Você está na página 1de 87

ISBN (versão impressa) 978-85-69215-02-8

1a edição, 2017

Proibida a reprodução, gravação ou armazenamento total ou parcial desta obra, em sistemas eletrônicos,
fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos e/ou outros quaisquer, sem autorização prévia, por
escrito do autor. (Lei 9.610 de 19/02/1998).

Editor:
Rodrigo Bibo de Aquino
Transcrição:
Joaquim Avelino
Revisão:
Adalberto Nunes
João Guilherme S. dos Anjos (Box95)
Adaptação para e-book:
Josué de Oliveira
Capa:
Guilherme Gontijo (Box95)
Esta edição foi feita pela Box95, em parceria com a
BTBooks, especialmente para você, associado da
Box95, com muito carinho.
SUMÁRIO

Apresentação
Introdução

1. O que Jesus exige de seus seguidores


2. Religiosidade e cristianismo
3. A impureza e o chamado para a santidade
4. Nossas palavras revelam quem nós somos
5. Um irmão em Cristo me deu prejuízo: e agora?

Epílogo
APRESENTAÇÃO

Uma das mensagens da Reforma Protestante é o retorno às Escrituras


Sagradas. Representada pelo sola scriptura, a mensagem é que somente a
Bíblia é nosso guia de fé e prática, infalível e inerrante. Neste ano em que se
comemora os 500 anos desde que Lutero pregou suas teses na porta da igreja
do castelo de Wittenberg e iniciou uma revolução, essas informações já não
são tão novas para muitas pessoas.
Porém, não basta aprender que não aceitamos qualquer outro texto como
sendo inspirado, não basta vociferar que nada que o homem diz, ontem ou
hoje, tem mais peso que a Palavra de Deus. É preciso mais. Deus nos chama
a vivermos o que está registrado no seu livro sagrado. Nosso padrão de
comportamento ético não pode estar além nem aquém do que Deus nos revela
em sua Palavra. Qualquer rigidez moral que sobrepuja a Bíblia redunda em
legalismo, qualquer frouxidão redunda em liberalismo, senão libertinagem.
Dizer sim ao chamado de Deus de sermos santos porque ele é santo é
desafiador e, para buscar a santidade de forma genuína, é imprescindível
viver o sola scriptura, ou seja, não basta negar outra autoridade que não a
bíblica, é preciso olhar para ela e perceber que não dá para ser como antes,
não dá para viver segundo os padrões da nossa era. Essencialmente, pregar o
sola scriptura implica em nadar contra a corrente, remar contra a maré, ir
contra o fluxo.
Neste livro, Augustus Nicodemus expõe com maestria cinco temas para
quem quer ser, digamos, crente de verdade. E ser crente de verdade, hoje, na
época de Jesus ou nos dias da reforma, é caminhar no sentido contrário, é ir
contra o fluxo. Afinal, amar Cristo sobre todas as coisas importará em
negação das próprias paixões, perda de amigos ou família, poderá trazer
sofrimento. Mas ser cristão sem amar Cristo não é ser cristão. E amar Cristo
sem ir contra o fluxo do mundo é impossível. Seja crente de verdade, entenda
o que Jesus exige de seus seguidores.
Cuidado! Entender errado o que é ser crente de verdade poderá te levar a
um comportamento farisaico, o qual é mais religiosidade do que cristianismo
de verdade, por isso, observe bem o segundo capítulo deste livro para não
incorrer no mesmo erro dos fariseus e dos clérigos católicos do século 16,
que, apesar de bonitos por fora, tendo todas as regras decoradas de trás para
frente, eram, na verdade, podres por dentro. Isso não é seguir Jesus.
O verdadeiro seguidor de Cristo que anda contra o fluxo vê a si próprio como
o pior dos pecadores e clama incessantemente pela graça, para ter diariamente
o coração moldado ao caráter de Cristo.
Corações quebrantados buscam santidade invariavelmente. Não existe
meio termo, não existe desculpa, nem contexto. E santidade não caminha
com imoralidade. E imoralidade é mais ampla do que nossos corações
pecaminosos querem interpretar. Como Nicodemus expõe no capítulo três,
Deus exige de nós um padrão de comportamento sexual. Conforme nos
ensina 1Ts 4.1-8, o viver que agrada a Deus envolve abstenção da
imoralidade sexual, o que significa qualquer comportamento que atenda “a
paixão de desejos desenfreados, como os pagãos que desconhecem a Deus”
(v. 5).
Seja crente de verdade. Em meio a tantas notícias de corrupção, de
mentiras e dissimulações, ande contra o fluxo e deixe o Espírito Santo limpar
seu coração para que suas palavras não denunciem seu interior corrompido,
mas exibam um coração transformado pela graça de Deus.
Sabe o que é mais bonito neste livro? O autor não tirou nada da sua
própria cabeça. Ele simplesmente expôs a Palavra de Deus, nosso guia de fé e
prática, pois uma importante herança da Reforma Protestante é esta: não
pregaremos nada que não seja a Palavra de Deus, não pregaremos nada que
não esteja na Palavra de Deus, não deixaremos nunca de pregar a Palavra de
Deus.
Que esta obra te inspire a buscar Jesus de todo o coração, a desenvolver
seu caráter, a ir contra o fluxo.
JOÃO GUILHERME E OLAVO BANDEIRA
Brasília, outubro de 2017
INTRODUÇÃO

Quando assumi o pastorado da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia em


agosto de 2014, decidi iniciar meu ministério ali pregando sermões que
fossem úteis e relevantes para o maior número possível de pessoas que
viessem a participar dos cultos da manhã e da noite. Como eu ainda não
estava familiarizado com a igreja e sua membresia, escolhi temas que julguei
que teriam uma aplicação prática para todos.
Assim, preguei sobre as demandas de Jesus aos seus seguidores, os
perigos da religiosidade, a necessidade de uma vida livre da imoralidade, o
poder e o efeito das nossas palavras, quer para o bem, quer para o mal, e
obviamente, sobre irmãos que causam prejuízo financeiro a outros.
Essas mensagens foram muito abençoadas por Deus na vida da igreja.
Depois, elas foram disponibilizadas na Internet e tiveram um alcance ainda
maior. Agora, elas viraram o livro que o leitor tem em mãos.
Acredito que a utilidade dessas mensagens é que elas tratam de assuntos
que representam áreas constantes de conflito e luta na vida dos crentes em
Jesus Cristo. Disciplina pessoal, piedade e vida devocional, santidade e
pureza na área sexual, o emprego certo das palavras e os problemas na área
financeira são temas recorrentes na vida da maioria dos cristãos. O objetivo
deste livro é ajudá-los a encarar esses problemas e lidar com eles de maneira
cristã.
Acredito que a pregação expositiva é a melhor e mais eficaz maneira de
pregar a Palavra de Deus. O que você tem em mãos, portanto, são exposições
bíblicas de textos que considerei apropriados para tratar desses assuntos.
Assim, leia este livro com sua Bíblia na mão. Minha oração é que Deus o use
para abençoar sua vida como usou para abençoar aqueles que primeiro
ouviram essas mensagens no templo da Primeira Igreja Presbiteriana de
Goiânia.
1

O QUE JESUS EXIGE


DE SEUS SEGUIDORES
Texto-base: Mateus 10.34-391

Introdução

Meu querido leitor, minha intenção neste capítulo, em primeiro lugar, é expor
as demandas que o Senhor Jesus Cristo faz nessa passagem com relação aos
seus seguidores. Em segundo, chamá-los à submissão plena e completa à
pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Acredito que nem sempre entendemos o que significa ser cristão. O
pecado afetou toda a raça humana e o indivíduo como um todo de tal maneira
que não existe uma solução parcial ou indolor, por assim dizer, para o
problema causado por ele.
A solução de Deus é extremamente radical, e Cristo, aqui, apresenta-a de
maneira clara. As demandas que ele faz para as pessoas que se dizem cristãs
ou que querem segui-lo são demandas extremamente radicais.
Creio que, às vezes, não estamos entendendo isso. Pensamos,
ocasionalmente, que ser um cristão evangélico é uma opção que fazemos
entre tantas tradições religiosas. E é bem verdade que essa escolha é feita sem
que nós tenhamos ideia do que representa, de fato, ser um seguidor de Jesus
Cristo.
Penso que, se entendêssemos o que Jesus requer de nós, o número de seus
seguidores seria bem menor. E é exatamente por existirem tantos conceitos
errados a respeito do que é ser cristão ou de quem é Jesus Cristo que
precisamos sempre nos voltar a esses ensinos básicos do Senhor, a fim de que
nós estejamos seguros de que, de fato, queremos ser cristãos e o que está
envolvido nisso.
Jesus disse essas palavras aos seus discípulos quando os mandou em
missão. Elas se iniciam no capítulo 10, verso 1. Jesus chama seus doze
discípulos, dá a eles autoridade para expelir demônios e curar toda sorte de
doenças e enfermidades. No verso 5, ele os envia com uma série de
instruções, dadas à medida que eles iam de cidade em cidade, de vila em vila,
pregando e anunciando o Evangelho. Ele ainda dá algumas admoestações
sobre como deveriam se comportar nas casas que os recebessem e os encoraja
diante das dificuldades.
No texto que encabeça esse primeiro capítulo, Jesus apresenta com clareza
as demandas que serão exigidas não só dos doze, os quais por ele estão sendo
enviados, mas também daqueles que quiserem ouvir a mensagem dos doze e
se tornarem cristãos.
Jesus faz três demandas, que serão apresentadas a seguir.

Primeira demanda: sofrer por Cristo

Se quisermos nos tornar cristãos, temos que estar dispostos a sofrer por causa
de Jesus. Se nós estamos pensando que o cristianismo é uma religião que veio
para nos livrar dos nossos problemas, trazer-nos paz e tranquilidade, além de
uma vida relativamente tranquila, estamos muito enganados, porque a
primeira demanda apresentada por Jesus nos diz que nós temos que estar
dispostos a sofrer por causa dele.
Ele apresenta a razão no verso 34: “Não penseis que vim trazer paz à
terra; não vim trazer paz, mas espada”.
Para entendermos o que Cristo quis dizer com “Não penseis que vim
trazer paz à terra”, é necessário entender o seu alvo nesse trecho. É bem
verdade que ele trouxe, sim, paz entre nós. Por meio de seu sacrifício na cruz,
tendo pagado a nossa culpa e sofrido o castigo que nos era merecido e justo,
reconciliou-nos com Deus para que pudéssemos ter paz com ele. Por causa
disto, podemos também ter paz com outras pessoas. Porém ele quis dizer que
seu alvo, na sua primeira vinda, não era estabelecer aquele reino messiânico
de paz que os judeus tanto ansiavam e que os profetas prometeram no Antigo
Testamento. Não era seu propósito resolver todos os problemas do mundo.
Quando ele veio a essa terra, há mais de 2.000 anos, seu objetivo não era
pregar paz e amor como pregavam os falsos profetas naquela época e nos dias
de hoje, os quais querem transformar Jesus em um arauto da paz – tanto é que
nas figuras que fazem de Jesus sempre o colocam com a pombinha branca e
com aquele rosto emaciado, olhos azuis e um aspecto sereno.
No entanto, ele não veio trazer paz. Esse Jesus que pintam não é o Jesus
viril que o Novo Testamento apresenta. Cristo diz: “Não pensem que eu vim
trazer paz, eu não vim resolver os problemas do mundo agora, eu não vim
instalar um reino onde todos viverão em harmonia, eu não vim acabar com as
guerras e as polêmicas, não foi isso o que eu vim fazer”.
Então, este é o primeiro esclarecimento a respeito de Cristo que precisa ser
feito: ele traz paz no sentido de que, pelo seu sacrifício, nós temos paz com
Deus e, assim, podemos ter paz com outras pessoas. Todavia, isso está longe
de tornar Jesus uma espécie de pacificador ou uma pessoa que veio ao mundo
para resolver todos os seus problemas e estabelecer um reino de paz. Pelo
menos, não foi isso que ele veio fazer agora. Pelo contrário! Ele diz que veio
trazer espada. Mas o que ele não quis dizer com isso?
Quando Jesus disse que veio trazer espada, ele não disse que veio fundar
uma religião ancorada na violência, como existem algumas neste mundo.
Quando ele declarou que veio trazer espada, ele não quis dizer que nós
deveríamos nos armar e lutar contra o resto do mundo, muito menos que nós
viríamos a usar espadas ou armarmo-nos para converter os infiéis pela força.
Jesus Cristo não está dizendo isso.
O que ele quis dizer com essa expressão é que, por causa dele, haveria
muitos conflitos entre pessoas, cidades e até países e que a sua pessoa seria
motivo de discórdia, de polêmicas e de inimizade. E a razão para isso é a
apresentação radical que ele faz de si mesmo.
Jesus se apresenta como sendo o Filho de Deus, aliás, o próprio Deus. Ele
diz que é o único caminho para Deus e que, sem ele, todos estão perdidos;
expõe a perdição da humanidade por causa dos seus pecados e diz que o ser
humano sozinho não pode alcançar a felicidade eterna; ele afirma ser o
caminho, a verdade e a vida. Isso é colocar uma espada na mão de quem não
acredita. Por afirmar essas coisas, os seguidores de Jesus despertam
inimizade, hostilidade, ódio e perseguição por parte de quem não acredita em
Cristo.
A espada que Cristo trouxe não é para que seus seguidores firam o mundo.
Por incrível que pareça, a espada que ele trouxe é a mesma pela qual os seus
seguidores são feridos.
A pessoa de Jesus provoca esse comportamento por causa das suas
demandas radicais e pela forma como ele se apresenta: o Filho de Deus, o
único em quem existe salvação, sendo que fora dele não há possibilidade de
redenção ou felicidade eterna.
Essa espada, portanto, que é resultado de quem é Jesus, é tão profunda que
corta, inclusive, laços familiares, como ele diz no verso 35: “Pois vim causar
divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua
sogra”.
Existe uma relação mais querida do que a de pai e filho? Eu amo meu pai
e eu amo meus filhos. E eu sei que vocês sabem o que é isso. Mas Jesus está
dizendo que essa espada que foi trazida por ele corta, inclusive, esse tipo de
laço. Do mesmo modo, a relação de mãe e filha, que também é um laço terno,
querido, profundo, é cortada por essa espada. O terceiro laço pode parecer
mais fácil, pois é entre a nora e sua sogra. Mas, brincadeira à parte, sabemos
que há sogras que são maravilhosas, como a minha.
Eu compreendo a dificuldade. O que o Senhor está dizendo é que a sua
pessoa, quem ele é, as suas demandas, o que ele representa, causam atrito e
polêmica entre as pessoas a ponto de separar, inclusive, familiares.
Veja como ele diz que haveria inimigos do homem até mesmo em sua
família: “Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa”. Em
outras palavras, algumas pessoas odiarão Jesus e seus seguidores com
tamanha ira que, se um filho se tornar discípulo de Cristo, o amor do pai por
esse filho será menor que o ódio sentido por Cristo. Igualmente na relação
entre irmãos ou de um filho para com seu pai.
E isso tem acontecido ao longo da história, especialmente em períodos de
perseguição aberta e oficial ao cristianismo. Durante o Império Romano, há
muitas dessas histórias. John Foxe, em O Livro dos Mártires, página 353,
relata um caso de uma mulher que entregou o marido às autoridades para ser
morto, porque ele se tornou cristão; ou ainda casos de pais que renegaram
filhos, entregando-os para serem mortos, porque se tornaram cristãos.
Nos países comunistas, onde há perseguição até hoje, há casos e casos de
famílias que entregaram seus membros que se tornaram cristãos para não
serem mortas ou presas; em países islâmicos, isso também ocorre ainda hoje.
Enfim, famílias se fragmentam, dividem-se, acabam-se, porque um membro
entrega o outro que se tornou cristão.
Em resumo, Jesus é claro: quem quiser ser discípulo dele tem de estar
disposto a enfrentar a ira e a hostilidade do mundo e até mesmo a da esposa,
do marido, dos pais ou dos irmãos.
Veja como é esse cristianismo que nos é apresentado aqui. Essa demanda
de Jesus torna o cristianismo bíblico bem diferente daquele tipo que apresenta
Cristo como uma espécie de guru que prega paz e amor a todos. Esse não é o
Jesus da Bíblia. Este é muito claro com seus seguidores. Ele está dizendo
que, na hora em que nos tornarmos seguidores dele, devemos nos preparar,
porque a espada poderá ir até a nossa casa, até o nosso casamento, até o nosso
relacionamento com nossos filhos, porque ele não veio trazer paz no presente
momento, mas a espada, e os inimigos do homem serão os da sua própria
casa.
Esta é a primeira demanda de Jesus: vocês têm de estar dispostos a sofrer
por ele, inclusive dentro das suas próprias famílias.

Segunda demanda: amar Cristo acima de tudo e de todos

A segunda demanda é ainda mais radical. Jesus diz que ele é a pessoa que
você deve dar amor supremo. Ele exige isto, conforme os versos 37 e 38:
“Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim;
quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e
quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim”.
Mas o que significa ser digno de Jesus? É ser, e eu uso essa palavra com
cuidado, merecedor. Mas do quê? Do amor, da graça, da misericórdia de
Cristo. É poder ter o direito de dizer que é, de fato, cristão. É ser digno de tal
modo que Jesus não se envergonhará de nós. Isso é ser digno dele. Mas, para
isso, ele diz que temos que o amar acima daquilo que nós temos de mais
precioso, que é a família e a nossa própria vida.
Você tem que amá-lo acima de tudo. Mas o que significa isso? Preste
atenção. Ele não está dizendo que temos de deixar nossa família, nossos lares
e irmos morar com nossos irmãos em Cristo, como se eles fossem uma nova
família. Algumas seitas fazem isso, como, por exemplo, os Meninos de Deus.
Essa seita é muito antiga e perigosa e tem seu foco de atuação principalmente
entre os jovens, nas universidades e escolas. Eles se apresentam como irmãos
em Cristo Jesus e tiram os jovens de seus lares para morar em comunidades,
em acampamentos. O moço e a moça largam suas famílias e seus estudos e
vão morar com outros jovens em retiros.
Não é isso que Jesus está dizendo. Ele não está nos incentivando a
abandonarmos nossa família, muito menos que negligenciemos nossas
obrigações com os familiares. Ele não está nos encorajando, por exemplo, a
nos envolvermos nas atividades da igreja de tal forma que nos esqueçamos de
nossas obrigações como membros de uma família (esposo, esposa, filho (a)).
Não é isso que ele está dizendo. O que ele quer dizer é que o nosso amor a ele
deve superar o amor que nós temos por qualquer outra pessoa, inclusive
familiares e parentes. Isso porque o nosso relacionamento com Cristo é
superior aos laços familiares e terrenos. Isso é algo que nós precisamos
entender claramente.
Os laços terrenos um dia acabarão. A relação entre pai e filho, mãe e filha,
irmão, irmã são pertencentes a essa vida. Um dia, isso tudo se acabará e no
novo estado, no novo mundo, na nova era que Deus está trazendo e que já foi
inaugurada, essas relações familiares desaparecerão. O que ficará é a nossa
relação com Deus e com os seus demais filhos. Então, aqueles que você hoje
ama como familiares poderão não ser os mesmos que estarão nesse reino
celestial. Se forem, aleluia. Mas o que prevalecerá na eternidade é a
irmandade. É a família da fé.
Veja como Jesus, nesse mesmo Evangelho, explicou isso, no capítulo 12,
versos 46 ao 50: “Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus
irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse:
Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te. Porém ele respondeu
ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E,
estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos.
Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão,
irmã e mãe”.
O Senhor Jesus disse que quem fizer a vontade do Pai é, de fato, seu
irmão, sua mãe e sua irmã, colocando em segundo lugar o relacionamento
familiar que ele tinha com a sua mãe e os seus irmãos terrenos. Isso quer
dizer que é esse o relacionamento que prevalecerá na eternidade e é por isso
que o Senhor Jesus Cristo disse que temos que amá-lo mais do que amamos
nosso pai, nossa mãe, nossos filhos e filhas, uma vez que essas relações
haverão de passar e a que permanecerá por toda a eternidade é a relação que
temos com ele.
Em outras palavras, o Senhor Jesus está dizendo que, se chegar uma
ocasião em que tivermos de escolher entre a nossa família e Jesus Cristo, a
decisão deve ser a favor de Jesus. Só assim nos tornaremos dignos dele.
Dou aqui alguns exemplos práticos: o marido de alguém cometeu um erro
que está sendo confrontado por algumas pessoas. A esposa dele é cristã,
crente, discípula de Jesus. Ela sabe que seu marido está errado, contra a
verdade de Cristo, e que está sendo confrontado. Porém, mesmo assim, ela
toma partido dele. Quem ela está amando mais? O marido ou Jesus Cristo? É
claro que ela pode ficar ao lado do seu marido, mas com sabedoria. Ela pode
dizer: “Querido, você sabe que eu te amo de todo coração, mas nesse ponto
você está errado. Eu vou estar ao seu lado. Se você tiver que ir preso, eu vou
para a cadeia com você, mas eu vou dizendo que você está errado. A verdade
é essa. Vamos admitir, corrigir e resolver isso”.
Há pessoas que, nesse particular, preferem ofender Cristo e a verdade,
ficando ao lado do familiar. Algo bem comum que poderia ser citado como
exemplo são casais que se dizem crentes, mas - quando o filho faz algo
errado na escola - defendem-no. Isso mostra que eles não estão amando Jesus
mais do que o seu filho, uma vez que a atitude correta é deixar este ser
corrigido. É preciso dizer: “Filho, você sabe que nós te amamos. Nós vamos
estar ao seu lado sempre, mas você está errado e precisa ser corrigido. Você
vai aceitar essa disciplina e essa correção”. Às vezes, nós defendemos os
nossos por causa desses laços.
Outra situação: alguém tem parentes que se envolvem em uma briga com
os sócios da empresa. Porém, mesmo sabendo que os parentes estão errados,
a pessoa toma partido deles.
Posso citar mais uma situação entre tantas possíveis: imaginemos os
familiares de uma pessoa lhe pedindo para fazer algo que, ao final, representa
um ato errado ou até ilegal. Por exemplo, o diretor de uma empresa está
fazendo um exame de seleção, e o seu sobrinho é um dos candidatos. De
repente, a irmã desse diretor pede que ele dê um jeitinho para que seu filho
obtenha aquele emprego, dizendo a ele: “É o seu sobrinho, dê uma forcinha”.
É exatamente isso que as pessoas fazem. Às vezes, elas querem usar os laços
familiares para propor ações que vão contra Jesus.
Em resumo, o que ele está dizendo é que quem quiser segui-lo precisa
estar disposto a tomar a sua cruz, conforme o verso 38, que diz que quem não
tomar a sua cruz e seguir após ele não é digno dele.
A cruz era um instrumento de morte. Os condenados à morte de cruz,
naquela época, carregavam-na nas costas até o local de execução. Foi isso
que obrigaram o Senhor Jesus a fazer. Ele foi até uma parte do caminho,
quando, então, Simão, o Cirineu, tomou a cruz de Cristo e a levou.
A figura presente aqui é que, diariamente, temos que morrer para nós
mesmos e para nossa vontade e submetermo-nos a Jesus. Isso significa tomar
a cruz. Às vezes, as pessoas dizem: “Essa doença é minha cruz!”. Não, esse
não é o sentido de tomar a cruz. Ela, aqui, é instrumento de morte,
representando que nós temos que mortificar nós mesmos e a nossa vontade e
morrermos para o nosso eu, para que então possamos seguir a Cristo. Nada
menos do que isso é exigido por ele. Jesus quer amor supremo, dedicação
suprema maior do que o amor que temos pela nossa família, maior do que o
amor que temos por nós mesmos.

Terceira demanda: perder a vida pelo Senhor


Esta, sem dúvida, é a demanda mais radical de todas. Jesus diz, no verso 39:
“Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha
causa achá-la-á”.
Esse é um dos ensinamentos que Jesus mais repetiu. Ele aparece cerca de
seis vezes nos quatro Evangelhos. Ele significa que quem acha a sua vida a
perderá.
Achar a vida significa alguém ser bem-sucedido, de acordo com os
padrões desse mundo, ser realizado profissionalmente, poder realizar todos os
desejos, ter independência financeira. E o pior: tudo isso alheio a Deus, sem
lugar para Jesus Cristo. No fim de toda essa dedicação aos próprios desejos,
pensando que ganhou a vida, verá que, na verdade, perdeu-a.
Então, achar a vida é entendido como lutar, procurar, esforçar-se, buscar
as coisas que as pessoas consideram como sendo as mais importantes em suas
vidas. Mas o que significa perder a vida?
A melhor resposta para isso é a parábola do Rico Insensato, contada por
Jesus e registrada em Lucas, capítulo 12, versos 16 a 21: “E lhes proferiu
ainda uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produziu com
abundância. E arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei, pois não tenho
onde recolher os meus frutos? E disse: Farei isto: destruirei os meus
celeiros, reconstrui-los-ei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos
os meus bens. Então, direi à minha alma: tens em depósito muitos bens para
muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te [...]”.
Vale comentar que aqui está um homem que achou sua vida: bem-
sucedido, com boa provisão, aposentadoria tranquila, possuidor de bens, sem
medo do futuro, tinha de sobra, possuía propriedades, enfim, alguém que
achou sua vida. Mas ele a perdeu, como veremos a seguir: “[...] Mas Deus
lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado,
para quem será? Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para
com Deus”. É isso que significa “Quem acha a sua vida perdê-la-á [...]”.
Muitas coisas dessa vida são lícitas, legais, boas, necessárias, mas o
problema é o primeiro lugar dado a elas. Sendo assim, se você se dedicar,
nesse mundo, no tempo presente, a buscar incessantemente apenas essas
coisas, aplicando nelas o coração e fazendo de Cristo apenas uma nota de
rodapé em sua vida ou, às vezes, nem dando importância nenhuma a ele, você
chegará ao fim de sua vida e verá que desperdiçou seu tempo, sua juventude e
suas forças correndo atrás daquilo que não lhe trará felicidade eterna, que não
resolverá seu problema de relacionamento com Deus.
Por isso, quem acha sua vida nesse mundo vai perdê-la, mas quem perde a
sua vida nesse mundo por causa de Jesus vai achá-la.
Você pode, sim, trabalhar, ganhar dinheiro, ter família, mas tudo isso
precisa ser secundário e por amor a Jesus, para de alguma forma promover o
nome de Cristo e trazer glória a ele, afinal, o Senhor é a razão de tudo que
você faz.
Outrora você era o centro de tudo, mas agora você vive para ele. A
diferença entre nós e os outros é que os outros querem ganhar dinheiro para
gastar consigo mesmos, mas nós, da mesma forma, queremos ganhar dinheiro
a fim de podermos abençoar os outros, para poder ajudar outras pessoas. A
diferença é a motivação.
Então, para os que perdem a vida aqui neste mundo, ou seja, para os que
renunciam a busca da sua própria glória, do seu próprio conforto; para os que
abrem mão das coisas do seu eu e vivem, de fato, para Cristo, ele promete,
por meio de sua Palavra, que estes acharão a vida.
Em resumo, quem quiser ser discípulo de Cristo deve estar disposto a
renunciar a si mesmo e a tudo quanto tem por amor a ele.

Conclusão

Mas com que direito Jesus Cristo exige isso? Quem é ele para prometer
essas coisas?
Amado leitor, pensemos direito. Nós temos aqui um judeu, filho de Maria,
chamado Jesus, que viveu aqui há mais de 2.000 anos. De repente, ele se
dirige para um grupo de seguidores e diz: “Vocês têm que me amar mais do
que vocês amam as suas famílias; vocês têm que estar dispostos a morrer por
minha causa; e digo mais, se vocês não passarem a vida toda tendo a mim
como a razão suprema de vocês serem, vocês estão condenados”.
Notemos que estamos diante de um homem que só pode ser duas coisas:
um louco ou Deus! Não há opção. Ele ou é louco, megalomaníaco, esperto,
porque enganou quase três bilhões de pessoas, que é a quantidade de cristãos
que existe hoje, ou ele é o que diz realmente ser.
Sendo assim, você, leitor, precisa decidir: quem é Jesus para você? Pense
no que ele está reivindicando. Nenhum outro fundador de religião, se é que
eu posso chamar Jesus de um fundador de religião, fez demandas ao menos
parecidas com essas. Ninguém. Nesse sentido, de fato, ele é único.
Não há opção para nós. Jesus demanda isso porque ele é Deus. Ele é o
Filho de Deus. Ele é o Criador de todas as coisas e o Senhor de tudo e de
todos, que morreu pelos nossos pecados, ressuscitou dos mortos, subiu aos
céus e tem todo poder no céu e na terra e em todo o universo. Sendo assim,
ele tem o direito de exigir de nós amor supremo, lealdade absoluta e
obediência total. Ninguém mais pode demandar isso se não for o próprio
Deus. Ninguém tem o direito de pedir essas coisas a não ser que ele seja
Deus. Nenhum ser humano tem o direito de pedir essas coisas a outro ser
humano.
Todavia, se Deus, o Criador de todas as coisas, na Pessoa do seu Filho,
veio até nós e nos fez tais demandas, é nosso dever curvarmo-nos diante dele
e obedecer-lhe.
O que isso representa para nós hoje (nós que nos dizemos crentes, cristãos,
evangélicos)? As perguntas são: nós somos dignos dele? Nós amamos o
Senhor Jesus mais do que nosso cônjuge, filhos, irmãos, pais? Estamos
dispostos a renunciar a tudo que temos e ao que somos por amor a Jesus?
Valorizamos a vida eterna que ele nos promete mais do que a vida nesse
mundo? Ele tem o primeiro lugar na nossa vida?
Qual é a razão pela qual, às vezes, muitos cristãos são apáticos e
descomprometidos? Das duas uma: ou porque nunca entenderam de fato
quem é Jesus Cristo ou porque entenderam, mas, por alguma razão que vai
desde a incredulidade até a covardia, eles não têm a disposição de assumir o
que significa de fato ser cristão. Espero que você não se enquadre nesse caso.
Quero, então, convidá-lo a repensar sua vida e sua declaração de fé de que
você é cristão. É mesmo? Olhe o que ele exige de nós. Olhe para os seus atos,
olhe para as suas atitudes, para as suas escolhas, para os planos que você tem
feito. Qual o lugar de Cristo neles? Para que você quer ir para a universidade?
Para que você quer um emprego? Para que você quer constituir uma família?
Por que você está correndo atrás dessas coisas? Qual a razão? Qual o lugar de
Cristo em sua vida? Se ele tem o primeiro lugar nela, quanto tempo você
dispõe para se dedicar a ele? Você lê a sua Palavra? Gasta tempo em oração e
em comunhão com ele? Porque se nós amamos uma pessoa, é claro que nós
queremos estar com ela.
Eu quero que você examine sua vida e tome uma decisão: ou você é, de
fato, discípulo de Cristo nos moldes ditados por ele ou então é melhor fazer
como muitos: virar as costas e ir embora. E eu espero que isso não seja
necessário como aconteceu quando Jesus ensinava na sinagoga de
Cafarnaum. Quando disse quem ele era e o que queria, muitos, entendendo a
mensagem, viraram as costas e foram embora2.
Por isso, eu coloquei que, se nós entendêssemos quem é Jesus, o número
de seus seguidores seria bem menor, porque ele nunca esteve interessado em
números. Somos nós que ficamos interessados em encher a igreja. Jesus
nunca esteve preocupado com isso, pelo contrário, ele estava expulsando
pessoas, pois só queria que ficasse quem realmente era dele, quem de fato o
amava, quem o entendia. Ele queria o verdadeiro adorador, não um
consumidor do evangelicalismo brasileiro (trazendo para nossos dias), mas
um discípulo de verdade.
Se você ainda não se dobrou diante de Jesus Cristo como Senhor e
Salvador, eu te convido para tal. Não deixe passar essa oportunidade que
Deus te dá. Você acabou de ler essa exposição da Palavra de Deus que
apresenta as demandas de Cristo, as promessas que ele fez. Não há salvação,
de fato, em nenhum outro. Ele é o Filho de Deus e o salvador do mundo. Ele
te chama a se curvar diante dele.
Certamente, eu não estou pedindo para você dar uma chance a Jesus
Cristo, como, às vezes, as pessoas fazem: “Dê uma chance a Jesus”. Não, de
jeito nenhum. É ele que está dando a você a chance. Ele te chama pela leitura
da sua Palavra, do Evangelho, e você deveria dar atenção a ele porque nem
sempre a porta estará aberta.
Que você possa tomar a decisão de se curvar diante dele e confessá-lo
como Senhor. Que possa se entregar a ele e que Cristo seja o amor maior em
sua vida.
Amém!

Oração

Jesus, quem é digno do Senhor? Cristo, Filho de Deus, ressurreto dos mortos, entronizado à direita
do Pai nas alturas, o Senhor tem todo o poder no céu e na terra e pode fazer essas reivindicações
sobre nossa vida, nossos bens, nossos laços familiares, porque o Senhor é digno, nosso salvador e
nosso Redentor.
Senhor, ensina a nós esse cristianismo radical que é ensinado na Bíblia. Que nós te amemos de
coração mais do que amamos qualquer outra coisa. Ajuda-nos a sermos fiéis ao Senhor mesmo que
isso nos custe amizades preciosas, laços preciosos e coisas preciosas neste mundo.
Ajuda-nos a amá-lo acima de tudo, com os olhos na glória, com os olhos na eternidade, quando
então o reino de paz será estabelecido, quando finalmente a paz reinará neste mundo, quando o
Senhor vier pela segunda vez para reinar com os seus.
Jesus, se o leitor ainda não havia compreendido o que é o Evangelho e quem é o Senhor, faça
brilhar a sua luz no seu coração para que discípulos verdadeiros sejam chamados para viver para
sua glória.
Perdoa-nos, Deus, e recebe-nos por amor de Jesus.
Amém!

1 Sermão pregado em 26 de outubro de 2014.


2 Cf. João 6.60-69.
2

RELIGIOSIDADE
E CRISTIANISMO
Texto-base: Mateus 23.1-383

Introdução

Caro leitor, o meu alvo neste capítulo é refletir a respeito da diferença que
existe entre religião e cristianismo; entre religiosidade e a verdadeira prática
espiritual. Para isso, usarei esse sermão de Jesus contra os religiosos da sua
época: os fariseus e os escribas. Esse sermão aparece também em Lucas 11,
um pouco resumido, o que mostra que Jesus, em outro contexto, disse essas
coisas várias vezes.
Ao falar sobre religiosidade e verdadeiro cristianismo, fazendo uso dessa
passagem na qual Jesus fala contra os fariseus, eu estou consciente de que eu
não posso comparar os cristãos verdadeiros com os fariseus e, de certo, essa
não é a minha intenção, visto que seria desonesto com você.
O que ocorre, porém, é que existem elementos da religiosidade dos
fariseus que percebo estarem presentes também no meio dos evangélicos. Por
isso, mesmo que a comparação esteja muito distante, ainda há pontos
mencionados por Jesus, nos quais ele critica os escribas e fariseus, que bem
podem ser aplicados à nossa vida, pelo menos à guisa de exame e de
referência.
Eu creio que toda Escritura é proveitosa e se aplica a nós. Ela foi escrita
para o nosso benefício. Portanto, o capítulo 23 de Mateus não é uma exceção.
E, com certeza, se essa mensagem de Jesus contra os escribas e fariseus foi
preservada no Evangelho, é porque Deus, sem dúvida, deseja que ela seja
lida, refletida e aplicada pela sua igreja durante todas as suas épocas.
Meu alvo é que, ao examinarmos aquilo que Jesus criticou na religiosidade
dos escribas e fariseus, nós nos examinemos também, a fim de que possamos
aprender e desejar o cristianismo puro e simples que a Bíblia nos ensina. É
isto que nós queremos ser: cristãos, de acordo com o que o Evangelho nos
ensina.
Mas deixe-me fazer outras observações à guisa de introdução. O ser
humano é religioso por natureza. Mesmo as pessoas que não nasceram de
novo, que não foram regeneradas e que não estão salvas, são capazes de orar,
cantar, dar ofertas, fazer sacrifícios. A prova disso é a quantidade de religiões
falsas que existem no mundo, nas quais as pessoas fazem praticamente tudo o
que os cristãos fazem. Elas vão aos seus cultos, têm corais, pregadores e
pastores, dão ofertas, fazem sacrifícios, vão de porta em porta distribuindo
folhetos e espalhando aquilo em que elas creem, ou seja, a religião é algo que
pertence ao ser humano, mesmo que ele não seja salvo. Desse modo, um
descrente pode ser religioso.
Por isso, nós não podemos medir a salvação de alguém simplesmente
pelos atos religiosos que ele pratica, porque um descrente também pode ser
religioso.
Então, é preciso notar quais são esses elementos da religiosidade que, por
vezes, manifestam-se em nossa vida, para que nós os rejeitemos e vivamos
um cristianismo autêntico, puro e simples.
Quando Jesus disse essas palavras, ele estava na última semana da sua
vida terrena, em Jerusalém. Ele já tinha tido vários conflitos com os escribas
e fariseus. Se você, depois, quiser ler o capítulo 22, poderá notar que houve
uma discussão entre Jesus, os escribas e os fariseus com relação ao tributo –
eles discutiam se era necessário pagar imposto a Cesar ou não; depois, houve
uma discussão a respeito da ressurreição; logo em seguida, um debate sobre
qual era o grande mandamento; e ainda sobre quem era aquele senhor sobre o
qual o rei Davi havia dito no Salmo 110, verso 1: “Disse o SENHOR ao meu
senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos
debaixo dos teus pés”.
Aquela tinha sido uma semana extremamente conturbada, e Jesus estava
envolvido em polêmicas e discussões diretas com os escribas e fariseus, que
eram os líderes religiosos daquela época. E agora, no fim, como que já
cansado de ver tanta cegueira, tanta religiosidade, tantos conceitos errados,
Jesus, então, pronuncia, no capítulo 23, esse sermão, que é considerado um
dos mais duros pronunciados por ele.
Contudo, é preciso lembrar que nem todos os fariseus eram como Jesus
está dizendo aqui. Havia fariseus como, por exemplo, Nicodemos e José de
Arimateia, os quais esperavam o Reino de Deus, eram sinceros, verdadeiros,
tementes a Deus e portadores da verdadeira fé.
Porém a grande liderança do farisaísmo daquela época era composta de
pessoas extremamente religiosas, mas que não conheciam a Deus. De
qualquer forma, eles praticavam a sua religião pensando que estavam fazendo
o que era correto diante de Deus.
O que, então, Jesus censurou neles? Ao respondermos essa pergunta, nós
estaremos dando alguns dos elementos da religiosidade que nós queremos
evitar.

Hipocrisia

A primeira censura de Jesus aos fariseus e escribas foi quanto à hipocrisia,


como consta no capítulo 23, versículos de 1 a 3: “Então, falou Jesus às
multidões e aos seus discípulos: Na cadeira de Moisés, se assentaram os
escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem,
porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem”.
Havia, literalmente, uma cadeira na sinagoga chamada “cadeira de
Moisés”, na qual os fariseus e os escribas se assentavam para ensinar todos os
ditames da Lei ao povo. Eles sabiam de cor o discurso ortodoxo a ponto de
Jesus dizer que o problema com eles não era seu ensino, pois eles eram
ortodoxos e doutrinariamente corretos. O problema estava no fato de eles não
praticarem o que ensinavam.
Nesse ponto, você tem o primeiro elemento da religiosidade: um religioso
é alguém que se preocupa com a exatidão, a precisão doutrinária, o
andamento das coisas de acordo com as normas, todavia, ele não vive aquilo
que prega e ensina.

Normas e regras

A segunda crítica de Jesus aos fariseus é que eles haviam criado normas e
regras que Deus nunca mandara, como consta no versículo 4: Atam fardos
pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens;
entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.
Não satisfeitos com a Lei de Moisés, que já continha muitas normas e
regras, os fariseus do período anterior a Cristo, por volta de 200 a 150 a.C.,
começaram a elaborar novas regras por meio dos rabinos. Como exemplo,
podemos citar a questão do sábado. Na Lei de Moisés, era dito que não se
podia trabalhar nesse dia. Mas o que era trabalho? A partir dessa pergunta,
podemos imaginar a seguinte discussão entre os rabinos: trabalho é andar um
quilômetro, logo, andar um quilômetro é pecado; trabalho é levantar três
quilos, ou seja, se levantar até dois quilos não é pecado, mas se levantar três
quilos ou mais, sim.
Claramente, aquilo que já era pesado, os rabinos tornaram mais pesado
ainda, criando normas que Deus nunca havia criado, impondo um fardo
difícil sobre o povo de Deus. Contudo, eles não queriam mover o fardo nem
com um dedo. Então, esse é o segundo aspecto da religiosidade: ela cria
normas e regras que Deus nunca mandou.
Um exemplo óbvio são aquelas regras que proíbem as pessoas de ir ao
cinema, de cortar os cabelos, de usar calça comprida, de usar barba, entre
outras. Há um legalismo no meio evangélico pelo qual as pessoas criam
normas, colocando-as sobre as pessoas, que, por sua vez, vivem carregadas
debaixo dessas regras e preceitos humanos nunca ordenados por Deus. A
religiosidade faz isso em nome de Deus.

Aprovação humana

A terceira crítica de Jesus aos fariseus é que eles buscavam a aprovação dos
homens. O versículo 5 diz: “Praticam, porém, todas as suas obras com o fim
de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as
suas franjas”.
Filactérios são caixinhas de couro, com trechos da Torá, que os judeus
amarravam nas mãos e na testa. Isso porque, em Deuteronômio 6.6-8, Moisés
tinha dito ao povo para guardar a Palavra de Deus no coração e atá-la à mão e
à cabeça. É claro que Moisés estava falando figuradamente, porque mão e
cabeça significam, respectivamente, o que alguém faz e pensa. Porém eles
interpretaram aquilo literalmente.
Outro ponto é que o fariseu mandava fazer essas caixinhas, de certo modo,
grandes para que, quando ele as colocasse na testa e nas mãos e saísse
andando pelas ruas, os homens olhassem e comentassem o quanto ele era
religioso e piedoso, até mesmo um santo, tal era o tamanho dos filactérios do
fariseu.
Já as franjas eram as borlas da veste. Elas funcionavam como o atual
rosário católico, que são aqueles nós (contas) usados para contar as orações e
os pais-nossos. Os judeus tinham, então, franjas, que eram penduradas na sua
roupa a fim de contar as orações. O problema é que os fariseus mandavam
encher suas roupas de franjas. Desse modo, quando eles andavam na rua com
aqueles filactérios e com as franjas, as pessoas que os viam poderiam, por
certo, dizer o quanto aqueles homens eram santos, não querendo, assim, nem
chegar perto deles, para não serem fulminadas, tal era a santidade.
É isso o que a religião faz. Ela busca agradar e impressionar as pessoas.
Um religioso dos dias de hoje é alguém que pratica o cristianismo, faz as
atividades relacionadas à vida cristã, mas apenas por estar preocupado em se
aparecer aos homens, em agradar-lhes, em ostentar a sua religiosidade. Não é
difícil dar exemplos disso.

Autoexaltação

O quarto item que Jesus condena nos fariseus é a autoexaltação. Os


versículos 6 a 12 nos dizem: “Amam o primeiro lugar nos banquetes e as
primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem
chamados mestres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres,
porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a
terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus.
Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o
maior dentre vós será vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar será
humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado”.
Os fariseus usavam a religião que eles praticavam para se promover diante
dos homens. Diz Jesus no versículo 6 que eles amavam o primeiro lugar nos
banquetes. Quando os judeus faziam os seus banquetes, eles reservavam
lugares para as autoridades. Assim, quando o judeu e o fariseu chegavam,
gostavam de ser distinguidos e se sentarem na frente, para que todos vissem
que eles eram pessoas especiais.
Nas sinagogas, isso não era diferente. Quando não era na cadeira de
Moisés, era nos primeiros lugares das sinagogas – bancos reservados para as
pessoas especiais. Logo, o fariseu fazia questão de sentar-se ali para que
todos pensassem que ele era uma pessoa especial.
Do mesmo modo, quando ele andava nas praças, gostava que as pessoas o
chamassem pelos títulos que tinha, como mestre e rabi. Isso era
extremamente apreciado por ele.
Jesus disse: “Vós, porém, não sereis chamados mestres [...]”. Ele não está
proibindo esse título, mas está proibindo que usemos esse título para bajular
alguém, ou que uma pessoa o use para se autoglorificar.
Quando Jesus diz: “[...] porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois
irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai [...]”, é claro que não
está proibindo que eu me refira ao meu genitor como pai; o que ele está
dizendo nesse ponto é que não façamos de alguém nosso pai, que não usemos
esse título para bajular alguém, ou que ninguém diga sobre si mesmo: “Eu
sou o pai dessa ideia, eu sou o pai dessa igreja, eu sou o mestre dessa igreja”.
Jesus completa dizendo que ninguém deveria usar esses títulos com esse
objetivo porque um só é o Pai, aquele que está nos céus; da mesma forma, ele
proíbe o chamar-se de guias, porque um só é o nosso guia: o Cristo. E afirma:
“Mas o maior dentre vós será vosso servo”.
Quer ser grande? Sirva. Você quer realmente ser grande? Então, o
caminho do cristianismo é o serviço. Na religião, para alguém ser grande, ele
precisa buscar títulos, posições nos primeiros lugares e ostentação, mas no
cristianismo quem quiser ser grande tem de começar sendo pequeno, servindo
aos irmãos e não sendo servido por eles.
Ainda sobre isso, no versículo 12, Jesus diz: “Quem a si mesmo se exaltar
será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado”. Ou seja,
quem hoje se exalta em nome de Deus, no Dia do Juízo será humilhado
diante dos homens e de Deus. A religião busca exaltação humana, mas o
cristianismo faz com que nós sejamos servos e vivamos para servir a ele.
Mas por que Jesus condenou essas atitudes? Do versículo 13 em diante,
ele muda a direção do discurso. Até aqui Cristo vinha falando aos discípulos
e alertando-os sobre ter cuidado com os fariseus. Agora, no versículo 13, ele
se volta diretamente aos fariseus, que estavam naquela audiência. Imagine-
nos ouvindo o que Jesus falava; pense em um sermão duro. É fácil falar dos
fariseus pelas costas, mas, no caso, eles estavam presentes naquela audiência.

Os ais

A partir deste ponto, Jesus, voltando-se a eles, pronuncia oito ais. Esses ais
são como condenações por determinadas coisas. Mas que coisas são estas?
Por que Jesus condenou essa religiosidade farisaica? Nós as veremos em
seguida.

Primeiro ai

Condena-se a religiosidade farisaica primeiramente porque esse tipo de


atitude que Jesus acabou de descrever acima impede não apenas que o
próprio religioso seja salvo, mas que outras pessoas sejam salvas. Como ele
disse no verso 13: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais
o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar
os que estão entrando!”.
Os escribas e fariseus deveriam estar abrindo o Reino de Deus para as
pessoas, porque eles conheciam a Lei; eles conheciam a Palavra de Deus e
seus ensinamentos dados por meio dos profetas, de Moisés, de Davi. Eles
eram os conhecedores daquilo que Deus havia dito no Antigo Testamento.
Mas, por causa da sua religiosidade, eles não entraram no Reino de Deus.
Além disso, pelos seus ensinos e exemplos, eles também não deixavam as
outras pessoas entrarem.
Quando nós fazemos essa aplicação em nossa vida, percebemos como a
religiosidade tem consequências terríveis. Pessoas que são religiosas – mas
que não são salvas – terminam por dar um péssimo exemplo, pois elas não
entram no Reino de Deus e acabam sendo um tropeço para aqueles que
querem entrar.

Segundo ai

A segunda razão pela qual Jesus condenou a religiosidade dos fariseus é que,
por vezes, ela é somente uma capa para esconder pecados. O versículo 14 diz:
“[Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque devorais as casas das
viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso, sofrereis juízo
muito mais severo!]”.
O fariseu chegava à casa de alguma pobre viúva que estava sofrendo e
dizia: “Irmã, eu vou orar pela senhora, mas você sabe, minha oração é paga
por tempo, se eu orar um minuto é uma dracma, se eu orar dois minutos serão
cobradas duas dracmas; a senhora sabe como é, tenho que ganhar a vida”.
Então, era como se ele ligasse seu taxímetro, vamos chamar de
oraçãozímetro, e começasse a fazer longas orações, porque na verdade ele
queria se valer da inocência e da ingenuidade da coitada da viúva, usando a
religião como meio de esconder e camuflar a sua ganância, o seu amor ao
dinheiro.
Da mesma forma, a religiosidade é uma capa para pecados mais sérios. Eu
já acompanhei e conheço casos de gente que estava na igreja, era superzelosa,
frequentava todas as reuniões de oração, não perdia um culto, exercia várias
atividades e ministérios, era oficial da igreja, mas, de repente, descobre-se
que tudo aquilo era uma capa e que, na verdade, aquele homem era
desonesto, ladrão, imoral, agredia a esposa, mas na igreja ninguém
suspeitava.
Às vezes, a religiosidade é uma capa apenas para esconder pecados graves
e terríveis, por isso, Jesus a condena, porque o religioso se justifica por meio
dessas práticas listadas acima.

Terceiro ai

O terceiro ai se encontra no versículo 15. Jesus condena a religiosidade


porque ela leva as pessoas ao inferno. “Ai de vós, escribas e fariseus,
hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma
vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!”.
Os fariseus eram extremamente ativistas. Eram evangelistas, saíam de
porta em porta evangelizando, pois queriam que os que não eram judeus se
tornassem judeus, especialmente o prosélito, que era um gentil, um não
judeu, que havia se convertido ao judaísmo e se circuncidado, sendo agora
um judeu. Então, os fariseus percorriam vários lugares e faziam qualquer
esforço para este fim. Jesus diz, neste ponto, que eles rodeavam mar e terra a
fim de conseguir seus adeptos. Todavia, no fim, esses coitados eram duas
vezes filhos do inferno.
Por isso, Jesus condenou os fariseus, porque a religiosidade leva as
pessoas ao inferno, visto que elas praticam aquilo que Deus não mandou ou
praticam aquilo que Deus mandou pelos motivos errados. Elas podem parecer
religiosas, podem enganar os seus corações com atos religiosos, mas, na
verdade, nunca nasceram de novo, nunca foram regeneradas, não conhecem a
graça de Deus, nunca tiveram um encontro verdadeiro com ele.
É justamente por esses fatores que a religiosidade é tão perigosa e
perniciosa e conduz para o inferno, porque a pessoa considera que ser
religiosa, ir à igreja, dar o dízimo, estar no ministério, ser pastor e pregador,
são evidências de que ela está salva. Porém ela pode não ser. Por isso, Jesus
adverte os escribas e fariseus, porque eles conduziam outras pessoas à
condenação.

Quarto e quinto ais

A quarta razão pela qual Jesus condenou a religiosidade dos fariseus é porque
ela foca no que é secundário e acaba se esquecendo do que é mais importante
na vida cristã.
Há dois ais que tratam disso. Eles estão na sequência dos versículos 16 ao
24: “Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é
nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que
jurou! Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que
santifica o ouro? E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém,
jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou. Cegos!
Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta? Portanto, quem
jurar pelo altar jura por ele e por tudo o que sobre ele está. Quem jurar pelo
santuário jura por ele e por aquele que nele habita; e quem jurar pelo céu
jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado. Ai de vós,
escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e
do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a
justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir
aquelas! Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!”.
O que esses dois ais têm em comum? É que em ambos os casos o que
Jesus está condenando é o foco dado pelos fariseus às coisas secundárias e
miúdas, esquecendo-se do quadro maior, do mais importante. É exatamente
isso o que o religioso faz. Ele está preocupado com as coisinhas pequenas, os
detalhes, os arranjos aqui e acolá, e se esquece das grandes coisas, das
grandes virtudes, dos pontos centrais do cristianismo.
No caso dos fariseus, temos primeiro a questão do juramento. Era comum
jurar entre os judeus. Na verdade, a Bíblia não proíbe esse ato. Ela proíbe o
juramento falso. Em algumas ocasiões, como diz nossa confissão de fé4, o
juramento é lícito. Mas os fariseus faziam disso algo banal. Vejam como é
que se manifestava a religiosidade. Eles diziam que a ação de jurar pelo
templo de Jerusalém e pelo santuário não significava nada, mas se alguém
fizesse um juramento pelo ouro trazido, ficaria devendo. Por que o judeu
queria pegar a consciência de quem jurava pelo ouro? Porque eles ficavam
com o ouro. Eles também diziam que jurar pelo altar não significava nada,
mas se alguém jurasse pela oferta trazida sobre o altar ficaria devendo. Por
que eles faziam isso? Porque eles não estavam preocupados com a oferta da
pessoa, no sentido de que a pessoa fosse aceita por Deus e perdoada, mas
estavam de olho na própria oferta. Logo, eles inventaram todas essas regras.
Então, Jesus os repreende dizendo: “Cegos, quem é maior? O que santifica
o ouro? É o templo. O que santifica a oferta? É o altar. Se você jura pelo céu,
está jurando por Deus. Tudo leva a Deus. Será que vocês não percebem?”. E
acrescenta: “Vocês estão cegos, estão torcendo a Palavra de Deus e focando
nas coisas secundárias, por causa do interesse mesquinho de vocês”.
Jesus, então, após repreendê-los chamando-os de cegos, questiona-os
sobre quem era o maior: o ouro ou o santuário que o santifica? A oferta ou o
altar que a santifica? Acrescenta dizendo que, se alguém jurar pelo céu, está
jurando por Deus, porque tudo leva a Deus. Diante disto, os escribas e
fariseus, por causa de seus interesses mesquinhos, estavam torcendo a
Palavra de Deus e focando nas coisas secundárias.
O mesmo acontece no versículo 23, no qual ele diz: “[...] porque dais o
dízimo da hortelã, do endro e do cominho [...]”. Os fariseus tinham roça em
suas propriedades. Eles davam 10% da alface, do tomate, do legume, do
endro, do cominho etc. Eles mediam com exatidão. Toda décima parte tinha
de ser levada à igreja. Essa questão de líquido ou bruto não interessava a eles.
Tudo era calculado sempre pelo bruto. Eles eram meticulosos para dar aquilo.
Mas se esqueciam das coisas mais importantes da Lei: a justiça, a
misericórdia e a fé.
Alguém pode estar tão preocupado com as coisas da igreja, como a
organização do templo e o andamento dos serviços; pode estar tão
mergulhado em atividades, cuidando de um detalhe aqui, outro ali, que acaba
se esquecendo de que o cristianismo não é isso. É muito mais que isso.
Religião é tornar esses equipamentos, recursos, lugar e atividades em fins
em si mesmos. Estas coisas existem para nos levar a Deus, a seu filho Jesus
Cristo; elas existem para nos levar a viver vidas santas, retas e justas. Ou
como disse Jesus: “[...] a justiça, a misericórdia e a fé [...]”.
Às vezes, as pessoas se dedicam aos acessórios da igreja, como se fossem
a própria religião verdadeira em si, e perdem de vista o mais importante,
como Jesus disse: “[...] coais o mosquito e engolis o camelo!”. Mosquito era
um inseto considerado impuro, então, o judeu, para não correr o risco de
engolir um mosquito, colocava um coador por cima de tudo o que ele fosse
beber. Ele era muito cuidadoso nisso. Mas, ao mesmo tempo, ele engolia um
camelo, que também era um animal imundo, sendo o maior animal conhecido
pelo judeu. Então é óbvio o que Jesus está dizendo aqui. Ele está condenando
aquela atitude do religioso, porque ele é meticuloso com coisas secundárias e
se esquece de ser santo, de orar, de amar, de exercer misericórdia e de exercer
e praticar a justiça.

Sexto e sétimo ais

A quinta razão pela qual Jesus condena aquela religiosidade é porque ela leva
as pessoas a se preocuparem com o que é externo, esquecendo-se, então, do
que é interno. Mais uma vez, temos dois ais sobre esse tema. Os versículos 25
a 28 dizem: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o
exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e
intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que
também o seu exterior fique limpo! Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas,
porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram
belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda
imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens,
mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”.
Jesus usa duas figuras para ilustrar esse ponto da religiosidade. Primeiro, a
lei cerimonial, que mandava que o judeu fizesse determinadas lavagens. O
que acontecia era o seguinte: o judeu, quando ia ao mercado comprar
alimentos ou utensílios, poderia se deparar com gentios, não judeus, ou com
judeus não conservadores, que estivessem manipulando estes itens; então,
para evitar se contaminar, ele levava todos os itens adquiridos para casa e os
lavava, fossem copos, pratos ou alimentos, tudo era lavado, mas não era por
uma questão de higiene, era por uma questão de religião. Jesus condena o
fato de eles se preocuparem com o exterior e, por dentro, estarem cheios de
rapina, iniquidade, pecado e corrupção.
A religião se preocupa com o exterior da pessoa, com normas, com regras,
mas acaba se esquecendo da necessidade de intimamente esta pessoa ser
convertida, da necessidade de quebrantamento do coração, de fé verdadeira,
de um amor que parte do coração. Não é só não adulterar, mas também não
pensar em adultério; não é só não matar, mas também não querer que o seu
irmão morra. Jesus explicou isso no Sermão do Monte (Mateus 5:27-28),
dizendo: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo:
qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já
adulterou com ela”. A religião se preocupa com o aspecto interno, mas o
cristianismo diz que o Deus que fez o exterior é o Deus que vê o interior
também. Então, essa preocupação com a vida interior é necessária.
A segunda ilustração que Jesus diz é a das sepulturas. No versículo 27, ele
chama os escribas e fariseus de sepulcros caiados. Eles gostavam de
embelezar a sepultura dos antigos, só que a sepultura pode ser bonita por
fora, mas por dentro está cheia de podridão e de ossos decompostos, de carne
pútrida. E assim Jesus diz: “Vocês são sepulcros caiados. Vocês estão
preocupados em adornar o exterior para parecerem justos aos homens, mas
por dentro vocês estão completamente corrompidos”.

Oitavo ai

A última razão pela qual Jesus condena a religiosidade dos fariseus é porque
ela impede que os religiosos ouçam a Palavra de Deus. Do versículo 29 ao
32, Jesus diz: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os
sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos e dizeis: Se tivéssemos
vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue
dos profetas! Assim, contra vós mesmos, testificais que sois filhos dos que
mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”.
O que Jesus está dizendo aqui? Na época do Antigo Testamento, Deus
mandou profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Joel, Amós para
falar àquele povo religioso. Foram homens a quem Deus revelou sua Palavra.
Homens que ele levantou para dizer ao povo, como consta no primeiro
capítulo de Isaías, no verso 12: “Quando vindes para comparecer perante
mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios?”. E continua nos
versos 16 a 18: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de
diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei
à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a
causa das viúvas. Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os
vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a
neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã”.
Todos conhecem essa passagem. Era isso que o profeta fazia no Antigo
Testamento. Deus levantava um profeta para trazer o povo religioso de volta
à verdade. Mas o que o povo de Israel fazia com os profetas? Ele os rejeitava,
apedrejava-os, matava-os. Não os queria ouvir. A história da Bíblia do
Antigo Testamento é a história de Deus tentando convencer aquele povo a
voltar à verdade, mas este permanecia rejeitando, matando, prendendo e
apedrejando os enviados de Deus.
Agora, na época de Jesus, os escribas e os fariseus disseram: “Se
tivéssemos vivido naquela época, não teríamos feito o mesmo. Nós somos
melhores que os nossos pais, porque se tivéssemos vivido na época de Isaías,
Jeremias, nós teríamos aceitado a Palavra de Deus”. Jesus disse: “seus
hipócritas, vocês estão prestes a me matar, estão tramando planos, urdindo
como vocês me pegarão e matarão; vocês estão enchendo a medida dos seus
pais. Vocês são iguais a eles, zelosos pela tradição e pela antiguidade, mas
não querem a Palavra de Deus”. A religião é assim, ela é muito
tradicionalista, sempre apelando para o passado, mas na verdade não quer
ouvir a Palavra de Deus.
Jesus, então, termina condenando os escribas e fariseus do versículo 33 ao
36. Ele diz, no versículo 33: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis
da condenação do inferno?”. No versículo 34, Jesus diz que eles vão
continuar fazendo o que sempre fizeram: “Por isso, eis que eu vos envio
profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros
açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade”. E foi
exatamente o que fizeram com Jesus e com os seus discípulos. Depois, no
versículo 35, continua: “para que sobre vós recaia todo o sangue justo
derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de
Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar”.
Jesus está dizendo que isto iria acontecer para que a medida do pecado deles
se enchesse e Deus derramasse o juízo dele contra aqueles homens.
No verso 36, Jesus afirma: “Em verdade vos digo que todas estas coisas
hão de vir sobre a presente geração”. E foi exatamente o que ocorreu. Trinta
e cinco anos após Jesus ter dito estas palavras, os romanos cercaram
Jerusalém e, após um cerco de três anos, entraram na cidade, matando mais
de 500 mil judeus, que foram espalhados por toda a parte; destruíram a
cidade e o templo, arrasando-o no seu fundamento. Tudo isso para
cumprimento da Palavra de Jesus acerca dos juízos de Deus contra aquela
geração.

Aplicação e conclusão

Leitor, como afirmei no início, eu seria desonesto em compará-lo aos escribas


e fariseus, mas preste atenção ao seguinte: você sabe que está se tornando
religioso quando está mais preocupado com o arranjo de flores, com o lugar
do coral, com a roupa do pastor, do que com a pregação; quando leva mais
tempo se preparando diante do espelho antes do culto do que se preparando
espiritualmente para participar do culto; quando não consegue aturar os erros
dos outros, contudo, é muito tolerante com os seus e de seus familiares;
quando participa de todas as atividades da igreja, mas não tem mais tempo
para sua família e para estar a sós com Deus; quando é zeloso para dar dízimo
e ofertas, mas trata mal seus empregados, não perdoando quem te ofende e
não pratica misericórdia para com os pobres; quando sua vida cristã gira em
torno de elementos da igreja que, embora legítimos, não são essenciais.
Eu também corro esse risco, por exemplo, quando penso no ministério que
tenho no púlpito, na pregação, no ministério pastoral, no título de reverendo,
doutor. Eu peço a Deus que me livre dessas coisas, porque eu não posso girar
a minha vida cristã e o meu ministério em torno disto.
Eu quero concluir com o fim do capítulo. Veja como termina: Jesus
lamentando. Os versículos 37 a 39 são o lamento de Jesus: “Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!
Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus
pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos
ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que
venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!”.
Notem que Jesus diz no versículo 37: “[...] Quantas vezes quis eu reunir
os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e
vós não o quisestes!”. Jesus está se referindo a todas as tentativas de Deus
durante a história de reunir o povo dele, o povo da antiga aliança debaixo de
si, a fim de ter um relacionamento verdadeiro, pessoal, íntimo. Porém ele diz
nesse trecho que o povo não queria.
A grande pergunta que nós queremos fazer é esta: nós somos o povo de
Deus hoje, ele continua nos chamando para debaixo das suas asas, ele quer
ter um relacionamento verdadeiro e íntimo conosco, pois é isso que é o
verdadeiro cristianismo, mas nós queremos isso? Porque Israel não queria.
Queremos viver para Deus? Queremos deixar a religiosidade? Queremos
buscar a verdade? Queremos ser mudados? Queremos ser usados? Essas são
as perguntas que Deus nos faz. Queremos? Desejamos? Ansiamos por isto?
Se nós não estivermos dispostos, se não quisermos, se não nos
prontificarmos, as coisas continuarão como sempre foram. Mas se nós
queremos crescer, se queremos progredir, se queremos servir a Deus mais e
melhor, é preciso que nós queiramos nos deixar reunir debaixo dele, das suas
asas, em uma relação verdadeira, deixando de lado tudo que ele nunca
ordenou, para que nós vivamos sempre para sua glória.
Amém!

Oração

Ó Deus, livra-nos da justiça própria, da religião carnal, dessa religiosidade que nos atrapalha de ver
o que é essencial. Ajuda-nos a viver um cristianismo puro e simples, focado naquilo que sua
Palavra nos diz. Ajuda-nos em todas as coisas, pois o Senhor é o nosso Deus, queremos viver para
sua glória, em nome de Jesus.
Amém!

3 Sermão pregado em 31 de agosto de 2014.


4 Confissão de Fé de Westminster, capítulo 22 (Dos juramentos legais e dos votos).
3

A IMPUREZA E O CHAMADO PARA


A SANTIDADE
Texto-base: I Tessalonicenses 4.1-85

Introdução

Boa parte dos problemas que nós enfrentamos como cristãos no


relacionamento uns com os outros e com Deus é na área da impureza sexual.
Nós não podemos e não precisamos ir muito longe para vermos que essa é
uma área que foi tremendamente afetada pelo pecado. No Novo Testamento,
há várias listas de pecados, e quase todas começam com pecados
relacionados à área da sexualidade: a imoralidade, o adultério, a fornicação, a
prostituição etc.
Creio que todos nós, de uma forma ou de outra, lutamos para viver uma
vida pura diante de Deus no que diz respeito à sexualidade. Paulo escreveu
essa carta, e mais precisamente essa parte dela, com o objetivo de ajudar os
crentes em Tessalônica a viver uma vida pura diante de Deus nessa área da
nossa vida que é tão importante.
Ele tinha fundado a igreja e passado pouco tempo com ela. De acordo com
o livro de Atos, capítulo 17, ele passou três semanas pregando nas sinagogas
e, por meio da sua pregação, Deus levantou uma igreja naquela cidade. Não
demorou muito para que Paulo fosse obrigado a fugir daquela localidade por
conta da perseguição levantada pelos judeus incrédulos. Ele saiu de lá
deixando uma igreja jovem, talvez com um ou dois meses de fundação; novos
convertidos com um ou dois meses de conversão. Ele até tentou voltar para
continuar a discipular a igreja, mas não pôde. Então, mandou Timóteo, que
conseguiu chegar à igreja, reunir-se com os irmãos e retornar trazendo
notícias a respeito daquela comunidade. Essas notícias eram boas e más.
As notícias boas eram que a igreja estava firme, aqueles novos convertidos
permaneceram, apesar da perseguição que estavam passando, mas havia
surgido questionamentos a respeito da saída de Paulo da cidade, como por
exemplo, por que ele não ficou com o rebanho, mas saiu no meio da
perseguição. Alguns estavam dizendo que Paulo era um mercenário
interessado apenas no dinheiro que receberia da igreja.
Também havia necessidade de Paulo completar o que havia começado a
ensinar. Talvez Timóteo tenha trazido alguns dos temas que a igreja gostaria
que Paulo concluísse, visto que não pôde por ter sido interrompido pelas
perseguições.
Paulo, então, escreveu essa carta com o objetivo de explicar porque ele
saiu, explicar que suas motivações eram corretas e ainda responder a alguns
questionamentos doutrinários que tinham sido feitos, além de completar
aquilo que ele não tinha podido terminar quando estava com aqueles irmãos.
E um dos assuntos que ele tratou foi a questão da pureza sexual. E, por meio
da leitura do texto que sustenta esse capítulo, fica muito claro que ele já tinha
falado a respeito disso. Estava, pois, completando o que havia começado.
Aqui, ele trata do assunto de maneira direta.
Com base nisso, eu quero destacar aqui os pontos do ensinamento de
Paulo com o objetivo de aplicá-los ao nosso coração, até porque nossa
situação é bastante parecida com a situação dos tessalonicenses.

A impureza na época de Paulo e hoje

O mundo greco-romano, no qual eles viviam, era um mundo erotizado, onde


a imoralidade sexual era vista como algo normal. Os homens casados tinham
as suas amantes, e isso era aceitável na sociedade. As escravas serviam como
objeto sexual. Também as próprias patroas e as senhoras tinham seus casos
amorosos com jovens de aluguel. Não é muito diferente dos escorts6 que
existem hoje.
A prática da homossexualidade era bastante difundida e aceita no mundo
greco-romano, embora houvesse resistência por parte de alguns filósofos
como, por exemplo, os estoicos, que achavam que aquele comportamento era
inadequado. Todavia, no geral, a sociedade daquela época era bastante
permissiva na área sexual.
Quando uma pessoa em Tessalônica aceitava o Evangelho e ingressava na
igreja, ela era desafiada a mudar completamente esses padrões. Ela era
confrontada com um estilo de vida completamente oposto a tudo o que ela,
até então, experimentara durante sua vida.
Tudo isso não é muito diferente dos nossos dias. Vivemos uma época em
que a imoralidade ou a permissividade, a libertinagem na área sexual são
largamente espalhadas no mundo ocidental; em que relacionamentos sexuais
casuais, traição, ter vários parceiros, enfim, todo tipo de perversão sexual são
comportamentos aceitos como se fossem normais dentro da nossa sociedade.
E a igreja, quando confrontada, parece que está na contramão da cultura,
porque ela é, por assim dizer, o último bastião de resistência.
Porém isso não se aplica a todas as igrejas, uma vez que muitas delas já
adotaram comportamentos estranhos às Sagradas Escrituras. Num português
claro: liberaram geral para a juventude e para os casais. Essas igrejas não
abordam esses assuntos sexuais. Preferem dizer que é uma questão pessoal e
que solteiros e casados precisam resolver entre si e Deus. Simplesmente essas
lideranças não querem se envolver nesse assunto.
Mas o cristianismo bíblico rompe com o mundo, com a cultura,
caminhando na contramão, não porque ele é chato, mas porque a cultura se
desviou dos caminhos de Deus. A cultura foi contaminada, impregnada de
valores contrários à Palavra de Deus, e o cristão tem que fazer uma escolha:
se ele vai seguir o que a Palavra de Deus diz ou se vai seguir o caminho da
cultura, da sociedade, da mídia, dos artistas, do que se propaga por todos os
meios.
O que vemos aqui é um confronto. Paulo escreve à igreja de Tessalônica e
a chama (chamado este que se estende a nós) a tomar uma posição naquela
sociedade completamente permissiva, estabelecendo uma separação muito
clara entre a igreja e o mundo nessa área da sexualidade.
Chamado à santidade

Ele começa dizendo que a santificação é a vontade de Deus para nós, como
vemos nos versos de um a três. Notemos que ele já havia ensinado isso
quando estava com aquele povo. No primeiro verso, Paulo diz: “Finalmente,
irmãos, nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como de nós
recebestes, quanto à maneira por que deveis viver e agradar a Deus, e
efetivamente estais fazendo, continueis progredindo cada vez mais”.
Quando Paulo estava em Tessalônica, ele ensinava àquele povo a maneira
pela qual deveria viver e agradar a Deus, porque essa é a função do pastor.
Nós não temos outra função. É esse o nosso objetivo. É isso que significa a
função pastoral e presbiteral. Pastores e presbíteros são aqueles homens que
Deus levantou na igreja para, por meio deles, dizer a ela de que maneira deve
viver e agradar a Deus, porque esse é o alvo da nossa existência. Esse é o
objetivo da minha vida: agradar a Deus e não a mim mesmo nem às outras
pessoas. É claro que se eu puder agradar a Deus e às outras pessoas será
ótimo, mas nem sempre isso é possível. Às vezes, temos que escolher a quem
vamos agradar. Isso Paulo havia ensinado. Ele diz: “Vocês continuem
fazendo isso, eu sei o que vocês estão fazendo, progridam, vão em frente,
vocês começaram, mas têm a vida toda pela frente para aprender a viver e
agradar a Deus”.
No verso dois, Paulo diz: “porque estais inteirados de quantas instruções
vos demos da parte do Senhor Jesus”. Mais uma vez ele está se referindo ao
templo. Paulo diz que, quando estava com eles, havia dado muitas instruções.
O apóstolo não era só um teórico, não era alguém que falava de filosofia ou
de aspectos teológicos profundos e misteriosos, embora ele fale disso
também, mas a função dele como pastor era ensinar, instruir, dar orientações
práticas à igreja sobre como ela deveria viver e agradar a Deus, e isso ele
tinha feito. Ele tinha dado essas instruções.
Quando ingressamos em uma igreja, tomando parte nela, estamos,
claramente, dizendo: “Estamos aqui com o objetivo de servir a Deus com
essa comunidade! Queremos nos tornar parte dela. Para tanto, ouviremos o
que nos é instruído, o que nos é dito a respeito de como viver e agradar a
Deus”. Logo, se é parte do trabalho pastoral instruir a igreja como ela deve
viver e agradar a Deus, então faz parte da igreja escutar os seus pastores
enquanto eles estão dentro da Palavra de Deus. Enquanto assim eles fizerem,
cumpre ouvir, colocar no coração e pôr em prática.
Essa é a razão pela qual nós vamos à igreja. Não há outra razão. Nós
temos tantas coisas boas quando estamos congregados. Revemos os amigos,
os familiares, enfim, é muito agradável. Todavia, se fosse só para isso,
poderíamos fazê-lo no clube, não é verdade? Seria até mais agradável.
Porém, ao nos reunirmos, somos instruídos pela Palavra de Deus e
prestamos culto a ele; ouvimos sua voz e, ao fim do culto, saímos para servi-
lo.
O mais importante da nossa vida não acontece na igreja, aos domingos,
mas na segunda-feira pela manhã até o sábado à noite. O momento que
passamos no domingo na igreja é para aprendermos o que devemos fazer de
segunda até sábado à noite, quer seja no nosso trabalho, na nossa família, na
nossa escola, na nossa vizinhança, no nosso prédio, no nosso negócio, enfim,
em todas as áreas da vida. O ensino que temos no domingo, na igreja, é o
ponto de partida, entretanto, é na nossa vida de segunda até sábado à noite
que viveremos como cristãos. É nela que desenvolveremos e aplicaremos o
que aprendemos.
Essa digressão que fizemos aqui também é feita pelo apóstolo Paulo e é,
por meio dela, que ele prepara o que dirá em seguida, no verso três, que tem
relação com a vontade de Deus: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa
santificação, que vos abstenhais da prostituição”.
Por que ele tinha feito tudo isso? Por que ele tinha ensinado a igreja dessa
forma? Porque a vontade de Deus para a igreja é a santificação. Santificação
é uma palavra difícil de traduzir, pois ela abarca muitas ideias. Uma delas é a
ideia de separação do mundo ou de consagração a Deus. Também tem a ver
com os rituais de purificação no Antigo Testamento, em que objetos e
pessoas eram consagrados a Deus para o uso dele.
É uma palavra prenhe de significados, ou seja, não tem como traduzir por
outra que a expresse completamente ou esgote seu significado. Então,
poderíamos dizer que santificação significa nos separarmos das práticas
contrárias a Deus, ou seja, da maneira de viver contrária a Deus. Significa nos
consagrarmos, entregarmo-nos inteiramente a Deus para vivermos de acordo
com a vontade dele, voluntariamente, sem reservas. Entregarmo-nos
completamente! É isso que a palavra santificação significa. É isso que Paulo
diz ser a vontade de Deus.
Porém, às vezes, a vontade de Deus nos parece misteriosa. Não sabemos
por que determinadas coisas acontecem. Às vezes, morre uma pessoa; um
acidente acontece; uma coisa trágica ocorre em uma família, e nós ficamos
nos perguntando: “Por quê? Por que isso aconteceu?”.
Provavelmente, não teremos resposta neste mundo. A providência de Deus
é frequentemente misteriosa, e ele não revela a razão pela qual faz
determinadas coisas. O que ele exige de nós é que confiemos que ele é justo,
sábio, bom e verdadeiro e que ele nunca fará o que é errado, o que é injusto.
Ele nunca agirá de maneira injusta conosco. Ele pede que nós confiemos
nele, mesmo que nós não compreendamos.
Mas o meu ponto é que há uma vontade de Deus que nos é oculta. Nós não
sabemos, mas há uma vontade de Deus declarada, pública e conhecida de
todos.
Encontraremos no Antigo e no Novo Testamentos vários pontos
expressando o desejo, o querer, a vontade e o propósito de Deus. Ele revelou
na Bíblia sua vontade para conosco. É claro que se você, leitor, perguntar a
mim: “Augustus, qual a vontade dele para minha vida? Deus quer que eu me
case ou quer que eu fique solteiro?”, eu, certamente, não terei resposta. É
claro que torcerei para você se casar. Ou, se você perguntar: “Deus quer que
eu more em Goiânia ou em Brasília, pastor?”. Ora, se dependesse de mim,
você moraria na minha cidade, Goiânia, para que fique aqui com a nossa
igreja. Você ainda poderia questionar: “Deus quer que eu seja médico ou que
eu seja jogador de futebol?”. Sinceramente, eu direi que não sei se Deus quer
que você seja médico ou jogador de futebol – desde que você não jogue pelo
Corinthians, para mim estará ótimo!
Brincadeiras à parte, há muita coisa relacionada com a vida, com as
decisões para as quais nós não temos uma resposta direta de Deus. Todavia,
uma coisa eu sei: quer você seja jogador de futebol ou médico, quer você vá
para Brasília ou Goiânia, quer você case ou fique solteiro, a vontade de Deus
sempre vai ser que você seja santo, sempre, seja em Brasília ou em Goiânia,
em um consultório ou em um campo de futebol, solteiro ou casado. A
vontade de Deus para você será sempre a santificação.
Para isso não há questionamento. Não precisamos gastar nosso tempo
perguntando: “Será que posso fazer determinada coisa pecaminosa?”. A
resposta é NÃO! Ou ainda: “Será que Deus não abriria uma exceção por
conhecer a minha situação? É só um errinho!”. Novamente a resposta é
NÃO! Ou então: “Deus não sabe meu estado? Eu sou um pecador miserável,
eu também tenho as minhas necessidades!”. De novo, a resposta é NÃO!
A vontade de Deus é sempre a santificação. Sempre. Sempre. Em todas as
circunstâncias. Paulo detalha isso, porque a santificação abrange todas as
áreas da nossa vida.
Agora, o apóstolo trata de um assunto que ele não deixou terminado, mas
em aberto com aquela igreja, que era a questão da vida sexual. Como é
possível notar, na segunda parte do verso três, ele diz: “[...] que vos
abstenhais da prostituição”.
Então, a partir desse ponto, ele se dedica à questão da santificação na área
sexual.
Não é muito perceptível na tradução portuguesa, mas na língua original é
possível notar três pontos que Paulo pode ter colocado. Primeiro (verso 3b):
“[...] que vos abstenhais da prostituição”. Segundo (versos 4 e 5): “que cada
um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o
desejo de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus”. Terceiro
(verso 6): “e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão;
porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e
testificamos claramente, é o vingador”.
Sendo assim, dentro da área de santificação, entrando na área sexual, Deus
tem três orientações: a primeira é abster-se da prostituição; a segunda é
possuir o corpo da maneira certa; e a terceira é não ofender ninguém nessa
área.
Veremos cada uma dessas áreas abordadas por Paulo e, ao fim,
receberemos quatro encorajamentos e aplicações apresentados por ele.
Orientação 1

O primeiro ponto do apóstolo está no fim do verso 3: “[...] que vos


abstenhais da prostituição”. A palavra traduzida aqui como prostituição é a
palavra grega porneia. Trata-se de palavra ampla, utilizada na língua grega
para se referir a todos os distúrbios e problemas na área da sexualidade. Ela
pode ser traduzida como imoralidade, impureza, sendo, às vezes, até
traduzida como adultério. Aqui, foi traduzida como prostituição, mas é muito
mais do que isso. Se traduzíssemos como imoralidade sexual, estaria correto.
A vontade de Deus, primeiro, é que você se abstenha da imoralidade
sexual, ou seja, abstenha-se da porneia. No Novo Testamento, ela significa
sexo antes do casamento, sendo, às vezes, traduzida como fornicação ou
prostituição. Pode também significar sexo fora do casamento. Então é
traduzida como adultério, embora na língua grega haja uma palavra
específica para adultério.
Seja como for, esse comportamento era muito comum no mundo greco-
romano. Escravas amantes, adultérios, traições... Aquilo era absolutamente
comum. Porneia era o que caracterizava aquela sociedade assim como
caracteriza a nossa.
Paulo orienta a igreja de Tessalônica a ir contra o costume da época,
dizendo que ela tinha que se abster da porneia, da imoralidade, refreando-a,
não a consumindo, não se envolvendo com ela. A comunidade tinha que ser
livre daquela prática. Tinha que a rejeitar. Não poderia se envolver na sua
prática. E de igual modo, hoje, o nosso Deus nos chama a nos abstermos de
toda forma de imoralidade sexual, desde a prostituição até o adultério.

Orientação 2

A segunda orientação está nos versos 4 e 5, que dizem: “que cada um de vós
saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de
lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus”. Aqui, nós temos uma
dificuldade na tradução e vale abrir um espaço para comentar sobre essa
questão, uma vez que, na minha carreira, já me deparei com gente que, após
ouvir um comentário meu sobre um texto no grego e algum problema de
tradução, disse: “Então não posso mais confiar na Bíblia!”.
Primeiramente, uma tradução sempre é uma tradução. O que nós dizemos
na teologia reformada é que os originais grego, hebraico e aramaico foram
inspirados por Deus. Porém toda tradução terá que lidar com alguns fatos:
nós não temos, às vezes, os elementos suficientes para saber o que o autor
quis dizer; nós não estávamos em Tessalônica; a língua grega ainda é um
assunto que está sendo discutido; há novas descobertas arqueológicas que
lançam luz sobre o idioma grego koiné, uma língua morta utilizada no Novo
Testamento. Igual problema se dá com o hebraico utilizado no Antigo
Testamento, que também é uma língua morta.
Então, com frequência, os tradutores têm que tomar alguma posição,
alguma opinião sobre. O melhor é sempre ter entre duas e quatro Bíblias com
traduções diferentes. Basta então conferir e, havendo uma diferença muito
grande, é só ir aos comentários e procurar ajuda.
Mas o fato de estarmos lidando com uma tradução não deve minar a nossa
confiabilidade nas Escrituras. É por isso que Deus colocou mestres na igreja,
justamente para nos ajudar a ler a Escritura e compreendê-la. Isso não quer
dizer que o cristão não possa ler a Bíblia sozinho. Podemos confiar nas
nossas traduções, lermos nossas Bíblias em português, que são traduções
confiáveis, enfim, podemos ler à vontade e confiarmos que estamos diante da
própria Palavra de Deus.
Entretanto, há passagens que são difíceis, como, por exemplo, essa. A
dificuldade toda está na palavra “corpo”, que literalmente no grego é a
palavra “vaso”. O que Paulo está dizendo no original é que cada um de vocês
saiba possuir o próprio vaso em santificação e honra. E é nesse ponto que os
estudiosos concordam que Paulo pode estar querendo dizer duas coisas com a
palavra vaso. Convém lembrar que Paulo está usando “vaso” no sentido
metafórico, ou seja, ele não está se referindo ao vaso de porcelana que decora
uma casa. Ele, na verdade, está falando figuradamente ou do corpo (homem
ou mulher) ou da esposa/esposo. É isso que a palavra “vaso” pode significar
nesse contexto. O problema é que o verbo “possuir” em: ”que cada um de
vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra”, às vezes,
significa “obter”.
Então, temos algumas possíveis combinações: 1) “que cada um de vós
saiba controlar o próprio corpo”; 2) “que cada um de vós saiba obter uma
esposa”; ou ainda, 3) “que cada um de vós saiba viver com a sua esposa de
maneira santa”. Sobre essa terceira opção, algumas traduções em português já
a trazem, como por exemplo, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje: “Que
cada um saiba viver com a sua esposa de um modo que agrade a Deus, com
todo o respeito”.
Todavia, a Almeida Revista e Atualizada parece estar mais correta, uma
vez que a tradução “que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em
santificação e honra” abrange, ao final, as demais opções, dando, assim, um
sentido mais completo e dentro do contexto. Mas, independentemente do que
Paulo quis dizer, juntando os sentidos possíveis, fica claro que a vontade de
Deus é que o homem e a mulher se abstenham da prostituição e saibam
controlar seus corpos e viverem com sua esposa e seu marido de maneira
santa e respeitosa.
Aqui, ele traz a questão da pureza sexual para a vida do indivíduo: ele tem
que saber controlar o seu corpo; e para a vida de casado: ele tem que saber
viver com a sua esposa de maneira santa e agradável. Talvez esses dois
sentidos tenham sido pretendidos pelo apóstolo Paulo, por isso ele usou um
termo amplo que poderia abarcar todos esses sentidos.
E, mais uma vez, nós estamos na contramão da nossa cultura, a qual
ensina que temos que nos liberar e nos libertar. Se formos a um psicólogo ou
a um psiquiatra que não tem formação da Palavra de Deus, que não seja
cristão, por certo ele vai dizer que os nossos problemas e tristezas têm a ver
com traumas, angústias e desejos que foram reprimidos. Dirá que as neuroses
foram criadas pela repressão que, às vezes, a própria igreja causou. Concluirá
dizendo que devemos nos liberar desses tabus e viver uma vida livre,
deixando as coisas acontecerem e cumprindo toda a nossa vontade, fazendo
todos os nossos desejos.
Enquanto isso, Paulo está dizendo o contrário. Ele, tomado por um
discurso que certamente não é pós-moderno, diz que devemos controlar nosso
corpo; que devemos saber possuir nosso vaso em santificação e honra, não
atendendo a esses desejos que brotam do nosso coração.
Seria um erro se o meu leitor concluísse que eu estou dizendo que, para
nós, o sexo é uma coisa ruim, feia ou desagradável. Pelo contrário. Os
cristãos creem que o sexo foi criado por Deus como uma bênção que foi dada
para nossa alegria, sendo uma forma de comunicação física muito intensa que
provoca sentimentos, emoções e regozijo. Só que Deus o reservou ao
ambiente em que essa comunicação física possa, de fato, ser feita. Esse
ambiente é o casamento. Ele não designou essa forma de comunicação para
fora das fronteiras do casamento exatamente para proteger a família, os
filhos, a sociedade e a igreja.
Então, não interpretemos mal quando a Bíblia nos manda controlarmos
nosso corpo. Ela não está dizendo que sexo é algo imprestável, algo feio.
Não! Ela está dizendo que devemos controlar nosso corpo a fim de que
possamos usá-lo da maneira certa, com a pessoa certa, após o casamento. E,
uma vez casados, temos que controlar o nosso corpo, nossas paixões, a fim de
que não sejamos como os gentios, como diz o verso cinco: “não com o desejo
de lascívia, como os gentios que não conhecem a Deus”. Ou seja, não com os
desejos baixos dos pagãos que não conhecem a Deus.
Na época de Paulo, o mundo estava cheio de deuses. Os gregos e os
romanos adoravam muitos deles, mas não conheciam o verdadeiro Deus.
Tanto é que, na religião greco-romana, tudo era permitido. Os deuses desses
povos não colocavam limites à libertinagem humana. Pelo contrário, os
deuses gregos, às vezes, desciam do Olimpo, tomavam forma humana e se
deitavam com as mulheres dos homens, mulheres casadas. Eram deuses
imorais.
“Os pagãos não conhecem a Deus”, Paulo diz, “por isso eles vivem com
desejo de lascívia”. Esse é um desejo pecaminoso, imoral, uma paixão baixa.
“Eles vivem assim, mas vocês não são assim”, diz o apóstolo Paulo. Há uma
separação clara: não como os gentios que não conhecem a Deus. Nós não
somos como eles. Embora nós sejamos cidadãos brasileiros, estejamos na
cultura brasileira, moremos no Brasil, tenhamos emprego, passaporte,
identidade, CPF brasileiros, contudo há elementos da cultura brasileira que
são estranhos ao Deus santo que criou todas as coisas. Nós não somos como
os gentios, pois há uma diferença entre a igreja e o mundo, embora a igreja
esteja no mundo.
Todavia, o que acontece? Em vez de nós influenciarmos o mundo, o
mundo está entrando na igreja. Essas paixões entraram na comunidade cristã.
São homens casados que querem forçar as suas esposas a fazer coisas que
eles veem em material pornográfico; jovens que, em vez de lutarem para
viver uma vida santa e pura, vão - por causa da influência da escola e da
universidade - aprender a ficar, ir ao motel com a namorada ou com o
namorado, ou ir para qualquer outro lugar, acabando completamente com a
distinção entre a igreja e o mundo.
Desculpem-me, mas quem disse que ser crente era algo que resolveria
todos os seus problemas mentiu. É a partir do momento em que seguimos
Jesus que nossos problemas começam. É quando decidimos ser um cristão
que vamos ouvir do Mestre: “Se alguém quer me seguir dia a dia, tome a sua
cruz e siga-me; negue-se a si mesmo”. O Evangelho diz que estreita é a porta
que conduz à salvação e larga a que conduz à perdição.
Aos leitores jovens, não quero enganá-los. O caminho não é fácil. O
caminho é estreito; e a porta, também. Mas Deus nos chama para isso. O
jovem que quiser viver uma vida santa na escola e na universidade sofrerá
bullying, zombaria e escárnio.
Certa feita, eu estava aconselhando um rapaz, e ele me disse que seu
primeiro namoro durou duas semanas, porque a moça olhou para ele e disse:
“Eu estou há duas semanas com você, mas vou embora, porque você não
tentou pegar em mim, não tentou mexer em mim, nada. Eu vou procurar um
homem de verdade”. E ela achou um homem de verdade, que a engravidou e
deixou-a com um filho e foi embora. Então há muitos “homens de verdade”
por aí.
É difícil para o jovem crente permanecer firme, porque o que existe é essa
falta de padrão. A palavra virgem é quase um palavrão hoje. Se alguém diz:
“Sou virgem!”, logo quem escuta se espanta e diz: “Meu Deus, de que
planeta você veio?”.
Mas eu escrevo tudo isso, porque eu não o estou enganando. Deus nos
chama para isso. O cristianismo é isso mesmo. Sexo é benção dentro do
casamento. E tem que esperar até lá. Porém, uma vez casado, o sexo é dentro
do casamento, não é fora dele, porque são os pagãos que vivem assim, são
eles que não conhecem a Deus, mas nós O conhecemos.

Orientação 3

A terceira orientação de Paulo está no verso 6, que diz: “e que, nesta matéria,
ninguém ofenda nem defraude a seu irmão [...]”.
Defraudar é tirar o direito de alguém. Essa palavra é mais uma daquelas
que têm muitos significados. Ela significa “se aproveitar de alguém, enganar
alguém, quebrar a confiança de alguém, prejudicar alguém, desrespeitar os
direitos de outro, criar expectativa, empenhar a palavra para fazer um acordo
e depois quebrá-lo”. E, dentro do contexto do que Paulo está dizendo, o
sentido pode ser o de não defraudar fazendo referência primeiramente ao
casamento. Quando alguém se casa, faz votos e promessas; diz à outra pessoa
que viverá com ela e lhe será fiel até que a morte as separe. A imoralidade,
então, é uma defraudação, porque esse alguém está enganando a outra pessoa,
indo além dos limites, quebrando o contrato, sendo infiel. Já no caso do
solteiro, talvez Paulo esteja pensando na fornicação ou no ato de provocar
desejos que não podem ser cumpridos. Quantos namorados que, devido à
intensidade de seus namoros, não precisam chegar às vias de fato. Eles
provocam desejos, criam expectativas que não podem ser realizadas e
cumpridas, a não ser dentro do casamento, mas eles não são casados. Isso
seria enganar alguém, criar expectativas que não podem ser cumpridas fora
do casamento.
Paulo diz que não se deve fazer isso com um irmão. Ele está falando para
os crentes, quando defraudam um ao outro. Está falando de casais crentes.
Não está falando propriamente de namoro crente, porque - na época de Paulo
- não havia namoro, mas, supondo o relacionamento entre irmãos, há
defraudação.

Aplicações

Então, ele termina com quatro aplicações. A primeira delas está logo no fim
do verso seis: “[...] porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes
vos avisamos e testificamos claramente, é o vingador. O Senhor castigará
todas essas práticas, como já lhes dissemos e asseguramos”.
Essa primeira aplicação de Paulo é para aqueles que estão na prática da
imoralidade, defraudando o seu irmão, a esposa ou alguém que está
namorando nessa situação. Paulo diz que Deus é vingador dessas coisas. Diz
ainda que já havia falado aquilo aos tessalonicenses, mas que voltaria a dizer:
“Deus é vingador, Deus é juiz”.
Deus não vai deixar isso passar em branco. Cedo ou tarde, ele vai colocar
a mão em cima de você que está defraudando seu irmão. E graças a Deus se
for nesse mundo, porque significa que ele te ama e está te dando uma
oportunidade para se arrepender, porque - quando Deus não quer salvar uma
pessoa - ele deixa que ela se afunde. Ela defraudará seu irmão, trairá sua
esposa ou esposo, será imoral, praticará a prostituição e nada lhe vai
acontecer, porque Deus está somando para o Dia do Juízo. Ele está só
colocando em sua conta. Naquele grande dia, você verá a conta.
Mas o problema do Dia do Juízo é que nele não haverá misericórdia nem
perdão, por isso temos que resolver nossas pendências com Deus agora, aqui,
enquanto ele nos dá a oportunidade de mudar de vida e ter uma conduta reta e
santa diante dele, porque ele é vingador. Tenhamos certeza de que nossos
pecados não passarão em branco, seja aqui, seja na eternidade. Deus é
vingador dessas coisas.
A segunda aplicação encontra-se no verso 7, que diz: “porquanto Deus
não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação”. A partir desse
trecho, eu quero me dirigir ao leitor que está em dúvida, tentado pelo
chamado à impureza. Isso é tão comum, especialmente entre os nossos
adolescentes e jovens. A impureza chama, seja por meio da escola, do
WhatsApp ou de outras redes sociais da internet. Ela está ao nosso redor.
Vivemos em uma sociedade erotizada. A impureza chama o jovem, que, às
vezes, fica em dúvida se algo pode ou não pode.
Paulo está dizendo neste verso que Deus não nos chama para a impureza.
Esse chamado para a impureza que você está ouvindo não vem de Deus, mas
sim do seu próprio coração e vem do inimigo das nossas almas, a saber,
Satanás, que quer destruir a sua vida, que quer arrebentar a sua vida. Esse
chamado pode vir por meio da pessoa que você mais gosta, da pessoa que
você considera legal, da pessoa com quem você gosta de conversar. Em
suma, ele pode vir por diversos meios, mas Deus nunca chama você para
fazer o que é errado, pelo contrário, como Paulo disse desde o começo: Deus
nos chama para a santificação. Tudo o que chamar você para a santificação é
de Deus, assim como estou fazendo neste livro, chamando você para a
santificação.
Deus não chama você para a impureza. Quando seu casamento não vai
bem e você vê uma mulher da qual você se agrada e com a qual tem um bom
relacionamento, afinal, ela o compreende mais do que sua esposa, não pense
no seu coração que é Deus que está te dando uma nova oportunidade. Isso
não é Deus.
Quando você encontra aquele jovem mundano ou aquela jovem mundana,
atraente, compreensivo/a – afinal, muitos/as, infelizmente, pensam que está
faltando homem e mulher na igreja, não é? – você pensa: “Será que é Deus?”.
Eu não creio que é Deus que está te preparando aquilo. Talvez, ele, de fato,
esteja chamando você para ficar solteiro/a, até porque a alternativa para não
se casar com um crente não é casar-se com um descrente. Deus nos chama
para a santificação.
A terceira aplicação de Paulo encontra-se no verso 8, que diz: “Dessarte,
quem rejeita estas coisas não rejeita o homem, e sim a Deus, que também vos
dá o seu Espírito Santo”. Talvez, muitos leitores achem esse sermão muito
duro, então, eu vou apenas repetir o que Paulo está dizendo: “[...] quem
rejeita estas coisas não rejeita o homem, e sim a Deus [...]”, porque é Deus
quem nos chama para a santidade. A vontade dele é a santificação. O desejo
dele é que você fuja da porneia. O desejo dele é que você controle o seu
corpo, que fique com sua esposa ou com seu esposo dentro dos limites
impostos por ele. Se isso te parece um discurso duro, é contra Deus que você
está indo. Paulo diz que, se alguém rejeita essa mensagem, o tal, na verdade,
está rejeitando a Deus.
Para os que acham que a ética cristã é dura, inflexível e difícil e dizem que
Deus é duro, difícil e inflexível, saibam que estou apenas expondo a Palavra
dele, a vontade revelada por ele.
Como última aplicação, Paulo diz que quem rejeita essas coisas, não
rejeita o homem, mas a Deus, que também nos dá o seu Espírito Santo. Glória
a Deus por isso. Acredito que, diante dessa Palavra, uma pergunta que pode
estar no coração de muitos leitores que lutam com esses problemas de
impureza é: “Onde vou arrumar o poder para viver esse padrão de vida?”. A
resposta é que Deus não nos deixou sozinhos. Deus só pede aquilo que ele
mesmo nos dá condição de fazer. O Deus que pede para sermos santos é o
mesmo Deus que dá o Espírito Santo, e é no poder do seu Espírito que vamos
controlar nosso corpo. É no poder do Espírito Santo que vamos nos abster da
imoralidade. É nesse mesmo poder que vamos honrar nossa esposa ou
esposo, sendo-lhes fiel. É também nesse poder que não seremos iguais o
mundo.
Deus nos dá o Espírito Santo, logo, não temos desculpas para dizer que
não temos força ou condições de viver como ele exige. É claro que não temos
condições. Mas o Deus que nos chama à santidade é o mesmo Deus que nos
dá o Espírito Santo e ele vem habitar em nosso coração, fortalecendo-nos e
ensinando-nos, guiando-nos, empoderando-nos, capacitando-nos para que
possamos obedecer ao que está escrito em sua Palavra.

Nota de encorajamento

Então, resta-nos perguntar se queremos cumprir sua vontade. Aqui estão as


instruções da Palavra de Deus para a igreja. É dessa forma que nós devemos
viver e agradar a Deus. A grande questão é o que faremos com esses
ensinamentos; que decisão prática nós tomaremos; qual será a nossa atitude
diante disso. Enfim, que mudança de vida isso ocasionará em todos nós?
Sugiro que o leitor se coloque diante de Deus, abra seu coração diante
dele, sonde seu coração à luz dessas palavras apresentadas neste capítulo e
diga: Deus, eu quero viver para o teu agrado, para viver uma vida santa e
reta. Ensina-me a ser santo, porque essa é a tua vontade. O Senhor me deu o
Espírito Santo. Que ele, então, guie-me e capacite-me.
Talvez, para essa mudança, seja necessário falar com algumas pessoas,
jogar fora o smartphone etc. Qual o preço de uma vida com Deus? Talvez
medidas radicais tenham que ser tomadas, como romper com pessoas que
ficam mandando fotos inapropriadas no WhatsApp ou ainda terminar um
namoro ou relação que está fora do padrão de Deus.
Enfim, algo terá de ser feito, pois é necessário ter uma vida santa diante de
Deus, mas para isso é preciso se abster de algumas coisas. Se você que está
lendo esse texto tem desejo disso, Deus vai orientá-lo. Ele ouvirá a sua
oração, afinal, o Senhor não nos deu o Espírito Santo à toa.
Mas tome essa decisão de viver uma vida reta e santa diante de Deus. A
fim de ajudar, eu estou à disposição; seu pastor, por certo, também está à
disposição. Procure ajuda enquanto é possível, porque quanto mais o tempo
passa, a tendência é que as coisas se tornem uma bola de neve. Quanto mais o
problema fica pior, pior também fica o tratamento.
Que Deus nos ajude a vivermos de acordo com sua vontade.
Amém!

Oração

Nosso Deus, nós queremos pedir que o Senhor nos abençoe. Que o Senhor nos guarde. Queremos
pedir que essa Palavra, Senhor, fale aos nossos corações. Somos agradecidos pelo Senhor nos ter
dado teu Espírito Santo e, mediante a tua presença em nós, podermos viver como o Senhor nos diz.
Oro, Senhor, pelos casais. Conceda pureza de vida. Conceda pureza, Senhor, em todas as áreas.
Oro, ainda, pelos jovens, pelos adolescentes, pelos solteiros/as, pelos/as jovens adultos/as, cuja
tentação é maior. Guarde-os e preserve-os. Abra as portas para o casamento, se for a tua vontade.
Se não, dá a eles e elas a graça de permanecerem solteiros/as e puros/as. Abençoe as viúvas e os
viúvos e também os separados/as. Dá a todos a tua graça e misericórdia.
Deus, cure e sare as nossas feridas. É isso que pedimos em nome do Senhor Jesus.
Amém!

5 Sermão pregado em 21 de setembro de 2014.


6Hoje, escort designa alguém que é pago para acompanhar outra pessoa a eventos sociais, podendo
envolver atividades sexuais.
4

NOSSAS PALAVRAS REVELAM


QUEM NÓS SOMOS
Texto-base: Mateus 12:33-377

Introdução

Há tempos observo que alguns descuidos que as pessoas acabam cometendo


no que elas falam ou escrevem terminam por revelar fraquezas ou defeitos de
caráter e de conduta por vezes escondidos. As pessoas tentam ser
politicamente corretas e controlar o que elas dizem e escrevem, mas, de vez
em quando, alguma coisa escapa, deixando entrever aquilo que, de outra
forma, não seria conhecido. Eu vejo isso há muito tempo.
As mídias sociais que surgiram nos últimos anos aumentaram essa
possibilidade. Penso, por exemplo, no Facebook, Twitter e outros meios de
comunicação como diários.
Quando me converti aos 22 anos, eu tinha um diário, no qual costumava
escrever as minhas experiências cotidianas. Todo dia eu escrevia algo. “Hoje,
eu senti isso. Hoje, eu fiz isso. Hoje, eu tive tal experiência.” Mas aquele
diário secreto era algo pessoal, guardado dentro de uma gaveta. Ninguém
sabia. Se alguém o pegasse, saberia tudo que acontecia na minha vida, tudo
de íntimo que acontecia entre mim e Deus.
Hoje em dia, os diários não são mais comuns. É no Facebook que as
pessoas expõem suas vidas. Elas contam tudo. Sendo assim, é possível dizer
que as mídias sociais tornaram mais evidente, mais claro, o princípio
formulado por Jesus que diz: “as palavras revelam quem nós somos”.
Conhecemos realmente o que uma pessoa é por aquilo que ela fala e por
aquilo que ela escreve. Inclusive essa será a base com a qual Deus vai nos
julgar. Nós vamos dar conta das nossas palavras e, por elas, nós seremos
condenados ou julgados no Dia do Juízo.
Deixe-me, então, colocar em que situação Jesus proferiu essas palavras, a
fim de que o leitor não pense que eu o estou chamando de raça de víboras ou
ninhada de cobras. Jesus tinha acabado de curar um surdo-mudo, expelindo
um demônio que estava nele, e os fariseus, os religiosos da época, inimigos
de Jesus, sem quererem admitir o poder evidente de Deus na vida de Cristo,
disseram que ele expulsava demônios pelo maioral dos demônios, que é
Belzebu. Jesus, então, volta-se para eles e diz que toda palavra, todo pecado,
toda blasfêmia preferidos contra o Filho do Homem serão perdoados, mas a
blasfêmia contra o Espírito Santo não terá perdão. Ou seja, Jesus queria
revelar a verdade a respeito daqueles líderes hipócritas. Eles pareciam santos
aos homens. Eles se vestiam de determinada maneira, faziam determinados
rituais para dar a impressão de que eles eram íntimos de Deus. Todavia, a
blasfêmia dita por eles sobre Jesus Cristo revelou a verdade a respeito deles.
De fato, não conheciam a Deus e, na verdade, estavam caminhando para a
condenação. Haviam cometido o que Jesus chama de blasfêmia contra o
Espírito Santo.
Em seguida, Jesus nos diz três coisas, a saber: o estado espiritual de uma
pessoa é conhecido pelo que ela fala (versos 33 a 35, que é o momento em
que Cristo se refere aos fariseus como raça de víboras); depois Jesus diz que,
no Dia do Juízo, daremos conta de cada palavra dita por nós – ele chama de
palavra frívola (verso 36); e termina dizendo que há somente dois resultados
no Dia do Juízo: pessoas que serão justificadas e pessoas que serão
condenadas.
É basicamente o que apresentarei neste capítulo na expectativa de que
Deus use essa Palavra do Senhor Jesus a fim de que nós conheçamos mais a
respeito de nós mesmos, façamos uma avaliação do nosso estado diante de
Deus e possamos, de fato, voltarmo-nos para ele, pedindo um coração de
onde jorrem palavras abençoadoras.

As palavras revelam nosso caráter


Jesus afirma que o estado espiritual de uma pessoa é conhecido pelo que ela
fala. Eu acrescento: pelo que ela escreve também.
No verso 33, Jesus nos diz: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom ou a
árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore”.
Tiago, no capítulo 3 de sua carta, no verso 11, diz algo semelhante:
“Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é
amargoso?”. Com isso, é visível a existência desse princípio na natureza de
que as coisas funcionam de acordo com a sua origem. É um princípio
estabelecido por Deus. Por meio do livro de Gênesis, sabemos que - quando
Deus criou o reino vegetal - ele fez árvores que davam semente e fruto de
acordo com a sua espécie, ou seja, conhecemos a natureza de uma árvore pela
qualidade de sua fruta.
Certa feita, as senhoras da congregação que pastoreio me presentearam
com algo muito interessante. Elas foram para uma fazenda chamada
Jaboticabal e me trouxeram um contêiner cheio de jabuticaba. Que coisa
gostosa. O leitor deve saber como é comer jabuticaba quando ela está
docinha. É tão bom que não dá para comer apenas uma, de modo que vai uma
atrás da outra. Minka, minha esposa, olhou para mim e perguntou: “Você está
comendo com caroço?”, porque não dava tempo de tirar o caroço, já que eu
engolia com casca e tudo de tão boa que estava. Fato é que tempos depois,
fomos a Jataí, onde eu pregaria no aniversário do Instituto Presbiteriano
Samuel Graham. Pela manhã, no café servido pelo hotel onde estávamos
hospedados, o que tinha na mesa? Jabuticaba! Enchi meu prato. Porém, na
primeira mordida, eu a cuspi fora. Nunca comi uma jabuticaba tão azeda na
minha vida, uma coisa horrorosa. Com isso, concluo: eu sei, pela qualidade
das jabuticabas trazidas pelas senhoras da igreja para mim, que as árvores de
onde elas foram colhidas são boas. Mas aquelas de Jataí, mesmo sem saber
sua origem, eu sei que a árvore de onde foram colhidas não presta.
Conhecemos a árvore pela qualidade da fruta. Esse é um princípio que não
precisa de demonstração.
O que Jesus quer dizer é que, semelhantes à figura das árvores e seus
frutos, também são as pessoas. As ações e as palavras de alguém sem caráter
também não terão caráter. As pessoas podem envernizar o exterior, podem
disfarçar por um tempo, todavia, mais cedo ou mais tarde, a má qualidade do
seu coração ficará evidente por aquilo que elas falam, pelas palavras que elas
dizem, por aquilo que elas digitam. Cedo ou tarde, as palavras revelarão que
tipo de árvore aquela pessoa é. Esse é o primeiro ponto colocado pelo Senhor
Jesus.
Ele traz, então, três ilustrações para reforçar o que está dizendo. A
primeira ilustração é da fruta e da árvore (verso 33 – já explicado acima). A
segunda é das cobras venenosas. Isso aparece quando ele, no verso 34, diz:
“Raça de víboras [...]”. A palavra víbora também poderia ser traduzida como
ninhada de cobras. Inclusive, ela é uma serpente extremamente venenosa e
tóxica. Esses animais destilam veneno e morte, sendo que não podem
produzir perfume, alimento, bebida ou qualquer coisa boa. Elas sempre
produzirão veneno. Da mesma forma, pessoas más nunca poderão dizer
coisas que são verdadeiramente boas, espirituais, salvadoras, cheias de graça
e que abençoam. “[...] como podeis falar coisas boas, sendo maus? [...]”, diz
Jesus, referindo-se aos fariseus. “Vocês nunca poderão falar a verdade, vocês
nunca poderão dizer coisas boas, que abençoam, que edificam, porque o
problema de vocês não são as palavras, mas o coração. Vocês são como uma
ninhada de cobras ou como uma árvore que não presta, que só produz frutos
imprestáveis”.
A razão para isso está no fim do verso 34, em que Jesus diz: ”Porque a
boca fala do que está cheio o coração”. Aqui, ele estabelece uma relação
direta entre a boca e o coração. Geralmente, estabelecemos uma relação entre
a boca e o estômago, mas Jesus altera a anatomia humana nesse trecho,
dizendo que a boca fala daquilo que o coração está cheio. O coração
representa aquilo que nós somos de verdade, aquilo que somos no íntimo,
aquilo que está oculto, aquela verdadeira natureza que as pessoas não
percebem e que se torna conhecida dos outros por aquilo que nós falamos e
escrevemos. Alguns - como eu já coloquei - até tentam disfarçar o que está no
coração, porém, mais cedo ou mais tarde, aquilo que ele é transborda pelo
teclado ou pelas palavras ditas por ele.
O que revela a verdadeira identidade de uma pessoa não é só a aparência
física, não é o seu status financeiro, mas é aquilo que ela diz. É também a sua
conversa, aquilo que ela escreve.
Certa vez, li a história de um artista muito famoso que resolveu pintar um
cenário que ele tinha descoberto em um passeio que havia feito num
determinado país da Europa. Fato é que ele foi para um parque maravilhoso
com o qual ele havia se encantado, levou o seu cavalete, a sua paleta de cores
e os pincéis. Era um dia belíssimo. Ele escolheu um lugar onde havia um
laguinho com árvores frondosas, de modo que os raios do sol se infiltravam
através das plantas e das folhas, fazendo desenhos coloridos. Enfim, era
muito bonita a cena, e ele começou a pintar aquele cenário magnífico. De
repente, começou um incêndio no bosque por conta de algum turista
descuidado. Devido ao fogo que se alastrava, começaram a sair daquele lindo
e maravilhoso bosque cobras, porcos-espinhos, ratos e aranhas.
Geralmente, as pessoas são como aquele bosque, mas espere chegar o
incêndio da raiva. É nesse momento que você verá o que sairá da boca da
pessoa. Espere chegarem a contrariedade, o confronto, o desagrado. É nesse
momento que você verá que daquele bosque bonito (a boca que fala ou os
dedos que escrevem) sairão cobras e lagartos. Elas até tentam disfarçar, mas
chega uma hora em que não há mais jeito, o que a pessoa é se manifestará,
sairá pela boca, pelos dedos.
É exatamente isso que ele quer dizer: cedo ou tarde, assim como víboras
só produzem venenos, pessoas que têm problemas no coração evidenciarão
essas falhas por aquilo que elas escrevem.
Por fim, há a terceira ilustração do Senhor Jesus para esse ponto: o tesouro
de alguém, como está no verso 35: “O homem bom tira do tesouro bom
coisas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira coisas más”. Mais uma
vez, o tesouro de um homem é o seu bem mais precioso e se encontra em seu
coração, em seu íntimo. Ele o esconde por causa do seu valor. Assim como
uma pessoa cuida com muito zelo do seu tesouro, ela cuida do seu interior, do
seu coração, escondendo-o. Mas assim como um homem revela que tipo de
tesouro ele tem escondido na sua casa, arrancando os objetos nele contidos e
exibindo-os, também nós mostramos o que está entesourado no nosso coração
por meio das palavras que arrancamos dele.
O verbo tirar, utilizado no verso 35, no grego, significa literalmente deixar
jorrar. É como alguém que espreme uma pasta de dentes. Essa é a ideia. O
homem bom espreme do tesouro do seu coração coisas boas. Já o homem
mau espreme do tesouro do seu coração coisas que não prestam. Os homens
maus colecionam e guardam coisas más no coração como emoções,
memórias, mágoas de rancor, de vingança, de impurezas sexuais. Quando
eles espremem tudo isso, quando eles estouram em acessos de ira ou
frustração, revelam o que está dentro deles. Deus arranca de dentro do
coração o que está oculto para que a verdade seja conhecida.
Da mesma forma, pessoas boas, como diz o Senhor Jesus, colecionam e
guardam como um tesouro coisas boas dentro de si: perdão, alegria, paz,
gozo, benevolência, bondade, misericórdia, sendo que eles fazem isso sair do
seu coração e abençoam outras pessoas.
Em resumo, o que Jesus quis dizer nesse primeiro ponto que está presente
dos versos 33 ao 35 é que as palavras dos fariseus revelavam quem eles eram
de fato, ou seja, que eles não conheciam a Deus, não eram pessoas salvas,
embora tivessem aparência de pessoas santas.
A aplicação disto é óbvia: as nossas palavras, semelhantemente, podem
revelar o nosso verdadeiro estado diante de Deus, apesar da nossa
religiosidade, da nossa frequência à igreja, da nossa tradição ou de outros
exercícios espirituais que façamos. O que revela realmente o que nós somos é
aquilo que nós dizemos.

O Dia do Juízo

No Dia do Juízo, as pessoas darão conta diante de Deus de tudo que falaram.
O verso 36 diz: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os
homens, dela darão conta no Dia do Juízo”. E eu acrescento: não só a
palavra proferida, mas também a palavra escrita.
O Senhor Jesus, por meio desse fragmento, adverte-nos que há um dia que
Deus reservou para julgar as pessoas. Esse dia não é agora, mas é um dia que
se encontra ainda no futuro, quando Deus haverá de trazer a juízo as obras e
as palavras de todas as pessoas diante dele. Esse será o dia da vinda de Cristo,
o fim deste mundo como nós o conhecemos. É o dia que Deus reservou para
fazer a justiça que tanto nós queremos. Ele reserva um grande dia em que
finalmente fará a justiça definitiva e completa deste planeta. Nesse dia, ele
cobrará de cada pessoa o uso que fizeram das palavras.
Jesus diz que ele pedirá conta de toda palavra frívola. Essa palavra,
literalmente, no grego, significa inútil. Ou seja, ele pedirá conta da palavra
inútil, da palavra que não serve para nada. Palavras, portanto, que não
abençoaram, não edificaram, não ajudaram. Todos nós haveremos de dar
conta das palavras ditas por nós. E esse ponto é interessante, porque - na
primeira parte - o Senhor Jesus foca nas palavras más, nas palavras
destruidoras. Mas, na segunda parte, ele diz que Deus cobrará também as
palavras frívolas, ou seja, não há meio termo. Se você diz que não fala
palavras que destroem a vida dos outros, a resposta é que também você não
fala nada que a abençoe.
Essa é a palavra inútil, a palavra frívola. É como uma anemia, que não é
agressiva por si só, visto que ela é a falta de algum elemento no organismo: o
ferro, o cálcio, o que pode levar à morte. Este é o seu perigo. Do mesmo
modo, as palavras frívolas podem não agredir, mas o problema é que elas são
inúteis e é aí que reside o seu perigo.
Deus julgará as pessoas, então, de acordo com as palavras que elas
disseram. E eu mais uma vez acrescento: escreveram. E, no Dia do Juízo, não
haverá misericórdia. De nada valerão as desculpas que nós costumamos usar
aqui, como: “Eu sou uma pessoa muito sincera, muito autêntica, eu digo o
que me vem à cabeça”; “Eu sou muito espontâneo, eu falo assim, eu sou
extrovertido, é assim que eu sou”; “Não, eu não tinha intenção, eu estava só
brincando, era uma suposição”. Já vi até pessoas dizendo assim: “É bom eu
ser assim, pastor, eu estouro e logo passa”. Mas e o estrago que esse estouro
faz? Todos sabemos o estrago que uma explosão faz.
Então, naquele dia, as palavras revelarão o que nós somos. Alguns
exemplos ilustram isso.
O que pessoas que falam mal de outras, contam vantagem, falam o que
não devem falar, comparam-se e criticam tudo revelam sobre si mesmas?
Arrogância!
O que revelam sobre si pessoas que falam sem parar, acabando por dizer o
que não devem, dizendo-se extrovertidas e espontâneas? Falta de domínio
próprio! Essas pessoas não têm controle, são descontroladas.
E o que revelam sobre si os que expõem, além da sua própria vida, a vida
da família (filhos, marido/mulher) no Facebook? Insensatez.
E as pessoas que se expõem por meio de selfies constantemente, revelam o
quê? Inocência? É claro que não. Na verdade, revelam vaidade. São vaidosas.
Uma selfie é aceitável, mas dez? É vaidade mesmo!
Agora, o que revelam pessoas que postam piadas sujas, falam palavrões,
republicam ou reenviam vídeos e fotos sensuais compartilhados pelos
amigos? Impureza no coração! Afinal, os que querem andar com Deus não
compartilham vídeos sensuais, palavrões ou coisas dessa natureza. Porém,
infelizmente, o que mais vemos na internet é crente compartilhando lixo.
Acusações, ironias, zombarias. O que tudo isso revela? Mágoa, ódio.
Brincadeiras inconvenientes com as coisas de Deus e chocarrices revelam o
quê? Irreverência.
A lista é grande. No Dia do Juízo, as palavras dirão exatamente quem nós
somos. Aliás, elas já dizem agora. Afinal, conhecemos uma pessoa por aquilo
que ela fala, tanto pela palavra dita quanto pela palavra escrita. E também
porque hoje estamos na época da imagem, eu acrescentaria: nós conhecemos
uma pessoa por aquilo que ela fala, digita e posta (estou me referindo à
imagem, vídeo, enfim, compartilhamentos desse tipo de arquivo que revela
realmente o estado da pessoa).
Como o Senhor Jesus disse, Deus tem um dia reservado em que nós
daremos conta de todas as nossas comunicações, mas, às vezes, Deus começa
o julgamento aqui neste mundo. Por exemplo: nós lemos no livro do profeta
Isaías que o rei da Assíria escreveu uma carta contendo ameaças contra os
israelitas e blasfêmias contra o Deus de Israel e a enviou para o rei Ezequias.
Este, por sua vez, pegou aquela carta (hoje seria um e-mail, uma postagem),
entrou no templo, estendeu-a diante de Deus e disse: “Senhor, foi isso que ele
escreveu”. Deus, naquela noite, julgou o exército dos babilônios. Um anjo
passou e destruiu milhares de soldados, efetuando o juízo divino sobre as
palavras ditas por Senaqueribe.8
Algum tempo depois, o rei Nabucodonosor estava passeando nos Jardins
Suspensos da Babilônia, uma das sete maravilhas do mundo, dizendo: “Não é
essa grande Babilônia que eu construí para o meu louvor e para minha
glória?”. Deus o julgou imediatamente, e ele caiu vítima de uma doença que
o fez se comportar como um animal.9
Muitos séculos depois, quando Jesus estava sendo julgado por Pilatos, os
judeus disseram: “Nós queremos Barrabás, queremos Barrabás, caia sobre
nós o sangue de Jesus e sobre os nossos filhos”.10 Trinta anos depois, os
romanos invadiram Jerusalém e mataram todos os judeus ao fio da espada.
Mais de meio milhão de judeus pereceu. Deus fez de acordo com as palavras
deles.
Às vezes, Deus julga aqui as palavras, mas aquelas que ele não julgar aqui
estarão reservadas para o Dia do Juízo e nesse dia não haverá misericórdia.
Querido leitor, quero lembrá-lo que não são apenas as nossas palavras
faladas ou escritas, não é somente o conteúdo delas, mas o tom com que as
falamos. De repente, você pode estar dizendo palavras escolhidas, palavras
que não são ofensivas, mas o tom com que você diz faz a diferença.
Sobre isso, há uma história interessante. Havia um pai que mandou o filho
para estudar no exterior. Após um tempo, ele recebeu um e-mail, dizendo:
“Papai, me manda dinheiro”. Imediatamente, ficou enfurecido. Relia o e-mail
em voz alta, indignado. Então, chamou sua esposa e disse, rispidamente:
“Mulher, é por isso que eu não queria mandá-lo, isso é um absurdo! Leia!”. A
mãe, calma, olhou e disse: “Não é isso que está escrito”. O pai, exasperado,
vociferou: “Como não? Olhe!”, e releu o e-mail para ela. A esposa,
extremamente em paz, insistiu que não e releu, em tom suave e terno: “Papai,
me manda dinheiro”. É claro que o modo como ela leu fez toda a diferença.
Não é o tom que faz a música? Às vezes, não é a palavra, é o tom com o qual
nós falamos que revela o que está em nosso coração. Certamente, no Dia do
Juízo Deus haverá de cobrar esse item também.

Justificação ou condenação

Neste último ponto, veremos que serão possíveis apenas dois resultados no
julgamento pelas palavras ditas.
O verso 37 diz: “porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas
tuas palavras, serás condenado”. Basicamente, o que Jesus fala, nesse ponto,
é que nesse julgamento ninguém poderá argumentar nada, porque as palavras
serão a evidência. É como um flagrante. As palavras ditas por nós serão
usadas para definir o veredito, e para este não há apelação, não cabe recurso,
porque a evidência é clara e óbvia, pois estará presente ali.
Deus não chamará ninguém para testemunhar contra você. Ele
simplesmente tomará as suas palavras. Ele não precisará chamar testemunha
A, B, C ou D para acusação, porque bastará ele tomar as suas palavras para
chegar a um veredito, que poderá apenas ser: justificado ou condenado.
Jesus diz: “[...] pelas tuas palavras, serás justificado [...]”. Não
entendamos, a partir desse trecho, que nossas palavras nos salvam. O que o
Senhor diz é que nossas palavras mostram que fomos salvos, que tivemos um
coração transformado, mudado, orientado para Deus e para o próximo.
É verdade que, eventualmente, mesmo um crente pode dizer uma
bobagem, mas ele, por certo, arrepende-se daquela bobagem proferida, pois
sabe que disse o que não devia. As palavras de um regenerado, de alguém
que nasceu de novo, tendem a ser palavras que revelam um coração
arrependido, quebrantado, pois esta pessoa é uma nova criatura. Então, no
Dia do Juízo, todas as palavras ditas por ela serão apenas a evidência de que
ela tem um coração que foi perdoado e regenerado, pois Deus mudou o seu
coração.
Palavras de perdão, encorajamento, verdade; palavras justas, cheias de
graça, temperadas com amor; palavras de temor a Deus, amor a Cristo;
palavras que refletem a devoção a Deus e ao seu reino. Tudo isso é evidência
da salvação. Essas palavras evidenciam que, de fato, uma pessoa está salva e,
por isso, no Dia do Juízo, ela será justificada. Notemos que é uma declaração
que Deus dará de que ela está perdoada e justificada de todos os seus atos
errados, porque as palavras mostraram que essa pessoa se quebrantou diante
de Deus, humilhou-se, pediu perdão e viveu em humildade diante do Todo
Poderoso.
Por sua vez, o segundo veredito, na parte final do verso 37, que diz: “e,
pelas tuas palavras, serás condenado”, não significa que as palavras de
alguém o condenarão. Na verdade, suas palavras revelarão o seu verdadeiro
estado, a saber: que, de fato, nunca conheceu a Deus, que o seu coração
nunca foi mudado, que seu tesouro é mau, que a raiz da árvore era má, que a
seiva não prestava. E a prova disso são as palavras ditas por essa pessoa:
críticas, sujeira, malícia, mentira, calúnia, acusação, zombaria, escárnio,
enfim, a lista é grande.
Deus não precisará chamar ninguém para condená-lo. Ele apenas tomará
as suas palavras. É bom lembrar que condenação aqui representa o
sofrimento eterno. A partir do momento que a pessoa for declarada culpada, a
sentença é o sofrimento eterno, longe de Deus e da sua glória.

Aplicações

Querido leitor, quero terminar fazendo algumas aplicações.


Quando eu e minha família nos mudamos para São Paulo, alguns anos
depois, Minka, minha esposa, plantou um pé de uva, uma parreira em nossa
casa. As primeiras uvas eram muito ruins, amargas, azedas. Não serviam nem
para suco. Mas, conforme os anos foram passando, tudo melhorou. Hoje é
uma das uvas mais doces que eu conheço. Quando vamos para São Paulo,
encontramos, logo na entrada da nossa casa, deliciosos cachos pendurados.
Conclusão: era uma árvore ruim, mas mudou, produzindo hoje frutos bons.
A mesma coisa pode acontecer com você. Deus pode mudar seu coração,
sua vida, mas para isso é preciso que, primeiramente, você seja honesto e se
avalie. É preciso que você pense nas mentiras que já disse e diz, na falta de
controle, no ataque aos outros, nas críticas, fofocas, palavrões, bobagens,
palavras inúteis, exposições de si mesmo em público, fotos e vídeos
compartilhados.
Será que tudo isso não revela algo mais profundo? Será que não revela que
o seu relacionamento com Deus, na verdade, não existe ou, se existe, está
precisando mudar seriamente? Já pensou que talvez essas atitudes, que lhe
parecem naturais e que brotam naturalmente do seu coração, revelam que
você nunca nasceu de novo e que, sendo assim, é necessário que você se
arrependa, converta-se? O problema não são as palavras, mas a origem delas.
O seu coração precisa ser mudado.
Só há um caminho para solucionar esse problema: o arrependimento
sincero. É preciso se achegar diante de Deus, reconhecer o seu estado e dizer:
“Deus, eu reconheço que as minhas palavras indicam o meu estado, o meu
relacionamento com o Senhor, e hoje eu quero pedir perdão, quero pedir que
o Senhor me mude, que o Senhor conserte a minha vida, que o Senhor me
transforme”.
Após isso, dê evidência de arrependimento, como por exemplo,
consertando o que for possível. Talvez você tenha ofendido ou magoado
alguém; destruído a reputação de uma pessoa; mentido. Enfim, peça perdão.
Talvez você tenha que apagar vídeos e fotos do seu perfil ou até mesmo
bloquear os que encaminham esse tipo de sujeira para você.
Ore a Deus por uma mudança profunda em sua vida, porque, se o seu
coração for regenerado, você nem precisará mais se preocupar com as
palavras, pois elas brotarão naturalmente.
A graça de Deus me alcançou aos 22 anos, porém, antes da minha
conversão, a cada seis palavras que eu dizia, cinco eram palavrões. Só com
isso você pode imaginar como eu era. Reunia-me para falar mal dos outros,
para contar as aventuras emocionais que eu e meus amigos tínhamos, enfim,
contar vantagens. Para ilustrar o primeiro efeito que a graça de Deus fez na
minha vida quando me alcançou, cito uma cantiga infantil que aprendi no
jardim de infância. Ela dizia: “O sabão lava meu rostinho, lava meu pezinho,
lava minha mão”. Pois é. Jesus lavou minha boquinha, por assim dizer. Não
deu uma semana e todo palavrão, entre outras coisas, tinha ido embora. A
questão não era o palavrão, mas a fonte. Ela foi mudada. O coração foi
mudado, logo, as palavras acompanharam essa mudança. Peço a Deus que te
dê um novo coração.
Você está procurando entrar num relacionamento amoroso? Não se
impressione com a aparência. Às vezes, a pessoa é extremamente bela, mas
completamente vazia por dentro, tendo apenas porcarias e bobagens na
cabeça; ou pensa que é dona do mundo. Enfim, converse por um tempo e
você tirará suas conclusões. Mas não se impressione com a aparência. Gaste
tempo com conversa. É por isso que o namoro cristão diz tanto, porque você
tem que conversar. Sente-se na sala – não precisa que seus pais ou alguém
estejam juntos – e diga: “Vamos bater papo, vamos conversar, vamos falar
sobre as coisas da vida”. De repente, você perceberá o que a pessoa tem de
bonito e também de tolo. Você pode chegar a essa conclusão, uma vez que
beleza não se põe à mesa e não faz casamento feliz. Tenha certeza disto.
Você, com certeza, preferirá alguém considerado feio pelos padrões
socialmente estabelecidos, porém sábio. É isso que fará você feliz e que
manterá você em um casamento.
Você está procurando amigos? Não se impressione com status. Está
procurando relacionamentos? Não se impressione com aparência. Antes,
converse, ouça o que a pessoa diz. Só assim você saberá o que está no
coração dela de verdade.
Mas vou inverter o quadro. Até aqui expus considerações sobre você,
leitor. Mas o que fazer com o outro, com os que estão à sua volta? O que
fazer quando você encontra pessoas da igreja, da família, irmãos em Cristo
cujas palavras revelam que alguma coisa está errada no coração?
Primeiramente, você conversará com aquela pessoa em particular. Se for
necessário, imprima o que ela escreveu e, em oração, pedindo a Deus que lhe
dê graça e sabedoria, converse com ela. Jesus disse que, se nós fizermos isso
e a pessoa nos ouvir, nós ganhamos aquela pessoa. Você já pensou que
privilégio ganhar uma pessoa para Cristo? E lembre-se: quando você for
conversar, o foco não é tanto as palavras que foram escritas (as imagens, as
fotos, os vídeos), mas o coração, porque as palavras apenas revelam o que há
no coração.
Se necessário, converse uma segunda vez, todavia leve consigo duas
outras pessoas. Se mesmo assim não houver mudança, finalmente, e se for o
caso, busque ajuda pastoral para essa pessoa, mas não desista dela. De
repente, as palavras mostram que ela está desesperadamente precisando de
ajuda, não de condenação. É nosso dever ajudá-la.

Conclusão

O que faremos diante dessa exposição? Antes de preparar esse sermão, orei a
Deus e perguntei a ele como relacionaria essa mensagem com o Senhor Jesus.
Disse que não queria, por meio dessa exposição, levar as pessoas a serem
legalistas, colocando estes conselhos em prática à força da carne. Também
não queria levá-las a se sentirem inferiorizadas e desesperadas. Questionei
que tipo de esperança eu poderia trazer.
Após um tempo, vieram-me as palavras do Senhor Jesus, registradas no
Evangelho de João, capítulo 15, versos 4 e 5: “permanecei em mim, e eu
permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se
não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não
permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece
em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.
É na união com nosso Salvador, unidos com o Senhor vivo e exaltado, que
nós teremos o poder de um coração regenerado, que produz bom fruto e que
profere palavras que abençoam, salvam, consolam, edificam, glorificam a
Deus. Você quer isso?
Em oração, peçamos a Deus que nos ensine e nos dê arrependimento
verdadeiro. Também clamemos por coragem, a fim de enfrentarmos as
consequências das nossas palavras. E, por último, mas não menos importante,
supliquemos que, unidos a Jesus, possamos dar bons frutos.
Amém!

ORAÇÃO

Senhor Deus, pedimos que nos ajude a dar bons frutos e nos ensine a nos arrependermos
verdadeiramente. Ajude-nos, Senhor, a termos coragem para enfrentar as consequências das
palavras que proferimos, e que pelas nossas palavras sejamos reconhecidos como pessoas que
foram transformadas e redimidas pelo sangue de Jesus Cristo.
Amém!

7 Sermão pregado em 28 de setembro de 2014.


8 Cf. 2 Reis 19:14-37
9 Cf. Daniel 4
10 Cf. Mateus 27:11-26
5

UM IRMÃO EM CRISTO
ME DEU PREJUÍZO: E AGORA?
Texto-base: I Coríntios 6:1-1111

Introdução

Uma das maiores causas de conflitos, brigas e questões entre irmãos em


Cristo é exatamente a divergência em assuntos que tratam de propriedades,
bens, dinheiro, sociedades, empréstimos, ser fiador. Eu vi isso durante toda
minha vida. Poucas áreas são tão poderosas para destruir relacionamentos
entre cristãos como as que envolvem dinheiro. E é diante de um caso desse,
ocorrido na igreja de Corinto, que nós estamos.
Ao que parece, um membro da igreja havia prejudicado outro membro
financeiramente. O que fora prejudicado resolveu levar o irmão que o
prejudicou à Justiça sem antes tentar resolver a questão no âmbito da
comunidade cristã.
O apóstolo Paulo diz que era uma queixa, como vemos na primeira parte
do verso 1: “Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro [...]”. Ao
que parece, não havia acordo entre os dois. Existia uma queixa, uma questão
entre eles. Paulo diz, no fim do verso 2, que era algo mínimo: “ [...] sois,
acaso, indignos de julgar as coisas mínimas?” (grifo meu). É importante,
antes de prosseguir, chamar a atenção do leitor ao trecho grifado. “Coisas
mínimas” serve para estabelecer que, diante das coisas eternas, essas
questões eram pequenas. É sobre esse ponto que Paulo tratará.
No verso três, ele diz: “Não sabeis que havemos de julgar os próprios
anjos? Quanto mais as coisas desta vida!”. Portanto, percebemos que essa
queixa estava relacionada a algum bem material, algo a ver com dinheiro.
Isso fica mais claro no verso 4: “Entretanto, vós, quando tendes a julgar
negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não têm nenhuma
aceitação na igreja.” (grifo meu). O termo destacado evidencia ainda mais
que se trata de algo que envolve dinheiro, bens ou propriedades.
Nos versos 6 e 7, o apóstolo diz que um irmão havia cometido injustiça e
dano contra outro: “Mas irá um irmão a juízo contra outro irmão, e isto
perante incrédulos! O só existir entre vós demandas já é completa derrota
para vós outros. Por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis,
antes, o dano?”.
Não sabemos exatamente do que se tratava, mas não é difícil imaginar.
Talvez uma sociedade. Dois irmãos em Cristo, da mesma igreja, resolveram
começar um negócio que não deu certo. Eles não conseguiram chegar a um
acordo, e o caso foi parar nas barras do tribunal.
Poderia ser também uma herança deixada por um pai que falecera. Isso é
muito comum. Irmãos que são amicíssimos durante toda a vida até que o pai
morre e deixa uma herança. A amizade acaba, e a irmandade se extingue.
Cada um vai para o seu lado. Pode ter sido também um caso desses que foi
parar nas barras do tribunal.
Ainda poderia ser um empréstimo. Um irmão estava em aflição, outro
generosamente emprestou-lhe. Aquele não pagou. Ambos não conseguiram
chegar a um acordo para resolver, e o caso foi novamente para a Justiça.
Como apresentado, as possibilidades são muitas. Paulo não nos diz o que
é, mas, com certeza, era algo relacionado a algum desses pontos. Algo que
parou nos tribunais da cidade de Corinto.
O Império Romano mantinha, nas principais cidades dos países
dominados, tribunais e magistrados que julgavam de acordo com a lei romana
– um direito muito bom por sinal. Havia um sistema judiciário – que,
inclusive, serviu de base para muitas democracias de hoje –, ao qual pessoas
se dirigiam a fim de dirimir as suas questões.
Mas a grande indignação de Paulo diz respeito ao fato de irmãos estarem,
num bom português, lavando roupa suja perante os tribunais da cidade. Os
coríntios estavam levando assuntos, como os apresentados acima, diante de
tribunais compostos por pessoas que não tinham nem a aceitação da igreja.
Não pensemos que Paulo está denegrindo o sistema judiciário, porque, no
capítulo 13 de sua carta aos Romanos, ele fala que o magistrado e as
autoridades civis são instituídos por Deus.
A questão aqui é outra. Voltemos ao verso 1, que diz: “Aventura-se algum
de vós, tendo questão contra outro, a submetê-lo a juízo perante os injustos e
não perante os santos?”. Ou seja, “Você tem coragem, você se atreve a fazer
isso?”. Paulo está indignado.
Essa indignação recai sobre quatro pontos: 1) Um irmão prejudicou outro
financeiramente. Isso, por si só, já havia gerado a indignação do apóstolo,
pois algo assim nem deveria ter acontecido; 2) Eles não conseguiram chegar a
um acordo e, por isso, foram para as vias de fato; 3) O prejudicado resolveu
buscar a solução nos tribunais civis em vez de procurar uma solução dentro
da igreja com irmãos sábios que pudessem ajudá-lo; e 4) A confusão estava
feita, talvez pela igreja ter sido omissa ou por não ter percebido e oferecido
ajuda a tempo.
Paulo argumenta que casos de querelas entre irmãos, casos que envolvem
patrimônios, bens, negócios, dinheiro deveriam, primeiramente, ser
resolvidos entre os irmãos e não nas barras dos tribunais. Ele argumentará
sobre isso. Mas é importante observar que essa orientação que Paulo está
dando tem a ver com disputas entre irmãos relacionadas a propriedades, bens
materiais, dinheiro, porque há casos em que é dever nosso acionar as
autoridades contra pessoas que se dizem cristãs, mas estão cometendo crimes.
Por exemplo, uma pessoa que frequenta a igreja e se diz crente, mas bate
na esposa, tem que ser denunciada, pois está cometendo um crime. Todavia,
Paulo não está falando sobre isso. Há assuntos diante dos quais, se você se
mantiver calado, você se torna cúmplice. Mas aqui é uma questão de disputa
de dinheiro. Como resolver uma situação como essa?
Paulo, então, apresenta cinco argumentos para que problemas como aquele
fossem resolvidos dentro da própria comunidade.

Os santos, junto a Deus, julgarão o mundo


O primeiro argumento (que vai do primeiro ao terceiro versos) é que disputas
e questões entre os crentes devem ser primeiramente submetidas aos santos.
Quando ele diz “Aventura-se algum de vós, tendo questão contra outro, a
submetê-lo a juízo perante os injustos e não perante os santos?”, precisamos
entender que a palavra injustos, no Novo Testamento, com frequência é usada
apenas para descrever aqueles que não são justos diante de Deus, que não
foram perdoados, portanto os incrédulos em geral. Porém não significa que os
juízes de Corinto eram corruptos. A questão é que, diante de Deus, eles não
tinham justiça, pois não haviam sido justificados em Cristo Jesus. É como se
Paulo estivesse dizendo: “Vocês estão resolvendo isso perante os descrentes e
não entre os crentes”.
Quando ele chama os da igreja de santos, ele não quer dizer que estes são
perfeitos, até porque dois estavam brigando no tribunal. Então, é evidente que
santo aqui não significa que eles são perfeitos, mas santo significa que eles
foram perdoados e separados por Deus. É isso que essa palavra significa:
separado do mundo para o serviço de Deus. Também não significa que eles
não têm pecado.
Então, as questões têm que ser resolvidas primeiramente na comunidade.
Pensando nisso, acrescento que esse é mais um argumento a favor da
necessidade de o cristão viver em comunidade, ainda mais hoje, quando o
movimento dos desigrejados se fortalece no Brasil e no mundo. Trata-se de
um pessoal que quer Cristo, mas não quer a igreja. Eu não sei como esse
movimento entende esta passagem, porque ela pressupõe que Deus usa a
igreja como grupo, como comunidade, como ajuntamento de irmãos sob o
senhorio de Cristo para ser um lugar onde nós resolvemos nossos problemas.
Como uma pessoa que julga ser crente pode sê-lo em casa, sozinha? Como
pode ser um crente na internet? Como ela poderá usufruir desse privilégio de
fazer parte de uma comunidade que restaura, que cura, que abençoa e que
ajuda? É bem verdade que fere, às vezes, mas a mesma mão que fere é a que
vai curar.
“Vocês têm que resolver primeiro entre vocês”, diz o apóstolo Paulo. Em
seguida, ele dá o seguinte argumento, presente nos versos dois e três: “Ou
não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser
julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não
sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas
desta vida!”.
Percebam que Paulo parte do maior para o menor. A lógica é a seguinte:
no Dia do Juízo, os crentes em Cristo Jesus estarão ao seu lado quando ele for
julgar o mundo. Ou seja, naquele grande Dia do Juízo que Deus tem
reservado para nós, não sabemos quando será, pode ser mais breve do que
imaginamos, quando ele chamar a si toda a humanidade para prestar contas,
os que são de Cristo estarão ao lado dele para julgar o mundo. Nós vamos
julgar os ímpios, os idólatras, os imorais, os incrédulos, os aborrecedores de
Deus, os violentos, os assassinos, os traficantes, enfim, todos esses que nunca
se arrependeram de nada comparecerão diante de Cristo, e estaremos do lado
de cá, com Jesus, para julgar o mundo. E quando terminar o julgamento e o
juiz bater o martelo e disser para entrar o próximo, então o próprio Satanás
acompanhado de seus anjos caídos e os demônios aparecerão no tribunal e
nós os julgaremos. Nós pronunciaremos o juízo sobre eles. “Vocês não sabem
disso?”, pergunta o apóstolo Paulo duas vezes. “Vocês que julgarão o mundo
e os anjos não são capazes de julgar as coisas dessa vida, coisas mínimas?
Não são capazes de resolver esse problema entre vocês?”.
Boa parte do problema da igreja é exatamente esse que Paulo está dizendo.
É quase que uma repreensão irônica. Não é que eles não sabiam. Eles sabiam,
mas, como acontece com frequência em nossa vida, não percebemos as
implicações práticas. O que Paulo está dizendo é: “Sejamos coerentes,
irmãos, pois nós vamos julgar o mundo e os anjos. Será, então, que não temos
condições de julgar uma querela entre irmãos por questão de dinheiro? Não é
possível resolver isso?”. Com aquele comportamento, era como se a igreja
dissesse: “Nós somos incapazes de participar do julgamento do mundo e dos
anjos, porque não conseguimos nem resolver isso aqui”.
Este é o primeiro argumento do apóstolo Paulo: no Dia do Juízo, os que
são de Cristo, os chamados santos, santificados em Cristo Jesus, perdoados e
aceitos por ele, estarão julgando o mundo e os anjos. Por isso, mesmo eles
deveriam ser capazes de julgar os problemas entre os irmãos sem ter que
levá-los às barras dos tribunais.
Expondo à vergonha a igreja e o Evangelho

O segundo argumento de Paulo está presente nos versos 4 a 6. Para Paulo,


levar aos incrédulos questões de irmãos era submeter a igreja, o Evangelho e
o nome de Deus à vergonha pública. Era, como já dito acima, lavar a roupa
suja em público. Notemos o que ele diz no verso 4: “Entretanto, vós, quando
tendes a julgar negócios terrenos, constituís um tribunal daqueles que não
têm nenhuma aceitação na igreja”. O que ele quer dizer é o seguinte: se
algum daqueles juízes do tribunal de Corinto quisesse, um dia, ser membro
da igreja, ele não seria aceito, porque naturalmente ele teria que se arrepender
da sua imoralidade, dos seus pecados, da sua idolatria, ou seja, da adoração
ao imperador romano, caso contrário não seria aceito. Logo, como levar um
problema entre irmãos diante de uma pessoa que não seria nem aceita no seio
da igreja, porque lhe falta arrependimento dos seus pecados?
Às vezes, penso o que um juiz desse diria: “Olhe, esses crentes cantam na
igreja ‘eu te amo, meu irmão; eu te amo, meu irmão’, mas, quando o assunto
é dinheiro, eles se estapeiam”. Vocês, leitores, não acham que um juiz,
quando recebe dois evangélicos que buscam resolver um problema
financeiro, não pensa assim? É exatamente isso que ele diz. Falem com
pessoas que trabalham nessa área e vocês verão a zombaria e o escárnio que
são feitos: “Olhem os dois irmãos brigando por dinheiro! Eles cantam ‘tudo
entregarei, tudo entregarei’, mas na hora de entregar o dinheiro eles se
estapeiam”.
Que vergonha! Que vergonha! Por isso, Paulo diz: “Para vergonha vo-lo
digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa
julgar no meio da irmandade?”. O que eu acho interessante nessa passagem
é que a igreja de Corinto julgava ser espiritual.
Se estudarmos toda a história da relação de Paulo com essa igreja, as duas
cartas enviadas por ele a essa comunidade, veremos que ela se achava
realmente espiritual. Era uma igreja que tinha a manifestação do dom de
línguas, profecia, enfim, dons que eram considerados essenciais e muito
importantes no culto. Esses irmãos de Corinto se achavam superespirituais,
conforme Paulo diz em pelo menos duas passagens. O apóstolo, em resposta,
então diz: “Vocês acham que são espirituais, porque vocês têm todas essas
manifestações no meio de vocês, mas vocês não têm um irmão sábio para
resolver esse problema!”. Isso é espiritualidade?
Contextualizando para os nossos dias, de que adianta a ortodoxia, a
firmeza doutrinária, um culto excepcional, se nós não conseguimos resolver
os nossos problemas relacionados ao dinheiro entre irmãos? E evoco o
apóstolo, que diz: “Para vergonha vo-lo digo [...]”. Será que nós não temos
irmãos com discernimento que possam julgar e resolver esses problemas sem
expor a igreja, sem expor o nome do Evangelho, o nome de Deus nas barras
do tribunal?

Perder por amor ao Evangelho

Neste terceiro argumento, preciso que o leitor tenha paciência para receber as
palavras do apóstolo Paulo. Faço minhas as palavras de Jesus: “Quem tem
ouvidos para ouvir, ouça!”.
O que Paulo está dizendo é que é preferível sofrer o prejuízo a expor o
nome de Cristo, o Evangelho e a igreja ao escárnio e zombaria do mundo. No
verso sete, ele começa dizendo: “O só existir entre vós demandas já é
completa derrota para vós outros. [...]”. A primeira derrota era eles viverem
brigando. E não era uma derrota parcial. Era um verdadeiro 7x1, Alemanha x
Brasil, a derrota completa. Já a segunda pior derrota, por sua vez, era a igreja
levar os problemas internos para serem julgados pelo mundo.
A orientação de Paulo no verso sete diz: “Por que não sofreis, antes, a
injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?”. Em outras palavras, Paulo
diz: “Por que, antes, vocês não escolheram abrir mão, saírem prejudicados,
perderem, saírem defraudados do que levar o nome de Cristo no tribunal? É
preferível vocês perderem a mancharem o nome de Cristo”.
Paulo não está encorajando os crentes a serem enganados e ludibriados por
outros crentes sem reagir, porque, infelizmente, há pessoas nas igrejas que se
aproveitam da bondade dos irmãos. O que ele realmente quer dizer é que
essas coisas nem deveriam acontecer. Todavia, se acontecerem, ele diz que a
igreja tem que resolver seus problemas entre os domésticos na fé. O dano e o
prejuízo precisam ser sanados. Enfim, a irmandade, entre si, tem que resolver.
No entanto, quando não for possível, restando apenas levar o caso ao tribunal,
Paulo apresenta uma terceira alternativa: abrir mão, perder! Mas jamais um
irmão deve processar o outro no tribunal para não expor o nome de Cristo.
No entanto, só terá essa atitude quem considera a igreja, o nome de Deus e
o Evangelho mais caros e preciosos do que os bens materiais. Porque se a
pessoa não se importa com o que o mundo pensará do nome de Cristo, do
Evangelho, da igreja, tendo como única preocupação o dinheiro, ela,
certamente, recorrerá à Justiça terrena, não medindo as consequências de seus
atos na busca pelo que é seu.
Entretanto, se há amor pela glória de Deus, pelo nome de Jesus Cristo
acima de qualquer coisa, o cristão considerará a possibilidade de sair
perdendo nesse sentido, todavia ganhará de Deus aprovação, sabendo que ele
haverá de recompensá-lo.

“Não se deixem enganar”

É interessante notar que Paulo, para iniciar esse argumento, novamente usa a
expressão “não sabeis?”. Nestes versos (9 e 10), ele adverte a igreja dizendo
que os injustos não herdarão o reino dos céus. Estes farão de tudo para terem
herança nesta vida. Eles brigarão a ferro e fogo para terem o que é seu e para
terem dinheiro, mas uma coisa é certa: os injustos podem até herdar algo
nesse mundo, mas eles não herdarão nem entrarão no Reino de Deus.
Veja como Paulo diz no verso 9: “Não vos enganeis”. Sejamos francos, a
coisa mais fácil do mundo é nos enganarmos a fim de fazermos o que não
presta. E as desculpas são muitas: “Deus perdoa; Deus não liga para isso;
também tenho meus direitos; ele não vale nada etc.”. Nós temos uma coleção
enorme de mecanismos de defesa e autojustificação. Por isso, Paulo,
conhecendo a natureza humana, diz: “Não vos enganeis”. Ou seja, “Não caia
no autoengano de pensar que Deus não está vendo essas coisas e que, para
ele, elas não têm importância”.
E então, para deixar claro que não é apenas uma questão menor ou uma
questão de discordância de dinheiro, ele coloca uma lista de elementos para
os quais todos olham e dizem: “Não estou nessa lista!”, mas o injusto está
exatamente qualificado e encaixado nela. Eis a lista: nem os impuros (que
cometem impurezas sexuais), nem os idólatras (que adoram outros deuses
que não o Deus único e verdadeiro), nem os adúlteros (que vivem traindo seu
cônjuge), nem os afeminados, nem os sodomitas (em uma relação
homossexual, os primeiros são passivos, os segundos, ativos).
O leitor poderia perguntar: “Mas alguém que prejudica seu irmão e é
injusto estaria enquadrado nessa lista?”. Eu respondo que está enquadrado
exatamente nessa lista. Não se enganem, pois os injustos não entrarão no
reino de Deus, assim como também todos os outros mencionados aqui.
Agora, obviamente, uma distinção importante precisa ser feita. Às vezes,
você prejudicou um irmão em Cristo, mas está ciente de sua ação,
arrependido e procurando meios para resolver o assunto. Se esse é o caso,
essa mensagem não é para você.
É válido lembrar o exemplo de Davi, que adulterou cometendo um pecado
contra Deus. Porém, posteriormente, arrependeu-se e foi perdoado por ele. Se
você, do mesmo modo, arrependeu-se, essa mensagem não é para você.
A mensagem de Paulo é para aqueles que se dizem irmãos, mas que vivem
na prática da embriaguez, da mentira, da imoralidade, do adultério, da
roubalheira, além da prática da injustiça contra irmãos. Essa é a lista dos que
vivem nestas práticas. Estes, certamente, não entrarão no reino de Deus.
“Não se deixem enganar”, diz o apóstolo Paulo.

Nova vida debaixo da graça de Deus

O último argumento de Paulo (verso 11), com o qual ele termina, diz: “Tais
fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes
justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”.
Que argumento maravilhoso! Ele diz: “Meus irmãos, alguns de vocês
fizeram parte dessa lista”. É importante dizer que essa lista reflete a
sociedade de Corinto. Essa cidade era extremamente corrompida. Escavações
arqueológicas na antiga Corinto desenterraram tabernas que possuíam um
duto que trazia bebida alcoólica. Às vezes, achamo-nos tão avançados, mas
naquela época os coríntios já tinham uma espécie de conduíte que
transportava a bebida direto para o consumo do cidadão. Algo sofisticado.
Também foi descoberto que nas paredes dos templos onde ocorriam os
cultos aos deuses pagãos havia desenhos de órgãos genitais, devido a uma
mistura de prostituição e religião, algo muito antigo que perdura até os dias
de hoje.
A cidade de Corinto era tão corrompida que na antiguidade se cunhou, em
grego, o verbo corintianizar, que significava corromper alguém. Se alguém
dissesse a outro: “Você é um coríntio”, seria o mesmo que dizer: “Você é um
corrupto”.
Era essa a cidade onde Paulo foi pregar o Evangelho. Fato é que muitas
daquelas pessoas que tinham esse estilo de vida se converteram e creram no
Senhor Jesus. Sobre isso, Paulo diz: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos
lavastes [...]” (destaque meu). O termo destacado está na linguagem figurada
e remete à lavagem de purificação do Antigo Testamento, em que o judeu,
quando pecava, oferecia sacrifícios e era borrifado com sangue ou com uma
água especial, que era aspergida sobre ele, significando que ele estava sendo
lavado do seu pecado.
E continua: “[...] mas fostes santificados [...]”. Em outras palavras, ele
quer dizer que eles foram separados do mundo e que o Espírito de Deus
começou a trabalhar neles. Em seguida, completa: “[...] mas fostes
justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”.
Ou seja, Deus perdoou todos os pecados cometidos. Todos os que faziam
parte da lista citada por Paulo e se converteram foram perdoados em nome do
Senhor Jesus. Não porque tinham merecimento, mas por causa do nome do
Senhor Jesus e do poder do Espírito do nosso Deus, para quem não existe
caso difícil.
Olhem essa lista. Nela é citado o afeminado e o sodomita. Há pessoas que
dizem que não existe solução para isso. Mas é uma propaganda enganosa. O
Evangelho pode mudar qualquer pessoa. E a prova é que aquelas pessoas
tinham mudado.
E agora o raciocínio é o seguinte: “Vocês já mudaram, já foram aceitos
por Deus. Mas isso que vocês estão fazendo um com outro, essas disputas
entre vocês fazem parte da vida antiga dos injustos, que não herdarão o Reino
de Deus. Se alguém está em Cristo é uma nova criatura e as coisas velhas
passaram, tudo se fez novo. A vida é nova, os costumes são novos, as atitudes
são novas”.
Porém, hoje, a pessoa se declara evangélica, passa a frequentar uma igreja
evangélica e a seguir todo o ritual evangélico, mas ela continua como era
antes. Ela continua a fazer negócios como fazia antes, continua a se divertir
como se divertia antes, a tratar a mulher (ou o marido) como tratava antes.
Eu sei que, às vezes, quando nós nos convertemos, é necessário um tempo
até que a nossa cabeça se reajuste àquilo que o nosso coração já se reajustou.
Gosto de estabelecer a seguinte comparação: pense em um copo que você
encheu com aquele caldinho de feijão bem gostoso. Quando terminou de
tomá-lo, o copo ficou todo sujo. Então, você o coloca embaixo da torneira e
deixa a água limpa entrar. Não é preciso fazer nada, apenas deixar a água
entrar. Após um tempo, o copo estará limpo.
A santificação é mais ou menos assim. Deus nos recebe como copos sujos,
e a Palavra dele nos vai limpando. Ela vai dizendo o que nós precisamos
mudar e fazer, qual o alvo de Deus para nossa vida. Dessa forma, vamos
ouvindo, obedecendo e, consequentemente, mudando. Isso é um processo que
ocorre mais rápido em uns, mais lento em outros. Mas é assim que funciona.
Então, eu entendo que alguns crentes estavam agindo como o mundo,
porque eram talvez novos convertidos, logo, imaturos. Todavia, esse
comportamento, após anos e anos de Evangelho e de igreja, não deve mais
ser admitido.
Como disse Paulo: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas
fostes santificados, mas fostes justificados [...]”, portanto os cristãos
precisam viver como tais.

Conclusão

Minha primeira palavra de conclusão e aplicação são algumas sugestões


preventivas. Eu queria que você lesse com atenção e entendesse que eu estou
levando em consideração algumas coisas: somos pecadores, falhos, corruptos,
endurecidos. Estamos em um processo de santificação. Além disso, há de se
considerar que nem todos que estão no rol da igreja estão no rol do Reino de
Deus. Há muitos que estão na igreja, mas que nunca se converteram de
verdade.
Sendo assim, eu dou a você algumas orientações:
1. Seja extremamente cauteloso ao contratar um crente para o seu negócio,
especialmente se for da mesma igreja. Nunca contrate quem você não
pode demitir. É duro, mas é um conselho para uma situação real. A
menos que você, após ele entrar na justiça, esteja pronto para sofrer o
dano. Salvo isso, pense bem!
2. Pense muito e ore mais ainda antes de fazer uma sociedade com algum
irmão, especialmente se for da mesma igreja, porque se a sociedade não
der certo, isso respingará na sua família, nos seus amigos, a igreja
tomará partido de ambos os lados. A não ser que você esteja disposto a
sofrer o dano, não faça isso.
3. Se você emprestar dinheiro a um irmão, especialmente se for da mesma
igreja, faça isso sem esperar receber de volta, assim como Jesus ensinou.
É a melhor coisa do mundo. Eu tive um pastor que me ajudou muito
quando eu era novo. Ele me contou o que fazia. Se um irmão viesse até
ele e, por conta de uma necessidade, pedisse, por exemplo, R$ 1.000,00
emprestados, ele dizia: “Não, eu não vou emprestar R$ 1.000,00, eu vou
te dar R$ 500,00 e você não precisa me pagar. Você não me deve nada”.
Por que isso? Porque se o irmão não paga, você perde o dinheiro e o
irmão, entre outras coisas. Então, pense bem antes de emprestar dinheiro
a um irmão, especialmente se for da mesma igreja. Pode até parecer que
eu estou sendo cruel, mas a igreja tem outros mecanismos para ajudar
irmãos que estão com problemas ou endividados. Existe uma junta
diaconal que, a partir dos dízimos e ofertas da comunidade, tem recursos
que podem ajudar se o caso pedir essa postura.
4. Reflita bastante antes de aceitar ser fiador de um irmão, especialmente
se ele for da mesma igreja, porque se o irmão, por algum motivo, não
pagar, o problema financeiro será o menor diante da crise que se
estabelecerá na relação de vocês. Ela nunca mais será a mesma.

Sendo assim, cuidado com o dinheiro que você possui, porque ele tem um
poder extraordinário para destruir família, relação, amizade e dividir a igreja.
Agora, quero orientar quem já está envolvido em uma situação
complicada. Eu, claramente, não posso colocar algo muito diferente do que o
apóstolo Paulo já colocou, porque a minha função como pastor é expor a
Palavra e ela está dizendo o que deve ser feito.
Primeiramente, se você prejudicou algum irmão em Cristo em algum
negócio, sociedade, herança, empréstimo, enfim, alguma coisa, confesse,
admita e procure fazer um acordo para acertar. Acordo sempre é possível.
Peça a Deus que ele dê a você forças para resolver esse problema.
Certamente, se houver disposição e vontade, Deus te ajudará se realmente
você estiver disposto a cumprir a Palavra dele e saudar o débito que você
contraiu.
Segundo, se você se sente prejudicado, lesado ou fraudado por um irmão
em Cristo, procure acordo dentro do que é possível. Se necessário, recorra à
liderança da igreja. Há homens sábios e experientes na igreja, os quais já
passaram por muitas situações e que, por isso, conhecem mecanismos e
formas de solucionar o problema. Pode ser que talvez tenham uma palavra de
reconciliação para ajudá-lo.
Esteja disposto a sofrer prejuízo se não houver acordo. Em alguns casos,
para não deixar a pessoa que está sofrendo com senso de injustiça, medidas
são tomadas. Eu conheço um caso, entre tantos semelhantes – e eu não estou
sugerindo que esse seja o caminho –, em que havia uma querela entre irmãos.
O que havia, de fato, prejudicado o outro não queria se arrepender e resolver
o assunto, acusando, ainda por cima, a parte ofendida. Esta, por sua vez,
trouxe o assunto diante da liderança da igreja, que se reuniu para procurar
resolver a situação, e isso por duas vezes, mas aquele que prejudicou
permaneceu irredutível. Diante disso, a igreja não teve outra opção a não ser
considerá-lo gentil e publicano. Ele foi excluído da igreja pela dureza de
coração. Uma vez excluído da igreja, ele passou a ser considerado como
descrente e, então, o prejudicado poderia entrar na justiça contra ele, porque
não estaria mais entrando contra um irmão. Todavia, note que ele esperou o
julgamento da igreja, por assim dizer, ou a ajuda da igreja para chegar a essa
situação.
O ponto central é que temos que amar Deus mais do que amamos os
nossos bens.
A última parte eu quero dirigir aos jovens, muitos deles sonhadores, com
planos, muitos estudando, cursando uma universidade, com planos de seguir
uma carreira, casar e ter uma família, comprar um apartamento etc. Eu não
quero que vocês pensem que não devem fazer estas coisas que elenquei. É
bom planejar, sonhar. Mas é bom que vocês aprendam desde cedo o poder
que o dinheiro tem de manipular as suas vidas, mudar seus julgamentos,
indispô-los, acabar com seus relacionamentos, casamentos, enfim, com suas
vidas com Deus. O dinheiro tem poder. Basta ler os Evangelhos, e vocês
verão que Jesus falou muito mais sobre o dinheiro do que sobre o amor,
exatamente pelo poder que ele tem de nos destruir.
Queira Deus, querido, dar-nos amor por ele, pelo Evangelho, pela igreja.
Que ele abençoe aqueles que, de alguma forma, estão envolvidos com esses
problemas. Que essa Palavra possa ajudá-lo e abençoá-lo. É esse o desejo do
meu coração.

Oração

Deus, eu quero pedir que o Espírito Santo aplique esta Palavra aos corações que a lerem. Que
relacionamentos sejam curados, dívidas sejam pagas, situações sejam resolvidas, que amigos e
irmãos que não se falam mais possam se reconciliar e se reaproximar, casamentos desfeitos por
conta de dinheiro possam ser reatados.
Pedimos tua graça, tua misericórdia e teu perdão. Ajuda-nos a empregar o dinheiro de maneira
sábia e construtiva.
Eu oro pelos que estão passando necessidades. Deus, que nós possamos ajudar da maneira
correta.
Abençoa-nos em nome de Jesus.
Amém!

11 Sermão pregado em 12 de outubro de 2014.


EPÍLOGO

O autor de Hebreus, no capítulo 12, versículos 1 e 2, diz que somos rodeados


por uma grande nuvem de testemunhas e faz uma convocação para que
deixemos o “pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a
carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da
fé”.
É interessante pensar que ele se refere a uma grande nuvem de
TESTEMUNHAS. Isso significa que todos os personagens citados no
capítulo anterior viram o agir de Deus de forma concreta em suas vidas. Eles
não entregaram suas vidas a uma simples teoria ou a uma filosofia na qual
acreditavam muito. Eles experimentaram a presença divina de forma efetiva,
sentiram fortemente a providência sobre suas vidas e se entregaram por amor
àquele que nos sustenta.
O autor de Hebreus segue dizendo: já que temos tantas testemunhas do
agir de Deus, sejamos nós também enfileirados entre os que persistem e vão
até o fim na carreira proposta. Não porque somos fortes, mas porque também
podemos experimentar o agir do Espírito Santo em nós para nos ensinar a
lutar, para nos fazer santos e nos dar força para lutar contra o pecado.
Enfim, é exatamente disto que precisamos: o Espírito Santo a nos guiar na
corrida que é direcionada contra o fluxo do mundo. Ao terminar de ler este
livro, lembre-se que o desafio posto a você não é de conhecimento, de
domínio do conteúdo teológico, de capacidade argumentativa. Ao terminar
este livro, sinta-se revigorado a seguir o chamado de ser testemunha do poder
do Espírito Santo em sua vida.
Deus te abençoe e te ajude a ir contra o fluxo, em fidelidade a Jesus
Cristo.
O ministério Bibotalk está há mais de seis anos difundindo conhecimento
teológico na Internet. São mais de 200 programas falando desse rico
universo. Por meio de nosso podcast, milhares de pessoas têm se despertado
para o estudo da Bíblia e da teologia. A cada episódio postado, temos aquela
sensação boa, uma certeza celestial de que estamos glorificando a Deus e
edificando a sua igreja.

Já entrevistamos grandes teólogos do nosso país como Augustus Nicodemus,


Franklin Ferreira e Jonas Madureira, para citar alguns.

Acesse nosso site e descubra mais uma ferramenta para você aprender mais
sobre Deus e sua obra no mundo!

www.bibotalk.com
Gostou deste livro? Pois é.

A Box95 é um clube de assinatura de livros cristãos reformados que tem


como missão difundir boa literatura teológica e proporcionar uma experiência
única para cada associado. Em menos de um ano de clube, sentimos que já
estamos contribuindo sobremaneira com o aumento do interesse por boa
teologia e queremos continuar crescendo e aperfeiçoando nossos serviços
para contribuir ainda mais na pregação do Evangelho.

Temos vários outros lançamentos planejados tão bons quanto este. Aguarde!

Além da assinatura, nós também temos uma loja virtual onde


disponibilizamos a possibilidade de aquisição de caixas avulsas e outros itens
legais. Acesse e confira!

www.box95.com.br