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Cap 1

- Até que enfim decidiu entrar de férias. - Luane revira os olhos.

- Praticamente me obrigaram. - Reviro os olhos.

- Você precisa de descanso Lia. - Lu diz. - Pode parecer que não, mas ser professora estressa.

Sou professora infantil e amo o meu trabalho. Sempre foi meu desejo desde criança passar
meu conhecimento para o próximo.

No meu tempo de escola, era considerada a melhor aluna, e os outros alunos sempre vinham
me pedir explicações quando não entendiam os professores.

Quando decidi cursar pedagogia, meu pai ficou sem falar comigo por um bom tempo. Apesar
que sua distância já ocorria desde muitos anos atrás.

Era seu sonho que eu seguisse seus passos, e me tornasse empresária como ele. Meu é dono
de uma grande empresa chamada Harris. Compram hotéis já desgastados pelo tempo, e os
reformam em seguida, dando um toque moderno.

Nunca desejei seguir seus passos, então optei por seguir meu sonho.

Não é um emprego glamuroso, mas é o que eu escolhi para meu futuro, e amo o que faço. Não
trocaria minhas crianças por nenhum outro emprego.

Papai fez um escândalo, jogou na minha cara que eu era imprestável. Ele sempre me tratou
com indiferença, porque não nasci homem, então ele sempre descontou em mim suas
frustrações.

Enquanto minha mãe era viva, minha vida era mais fácil. Depois que ela faleceu, ficou
impossível de aguentar o mal humor do meu pai. Então sai de casa e aluguei um apartamento.

Desde então me viro sozinha. Ele não me ajudou com a faculdade, como também não ajudou
em outras despesas.
Me formei, e não tive a felicidade de ver meu pai sentado em meio ao público se orgulhando
de mim.

Mas eu já deveria estar acostumada com sua rejeição. Ele nunca foi em nenhuma das minhas
apresentações de balé na infância. Nunca se importou em aparecer em reuniões de pais na
escola.

O senhor Harris vivia e vive tão focado em cada dia ter mais, que se esqueceu da família, e se
esqueceu de ser um homem decente.

Foram os empregados da casa que cuidaram de mim depois que minha mãe faleceu. Papai não
ao menos se dignou em tentar me consolar logo após a morte da minha mãe. Ele viajou no dia
seguinte, sem de despedir de mim como sempre fazia.

Eu queria que ele me consolasse e ficasse ao meu lado pelos menos uma vez na vida, mas
acabei me iludindo como sempre.

Era meu sonho ter um pai presente, como algumas garotas tinham na minha infância. Eu
morria de inveja daquelas meninas que tinham um pai presente, e as levava para escola.

Nada disso aconteceu comigo, e conforme fui crescendo, fui percebendo que estava apenas
me iludindo. O senhor Thomas nunca foi e não é um pai amável.

Então decidi ir embora, e me virar sozinha. Já não aguentava mais ele jogando sempre na
minha cara que eu era imprestável por nascer mulher.

Desisti que tentar ser vista por ele. Desisti de ter seu amor, e segui minha vida, e meus sonhos.

Papai é o tipo de pessoa que quanto mais ele tem, mais ele quer. Ele não se contenta com o
que já possui, e se for preciso passar por cima de alguém para conseguir o que quer, ele faz
isso sem pensar duas vezes, e sem receio algum.

Apesar de tudo, eu o amo. Papai e Luane são as únicas famílias que tenho.

- Acho que deveríamos ir para o Havaí. - Lu se joga no sofá.


- Seria um sonho. - Suspiro sonhadora. - Mas teríamos que vender o coração para isso.

- Nem me fale. - Ela revira os olhos. - Preciso tomar vergonha na cara e começar a economizar.

Não sobra quase nada do meu salário para lazer. Então viajar para o Havaí, está sendo um
sonho distante.

- Nisso eu concordo. - Lhe jogo uma almofada.

Luane trabalha em uma revista de moda, e gasta quase todo seu salários em roupas. É óbvio
que seu emprego precisa que ela ande com elegância sempre, mas ela já tem tantas roupas
que não está cabendo em seu closet. Tem roupas que ela usa uma vez e as descarta.

Na verdade ela não descarta totalmente, porque acabo usando as peças mais simples, já que
temos a mesma medida. Não me lembro quando foi a última vez que comprei alguma roupa,
Lu acaba me dando suas roupas, então não preciso comprar.

Conheci Luane na faculdade, e de lá para cá não nos largamos mais. Lu cursou moda, e agora
está trabalhando em uma revista de moda.

- Você vai a festa comigo. - Ela diz.

- Eu não. - Faço uma careta.

Não gosto das festas que Luane participa. É sempre as mesmas pessoas mesquinhas que
querem se aparecer, e estão dispostos a pisar nos outros para subir em suas carreiras.

- Você vai sim. - Ela fala.

- Mas...

- Nada de discussões Lia. - Ela revira os olhos. - Você vive trabalhando, precisa sair de vez em
quando.
Luane tem razão, e sei que preciso relaxar um pouco. Mas sou tão focada em tudo o que faço,
que acabo esquecendo de sair um pouco e espairecer a mente.

- Sei que você não gosta de estar no meio daquelas pessoas, mas estarei com você. - Luane
sorri abertamente.

- Estará ao meu lado até sua chefe não gritar por você. - Falo.

A chefe da Lu é uma megera. Não sei  como ela suporta aquela mulher. Eu já teria lhe dado um
soco bem no meio da cara e me demitido na primeira vez que ela gritasse comigo.

Ela parece que se sente bem em humilhar os funcionários. Luane é inteligente, conseguiria
outro emprego fácil, mas fica aguentando aquela megera.

- Milla não estará presente hoje. - Ela comemora. - Então pode ficar feliz, serei todinha sua.

- Não tenho roupas para essas festas chatas Lu. - Reviro os olhos. - E com toda certeza não vou
gastar dinheiro em um vestido extravagante, que vou usar apenas uma vez.

- Eu já tenho o vestido ideal para você. - Luane bate palmas. - Comprei ontem.

- Então pode devolver. - Falo. - Já basta as roupas que você me dá, agora vai comprar também?

- Cale a boca. - Ela diz com irritação.

Luane é exagerada demais, enquanto sou mais centrada e séria.

- Você é um pé no saco. - Reviro os olhos.

- Mas você me ama mesmo assim. - Ela mostra a língua. - Agora vá tomar banho, precisamos
nos arrumar.
- Ah não. - Escondo o rosto nas mãos.

- Não me faça levá-la amarrada Lia. - Luane diz brava.

Se eu não for nessa festa, Luane vai me atormentar pelo resto da vida.

- Tudo bem. - Suspiro frustrada. - Eu vou.

- Ótimo. - Ela sorri abertamente. - Vamos nos divertir um pouco.

Lu e eu temos definições diferentes sobre diversão, mas decido ir nessa festa para me divertir
um pouco, como se isso fosse possível.

Cap 2

Minha cabeça parece que vai explodir a qualquer momento, com o batulho constante da
música alta e pessoas conversando e rindo alto. E além de tudo me sinto tonta com tantas
luzes coloridas piscando em minha volta.

- Dance um pouco Lina. - Lu diz ao meu lado.

Estar nessa festa só deixa ainda mais claro que não nasci para essa agitação toda. Prefiro
minha sala de aula com as minhas crianças, do que essa bagunça sem fim.

De repente me assusto quando alguém me abraça por trás e começa a dançar comigo.

Tento me soltar do aperto, mas é inútil. E mesmo que eu grite o idiota não irá me ouvir e ele
não parece nem um pouco afim de me liberar do seu aperto.

Depois de muitas tentativas frustrada de fulga, acabo pisando com toda força no pé do imbecil
que me solta em seguida.

Ele grita algo enquanto me encara bravo. Se tivesse me soltado na primeira vez que tentei
fugir, nada disso teria acontecido.
Não dei nenhuma liberdade para o imbecil chegar se esfregando em mim.

Deixo Lu dançando e começo a caminhar para longe daquela bagunça toda. Cada passo que
dou sinto uma pontada horrível na minha cabeça.

Não estou acostumada com essa agitação e com toda certeza me acostumar com isso. Gosto
da minha vida monótona, calma e sem graça.

Começo a andar por um corredor iluminado, com várias portas dos dois lado. No fim do longo
corredor tem uma porta maior que as outras, o que atiça minha curiosidade.

Ao chegar de frente à porta, bato nela duas vezes e chamo por alguém. Não aparece ninguém
para me atender, então olho em volta e percebo que sou a única no ambiente. Giro a
maçaneta da porta e a abro lentamente.

Adentro o quarto olhando em volta, e vejo que está vazio.

- Uau. - Digo boquiaberta.

O apartamento onde moro cabe dentro do quarto e ainda sobra espaço pelo que estou vendo.

Fecho a porta atrás de mim e começo a andar em direção a uma enorme janela, ao lado da
enorme cama.

Me sento na poltrona de frente para a janela, e sinto a brisa suave da noite invadir o quarto.

Suspiro aliviada, pois não tem ninguém gritando ou rindo alto ao meu lado. A música ainda
toca com todo vapor, mas o som chega bem abafado no quarto.

Não sei como a Lu aguenta toda essa agitação. Somos tão diferentes em relação a isso.
Enquanto prefiro sossego e um bom livro, ela prefere baladas e diversão.

- Sossego enfim. - Digo a mim mesma.


Fecho meus olhos para relaxar um pouco, e tentar aliviar a dor de cabeça. Quando já estava a
ponto de dormir, me assusto com alguém gritando ao meu lado.

- O que pensa que está fazendo aqui? - Pergunta com a voz áspera.

Me assusto com o homem parada em minha frente, e quando vou me levantar da poltrona
acabado sentindo tontura e me desequilibro.

Não caio no chão porque fui amparada por seus braços, que impediu minha queda.

- Você está bem? - Ele pergunta com a voz grave.

- Estou. - Digo me soltando do seu aperto.

Passo a mão por meus cabelos e meu rosto, enquanto suspiro cansada.

Ao encara-lo de frente sinto um quemor em minhas bochechas, coisa que nunca aconteceu
anteriormente.

O desconhecido é um moreno alto, olhos castanhos claros e cabelos da mesma cor. Sua barba
está por fazer, o que deixa ainda mais atraente.

Ele me encara de uma forma estranha, enquanto passa a mão pela barba. Me sinto
desconfortável ao ser analisada de frente.

- Você não respondeu a minha pergunta. - Ela me olha sério. - O que faz no meu quarto?

- Desculpe. - Peço sem graça. - Não achei que o dono iria aparecer aqui.

Ele continua a me estudar com um ar zombeteiro no rosto.

- Está tentando me seduzir senhorita? - Ele sorri de canto.


- O quê?! - Pergunto exasperada. - Eu... eu...

Nunca fui de chamar atenção masculina, e nunca fiquei tão envergonhada perto de um
homem. Mas algo nele me faz fraquejar, como jamais aconteceu anteriormente.

- Sim? - Ele me olha de cima em baixo.

Sua atitude insolente me deixa irritada, então mais do que depressa conto o motivo por ter
invadido o quarto.

- Pode ter certeza que não estou tentando te seduzir. - Reviro os olhos. - Na verdade você nem
faz meu tipo. - Minto.

Seu sorriso cínico morre nos lábios, e da lugar a carranca. Provavelmente é o tipo de homem
que é acostumado a ter mulheres implorando por sua atenção. Está bem enganado ao pensar
que sou tão mesquinha a esse ponto.

Óbvio que ele é o tipo de qualquer mulher, mas não darei esse gostinho da vitória para ele.

- Minha cabeça estava doendo. - Continuo minha explicação. - Então estava procurando um
lugar para fugir daquela bagunça, e acabei no seu quarto.

Ele me encara, e pelo que parece está tentando ver se estou mentindo ou não.

- Não sou acostumada a essas festas. - Falo. - Então não me sinto confortável com toda essa
agitação.

- Por que veio então? - Ele pergunta com desdém aparente.

- Pode ter certeza que não foi porque eu quis. - Reviro os olhos.

Lu sabe me fazer ceder mesmo que seja contra minha vontade. Sei que ela quer o melhor para
mim, e quer me ver ser mais extrovertida e sair mais. Mas não consigo me acostumar e não
quero uma vida badalada igual a dela.
Apesar de ser meio solitário, gosto da tranquilidade que é minha vida. E não sinto vontade de
estar no meio dessas pessoas superficiais, que estão a sua volta. São mesquinhos e se
importam consigo mesmo, mas graças a Deus Lu não é assim. Ela não foi corrompida com o
glamour do mundo em que vive.

- Você não parece o tipo de garota que curte a vida. - Ele diz com desdém. - Mas sua cara de
boa moça não me engana.

- Você parece exatamente o tipo de homem que se acha o centro do universo. - Retruco.

- Você...

- O quê? - O interrompe. - Está acostumado com as mulheres caindo aos seus pés não é? -
Pergunto com um sorriso cínico nos lábios. - Tenho certeza que está passando várias teorias
pela sua cabeça nesse exato momento. - Estalo a língua. - Mas pode ter certeza que não faço
parte desse mundinho mesquinho que você vive, pode ter certeza que não estou tentando me
fazer de boa moça para te seduzir, e com toda certeza não me importo com o que pensa a
meu respeito.

Ele me encara de olhos arregalados e boquiaberto.

- Você...

- Se a única coisa que sai da sua boca é ofensa, sugiro que fique calado. - O corto novamente. -
Se me der licença, vou embora agora mesmo, já que minha presença fere o seu grande ego
masculino.

Pego meu celular na poltrona, e caminho em direção a saída do quarto.

- Tenha uma excelente noite. - Falo antes de sair do quarto.

Esse imbecil nem me conhece, e acha que estou dando em cima dele, apenas por ter a
infelicidade de ter entrado no seu quarto.
Procuro por minha amiga em meio as pessoas mas acabo desistindo, já que não achei ela em
lugar algum. Assim que saio da casa mando mensagem para ela avisando que estou indo
embora.

Respiro aliviada enquanto caminho pelas ruas silenciosas, mas meu sossego não dura muito
tempo. Meu corpo gela assim que me deparo com algo assustador.

Cap 3

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