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Didática UNIDADE 01 AULA 03

Josali Amaral
Maria Betânia da Silva Dantas

INSTITUTO FEDERAL DE
EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
PARAÍBA

A didática no Brasil:
desenvolvimento histórico
e tendências pedagógicas

1 OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

„„ Situar a evolução da didática no contexto histórico


do Brasil e seus principais pensadores;
„„ Relacionar a didática com a constituição das tendências pedagógicas.
A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

2 COMEÇANDO A HISTÓRIA

Figura 1

Quando matriculamos nossos filhos na escola, em que pensamos? Em geral,


queremos que ele tenha uma vida melhor do que a nossa, pois acreditamos que
a educação pode contribuir para que ele se encaixe no mercado de trabalho,
tenha bons salários e construa uma vida material que lhe proporcione segurança.
Essas ideias parecem naturais, mas não são. Raramente refletimos sobre o que
aprendemos e para que realmente aprendemos.

Nesta aula vamos discutir como foi construída a cultura educacional deste país.
Esta cultura é responsável pela escolha das disciplinas que estudamos, pelos
conteúdos que valorizamos e pelo produto final da educação, que é a vida do
educando. Cada escolha educacional interferirá diretamente nas escolhas e
oportunidades de cada um de nossos alunos, portanto, é algo que exige muita
responsabilidade.

Nesta aula, veremos alguns dos pensadores que debatiam sobre o problema
da educação no Brasil e as sucessivas reformas que foram feitas nos primeiros
anos da República. Focaremos principalmente no aspecto curricular, para o qual
as propostas pretendiam modificar o rumo da herança colonial e implantar um
novo modelo de sociedade no país.

Vamos começar?

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AULA 03

3 TECENDO CONHECIMENTO

3.1 Em busca de um caminho para a educação no Brasil

Em 1850, o Brasil unificou seu território e a nação começou a pensar a sua identidade
cultural. A educação tornou-se uma preocupação para aqueles intelectuais que
desejavam um futuro melhor para o país. Já vimos, em outras disciplinas, que
esse item nunca foi a prioridade de nossos governantes e que as soluções que
tinham por finalidade dar cumprimento à Constituição de 1824 estavam mais
tendentes a continuar ofertando uma educação de qualidade apenas para a elite.

A partir dos anos de 1870, o pensamento liberal dominou o cenário político


brasileiro e isto afetou a construção de uma área importante da didática: o que
ensinar. Se considerarmos verdadeira a afirmação de que a educação prepara o
homem de acordo com certos ideais, isso só se consolida por meio dos conteúdos
que serão ministrados. Os princípios liberais valorizam a ciência como um
mecanismo de construir o progresso material, o desenvolvimento da indústria
e a lucratividade. A partir desses princípios, o conhecimento a ser ensinado
é escolhido segundo a sua utilidade, voltada para incrementar a máquina de
produção capitalista. No Brasil, cuja tradição humanista legada pelos jesuítas
imperava a erudição e os cursos de direito e medicina, era necessário pensar em
modificar o conteúdo do ensino para preparar a mão de obra para a indústria e
o comércio, ou mesmo para a mecanização da agricultura.

Essas ideias não atingiram a reflexão sobre os métodos de ensino, pois as técnicas
da escola tradicional permaneceram dominantes até o período do Estado Novo
e pouco se modificaram apesar dos ideais da Escola Nova. A memorização, a
repetição do exercício e o conteúdo ministrado por meio de manuais didáticos,
bem como a centralidade do papel do professor continuaram sendo a marca da
educação no Brasil. A grande diferença que vemos no pensamento liberal é a
busca pela laicidade do ensino. Ao final do Império, os intelectuais já apontavam
que a educação deveria ser separada da religião e quando da Proclamação da
República, o ensino de religião seria relegado ao segundo plano.

Esse quadro de atraso em relação ao desenvolvimento da didática pode ser


associado à falta de professores formados para o exercício da profissão. Como
já vimos em História da Educação, o ensino após a Reforma Pombalina ficou
nas mãos de pessoas que tinham algum tipo de formação e as escolas normais
só começaram a aparecer ao fim do Império. A educação no Brasil foi pensada
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A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

por intelectuais do Direito e profissionais liberais que exerceram a cátedra de


professor por diletantismo ou para alçar cargos políticos. Os projetos de educação
eram ideais mais ligados à necessidade de modernizar o país do que calcados
em preocupações pedagógicas.

Esses intelectuais buscavam modelos nos exemplos da Europa e dos Estados


Unidos, oscilando entre o modelo liberal industrial da Inglaterra, dos Estados
Unidos e França. Nesses países, a educação estava associada a preparar a mão
de obra e ampliar a participação política do cidadão comum (ao menos no que
tange ao conhecimento e cumprimento das leis). Na Inglaterra, a preparação
do operariado foi pensada em termos da Escola Mútua; já nos Estados Unidos,
havia uma ênfase em disseminar os princípios da democracia, calcados na
liberdade e na livre iniciativa, enquanto que a França desenvolvia a politecnia
dirigida às classes trabalhadoras. Nossos intelectuais liberais adotaram essa
pauta nos seus debates e o ponto principal dos anos finais do Império e iniciais
da República centrava-se na ampliação da oferta do ensino e no abandono dos
currículos eruditos. A reforma curricular tornou-se uma bandeira para promover
a modernização do país.

Nos tópicos a seguir, conheceremos alguns pensadores que ajudaram a preparar


este caminho para a educação brasileira. Para seguir nesta aula, aconselhamos
você, caro aluno, a retomar as aulas iniciais de História da Educação, a fim de
que possamos dialogar com mais segurança, pois vamos apresentar alguns
pensadores do Império e dos anos iniciais da República que contribuíram para
o debate sobre as necessidades educacionais do nosso país.

3.1.1 Uma voz solitária no Império:


Tavares Bastos (1839-1875)
Figura 2 Aureliano Cândido Tavares Bastos era um advogado
Tavares Bastos
alagoano que, por meio da imprensa e da publicação
de livros, fez um preciso diagnóstico da situação
educacional brasileira durante o período imperial.
Muitas de suas críticas podem ser utilizadas para
pensarmos no desenvolvimento do processo
educativo brasileiro e para avaliarmos como
caminhou e caminha a didática em nosso país.

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Dentre as críticas que apontavam ao modelo imperial de educação, alertavam


a pouquíssima existência de escolas elementares (alfabetização), a falta de
professores bem formados e a má qualidade do sistema avaliativo. Para Bastos,
os resultados do ensino eram preocupantes, especialmente por causa dos índices
de reprovação nos exames públicos e da desistência. Através de suas críticas,
podemos perceber que muitos dos problemas que visualizamos hoje já eram
conhecidos por ele.

Inspirado nos estudos acerca da Common School (escola pública) norte-americana,


em especial do estado de Massachusetts, elaborou uma proposta de educação
pública para o Brasil. Horace Mann (1796-1859), relator da instrução pública
daquela localidade, considerava que a educação de uma criança não se restringe
à informação intelectual, mas deve observar a criança como um todo. Desse
modo, o aprendizado resulta de um conjunto de condições ideais tais como
o ambiente, a alimentação, a saúde e a segurança. Propunha, portanto, que o
governo planejasse a construção de prédios adequados, financiasse a educação
dos mais pobres e de crianças oriundas de localidades distantes e atendesse
integralmente ao bem-estar dos infantes.

Figuras 3 e 4
Common School
e Horace Mann

Embora a educação que era promovida nos Estados Unidos fosse movida para
formar mão de obra qualificada, naquele país isso não significava um treinamento
para certas operações técnicas, pois, antes de tudo, o Estado tem a função de
educar o homem para ser livre, exercer a democracia e desenvolver um perfil
moral equilibrado. Desse modo, educar é mais que instruir, é formar o homem
através de conhecimentos significativos para a vida.

É neste sentido que Bastos fará a reflexão crítica sobre a escola brasileira e proporá
a sua reforma. Em seu entender, o ensino das ciências deveria se sobrepor ao
ensino das humanidades, com a finalidade de ofertar conhecimentos úteis para
a formação moral e profissional. Mas atingir essa meta não seria possível sem
consolidar a escola elementar, ou seja, a alfabetização.
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Sua defesa refere-se ao excessivo valor que a sociedade brasileira dá ao aprendizado


preparatório para o Curso Superior em Direito e a consequente busca de empregos
públicos. A ânsia das classes médias de inserir os seus filhos nas faculdades de
Direito e torná-los empregados da burocracia com a finalidade de auferir salários
e posições sociais vantajosas, constituiria o grande mal e atraso da sociedade
brasileira. A educação deve ser guiada pela meta de formar cidadãos habilidosos
em diversas áreas do conhecimento e honestos e cientes de sua importância para
a nação. Direcionar os recursos públicos para financiar as aspirações individuais
é utilizar-se da máquina pública para manter a desigualdade entre os homens
e o atraso da nação.

Tavares Bastos discutia, por este viés, um dos pontos cruciais da didática: a
composição de um currículo escolar pensado a partir de uma finalidade que
amplie o universo do educando. O que ensinar, para que ensinar e quando ensinar.
Esses três termos interferem diretamente na relação ensino-aprendizagem.

Imaginem uma criança numa escola de primeiras letras no interior do Mato Grosso,
no século XIX, recitando as lições mal aprendidas em latim. Que significado tem
para ela esse aprendizado? Que motivações ela tem para assimilar esse conteúdo?
É sobre isso que discute Tavares Bastos e que devemos nos questionar quando
entramos na sala de aula. Você, futuro professor de língua portuguesa, deve se
perguntar sobre a importância e o significado daquilo que planeja ensinar, pois
essa é a forma de estabelecer uma relação entre o aluno, o conteúdo e a vivência.

Outra ideia advogada por Tavares Bastos é a de que os jovens devem ser
estimulados à participação política na sua comunidade. Certo é que o Brasil
imperial, no qual Bastos viveu e pensou, estava passando por um processo
de acomodação política, e sua luta pela reforma do ensino estava atrelada a
outras críticas, como a centralização do poder imperial. Bastos defendia que
as províncias deveriam ser autônomas e nelas haveria comunas em que os
indivíduos que discutissem suas necessidades pudessem escolher as melhores
formas de encaminhar soluções econômicas e sociais. Esse modelo era difundido
nos Estados Unidos, que lhe servia de inspiração. Essas comunas seriam o lugar
ideal para que os jovens exercitassem a cidadania e se interessassem pelas leis e
discussões necessárias ao desenvolvimento da verdadeira democracia.

Vemos, portanto, que Bastos considerava que a educação deveria aliar a teoria à
prática, seja no campo das ciências naturais, seja no campo das ciências humanas,
afinal, história, literatura e arte não são meras disciplinas decorativas, mas dizem
respeito às formas de viver e fazer a sociedade.

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Nesse sentido, caro aluno, quando for ensinar José de Alencar, por que não
discutir o papel do índio na sociedade atual e estimular o seu aluno a pensar
no contexto de criação da obra indianista e sua repercussão para os dias de
hoje? Isso não é só interdisciplinaridade, é mostrar a força da literatura como
argumento político. Um livro como O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, problematiza
a pobreza e os costumes, e as pautas de Machado de Assis são fortes críticas à
política nacional. O mesmo se aplica ao ensino da língua, cuja utilidade está em
todos os níveis sociais.

As questões referentes à relação entre teoria e prática são as mais presentes nas
discussões didáticas e, ao longo deste curso, veremos outras propostas.

Apesar de reconhecermos a contribuição de Tavares Bastos para as discussões


sobre o currículo escolar, precisamos lembrar que Bastos defendeu uma posição
acerca da educação que predominou durante a República e que tem consequências
para os dias de hoje: a valorização das ciências da natureza em detrimento
das humanidades e o ensino técnico para formar as classes trabalhadoras. Já
discutimos os aspectos negativos dessas tendências em outras aulas, tais como
a distorção de manter a divisão entre ensino profissional para os pobres e classes
médias baixas e o ensino propedêutico para as camadas da elite. Esse é um dos
cuidados que temos que ter ao defendermos um currículo organizado em torno
de saberes úteis, afinal, a erudição também faz parte do processo formativo e
amplia a capacidade de refletir do aluno.

Para finalizar, vale lembrar que Bastos defendia o ensino público em detrimento
do privado, pois o cidadão bem formado serve à nação e deve ser prioridade
nos interesses do Estado.

Muitas das ideias de Bastos eram também presentes no pensamento de Rui Barbosa
e se fizeram repercutir na reforma do ensino de 1879. A questão era discutida
em termos de que disciplinas seriam Figura 5
mais úteis para tornar os indivíduos Rui Barbosa

aptos a desenvolver o país. Foram


questionadas as aulas de latim e
grego e havia o consenso de que
o ensino das ciências da natureza
era fundamental. Rui Barbosa
defendia ainda o ensino da educação
física e do desenho para aguçar a
perceptividade do aluno. Mas,
fundamentalmente, a educação
tornara-se uma questão política,
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inserida no rol dos problemas nacionais e subordinada a eles. Nesse sentido, o


pensamento educacional no país sempre esteve atrelado às políticas econômicas,
o que tornou lento o processo de reformulação dos métodos de ensino.

Para André Castanha [s.d.], ainda que a construção da nação e do progresso fosse
fundamental para o pensamento da época, a educação foi pensada como uma
forma de homogeneizar as práticas culturais, expurgar a sociedade brasileira
de comportamentos oriundos das culturas indígenas e negras, consideradas
selvagens e motivo do atraso. Ensinar estaria no centro do processo de civilizar
e os professores eram considerados responsáveis pelo sucesso da empreitada.
Neste sentido, as práticas educacionais durante o Império foram organizadas
como instrumento para a manutenção da ordem e da moralidade pública.

3.1.2 Reformas curriculares na República Velha

Figura 6
Apesar do nome francês, Benjamin Constant
Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891) foi um
brasileiro que teve importante papel na educação
brasileira. Militar, engenheiro e positivista,
foi um dos participantes do movimento que
levou à Proclamação da República e, além de
ter sido Ministro da Guerra durante o governo
provisório, foi também Ministro da Instrução
Pública. Durante sua estadia nesse último
ministério, promoveu a primeira reforma do
ensino brasileiro, pelo Decreto nº 981, de
novembro de 1891. De certa forma, podemos
dizer que ele incorporou uma série de ideias
que já tinham sido discutidas por Tavares Bastos e que faziam parte da pauta do
partido Liberal no Império. Por esse decreto, iniciou-se a expansão da educação
primária e secundária no Brasil, foram construídas escolas em prédios projetados
especificamente para o ensino e investiu-se na formação dos professores,
ampliando a criação das escolas normais.

A marca de sua contribuição para a educação escolar foi modelar o currículo


da escola secundária a partir da hierarquia de saberes construída por Augusto
Comte. Pai do Positivismo, Comte recusava a preponderância das ciências
humanas e a herança da filosofia grega e supunha que as ciências superiores
eram as naturais. A matemática e a física eram as ciências mais excelentes no
campo da natureza e a sociologia, em especial no que diz respeito à ciência
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moral e política, era o topo do saber. Benjamin Constant, ao empreender a


reforma do ensino, fê-la segundo o cânone comtiano, da seguinte maneira: o
ensino secundário foi definido por um ciclo de sete anos, cuja ênfase nos três
primeiros anos centrar-se-ia no estudo de aritmética e geometria; o quarto ano,
no estudo de mecânica; o quinto ano, no estudo de física e química geral; no
sexto, de biologia; e no sétimo, de sociologia (cf. PALMA FILHO, 2005). Essa matriz
deveria vir acompanhada de estudos de língua e literatura, língua estrangeira e
história, com uma carga pesadíssima de erudição.

Esse currículo mostrou-se inadequado na prática e desinteressante para os


alunos, o que pôs a reforma abaixo.

Com Epitácio Pessoa, em 1901, o currículo volta a ter o caráter preparatório para
o ensino superior, em especial Direito e Medicina, reduzindo-se o currículo do
ensino médio para seis anos. Embora essa medida retrocedesse à realidade
do Império, ela permitiu a composição de um currículo nacional para o ensino
médio, uma vez que o modelo de ensino do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro,
tornou-se referência para o resto do país.

Já a reforma de Rivadávia Correia constituiu um verdadeiro desastre no sistema


educacional. Liberal ao extremo, a reforma por ele executada em 1911 rompia com
o ideal de ensino público de qualidade e criava condições para o crescimento do
ensino privado no país. A qualidade do ensino caiu significativamente e o ensino
deixou de ser pensado como algo bom e necessário por si mesmo, tornando-se
um meio de obtenção do diploma, herança que permeia a sociedade brasileira.

Diante de duas experiências tão diferentes, Carlos Maximiliano, em 1915, elaborou


uma lei que pretendia abarcar os aspectos positivos das leis anteriores. A laicidade
e o ensino das ciências ao modelo do Positivismo, bem como a finalidade
propedêutica do ensino secundário foram os pontos centrais da organização
do currículo.

A partir de 1925, os ideais da Escola Nova começaram a proliferar no país.


Especialmente, o Estado de São Paulo iniciou, através da Diretoria de Instrução
Pública do Estado, uma ampla reforma do sistema escolar, como vimos na aula
anterior, com a criação dos grupos escolares.

Ocorreu assim a primeira tentativa de reforma do método de ensino, proposta


que se espelhou na teoria de Rousseau e Pestalozzi. O método intuitivo, que
já havia sido aplicado isoladamente em algumas escolas no final do século XIX,
tornava-se agora uma via de modificação do ensino.

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A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

3.2 A Escola Nova: renovação metodológica ou tecnicismo?

Vimos, nas aulas 6 e 7 de História da Educação, as contribuições dos pensadores


da Escola Nova no Brasil e a importância que este pensamento teve para a
superação do modelo jesuítico e tradicional da educação.

Para Saviani (2004), para além do caráter idealizador, o movimento trouxe sérias
consequências para a prática pedagógica, dentre elas a burocratização do espaço
escolar. Acima dos princípios de Pestalozzi e Montessori, estava a intenção liberal
de formar a mão de obra, civilizar o país e controlar a população. Lourenço Filho,
Diretor da Instrução Pública de São Paulo, lançou a Revista Escola Nova entre
os anos de 1930 e 1931, veículo pelo qual apresentava não só o programa de
renovações educacionais, mas um verdadeiro receituário de como deve agir
o professor no exercício do magistério. Sua prática incorporava as ideias do
movimento ao plano de educação oficial do governo de Getúlio Vargas, através da
defesa da criação de uma “cultura pedagógica nacional”, para a qual a liberdade
do professor deveria ser exercida com o apoio de um pessoal técnico auxiliar.

Para Dias [s.d.], a criação do corpo burocrático escolar tinha por finalidade controlar
a atividade dos professores, para que os ideais liberais fossem garantidos no
ensino. A Escola Nova funcionava assim como um corpus ideológico que tinha por
finalidade formar um operariado obediente e eficiente para o desenvolvimento
industrial proposto pelo Estado de Getúlio Vargas.

O foco didático das diretrizes educacionais estava centrado na atuação do


professor e na racionalização do ensino. As orientações didáticas destinavam-se
a otimizar o tempo e os recursos materiais da escola. Ao contrário da renovação
dos métodos da sala de aula, as reformas criaram um aparelho burocrático na
escola que atrelava a prática do professor a preenchimento de formulários de
controle e o subordinava a orientações de profissionais das áreas científicas, como
a psicologia e a biologia, com a finalidade de moldar o comportamento do aluno.

Uma análise crítica do lema escolanovista feita por Demerval Saviani, “aprender
a aprender”, permite entrever que, mais do que desenvolver técnicas de ensino
que levassem o aluno a se tornar autônomo, significou orientar e uniformizar
a prática docente para o aprendizado dos saberes práticos, orientando a ação
pedagógica para o “aprender a fazer”.

A revista oficial da Diretoria de Instrução Pública de São Paulo destinava-se a


emitir receitas de como programar atividades de ensino, relegando ao professor
o papel de vigiar e coordenar atividades educacionais. O professor não só deixou
de ser o centro da atuação educacional, mas tornou-se instrumento do Estado.
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AULA 03

Por outro lado, o aluno não passou a ser centro do ensino, mas objeto a ser
lapidado para uso como mão de obra.

Outro elemento revelador do programa escolanovista foi a introdução dos testes


psicotécnicos que visavam medir o grau de desenvolvimento dos alunos, com
a finalidade de organizar as classes de modo homogêneo, ou seja, agrupar os
alunos conforme seu desenvolvimento cognitivo.

Algumas contribuições de Lourenço Filho foram muito positivas, como a


organização curricular do Instituto de Educação no Rio de Janeiro, que deveria
se tornar modelo para a escola de formação de professores de todo o país. A
estrutura do ensino na escola normal procurava associar a teoria à prática e no
Instituto havia um Jardim de Infância, uma escola primária e uma secundária,
todas com administração independente e utilizadas como campo experimental
para os alunos da escola normal.

As escolas que funcionavam no espaço do Instituto constituíam um ambiente


educativo típico da escola ativa. As crianças eram estimuladas a vivenciar
experiências de descoberta e os alunos da formação de professores observavam
o desempenho e o desenvolvimento da criança com a finalidade de aprender
como funciona o aprendizado de modo científico.
Figura 7

Assim como Tavares Bastos, Lourenço Filho entendia a criança a partir da


complexidade de suas relações. Acrescentava ainda que esta passava por
modificações constantes ao longo da vida e da história, portanto a didática não
poderia ficar estática. A formação de professores deve habilitar o futuro professor
a fazer do seu magistério um lugar de observação científica, sempre atento a
possíveis descobertas para empreender a melhoria do ensino e da aprendizagem.

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A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

3.3 Paulo Freire

A grande virada do pensamento pedagógico no Brasil veio através da obra de


Paulo Freire.

Reveja a aula 7 de História da Educação para relembrar nosso diálogo sobre


este educador.

Para Paulo Freire, a concepção de educação passava pela compreensão de que


esta deve ser veículo de libertação do indivíduo, fator de desenvolvimento da
consciência, da visão de mundo e da atuação política.

Desde jovem lecionando para o público adulto, a alfabetização deste foi seu
ponto principal de reflexão. Mais do que técnicas de ensino, Paulo Freire produziu
uma verdadeira epistemologia do aprendizado e revolucionou os métodos de
ensino invertendo a ordem da relação ensino-aprendizagem.

Crítico dos modelos educacionais que centram seus esforços em formar o


indivíduo por meio de currículos pré-construídos, considera que o programa
de ensino deve ser elaborado a partir da experiência vivenciada pelos alunos.

Partindo de ideias clássicas, como a de que o aprendizado deve evoluir das


informações simples em direção às mais complexas, que a experiência é a base
do desenvolvimento cognitivo, considerou que a compreensão comum que os
homens têm de suas experiências de vida devem ser o ponto de partida para
a aquisição de conhecimento. O planejamento curricular deve, portanto, partir
da realidade dos agentes educacionais, professores, alunos, pais e sociedade de
entorno. Planejar torna-se sinônimo de refletir sobre a realidade.

Esse discurso parece muito vago, mas, se você se lembrar do exemplo que
demos anteriormente do aluno do interior do Mato Grosso aprendendo latim,
entenderá o que Freire pensa sobre a educação. Vamos pensar mais pertinho de
nós, aqui no nosso sertão, e imaginar uma professora, numa escola da região de
predomínio rural, vivenciando a seca e a carência de todos os gêneros, falando
sobre a importância de uma alimentação balanceada para a saúde. O que ela
compreende da experiência que vivencia? Como ela expressa a sua vivência
da situação? Quais as formas que as famílias da região dispõem para conseguir
sobreviver nas condições adversas que a natureza lhes impõe? Talvez partilhar
essas experiências com os alunos seja mais significativo que listar os alimentos
e as vitaminas que eles contêm.

O ensino da linguagem falada, da capacidade de expressar seus sentimentos


e angústias pode ser um caminho mais interessante que a apresentação do
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AULA 03

alfabeto ou o aprendizado do manuseio do lápis. A compreensão do universo


de vivência e saber expressá-lo por meio de ideias é uma operação cognitiva
tão complexa quanto a escrita. Mais que isso, aprender a escrita surgirá como
consequência dessa necessidade de expressar-se no mundo. Até porque o ser
humano é inteligente e criativo e a forma como ele resolve seus problemas
diários também é um conhecimento que deve ser reconhecido.

A educação em Freire é humanista porque valoriza o homem e não porque


aprecia a erudição.

Para o desenvolvimento deste processo, Freire propõe que o local onde o ensino
será desenvolvido constitua “círculos de cultura”. Este seria o espaço de incluir
as experiências culturais da comunidade na realidade escolar, trazendo-a para
o universo do planejamento. Em lugar de receber um plano de ensino pronto e
acabado, os agentes do processo educativo devem estar abertos para construir
o currículo ao pé da comunidade.

É importante que compreendamos este aspecto para não incorrermos na


simplificação de transformar o pensamento de Freire numa mera técnica de
ensino, pela qual pegamos um determinado conteúdo previsto pela Secretaria de
Educação e o contextualizamos para a realidade do aluno, numa aula ilustrativa.
Enquanto técnica de ensino, esse procedimento é louvável, mas a proposta de
educação de Freire é a completa transformação do sistema educacional.

Claro que não podemos perder de vista que as experiências de Paulo Freire se
deram no âmbito da educação rural e em pequenas comunidades, nas quais é
possível, com muito esforço, reunir vários agentes da comunidade para promover
uma atividade conjunta. Além do mais, este método foi pensado inicialmente
para a educação dos adultos. No sistema educacional que temos, que prioriza a
formação de mão de obra e a inserção do aluno no ensino superior, através de
provas unificadas e concurso, essa proposta é um desafio a toda ordem instituída.

Novas vertentes pedagógicas incorporaram essas ideias com as orientações para


o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, através do qual a comunidade deve
ser consultada para a construção dos planos de ação da direção escolar. O PPP
deve prever as necessidades da comunidade e os problemas a serem resolvidos,
bem como considerar a realidade social e política em que o aluno está inserido.
Mas a forte influência do tecnicismo que burocratiza a prática escolar muitas
vezes inviabiliza que o projeto saia do papel e seja vivenciado pelos agentes
educacionais. Essa é mais uma luta que os professores têm pela frente no seu
exercício profissional.

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A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

Como prática de sala de aula de comunidade escolar, Freire prioriza a educação


dialógica em detrimento da educação bancária. Neste sentido, combate a
memorização, a aula em forma de palestra e os conteúdos formais. Mas o que
há de novo nessas críticas? A proposta de passar da reflexão para a ação através
da afetividade.

Educar não é simplesmente transmitir conteúdos, mas amar o homem. Em seu


discurso sobre a educação dialógica, inserido no livro Pedagogia do Oprimido,
Freire (1987) não oferta ao leitor receitas de como apresentar o conteúdo, mas
fala sobre as bases para construir um diálogo. O educador então é convidado a
rever seus sentimentos e apreciar qualidades como a humildade e a capacidade
de colocar-se no lugar do outro para compreendê-lo. Dialogar é estar aberto a
receber e não só a ofertar.

A postura clássica do professor tradicional é a de dar conhecimento, enquanto


que na educação dialógica o professor deve estar disposto a trocar experiências.
Outros sentimentos como fé e esperança também são considerados fundamentais
para o desenvolvimento da relação educador-educando.

E você, está aberto ao diálogo?

Exercitando

Baixe, através da web, alguns modelos de currículos escolares e indique sobre


que princípios eles estão organizados (educação para o trabalho, educação
tecnicista, educação dialógica). Justifique sua classificação através de um
texto que esclareça porque os currículos que você tomou como exemplos se
encaixam nas teorias estudadas. Se você já trabalha em uma escola, solicite à
coordenação pedagógica a grade curricular ou o projeto político pedagógico
para fazer essa análise.

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4 APROFUNDANDO SEU CONHECIMENTO

Pedagogia do Oprimido é uma obra fundamental Figura 8


para o educador compromissado com a formação
consciente do aluno. Nele, Paulo Freire discorre
sobre os modelos de ensino que procuram moldar
o aluno e correspondem aos ideais de dominação
do sistema liberal. Nele encontramos as bases da
educação dialógica, nas quais podemos perceber
um sentido novo para a educação, alicerçada na
afetividade.

5 TROCANDO EM MIÚDOS

Nesta aula mostramos como os projetos educacionais foram construídos num


contexto de disputas políticas, atrelados à implantação do modelo liberal de
economia e à maior preocupação didática, que estava centrada na reforma
curricular. As primeiras tentativas de organização do ensino foram elaboradas a
partir de programas positivistas que priorizavam conhecimentos úteis à formação
do pensamento liberal e à formação de mão de obra. Durante a era Vargas, o
programa da Escola Nova foi transformado num conjunto de procedimentos e
normas que enrijeceram o processo educativo com procedimentos burocráticos
que inibiram o papel do professor e a construção da autonomia do aluno.
Apresentamos o pensamento de Paulo Freire como um referencial de mudança
que imprimiu um novo significado às práticas de sala de aula, com a proposta
de participação da comunidade na construção do currículo e com a adoção da
prática dialógica.

6 AUTOAVALIANDO

Reflita sobre as formas de educação que foram estudadas e avalie as práticas


pedagógicas que você vivenciou na sua trajetória educativa, tentando recordar
os valores que permearam sua formação. Proponha um chat ao seu professor
formador para trocar experiências com seus colegas de curso sobre as conclusões
a que você chegou.
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A didática no Brasil: desenvolvimento histórico e tendências pedagógicas

REFERÊNCIAS

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imperial. Disponível em: ww.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/artigos_frames/
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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