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Bauman: assim chegamos à
Retrotopia
Sai em breve livro póstumo do filósofo. Numa das últimas entrevistas, ele
alerta: estamos involuindo de uma crença tola no futuro para a
mistificação do passado

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CATEGORIA/)

por Zygmunt Bauman (https://outraspalavras.net Publicado 05/05/2017 às 13:47


/author/zygmuntbauman/)

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BaumanB.jpg)

Sai em breve, em português, livro póstumo do filósofo, morto em janeiro.


Numa de suas últimas entrevistas, ele alerta: estamos involuindo de uma
crença tola no futuro para a mistificação infantil do passado

Por Zigmunt Bauman, em diálogo com a Spyked Review


(http://www.spiked-online.com/) | Tradução: Inês Castilho

As nove décadas de Zygmunt Bauman foram vividas próximo à medula da


história. Nascido em 1925 de pais judeus poloneses não-praticantes em
Poznan, sua família foi para União Soviética em 1939, quando os tanques
nazistas invadiram a Polônia. Tendo servido no Exército Vermelho com
distinção, retornou à Polônia depois da Segunda Guerra Mundial para
estudar sociologia na Universidade de Varsóvia. Mas, com o comunismo
tendo há muito perdido seu brilho e sua carreira impedida pelo
antissemitismo, ele emigrou para a Grã Bretanha em 1968, onde assumiu
uma cadeira de sociologia na Universidade de Leeds.

Mas foi depois de sua aposentadoria, em 1990, que sua inteligência


inquisidora, pela qual ele é tão renomado, começou a gerar livro após livro.
“O Mal Estar da Pós-modernidade” (1992); “Ética pós-moderna” (1993),
“Globalização: as Consequências Humanas” (1998), “Modernidade Líquida”
(2000), “Amor Líquido” (2003); “Ensaios sobre o conceito de Cultura”
(2012)… A lista é enorme. De fato, no último quarto de século ele publicou
cerca de 40 livros, não por escrever, mas porque o mundo como ele é não é
como ele sente que deveria ser. Ou, como afirmou em 2003: “Por que
escrevo livros? Por que eu penso? Por que eu deveria ser apaixonado?
Porque as coisas poderiam ser diferentes, deveriam ser melhores.”

A conversa abaixo aconteceu no ano passado. Instigada por uma questão


sobre o Brexit, acabou levando a um diálogo sobre o futuro, o passado e o
destino do projeto iluminista.

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Retrotopia-e1493991913252.jpeg)
“Retrotopia”, obra póstuma de Bauman que a Editora
Zahar promete publicar em breve, em português

Você falou sobre a desilusão popular com a política nacional num


mundo globalizado, e o sentimento popular de que políticos
nacionais não têm poder para influenciar mudanças. Suas
posições mudaram à luz do referendo sobre a União Europeia na
Inglaterra, e a perspectiva do Brexit?

Acredito que o colapso da confiança na capacidade de todo o establishment


político, em todo o mundo desenvolvido, para realizar as mudanças
desejadas (ou qualquer mudanças prometida) é o que, paradoxalmente,
sedimentou o fenômeno Brexit.

Com a completa frustração dos eleitores com a elite política, e sua recusa
total de investir confiança em qualquer segmento da elite política, o
referendo ofereceu uma oportunidade sem precedentes para as escolhas em
votação coincidissem com os sentimentos que precisavam exprimir-se. Foi
uma ocasião única, nesse sentido, e tão diferente das eleições parlamentares
de rotina!

Numa eleição geral, você pode expressar sua frustração e raiva contra o mais
recente de uma longa linhagem de detentores de poder e fazedores de
promessas. Mas o preço que se paga por esse alívio emocional é meramente
convidar a Oposição, parte inseparável do establishment político, a assumir
os gabinetes ministeriais como o Governo. Nesse infinito jogo de cadeiras,
você não chega nem perto de expressar a natureza geral da sua discordância.

A oportunidade oferecida pelo referendo sobre o Brexit foi completamente


diferente. Com quase todos os setores do establishment político
posicionados em favor da permanência na União Europeia, podia-se usar um
único voto, Sair, para descarregar, de uma só vez, a raiva contra todos eles.
Quanto mais abrangente a frustração, mais tentador torna-se fazer
exatamente isso — agarrar essa oportunidade única para desabafar.

Você tem escrito sobre o fim do progresso e a perda da crença na


ideia de que o futuro será melhor que o passado. Há algo no
fenômeno do Brexit (e, por certo, em outros movimentos
populistas do continente) que promete uma era nova, talvez
melhor, para a Europa?

Nós ainda acreditamos em “progresso”, mas agora o vemos tanto como


bênção quanto como uma maldição — com o aspecto de maldição crescendo
progressivamente, enquanto o lado bênção fica menor. Compare isso com a
atitude de nossos ancestrais mais recentes – eles ainda acreditavam que o
futuro seria o espaço mais promissor para as esperanças. Nós, contudo,
tendemos a projetar nossos medos, ansiedades e apreensões no futuro: um
futuro de crescente escassez do emprego; de queda da renda e portanto
também de declínio das oportunidades de vida, nossas e dos nossos filhos;

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 de crescente
(https://outraspalavras.net/) fragilidade das nossas posições sociais e da provisoriedade de

OUTRAS nossas realizações na vida; de uma fenda que aumenta desenfreadamente


entre as ferramentas, os recursos e as competências à nossa disposição e a

(HTTPS://OUTRASPALAVRAS.NET/
enormidade dos desafios colocados pela vida; do controle de nossas vidas,
que escapa das mãos. É como se nós, indivíduos, estivéssemos sendo
rebaixados ao status de peões, à margem de um jogo de xadrez entre pessoas
desconhecidas. Elas são indiferentes às nossas necessidades e sonhos,
quando não francamente hostis e cruéis, e estão todas completamente
prontas a nos sacrificar para alcançar seus próprios objetivos.

O que o pensamento do futuro tende a trazer à mente hoje, portanto, é a


crescente ameaça de ser descoberto e rotulado como inapto para a tarefa,
com seu valor e dignidade negados, marginalizados, excluídos e banidos.
hegamos+
Uma crescente maioria de pessoas já aprendeu, a essa altura, pela própria
experiência e pela dos que lhe são próximos e caros, a desacreditar de um
futuro desigual, instável, imprevisível e notoriamente decepcionante, como o
lugar para investir esperanças. Meu último livro, Retrotopia
avras.net
(https://www.amazon.com/Retrotopia-Zygmunt-Bauman/dp/1509515321),
aborda precisamente essas questões. Permita-me citar um trecho de sua
introdução:

Eis o é o que Walter Benjamin tinha a dizer em suas Teses da


Filosofia da História, escritas no início dos anos 40, sobre a
mensagem transmitida por Angelus Novus (renomeado Anjo da
História), uma pintura de 1920 de Paul Klee:

“A face do Anjo da História está voltada para o passado. Onde nós


percebíamos uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única que
continua empilhando destroços e jogando-os diante dos seus pés. O
anjo gostaria de ficar, acordar os mortos, e tornar inteiro o que foi
esmagado. Mas uma tempestade está soprando do paraíso; o anjo
ficou preso em suas asas com tal violência que não pode mais fechá-
las. Essa tempestade o impulsiona irresistivelmente em direção ao
futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto a pilha de escombros
cresce, diante dele, rumo ao céu. A tempestade é o que chamamos
progresso.”

Fosse alguém olhar de perto a pintura de Klee, um século, quase,


depois que Benjamin produziu seu insight insondável e
incomparavelmente profundo, poderia mais uma vez capturar o Anjo
da História em pleno voo. O que mais pode impactar, a ele ou a ela, é
o anjo mudando de direção – o Anjo da História apanhado no
momento de uma volta de 180º. Sua face está girando do passado
para o futuro, suas asas sendo puxadas para trás pela tempestade,
golpeando esse tempo do futuro imaginado, precipitado e
antecipadamente temido em direção ao paraíso do passado (ele
próprio imaginado retrospectivamente, depois de ter sido perdido e
reduzido a ruínas). E as asas estão agora sendo pressionadas, como
eram pressionadas antes, com violência igualmente poderosa, de
modo que agora, como então, “o anjo não pode mais fechá-las”.

Passado e futuro, pode-se concluir, estão no processo de trocar seus


respectivos vícios e virtudes, relacionados – como sugeriu Benjamin –
por Klee há cem anos. Agora, o futuro é que está marcado no lado do
débito, denunciado inicialmente por sua não-confiabilidade e por ser
incontrolável, com mais vícios que virtudes; enquanto a volta ao
passado, com mais virtudes que vícios, é marcada na coluna do
crédito – como um lugar ainda de livre escolha e do investimento
ainda não-desacreditado de esperança.

Penso que o episódio Brexit, assim como “outros movimentos populistas no


continente” são manifestações da “tendência à retrotopia” discutida acima.
Na ausência de ferramentas efetivas de ação capazes de enfrentar os
problemas de nossa presente situação, e dado o crescente desapontamento
trazidos por sucessivos futuros creditados com o desenvolvimento dessas
ferramentas de ação, não surpreende que a proposta de exploração do giro
de 180º pareça ilusoriamente atrativa. A possibilidade de “uma nova, talvez
ainda melhor era para a Europa” que emerge do resultado do Brexit, pode
ainda aparecer, como sua consequência não-antecipada, embora plausível.
Mas isso ocorrerá porque nos frustramos com o uso de tribalismos
antiquados para lidar com os desafios do presente, gerados pela emergente
condição humana de interdependência mundial.

3 of 8 8/25/2021, 1:37 PM
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 Faz sentido
(https://outraspalavras.net/) a ideia de uma tendência retrotópica, dado o medo

OUTRAS generalizado do futuro. Mas como você considera a tendência


coexistente de ver o passado como uma moral absolutamente

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negativa, um tipo de moralidade, se você quiser, que orienta o
presente dizendo “sabemos que somos contra aquilo” ou “nunca
mais”? Estou aqui pensando na centralidade do Holocausto na
política contemporânea e no discurso histórico, nos últimos 20
anos. E estou também pensando no recente, mas contínuo foco
nos crimes sexuais históricos do Reino Unido, onde
frequentemente parece que o passado relativamente recente está
se transformando numa visão de corrupção e imoralidade difíceis
de acreditar, e contra o qual nos afirmamos no presente. O futuro
certamente parece desacreditado, hoje, mas o passado não o é
hegamos+
igualmente?

Isaac Newton insistiu em que cada ação dispara uma reação… E Hegel
apresentou a história como um conflito/fricção entre oposições, que
avras.net provocam e reforçam mutuamente oposições (o processo interconectado de
dissolução e absorção conhecido por “dialética”). Se vocês fossem partir de
Newton ou Hegel, chegariam à mesma conclusão: ou seja, de que seria de
fato bizarro se a tendência retrotópica não fosse alimentada por e
alimentadora da entronização e destronamento do futuro (sua pergunta,
aliás, é um bom exemplo dessa dialética).

A retrotopia, assim como a utopia-Futura ortodoxa, refere-se a uma terra


estrangeira: um território desconhecido, não-visitado, não-testado e, em
suma, não-experimentado. Essa é precisamente a razão pela qual se recorre a
retrotopias e utopias, de forma intermitente, sempre que se procura uma
alternativa ao presente. Ambas são, por essa razão, visões seletivas, e em
ambos os casos são visões seletivas passivamente e obedientemente
suscetíveis de manipulação. Em ambos os casos, os holofotes da atenção são
focalizados em alguns aspectos de, para citar Leopold von Ranke, como era
realmente (wie es ist eigentlich gewesen), mas numa densa sombra. Isso
possibilita a ambos ser territórios ideais (imaginados) onde localizar o estado
de coisas (imaginado) ideal, ou ao menos uma versão corrigida do presente
estado de coisas.

Até aqui, utopia e retrotopia não diferem – pelo menos em seus processos e
na parcialidade dos resultados. O que realmente separa os dois é a mudança
de lugar entre confiança e desconfiança: a confiança sendo movida do futuro
para o passado, a desconfiança na direção oposta. Seu próprio exemplo
captura esse processo, implicando que a inevitabilidade da “tendência
retrotópica” coincide com a popularidade do “nunca mais”. Afinal, a
retrotopia deriva sua atração, entre outros fatores, do senso de que o futuro
pode “nunca mais”, e é provável que “faça isso novamente”. Aquela
“centralidade do Holocausto na política contemporânea e no discurso
histórico, que realmente manifestou-se nos últimos 20 anos”, como você
notou tão corretamente, de outra forma não teria acontecido. Ela
testemunha o colapso da confiança na capacidade do futuro elevar os
padrões morais.

Você fala corretamente, acredito, dessa intensa desconfiança do


futuro, que por sua vez gera esses sonhos retrotópicos de um
passado que nunca foi. Mas, por que o futuro deixou de ser o
lugar de nossas esperanças, o espaço em que imaginamos e
prevemos as coisas como deveriam ser? Você responde a isso
parcialmente, quando nota que “uma grande e crescente maioria
de pessoas… aprendeu… a desacreditar do futuro desigual,
inconstante, imprevisível e notoriamente desapontador”. Mas a
história europeia está marcada pela experiência de diversos
eventos horrendos, que não necessariamente resultaram numa
perda de fé generalizada no futuro. Por exemplo, a Guerra dos
Trinta Anos foi seguida pelas primeiras inspirações do
Iluminismo, um dos momentos culturais mais otimistas e
orientados ao futuro. Até mesmo depois da catástrofe das Guerras
Mundiais e do Holocausto, no período pós-guerra, até os anos
1970, foi seguramente marcado por um grau de otimismo, de que
as coisas estavam melhorando, de fato, “de que você nunca esteve
tão bem”. Então, é claro, houve os anos sessenta, um momento de
grande experimentação social e política.

Então, o que acontece na vida em sociedade hoje que transformou

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 o futuro em
(https://outraspalavras.net/) algo a se desconfiar, a temer?

OUTRAS Pensar no futuro “como alguma coisa suspeita, a ser até mesmo temida”, não
é de forma alguma novo na história humana. De fato, remonta aos tempos
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pré-socráticos, mais precisamente ao século 8 AC – ao Trabalhos e os Dias
de Hesíodo, particularmente à sua história “Idades dos Homens”. É uma
história de contínua decadência, corrupção e degradação, do pico dos “anos
de ouro” aos “anosde ferro”, o fundo dos fundos, no qual Hesíodo se coloca
junto com seus contemporâneos. Sua descrição da condição e dinâmica dos
habitantes dos anos de ferro era marcantemente reminiscente das
características que nossos próprios contemporâneos imputam às condições
do nosso próprio século 21, quando embarcamos na jornada retrotópica; ou
seja, era atroz, horripilante e repulsiva.
hegamos+
Na visão de Hesíodo, a “raça do ferro” estava destinada a “nunca descansar
do trabalho e da tristeza durante o dia, e da destruição à noite”. Na idade do
ferro, “o pai não concordará com seus filhos, nem seus filhos com seus pais,
nem hóspedes com seu anfitrião, nem companheiros com companheiros” e
avras.net
“não haverá privilégio para o homem que mantém seu juramento ou para o
justo ou para o bom; mas, ao contrário, os homens vão louvar os malfeitores
e seus negócios violentos. A força será certa, e não haverá mais reverência. E
os ímpios ferirão o homem digno, falando falsas palavras contra ele, e
jurarão infâmias sobre eles”. Na idade do ferro, aidos (a palavra grega para o
sentimento de reverência, e também para a vergonha que coíbe as pessoas de
cometerem malfeitos) será cada vez mais notória, apenas por sua ausência.

Em sua reação à herança da Grécia pagã, a Europa cristã introduziu um


terceiro elemento ao ciclo Hesiodíaco de declínio e queda: a redenção, a
perspectiva de reversão cronológica das eras de ouro e de ferro. Santo
Agostinho, por exemplo, introduziu um conceito linear de tempo que fluía da
Cidade do Homem inferior, devorada por traços indeléveis de pecado
original e, como a era de ferro de Hesíodo, endemicamente corrupta, à
perfeição da Cidade de Deus, guiada pela igreja cristã, a vanguarda e a praça
das armas. Da Idade Média até a Idade Moderna, contudo, o modelo
predominante do fluxo de tempo estava mais próximo de Hesíodo do que de
Santo Agostinho.

Durante a Renascença, as coisas mudam. Francis Bacon ousou visualizar a


casa da lei de Salomão, a faculdade ideal em seu trabalho utópico New
Atlantis, como a culminação da longa, vacilante e espinhosa escalada
ascendente da humanidade a uma nova era de ouro. E numa tentativa de ir
além da disputa entre antigos e modernos (querelle des anciens et des
modernes), Isaac Newton tentou colocar varas em dois formigueiros em
guerra, proclamando, numa carta a Robert Hooke em 5 de fevereiro de 1675:
“Se vi mais longe, foi por me colocar sobre ombros de gigantes”.

Interessados em simplificar esta complicada história de entrecruzamentos,


geminação, linhas de pensamento mutuamente inspiradoras e
reciprocamente depreciativas, sugiro o ano de 1755 como o marco que separa
as duas visões em competição. De um lado, a de declínio apocalítico, desde o
início, de uma história projetada e guiada pelos homens. De outro, a
emergência, isto é, a visão de progresso contínuo, essencialmente
incontrolável. Naquele ano, a combinação de um terremoto, seguido de fogo
e sucedido por um tsunami apagou a cidade de Lisboa da face da terra.
Àquela altura, Lisboa era admirada e reverenciada como uma das cidadelas
mais ricas e poderosas econômica e culturalmente daquilo que, por sua
própria definição, constituía a vanguarda do mundo civilizado. Em poucas
palavras, a natureza, agora acusada por sua indiscriminação endêmica,
entorpecimento e estupidez moral, bem como indiferença à ética e valores
humanos – aquela ordem estabelecida por Deus precisava ser tomado sob
nova gestão humana.

A nova administração olhava à frente firme e resolutamente. “Novo”


transformou-se na tautologia de “maior” e “melhor”, da mesma forma que
“velho” tornou-se um pleonasmo para “fora de moda” e “ultrapassado”. No
processo, isso transformou o vigente e vir-a-ser velho no reino da
imperfeição condenável, destinado à deposição de lixo. E expandiu o espaço
de novidades desejáveis e bem-vindas até que os mercados consumidores
fizessem tudo instantaneamente. A vida tornou-se orientada para o futuro e
ainda mais apressada.

Mas progressivamente, os sintomas sugerem que aquela era de gestão


humana é mais uma aberração temporária do que um novo paradigma. Eu

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 me sinto tentado
(https://outraspalavras.net/) a sugerir que quando percebida com o benefício da

OUTRASretrospecção, a “vida voltada ao futuro”, como posto por Ernst Block, entrará
para os anais da história humana como um episódio na verdade pouco usual

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e por certo atípico – uma aventura romântica, fervorosamente apaixonada,
mas breve.

Você está certo sobre quão significativo foi o terremoto de Lisboa.


Talvez a resposta mais famosa – e que ecoa sua afirmação de que
a resposta ao terremoto era para tomar a natureza abandonada
por Deus sob gestão humana – é o Cândido, de Voltaire. A linha
final, uma resposta aos apóstolos do progresso panglossiano,
ressoa aqui: “Precisamos cultivar nosso jardim.” Ela exprime bem
a ideia do Iluminismo, seugndo a qual a humanidade pode
hegamos+ emergir de sua “tutela autorrealizada”, como colocado por Kant,
a noção de que por meio de nossa própria razão (e não há/havia
maior autoridade que nossa própria razão!) podemos agarrar as
leis do mundo natural e social, e modelar o mundo de acordo com
avras.net os nossos objetivos racionalmente escolhidos. Por que, então, no
século 21, num tempo em que é nossa habilidade de administrar a
natureza “para cultivar nosso jardim” para “viver voltados ao
futuro” é mais forte que nunca, o projeto do Iluminismo (se é que
posso chamá-lo assim) aparece como um “breve” interlúdio?

George Steiner disse certa vez que o privilégio de Voltaire, Diderot,


Rousseau, Holbach, Condorcet e sua turma era sua ignorância: eles não
sabiam o que sabemos e não podemos esquecer. A descendência da “Nova
Jerusalém” de Isaias – relutantemente e não sem resistência – do futuro
paradisíaco, fará isso a partir de Auschwitz, Kolyma e Hiroshima. Tudo isso
foi fruto do cultivo entusiasmado e engenhoso do “nosso jardim”.

Você mesmo compara a relação progressiva com o tempo, e com a


natureza, a um caso apaixonado. Você acha que, depois desse
caso, estamos retornando à nossa prolongada relação com a
temporalidade, o antigo, concepção de tempo quase teológica e
alegórica, de queda e apocalipse, de decadência e redenção?
Afinal, tanto ao ambientalismo quanto ao radicalismo islâmico,
não falta a ideia de Fim dos Tempos.

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Repito o que disse antes: o futuro (outrora a aposta segura para o


investimento de esperanças) tem cada vez mais sabor de perigos
indescritíveis (e recônditos!). Então, a esperança, enlutada, e desprovida de
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, RETROTOPIA não é
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Um comentario para "Bauman: assim chegamos à Retrotopia"


6 de maio de 2017 às 19:57
— Luiz Cláudio Fonseca
(https://outraspalavras.net/sem-categoria
disse: /bauman-assim-chegamos-a-retrotopia-
2/#comment-11189)
Se houve através dos tempos uma filosofia, um método, capaz de influenciar o pensamento político, foi sem dúvida o Empirismo. O jogo
temporal com os espaços históricos expressa a crise da positividade empirista.

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7 of 8 8/25/2021, 1:37 PM
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