Você está na página 1de 10

1

2019-2. Ética I. Prof. Antonio Saturnino


Ficha 3.

** Esclarecimento Inicial. Dois sentidos distintos das noções de “objetividade” e


“objetivo”.
1º) Sentido presente na perspectiva filosófica típica da antiguidade. “Objetivo” qualifica
elementos e estruturas totalmente independentes dos sentimentos, juízos, cálculos e
raciocínios dos seres humanos (independentes porque metafísica e epistemicamente
anteriores aos juízos e conhecimentos dos seres humanos). Neste caso, os seres
humanos são tomados como partes da ordem “objetiva” da natureza, partes
subordinadas ao Bem enquanto Fim/Princípio objetivo (independente dos sentimentos,
juízos, cálculos e raciocínios dos seres humanos) desta ordem. O ser humano está
inscrito e integrado à ordem objetiva da natureza, enquanto ordem estruturada e
regulada pelo Bem Objetivo (de novo, independente dos sentimentos, juízos, cálculos e
raciocínios dos seres humanos).
2º) Sentido presente na perspectiva filosófica típica da modernidade. “Objetividade” diz
respeito à realidade enquanto relacionada às capacidades de conhecimento do ser
humano como “sujeito” – tais capacidades incluem a capacidade de ter sensações da
realidade, de comparar, associar, identificar e classificar tais sensações, de fazer
raciocínios e juízos sobre a realidade, etc.). Assim, “objetividade” diz respeito aqui a
uma multiplicidade de dados, enquanto relacionada ao sujeito, uma multiplicidade de
dados que se apresentam diante do Sujeito, para o sujeito (Ser humano como sujeito que
tem sensações, que compara, associa, identifica, classifica e julga estas sensações, que
raciocina sobre elas, etc.).Sob o aspecto da mera multiplicidade de dados, dados
“diante” do sujeito, a realidade objetiva não tem uma “verdadeira” ordem, muito menos
uma ordem boa ou justa. A ordem da realidade objetiva depende do exercício das
capacidades cognitivas do sujeito. Mesmo naquelas perspectivas que priorizam a
capacidade por assim dizer mais passiva do sujeito, a sensibilidade, a ordem da
objetividade depende da relação com a sensibilidade do sujeito, tomada como uma
capacidade em certa medida separada da realidade em si mesma (e mesmo nestas
perspectivas introduzem-se implicitamente capacidades um pouco mais ativas, como as
capacidades de comparar, identificar semelhanças e diferenças, classificar).
Assim, é a partir das capacidades do sujeito, ou com base nas capacidades do sujeito,
que se estrutura a ordem da objetividade, tanto a ordem físico-mecânica da objetividade,
2

destituída de elementos normativos, quanto a ordem ético-normativa, que depende de


uma maneira mais robusta e enfática dos juízos (éticos ou morais) efetuados pelos
sujeitos (seres humanos como sujeitos das capacidades implicadas na ordenação da
objetividade).
Questões que se podem colocar a partir da distinção acima delineada:
- Como compreender as sensações de prazer? Como sensações cujo valor está
subordinado à Lei/Ordem “objetiva” (independente dos seres humanos) da Natureza?
Ou como sensações que têm valor enquanto sensações do sujeito, cuja hierarquização
depende de cálculos e raciocínios dos sujeitos, e que funcionam como princípio de
determinação daquilo que é bom para o sujeito individual que as experimenta (em um
contexto de “subjetivização do bem individual)?
- Como compreender as virtudes? Como propriedades que indicam uma realização
excelente do potencial para o bem “objetivo” que constitui a natureza humana, e que por
isso são boas nelas mesmas, independentemente de serem apreciadas ou louvadas por
outros seres humanos? Ou, como ocorre na perspectiva Humeana (moderna), como
propriedades de um “objeto humano” que despertam sentimentos desinteressados de
aprovação nos sujeitos que as observam, e que por isso são julgadas moralmente boas
pelos sujeitos em geral? Ou ainda, como ocorre na perspectiva Kantiana (moderna),
como capacidade do sujeito do livre-arbítrio de cumprir perfeitamente o dever prescrito
por sua razão pura prática, independentemente de qualquer motivação sensível, como o
desejo de recompensas ou o medo de punição? As teorias de Hume e Kant tornam as
virtudes dependentes de capacidades dos sujeitos, ou fundadas em capacidades dos
sujeitos, em contraste com a perspectiva típica da ética antiga. ***

- Perspectiva ética típica da antiguidade grega: “Bem” e “Bom” do indivíduo (que inclui
os prazeres verdadeiramente bons, ou realmente bons, em oposição aos prazeres
imediatos e ilusórios) estão vinculados a um caminho ou modo de viver enraizado na
própria ordem natural, tomada como ordem normativamente estruturada (ordem
estruturada pelo Bem enquanto Fim “objetivo”, no sentido de independente das
preferências, sentimentos, escolhas e juízos dos sujeitos). O (verdadeiro) Bem
Individual era considerado como um bem independente das sensações, sentimentos e
juízos do sujeito individual, e dos sujeitos em geral. Não eram as sensações individuais
de prazer e contentamento que definiam o que era bom para um indivíduo; ao contrário,
sensações de prazer só eram verdadeiramente boas (em oposição a ilusórias) quando
3

seguiam a “Lei da Natureza”, a lei de uma ordem natural constituída, estruturada e


regulada pelo Bem enquanto Fim objetivo, isto é, independente da sensibilidade, juízo e
razão dos sujeitos.
Deste ponto de vista, as Virtudes eram propriedades objetivamente boas do indivíduo,
isto é, propriedades que eram boas nelas mesmas, independentemente de serem
apreciadas e julgadas boas pelos outros indivíduos; desta perspectiva, é verdade que
estas qualidades eram (e deviam ser) apreciadas e julgadas boas pelos outros indivíduos
que viviam na mesma comunidade, mas elas eram apreciadas porque, “antes”, eram
boas nelas mesmas, caracterizavam uma vida “excelente”, que alcançou a excelência na
realização do potencial para o Bem próprio da natureza humana.
- Na perspectiva ética típica da modernidade, em contrapartida, “bem” e “bom” passam
a ser definidos a partir da sensibilidade, juízo e razão dos sujeitos. Neste sentido, pode-
se falar de um processo de “subjetivização” do bem. Neste processo, estabelece-se uma
distinção essencial e relevante entre o bem individual e o Bem Comum, que não
aparecia de modo tão relevante na perspectiva típica da antiguidade, na qual aquilo que
era verdadeiramente bom (distinto do que era meramente prazeroso, isto é, prazeroso de
um modo superficial e imediato, desvinculado do caminho de vida verdadeiramente
bom), - aquilo que era verdadeiramente bom era considerado como bom tanto para o
indivíduo quanto para a comunidade de que ele participava. Em virtude da
“subjetivização do bem” típica da modernidade, o bem do indivíduo passa a ser definido
a partir das sensações de prazer e agrado que ele individualmente experimenta em
relação a diferentes tipos de objetos, eventos, situações, etc; em outras palavras, o bem
do indivíduo é determinado pelas preferências que ele vai definindo a partir das
sensações de prazer e contentamento que ele vai experimentando em relação a
diferentes tipos de objetos, eventos e situações.
- Do ponto de vista moderno, em vez de dizer que algo é (verdadeiramente) prazeroso
por ser (objetivamente) bom (isto é, por seguir a Lei da Natureza enquanto ordem
estruturada e regulada pelo Bem Objetivo), como era típico da ética filosófica antiga, o
filósofo “naturalista” (que se conforma a uma natureza agora despida de toda
normatividade) diz que algo é (subjetivamente) bom por ser pura e simplesmente
prazeroso. As exigências normativas (relativas àquilo que o agente deve fazer, mesmo
que a perspectiva do prazer subjetivo não se apresente) se deslocam do conceito (agora
subjetivista) do bem para o conceito (“intersubjetivista”) do justo (do comportamento
justo). [Hume identifica o conceito de justiça ao conceito do socialmente útil
4

(comportamento socialmente útil), interpretado como aquilo que promove ou maximiza


o prazer e o contentamento subjetivos no conjunto da sociedade. Deste ponto de vista, o
prazer individual pode ser julgado socialmente útil, desde que seja não apenas
compatível com os impulsos ao prazer de outros indivíduos, mas promova nos
indivíduos em geral a disposição ou motivação de propiciar prazer e contentamento a
outros indivíduos, promovendo um “círculo virtuoso” em que o prazer experimentado
por um indivíduo promove a disposição de produzir mais prazer (ou contentamento,
bem-estar) no conjunto da sociedade.

** Interpretações do comportamento justo típicas da ética moderna, ou interpretações do


conteúdo dos juízos morais formulados pelo sujeito moderno (conteúdo dos juízos
morais é uma apresentação do comportamento justo).
1) Comportamento Justo é comportamento de respeito à liberdade ou direito de outros
indivíduos de buscarem seus respectivos bens (prazeres, contentamentos) subjetivos,
individuais. Comportamento motivado pelo desejo individual (elemento da capacidade
de desejar do sujeito individual) de segurança, tranquilidade, prosperidade individual.
HOBBES defende que a existência das normas da Justiça é absolutamente dependente
da existência do Poder Soberano artificialmente criado pelo “Contrato Social”, e que
nesse sentido as normas do comportamento justo só valem para os súditos do Poder
Soberano, não para o próprio Soberano. J. LOCKE (1632-1704) defende que as normas
do comportamento justo, assim como os direitos visados e protegidos nessas normas,
estão fundadas na razão dos sujeitos em geral, e não na capacidade do Poder Soberano
de garantir o cumprimento dessas normas, punindo os infratores.
2) Comportamento Justo é comportamento socialmente útil, que não apenas promove o
prazer (bem-estar) de outros indivíduos, como promove nos outros indivíduos a
disposição de também promover prazer (bem-estar) para outros indivíduos em geral, ou
de promover a felicidade (entendida em termos de prazeres subjetivos) na sociedade em
geral. Comportamento motivado pela capacidade do sujeito de “simpatizar” (sentir
junto) com outros indivíduos, ou de “sentirem juntos” o prazer/contentamento
reciprocamente promovido. HUME.
3) Comportamento de perfeito cumprimento do dever prescrito pela razão pura prática,
que combina ou liga as duas prescrições acima, a prescrição de respeito recíproco às
liberdades individuais e a prescrição de promoção recíproca da felicidade dos
indivíduos em geral (mas a felicidade é entendida aqui mais em termos de
5

desenvolvimento de talentos individuais do que em termos de prazer ou contentamento


em sentido estrito, que têm um caráter mais imediato do que o esforço de desenvolver
os próprios talentos). As duas prescrições são ligadas à medida que são baseadas na
capacidade legisladora da razão pura prática, e não na capacidade de desejar do sujeito
individual ou na capacidade de sentir junto deste sujeito. KANT ***

- Na perspectiva moderna, como é entendida a relação do bem do indivíduo com o bem


dos outros indivíduos que participam da comunidade? Na perspectiva ética típica da
antiguidade, como vimos acima, esta relação era entendida como uma relação
essencialmente complementar (relação de complementaridade entre bem individual e
Bem Comum), na medida em que o bem do indivíduo, quer dizer, aquilo que era
verdadeiramente bom para o indivíduo, enraizava-se em uma ordem natural comum a
todos os indivíduos, quer dizer, enraizava-se em uma regra de bem viver comum a todos
os indivíduos. Na perspectiva moderna, em contrapartida, tal relação tende a ser
entendida como uma relação mais de conflito do que de complementariedade, na
medida em que o bem do indivíduo tende a assumir um caráter grosso modo egoísta,
alheio às possibilidades de contentamento de outros indivíduos. Como vimos, Thomas
Hobbes acentua e radicaliza esta tendência ao conflito, apresentando o “estado de
natureza” (anterior ao “Contrato Social”, como acordo tácito pelo qual os indivíduos
renunciam ao seu direito natural de perseguir de forma ilimitada e irrestrita seu
prazer/bem individual, utilizando todos os seus respectivos poderes naturais), - Hobbes
apresenta o “estado de natureza” como um estado de “guerra de todos contra todos”
(“Leviatã”, Capítulo XIII).
- É verdade que, no âmbito da ética moderna, há pensadores importantes, como David
Hume (1711-1776), que destacam a possibilidade da complementariedade entre bem
(prazer) individual e Bem comum, associada à capacidade da “simpatia”, que produz
uma tendência à harmonização e promoção recíproca dos sentimentos de prazer dos
indivíduos. Um dos efeitos mais importantes da simpatia é o fato de que, por meio dos
sentimentos de aprovação e louvor dos “espectadores desinteressados”, cada indivíduo
tende a experimentar orgulho, contentamento e prazer em fazer aquilo que é agradável,
bom e útil a outros indivíduos, e útil para a sociedade em geral, isto é, aquilo que
promove contentamento e prazer na sociedade em geral. Ao presenciar uma cena em
que determinado agente, em virtude de uma qualidade dos seus hábitos de pensar e agir
(uma qualidade grosso modo “mental”, por caracterizar hábitos de pensar e agir, em vez
6

de comportamentos destituídos de pensamento), - ao presenciar uma cena em que


determinado agente produz contentamento e bem-estar para outro indivíduo, um
espectador desinteressado experimenta um sentimento agradável de aprovação por esta
qualidade, e emite um juízo de aprovação moral. Com base nisto, o indivíduo que exibiu
esta qualidade experimenta um sentimento de orgulho que reforça sua disposição de agir
desta maneira, e outros indivíduos se sentirão possivelmente motivados a tentar agir
desta maneira, de modo a também se tornarem objeto dos juízos de aprovação moral
intersubjetivamente emitidos e chancelados.
*** Antiguidade: Complementaridade “objetiva” (independente dos sujeitos) entre Bem
Individual e Bem Comum (Bem Objetivo da Comunidade)
Modernidade. Quando se admite uma possível complementaridade entre bem individual
e bem comum (interpretado como bem subjetivo de todos os indivíduos que compõem a
sociedade), ela se baseia em capacidades dos sujeitos, ou capacidade da simpatia, como
em Hume, ou capacidade da razão pura prática, como em Kant. ***

- No “Apêndice I” de sua “Investigação sobre os Princípios da Moral” (publicada em


1751), Hume define a “Virtude” como “qualquer ação ou qualidade mental que suscita
no espectador um sentimento agradável de aprovação”. A virtude depende dos
sentimentos de aprovação de sujeitos que observam a ação de um agente movido por
fatores mentais, como paixões e crenças; é algo bastante diferente da concepção de
virtude típica da ética filosófica antiga, na qual a virtude referia-se a uma qualidade
existente por si mesma, encontrada em uma natureza objetivamente bem formada, na
qual se desenvolveu o potencial para o Bem enquanto Fim objetivo, independente da
sensibilidade, juízo e razão dos sujeitos. Na perspectiva filosófica antiga, os sujeitos
aprovam uma ação ou atitude porque ela é objetivamente virtuosa, ou seja, ela exprime
em grau excelente a realização do Fim constitutivo da vida propriamente humana; na
perspectiva Humeana, em contrapartida, uma ação ou atitude é (intersubjetivamente
julgada) virtuosa porque ela é intersubjetivamente aprovada pelos sujeitos, ou seja,
porque suscita nos sujeitos um sentimento desinteressado e agradável de aprovação, que
promove em outros sujeitos o desejo de tornar-se objeto da mesma aprovação.

- Na modernidade, quer seja pensada em termos de conflito ou de harmonia, a relação


entre o Bem de um indivíduo e o Bem de outro(s) indivíduo(s) deixa de ser estruturada
pela ordem objetivamente boa da natureza (como ordem independente da sensibilidade,
7

juízo e razão dos sujeitos), e passa a ser estruturada por um juízo moral essencialmente
intersubjetivo, que corresponde a uma autorização social e pública daqueles prazeres e
preferências do indivíduo (que correspondem ao Bem de certo indivíduo) que são
julgados compatíveis com as preferências e prazeres dos outros indivíduos. Como foi
dito na ficha passada, à autorização publicamente concedida a certas preferências dos
indivíduos corresponde um dever de todos de respeitar esta autorização que a sociedade
concede ao indivíduo.
- Como foi mencionado na ficha passada, podem ser distinguidas três concepções a
respeito do juízo moral intersubjetivo que chancela e autoriza certas preferências e
prazeres do indivíduo. Na posição em certo sentido mais próxima da ética filosófica
antiga, há a concepção que funda este juízo em sentimentos de aprovação
desinteressados (ou “imparciais”), que graças à capacidade da “simpatia” são
compartilhados pelos sujeitos em geral – esta é a concepção defendida por David
Hume. Nesta concepção, os juízos morais vão além de simplesmente concederem aos
“cidadãos” (membros de uma comunidade civil) o direito (autorização
intersubjetivamente concedida) de perseguirem as preferências e prazeres individuais
que são compatíveis com as preferências e prazeres dos outros cidadãos; os juízos
morais pretendem aqui promover o desejo e a motivação dos cidadãos individuais de
propiciar contentamento e bem-estar a outros indivíduos, ou de agir de modo útil para
a sociedade em geral. E eles promovem este desejo à medida que qualificam a
disposição de propiciar prazer a outros indivíduos de “virtude”, uma qualidade
intersubjetivamente aprovada, da qual seus possuidores podem e devem se orgulhar.
- Outras concepções são mais céticas em relação à possibilidade de harmonização e
reforço recíproco dos prazeres subjetivos experimentados pelos indivíduos. No âmbito
destas concepções, os juízos morais prescrevem, não tanto atitudes dirigidas para a
harmonização e reforço recíproco das buscas individuais de prazer, mas, antes, atitudes
dirigidas à contenção ou restrição da busca individual do prazer, de acordo com limites
intersubjetivamente estabelecidos pelo exercício da racionalidade prática dos sujeitos.
Há aqui uma divisão importante na concepção da razão prática. Em uma primeira
posição, representada, por exemplo, por Thomas Hobbes, a razão prática é uma
capacidade que está a serviço do desejo natural de prazer, ou da busca natural do prazer
individual; deste ponto de vista, a razão prática prescreve meios para a criação de um
ambiente social que garanta maior estabilidade e probabilidade de sucesso para as
buscas individuais do prazer subjetivo. Em uma segunda posição, representada por
8

Immanuel Kant (1724-1804), a razão prática, como razão pura que se faz prática, é uma
capacidade a serviço da superação do desejo e da busca natural de prazer individual. A
concepção kantiana envolve uma prescrição de promoção recíproca da felicidade dos
indivíduos em geral, mas a felicidade é entendida mais em termos de desenvolvimento
de talentos individuais do que em termos de prazer ou contentamento em sentido estrito;
e o desenvolvimento dos talentos individuais implica certa restrição do impulso ao
prazer ou contentamento em sentido estrito. Veremos esta concepção em outras fichas.
- A concepção de Hobbes fundamenta os juízos morais em uma atividade por assim
dizer calculadora da razão prática dos sujeitos, segundo a qual é melhor para os sujeitos
em geral abdicar do poder (ou liberdade) irrestrito de buscar a perpetuação e
intensificação dos prazeres individuais, em troca da perspectiva de um poder comum,
que submete as buscas individuais a uma regra restritiva comum, que as torna
compatíveis entre si.
- Tanto Hobbes quanto Kant utilizam o conceito de “Contrato Social”. Mas a concepção
hobbesiana do Contrato Social é bem distinta da concepção kantiana. Veremos a
concepção kantiana em uma próxima ficha. Em Hobbes, o Contrato Social exprime a
associação do “direito natural do indivíduo” (isto é, o direito do indivíduo no estado de
natureza, anterior ao estado civil, que é direito de fazer tudo aquilo que está ao alcance
do seu poder natural) com a atividade calculadora da razão prudencial, que prescreve a
submissão deste direito natural e deste poder natural do indivíduo a um Poder Artificial
(criado pelo artifício humano) Comum, o qual transforma o direito natural em um
direito civil ou político, isto é, uma autorização (ou possibilidade) garantida por este
Poder Artificial comum – trata-se da autorização (ou possibilidade politicamente
garantida) de exercer seu poder natural segundo uma regra que o torna compatível ou
coerente com o exercício do poder natural dos outros indivíduos. O direito natural do
indivíduo transforma-se em um direito civil do indivíduo – ambos são direitos
“subjetivos”, e exprimem o fato de que o indivíduo é colocado no centro da ética e da
política.

ALGUMAS PASSAGENS DO CAPÍTULO XIV DO “LEVIATÔ, DE T. HOBBES

§1. O direito de natureza é a liberdade que cada homem possui de usar seu próprio
poder, da maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua
9

vida; e, consequentemente, de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe
indicarem como meios adequados a este fim. [No direito de natureza, a camada
normativa restringe-se a sentimentos, desejos, juízos e entendimentos puramente
privados, que transitam para o plano das causas naturais do comportamento humano,
causando comportamentos que são naturais. Embora constitua uma delgada camada
normativa, e justamente por equivaler a uma camada normativa mínima e delgada, o
direito de natureza subordina-se a uma ordem natural que em última instância não é nem
boa nem má, apenas é o que é. – A.S.B.].
§3. Uma lei de natureza é um preceito ou regra geral, estabelecido pela razão, mediante
o qual se proíbe a um homem fazer tudo aquilo que possa destruir sua vida ou privá-lo
dos meios necessários para preservá-la, ou omitir aquilo que pense poder contribuir
melhor para preservá-la. [No âmbito da Lei da Natureza, a camada normativa já inclui
um preceito geral estabelecido pela razão ou entendimento dos sujeitos. Mas, antes do
acordo recíproco estabelecido no “Contrato Social”, trata-se de um preceito meramente
privado, que equivale a uma camada normativa delgada e mínima, isto é, uma camada
normativa subordinada a uma ordem natural que em última instância não é nem boa
nem má, apenas é o que é. – A.S.B.].
§4. Dado que a condição do homem é uma condição de guerra de todos contra todos
(...), segue-se que numa tal condição todo homem tem direito [natural, pertencente à
ordem natural dos seres humanos – A.S.B.] a todas as coisas, incluindo os corpos dos
outros. Portanto, enquanto perdurar este direito de cada homem a todas as coisas, não
poderá haver para nenhum homem (por mais forte e sábio que seja) a segurança de viver
todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver. Consequentemente,
é um preceito ou regra geral da razão, Que todo homem deve esforçar-se pela paz, na
medida em que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode procurar e
usar todas as ajudas e vantagens da guerra. [Em contraste com o preceito anterior, o
preceito racional “Todo homem deve esforçar-se pela paz” já constitui uma camada
normativa mais densa, que vai modificar significativamente a ordem natural (ou estado
de natureza) dos seres humanos, transformando-a em ordem civil, ou estado civil. A
grande dificuldade é que este preceito só transita para o plano das causas efetivas do
comportamento através de um caminho delicado e difícil, o Contrato Social, pelo qual
todos os sujeitos concordam em renunciar a seus respectivos “direitos naturais a todas
as coisas”, em proveito de uma Lei Comum, que restringe a liberdade e o direito de cada
um à condição da compatibilidade e coerência com a liberdade e o direito de todos os
10

demais. Para Hobbes, o “Contrato Social” só é racional sob uma condição, a da alta
probabilidade de êxito, que equivale à segurança quanto ao fato de que haverá um Poder
Comum dotado de suficiente força para garantir a submissão de todos os súditos à Lei
Comum. Voltaremos a este tópico mais à frente. – A.S.B.].

Você também pode gostar