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O ESTATUTO DO CONHECIMENTO

CIENTíFICO

A epistemologia (filosofia das ciências) não se confunde com a


gnosiologia (teoria do conhecimento). Só existe epistemologia porque
existem ciências. No entanto, a distinção, que fazemos, entre
epistemologia e teoria do conhecimento (gnosiologia) não é usualmente
feita na língua inglesa, nem na italiana. Alguns manuais de filosofia
também não fazem esta distinção. O manual da Didática Editora, A Arte
de Pensar, do 11º ano, não faz esta distinção e identifica a epistemologia
com a teoria do conhecimento. O manual Logos, da Santillana
(Constância), identifica a epistemologia com a teoria do conhecimento e
considera que "a Filosofia da Ciência é uma área da Epistemologia (ou
Teoria do Conhecimento), que se debruça sobre o conhecimento
científico". O manual O clube das ideias, da Areal, utiliza o termo
Epistemologia para designar a reflexão sobre o conhecimento
proposicional e o termo Filosofia da Ciência para designar a reflexão
sobre a ciência e o conhecimento científico.

Ainda que ambas (gnosiologia e epistemologia) tenham o conhecimento


como objecto, o esquema seguinte ilustra, bem, a distinção que
propomos. Contudo, a distinção a seguir representada também nos
parece válida quando se usa o termo Epistemologia para designar o
estudo do conhecimento proposicional e o termo Filosofia da Ciência
para designar o estudo do conhecimento científico, basta substituir o
termo Gnosiologia por Epistemologia e o termo Epistemologia por
Filosofia da Ciência.
Conhecimento vulgar e conhecimento cientifico

O conhecimento vulgar ou senso comum é o primeiro nível de


conhecimento que se constitui a partir da apreensão espontânea e
imediata do real; adquire-se no trato direto com as coisas e com os
outros homens, não resulta de nenhuma procura sistemática e metódica,
nem exige qualquer estudo prévio, como o conhecimento científico. Este
senso é comum a todos os homens e forma as condições materiais e
espirituais em que a realidade é fixada como mundo de confiança,
intimidade e familiaridade. No entanto, difere, ou pode diferir, de
comunidade para comunidade, no espaço e no tempo. É um saber que
inclui aquelas crenças amplamente partilhadas cuja justificação decorre
da experiência coletiva e acumulada dos seres humanos e da
popularização dos conhecimentos científicos (o heliocentrismo é disso
um exemplo). Não é fácil dizer o que está incluído neste género de
conhecimento. Seja como for, o senso comum abrange aquelas coisas
que quase toda a gente sabe e que se vão aprendendo, desde muito
cedo, de uma forma espontânea. Apesar do conhecimento vulgar fazer
parte da consciência de um povo e ser funcional, não proporciona a
compreensão dos fenómenos, das coisas e da realidade e pode mesmo
conduzir a uma visão errónea da realidade.
O conhecimento científico, ao contrário do senso comum, resulta de um
esforço intelectual sistemático, metódico e controlado pela experiência
para explicar, tão profundamente quanto possível, os fenómenos
conhecidos. Os cientistas testam as teorias, confrontam-nas com a
experiência e têm uma disposição geral para as modificar caso, estas,
não estejam de acordo com aquilo que observam no mundo. Para isso,
dispõem de um método próprio assistido por tecnologias e instrumentos
e de uma linguagem técnica adequada para representar o objecto do seu
estudo.

A ciência é uma construção que, podemos dizer seguramente, se


inicia na Grécia antiga e que nos seus primórdios não se distinguia da
filosofia. Os fisiólogos (filósofos pré-socráticos) procuraram explicar as
coisas pelas suas causas, como afirmou Aristóteles. Nos séculos XVI e
XVII, com Galileu, Copérnico, Francis Bacon, Kepler, Giordano Bruno,
Newton, a ciência começa um processo de autonomização em relação à
filosofia e transforma-se, no que hoje se denomina ciência moderna, num
conhecimento que, recorrendo à linguagem matemática, procura formular
leis capazes de explicar os fenómenos. A matematização do real, a
experimentação, a ideia de determinismo, a ideia de causalidade e a lei
científica marcam o modelo de racionalidade científica da ciência
moderna. A ciência ganha um novo impulso com os trabalhos de
Einstein, Heisenberg e Bohr. Porém, a teoria da relatividade e a física
quântica estão marcadas por um modelo de racionalidade radicalmente
diferente da do período moderno. O modelo de racionalidade científica da
ciência do século XX (ciência pós-moderna) está marcado pelas ideias
de probabilidade, incerteza, indeterminismo e relatividade.

A ciência foi ganhando, desde a sua criação, o estatuto de único


conhecimento legítimo e fiável e representa, hoje, o estado mais
avançado de evolução do conhecimento. Mas não é consensual que
exista apenas um modelo de ciência. O objecto das ciências da natureza
(ex: Biologia, Química) é diferente do das ciências sociais e humanas
(Sociologia, Economia) e do das ciências formais (ex: Matemática,
Lógica), como é diferente a metodologia que cada ciência usa para
abordar o seu objecto. Contra Comte, que defendia que todas
as Ciências deveriam adotar a metodologia das Ciências da
Natureza, Dilthey propôs a distinção entre Ciências da Natureza e
Ciências do Espírito. Às Ciências da Natureza, atribuiu-lhes o objetivo de
explicar os fenómenos físicos. Às Ciências do Espírito, atribuiu-lhes a
finalidade de compreender os fenómenos sociais e humanos. De
qualquer modo, é o rigor da linguagem e do método, ainda que diversos,
que assegura o estatuto de cientificidade das diferentes ciências.

Os manuais de filosofia apresentam como principais características


distintivas da ciência relativamente ao senso comum a objetividade, a
sistematicidade e o método. Sendo o senso comum um conhecimento
subjetivo, assistemático, espontâneo, superficial e dogmático e a ciência
um conhecimento objetivo, sistemático, metódico e crítico.

A história da filosofia dá-nos duas reflexões epistemológicas,


radicalmente diferentes, sobre o influxo do conhecimento vulgar na
produção do conhecimento científico.

• Karl Popper admite que o senso comum é um ponto de partida, ainda


que inseguro, para a ciência e para a filosofia. Sendo a crítica o grande
instrumento para progredir do senso comum para um conhecimento mais
profundo do real.

A ciência, a filosofia, o pensamento racional, todos devem partir do senso


comum.
Não, talvez, por ser o senso comum um ponto de partida seguro: a expressão
"senso comum" que estou aqui a usar é muito vaga, simplesmente porque
denota uma coisa vaga e mutável - os instintos, ou opiniões de muitas
pessoas, às vezes adequados ou verdadeiros e às vezes inadequados ou falsos.
Como nos pode fornecer um ponto de partida uma coisa tão vaga e insegura
como o senso comum? A minha resposta é: porque não pretendemos nem
tentamos construir (...) um sistema seguro sobre esses "alicerces". Qualquer
das nossas muitas suposições de senso comum (...) da qual partamos pode ser
contestada e criticada a qualquer tempo; frequentemente, tal suposição é
criticada com êxito e rejeitada (por exemplo, a teoria de que a Terra é
plana). Em tal caso, o senso comum é modificado pela correção, ou é
transcendido e substituído por uma teoria que, por menor ou maior período
de tempo, pode parecer a certas pessoas como mais ou menos "maluca" (...).
Toda a ciência e toda a filosofia são senso comum esclarecido. (...)
A minha primeira tese é, pois, que o nosso ponto de partida é o senso comum
e que o nosso grande instrumento para progredir é a crítica.

K. Popper (1975), Conhecimento Objetivo, Belo Horizonte, Editora da


Universidade de S. Paulo e Itatiaia Limitada, p. 42.
• Gaston Bachelard, pelo contrário, considera o senso comum um
obstáculo epistemológico, algo que impede a produção de conhecimento
científico e com o qual é necessário fazer um corte epistemológico.

A ciência, na sua necessidade de realização como no seu princípio, opõe-se


absolutamente à opinião. Se lhe acontece, num aspeto particular, legitimar a
opinião, é por outras razões que não aquelas que fundamentam a opinião; de
tal maneira que a opinião não tem de direito qualquer razão. A opinião
pensa mal; ela não pensa: ela traduz necessidades em conhecimentos.
Designando os objetos pela sua utilidade, ela interdiz-se de os conhecer.
Nada se pode fundar sobre a opinião: é necessário primeiro destruí-la. Ela é
o primeiro obstáculo a superar. Não bastará, por exemplo, retificá-la em
pontos particulares, mantendo, como uma espécie de moral provisória, um
conhecimento vulgar provisório. O espírito científico interdiz-nos de ter uma
opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que nós não
sabemos formular claramente.
G. Bachelard (1996), La Formation de l'Esprit Scientifique, Paris, J. Vrin, p. 14.

Ciência e construção – validade e verificabilidade das


hipóteses
É, sem dúvida, o método que confere credibilidade e objetividade ao
conhecimento científico, mas a escolha de um método, isto é, dos meios
(tecnologias, teorias, instrumentos) orientados por regras que
estabelecem a ordem das operações, no sentido de se alcançar um
determinado resultado, está dependente do tipo de objecto que se tem
em vista. É o método, também, que permite distinguir os conhecimentos
científicos dos que não o são, isto é, permite demarcar a ciência do
senso comum e da metafísica.
A filosofia da ciência (epistemologia) sistematizou dois grandes modelos
metodológicos: o indutivo e o hipotético-dedutivo (conjetural).
O método indutivo
Chamamos método indutivo aos procedimentos metodológicos que
formulam hipóteses a partir de dados de observações, isto é, partindo
dos factos. O método indutivo começou a ser usado por Francis Bacon
(século XVII) e foi, depois, defendido por Stuart Mill, Comte e pelos
filósofos do Círculo de Viena (Mach, Schlick, Carnap). O indutivismo
assenta em duas crenças:
1. o raciocínio indutivo é um raciocínio científico;
2. a experimentação é critério de confirmação empírica das teorias
científicas.
As operações fundamentais do método indutivo são:

O modelo indutivo parte da observação, analisa os dados para


estabelecer relações entre eles e submete as relações (hipóteses) à
experimentação. Se a hipótese se confirmar, será generalizada e
transformar-se-á em lei aplicável a todos os fenómenos do mesmo tipo.
O método indutivo tem sido alvo de inúmeras críticas. Uma delas foi
formulada de modo radical por David Hume e que podemos designar por
problema da indução, por estar relacionada com a legitimidade racional
da indução. Segundo Hume, a relação causal que se estabelece entre os
fenómenos decorre do hábito. É após a conjugação constante de dois
fenómenos que somos determinados pelo costume a esperar um a partir
do aparecimento do outro. Assim, a generalização indutiva não é mais do
que uma crença psicológica de que os fenómenos se repetirão do
mesmo modo, tal como sempre aconteceu. Assim, a tentativa de justificar
a indução por meio da experiência é circular porque implica um raciocínio
indutivo que carece de justificação. Para Hume, a repetição e o hábito
não são garantia racional ou lógica da indução, antes partem da crença
na uniformidade da natureza.
A crítica de Hume permanece viva e levanta, pelo menos, três
dificuldades ao uso da metodologia indutivista na investigação científica.
1. Levanta, em primeiro lugar, o problema da legitimidade lógica da
indução, ou seja, o problema da justificação lógica da passagem de
enunciados particulares para enunciados gerais (da verdade de uma
proposição particular não se pode inferir a verdade da proposição
universal correspondente), o mesmo é dizer, o problema da legitimidade
das leis científicas.
2. Levanta, em segundo lugar, o problema da validade dos juízos acerca
do futuro ou de casos desconhecidos, o mesmo é dizer, o problema da
legitimidade das previsões científicas. As previsões pertencem àquilo que
ainda não foi observado e não podem ser inferidas logicamente daquilo
que já foi observado, porque o que aconteceu não impõe restrições
lógicas àquilo que acontecerá.
3. Levanta, ainda, o problema da causalidade, ou seja, o problema da
legitimidade da conexão causal entre acontecimentos. A ilusão da
causalidade provém, segundo Hume, da confusão entre conjunção ou
sequência de acontecimentos com a sua conexão causal. Na verdade,
«p e q» não é o mesmo que «p implica q». Segundo Hume, a ideia de
conexão necessária resulta de um sentimento interno adquirido pelo
hábito.
O método hipotético-dedutivo
Podemos dizer que foi Karl Popper o grande teórico do método
conjetural, também chamado de método crítico, mas o método hipotético-
dedutivo tinha sido já teorizado, como metodologia da investigação
científica, por Galileu e Descartes, criadores da ciência moderna.
Também Popper foi um crítico do raciocínio indutivo, ainda que com
argumentos diferentes daqueles que foram usados por Hume. O Modelo
hipotético-dedutivo sustenta a tese de que as hipóteses são criações do
espírito humano, propostas como conjeturas que respondem a um facto-
problema/fenómeno. O conjecturismo assenta em duas crenças:
1. o raciocínio indutivo não é um raciocínio científico, o raciocínio
científico é dedutivo;
2. é impossível demonstrar através da experimentação a verdade
empírica de uma teoria científica, a experiência apenas a pode
refutar/falsificar;
Os momentos fundamentais do método conjetural são:

Sabemos que do ponto de vista de uma racionalidade lógica, as


inferências indutivas não conferem ao conhecimento científico uma
validade universal, nem uma necessidade lógica. Contudo, a perspetiva
de Popper, apesar de parecer ser mais consistente que o indutivíssimo,
não está isenta de críticas.
1. Uma delas resulta do facto de que a refutação ou a falsificação de
muitas teorias científicas não ser assim tão simples. É verdade que basta
uma observação para refutar uma hipótese. Contudo em ciência, as
teorias são complexas e pressupõem um conjunto de leis, hipóteses e
condições que eventualmente podem não estar corretas sem que isso
coloque em causa a teoria geral explicativa dos fenómenos. Pode-se
sempre proteger uma teoria invocando um argumento retirado da
complexa teia de relações em que está inserida ou mesmo do estado do
desenvolvimento tecnológico. Aliás, mesmo para Popper, os dados
empíricos são falíveis e estão eles próprios dependentes da teoria.
Assim, quando uma evidência que resulta da experiência entra em
conflito com a teoria, pode ser que seja a observação que esteja errada e
não a teoria.
2. Outra resulta do facto do processo falsificacionista não ser a prática
habitual dos investigadores. Os cientistas pesquisam sobretudo com o
propósito de confirmar as hipóteses e continuam a defendê-las ainda
que algumas evidências empíricas não as suportem e enquanto não
aparece nenhuma teoria alternativa capaz de as substituir.
3. Podemos ainda comentar que se, como afirma Popper, as teorias,
mesmo as que vão resistindo às tentativas de falsificação, não deixam de
ser meras conjeturas, então não temos quaisquer razões para confiar
nelas. Assim, parece que confiar nelas é de alguma forma irracional. No
entanto, os artefactos que se foram construindo com base nelas vão
funcionando e comportam-se do modo como elas o descrevem. De certa
forma, podemos afirmar que Popper tende para uma perspetiva cética e
para o relativismo.
O problema da legitimação das hipóteses
O que permite distinguir teorias científicas de teorias não científicas?
Esta pergunta constitui o que, depois de Popper, passou a ser designado
por problema da demarcação. Karl Popper é um crítico do modelo
indutivo e, seguindo Hume, afirma a impossibilidade lógica de verificação
de uma hipótese científica, isto é, nega que a indução possa ser adotada
como um procedimento científico, pois não reconhece que esteja na
formulação de hipóteses ou na sua confrontação experimental. Para ele,
o modelo indutivo não pode nunca fazer verdadeira uma teoria, nem
mesmo mostrar que é verdadeira. Quem julgar que a partir da verificação
das consequências que se deduziram da hipótese é possível comprová-
la, está a cometer a falácia da afirmação do consequente. O único
objetivo dos testes a que se submete uma hipótese é o de falsificá-la e
não o de verificá-la, pois basta um facto contrário para a refutar e
nenhum número de factos favoráveis é suficiente para a confirmar. A
refutabilidade é, para Popper, o critério de demarcação entre o que é
ciência e o que não é ciência (pseudociência) e, deste modo, altera a
relação da ciência com a verdade. Uma teoria científica deixa de poder
ser considerada verdadeira e só pode ser considerada verosímil. Todas
as teorias científicas são conjeturas que vão sobrevivendo enquanto
forem resistindo aos testes, mais cedo ou mais tarde serão substituídas.

A racionalidade científica e a questão da objetividade

Os processos metodológicos, o rigor e universalidade da linguagem e o


efeito operatório dos conhecimentos que a prática científica tem vindo a
produzir, imprimiram ao conhecimento científico um estatuto de
racionalidade e objetividade quase inquestionáveis. Apesar de existirem
outras formas de apropriação do significado do real, como a religião, a
arte ou a filosofia, nenhuma possui esse estatuto de objetividade. Mas
qual é o valor da racionalidade científica? É o conhecimento científico
objetivo?
Para Popper a sucessão das teorias constitui o progresso da ciência em
direção à objetividade. As teorias que vão sendo rejeitadas inscrevem-se
no movimento racional de aproximação à verdade, meta inalcançável.
Thomas Khun foi um crítico das teorias indutivista e falsificacionista e
desenvolveu, com base no estudo atento da história da ciência, uma
teoria em que se destaca a ideia de que a ciência não tem a objetividade
e a racionalidade que usualmente se lhe atribui.
A perspetiva de Thomas Kuhn
Segundo Kuhn, a ciência suficientemente amadurecida estrutura-se e
orienta-se por paradigmas. Na ausência de um paradigma, não existe
ainda ciência propriamente dita. Permanece-se, ainda, no período da
pré-ciência.
A pré-ciência corresponde à atividade desorganizada e diversa que
marca o período que precede a formação de uma ciência e que termina
quando uma comunidade científica adere a um paradigma.
Neste período, não existe ainda um trabalho concertado entre os
investigadores, nem um acordo acerca dos fundamentos da investigação
científica. São os paradigmas que fundam a ciência e organizam o
trabalho dos cientistas.
Um paradigma é uma estrutura teórica que oferece a uma comunidade
de investigadores uma visão do mundo e uma forma específica de fazer
ciência.
O período pré-científico é ultrapassado quando alguém propõe uma
teoria de tal modo poderosa que toda a comunidade de investigadores se
une em seu torno. O conceito de paradigma apresenta-se como o
conceito central da filosofia da ciência de Kuhn e encerra em si alguns
elementos distintivos.
1. Um paradigma inclui, antes de mais, leis e pressupostos teóricos
fundamentais. Centra-se num corpo de leis científicas e de pressupostos
gerais acerca do que uma teoria científica deve ser. Por exemplo, o
paradigma copernicano centra-se na tese heliocêntrica, e o paradigma
newtoniano nas leis do movimento e na lei da gravitação universal de
Newton.
2. Um paradigma inclui também regras para aplicar as leis à realidade,
ou seja, mostra como lidar com objetos e situações concretas a partir das
leis. Por exemplo, o paradigma newtoniano inclui regras para aplicar as
leis de Newton a objetos como planetas, pêndulos e bolas de bilhar.
3. Além disso, um paradigma integra regras para usar instrumentos
científicos. Por exemplo, o astrónomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-
1601) desenvolveu instrumentos para o paradigma copernicano que
permitiram formular as leis do movimento dos planetas. Um paradigma
diz que instrumentos se devem usar e como fazê-lo.
4. Por fim, um paradigma envolve princípios metafísicos e filosóficos. Um
paradigma diz-nos que coisas existem no mundo e contém pressupostos
gerais sobre a natureza e o funcionamento do universo, como o
pressuposto de que tudo o que acontece tem uma causa e obedece a
leis deterministas.
A ciência normal
Kuhn defende que, depois da instituição de um paradigma, se inicia um
período de ciência normal. O paradigma determina o trabalho dos
cientistas durante este período. Quando surge o paradigma é bastante
impreciso e deixa em aberto uma infinidade de questões, o que permite
que se desenvolva muita investigação a partir dele. A ciência normal
caracteriza-se, pois, pelas tentativas de desenvolver o paradigma,
tornando-o mais pormenorizado e completo. Os investigadores
envolvidos na ciência normal não estão interessados em grandes
problemas. Em vez disso, resolvem enigmas geralmente muito
específicos e detalhados à luz de um paradigma. Um dos muitos
enigmas teóricos que os cientistas que trabalhavam sob o paradigma
newtoniano enfrentaram foi o de desenvolver pressupostos adequados
para aplicar as leis de Newton ao movimento dos fluidos. E um enigma
experimental foi o de tornar mais rigorosas as observações telescópicas.
A ciência normal é uma atividade de resolução de enigmas, tanto
teóricos como experimentais, governada pelas leis e regras do
paradigma.
Durante os períodos de ciência normal, os cientistas não são críticos em
relação ao paradigma no âmbito do qual trabalham. O paradigma é
aceite por uma comunidade científica que, ao contrário do que acontece
no período de crise do paradigma ou, até mesmo, no período da pré-
ciência, não questiona os pressupostos teóricos a partir dos quais a sua
atividade se desenvolve. Esta atividade consiste num esforço para
alargar o leque dos factos explicáveis pelo paradigma e de articular as
teorias que o paradigma já inclui. No entanto, a comunidade científica
não procura a invenção de novas teorias, nem a descoberta de novos
tipos de fenómenos. Aliás, nem todos os fenómenos da natureza
interessam ao cientista, é o paradigma no qual trabalha que determina
que fenómenos observáveis têm interesse, uma vez que são aqueles que
terão solução dentro dele.
Anomalias e crise do paradigma
A atividade de resolução de enigmas nem sempre corre da melhor forma.
Por vezes, os cientistas vêem-se confrontados com um enigma que não
conseguem resolver recorrendo ao paradigma - mas que supostamente
deveriam conseguir resolver. Surge então uma anomalia.
Uma anomalia é um enigma, teórico ou experimental, que não encontra
solução no âmbito do paradigma vigente.
Quando surge uma anomalia, como uma falsificação experimental, não
se consegue fazer ajustar devidamente a natureza ao paradigma: a
natureza não se comporta como seria de esperar. Mas a mera existência
de anomalias isoladas não provoca uma crise, não conduz a uma quebra
de confiança no paradigma. Numa primeira fase, a comunidade científica
é levada apor em causa a investigação ou o investigador que a conduziu.
Uma anomalia só será considerada séria se ameaçar os fundamentos do
paradigma, se resistir durante demasiado tempo às tentativas de solução
ou se puser em causa a satisfação de qualquer necessidade social. E,
sempre que podem, os cientistas procuram ignorar a anomalia ou
diminuir a sua importância, esperando que um dia o fenómeno que lhe dá
origem possa ser acomodado pelo paradigma. Kuhn critica o
falsificacionismo de Popper porque o que observa na prática científica é
uma tentativa de salvar a todo o custo o paradigma vigente, e não um
esforço constante para falsificar as teorias adotadas. Apesar disto, a
existência de anomalias que ameacem os princípios fundamentais do
paradigma ou tenham importância prática favorece, de facto, a
emergência de uma crise.
Uma crise é um período de insegurança evidente durante o qual a
confiança num paradigma é abalada por sérias anomalias.
Ciência extraordinária e revolução científica
As anomalias tornam-se tema de amplo debate na comunidade científica.
Progressivamente instala-se um momento de ciência extraordinária,
indispensável ao surgimento de uma revolução geradora de um novo
período de ciência normal.
A ciência extraordinária corresponde ao período de crise, em que se
confrontam propostas explicativas novas e incompatíveis a com os
procedimentos e crenças do paradigma vigente.
Durante este período, os fundamentos do paradigma vigente acabarão
por ser questionados e serão levadas a cabo disputas metafísicas e
filosóficas que, geralmente, em nada contribuem para a manutenção do
paradigma. O fim de uma crise na ciência depende, obviamente, do
surgimento de um paradigma rival que conquiste a adesão da
comunidade científica. Todavia, a implantação de um novo paradigma
não ocorre rápida e facilmente. Os cientistas resistem a abandonar o
paradigma no qual trabalham, chegando mesmo a negar a evidência de
algumas anomalias. Além disso, para que um novo paradigma se
imponha, é preciso que primeiro surja uma nova teoria proposta por um
cientista profundamente envolvido na crise. Só quando isso acontece,
pensa Kuhn, se dá o passo decisivo para uma revolução científica.
A revolução científica corresponde ao abandono de um paradigma e à
adoção de outro paradigma (novo) por parte de toda a comunidade
científica.
Contrariamente a Popper, que acredita que a ciência está em
permanente revolução, Kuhn afirma que as revoluções na ciência são
raras. Uma revolução científica corresponde à aceitação, pela
comunidade científica, de um novo paradigma incompatível com o
anterior.
A incomensurabilidade dos paradigmas
Cada paradigma apresenta-nos um mundo constituído por objetos
diferentes. A química anterior a Antoine Lavoisier (1743-1794), por
exemplo, afirmava que na natureza existia uma substância chamada
flogisto que explicava a combustão, mas no paradigma de Lavoisier o
flogisto desapareceu. A teoria do eletromagnetismo de James Clerk
Maxwell (1831-1879) postulava a existência de um éter no universo, mas
o paradigma de Einstein eliminou o éter. Os conceitos que fazem parte
de um paradigma não são, pois, aqueles que surgem com o paradigma
posterior. E assim, sustenta Kuhn, não há forma de fazê-los
corresponder, ou seja, é impossível dizer que um conceito de um
paradigma corresponde a um outro conceito do paradigma que o
substituiu.
As questões investigadas no âmbito de cada paradigma são também
bastante distintas, assim como os critérios que permitem determinar o
que importa observar e o que é central ou periférico na teoria. Além
disso, os cientistas que aderem a paradigmas diferentes aceitam
pressupostos metafísicos diferentes e trabalham à luz de métodos
específicos também distintos. A mudança de paradigma é holística
(palavra de origem grega holos, que significa todo), porque os aspetos
que constituem o paradigma mudam em conjunto, como um todo e não
de forma isolada ou independente. O paradigma determina de tal forma a
sua visão do mundo que, quando olham na mesma direção, dois
cientistas que aceitam paradigmas diferentes vêem mundos diferentes.
Entre os paradigmas existe, portanto, um abismo intransponível. Os
paradigmas são, afirmava Kuhn, incomensuráveis.
A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de
compará-los objetivamente de maneira a concluir que um é superior ao
outro, uma vez que eles propõem modos incompatíveis de conceber a
realidade e a ciência.
Dado que Kuhn pensa que os paradigmas são incomensuráveis, pensa
igualmente que não dispomos de um critério neutro, de uma medida
comum, que nos permita afirmar que o novo paradigma está mais
próximo da verdade que o paradigma anterior - não se pode mostrar que
o novo paradigma constitui um avanço em direção à verdade. Dizer que
um paradigma constitui um avanço em relação ao seu antecessor
implicaria comparar paradigmas entre si. Por isso, os proponentes do
velho paradigma não podem ser objetivamente compelidos a rejeitá-lo.
Critérios objetivos e fatores subjetivos
A tese da incomensurabilidade pode levar-nos a pensar que Kuhn
defende que a escolha de paradigmas é completamente arbitrária.
Todavia, como vimos, Kuhn acredita que as boas teorias científicas
partilham certas características, que as demarcam da má ciência ou da
pseudociência.
1. A exatidão ou precisão consiste na concordância entre as previsões
decorrentes do paradigma (ou entre as previsões decorrentes das teorias
fundamentais que compõem o paradigma) e os resultados das
experimentações e das observações. Este é o mais decisivo dos cinco
critérios, por ser o mais preciso e, também, por si especialmente
valorizado pelos cientistas.
2. A consistência de um paradigma (ou de uma das suas teorias
fundamentais) é tanto a sua consistência lógica interna, como a sua
compatibilidade com outras teorias amplamente aceites e com aplicações
reconhecidas a fenómenos afins.
3. O alcance ou a abrangência de um paradigma (ou de uma das suas
teorias fundamentais) consiste na quantidade e na diversidade de
fenómenos e de leis que o paradigma (ou uma das suas teorias
fundamentais) abrange.
4. A simplicidade de um paradigma (ou de uma das suas teorias
fundamentais) é parcimónia das suas explicações. Uma explicação é
tanto mais parcimoniosa quanto menor é o número de leis a que apela
para explicar os fenómenos observáveis e também quanto maior é o
número de fenómenos dispares que, desse modo, consegue explicar.
5. A fecundidade de um paradigma (ou de uma das suas teorias
fundamentais) é sua capacidade para originar novas descobertas
científicas.
Ora, estas características (precisão, abrangência, consistência,
simplicidade e fecundidade) deveriam poder também contribuir
significativamente para a comparação de paradigmas rivais, tornando a
escolha de um deles um processo de decisão inteiramente objetivo. De
facto, estes critérios objetivos de apreciação de teorias têm um papel a
desempenhar na escolha dos investigadores. Contudo estes critérios não
bastam para que a mudança de paradigmas se possa classificar como
um processo objetivo. Kuhn afirma que a exatidão, a consistência, o
alcance, a simplicidade e a fecundidade, embora sejam características
valorizadas por todos os cientistas, não determinam a escolha entre
paradigmas. Partindo do mesmo conjunto de critérios, dois cientistas
podem chegar a conclusões muito diferentes; ou porque um valoriza
mais um desses critérios do que o outro, ou até porque os interpretam de
maneira diferente. O modo diferente como aplicam o mesmo conjunto de
critérios (um cientista valoriza mais a simplicidade enquanto o outro
prefere uma teoria menos simples e mais fecunda, por exemplo) só é
explicável com recurso a fatores pessoais, como a experiência anterior e
a personalidade; a fatores sociais, como o contexto político, económico
e religioso; e a fatores grupais, como a pressão dos pares ou dos
elementos mais influentes da comunidade científica. São estes fatores
subjetivos ou critérios individuais, associados aos critérios objetivos ou
partilhados, que explicam a preferência por um ou outro paradigma.
O desenvolvimento da ciência não é, portanto, um processo
absolutamente racional de eliminação de teorias falsas à luz de critérios
objetivos, mas uma sucessão de paradigmas escolhidos por uma
combinação de critérios objetivos e fatores subjetivos. As mudanças que
ocorrem na ciência estão, assim, dependentes dos contextos sociais e
psicológicos em que os cientistas se movem. A experimentação e os
testes empíricos não podem servir de critério objetivo na separação das
boas ou más teorias (critério de demarcação), como pensava Popper,
uma vez que é o paradigma que confere sustentabilidade a uma teoria.
Podemos afirmar que, segundo Kuhn, o desenvolvimento da ciência
processa-se do seguinte modo:
Pré-ciência → Paradigma → Ciência normal → Crise do
paradigma/Ciência extraordinária → Revolução
científica → Paradigma → …
Crítica à perspetiva de Kuhn
É a tese da incomensurabilidade que recebe as principais críticas que se
pode fazer à perspetiva de Kuhn. Kuhn afirma que um paradigma entra
em crise quando a acumulação de anomalias coloca em causa os seus
fundamentos, quando este já não é capaz de responder aos enigmas
colocados pela experiência. O novo paradigma que emergiu é capaz de
solucionar os aspetos enigmáticos da experiência que levaram ao
abandono do velho paradigma. Assim, a tese da incomensurabilidade
parece não fazer sentido. Os paradigmas não são completamente
incomensuráveis, uma vez que o novo paradigma parece apresenta-se
como superior ao velho e as anomalias que existiam no anterior
deixaram de existir no novo. Outra crítica que se faz a Kuhn radica
igualmente na ideia de incomensurabilidade. Se os paradigmas são
incomensuráveis, como defende Kuhn, e por isso não é possível
compará-los entre si, nem concluir que um é superior ao outro. E se a
impossibilidade de comparação impede a convicção de aproximação à
verdade, então podemos acusar Kuhn de ser relativista , apesar dele ter
recusado esta acusação.
A tese de que não há, em ciência, uma aproximação à verdade até pode
ser verdadeira, mas que as teorias hoje aceites permitem explicar, prever
e controlar com mais sucesso os fenómenos também é verdade, como
se pode depreender das aplicações científicas mais
atuais que produzem melhores resultados do que as aplicações
científicas mais antigas. A ciência parece, assim e cada vez mais, trilhar
os caminhos da racionalidade e da objetividade.
As perspetivas de Popper e Kuhn acerca da evolução e da
objetividade da ciência.
Depois das reflexões epistemológicas de Popper e Kuhn, a ciência deixa
de ser definida a partir das categorias de objetividade, neutralidade e
universalidade, para ser enquadrada a partir das noções de
intersubjetividade, contextualidade e relatividade. Popper e Kuhn deram
um contributo determinante para a compreensão da natureza da ciência
e para o modo como esta se desenvolve.

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