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TIMOTHY

KELLER
Autor best-seller do The Neiu York Times

lUSTlÇA
GENEROSA

A graça de Deus e a justiça social


"Keller nos mostra como [...] um
espírito de generosidade e justiça
pode modificar inteiramente não
só uma pessoa, mas — em última
análise— toda a sociedade [...] O
leitor encontrará muitas pedras
preciosas em Justiça Generosa."

The Washington Times

"O ministério de Keller na cidade


de Nova York é levar uma
geração de pessoas interessadas e
outras céticas a crerem em Deus.
Agradeço a Deus por ele."

BlLLY GRAHAM

"Daqui a cem anos, se os cristãos


evangélicos forem amplamente
conhecidos por seu amor às
cidades, seu compromisso com a
misericórdia e a justiça e seu amor
pelo próximo, Tim Keller será
lembrado como o pioneiro dos
novos cristãos urbanos."

Ch RÍSTíANITYTODAY

.T •*
Justiça
Generosa
> ssirogrAhoos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Keller.Timothy
Justiçagenerosa:a graçade Deus e a justiçasocial / Timothy Keller;
tradução Euiália Pacheco Kregness.
— São Paulo: Vida Nova, 2013.

Título original:Generousjustice: howGodsgrace makes mjust.

ISBN 978-85-275-0539-0

1. Cristianismo e justiça 2. Graça(Teologia)


3.Justiça social - Aspectos religiosos —Cristianismo I. Título.

13-04702 CDD-261.8

índices para catálogo sistemático:


1.Justiça e cristianismo: Teologiasocial261.8
TIMOTHY
KELLER
Autor best-seller do The Neiv York Times

Justiça
Generosa
ooooooooooooooíK)0(>of>oooao()(>(KK)-o(>cvoooo(>íK)oooooo

Agraça de Deus eajustiça social ^


OUOOÍHíOOOiíeaílákHiüOUUOÜOOOüOOOüUOlMJOOüOaOOOOéÕO
Tradução
Eulália Pacheco Kregness

•a
VIDA NOVA
Copyright© 2010,Timothy Keller
Título original: GenerousJustice: HowGod's GraceMakes UsJust
Traduzido a partirda primeira edição publicada pela
DUTTON, empresa pertencenteao PENGUIN GROUP, EUA.

1.® edição: 2013


Reimpressões: 2014,2016

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos


reservados por SOCIEDADE REUGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA,
Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970
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Proibidaa reprodução por quaisquer meios(mecânicos, eletrônicos,


xerográíicos, fotográficos, gravação, estocagem em bancode
dados,etc.), a não ser em citações brevescom indicaçãoda fonte.

ISBN 978-85-275-0539-0

Impresso no Brasil | Printedin Brazil

SUPERVISÃO EDITORIAL
MarisaK.A. de Siqueira Lopes
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Curtis A. Kregness
COPIDESQUE
Rosa M. Ferreira

COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO
Sérgio SiqueiraMoura
REVISÃO DE PROVAS
Fernando Pires
Ubevaldo G. Sampaio
DIAGRAMAÇÃO
Sk Editoração
CAPA
Oceana Gotdieb
VaniaCarvalho (Adaptação)

Todas as citaçõesbíblicas,salvoindicação contrária, foram extraídas da


versão AlmeidaSéculo 21, publicada com todosos direitos reservados
por Edições Vida Nova.
Aos diáconos e às diaconisas da Redeemer
Presbyterian Church e aos líderes de
Hope for New York, com admiração e respeito.
Sumário

Agradecimentos 9

Introdução: Por que escrever estelivro? 11

UM O que significa fazer justiça? 23

DOIS Justiça e Antigo Testamento 39

TRÊS 0 queJesus ensinou sobre justiça? 59

QUATRO Justiça e 0 nosso próximo 79

CINCO Por que devemos fazer justiça? 93

SEIS Como devemos fazer justiça? 119

SETE Fazendojustiça na sociedade 153

OITO Paz, beleza e justiça 177

Bibliografia 197
Agradecimentos

Dedico este livro aos diáconos eàs diaconisas que têm servi
do à Redeemer Presbyterian Church ao longo do tempo e
também aos líderes de Hope for New York, um ministério que foi
desenvolvido pela Redeemer emantém a parceria conosco (e outras
igrejas) no intuito deajudar os pobres dacidade. Também sou gra
to pelo ministério e a vida de serviço de meus amigos e colegas
JeffWhite e Mark Gornik, das igrejas Nova Canção em Harlem
e Baltimore. No que se refere a fazer justiça, somos aprendizes
interdependentes há anos. Em algumas ocasiões, eles aprenderam
comigo, em outras, eu aprendi com eles, e juntos descobrimos os
princípios e práticas apresentados neste livro.
A primeira igreja que me ensinou a cuidar dos necessitados^
no entanto, foi minha congregação em Hopewell, no estado da
Virginia. Lá,os cristãos sabiam instintivamente que, seo amor é
genuíno, ele se expressa não só por palavras, mas em ações.
Como é natural,este livronão teria sido escritosem a orienta
ção editorial e o apoio pessoal de meu agente, David McCormick,
e de meu editor na Penguin, BrianTart.Agradeço imensamente a
Lynn Land eJanice Worth, que há muito tempo facilitam minha
vida para que eu passe os verões escrevendo. Janice merece elogios
especiais nocaso presente, porque foi sua aidéia de transformar em
livro minhapalestra sobre justiça e generosidade.
Por fim, agradeço à minha esposa, Kathy. Este livro é mais
umesforço conjunto para cumprir nosso juramento matrimonial
de que por meio da nossa vida de casados "os aflitos ouvirão [...]
e se alegrarão" (SI34.2).
INTRODUÇÃO

POR QUE ESCREVER


ESTE LIVRO?

Entregaram-lhe olivro do profeta Isatas; ele oabriu e achou olugar


em que estava escrito: OEspírito do Senhor está sobre mim, porque me
ungiupara anunciar boas novas aospobres; enviou-meparaproclamar
libertação aospresos erestauração da vista aos cegos, parapôr em liber
dadeosoprimidos.
Lucas 4.17,18

Essas são as palavras que Jesus leu na sinagoga em Nazaré


quando anunciou o começo de seu ministério. Ele se iden
tificou como o "servo do Senhor" profetizado por Isaías, que
"trará justiça" ao mundo (Is 42.1-7). A maioria das pessoas sabe
que Jesus veio trazer perdão e graça. Menos conhecido é o ensi
no de que a verdadeira experiência da graça de Jesus Cristo
inevitavelmente motiva homens e mulheres a buscarem justiça
no mundo.
Enquanto escrevia este livro, ouvi duas perguntas deamigos:
"Para quem você está escrevendo?" e "O que despertou seu inte
resse pelo assunto?". Minhas respostas aos amigos são excelentes
maneiras de apresentar os temas deste livro.
JUSTIÇA GENEROSA

Para quem é este livro?


Espero que quatro tipos de pessoas leiam este livro. Existe
uma multidão de jovens cristãos que responde com alegria ao
chamado para cuidar dos necessitados. O trabalho voluntário é a
marca distintiva deumageração inteira dejovens americanos ain
da na universidade e também de recém-formados. Segundo The
NoriProJit Times [revista voltada para gestão deorganizações sem
fins lucrativos], jovens e adolescentes são "maioria nos trabalhos
voluntários". Alan Solomont, presidente do conselho administra
tivo daCorporation for National and Community Service, afirma
que "[essa] geração atual [...] tem mais interesse em ajudar do que
as gerações anteriores".^ A porcentagem de trabalho voluntário
entre jovens baixou de modo significativo nas décadas de 1970
e 1980, "mas os jovens de hoje freqüentaram escolas que muito
provavelmente tinhamprogramas de trabalho voluntário [...],ini
ciando ascrianças no caminho do serviço comunitário muitomais
cedo do que antes".^
Como pastor de uma igreja repleta dejovens, tenho notado
entre eles talpreocupação porjustiça social, porém também tenho
visto muitos que não permitem que essa preocupação afete a vida
pessoal. Ela não influencia o modo degastarem dinheiro emcausa
própria, de direcionarem suas carreiras, de se comportarem com
os vizinhos ou deescolherem os amigos. Além disso, com opassar
do tempo, muitos perdem o entusiasmo pelo trabalho voluntário.
Da própria cultura jovem, absorveram não apenas uma afini
dade emocional por justiça social como também um consumismo
que solapa a abnegação e insiste na satisfação imediata. A cultura
popular jovem nos países ocidentais não causa emnós a mudança
abrangente de vida necessária parafazermos diferença em bene-

12]
PORQUE ESCREVER ESTE LIVRO?

fício dos pobres e marginalizados. Embora muitos jovens tenham


uma fécristã e também desejem auxiliar osnecessitados, averdade
é que essas duas coisas não estão conectadas uma à outra. Nunca
pensaram nas implicações do evangelho de Cristo na promoção
dajustiça emtodos osaspectos davida. Neste livro, tentarei fazer
essa conexão.

Justiça e Bíblia
Outro tipo depessoa que eugostaria que lesse este livro abor
da com desconfiança "esse negócio de fazer justiça". Nos Estados
Unidos do século 20, a igreja se dividia entre denominações his
tóricas liberais, que enfatizavam justiça social, e as fundamenta-
listas, que enfatizavam salvação pessoal. Um dos fundadores do
movimento Evangelho Social foi Walter Rauschenbusch, pastor
batista alemão cujo primeiro pastorado foi na década de 1880 em
Hell's Kitchen [Cozinha do Inferno], um bairro de Nova York.
Seu encontro inicial com a terrível pobreza do bairro levou-o a
questionar a evangelização tradicional, que se esforçava para sal
var as almas, mas não fazia nada a respeito dos sistemas sociais
que acorrentavam as pessoas à pobreza. Rauschenbusch passou a
ministrar "àalma e ao corpo", contudo norasto dessa mudança de
método veio uma mudança de teologia. Walter rejeitou as doutri
nastradicionais da Bíblia e a expiação de Cristo.Passou a ensinar
que Jesus não teve de satisfazer ajustiça de Deus e, assim, morreu
apenas para serum exemplo de altruísmo.^
Portanto, na mente de muitos cristãos ortodoxos, "fazer justi
ça" está intrinsecamente ligado à perda dasãdoutrina e dodinamis
mo espiritual. No entanto, isso não é verdade. Jonathan Edwards,
pastor doséculo 18e autor dofamoso sermão "Pecadores nas mãos

13
JUSTIÇA GENEROSA

de um Deus irado", era um calvinista inveterado e dificilmente


alguém pensarianele como sendo"liberal". Todavia, em sua men
sagem "The Duty of Charity to the Poor", ele pergunta: "Que
mandamento naBíblia é apresentado emtermos mais enérgicos e
de modo mais categórico do que o mandamento paraofertarmos
aos pobres?"."*
Diferentemente de Rauschenbusch, Edwards argumentou
que para ministrar aos pobres não precisamos mudar a clássica
doutrina bíblica da salvação. Ao contrário, tal ministério jor
ra diretamente do ensino evangélico histórico. Para Edwards,
havia um entrelaçamento indissolúvel entre envolvimento com
os pobres e doutrina bíblica clássica. Essa correlação é um tanto
rara hoje em dia, mas não deveria ser. Escrevo este livro para as
pessoas que ainda não enxergaram o que Edwards enxergou, ou
seja, que, quando o Espírito nos capacita a entender o que Cristo
fez por nós, o resultado é uma vida dedicada a obras de justiça e
compaixão pelos pobres.^
Outras pessoas queespero quedeem atenção a este livro são
os evangélicos mais jovens que "expandiram sua missão" para dar
espaço à justiça social ao lado da evangehzação.^ Muitos desses
jovens não sóabandonaram as formas antigas de ministério como
também as doutrinas evangéhcas tradicionais da morte substitu
tiva deJesus e dajustificação unicamente pela fé, porque, segun
do eles, são doutrinas "individualistas" demais.^ Osescritores que
advogam essa idéia geralmente argumentam que é preciso haver
mudanças nas ênfases teológicas — talvez mudanças teológicas
doutrinárias completas — para a igreja engajar-se mais na busca
porjustiça social. O escopo deste livro não nospermite discorrer
sobre expiação e justificação. No entanto, um de seus objetivos
principais é mostrar que talreleitura da doutrina nãoé apenas um

I 14 1
POR QUE ESCREVER ESTE LIVRO?

erro em si, mas também é desnecessária. A exposição mais tradi


cional de doutrina evangélica, quando entendida corretamente,
leva seus seguidores a uma vida depromoção dajustiça no mundo.
Existe um quarto grupo de pessoas que talvez ache este livro
interessante. Ultimamente tem havido um aumento de livros e
blogs acusando a religião de "envenenar tudo",® citando a expres
são de Christopher Hitchens. No ponto devista deles a religião, e
especialmente a igreja cristã, é umafonte fundamental depromo
ção da injustiça e violência em nosso planeta. Para essas pessoas,
a idéia de que crer no Deus bíblico subentende necessariamente
um compromisso com a justiça é coisa absurda. Mas, como vere
mos, a Bíblia é, do começo ao fim, um livro dedicado à justiçano
mundo. E a Bíblia não nos chama para simplesmente fazermos
justiça e nada mais. Ela nos oferece tudo de que precisamos —
motivação, orientação, alegria íntima e poder — para vivermos
uma vida justa.
Identifiquei quatro grupos de leitores que, num primeiro
momento, parecem bem diferentes, mas não são. De certa for
ma, nenhum deles percebe que o evangelho bíblico deJesus cria,
necessária e poderosamente, uma paixão pela justiça no mundo.
A preocupação com a justiça em todos os aspectos da vida não é
acréscimo artificial nem contradição à mensagem da Bíblia.

Por que sou interessado em justiça?


Como me interessei por este assunto? Praticar justiça não
era algo natural para mim na infância. Quando era menino, eu
me esquivava daúnica criança pobre que conhecia bem —Jefírey,
um colega de classe do ensino fundamental e médio que mora
va "embaixo da ponte da Rua Oito". No sistema social rígido de

15 I
JUSTIÇA GENEROSA

minha escola havia os Fashions e os Bregas. E, em umacategoria


à parte,oJeíFrey. Suas roupas eram de segunda mão, desajustadas
no corpo, e ele cheirava mal. O pessoal zombava do Jeffrey sem
misericórdia; o garoto era excluído das brincadeiras e conversas e
penalizado nas atividades da classe, pois praticamente ninguém
queria fazer dupla com ele nos projetos e tarefas da escola. Con
fesso que minha distância do Jeffrey se devia ao fato de eu fazer
parte dos Bregas e desejar ascender na escala social. Em lugar de
me identificar comJeffrey e reconhecer a injustiça do tratamento
que lhe era dado, desprezei o único colega que era mais excluído
socialmente do que eu.'
No entanto, quando entrei para a faculdade, no fim da
década de 1960, tornei-me parte de uma geração de estudantes
fascinada pelo Movimento dos Direitos Civis.Inteirei-me sobre
a violência sistemática contra os negros e os defensores dos
direitos civis no sul dos Estados Unidos. Lembro-me de ficar
particularmente chocado em 1966 com as imagens de James
Meredith [escritor e consultor político que se tornou figu
ra emblemática do Movimento] baleado à luz do dia em uma
passeata que reivindicava o direito de voto para os negros e de
seus agressores olhando tranqüilamente paraum dos fotógrafos.
Fiquei espantado que algo tão injusto como a segregação tives
se sido tão facilmente racionalizado por uma sociedade intei
ra. Essa foi a primeira vez que me dei conta de que a maioria
dos adultos brancos ao redor me ensinava coisas absolutamente
erradas. O problema não se restringia, a "alguns bagunceiros".
Os negros tinham o direito de exigir reparação e retificação dos
muitos erros cometidos contra eles.

16 I
PORQUE ESCREVER ESTE LIVRO?

"Você sabe, você é racista"


Embora eu tivesse sido criado na igreja, o cristianismo per
deu a graça quando entrei na faculdade. Uma das minhas difi
culdades era a desconexão entre meus amigos não crentes que
apoiavam o Movimento dos Direitos Civise os evangélicos orto
doxos que achavam Martin Luther Kinguma ameaça à sociedade.
Por que, eu me perguntava, os não religiosos defendiam de todo
o coração a igualdade de direitos e justiça,enquanto os religiosos
que eu conhecia não estavam nem aí?
A resposta veio quando encontrei um grupo pequeno mas
atencioso de cristãos fiéis que integravam suafé a toda espécie de
justiça na sociedade. De início, simplesmente incorporei minhas
opiniões sobre justiça racial à teologia queestava aprendendo como
cristão. Não vi de imediato o que mais tarde vim a perceber: que,
na realidade, a Bíblia é a verdadeira baseda justiça. Aprendi que o
relato da criação, em Gênesis, foi a origem do conceito de direitos
humanos no Ocidente^® e que a literaturabíblica profética ressoava
com clamores por justiça. Mais tarde descobri que o Movimento
dos Direitos Civis dos anos 1950 e 1960, que eu tanto admirava,
estava enraizado muito mais na visão que a igreja afiro-americana
tinha de pecado e salvação do que no secularismo."
Logo no início dos estudos no seminário, conheci um estu
dante afro-americano, Elward Ellis, que acabou se tornando
amigo meu e de minha noiva, Kathy Kristy. De forma gentil,
porém nua e crua, EUis nos abriu os olhos para as realidades da
injustiça na cultura americana. "Vocês sabem, vocês são racis
tas", ele disse certa vez à mesa da cozinha lá de casa. "Não é
de propósito, vocês não querem ser, mas são. Vocês não con
seguem evitar." Ellis deu um exemplo: "Quando um negro age

17 1
JUSTIÇA GENEROSA

de certa forma, vocês dizem: 'Tudo bem, é parte de sua cultu


ra'.Mas, quando é um branco, afirmam: 'Ele está fazendo a coisa
do jeito certo. Vocês nem percebem que têm uma cultura. Não
enxergam que muitas de suas crenças e práticas são culturais".
Passamos a ver como, de muitas maneiras, transformávamos nos
sospreconceitos raciais em princípios morais e, então, achávamos
que pessoas de outras raças eraminferiores. O argumento de meu
amigo era tão sólido e justo que, para nossa surpresa, concorda
mos com ele.
Em meu primeiro pastorado, em Hopewell, estado da
Virgínia, matriculei-me num curso de doutorado em ministério
pastorale meu projeto (a "tese" do curso) era sobre treinamento
de diáconos. No sistema organizacional da igreja presbiteriana
existem dois tipos de oficiais — presbíteros e diáconos. Histo
ricamente, os diáconos foram designados para trabalhar com
os pobres e necessitados da comunidade, mas no transcorrer
do tempo esse legado se perdeu e eles se transformaram em
zeladores e tesoureiros. Meu orientador do curso me desafiou
a estudar a história do diaconato e a desenvolver maneiras de
ajudar as igrejas presbiterianas a recuperar o aspecto perdido de
sua vida congregacional.
Aceitei o desafio, que foi um processo transformador para
mim. Procurei o departamento social de uma universidade pró
xima, obtive a lista completa de leitura para as matérias bási
cas e devorei todos os livros. Fiz uma pesquisa histórica sobre a
influência dos diáconos de igreja na formação da primeira estru
tura de serviço social público em cidades européias como Genebra,
Amsterdã e Glasgow. Planejei cursos de treinamento para diáco
nos e preparei material para ajudar os líderes da igreja a voltarem
os olhos não somente para o ministério da pregação e ensino da

1 18 I
porque escrever este livro?

"palavra", mas também parao ministério das "boas obras", servindo


àqueles que têm necessidades físicas e financeiras.^^
Depois do meu pastorado na Virgínia, fui lecionar no Semi
nário Westminster, na Filadélfia. Havia no meu departamento
quatro professores que moravam no centro da cidade e leciona
vam sobre ministério urbano. Todas as semanas eu chegava um
pouco mais cedo para a reunião do departamento e passava uns
quinze minutos conversando com o relator, Harvie Conn. Harvie
eraapaixonadamente comprometido emviver e trabalhar na cida
de e estava muitíssimo cônscio da injustiça sistêmica de nossa
sociedade. Quando me lembro daqueles dias, percebo que estava
aprendendo muito mais com ele do que imaginava. Há 25 anos,
li seu livro Evangelism: DoingJustice and Preaching Gracé^^, e os
temas alitratados influenciaram profundamente meuentendimen
to sobre Deus e a igreja.
Inspirado pelo ensino de Harvie e por todas as experiên
cias que tive nas igrejas urbanas da Filadélfia durante a década
de 1980, em 1989 aceitei o convite para ir morar no centro da
cidade de Nova York e começar uma nova igreja, a Igreja Pres
biteriana Redentor.

Graça e a prática da justiça


Existem muitas diferenças importantes entre Hopewell,
a pequena cidade sulista no estado da Virgínia, e a gigantesca
metrópole de Nova York. Uma coisa, porém, era exatamente igual.
Descobri surpreso que existe uma ligação direta entre o que a pes
soaentende e vivência da graça de Deuse o seuamorpelajustiça e
pelos pobres. Nas duas cidades, quando preguei o clássico sermão
afirmando que Deus não nos trata com a justiça que merecemos.

19 I
JUSTIÇA GENEROSA

mas que nos salva pela graça, percebi que as pessoas mais afetadas
pelamensagem tomaram-se maissensíveis às inadequações sociais
que as cercavam. Easley Shelton, membro da igreja em HopeweU,
sofreu uma profunda transformação. Abandonou o entendimento
estéril e moralista de vida e passou a entender que sua salvação
estava fundamentada na graça imerecida queJesus lhe ofertou. Isso
o transformou numa pessoa calorosa, alegre e confiante, e todos
notaram a mudança. No entanto, outro resultado surpreendente
aconteceu. "Sabe", Easley me disse certa vez, "fiii racista a minha
vida inteira". Fiquei estupefato, pois ainda não havia pregado a ele
nem à congregação sobreo assunto. Shelton descobriu issosozinho.
Quando esse homem se desvestiu do farisaísmo e da autorretidão
espiritual, o racismo desapareceu, segundo elemesmo disse.
Elaine Scarry, da Universidade Harvard, escreveu um livri-
nho fascinante intitulado On Beauty and Beingjust}^ Sua tese é
que a experiência da beleza nos deixa menos egocêntricos e mais
abertos à justiça. Ao longo de décadas, tenho observado que,
quando as pessoas enxergam a graça de Deus em Cristo, rumam
poderosamente em direção à justiça.
Portanto, este livro é dirigido tanto aos cristãos que consi
deram a Bíblia um guiade confiança quanto às pessoas que duvi
dam de que o cristianismo seja mesmo uma influência positiva no
mundo. Meu desejo é que os cristãos ortodoxos entendam como
a justiça feita aos pobres e marginalizados é fundamental para a
Bíblia. Também gostaria de desafiar os que não creem no cris
tianismo a enxergar a Bíblia não como um texto repressivo, mas
como a base para a compreensão atual dos direitos humanos.
Iniciarei cadacapítulo deste livro comum chamado à pratica
dajustiçatirado diretamente da Bíblia e mostrarei como ele pode
se tornar o alicerce de uma comunidade humanajusta e generosa.

1 20 I
PORQUE ESCREVER ESTE LIVRO?

Não espero que todos os leitores concordem plenamente comigo,


contudo espero apresentar a muitos um novo modo de entendera
Bíblia, a justiça, a graça e os bens materiais.

Notas
1. A Corporation for National and Community Service é uma agência
independente do governo americano, criada para apoiaro serviço comunitário
e voluntário. Também publica a revista Volunteering in América. O artigo do
qual as citações deste parágrafo foram tiradas foi escrito por Mark Hrywna,
Yoimg Adults Fueled Spike in Vblunteers, in: TheNonProJit Times, 28/07/2009.
Disponível em: <www.thenonprofittimes.com/news-articles/young-adults-fueled-
spike-in-volunteers/>. Acessoem: abr.2013.
2. Hrywna, YoungAdults.
3. V. A Theologyfor theSocial Gospel, cap. 19,"The Social Gospeland the
Atonement", no qual Rauschenbusch rejeita a teoria da substituição penal e
interpreta a morte de Jesus como prova da injustiça social deste mundo, além
de mostrara generosidade sacrificial e altruísta que tem de ser nosso princípio
norteador se queremos purificar o mundo de sua maldade.
4. Christian Charity:The Duty of Charity to the Poor, Explained and
Enforced, in: The Works ofjonathan Eduoards, SerenoDwight,org.,v. II, p. 164.
5. Pode-se apresentar a objeção de que Jonathan Edwards, nesse caso,
estava falandoapenasde caridade aospobres,e não de justiça.Contudo, para ele
o termo "caridade" tinha significado mais abrangente do que lhe damos hoje.
Veremos outros pontos de vista de Edwards nos próximos capítulos.
6. V. Amy Suluvan, Young Evangelicals: Expanding their Mission, in:
Time, 1/6/2010, http://www.time.com/time/printout/0,8816,1992463,00.html.
Acesso em: 12/ fev. /2013. Sullivan escreve: "O perfildosjovens evangélicos de
hoje é bem diferente.Têm consciência social, são focados nos problemas da so
ciedade e evitamcontrovérsias. Organizações seculares de serviço social, como
Teach for América, procuram cada vez mais aajuda desse grupo. Àmedida que
o mercado de trabalho encolhe para diplomados universitários, as matriculas
na Teach for América dobraram desde 2007 e triplicaramo número de jovens
vindos de faculdades e universidades cristãs. [...] O típicoestudante universitá
rio cristão, como muitos dessanovageraçãode evangélicos, mostra uma paixão
tremendapela pregação das boas-novas ligadaàs boasobras".
7.Um exemplo éJoelB. Green e Mark D. Baker, Recovering theScandal
ofthe Cross.

21
JUSTIÇA GENEROSA

8. Christopher Hitchens, God Is Not Great: How Religion Poisons


Everything. [Publicado no Brasil como título Deus não égrande: como a religião
envenena tudo. Rio deJaneiro:Ediouro,2007.]
9. "Jef&ey" (esse não é seu nomeverdadeiro) foi um dos alunos mais bri
lhantes da escola. Todosos colegas que se formaram com ele no ensino médio
e tinham notas tão boas quanto as suas entraramem facilidades de elite.Mas
Jef&ey não tinha recursos para isso e, assim, entrou numa faculdade estadual
bem mais acessível. Entretanto, continuou os estudos até completaro Ph.D., e
hojeé professor de um dos cursos de pós-graduação mais respeitados do país.
10.V. BrianTierney, The IdeaofNaturalRights: Studies onNaturalRights,
Natural Law, and Church Law 1150-1625, cap. 1. V. tb. Nicholas WoLTER-
STORFF,/«j/iV^.' Rights and Wrongs. cap. 2, "AContestof Narratives".
11.David L. CnAPPELL, A Stone ofHope: Prophetic Religion and theDeath
ofJim Crow. V. tb. Richard W. WlLUS, Martin LutherKing, Jr., and theImage
of God. Esse livro argumenta que King e a igreja afro-americana se apoiavam
fundamentalmente no relato bíblico de que o ser humanoé feito"à imagem de
Deus"e, portanto, todos são iguaise merecemtratamento digno.
12.Alguns frutos desse trabalho encontram-se no meulivro Ministries of
Mercy: The Call oftheJericho Road.
13.Harwe M. Conn, Evangelism: Deingjustice and Preaching Grace.
14.ElaineScarry, OnBeauty and Beingjust.

22
UM

O QUE SIGNIFICA
FAZER JUSTIÇA?

Óhomem, ele tedeclarou oque ébom. Por acaso oSenhor exige de ti


alguma coisa além disto: quepratiques ajustiça, ames a misericórdia e
andes em humildade com o teu Deus?
Miqueias 6.8

^£u não sabiaquem iria atirar em mim primeiro."


Há pouco tempo bati um papo com Heather, uma jovem da
minha igreja em Nova York. Depois de se formar na Facul
dade de Direito da Universidade Harvard, a moça conseguiu um
emprego muito bem remunerado numa firma de advocacia em
Manhattan. Heather realizou o sonho de praticamente todos os
profissionais em início de carreira. Era uma advogada corporativa
dinâmica, "vivendo a vida" na cidadegrande, mas tudo lhe parecia
estranhamente insatisfatório. Ela queriafazerdiferença na vidadas
pessoas e preocupava-se com quem não podia pagar os honorários
queos clientes de suafirma pagavam. Por uma firação do salário que
recebia, Heather foi ser promotora pública da Comarca de Nova
York, e muitos dos contraventores que processa são aqueles que
exploram o pobre, especialmente mulheres pobres.
JUSTIÇA GENEROSA

Quando lecionei em um seminário teológico em meados da


década de 1980, tive um aluno chamado Mark Gornilc Certo dia,
enquanto esperávamos junto à copiadora, o rapaz me contou que
estava prestes a se mudar para Sandtown, um dos bairros mais
pobres e perigosos de Baltimore. Lembro-me de ter ficado bas
tante surpreso. Quando perguntei o motivo da mudança, Mark
respondeu simplesmente: "Para fazer justiça". Fazia décadas que
nenhum branco se mudavapara^ e nãode^ Sandtown. Nos primei
ros anos a situação foi perigosa. Mark contou a um repórter: "Os
pobciais achavam que eu era traficante, e os traficantes achavam
que eu era poficial. Então, duranteum tempo, eu não sabia quem
iria atirar em mim primeiro". No transcorrer dos meses, porém,
Mark, juntamente com líderes da comunidade, estabeleceu uma
igreja e uma variedade de ministérios que estão transformando o
bairro pouco a pouco.^
Embora Heatber e Mark vivessem de modo confortável e
seguro, os dois se preocupavam com os membros mais vulnerá
veis, pobres e marginafizados da sociedade e fizeram sacrifícios
individuais de longo prazo para servirem aos interesses, às neces
sidades e à causa dessas pessoas.
De acordo coma Bíbba, esse é o significado de "fazer justiça".

Justiça significa cuidar dos vulneráveis


Miqueias 6.8 resume o modo de vida que Deus quer que
tenhamos. Andar em humildade com Deus é conhecê-lo intima
mentee estaratento ao queeledeseja e ama. E o queestáimpHcito
nisso? O versículo nos manda praticar a justiça e amar a miseri
córdia, duas ações que, à primeiravista, parecem coisas diferentes,
masnão são.^ O termo hebraico para"misericórdia" é chesedh, graça

24 1
o QUE SIGNIFICA FAZER JUSTIÇA?

e compaixão incondicionais de Deus. O termo hebraico para


"justiça" é mishpat. Em Miqueias 6.8,""mishpat enfatiza a ação,
e chesedhy a atitude [ou motivo] por trás da ação".^ Para andarmos
comDeus,então, temos de fazer justiça, comamormisericordioso.
O termo mishpat em suas várias formas ocorre mais de
duzentas vezes no AntigoTestamento Hebraico. De acordo com
seusignificado mais básico, devemos tratar aspessoas comimpar
cialidade. Desse modo, Levítico 24.22 adverte Israel a usar "a
mesma mishpat (regra dá lei) tanto para o estrangeiro como para
o natural". Mishpat significa absolver ou punir cada pessoa nos
méritos do caso, independentemente da raça ou posição social.
As pessoas que cometerem o mesmo erro devem receber a mesma
punição. Contudo, mishpat significa mais do que punição justa
pelo erro cometido. Significa assegurar os direitos de cada um.
Deuteronômio 18 ordenaque os sacerdotes do tabernáculo sejam
sustentados porumaporcentagem da renda do povo. Esse sustento
é descrito como "^mishpat dos sacerdotes", que significa dar-lhes o
que édevido oupertence pordireito. Assim sendo, lemos: "Defenda
os direitos dos pobres e dos necessitados" (Pv31.9, NVi). Mishpat^
então, é dar às pessoas o quelhes é devido, seja punição, seja pro
teção ou cuidado.
E por isso que, se lermos todos os versículos em que o ter
mo aparece no Antigo Testamento, observaremos que os mesmos
grupos de pessoas sempre aparecem. Repetidas vezes, mishpat
descreve cuidar da causa dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros e
dos pobres — conhecidos como "o quarteto da vulnerabilidade".'*

Assim falou o Senhor dos Exércitos: Praticai a justiçaverdadeira,


mostrai bondade e compaixão, cada um para com o seu irmão; e
nãooprimais aviúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre... (Zc 7.9,10).

25
JUSTIÇA GENEROSA

Nas sociedades agrárias pré-modernas, esses quatro grupos


não tinham poder social. Mal tinham o que comer e, se houvesse
fome na terra, invasão ou até mesmo distúrbio social, morreriam
em questão de dias. Hoje esse quarteto abrangeria refugiados, tra
balhadores imigrantes, os sem-teto, e os muitos idosos e pais/mães
que cuidam sozinhos dos filhos.
Conforme a Bíblia, a mishpat^ ou a justiça, de uma socieda
de é avaliada de acordo com o tratamento dado a esses grupos.
Qualquer negligência em relação às necessidades de quem faz
parte desse quarteto não é simplesmente falta de misericórdia ou
caridade, mas violação dajustiça, da mishpat. Deus amae defende
quem tem menos poder econômico e social, e devemos agir da
mesma forma. É esse o significado de "fazer justiça".

Justiça reflete o caráter de Deus


Por que devemos nos preocupar com as pessoas vulneráveis?
Porque Deus se preocupa com elas. Consideremos os versículos
a seguir:

[E Deus] que defende [mishpai\ os oprimidos e dá alimento aos


famintos. O Senhor liberta os encarcerados; o Senhor abre os
olhos aos cegos; o Senhor levanta os abatidos; o Senhor ama os
justos.O Senhor protegeos peregrinos e amparao órfãoe a viúva,
mas transtorna o caminho dos ímpios (SI 146.7-9).

Pois o Senhor, vosso Deus [...] faz justiça \rnishpai\ ao órfão e à


viúva, e amao estrangeiro, dando-lhe comida e roupa(Dt 10.17,18).

E surpreendente ver a freqüência com que Deus é apresenta


do comoo defensor desses grupos vulneráveis. Não menospreze o
significado disso. Quando alguém me pergunta: "Como o senhor

[26 I
o QUE SIGNIFICA FAZER JUSTIÇA?

gostaria de serapresentado?", geralmente sugiro quedigam: "Este


é Tim Keller, pastor da Igreja Presbiteriana Redentor da cidade
de NovaYork". Claro que sou muitas outras coisas, porém essaé
a atividade principal em que emprego minha vida pública. Veja,
então, como é significativo que os escritores da Bíblia tenham
apresentado Deus como "pai para osórfãos e defensor das viúvas"
(SI 68.4,5, NVl). Essa é uma das principais coisas que ele reahza
no mundo. Deus se identifica com os fracos, ele defende a causa
de tais pessoas.
É difícil compreendermos como essa idéia foi revolucioná
ria no mundo antigo. Vinoth Ramachandra, estudioso nascido
em Sri Lanka, chama isso de "justiça escandalosa". Ele escreveu
que em praticamente todas as culturas antigas o poder dos deu
ses era canalizado e identificado por meio das elites, dos reis,
dos sacerdotes, dos capitães miUtares, e não dos marginaliza
dos. Opor-se aos líderes da sociedade era o mesmo que se opor
aos deuses, "Mas, aqui, na visão oposta de Israel, não é ao lado
de homens de alta posição queJavé se coloca, mas ao lado 'do
órfão, da viúva e do estrangeiro'. O poder de Deus é exercido na
história para que os vulneráveis sejam fortalecidos."^ Portanto,
desde a antigüidade, o Deus da BíbUa se diferenciou dos deuses
de todasasoutrasreligiões como um Deus que defende os firacos
e faz justiça aos pobres.

Deus defende os fracos?


Essa ênfase bíblica levou algumas pessoas, como o teólogo
latino-americano Gustavo Gutiérrez, a discorrer sobre a "prefe
rência de Deus pelos pobres".^ À primeira vista, isso parece erra
do, especialmente à luz de textos da lei mosaica que advertem

27
JUSTIÇA GENEROSA

contradar preferência ao ricoou ao pobre (Lv19.15; Dt 1.16,17).


Contudo, a Bíblia afirma que Deus é o defensor do pobre; nun
ca afirma que ele é o defensor do rico. E, embora alguns textos
peçam que se faça justiça aos endinheirados, os apelos a que se
faça justiçaao pobre sãoem número cemvezes maior.
Porquê? Claro que pessoas ricas também sofrem injustiças,
mas, segundo o filósofo Nicholas WolterstoríF, o fato evidente
é que as classes menos favorecidas "não só estão desproporcio-
nalmente vulneráveis à injustiça, mas geralmente são de forma
desproporcional vítimas reais de injustiça. Injustiça não é distri
buída de forma igual".^ É mais fácil, claro, praticar injustiça con
tra quem não tem condição financeira ou social de se defender.
Os pobres não têm condições de contratar um advogado de alto
nível, como minha amiga Heather sabia muito bem. Geralmente
os pobres são as maiores vítimasde roubo,e normalmente o aten
dimento policial é mais rápido e completo quando a violência é
contra ricos e poderosos. Wolterstorff conclui: "Temos de dis
cernir onde acontecem as maiores injustiças e onde se encontra
a maior vulnerabilidade. Se tudo o mais for igual, concentramos
nossa atenção nessas coisas".® Resumindo, como de modo geral
os oprimidos pelo poder abusivo não têm quase poder nenhum.
Deus lhes dá atenção particular e tem um lugar especial para eles
em seu coração. Ele ordena:

Abre tua boca em favor do mudo, em favor do direito de todos os


desamparados (Pv 31.8).

Se o caráter de Deus inclui um zelo porjustiça queo leva ao


mais temo amor e à intimidade mais profimda com pessoas em
desvantagem social, como, então, deve ser e agiro povo de Deus?

28
o QUE SIGNIFICA FAZER JUSTIÇA?

Devemos nos preocupar intensamente com osfracos evulneráveis


como ele se preocupa. Com os versículos a seguir, Deus incutiu
sua preocupação porjustiça bem no centro da adoração e davida
comunitária de Israel:

Maldito aquele que violar o direito do estrangeiro, do órfão e da


viúva. E todo o povo dirá: Amém (Dt 27.19).

Assim diz o Senhor: Exercei o direito e a justiça, e livrai da mão


do opressor aquele que está sendo explorado por ele. Não façais
nenhum mal e nenhuma violência ao estrangeiro, nem ao órfão,
nem à viúva; não derrameis sangue inocente neste lugar (Jr 22.3).

Israel recebeu a ordem de desenvolver uma cultura de justiça


social para os pobres e vulneráveis porque era assim que a nação
revelaria a glória e o caráter de Deus ao mundo. Deuteronômio
4.6-8 éum texto importantíssimo que manda os israelitas obedece
rem às ordens de Deus para que, assim, todas as nações do mundo
se espelhem najustiça e napaz dasociedade deIsrael, baseadas nas
leis divinas, e sejam atraídas pela sabedoria e glória do Senhor.'
Essa é a razão de Deus afirmar que o insultamos quando
desonramos os pobres e que o honramos quando somos gene
rosos com os pobres (Pv 14.31). Se nós, os crentes em Cristo,
não honramos os clamores e necessidades dos pobres, deixa
mos de honrar a Deus, não importa o que falemos, pois estamos
impedindo o mundo de enxergar a beleza do Senhor. Quando
nos dedicamos a servir aos pobres, o mundo percebe. Mesmo
quando os cristãos eram minoria no Império Romano, a cari
dade surpreendente deles para com os pobres gerou um enorme
respeito na população. Se quisermos honrar a Deus, temos de
defender os pobres e necessitados (Jr 22.16).
[29 1
JUSTIÇA GENEROSA

Justiça significa relacionamentos corretos


Temos, sim, de nos preocupar com os pobres, entretanto a
idéia bíblica de justiça vai mais fundo. Entendemos isso melhor
ao considerarmos um segundo termo hebraico que podemos tra
duzir como"ser justo", embora sejanormalmente traduzido como
"ser reto". O termo é tzadeqah e refere-se a uma vida de relaciona
mentos corretos. O estudioso da Bíblia AlecMotyer define como
"retos" aqueles que são "retos com Deus e, portanto, comprome
tidos em fazer retos todos os outros relacionamentos da vida".^°
Isso quer dizer, então, que a retidão bíblica é invariavelmente
"social", porque tem a vercom relacionamentos. Quando a maioria
das pessoas encontra a palavra "retidão" na Bíblia, pensam nela em
termos de moralidade particular, como pureza sexual ou diligência
naoração e no estudo bíblico. Acontece que na Bíblia tzadeqah se
refere ao viver diário, no qual apessoa trata com justiça, generosida
de e igualdade todos os relacionamentos na família e na sociedade.
Não deve, então, nos causar espanto ofato de os termos tTsadeqah e
aparecerem juntos muitas e muitasvezesna Bíblia.
Essas duas palavras correspondem, aproximadamente, ao que
algumas pessoas chamam de "justiça primária" e "justiça retifica-
dora"." Justiça retificadora é mishpat. Significa punir os trans
gressores e cuidar das vítimas de tratamento injusto. Justiça
primária, ou tzadeqah^ significa comportamento que, se prevale-
cente nomundo, tornaria desnecessária ajustiça retificadora, pois
todos se relacionariam de modo correto com seus semelhantes.^^
Assim, embora tzadeqah tenha a ver primeiramente com o rela
cionamento certo com Deus, a vida reta gerada por ela é profun
damente social. Um texto do livro de Jó mostra como é a pessoa
que vive de modo reto e justo:

30 I
o QUE SIGNIFICA FAZER JUSTIÇA?

[...] pois eu ajudava os pobres que pediam ajuda e cuidava dos


órfãos que não tinham quem os protegesse. Pessoas que esta
vam na miséria me abençoavam, e as viúvas se alegravam com o
meu auxílio. A minha justiça \tzadeqa}3\ e a minha honestidade
\mishpai\ faziam parte de mim; eram como a roupa que eu uso
todos os dias. Eu era olhos para os cegos e pés para os aleijados.
Era pai dos pobres e defensor dos direitos dos estrangeiros. Eu
acabava com o poder dos exploradores e livrava das suas garras as
vítimas. (Jó 29.12-17, ntlh).

Se desprezei o direito \inishpat\ do meu servo ou daminha serva,


quando eles defenderam sua causa para comigo, então que faria
eu quando Deus se levantasse? Que lhe responderia quando me
viesse indagar? [...] Se tenho negado aos pobres o que desejavam,
ou feito desfaleceros olhos da viúva; ou se tenho comido sozinho
o meu alimento, e dele oórfão não participou, apesar deque, desde
a minha mocidade, o órfão cresceu comigo, como se eu fosse seu
pai, e tenho guiado a viúva desde o ventre de minha mãe; se vi
alguém morrer por falta de roupa, ou o necessitado não ter com
que secobrir; senoíntimo ele não me abençoou, senão seaqueceu
com as lãs dos meus cordeiros; se levantei a mão contra o órfão,
porque no tribunal eu tinha apoio; então que o meu braço caia do
ombro e se rompa daarticulação [...] isso também seria um mal a
ser punido pelos juizes; pois assim euteria negado a Deus, que está
lá em cima (Jó 31.13-28).

Francis I. Anderson destaca em seu comentário de Jó que o


texto anterior é um dos mais importantes da Bíbliapara o estu
do daética emIsrael. Eleapresenta umquadro completo decomo
umisraelita íntegro deveria viver, "e para (Jó), a conduta íntegra é
quase inteiramente social [...] Naconsciência de Jó [...] deixar de
fazer o bem a qualquer semelhante, de qualquer classe ouposição
social, seria uma ofensa grave contra Deus".^^

31
JUSTIÇA GENEROSA

No inventário que Jó faz de sua vida, observamos todos


os aspectos do que significa viver de modo justo e fazer jus
tiça. Observamos justiça direta e retificadora quando ele diz que
"Era [...] defensor dos direitos dos estrangeiros. Eu acabava com
o poderdosexploradores e livrava das suas garras asvítimas". Isso
quer dizer que Jó confrontou quem explorava as pessoas vulnerá
veis. Na sociedade em quevivemos, significa processar os homens
que espancam, exploram e roubam as mulheres pobres. Também
significa que os cristãos devem, de maneira respeitosa, pressio
nar a polícia a responderaos chamados de socorro e a solucionar
crimes nas áreas pobres tão rapidamente quanto nas mais prós
peras. Outroexemplo seria formar uma organização que processe
e denuncie empresas financeiras que tiram proveito dos pobres e
dos idosos necessitados fazendo-lhes empréstimos a juros altíssi
mos, usando de pura agiotagem.
Jó nos oferece ainda muitos exemplos do que poderíamos
chamar dejustiça primária ou viver correto. Ele afirma que é "os
olhos do cego e os pés do aleijado" e "pai dos necessitados". Ser
"pai" significa que ele supria as necessidades do pobre como um
pai supre as necessidades dos seus filhos.^'^ Nos dias de hoje isso
significa investir tempo pessoal para suprir as necessidades dos
deficientes físicos, dos idosos e dos famintos que nos cercam.
Ou pode significar o estabelecimento de organizações sem fins
lucrativos que sirvam aos interesses depessoas carentes. Ou pode
ainda representar um grupo de famílias de um bairro rico que
adota uma escola pública de uma comunidade pobre e que, por
intermédio de donativo financeiro generoso e trabalho gratuito,
visamelhorar a qualidade da educação dos alunos dessa escola.
No capítulo 31, Jó oferece mais detalhes de como é a vida
justa ou de retidão. Ele não negou "aos pobres o que desejavam"

[ 32 I
o QUE SIGNIFICA FAZER JUSTIÇA?

(v. 16). O verbo "desejar" não se refere apenas a suprir as neces


sidades básicas de alimento e moradia. Quer dizer que ele trans
forma a vida do pobre em alegria. Depois Jó afirma que, se não
tivesse dividido seu pão ou as lãs de seus cordeiros com o pobre,
teria cometido um pecado horrível e ofendido a Deus (v. 17,20 e
28). Certamente isso vai além do que chamaríamos hoje de "cari
dade". Jó não se contentou em apenas dar esmolas; ao contrário,
envolveu-se profundamente na vida dos pobres, dos órfãos e dos
deficientes físicos. Seu objetivo é que os pobres tenham uma vida
feliz e que os olhos das viúvas não desfaleçam mais. Jó não se
satisfaz com ajuda parcial aos necessitados de sua comunidade.
Não se satisfaz em lhes dar presentinhos de pouco significado e
utilidade, por julgar que a miséria e fragilidade dessas pessoas é
uma condição permanente.
Quando as palavras tzadeqah e mishpat aparecem entre
laçadas na Bíblia, como acontece quase quarenta vezes, nossa
expressão que mais se aproxima do significado original é "justi
ça social".Descobrir versículos em que essas palavras aparecem
juntase depois traduzir o texto usando a frase "justiça social" é um
exercício esclarecedor. Vejamos dois exemplos:

Ele ama a justiça social; a terra está cheia do amor do Senhor


(5133.5).

Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria,nem o


forte na sua força, nem o rico nas suasriquezas. Mas quem se glo
riar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, pois eu sou o
Senhor, que pratico a fidelidade e ajustiça social na terra, porque
me agradodessas coisas, diz o SENHOR (Jr 9.23,24).

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