Você está na página 1de 11

Ementa para citação

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - JUSTIÇA GRATUITA - DECLARAÇÃO DE


HIPOSSUFICIÊNCIA - PRESUNÇÃO RELATIVA - NECESSIDADE DE
COMPROVAÇÃO DA NECESSIDADE DO BENEFÍCIO - CONCESSÃO DA
GRATUIDADE JUDICIÁRIA - REPROPOSITURA DE AÇÃO IDÊNTICA -
DEMANDA ANTERIOR EXTINTA SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO -
COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO DAS CUSTAS DO PROCESSO ANTERIOR
COMO REQUISITO PARA RECEBIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL - ART. 486, §
2º DO CPC - MITIGAÇÃO - RECURSO PROVIDO - SENTENÇA CASSADA. -
Consoante disposição do art. 99, § 3º, do CPC e do art. 5º, inciso LXXIV, da
Constituição Federal, a declaração de hipossuficiência tem presunção relativa de
veracidade, de forma que é imprescindível à concessão do benefício a sua comprovação
por meio documental - Existindo nos autos prova idônea da condição de insuficiência de
recursos financeiros da parte requerente, imperioso conceder o benefício da justiça
gratuita - O julgamento sem resolução de mérito não obsta o ajuizamento de nova ação
pela parte autora - Nos termos do art. 486, § 2º do CPC, o despacho da petição inicial da
nova demanda depende da comprovação do recolhimento das custas e honorários
referentes à ação anterior - Conforme entendimento do c. STJ, em atenção ao princípio
do acesso à justiça, caso deferida a justiça gratuita ao autor na nova ação, resta afastado
o requisito previsto no art. 486, § 2º do CPC -Recurso ao qual se dá provimento para
cassar a sentença.

(TJ-MG - AC: 10000210115630001 MG, Relator: Lílian Maciel, Data de Julgamento:


12/05/2021, Câmaras Cíveis / 20ª CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 13/05/2021)

Inteiro Teor

EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL - JUSTIÇA GRATUITA - DECLARAÇÃO DE


HIPOSSUFICIÊNCIA - PRESUNÇÃO RELATIVA - NECESSIDADE DE
COMPROVAÇÃO DA NECESSIDADE DO BENEFÍCIO - CONCESSÃO DA
GRATUIDADE JUDICIÁRIA - REPROPOSITURA DE AÇÃO IDÊNTICA -
DEMANDA ANTERIOR EXTINTA SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO -
COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO DAS CUSTAS DO PROCESSO ANTERIOR
COMO REQUISITO PARA RECEBIMENTO DA PETIÇÃO INICIAL - ART. 486, §
2º DO CPC - MITIGAÇÃO - RECURSO PROVIDO - SENTENÇA CASSADA.

- Consoante disposição do art. 99, § 3º, do CPC e do art. 5º, inciso LXXIV, da
Constituição Federal, a declaração de hipossuficiência tem presunção relativa de
veracidade, de forma que é imprescindível à concessão do benefício a sua comprovação
por meio documental.

- Existindo nos autos prova idônea da condição de insuficiência de recursos financeiros


da parte requerente, imperioso conceder o benefício da justiça gratuita.

- O julgamento sem resolução de mérito não obsta o ajuizamento de nova ação pela
parte autora.

- Nos termos do art. 486, § 2º do CPC, o despacho da petição inicial da nova demanda
depende da comprovação do recolhimento das custas e honorários referentes à ação
anterior.

- Conforme entendimento do c. STJ, em atenção ao princípio do acesso à justiça, caso


deferida a justiça gratuita ao autor na nova ação, resta afastado o requisito previsto no
art. 486, § 2º do CPC.

-Recurso ao qual se dá provimento para cassar a sentença.

APELAÇÃO CÍVEL Nº 1.0000.21.011563-0/001 - COMARCA DE BELO


HORIZONTE - APELANTE (S): BARBARA BRUNA MARTINS DA SILVA -
APELADO (A)(S): TELEFÔNICA BRASIL S/A

ACÓRDÃO

Vistos etc., acorda, em Turma, a 20ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do


Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos, em DAR
PROVIMENTO AO RECURSO PARA CASSAR A SENTENÇA.

DESEMBARGADORA LÍLIAN MACIEL

RELATORA.

DESEMBARGADORA LÍLIAN MACIEL (RELATORA)

VOTO

Trata-se de recurso de apelação interposto pela autora BÁRBARA BRUNA MARTINS


DA SILVA em face da sentença proferida pelo MM. Juiz de Direito da 25ª Vara Cível
da comarca de Belo Horizonte/MG (ordem nº 17) que, nos autos da ação declaratória de
inexistência de débito e de relação jurídica c/c pedido de indenização por danos morais
e pedido de tutela de urgência ajuizada em desfavor de TELEFÔNICA BRASIL S/A
(VIVO), indeferiu a petição inicial, extinguindo o feito sem resolução de mérito, nos
seguintes termos:

"Sem qualquer prejuízo do requerimento de gratuidade processual formulado neste


feito, na esteira do art. 486, § 2º do NCPC, o (a) Autor (a) foi intimado para comprovar
o recolhimento das custas finais dos autos 5174204- 62.2019.8.13.0024, a cujo
pagamento foi condenado, matéria albergada pelo manto da coisa julgada.
O prazo assinado transcorreu in albis.

Ante o exposto, indefiro a inicial e julgo extinto o processo sem resolução do mérito,
com fundamento no art. 485, IV c/c 486, § 2º e 290 do NCPC.

Custas pelo (a)(s) Autor (a)(es). Indefiro-lhe a gratuidade processual neste feito,
reproduzindo-se os mesmos fundamentos outrora expostos nos autos 5174204-
62.2019.8.13.0024."

Na origem, a autora alega que teve seu nome inscrito indevidamente nos órgãos de
proteção ao crédito a pedido da empresa ré, em virtude do débito no valor de R$ 179,72
(cento e setenta e nove reais e setenta e dois centavos), com vencimento em 21/05/2015,
o qual afirma desconhecer.

Nesse sentido, pleiteia, dentre o mais, pela declaração de inexistência do negócio


jurídico e do débito sub judice além da condenação da parte ré ao pagamento de
indenização a título de danos morais.

Aduzindo não possuir condições de arcar com as custas processuais sem prejuízo de seu
próprio sustento e de sua família, a autora requer a concessão do benefício da gratuidade
judiciária.

O juízo primevo verificou a existência de outra ação com as mesmas partes e causa de
pedir nos autos do processo nº 5174204-62.2019.8.13.0024 e que foi extinta sem
resolução de mérito, uma vez que, indeferida a gratuidade de justiça, a parte autora
deixou de comprovar o recolhimento das custas iniciais.

Diante disso, foi proferido despacho de ordem nº 15, determinando a intimação da


autora "[...] para juntar, no prazo de 15 dias, documentação idônea hábil a comprovar
sua insuficiência de recursos [...]".

E ainda, "[...] na esteira do art. 486, § 2º do NCPC, intime-se o (a) Autor (a) para
comprovar o recolhimento das custas processuais referentes aos autos 5174204-
62.2019.8.13.0024, a cujo pagamento foi condenado, matéria albergada pelo manto da
coisa julgada, no prazo de 15 (quinze) dias, sob pena de extinção."

A autora foi intimada e o prazo para cumprimento das diligências transcorreu in albis.

Na sequência, foi proferida sentença (ordem nº 17) que indeferiu a petição inicial com
fulcro nos artigos 485, inciso IV c/c 486, § 2º e 290 do CPC.

No decisum terminativo também foi indeferido o benefício da gratuidade judiciária à


autora, condenando-a ao pagamento das custas processuais.

Em suas razões recursais (ordem nº 23), a autora, ora apelante, insurge-se contra o
indeferimento do pedido de gratuidade de justiça, aduzindo, em síntese, que é faxineira
e possui renda média mensal no valor de R$ 600,00 (seiscentos reais), sendo isenta de
realizar a declaração de Imposto de Renda de Pessoa Física, além de residir em bairro
humilde da capital mineira.
Assim, pugna pela reforma da sentença recorrida, a fim de que "[...] este e. Tribunal, se
digne a conceder os benefícios da justiça gratuita, isentando assim, ao pagamento das
custas e despesas processuais.".

Ausente o recolhimento do preparo, uma vez que a apelante requer a concessão do


benefício da gratuidade judiciária.

Contrarrazões apresentadas em documento de ordem nº 31, pelo desprovimento do


apelo.

É o relatório.

O recurso deve ser conhecido, presentes os pressupostos de admissibilidade e


processamento que lhes são próprios.

Não há nulidades, questões preliminares ou prejudiciais de mérito arguidas pelas partes


ou suscitáveis ex officio.

MÉRITO

Em suas razões recursais, a apelante pleiteia que lhe seja deferido o benefício de
gratuidade de justiça, argumentando não possuir condições de arcar com as custas
processuais sem prejuízo de seu sustento e de sua família.

A Constituição Federal de 1988 instaurou um novo paradigma na ordem jurídica


brasileira, no qual a prestação jurisdicional não apenas objetiva ser célere, justa e eficaz,
mas também de amplo acesso ao contingente populacional brasileiro.

Nesse sentido, a fim de garantir a efetividade da jurisdição de modo que todos tenham
possibilidade de buscar a tutela de seus direitos junto ao Poder Judiciário, mostrou-se
necessário propiciar meios de acesso aos hipossuficientes econômicos.

Para tanto, o legislador não se descurou de estabelecer um direito subjetivo oponível


perante o Poder Estatal. Desta forma, é dever do Estado prestar assistência jurídica
integral e gratuita aos jurisdicionados que comprovadamente se encontrem em situação
de insuficiência de recursos, com fincas no próprio princípio da inafastabilidade da
jurisdição.

Isso porque não sendo possível obstar a apreciação pelo Poder Judiciária da lesão ou
ameaça de lesão a direitos, as portas de acesso têm que estar abertas,
independentemente das condições financeiras do cidadão, afinal:

"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...)

LXXIV - o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem
insuficiência de recursos;"
A doutrina majoritária esclarece que a assistência judiciária gratuita seria um gênero da
atuação estatal, no qual se inseriria a criação de órgãos para efetivar esse projeto
institucional, como a Defensoria Pública, mas também a positivação de institutos
processuais que beneficiassem os hipossuficientes.

Assim, destaca-se que a gratuidade judiciária se insere no bojo dos mecanismos de


processo para efetivação da prestação jurisdicional ampla, sendo seu exemplo por
excelência.

Preleciona o ilustre doutrinador Elpídio Donizetti acerca do tema:

"Assistência judiciária - em sentido lato - é gênero, que compreende também a


gratuidade judiciária. Direciona-se ao Estado, que deve, por meio das Defensorias
Públicas ou de advogado especialmente nomeado para esse fim, patrocinar as causas
daqueles que não podem arcar com os honorários contratuais de um advogado. Já a
gratuidade judiciária é benefício que se traduz na suspensão da exigibilidade das custas,
despesas processuais e honorários." (DONIZETTI, Elpídio. Curso Didático de Direito
Processual Civil. 20ª Edição, 2017, p. 334)

Atento à disposição constitucional, o legislador disciplinou no CPC/15 a matéria de


forma especializada em seus artigos 98 a 102.

Da leitura das supracitadas disposições legais, extrai-se que a declaração de


hipossuficiência, necessária para a concessão do benefício da gratuidade judiciária, goza
de presunção de veracidade quando realizada por pessoa natural, nos termos do art. 99,
§ 3º, do CPC.

Contudo, compreende-se pela disposição do art. 99, § 2º, do mesmo códex que a
referida presunção é relativa, sendo possível que o julgador não conceda o benefício na
hipótese de vislumbrar motivos subjacentes que o convençam de que a parte possui
condições financeiras suficientes para arcar com as custas processuais e demais
despesas do processo.

Com efeito, é o teor do dispositivo:

"Art. 99. O pedido de gratuidade da justiça pode ser formulado na petição inicial, na
contestação, na petição para ingresso de terceiro no processo ou em recurso.

(...)

§ 2º O juiz somente poderá indeferir o pedido se houver nos autos elementos que
evidenciem a falta dos pressupostos legais para a concessão de gratuidade, devendo,
antes de indeferir o pedido, determinar à parte a comprovação do preenchimento dos
referidos pressupostos."
Nesse sentido, revela-se imprescindível que a parte inclua nos autos documentos com
patente valor probatório que demonstrem sua atual situação financeira, tais como
demonstrativo de pagamento de sua remuneração mensal, cópia integral da CTPS, ainda
que sem registros, comprovante de regularidade do CPF, comprovantes de gastos e
declaração de IRPF ou de sua isenção, sob pena de indeferimento da tutela recursal.

Impende ressaltar que o posicionamento adotado encontra-se em consonância com a


jurisprudência do Colendo STJ:

"AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL


CIVIL.

DECISÃO DE ADMISSIBILIDADE DO RECURSO ESPECIAL. FUNDAMENTOS


IMPUGNADOS. GRATUIDADE DA JUSTIÇA. PRESUNÇÃO RELATIVA DA
NECESSIDADE FINANCEIRA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO NO CASO
CONCRETO. SÚMULAS 7 E 83 DO STJ. AGRAVO INTERNO PROVIDO.
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL CONHECIDO. RECURSO ESPECIAL NÃO
PROVIDO.

1. Em face da impugnação dos fundamentos da decisão de inadmissibilidade do recurso


especial, o agravo interno merece provimento.

2. Nos termos da jurisprudência do STJ, o magistrado pode indeferir o pedido de


assistência judiciária gratuita verificando elementos que infirmem a hipossuficiência da
parte requerente, e que demonstrem ter ela condições de arcar com as custas do
processo. Precedentes.

3. Agravo interno provido. Agravo em recurso especial conhecido para negar


provimento ao recurso especial." (AgInt no AREsp 1477376/SC, Rel. Ministro RAUL
ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 20/08/2019, DJe 09/09/2019) - destacamos.

Pelo exposto, depreende-se que para a concessão do benefício da gratuidade judiciária é


imperioso que a parte comprove efetivamente sua hipossuficiência de recursos
financeiros.

Tendo em vista que a quaestio iuris cinge-se à possibilidade de concessão de gratuidade


judiciária, a cognição exercida neste recurso será adstrita às provas colacionadas pela
parte apelante e seu valor probante.

In casu, a recorrente comprovou, por meio da cópia de sua CTPS (ordem nº 25), que em
seu último emprego, de 04/03/2019 a 17/04/2019, fora contratada para o cargo de
faxineira possuindo remuneração mensal de R$ 600,00 (seiscentos reais), o que coaduna
com a declaração de hipossuficiência apresentada (ordem nº 24).

Ademais, quanto à alegação de isenção do imposto de renda, a apelante demonstrou que


suas declarações não constam na base de dados da Receita Federal e que seu CPF está
regular, conforme documentos de ordem nº 27, sendo possível constatar que, de fato, é
isenta de realizar a referida declaração.
Por fim, com o fito de corroborar a situação hipossuficiência econômico-financeira, a
autora coligiu aos autos "Certidão Negativa de Propriedade de Veículo Automotor"
(ordem nº 28) emitida pelo Departamento de Trânsito de Minas Gerais (DETRAN/MG).

Posto isso, a apelante comprova necessitar que lhe seja concedido o benefício, vez que o
pagamento das custas processuais poderia prejudicar seu sustento próprio e de sua
família.

Pois bem.

Concluindo-se pelo deferimento do benefício pleiteado, cabe destacar que, conforme


consignado pela r. sentença, antes da distribuição deste feito, a autora ajuizou ação
idêntica nº 5174204-62.2019.8.13.0024), na qual foi proferida sentença sem resolução
do mérito, condenando a autora ao pagamento das custas processuais.

Nesse sentido, o magistrado a quo extinguiu o presente feito, argumentando que não foi
comprovado o pagamento das custas processuais da demanda anterior, nos termos do
art. 486, § 2º do CPC, in verbis:

"Art. 486. O pronunciamento judicial que não resolve o mérito não obsta a que a parte
proponha de novo a ação.

§ 2º A petição inicial, todavia, não será despachada sem a prova do pagamento ou do


depósito das custas e dos honorários de advogado."

Assim, quanto a tal ponto, deve-se tecer algumas considerações.

Cediço que a sentença proferida nos autos do processo nº 5174204-62.2019.8.13.0024


se revestiu dos efeitos da coisa julgada formal.

Isso porque, em que pese o ordenamento processual não tenha, a exemplo da coisa
julgada material (art. 502, CPC), delineado o conceito de coisa julgada formal, este é
amplamente discutido pelos doutrinadores processualistas e de suma importância para a
escorreita extinção do procedimento.

A coisa julgada formal diz respeito, tal como a coisa julgada material, à imutabilidade e
indiscutibilidade da decisão, no entanto, sobre seus aspectos endoprocessuais. Logo, a
coisa julgada formal exerce sua autoridade, tão somente, em relação ao processo em que
a decisão foi proferida, não repercutindo seus efeitos sobre futura demanda que tenha
como objeto a mesma lide.

Nesse sentido, vale destacar o esclarecedor ensinamento dos professores Thereza Alvim
e José Manoel de Arruda Alvim Netto:

"O instituto da coisa julgada se destina a tornar definitiva uma solução dada pelo Poder
Judiciário a determinada controvérsia que a ele tenha sido submetida. É dividida, em
geral, em duas espécies, a coisa julgada formal e a coisa julgada material. A coisa
julgada formal significa que, em determinado processo, houve uma última decisão, por
meio da qual se colocou seu termo final, sem que contra ela tenha sido interposto
qualquer recurso. Constitui-se a coisa julgada forma em uma imutabilidade do decisum
somente no âmbito do processo em que foi prolatado. Por sua vez, a coisa julgada
material é a qualidade de imutabilidade e indiscutibilidade, ou mais precisamente, a
autoridade, com a qual resta revestida uma determinada decisão de mérito. Destina-se a
coisa julgada material a garantir a segurança extrínseca das relações jurídicas,
impedindo qualquer outra decisão a respeito da mesma lide." (ALVIM, Thereza,
ALVIM NETTO, José Manoel de Arruda. Coisa julgada. Enciclopédia jurídica da PUC-
SP. Tomo: Processo Civil. 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 2017. Disponível em:https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/177/edicao-
1/coisa-julgada)

Nos autos do processo 5174204-62.2019.8.13.0024, foi proferida sentença terminativa


consignando que "a parte autora teve o pedido de gratuidade processual indeferido,
através de decisão devidamente fundamentada, e não atacada por recurso próprio.".

Assim, a petição inicial foi indeferida pela ausência de recolhimento das custas iniciais,
nos seguintes termos: "ante o exposto, indefiro a inicial e julgo extinto o processo sem
resolução do mérito, com fundamento no art. 485, I e IV c/c 290 do NCPC.".

Tendo transitado em julgado a referida decisão, ainda que indeferida a petição inicial, a
questão ali expressamente decidida, qual seja, o indeferimento da gratuidade judiciária,
encontra-se revestida da autoridade da coisa julgada formal, impossibilitando que esta
seja objeto de rediscussão nos mesmos autos.

Logo, não há que se perquirir aqui os fundamentos e a exigibilidade da condenação


imputada à autora ao pagamento das custas processuais nos autos do processo anterior.

Todavia, como exposto alhures, a extinção do feito sem resolução do mérito e a


formação da coisa julgada formal, não impedem a repropositura da demanda, como fez
a autora.

No caso da ação anteriormente ajuizada pela autora sua extinção em seu desfavor se deu
com fulcro no art. 485, I e IV do CPC, que dispõem quanto ao indeferimento da petição
inicial e a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento válido e
regular do processo.

Nessas hipóteses, o art. 486, § 1º do CPC impõe a correção do vício reconhecido pelo
juízo que obstou o julgamento de mérito, ao ser apresentada a mesma demanda para
apreciação judicial.

Tal dispositivo legal visa possibilitar que, sanado o vício processual, seja proferida
sentença de mérito quando a mesma controvérsia for reapresentada em juízo. Nas
palavras de Nelson Nery Jr.:

"2. Repropositura da ação. Como a sentença de extinção do processo sem resolução do


mérito (CPC 485) não faz coisa julgada material, a lide objeto daquele processo não foi
julgada, razão pela qual pode ser reproposta a ação. A repropositura não é admitida de
forma automática, devendo implementar-se o requisito faltante que ocasionara a
extinção do processo. Por exemplo: processo extinto por ilegitimidade de parte somente
admite repropositura útil se sobrevier circunstância que implemente essa condição da
ação faltante no processo anterior. Do contrário, a repropositura pura e simples, sem
essa observância, acarretaria nova extinção do processo sem resolução do mérito por
falta de interesse processual (CPC 485 VI). De qualquer sorte, o texto normativo
comentado não" tranca "a via judicial futura, como pode parecer à primeira vista,
porquanto a sentença proferida com base no CPC 485 V, por ser processual e não
resolver o mérito, não faz coisa julgada material. [...]"(Código de Processo Civil
comentado. 3ª ed. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2018, p. 1.147) - g.n.

Na esteira do que fora exposto acima, o art. 486, § 2º do CPC também impõe que a
parte requerente comprove o pagamento das custas e honorários referentes ao processo
anterior, para que seja recebida a petição inicial da nova ação.

Ocorre que, atendo-se ao Código de Processo Civil em sua completude e em


consonância com o princípio de acesso à justiça positivado no art. 5º, XXXV, da
Constituição Federal e art. 3º do CPC, tem-se que, concedido o benefício da gratuidade
judiciária ao autor quando da repropositura da ação, dispensa-se o requisito previsto no
art. 486, § 2º do CPC.

Cabe ressaltar que tal entendimento encontra amparo na jurisprudência do c. STJ:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO


ESPECIAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. REPROPOSITURA DE AÇÃO
IDÊNTICA A OUTRA, ANTERIORMENTE EXTINTA, SEM EXAME DE MÉRITO.
RECOLHIMENTO PRÉVIO DE CUSTAS E HONORÁRIOS FIXADOS NA
DEMANDA ANTERIOR, COMO PRÉ-REQUISITO PARA A PROPOSITURA DE
NOVO PROCESSO. DISPENSA. DEFERIMENTO DO BENEFÍCIO DA
ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA NA DEMANDA ATUAL.

NECESSIDADE DE ASSEGURAR O PLENO ACESSO À JUSTIÇA.


PRECEDENTES DO STJ. AGRAVO INTERNO IMPROVIDO.

I. Agravo interno aviado contra decisão que julgara Recurso Especial interposto contra
acórdão publicado na vigência do CPC/73.

II. Na origem, trata-se de Agravo de Instrumento, interposto contra decisão que


indeferira a concessão dos benefícios da assistência judiciária à parte autora e
determinara o recolhimento das custas processuais.

III. O Tribunal de origem, a par de dar parcial provimento ao recurso, deferindo, à parte
recorrente, o benefício da assistência judiciária, condicionou o recebimento da nova
demanda ao recolhimento das custas e honorários advocatícios fixados na demanda
idêntica, anteriormente proposta, nos termos do art. 268 do CPC/73, de vez que "a
concessão de justiça gratuita somente é válida à parte agravante nos autos principais (nº
0025304-24.2014.4.03.6100), não podendo retroagir para a ação anteriormente proposta
(nº 0013797-06.2014.4.03.6100)".

IV. Ao assim decidir, o Tribunal de origem o fez em descompasso com o entendimento


perfilhado por esta Corte, segundo o qual, para que se viabilize o pleno acesso à Justiça,
a regra do art. 268 do CPC/73 (atual art. 486, § 2º, do CPC/2015)- segundo a qual a
petição inicial da nova ação repetida não será despachada sem a prova do pagamento ou
do depósito das custas e dos honorários advocatícios relativos à demanda anteriormente
extinta - fica mitigada, quando a parte litiga, no novo processo, sob o pálio da
assistência judiciária. Precedentes do STJ: AgRg no Ag 1.208.487/MG, Rel. Ministro
ALDIR PASSARINHO JUNIOR, QUARTA TURMA, DJe de 15/12/2010; REsp
1.673/ES, Rel. Ministro BUENO DE SOUZA, QUARTA TURMA, DJU de
26/10/1992.

V. Acórdão recorrido reformado, pela decisão ora agravada, a fim de afastar a obrigação
de a autora comprovar o recolhimento das custas e honorários advocatícios relativos à
anterior Ação Ordinária 0013797-06.2014.4.03.6100, como requisito para propositura
da presente demanda.

VI. Agravo interno improvido. (AgInt no REsp 1585256/SP, Rel. Ministra ASSUSETE
MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 21/09/2020, DJe 25/09/2020) - g.n.

E também deste eg. TJMG quando analisado o disposto no art. 268 do CPC/1973
correlato ao art. 486, § 2º do CPC/2015:

EMENTA: DIREITO PROCESSUAL CIVIL. LITISPENDÊNCIA. PROVA DO


PAGAMENTO DAS DESPESAS PROCESSUAIS ANTERIORES. PARTE QUE
LITIGA NA SEGUNDA DEMANDA SOB OS BENEFÍCIOS DA JUSTIÇA
GRATUITA. DESNECESSIDADE. PRECEDENTES DO STJ. 1. Para os efeitos do art.
268 do CPC, homenageando-se o acesso à jurisdição como direito fundamental, que não
pode ser negado aos hipossuficientes economicamente, o STJ entende pela mitigação da
exigência de pagamento de custas objeto de anterior condenação. 2. O posterior
deferimento dos benefícios do art. 3º da Lei nº 1.060, de 1950, possibilita ao autor a
propositura da demanda sem o pagamento ou do depósito das custas e dos honorários de
advogado objeto de condenação na demanda anterior. 3. Não há isenção do pagamento
de anterior ônus da sucumbência, mas dispensa de seu recolhimento como pressuposto
processual da nova demanda."(TJMG - Agravo de Instrumento-Cv 1.0433.14.005868-
9/001, Relator (a): Des.(a) Cabral da Silva , 10ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em
10/06/2014, publicação da sumula em 27/06/2014)

Nesse sentido, ainda que haja condenação da parte autora ao pagamento de custas e
honorários advocatícios nos autos da primeira demanda ajuizada, caso comprovada a
necessidade de deferimento do benefício de gratuidade de justiça quando proposta a
nova ação, o requisito de constituição e desenvolvimento previsto no art. 486, § 2º do
CPC acaba por ser afastado, a fim de se viabilizar o devido acesso à justiça.

Nesse sentido ensina a doutrina de Nelson Nery Jr. e Theotonio Negrão,


respectivamente:

"Assistência judiciária. Ao beneficiário da assistência judiciária não é lícito impor-se a


prova do pagamento dos encargos financeiros do processo anterior, extinto sem
resolução do mérito, como ônus para a repropositura de igual demanda (RT
614/59)."(Código de Processo Civil comentado. 3ª ed. São Paulo: Thomson Reuters
Brasil, 2018, p. 1.148)

"Art. 486: 6. O beneficiário de justiça gratuita está dispensado de pagar as custas e


honorários de advogado do processo anterior extinto (RSTJ 37/294, RT
614/58)."(Código de processo civil e legislação processual em vigor. 51ª ed. São Paulo:
Saraiva Educação, 2020, p. 719)

Diante disso, concedido, nesta oportunidade, o benefício da gratuidade judiciária à


autora, resta afastada a necessidade de comprovação do recolhimento das custas
referentes à ação anteriormente ajuizada. Com isso, o caso impõe a cassação da
sentença recorrida, para que seja recebida a petição inicial e dado prosseguimento ao
feito.

CONCLUSÃO

Ante o exposto, DOU PROVIMENTO AO RECURSO, para conceder à apelante o


benefício da gratuidade judicial e CASSAR A SENTENÇA, devendo ser retomado o
regular processamento do feito na primeira instância.

Custas e honorários advocatícios ao final, pelo vencido.

É como voto.

DES. FERNANDO CALDEIRA BRANT - De acordo com o (a) Relator (a).

DES. VICENTE DE OLIVEIRA SILVA - De acordo com o (a) Relator (a).

SÚMULA:"DERAM PROVIMENTO AO RECURSO PARA CASSAR A


SENTENÇA."

Você também pode gostar