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Como construir bons argumentos?...

Escrever um bom argumento...

1ª regra: o primeiro passo para redigirmos um argumento é perguntarmos: o que


desejamos provar? Qual a conclusão? É preciso não esquecer que a conclusão é a
afirmação para a qual estamos a fornecer razões. As afirmações que fornecem
razões chamam-se premissas. Estas reconhecem-se num texto, a partir de
expressões como: pois, dado que, visto que, já que, porque, entre outras. No
entanto, nem sempre estes indicadores podem estar presentes de uma forma
explícita, pelo que, o trabalho interpretativo não é de forma alguma simples.

2ª regra: Os argumentos curtos escrevem-se normalmente em um ou dois


parágrafos. Coloque a conclusão primeiro, seguida das suas razões, ou apresente
as suas premissas primeiro e retire a conclusão no fim. Em qualquer dos casos,
apresente as suas ideias pela ordem que mais naturalmente revele o seu raciocínio.

De forma a identificarmos mais facilmente a conclusão, utilizam-se expressões


como: logo, assim, assim sendo, deste modo, portanto, consequentemente, por isso,
etc.

Agora que já sabemos no que é que consiste a argumentação vamos passar ao


trabalho filosófico. Assim, se queremos de facto aprender a fazer filosofia, não só
temos que argumentar, como também temos que saber avaliar/interpretar os
argumentos de outros filósofos. Ora, isso passa, inevitavelmente, pela interpretação
de textos filosóficos. Para que possamos compreender um texto temos que proceder
de uma forma metodológica, temos que saber identificar o assunto, perceber a tese
principal do texto, identificar os argumentos que sustentam a tese, identificar os
contra-argumentos, verificar a coerência ou não dos argumentos e saber identificar a
conclusão.

O Assunto
Depois de uma leitura atenta do texto há que identificar de que fala o texto, qual o
tema que é nele tratado?

A Tese/Teoria

Este é o momento em que o filósofo se pronuncia sobre qual das hipóteses de


resposta ao problema lhe parece a verdadeira ou, pelo menos, a mais coerente e
provável. Com efeito, em Filosofia não existem verdades absolutas, pois o seu
domínio não se restringe à pura demonstração, onde a partir de premissas, segundo
regras puramente formais, se deduzem conclusões. A Filosofia assenta
fundamentalmente na argumentação não formal, isto é, na apresentação de razões
a favor ou contra uma determinada tese.
Adaptado de Anthony Weston, A Arte de Argumentar, Ed. Gradiva, Lx, 1996, pp.19-21.
Argumento/Argumentação

Depois de colocado de forma clara e rigorosa o problema a abordar e de ser


apresentada a tese sobre esse problema, segue-se a tarefa mais especificamente
filosófica, a exposição de argumentos.

A argumentação consiste na apresentação de razões estruturadas e coerentes que


apoiem as nossas teses sobre determinado problema filosófico.

É certo que toda a gente tem opiniões, mas relativamente poucas se dão ao trabalho
de analisar cuidadosamente o problema, conhecer os termos em que se põe, as
diferentes teorias propostas como resposta a ele e, acima de tudo, de conhecer e
compreender os argumentos que estão subjacentes a essas teorias; de ser capaz de
os discutir, de lhes contrapor objecções, enfim, de reflectir de uma maneira
realmente filosófica, indo ao fundo das questões, explorando as razões de cada
parte e formando, com base nisso, uma posição independente e informada.

Distinção entre validade/forma e verdade/conteúdo

Para analisarmos cuidadosamente um argumento, isto é, para verificarmos se o


mesmo é ou não coerente, bom ou mau, uma vez que não existem verdades
absolutas na filosofia, temos que saber analisá-lo.

Assim, dado um determinado argumento temos que o avaliar. Como é que


avaliamos a validade/ valor de um argumento?

1º Verificamos se as suas premissas/proposições são verdadeiras – verificamos o


conteúdo das premissas.

Por exemplo: Bucareste é a capital da Roménia.

Os cães são mamíferos.

A Filosofia é uma disciplina interessante.

2º Verificamos se a conclusão se segue necessariamente das premissas.

Por exemplo: Todos os estudantes do ensino secundário têm educação física

O Hugo Montes é estudante do ensino secundário

Logo, o Hugo Montes tem educação física

Se o argumento responder afirmativamente a estes dois pressupostos, estamos


diante de um argumento válido e sólido. Contudo, não podemos esquecer que
existem argumentos válidos com uma das premissas falsas:

Exemplo: Os gatos gostam de leite

Adaptado de Anthony Weston, A Arte de Argumentar, Ed. Gradiva, Lx, 1996, pp.19-21.
Mia Couto é um gato

Logo, Mia Couto gosta de leite (supondo que o escritor gosta de


leite)

ou até mesmo com premissas e conclusão falsas:

Exemplo: Todos os filósofos são actores de telenovela

Boss Ac é filósofo

Boss Ac é actor de telenovela,

pois na lógica o que garante a validade formal de um argumento é a


estrutura/forma e não a verdade/conteúdo.

No entanto, não podemos esquecer que um argumento válido com ambas as


premissas verdadeiras, jamais poderá ter uma conclusão falsa, pois a verdade das
premissas deve ser preservada na conclusão.

Todavia, não podemos esquecer que no domínio argumentativo, no exercício


filosófico, não recorremos à lógica formal, ao domínio da demonstração, mas sim ao
domínio da discussão argumentativa e, aqui a maior parte das vezes os argumentos
que utilizamos são verosímeis, isto é, aproximam-se da verdade.

Se assim é, que tipo de argumentos podemos encontrar num discurso


argumentativo?

Argumentos indutivos – são argumentos que partem de premissas/proposições


particulares e inferem conclusões gerais, como por exemplo: “Se todos os cisnes
observados até agora são brancos, então todos os cisnes são brancos.”

“Todos os alunos da escola Secundária Gil Eanes gostam de Filosofia, logo todos os
alunos gostam de Filosofia.”

Neste tipo de argumento, inválido à luz da lógica formal, dá-se um salto (lógico) do
conhecido para o desconhecido, o que não permite conferir à conclusão um carácter
de verdade necessária, mas apenas de probabilidade, maior ou menor, consoante o
nº de casos observados. Estes argumentos são fortes ou fracos, consoante o grau
de probabilidade.

Argumentos por analogia – são argumentos inválidos, à luz da lógica formal, mas
bastante utilizados na argumentação. Consistem numa comparação entre objectos
diferentes e inferem de certas semelhanças outras semelhanças. Partem do
pressuposto de que se diferentes coisas são semelhantes em determinados
aspectos, então também serão noutros. Este tipo de argumento pode ser
classificado de forte ou fraco consoante a comparação.

Adaptado de Anthony Weston, A Arte de Argumentar, Ed. Gradiva, Lx, 1996, pp.19-21.
Exemplo: “Os soldados de um batalhão são decididos, corajosos e cooperantes.
Uma equipa de futebol é como um batalhão. Um batalhão tem de obedecer ao
comandante. Logo, os jogadores de uma equipa de futebol têm de obedecer às
decisões do treinador para poderem atingir os seus objectivos.

Contra-argumentação
O trabalho filosófico não se reduz a argumentar a favor das nossas teses. Mesmo
quando fazemos isso, faz parte de uma boa argumentação antecipar as críticas aos
nossos argumentos, prever possíveis objecções e, se possível, responder-lhes.
Assim, o termo “argumentação” inclui não só a defesa das nossas ideias, mas
também, a contestação de posições alternativas ou contrárias.

A Conclusão
Depois de especificarmos a posição que defendemos e argumentarmos
favoravelmente à mesma, chegou o momento de apresentarmos a nossa conclusão.
A conclusão pode ser um reforço da nossa tese ou um aprofundamento da mesma.

Adaptado de Anthony Weston, A Arte de Argumentar, Ed. Gradiva, Lx, 1996, pp.19-21.

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