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MOR

DO
MIA
cRISTÃ
DOS BENS AOS DONS
A MORDOMIA CRISTÃ: DOS BENS AOS DONS

Apresentação

Os cristãos sempre foram desafiados a viver uma vida pautada no serviço a Deus e
ao próximo. Essa é uma das marcas da Igreja Cristã facilmente identificada ao
longo de sua história. Basta olharmos as páginas do Novo Testamento e logo perce-
beremos que a Igreja desde os seus primeiros anos tinha no serviço, a sua principal
característica identitária, onde Jesus Cristo era a sua principal referência - "Pois
também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a
sua vida em resgate de muitos" (Mc 10.45).

Esse serviço era baseado no princípio de que tudo que somos e temos pertence a
Deus. O salmista Davi vai dizer que "Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o
mundo e aqueles que nele habitam" - (Sl 24.1-2). A partir dessa compreensão, en-
tendemos que aquilo que nos foi dado pelo Senhor, chegou até nós não para nosso
deleite pessoal, mas para o Seu serviço. Esse é o fundamento da Mordomia Cristã,
a utilização da nossa vida, bens, dons e talentos na obra de Deus.

Quando assim fazemos, somos considerados bons mordomos da Casa de Deus. A


palavra mordomo, em português, vem do latim majordomus, que tem a mesma
acepção do grego oikonomos (oikos = casa; nomos = governo). Major em latim é
"maior", e domus é casa e tudo o que ela contém e significa. Assim, mordomo é o
principal servo, o que administra a casa do seu senhor. Dessa forma, todos nós en-
quanto cristãos somos desafiados a sermos "... bons mordomos da multiforme
graça de Deus" - (I Pe 4.10b).

Nessa direção, esse texto de cunho pastoral propõe uma reflexão sobre o tema da
Mordomia Cristã, tendo como objetivo principal, promover a edificação do Corpo
de Cristo através da conscientização da necessidade do serviço cristão através dos
dons e talentos que o Senhor tem concedido a cada um de nós.

Pr. Ronaldo Robson Luiz

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1. A Mordomia da Vida
Desde os tempos mais remotos, uma pergunta tem inquietado a humanidade: “O
que é a vossa vida?” (Tg 4.14). Na busca por uma resposta, muitos filósofos, cien-
tistas, poetas e artistas têm se dedicado a responder essa questão através de teorias,
obras literárias e tantas outras expressões filosóficas, religiosas e/ou artísticas. A
partir do texto bíblico, encontramos orientação sobre a origem, o significado e
destino da vida. Todas essas respostas têm que ser encontradas naquele que antece-
de a todas as origens, ou seja, no próprio Ser Supremo que é Deus.

A origem da vida está no próprio Deus que, como criador de todas as coisas (Gn
1.1), formou o homem, dando-lhe a vida: “E o SENHOR Deus formou o homem
do pó da terra e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se
alma vivente” (Gn 2.7). Nesse momento, Deus compartilha com o ser humano, no
ato da criação, o atributo da imortalidade da alma, pois ele foi criado à imagem e
semelhança de Deus (Gn 1.26). Deus concede uma alma a cada ser que é gerado
no ventre de uma mulher, alma essa que não existia antes, mas que, com a Sua cria-
ção, é gerada, simultaneamente, com a geração do corpo, sendo a alma imortal,
concedendo vida que, por sua vez, é única e insubstituível.

Sendo a vida uma dádiva de Deus, precisamos preservá-la segundo o propósito


daquele que a criou, o próprio Deus. Essa é a tarefa do mordomo cristão. Além da
preservação da vida, o mordomo cristão precisa igualmente buscar qualidade de
vida. Cada um de nós tem uma única vida, portanto, devemos vivê-la de forma sig-
nificativa, desenvolvendo, ao máximo, nossas próprias potencialidades. Cuidar da
saúde, através de hábitos alimentares saudáveis, higiene do corpo, adotando estilo
de vida simples, deve fazer parte das preocupações da mordomia cristã. Jesus foi o
maior exemplo para o mordomo cristão. Ele cuidou do corpo “curando toda sorte
de enfermidades”, alimentando a multidão, desfazendo a ansiedade dos discípulos
na tempestade, etc.

A pergunta de Tiago tem uma resposta definitiva na teologia paulina: “... para mim
o viver é Cristo ...” (Fp 1.21) e “... vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim;

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e a vida que vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se en-
tregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20).

2. A Mordomia dos bens


2.1 Dízimo: uma expressão de fé
Dentro da proposta das reflexões sobre a mordomia cristã, chegamos ao momento
de refletirmos sobre o dízimo. Encontramos esta temática em toda a Bíblia Sagra-
da, não apenas no Antigo Testamento, como pensam alguns, nos ensinando que
dízimo é uma benção de Deus em nossas vidas. Poderíamos refletir sobre o dízimo
em vários aspectos, o que certamente faremos ao longo deste texto, mas neste
momento queremos pensar no dízimo como uma expressão da nossa fé.

Dízimo significa a décima parte. Dar o dízimo é oferecer a Deus a primeira décima
parte de tudo que Ele nos dá. Abraão ofereceu o dízimo (Gn 14.1-24), e a lei mo-
saica estabelecia a prática do dízimo (Lv 27.30-33; Dt 14.22) como um ato de gra-
tidão e de lealdade. No Novo Testamento encontramos o dízimo como um ato de
fé e de glorificação a Deus.

Por esta razão somos desafiados a ser dizimistas pelas razões certas, não porque
nos sentimos constrangidos a fazê-lo, mas porque temos em nosso coração o senti-
mento de alegria, em demonstrar nossa gratidão por tudo aquilo que o Senhor tem
nos dado. “Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com triste-
za ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (II Co 9.7).

Ser dizimista é uma das experiências mais marcantes da vida cristã, pois através do
ato de dizimar nós estamos reconhecendo o cuidado de Deus em nossas vidas, de-
monstrando que confiamos na Sua providência. Enquanto Igreja do Senhor preci-
samos andar pela fé, ser dizimista fiel é um ato de fé e “sem fé é impossível agradar
a Deus ...” (Hb 11.6).

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2.2 O dízimo como expressão da graça de Deus
Caminhamos no firme propósito de avançarmos na reflexão sobre a Mordomia
Cristã. Diante deste assunto, algumas pessoas colocam a seguinte questão: o
dízimo não seria uma prática restrita ao Antigo Testamento ou a lei mosaica? Por-
tanto não tendo alcance em nossos dias, uma vez que vivemos na Era da Graça?

Inicialmente é importante lembrarmos que a prática do dízimo já estava presente


no Antigo Testamento entre o povo de Deus mesmo antes do estabelecimento da
Lei de Moisés. Podemos constatar essa questão quando encontramos Abraão
dando o dízimo mesmo antes das ordenanças do decálogo e de seu desenvolvimen-
to no Deuteronômio (Gn 14.20; Gn 28.22). De forma semelhante, verificamos a
prática do dízimo no Novo Testamento, como percebemos nos evangelhos (Mt
23.23; Lc 18.12) e em outras referências neotestamentárias (Hb 7.4-10). Assim,
constatamos de forma inequívoca que o dízimo está presente em todo o texto
bíblico.

Mas qual a condição do dízimo quando comparamos a lei e a graça? A antiga aliança
e a nova aliança em Cristo? Em Mateus 23.23 Jesus apresenta essa relação: “Ai de
vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do
cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a
misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” A lei
subjuga, a graça liberta. A lei pune, a graça perdoa. A lei dá um padrão, a graça
transforma.

Neste sentido, podemos compreender que nós dizimamos não para cumprir as
exigências da lei mas porque fomos alcançados pela graça de Deus e consequente-
mente pelo Seu perdão. Porque a graça de Deus excede a lei. Podemos fazer uma
analogia a partir do texto de Mateus 14.13-21: a lei fornece cinco pães e dois
peixes. A graça multiplica a oferta, alimentando cinco mil homens, sobejando 12
cestos cheios. Para além dessa dimensão, podemos também constatar que a graça
de Deus ela também interpreta a lei.

Desta forma entendemos que o motivo do dízimo é mais importante do que o pró-
prio dízimo, ou seja, quando somos dizimistas estamos sendo féis não

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simplesmente a um preceito religioso, mas ao próprio Deus que se manifestou
com a Sua graça imerecida em nossas vidas. Por fim, a graça de Deus torna a lei
eficaz. Salvos pela graça, os crentes em Jesus estão agora livres para obedecer à
vontade de Deus expressa na lei, não por medo da punição, mas movidos pelo
amor de Deus. Assim, somos dizimistas não por obrigação necessariamente, mas
como fruto direto do amor e da graça de Deus, pois “... o cumprimento da lei é o
amor” (Rm 13.10b). A graça torna eficaz a lei porque possibilita o seu cumprimen-
to pelo amor.

2.3 O Dízimo como um ato de obediência


Dando continuidade à proposta de refletirmos sobre a mordomia cristã, continua-
mos com o tema do dízimo. Nas Escrituras Sagradas, encontramos cinquenta e
uma referências de forma direta ao dízimo, dentre elas, três já estão presentes no
livro do Gênesis, dando-nos a ideia clara de que o dízimo é um projeto de Deus
desde a Criação. No episódio narrado pelo escritor bíblico, a história de Abel e
Caim (Genesis 4), encontramos o registro de uma oferta que foi oferecida ao
SENHOR por esses dois irmãos.

Mas qual o critério utilizado por Deus para aceitar a oferta de Abel e rejeitar a de
Caim? O próprio texto responde essa questão: “Se procederes bem, não é certo
que serás aceito? ...” (Gn 4.7a). O SENHOR aceitou a oferta de Abel, pois no seu
coração foi achado obediência, as suas atitudes e as ações demonstravam uma vida
de bom procedimento.

Um dos textos mais utilizados para falar sobre o dízimo é o de Malaquias 3.10
“Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha
casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se Eu não vos abrir as jane-
las do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida”. O texto do profeta Ma-
laquias foi escrito depois de Israel ter voltado do cativeiro babilônico, período
quando o povo estava em pleno processo de reconstrução do templo de Jerusalém,
portanto, eram necessários recursos para que essa obra fosse concluída. Mas antes
do recurso em si, o povo foi desafiado à obediência, e o dízimo nesse contexto era
uma das formas de demonstrar obediência aos mandamentos de Deus.

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A entrega dos dízimos é um ato de adoração e obediência a Deus e não um contra-
to pessoal do crente com a tesouraria da igreja. Quando nos dirigimos à Casa do
Senhor para entregar nossos dízimos, estamos, com esse gesto, agindo como ado-
radores que caminham em direção ao altar de Deus com o coração grato por tudo
que Ele é e faz em nossas vidas. Não dizimamos para satisfazer um compromisso
simplesmente, mas para renovar nosso pacto de fidelidade, amor e alegria, que se
traduz numa renovação da própria vida. “Onde estiver o seu tesouro, aí estará o
seu coração” (Mt 6.21).

Diante da realidade do dízimo nas Escrituras Sagradas, a atitude esperada do povo


de Deus é a da obediência. Longe de nós o sentimento de pesar ou de constrangi-
mento, mas que a obediência seja uma caraterística presente em nossa vida em
relação a todos os aspectos, principalmente quando podemos demonstrar nossa
alegria de ser dizimistas.

3. A mordomia dos dons e talentos


Os dons espirituais é um dos temas mais significativos quando estudamos a doutri-
na do Espírito Santo em relação à Mordomia Cristã. A difusão geral desses dons
assinala um novo momento do processo de revelação de Deus à humanidade, inau-
gurando uma nova dispensação, a saber, a da Igreja. Esse novo marco temporal já
fora predito pelo profeta Joel (Jl 2.28), confirmado pelas palavras de Cristo (Mc
16.17; Jo 14.12; Mt 10.1, 8) e tem seu cumprimento nos dias de Pentecostes (At
2.1-21, 33).

Os dons espirituais são capacitações especiais de Deus, distribuídos pelo Espírito


Santo a todo o Corpo de Cristo, segundo a Sua soberana vontade – “A respeito dos
dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes ... Ora, os dons são
diversos, mas o Espírito é o mesmo ... Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas
as coisas, distribuindo-os, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (I Co 12.1,
4, 11). Os Dons Espirituais são distribuídos à Igreja do Senhor com um propósito,
não de forma aleatória – “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visan-
do a um fim proveitoso” (I Co 12.7), portanto, ela atende, basicamente, a dois pro-
pósitos:

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a edificação da Igreja (I Co 12.4-7; 14.12) e, em segundo lugar, a conversão dos
que não tem uma fé pessoal em Cristo (I Co 14.21-25; At 2.12).

No texto neotestamentário, há nove expressões que se referem aos dons, sendo a


principal delas o vocábulo (carisma), graça divina, dom espiritual.
Uma distinção importante para o contexto eclesiástico é a diferença entre dons e
talentos. Os dons têm sua origem na pessoa divina do Espírito Santo, os talentos
são aptidões naturais e/ou adquiridas através do processo da técnica e do preparo
para uma atividade específica.

O Novo Testamento apresenta algumas “listas” de dons, dentre elas, podemos des-
tacar Romanos 12.6-8 “tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi
dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao
ministério; ou o que ensina esmere-se no fazê-lo; ou o que exorta faça-o com dedi-
cação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem
exerce misericórdia, com alegria”. Mas também I Coríntios 12.8-11 e Efésios
4.11-12 “E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros
para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento
dos santos e para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de
Cristo”.

Assim sendo, o texto sagrado é muito claro quando nos ensina que cada crente em
Jesus Cristo recebeu, pelo menos, um dom espiritual e que, portanto, deve usá-lo
para edificação da Igreja, glorificação do nome do Senhor e propagação da mensa-
gem do evangelho, tendo como propósito maior o serviço à Deus e ao próximo,
como nos ensina I Pe 4.10 “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que
recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus”. Sirvamos ao
Senhor com os nossos dons! Sirvamos a Ele com alegria!

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4. A mordomia do serviço
Todo cristão é chamado para servir, pois temos em Jesus Cristo nosso maior exem-
plo de servo: “tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20.28). Assim, vida
cristã é sinônimo de serviço.

Por sua vez, a Igreja é um dos lugares onde podemos exercer o nosso serviço atra-
vés dos dons e talentos que o Senhor tem distribuído entre o Seu povo “com vistas
ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edifica-
ção do corpo de Cristo” (Efésios 4.12).

Portanto, todos nós somos desafiados por Deus para servir uns aos outros em
amor, sabendo que o nosso serviço no Senhor ele não é vão (I Coríntios 15.58) e
que no tempo certo dará muitos frutos. Que esta seja nossa orientação, aquilo que
nos move enquanto igreja e como cristãos, para que as palavras do apóstolo João
possam ser uma realidade em nossas vidas: “Conheço as tuas obras, o teu amor, a
tua fé, o teu serviço ...” (Apocalipse 2.19).

5. A Mordomia do Corpo
A Mordomia do Corpo está baseada no entendimento bíblico onde nos ensina que
o corpo é habitação do Espírito Santo, portanto não podemos usá-lo seguindo a
nossa consciência pecaminosa, mas para glória de Deus, com o entendimento que
esse corpo que hoje temos, que é corruptível, será substituído por um novo corpo,
que será eterno e perfeito.

O escritor de Gênesis ao narrar o evento da criação do ser humano nos ensina que
fomos formados por Deus, “feituras das suas mãos”. Portanto fomos criados,
corpo e alma, com um propósito divino (Gn 2.7). Esse propósito nos é mostrado
através dos escritos paulinos em I Co 6.19-20 “... ou não sabeis que o vosso corpo
é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes da parte de Deus e
que não sois de vós mesmos? Pois fostes comprados por preço; por isso, glorificai
a Deus no vosso corpo”.

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Através deste entendimento, que o nosso corpo foi formado por Deus e para Sua
Glória, somos lembrados que não podemos usá-lo para o nosso próprio prazer ou
necessidades físicas simplesmente, mas principalmente para honrar o Senhor, que
é o dono do nosso corpo. O apóstolo Paulo escrevendo aos romanos nos diz: “Por-
tanto, irmãos, exorto-vos pelas compaixões de Deus que apresenteis o vosso
corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”
(Rm 12.1).

Esse corpo atual que temos é falível, sujeito às limitações humanas e da temporali-
dade, mas ele se tornará num corpo incorruptível que será marcado pela eternida-
de de Deus quando estivermos todos juntos nos Céus. Mas enquanto esse dia não
chega, vivamos como bons mordomos do nosso corpo, nos esforçando para honrar
ao Senhor através dele (II Co 5.9), com a consciência que somos morada Sua e
vivemos para sua Glória.

6. A mordomia da Palavra
Inicialmente, queremos destacar que quando aqui nos referimos a expressão –
Palavra - não estamos pensando necessariamente em seu significado comumente
atribuído como sendo um termo, um vocábulo ou uma expressão formada por um
grupo de fonemas com um sentido específico. Nossa intenção é refletir sobre o
sentido em que a Palavra é encontrada nas Escrituras Sagradas e sua relação com o
ser humano, com a igreja e com o mundo.

No Antigo Testamento, a expressão encontrada é  (dâbhâr) frequentemente


aplicada à mensagem que os profetas anunciavam como sendo palavras do próprio
Deus, nesse sentido, os profetas eram os portadores da Palavra. Por sua vez, a tra-
dução grega da Septuaginta traduz esse termo por (logos), termo empres-
tado ao texto neotestamentário (Jo 1.1,14; 1 Jo 1.1-3; Ap 19.13). Para a cultura
hebraica, a palavra (dâbhâr) de um homem era a extensão de sua personalidade.
No sentido grego, a palavra (logos) tem significado de criação, de origem das
coisas e do mundo, dando-lhes sentido de existência. Assim, podemos entender
que a Palavra de Deus se constitui na Sua auto revelação através do registro escritu-
rístico.

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Mas, de que forma a Palavra de Deus nos alcança? Pelo menos de três maneiras. A
primeira delas é em nossa individualidade. O pastor Merval Rosa, no seu livro O
Ministro evangélico: sua identidade e integridade (2001), afirma que a Palavra de
Deus produzirá transformação de vida quando nos encontra em nossa singularida-
de. Uma segunda forma de demonstrarmos o alcance da Palavra de Deus é na Sua
Igreja através da edificação dos santos (Cl 3.16), quando nesses termos, a pregação
e o ensino assumem um papel fundamental. Por fim, Ela nos alcança quando somos
desafiados a assumir um compromisso pessoal com Cristo através do Seu sacrifício
vivo na cruz do Calvário – “Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Cristo”
(Rm 10.17).

Portanto, somos todos convocados a viver uma relação íntima com o SENHOR
através do estudo sistemático da Sua Palavra, tendo nela nossa única referência de
fé e prática, buscando demonstrar, em nossas ações e atitudes cotidianas, a influên-
cia que a Palavra de Deus produz em nossas vidas.

Pr. Ronaldo Robson Luiz

Doutor em Sociologia pela UFPE, Mestre em Ciências Sociais pela UFRN, Bacha-
rel em Teologia pelo STBNB e UNICAP. Especialista em Antigo Testamento. Pastor
Batista desde 2005, trabalhando em igrejas na Região Metropolitana do Recife,
servindo no magistério teológico no Seminário do Norte (STBNB) há dez anos,
escrevendo textos teológicos e devocionais para as revistas da EBD da Editora
Convicção (CBB).

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