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GRUPO DE ESTUDOS

FEMINISMO,
ANTI-RACISMO E
LUTA DE CLASSES

TEMA:
Feminismo e Marxismo
(COLETÂNEA DE TEXTOS)

II Encontro
A Mulher na História do Movimento Socialista
no Brasil
II Encontro
A Mulher na História do Movimento Socialista
no Brasil

Esta pequena coletânea de textos busca sistematizar alguns trechos de obras, textos e cartas de autoras
militantes da causa socialista que escreveram, polemizaram e registraram os debates acerca do feminismo no
Brasil.
Ressaltando a importância de sistematizar a atuação política da mulher e suas contribuições na luta de classes
em nosso país, buscamos nesse espaço, iniciar breve esboço desse processo coletivo, com um olhar especial
para trajetória das mulheres socialistas.
Importante considerar que pouco se encontra de seus escritos e biografias, mas encontram-se registros e
menções de uma participação intensiva de mulheres em diversas frentes de atuação, protagonistas de processos
de emancipação. Em sua maioria vinculadas às tarefas cotidianas e de organização de base, pouco escrevendo
e registrando seus pensamentos e debates coletivos de cada período. As que escreveram, o fizeram sobre temas
diversos, analisando aspectos da práxis militante onde organicamente estavam vinculadas.
Buscamos nesse compilado selecionar alguns dos textos encontrados. O foco dessa coletânea está centrado
em textos e documentos que tratam da luta da mulher, do feminismo e dos temas que a ele se conectam.
Escritos de Mulheres sobre temas que envolvem o feminismo na trajetória da luta socialista no Brasil.
Para melhor apresentar os materiais indicados para estudo, organizamos em cinco tópicos. O primeiro deles,
leitura obrigatória para o Encontro, denomina-se A Mulher na História do Movimento Socialista no Brasil,
que busca fazer um breve percorrido na trajetória do movimento socialista no Brasil, identificando a atuação
das mulheres.
Na sequência, apresentam-se textos e fragmentos de textos clássicos, cartas, e sugestão de filmes,
protagonizados por mulheres que se dedicaram às lutas de seu tempo. Nesse sentido, organizamos em quatro
grandes itens:
1. As mulheres Anarquistas e a luta de classes no início do século XX;
2. As Mulheres Comunistas na Luta de Classes no Brasil (1922-1964);
3. As Mulheres na luta pelo socialismo no período da Ditadura Civil Militar de 1964
4. As Mulheres Socialistas no processo de Redemocratização (Década de 1980)
Consideramos importante destacar a necessidade de mergulharmos no contexto temporal e espacial que
marcaram seus pensamentos e atuação militante. Pois seus escritos são marcados pelas questões e contradições
de uma época, embora impulsionem lições para fora de seu tempo dialogando com questões hoje vivenciadas.

Boas leituras, bons debates!

Ândrea Francine Batista


Em maio de 2020
SUMÁRIO

01. A Mulher na História do Movimento Socialista no Brasil


a. Mulheres – Participação nas Lutas Populares (Fragmentos)-(Ana Montenegro, 1985)
b. Mulheres e Revolução: as militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN)-(Maria Claudia Badan
Ribeiro, 2014)
c. 20 anos de Feminismo (Fragmentos) (Maria Lígya Quartim de Moraes, 1996)

02. As mulheres Anarquistas e a luta de classes no início do século XX;


a. A mulher é uma degenerada (Fragmentos). (Maria Lacerda de Moura)
b. A Organização social: O diabo e seu Amigo (Maria Lacerda de Moura)
c. A Política Não Me Interessa. O voto segundo Maria Lacerda de Moura. (Maria Lacerda de Moura)

03. As Mulheres Comunistas na Luta de Classes no Brasil (1922-1964)


a. Poemas de Laura Brandão (1891-1942)
b. Carta de Tarsila do Amaral para Laura Brandão
c. Cartas de Olga Benário (1908-1942)
d. Verdade e Liberdade (Patrícia Galvão-Pagu, 1950)
e. Mulheres nas Ligas Camponesas: Elizabete Teixeira (1925), Alexina Crespo (1926-2013)
f. O Trabalho feminino: Dever de todo o Partido (Iracema Ribeiro, 1954)
g. Ganhar Milhões de Mulheres para o Programa do Partido (Olga Maranhão, 1954)
h. Maria Aragão (1910-1991)
i. Nise da Silveira (1905-1999)
j. Dirce Marchado da Silva (1934)
k. Resolução geral da I Conferência Nacional de Trabalhadoras (RJ, 1956)
l. As Mulheres e a Revolução Brasileira (Ana Montengro, 1960)

04. As Mulheres na luta pelo socialismo no período da Ditadura Civil Militar de 64


a. Iara Iavelbert (1944-1971)
b. Clara Charf (1925)
c. Mulheres do Araguaia.
d. A libertação da Mulher e a Luta de Classes (Vania Bambirra, 1972)

05. As Mulheres Socialistas no processo de Redemocratização (Década de 1980)


a. Margarida Alves (1933-1983)
b. Lélia Gonzalez (1935-1994)
c. Marielle Franco (1979-2018)
d. Conceição Evaristo (1946)
A Mulher na História do Movimento Socialista no Brasil

MULHERES – PARTICIPAÇÃO NAS LUTAS POPULARES (FRAGMENTOS)


(Ana Montenegro, 1985)
MONTENEGRO, Ana. Mulheres – participação nas lutas populares. BA: M & S Gráfica e Editora Ltda, 1985

Greves, participação política, direito de voto


Mesmo antes da chamada Revolução de 1930, que é um ponto de referência ao processo de industrialização e
de urbanização do país, as mulheres continuaram marcando uma presença ativa nos primeiros anos do século
XX e, em alguns casos, defendendo os seus direitos de trabalhadoras.
Trabalhadoras em Greve
No mês de maio de 1907, as Mulheres têxteis participaram da greve dos 600 têxteis (a grande maioria da
categoria era constituída de mulheres) da fábrica de São Bento, em Jundiaí, São Paulo, por melhores salários
e pelo horário de 8 horas de trabalho. A luta pela redução do horário de trabalho, então de 13 horas, foi uma
decisão tomada pelo Congresso de Trabalhadores realizado em 1906, com a representação de setores nos quais
as mulheres eram maioria (têxteis e costureiras). Embora nos ramos onde trabalhavam somente homens a
vitória tenha sido total, aqueles onde as mulheres eram numerosas a redução do horário de trabalho foi
diferenciada em 1,39hm: para os homens (setores essencialmente masculinos) 8 horas, para as mulheres de
9,30hs. Acresce que o horário era somente obedecido em São Paulo e nas grandes cidades. Outras greves se
seguiram com a participação das mulheres, por exemplo, em janeiro de 1912, a dos trabalhadores nas
indústrias de calçado, têxtil, e tipográfica. Em 1917 houve um movimento grevista na Fábrica Crespi (têxtil),
em SP, e numerosas mulheres foram encarceradas.
Uma outra greve de têxteis começou em maio de 1919 em SP, com a participação de 30.000 operários (cerca
de 10.000 em São Caetano e São Bernardo) que protestavam contra o sistema de multas, a diminuição de
salários e a repressão durante o trabalho. Em São Bernardo, mulheres e crianças foram feridas, vítimas da
violência policial. Uma greve de têxteis foi realizada no mesmo ano, em solidariedade com os trabalhadores
da Ligth .
Constata-se, assim, que nos setores de atividades (produção) nos quais mão de obra feminina tinha
predominância, houve uma participação ativa das trabalhadoras por aquelas reivindicações que lhes
correspondiam prioritariamente: aumento de salários, melhores condições de trabalho, incluindo a maneira de
trata-las e pela redução das horas de trabalho1
Foi através de Rosa Bittencourt, amiga de tantos anos e companheira de tantas campanhas (falaremos de Rosa
mais adiante), durante o governo repressivo do general Eurico Dutra, que tivemos conhecimento da greve dos
têxteis no Rio e Estado do Rio e Janeiro, em 1919 e nos anos seguintes. As mulheres, contava Rosa, eram
maioria e muitas vezes os soldados atendiam os seus apelos para não atirarem nos trabalhadores. No mesmo
ano, houve greve das têxteis na cidade de Salvador, Bahia, e como uma de suas dirigentes, têxtil, Francisca
Miranda, que conhecemos pessoalmente.
Engajamento político na década de 30
Embora sejam encontradas referências a organizações de
Mulheres, os jornais da época e outras publicações sem sempre se referiam aos nomes das mesmas. É o caso,
por exemplo, de vários jornais noticiarem, em 1933, somente que associações femininas do Rio de Janeiro
homenagearam a primeira mulher participar da Assembleia Constituinte, a deputada paulista Carlota Pereira
de Queiroz. Ou, no ano anterior, de 1932, quando líderes femininas reagiram contra a proclamação do então
ministro da Guerra a favor do serviço militar para mulheres: “A mulher não é para ir à guerra e sim para tirar
os homens de lá”.

1
Informações obtidas de pessoas que participaram dessas greves, mas principalmente através do livro História das Lutas Sociais –
Edevardo Dias, Editora Edaglit, 1962.
Mas que tipo de organização eram? Seus programas? Seus objetivos? E quem eram as suas associadas e as
suas dirigentes? Em que pese essa omissão ou essa generalização por outro lado a década de 1930 coloca uma
extensa lista de mulheres no centro de atividades políticas bem definidas, como foi o caso de centenas e
adesões à Aliança Nacional Libertadora. Entre as organizações de massa que dela faziam parte encontra-se o
nome da União Feminina do Brasil.
Grupos de mulheres e personalidades femininas defendia, em 1933, a participação da mulher nos júris
populares, estabelecendo polêmicas entre advogados dessa participação, como a baiana Edith Mendes de
Gama e Abreu, e adversários como os juízes Aprígio Garcia e Ramos da Costa, polêmicas que ocupavam as
páginas dos jornais.2
Em 1933, as opções pelos movimentos políticos, às quais já nos referimos, trouxeram às fileiras da Aliança
Nacional Libertadora mulheres que representavam o posicionamento mobilizador mais avançado daquele
tempo. Criada a Ala Feminina da Aliança Nacional Libertadora, dela faziam parte, entre dezenas de outras
mulheres, Amanda Álvaro Alberto, que foi sua presidente, Eugenia Álvaro Moreyra, Maria Moraes Werneck,
Francisca Moura, Eneida Moraes, Zoila Abreu Teixeira e Lydia Bessché. A ala feminina da Aliança Nacional
Libertadora, chegou a reunir 70 operárias, tenho sido criado o Comitê da Mulher Trabalhadora, cujo
“Manifesto contra o Fascismo” foi lido em comício no Rio de Janeiro, no dia 07 de outubro de 1934. Nesse
comício, estaria certamente Laura Brandão, a poetisa que comovia os trabalhadores na Praça Mauá e no Cais
do Porto, com a declamação de seus poemas revolucionários, e que, anos mais tarde morreria no exílio, na
cidade e Moscou. Laura, que pertencia a um grupo de defesa civil, tem o seu nome na lista dos combatentes
naquela cidade, onde deixou seus últimos poemas, seus últimos anos de vida e de luta na história da resistência
ao nazismo, durante a II Guerra Mundial.
Pelo direito de voto
Se no dia 24 de fevereiro de 1932, as mulheres conquistaram o direito de voto, na luta por esse direito deve
ser registrado historicamente o nome de Celina Guimarães Viana, como a primeira mulher eleitora no Brasil,
na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Seu voto foi posto na urna no dia 05/04/1928, como resultado
de um requerimento feito no dia 25/11/1927. A participação das mulheres nas eleições naquele Estado, foi
regulamentada pela Lei Estadual n. 660: “No território do Rio Grande do Norte podem eleger e ser eleitos
todos os cidadãos, sem diferença de sexo, desde que reúnam todas as condições estabelecidas pela Lei”. Em,
naquele mesmo ano de 1928, 15 mulheres foram candidatas ao Senado, que, no entanto, anulou os votos,
considerando que na legislação vigente não era reconhecido o direito de voto da mulher. Entre as mulheres
candidatas, foram eleitas algumas vereadoras, por exemplo, Alzira Soriano, na cidade de Lajes.
Das referências às pioneiras que lutaram pelo direito de voto não pode ser omitido, como vem sendo, o nome
de Alice Tibiriçá, que defendeu vigorosamente esse direito, durante o Congresso realizado, em 1931, pela
Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Testemunhando as suas atividades em favor do direito de voto
para a mulher, o seu nome foi o que recebeu o maior número de indicações, sendo também um dos mais
sufragados no conjunto, em um Plebiscito promovido pelo “Diário e São Paulo”, em 1933. No entanto, ela
não quis candidatar-se. Chama a atenção que a luta pelo direito de voto não tenha se preocupado com o
anacronismo da condição jurídica da mulher, sancionado pelo Código de 1916.
Os que combateram esse direito alegavam que da eleição plebiscitária de 1848, na França, não havia
participado mulheres. Mas havia, em geral, na sociedade brasileira, inclusive da parte do governo do Sr.
Getúlio Vargas, um consenso em favor do direito de voto para a mulher. Embora o chefe do governo falasse
de “concessão”, o que houve na realidade foi uma conquista das mulheres, depois de uma luta que não
começou na década de 30, mas durante longos anos, da qual é expressão a declaração do poeta Castro Alves,
em 1871, em favor do voto feminino.
Por motivos que deverão ser pesquisados – e certamente serão – houve uma limitação no aproveitamento dessa
conquista, no sentido de que as mulheres passassem a ocupar um maior espaço político e avançassem na

2
“A Tarde” (Salvador-Bahia). Edição de 11.04.1933. “Folha da Manhã” (São Paulo – SP). Edição de 14.02.1933
conquista de novas reivindicações específicas. Aliás, a esse respeito dizia um jornal de SP: “A percentagem
de mulheres alistadas é pequena e não existe nenhuma organização feminina capaz de levar às Urnas, com
probabilidade de sucesso nenhuma candidata”.3 Realmente, a campanha esgotou-se com a lei, o que significa
a limitação organizativa da mesma, sem desdobramentos em favor de outros direitos específicos, e sem o
respaldo de uma mobilização popular.
1945: Novos Caminhos
[...] Iniciada a campanha pela anistia, em 1945, foi formado o Comitê Feminino pela Anistia, no RJ, que
trabalhou intensamente até a vitória. A seguir esse Comitê transformou-se em Comitê feminino Pró-
democracia, que incluía em seus Estatuto as lutas pelos direitos da mulher, em defesa da infância e pelas
liberdades democráticas.
[...] Conquistadas a anistia, as mulheres que participavam dos Comitês Democráticos desdobraram as suas
atividades, passando a organizar as Uniões Femininas. [...] Embora as Uniões Femininas tenham cuidado dos
problemas dos Bairros, localmente, e de outros como o da carestia e do abastecimento, fazendo desses
problemas gerais o centro de seus programas, elas foram, no entanto, os canais que permitiram o
encaminhamento, mais tarde , de outras atividades que tinham como centro a defesa dos direitos específicos
da mulher. À medida que se iam estruturando, era criadas as condições de mobilização que permitiriam a
organização da Federação de Mulheres do Brasil de âmbito nacional.
[...] As questões de ordem política, quebrados os grilhões da censura de tantos anos, eram gritadas por todos
os meios de comunicação de massas, escritas nos muros, distribuídas em panfletos, propagandas nos comícios
e nas passeatas, como a de convocação de uma Constituinte. Constituíam pano de fundo do movimento de
massas em geral, do qual fazia parte o movimento de mulheres. O grande mérito das Uniões Femininas e de
constituição de grupos de mulheres com outros nomes foi o de ter contribuído para que as organizações
municipais, estaduais, e a organização nacional fossem o resultado de um trabalho feito a partir das bases
populares, com mulheres de todas as camadas sociais, a partir de um conjunto de reivindicações, inclusive as
específicas de mulheres que ia sendo desenvolvidas no processo de conscientização. Assim, iam se definindo
as linhas mais avançadas nos anos seguintes ao ano de 1945.
Organização e Atividades
[...] Todas essas convenções e Conferências e demais eventos demonstraram a mobilização que houve em
todo o território nacional. E não somente a mobilização, também a organização de associações que
conseguiram ampliar seus contatos e suas atividades além dos limites das fileiras do FMB, como se verifica
em uma das resoluções do I Congresso Nacional de Federação de Mulheres do Brasil realizado em SP nos
dias 28 a 30 de julho com referência à Organização do Movimento Feminino”: “Orientar todas as suas filiadas
para ampliar sus trabalhos em torno dos problemas da mulher e da criança, trabalhando com todas as
organizações femininas que em seus programas possuam pelo menos um ponto em comum com o da FMB” e
ainda, “orientar suas filiadas no sentido de ampliar as iniciativas nos trabalhos, de forma que as mulheres se
organizem das mais variadas formas, de acordo com as suas necessidades específicas” 4.
No Manifesto de Convocação de seu I Congresso, a FMB, em um comovente apelo as mulheres, lembrava “as
suas lutas, os seus sofrimentos, as suas experiencias”, e as convidava para um “feliz encontro de mulheres,
donas de casas, professoras, operarias e camponesas, intelectuais, comerciárias, médicas, advogadas que
juntas poderão decidir da vida mais feliz e confortável para as famílias brasileiras”, acrescentando que ao
“fazer esse apelo chama a participar do mesmo todas as suas filiadas através do Conselho de Representantes
e um copo de delegadas e de mulheres em geral, para que, dentro da mais franca discussão, se coordenem e
unifiquem a ação das mulheres brasileiras em defesa de seus direitos 5. Esse apelo trouxe à capital de SP 150
delegadas, entre elas as eleitas no Congresso de Mulheres Goianas, que reuniu delegadas de Pires do Rio,

3
“Folha a Manhã” (São Paulo – SP). Edição de 26.03.1933.
4
O “Momento”. Edição de 18.08.1951.
5
Idem. Edição de 28.08.1951
Goiandira, Catalão, Santa Helena e Colônia Agrícola, “zona agrícola por excelência que elegeu quase 100
delegadas camponesas”. [...]6
[...] uma I Assembleia Nacional de Mulheres, que se realizou no RJ, de 14 a 18 de novembro de 1952, com a
presença de delegadas de 9 Estados, e que incluiu entre os temas de discussão “os direitos da mulher em geral”
e os “direitos da mulher trabalhadora”. A resoluções traçaram um programa de atividades não somente para
as organizações femininas já existentes, mas “para todas as mulheres, independente de suas opiniões política
ou religiosas ou de quaisquer outras divergências que as pudessem separar”. Essas resoluções correspondiam
ao pensamento da Comissão Patrocinadora daquela Assembleia [...]
Nos dias 9 e 10 de novembro de 1953, era em Porto Alegre, RS, que se instalava a II Assembleia Nacional de
mulheres, por ocasião da qual, segundo a convocatória “delegadas de todos os recantos do país encontrar-se-
ão em nossa cidade a fim de discutirem e encontrarem soluções para os problemas que mais afligem as mães,
as operarias, as donas de casa, as camponesas, enfim a todo o povo”. [...]
Diversas reuniões nacionais e internacionais já haviam se realizado antes, no país, mas a primeira reunião de
mulheres latino-americanas para tratarem de seus problemas, de seus direitos, de suas reivindicações foi a I
Conferencia Latino -Americana de Mulheres, com o patrocínio da Federação de Mulheres do Brasil, de 07 a
11 de agosto de 1954, em dias muito difíceis na conjuntura nacional. Foi o mês, naquele ano, do suicídio do
Chefe de Governo, Sr. Getúlio Vargas.
Essa I Conferência Latino-Americana de Mulheres foi precedida de um Encontro de mulheres Brasileiras,
onde pontos a serem debatidos são discutidos e apoiados por um grupo de convidadas: [...]
Representantes de todos os Estados brasileiros e delegações de 7 países do Continente, mais de 300 delegadas,
estiveram presentes á I Conferência Latino-americana de Mulheres. [...]
Muitas mulheres que participaram de todas as atividades foram vítimas de repressão policial (prisões,
violências e até assassinatos, como nos casos de Zélia Magalhães e Angelina Gonçalves). No entanto, as
organizações femininas respaldadas por um amplo movimento de massas, mesmo durante o governo do
General Eurico Dutra, apesar das pressões e perseguições, continuaram com suas portas abertas e funcionando.
No entanto, por estranho que pareça, logo após a Ascenção do Presidente Juscelino Kubitschek (1956), a
Federação das Mulheres do Brasil e todas as organizações a ela filiadas, inexplicavelmente, foram fechadas e
proibidas de funcionar (inclusive as organizações de bairro), em todo o país, Mais tarde, essa proibição foi
revogada. [...]
Trabalhadoras urbanas e rurais:
A maior participação das operárias nas lutas por seus direitos deve-se, em primeiro lugar, a um grande número
de mulheres trabalhando no setor da indústria de transformação, número que correspondia, naqueles anos, a
65%, enquanto no setor metalúrgico, por exemplo era de apenas 17%, segundo dados estatístico oficiais.
[...] Na greve dos mineiros de Lafaiete, Minas Gerais, em setembro de 1948, greve que terminou depois de 37
dias, foi decisivo o papel das mulheres. Compreendendo a importância da greve, participaram das comissões
de vigilância organizadas pelos grevistas e impediram a ação dos fura-greves, ao mesmo tempo em que
buscavam o apoio e a solidariedade da população.
[...] Uma das mais belas páginas dessas lutas foi o heroico movimento de mulheres dos ferroviários da rede
mineira. No fim de 1949, era de 3 meses o atraso do pagamento dos ferroviários, muitos deles ausentes por
muitos dias de seus lares, levando e deixando a fome nas linhas férreas que se que se estendiam até Goiás [...]
Em uma noite de fome e desespero, com a Bandeira Nacional emprestada pelo vigário, e com a senha “Joana
vai casar”, um grupo de mulheres tomou o trem, como se fosse uma romaria e obrigou o maquinista, que se
chamava Orozimbo, a não avançar: as mulheres subiram à máquina, soltaram a pressão de caldeira, desceram
e se deitaram nos trilhos. Algumas desmaiavam de fome. Estavam desativadas as máquinas, os telégrafos, e
as forças de repressão, pelas mulheres dos ferroviários da cidade de Cruzeiro, em Minas Gerais, naquele fim
de ano de 1949 e começo de 1950.

6
Idem. Idem.
[...] O ano de 1950 foi marcado com o sangue da operária têxtil [...] Angelina Gonçalves, assassinada na cidade
do Rio Grande do Sul, em uma passeata de trabalhadores, no dia 1 de maio.
[...] Na Bahia, realizou-se uma Conferencia baiana de mulheres trabalhadoras, que foi instalada no dia 1 de
mio de 1956, em Salvador, e que discutiu diversos problemas: “sindicalização das trabalhadoras; criação de
departamentos femininos nos sindicatos; “salário igual para trabalho igual”; condições de trabalho; casamento
e gravides como impedimentos ao direito de trabalho para a mulher e condições das trabalhadoras nos
trapiches de fumo, nos armazéns de café e no beneficiamento de sisal”.
A I Conferência Nacional de Trabalhadores, cuja sessão inaugural foi na Câmara do Distrito Federal (RJ),
compareceram 231 delegadas de todo o país. Os trabalhos das comissões e as sessões plenárias tiveram lugar
na sede do Sindicato dos Têxteis, quando foram discutidos dois temas: “Direitos e Reivindicações das
Trabalhadoras das Cidades e do Campo e Participação efetiva das trabalhadoras na vida e nas atividades de
suas respectivas organizações “. [...]
[...] Embora em todas as oportunidades, em todos os documentos constatassem referências às condições e às
reivindicações das mulheres camponesas, foi naqueles anos, a II Conferência Camponesa do Triangulo
Mineiro, realizada em Uberlândia em 1954, que se reportando “à mulher do campo oprimida terrivelmente e
que não desfruta de nenhum direito”, aprovou um “Programa de reinvindicações das mulheres labradoras e
trabalhadoras agrícolas”: “ Direito de organização em Sindicatos e Associações; inclusão da mulher que vive
de salários nos contratos das fazendas e usinas, fornecimento pelos patrões de carteiras de trabalho e anotação
nas mesmas dos salários, férias, tempo de serviço, etc. a fim de gozar da proteção da Legislação social;
assistência à maternidade e à infância, gratuita, com assinatura de contratos entre os fazendeiros e usineiros
com os hospitais e as maternidades existentes nos municípios para atender rapidamente a todos os casos de
necessidades das famílias dos lavradores e dos trabalhadores agrícolas; construção pelo Estado e pelo
município de postos de puericultura, onde sejam atendidas rápida e eficientemente a todas as crianças dos
labradores e trabalhadores agrícolas, construção pelos fazendeiros e usineiros de poços próximos às casas de
moradia para facilitar o trabalho das mulheres e evitar a utilização das águas dos córregos sujeitas à
contaminação; concessão de licença de 3 meses com salários integrais às mulheres que vivem de salários e
ordenados, por ocasião do parto, conforme manda a lei”.7
A Liga Feminina do Estado da Guanabara, trouxe da Paraíba, da Cidade de Sapé, Elizabeth Teixeira, logo
depois do assassinato de seu marido Pedro Teixeira (1962), para que ela denunciasse, no RJ, até que ponto
havia chegado a sanha dos “senhores da gleba”, contra os que lutava – continuam lutando – por uma reforma
agraria. Os atos de denúncias e de solidariedade à Elizabeth Teixeira, que se multiplicaram na cidade do RJ,
estão registrados nos arquivos do Sindicato dos Bancários que apoiou essas manifestações, com grande
repercussão na opinião pública nacional. [...]
Em 1963, em um Congresso de Camponeses realizado em Belo Horizonte, Minas Gerais, nos encontraríamos
com mulheres que vinham das fazendas de cacau, das plantações de café, de colheita de cítricos, dos algodoais,
com seus rostos marcados de rugas precoces que mais pareciam cortes, rugas que não correspondiam às datas
de nascimento inscritas nas fichas e credenciais dos delegados daquele congresso. [...] Mas suas bocas se
abriam para contar as histórias de sofrimento e de opressão, as histórias de esperanças e de lutas e para cantar
o Hino da autoria de Raphael Carvalho: “A luta é necessária, e nós vamos lutar pela reforma agrária para nos
libertar”.
“Momento Feminino” – porta voz das lutas das mulheres:
Procuramos cuidadosamente em várias publicações sobre a imprensa brasileira e não encontramos nenhuma
referência ao jornal “Momento Feminino”, “Momento Feminino”, nasceu no dia 24 de junho de 1947, tendo
publicado artigos, reportagens, crônicas, poesias sobre a vida e as lutas das mulheres.
Foi um jornal muito útil no decurso de seus dez anos de vida, coordenando o trabalho de todas as organizações
femininas então existentes, difundindo as experiencias e seus programas, contribuindo para a conscientização

7
“O Momento. Edição de 17.11.1954
das mulheres. Era vendido nos seguintes Estados e Municípios, Bahia, Ceará Distrito Federal (Rio), Anápolis
(Goiás), todas as cidades do Triangulo Mineiro, Belo Horizonte (MG), Pernambuco, Paraná, Estado do Rio
de Janeiro, Rio Grande do Sul, SP – Capital e em Santo Amaro, Santo André, Taubaté, Sergipe, Goiânia (GO),
São Luiz (MA), Santa Catarina, Paraíba, Mato Groso, Belém (PA). Em suas páginas encontramos a maioria
das resenhas das organizações femininas: congressos, conferencias, assembleias, programas.
[...] “Momento Feminino” foi fundado por um grupo de mulheres cujos nomes devem ser conhecidos pelos
serviços prestados, guardando nas páginas de um jornal para as mulheres, feito por mulheres, a memória de
uma década de lutas. Eneida Moraes, jornalista e escritora: Silvia Chalreo, pintora, Arcelina Mochel, advogada
e líder feminista, eleita vereadora no RJ, em 1946; Heloisa Ramos e Luisa Lebon Regis.
Quem lê o seu número 102, de outubro e novembro de 1953, sabe o que se passou lá no interior de Alagoas,
em São José de Lages, contado por Maria Leocádia de Freitas; ou nos morros da cidade de Vitória; ou na
cidade de Nova Hamburgo, em Santa Catarina, onde existiam cerca de 300 fabricas de calçados, onde
trabalhava uma maioria de mulheres e não existia uma única creche; ou que fora fundada a Associação
Feminina de Juiz de Fora (MG), e outras associações em Ribeirão Preto e Franca, em SP.
Uma reportagem de Ethel de Souza, publicada na edição no. 107 de 1954 conta a vida (vida?) e a morte de
mulheres e as crianças das favelas do RJ. Nair Batista assina uma reportagem no n.109, de 1955, sobre a
“miséria que nem o rio-mar, o Amazonas, consegue carregar para a sua foz”. “Assim vivem nossas irmãs no
Campo” (n.109/1955) pode servir de fonte de informação para uma tese sobre o latifúndio. Niterói (RJ)
também tem morro e Alice subiu os morros que as mulheres subiam, todos os dias, com latas de água na
cabeça (n.110/1955)
Pode-se ler a denuncia de que na Usina Leão, em Alagoas, as mulheres ganhavam menos da metade do salário
dos homens. N. 110/1955). E Ethel de Souza, na mesma edição, denunciava a inexistência do ensino primário
gratuito e obrigatório como rezava a constituição. Outras denuncias no N. 111/1955, sobre o regime de
trabalho primitivo e desumano que pesava sobre as têxteis de Santo André (SP) e sobre a exploração brutal
das camponesas em Goiás onde até o corpo das mulheres era propriedade do latifundiário.
A reportagem publicada no n.112/1955, vem de Raposos (MG), “cidade de silicose e da viuvez”, onde
mandava a companhia inglesa “Saint John del Rey Mining Company”. Uma extensa lista de organizações
femininas e suas atividades consta no n. 112/1955, e as lavadeiras de Olinda aparecem na edição seguinte
falando dos sofrimentos que mancham suas vidas, manchas que nem o sabão e nem a água conseguem lavar.
“Momento Feminino”, durante 10 anos divulgou e homenageou o dia 8 de março, “Dia Internacional da
Mulher”, publicando as notícias das comemorações, no presente e no passado.
[...] um dos mais importantes arquivos de memória das lutas das mulheres [...]
Como o leitor pode perceber as mulheres souberam também criar seu órgão unitário de informação, de
conscientização e mobilização.

MULHERES E REVOLUÇÃO: as militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) (Maria Claudia


Badan Ribeiro8, 2014)
Publicado em: Historiæ, Rio Grande, 5 (2): 249-272, 2014.

O presente trata das redes de solidariedade formadas por mulheres que mantiveram vínculos orgânicos com a ALN
(Ação Libertadora Nacional) e que prestaram os mais diversos tipos de colaboração a essa organização, participando
não apenas de ações armadas, mas desempenhando também um papel primordial na retaguarda do movimento9, 10.
Muitas destas mulheres integraram uma rede legal de colaboradores ou tornaram-se quadros da organização.
Figuraram nos documentos da repressão como mantenedoras ou filiadas da ALN, tendo respondido a processos na
8
Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-Doutora pelo Instituto de Altos Estudos da América
Latina (IHEAL/Sorbonne Nouvelle). Bolsista CAPES n° 9593-11-0. Atualmente Pesquisadora Colaboradora da Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP). Email: mariaclaudia_badanribeiro@yahoo.com.br
9
A tese Experiência de luta na emancipação feminina: mulheres na Ação Libertadora Nacional (ALN) está disponível on-line
http://www.cedema.org/uploads/Badan_Ribeiro-2011.pdf .
10
Centro de Documentação e Memória (CEDEM-UNESP). O Guerrilheiro n° 1.
Justiça Militar ou constando como foragidas nesta documentação. Algumas atuaram sem despertar suspeita e jamais
foram presas ou investigadas pelo regime militar.
Muito além do setor armado, que invariavelmente teve maior repercussão no período, principalmente no tocante à
participação da mulher cuja atuação foi muito desqualificada pela polícia política e pela imprensa da época (basta
verificar a utilização na imprensa da famosa “loira dos assaltos”), resgatamos a experiência de mulheres que fizeram
parte de uma esquerda anônima e que foram fundamentais para garantir a vida de pessoas, bem como permitir a
continuação das atividades da organização no Brasil, em especial nos momentos mais repressivos da ditadura.
Uma parte de sua contribuição à luta contra a ditadura civil-militar foi justamente a realização, dia após dia, de
uma quantidade incalculável de tarefas, que em geral a historiografia tradicional não levou em consideração. Nossa
tentativa foi a de mostrar que essas atividades quotidianas revestiram-se de novo sentido para essas mulheres ao mesmo
tempo em que sua atividade, por mínima que fosse, também representou enormes riscos. Cabe lembrar o clima de terror
e suspeita da época. A imprensa estava amordaçada. À menor suspeita, a polícia fechava o campus das universidades e
colocava todos para marchar, inclusive motoristas e cobradores de ônibus. O livreiro na universidade poderia ser um
traidor em potencial (MELONI, 2009, p. 13).
Não havia segurança dentro da própria casa. Telefones eram controlados e não faltava trabalho para quem quisesse
trair seu semelhante. Medo: de ter sido vítima da delação de algum ressentido, de estar com o nome numa agenda
apreendida, do vizinho do lado, do colega de trabalho recém-contratado (MELONI, 2009, p.27-29).
As pesquisas realizadas nos 80 processos da Justiça Militar relacionados à Ação Libertadora Nacional (ALN), e
consultados no Acervo Brasil Nunca Mais do Arquivo Edgard Leuenroth revelam que foi justamente essa parcela de
colaboradoras a primeira a ser atingida pela repressão e, não obstante a compartimentação dos grupos armados, essas
pessoas formaram uma ampla rede de apoio, ainda de todo desconhecida pela historiografia.
Muitas dessas mulheres sequer chegaram a ser fichadas pelo DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), tendo
suas qualificações totalmente ignoradas pela polícia. As suas condenações junto aos Tribunais Militares também não
refletem a militância que tiveram. Os processos da Justiça Militar eram instaurados com frequência, sem qualquer
comprovação de sua atuação política, havia pessoas presas por engano, ausência de exame caligráfico em documentação
apreendida e provas completamente forjadas. Por outro lado, os julgamentos judiciais, lançavam mão de que a militância
feminina tinha sido motivada por seus cônjuges ou companheiros, que se aproveitaram da ingenuidade e da boa fé
feminina para realizarem atividades para a organização.
Mesmo os advogados de defesa na ânsia de evitar condenação de suas clientes, apelaram para a imagem angelical
da mulher, para sua educação “à moda antiga”, e para o fato de estarem cumprindo seus papéis de esposa em obediência
aos seus respectivos maridos. Basta a demonstração destas questões presentes nos inquéritos policiais militares, para
compreender que a militância das mulheres foi ocultada pelos documentos da época.
A colaboração dessas mulheres foi parte também das transformações que se processaram na sociedade da época
com relação à presença da mulher no espaço público. Os anos de 1960 trouxeram a mulher à cena pública de forma
definitiva. Sua luta coincidiu e foi consequência de uma série de fatores do contexto político-econômico brasileiro. A
industrialização e o êxodo rural ampliaram a perspectiva da mulher ao colocarem-na em contato com novas formas de
vida e organizações da sociedade urbano-industrial. Elas engajaram-se de forma crescente em movimentos e associações
de bairro, tiveram acesso à educação, passaram a fazer parte da população economicamente ativa. A mudança deu ensejo
à luta pela transgressão de normas e códigos de gênero de forma mais acentuada, quando uma quantidade maior de
mulheres passou a viver nas cidades.
É claro, que aliado ao embate de ideias, e à ebulição política do período, verificava-se progressivamente na
sociedade um relaxamento das regras no comportamento social, que deixavam à mostra, tanto a necessidade de romper
com atitudes conservadoras, como uma politização intensa que permeava cada vez mais as relações interpessoais 11.
Militantes políticas também tiveram que conviver com o comportamento conservador de pais e mães. A mãe de
Jessie Jane, por exemplo, tinha receio de que a filha se transformasse em “mulher de aparelho”. Vera Lúcia Xavier de
Andrade, filha de um alto funcionário da construtora Odebrecht, sofreu com o rompimento de seu pai, ao dar um
depoimento sobre sua vida sexual-afetiva para a revista Realidade. Somente reataram as relações, quando Vera saiu da
prisão. Esta relação conflitiva também transparece, tanto para homens como para mulheres, nas poucas cartas de
despedida trocadas durante a militância ou no interior da prisão,
Mãezinha querida,
Perdoa-me tudo o que de mal lhe possa causar. Perdoa-me o que talvez pareça mais uma de minhas
loucuras. Parti hoje porque precisei. Talvez não compreenda. Eu cometi erros no passado. Sofri
barbaramente e injustificadamente sob pretexto de pagá-los. Hoje estou só, vazia e amedrontada. Sei
que aí em casa eu serei sempre um problema. Sei que a minha presença traz insegurança a todos e que

11
Até passado recente, por exemplo, as mulheres não tinham a mesma igualdade jurídica dos homens. Seu cônjuge podia interferir
tanto na sua vida profissional como desautorizá-la a realizar qualquer atividade sem sua autorização expressa. Uma mulher casada
não podia abrir conta em banco, nem se inscrever numa universidade, e, em menor grau ainda, sair desacompanhada. O divórcio,
por exemplo, até o ano de 1962 era classificado como um aspecto social negativo ou patológico. Esse dado encontra-se na
“Estatística do Século XX”, num estudo promovido pelo IBGE. Disponível em <:
http://www.ibge.gov.br/seculoxx/estatisticas_populacionais.shtm. Acesso: junho de 2008.
o papai jamais me perdoará o meu passado. Não sei ao certo o que vou fazer, nem para onde vou. Maria
Alice 19/05/197112.
Partimos. Sei que se nós lhe falássemos, iria se opor. Ficamos com saudade bastante, mas esta é a
solução quando um país inteiro morre de fome e se é jovem bastante para não se acomodar diante de
tanta injustiça. Qualquer que seja nossa sorte, sei que não terá motivo para tristeza [...]. Pedimos que
não culpe a ninguém em hipótese alguma, já que nosso ideal revolucionário vem de há muito. Eiraldo13.
Maria Lúcia Alves Ferreira (Malu) demorou alguns anos para se reconciliar com seu pai, que se sentiu traído por
não saber que a atuação da filha ia muito além do movimento estudantil.
O engajamento destas mulheres foi ganhando intensidade e abrindo novas perspectivas. Uma das militantes da
época afirmou ainda jovem ao tomar contato com a literatura revolucionária, “li o Manifesto Comunista e saí dando
minha bicicleta. Entendi pelo tinha lido, que tinha que ser despossuída 14”.
É com orgulho que algumas delas, especialmente em cidades do interior, tornaram-se as primeiras mulheres a
andarem de calças compridas, como afirmou Albertina Pedrassoli. Sair da casa dos pais também era vivido como sinal
de autonomia e independência para muitas delas, assim como a obtenção de trabalho representava independência
financeira de pais, maridos ou irmãos mais velhos15.
A participação da mulher na luta armada foi também resultado desta mudança de paradigma em curso, demonstrada
pela sua capacidade de rebelião e resistência, pela sua inserção em estruturas de guerra e de combate, modificando o
ideário da dona de casa inserida no espaço do lar e circunscrita à figura da mãe de família, da mulher casta e bem
comportada. A luta política se somou assim, à luta de liberação feminina e a ideia da revolução colocou em cheque, não
sem dificuldade, o quadro de pensamento da época e o modelo que em geral se aceitava na sociedade.
O Despertar
A resistência partiu claro, inicialmente, de uma escolha individual. A necessidade de ajudar incitou mulheres (e
também homens) que não tinham muitas vezes, vocação nem formação política definida ou muito clara, a participar da
oposição ao golpe militar. Estimulou também em momentos posteriores, a que eles aderissem organicamente às
organizações de luta armada, trazendo contribuições que foram muito além de um suporte material. No tocante às
mulheres, verifica-se que elas utilizaram progressivamente todos os espaços de vida para a ação política: a família, os
amigos, a escola, o trabalho, seus momentos de lazer.
A política, identificada como parte do universo masculino, num espaço em que as mulheres tinham pouca
visibilidade, foi se transformando também à medida que a esquerda brasileira – não em sua totalidade – afastava-se de
modelos fechados e antidemocráticos. A descoberta pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) dos crimes de Stálin foi a
consequência também de modificações nas práticas políticas da época, associadas anteriormente ao burocratismo de
Estado e à supressão das liberdades. No contexto ditatorial brasileiro, no entanto, o Partido Comunista e sua linha
pacífica não conseguiram manter sua hegemonia em meio às forças de esquerda mais combativas, perdendo sua
credibilidade, após o golpe civil-militar. O ano de 1965 caracterizou-se particularmente por essa mudança de posição
dos núcleos estudantis, culminando com as grandes mobilizações de rua e com a entrada de muitos jovens nas incipientes
organizações guerrilheiras nos anos de 1967 e1968.
Surgia uma nova esquerda no cenário brasileiro, avessa às propostas do partido comunista local e influenciada por
um novo rol de ideias e símbolos que tanto criticavam o capitalismo, como discordavam do socialismo soviético.
Deixava-se progressivamente de lado o socialismo comedido do partido para uma atuação interna mais incisiva e direta,
quando o poder passou a estar na ponta do fuzil. E neste caminho, a Ação Libertadora Nacional ALN se anunciava como
uma alternativa estimulando as mulheres a lutarem ombro a ombro com militantes homens. Desde os primeiros
documentos produzidos pela organização, a participação feminina na guerrilha ganhou destaque:
[...] A participação da mulher no movimento revolucionário desde o primeiro momento constitui assim,
uma garantia de êxito futuro e uma arma terrível contra o conservadorismo e a vacilação. Na luta
revolucionária, não há homem que queira retroceder quando na vanguarda encontra a mulher
combatendo16.
A figura de Carlos Marighella também encorajou estas mulheres a aderirem à ALN. Por muito tempo, o dirigente
foi assistente das bases femininas criadas pelo Partido Comunista (PCB) e sempre estimulou os homens do partido a
trazerem suas mulheres para as plenárias (TEIXEIRA, 2009, p.233).
No caso feminino, defender um sentimento de afirmação como mulher também esteve na origem da militância, em
meio ao ambiente circundante. A transgressão na ordem dos costumes deu lugar a mulheres fortes e decididas. O
rompimento destas mulheres com a sociedade patriarcal já vinha se dando anos antes e se intensificou nos anos de 1960

12
Carta de Maria Alice Campos Freire. Arquivo Edgard Leuenroth. Acervo Brasil Nunca Mais, Processo 172, p. 296-297.
13
Carta de Eiraldo Palha Freire. Arquivo Edgard Leuenroth. Acervo Brasil Nunca Mais, Processo 537, p. 197. Eiraldo foi morto
pela ditadura no episódio da tentativa de sequestro do avião Caravelle, pela ALN, em julho de 1970 no Rio de Janeiro.
14
Depoimento de Vera Sílvia para o documentário produzido pela TV Câmara. Memória Política. Vera Silvia: a história de uma
guerrilheira.
15
Os primeiros concursos para mulher bancária, por exemplo, uma profissão majoritariamente dominada por homens foram abertos
em 1969.
16
Centro de Documentação e Memória (CEDEM-UNESP). O Guerrilheiro n° 1.
no interior da família, contra o Estado opressor ditatorial e no âmbito dos costumes e da sexualidade. Se a perspectiva
de futuro para a mulher deixou de ser o casamento, a alavancada profissional deixou de ser a máquina de costura.
Necessário considerar que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi uma escola de formação de muitas mulheres,
que depois pertenceriam à ALN. Destacou-se nesse sentido, a Liga Feminina da Guanabara que fundada em 21 de abril
de 1960 integrou-se num amplo movimento de combate à carestia de vida, recolhendo também assinaturas para levar
caravanas de representantes à Brasília. Suas propostas foram entregues ao Presidente da República João Goulart, que
encontrava nelas um apoio para suas Reformas de Base. A Liga lutou também em 1964 pela anistia dos sargentos, fez
campanha contra os frigoríficos, denunciando o aumento do preço da carne e do leite em sucessivos comícios na Central
do Brasil e na Vila Leopoldina17. Algumas de suas mulheres integraram e/ou mantiveram vínculos com a ALN como
Antonieta Campos da Paz, Zilda de Paula Xavier Pereira, Clara Sharf e Ana Montenegro, que embora não tenha aderido
à luta armada, alojava frequentemente Carlos Marighella em sua casa.
Antonieta Campos da Paz assinava reportagens no Imprensa Popular, jornal do Partido, e foi a responsável pela
criação de uma revista intitulada Momento Feminino. Durante sua militância na ALN acolhia pessoas perseguidas,
permitiu um curso de explosivos em sua casa, guardou malotes de dinheiro retirados de bancos, e foi a responsável por
muitos levantamentos para as ações armadas da organização. Segundo sua filha Mariza, Antonieta nunca passou do
primário. O partido foi para ela uma verdadeira escola de vida, e tudo que aprendeu foi adquirido nos cursos de política
do PCB18.
Clara Sharf foi a primeira mulher a criar a Associação de Mulheres de Pernambuco. Participou do Conselho do
Partido Comunista através do qual conheceu Carlos Marighella, e mesmo sendo a esposa do homem mais procurado
pela repressão no Brasil, escondeu pessoas em sua casa e ajudou na manutenção financeira das famílias de militantes
que iam a Cuba, fazendo constantes doações de roupas, alimentos e remédios.
Edith Negraes Brisolla, também passou a dar apoio logístico à ALN, como atesta sua sobrinha, também militante
da organização, “quando veio o AI-5 e a repressão se tornou muito maior, minha tia me propôs fazer uma lista de pessoas
que poderiam dar esse apoio logístico, importante, conforme ela já sabia pela militância passada (no PCB) [...]” 19.
Se o partido foi um aprendizado para muitas mulheres, que a partir dele, se inseriram na política, para outras, ele
teve apelo pequeno ou gerou grandes frustrações, levando ao seu rompimento. Esse foi o caso de Miriam Malina que
viveu em Moscou onde concluiu o curso de Direito na Universidade Patrício e Lumumba para depois, no Brasil, se
incorporar à organização. Da mesma maneira, Neuza Santanna Pinheiro Coelho jornalista do Ultima Hora20, e colega
de trabalho Joaquim Câmara Ferreira (Toledo)21.
Maria de Lourdes Rego Mello, formada em filosofia pela Universidade da Bahia e ligada ao Partido Comunista,
era o braço direito de Toledo na ALN. Era a responsável pelos contatos com os militantes que chegavam de Cuba, pela
obtenção de locais de encontro para reuniões e por uma série de outras tarefas no interior da organização 22.
Para muitas delas, a conscientização política deu-se também a partir do viés religioso, acompanhando a sensível
transformação da igreja daqueles anos e associando militância a trabalhos assistenciais ou a cursos de alfabetização. O
ambiente dos internatos religiosos, que muitas delas frequentaram, pode ter colaborado também para o desejo de
modificação de costumes por parte dessas mulheres. A passagem por esses lugares foi ocasião de se defrontarem, em
maior ou menor grau, com o pensamento conservador da Igreja 23 ou, em alguns casos, com linhas até mais progressistas.
Moema São Thiago, por exemplo, acompanhava durante a faculdade, o grupo de alfabetização de Dom Fragoso em
Fortaleza. Arlete Diogo realizava educação de jovens na Favela da Vila Prudente, e, na Vila Zelina, onde morava,
também organizou um grupo de discussão política e panfletagens.
Ana Corbisier foi desde garota muito influenciada pelos trabalhos assistencialistas realizados pela tia na Favela da
Vila Altino passando a desenvolver posteriormente trabalho junto da Organização de Auxílio Fraterno (OAF), enquanto
cursava Ciências Sociais na USP. Participava também de todas as atividades promovidas pelos dominicanos, assistindo
aos cursos promovidos pelo Frei Carlos Josaphat, e realizando distribuição nas ruas do jornal Brasil Urgente.
Maria Lygia Quartim de Moraes, por exemplo, foi despertada pelo trabalho de assistência social desenvolvido por
sua tia Nadir Kfouri, fundadora do Partido Democrata Cristão. Sua visão de esquerda, como disse, foi muito influenciada
pela visão cristã, adquirida em colégio interno, para depois mergulhar na literatura de Simone de Beauvoir.

17
Cf. PAZ, Mariza Campos Da. Nieta dos campos da paz. Rio de Janeiro, Mauad X, 2012.
18
Entrevista de Mariza Campos da Paz, Rio de Janeiro, 06 de julho de 2010.
19
Entrevista de Sandra Negraes Brisolla, Campinas (SP), 24 de outubro de 2008.
20
A primeira edição da Ultima Hora foi lançada em 12 de junho de 1951. O jornal nasceu em um período de forte efervescência
política e social, e em apoio a Getúlio Vargas, presidente até então do país. O jornal esta disponível no acervo on-line do Arquivo
do Estado de S. Paulo< http://www.arquivoestado.sp.gov.br/uhdigital/>
21
Neuza Coelho integrou-se à ALN e era ativa militante no movimento sindical do Porto de Santos e no Sindicato dos Jornalistas
de São Paulo, do qual foi também, uma de suas fundadoras. Cf. Mulheres Jornalistas formam Coletivo no Sindicato. In: Unidade.
Jornal dos Jornalistas, março de 2010, edição n°325, p. 5.
22
Caetano Veloso fez uma homenagem a Maria de Lourdes, “Lurdinha”, sua colega de classe, confessando que foi graças a ela, que
ele deu apoio à Ação Libertadora Nacional (ALN). (Globo, 11/09/2011). Cf. Fonte: http://bahiaempauta.com.br/?p=47497
23
Maria Lygia Quartim de Moraes escutava na sala de aula: “melhor casar que abrasar”. Vera Gertel em suas memórias, afirma que
para ser contratada como atriz na época, foi obrigada a realizar exame contra doenças venéreas
Norma Leonor Hall Freire jornalista da revista Realidade afirma que antes de qualquer tipo de ideologia, o despertar
de uma consciência feminina parece estar na base de seu desejo de mudança. Foi educada no ambiente conservador de
um Colégio de Freiras, do qual foi expulsa por transgredir o regulamento. Outras militantes da ALN também
frequentaram estes colégios como Darci Toshiko Miyaki que estudava no Maria Imaculada em São Paulo, e Lídia
Guerlenda que descreveu à pesquisadora Ruth Lima, a dificuldade que teve para romper com sua formação religiosa
quando passou a militar24.
Moradora do bairro Taquaral em Campinas, interior de São Paulo, Diva Maria Burnier realizava trabalhos de
conscientização junto ao Padre Milton Santana da Igreja Nossa Senhora de Fátima na cidade. Oriunda também da
Juventude Católica, Yara Gouvêa, na época estudante de Letras na USP, acompanhou todos os seminários realizados
por padres estrangeiros que vinham ao Brasil naquele momento, e que pregavam a necessidade da integração do
intelectual à vida operária. Como ela diz, “[...] minha primeira atuação foi realmente imbuída desse espírito das leituras
das encíclicas todas, a gente estudava aquelas encíclicas, de João XXIII, todos os documentos de Medelín [...]” 25.
Ana Maria Ramos, militante do movimento secundarista também esteve ligada à Igreja Metodista, que formava na
época moças para serem missionárias da Igreja, antes de entrar na ALN. Sua turma foi a última a se formar, pois, pouco
tempo depois o Instituto Metodista foi fechado pelo regime militar.
Tereza Poggi, italiana que se transferiu para o Brasil para realizar trabalhos junto a Dom Helder Câmara na capital
pernambucana começou muito naturalmente a prestar solidariedade arranjando casas para esconder militantes
perseguidos. Partindo para São Luís do Maranhão passou não só a receber pessoas em sua própria casa, mas a ajudá-las
com recursos médicos e financeiros. Acolhendo pessoas, também permitiu o desenvolvimento de um trabalho político
junto às quebradeiras de babaçu na região.
O protagonismo político feminino contrastava, contudo, com a forma de atuar do regime, cuja ideologia não só
naturalizou as diferenças macho/fêmea, mas tratou de criar um arcabouço de ideias que procuravam desmobilizar
politicamente a mulher, apelando para comportamentos que “ameaçavam” a família brasileira.
A oposição política era dirigida e seletiva, e em especial contra a mulher militante. Já é conhecida a frase de um
torturador a uma mulher; “agora, sua puta, você vai parir eletricidade!” E de outro que, dizia a uma militante de Brasília,
“Vou colocar seu bebê numa bacia com gelo e vou deixa-lo até virar sorvete. Depois, vou quebrar um por um os seus
ossinhos. Esse vai ser seu castigo, para que nunca se esqueça do que fez em seu passado 26”.
Era uma maneira fácil de se livrar delas, colocando a opinião pública contra a oposição política que faziam. Sem
mencionar a internação destas mulheres em Manicômios Judiciários, cujo caso mais flagrante, foi o de Sylvia
Montarroyos alguns dias após o golpe de estado, internada no Manicômio da Tamarineira em Pernambuco e de Zilda
Xavier Pereira entregue pela repressão ao Instituto Pinel do Rio de Janeiro.
Também podemos destacar o papel do Juizado de Menores, que pouco fez pelas adolescentes detidas e torturadas,
como Maria Alice Campos Freire, Rosângela Alves Japiassu, Ilma Noronha ou mesmo homens como Jorge Wilson
Fayal que estavam na linguagem do regime, “sujeitos à legislação especial”.

As diferentes formas de militância


A militância política dessas mulheres foi resultado de um processo em que vários fatores estiveram envolvidos
como tipo de educação familiar, pertencimento a partidos políticos, influência de familiares de esquerda, leituras
realizadas, atividades culturais desenvolvidas, ideias cristãs, influência de professores e até mesmo de grupo de amigos.
Não podemos desconsiderar também que os espaços abertos a elas nas universidades influenciaram seus sentimentos de
independência, vontade de viver e até num espírito de aventura e experimentação que poderiam tê-las levado à militância
política.
A liberação dos costumes, em especial das mulheres, gerou igualmente muitos conflitos em família. E, em alguns
casos, a saída da casa dos pais para fugir ao rígido controle, pode também favorecer a vida do militante, em especial
daqueles que já estivessem engajados nos grupos de combate à ditadura. Em outros casos, a casa dos pais foi utilizada
como ponto de encontro para reuniões e feitura de material clandestino. Nesse tocante, o apoio dos pais foi essencial
tanto para a proteção da organização, como de seus filhos mais diretamente.
O apoio da família e de parentes também fez parte de algumas atividades desenvolvidas por algumas mulheres que,
através do acesso a hospitais, prisões e delegacias ou mesmo dentro de suas casas, procuravam prestar solidariedade e
trazer conforto aos seus filhos, sobrinhos, netos, irmãos e maridos. A resistência dessas mães nasceu e viveu dentro de
suas próprias casas à medida que se solidarizavam com seus filhos ou simpatizavam-se com a ALN. Muitas delas foram
presas e obrigadas a prestar declarações sendo envolvidas nos processos da ALN e associadas à “luta subversiva”. Em
que pese o carinho e conforto que traziam, também funcionaram como grandes parceiras na comunicação entre os
militantes, dando algum tipo de sustentação à luta, quando não se integrando de fato à ALN, como foi o caso de Maria
Conceição Sarmento Coelho da Paz e Maria José Araújo.

24
Cf. LIMA, Ruth Ribeiro de. Nunca é tarde para saber: histórias de vida, histórias da guerrilha. 1998. Tese (Doutorado em História
Social), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
25
Entrevista de Yara Gouvêa, Brasília, 8 de julho de 2010.
26
Depoimento de Gilse Cosenza. Contos da Resistência n° 1. TV Câmara. 24/03/2004.
Verificamos por outro lado, que algumas mulheres tinham pais ou parentes conservadores, não raro aliados ao
esquema repressivo de Estado, a Ministros e a personalidades políticas (civis e militares) da época. O parentesco,
contudo, não serviu como fator de desmobilização para essas mulheres, que souberam utilizar as brechas e as
informações de governo, para impulsionar o movimento revolucionário. O pai de Maria Lygia, por exemplo, costumava
se encontrar casualmente com Romeu Tuma nos jogos de bocha nos fins de semana. Sabendo através de seu pai, dos
vínculos mantidos por Tuma no DOPS, Maria Lygia preveniu a organização.
A mãe de Ana Corbisier era secretária executiva do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e trabalhava
com Golbery de Couto e Silva em São Paulo. Andava com seus arquivos em seu carro e circulava no meio dos
empresários. Amigos e conhecidos da família de Leda Gitahy, por exemplo, tinham graus de parentesco com a família
Camargo Correia. Não que isso os tornasse, por razões de família, apoiadores do regime. De qualquer forma, alguns
alertas chegavam até Leda para que evitasse presença nos protestos de rua.
A repressão era capaz de dividir famílias, de provocar cizânia entre pais e filhos, de colocar irmãos contra irmãos.
A ditadura muito habilmente estimulava a delação, a traição, e toda a sorte de baixezas possíveis na obtenção de
informações. Um assunto doloroso para as famílias, e não menos incômodo para Guiomar Silva Lopes. No afã de ajudá-
la a abreviar seus anos de cadeia seus pais foram influenciados a escrever uma carta de apelo, sem o conhecimento de
Guiomar, a Emílio Garrastazu Médici. Esse fato a desgostou tão profundamente que Guiomar tentou o suicídio na prisão.
Diva Burnier não encontrou muito apoio em sua família. Sobrinha do Brigadeiro João Paulo Burnier, idealizador
da Operação Para-Sar27, sua militância foi motivo de grande vergonha para os pais, que se mudaram de Campinas após
trinta anos morando na cidade. Sua mãe a visitava na cadeia, seu pai bem menos.
Yara Gouvêa também teve uma relação complicada com seu pai, apoiador do regime e oficial do Exército. Tinha
receio de que o próprio pai a entregasse para a repressão, pois ele mantinha relações muito íntimas com o pessoal da
Escola de Cadetes de Campinas. No DOPS, como ela afirma, tentaram obrigá-la a assinar um documento negando sua
militância política,
Meu pai e um outro delegado queriam que eu assinasse um documento, porque foi o momento que eles
faziam depoimentos falsos dizendo que você tinha sido induzida a participar [...] era o momento em
que eles começavam a pôr pessoas na televisão, os arrependidos. Isso foi feito, eles tentaram fazer isso
comigo28.
Moema São Thiago era sobrinha do deputado Flavio Marcilio responsável pela vinda ao Brasil do coronel
salazarista Hermes de Araújo Oliveira, convidado para dar aulas sobre Guerra Revolucionária e Contra Guerrilha.
Pelo acima exposto, salta aos olhos o desprendimento e coragem destas mulheres, firmes em suas escolhas. No que
se refere ao engajamento na ALN, devemos considerar que o denominado setor de apoio da organização, deu ampla
contribuição na luta contra a ditadura, prolongando a existência da ALN. Além de egressas do partido comunista, a ALN
teve representantes em escolas, centros culturais, empresas, fábricas e repartições públicas.
Ao se falar, porém na atuação das mulheres nas estruturas de apoio da guerrilha, reafirma-se constantemente que
esse tipo de atividade corroborou um papel feminino tradicionalmente marcado pelo “cuidado” com o outro, não sendo
por isso caracterizada como uma participação transgressora e de rompimento com o pensamento conservador da época.
Sua atuação pública ficaria restrita então, ao que a filósofa Sara Ruddick chamou de “pensamento maternal”, definido
como o ato interessado em manter e preservar a vida (RUDDICK, 1982: p. 76-94).
Essa interpretação desconsidera o papel de interferência que esse setor teve no movimento revolucionário, e
principalmente não explica todos os níveis de participação que mulheres e também homens tiveram no movimento de
resistência. Na política de ampliação de quadros da Ação Libertadora Nacional (ALN), foco de nossa pesquisa,
verificou-se que o processo de recrutamento respeitava as diferentes potencialidades de cada militante – fossem eles,
homens ou mulheres – que podiam contribuir de muitas maneiras dentro de suas habilidades pessoais ou de aspectos
relacionados à sua personalidade.
A estrutura horizontal da Ação Libertadora Nacional (ALN) contribuiu para fortalecer o sentimento da mulher de
ser protagonista da história e motor da mudança política. Estabelecendo a autonomia de ação como sua linha estratégica,
a organização impulsionou a participação política da mulher quando a militância passou a ocupar todos os espaços de
sua vida. Atuando em rede, estas mulheres realizaram uma variedade de atividades revolucionárias que não estavam a
priori, definidas como funções femininas ou masculinas e nem expressavam divisões sexistas no interior do grupo.
Além disso, quando se menciona a ausência da mulher em postos de comando no interior da ALN, deixa-se de
considerar toda a atividade desempenhada por elas em vários outros setores da organização, de igual ou maior
importância. As mulheres estiveram em todas as frentes de luta no interior da Ação Libertadora Nacional (ALN),
utilizando todos os espaços de vida para a ação política e emprestando seus talentos e suas competências na luta contra
a ditadura civil-militar.

27
A operação PARA-SAR, também conhecida como o Atentado do Gasômetro diz respeito a um plano de extrema direita
arquitetado pelo brigadeiro Joao Paulo Burnier em 1968 que visava empregar o esquadrão de resgate Para-Sar na detonação de
explosivos em atentados em diversas vias públicas do Rio de Janeiro, que seriam atribuídos aos movimentos de esquerda.
28
Entrevista de Yara Gouvêa, Brasília, 8 de julho de 2010.
A simples posse de material dito “subversivo” em casa, independente de sua difusão, já configurava delito contra
a Segurança Nacional, passível de pena pelo AI-5. Leslie Denise Belloque, por exemplo, foi presa sob esta alegação e
sua irmã, Carmem Belloque, por ter lhe prestado dinheiro...
Embora o eixo Rio - São Paulo tenha se destacado como o local privilegiado de atuação da organização, a ALN
esteve presente em muitos outros estados brasileiros, como Minas Gerais, Goiás, Brasília, Paraná, Espírito Santo,
Pernambuco, Ceará. No interior do estado de São Paulo ela também atuou como em Marília, Bauru e Ribeirão Preto.
Em cada estado a mulher atuou de forma diferenciada, tentando realizar trabalho de conscientização social, se inserindo
no movimento camponês, mesclando-se aos trabalhos das pastorais, utilizando as estruturas que os locais ofereciam para
a criação de bases de sustentação, áreas de recuo tático, rotas de saída para seus militantes. Em todos estes locais, sempre
houve o trabalho das mulheres. Quem se encarregava da base de Ribeirão Preto (SP), por exemplo, que serviria como
recuo tático para a ALN, era Ilda Gomes, viúva de Virgílio Gomes da Silva.
Pouco se sabe, por exemplo, da relação que foi estabelecida entre a organização e os remanescentes da Guerrilha
de Trombas e Formoso. Foi uma mulher pertencente à Corrente Revolucionária de Minas, já em fase de fusão com a
ALN, que foi enviado a Goiás para contatar estes militantes. Em Pernambuco, na Zona da Mata, havia um grupo de
mulheres que realizavam encontros com os camponeses nas plantações de cana de açúcar. Para a polícia local, a primeira
inspeção realizada era nas pernas, se encontrassem cortes, era a prova de que estavam envolvidas em “subversão”.
Em Mato Grosso, algumas mulheres utilizaram seus conhecimentos de enfermagem, para se inserir na região e
desenvolver trabalho político. Em Santos, Marighella contava com um núcleo de professoras que se reuniam
clandestinamente na “cidade vermelha” para discutir com o até então, Agrupamento Comunista de São Paulo, a proposta
de luta armada. Entre elas, uma diretora de escola, que anos mais tarde foi presa e fichada pelo DOPS.
Um elemento inovador, trazido pela pesquisa, foi mostrar como a militância política foi diversificada para estas
mulheres. Quando vemos mais de perto esta experiência, observamos que não havia uma distinção muito clara entre
vanguarda e retaguarda no movimento armado, e que muitas vezes não faz sentido em se falar da atuação feminina no
GTA (Grupo Tático Armado), quando na realidade, a ALN estimulou e utilizou, de acordo com as necessidades do
momento, as competências e talentos individuais de cada uma delas para a execução de muitas tarefas.
Isso não quer dizer que as mulheres que participaram de ações armadas, não devam ser lembradas. Foram firmes e
corajosas, estando sempre dispostas a combater como soldados, manejando com destreza as armas de fogo e mantendo
sangue frio permanente. Suas experiências foram além do que se convencionou chamar de “repouso do guerrilheiro”,
resultado da repugnância tradicional em relação à participação feminina em conflitos armados. Considera-se mais
frequentemente mulheres como vítimas dos conflitos políticos do que como sujeitos capazes de administrar o combate
e a morte.
Claro, que estar numa ação armada, trazia uma “recompensa” mais imediata para o militante, fosse homem ou
mulher, a se considerar que na época, o apelo era pela ação armada. Embora a ação armada fosse o elemento final numa
“guerra de guerrilhas”, não era apenas ele que determinava o valor de um quadro. Tanto é que Marighella era favorável
à manutenção do braço legal na organização, que além de diminuir os custos com a sobrevivência dos quadros
clandestinos, colaborava no recrutamento de gente. Para o dirigente, a passagem de um tipo de luta para a outra, não
excluía nenhuma delas. Nas tentativas de alianças que Carlos Marighella empreendeu esta máxima está presente. O
dirigente se reuniu com de um espectro largo de contatos, políticos e intelectuais justamente porque esta rede de apoio
era extremamente importante.
A ALN foi formada por muitos desses profissionais que funcionaram como mantenedores logísticos da organização
que, através de imóveis, de empresas privadas ou outros estabelecimentos particulares ou públicos, arrecadavam
dinheiro para organização. Estabelecimentos de ensino, estacionamentos de automóveis, casas de Xerox, óticas,
fotópticas, farmácias também foram utilizados pela organização quando não comprados por ela para servirem à luta
armada. Nesses locais realizavam-se reuniões clandestinas, impressão de material e arrecadação de dinheiro.
Militantes da ALN reuniam-se à luz de velas no interior da Ótica Riviera em Ribeirão Preto propriedade do pai de
Paulo Eduardo Pereira29, e iam treinar tiro na chácara de Waldemar Tebaldi no interior de São Paulo. Carlos Guilherme
Penafiel mantinha um estúdio fotográfico que servia à organização e Lúcia Novaes foi presa e acusada de abastecer a
guerrilha de títulos eleitorais, trabalhando no interior do Tribunal Regional Eleitoral.
Idnaura Marques era enfermeira e recolhia medicamentos para enviar à Guerrilha do Araguaia 30. No Hospital
Samaritano de São Paulo (SP), Lúcia Airosa mantinha num cofre documentos, medicamentos e instrumentos cirúrgicos
que teriam mesmo destino. Regina Elza Solitrenick psiquiatra, utilizava a Casa de Repouso onde trabalhava em Santo
André (SP), para abrigar pessoas perseguidas, até que elas pudessem deixar o país. Passava recado e diretrizes da
organização dentro de comprimidos de optalidon e, quando presa, ajudou a cuidar, como psiquiatra, de companheiros
de cela enlouquecidos pela tortura. Francisco Romero abriu uma autoescola no interior de São Paulo que servia à ALN
e Ana Maria Ramos até ser presa, era responsável por providenciar para a organização casas que servissem como
“aparelho”.

29
Entrevista de Maria Aparecida Santos, Ribeirão Preto, 28 de novembro de 2008.
30
Houve um acordo de cooperação entre a ALN e o PC do B. Depoimento de Carlos Eugênio Paz, São Paulo, 21 de setembro de
2003.
A formação de um guerrilheiro/a completo também era encorajada (cerca de trinta mulheres, por exemplo, foram
enviadas a Cuba para realizar treinamento de guerrilhas) e quase todas as mulheres sabiam atirar, ou tiveram um contato
mínimo com armas para defesa pessoal.
Por outro lado, os militantes da ALN, continuaram a utilizar os conhecimentos e contatos adquiridos no interior do
Partido Comunista (PCB), e em especial nos períodos mais críticos. Quadros do partido também ajudaram, seja
acolhendo, passando um dinheiro, ajudando a sair pela fronteira ou desmontando um mimeógrafo. Isso, claro, dependeu
mais da disposição pessoal de seus militantes, do que do partido, já que a posição política do Comitê Central era
diametralmente oposta à ideia da luta armada.
As mulheres abrigaram em suas casas cursos de explosivos, rodavam material político para distribuição nas
universidades e nas fábricas, realizavam levantamentos, atuavam como pombos correio no interior das prisões e como
portadoras de mensagens aos quadros da organização que estavam atuando no exterior. O panfleto atirado no
justiçamento de Boilesen, por exemplo, foi escrito por uma mulher. O setor de inteligência da organização estava
entregue também a duas mulheres. Conhecida é a atuação de Zilda Xavier Pereira, responsável por coordenar o trânsito
de militantes entre Brasil e Cuba. Pessoa de extrema confiança de Carlos Marighella, Zilda também desempenhou um
papel chave no estabelecimento de contatos no campo, organizando também a partida de militantes para as regiões do
Araguaia, Mato Grosso e Pará31. Sua filha, Yara Xavier Pereira, era quem difundia as notícias da Rádio Libertadora.
Ana Maria Nacinovic, por exemplo, além de carregar metralhadora, desenhava para os periódicos da ALN.
Tânia Mendes recolhia informações sobre a contribuição de dinheiro das empresas para a OBAN. Realizava um
trabalho estratégico para a ALN na gerência de marketing da Pirelli. Foi lá que descobriu não só que Albert Henning
Boilesen, diretor da companhia Ultragaz, alertava suas congêneres para o perigo das organizações armadas, mas se
deparou também com os organogramas das organizações armadas publicados junto aos boletins cambiais das empresas.
Ruth Tegon, por exemplo, trabalhava na época na Scala D’Oro, uma empresa de tecidos finos cuja diretoria
pertencia a um afilhado do Ministro da Economia Delfim Neto. Como parte das empresas que mantinham vínculos com
a OBAN, a Scala D’Oro recebia a visita de muitos militares, todos à procura de sedas para suas amantes.
Exercendo a profissão de jornalista, Norma Leonor Hall Freire também utilizou seu trabalho para repasse de
informações. Atuou como pombo correio no interior da ALN utilizando a rede dinâmica de contatos de sua profissão
para ajudar pessoas. Vilma Ary porta voz do movimento estudantil paulista na área de Educação no jornal, Folha de
São Paulo realizou muitas coberturas de passeatas estudantis, não sem os riscos que isso envolvia, apurando também as
mentiras plantadas na imprensa pela repressão 32.
Darci Miyaki fez treinamento militar na Coréia e em Cuba. Na casa de Nair Breyton realizavam-se os encontros
de Marighella com os militantes de São Paulo. A lista dos 15 banidos que saíram em troca do sequestro do embaixador
americano foi confeccionada ali. Presa, a casa entrou para os jornais como a “Casa do Terror”.
Outras mulheres cuidavam, junto de seus maridos, das propriedades compradas no campo pela ALN, com escritura
legal de terra. Nos documentos da repressão, encontram-se muitos contratos de compra de terra anexados aos processos
em locais como Vitória de Santo Antão (PE) e São Félix do Araguaia (MT).
A atuação política como se vê foi num crescendo, tanto para homens como para mulheres. O aprimoramento de
um quadro era sempre um elemento desejado. Em Cuba, por exemplo, durante as longas caminhadas do treinamento
guerrilheiro, o ritmo da tropa era determinado pelo último da fila. Foi pela interferência de Carlos Marighella junto aos
cubanos, por exemplo, que as mulheres puderam participar do treinamento de guerrilha rural na ilha, já que os cubanos
alegavam que as mulheres eram fatores de divisão na tropa.
A ousadia destas mulheres foi muito grande. A militância para elas foi uma decisão sem volta. Estavam dispostas
a tudo. Algumas mulheres chegaram a ter suas cabeças à prêmio, sendo perseguidas e monitoradas pelas ruas. Algumas
delas tiveram pena de morte decretada, como Sônia Ferreira Lima. Outras não viram a modificação da lei, convertida
posteriormente em prisão perpétua, sendo mortas em pontos de ônibus ou em centros clandestinos de tortura. Algumas
foram até incineradas a se considerar como verdadeiro o depoimento do ex-delegado do DOPS Cláudio Guerra, sobre a
morte de Ana Rosa Kucinsky na Usina Cambahyba no interior do Estado do Rio de Janeiro33.
Naquela conjuntura, quando presas, estas mulheres não costumavam assumir em juízo as ações armadas que
praticavam, nem para o encarregado do inquérito, como é obvio, e mantendo sigilo até mesmo de seus advogados.
Quando não havia flagrante, a ideia na organização era assumir as ações de menor implicação, como roubo de perucas,
e pequenas expropriações em supermercados, do que um sequestro de avião, da captura de um embaixador estrangeiro,
ou de um ministro ou funcionário de governo. Nem por isso, contudo, estas mulheres deixaram de defender sua posição
revolucionária, manipulando o próprio sistema político designado para excluí-las e utilizando a seu favor o código de
gênero da época.

31
Cf. livro do jornalista Mário Magalhães, publicado em 2012 pela Companhia das Letras, Marighella: O guerrilheiro que incendiou
o mundo, que descreve em pormenores a atuação de Zilda Xavier Pereira na ALN. Cf. também A guerrilheira que mandava em
Carlos Marighella. Jornal Opção, Euler de França Belém http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/a-guerrilheira-que-
mandava-em-carlos-marighella .
32
Entrevista de Vilma Ary, São Paulo, 16 de novembro de 2008.
33
GUERRA, Cláudio. Memórias de uma Guerra Suja. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 2012.
Homens também tiveram que superar sua falta de habilidade na condução de automóveis, no manejo de armas,
melhorar sua capacidade física e de disciplina. Se havia guerrilheiros cujo refino teórico era mais flagrante do que suas
qualidades militares, muitas mulheres também se destacaram como observadoras disciplinadas, boas atiradoras e com
capacidade de liderança. Elas também ocuparam postos estratégicos na ALN como Zilda Xavier Pereira e Guiomar
Silva Lopes, da direção nacional, Antonieta Campos da Paz da direção regional, Maria de Lourdes Rego Mello, da
direção estratégica de campo, Maria Cerqueira da direção regional do Rio de Janeiro, Ana Maria Nacinovic, da direção
regional de São Paulo.
Podemos afirmar que foi pela luta que as mulheres se fizeram reconhecer, foram combatentes antes mesmo de
muitas terem se libertado sexualmente. A guerra ensinou às mulheres muitas coisas no domínio material, sobretudo, as
ajudou a desvendar novas energias. Era natural que mulheres fossem recrutadas para a organização, em áreas nas quais
as mulheres já representavam um forte percentual na época, como em locais de ensino, junto a normalistas e
universitárias, em setores de serviço social, em trabalhos de secretariado ou no interior das fábricas e sindicatos. As
associações de bairro, vilas fabris também eram locais históricos de penetração da esquerda, assim como os espaços
engajados de cultura. A conquista pelos homens de certas especialidades até então reservadas às mulheres, é um fator
também significativo desta evolução34. Eles também atuaram como apoios integrados a outros setores da organização
que estavam longe do manejo de metralhadoras ou de ataques a bancos ou de tarefas decisórias reservadas ao Comando
Nacional da ALN.
O devotamento a uma causa como podemos ver, pode assumir também diversas formas de atuação, já que a guerra
também demanda os mais diferentes tipos de preparo, formação e desprendimento pessoal.
Ser simpatizante e legal ampliava também os acordos políticos, dava mobilidade e permitia uma série de atividades
revolucionárias. Muitas mulheres que não foram processadas nem presas pelo regime militar encaixavam-se nesse perfil.
Não eram as famosas loiras dos assaltos, e fizeram bem mais do que isso...

Referências Bibliográficas:
ALVES, Márcio Moreira. Torturas e torturados. Rio de Janeiro: Idade Nova, 1966.
ARY, Wilma. Trauma do ovo ou culpada e/ou inocente. São Paulo: Sol, 2005.
BREYTON, Jacques. D’un Continent à L’autre. Mémoires. [S.l., s.n.], 2005.
GERTEL, Vera. Um gosto amargo de bala, 1ª ed, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
GOUVÊA, Yara. BIRCK, Danielle. Duas vozes. São Paulo: Editora de Cultura, 2007.
LIMA, Ruth. Nunca é tarde para saber: histórias de vida, histórias da guerrilha. Tese (Doutorado em História Social), Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
MAGALHAES, Mario. Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras¸ 2012.
MELONI, Catarina. 1968. O tempo das escolhas. São Paulo: Nova Alexandria, 2009.
MONTARROYOS, Sylvia de. Réquiem por Tatiana: memórias de um tempo de guerra e de uma descida aos infernos. Recife: Cepe, 2013.
RUFINO, Joel. Assim foi (se me parece). Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
PAZ, Carlos Eugênio. Viagem à luta armada. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.
PAZ, Mariza Campos Da. Nieta dos campos da paz. Rio de Janeiro, Mauad X, 2012.
RUDDICK, Sara. “Maternal Thinking In Rethinking the Family: Some Feminist Questions. New York: Longman, 1982.
TEIXEIRA, Edson. Carlos, a face oculta de Marighella. 1ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

20 ANOS DE FEMINISMO (Fragmentos da Tese de Livre docência, UNICAMP)


(Maria Lígya Quartim de Moraes, 1996)

Marxismo e feminismo no Brasil


Porque o marxismo oferece conceitos e uma visão histórica revolucionária e porque o feminismo brasileiro
desenvolveu-se sob a hegemonia de militantes oriundas da esquerda radical, é fácil de entender a importância
de sua absorção no movimento de mulheres dos anos 70 e 80. Para que a singularidade da situação da mulher
ganhasse legitimidade como questão política, no seio da esquerda, era preciso explicar “cientificamente” as
origens históricas da discriminação da mulher. O marxismo, como vimos, oferece conceitos e elementos para
uma teoria explicativa da condição social da mulher e uma perspectiva redentora.
No Brasil, o feminismo contemporâneo assumiu desde o início uma disposição claramente reivindicatória e
transformadora: mudar a situação da mulher visando transformar a pouco democrática e extremamente
desigual sociedade brasileira. O programa das feministas incluía reivindicações “específicas” (creches,
mudanças na legislação da família, etc.) e “gerais” (o fim da ditadura militar, uma sociedade socializada, etc.).
As reivindicações específicas partiam, primeiramente, da opressão de sexo, do fato de as mulheres estarem
submetidas a relações sociais patriarcais e, em seguida, da dupla jornada de trabalho a que as mulheres são
submetidas por sua dupla condição de mãe (desempenho de trabalhos no âmbito doméstico) e trabalhadora. A

34
Os presos políticos saíram transformados da prisão, quando em suas celas foram obrigados a realizar tarefas consideradas para a
sociedade da época, como de “domínio feminino”. Entrevista de Albertina Pedrassoli Salles, São Paulo, 02 de setembro de 2010.
dupla jornada é, então, o conceito chave que exprime a dialética feminina da produção versus reprodução
social.
Talvez seja este o sinal distintivo do feminismo brasileiro nos anos 70: um grande comprometimento com a
ação/intervenção – como demonstram as inúmeras passeatas e atos públicos encabeçados pelo movimento de
mulheres, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que pregavam a politização
da vida privada, as feministas desenvolviam uma ampla política de alianças com os setores mais progressistas
e democráticos do país. Um trecho do editorial do Nós Mulheres de julho de 1978:

Alguma coisa está mudando


É verdade que as mulheres estiveram presentes na história; mas foram mantidas nos bastidores.
Entretanto, as mudanças nas condições históricas trouxeram a necessidade da participação da mulher
na produção marcando a sua presença no cenário das lutas sociais. Hoje, esse é um fato visível. Em
nosso país, as mulheres não só participam ao lado dos homens na conquista da democracia, como
também, e isso é novo, dão a essa luta uma outra dimensão, reivindicando seus direitos enquanto
mulheres.
Mas não apenas as mulheres. Na luta por melhores condições de vida e trabalho, surgem movimentos
específicos de setores diversos da população. Os negros organizam-se pelo fim da discriminação racial;
os índios defendem o direito de viver em suas terras; os homossexuais fazem-se reconhecer através de
um jornal. Cada vez mais, discute-se a famíla, a moral, a sexualidade, a condição dos velhos e a
educação das crianças. Os movimentos ecológicos vêm alertar contra a violência e a devastação
da natureza. Esses fatos estão aí, basta abrir os olhos para vê-los. Cabe perguntar sobre o seu significado.

Logo, as afinidades entre marxismo e feminismo são antes de mais nada de ordem política: é na teoria marxista
que uma parcela importante do movimento feminista contemporâneo encontrou os conceitos adequados para
analisar a questão da discriminação do sexo feminino e as possiblidades de sua superação.
Enquanto teoria que aponta para a emancipação futura do(a) oprimido(a) de hoje, o marxismo abre uma
perspectiva de luta e de transformação.

A crise do feminismo nos anos oitenta


Quando, nos anos oitenta, as forças de oposição ao regime militar assumem suas diferenças – especialmente
em torno da questão partidária e das diferentes concepções de democracia – também os grupos feministas
sofrem divisões. As feministas históricas separaram-se a partir de suas militâncias respectivas, engrossando o
Partido dos Trabalhadores- PT ou o Partido do Movimento Democrático Brasileiro- PMDB35, mantendo uma
política de ação conjunta em algumas frentes. Ademais das diferenças partidárias, a fragmentação do
feminismo brasileiro conheceu outras razões profundas dizendo respeito à própria questão da identidade
sexual, como se a pergunta na capa do primeiro número do Nós Mulheres (1976) ainda permanecesse sem
resposta: Nós Mulheres: quem somos?
Os diferentes projetos e modelos de mulher preconizados pelas feministas passaram a entrar em choque e a
partir do Congresso Feminista de Valinhos, em 1980, a relação com o homem passou a ser uma espécie de
divisor de àguas entre militantes lésbicas (cuja posição, grosso modo, implica na negação do mundo
masculino, ou melhor, da presença de homens) e as “hetero” que defendiam seu desejo pelo homem e pela
maternidade. A principal bandeira das homossexuais era a denúncia à violência contra a mulher, com a
fórmula, extremamente adequada, de quem “quem ama não mata”. O problema é que a violência passou a ser
entendida, via de regra, como a violência exercida pelos homens. No Congresso de Valinhos algumas
militantes “homo” defendiam a tese de que a penetração sexual é sempre uma violência contra a mulher. A
questão da identidade sexual passa a ser o centro da discussão de alguns grupos, como aconteceu em São
Paulo com as feministas pioneiras do Nós Mulheres. O grupo divide-se entre aquelas que propõem o retorno
ao “trabalho de base” – vale dizer, voltado à conscientização das mulheres através da ação supostamente
didática das militantes feministas – e uma maioria que permanece por algum tempo como grupo de estudos e
reflexões sobre a sexualidade feminina.
A adesão e a atuação de alguns grupos especialmente manipuladores da causa feminista, como foi o caso do
então MR-8, a serviço do político emedebista Orestes Quércia e de remanescentes do Partido Comunista do
Brasil transformaram os encontros de mulheres em uma luta de tendências estranhas ao feminismo. Assim, o
3º Congresso da Mulher Paulista, de 1981, foi coroado por enfrentamentos verbais e físicos entre participantes,
levando o Nós Mulheres a romper publicamente com os grupos políticos que atuavam no movimento de

35
o qual, posteriormente, sofrerá uma cisão, encabeçada pelo grupo do atual presidente Fernando
Henrique Cardoso, originando o Partido Social Democrata Brasileiro- PSDB
mulheres em nome dos “interesses do povo”, especialmente o grupo MR-8 cujo órgão oficial, A Voz do Povo
era, ao mesmo tempo, porta-voz do “quercismo”. Em artigo publicado pela Folha de São Paulo (8/3/81), sob
o título de “Os velhos conceitos estão desgastados”, as feministas do Nós Mulheres observam que:

As controvérsias que surgiram na organização do 3º Congresso da Mulher Paulista são sistematizadas


numa (falsa) divisão: entre aquelas que estão interessadas na libertação do povo (essa entidade abstrata,
sem sexo, cor ou idade ) e outras, que estariam mais interessadas em olhar o próprio umbigo, numa
atitude chamada de pequeno-burguesa, como se conhecer a si mesma fosse privilégio de poucos e
atitude sem importância. ... Quando começamos, lá por 1975, como todo movimento social, tínhamos
que definir um interlocutor. A direita, refratária a qualquer mudança, era (e é) a inimiga. O feminismo
é anti-capitalista por excelência. Não há liberdade possível na miséria e na opressão. ...Dialogávamos
com a esquerda, nossos aliados. Para eles, no entanto, o problema da mulher era secundário ou
irrelevante. ... Emprestamos da esquerda sua postura típica de militantes e sua linguagem
(especialmente no que tem de doutrinário), usando-as para impor nossas idéias. Na prática, o feminismo
negara aquilo que é sua essência: a exigência da subjetividade no espaço político. Somos feministas
porque somos mulheres. Não falamos em nome de... Não somos delegadas, nem redentoras. Somos
oprimidas. Se é fundamental a perspectiva de unidade para dar força ao movimento de mulheres, isso
não pode impedir que cada mulher fale por si, porque cada uma vive à sua maneira a condição de sexo
oprimido.
...
Não queremos ser iguais aos homens, competir no mercado de trabalho, essa coisa toda. O papo é outro.
Falamos do direito à diversidade, sem desigualdades. Descobrir o feminino, como algo complementar
ao masculino, não como seu negativo, sua falta. Criar, inclusive, espaço para que o homem possa ser
frágil, emotivo e acabar com seu desempenho de ser humano completo e infalível. Afinal, se algo pode
ser dito da essência humana, é que somos todos carentes. Falamos de mudar o homem e a mulher. Sem
ressentimentos: o feminismo é uma exigência de amor.

Daí para diante cessaram quaisquer manifestações coletivas do Nós Mulheres, marcando simbolicamente o
fim de uma etapa na história das mulheres brasileiras. Assim, o rompimento do 3º Congresso de mulheres de
São Paulo passa fundamentalmente pela oposição entre um feminismo “politiqueiro” – que instrumentaliza o
movimento de mulheres, tentando transformá-lo em movimento de massas de grupúsculos ex-esquerda – e o
feminismo “autêntico”, voltado para a questão da subjetividade e da identidade sexual.
Na verdade, como os fatos vieram a comprovar, a ruptura no interior do movimento paulista se aprofundou
ainda mais nos anos seguintes, quando as feministas “politiqueiras” transformaram-se em funcionárias
públicas ligadas à questão da mulher, e as feministas “intimistas” afastaram-se cada vez mais da militância
política strictu sensu.
As Mulheres Anarquistas e a luta de classes no início do século XX

A MULHER É UMA DEGENERADA (FRAGMENTOS)


(Maria Lacerda de Moura. 1931)

Esse é meu Verbo de Fraternidade .


Toda gente sabe avaliar o poder, a influência benéfica exercida por uma mulher pura e de talento, num círculo
proporcional ao seu exemplo, aos seus predicados.
Alargar ainda mais essa influência, esparzir centelhas dentro dos outros corações para a alegria de viver a
“vida intensa” e útil e deixar, por aonde passar, um traço de luz a iluminar outras sendas e outros corações,
é a tarefa desses espíritos de eleição.
Quem sene a dor universal, deseja extravasar a alegria Íntima de fazer algo em prol desse sonho do bem pelo
amor do bem, idealizando mundo melhor, vida mais pura, sociedade menos egoísta e mais equitativa.
Fazer educadoras conscientes desse sacerdócio, renascê-las de si mesmas, revive-las num sonho maior, quase
inacessível – seria trazer o céu à terra num alvorecer de outros sonhos para o amanhecer de novos ideais.
Como conseguir educar essas futuras mães, espirituais, se tudo é preconceito na sociedade atual, se tudo é
repetição de princípios já envelhecidos pela ação do tempo, pela evolução implacável na destruição de
tradições empíricas, na substituição de formulas, carregadas pelo vulgo como cadáveres ancestrais?
Como educa-las?
Quantas coisas repetem as mães e as professoras – inconscientes de que servem de esteios fortes na
conservação da própria escravidão!
É preciso abri os olhos da mulher, embora mesmo ela nos queira mal por isso, vendo em nós, intelectuais,
talvez, perigosas concorrentes...
Generosa, confiante, ela se deixa levar pelo mais forte, e a “razão do mais forte é ainda a que predomina”...
Diz bem Henriette Roland-Holst: “A democracia burguesa realizou, ou está em vias de realizar a igualdade
política entre os dois sexos: porém ela não pode acabar ainda com a escravidão domestica da mulher, para a
qual vai cerrando os grandes horizontes, perpetuando nela as ideias estreitas, as tradições seculares e mantendo
o seu estado de inferioridade, “vis-a-vis” do homem, e entravando o livre desenvolvimento das suas
faculdades” (L´Humanité”, 10 de abril de 1921).
De que vale a igualdade de direitos jurídicos e políticos para meia dúzia de privilegiadas, tiradas da própria
casta dominante, se a maioria feminina continua vegetando na miséria da escravidão milenar?
É preciso sonhar mais alto ainda e abranger todo o mundo feminino no mesmo laço de igualdade social, no
mesmo beijo de solidariedade humana, no mesmo anseio para a fraternidade universal.
Enquanto houver uma só pária, enquanto houver uma mulher sacrificada, enquanto houver crianças famintas,
mulheres escravas do salário – nós, idealistas, não temos senão o dever de pensar, de sonhar, de agir para o
advento de outra sociedade, em busca de outros sonhos para a vida maior.
Tantas vozes generosas na aridez das sementeiras como lenitivo à dor universal! Essas vozes germinarão em
novos rebentos, alimentarão os embriões de outras formas sociais, quizás distribuidoras de mais justiça.
Trata-se, não da filantropia de um dia, sim da renovação social para uma sociedade donde se excluirá a
caridade humilhante – a que a solidariedade entre irmãos afasta o gesto de proteção.
Sem arrancar a alma feminina desse sectarismo ferrenho que faz dela um balão cativo, oscilando apenas aos
vai-vens das opiniões alheias, sem educa-las para a vida, sem fazer dela criatura consciente, em vez de joguete
das forças do passado reacionário – impossível pensar na sociedade nova.
A escravidão feminina atravessou todas as gerações, repercutiu em todas as civilizações, percorreu as cidades
antigas e modernas: - eis a razão porque antropologistas nos consideram como não tenho representado papel
algum na evolução social. Se o representamos foi por intuição, inconscientemente, muito longe estivemos
sempre da nossa missão social.
A história registra maior número de mulheres fatais aos destinos dos povos, do que as capazes de alevantar os
reinos e as nações num ideal consciente.
Às outras, as heroínas, as escolas estoicas, conservaram o seu anonimato, e muito mais teriam contribuído
para a elevação moral da sociedade, se o preconceito, escravidão, os códigos e a timidez ancestral, o
adinamismo, o egoísmo masculino não as privasse de agir, de trabalhar desassombradamente. O medo, a
resignação passiva, a subserviência de escrava foram sempre as armas do seu escudo. E com esse escudo quem
já venceu na vida?
A causa da mulher é como a causa das párias de todas as civilizações: é causa internacional.
Vencerá quando o ódio de raça, de preconceito, de superstições nacionalistas ruir por terra com o estrondo das
derrocadas, a golpe de audácia dos camartelos, fecundos, avassaladores e fortes...
O trabalho feminino tem sido, até aqui, todo dispersivo: a própria beneficência tem esse caráter.
E a solução não é a caridade humilhante ou a filantropia, mesma a mais altruísta, e sim a evolução, o
desenvolvimento do cérebro feminino para a compreensão do papel individual à mulher destinado na
multiplicação do bem-estar.
A religião não solucionou o problema. A política muito menos. As guerras mentiram-nos barbaramente; a
beneficência é uma gota d´água no oceano da vida, no vácuo imenso das dores morais, das misérias físicas.
Falta, portanto, a larga compreensão das questões sociais para a solução mais alta.
É necessário empunhar o archote o incêndio formidável, destruir as velharias inúteis, extirpar do inconsciente
coletivo a influência ancestral dos prejuízos, substitui-los por hábitos novos e enriquecidos de experiencias,
como é preciso empunhar o estandarte da Paz, pregando a dedicação nos momentos decisivos, no virar das
páginas do inexorável livro das causalidades...
Passou o tempo da beneficência caridosa.
A mulher precisa aprender mais, para agir melhor. A equidade está acima da caridade.
Não podemos passar por uma mulher do povo, quase selvagem na sua ignorância, sem lhe lançar um olhar de
fraternidade, clamando a incúria, protestando contra o egoísmo dos povos, das nações.
E a iniquidade social é chaga aberta dentro do seio imenso da terra.
E enquanto na terra houver um só escravo não temos o direito de descansar os sonhos de equidade.
Todos os oprimidos nasceram de ventres femininos sufocados os corações num lampejo de dores e bençãos.
Para cada criança surgida na sociedade temo um dever a cumprir.
E a criatura nasce com direito à luz da vida, à aurora do pensamento, ao beijo do amor.
Cada coração feminino deve ser uma creche imensa, para conter a humanidade. E para agasalhar todos os
ventres fecundos – cada alma de mulher deve ser uma infinita maternidade.
A terra arde num braseiro... É preciso um “vendaval de esperança” e um “látego dos sonhos” para varrer das
consciências os vendilhões da fraternidade.
Toda a humanidade passa pelo berço, a quem embala o berço, quem canta as primeiras cantigas de adormecer,
quem acorda as crianças para os arrebóes das primeiras alvoradas da alma – é a mulher.
Quem devassa o coração adolescente e faz lá dentro nascer a angustia ou a alegria de amar – é a mulher.
Quem acompanha de perto o homem na idade viril, levando-o aos paramos iluminados do sonho ou aos
abismos do vício e da degradação, ou ainda quem o pode adormecer na indiferença da mediocridade - é a
mulher.
É preciso, pois, eleva-las a alturas inconcebíveis, dar-lhes coragem, estimula-la ante a responsabilidade dessa
missão de beleza, missão regeneradora; fazer dela o novo evangelho da redenção, pronta para o sacrifício de
si mesma, em busca de novas esperanças, para conforto, para força moral dessas cortes de idealistas da “cidade
futura”...
Paz, beleza e bem-estar para todos deve ser a nossa divisa.
Esse é o meu verbo de fraternidade.

Das vantagens da Educação Intelectual e profissional na vida pratica das sociedades. Conclusões:
01. O homem preenche dois fins durante a existência: nasce com características especiais para pai de
família e para membro da sociedade.
Sendo a mulher sua companheira indispensável na multiplicação da espécie e na vida social – é lógico:
também a mulher tem duas funções a preencher durante a existência – a de mãe e a de colaboradora
na coletividade humana.
02. Aí temos o indivíduo da sociedade. Nem o indivíduo tem o direito de visar o próprio eu egoisticamente,
sem olhar o interesse coletivo, nem a sociedade tem o direito de absorver o indivíduo.
03. Nascendo a mulher para a missão de mãe e para a ordem social, deve ser educada de modo a exercer
dignamente o papel de progenitora, sobrando-lhe tempo suficiente para os deveres de colaborar com o
homem em benefício do próximo.
04. A mulher inconsciente é incapaz de sentir a sua missão. Considerando que a mulher, de qualquer
condição, ao lado do homem representa a fascinação, o amor, a força para o bem ou para o mal, é
indispensável educa-la, instrui-la até aonde puder voar a sua inteligência, afim de que ela seja o poder
consciente, a clarividência moral pra benefício da sociedade humana em busca o bem estar de todos.
05. Considerando a escravidão secular feminina, o atraso de seu cérebro submetido a uma seleção cujo
resultado desastroso fez dela o bibelot, a melindrosa, a mundana, conservou-lhe a medula, a psiqué
infantil:
a. Considerando que a educação atual, incapaz de lhe desenvolver aptidões e faculdades latentes –
deseduca, continua o prejuízo tradicional;
b. Considerando que o progresso depende das duas fações humanas – o homem só poderá atingir ao
seu apogeu da sua grandeza intelectual e moral quando a mulher tiver clarividência moral.
Assim, é indispensável revolução na educação, afim de ruir todo o edifício antigo e reconstruir
novos alicerces mais sólidos, racionais, científicos.

06. A verdadeira educação feminina não é empecilho à fecundidade, porém, equilibra as funções genitoras:
evita a fecundidade absorvente que mata a mãe de fraqueza, inanição e trabalho, prejudicada pelo
excesso de filhos, e faz nascer o desejo da maternidade na razão das que ora se furtam a esse belo
sacrifício.
07. Quando todas as mulheres souberem ser mães a humanidade será redimida pelo amor materno.
08. Considerando a experiencia a única estra da vida, considerando a educação profissional como tendo
base cientifica – toda escola deve ser laboratório, oficina. A iniciativa, a vontade o ideal só é atingido
pelo esforço, pela ambição de se realizar, pelo estimulo nascido das faculdades latentes, na escola da
vida.
09. Considerando impossível no regime atual o trabalho profissional obrigatório, considerando a educação
intelectual-profissional, o único meio de educar para a vida completa, considerando que a ociosidade
vive do sacrifício de outrem. É preciso que a elite intelectual se convença da grande renovação para
novos ciclos em busca de outras civilizações.
10. Considerando a necessidade o esforço conjunto para o desenvolvimento muto, para evitar a estafa, as
diáteses nervosas, e para tornar o ensino atraente e salutar, para o preparo à vida útil para a melhor
compreensão da existência – a coeducação se impõe: a mulher deve ser educada ao lado do homem,
como companheira.
11. Finalmente, se a mulher nasceu para perpetuar a espécie, deve elevar-se à altura da beleza interior a
que possa atingir. Deve instruir-se até poder conceber a finalidade da vida, realizando o seu mundo
interior, conhecer-se – “para aprender a amar”. Socialmente falando é fator da civilização moral: deve
caminhar e fazer a caminhar a humanidade em busca da beleza e da verdade, que o seu cérebro ainda
lhe não deixou entrever.

Ainda a Educação Feminina. Conclusões.


Os trabalhos femininos, embora necessários, não devem absorver o cérebro, as aptidões e o tempo da mulher.
A irritabilidade feminina tem como causas primordiais as pequeninas miudezas da vida – degastadoras da
energia criadora do mau humor, fontes de degenerescências e diáteses nervosas.
01. A fadiga do cérebro feminino, motivada pelos trabalhos domésticos, pelas preocupações mínimas ou
pelo estudo – é problema digno de mais atenção – tendo em vista a eugenia e o progresso social.
Enquêtes, tests, deveriam constituir objeto de observação e analise antes da confecção de programas e
regulamentos escolares.
02. A escola primaria nas mãos da mulher irritável, ignorante, é prejudicial à civilização. Mas, aonde estão
também os homens capazes de dirigir, aptos a educar nossos filhos?
03. O cérebro feminino não produz quanto a sua capacidade pode dar;
04. A educação popular resvala dia a dia para as mãos da mulher: é urgente elevá-la à altura dos resultados
a que é preciso atingir em vista do futuro sempre maior.
05. A educação deve ter por base o princípio da school and Society. O civilizado atravessa as fases porque
passou o ancestral. Se a criança tem características físicas e mentais do antepassado – sua educação
deve dirigir-se em vista da evolução social porque atravessou o homem primitivo. Assim, a escola
primaria deve ser manipulação, não pode ter por objetivo a instrução, porém a vida.
06. Se o consciente pode passar ao inconsciente, se o hábito transforma em segunda natureza – a educação
deve ter por primeiro objetivo fazer nascer no subconsciente da mulher um sonho de beleza, de
perfeição capaz de arrastar a humanidade para novas trajetórias, em busca da harmonia, da fraternidade
humana.
Impossível tudo isso no atual regime social. É necessário, pois engrossar as fileiras revolucionarias...

A ORGANIZAÇÃO SOCIAL: O DIABO E SEU AMIGO.


(Maria Lacerda de Moura).
Extraído da Obra: Fascismo, filho direto da igreja e do capital

“Descendo uma rua, viram a sua gente um homem abaixado e apanhar no chão alguma coisa, a qual foi
examinado minuciosamente e guardada com cuidado no bolso. O amigo perguntou ao diabo:
- Que foi que apanhou aquele homem?
– Um fragmento da verdade – respondeu o diabo. Eu o farei organizar a Verdade”.
É a verdade organizada a causa de todos os males sociais. Enquanto procurarem organizá-la – seja no campo
das lutas dos partidos políticos, ou dos embates religiosos ou das reivindicações revolucionarias e reacionárias
de todos os matizes – em qualquer terreno – viveremos no mesmo caos social de tartufismo e incompreensão.
O diabo, aqui, é a própria sociedade… são os grupos detentores da Verdade, e que querem impor a sua verdade
a todo o orbe terrestre – tenha ela o nome de fascista, comunista, católica, espírita, cristã, anarquista, teosofista,
liberal democrata, nacionalista-socialista, – sufocando as verdades dos outros.
Cada qual julga estar com a verdade, cada qual “sente” que tem uma missão a cumprir… Defendendo a sua
verdade contra a verdade de outrem.
Cada grupo de bate pela verdade, contra a verdade de outros grupos e de outros indivíduos.
E mais a convicção de estar com a verdade é arraigada e mais as lutas são encarniçadas.
Daí, a organização da verdade em religiões, em filosofias, em grupos revolucionários ou reacionários, em
ciências, em arte, em academias, em lutas de classes, em princípios sociológicos – para a defesa da verdade
própria.
É, pois, um perigo o indivíduo convencer-se de estar com a verdade: são as perseguições, os autos de fé, as
fogueiras, os degredos, todas as Sibéria e as Clevelandias ou os Biribi do Sectarismo, seja vermelho ou tzarista,
democrata, clerical, romano ou fascista.
É a defesa agressiva de todos os detentores da verdade, porque cada qual afirma: fora da minha igreja não há
salvação.
É a autoridade animal, o espírito de autoridade dentro de cada ser humano – a causa das organizações sociais.
Nós atacamos os governos, as religiões, industriais, a concorrência comercial, e a causa de todo o nosso mal
estar é a sociedade em si. Religiões, governos, não são filhos das sociedades, da organização social. E a
economia política sabe disso, quando afirma:
“Cada povo tem o governo que merece”… Como todos os governos são excrescências…
As organizações se substituem umas às outras… Porque, a causa está em nós mesmos.
O que é preciso é a não-cooperação com a sociedade.
O que seria necessário é a solidariedade de todos no gesto individualista… contra a bastilha burguesa das
quatro castas parasitarias: políticos, clero, militares e exploradores industriais. Mas, não para formarem outras
castas com outros nomes…
Seria a não-cooperação com o Estado, com a religião, com a caserna e com os exploradores e proletariado.
Abster-se de toda função pública de ordem administrativa, judiciária, militar; não ser prefeito, juiz, policia
oficial, político ou carrasco. Não aceitar funções que possam prejudicar a terceiros. Não ser banqueiro,
intermediário em negócios, explorador de mulheres, advogado, explorador de operários. Não ser operário de
fabricas de munições ou armas de guerra, não ser operário de jornais clericais ou fascistas (difícil!…) Recusar
Ser instrumentos de iniqüidades. Sacrificar o corpo, si for preciso – do número das cousas diferentes para o
estóico – afim de não sacrificar a razão, a liberdade interior ou a consciência.
Não denunciar, não julgar, não reconhecer nenhum ídolo – nem reacionário, nem revolucionário. Não matar.
Resistência ativa, ação direta, a nova tática revolucionaria de suprema resistência ao mal: a não violência.
Aí está um programa mínimo de não-cooperação. Quem o puder seguir… que heroísmo!
O governo de hoje tanto é um produto da organização social capitalista que estamos assistindo ao espetáculo
deprimente do sabujismo de Estado, de joelhos entes de potência açambarcadora de Capital.
Daí o imperialismo da libra ou do dólar. É ingenuidade, suprema ingenuidade, qualquer tentativa social – pela
violência – contra o imperialismo. Lá está a china martirizada pelo Japão. Si são os imperialismos econômicas
que fornecem o dinheiro e as armas para o governo e os rebeldes!

A POLÍTICA NÃO ME INTERESSA – O voto segundo Maria Lacerda de Moura


(Maria Lacerda de Moura).
Extraído da Obra: Amei e Não vos multipliqueis. Ano 1932, editora: Civilização Brasileira. Páginas 56 à 60)

O voto? – Nem secreto, nem masculino, nem feminino.


O voto secreto? – A confissão pública da covardia, a confissão pública da incapacidade de ostentar a espinha
dorsal em linha reta, a confissão pública do servilismo e da fidelidade aviltante de uns, do dominismo das
mediocracias legalmente organizados.
Democracia? – Ferrero a definiu: “este animal cujo ventre é imenso e a cabeça insignificante”…
O voto não é a necessidade natural da espécie humana: é uma das armas do vampirismo social. Se tivéssemos
os olhos abertos, chegaríamos a compreender que o rebanho humano vive a balar a sua inconsciência,
aplaudindo á minoria parasitaria que inventou a e representa a “tournée” da teatralidade dos governos, da
política, da força armada, da burocracia de afiliados – para complicar a vida cegando aos incautos, afim de
explorar a todo o gênero humano em proveito de interesses mascarados nos ídolos do patriotismo, das
bandeiras, da defesa sagrada dos nacionalismos e das fronteiras, da honra e da dignidade dos povos…
Depois, a rotina, a tradição, a escola, o patriotismo cultivado, carinhosamente, para que carneirada louve, em
uníssono, o cútelo bem afiado dos senhores. A religião, a família se encarrega do que falta para desfibrar o
indivíduo.
O voto, a legislação interesseira e mesquinha dos pais da Pátria, Parlamentos, Senados, Consulados, Ditaduras,
Impérios, Reinos, republicas, Exércitos, Embaixadores, Mussolini – “escultores de montanhas”, símbolos da
cegueira do rebanho humano, ídolos que substituem e se equivalem, brinquedos perversos de crianças grandes,
sonhos transformados em “verdades mortas”, infância, atavismo de paranoicos…
A política é um trapézio.
Direito do povo, sufrago universal… Palavras. Dentro do demagogo há uma alma de tirano. Caída a máscara
que atraiu o rebanho humano, o ditador salta no picadeiro da política, as duas mãos ocupadas: em uma, o
“manganelo”; na outra, o óleo de rícino…
Tem razão Aristóteles: “O meio de chegar à tirania é ganhar confiança da multidão: o tirano começa sempre
por ser demagogo. Assim fizeram Pisistrate em Athenas, Téagéne em Mégara, Denys em Syracusa.”
Assim fez Mussolini.
Quando Ruy Barbosa, por exemplo, falava tão alto contra os nobres pais da pátria, é porque tinha na alma o
despeito louco de não ter sido elevado ao pico Máximo da vontade de poder.
Em política, age-se de modo inverso: os tribunos demagogos adulam o povo, elogiam a soberania do povo,
proclamam dos direitos do povo, prometem a felicidade do povo e sobem empurrados pela embriaguez
nacionalista e pelo servilismo e docilidade do povo, mas mais representado pela “populaça de cima”…
Quem quiser subir aos picos da vontade de poder, não procura as vozes desassombradas e nem toma decisões
sem ouvir a direção de seu partido. Obedecer é a escola de quem quer mandar.
O político é um acrobata e, para alguém ser acrobata tem que principiar cedo a deslocar todas as juntas…
O político quando sobe ás culminâncias da gloria e do poder, já se dobrou tanto, já se curvou já se humilhou,
já fez de tal modo o corpo de arco e a alma em cameleão que é capaz identificarem-se com o molusco.
Como deve ser difícil engolir a liberdade de opinião, a liberdade de consciência, a liberdade da imprensa, a
coragem de proclamar altas as convicções – si fazemos parte de um partido definido, com declaração de
princípios e afirmações categóricas e ação metodicamente organizada para derrubar partidos contrários ou
dogmas religiosos que veem ferir os nossos dogmas e pôr diques à nossa desenvoltura apostólica!…
Quando a imprensa é só louvor aos “eleitos” de cada partido político; si ninguém quer senão o que interessa
aos seus planos e aos projetos e decisões do seu partido; si todos se preocupam com cidadão e desprezam o
homem livre, si se trata de ser sempre contra alguém, para subir, para vencer, custe o que custar; si obedecemos
á lei em prejuízo da consciência; si fechamos os olhos para ver e nos servimos da lógica como instrumento
para abafar as vozes sinceras; si semeamos o ódio e as ambições, nas farsas patrióticas dos nacionalismo de
partidos a se digladiarem pelo osso da vontade de poder, pelo osso do domínio pela gloria política – abrimos
alas a uma ditadura mussolinesca como todas as arlequinadas do “manganello”, batuta da orquestração
paranóica do atavismo elevado á altura de gênio, e que há de representar, condignamente a dignidade de
Cônsul, como aquele cavalo celebre…
Também nós insensivelmente, pouco a pouco, preparamos o ambiente para que surja, neste país, um capataz,
rebenque em punho, para Gaudio dos acrobatas moluscos das democracias de demagogos.
Somos uma nação de leis.
E Sócrates já dizia: “é a lei que corrompe os homens. Quem quer que aconselhe: “Obedeça à lei” – é corruptor
aos olhos do filósofo. Mas, quem quer que aconselhe: “Obedeça à tua consciência” – é corruptor aos olhos do
povo e dos magistrados”. (Han Ryner- “Les véritables estretiens de Sócrates”.)
E, a propósito da liberdade da imprensa, lembremo-nos ainda de Sócrates: “Parece-me bem insignificante a
coragem que acha temíveis certas verdades.”
Que será preciso para ser político ou servir a amigos políticos?
– Ouvir, observar, acatar, obedecer, curvar-se ante os poredros da política, louvar ao povo, cantar a soberania
do povo, prometer liberdades e… fazer ginástica.
Cada um de nós tem o direito a si mesmo.
Ninguém pode exigir da consciência de outrem.
Os homens se esqueceram da própria realização interior – para cuidar de todas as necessidades perfeitamente
desnecessárias, criada pela avidez do progresso material, do gozo, do luxo, da ociosidade, criadas pelo cupidez
do capitalismo absorvente e pela perversidade inominável do industrialismo de tudo, inclusive das
consciências, organização social de caftense de vampiros do sentimento humano, mantida pela polícia, pelo
capital, pelas religiões dominantes, que separa os humanos em vez de unir, e pela força armada – escola que
chacina para formar almas de canibais condecorados.
Cada um de nós tem o seu governo interior: tudo que vem de fora, não constituindo uma nota de beleza, de
harmonia vibrando em uníssono com a nossa harmonia – é a violência, é ódio que gera o ódio. Mandar, como
obedecer, é covardia: degrada, avilta, imbeciliza o gênero humano.
As Mulheres Comunistas na Luta de Classes no Brasil (1922-1964)

POEMAS DE LAURA BRANDÃO


Os poemas que seguem abaixo foram retirados da Obra “Poesias de Laura Brandão – Antologia”, organizada por José Roberto
Guedes de Oliveira. Uma obra ainda não publicada, mas que foi gentilmente compartilhada para fins de pesquisa.
Referencia: OLIVEIRA, José Roberto Guedes de. Poesias de Laura Brandão – Antologia.

Minhas Ideias (Laura Brandão, 191?)


Não tenho ideias vãs de fantasia,
Procuro as coisas ver bem como são,
Detesto, do sofisma, a ironia
- Labirinto sem graça da razão.

Não sei dizer que a luz do Sol é fria;


Não sei cantar que o grande Amor é vão
- Enquanto o Sol viver, vive a Poesia,
E ela garante Amor ao coração!

Sou toda indiferente à indiferença


De quem não crê na minha bela crença;
Que o mal, o bem, tem força, muito mais!

Na profissão da fé, da mente faço,


De ideias estrelado, o infinito Espaço
- De ideias mil, que, todas são ideais!

Altruísmo (Laura Brandão, 1911?) Mulher (Laura Brandão, 1911?)


Voluntária, me fiz do regimento À minha tia Isabel Gonçalves
Que vai marchando já para a conquista
Do bem supremo de uma glória altruísta, Não procuro a expressão que engane e atraia,
Que, ardente sabe ser, sem ser violento! Mas quero a que convença, e, então me atrevo,
Subtilizando a ideia com enlevo,
A Terra-Prometida mal se avista, A dizer tudo o que minha Alma ensaia.
Mas, tão custosa empresa não lamento:
Sempre na mesma Fé, no mesmo intento, Na carreira de amar não vejo raia,
Cada vez mais apuro esta Alma artista! Levando o Amor ao mais alto relevo!
E assim vivo, assim sofro, assim escrevo:
Clarim! jurei bandeira, e, num sorriso - Sem temer a Lisonja nem a Vaia!
Serei por ela enquanto assim me exortes
Com tua voz que rompe véus opacos: Tenho a mão na Consciência delicada,
E a prática e a teoria lhe sujeito
É preciso coragem; é preciso Obedecendo a voz que altiva brada:
Confiança para repousar nos fortes,
E força para suportar os fracos. - Acredita! sou eu quem te assegura:
Não há nada mais digno de respeito
Que a independência na mulher que é pura.
Bravura e Covardia (Laura Brandão, 1911?) Também sabe esculpir desde a imagem que
A minha Mãe adorna,
Do cemitério da paz, sagradamente morna.
A Bravura é a consciência quem proclama
A presença do espírito – o grande ato À estátua do guerreiro intrépido que estua,
Que nunca teve ensaio, e que é, no drama, E a esplêndida figura, abertamente nua,
Desempenhado no momento exato. De um modo tão sutil, tão forte, tão exato,
Que ensina, que provoca as delícias do tato!
A Covardia que espelhara a fama
De audácia, de arrogância e desacato, É preciso outras leis para esta gente
Perdida no papel, recua e clama E estas leis que ela mesma, audaz, precisa impor,
Pelo próprio inimigo em tom cordato. Sejam todas de amor,
Para dar claridade a sublimes conquistas!
Quem se arroja ao abismo, e orgulho sente E embora o resto todo, incomparavelmente
Na façanha traidora de um regalo, Maior, da humanidade,
Não sabe o que é ser bravo, infelizmente: Não saiba compreender o remoto Futuro,
Porque a preceitos vãos cegamente se dá,
Nem se julgue covarde quem, honesto, Ao menos entre artistas
Do perigo fugir, sem provoca-lo, O amor deve ser livre e essencialmente Puro,
E conservar, da infância, um crente gesto. Desde já.

Entre artistas (Laura Brandão, 1915) Liberdades (Laura Brandão, 1916)


Entre artistas não deve ser assim Eu tomo a liberdade de te olhar,
Como na sociedade: De te escutar, de te aspirar, eu tomo
É preciso outras leis para esta gente A liberdade de gostar de Ti,
Que vive do que sente, E de tocar em Ti, de leve, devagar...
Que tem no mundo, tão diverso fim E muito mais ainda, como
Do resto todo, incomparavelmente Eu te amo, eu tomo a liberdade
Maior, da humanidade! De não sair daqui
Para não ter saudade...
É preciso outras leis para esta gente aflita,
Que no meio de tanto horror, ainda acredita Eu tomo a liberdade de transpor
Na Coragem, na Luz; e no afã da alta crença, A Terra, o Mar, o próprio Céu, por Ti!
Luta para imitar o Futuro remoto. E não te escandalizes, não te enfades,
- E o Futuro dirá se imita ou não imita! Porque, afinal, meu Deus, meu Poeta, meu Amor,
Quem tem grandes ideais tem grandes liberdades
Assim, vivendo sofre; assim sofrendo, pensa,
E vai dando expansão a um pequenino broto De Alma e Corpo... (Laura Brandão, 1916)
Que em breve, dentro da Alma assume altura O ouvido é mais apurado
imensa! Se os pulmões não passam bem
- E o tísico assim, coitado!
E esta gente que luta e sofre e pensa, às vezes, Ouve mais do que ninguém.
Abandonando um pouco as coisas muito graves,
Procura a fantasia e canta como as aves, Tenho o coração ferido,
Se é poeta, entrelaçando às rimas, os revezes, E perfeitos os pulmões
E dando ao coração que bate acelerado - Canta-me perto do ouvido
A cadência do verso; e se é pintor, no estreito Os madrigais que compões...
Espaço de uma tela, espalha cores várias
- Qual no Espaço infinito, o Sol, de lado a lado! Escuta aqui de mansinho,
Escuta o que eu vou dizer:
E se cultiva o som, leva do próprio peito, - A glândula do carinho
Para o teclado, para as cordas, já nas árias No ouvido é que deve ser...
Mais simples, já na orquestra imponente o ávido
estro Minha alma tem mais amores
Que rege de esplendor a fronte do maestro! Que meu corpo grãos de pó.
Sinceros, não são traidores E eu, que tenho por ela a adoração mais alta,
-Mil amores por um só... Obediente, confiante, a seu mandado vim
Confessar esta culpa enorme que ressalta:
Falta o amor, logo reclamo, Perdoa! – eu quis trocar o teu Ideal por mim!
E não dou por falta do ar
- Respiro menos do que amo, Um silêncio de morte... uma oculta agonia...
Nem se pode comparar! E depois uma voz altiva que estremece!
A resposta negando a indulgência, afinal...
Isto foi muito mal feito:
Dois pulmões e um coração Ah! que acerba razão! – pois eu também seria
- Eu deveria ter no peito Incapaz de perdoar aquele que quisesse
Dois corações e um pulmão... Que eu trocasse por outro o meu eterno Ideal!

Luta (Laura Brandão, 1916) Realidade (Laura Brandão, 1916)


Lutar e não vencer que imposição medonha! Quem sonha pensa mais na Realidade: pensa
Que surpresa de dor para aquele que luta Em realizar o Sonho! e, como o não realiza,
Vendo aceso farol no alto mar em que sonha! Sonha cada vez mais, na tempestade intensa
De alto mar que parece uma alameda lisa.
Assim julga um castelo esplêndido, uma gruta
Humilde em que, sofrendo, a pobreza atravessa A Vida, começada em sonho, curta ou extensa,
Sem apelar jamais para a pompa corrupta! Em sonho há de acabar... E a gente, que idealiza,
Ainda aclama o Sonho a maior recompensa
Vai resistindo a vida, até que um dia cessa... - Quer seja um grande Poeta, ou uma simples
E aquele que talvez ao nada se transponha, poetisa...
Geme, vendo apagar-se o farol da promessa:
E quando a dor aperta e amarga de tal sorte
- Lutar e não vencer, que imposição medonha! Que se tenta morrer antes de vir a Morte,
Para atalhar depressa o martírio medonho.

Ver longe (Laura Brandão, 1916) A Virtude desarma! e exorta, impõe, persuade:
Adivinhar em rápidos instantes - Quem não pode fazer do Sonho, Realidade,
Muitos anos da vida transitória Saiba, ao menos, fazer da Realidade, Sonho!
Tempos de agora ter descrito dantes
- Ver a quem o que fica além da História!
Praga feminina (Laura Brandão, 1917)
As pérolas-saudades e os diamantes, Eram demais, no galinheiro,
Pressentimentos tê-los na memória, Os galos cantadores,
Irmanando-os em sonhos fulgurantes Em que a vaidade estua, em que as paixões se
E confundi-los na suprema glória! agravam.
O último que aparecia
Não é sorrindo, não, que se adivinha, Cada dia,
Como eu pensava quando ainda tinha Cantando, entre louvores,
O coração jovial em vez de monge... Logo cedinho, no arrebol,
Entre todos os outros que cantavam,
Lágrimas, apagai o meu sorriso! Julgava-se o primeiro
Olhos, chorai, chorai... porque é preciso Despertador do Sol!
Saber chorar para saber ver longe!
E, no entretanto, desaparecia
Imperdoável (Laura Brandão, 1916) No mesmo dia,
“Pedir perdão por uma inesperada falta, Logo à tardinha, no arrebol...
De tão grande e arrojada e singular, enfim,
Bem longe de humilhar, anima, eleva, exalta!” Enquanto isto, as galinhas, prisioneiras
Olha, a justa Consciência é quem garante assim. Lá no choco, Valiam quase nada ou muito pouco
- Pois se já havia até máquinas chocadeiras...
Um dia, uma galinha entendeu de cantar. Ela, a saudosa, ecoava, em límpida voz mansa,
E os entendidos Uma estrofe de amor, solenemente fria,
Galos presumidos Enquanto, a esperança, eu, palpitava, ardia,
Disseram logo que era azar. Cantarolando, a rir, um madrigal de criança.

“Há de seguir a mesma escola E pairou sobre nós o destino calado,


Da galinha da Angola, Que uns chamam de precoce, outros de prematuro,
Naquela cantilena insípida que amola, E foi desenrolando o imutável traçado...
Que nunca se destaca:
- Estou fraca, estou fraca, estou fraca, estou Transfigura-se logo, e já me desfiguro
fraca...” - Ela, revendo em mim o seu feliz passado,
Eu, antevendo nela o meu triste futuro!
E a talsinha
Da galinha
Inteligente, A uma pobre mãe (Laura Brandão, 1917)
Honestamente, Tão mais moça do que eu, já tem um filho!
Independente, Já tem / Alguém
Roga uma praga, avia No mundo que precisa / Dela.
Uma receita contra os juízos escarninhos; Portanto, já não é demais no mundo
E, dito e feito: logo no outro dia,, - Não pesa mais à humanidade.
Um galo velho pôs um ovo,
E um capão novo E derramando o meu olhar profundo
Amanheceu cuidando de pintinhos... De poetisa Da saudade,
No olhar ingênuo de esperança
Dessa mãe juvenil, serenamente
Dúvida (Laura Brandão , 1917) Bela, / Quase inocente, / Quase criança,
“Meu ser é a comunhão de dois seres diversos”. Eu considero, num sorriso doloroso:

Há tempos em que eu não vejo nada, não ouço, - Ah! quando a mãe é moça, e embala o filho,
E não me faço ouvir nem ver, sou nebulosa... Parece que lhe volta a virgindade.
Dias em que minha alma é branca e silenciosa,
Noites em que meu corpo é mais criança que A virgindade é a paz, o angélico repouso,
moço. Delícia de viver sonhando em liberdade,
Sacrifício glorioso,
Mas há tempos, também, de inaudito alvoroço: Martírio a cujas mártires me humilho,
Dias em que minha alma é um hino cor de rosa, Trocar a virgindade / Por um filho!
Noites em que meu corpo intimamente goza
O amor, por sugestão, no mais nítido esboço... Depois considerando a realidade:
A fraqueza da mãe que precisa viver,
E assim, nesta volúpia ingênua, indefinida, Que no pesar da via acha prazer,
Volúpia-virginal de artista-sonhadora Porque ama a vida pelo amor do filho,
Que, sorrindo e chorando, abafo e desabafo, Eu digo à Morte suplicando:

Nem sei de quem preenchi a vaga nesta vida: -Oh! Tu que vens buscar para não mais trazer!
Não sei se foi a minha ilustre antecessora Deixa esta pobre mãe, sem medir até quando;
Santa Tereza de Jesus ou se foi Safo... Deixa esta pobre mãe, leva-me antes a mim,
Deixa esta pobre mãe! Porque não há de
Ser assim?
Sonhadoras (Laura Brandão, 1917)
Falávamos, sonhando, as duas, de Poesia, Mil vezes antes eu, mil vezes antes, sim;
Uma pela saudade, outra pela esperança, Eu sou demais no mundo, eu peso à humanidade
Que a Poesia é infinita, o Espaço todo alcança, - Eu não tenho ninguém que precise de mim.
O passado e o futuro, a um tempo, presencia.
Fraternidade (Laura Brandão, 1917) e estreias a tua arte
Para mim, o Brasil entrou na guerra Quando eu acabo na minha arte
Desde o momento em que ela começou, neste Contraste há luz que chega e luz que parte...
Porque Brasil Humanidade encerra O teu Dia começa, o meu Dia termina:
- Antes de brasileira, humana eu sou. Teu Sol levante! minha Estrela Vespertina...
E se eu fosse feliz?...
Para mim, o Brasil é toda a Terra. E se ressuscitasse
Entrou na guerra, humanamente, entrou, O meu dia que morre em teu dia que nasce?..."
E o asilo da minha alma se descerra
- Longe da guerra, em plena guerra estou! FLAMBOYANT (Laura Brandão, 01.05.1929)
Minha árvore dileta, predileta,
A Cruz Vermelha é a Fé, e é um coração, Meu flamejante flamboyant florido,
Ainda é mais, é uma âncora, é a Esperança Fronte de fogo, espírito de poeta,
- O Ideal da Caridade é a comunhão. Ao Devenir galhardamente erguido!

E a humana brasileira crê no Ideal: Flamboyant flamejante, alma gaulesa,


Crê na vitória da completa aliança Gloriosa labareda desfraldada,
- A vitória da Aliança Universal! Ampla bandeira acesa,
Cantando, numa indômita alvorada,
Escrúpulo (Laura Brandão, Rio, 19.03.1919) A Marselhesa Revolucionada!
Tanto comprometi minha alma honestamente,
Em tão profundo amor, com tal sinceridade, Na indômita alvorada, em ascensão triunfa!
Que, atendendo ao dever de que ela me persuade, Ao zênite maior que o proletário avista,
Eu me sinto cativa, embora independente. Sente-se o palpitar da ideia comunista:
Pois o canto que exorta à investida final,
Às almas grandes mais cativa a liberdade: A Marselhesa revolucionada
Comprometi minha alma em sonho simplesmente, É o canto heróico da “Internacional”!
E, impassível caminho, olhando para a frente,
Na ilusão de que devo a Alguém fidelidade. Revolucionários (Laura Brandão, 20.04.28,
para seu companheiro Octávio Brandão)
Ilusão verdadeira, ou verdade ilusória? I
- Virtude, na expressão mais nobre, é o que - Viver para sonhar, a vida é linda!
suponho - Presta-se o cosmos à contemplação...
Um compromisso da alma apenas na memória. E eu, muito moça, e tu, mais moço ainda,
Deixamo-nos levar pela amplidão...
E, atendendo a uma lei que a mão divina espalma,
Tanto comprometi minha alma honesta em sonho Pela amplidão do mais profundo abismo!
Que um outro amor qualquer me causa escrúpulo à Pela amplidão de toda a liberdade:
alma! Materialismo contra misticismo
Materialismo contra a materialidade.
Aurora e Poente (Laura Brandão, 1919,
dedicado a seu companheiro Octávio Brandão) II
"E se eu fosse feliz?... Vivemos, assim, felizes,
De vez em quando, Agora Me ponho Com tão pouco:
A imaginar, fico pensando Tu, numa grande trajetória, quase louco,
Desde que me surgiste Inesperadamente Aprofundando as múltiplas raízes
No triste Poente, Sem matizes, do meu sonho, Do pensamento,
Como uma exuberante aurora Colorida E eu, solicitamente, a todo o meu agrado,
Que me exalta a reerguer o meu Dia da Vida! Guardando sempre acesa a luz, fogo-sagrado,
A minha vida é bem meu livro derradeiro Do nosso humilde lar,
A tua vida é como o teu livro, uma estreia! Do nosso bem-secreto.
O teu primeiro livro, a mais justa esperança Viveremos, assim, felizes,
Dos livros que hão de vir, glorificando a ideia Com tão pouco:
Do Futuro-Maior que o teu valor alcança! Apenas o alimento, /A roupa e o teto
Quando nasceste eu já sabia ler... -Num modo de viver amplíssimo e discreto.
III
Vivemos, assim, felizes...
Mas um dia,
Aprofundando mais as múltiplas raízes
Do pensamento.
Tivemos quase que remorsos,
Vendo quantos esforços

Custavam nosso relativo bem-estar,


Nossa levíssima alegria,
Nosso honestíssimo prazer:
Que uma alma delicada,
Quando sonha,
E acorda olhando o mundo, apavorada
- Uma alma delicada
Tem vergonha
De viver.

IV
E eis-nos em meio da batalha ativa:
Na luta sem o mínimo esplendor
- Eu, que nasci para contemplativa
- Tu, que nasceste para sonhador.

CARTA DE TARSILA À LAURA BRANDÃO


(Tarsila do Amaral, 19 de fevereiro de 1919)
"(...) Mais tarde, recebi uma pessoa a ti muito querida e aos desta casa muito simpática: teu pai, sempre amável,
com aquele habitual sorriso de bondade (...). Falamos muito a teu respeito e nos lembramos de que uma "Hora
Literária", na qual colaborasses com Albertina Bereta, causaria em São Paulo ótima impressão. Que tal a
ideia? Ainda não me dirigi, para esse fim, aos diretores da Sociedade de Cultura Artística, o que farei
brevemente. (...) Dei as tuas saudades aos quadros, aos bustos, ao espelho branco - ao Templo de Arte. Ali os
teus versos, com tanta alma recitados, vibram ainda imperceptivelmente, canta a tua voz, cantam teus
pensamentos, geme a tua santa saudade e fulgem as tuas lágrimas benditas. Devo-te muito. Quanta riqueza
me deixaste! Adeus, minhas recomendações a sua querida mãe. A ti um apertado abraço meu.”

CARTAS DE OLGA BENÁRIO

Carta à Ermelinda Felizardo (avó de Luiz Carlos Prestes)


(Olga Benário Prestes, 12 de agosto de 1936)

Observação: Carta escrita na Casa de Detenção (RJ), onde Olga estava presa desde março de 1936, antes de ser extraditada para a
Alemanha nazista pelo governo de Getúlio Vargas, em setembro daquele ano, no sétimo mês de gravidez. Fonte: Instituto Luiz
Carlos Prestes - Arquivo Alfredo Felizardo (RS)
http://www.ilcp.org.br/prestes/index.php?option=com_content&view=article&id=249:carta-inedita-de-olga-benario-prestes-a-
ermelinda-felizardo-avo-de-luiz-carlos-prestes&catid=29:sobre-olga&Itemid=158 . Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

Casa de Detenção – Rio de Janeiro, 12/8/36


Dª. Ermelinda.
Afetuosos cumprimentos.
Conhecendo-a há bastante tempo, pelas muitas vezes que o Carlos se tem referido a seu nome, resolvi escrever-
lhe, não só para lhe dar notícias nossas, como também para iniciarmos as nossas relações mais íntimas, pois
tenho a esperança que nós ainda nos encontraremos e mesmo que a senhora irá conhecer o seu bisneto.
Quero dar-lhe notícias nossas, somente as principais, pois será difícil descrever-lhe todos os incidentes dos
nossos longos meses de prisão. Numa das vezes em que fui chamada à Polícia Central, o Dr. Belens Porto,
encarregado do inquérito, me disse que a Senhora havia escrito uma carta ao Carlos. Não sei, porém, se tal
carta terá chegado às mãos do destinatário, nem se a Polícia terá permitido que ele respondesse.
O Carlos continua no quartel da Polícia Especial, numa incomunicabilidade completa, que já dura há mais de
5 meses. As autoridades não consentem que ele leia jornais e nem mesmo livros. Ele se encontra isolado, numa
sala, a porta daquela ficando sempre aberta, para permitir aos guardas uma vigilância permanente. – A Senhora
poderá bem imaginar quanta energia deve custar ao Carlos enfrentar todas estas torturas morais. – Talvez os
antigos companheiros e amigos do Carlos possam auxiliar no sentido de que pelo menos livros e revistas lhe
sejam entregues.
Da Europa, D. Leocadia já me escreveu, mas sob o pretexto de minha incomunicabilidade, a Polícia impediu
a entrega da carta, como também não tive a possibilidade de escrever-lhe. Soube, porém, que ela tem
desenvolvido uma grande atividade no sentido da defesa do Carlos.
Quanto a mim, estou, nestes últimos tempos, mais confortada pela presença de várias companheiras de prisão,
que já se tornaram minhas amigas. No começo estive também incomunicável. Ultimamente, porém, fui
transferida para a sala das mulheres, presas políticas, na Casa da Detenção. Assim é que vim a conhecer entre
outras, a Rosa, irmã do Silo, e a Maria Werneck, cujo marido está também preso e que descende de uma
família gaúcha.
De saúde, tenho tido bastantes abalos, provocados de um lado pela gravidez (agora já no sétimo mês) devido
às condições da prisão, como ainda mais pelas aflições que me dá a inquietude sobre o estado do Carlos. Até
hoje e depois da nossa prisão não tive a possibilidade de vê-lo e só recebi algumas cartas dele, em que falava
do nosso filho e das providências relativas à nossa defesa.
Corre um processo de expulsão contra mim, por ter eu nascido no estrangeiro. Numa de suas cartas o Carlos
comenta este passo do Governo da seguinte maneira: “Tu compreendes que o teu processo de expulsão é a
forma jurídica encontrada pelo atual governo para tornar efetivo mais um ato de perseguição política contra
mim… Preciso assistir com coragem aos golpes que, impotentes para assestarem diretamente contra mim,
dirigem contra as pessoas a quem dedico o meu maior afeto.”
Enfrentando tais perseguições absurdas e diante dos golpes da reação, asseguro à Senhora que, com a mesma
coragem com que anteriormente acompanhei o Carlos na luta, mostrar-me-ei, agora, digna do nome dele.
A respeito da minha expulsão, estou confiante que a simpatia pública impeça este ato completamente fora da
lei e espero que darei à luz ao filho do Carlos aqui em terra brasileira.
Era o que de essencial eu tinha a dizer nessa primeira carta, que lhe escrevo.
Queira receber um afetuoso abraço de sua neta.
Maria(1)

Notas de rodapé:
(1) Olga nunca reconheceu, perante a polícia, seu verdadeiro nome e sua verdadeira nacionalidade; com firmeza revolucionária,
reafirmou sempre o nome que constava no passaporte – Maria Vilar. (retornar ao texto)

Carta à Luiz Carlos Prestes


(Olga Benário, abril de 1936).
In: PRESTES, Anita. Viver é Tomar Partido. SP: Boitempo, 2019.Ao Sr Luiz Carlos Prestes, Rio, 4.IV.36

Meu querido,
Espero que estas linhas cheguem as suas mãos
Eu gostaria de te dizer uma coisa que diz respeito somente a nós dois. Mas diante as circunstancias, não me
resta nada além dessa possibilidade. Querido, nós teremos um filho. (Eu sinto todos os sinais que existem
nesse caso. Vômitos, etc.). Esse acontecimento me faz muito feliz, ainda que eu me dê conta das dificuldades
que terei que atravessar. Enfim, nós teremos uma expressão viva de tudo de bom e doce que existe entre nós.
Eu imagino que tu estejas inquieto sobre minha situação. Eu me encontro sozinha numa cela, sem livros, e eu
não saio nunca da minha cela. Para me impedir de ver o céu, colocaram um grande pedaço de pano na frente.
Assim eu passo os dias olhando as paredes e esse pedaço de pano. Tudo isso não é agradável, mas eu te
asseguro que terei forças suficientes para resistir.
Querido, como eu queria saber de ti, se estás vivo, com saúde; eu não sei de nada. Eu estou muito, muito
inquieta, e te peço para me dar uma resposta a esta carta. Na verdade, tu sabes que estou sempre, com todos
os meus pensamentos e todo o meu coração, junto de ti.
Muitos beijos.
Sempre tua.
OS. Esta carta é um pouco... (ininteligível), mas tu entendes...! Responde-me!
Maria Prestes, Casa de Detenção.

Carta de Despedida
(Olga Benário Prestes, Abril de 1942)
Queridos:
Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas
que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês
agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais
voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças — ah, não, elas
foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte.
Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito bem.
Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos
ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha carta de despedida. E
agora, quando penso nisto de novo, a ideia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim
como a morte.
Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-
ei, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu
sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver-me dado ambos. Mas o
que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível
que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?
Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois
parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso
que esforço-me para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois
desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a
força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor
do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão por que se envergonhar de
mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber
fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último
momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte. Beijo-os pela
última vez.

VERDADE E LIBERDADE (FRAGMENTOS)


Patrícia Galvão (PAGU, 1950)
“(...) Agora, numa noite de julho de 1940, soltavam-me. Fiquei mais alguns meses além do que me condenara
o Tribunal de Segurança. Eu não prestara homenagem ao Interventor Federal em visita à Casa de Detenção.
Um Adhemar de Barros.
Antes daquela noite, há mais de dez anos, portanto, eu me desligara para sempre daquela gente. Expulsara
finalmente de minha vida o Partido Comunista. Finalmente se acabara minha vida política.
Ao regressar àquela noite ao albergue paterno não podia me recusar a olhar para trás. Outros dez anos se
haviam passado desde a primeira prisão... Dos vinte aos trinta anos, eu tinha obedecido às ordens do Partido.
Assinara as declarações que me haviam entregue, para assinar sem ler. (...) Então, quando recuperei a
liberdade, o partido me condenou: fizeram-me assinar um documento no qual se eximia o Partido de toda a
responsabilidade. Aquilo tudo, o conflito e o sangue derramado, fora obra de uma “provocadora”, de uma
“agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”. Assinei. Assinei, de olhos fechados, surda ao
desabamento que se processava dentro de mim.
Por que não?
O partido ‘tinha razão’.
De degrau em degrau desci a escada das degradações, porque o Partido precisava de quem não tivesse um
escrúpulo, de quem não tivesse personalidade, de quem não discutisse. Reduziram-me ao trapo que partiu um
dia para longe, para o Pacífico, para o Japão, e para a China, pois o Partido se cansara de mim gato e sapato.
Não podia mais me empregar em nada: estava “pintada” demais.
Mas, não haviam conseguido destruir a personalidade que transitoriamente submeteram. E o ideal ruiu, na
Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou,
um grande hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua,
as crianças mortas de fome: era o regime comunista.
[...]
O fim é a libertação do homem desde as suas bases de pão e de abrigo, de amor e de sonho, de aspiração e
criação, até que se transformem as relações de semelhante a semelhante, e se estabeleça em toda a plenitude
a dignidade de uma paz e de uma solidariedade contritamente vividas.”

Sugestão de Filme:
Norma Gengell, 1987. Eternamente Pagu. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=MFylqrCYB_U

MULHERES NAS LIGAS CAMPONESAS


ELIZABETH TEIXEIRA (1925)

Elizabeth Teixeira: Símbolo de resistência


Nascida no dia 13 de fevereiro de 1925, no município de Sapé, Paraíba, Elizabeth Teixeira é símbolo de
resistência.
Seu pai era fazendeiro, proprietário e comerciante. Ela frequentou a escola, mas não terminou o primário.
Aprendeu a ler, escrever e dominar as quatro operações de matemática. Foi proibida de continuar os estudos,
saindo da escola para trabalhar na mercearia do pai. Foi neste estabelecimento comercial que ela conheceu
João Pedro Teixeira.
A família de Elizabeth não aceitava o relacionamento pois João era negro, operário e pobre. Aos 16 anos, ela
fugiu de casa para viver com ele.
Quando estava grávida de seu segundo filho, Abrahão Teixeira, Elizabeth foi morar em Recife/PE. João Pedro
participava da luta da classe trabalhadora e ajudou na fundação do Sindicato dos Trabalhadores da Construção,
em Recife. Por conta da luta, os empresários não davam emprego a João Pedro. Com a família passando fome,
tiveram que voltar para a Paraíba.
Elizabeth viveu por muito tempo sozinha, pois João era frequentemente ameaçado e perseguido pelos
latifundiários. Ele fugiu para Recife e para o Rio de Janeiro, onde fico escondido por oito meses. Nesse
período, ela recebeu solidariedade dos companheiros de luta, que a ajudavam, não deixando faltar nada à
família durante a ausência do marido.
Em 1962, João foi brutalmente assassinado em uma emboscada preparada por pistoleiros. Foram três tiros,
pelas costas.
Depois da morte do marido, Elizabeth reuniu os militantes da Liga em uma grande Assembleia, com mais de
dois mil camponeses e camponesas. Ela assumiu a liderança das Ligas e a partir daí sofreu diversos atentados
de morte.
“Um dia após o golpe tentaram incendiar minha casa, mas não me encontraram, porque estava em Galiléia,
cidade de Vitória, a 58 km de Recife. Quando soube do fato, fugi para dentro das matas e no dia seguinte,
conseguimos chegar até Recife. Depois, cheguei a João Pessoa, procurei notícias dos meus filhos e acabei
sendo presa. Passei três meses e 24 dias na prisão, no Agrupamento de Engenharia”, diz ela em entrevista ao
CPT Nacional.
Com o golpe militar de 1964, teve que passar para a clandestinidade, adotando o nome de Marta Maria Costa
e fugindo para São Rafael (Rio Grande do Norte), com o filho Carlos, onde viveu por 16 anos.
Na vida clandestina, Elizabeth trabalhou lavando roupas, ficou doente por conta da água poluída do rio, passou
fome. Sem poder trabalhar, viveu de pequenas ajudas. Um dia, ao ver que as crianças da cidade de São Rafael
viviam pelas ruas, sem escola, sem ensino nenhum, ela começou a dar aula em troca de alimentação.
Em 1981, aconteceu o encontro entre ela e o cineasta Eduardo Coutinho, que a encontrou com a ajuda de seu
filho, Abrahão (que na ocasião já trabalhava como jornalista em Patos/PB).
Ela abandonou a vida clandestina, assumiu seu verdadeiro nome e voltou para João Pessoa onde vive até os
dias atuais. Ao retornar, seu objetivo era encontrar seus outros filhos (ela teve 11) que estavam espalhados
entre Paraíba, Recife, Rio de Janeiro e Cuba. Além desses, uma de suas filhas suicidou-se, na ocasião de sua
prisão. Outros dois foram assassinados.
A casa onde viveu com João Pedro, em Sapé, foi tombada e destinada a abrigar o Memorial das Ligas
Camponesas, em 2011.
“Cabra marcado para morrer” é um filme documentário sobre a vida de João Pedro Teixeira, dirigido por
Eduardo Coutinho.
Em razão do golpe militar, as filmagens foram interrompidas em 1964. Parte da equipe foi presa sob a alegação
de “comunismo”.
O trabalho foi retomado 17 anos depois, com depoimentos dos camponeses que trabalharam nas primeiras
filmagens e também de Elizabeth Altino Teixeira
Fonte: https://asminanahistoria.com/2017/02/16/elizabeth-teixeira-simbolo-de-resistencia/

Sugestão de Documentários e Filmes:


a. Elizabeth Teixeira, Mulher da Terra (2019). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=2Vdkn2gDE3k
b. Depoimento de Elizabeth Teixeira para o V Congresso Nacional do MST (2007). Disponível em:
Parte 01: https://youtu.be/C1dzvSi0fd8
Parte 02: https://youtu.be/-DfKRX3t-4I
Parte 03: https://youtu.be/2PxcTl_4xso

c. Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984). Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=HGSRLIs8BGw

ALEXINA LINS CRESPO DE PAULA (1926-2013)


Morre Alexina Crespo, dirigente feminina das Ligas
Camponesas (14 de dezembro de 2013)

Depois de vários anos de sofrimento com uma enfermidade


pulmonar, finalmente descansou, no Recife, a mais
importante dirigente feminina das Ligas Camponesas,
Alexina Lins Crêspo de Paula. Ela foi a representante oficial
das Ligas Camponesas brasileiras na Reunião da Tricontinental
realizada em Havana, no verão de 1967
Discreta, como toda excelente revolucionária, rigorosamente responsável por atividades secretas ou
clandestinas, Alexina Crêspo nunca deixou transparecer os cargos de mais alto nível que exerceu desde 1955,
quando a Liga Camponesa do Engenho Galileia se perfilou como organização de luta.
Esposa de Francisco Julião, foi Alexina quem mais contribuiu na formação político-ideológica de esquerda
do dirigente das Ligas de Pernambuco, mesmo sendo ela 14 anos mais jovem. Somada a isso, a prática
militante de Jaime Miranda, do Comitê Regional o PCB de Pernambuco, e à minha influência [Clodomir
Morais], estabelecemos o caráter leninista de que carecia a organização de massas criada por Zezé da Galileia,
José dos Prazeres e pelo padre português Alípio de Freitas.
Muito antes do golpe militar de 1º de abril de 1964, Alexina levou seus quatro filhos pequenos, Anacleto,
Anatólio, Anatilde e Analtaide para morar e estudar em Cuba. Também fez viagem a Pequim, onde se
encontrou com o presidente Mao Tse-Tung e conversou sobre a carência de formação de quadros das
organizações sociais chinesas, reunião testemunhada pela revista Manchete, de São Paulo.
Realizava cada vez mais missões importantes em nome das Ligas Camponesas, e, já na condição de secretária
nacional de formação, alcançou multiplicar destacados quadros da organização, tais como o casal Delsuite
Costa e Silva e Adauto Cruz, comandante dos esquemas militares de defesa das Ligas.
Quando os militares deflagraram o golpe de Estado, a liga de Vitória de Santo Antão ocupou a cidade toda
para controlar os estoques de gasolina e bloquear a fuga dos latifundiários que perseguiam a Liga da Galileia.
A ação foi realizada com êxito sob o comando dos camaradas Luiz Serafim, da professora Maria Celeste e do
líder camponês Rochinha, com o apoio da formação dada pela camarada Alexina Crêspo. Para conhecer mais
sobre a história dessa grande mulher, veja os filmes: Memórias Clandestinas (2007) de Maria Thereza
Azevedo e Alexina – Memórias de um Exílio (2012) de Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha.
Por tudo isso, gritamos bem alto: CAMARADA ALEXINA CRÊSPO! PRESENTE, PRESENTE,
PRESENTE!
Clodomir Morais foi deputado estadual pelo PCB em Pernambuco e é autor do livro História das Ligas Camponesas do Brasil
Fonte: http://www.mmcbrasil.com.br/site/node/158

Alexina, a militante que conviveu com Fidel, Che e Mao Tsé-Tung


Ex-mulher de Julião, ela sempre esteve à esquerda do líder das Ligas Camponesas
RECIFE - Ignorada pelos livros sobre a história recente do país, Alexina Lins Crespo de Paula não foi uma
militante de esquerda comum. Ela praticamente respondia pelas relações internacionais das Ligas
Camponesas, um dos movimentos sociais mais expressivos do Brasil e que agitou o Nordeste do final dos
anos 1950 a meados de 1960. No período anterior ao golpe de 1964, chegou a negociar a entrada de armas no
país e a manter entendimentos com líderes como Fidel Castro e Mao Tsé-Tung, por achar que a guerrilha era
a melhor forma de realizar a reforma agrária em terras então dominadas econômica e politicamente pelos
usineiros, que mantinham seus lavradores em regime de semiescravidão.
Aos 85 anos e ainda lúcida — apesar de um acidente vascular cerebral recente —, Alexina teve uma
adolescência igual às das meninas burguesas de sua geração. Foi criada para casar, estudou em colégio
religioso, e o pai não era ligado em política. Mas a avó e a mãe eram fãs do líder comunista Luiz Carlos
Prestes. Em 1943, casou-se com o advogado Francisco Julião, que seria o fundador das Ligas Camponesas e
um dos homens mais temidos pelas forças conservadoras de então. Tido como um demônio pelo regime militar
implantado no Brasil em 1964, o ex-deputado estava à direita de Alexina.
— Quando casei, lia documentos sobre União Soviética, Cuba, China. Francisco começou a trabalhar nesse
sentido. Achei que estava certo. Só divergia porque ele achava que (a revolução) tinha que ser pela via pacífica
e eu, pela luta armada, na lei ou na marra — afirma ela no documentário “Alexina - Memórias de um exílio”,
lançado na última segunda-feira. O filme foi rodado em Recife e em Cuba, e foi dirigido pelos pernambucanos
Stella Maris e Cláudio Bezerra, professores da Universidade Católica de Pernambuco.
— Infelizmente, a História é injusta ou omissa com as mulheres. E Alexina não é exceção — afirmou Stella,
principal responsável pelo resgate da saga da militante que, em 1962, deixou em Cuba os quatro filhos para
estudarem. Queria dedicar-se integralmente ao trabalho das Ligas. Enfrentou muito preconceito por conta da
atitude:
— Isso causou muita estranheza na família. Eram comentários desagradáveis. Mas eu tinha que voltar para o
Brasil e reforçar o braço armado das Ligas, lembra Alexina, que também recorda de uma promessa de Fidel:
— Pode enviar (os filhos), que vou cuidar deles como se fossem meus.
A militante chegou a conviver também com Che Guevara. A lembrança que guarda dos dois líderes cubanos
é de um Fidel falante e de um Che calado e fechadão. No documentário, ela também conta um encontro que
teve com Mao, na China.
—Tomava chá com ele, quando me perguntou que material tínhamos de armas. Dissemos que não o suficiente
para a guerrilha. Mas não posso falar muito se não me prendem — desconversa, no filme. Alexina estava em
Cuba em 1964, para o casamento da filha Anatailde, quando o golpe aconteceu. Já era separada de Julião, com
quem viveu por 20 anos. Ela pretendia retornar ao Brasil. Mas Fidel não deixou. Achava que morreria se
voltasse.
No filme, ela relata episódios inacreditáveis em sua atuação como voluntária da Revolução de uma Cuba
bélica, que acabara de derrotar os Estados Unidos. Alguns são até hilários.
— Plantei café, costurei sacos de açúcar e fiz guarda de noite. Morávamos perto da casa do Che. Eu fazia a
ronda, mas não tinha arma e usava um cabo de vassoura. Peguei em arma só para treinar, mas não para fazer
guarda — relata.
Recorda o reforço ideológico pelo qual passavam visitantes em Havana:
— Você sai de Cuba para matar e esfolar americano e o imperialismo. O contato com Che e Fidel vai dando
reforço ao idealismo da gente, é fantástico — afirma, como se o passado ainda fosse presente.
* Esta reportagem foi publicada no vespertino para tablet “O Globo a mais”.
Fonte: http://www.mmcbrasil.com.br/site/node/158

Sugestão de Documentários:
Memórias Clandestinas (Documentário de Maria Thereza Azevedo, 2004, 70min) Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=j0wW2DCnN9o OU http://cinemaeditadura.com.br/memorias-
clandestinas/

O TRABALHO FEMININO: DEVER DE TODO O PARTIDO [Intervenção no IV Congresso do


Partido Comunista do Brasil - PCB]
(Iracema Ribeiro, Novembro de 1954)

Fonte: Problemas Revista Mensal de Cultura Política, nº 64, dezembro 1954 a fevereiro de 1955.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2006.

Camaradas:
De início, quero dizer da minha satisfação em participar do IV Congresso do nosso glorioso Partido.
Pertencendo a uma geração posterior ao III Congresso, quero saudar aos camaradas cuja abnegação e espírito
de sacrifício fizeram com que o nosso Partido percorresse, nos seus 32 anos de existência, um caminho de
lutas gloriosas à frente da classe operária e do povo brasileiro.
Quero saudar muito especialmente ao querido camarada Prestes, guia e mestre do Partido Comunista do
Brasil. É com os olhos fitos na vida exemplar do camarada Prestes que procuramos nos colocar à altura das
grandes tarefas do nosso Partido, hoje condensadas no Programa do Partido.
No curso desses anos têm sido muitos os exemplos de dedicação e heroísmo das mulheres brasileiras à
causa do proletariado.
Na história do movimento revolucionário brasileiro estão inscritos os nomes de algumas mártires : Olga
Benário Prestes, sacrificada num campo de concentração nazista; Zélia Magalhães, assassinada em praça
pública; Angelina Gonçalves, fuzilada quando participava das comemorações do 1º de Maio.
Inúmeros são os exemplos de heroínas anônimas.
São as mulheres dos ferroviários da Rede Mineira de Viação que se deitam no leito da estrada para
impedir a saída de trens e a quebra da unidade da greve de seus esposos por aumento de salários e contra o
regime do barracão.
São as mulheres do Rio Grande do Sul. cuja participação no movimento grevista de agosto de 1952
contribuiu valorosamente para que uma greve da classe operária se transformasse em greve de todo o povo.
Uma companheira da cidade do Rio Grande dirigiu o povo à cadeia pública, arrancando da prisão o nosso
vereador encarcerado.
Participando de piquetes de greve, falando, insistindo e persuadindo, vale salientar a ação das mulheres
do Distrito Federal e de Pernambuco nas greves dos têxteis e das mulheres paulistas no memorável movimento
grevista de março de 1953 e na grandiosa greve geral de 2 de setembro último.
As mulheres brasileiras, graças a sua combatividade e espírito de iniciativa, muito contribuíram para
impedir que os nossos soldados e marinheiros fossem enviados para a guerra da Coréia. É uma vitória que
devemos assinalar em nossa contribuição à luta mundial em defesa da paz.
Na greve dos 100.000 marítimos em junho de 1953, ou mais recentemente, no movimento grevista dos
ferroviários da Leopoldina, a ação das mulheres junto aos grevistas impediu que os fura-greves quebrassem a
unidade desses movimentos.
Nas manifestações populares de 24 e 25 de agosto último, em todo o país, estiveram as mulheres entre
os manifestantes mais combativos. No Distrito Federal, foram as palavras dos jovens e mulheres comunistas
que conduziram o povo à luta contra a Embaixada norte americana. Em tão formidáveis manifestações as
mulheres foram não só ouvidas e atendidas, mas também recebidas com carinho e protegidas pelas massas.
Na preparação da Conferência Latino-Americana de Mulheres, os ataques da reação e toda a campanha
caluniosa dirigida pelo Departamento de Estado norte-americano não conseguiram quebrar o ânimo e
entusiasmo das mulheres, que conduziram vitoriosamente a tarefa até o fim.
Na recente campanha eleitoral, as companheiras do Distrito Federal, por exemplo, deram provas de
dedicação e espírito de sacrifício. As companheiras do Méier iniciavam os comandos de casa em casa às 6
horas da manhã e iam até às 22 horas, chegando a percorrer diariamente 33 ruas. As companheiras do Catete,
com um entusiasmo exemplar, dirigiram, altas horas da madrugada, grandes colagens de cartazes. As
companheiras de Santa Tereza durante oito dias, estiveram com sua mesinha de distribuição de cédulas no
Largo da Carioca. Foi a mesinha mais movimentada da cidade, contando com o apoio entusiástico e a
solidariedade ativa da massa.
Sabemos, entretanto, que não basta a dedicação pessoal.
O trabalho do nosso Partido junto às massas femininas é ainda estreito. Falamos em dezenas e centenas,
quando necessitamos de milhares de mulheres no Partido e milhões de mulheres para a luta democrática de
libertação nacional.
Decorridos 10 meses da publicação do Programa do nosso Partido, ainda não soubemos aplicar, com
inteira justeza, as tarefas fundamentais que o camarada Prestes expôs em seu Informe de apresentação do
Programa, isto é, ganhar todo o Partido para o Programa e transformar o Programa do Partido em Programa
de todo o povo.
Não levar à prática vitoriosamente essas tarefas junto às mulheres comunistas e às massas femininas
significa não compreender a importância da participação das mulheres para tornar realidade os sublimes
objetivos do Programa. Significa esquecer toda a tradição de luta da mulher pela independência e em defesa
dos interesses vitais do nosso povo. Significa ainda que deixamos de lado um grande potencial em capacidade
de trabalho e dedicação à luta libertadora constituído pela população feminina.
O trabalho do nosso Partido entre as mulheres apresenta serias debilidades. O sectarismo é o principal
entrave ao trabalho do Partido junto às massas femininas. As próprias Organizações de Base femininas criadas
para facilitar o trabalho do Partido junto às grandes massas de mulheres, não têm cumprido satisfatoriamente
sua missão. Em sua maioria as Organizações de Base femininas realizam mais o trabalho de agitação e
propaganda, deixando de lado a tarefa fundamental para a qual foram criadas, isto é, mobilizar e organizar as
mulheres partindo das suas reivindicações específicas, das lutas contra a carestia, pelo congelamento de
preços, em defesa da infância e elevando-as até às lutas democráticas e emancipadoras.
No Comitê Regional de Piratininga, por exemplo, existem algumas dezenas de Organizações de Base
femininas. No entanto, não chega a uma dezena o número das Organizações de Base femininas que realizam
trabalho junto às grandes massas femininas. É o exemplo do Comitê de Zona de Tatuapé, onde as
Organizações de Base femininas vivem voltadas para dentro de si mesmas e as companheiras realizam desde
o trabalho de finança ordinária ao de colagem de cartazes, sem se cogitar da necessidade de que estas
Organizações de Base concentrem seu trabalho na mobilização e organização das massas femininas.
Os métodos sectários de trabalho são levados às organizações de massa que se transformam, na maioria
dos casos, em simples frente legal do Partido. Isto afasta as massas femininas dessas organizações, que se
vêem reduzidas a pequenos círculos de comunistas e simpatizantes.
Entrave não menor ao desenvolvimento do trabalho feminino tem sido o espontaneísmo com que ainda
enfrentamos nossas tarefas. Têm sido poucas, por exemplo, as medidas práticas tomadas no sentido de ganhar
para a luta revolucionária milhões de mulheres.
Em recente ativo nacional do Partido sobre o trabalho feminino, constatou-se um regular avanço na
elevação do nível político e ideológico das camaradas, mas poucas foram as experiências novas surgidas no
trabalho com as massas. Isto significa que necessitamos de mais ação, combatividade e espírito de iniciativa
no trabalho de mobilização e organização das mulheres em torno do Programa e das palavras-de-ordem do
nosso Partido. Poucas foram as medidas tomadas, por exemplo, para levar à prática a palavra-de-ordem de
nosso Partido de que trabalhistas e comunistas devem marchar juntos, como irmãos na luta contra o atual
governo. O mesmo acontece com a palavra-de-ordem de ganhar para a luta democrática e libertadora as massas
da pequena burguesia enganadas até agora pela demagogia supostamente oposicionista da UDN.
O espontaneísmo do trabalho do Partido junto às massas femininas, revela-se também no fato de que nos
voltamos, geralmente, para o trabalho mais fácil e de efeito mais imediato, deixando de desenvolver o trabalho
junto àqueles setores mais importantes. É isto que tem contribuído para que o trabalho do Partido junto às
mulheres operárias e camponesas ficasse, até agora, relegado a um plano secundário. Não cuidamos, por
exemplo, em São Paulo e no Distrito Federal, assim como nas grandes cidades, de ganhar as mulheres que
sendo operárias, funcionárias ou comerciarias, não deixam de ser donas de casa. O pior é o descaso pelo
trabalho junto às mulheres camponesas.
Insatisfatória vem sendo ainda a maneira do nosso Partido levar o Programa às massas femininas. O
nosso trabalho tem se limitado a distribuição de folhetos com o Programa ou a realização de palestras, sem a
preocupação de levantar com vigor e clareza as reivindicações especificas e mais sentidas da mulher, vítima
de discriminação econômica, das desigualdades sociais e jurídicas e mesmo de preconceitos feudais e
burgueses, conforme assinala, com justeza, o camarada Prestes em seu Informe a este Congresso.
Tais debilidades devem-se, fundamentalmente, ao fato de que existe em nosso Partido, das direções às
bases, incluindo até o Comitê Central, uma profunda subestimação pelo trabalho feminino. Nesse sentido, não
se excetuam mesmo a maioria das companheiras membros do Partido. Boas companheiras negam-se a realizar
o trabalho feminino de massas, alegando ser este cansativo ou desagradável.
Toda esta subestimação é de origem ideológica. É comum ainda entre grande número dos nossos
companheiros a maneira senhorial de tratar as camaradas.
O trabalho de ganhar milhões de mulheres para o Programa só poderá se desenvolver com pleno êxito
quando deixar de ser apenas tarefa das Seções do trabalho feminino e das Organizações de Base femininas e
for incluído entre as tarefas permanentes e diárias de todos os organismos do Partido, desde os Comitês
Regionais aos Comitês Distritais. Isto é particularmente verdadeiro tratando-se das responsabilidades e das
tarefas das Organizações de Base do Partido, especialmente das Organizações de Base de empresa.
Os Estatutos do nosso Partido colocam entre as tarefas das Organizações de Base «estar incessantemente
atenta aos sentimentos e reivindicações das massas, transmitir esses sentimentos e reivindicações aos
organismos superiores do Partido, dar atenção à vida política, econômica e cultural dos trabalhadores e do
povo e ganhá-los para que resolvam seus próprios problemas».
Isto impõe às nossas Organizações de Base a tarefa de auscultar também as reivindicações das mulheres,
trabalhadoras ou simples donas de casa, e de buscar os meios de ganhá-las para que resolvam seus próprios
problemas. Só assim poderemos ter um movimento feminino fortemente apoiado nas massas e estreitamente
ligado às mulheres operárias e camponesas.
Nos organismos do Partido onde se realiza um maior esforço no sentido de integrar o trabalho feminino
entre as tarefas cotidianas do Partido observa-se que este trabalho avança. A discussão do trabalho entre as
mulheres, a planificação e o controle das tarefas relacionadas com a Conferência Latino-Americana de
Mulheres, no Comitê de Zona da Lapa, na Região Piratininga, permitiu que surgissem, nesse período, 3 novas
Organizações de Base femininas e mais uma Associação Feminina de massas.
Tudo isto não significa que nós que estamos à frente do trabalho feminino procuremos nos eximir das
nossas responsabilidades. Ao contrário. Muito temos que fazer para nos colocar à altura das tarefas do Partido.
Não é boa ainda nossa maneira de trabalhar. É urgente revisarmos todos os nossos métodos de trabalho, pois
somos as principais responsáveis pelas debilidades existentes no trabalho feminino.
A situação exige que dediquemos uma atenção especial ao trabalho junto às mulheres trabalhadoras. Este
deve ser um trabalho de aproximação, de solidariedade às suas lutas e de organização.
A luta contra a carestia e pelo congelamento de preços é o elo capaz de unir o movimento das donas de
casa à luta das mulheres operárias e camponesas por melhores condições de vida e de trabalho.
Voltando-nos para este trabalho, tudo devemos fazer para que as operárias e camponesas ingressem nos
sindicatos e engrossem as fileiras da União de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil.
O grande Stálin dizia:
«As mulheres trabalhadoras, operárias e camponesas, constituem a grande reserva da classe operária. Esta
reserva representa uma boa metade da população. A reserva feminina está contra ou a favor da classe
operária ? Disto depende o destino do movimento proletário, a vitória ou derrota da revolução proletária.
Eis porque a primeira tarefa do proletariado e de seu destacamento mais avançado, o Partido Comunista,
consiste em travar uma luta decisiva para libertar as mulheres operárias e camponesas, da influência da
burguesia, para educar politicamente e organizar as operárias e camponesas sob a bandeira do
proletariado» .
Fazer com que esses milhões de mulheres lutem e participem dos movimentos da classe operária e dos
camponeses e se organizem para lutar mais e melhor, eis, portanto, uma das principais tarefas de todo militante
comunista. Na greve do proletariado paulista, de março de 1953, surgiram departamentos femininos nos
sindicatos dos têxteis, metalúrgicos e gráficos. Na preparação da Conferência Latino-Americana de Mulheres
surgiram organizações de camponesas em vários municípios do interior de São Paulo, de Minas e do Rio
Grande do Sul. A Associação Feminina de Ponte Nova, no Estado de Minas Gerais, foi organizada graças à
atuação ativa das mulheres na greve dos assalariados agrícolas das usinas de açúcar por aumento de salários.
São alguns exemplos, mas nos mostram o caminho a seguir.
O grande Stálin ensina:
«... as mulheres trabalhadoras não são apenas uma reserva. Elas podem e devem tornar-se — com uma
política justa da classe operária — um verdadeiro exército que combaterá a burguesia. Fazer desta reserva
de mulheres trabalhadoras um exército de operárias e camponesas combatendo ao lado do grande exército
do proletariado, eis a segunda tarefa, que é decisiva, da classe operária».
Camaradas:
As assembleias preparatórias ao IV Congresso revelaram um grande espírito de disciplina, de dedicação
e amor ao Partido por parte das companheiras. No entanto, apesar de uma frequência que atingiu até 98%, é
muito pequeno ainda o número de mulheres membros no Partido. Este fato está relacionado com a deficiência
do trabalho do nosso Partido entre as mulheres, o que demonstra que não extirpamos ainda das nossas fileiras
os preconceitos burgueses com relação à mulher.
Não existe no Partido a preocupação permanente com o recrutamento de mulheres, ou não se cuida de
fazê-lo nas grandes concentrações de mulheres nas cidades e no campo. O recrutamento de novas militantes
realiza-se, geralmente, de maneira não planificada e não se procura dar-lhes vida ativa orgânica e
politicamente.
De modo geral, os nossos militantes não têm ainda a preocupação de aproveitar os movimentos e as lutas
de massas para fazer crescer e fortalecer o nosso Partido. Na campanha eleitoral, por exemplo, houve no
Distrito Federal uma ativação de cerca de 80% das militantes comunistas. No entanto, nesse período surgiram
apenas três novas Organizações de Base femininas, o que não corresponde ao crescente prestígio do Partido
entre as massas femininas.
As assembleias Piratiningadas Organizações de Base, preparatórias do IV Congresso, revelaram,
também, o baixo nível político e ideológico, e mesmo cultural, das nossas companheiras. Esta questão requer
uma atenção especial por parte das direções do Partido, desde a criação de cursos específicos até o estímulo
permanente aos círculos de estudo. A execução desta tarefa será facilitada porque, apesar do praticismo, há
grande ânsia de aprender. As companheiras de São Paulo, por exemplo, num plano de emulação do Comitê
Piratininga, foram detentoras de um prêmio por haverem criado e feito funcionar o maior número de círculos
de estudo. A pequena participação de companheiras nos cursos do Partido, principalmente no Curso Stálin, a
falta de publicação de materiais específicos sobre o trabalho feminino revelam que em nosso Partido ainda
não se dá a necessária atenção à elevação do nível político e ideológico das suas militantes e mesmo das suas
dirigentes.
Relacionado com isto, todo o Partido deveria encarar mais seriamente a necessidade da promoção de
quadros femininos. O estímulo, a ajuda direta, o controle vivo, o contato com quadros política e
ideologicamente mais capazes e experimentados, a participação nos plenos dos órgãos dirigentes, tudo isto
ajudará a todas nós mulheres de Partido a rompermos a timidez muito comum às mulheres, a procurarmos
estudar mais a fim de nos pormos à altura das nossas tarefas e responsabilidades.
Na verdade, a promoção de quadros femininos em nosso Partido ainda se processa de maneira muito
lenta. As nossas direções ainda procuram ater-se as alegações de timidez das camaradas, ou a problemas de
outra ordem, sem promovê-las com audácia. Existem camaradas que no curso das últimas lutas, nas
manifestações de 24 e 25 de agosto em todo o país e na greve geral de 2 de setembro em São Paulo, revelaram
um elevado espírito de combatividade, coragem pessoal e qualidades de comando. As direções do Partido
devem aproveitar esses quadros, promovê-los e ajudá-los.
Neste sentido, os organismos do Partido precisam, também, dedicar uma atenção especial à formação de
quadros dedicados ao trabalho feminino, sejam eles companheiros ou companheiras.
Acreditamos que, à base das discussões e resoluções que sairão deste memorável Congresso, deveríamos
enfrentar seriamente as seguintes tarefas com relação ao trabalho feminino:
1. — O trabalho feminino deve deixar de ser tarefa apenas das Organizações de Base
femininas e das Seções do Trabalho Feminino para se transformar numa tarefa de todo o Partido.
2. — Todos os Comitês Regionais devem criar Seções do Trabalho Feminino. As seções
já existentes necessitam ser urgentemente reforçadas.
3. — Todos os Comitês de Zonas e Comitês Distritais devem ter encarregados do trabalho
feminino. O trabalho feminino deve ser incluído entre as tarefas permanentes dos Comitês de
Zona, dos Comitês Distritais e das Organizações de Base.
4. — Elaborar com urgência uma Resolução do Comitê Central sobre o trabalho feminino.
Segundo pensamos, são essas as principais tarefas que precisam ser enfrentadas pelo nosso Partido para
liquidar a subestimação existente pelo trabalho feminino, para iniciar uma nova vida no trabalho de ganhar
milhares de mulheres para o Partido e milhões para a luta democrática de libertação nacional. É isto o que nos
impõem os Estatutos do Partido e o Programa do Partido.
Camaradas:
Nós que tivemos a grande felicidade e honra de participar do IV Congresso do Partido Comunista do
Brasil só podemos acrescentar o nosso compromisso de não pouparmos esforços, não medirmos sacrifícios
para levar à prática, no mais curto prazo, as resoluções aqui aprovadas.

GANHAR MILHÕES DE MULHERES PARA O PROGRAMA DO PARTIDO [Intervenção no IV


Congresso do Partido Comunista do Brasil - PCB]
(Olga Maranhão, Novembro de 1954)

Fonte: Problemas Revista Mensal de Cultura Política, nº 64, dezembro 1954 a fevereiro de 1955.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2006.

Camaradas!
Saudamos com particular emoção este IV Congresso do nosso glorioso Partido que, à luz do marxismo-
leninismo, nos guia para a luta e para a vitória.
O informe do Comitê Central, apresentado pelo camarada Prestes, dando o balanço das atividades do
Partido, refere-se à situação da mulher em nossa Pátria e as tarefas do Partido no trabalho feminino de massas.
Seguindo os ensinamentos do grande Lênin. o nosso Partido destaca o papel da participação das mulheres na
revolução, procura influenciar as massas femininas que constituem metade da população brasileira e são
importante reserva do movimento revolucionário.
A história do Brasil assinala a participação ativa das mulheres nas grandes lutas pela independência, pela
abolição, pela república, contra as guerras injustas e contra a reação. Nestas lutas, destacaram-se heroínas e
mártires como Clara Camarão, Joana Angélica, Maria Quitéria, Bárbara de Alencar, Anita Garibaldi e tantas
outras.
A contribuição das mulheres às lutas emancipadoras do povo brasileiro, revela sempre, com muita força,
o seu patriotismo, o seu anseio de paz e de liberdade. Já em 1875, em Minas Gerais, cerca de cem mulheres
invadiram a matriz de Barra do Bacalhau e queimaram os papeis da junta militar, pondo em fuga os seus
membros. Em Remédios, um grupo de mulheres penetrou na igreja, destruindo todos os documentos militares.
Era a represália popular ao recrutamento de soldados para a injusta guerra contra o Paraguai. Acontecimentos
como esses, repetiram-se em inúmeros lugares de nosso país, numa clara demonstração do sentimento pacifista
das mulheres brasileiras.
Na atualidade, o Partido Comunista do Brasil, herdeiro das gloriosas tradições de luta do nosso povo, é
que dirige as lutas das massas femininas, pelos direitos e interesses da mulher, pela paz, pelas liberdades
democráticas e pela independência nacional. O Partido nos ensina que a ação unida e organizada das grandes
massas femininas é indispensável para assegurar às mulheres uma vida livre e feliz. A emancipação da mulher
só seria definitivamente alcançada com a derrota do regime de latifundiários e grandes capitalistas serviçais
do imperialismo norte-americano. Por este objetivo, luta o Partido Comunista, o mais ardoroso e conseqüente
defensor dos direitos e interesses da mulher.
A criminosa política do governo de latifundiários e grandes capitalistas a serviço dos Estados Unidos
agrava terrivelmente a situação em que vivem as mulheres no Brasil. A carestia de vida leva a fome aos lares
dos trabalhadores e a miséria penetra nas famílias operárias e das massas populares.
As operárias não gozam de suficiente proteção legal, trabalham até os últimos momentos da gestação.
Jovens operárias nas minas de carvão de Criciúma, em Santa Catarina, na maior parte com menos de 16 anos,
são obrigadas a subir em montes de carvão, a puxar carrinhos de mão com mais de 60 quilos. Muitas dessas
operárias adoecem em virtude da absorção de poeira de carvão e do trabalho pesado. Nas fábricas de sardinha
em conserva no Estado do Rio, trabalham jovens operárias na salga e no enlatamento do pescado, sujeitas a
doenças profissionais. Não existe, pois, nenhuma consideração pela mulher operária no Brasil. Ela é vista
pelos patrões como mão de obra barata, fonte inesgotável de exploração e de lucro.
A grande massa da população feminina no Brasil se concentra no campo. São milhões de mulheres,
vítimas dos latifundiários, mantidas no atraso, submetidas às mais monstruosas formas de exploração, vivendo
numa indescritível miséria. Reduzido é o número de mulheres no campo que, trabalhando no plantio ou na
colheita, recebem o salário de 10 a 12 cruzeiros- Maior é o número das mulheres camponesas que nada
recebem, porque o seu trabalho e o dos filhos menores são computados no salário do chefe da família. Além
disso, não há a menor assistência à família camponesa. Acometidas sempre pelas febres palustres ou por
enfermidades de carência alimentar, as crianças no campo que conseguem escapar à morte na primeira idade,
contraem a verminose, o raquitismo, a opilação. As mulheres do campo não sabem o que é assistência à
maternidade. Muitas mulheres dão à luz nos canaviais ou cafezais em pleno trabalho. Nos barracões dos
latifundiários, não há remédios.
A essa imensa massa de trabalhadoras e de camponesas, vítimas da feroz exploração dos grandes
capitalistas e dos latifundiários, assim como dos monopólios norte-americanos instalados no Brasil, devemos
nos dirigir, conquistá-la para o nosso lado, para participar ativamente da luta pela vitória da revolução
antifeudal e antiimperialista.
Diante da terrível situação a que estão submetidas, as mulheres não permanecem indiferentes. As
mulheres lutam cada vez mais para modificar essa dolorosa situação.
As lutas femininas tomaram, nos últimos anos, características de movimento organizado. Sob a influência
do nosso Partido, surgiram a partir de 1944 as primeiras organizações femininas de massas. Inicialmente foram
organizadas as uniões femininas, que desenvolviam suas atividades nas campanhas pelas reivindicações
imediatas e específicas das mulheres. Chegaram a existir centenas dessas uniões femininas em todos os
Estados, atingindo grande número de Municípios do interior.
Neste período, o trabalho feminino de massas consistia, fundamentalmente, em mobilizar milhares de
mulheres para as campanhas contra a carestia de vida, ora adquirindo gêneros e tecidos populares, para revenda
às associadas, ora desmascarando os sonegadores dos produtos de primeira necessidade. Este trabalho, embora
importante, não tinha como objetivo ganhar as massas femininas para lutas mais altas e conseqüentes, para as
lutas decisivas pela paz, pelas liberdades democráticas e pela independência nacional.
Posteriormente, rompemos com essa orientação no trabalho feminino, orientação fortemente influenciada
por tendências reformistas. Mas, ao corrigirmos um erro caímos no outro extremo, passamos a realizar um
trabalho sectário, exclusivamente político e desligado das reivindicações mais sentidas das massas. Isto
acarretou o isolamento das uniões femininas das grandes massas de mulheres e determinou uma queda no
trabalho feminino de massas.
A partir de 1950, em virtude de nova modificação em nossa orientação, começaram a surgir grandes
movimentos femininos em nosso país. O importante nestes movimentos foi o fato novo de que eles eram
liderados por uma organização de massas de caráter nacional — a Federação de Mulheres do Brasil. Novas e
poderosas organizações femininas de massas foram criadas. Cada dia aumenta a influência do Partido no seio
das grandes massas femininas. Intensifica-se a participação das mulheres trabalhadoras nos movimentos
grevistas e nas lutas políticas da classe operária. Queremos rememorar, neste IV Congresso do Partido, a
combatividade extraordinária das mulheres da Rede Mineira de Viação, mães, esposas e irmãs dos
ferroviários, que contribuíram decisivamente para o desenvolvimento vitorioso das suas lutas reivindicativas.
É preciso destacar ainda as atividades das mulheres grevistas da Fábrica Perseverança, no Pará. a participação
ativa das mulheres pernambucanas na greve geral dos têxteis do Nordeste. Nestes, como em tantos outros
movimentos grevistas, a vitória foi conquistada com a atuação direta e combativa de grandes contingentes de
mulheres.
Um dos mais destacados movimentos femininos no Brasil foi a participação das mulheres na greve dos
consumidores no Rio Grande do Sul, em agosto de 1952, greve que atingiu a muitos Municípios, abrangendo
a quase totalidade da população gaúcha.
Na grandiosa campanha do Apelo de Estocolmo, pela interdição da bomba atômica, as organizações
femininas, existentes em todo o território nacional, recolheram cerca de 1 milhão de assinaturas, num trabalho
tenaz, de bairro em bairro, de rua em rua, de porta em porta. A vitoriosa campanha contra o envio de soldados
brasileiros para a Coréia, as centenas de concentrações de protesto contra o governo, particularmente nas lutas
em defesa das liberdades democráticas e da Constituição, são demonstrações da vitalidade e da combatividade
do movimento feminino no Brasil, liderado pelo Partido da classe operária.
A maior experiência do trabalho feminino de massas já realizada, foi a Conferência Latino-Americana
de Mulheres, que. além de ter sido uma vitória das massas femininas da América Latina, foi também uma
vitória do movimento democrático e antiimperialista dos nossos povos.
A Conferência Latino-Americana de Mulheres revelou, também, o profundo sentimento patriótico das
mulheres e o seu espírito de luta em defesa dos direitos da mulher e da criança, reivindicações que não podem
ser isoladas das lutas democráticas e emancipadoras dos povos latino-americanos. Existiram, sem dúvida,
debilidades e falhas. Mas, seguindo uma justa orientação e atuando com o máximo de flexibilidade, ganhamos
novos setores das massas femininas para a luta pelos seus direitos, enfrentamos vitoriosamente a maior
propaganda reacionária já realizada contra um movimento de massas. Esta onda de propaganda de mentiras e
calúnias foi orientada diretamente pelo Departamento de Estado norte-americano.
Apesar da reação organizada pelos piores inimigos dos povos latino-americanos. empregando novos
métodos de provocação, chegando mesmo a falsificar documentos, conseguimos — as mulheres brasileiras e
as mulheres dos demais países da América Latina — realizar vitoriosamente a Conferência Latino-Americana
de Mulheres. Participaram desta Conferência 400 delegadas, das quais 64 eram de países irmãos do
Continente. Cerca de 100 expressivas mensagens de sindicatos, organizações profissionais e personalidades
femininas foram enviadas à Conferência.
O trabalho de preparação realizado no Brasil em função da Conferência Latino-Americana de Mulheres
deu novo impulso à organização do movimento feminino de massas. Surgiram no Brasil, nesse período, mais
de 30 organizações de massa femininas. Iniciamos também um importante trabalho junto às mulheres
operarias e camponesas, vários sindicatos elegeram em assembléias gerais ou em assembléias específicas de
mulheres operárias suas representantes à Conferência Latino-Americana de Mulheres. Em função da
Conferência, foram ainda realizadas assembléias de camponesas em muitos lugares do país, das quais surgiram
organizações de mulheres camponesas em Xerém no Estado do Rio, em Erechim no Rio Grande do Sul, em
Taciba, Pedreira e Salto Grande no Estado de São Paulo. Isto mostra que a tarefa de organizar e pôr em
movimento as massas camponesas já começa a dar alguns frutos. Tal fato foi confirmado na II Conferência
de Camponeses e Assalariados Agrícolas, realizada em setembro último em São Paulo, com a participação de
camponesas de vários Estados, eleitas como delegadas em grandes assembléias.
Camaradas!
Ganhar as massas femininas para as posições do Partido tem uma profunda significação política, pois se
trata de atrair massas de milhões da população brasileira para o Programa do Partido. A organização da frente
democrática de libertação nacional não pode ser levada a cabo sem a participação das mulheres. Precisamos
ter sempre presente que toda subestimação do trabalho feminino de massas resulta da própria subestimação
da necessidade imperiosa de organizar e unir as mais amplas forças democráticas e patrióticas para a luta pela
derrubada do atual governo e pela instauração do governo democrático de libertação nacional. Nada, portando
pode justificar a pouca atenção do trabalho entre as vastas massas femininas.
Apesar de já havermos obtido alguns êxitos no trabalho feminino de massas, este se caracteriza pela sua
falta de solidez, pela sua instabilidade, pelo seu fraco conteúdo político, pela sua pequena capacidade de
organizar as grandes massas femininas. Isto se deve em boa parte aos métodos de trabalho que ainda
empregamos.
Trabalhamos com intensidade somente durante as campanhas de massas. Depois, o trabalho decai. Em
muitos lugares chega até a desaparecer. O nosso trabalho de massas é, portanto, sem continuidade, sem uma
boa planificação e, muitas vezes, fora da realidade dos interesses mais sentidos pelas grandes massas
femininas.
Em grande parte é ainda falsa a nossa compreensão da política de frente única. Orientamo-nos quase que
exclusivamente no sentido de ganhar tais ou quais personalidades, deixamos para segundo plano o trabalho
diário e paciente junto às vastas camadas de mulheres, sejam elas simples donas-de-casa, operárias ou
camponesas, comerciarias ou funcionárias públicas.
A luta contra a carestia de vida, por exemplo, que é, sem dúvida, o maior fator de mobilização atual das
mulheres, não tem sido por nós devidamente orientada e dirigida. As palavras-de-ordem que apresentamos
são quase sempre gerais, sem concretizar o que queremos em cada momento e em cada lugar.
O trabalho feminino de massas exige que levemos em conta as características próprias desse trabalho,
usando métodos específicos, bem femininos. Precisamos adotar um modo próprio de nos dirigirmos as massas
de mulheres, de falar e escrever de maneira compreensível ao maior número de mulheres a fim de mais
facilmente ganharmos sua confiança e sua apoio ativo.
O informe do camarada Prestes assinala que o trabalho feminino de massas é uma tarefa de todo o
Partido. Que este vitorioso IV Congresso signifique para o nosso Partido o fim da subestimação do trabalho
feminino de massas; que se inicie uma nova vida em todo o Partido na aplicação do Programa que tem em
vista ganhar as grandes massas femininas; que todo o Partido cuide de fato da criação de novas e novas
organizações femininas de massas em todo o país. Onde existir Partido deverá haver obrigatoriamente
organização feminina de massas.
Camaradas! As mulheres comunistas são servidoras do povo, são fiéis e disciplinados soldados do nosso
glorioso Partido.
Estamos dispostas a cumprir sem vacilações as resoluções deste histórico Congresso.
Viva o IV Congresso do Partido Comunista do Brasil!
Longa vida e muita saúde ao querido camarada Prestes!
MARIA ARAGÃO (1910-1991)
O ideal socialista continuará a germinar no coração dos homens enquanto houver injustiça, desigualdade,
discriminação, miséria, analfabetismo, doença e fome que justifique a luta por uma sociedade libertaria e
fraterna, sonho que acompanha a humanidade desde seus primórdios e viverá conosco até o instante final da
nossa civilização. (Maria Aragão)

a. Documentário Maria Aragão e a Organização Popular. Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=_x0q1A6HiPw
b. NETO, Euclides Moreira. Maria por Maria. A saga da besta fera nos porões do cárcere e da ditadura.
Depoimento Autobiográfico da Médica e Militante Comunista Maria José Aragão. São Luiz, MA:
EDUFMA, 2017. Disponível em: http://www.edufma.ufma.br/wp-
content/uploads/woocommerce_uploads/2017/03/Maria-por-Maria-Euclides-ebook-com-ISBN.pdf .
Acesso em 15.05.2020.

NISE DA SILVEIRA (1905-1999)


Sugestão de Filme
Nise, o coração da Loucura (Roberto Berliner, 2016). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=bOrymJuwVvI

DIRCE MACHADO DA SILVA (Trombas e Formoso) (1934)


Sugestão:
Depoimento de Dirce Machado da Silva na Comissão da Verdade. Goiânia, GO, 2014). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=gUWi88-45xo

RESOLUÇÃO GERAL DA I CONFERÊNCIA NACIONAL DE TRABALHADORAS (RJ, 18 a 20 de


maio de 1956)
A Conferência Nacional de Trabalhadoras, reunida de 18 a 20 de maio de 1956, no Rio de Janeiro, constituiu
um importante acontecimento na vida d movimento sindical brasileiro. Este encontro marcou para as
trabalhadoras brasileiras o início de uma nova fase no caminho da unidade e organização da luta pela aplicação
dos direitos já conquistados e pela conquista de novas reivindicações que venham aliviar as atuais condições
de vida e trabalho, dando-lhes uma situação mais humana ao lado de todos os trabalhadores.
A Conferência Nacional de Trabalhadores, após, amplos debates, concluiu que, para atingir os objetivos que
se propõe, torna-se necessária a existência de um poderoso movimento sindical, onde os homens e mulheres
estejam unidas na luta pela conquista de uma vida ais justa e mais feliz.
A Conferência Nacional de Trabalhadoras conclama a todas aas trabalhadoras da cidade e do campo a unirem
seus esforços e lutarem juntas pela conquista de suas mais ardentes e imediatas aspirações expressas nas
seguintes reivindicações:
- Efetiva aplicação do princípio “a trabalho igual, salário igual” já assegurado pela constituição federal;
- Aumento dos níveis de salário mínimo, garantia de seu pagamento e reajustamento geral dos salários.
- Contra a assiduidade (lei 605) e contra a intensificação do ritmo de trabalho e outras formas de
superexploração adotadas nas empresas a pretexto de aumento da produtividade;
- Pagamento das taxas de insalubridade;
- Unidade e liberdade sindical;
- Extinção do fundo social e sindical e revogação do decreto 9.070;
- Pagamento da dívida do Governo aos Institutos e Caixas. Entrega da direção dos mesmos aos trabalhadores;
- Respeito às leis de proteção à maternidade; apoiar o projeto Aurélio Viana, que visa garantir a estabilidade
à mulher gestante. Pagamento do auxílio maternidade à base de um mês de salário mínimo vigente;
- Aposentadoria integral aos 25 anos de serviço ou 45 de idade;
- Instalação de creches e casas maternais nos locais de trabalho e nas grandes concentrações de resistências de
famílias trabalhadoras;
- Extensão dos direitos trabalhistas às trabalhadoras do campo;
- Desenvolver uma grande campanha contra a carestia da vida;
- Organização de associações profissionais para as trabalhadoras a domicilio e as empregadas domésticos.
Organização de departamentos femininos em todas as organizações profissionais. Lançamento, através de
organizações sindicais, de uma ampla campanha de sindicalização de mulheres. Participação cada vez maior,
das mulheres na direção das organizações sindicais.

As delegadas à Conferência Nacional de Trabalhadoras, sentindo sua responsabilidade de elementos ativos


que contribuem para a construção de nossa Pátria, reafirmam sua vontade de que seja integralmente respeitada
a Constituição da República e eliminadas todas as discriminações que visam a dividir os trabalhadores e o
povo, assegurando a grande família brasileira um clima de tranquilidade sem ódios ou ressentimentos.
As trabalhadoras presentes a esta Conferência reafirmam também sua vontade de que o Governo brasileiro
realize uma política de paz e amizade com todos os povos, que permita assegurar maiores verbas para a
assistência social, para a melhoria dos transportes e de habitação dos trabalhadores.
A Conferência Nacional de Trabalhadoras, ao tomar estas Resoluções, está certa de que expressa as mais justas
reivindicações das trabalhadoras e que unidas e organizadas em suas associações conquistarão uma vida mais
feliz e mais justa para si e seus filhos.

Mensagem às trabalhadoras
Uniram-se em bela e entusiástica Conferência Nacional de Trabalhadoras irmãs de todo o Brasil representando
milhões de mulheres, que contribuem cotidianamente para a riqueza economia da pátria tão querida;
trabalhadoras que sobraçam os feixes de cana, levantam as cestas de cereais nas árduas apanhas de café,
uniram suas vozes às das operárias, que muitas vezes se ocultam atrás dos teares para trocar as pobres vestes
do término de sua tarefa diária, àquelas que, manejando os tornos, concorrem para o progresso da metalurgia
nacional; às empregadas domesticas, bancárias e funcionárias públicas. Todas, em harmonia, bancárias e
funcionárias públicas. Todas em harmonia de pensamento e ação, estiveram juntas no magnífico encontro,
buscando os meios indispensáveis para a conquistas de suas aspirações.
E porque se uniram em Conferência as trabalhadoras do Brasil? Porque se eleva uma consciência nova de luta
das mulheres que sofrem duras discriminações, que padecem pelo respeito aos direitos consagrados em leis.
Uniram-se e abraçaram-se com o elevado sentimento de estender uma ação construtiva por um risonho e feliz
futuro, chamando para essa luta todas as trabalhadoras do Brasil que desejam a efetivação de seus direitos e
reclamam uma participação condigna na vida econômica e social do país.
É em nome dessa aspiração que a Conferencia se dirige a todas as que vivem do seu próprio salário, de seu
trabalho, conclamando-se à unidade, à organização pelas menores reivindicações que lhes são peculiares e as
que dizem respeito aos trabalhadores e ao povo em geral. Unidade e organização nos sindicatos, nas
associações, nos departamentos femininos, nas comissões e nos conselhos sindicais; unidade pela aplicação
efetiva e ampliação das leis que beneficiam as trabalhadoras da cidade e sua extensão às trabalhadoras do
campo e a domicilio. Isso representará uma feliz realidade para as trabalhadoras de nossa pátria.
A este apelo juntamos nosso apoio caloroso e unanime à Conferência Mundial de Trabalhadoras, a cuja
iniciativa devemos este encontro fraternal, que esperamos se repita futuramente em defesa dos direitos das
trabalhadoras e de suas crianças, porque foi este um dos objetivos da vitoriosa Conferência Nacional de
Trabalhadores.

AS MULHERES E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA36


(Ana Montenegro, 1960)
Trecho retirado da obra: PERICÁS, Luiz Bernardo. Os Caminhos da Revolução Brasileira. SP: Boitempo, agosto de 2019.

A população feminina no Brasil representa 51% da população geral. Após o término da Primeira Guerra,
começaram as mulher, nos granes centros urbanos, por razões econômicas que mais tarde criaram as rações
sociais, a participar da produção nacional em diversos setores de atividade em que pesem os preconceitos, as
discriminações , a mentalidade estreita da sociedade, resultante das relações de produção. Temos hoje na
indústria têxtil, a de maior volume no país, 65% de mulheres. Mais da metade dos trabalhadores em fumo é
constituída de mulheres. Na indústria da confecção, o maior número é de mulheres. Encontramos 48% de

36
Publicado originalmente sob o título “As Teses esqueceram o trabalho entre as mulheres”. Ver Ana Montenegro, “As teses
esqueceram o trabalho das mulheres, Novos Rumos, Rio de Janeiro, 1-11 ago. 1960. P. 7 (N.O.)
mulheres no funcionalismo público. Nas autarquias, esse número sob para 65%. Na indústria metalúrgica, de
17% há dez anos, o percentual passou a 35%. Até na diplomacia as mulheres conseguiram e ingressar. E, se é
vedado o ingresso de mulheres no Banco do Brasil, os demais estabelecimentos bancários as empregam aos
milhares. Seria longo enumerar a participação das mulheres nos diversos setores de atividade. Embora as
estatísticas sejam omissas quanto ao número de mulheres que trabalham no campo, porque são arroladas no
contrato de trabalho do marido como animais domésticos, esse número é considerável, relativamente aos 70%
da população brasileira que vegeta pelo interior. De tal forma, as mulheres se integraram produtivamente à
sociedade que o próprio Código Civil, votado em 1912, com todos os ranços e prejuízos do século passado,
tornou-se obsoleto no que tange à autorização do marido para ao trabalho da esposa. Sabemos que toda essa
integração foi determinada por fatores de ordem econômica, como o fora antes na Inglaterra, quando a
Revolução Industrial; pelas necessidades sempre mais crescentes nos lares, o que não exclui o mérito da
vontade poderosa da mulher brasileira e o seu empenho diário de ver no home um companheiro para as horas
tristes e alegres, para juntos administrarem a família, e não um dono, m tutor que a sustenta. A participação
ativa da mulher nos variados setores da produção acompanhou e ajudou o desenvolvimento industrial
verificado a partir da década de 1950. Esse é o quadro numérico.
Poderia dizer-se que os problemas da mulher são os mesmos dos homens; precisam das coisas essenciais e
que precisam os homens para um bem estar social relativo às necessidades humanas no qual se enquadrariam
e viveriam, pelo qual lutaria ombro a ombro com os homens. Seria essa uma forma muito simples, mas também
muito oportunista, de justificar a ausência nas esses ora em debate da situação do elemento feminino na
sociedade brasileira e do trabalho entre as várias camadas de mulheres, que representam, numericamente,
como já foi dito, mais da metade dessa mesma sociedade. Seria não querer levar em conta, na tática traçada
para o trabalho entre as massas, as contradições existentes entre essa capacidade produtiva das mulheres e as
suas condições de vida. No tocante às condições de vida, no regime capitalista, as mulheres são
particularmente exploradas. Aqui no Brasil, em determinado período, em que é estudada a atividade por sexo,
dos 14 até os 23 anos, a população ativa feminina supera a população ativa masculina, o que corresponde ao
emprego da mão de obra da mulher menor de idade por baixos salários, significando maiores lucros para os
patrões. Ao sair da fábrica, para o escritório, para a escola, para a jornada diária de trabalho fora do lar, a
mulher não se livra da jornada diária do pesadelo trabalho doméstico. Assim tem condições de vida diferentes,
mais difíceis, mais dolorosas que o homem. E diz-se, então falsamente, levianamente, que a mulher brasileira
tem menos espirito associativo do que o homem O fato é que a mulher tem menos condições de participar de
uma associação, de um sindicato, do que o homem. Logo, a forma de reuni-la, de associa-la deve ser diferente
da usada para o homem, em cuja forma não podem deixar de ser levada em conta as duas jornadas de trabalho
diário. As mulheres, segundo as estatísticas publicadas pelo IAPI, só recebem 65% dos salários pagos aos
homens. Como se vê, são mais exploradas. Na consolidação das leis do trabalho, há um capítulo especial sobre
a proteção do trabalho da mulher. Mas as leis são cumpridas? Existem creches? Existe condições de higiene
indispensáveis ao trabalho da mulher na empresa? A maioria nem sabe desses direitos E não sabem porque as
associações de classe não se empenham em esclarecê-la, em procurar formas de organizá-las de acordo com
as suas condições particulares, não incluem os seus problemas na ordem do dia das assembleias, por
subestimação. Essa subestimação estranhamente encontra-se até nas teses apresentadas pela vanguarda do
proletariado. Passou essa vanguarda daquela extrema falsidade de colocar o trabalho feminino como centro
fundamental do trabalho de massas ao abandono completo e se justificação esse trabalho, o que indica uma
necessidade urgente de rever, levando em consideração a população feminina, a realidade social brasileira no
tocante às suas formas de organização. A posição assumida nas teses, ou melhor, a ausência de qualquer
posição é muito cômoda, mas errada, falsa e prejudicial, tanto do ponto de vista ideológico como político e
prático, no trabalho entre as massas.
Nos setores mais reacionários, mais retrógrados, por cálculos ou não, as mulheres se organizam. São
associações religiosas. São associações de caridade. Em todos os partidos políticos, em todos os comitês
eleitorais, em todos os movimentos nas igrejas de todas as religiões, há um grupo de mulheres organizando à
parte, um departamento, uma ala. Será por acaso? Fala-se muito em realidade e na verdade é preciso faze-lo.
É preciso acabar com as falsidades, os baluartismos, as conclusões sem fundamento, as afirmações impróprias
a determinadas situações com as palavras de ordem retumbantes e impraticáveis, com a cegueira diante de
fatos políticos, como o desenvolvimento econômico do país. Dentro dessa realidade, porém, estão as mulheres,
que trabalham, sofrem e lutam, junto com os homens, mas em condições sociais diferentes. Como será possível
desconhecer isso? Mesmo dos países socialistas, as mulheres que se libertaram, quando se deu a libertação
econômica, política e social daqueles países, tem as suas publicações especificas, os seus comitês, as suas
organizações femininas. Como os nossos pseudorealistas explicam isso? Ouvi dizer que as teses estavam
muito longas, e a inclusão do trabalho entre as mulheres iria alonga-las ainda mais. E assim, por incrível que
pareça, por causa de mais uma das laudas de papel foi esquecida mais da metade da população do país. A
desculpa é uma das menos aceitáveis que se possa dar e não corresponde à realidade ideológica dos fatos.
Pergunta-se das experiências mesmo negativas de vários anos, do trabalho falso à base de informes falsos
produzidos de documentos estrangeiros, da organização de um grupo permanente de turismo para todos os
congressos no exterior, que não representavam nem as mulheres ativas , nem as mulheres simples, capazes de
sentir o problemas das grandes massas femininas, não poderia sobrar, nas teses nem uma pequena e modesta
autocritica?
Não tive a pretensão de discutir aqui as teses na sua essência econômica, que determina o comportamento
político e social dos comunistas. Mas, na pratica, estamos vendo e sentindo a justeza das mesmas. Será, ainda,
a pratica, e não certas afirmações, que dirá o tempo de validade do documento. Penso que não é um documento
completo, pelos motivos que já expus e por outros que não estou discutindo, no momento. Mas a vida superará
todas as falhas, mesmo a falha do desconhecimento das camadas femininas No entanto, é de se lamentar essa
falha que põe a nu a debilidade do movimento de vanguarda, que ainda, conserva dentro de si os resíduos de
uma sociedade feudal, em que a mulher é colocada em situação inferior e de cuja situação se aproveita o
imperialismo norte-americano, pois lhe interessa conservar a mulher na indiferença e na ignorância,
impedindo-a de influenciar os seus familiares na luta pelas causas de independência nacional, impedindo-a de
participar dessas lutas. É bom em realidade quantitativa e qualitativa da mulher na sociedade brasileira, antes
que seja os prejuízos políticos sem maiores.
As Mulheres na luta pelo socialismo no período da
Ditadura Civil Militar de 1964

IARA IAVELBERG (1944-1971)


Sugestão de Filme:
Em Busca de Iara (Flávio Frederico, 2014): Sobre a trajetória de Iara Iavelberg que abandonou a família para
investir na luta armada durante a ditadura militar. Atuante no movimento estudantil de 1960.

CLARA CHARF (1925)


Sugestão de Filme:
Clara Charf, a companheira de Marighella. (Documentário dirigido por Ivan Santos, TV Câmara, 2003.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-K7JrCCdeH0
Cara Charf. Programa Provocações (TV Cultura, 2011). Disponível em:
https://tvcultura.com.br/videos/61595_provocacoes-clara-charf-2011.html

MULHERES DO ARAGUAIA
Sugestão de Filmes:
a. Camponeses do Araguaia. A Guerrilha vista por dentro. (Vandré Fernandes, 2010, 73min).
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UhpO4I2O0zs
b. Araguaia. (Documentário de Dagmar Talga, 2015). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=oRw8NXSehcU

A LIBERTAÇÃO DA MULHER E A LUTA DE CLASSES


(Vânia Bambirra, Chile, 15 de fevereiro de 1972)
In: Jornal Punto Final. Planteamientos Ano V, n. 151, 15 de fevereiro de 1972
Tradução do Espanhol por Andrea Francine Batista

Este artigo é uma síntese de uma conversa realizada por convite da Federação de Estudantes da Universidade
de Concepción, em outubro de 1971.
A maior parte das considerações aqui feitas, pertencem a um consenso dos que tratam de enfocar o problema
desde uma perspectiva de esquerda. Entretanto, ainda assim, muito poucos são os que estão se preocupada até
agora no Chile de tratar de uma mais ampla divulgação, de estimular a discussão e de tratar de aprofundar a
problemática da situação da mulher no processo revolucionário.
É por isto que, considerando a relevância do tema na situação atual que o vive o país, atendemos ao pedido de
Punto Final, ocupando novamente suas páginas com o assunto “mulher”, ainda que não sejamos especialistas
nele.
1. A concepção da burguesia chilena expressada em sua imprensa:
O sistema capitalista, tanto nos países desenvolvidos como nos dependentes, tem sido incapaz de promover
uma efetiva “libertação da mulher”. E se bem este sistema tem libertado a mulher do jugo feudal, a tem
submetido a novas formas de dominação.
No capitalismo têm-se pretendido superar a milenária família patriarcal. Mas na família de casal que a
substituiu, a mulher também tem encontrado um posto subalterno; tem ficado relegada aos trabalhos
domésticos esgotantes e sem remuneração; tem sido tratada de incorpora-la ao processo produtivo, as a
incorporação tem sido complementária e restringido, e pelo geral em condições mais espoliativas. Em todo o
caso, há resultado da dupla exploração de seu trabalho, por quanto o trabalho de fora da casa se soma às
domesticas. Finalmente, a redução da mulher a categoria de objeto nunca tem sido tão utilizada por um sistema
como no capitalista, apesar de todas as conquistas que se tem logrado como são alguns direitos jurídicos.
É por isto que os defensores do sistema burguês não têm autoridade política, social, nem moral para presumir
o título de defensores da mulher enquanto categoria social.
É também por isto que o tema “libertação da mulher” tem sido colocado tão de moda nos Estados Unidos, no
Canadá e em vários países europeus, e já começando – pouco a pouco – a colocar-se na ordem do dia em
países como o Chile.
A esquerda até agora, pelo geral, timidamente preocupada pelo problema, se dá conta de sua gravidade cada
vez que fica claro o conservadorismo de vastos setores femininos, o que tem sido demonstrado na “marcha
das Panelas” e uma vez mais reafirmado os resultados das últimas eleições de 16 de janeiro.
Mas a direita também se preocupa com o tema e nos últimos meses tem dedicado destacada atenção a ele
através de sua imprensa.
Exemplo muito expressivo disto tem sido o suplemento do diário “Em Mercúrio” (30-06-71) que aparece com
o grande Título: “Libertação da Mulher”. Neste, tem sio tratado de definir sua posição, ou seja, a posição da
burguesia chilena sobre o problema, que devido a sua falta de perspectiva histórica não é sequer capaz de
desenvolver uma concepção mais progressistas e mais efetivamente reformista, que estivera de acordo com
os interesses da expansão do sistema.
Nesse suplemento aparece um “editorialzinho” assinado por Ada Mongillo; sem nenhuma dúvida as ideias
correspondem não somente a que as escreve; fundamentalmente expressam o pensamento do jornal que é um
genuíno representante de uma classe.
Pare grotesco a primeira leitura, mas sem dúvida importante como exposição de uma concepção ideológica
de um sistema explorador que, sendo incapaz de libertar a mulher se apega a seus valores decadentes para
encontrar neles a justificativa da manutenção de uma situação opressiva.
É por isto que o vamos citar e vamos tomar em conta, como uma boa ilustração do que entende a burguesia
chilena pela “libertação da mulher”.
Nele se começa levantando que “dentro de alguns anos, quando os historiadores falem de nossa época,
concederão grande importância a conquista do espaço, mas não há dúvida que também ressaltarão algo que é
evidente no mundo de home: a libertação da mulher” (...)
A mulher “depois de ter recuperado um atraso secular em pouco tempo (?) conseguiu superar o homem em
alguns domínios.
Aqui se parte de algo que realmente é evidente: que nossa época será a de libertação a mulher (e o que será
tão mais rápido quanto mais seja a destruição do capitalismo...) Mas se trata de estimular a competência entre
os dois sexos? Aqui se insinua um certo flerte com uma perspectiva feminista típica, que está sendo felizmente
superada pelos movimentos mais sérios para a libertação da mulher.
No mesmo “editorialzinho” se fala também da ignorância política da mulher e de seus deveres patrióticos, se
faz referência à passividade e de repente se entra em um “outro tema e atualidade”: o do pressuposto
doméstico. Se levanta que esta é uma “responsabilidade que numa grande maioria de casos recai sobre a
mulher. Isto lhe exige uma maior conhecimento e formação econômica e financeira. Parece praticamente
impossível equilibrar um pressuposto se não se sabe analisar as possibilidades e realizar cálculos exatos e
importantes. O imprevisível, como o imprevisto, põem em litigio a gestão e obrigam a improvisar. E não é
raro que seja a mulher a que se dedique a praticar a ginástica financeira com todos os riscos que ela envolve.
Naturalmente essas considerações pareceriam incrivelmente cínicas se não se tivesse em conta que o diário
no qual este se escreve é dirigido essencialmente à pequena burguesia e a burguesia (ainda que esta não tem
que fazer ginástica financeira”...). Mas, sendo assim... Seria grosseiro pretender que estas mulheres, operárias,
camponesas, de classes médias assalariadas , que compõe a grande maioria, estavam a adquirir maiores
conhecimentos econômicos e financeiros com o objetivo de controlar suas restritas despesas domésticas e suas
contas bancárias inexistentes!
O problema do presupuesto doméstico das classes exploradas não é imprevisível e do imprevisto senão de sua
estreiteza, produto do sistema de exploração da mais valia, que faz que este seja insuficiente.
Aqui fica claro a tal incapacidade burguesa de apresentar sequer uma concepção modernizante com respeito
à situação da mulher, desviando o assunto para uma temática que não é a relevante. Aqui fica claro que por
mais que se empenhe o sistema capitalista, nada mais tem que oferecer a esta categoria social superexplorada.
Ao invés de falar da dupla exploração da mulher quando trabalha também fora da casa, se fala da dupla missão
que a mulher se impôs (outorgando desta forma ao sexo feminino a distinção de masoquista...). E se reconhece
que esta dupla missão “não deixa de compilicar-la em muitos aspectos” (SIC!) E tanto, que há vezes em que
se pergunta se esta LIBERTAÇÃO (?) conseguida a força de tantos sacrifícios, valia a pena...”.
Então se diz:
“E é aqui onde deve entrar e cena a chamada “imprensa feminina”, que tem obrigação de ajudar às mulheres
a adaptar-se constantemente à evolução do mundo moderno, já que exige conhecimentos de especialista que
transbordam os ensinamentos maternos” (SIC!)
A preocupação do editorial vai deixando de ser somente com as contas bancárias, mas também se estende à
preparação: par empregar os aparatos cada vez mais complexos, os produtos de limpeza, os alientos atuais, se
necessita possuir uma série de conhecimentos”.
Se termina dizendo que “a imprensa feminina e familiar de amanhã, ao acolher em suas páginas todos os
temas, abrirá realmente horizontes novos às mulheres, e sobretudo às donas de casa que saem muito pouco do
estreito marco de sua casa”.
Por isto se percebe claramente que a “libertação da mulher” para burguesia consiste em mantê-la como “dona
de casa” no “estreito marco de sua casa” e que a imprensa feminina burguesa tratará de abrir “ horizontes
novos” acolhendo em suas páginas “todos os temas” que são de interesse para manter a situação da mulher tal
qual tratando de “modernizá-la” em seus quefazeres domésticos. Quais são estes temas?” Basta recorrer as
folhas do mesmo suplemente feminino de “El Mercúrio”:
1ª página: Horóscopos;
2ª página: A moda para o próximo inverno;
3ª página: Prendas íntimas modernas e refinadas;
4ª página: Para conservar um abrigo de peles; Novidades da moda, etc.;
5ª página: Perfume e maquiagem através do tempo;
6ª página: Ritual de beleza;
7ª página: Como imaginam as crianças o conforto; Lesões cerebrais e aprendizagens;
8ª página: O novo e moderno enxoval de recém-nascido;
9ª página: Os quatro grupos de alimentos; Frango ao limão;
10ª página: Que fazer com os restos de papel mural; Decoração; As Plantas;
11ª página: O indispensável e agradável banho diário.
Estes são os assuntos tratados em um suplemento que vem sob o título “Libertação da Mulher”!... Estes são
os temas que a burguesia considera que devem interessar à mulher “. Estes são os temas da imprensa feminina”
E estes são os temas mais relevantes no não somente da imprensa feminina do “El Mercúrio”, senão também
os temas de todas as revistas femininas que existem no Chile. (E no geral este tipo de imprensa feminina é
predominante em todos os países capitalistas). Estes são os temas que tratam as revistas como “Paula”,
“Vanidades”, etc. ademais de que há outros muito comuns como por exemplo a vida dos atores do cinema que
buscam impregnar o mundo feminino das pautas de conduta dos que “venceram na vida”, os “famosos”, o que
não tem nada que ver com a realidade cotidiana de uma mulher comum como é a grande maioria.
Ademais há outros temas, como são os consultórios sentimentais, ou as seções pseudo-instrutivas sobre as
relações entre os sexos, que busca, dar normas de conduta para a mulheres com o objeto de fazer mais
suportável sua condição de objeto. Em geral se baseiam no “senso comum”, no sentido pragmático de adaptar-
se às circunstancias em que se vive, sem jamais questioná-las. Há sempre um tom bastante cínico nos
“conselhos” da imprensa feminina.
Sua característica fundamental é que ela se destina a problemática de mulher burguesa ou pequeno-burguesa.
À problemática da “última moda”, das receitas culinárias, dos papéis murais, ou dos pequenos dramas
rotineiros e medíocres dos que tem tempo para vivê-los. Mas ainda assim, isto não quer dizer que esta
“imprensa feminina” não chegue às mulheres da classe trabalhadora. Cumpre a função de impor a elas os
valores de classes dominantes, de fazer que elas aspirem como ideal da vida ao ideal burguês. Mas seus efeitos
são necessariamente distintos. De que serve saber “como cuidar um abrigo de peles”, se nunca o teve? De que
serve saber como poderia maquiar-se, se não tem dinheiro para cosméticos? E que serve a “preparação para
empregar os aparatos cada vez mais complexos” se na casa trabalhadora e camponesa estes aparatos não
chegaram?
Na mulher trabalhadora, esta imprensa feminina deve provocar frustração, indignação e fazer germinar a
semente da rebeldia.
Nas jovens filhas dos trabalhadores, esta imprensa é um estímulo à prostituição, ao tratar de buscar a ilusão
conseguir por este meio ter acesso aos produtos que a sociedade de consumo oferece. É obvio que por esse
meio nunca conseguem, mas uma vez que se empenham nisto é praticamente retroceder.
A imprensa feminina é uma arma muito eficiente da dominação burguesa. Através dela se contribui
efetivamente a manter a mulher de fato como um ser inferior, se logra restringi-la ao pequeno mundo das
banalidades, e desta forma ajuda a mantê-la como um objeto passivo e por vez como um agente ativo de
dominação burguesa.
É triste observar que esta imprensa é admirada também pelos setores femininos que tem um maior acesso à
cultura, como por exemplo o caso de universitárias, que no geral, tudo assim o indica, nem sequer chegam a
ter uma atitude crítica frente a ela. Não nos atreveríamos a dizer o mesmo da grande maioria das militantes
políticas, mas não temos muitos elementos para ser muito otimistas, sobretudo frente à inexistência de outro
tipo de imprensa feminina.

2. A concepção proletária e as tarefas do momento:


De acordo com a concepção marxista, a única solução para terminar definitivamente com a exploração da
mulher é a industrialização da economia doméstica. Isto é impossível sob o capitalismo e somente pode ser
logrado completamente numa sociedade comunista. Porque a resolução de tal problema supõe uma economia
altamente planificada, supõe uma nova orientação no processo de produção e de distribuição (como por
exemplo a produção prioritária não de artigos individuais para cada casa – mesmo que naturalmente isto se
verificará em várias linhas – senão em especial para atender um conjunto muito mais amplo de necessidades
públicas, tais como as lavanderias, os casinos, etc.). Supõe ademais uma revolução urbanística e que
arquitetônica onde, por exemplo, seja valorizado nos conjuntos habitacionais muito mais o espaço para o
espalhamento e para as atividades culturais, que para as atividades de serviços domésticos que passam a ser
atendidos socialmente e só secundariamente no ambiente familiar.
É necessário, por tanto, ter claro em toda sua extensão e complexidade do problema, para que se possa traçar
metas a curto, médio e largo prazo, no sentido de liberar a mulher.
No Chile não se alcançou ainda o socialismo e o comunismo, é, sem dúvida, um ideal distante. Se trata, pois,
de pôr na ordem do dia o que é possível lograr a curto e a médio prazo em perder de vista as metas mais
avançadas.
A curto prazo se deveria plantear as seguintes metas:
1º A abolição imediata de todas as leis que são opressivas para a mulher.
No geral as leis relacionadas com a mulher têm duas características: ou são diretamente opressivas, no sentido
que lhe reservam uma situação subjugada e de objeto, ou são leis que as protegem, partindo do suposto que é
um ser débil, inferior, indefeso, em suma, de novo um objeto.
Se trata, pois, de exigir a plena igualdade jurídica e de lograr a legalização plena de uma série de direitos,
como por exemplo, entre outros, o do aborto, divórcio (que incluso interessa também ao homem), etc. Tais
direitos, ademais, já tem sido logrados em muitos países capitalistas.
É necessário ter claro que a resolução legal destes problemas é sempre parcial, limitada, formal. Entretanto é
indubitável que significa um grande passo adiante e que tem sido alcançado ao custo de muitas lutas.
Como afirmava Lenin depois da vitória da Revolução Russa, em 1919, “nenhum partido democrático do
mundo, em nenhuma das repúblicas burguesas mais avançadas, tem sido, neste aspecto, em dezenas de anos
nem a centésima parte do que temos feito nós no primeiro ano de nosso poder. Não temos deixado pedra sobre
pedra no sentido literal da palavra, das vergonhosas leis que estabeleciam a inferioridade jurídica da mulher,
que punham obstáculos ao divórcio e exigiam para ele requisitos odiosos, que proclamavam a ilegitimidade
dos filhos naturais e a investigação a paternidade, etc. Em todos os países civilizados, subsistem numerosos
vestígios destas leis, para vergonha da burguesia e do capitalismo, Temos mil vezes razão para sentir-nos
orgulhosos do que temos realizado neste sentido” (‘Uma Grande Iniciativa´ – Obras Escolhidas, T.II, pp 229
A 254 – Ed. Progresso, Moscou, 1960).
Isto é tarefa da Unidade Popular, que se bem já tem iniciado a enfrentar a transformação jurídica no que diz
relação com a mulher, o tem feito até agora de forma muito tímida e lenta. Se trata, pois de impulsionar sua
resolução com muito mais rapidez e atrevimento, os partidos de centro e de direita, que se arrogam o direito
de ser os defensores da mulher e que encontram no setor feminino grande parte de seu respaldo, teriam que ir
junto da esquerda, ou desmascara-se...
2º Que se inicia a implementar de forma efetiva uma série de medidas, tais como a criação de uma ampla rede
de serviços públicos, as creches, escolas com semi-internatos, lavanderias, restaurantes coletivos, etc.
Estes são os passos iniciais para que a responsabilidade no serviço doméstico e com o cuidado das crianças
vão passando a ser sobretudo uma responsabilidade social e só secundariamente da família e da mulher. Isto
é muito importante porque:
a. diminui a carga de trabalho doméstico;
b. cria as condições para a eliminação da situação de servidão das empregadas domesticas;
c. é um alívio no pressuposto doméstico;
d. oferece à criança uma educação mais ampla, mais completa e socializada.
As escolas com semi-internato, por exemplo, ademais de oferecer à criança alimentação, sistema de transporte,
libera mão de obra feminina para o trabalho produtivo sem que a mulher tenha que submeter-se a estas tarefas
que seriam cumpridas pelo serviço social. O ideal inclusive seria que as crianças pudessem dormir nas escolas
(internatos) quando os pais tivessem que sair na noite para reuniões ou atividades culturais, etc. Nenhum mal
faz às crianças ter que ficar na escola algumas vezes, sob o cuidado de pessoas especializadas. Muito melhor
que ter que submeter-se às frustrações das mães que são eternas prisioneiras da casa ou aos cuidados das
empregadas domesticas que por ser tão exploradas e ademais na maioria dos casos por não ter nenhuma
formação especial no cuidado de crianças, em muitos casos não os podem cuidar bem.
É óbvio que a reação direitista frente às afirmações anteriores gritará: Querem destruir a família”!
Mas, a que família se referem os burgueses quando tão veemente tratam de defendê-la?
Claro que não é a família proletária! Se referem à família burguesa, pois esta sim tem problemas, mas de outro
tipo..
Há que distinguir a qual família se referem, porque existem diversos tipos de família: a burguesa, a pequeno-
burguesa, a proletária. Não são todas do mesmo tipo. São famílias que correspondem às classes respectivas.
Claro é que a imagem pública, a imagem que se conhece a família, seus valores fundamentais, são os da
família burguesa. “Os valores dominantes são os valores da classe dominante”. A burguesia trata de impor sua
imagem ao conjunto da sociedade para que as classes dominadas, em particular a classe trabalhadora, ao olhar
para si mesmo, não encontrem senão a face do opressor e desta forma se possa identificar com ele.
Sem a pretensão de fazer uma análise detendo-se nas características fundamentais que distinguem as várias
classes de famílias, imaginemo-nos por um momento três tipos básicos de famílias, tratando de destacar nelas
o papel da mulher.
A família burguesa é a que se reúne ao redor da mesa para comer, feliz, tranquila, descansada, com empregadas
servindo-lhes. Pode pagar quantos empregados necessita (cozinheira, babá, arrumador, jardineiro, chofer,
etc.). Os filhos fortes, bem nutridos, limpos, educados nos melhores colégios, etc., não necessitam nenhuma
atenção pública especial.
A família pequeno burguesa pretende viver dentro dos padrões burgueses. Mas não pode, A mulher vive no
drama de ter que manter a aparência da casa ao estilo burguês, mas como geralmente quando pode ter
empregada é somente uma, tem quem por um lado, explorar esta intensivamente (o pequeno burguês
geralmente é pior patrão que o burguês), e por outro lado, tem que trabalhar muito na casa. Quando trabalha
fora, seu ritmo de trabalho é pois, intenso. A família pequeno burguesa tem que economizar
desmesuradamente para chegar a ter sua casinha, carrinho de bebe, sua televisão, sua geladeira, aparatos todos
que caracterizam a vida moderna. Tem que vestir-se bem, veranear, manter os filhos em boas escolas, etc. O
pouco tempo que lhe sobra o emprega em colocar-se bonita, com cabeleireiros, as lojas e costureiras. Vivem
em função de seu pequeno mundo fechado, medíocre, estéril.
Como os ideais de sua classe são os de ascensão social, o pequeno burguês aspira transforma-se em burguês.
No geral, na mulher a aspiração de afirmação e realização social se cumpre através do marido. Ela se realiza
através dele quando, por exemplo, este logra um ascenso ou maior prestigio profissional, etc.
Como as aspirações estão voltadas para cima, ou seja, até chegar a ser parte da classe dominante, isto faz que
pequena burguesia seja temerosa a perder o que já logrou e o que acredita que pode lograr. E enquanto teme
proletarizar-se – o que objetivamente tende a passar – se torna cada vez mais conservadora e apegada ao seu
status.
Na mulher pequeno burguesa estas características se mostram na forma nítida: sua posição de dependência
econômica, do esposo, sua incapacidade profissional, a faz temerosa às mudanças da estrutura social e a torna
vulnerável a sua utilização pelos movimentos direitistas.
E isto explica o desenvolvimento de mulheres pequeno burguesas que se dirigiram até a triste “Marcha das
panelas” em Santiago.
A família proletária te uma problemática radicalmente distinta. O trabalhador chega esgotado em casa, a
mulher que esteve todo o dia trabalhando (em casa ou fora dela) segue trabalhando até completar o trabalho
doméstico, que somente termina no avançado da noite. Os filhos mal alimentados, mal educados, mal vestidos,
a exercer alguma profissão, sem que tivesse condições de optar por ela. As meninas vão aprendendo desde
cedo os quefazeres domésticos, para cumprir o destina de donas de casa. Mas a grande parte de estes casos,
nem sequer chegam a ser donas de casa. Suas opções são muito curtas: operárias, empregadas domésticas ou
prostitutas. Nos dois últimos acasos, nem sequer podem ter o direito de procriar. Se são empregadas
domesticas, ter um filho é um drama. São rechaçadas pelas patroas e então são mais exploradas ainda, pois se
pagam salários mais baixos. Os abortos se transformam uma rotina em suas vidas.
A existência de empregadas domésticas e da prostituição são dois tipos de problemas que mereceriam atenção
por parte do Governo Popular.
Quanto às primeiras, a meta pelo menos à médio prazo deveria ser tratar de eliminar esta ocupação tipicamente
servil. Mas a condição para que isso termine é primeiro a criação de condições para que este contingente de
trabalhadoras possa ser incorporado nas tarefas da vida produtiva; e segundo a criação de condições para que
este tipo de trabalho se torne não necessário (o que apontamos antes).
Entretanto, enquanto exista se pode de imediato regulamentar a forma mais completa possível este tipo de
trabalho, a fim de garantir que sua jornada de trabalho, seu salário, etc., sejam efetivamente cumpridos de
forma a aliviar uma situação incrivelmente exploradora.
Quanto às prostitutas, é certo que sua eliminação exige uma transformação da estrutura econômica social. Ou
seja, a eliminação da necessidade econômica que faz que exista a oferta de prostitutas, e uma transformação
dos valores culturais, que faz que termine com sua demanda.
Entretanto, de imediato se deve pelo menos buscar fazer efetiva uma regulamentação que proteja este tipo de
mulher enquanto exista.
Mas é necessário ter presente que a manutenção desta profissão em condições de um Governo Popular, cuja
meta é lograr o socialismo, é algo inadmissível. Em Cuba, por exemplo, este problema foi solucionado em
poucos meses, antes inclusive que se tivesse aberto a etapa propriamente socialista da Revolução. A tarefa de
incorporação destas mulheres à vida produtiva deve ser pensada em Chile desde agora.
As conclusões que se pode tirar de todas estas considerações que temos desenvolvido são as seguintes:
Se bem, a mulher em geral, vive em uma situação interior, seus problemas estão diretamente relacionados com
a situação da classe à qual pertence. A mulher burguesa, se bem está também em uma condição de objeto,
enquanto faz parte da categoria mulher, na essência não tem os problemas que tem a mulher trabalhadora, pois
esta sim vive plenamente o fenômeno da dupla exploração de seu trabalho. Entretanto, existem vários pontos
em comum entre o que se pode considerar como reivindicações da mulher proletária (e obviamente da
camponesa) e a mulher pequeno burguesa. Ainda que sendo os problemas muito mais agudos para as
proletárias, não se deve perde de vista a importância que tem no Chile a pequena burguesia. Esta classe deve
ser incluída no movimento revolucionário de concretizar e organizar às mulheres deve ser feito
fundamentalmente entre as proletárias, este deve ser levada cabo na unidade com a pequena burguesia.
3. A forma que deve assumira a luta pela libertação da mulher
A luta pela libertação da mulher não tem que ver com o feminismo. Não se trata de nenhuma maneira de uma
luta do sexo feminino contra o masculino. Tal concepção é absurda e grotesca.
A luta pela Libertação da mulher é uma luta política e revolucionária, que por ser uma luta contra o sistema
capitalista, que mantem e necessita da opressão da mulher, está inserida no contexto da luta de classes e tem
que ser dirigida pela classe trabalhadora, através de seus partidos e organizações de vanguarda.
Neste sentido, não se trata tão pouco de uma luta de mulheres para sua libertação, mas de uma luta de todos
os explorados para libertar também as mulheres. Esta é uma forma correta que deve assumir esta luta, e
portanto, ela tem que ser travada por todos os revolucionários, homens e mulheres, ainda que inicialmente
cabe a estas impulsionar com maior dinamismo.
Se deve, pois, comprometer de forma ativa nesta luta a todos os partidos e organizações de esquerda chilena.
É importante não perder de vista que no Chile os partidos jogam um papel fundamental na condução da luta
de classes que que uma luta de tal envergadura tem necessariamente que passar pela condução e mobilização
por parte de todos partidos revolucionários, o que até agora não teve um empenho profundo.
Dada sua profundidade e complexidade, é indispensável buscar a convergência de esforços, não somente no
nível entre os partidos senão, sobretudo, entre classes: setores da pequena burguesia e proletariado.
Por último é necessário, uma vez mais insistir que somente sob a condução da classe trabalhadora esta luta
pode realmente lograr seus objetivos mais amplos. Esta classe tem que comprometer-se em liderar esta luta.
Se se faz uma grande mobilização entorna da discussão dos problemas da mulher e sua organização, para
iniciar a resolvê-los, inevitavelmente somente a burguesia terá que perder com isto. Os revolucionários não se
podem esquecer desta realidade: as mulheres operárias e trabalhadoras tem um duplo motivo para ser
revolucionárias, pois ademais da exploração de classes estão submetidas à exploração enquanto mulheres. “A
teoria quando penetra nas massas se torna força material”. Há que divulgar a concepção marxista sobre a
mulher. Há que romper, definitivamente s prejuízos que existem ainda entre amplos setores da militância
política de esquerda sobre o tema, há que mostrar que a manutenção de uma atitude machista e que leva a
ridicularizar e a rechaçar o enfrentamento dos problemas das mulheres, é objetivamente uma atitude de defesa
dos valores burgueses e contrarrevolucionários.
As Mulheres Socialistas no processo de Redemocratização
(Década de 1980)

MARGARIDA ALVES (1933-1983)


Sugestão de Filme:
Documentário: Nos caminhos de Margarida. (TV Contag, Direção de Barack Fernandes, 2017). Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=sjxruyZt-eM

LÉLIA GONZALEZ (1935-1994)

Sugestão:
Entrevista com Lélia Gonzalez. (CULTNE DOC). Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=o9vOVjNDZA8

MARIELLE FRANCO (1979-2018)


O novo sempre vem (Marielle Franco, janeiro de 2018)
Disponível em: https://diplomatique.org.br/marielle-franco-o-novo-sempre-vem/
Em 1975, um grupo de mulheres organizou um evento na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio
de Janeiro, sobre a situação das mulheres no Brasil. Foram mais de quatrocentas participantes, num movimento
que deu início ao Centro da Mulher Brasileira (CMB), primeira organização feminista no país. Mais de quatro
décadas depois, ocupamos o mesmo espaço, agora como mulheres, negras, trans, faveladas, professoras,
nordestinas, mães, enfim, mulheres em toda a sua diversidade.
No evento de outrora, mulheres negras fizeram críticas contundentes à organização que, apesar de contar com
personagens importantes da luta contra a ditadura, não abarcou a diversidade de experiências do que é ser
mulher. No final de novembro de 2017, fizemos da ABI um espaço de debate político. Um debate vivo, cheio
de nuances, em que cinco centenas de nós afirmamos que vamos ocupar a política, os espaços de poder;
contudo, não em uma ocupação meramente “cotista”. Há, inegavelmente, um novo momento, uma marcha em
fermentação de mulheres rumo à apropriação dessas engrenagens.
Chegamos a 2018 colhendo frutos de décadas de lutas das mulheres por melhores condições de vida e por
mais igualdade nos espaços de tomada de decisões. Nesse período, é inegável que o feminismo se tornou mais
diverso, em especial com os avanços das pautas de raça, orientação sexual e identidade de gênero, e também
nas reflexões sobre as diversas experiências pelas quais as mulheres passam, como a maternidade. Essa
diversidade se expressa nas ruas, em manifestações, e nas redes sociais, por meio de páginas, aplicativos,
blogs e vídeos.
Fala-se muito que estamos vivendo uma nova onda feminista, embora a ideia de onda indique um rompimento
maior do que como acontece na história de fato. A mídia propaga a ideia de que há um “novo feminismo”,
mas na verdade o que vivemos é o resultado de uma convergência de diferentes expressões do feminismo que,
mesmo com estratégias de atuação muito diversas, têm em comum a compreensão de que a internet é um
espaço de diálogo e articulação política. O feminismo brasileiro hoje não é só jovem e empoderado. O bonde
das feministas históricas e o bonde das feministas hashtag dialogam na construção. das ações. O feminismo
como um todo é plural, diversificado e capaz de produzir convergências
Desde a eleição de 2010 vivemos uma conjuntura marcada por contradições importantes no que se refere às
questões de gênero. O saldo das manifestações e campanhas que se seguiram foi a necessidade de uma
representação política mais diversa. As mulheres se colocaram como uma força política importante no cenário
nacional, em especial as negras e indígenas. Assumimos o papel de apontar para o que seria o “novo” de
verdade na política: inverter o jogo, sair da posição de subalternidade na sociedade para ocupar espaços de
formulação, de desenvolvimentos programáticos e de projetos, de tomadas de decisão.
Apesar de termos chegado a alguns lugares importantes, a representação política das mulheres ainda é ínfima,
e a das mulheres negras é ainda pior. Mulheres negras somos cerca de 25% da população brasileira, segundo
censo do IBGE de 2010. Segundo o “Retrato das desigualdades de gênero e raça” (Ipea, 2015), somos também
a maior parte das pessoas desempregadas, que trabalha sem carteira assinada, como empregada doméstica ou
com menor renda domiciliar per capita. Essa situação não é por acaso, é fruto de um desenvolvimento
civilizatório que foi capaz de desumanizar e objetificar o corpo das mulheres negras.
Em meio a tanta desigualdade, ao racismo e ao sexismo que insistem em nos violentar, a chegada da mulher
negra à institucionalidade surpreende. Nossa presença assusta o conluio masculino, branco e heteronormativo.
Ao mesmo tempo, nos vemos diante do desafio de construir um projeto político que não exclua as questões
que nos trouxeram até aqui, que não as torne secundárias e que se mantenha afinado com as lutas dos
movimentos.
Ironicamente, se em 1975 as mulheres reunidas estavam em luta contra a ditadura militar, agora estamos em
enfrentando um governo ilegítimo e os golpes cotidianos que ele promove em nossos direitos e em nossas
liberdades. Em um cenário de graves retrocessos e da ação articulada das forças religiosas no Congresso
Federal, as mulheres estão conseguindo impedir as mudanças de legislação pela articulação de formas muito
diversas de fazer feminismo por meio do fortalecimento mútuo. Estamos resistindo aos ataques racistas
cotidianos e tentando encontrar caminhos para superar a situação de miséria em que a crise colocou as pessoas
que moram nas favelas, periferias e no campo, fortalecendo as iniciativas de economia solidária e de
fortalecimento de movimentos como o MTST e o MST.
Graças ao surgimento de grupos como o PretaLab, à formação sobre segurança digital da Universidade Livre
Feminista, à MariaLab e às Blogueiras Negras, estamos resistindo à difusão do discurso de ódio e às novas
formas de violência que acontecem no âmbito virtual. Quando ouvimos o Slam das Minas, levando a poesia
falada das mulheres para os diferentes territórios e reinventando a ideia de batalha – elas não competem nos
recitais, elas estão lado a lado, se complementando na performance –, sabemos quem somos, as vozes que se
escutam, que se acolhem, que fazem política o tempo todo. Essa resistência é nova também em sua estética!
A PartidA Feminista está mobilizada para lançar candidatas e fazer o debate sobre a importância de eleger
feministas comprometidas com os projetos de transformação. O movimento, surgido em 2015, quando
ativistas se reuniram para discutir o sentido e a possibilidade de um partido feminista brasileiro, reúne
coletivos de mulheres de partidos e movimentos diversos de todo o Brasil. Ou seja, de forma articulada, as
eleições de 2018 estão sendo gestadas. Iniciativas para uma representação mais diversa devem ser reeditadas,
além de instrumentos para o financiamento coletivo das campanhas.
Em nosso encontro recente na ABI, partimos da ideia de que “uma mulher puxa a outra” – um dos motes da
Marcha das Mulheres Negras em 2017. Reunimos mulheres que se destacaram no cenário político do Rio de
Janeiro e que são potenciais candidatas a diversos espaços de poder – câmaras estaduais e federal, sindicatos,
partidos e associações diversas –, com destaque para as mulheres negras. Isso porque o recado foi dado nas
eleições de 2016, e aqui no Rio de Janeiro seguimos à frente da Comissão da Mulher para pautar o debate de
gênero na Câmara partindo da nossa perspectiva. Talíria Petroni tem enfrentado o desafio de construir um
mandato negro, popular e feminista como a única mulher na Câmara de Niterói. Áurea Carolina, em Belo
Horizonte, inova ao criar a “gabinetona” aberta às mais diferentes lutas e ao mesmo tempo atenta aos afetos,
à poesia e ao autocuidado. Nós aprendemos umas com as outras, estamos buscando formas de fazer política
que não sejam mera reprodução do que sempre foi feito, porque isso nos deixa mais fortes para ocupar espaços
da institucionalidade, apesar de todos os retrocessos. Mas não queremos ficar sozinhas nesse espaço, queremos
outras e que transformem a política.
O evento recente da ABI foi gestado dentro de um mandato parlamentar, mas não só por ele. Uma rede de
mulheres independentes de filiações partidárias se uniu para demandar e organizar o encontro. Por si só essa
movimentação descortina um novo momento. O sistema político, tal qual (não) funciona hoje precisa ser
urgentemente transformado. Nossa aposta é que outras mulheres sejam fortalecidas para ocupar os espaços de
poder. E, para isso, qualquer projeto político de esquerda não pode ignorar as questões que trazemos. 2018
que nos aguarde!
*Marielle Franco é vereadora do Rio de Janeiro pelo Psol.
Discurso Inédito escrito por Mariele Franco é lido na Câmara dos Vereadores do Rio (2018)
Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/discurso-inedito-escrito-por-marielle-franco-e-lido-na-
camara-dos-vereadores-do-rio/

A voz de Marielle Franco continua ecoando na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Nesta terça-feira
(27), treze dias após seu assassinato, um discurso que havia preparado para ser lido na votação do Plano
Municipal de Educação do Rio foi reproduzido no plenário pelo vereador Tarcísio Motta (PSOL).
No texto, Marielle atentou para a importância do debate sobre igualdade de gênero nas escolas. “Ainda que
ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que
sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas
diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!”, escreveu.
Confira a íntegra do texto abaixo e, na sequência, o vídeo que registrou Tarcísio Motta reproduzindo o discurso
escrito por Marielle.
“Boa tarde à todas e todos,
O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.
Os números são assustadores: em 2016, foi registrada uma violência contra mulher a cada 5 horas no Estado
do Rio de Janeiro.
Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres que conseguiram, de algum modo,
buscar auxílio e denunciar.
E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade de gênero? Até quando?
O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no município do Rio de Janeiro!
Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso avanço civilizatório.
Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar pela vida daquelas que não puderam
ainda se defender da violência. E são muito mais das 50.377 registradas em 2016, aqui, no Rio.
Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em Casas Legislativas, como esta, não somos
a minoria. Somos a maior parte da população, ainda que sejamos pouco representadas na política.
Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas
triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e
psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas
importam!
No Brasil, segundo o IPEA (2016). As mulheres negras brasileiras ainda não conseguiram alcançar nem 40%
do rendimento total recebido por homens brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos
violências diariamente.
Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e o racismo estrutural. Quem acha
que isso não merece ser debatido na nossa educação é porque se benefecia das desigualdades.
Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos “gênero”, “sexualidade” e “geração”,
fortalece a continuidade de desigualdades e violências dos mais diversos tipos.
Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso município: o Plano Municipal de
Educação. Este plano merece que tenhamos compromisso e responsabilidade.
O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a partir de 1970 com o objetivo de dar
visibilidade às desigualdades entre homens e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso
corrente em debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como finalidade promover a
devida atenção e crítica das discriminações sofridas pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e
todos possamos juntos enfrentar este cenário.
Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar sobre alguma doutrinação?
Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade de gênero. E só se promove igualdade
através de uma educação consciente e do debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.
Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos dessa cidade, devemos defender o debate
na educação!
Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero
sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar
sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o
combate à violência e a desigualdade!
É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são interrompidas dia-a-dia neste Município.
Falar de igualdade de gênero é defender a vida!”
CONCEIÇÃO EVARISTO (1946) - Poemas
Vozes-mulheres Sonho os dias da menina
A voz de minha bisavó e a vida surge grata
ecoou criança descruzando as tranças
nos porões do navio. e a veste surge farta
ecoou lamentos justa e definida
de uma infância perdida. e o sangue se estanca
A voz de minha avó passeando tranquilo
ecoou obediência na veia de novos caminhos,
aos brancos-donos de tudo. esperança.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta De mãe
no fundo das cozinhas alheias O cuidado de minha poesia
debaixo das trouxas aprendi foi de mãe,
roupagens sujas dos brancos mulher de pôr reparo nas coisas,
pelo caminho empoeirado e de assuntar a vida.
rumo à favela. A brandura de minha fala
A minha voz ainda na violência de meus ditos
ecoa versos perplexos ganhei de mãe,
com rimas de sangue mulher prenhe de dizeres,
e fome. fecundados na boca do mundo.
A voz de minha filha Foi de mãe todo o meu tesouro
recolhe todas as nossas vozes veio dela todo o meu ganho
recolhe em si mulher sapiência, yabá,
as vozes mudas caladas do fogo tirava água
engasgadas nas gargantas. do pranto criava consolo.
A voz de minha filha Foi de mãe esse meio riso
recolhe em si dado para esconder
a fala e o ato. alegria inteira
O ontem – o hoje – o agora. e essa fé desconfiada
Na voz de minha filha pois, quando se anda descalço
se fará ouvir a ressonância cada dedo olha a estrada.
o eco da vida-liberdade. Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
Para a menina apontando-me o fogo disfarçado
Para todas as meninas e meninos de cabelos em cinzas e a agulha do
trançados ou sem tranças. tempo movendo no palheiro.
Desmancho as tranças da menina Foi mãe que me fez sentir as flores
e os meus dedos tremem amassadas debaixo das pedras;
medos nos caminhos os corpos vazios rente às calçadas
repartidos de seus cabelos. e me ensinou, insisto, foi ela,
Lavo o corpo da menina a fazer da palavra artifício
e as minhas mãos tropeçam arte e ofício do meu canto
dores nas marcas-lembranças da minha fala.
de um chicote traiçoeiro.
Visto a menina Do fogo que em mim arde
e aos meus olhos Sim, eu trago o fogo,
a cor de sua veste o outro,
insiste e se confunde não aquele que te apraz.
com o sangue que escorre Ele queima sim,
do corpo-solo de um povo. é chama voraz
que derrete o bivo de teu pincel
incendiando até ás cinzas
O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo, do mundo.
o outro, – Conceição Evaristo, no livro “Poemas da
aquele que me faz, recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte:
e que molda a dura pena Nandyala, 2008.
de minha escrita.
é este o fogo, A noite não adormece nos olhos das mulheres
o meu, o que me arde Em memória de Beatriz Nascimento
e cunha a minha face A noite não adormece
na letra desenho nos olhos das mulheres
do auto-retrato meu. a lua fêmea, semelhante nossa,
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da em vigília atenta vigia
recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: a nossa memória.
Nandyala, 2008. A noite não adormece
nos olhos das mulheres
Eu-Mulher há mais olhos que sono
Uma gota de leite onde lágrimas suspensas
me escorre entre os seios. virgulam o lapso
Uma mancha de sangue de nossas molhadas lembranças.
me enfeita entre as pernas. A noite não adormece
Meia palavra mordida nos olhos das mulheres
me foge da boca. vaginas abertas
Vagos desejos insinuam esperanças. retêm e expulsam a vida
Eu-mulher em rios vermelhos donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
inauguro a vida. e outras meninas luas
Em baixa voz afastam delas e de nós
violento os tímpanos do mundo. os nossos cálices de lágrimas.
Antevejo. Antecipo. A noite não adormecerá
Antes-vivo jamais nos olhos das fêmeas
Antes – agora – o que há de vir. pois do nosso sangue-mulher
Eu fêmea-matriz. de nosso líquido lembradiço
Eu força-motriz. em cada gota que jorra
Eu-mulher um fio invisível e tônico
abrigo da semente pacientemente cose a rede
moto-contínuo – Conceição Evaristo, em Cadernos Negros, vol. 19
.

SEM FEMINISMO, NÃO HÁ SOCIALISMO!

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