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Universidade Federal do Maranhão

Centro de Ciências Humanas


Coordenação de Filosofia
Filosofia das Ciências Naturais

Maristhela Rodrigues, Mariza Pinheiro, Eunice Araújo, Thiago di Leli e Arielton Pessoa.

São Luís
2006

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Universidade Federal do Maranhão
Centro de Ciências Humanas
Coordenação de Filosofia
Filosofia das Ciências Naturais

Maristhela Rodrigues, Mariza Pinheiro, Eunice Araújo, Thiago di Leli e Arielton Pessoa.

Trabalho apresentado à
disciplina de Filosofia das
Ciências Naturais, lecionada
pelo professor Portela, como
critério para obtenção de parte
da nota da segunda avaliação.

São Luís
2006

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Sumário
1. A Vida

I. O Aparecimento da Vida.................................................................pág. 04
II. A Expansão da Vida........................................................................pág. 07
III. A Terra-Mãe (Deméter)...................................................................pág. 11

2. A Sobrevida

I. A Saída Coletiva..............................................................................pág. 12
II. Para além do Coletivo: o Hiperpessoal............................................pág. 14
III. A Terra Final....................................................................................pág. 15
IV. Conclusão e Bibliografia..................................................................pág. 17

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1. A VIDA

I. O Aparecimento da Vida

Atendendo às exigências do pensamento de T. de Chardin, o estudo rigorosamente


científico, ainda que hipotético, sobre o aparecimento da vida na terra trata-se de um meio
de extrema relevância para a compreensão do ser humano enquanto centro de uma
perspectiva totalizante do Universo.
Partindo da concepção de que na “terra juvenil” houveram condições para o surgimento
da vida, Chardin destaca que vestígios históricos de uma era tão remota seria impossível,
ademais poderíamos supor que em meio à variadas alterações que a terra foi submetida,
seres minúsculos se desenvolveram de tal forma que complexos processos de maturação
caracterizaram este processo evolutivo.
Desta forma, consideramos que a vida se inicia a partir da célula e esta se constitui a
“chave” de interpretação para os passos iniciais das modalidades viventes. Contudo nos
estudos de Chardin tal unidade não encontra-se desassociada do conjunto das etapas da
evolução. Compeender a célula é antes de tudo entendê-la como um tipo de preparação para
a complexidade do sistema evolutivo humano:

“(...) habituámo-nos ou resignámo-nos de mais a conceber a célula


como um objeto sem antecedentes. Procuremos ver o que ela vem a
ser, se a olhamos e a tratamos (e assim se deve fazer) como uma
coisa ao mesmo tempo longamente preparada e profundamente
original, quer dizer, como uma coisa nascida.” (Chardin, 1970,
pág. 65).

Assim como uma relação necessária a célula demonstra ligação com um estágio
anterior, ou seja, o estágio molecular. Tal consideração advém de postulados da química
biológica que sustenta o elo de ligação entre o protoplasma1 e a matéria mineral, ou seja,

1
Parte viva da célula, composta de membrana plasmática, citoplasma e núcleo. (Sônia Lopes, 2002, pág. 66).

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entre o orgânico e o inorgânico uma vez que se demonstra que este último possui condições
para tal continuidade.

“(...) de acordo com as nossas antecipações teóricas sobre a


realidade de uma pré-vida, alguma função natural liga
verdadeiramente, no seu aparecimento sucessivo e na sua
existência presente, o microrgânico ao megamolecular”. (Chardin,
1970, pág. 68).

O surgimento da vida representada a partir da célula constitui-se de uma revolução


no que tange à concepção evolutiva para o aparecimento das primeiras células. Tal
revolução é constituída de duas formas, a saber, externa e interna. A primeira corresponde
aos aspectos biológicos que a célula apresenta, uma vez que se esta se apresenta como um
“método novo para englobar unitariamente uma massa maior de matéria” (Chardin, 1970,
pág. 73). Trata-se de compreender a complexidade de tal estrutura como intercâmbio entre
diversas substâncias que a compõem e que formam seu ambiente inicial. Em seguida,
apresenta-se a característica celular relativa a sua fixidez. Apesar de inúmeras modulações
quanto à sua forma, a célula permanece semelhante a si própria. Com isto, Chardin postula
que se trata de uma nova forma material do universo que é de tal complexidade que inicia a
vida psíquica no mundo, baseada na revolução interna que a célula desencadeia.
Este início de vida psíquica constitui-se de um estágio evolutivo “desisivo nos progressos
da consciência sobre a terra” (Chardin, 1970, pág. 75), uma vez que as especulações
psíquicas preparadoras para o “acontecimento” da humanidade na terra tornam-se mais
evidentes.
A passagem da molécula para a célula propriamente dirá constitui-se fator desicivo
na evolução constituído em dimensão histórica no espaço em primeiro plano e em seguida
no tempo. Desta forma o autor em questão, no esforço para visualizar os estágios iniciais
dos primeiros viventes, destaca as circunstâncias iniciais, o tamanho, a quantidade de tais
seres.
Com relação às circunstâncias, esta se refere ao meio de desenvolvimento destes
seres iniciais. Postula-se como uma espécie de “licor, denso e activo” (Chardin, 1970, pág.

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79). A natureza dotou este líquido de uma espantosa quantidade de seres (protoplasmáticos)
potenciais de seres cada vez mais complexos.
Em um esforço para ver, da qual o referido filósofo faz alusão, a vida granular se
desenvolve no espaço em tamanho e número.

“(...) quanto mais pequenos são os seres, mais eles surgem em


multidão, mensuráveis em mícrones, as primeiras células devem
ter-se contado por miríades.... Por mais perto que a cinjamos do
seu ponto de saída, a Vida revela-se-nos, pois simultâneamente,
como microscópica e inumerável”. (Chardin, 1970, pág. 80).

Contudo, com a unificação celular, Chardin, admite uma ordenação mais complexa
no Universo em dois planos. O primeiro refere-se a possibilidade de uma simbiose, ou seja,
relação com benefícios entre os indivíduos participantes2 o que faz com que a primeira
manifestação de vida na terra estivesse ligada,

“logo na origem, pois a nebulosa celular representou


forçosamente, apesar da sua multiplicidade interna, uma espécie
de superorganismos difuso. Não somente uma espuma de vidas,
mas até certo ponto uma película viva.” (Chardin, 1970, pág. 83).

Em segundo lugar, admite-se que a vida não tenha se originado ao acaso ou


fortuitamente. Provavelmente constituída por uma inexplicável junção de elementos
químicos dos quais isoladamente não constituem um corpo complexo da qual falamos.
Desta forma, o universo se constituirá de ramificações nas quais o todo se formará.
Observa-se, no pensamento de Chardin, a necessidade de compreender o funcionamento
celular e sua predisposição futura para um mundo organizado.
O fato dos elementos em épocas remotas terem convergido para um agrupamento e
complexidade de tal forma que atualmente seria quase impossível a reconstituição deste

2
Atualmente o termo simbiose é utilizado para qualquer tipo de relação entre os organismos. (Sônia Lopes, 2002, pág.
552 ).

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cenário e a própria similitude orgânica que se propagou que faz com que se considere que o
estágio atual humano tenha se originado em épocas extremas.

II. A Expansão da Vida

Uma vez assimilado o método de compreensão da vida a partir de critérios


cientificistas, Chardin se lança a caracterizar como se deu tal processo que advém da
constituição da matéria vivente anteriormente apresentada. De maneira geral seu
pensamento em torno desta questão refere-se aos movimentos elementares da vida, a
ramificação espontânea da massa viva e a constituição da árvore da vida.
O primeiro tópico pretende compreender os seguintes fenômenos: reprodução,
multiplicação, renovação, conjugação, associação e por fim o que chamamos de aditividade
dirigida.
De maneira geral estes fenômenos estão intrinsecamente relacionados, pois
determinam a vida e seu plano de desenvolvimento.
A reprodução celular constitui-se de um mecanismo da natureza para manutenção
de um grau de estabilidade e sobrevivência da vida inicial, deslocando a idéia de acaso
reprodutivo. Contudo, ainda faz-se necessário à vida multiplicar-se, uma vez que a
ocupação do espaço terrestre é evidente trata-se de uma espontaneidade de expansão que
promove a vida em milhares.
Ademais, a renovação celular é evidente pois pretende-se alcançar a diversidade da
vida com base no postulado de que na reprodução contínua processos transformativos da
matéria não são circulares e constantes no sentido de serem imutáveis, antes disso observa-
se uma predisposição para o diferencial que garante o êxito do sistema.
Na conjugação, observa-se uma ordem na definição da dualidade dos sexos. Trata-
se de um mecanismo diversificador, intensificador de duplo efeito para acelerar a expansão
da vida na terra.
A associação é considerada por Chardin como complemento e acabamento da vida,
sua função é decorrente da multiplicação, uma vez que é perfeitamente aceitável que as
células entrem em aglomeração ou agregado culminado, em certas circunstâncias, em

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modelos mais complexos como as sociedades. È importante que tal ordem não corresponde
ao mero acaso e, sim, a um meio constante que a vida utiliza para sua expansão.
Cumpre observar que tais mecanismos não seriam de tal relevância sem que uma
meta vertical de crescimento não fosse predominante.

“Sem dúvida, no decurso da evolução biológica, não faltam


exemplos de transformações realizadas no plano horizontal por
simples cruzamento de caracteres. Tais como as mutações
chamadas mendelianas. Contudo, de uma maneira mais geral e
mais profunda, os renovamentos possibilitados por cada
reprodução fazem mais do que substituir-se mutuamente,
acrescentam-se uns aos outros, aumentando a sua soma num
sentido determinado”. (Chardin, 1970, pág. 100).

Destes pressupostos ordenados constitui-se a formação, ascensão e predominância


de seres estruturalmente organizados na terra.
As ramificações da massa viva, por sua vez, diz respeito, como o próprio nome já
diz, às ramificações ou expansão espontânea dos agrupamentos isolados de células. Estas
irão se fragmentar em conjuntos, que são: Classes, Ordens, Famílias, Gêneros e Espécies.
Mas para ocorrer essa ramagem da vida alguns fatores contribuirão destes o Chardin
destaca: as agregações de crescimento, os desabrochamentos e os efeitos de longe.
As agregações de crescimento, é um fato que somadas às suas possibilidades, sendo
este fato simples, torna-se muito possivelmente complexo. Assim como diz o Chardin,

“(...) sob a influencia de causas diversas (paralelismo nativo das


ortogêneses elementares, atração e ajustamento mútuo das
linhagens, ação seletiva do meio...), as fibras de uma massa viva
em curso de diversificação tendem a aproximar-se, a agrupar-se, a
aglutinar-se segundo um pequeno número de direções
dominantes...”. (Chardin, 1970, pág. 107).

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Gradualmente esses agrupamentos vão ganhando movimento, e aos poucos vão
desenhando o que o Chardin chama de “nervuras”; o cruzamento ou encontro entre essas
nervuras, dará a esse movimento o estágio de raça, e depois de algumas ligações se terá
uma espécie individualizada, ou seja, o Filo.

“(...) o filo não chegaria biologicamente a estabelecer-se se não


agrupasse em si mesmo, desde a origem, um número
suficientemente grande de potencialidades, e de potencialidades
bastante variadas”. (Chardin, 1970, pág. 109).

Assim como ocorre com todas as invenções modernas, como por exemplo, o
melhoramento dos meios de transporte, nos levaram da bicicleta ao avião, o filo acompanha
diversas melhorias, ou diversos estágios, expande-se quantitativamente, e qualitativamente
chega a um estado de culminância de aperfeiçoamento.

“Depois de ter realizado este último progresso no esforço e na


individualização das extremidades do seu leque, pode dizer-se que
o filo atingiu a sua plena maturidade. A partir deste momento, ele
vai durar até que, por enfraquecimento interno ou por competição
externa, se rarefaz e fica por fim eliminado. Então, se
exceptuarmos a sobrevivência acidental de algumas linhagens
fixadas para sempre, a sua história encerra-se – a não ser que, por
um fenômeno de autofecundação, ele recomece, num ou noutro dos
seus pontos, a lançar um novo rebento”. (Chardin, 1970, pág.
113).

Dessa forma, vai se delineando cada linha de vida, ora contraindo-se, ora dilatando-
se. Vale ressaltar que este esquema de desenvolvimento é apenas uma representação teórica
do que realmente se passa, por conta disso, chama-se “efeitos de longe”, pois trata-se de um
fenômeno, ou movimento evolutivo que não é em si mesmo, mas uma alteração oferecida à
nossa experiência por eventos terceiros.

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“Nada de admirar, portanto que as coisas nos pareçam,
retrospectivamente, surgir já inteirinhas. Automaticamente, por
absorção seletiva dos séculos, é o movediço que tende a
desaparecer das nossas perspectivas para se resolver, no domínio
inteiro do fenômeno, numa sucessão descontínua de plano e de
estabilidades.
Assim, por um efeito destrutivo de Passado que se sobrepõe a um
efeito construtivo de crescimento, acabam de se desenhar e de se
salientar aos olhos da ciência as ramificações da Árvore da Vida”.
(Chardin, 1970, pág. 117).

Nesse ponto da evolução inicia-se a processo de divisão da árvore da vida, ou seja,


desenvolvido e melhorado o filo, teremos nas famílias, as diferentes espécies. Para fins
didáticos, o autor divide a árvore da vida em cinco grandes ramos, ou linhas, a saber, os
mamíferos, os tetrápodes, os vertebrados, os antópodes e os vegetais. Todos esses ramos
subdividem-se em camadas, que por sua vez, subdividem-se em ordens, e que por fim,
subdivide-se em ordens, dando origem às famílias. Para uma maior compreensão,
apresentamos a figura abaixo, que traça todas essas divisões e subdivisões.

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III. A Terra – Mãe (Deméter)

No longo, continuo e complexo processo evolutivo dos organismos é certo que existe
uma constante variação morfológica entres as espécies, porém será possível estabelecer em
forma de escalas, qual ser vivo é mais evoluído que o outro? Segundo Pierre dado um certo
grau de diferenciação, já não seremos capazes de oferecer, cientificamente nenhuma
prioridade entre essas diversas elucubrações da natureza, mas acredita ele, que há uma
orientação precisa e um eixo privilegiado de evolução.

“Eu creio que existem, para a vida, um sentido e uma linha de


progresso - sentido e linha tão bem definidos que a sua realidade,
disso estou convencido, será universalmente admitida pela ciência
de amanhã”. ( Chardin, 1970, pág. 142).

Será que existe em meio a essa complexidade orgânica uma ordem, uma
combinação que seja realmente verdadeira, isto é, que dê ao conjunto dos seres vivos uma
coerência mais satisfatória, quer em relação a si próprio, quer em relação ao mundo?
Segundo Pierre é necessário verificar se entre todas as combinações ensaiadas pela vida,
não estarão alguma delas organicamente associadas a uma variação positiva de Psiquismo
nos seres que a possuem.

“Sim é certo, existe nos organismos vivos um dispositivo de eleição


para o jogo da consciência, e basta-nos olhar dentro de nós
próprios para o distinguir: é o sistema nervoso”. ( Chardin, 1970,
pág. 144).

“Entre as infinitas modalidades em que se dispersa a complicação


vital, a diferenciação da substância nervosa sobressai, tal como a
teoria fazia prever, como uma transformação significativa. Ela dá
um sentido à evolução – e, por conseguinte, prova que a evolução
tem um sentido”. ( Chardin, 1970, pág. 147).

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Nos organismos vivos o cérebro é um indicador e uma medida de consciência, e por
sua vez vai se aperfeiçoando continuamente com o decorrer do tempo. Pierre acredita que,
se a história natural dos seres vivos desenha exteriormente o estabelecimento gradual de um
vasto sistema nervoso, é porque ela corresponde interiormente a instalação de um estado
psíquico a própria media da terra.
Para Chardin exprimir, toda a verdade da história natural do mundo seria necessário
poder segui-la por dentro: não como uma sucessão articulada de tipos estruturais que se
substituem uns aos outros, mas como uma ascensão de seiva interior que desabrocha numa
floresta de instintos consolidados. No mais fundo de si mesmo o mundo é constituído de
consciência. Da Biosfera a espécie, tudo é, pois, uma imensa ramificação de psiquismo que
se busca através das formas.

“Agora que, sob o enredo historicamente crescente das formas e


dos órgãos, se revela aos nossos olhos o aumento irreversível, não
só quantitativo, mas também qualitativo, dos cérebros (e por tanto
das consciências), ficamos sabendo o que era de esperar
inevitavelmente um acontecimento de ordem nova”. ( Chardin,
1970, pág. 154).

2. A Sobrevida

I. A Saída Coletiva

Quando o homem se capacita de que a sorte do mundo está em si mesmo, percebe


que a sua frente está um horizonte sem limites no qual não pode vacilar, resulta disso uma
indução ao isolamento. Esse isolamento pode ser o isolamento de um indivíduo ou o
isolamento de um grupo. No entanto, o que importa é verificar que ambos os tipos de
isolamento são enganosos, pois descuram um fenômeno essencial que é a “confluência
natural dos grãos de pensamento”, escondendo os verdadeiros contornos do
desenvolvimento da humanidade, o que torna impossível a formação de um verdadeiro
Espírito da Terra.

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Naturalmente os elementos do mundo podem influenciar-se e invadir-se
mutuamente no seu interior, combinando assim em feixes as suas “energias radiais”. No
homem, essa coalescência dos elementos atinge o seu máximo atual e pode ser observada
no fenômeno social que é diretamente verificada por nós. Um dos traços fundamentais da
estrutura cósmica é a redondeza da terra, favorecendo essa coalescência das vagas
humanas.

“A limitação geométrica de um astro fechado sobre si mesmo,


como uma molécula gigantesca... Este caráter já nos surgira como
necessário na origem das primeiras sínteses e polimerizações sobre
a Terra Juvenil” (Chardin: 1970 p.260).

Deve-se, no entanto estabelecer a sua importância no domínio propriamente


humano. No período do Neolítico as vagas humanas começaram a aglutinar-se ocupando
dessa forma todo espaço livre. O que resultou disso foi uma multiplicação das gerações que
culminou na constituição de uma massa quase sólida de substancia hominizada. Dessa
forma, o aumento incessante do número de membros e o aumento continuo de sua área de
atividade individual deixou a humanidade submetida a uma pressão. Se considerarmos a
humanidade zoologicamente apresenta-se-nos o espetáculo único de uma espécie capaz de
realizar aquilo em que fracassou qualquer outra espécie até ela. A humanidade não é
simplesmente cosmopolita, mas foi capaz de cobrir a terra sem se romper de uma só
membrana organizada. Um poderoso instrumento, que possibilitou o aperfeiçoamento
radical das vias da vida, foi a coalescência de um filo inteiro sobre si mesmo. Com relação
ao homem, o pensamento teve uma importância fundamental, pois a partir daí é dado curso
livre as forças de confluência.

“Mas este contato exterior tinha sido e continuaria a ser


insuficiente para chegar até uma conjunção, sem o novo poder de
ligação conferido ao Biote humano pelo nascimento da Reflexão”
(Chardin: 1970, p, 263)

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Dessa maneira, povos e civilizações chegados a um alto grau de desenvolvimento e
interpenetração, de interdependência econômica, de comunhão psíquica já não podem
crescer senão através de uma coalescência. Contudo, o que se verifica é que sob a
influência da máquina e de um superaquecimento de pensamento uma formidável fluidez
de potências desocupadas. A conseqüência disso é que o homem já não sabe o que fazer do
tempo e das potências que desencadeou entre as suas mãos. A saída é a construção de uma
coletividade harmonizada das consciências, ou seja, uma espécie de superconsciência. A
terra assim não deveria somente cobrir-se de miríades de grãos de pensamento, mas
envolver-se num único invólucro pensante, formando um único e vasto grão de
pensamento. As diversas formas de pensamento agrupando-se e reforçando-se no ato de
uma única reflexão unânime.

II. Para além do coletivo.

Quanto mais o homem se desenvolve e evolui a consciência aprimora a capacidade


reflexiva voltando-se cada vez mais sobre si mesma. Na espécie humana a reflexão é o
fenômeno mais importante pois é o que distingue o homem do animal. Sendo assim, no
homem é possível o ato reflexivo que gera o aprofundamento, possibilitando o
conhecimento e a afirmação do “eu”.

“Estar centrado sobre si mesmo, poder dizer “eu”, é, como


acabamos por admitir, o privilégio( ou melhor a tara ) do elemento,
na medida em que este, fechando-se para tudo o resto, consegue
constituir-se nos antípodes do Todo” (Chardin: 1970, p, 283)

A reflexão é um dado que transforma e enriquece a natureza humana, pois a partir


do ato reflexivo já não há uma simples gradação entre o homem e o animal, mas homem e
animal são de natureza completamente distinta. Assim, o ser reflexivo na medida em que se
volta para si mesmo centrando-se e centrando o mundo ao seu redor nas experiências e
representações se torna uma manifestação particular, um grão de pensamento autônomo.
No entanto, é necessário que o universo pessoal seja universalizado que é o passo posterior

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da evolução que se encontra no hiperpessoal. Contudo, não se deve confundir a afirmação
da pessoa e a constituição da totalidade, ou seja, a idéia de que estar centrado sobre si
mesmo reflete o contrario do todo, ou de que o todo absorve o particular anulando-o.
Portanto, não se trata de construir e de edificar um todo impessoal que se oponha à pessoa
ou uma pessoa individualizada que se oponha ao todo. Na verdade, trata-se da construção
do hiperpessoal através dos prolongamentos de nosso ser e da Noosfera. A Noosfera
representa um conjunto não apenas fechado, mas centrado onde cada centro individual deve
unir-se a outro constituindo uma supercentração que resultará em uma síntese espiritual.
Uma tal união resultará numa acentuação da profundidade e incomunicabilidade do ego.

“Aplicada ao caso da soma das consciências, a Lei da União livra-


nos desta perigosa e sempre renascente ilusão. Não, ao confluírem
segundo a linha dos seus centros, os grãos de confluência não
tendem a perder os seus contornos e a misturar-se. Acentuam-se,
pelo contrário, a profundidade e a incomunicabilidade do seu ego.
Quanto mais se tornam, todos juntos, o Outro , mais se acham
“eles mesmos” (Chardin:1970, p, 288)

A hipersonalização será realizada e efetivada pelo homem atraves de sua união. E é


esse o itinerário que leva o homem á Deus. O homem deve ser entendido como resultado de
todo processo evolutivo. Portanto, a complexificaçao da Noosfera dada pela
hiperpersonalizaçao reflete todo universo em busca de Deus.

III. A Terra Final

A biosfera e a noosfera são conseqüências do quimismo fechado das moléculas, ou


seja, da inflexão da matéria sobre si mesma, logo existe uma ligação estrutural tanto da vida
como do pensamento ao que chamamos massa terrestre.
Essa inflexão, ou quimismo, faz parte do processo evolutivo que acaba induzindo o
homem a pensar no fim catastrófico, não só da vida como do mundo, quer dizer, do planeta
terra.

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Muitos são os temores que atormentam o coração do homem, quando este pensa no que o
amanhã lhe reserva. Os físicos descobriram que é a energia que se degrada, isso atormentou
profundamente o espírito do homem, a salvação veio logo em seguida com outra
descoberta, a da radioatividade, felizmente os astrônomos prometem umas boas centenas de
milhões de anos para a terra, entretanto o fim foi apenas adiado e não descartado.
As probabilidades cientificas sugerem que a vida dispõe ainda de um longo período
geológico e se observada sob a forma de pensamento nota-se que ela está em total
expansão, quando comparada com as camadas zoológicas precedentes, ver-se-á que a
humanidade é tão jovem que se pode dizer recém nascida e a sua juventude traz em si os
indícios e as promessas de um ciclo biológico novo.
Com o surgimento da ciência, o universo tornou-se objeto de descobertas e
pesquisas, alvo de curiosidade de sonhadores e de ociosos, que com o passar do tempo
tornaram-se importantes cidadãos. No entanto não se nota a ciência voltada para investigar
problemas que trariam solução para questões humanas, ela continua sendo meio para obter
velhas coisas como solo e pão, mas há de chegar o momento em que o homem reconhecerá
que a ciência não é uma ocupação acessória e sim meio essencial de grandes ações.
Esse desvio de foco se dar por que a visão humana se encontra difusa, envolvida
com o trabalho da industria e em guerra, entretanto biologicamente é exigida a
individualização da visão humana em função independente e com os seus próprios órgãos.
Quando a humanidade, por fim, reconhecer que a sua principal função é penetrar e
captar intelectualmente as energias que a rodeiam, ela compreenderá e dominará ainda
mais, pois já não terá limites exteriores nas suas expansões.
Só assim o homem caminhará para uma era da ciência humana, onde ele, sujeito do
conhecimento perceberá que é também a chave de toda a ciência da natureza, já que até
aqui o homem continua sendo um desconhecido de si mesmo, isso por preconceito ou por
temor da própria ciência.
Quem é o homem para ser objeto da ciência? O homem é o estado mais sintético e
acessível do estofo do Universo, é também ponto de vias de transformação, logo conhecer o
homem é conhecer como o mundo se fez e como deve continuar a fazer-se, é um estudo do
passado e também do futuro, nesta nova direção onde a ciência concentra-se cada vez mais
sobre o homem, ela vai acabar defrontando-se com a religião.

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 Conclusão

Na construção da teoria moderna acerca da terra, ver-se um conflito entre ciência e


religião, ou seja, a fé substituída pela razão. Mas na medida que se prolonga a tensão, o
dualismo dar lugar a síntese, pois essa parece resolver o conflito, já que a ciência impregna-
se de fé para atingir seus objetivos, e após o estágio de investigação analíticas, caminha
para a síntese, onde se acha levada a antecipar o futuro e o Todo ultrapassa o seu próprio
limite.
Assim o ato do conhecimento é constituído pela religião (fé) e pela ciência (razão) e é o
único caminho que pode levar o homem a contemplar o passado e o futuro da Evolução,
uma vez que o Espírito Humano está destinado a achar o extremo da sua penetração.

 Bibliografia

1. CHARDIN, Pierre Teilhard de. O Fenômeno Humano. 3ª ed. Portugal: Tavares


Martins Porto, 1970.
2. LOPES, Sônia. Biologia: volume único. 1ª ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

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