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ARGUMENTAÇÃO E FILOSOFIA

Filosofia, retórica e democracia

A argumentação, além de ser objeto da reflexão lógica, é também


estudada pela retórica. A lógica estuda as condições que tornam a
argumentação logicamente consistente, isto é, racionalmente válida. A
retórica estuda os aspetos que tornam a argumentação eficaz, isto é, que
persuada.
A filosofia, a retórica e a democracia foram criações dos gregos antigos,
mas nem sempre as relações entre a filosofia e a retórica foram fáceis.
No entanto, ambas são essenciais à vida democrática.
Numa democracia, as decisões políticas são tomadas publicamente e
não por um tirano ou por um colégio aristocrático. Nesta forma de
governo (democracia), a capacidade de influenciar a opinião pública é
muito valiosa. Aqueles que souberem persuadir, pelo uso da palavra,
terão maior facilidade em influenciar, alcançar ou manter o poder.
O período democrático vivido pelos atenienses permitiu o aparecimento
dos sofistas, dos quais se destacaram Protágoras (c. 490 - 420 a. C.) e
Górgias (c. 483 - 376 a. C.), professores que ensinavam retórica àqueles
que podiam pagar os seus serviços e desejavam participar na gestão
da Pólis(cidade) através do desempenho de cargos públicos. Ao
aprenderem Retórica, os cidadãos ficavam em melhores condições
de influenciar a opinião pública e, consequentemente, de conseguir
poder na sociedade democrática ateniense. Além da retórica (arte da
persuasão), os sofistas ensinavam também conhecimentos da dialética
(arte da argumentação) e da erística (arte da discussão e da disputa),
entre outros, para dotar um cidadão de capacidades de liderança e
persuasão. Os sofistas eram sobretudo educadores políticos que
baseavam o seu ensino em pressupostos filosóficos humanistas,
relativistas, céticos e agnosticistas. A verdade, para os sofistas, é uma
verdade relativa, é feita à medida das circunstâncias e os seus
ensinamentos tinham como objetivo vencer um debate e não
a descoberta da verdade.
O ensino dos sofistas foi fortemente criticado por Platão (c. 429 - 347 a.
C.). Na verdade, Platão opôs a retórica (ou, pelo menos, a retórica no
seu uso manipulador) à atividade filosófica. Para Platão, o sofista ensina
a conquistar o poder pela manipulação, apoiando-se nas opiniões
populares e o filósofo procura o saber, visa descobrir a verdade que só
pode ser intemporal e universal. Por isso, para Platão, a retórica não é
útil à Filosofia e deve ser substituída pela argumentação não retórica: a
dialética. Aliás, o objetivo do filósofo não é persuadir, mas ajudar a
descobrir a verdade, segundo o método maiêutico. Aristóteles, que
também foi um crítico da retórica, deixa-nos dela uma visão bem mais
positiva. Para ele, a retórica pode ser usada para a descoberta da
verdade, é um saber entre outros e, como todo o conhecimento, pode ser
bem ou mal usado. Não é a retórica que é boa ou má, mas quem a utiliza
é que pode fazer dela um bom ou um mau uso.
Além dos gregos, também os romanos atribuíram uma grande
importância à retórica. Cícero (c. 106 - 43 a.C.) é normalmente
apresentado como sendo um dos maiores oradores de todos os tempos.
Durante a idade média, a retórica ainda fez parte dos estudos
académicos e o renascimento interessa-se por ela com a redescoberta
dos autores clássicos, mas entra em declínio, a partir do século XVI, com
a emergência da ciência moderna e do racionalismo. Na segunda
metade do século XX, o filósofo Chaïm Perleman, com a designação de
nova retórica ou teoria da argumentação, recupera a importância da
retórica no pensamento e para o conhecimento em domínios em que são
necessários amplos consensos, vendo na argumentação o fundamento
de uma nova racionalidade. Como Aristóteles, realça a importância
do logos para provocar a adesão do auditório aos argumentos que
suportam a tese de um orador.

Manipulação e persuasão ou os dois usos da retórica

Como vimos, a retórica proporciona, a quem a estuda, um conjunto de


técnicas para persuadir um auditório. Aquele que domina essas técnicas
possui, deste modo, um certo poder, o qual, como sabemos, tanto pode
ser usado para o bem como para o mal. Assim, podemos distinguir dois
usos da retórica: a manipulação e a persuasão.
Para diferenciar estas duas formas de usar a retórica, comecemos
por afirmar que um auditório é sempre constituído por pessoas e que as
pessoas são racionais. Ou seja, as pessoas têm a capacidade de
raciocinar e por isso são sensíveis à argumentação. Se perceberem que
uma certa conclusão se segue de premissas que já aceitam, em princípio
estarão dispostas a aceitá-la. Porém, as pessoas não são perfeitamente
racionais. Muitas vezes raciocinam mal, sobretudo quando se vêem
perante raciocínios especialmente enganadores - as falácias. Além disso,
têm preconceitos de diversos géneros - por exemplo, preconceitos
religiosos, sexistas ou racistas. Em suma, um auditório é constituído por
pessoas que têm uma racionalidade limitada. Podemos esclarecer a
diferença entre manipulação e persuasão racional a partir desta ideia.
· A manipulação corresponde ao uso da retórica em que as limitações da
racionalidade do auditório são vistas como uma oportunidade a explorar,
paralisando-lhe o juízo e obrigando-o a aderir a algo que de outro modo
não aprovaria.
· A persuasão corresponde ao uso da retórica em que as limitações da
racionalidade do auditório são vistas como um obstáculo a ultrapassar, no
sentido de lhe fornecer a informação que lhe permita decidir livremente.
Um orador informado conhece as características e as limitações do
auditório que pretende persuadir. Se ele usar a retórica para manipular o
auditório, tentará tirar partido das suas limitações. Não hesitará em
explorar os seus preconceitos e em recorrer a argumentos que sabe serem
falaciosos, desde que isso contribua para obter a adesão desejada ou o
controlo racional. Digamos que, quando faz um uso manipulador da
retórica [retórica negra (Roland Barthes)], o orador não respeita a
autonomia dos membros do auditório, não procura levá-los a pensar
melhor por si próprios. Em vez disso, engana-os (é desonesto
intelectualmente) e trata-os como simples instrumentos ao serviço das
finalidades que pretende alcançar. Os filósofos reconhecem que a
manipulação é um uso imoral da retórica. É deste uso, aliás, que resulta a
má reputação da retórica e é em relação a este uso que Platão é tão
cáustico.
Porém, o orador pode usar as técnicas da retórica com a finalidade de
facilitar a persuasão do auditório [(retórica branca (Michel Mayer)]. Para
persuadir geralmente não basta ter razão naquilo que se defende, pois as
limitações do auditório podem impedir a compreensão dos argumentos. É
preciso saber defender as ideias de uma forma eficaz, apresentando os
argumentos pela melhor ordem e sem complicações desnecessárias. Na
medida em que permite que o orador comunique melhor a sua perspectiva,
adaptando-se às características do auditório, a retórica pode ser colocada
ao serviço da persuasão. Quando se tem em vista a persuasão, não se
ilude as pessoas (é-se intelectualmente honesto) e não se desrespeita a
sua autonomia, já que se tenta persuadi-las através de argumentos
claramente apresentados cuja solidez elas próprias podem avaliar.
Contudo, se do ponto de vista teórico é possível estabelecer a diferença
entre a manipulação e a persuasão, na prática a fronteira entre ambas não
é assim tão fácil de estabelecer e a manipulação constitui um obstáculo
real à democracia quando se encontra associada à propaganda política,
às ideologias e à publicidade.

Argumentação, verdade e ser

Como aprendemos na lógica, uma proposição é verdadeira se está de


acordo com aquilo que as coisas são, se corresponde à realidade, e falsa
se não está de acordo com aquilo que as coisas são, se não corresponde
à realidade. Este (a verdade como adequação ou correspondência) é
apenas um dos múltiplos sentidos que o conceito de verdade pode adquirir
em filosofia.
A filosofia, ao lado de outros tipos de saber, é uma procura do
conhecimento, é uma tentativa de descobrir como as coisas são
realmente. A argumentação filosófica tem, portanto, em vista a verdade. E
se há áreas em que os enunciados não levantam grandes problemas,
noutras (por ex. aquelas em que não é possível a prova empírica) as
proposições fogem à tranquila classificação do verdadeiro e falso, pelo que
a argumentação é vista, por alguns filósofos, como um instrumento na
procura da verdade e da possibilidade de estabelecer consensos, e não
como forma de manipulação.
Reconhecemos na filosofia uma relação estreita entre a argumentação, a
verdade e o ser ou realidade. Conhecer a verdade é saber como as coisas
são e a filosofia recorre sobretudo à argumentação para descobrir a
verdade, uma vez que a natureza do seu objecto é metafísica. Acreditando
nós que o discurso filosófico é norteado pela busca da verdade, o filósofo
trairia o seu propósito essencial se não fizesse um uso ético da retórica e
se não procurasse sempre o confronto de ideias e de pontos de vista, as
teses mais razoáveis e os argumentos mais fortes. Como defendia Platão,
nem todas as opiniões são filosoficamente justificáveis; apenas aquelas
que têm como fundamento a verdade devem ser justificadas. Para a
filosofia, e contrariando, neste caso, o legado platónico, a busca da
verdade não pode ser incompatível com a retórica, esta pode mesmo
constituir-se como método da filosofia, se a tomarmos por um conjunto de
técnicas que permitam a elaboração honesta e frutuosa de argumentos e
não só como uma técnica de sedução, em que a verdade não é tida em
conta. Também para Perelman, a argumentação desempenha um papel
importante na fundamentação de teses filosóficas, como se pode observar
neste pequeno fragmento:
Para se assegurar de que as teses preconizadas pelos filósofos não
constituem opiniões incertas e falaciosas mas verdades
indiscutíveis, é preciso que elas beneficiem de fundamento sólido e
indiscutível, de uma intuição evidente, que garanta a verdade do que
é percebido como evidente. A evidência, assim concebida, não é um
estado subjetivo que possa variar dum momento para o outro e de
indivíduo para indivíduo: o seu papel, com efeito, é o de estabelecer
uma ponte entre o que é percebido como evidente pelo sujeito
cognoscente e a verdade da proposição evidente que deve impor-
se da mesma maneira a todo o ser de razão.
Perelman(1999), O Império Retórico. Retórica e Argumentação, Asa,
p.25.

Mas a argumentação não é só uma ferramenta para a descoberta da


verdade, ela é também muito importante na comunicação dessa mesma
verdade. Desta forma, a sua relevância para a construção do
conhecimento é muito difícil de ser contestada.

A retórica é um instrumento indispensável e crucial à filosofia. Contudo, a


filosofia não se reduz à retórica ou à argumentação, na procura da
verdade a dúvida, a análise e a crítica filosóficas não poderão nunca ser
dispensadas. Creio que, mais do que a argumentação que implica a
tomada de posição contra ou por uma tese ou opinião, a dúvida, a
análise e a crítica filosóficas permitem desconstruir e decompor a
realidade de modo a separar e a identificar nela o que é e o que não é.

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