento do
sensualismo, proveniente de suas origens. Enfatiza uma sociedade urbano-
provinciana preconceituosa, sob o disfarce da hipocrisia e dos arranjos
convenientes às aparências. Submete-a à perspectiva desmascarante do
Realismo de escola. A visão que nos dá de uma cidade provinciana, através
de algumas de suas matrizes representativas, à maneira do seu modelo
principal, Eça de Queirós, inicia entre nós o tipo de romance que, a partir
do Realismo, se torna principalmente representação de um contexto
urbano. Atingia a socie-

.IV Considcrc-sc que o conto “O Alienista" e o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis,
datam respectivamente de 1881 e 1880, e o romance de Celso de Magalhães é de 1881.

dade onde a narrativa se situa, São Luís do Maranhão, que reagiria através
da crítica contra a obra do jovem provinciano audacioso'4.
Com o sucesso, Aluísio Azevedo fixa-se definitivamente no Rio de
laneiro sob a convicção de fazer exclusivamente literatura. Eça de Queirós,
também canal de difusão de Zola, passou a exercer acentuadas influências
sobre ele. Sabe-se que o escritor português pensou numa obra seriada, para
representar a sociedade lusa à semelhança de Zola, que considerava
“historia natural e social de uma família” do II Império, na Fi an ça, a
melhor maneira de demonstrar a teoria do romance naturalista. Alu ísio
Azevedo desejou fazer o mesmo sobre o Rio de Janeiro1', porém, nao
chegou a executar o seu projeto, nem também realizou convincentemente o
romance naturalista. Deu-se ao realismo de observação direta, visan do à
reprodução fiel da realidade, preso as camadas sociais populares e
pequeno-burguesas, acentuando-lhe o comportamento sexual, impulsos
dos instintos e dramas daí decorrentes. É certo também que enfatizou a
importancia condjcionadora do momento conjuntamente com o meio; as
relações conflitivas, ou não, da ascensão social e do poder corruptor do
dinheiro; e deu certa atenção às etnias. Mas contrariando o propósito de
obra seriada não teve condições de desenvolver a análise dos efeitos da
herança biológica no comportamento humano soh a dupla interferencia do
meio e do momento, conforme o fundamento da teoria de Zola. Mesmo
assim, além de O Mulato, concebeu muito bem pelo menos três romances
que também ficaram consagrados. Casa de Pensão representa a vida pequeno
burguesa, onde se situam os protagonistas de um crime passional a partir
de fato verídico36; o autor procede confuí

.54. Cl. Josué Momello, Aluísio Azevedo e a Polêmica (TO Mulato, Rio de Janeiro, José Olympio Ml t . 1975.
.55. Sobre o piano de Zola, denominado “Os Rougon-Macquarrs — História Natural e Social de iim.i Família no
Tempo do Segundo Império", v. Matthew Josephson, Zola e seti Tempo (tradução de Godofredo Rangel), São
Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1947, pp. 1 15-144; sobre projetos e comportamento literário de Aluísio Azevedo, v.
Henrique Coelho Neto, A Conquista, 4. ed., Porto, Lcllo, 1928 e Fogo Fàtuo, Porto, Chardron, 1929. *
36. Cf. Raimundo Menezes, Aluísio Azevedo, unta Vida de Romance, São Paulo, 1958.

mc ensinamentos de Zola sobre o romance - faça reportagem; O Cortiço sem


dúvida é o ponto alto do nosso Realismo, reconstruindo o universo
instintivo e vegetativo de uma morada popular e coletiva, explorada por
quem se destaca deste meio para a ascensão burguesa. E O Coruja é
caricatura da formação e ação do homem público que se projeta sobre a
utilização da inteligência do humilde e complexado. Podemos dizer que
nessas três narrativas o seu projeto se esboçou, embora parcialmente, com
segurança de observação e análise satisfatória da sociedade brasileira do
Rio de Janeiro de fins do século XIX. Subordinou-se ao ângulo realista de
observação, incidindo em camadas sociais até então desprezadas. E, entre
os seus livros, O cortiço talvez seja o nosso único e legítimo romance de
movimento de massa. Aí, o verdadeiro personagem é uma comunidade
popular explorada em proveito da burguesia ascendente da época. Ela
seria entrevista por matrizes que sugerem as relações entre a classe popular
e a pequena burguesia, ou seja, o comércio que explora friamente a
sobrevivência dos pobres, e aspira à ascensão social simbolizada pelo
sobrado. Era um tipo de narrativa de representação social coletiva, mais
tarde um dos objetivos da nossa ficção já dos anos de 1930, o chamado
romance proletário.
Já Raul Pompéia difere bastante de seus contemporâneos como
contribuição e dimensão dadas à criação ficcional brasileira. A um assunto
que poderia ter sido uma simples denúncia do colégio-internato, particular,
deu um tratamento que mergulha na análise psicológica e pedagógica sob
o enfoque tempo e memória. Narrativa em terceira pessoa, O Atened é o caso
em que o autor atrai para si, e ao mesmo tempo repele, o universo do
protagonista principal, sem, contudo, denunciar intenção autobiográfica ou
memorialismo analítico. Estabelece-se uma interdependência entre o eu -
aquele que fala, ou seja, o narrador, e o ele

.17. Paru « conhecimento de toda a produção literária de Raul Pompéia, v. a edição de suas Obras, organização dc
Afrânio Cominho, Rio de Janeiro, MEC, 1 - Novelas, 1981; II — O Ateneu, 1981; 111 - ( untili, 1981; IV - Canções
sem Metro, 1982; V - Escritos Políticos, 1982; VI - Crâniens, 1982.
RAUJL PO M PEIA

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(CHRONICA DE SAUDADES)

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Pàgina de rosto da 2a. edição,


definitiva, com ilustrações e
retrato do autor.

- aquele de quem se fala, ou seja, o personagem. N