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POLÍCIA CIVIL 2021

DIREITO PROCESSUAL PENAL


Vale salientar que a terminologia processo acoplada a
PROF. JALIGSON CARLOS tal ramificação jurídica não deve ser confundida com o termo
procedimento, pois, enquanto aquele consiste numa sequência
ASSUNTOS: NOÇÕES DE DIREITO PROCESSUAL de atos interdependentes direcionados a resolução conflitual
PENAL: 1 Notitia criminis e o inquérito policial: Histórico, este é o modo ou o rito pelo qual o processo anda.
natureza, conceito, finalidade, características, fundamento,
titularidade, grau de cognição, valor probatório, formas de A base legal do Código de Processo penal atual é o
instauração, notitia criminis, delatio criminis, procedimentos Decreto-Lei 3.689, de 03-10-1941 além das leis processuais
investigativos, indiciamento, garantias do investigado; esparsas ou extravagantes.
conclusão; inquérito policial e o controle externo da atividade
policial pelo Ministério Público; arquivamento e Nesse panorama deve-se, pois, definir o direito
desarquivamento do inquérito policial. 3 Da prova: processual penal como sendo o conjunto de normas e
considerações gerais; Preservação de local de crime; exame de princípios que visam tornar realidade o Direito Penal. São
corpo de delito e perícias em geral; Requisitos e ônus da prova; as leis processuais que tiram a lei do plano abstrato para
Nulidade da prova; Documentos de prova; Reconhecimento de dar vida a uma situação concreta, disciplinando uma
pessoas e coisas; Acareação; Indícios; Interrogatório e exigência de ordem pública, a ser realizada pelo ente
confissão; perguntas ao ofendido; testemunhas; Busca e estatal: o processo.
apreensão. 4. Da prisão cautelar: prisão em flagrante; prisão
preventiva; prisão temporária. Exsurge o Direito Processo Penal, pois, como
mecanismo legal materializador das pilastras básicas do Direito
CAPÍTULO I Penal, quais sejam, os crimes, as penas e as medidas de
NOÇÕES GERAIS segurança. Destarte, enquanto o Direito Penal estabelece as
diretrizes dos efeitos decorrentes do evento criminoso o Direito
BASE LEGAL: CPP Processual Penal, por sua vez cria os elementos necessários
‘Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas para que àquele possa alcançar um campo prático. Assim, em
a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da geral tudo que ocorre em momento posterior ao crime ou delito
atuação probatória do órgão de acusação.’(Atualizado pela Lei ou mesmo à contravenção penal passa a ser matéria deste ramo
13.964/2019 – Pacote Anticrime) jurídico ao menos no que toca o Inquérito Policial (fase não
processual), passando pela ação penal e mesmo toda a instrução
Esquema do Capítulo I probatória, bem como as decisões e os recursos delas
decorrentes.
1 . Introdução (Conceito/ Distinção entre Direito Penal e
Direito Processual Penal). Segundo Paulo Queiroz:
2. Tipos de Sistemas Processuais
3. Atualidades “O direito processual penal é o ramo do ordenamento
jurídico cujas normas instituem e organizam os órgãos
1. INTRODUÇÃO públicos que cumprem a função jurisdicional do Estado e
disciplinam os atos que integram o procedimento necessário
A vida em sociedade pressupõe um complexo e para a aplicação de uma pena ou medida de segurança 2.
intrigante acervo normativo que possibilite limitações Incumbe ao processo penal, portanto, definir competências,
compatíveis com a estruturação exarada do meio social em fixar procedimentos e estabelecer as medidas processuais
detrimento do poder estatal. necessárias à realização do direito penal, razão pela qual o
processo penal nada mais é do que um continuum do direito
Nesse diapasão deitam raiz os mais diversos ramos penal, ou seja, é o direito penal em movimento, e, pois, formam
jurídicos, cada qual com sua especificidade. uma unidade.”
O Estado, detentor absoluto do Poder de Império, deve
Enquanto o Direito Penal é constituído pelas
seguir regras normativas para desempenhar esta função. Deve-
normas que definem os princípios jurídicos que regulam os
se dizer, contudo, que tal posição estatal (Império) só se
justifica quando do trato de relações de direito público, não se seus institutos, definem as condutas criminosas e cominam
estendendo às relações privatísticas, ainda que haja figuração as sanções correspondentes, o Processo Penal, é o
do ente estatal. instrumento através do qual pode ser imposta uma pena em
função de um delito.
Diante da realização fática tipificada opera-se o delito São elos da mesma corrente. O Direito Penal estuda o
e, consequentemente, fala-se em punição para o agente daquele. crime e o Direito Processual Penal estuda a apuração do crime.
Essa punição, contudo, não deve respaldar-se em outro critério Em outros termos, Direito Penal está relacionado ao
que não seja o escolhido pelo ente estatal e executado a partir material, é a lei , o texto da lei penal...o que está na lei. Se divide
dos critérios previamente estabelecidos através do Direito em. parte geral e parte especial. Já Direto processual penal, é a
Processual penal, que é o ramo do Direito Público encarregado prática, como será o processo, ele que dirá o caminho seguido
de penalizar aqueles que infringiram a órbita penal. Assim, depois da materialidade ocorrer (crime).
enquanto o Direito Penal estabelece as normas relativas à Dessa maneira, vislumbra-se que a norma processual
possível conduta do agente criminoso, o Direito Processual penal é a concretude do que foi abstratamente previsto no
penal se incumbiu da regulação da função do Estado no âmbito penal.
julgamento das infrações e na aplicabilidade das penas.
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2. PRINCIPAIS SISTEMAS PROCESSUAIS A lei n° 13.964/2019, o denominado “pacote
anticrime” prevê expressamente a adoção do sistema
O processo, como instrumento para a realização do acusatório, nos termos do que dispõe o artigo 3º-B e seus
Direito Penal, deve realizar sua dupla função: demais incisos. Está previsto também o juiz de garantias,
tornar viável a aplicação da pena e aduzindo nesse sentido:
servir como efetivo instrumento de garantia dos direitos e
liberdades individuais, assegurando os Art. 3º-A. O processo penal terá estrutura acusatória, vedadas
indivíduos contra os atos abusivos do Estado. Nesse sentido, o a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da
processo penal deve servir como instrumento de atuação probatória do órgão de acusação.
limitação da atividade estatal, estruturando-se de modo a Segundo Rodrigo Resende Scarton:
garantir plena efetividade aos direitos individuais “O art. 3º-A, introduzido no Código de Processo
constitucionalmente previstos, como a presunção de inocência, Penal pelo Pacote “Anticrime”, é responsável por encerrar a
contraditório, defesa, etc. discussão existente na doutrina acerca do sistema processual
penal adotado pelo sistema brasileiro, na medida em que veda
Diante desse quadro é necessário pinçarmos algumas a iniciativa acusatória e probatória do juiz.
considerações quanto aos sistemas processuais. Inicialmente, o artigo supramencionado reafirma a
estrutura acusatória, coadunando a legislação processual
Doutrinariamente, três são as espécies de sistemas penal pátria à Constituição Federal. A norma, ainda, veda a
processuais detectados: Sistema Inquisitório, Sistema iniciativa do juiz na fase de investigação criminal. Tal forma
Acusatório e Sistema Misto. de atuação já era considerada inconstitucional antes das
alterações da nova legislação.
Vejamos: Em um primeiro momento, essa iniciativa poder ser
entendida de modo restrito, ou seja, como a vedação de o
SISTEMA INQUISITÓRIO magistrado instaurar procedimentos na fase de investigação.
Assim, não só estaria o magistrado proibido de ordenar a
Segundo Denilson Feitoza: “O sistema Inquisitivo produção antecipada de prova (hoje prevista no inciso I do
correspondia à concepção de um poder central absoluto, com artigo 156 do atual Código de Processo Penal), senão também
a centralização de todos os aspectos do poder soberano determinar a realização de interceptações telefônicas, buscas
(legislação, administração e jurisdição) em uma única pessoa.” e apreensões temporárias sem que, em caráter prévio, houvesse
requerimento do sujeito legitimado para apresenta-lo.
É um modelo caracterizado por um autoritarismo por Já em um segundo momento, essa iniciativa pode ser
parte do Estado que assume o papel de acusar, julgar e defender, entendida de modo amplo, ou seja, não só como a proibição de
tornando o juiz passa a ser um inquisidor. instaurar procedimentos voltados à investigação, senão
também como a vedação de o magistrado, por assim dizer,
SISTEMA ACUSATÓRIO aditar pedido formulado por terceiro. Em outras palavras,
estaria o juiz proibido de ampliar, de ofício, o objeto do pedido
Para Paulo Rangel “O sistema acusatório, antítese do apresentado – via de regra – pela autoridade investigante ou
inquisitivo, tem nítida separação de funções, ou seja, o juiz é pelo Ministério Público, sempre que esse pedido estivesse
órgão imparcial da aplicação da lei, que somente se manifesta voltado a restringir algum direito fundamental do
quando devidamente provocado; o autor é quem faz a acusação investigado. (ANDRADE, 2009, P. 172)
(imputação penal + pedido), assumindo, segundo nossa Operou-se, pois, a revogação tácita do art. 156, II do
posição, todo o ônus da acusação, e o réu exerce todos os CPP, bem como de todos os demais dispositivos constantes do
direitos inerentes à sua personalidade, devendo defender-se CPP que atribuíam ao juiz da instrução e julgamento iniciativa
utilizando todos os meios e recursos inerentes à sua defesa. probatória no curso do processo penal. É bem verdade que o
Assim no sistema acusatório, cria-se o actum trium legislador poderia ter sido mais direto e objetivo, revogando-
personarum, ou seja, o ato de três personagens: juiz, autor e os expressamente, de modo a privilegiar a técnica e a própria
réu.” segurança jurídica. Mas tal omissão não impede que se
produza uma interpretação sistemática, coerente com o
SISTEMA MISTO próprio espírito das mudanças produzidas pela Lei 13.964/19
e com o sistema acusatório. (LIMA, 2020, p. 99-100) (grifo
Segundo Noberto Avena: “Abrange duas fases nosso).”
processuais distintas: uma inquisitiva, destituída de
contraditório, publicidade e defesa, na qual é realizada uma A referida previsão legislativa é um avanço
investigação preliminar e uma instrução preparatória; outra democrático, indo ao encontro do processo penal acusatório,
posterior a essa, correspondente ao momento em que se previsto constitucionalmente.
realizará o julgamento, assegurando-se ao acusado, nesta
segunda fase, todas as garantias do processo acusatório”. Interessante destacar que Associações de Magistrados,
após a promulgação da referida lei, manifestaram insatisfação
3. ATUALIDADES: de muitos com a mudança, aduzindo que a figura dos juízes de
garantias não seria possível no cenário atual, pela escassez de
o sistema processual penal que, anteriormente era membros, primordialmente em comarcas do interior.
classificado como misto – pelo menos por parte da doutrina – Nesse sentido, o Supremo Tribunal Federal suspendeu
passou a ser o acusatório. Isto signi- fica que não mais haverá por prazo indeterminado a aplicação do juiz de garantias no
uma fase pré-processual inquisitiva e, sim, duas fases – a processo penal.
investigativa e a processual – no sistema acusatório.
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CAPÍTULO II Compreende ao mesmo tempo um juízo de aparência
NOTITIA CRIMINIS sobre o enquadramento da situação de fato como ilícito penal,
sustentando na forma como a notícia do fato se apresenta, e
BASE LEGAL:CPP cuja maior ou menor verossimilhança é determinante para a
instauração de um procedimento investigatório formal ou
Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito policial não.”
será iniciado:
§ 3o Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da 2. Espécies
existência de infração penal em que caiba ação pública poderá,
verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade policial, A “notitia criminis” pode ser classificada segundo
e esta, verificada a procedência das informações, mandará diferentes critérios.
instaurar inquérito.
2.1 Quanto à iniciativa, a “notitia criminis” divide-se em
Esquema do Capítulo II simples ou qualificada:

1. Conceito A simples é aquela que pode ser feita por qualquer


2. Espécies de notitia criminis pessoa do povo, ao passo que a qualificada é aquela feita pela
2.1 Quanto à iniciativa: simples ou qualificada vítima da infração penal pelo seu representante legal.
2.3 Quanto ao momento: preventiva e a repressiva
2.3 Quanto à forma de conhecimento da infração: 2.2 Quanto ao momento, tem-se a “notitia criminis”
cognição direta ou imediata e cognição indireta ou preventiva e a repressiva.
mediata
2.4 Notitia criminis inqualificada A preventiva é aquela que antecede a ocorrência de
3. Distinção com outros instrumentos jurídicos uma infração penal, impedindo que essa ocorra, o que muitas
3.1 “Notitia criminis" e "delatio criminis" vezes pode levar à inexistência do fato, e, portanto, à
3.2 “Notitia criminis" e "representação" impossibilidade de responsabilização. Já a repressiva é aquela
3.3 “Notitia criminis" e "queixa-crime” relacionado com fato determinado já praticado, cuja
4. “Notitia criminis" e os tipos de ação penal. responsabilização, em tese, é possível.
5. Informações diversas 2.3 Quanto à forma por meio da qual a autoridade
5.1 Obrigatoriedade da notitia criminis. competente toma conhecimento da infração, a “notitia
5.2 “Notitia criminis” proposta pelo Ministério Público. criminis” divide-se em cognição direta ou imediata, e
5.3 “Notitia criminis” e a figura do informante. cognição indireta ou mediata.

1. Conceito A “notitia criminis” por cognição imediata ou


direta é aquela em que a autoridade toma conhecimento da
No contexto jurídico, a expressão latina “notitia infração de ofício, ou seja, no exercício regular das funções,
criminis” consiste na informação da ocorrência de um crime, sem provocação formal, como a hipótese do flagrante delito, ou
isto é, “Notitia criminis” é a notícia do crime, do fato definido ainda quando a vítima de uma infração penal comparece à
como infração penal, a forma como se toma conhecimento da delegacia de polícia para registro de uma ocorrência. No caso
ocorrência de uma infração penal, compreendido o crime e as do inquérito policial, quando o delegado de polícia age de
contravenções penais. ofício, a sua instauração se instrumentaliza por meio de uma
portaria. No caso da prisão em flagrante, a formalização do
Trata-se de um ato de conhecimento, que pode início da investigação se perfaz por meio do respectivo auto de
decorrer da provocação formal de alguém ou não, e que pode prisão em flagrante.
anteceder ou não a ocorrência da infração penal. A referida
expressão “notitia criminis” não tem previsão legal expressa, Nesses casos, a autoridade competente age com
contudo, retrata a situação descrita no momento da instauração liberdade de convencimento no sentido de verificar a existência
do inquérito policial regulado pelo art. 5º do CPP, assim como de fato determinado e a sua tipicidade penal. Caso se trate de
na Lei 9.099/1995, quando prevê que a autoridade lavrará o infração que se procede por meio de ação penal pública, o
termo circunstanciado toda vez que tomar conhecimento de delegado de polícia é obrigado a instaurar o inquérito policial.
uma infração de menor potencial ofensivo.
Um caso interessante e peculiar de cognição direta é a
É importante frisar que a “notitia criminis” idônea à colaboração premiada, que constitui hipótese de colaboração
formalização de procedimento investigatório criminal processual, e compreende igualmente a delação premiada, o
pressupõe fato determinado ou ao menos determinável. A acordo de leniência, dentre outras expressões que são
identificação da possível autoria não constitui elemento utilizadas.
indispensável para que a “notitia criminis” possa surtir efeitos.
Segundo Fábio Ramazzini Bechara: Isso porque a palavra do colaborador pode constituir
fonte de informação sobre outros fatos ainda desconhecidos,
“A notícia do crime viabiliza o início da investigação, como também fonte de informação sobre o envolvimento de
seja de maneira informal para confirmar a veracidade do seu outras pessoas ainda não identificadas.
conteúdo, seja para por si só justificar a formalização do
procedimento de investigação pela autoridade competente. Nesses casos, em que a palavra do colaborador
constitui meio idôneo a legitimar a instauração formal de uma
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investigação, que buscará confirmar por outros meios o autoridade policial, antes de instaurar o inquérito policial,
conteúdo da informação. verificar a procedência e veracidade das informações por ela
Ainda como peculiar de “notitia criminis” por veiculadas. Recomenda-se, pois, que a autoridade policial,
cognição imediata ou direta temos a hipótese regulamentada antes de proceder à instauração formal do inquérito policial,
pela Lei 12.850/2013 referente ao procedimento de infiltração realize uma investigação preliminar a fim de constatar a
de agentes como meio de obtenção de provas. plausibilidade da denúncia anônima.
Nessa hipótese, vale dizer, a autoridade ao tomar Dessa forma, entende-se que a denúncia anônima, por
conhecimento de uma infração penal, mesmo quando presencia si só, não pode fundamentar a instauração de inquérito policial,
a sua prática, está autorizado por lei a não tomar nenhum tipo mas, a partir dela, pode a polícia realizar diligências
de providência, isto é, não é obrigado a comunicar preliminares para apurar a veracidade das informações obtidas
imediatamente a infração ou a prender o seu autor em flagrante. anonimamente e, então, instaurar o procedimento investigatório
Ocorre nesses casos, a comunicação posterior da propriamente dito.
infração à autoridade competente para investigar, ou ainda o
chamado flagrante retardado, hipótese em que se escolhe o Essa é inclusive, a posição do STF:
momento mais adequado para a prisão em flagrante,
considerando que nesses casos o atraso potencializa o resultado "...Firmou-se a orientação de que a autoridade policial, ao
da ação estatal. receber uma denúncia anônima, deve antes realizar diligências
Destarte, nesses casos, a cognição é imediata, contudo, preliminares para averiguar se os fatos narrados nessa
a sua formalização é posterior por força de expressa autorização "denúncia" são materialmente verdadeiros, para, só então,
legal. iniciar as investigações..." (STF 1ª turma, HC 95.244 Rel. Min.
Já a “notitia criminis” por cognição mediata ou Dias Toffoli)
indireta, é aquela em que a autoridade competente toma
conhecimento da infração penal por meio de uma provocação 3. Distinção com outros instrumentos jurídicos
formal, que na hipótese do art. 5º do CPP compreende o
requerimento da vítima ou do seu representante legal, e a 3.1 “Notitia criminis" e "delatio criminis"
requisição do juiz e do Ministério Público.
Na hipótese de requerimento formal da vítima ou do “Notitia criminis” e “delatio criminis” podem ser
seu representante legal, a autoridade competente tem liberdade tratadas como expressões sinônimas, ou ainda estabelecer uma
de convencimento em relação ao conteúdo do pedido – que não relação de gênero e espécie. A “notitia criminis” é o gênero e a
precisa ser assinado por advogado –, embora deva motivar as “delatio criminis” é a espécie, pelo fato de que se trata de
suas decisões. Caso a autoridade competente indefira a hipótese de “notitia criminis” por cognição mediata ou indireta,
instauração do inquérito policial, a vítima ou o seu ou seja, constitui na realidade um ato de provocação formal.
representante legal, de acordo com o art. 5º do CPP, poderão A “delatio criminis” subdivide-se em simples e
recorrer ao superior hierárquico, que pode ser desde o delegado postulatória. A primeira consiste na hipótese em que qualquer
titular de uma delegacia até o chefe da polícia, que em alguns pessoa do povo a provoque, ao passo que a segunda se refere ao
Estados é o Delegado-Geral ou Diretor-Geral de Polícia, e em requerimento da vítima ou do seu representante legal.
outros Estados, o Secretário da Segurança Pública, e no caso da
polícia federal, o seu Diretor-Geral. 3.2 “Notitia criminis" e "representação"

Na hipótese de requisição judicial ou do Ministério Notitia criminis, ou notícia-crime, é o conhecimento


Público dirigida ao delegado de polícia, diferentemente, este de um fato criminoso, que se leva à autoridade. Ela pode se
não possui nenhuma liberdade de convencimento, sendo materializar por meio de um boletim de ocorrência ou de uma
obrigado a instaurar o inquérito policial, salvo se tratar de petição, entre outras formas, e pode ser dirigida ao delegado de
ordem manifestamente ilegal. A requisição pode advir de polícia, ao Ministério Público ou ao juiz.
qualquer juiz, não importa a especialização e o grau de Por sua vez, a representação é a manifestação de
jurisdição. No mesmo sentido o Ministério Público, não vontade do ofendido ou de seu representante legal, no sentido
importa se é o MP da União, dos Estados ou do Distrito Federal. de ser instaurada a ação penal. Ela tem lugar em crimes que são
processados por ação penal pública condicionada, isto é, de
O poder de requisição do juiz e do Ministério Público titularidade do Ministério Público, mas sujeita a essa condição.
decorre da Constituição Federal. Por forca constitucional, o Ela é verdadeira autorização para que o órgão ministerial possa
mesmo poder de requisição para instauração do inquérito propor a ação penal.
policial detém as Comissões Parlamentares de Inquérito. Caso É a lei que diz quais são os crimes em que se procede mediante
o delegado de polícia nesses casos descumpra a ordem, representação. São exemplos os crimes de lesões corporais
responde pelo crime de desobediência. leves (art. 129, caput, do Código Penal) e de ameaça (art. 147
do Código Penal). Note se que a representação, oferecida pela
vítima ou seu representante legal, não vincula o Ministério
2.4 “NOTITIA CRIMINIS” INQUALIFICADA Público, isto é, não o obriga a oferecer denúncia. O promotor
deverá analisar se estão presentes os requisitos para propor a
A “notitia criminis “inqualificada” é vulgarmente ação. A vontade do ofendido importa apenas para autorizar o
conhecida como “denúncia anônima”. Ministério Público a analisar as condições da ação.
O prazo para oferecimento da representação é de seis
Do ponto de vista jurídico a própria Constituição meses a contar da data em que o ofendido vier, a saber, quem é
Federal estabelece que é vedado o anonimato (CF, art. 5º, IV). o autor da infração penal, conforme o art. 38 do Código de
Prevalece o entendimento de que, nestes casos, deve a Processo Penal. O não oferecimento da representação dentro do
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prazo acarreta a extinção da punibilidade pela decadência, ou ação pública, de acordo com o § 5º, do art. 5º, do CPP, o
seja, não oferecida no prazo, terá o ofendido decaído de seu inquérito policial somente pode ser instaurado se houver
direito e a infração não mais poderá ser apurada. requerimento da vítima ou do seu representante legal. Tal
A representação poderá ser dirigida ao juiz, ao dispositivo se interpretado de forma restritiva, conduz ao
representante do Ministério Público e à autoridade policial. Se entendimento de que o inquérito policial não poderá ser
for dirigida ao juiz, ele a reduzirá a termo e remeterá à instaurado por portaria, auto de prisão em flagrante e requisição
autoridade policial para a instauração de inquérito. O mesmo do Juiz ou do Ministério Público. Se interpretado de forma
procedimento adotará o representante do Ministério Público, se ampliativa, a expressão “requerimento” há que ser
a representação a ele dirigida não contiver os elementos compreendida como manifestação de vontade por parte da
necessários para a propositura da ação. Dirigida ao delegado, vítima ou do seu representante legal, nos mesmos moldes do §
ele deverá instaurar inquérito policial. 4º, hipótese em que o inquérito poderia ser instaurado tanto por
meio de requerimento formal, como por portaria, auto de prisão
3.3 “Notitia criminis" e "queixa-crime” em flagrante e requisição do Juiz ou do MP.

A queixa-crime, diferentemente da “notitia criminis”, 5. Informações diversas


é a peça inicial da ação penal privada, de titularidade, em regra,
do ofendido. Vale destacar que, aqui, não se trata de autorização 5.1 Obrigatoriedade da notitia criminis.
da vítima para o Ministério Público agir, mas sim de atuação
exclusiva da vítima, isto é, ela é quem deve, através de E algumas situações a legislação brasileira prevê a
advogado, ingressar com a ação em Juízo e conduzi-la. obrigatoriedade da comunicação da ocorrência da infração
Segundo Flávio Cardoso de Oliveira: penal para fins de apuração, conforme se vislumbra nas
situações descritas abaixo
Da mesma forma que na representação, é a lei que diz
quando um crime se processa mediante ação penal privada.  Lei 6.149/1974, que trata da segurança no transporte
Como exemplos mais tradicionais, temos os crimes contra a metroviário, prevê que o corpo de segurança metroviária
honra – calúnia (art. 138 do Código Penal), difamação (art. deverá lavrar boletim de ocorrência sobre os crimes e
139 do Código Penal) e injúria (art. 140 do Código Penal). contravenções cometidos nas dependências dos metrôs, por
meio de encaminhamento à autoridade policial competente.
O prazo para oferecimento da queixa é, regra geral,  Os arts. 40 e 211 do Código de Processo Penal, o art. 22,
de seis meses, a contar da data em que o ofendido vier, a saber, XIV, da Lei Complementar 64/1990, a parte inicial do art.
quem é o autor da infração penal. Como na representação, 102 da Lei 8.666/1993 (licitações e contratos), o art. 141 do
trata-se de prazo decadencial, isto é, se o ofendido ou seu Decreto-Lei 5.844/1943 (servidores federais ligados à
representante não ingressarem com a ação dentro do prazo administração tributária), o art. 7º da Lei 4.729/1965
legal, ocorre a extinção da punibilidade e a infração não mais (crimes contra a ordem tributária), o art. 28 da Lei
poderá ser apurada. 7.492/1986 (crimes contra o sistema financeiro nacional),
art. 9º da Lei Complementar 105/2001 (sigilo bancário), art.
4. “Notitia criminis" e os tipos de ação penal. 356 do Código Eleitoral.
 O art. 66 da Lei de Contravenções Penais, que trata do dever
As Notitias Criminis que, por si só, podem dar origem de comunicar de quem se encontra no exercício de função
a uma investigação criminal são aquelas (não anônimas) nas pública e toma conhecimento de crime de ação penal
quais as infrações são de ação penal pública incondicionada pública, ou ainda o médico ou profissional sanitário, com
(sem exigências de condições da vítima para investigar o fato). relação ao crime de ação penal pública, desde que não
A investigação criminal poderá ser dada início através de um dependa de representação e a comunicação não exponha o
Inquérito Policial por iniciativa do próprio Delegado de Polícia, cliente.
regido pelo princípio da oficiosidade, que instaura uma Portaria
quando toma conhecimento de um crime através de notícia de 5.2 “Notitia criminis” proposta pelo Ministério Público.
qualquer um do povo, requisição do Juiz ou do Ministério
Público ou ainda a requerimento do ofendido. A Resolução 13 do Conselho Nacional do Ministério
Público regulamentou o procedimento investigatório criminal
De outro lado, nos crimes de ação penal pública instaurado pelo Ministério Público.
condicionada à representação (do ofendido ou quem tem No art. 3º a resolução estabeleceu que o procedimento
qualidade de representá-lo) o procedimento é semelhante aos investigatório criminal poderá ser instaurado de ofício pelo
crimes de ação penal privada, neste a persecução criminal só membro do Ministério Público, ao tomar conhecimento da
pode ser iniciada com a manifestação de vontade da vítima ocorrência de uma infração por qualquer meio, mesmo que
através da queixa-crime, já aquele o Ministério Público informal, ou mesmo por provocação.
depende da representação expressa do ofendido para o 5.3 “Notitia criminis” e a figura do informante.
oferecimento da peça acusatória (Denúncia), assim a
representação do ofendido, nesse caso, também é uma O informante não se confunde com o colaborador
condição específica de procedibilidade da instauração do regulamentado pela Lei nº 12.850/2013 ou o delator, pois esses
Inquérito Policial e consequentemente deflagração da são necessariamente coautores na atividade criminosa
persecução criminal. investigada, mas assemelha-se à testemunha, uma vez que esta
nada mais é do que aquele ser humano (qualquer pessoa) que
Nas infrações penais de ação penal privada, excluída a capta, através de quaisquer de seus sentidos biológicos, algo
ação privada subsidiária que se sujeita ao regime jurídico da que sirva para a reconstituição histórica dos fatos em apuração
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no processo. Seu papel na investigação (criminal ou o anonimato ou a confidencialidade, ou a ambas, no âmbito das
administrativa) ou no processo (criminal, administrativo ou organizações públicas – Administração Pública
civil) difere daquele reservado à testemunha compromissada direta ou indireta –, o escopo da Lei nº 13.964/2019 foi no
(Código de Processo Penal/CPP, art. 203), em razão da atuação sentido de admitir somente a
desinteressada desta e do eventual interesse daquele em receber confidencialidade do informante. Essa circunstância se conecta
uma recompensa, caso em que passa a ter interesse no resultado com a segunda grande modificação trazida pela Lei nº
do processo e, acaso ocorra a sua oitiva, deve sê-lo na qualidade 13.964/2019, qual seja, a institucionalização de mecanismos de
de testemunha não compromissada (CPP, art. 208, c/c Código proteção integral ao informante.
de Processo Civil/CPC, art. 447, §§ 3º,II, 4º e 5º). No caso, a lei assegura-lhe a confidencialidade
Sob este aspecto interessante frisar que a Lei nº ou preservação da sua identidade. Contudo, essa proteção não
13.608/2018, dispôs sobre o serviço telefônico de recebimento é absoluta, pois pode ser relativizada na hipótese de relevante
de denúncias e sobre recompensas por informações que interesse público ou interesse concreto para a
auxiliem nas investigações policiais. apuração dos fatos, conforme dispõe o art. 4º-B, da Lei nº
Na sua redação original – posteriormente alterada pela 13.608/2018, introduzido pela
Lei nº 13.964/2019, aquela lei autorizava o estabelecimento de Lei nº 13.964/2019.
serviços de “disque-denúncia” à União Federal, aos estados, ao
Distrito Federal e aos municípios, que pode também ser Observação importante:
mantido por entidade privada sem fins lucrativos, por meio de
O inquérito não deve ser instaurado, mesmo diante de uma
convênio. Ela permitiu, ainda, que o ente público estabelecesse
notitia criminis se:
formas de recompensa pelo oferecimento de informações que
sejam úteis para a investigação de crimes ou ilícitos
administrativos, recompensa esta que pode consistir no  o fato é atípico - porque já se tem decidido que constitui
pagamento de valores em constrangimento ilegal sanável pela via do habeas corpus;
espécie, muito embora a lei não preveja um percentual mínimo  a punibilidade do agente estiver extinta;
ou máximo para tanto (art. 4º da Lei nº 13.608/2018)  autoridade for incompetente;
Por sua vez, o texto aprovado pela Lei 13.964/2019,  não serem fornecidos os elementos indispensáveis para
que alterou a Lei 13608/2018, estabelece a denúncia sobre proceder à investigação;
crimes contra a administração pública, ilícitos administrativos  do indiciado já ter sido absolvido ou condenado pelo fato,
ou quaisquer ações ou omissões lesivas ao interesse público, ainda que a sentença não tenha transitado em julgado, senão
por meio de unidade de ouvidoria ou correição, ou seja, o há bis in idem (sobre o mesmo).
reporte aos órgãos públicos.
Dessa forma, a Lei nº 13.608/2018 – a Lei do “Disque CAPÍTULO III
Denúncia”, anteriormente mencionada – foi aditada com três DO INQUÉRITO POLICIAL
artigos por força da vigência da Lei nº 13.964/2019.
Na verdade, do cotejo do texto original da Lei nº BASE LEGAL:CPP
13.608/2018 com as inovações ora apontadas constatam-se
duas grandes modificações: a determinação de instalação ou Art. 4º A polícia judiciária será exercida pelas
manutenção de ouvidorias no serviço público; a adoção de autoridades policiais no território de suas respectivas
instrumentos de proteção integral ao informante. circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e
Com relação à primeira adição, o novo art. 4º-A da Lei da sua autoria. (Redação dada pela Lei nº 9.043, de
nº 13.608/2018 dispõe que a União, os estados, o Distrito 9.5.1995)
Federal e os municípios e suas Parágrafo único. A competência definida neste artigo
autarquias e fundações, empresas públicas e sociedade de não excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei
economia mista manterão unidades de ouvidoria ou correição seja cometida a mesma função.
para assegurar a qualquer pessoa o direito de relatar Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito policial
informações sobre crimes contra a Administração Pública, será iniciado:
ilícitos administrativos ou I - de ofício;
quaisquer ações ou omissões lesivas ao interesse público. II- mediante requisição da autoridade judiciária ou do
Como se pode observar, com a Lei nº 13.964/2019, as Ministério Público, ou a requerimento do ofendido ou de
ouvidorias do serviço público – unidades que já existiam em quem tiver qualidade para representá-lo.
grande parte da Administração Pública direta e indireta, passam § 1o O requerimento a que se refere o no II conterá sempre que
a ter a função de recebimento de informações por parte de possível:
servidores ou do público externo. Conforme explanado ao a) a narração do fato, com todas as circunstâncias;
longo do texto, a manutenção de canais b) a individualização do indiciado ou seus sinais
de denúncia. característicos e as razões de convicção ou de presunção de
Entretanto, diferentemente da previsão originária da ser ele o autor da infração, ou os motivos de impossibilidade
Lei do “Disque Denúncia”, cuja regra é o anonimato do de o fazer;
informante – consoante se depreende da leitura do c) a nomeação das testemunhas, com indicação de sua
art. 3º da Lei nº 13.608/2018 – os canais de recebimento de profissão e residência.
informações, no âmbito das
ouvidorias, regem-se pela confidencialidade do informante, § 2o Do despacho que indeferir o requerimento de abertura de
como se infere do art. 4º-B, inquérito caberá recurso para o chefe de Polícia.
introduzido pela Lei nº 13.964/2019. § 3o Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da
Se para a empresa privada é facultada a escolha entre existência de infração penal em que caiba ação pública poderá,

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POLÍCIA CIVIL 2021
verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade policial, § 3o Quando o fato for de difícil elucidação, e o indiciado
e esta, verificada a procedência das informações, mandará estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a devolução
instaurar inquérito. dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no
§ 4o O inquérito, nos crimes em que a ação pública depender de prazo marcado pelo juiz.
representação, não poderá sem ela ser iniciado. Art. 11. Os instrumentos do crime, bem como os objetos que
§ 5o Nos crimes de ação privada, a autoridade policial somente interessarem à prova, acompanharão os autos do inquérito.
poderá proceder a inquérito a requerimento de quem tenha Art. 12. O inquérito policial acompanhará a denúncia ou
qualidade para intentá-la. queixa, sempre que servir de base a uma ou outra.
Art. 6o Logo que tiver conhecimento da prática da infração Art. 13. Incumbirá ainda à autoridade policial:
penal, a autoridade policial deverá:
I- fornecer às autoridades judiciárias as informações
I- dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem necessárias à instrução e julgamento dos processos;
o estado e conservação das coisas, até a chegada dos II - realizar as diligências requisitadas pelo juiz ou pelo
peritos criminais; (Redação dada pela Lei nº 8.862, Ministério Público;
de 28.3.1994) III - cumprir os mandados de prisão expedidos pelas
II- apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após autoridades judiciárias;
liberados pelos peritos criminais; (Redação dada IV - representar acerca da prisão preventiva.
pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)
III- colher todas as provas que servirem para o esclarecimento Art. 13-A. Nos crimes previstos nos arts. 148, 149 e 149-A,
do fato e suas circunstâncias; no § 3º do art. 158 e no art. 159 do Decreto-Lei no 2.848, de 7
IV- ouvir o ofendido; de dezembro de 1940 (Código Penal), e no art. 239 da Lei
V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do
do disposto no Capítulo III do Título Vll, deste Livro, Adolescente), o membro do Ministério Público ou o delegado
devendo o respectivo termo ser assinado por duas de polícia poderá requisitar, de quaisquer órgãos do poder
testemunhas que Ihe tenham ouvido a leitura; público ou de empresas da iniciativa privada, dados e
VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a informações cadastrais da vítima ou de suspeitos. (Incluído pela
acareações; Lei nº 13.344, de 2016) (Vigência)
VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de corpo Parágrafo único. A requisição, que será atendida no prazo de 24
de delito e a quaisquer outras perícias; (vinte e quatro) horas, conterá: (Incluído pela Lei nº 13.344, de
VIII- ordenar a identificação do indiciado pelo processo 2016) (Vigência)
datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua
folha de antecedentes; I- o nome da autoridade requisitante; (Incluído pela Lei nº
IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de 13.344, de 2016) (Vigência)
vista individual, familiar e social, sua condição II - o número do inquérito policial; e (Incluído pela Lei nº
econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois 13.344, de 2016) (Vigência)
do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que III - a identificação da unidade de polícia judiciária
contribuírem para a apreciação do seu temperamento e responsável pela investigação. (Incluído pela Lei nº
caráter. 13.344, de 2016) (Vigência)
X - colher informações sobre a existência de filhos,
respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o Art. 13-B. Se necessário à prevenção e à repressão dos crimes
nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados relacionados ao tráfico de pessoas, o membro do Ministério
dos filhos, indicado pela pessoa presa. (Incluído Público ou o delegado de polícia poderão requisitar, mediante
pela Lei nº 13.257, de 2016) autorização judicial, às empresas prestadoras de serviço de
telecomunicações e/ou telemática que disponibilizem
Art. 7o Para verificar a possibilidade de haver a infração sido imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais,
praticada de determinado modo, a autoridade policial poderá informações e outros – que permitam a localização da vítima ou
proceder à reprodução simulada dos fatos, desde que esta não dos suspeitos do delito em curso. (Incluído pela Lei nº 13.344,
contrarie a moralidade ou a ordem pública. de 2016) (Vigência)
§ 1o Para os efeitos deste artigo, sinal significa posicionamento
Art. 8o Havendo prisão em flagrante, será observado o disposto da estação de cobertura, setorização e intensidade de
no Capítulo II do Título IX deste Livro. radiofrequência. (Incluído pela Lei nº 13.344, de
Art. 9o Todas as peças do inquérito policial serão, num só 2016) (Vigência)
processado, reduzidas a escrito ou datilografadas e, neste caso, § 2o Na hipótese de que trata o caput, o sinal: (Incluído pela
rubricadas pela autoridade. Lei nº 13.344, de 2016) (Vigência)
Art. 10. O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias, se o
indiciado tiver sido preso em flagrante, ou estiver preso I - não permitirá acesso ao conteúdo da comunicação de
preventivamente, contado o prazo, nesta hipótese, a partir do qualquer natureza, que dependerá de autorização judicial,
dia em que se executar a ordem de prisão, ou no prazo de 30 conforme disposto em lei;(Incluído pela Lei nº 13.344, de
dias, quando estiver solto, mediante fiança ou sem ela. 2016) (Vigência)
§ 1o A autoridade fará minucioso relatório do que tiver sido II - deverá ser fornecido pela prestadora de telefonia móvel
apurado e enviará autos ao juiz competente. celular por período não superior a 30 (trinta) dias, renovável
§ 2o No relatório poderá a autoridade indicar testemunhas que por uma única vez, por igual período; (Incluído pela Lei nº
não tiverem sido inquiridas, mencionando o lugar onde possam 13.344, de 2016) (Vigência)
ser encontradas. III- para períodos superiores àquele de que trata o inciso II, será
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POLÍCIA CIVIL 2021
necessária a apresentação de ordem judicial. (Incluído pela pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
Lei nº 13.344, de 2016) (Vigência) § 6º As disposições constantes deste artigo se aplicam aos
servidores militares vinculados às instituições dispostas no art.
§ 3o Na hipótese prevista neste artigo, o inquérito policial 142 da Constituição Federal, desde que os fatos investigados
deverá ser instaurado no prazo máximo de 72 (setenta e duas) digam respeito a missões para a Garantia da Lei e da
horas, contado do registro da respectiva ocorrência Ordem. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
policial. (Incluído pela Lei nº 13.344, de 2019) (Vigência)
2016) (Vigência) Art. 15. Se o indiciado for menor, ser-lhe-á nomeado curador
§ 4o Não havendo manifestação judicial no prazo de 12 (doze) pela autoridade policial.
horas, a autoridade competente requisitará às empresas Art. 16. O Ministério Público não poderá requerer a devolução
prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que do inquérito à autoridade policial, senão para novas diligências,
disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – imprescindíveis ao oferecimento da denúncia.
como sinais, informações e outros – que permitam a localização Art. 17. A autoridade policial não poderá mandar arquivar
da vítima ou dos suspeitos do delito em curso, com imediata autos de inquérito.
comunicação ao juiz. (Incluído pela Lei nº 13.344, de Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela
2016) (Vigência) autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a
Art. 14. O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de
poderão requerer qualquer diligência, que será realizada, ou outras provas tiver notícia.
não, a juízo da autoridade. Art. 19. Nos crimes em que não couber ação pública, os autos
Art. 14-A. Nos casos em que servidores vinculados às do inquérito serão remetidos ao juízo competente, onde
instituições dispostas no art. 144 da Constituição aguardarão a iniciativa do ofendido ou de seu representante
Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, legal, ou serão entregues ao requerente, se o pedir, mediante
inquéritos policiais militares e demais procedimentos traslado.
extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos Art. 20. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo
relacionados ao uso da força letal praticados no exercício necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da
profissional, de forma consumada ou tentada, incluindo as sociedade.
situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de Parágrafo único. Nos atestados de antecedentes que lhe forem
dezembro de 1940 (Código Penal), o indiciado poderá solicitados, a autoridade policial não poderá mencionar
constituir defensor. (Incluído pela Lei nº 13.964, de quaisquer anotações referentes a instauração de inquérito contra
2019) (Vigência) os requerentes. (Redação dada pela Lei nº 12.681, de
§ 1º Para os casos previstos no caput deste artigo, o investigado 2012)
deverá ser citado da instauração do procedimento Art. 21. A incomunicabilidade do indiciado dependerá sempre
investigatório, podendo constituir defensor no prazo de até 48 de despacho nos autos e somente será permitida quando o
(quarenta e oito) horas a contar do recebimento da interesse da sociedade ou a conveniência da investigação o
citação. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) exigir.
§ 2º Esgotado o prazo disposto no § 1º deste artigo com Parágrafo único. A incomunicabilidade, que não excederá de
ausência de nomeação de defensor pelo investigado, a três dias, será decretada por despacho fundamentado do Juiz, a
autoridade responsável pela investigação deverá intimar a requerimento da autoridade policial, ou do órgão do Ministério
instituição a que estava vinculado o investigado à época da Público, respeitado, em qualquer hipótese, o disposto no artigo
ocorrência dos fatos, para que essa, no prazo de 48 (quarenta e 89, inciso III, do Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil
oito) horas, indique defensor para a representação do (Lei n. 4.215, de 27 de abril de 1963) (Redação dada pela
investigado. (Incluído pela Lei nº 13.964, de Lei nº 5.010, de 30.5.1966)
2019) (Vigência) Art. 22. No Distrito Federal e nas comarcas em que houver
§ 3º Havendo necessidade de indicação de defensor nos termos mais de uma circunscrição policial, a autoridade com exercício
do § 2º deste artigo, a defesa caberá preferencialmente à em uma delas poderá, nos inquéritos a que esteja procedendo,
Defensoria Pública, e, nos locais em que ela não estiver ordenar diligências em circunscrição de outra,
instalada, a União ou a Unidade da Federação correspondente à independentemente de precatórias ou requisições, e bem assim
respectiva competência territorial do procedimento instaurado providenciará, até que compareça a autoridade competente,
deverá disponibilizar profissional para acompanhamento e sobre qualquer fato que ocorra em sua presença, noutra
realização de todos os atos relacionados à defesa administrativa circunscrição.
do investigado. (Incluído pela Lei nº 13.964, de Art. 23. Ao fazer a remessa dos autos do inquérito ao juiz
2019) (Vigência) competente, a autoridade policial oficiará ao Instituto de
§ 4º A indicação do profissional a que se refere o § 3º deste Identificação e Estatística, ou repartição congênere,
artigo deverá ser precedida de manifestação de que não existe mencionando o juízo a que tiverem sido distribuídos, e os dados
defensor público lotado na área territorial onde tramita o relativos à infração penal e à pessoa do indiciado.
inquérito e com atribuição para nele atuar, hipótese em que ..........................................................................................
poderá ser indicado profissional que não integre os quadros .............................
próprios da Administração. (Incluído pela Lei nº 13.964, Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de
de 2019) (Vigência) quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão
§ 5º Na hipótese de não atuação da Defensoria Pública, os do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à
custos com o patrocínio dos interesses dos investigados nos autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de
procedimentos de que trata este artigo correrão por conta do revisão ministerial para fins de homologação, na forma da
orçamento próprio da instituição a que este esteja vinculado à lei. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
época da ocorrência dos fatos investigados. (Incluído 2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide ADI
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6.300) (Vide ADI 6.305) 12. Inquérito policial e o controle externo da atividade
§ 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com policial pelo Ministério Público
o arquivamento do inquérito policial, poderá, no prazo de 30 13. Arquivamento e desarquivamento do inquérito
(trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a policial.
matéria à revisão da instância competente do órgão ministerial,
conforme dispuser a respectiva lei orgânica. (Incluído pela 1. Histórico
Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
§ 2º Nas ações penais relativas a crimes praticados em Segundo Gustavo Rodrigo Picolin, ao tratar do histórico acerca
detrimento da União, Estados e Municípios, a revisão do do nascedouro do “inquérito Policial”, pode-se dizer que:
arquivamento do inquérito policial poderá ser provocada pela
chefia do órgão a quem couber a sua representação Na Grécia Antiga, entre os atenienses, existia uma prática
judicial. (Incluído pela Lei nº 13.964, de investigatória para apurar a probidade individual e familiar
2019) (Vigência) daqueles que eram eleitos magistrados.
Art. 28-A. Não sendo caso de arquivamento e tendo o
investigado confessado formal e circunstancialmente a prática Já entre os romanos, conhecidos como “inquisitio”, era uma
de infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena delegação de poderes dada pelo magistrado à vítima ou
mínima inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá familiares para que investigassem o crime e localizassem o
propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e criminoso, acabando se transformando em acusadores.
suficiente para reprovação e prevenção do crime, mediante as
seguintes condições ajustadas cumulativa e Passado algum tempo, o Estado quis para si o direito de
alternativamente: (Incluído pela Lei nº 13.964, de investigação, passando a função para agentes públicos.
2019) (Vigência)
Nas Ordenações Filipinas não falavam em Inquérito Policial,
I- reparar o dano ou restituir a coisa à vítima, exceto na o mesmo teve sua origem em Roma, com passagens pela idade
impossibilidade de fazê-lo; (Incluído pela Lei nº média e referências na legislação portuguesa e com aplicação
13.964, de 2019) (Vigência) no Brasil.
II - renunciar voluntariamente a bens e direitos indicados pelo
Ministério Público como instrumentos, produto ou Em 1832, quando surgiu o Código de Processo, eram apenas
proveito do crime; (Incluído pela Lei nº 13.964, de traçadas normas sobre as funções dos Inspetores de
2019) (Vigência) Quarteirões, mas estes não exerciam atividade de Polícia
III - prestar serviço à comunidade ou a entidades públicas por Judiciária, não se tratava de Inquérito Policial, havia apenas
período correspondente à pena mínima cominada ao delito dispositivos que informavam sobre o procedimento
diminuída de um a dois terços, em local a ser indicado informativo.
pelo juízo da execução, na forma do art. 46 do Decreto-
Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código No que tange especificamente a legislação brasileira o inquérito
Penal); (Incluído pela Lei nº 13.964, de policial teve sua origem com a edição do Decreto nº 4.824, de
2019) (Vigência) 22 de novembro de 1871, que regulamentou a Lei n° 2.033, de
IV - pagar prestação pecuniária, a ser estipulada nos termos 20 de setembro de 1871, e assim prescrevia:
do art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de “Artigo 42. O inquerito policial consiste em todas as
1940 (Código Penal), a entidade pública ou de interesse diligencias necessarias para o descobrimento dos factos
social, a ser indicada pelo juízo da execução, que tenha, criminosos, de suas circumstancias e dos seus autores e
preferencialmente, como função proteger bens jurídicos complices; e deve ser reduzido a instrumento escripto,
iguais ou semelhantes aos aparentemente lesados pelo observando-se nelle o seguinte:
delito; ou (Incluído pela Lei nº 13.964, de 1º Far-se-ha corpo de delicto, uma vez que o crime seja de
2019) (Vigência) natureza dos que deixam vestigios.
V- cumprir, por prazo determinado, outra condição indicada 2º Dirigir-se-ha a autoridade policial com toda a promptidão
pelo Ministério Público, desde que proporcional e ao lugar do delicto e ahi, além do exame do facto criminoso e
compatível com a infração penal imputada. (Incluído de todas as suas circumstancias e descripção da localidade em
pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) que se deu, tratará com cuidado de investigar e colligir os
indicies existentes e apprehender os instrumentos do crime e
Esquema do Capítulo III quaesquer objectos encontrados, lavrando-se de tudo auto
assignado pela autoridade, peritos e duas testemunhas.
1. Histórico 3º Interrogará o delinquente, que fôr preso em flagrante, e
2. Natureza Jurídica tomará logo as declarações juradas das pessoas ou escolta que
3. Conceito o conduzirem e das que presenciarem o facto ou deite tiverem
4. Finalidade conhecimento.
5. Características 4º Feito o corpo de delicto ou sem elle, quando não possa ter
6. Fundamento lugar, indagará quaes as testemunhas do crime as fará vir á
7. Titularidade sua presença, inquirindo-as sob juramento a respeito do facto
8. Grau de cognição e suas circumstancias e de seus autores ou complices. Estes
9. Valor Probatório depoimentos na mesma occasião serão escriptos
10. Formas de instauração resumidamente em um só termo, assignado pela autoridade,
11. Procedimentos investigativos/ Indiciamento/ testemunhas e delinquente, quando preso em flagrante.
Garantias do investigado e Conclusão do inquérito 5º Poderá dar busca com as formalidades legaes para
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apprehensão das armas e instrumentos do crime e de contraditório que é o caso de inquérito para fins de expulsão
quaesquer objectos á elle referentes; e desta diligencia se de estrangeiro nos termos da Lei 6.815/80(Estatuto do
lavrará o competente auto. Estrangeiro) regulamentado pelo Decreto 86.715/1981.Tal
6º Terminadas as diligencias e autuadas todas as peças, serão inquérito é feito pela Polícia Federal com vistas à aplicação
conclusas á autoridade que proferirá o seu despacho, no qual, de sanção administrativa. Outrossim, também é digno de
recapitulando o que fôr averiguado, ordenará que o inquerito nota o fato de que não existe mais o inquérito judicial
seja remettido, por intermedio do Juiz Municipal, ao Promotor falimentar em que havia o contraditório, pois o mesmo foi
Público ou a quem suas vezes fizer; e na mesma occasião revogado pela Lei nº 11.101/2005.
indicará as testemunhas mais idoneas, que por ventura ainda
não tenham sido inqueridas. 3. Conceito
Desta remessa dará immediatamente parte circumstanciada ao
Juiz de Direito da comarca. Etimologicamente a palavra inquérito tem origem do termo
Nas comarcas especiaes a remessa será por intermedio do Juiz latim in + quaerere, que significa buscar alguma coisa em uma
de Direito que tiver a jurisdicção criminal do districto, sem determinada direção. Desse modo o termo pode ser entendido
participação a outra autoridade. como um conjunto de atos concatenado, realizados de forma
7º Todas as diligencias relativas ao inquerito serão feitas no sistêmica e continuada, que visa descobrir algo.
prazo improrogavel de cinco dias, com assistencia do indiciado Por sua vez, do ponto de vista conceitual, pode-se entender que
delinquente, se estiver preso; podendo impugnar os inquérito policial consiste no procedimento administrativo
depoimentos das testemunhas. antecedente da ação penal, sem caráter obrigatório, constituído
Poderá tambem impugnal-os nos crimes afiançaveis, se de uma série de diligências realizadas pela Polícia Judiciária
requerer sua admissão aos termos do inquerito. (também chamada de investigativa segundo alguns autores)
8º Nos crimes, em que não tem lugar a acção publica, o direcionado à obtenção de indícios da materialidade de uma
inquerito feito a requerimento da parte interessada e reduzido infração penal e sua respectiva autoria.
a instrumento, ser-lhe-ha entregue para o uso que entender.
9º Para a notificação e comparecimento das testemunhas e 4. Finalidade
mais diligencias do inquerito policial se observarão, no que fôr
applicavel, as disposições que regulam o processo da formação A finalidade do inquérito é dupla. Isto, pois, visa inicialmente
da culpa”. reunir os subsídios para a formação da opinio delicti do
Ministério Público ou do querelante conforme o caso concreto
2. Natureza Jurídica através da denominada Polícia judiciária. Num segundo
momento tem a finalidade de constituir a justa causa da ação
É um procedimento inquisitivo, sigiloso (Art.20 do CPP), e não penal, comprovando a materialidade do crime e indícios de
bilateral, apresentando-se como possível referencial para autoria. Vale dizer que o termo polícia Judiciária abrange a
futuras ações penais, não sendo, pois, jurisdição. Vale dizer Polícia Civil no âmbito Estadual, e a Polícia Federal, no caso
que, essa sigilosidade não se aplica à figura do advogado. Todo da Justiça Federal. Atua quando o crime já ocorreu, no intuito
advogado pelo que estabelece a Lei 8.906/94 no art. 7º, XVI de colher elementos de prova do crime para eventual ação
pode examinar, pode nomear peças e tomar apontamentos penal.
mesmo sem procuração. E, além do mais, tal sigilo somente é
exigível naquilo que for necessário à elucidação do fato. Em O inquérito é importante, mas não é imprescindível, visto que,
regra, essa sigilosidade é ato discricionário da autoridade pode haver ação penal sem ter havido o inquérito, embora essa
policial. hipótese seja de difícil ocorrência. O inquérito fornece como
vimos à chamada “justa causa”, consistente no interesse
O inquérito também é inquisitório, nele não se admite processual que é uma das condições da ação penal, não devendo
contraditório, ninguém se defende, pois, teoricamente falando por isso mesmo o inquérito ser instaurado quando o fato não
no inquérito não há acusação, há investigação (art. 14, CPP). constituir crime ou estiver extinta a punibilidade, entre outras
No inquérito, não há que se falar de acusado (réu), há o hipóteses, pois do contrário tal ato arbitrário além de não
indiciado para alguns autores, mas o indiciamento só ocorre no fornecer a justa causa para o qual se destina fica passível de
relatório que é a última peça do inquérito. No curso do habeas corpus em razão do ato violador do status libertati. Por
inquérito, a autoridade policial tem uma liberdade ampla para último diga-se que, o artigo 46, § 1º, do CPP dispõe
promover as diligências necessárias para resolver aquele fato: expressamente acerca da possibilidade de dispensa do inquérito
buscas e apreensões, exame de corpo delito, perícias em geral, policial em razão de outras peças de informação ou mesmo de
declaração do ofendido, reprodução simulada do fato com representação que ele entenda como suficiente para a feitura da
exceção nos crimes contra os costumes, acareações, denúncia.
reconhecimento de pessoas e coisas, sempre que possível à
apreensão do instrumento do crime, etc. O limite é a ilicitude, Sob este prisma importante esclarecer que, com o advento da
tudo que não for ilícito, que não atentar contra a moralidade da Lei 11.609/2008 o art.155 do CPP modificado pela referida lei
pessoa, nem contra a ordem pública, a autoridade pode usar estabelece que o juiz formará sua convicção pela livre
para o inquérito. apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não
podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos
Observações importantes: elementos informativos colhidos na investigação,
 No inquérito utiliza-se o in dúbio pro societa (em dúvida, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e
pela sociedade). Já em juízo segue-se o in dúbio pro réu (em antecipadas.
dúvida, pelo réu).
 Existe um único caso em que o inquérito pode apresentar Para a doutrina majorante foi benéfica a posição do legislador
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ao tornar expressa a vedação do juiz de condenar o réu com a fim de que o titular da ação penal (o MP ou o ofendido, a
base em prova colhida exclusivamente durante a investigação depender do tipo de crime) possa ingressar em juízo.
policial, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e
antecipadas, conforme já defendia a doutrina majoritária e a 7. Titularidade
jurisprudência dominante.
Segundo o art. 4º do CPP “A polícia judiciária será exercida
Na realidade o que diz a norma em tela é que apenas as provas pelas autoridades policiais no território de suas respectivas
que podiam ser repetidas, mas, por alguma razão, não foram circunscrições e terá por fim a apuração das infrações penais e
produzidas em contraditório judicial, não poderão ser da sua autoria. (Redação dada pela Lei nº 9.043, de
livremente apreciadas pelo juiz. As provas cautelares, não- 9.5.1995).
repetíveis e antecipadas poderão ser mais do que livremente Por sua vez, o Parágrafo único do mesmo artigo
apreciadas pelo juiz, mas também embasar uma condenação. estabelece que “ A competência definida neste artigo não
excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei seja
5. Características cometida a mesma função.
Em face dessa exceção encontramos outros
Segundo a doutrina dominante são características do inquérito
inquéritos que não presididos pelo Delegado de Polícia Civil,
policial:
vejamos:
• A forma escrita (não existe tal ato feito oralmente);
• A sigilosidade (consequência do princípio da inocência e até  Crime militar: -> Justiça militar da União -> Polícia
mesmo para manter os elementos indispensáveis para a Judiciária Militar (Forças Armadas).
elucidação do fato). No que se refere a esta característica é  Justiça militar dos Estados -> Polícia Militar e Corpo de
importante frisar que a mesma só atinge as pessoas do povo Bombeiros Militar -
e o próprio investigado de manusear os respectivos  Crime de competência da Justiça Federal -> Polícia Federal.
documentos ou tomar contato direto com o resultado das  Crime de competência da Justiça Eleitoral -> Polícia
diligências realizadas no seu curso, não atingindo, pois, nem Federal (Se não tiver Polícia Federal é a Polícia Civil quem
a autoridade judiciária, nem o representante do MP e ainda investiga).
a figura do advogado independentemente de procuração,  Crime comum da competência da Justiça Estadual: em
salvo, nesse último caso se decretado pelo próprio juiz. regra, é a Polícia Civil. Obs.: a PF também pode investigar,
• A indisponibilidade visto que não existe interesse de desde que o crime seja dotado de repercussão interestadual
“partes” que justificasse tal efeito, além do que não poderá ou internacional, de acordo com a CF (art. 144, § 1º) e a Lei
ser arquivado pela autoridade policial consoante o art.17 do 10446/02 (além de todos os crimes citados na lei, a PF
CPP. também pode investigar o crime de terrorismo, de acordo
• A inquisitoriedade (não existe contraditório nem ampla com o art. 11 da Lei 13260/16).
defesa visto tratar-se de procedimento informativo e não de
processo, o que, aliás, justifica a possibilidade da autoridade Em outros termos, a polícia judiciária é exercida pelas
policial indeferir diligências quando considerá-las autoridades policiais em seus respectivos territórios de
impertinente, exceto a hipótese de exame de corpo delito. E atuação (as chamadas circunscrições), de modo que é
ainda nesse ponto é mister que se diga que não existe encarregada de apurar os crimes e sua autoria, o que, não
arguição de suspeição da autoridade policial. impede, segundo o parágrafo único, que o inquérito tenha outra
natureza que não a policial, pois outras autoridades
OBS: A Ação Penal ocorre em Juízo jamais em repartição administrativas são igualmente aptas a fazê-lo.
administrativa ou policial. O inquérito policial, por sua vez, Embora normalmente vislumbremos com maior
ocorre em ambiente policial tendo controle interno da incidência e popularidade o denominado inquérito policial
Corregedoria de Polícia e controle externo do órgão ministerial existem outros inquéritos de natureza não policial que, apesar
como se verá oportunamente. da ausência do caráter policial, também podem servir de base
para uma ação penal consoante nos elucida o art. 4º § único do
• A discricionariedade que se justifica pelo fato de que a CPP.
autoridade policial não tem um controle vinculativo de São exemplos de inquéritos extra policiais, entre
como vai proceder mais apenas determinadas diretrizes outros, os seguintes:
previstas no art. 6º do Código Processual Penal.
• A auto executabilidade em face da desnecessidade de Os inquéritos administrativos que são instaurados no
autorização judicial para a autoridade policial promover a âmbito das repartições públicas podendo gerar efeitos diversos
realização de diligências, salvo algumas situações inclusive demissão conforme o caso concreto.
específicas tais como a questão do sigilo das comunicações Os inquéritos policiais que se desenvolvem no âmbito
telefônicas ou mesmo o mandado de prisão quando esta não militar das corporações em que são apurados crimes militares
for em flagrante a exemplo do que acontece na hipótese de próprios, isto é, julgados pela Justiça Castrense somente como
prisão preventiva. ocorre, por exemplo, no caso de crime de deserção.
Os inquéritos produzidos pelo Poder Legislativo a
6. Fundamento partir das comissões parlamentares de inquérito (CPI)
instauradas no âmbito das casas legislativas, que segundo o
Inquérito policial encontra seu fundamento legal do artigo 4º ao art.58, §3º, possuem poderes de investigação próprios das
artigo 23 do Código de Processo Penal (CPP). Ele pode ser autoridades judiciárias. Vale salientar que, o STF entende que
definido como o conjunto de diligências realizadas pela Polícia elas têm poder de determinar a quebra de sigilo bancário, fiscal
Judiciária para a apuração de uma infração penal e sua autoria, e telefônico mediante decisão fundamentada. Não podem,
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POLÍCIA CIVIL 2021
todavia, determinar prisão preventiva, indispor bens, promover O policiamento preventivo, por outro lado, é aquele
acusações, etc. Ver-se, pois, que se deve preservar a desempenhado pelas Polícias Militares dos estados, e, via de
denominada reserva da jurisdição em que só a autoridade regra, estas não são competentes para realizar as investigações
judiciária pode manifestar-se como acontece na hipótese de de que tratamos aqui. O papel principal desta polícia é evitar
uma busca domiciliar, a interceptação telefônica e prisão possíveis infrações penais, ou seja, fazer com que elas não
(exceto no caso de prisão em flagrante). ocorram.
O inquérito civil criado pela Lei 7347/85 que é Em que pese a referida titularidade encontramos na Lei
presidido pelo Ministério Público e serve de base para a ação 12.830/2013 alguns artigos pertinentes:
civil pública para a defesa de interesses difusos, tais como a Art. 2º As funções de polícia judiciária e a apuração de
preservação do patrimônio artístico, cultural, histórico, etc. infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de
natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado.
Nas palavras de Luís Fernando de Moraes Manzano, a § 1º Ao delegado de polícia, na qualidade de autoridade
título de exemplo: policial, cabe a condução da investigação criminal por meio
“... Existem outros tipos de inquérito, todos eles com de inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei,
objetivos e finalidades semelhantes: que tem como objetivo a apuração das circunstâncias, da
materialidade e da autoria das infrações penais.
1. Inquérito administrativo: presidido por uma autoridade § 2º Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de
administrativa com vistas a apurar infração administrativa e polícia a requisição de perícia, informações, documentos e
instruir o processo administrativo; dados que interessem à apuração dos fatos.
2. Inquérito policial militar: presidido por uma autoridade § 3º (VETADO).
policial militar com o objetivo de apurar crime militar e com o § 4º O inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei
fim de instruir a ação penal; em curso somente poderá ser avocado ou redistribuído por
3. Inquérito parlamentar: presidido por uma comissão superior hierárquico, mediante despacho fundamentado, por
parlamentar de inquérito (sobre a qual dispõe a Lei n. 1.579, motivo de interesse público ou nas hipóteses de inobservância
de 18 de março de 1952), com o objetivo de apurar a dos procedimentos previstos em regulamento da corporação
ocorrência de crime comum e de responsabilidade, para que prejudique a eficácia da investigação.
instruir a ação penal e o processo político; § 5º A remoção do delegado de polícia dar-se-á somente por
4. Inquérito civil público: presidido pelo Ministério Público, ato fundamentado.
com o objetivo de apurar danos morais ou patrimoniais a § 6º O indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-
qualquer interesse difuso ou coletivo, com o fim de instruir a á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do
ação civil pública fato, que deverá indicar a autoria, materialidade e suas
A título de acréscimo às hipóteses anteriores Fernando Capez circunstâncias.
lista a seguinte situação: Art. 3º O cargo de delegado de polícia é privativo de bacharel
“... O inquérito em caso de infração penal cometida na sede em Direito, devendo-lhe ser dispensado o mesmo tratamento
ou dependência do Supremo Tribunal Federal (RISTF, art. 43); protocolar que recebem os magistrados, os membros da
o inquérito instaurado pela Câmara dos Deputados ou Senado Defensoria Pública e do Ministério Público e os advogados.
Federal, em caso de crime cometido nas suas dependências, A Lei n.º 12.830, obviamente, não retira a
hipótese em que, de acordo com o que dispuser o respectivo possibilidade de investigação de crimes por parte do Ministério
regimento interno, caberão à Casa a prisão em flagrante e a Público (até porque se o fizesse, por meio de lei, seria
realização do inquérito (Súmula 397 do STF); a lavratura de inconstitucional), mas tem como objetivo firmar a tese de que
auto de prisão em flagrante presidida pela autoridade a decisão final das diligências a serem realizadas no inquérito
judiciária, quando o crime for praticado na sua presença ou policial é do Delegado de Polícia.
contra ela (CPP, art. 307).” Segundo o entendimento majoritário da doutrina e da
A atual Lei de Falências, que regulou a recuperação jurisprudência, a investigação de crimes não é uma atividade
judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da exclusiva das Polícias Civil e Federal.
sociedade empresária, Lei 11.101, de 9 de fevereiro de 2005, A investigação criminal pode ser realizada por
acabou de vez com o chamado inquérito judicial falimentar, meio de outros órgãos, como por exemplo: Comissões
visto que, no momento da participação do Ministério Público, Parlamentares de Inquérito, Conselho de Controle de
ele deverá denunciar, ou, caso contrário, requisitar a abertura Atividades Financeiras (COAF), Banco Central, Conselho
de inquérito policial. Administrativo de Defesa Econômica (CADE), IBAMA,
Percebe-se, pois, que a Polícia Judiciária não detém o Ministério Público.
monopólio do poder de investigação, existem inúmeras A investigação criminal promovida pela Polícia é feita
autoridades administrativas que, ao se depararem com a por meio do inquérito policial (ou TCO), que tramita sob a
possível existência de ilícito penal, devem, pelos meios presidência do Delegado de Polícia.
idôneos, fazer chegar à informação ao Ministério Público, para
que este tome as providencias que considerar necessárias nos 8. Grau de Cognição
casos de ação de iniciativa pública e a parte interessada nos
No processo penal há três diferentes níveis de cognição,
casos de ação de iniciativa privada.
segundo se busque um juízo de possibilidade, de probabilidade
Vale frisar que a polícia brasileira desempenha dois
ou de certeza.
papéis distintos: a polícia judiciária e a polícia preventiva. A
Para se chegar a um juízo de certeza, é necessário
polícia judiciária é realizada pelas Polícias Civil (em âmbito
esgotar toda a matéria probatória, através de uma cognição
estadual) e Federal (em âmbito Federal, como o nome indica),
plena, o que justificaria uma sentença condenatória.
e sua tarefa é investigar preliminarmente um crime.

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POLÍCIA CIVIL 2021
Já para o início de uma ação penal, é necessário tão 9. Valor probatório do inquérito policial
somente um juízo de probabilidade, que seria o predomínio das
razões positivas que afirmam a existência do delito e sua Enquanto aspecto probatório seu valor é apenas
autoria. informativo, em face de sua instauração ser instável e denotar
Quanto à investigação preliminar, para sua âmbito inquisitorial. Por isso mesmo sempre deve ser visto com
deflagração, basta um juízo de possibilidade (razões reservas perante o órgão julgador quando do momento
favoráveis forem equivalentes às contrárias). decisório, para que se tenha respeitado o princípio do
Por outro lado, como seu objetivo é tão somente contraditório.
averiguar os fatos, embasando ou não uma futura ação penal, As provas do inquérito feito pela polícia não tem valor
percebe-se, desde logo, que não há razões para que se busque absoluto, visto serem tidas como medidas cautelares. Não
esgotar toda matéria probatória, o que só geraria morosidade obstante isso, a tecnicidade das provas carreadas no inquérito
desnecessária ao procedimento preliminar. policial, não pode ser desprezada, ao menos no que tange a
Além disso, esgotando-se quase que totalmente a prova pericial. Terão, pois, a mesma importância das provas
matéria probatória na fase preliminar, haverá um grande desenvolvidas perante o poder judicial na fase processual,
prejuízo à defesa, eis que além de não ter podido contar ressalvando-se a prova testemunhal que, se não renovada em
inteiramente com as garantias constitucionais naquela fase, juízo, não pode fundamentar uma condenação. Assim, segundo
tenderá a haver na instrução judicial somente ratificação dos o próprio STF não é possível haver condenação com base
atos investigativos e não propriamente produção de provas. exclusiva no Inquérito Policial, pois, se assim fosse estaria
Logo, a investigação no plano de cognição deverá violado o princípio do contraditório de natureza constitucional.
ser sumária, limitando-se a atividade mínima de
comprovação e averiguação dos fatos e da autoria, para Observações importantes:
justificar o processo ou o não processo.
Em outros termos, a cognição que se busca no  Pela natureza inquisitiva do inquérito o investigado não
Inquérito Policial não é plena, característica dos atos que visam pode realizar provas como ocorre na fase processual.
provar e estão imbricados diretamente com a sentença. É  No inquérito utiliza-se o in dúbio pro societa (em dúvida,
sumária, isto é, fica suficiente a constatação de um juízo de pela sociedade). Já em juízo segue-se o in dúbio pro réu (em
probabilidade do cometimento da infração penal dúvida, pelo réu).
materializada.Nesse passo, bem pontua Luiz Carlos de Almeida
Hora: Segundo Raissa de Cavassin Milanezi:
Sobre os atos de prova, podemos afirmar que:
“Considerando que as provas do inquérito policial não
a) estão dirigidos a convencer o juiz da verdade de uma são produzidas sob o crivo do contraditório e da ampla defesa,
afirmação; “os elementos trazidos pela investigação não constituem, a
b) estão a serviço do processo e integram o processo penal; rigor, provas no sentido técnico-processual do termo, mas
c) dirigem-se a formar um juízo de certeza – tutela de informações de caráter provisório”.
segurança; Porém, inobstante o inquérito policial tenha o caráter de
d) servem à sentença; meramente indiciário, as provas nele produzidas servem para o
e) exigem estrita observância da publicidade, contradição e exercício da ação penal, aplicação de medidas cautelares,
imediação; aplicação de medidas assecuratórias e outras providências.
f) são praticados ante o juiz que julgará o De acordo com o art. 155 do CPP considera-se prova
processo.Substancialmente distintos, os atos de apenas aquelas produzidas em contraditório judicial e
investigação (instrução preliminar); elementos de informação aquelas produzidas no inquérito
a) não se referem a uma afirmação, mas a uma hipótese; policial.
b) estão a serviço da investigação preliminar, isto é, da fase O inquérito policial não pode ser considerado como
pré-processual e para o cumprimento de seus objetivos; prova, pois se trata apenas de um elemento de informação,
c) servem para formar um juízo de probabilidade, e não de mormente porque o inquérito policial não se submete ao
certeza; contraditório.
d) não exigem estrita observância da publicidade, contradição A respeito do valor probatório do inquérito policial, o
e imediação, pois podem ser restringidas; professor Aury Lopes Júnior explica a diferença entre atos de
e) servem para a formação da opinio delicti do acusador; prova e atos de investigação. Lopes Júnior enumera algumas
f) não estão destinados à sentença, mas a demonstrar a características que diferenciam a prova dos atos de
probabilidade do fumus commissi delicti para justificar o investigação. Por exemplo, considera-se ato de prova aqueles
processo (recebimento da ação penal) ou o não-processo que servem à sentença; que são praticados na presença do Juiz
(arquivamento); que julgará o processo e que estão a serviço e integram o
g) também servem de fundamento para decisões processo. Já atos de investigação servem a um juízo de
interlocutórias de imputação (indiciamento) e adoção de probabilidade, pois se prestam para formação da opinio delicti
medidas cautelares pessoais, reais ou outras restrições de do acusador; não são destinados à sentença e apenas indicam
caráter provisional; uma probabilidade do fumus comissi delicti e que não se exige
h) podem ser praticados pelo Ministério Público ou pela a publicidade, contradição e imediação.
Polícia Judiciária. ...
O Código de Processo Penal e a Constituição Federal
não considerem o inquérito policial como fonte de prova, tal
procedimento ainda assim serve para restringir a liberdade de
outrem, em razão disso, conforme aponta Aury Lopes Júnior:
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POLÍCIA CIVIL 2021
O inquérito policial somente pode gerar o que refere-se à delimitação do poder jurisdicional privativa do
anteriormente classificamos como atos de investigação e essa Poder Judiciário ao passo que para as autoridades policiais e
limitação de eficácia está justificada pela forma mediante a qual mesmo o Ministério Público entende-se que os mesmos têm
são praticados, em uma estrutura tipicamente inquisitiva, “atribuições” e não “jurisdição”. Frise-se ainda que tais
representada pelo segredo, a forma escrita e a ausência ou “atribuições” da autoridade policial são fixadas em regra em
excessiva limitação do contraditório. Destarte, por não observar razão do local onde se materializou a conduta criminosa,
os incisos LIII, LIV, LV e LVI do art. 5º e o inciso IX do art. embora possam surgir Especializadas em razão da matéria, a
93 da nossa Constituição, bem como o art. 8º da CADH, o exemplo das delegacias de mulheres ou de tóxicos. Como
inquérito policial jamais poderá gerar elementos de convicção reflexo desse “conflito” a Lei 9.043/95 substituiu no art. 4º do
valoráveis na sentença para justificar uma condenação.[5] CPP a expressão “jurisdição” por “circunscrição”
Portanto, em que pese exista no aspecto normativo a Nesse passo, a título de atualização, deve-se ressaltar
diferenciação entre a prova produzida no inquérito policial para que a Lei 10.446, de 8 de maio de 2002, ampliou o leque de
com a prova judicial, no sentido de que a primeira apenas atribuições investigativas da Polícia Federal, para nelas incluir
corrobora elementos indiciários e de informação, de extrema a apuração dos delitos mencionados no art. 1º da citada Lei. –
importância destacar que tais indícios se prestam para o sequestro, cárcere privado, extorsão mediante sequestro, desde
oferecimento da denúncia, para medidas cautelares, que o agente tenha sido movido por motivação política ou em
assecuratórias, quebra de sigilo em geral e outros pedidos que razão do exercício de função pública pela vítima; formação de
afetam às garantias individuais constitucionais.” cartel (Lei 8.137/90, 4, I, a, II, III e VII); violação de direitos
humanos decorrentes de infrações previstas em tratados ou
10. Formas de instauração convenção internacional; furto, roubo ou receptação de cargas,
bens e valores, transportados em operação interestadual ou
A instauração do inquérito policial é um dever funcional internacional, envolvendo quadrilhas ou bandos com atuação
da autoridade policial sendo-lhe discricionário apenas a forma em mais de um Estado.
de condução do referido ato tendo como referência o disposto
no artigo 6º do Código de Processo Penal pátrio que delimita Em termos simples, pode-se afirmar que as formas de
algumas ações básicas tais como a preservação do estado das sua instauração são as seguintes:
coisas até o advento da perícia correlata se for o caso; a
apreensão de objetos ligados ao evento criminoso; a escuta do  De ofício: ocorre quando a autoridade policial toma
ofendido e do agressor; acareações; perícias, entre outras. Tal conhecimento da prática de uma infração de ação pública
rol se apresenta como “numerus apartus”, ou seja, não é incondicionada e instaura a investigação para verificar a
taxativo podendo apresentar inúmeras outras situações existência do crime ou da contravenção penal e sua autoria.
pertinentes de acordo com o caso concreto assim como ocorre, Via de regra, todas as ações penais serão públicas
por exemplo, quando se depara com a necessidade de fazer uma incondicionadas (quando não o for, a própria lei indicará) e,
reconstituição do fato criminoso embora o CPP não arrole essa além disso, este tipo de ação independe da manifestação de
hipótese dentro do referido artigo, mas apenas no artigo qualquer pessoa. É obrigação do Estado realizar
seguinte (art. 7º). “automaticamente” a investigação desses crimes, como
O art. 5º do CPP por sua vez, determina que o inquérito ocorre, por exemplo, com o homicídio (art. 121 do Código
policial pode ser instaurado de ofício pela autoridade policial, Penal).
através de Portaria, bem como por requisição do Ministério  Provocação do ofendido: nesse caso, é preciso que a
Público ou da autoridade judiciária nos crimes de ação pública pessoa que teve o bem jurídico lesado (vítima) informe e
e ainda através do requerimento do ofendido ou representante provoque (promova) a atuação da autoridade policial.
legal nos casos de ação penal privada. O requerimento pode ser  Delação de terceiro: acontece quando qualquer pessoa
indeferido, podendo caber recurso para o chefe de Polícia (vítima ou não) leva ao conhecimento da autoridade policial
(secretário de segurança); A Requisição, por outro lado, não a ocorrência de uma infração penal de iniciativa do
pode ser desatendida em princípio a não ser que seja Ministério Público.
manifestamente ilegal absurda e sem sentido, visto que, em  Requisição da autoridade competente: o juiz ou o
caso contrário o delegado poderá, inclusive, responder pelo promotor de justiça (ou procurador da República) também
crime de prevaricação previsto no art. 319 do Código Penal. podem exigir, legalmente, que a investigação policial se
Outra maneira idônea de instauração do inquérito é o auto de realize, desde que existem provas suficientes para tanto.
prisão em flagrante delito. Outrossim, ainda deve ser dito que,  Lavratura do auto de prisão em flagrante: ocorre nos
quando houver hipótese de ação penal privada ou pública casos em que o agente é encontrado em qualquer das
condicionada, a requisição não poderá ser atendida sem a situações descritas no art. 302 do CPP.
devida autorização da vítima visto tratar-se de uma condição de
procedibilidade. Observações importantes:

Vale salientar que, a rigor técnico a autoridade policial não tem  O art. 22 do CPP estabelece que onde houver mais de uma
competência, pois não tem jurisdição, tem circunscrição, ou circunscrição policial poderá ordenar diligências em
seja, atribuição (art. 4 º CPP) que é a área dentro da qual a circunscrição da outra, independentemente de precatórias
autoridade exerce suas funções. ou requisições o que não se repete, por outro lado, quando
Em que pese o termo “atribuição” existe forte as circunscrições policiais estiverem em territórios
posicionamento doutrinário e jurisprudencial no que se refere distintos.
ao disposto no art.4º § único do CPP que situa o termo  Havendo perseguição, a autoridade policial poderá realizar
“competência” quando na realidade deveria denotar o termo prisão fora de sua circunscrição embora o auto de prisão em
“atribuição” segundo posição majorante, pois, a primeira flagrante deva ser emanado pela autoridade do local da
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POLÍCIA CIVIL 2021
prisão. representante legal sendo ocorrente nos crimes de ação
 Não gera nulidade do inquérito o fato de ter se operado por penal privada e ação penal pública condicionada, podendo
autoridade incompetente, visto não existir a possibilidade de ser indeferido pelo delegado. A comunicação é o
remessa à autoridade policial “competente” nessa hipótese. fornecimento de informações feito por qualquer um do
 Alguns autores entendem que a disposição constitucional povo.
que determina a privatividade da ação penal pública para o  Nos casos de requisição (ação penal pública
Ministério Público, acaba, por via oblíqua, gerando a incondicionada) a autoridade não pode indeferir por se tratar
inviabilidade de requisição por parte da autoridade de ordem emanada de autoridade. Nos casos de
judiciária. requerimento (Ação Penal Privada e Ação Penal Pública
 O Delegado não instaurará o inquérito quando o fato não Condicionada) a autoridade policial poderá indeferi-lo visto
constituir crime; estiver prescrito; a parte for ilegítima; a se tratar de mera petição. O indeferimento, contudo, não faz
vítima for incapaz, etc. coisa julgada, e tanto pode o suplicante renovar o
 O investigado possui o direito constitucional de permanecer requerimento, ministrando outros meios de prova, como
em silêncio, sem que tal circunstância seja considerada em recorrer ao Secretário da Segurança Pública ou levar ao
seu desfavor, visto que o art.186 do CPP não teve recepção conhecimento do Juiz ou Promotor.
constitucional.  O art. 21 do CPP prevê a possibilidade do juiz decretar a
Em que pese o aspecto da instauração é importante incomunicabilidade do preso de três dias, podendo ser
estabelecer nesse momento quais as variações de rito do prorrogado por mais três. O entendimento quase unânime
inquérito conforme o tipo de ação penal correlata: de alguns é que esse artigo não está mais em vigor e acham
O inquérito policial poderá ser instaurado de várias que mesmo o Juiz não pode decretar a incomunicabilidade
formas conforme o tipo de ação penal que se esteja diante. do preso. (art. 7º, I, da Lei 8.906/94). Para corroborar esse
Assim, podem ser utilizados mecanismos como a portaria entendimento alegam ainda que o art. 136, parágrafo 3º,
(ordem de serviço), o auto de prisão em flagrante, o inciso. IV, da CF proibiu a incomunicabilidade nas
requerimento do ofendido ou de seu representante e a situações excepcionais (Estado de Defesa e Estado de Sítio).
requisição do Ministério Público ou da autoridade judiciária. Para a minoria que aceita a incomunicabilidade esta não se
No caso de Ação Penal Pública Incondicionada o estende ao advogado (art. 7º, I, da Lei 8.906/94).
início do inquérito poderá se dar de ofício (Art. 5º, I, do CPP)  A garantia da imunidade parlamentar em sentido formal não
quando a autoridade policial tomar conhecimento do crime, ou impede a instauração de inquérito policial contra o membro
ainda por requisição da autoridade judiciária ou do MP (Art.5º, do Poder Legislativo, desde que estas medidas pré-
II, primeira parte, CPP), quando passará a incidir como uma processuais sejam tomadas perante o órgão judiciário
ordem e, apesar de não haver subordinação hierárquica o competente que, no caso dos congressistas é o STF.
delegado será obrigado a instaurá-lo ou através de prisão em  O art. 194, do Código de Processo Penal, foi expressamente
flagrante. revogado pela Lei 10.792, de 1º de dezembro de 2003. O
Tratando-se, por outro lado de Ação Penal Pública texto do dispositivo revogado era o seguinte: "Se o acusado
Condicionada o início do inquérito ocorrerá mediante for menor, proceder-se-á ao interrogatório na presença do
requisição do Ministro da Justiça, como acontece, por exemplo, curador."
na hipótese de crime contra a honra do Presidente da República O novo Código Civil reduziu a maioridade para os 18
ou Chefe de Governo Estrangeiro. Nesse caso, deve ser anos. A partir desta idade a lei considerou a pessoa plenamente
encaminhada ao Chefe do Ministério Público (Procurador- capaz para a prática de todos os atos da vida civil (CC, art. 5º).
Geral de Justiça ou Procurador-Geral da República).Também Assim, desde a entrada em vigência do novo Código Civil, boa
são hipóteses de instauração desse tipo de ação a requisição do parte da doutrina já vinha defendendo a desnecessidade de
Juiz ou MP, o auto de prisão em flagrante com as peculiaridades nomeação de curador ao acusado maior de 18 e menor de 21
específicas e, por último, quando do requerimento da vítima ou anos, ou seja, o art. 194 do CPP já havia sido tacitamente
de seu representante para instauração do inquérito, salientando revogado pelo novo Código Civil.
que esse requerimento pode ser negado pela autoridade policial, A revogação expressa do art. 194 do CPP, pela Lei
cabendo recurso, nessa hipótese, ao Secretário de Segurança 10.792/2003, coloca um ponto final na discussão (se é que
Pública. existia dúvida!) sobre a desnecessidade de curador ao réu
Sendo a ação penal pública, ele irá para as mãos do menor de 21 anos. A crítica que fazemos ao legislador, todavia,
representante do Ministério Público. é que este deveria ter aproveitado o momento para também
Em que pese à existência da peça informativa quando revogar expressamente o art. 15 e a parte final do art. 564, III,
for hipótese de Ação Penal Privada, não se deve esquecer que "c", ambos do Estatuto Processual Penal (o primeiro dispositivo
o início do inquérito policial só poderá ser instaurado mediante trata da nomeação de curador pela autoridade policial ao
requerimento da vítima ou de seu representante legal que indiciado menor de 21 anos de idade, e o segundo refere-se à
poderá ser oral ou escrito ou através de auto de prisão em nulidade do processo por falta de nomeação de curador ao réu
flagrante com as peculiaridades específicas. A instauração do menor de 21 anos). Em que pese o equívoco ou omissão do
inquérito sem requerimento do ofendido é considerada nosso legislador, obviamente tais dispositivos encontram-se
constrangimento ilegal. tacitamente revogados não só pelo novo Código Civil mas
também pela recente Lei 10.792/2003.
Observações importantes: Por fim, quanto a este ponto, destacamos que continua
sendo necessária a nomeação de curador para o interrogatório
 A requisição deve ser vista como uma ordem emanada da do silvícola não adaptado e para os acusados com
autoridade ocorrente nos crimes de ação pública não desenvolvimento mental incompleto ou retardado (art. 4º, do
podendo ser indeferida. O requerimento, sob outro prisma, CC).
é um pedido feito através de comunicação pelo ofendido ou
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POLÍCIA CIVIL 2021
11. Procedimentos investigativos/ Conclusão do inquérito e individuais constitucionais quando diligenciar. Dentro desta
Indiciamento/ Garantias do investigado. “instrução” podemos ter os seguintes procedimentos:
- Oitiva da vítima
11.1 Procedimentos investigativos A autoridade deve ouvir o ofendido, se possível (art.
Diante da notitia criminis, a autoridade policial deverá 6º, IV). Embora seja relativo o valor probatório das declarações
instaurar o inquérito policial para investigação do crime. da vítima, são informações muito úteis. O ofendido deve ser
Observação importante: A existência de causa notificado para comparecer e prestar suas declarações e, diante
excludente de antijuridicidade não impede a instauração. A do não atendimento sem motivo justo, ser conduzido à presença
antijuridicidade só poderá ser apreciada após a denúncia, ou da autoridade (art. 201, §1º, do CPP), podendo esta determinar,
quando da oportunidade para seu oferecimento, não sendo lícito caso necessário, a busca e apreensão (art. 240, § 1º, g).
antes disso trancar-se o inquérito policial sob alegação de que a
prova nele produzida induz a inexistência de relação jurídico- - Reconhecimento e acareação
material, em verdadeiro julgamento antecipado do indiciado. Quando necessário, a autoridade deve "proceder o
Para o desenvolvimento da investigação, o Código de reconhecimento (arts. 226 a 228/CPP) de pessoas e coisas e a
Processo Penal prevê diversas diligências que podem ser acareação" (art. 6º, VI). A acareação deverá ser efetuada
realizadas na sua fase instrutória, as quais podemos dividir entre quando houver divergências entre as declarações prestadas no
ordinárias e extraordinárias. interrogatório, depoimento de testemunhas, declarações da
As diligências ordinárias estão previstas nos artigos 6° vítima etc. (arts. 229 a 230/CPP). É evidente que a acareação só
e 7° do CPP, que estabelecem como diligências: poderá ser feita quando a divergência incidir sobre fatos ou
circunstâncias relevantes.
 exame do legal de crime;
 apreensão de provas destinadas ao esclarecimento do fato e - Exame de corpo de delito
suas circunstâncias; A autoridade deve "determinar, se for o caso, que se
 oitiva do ofendido, testemunhas e indiciado; proceda o exame de corpo de delito e quaisquer outras perícias"
 reconhecimento de pessoas e coisas; (art. 6º, VII), de conformidade com os arts. 158 a 184/CPP. O
 acareações; exame é indispensável quando o crime deixa vestígios,
 exame de corpo de delito e outras perícias; constituindo-se na verificação dos elementos exteriores ou da
 identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se materialidade da infração. Cabe ao perito o exame do fato
possível, com a juntada da folha de antecedentes; delituoso, de suas causas, consequências etc.
 questionário de vida pregressa do indiciado, sob o ponto de
vista individual, familiar e social, sua condição econômica, - Simulação dos fatos
sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e A autoridade pode proceder a simulação dos fatos,
durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem desde que não contrarie a moralidade ou ordem pública (art.
para a apreciação do seu temperamento e caráter; obtenção 7º/CPP). O indiciado, porém, não está obrigado a participar da
de informações sobre a existência de filhos, respectivas reconstituição, ainda que tenha confessado o crime, pela mesma
idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o razão do direito que tem de permanecer calado (art. 5º,
contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, LXIII/CF).
indicado pela pessoa presa;
 reprodução simulada dos fatos, desde que esta não contrarie Outras providências
a moralidade ou a ordem pública. Além das providências dos arts. 6º e 7º/CPP, deve a
autoridade se incumbir de outras providências referidas no art.
Nessa fase, é possível ainda a realização de diligências 13. Deve:
extraordinárias, como a representação por medidas cautelares
I- "fornecer às autoridades judiciárias as informações
sujeitas a reserva de jurisdição, tais como a quebra de sigilo
necessárias à instrução e julgamento dos processos".
bancário, fiscal, telefônico, telemático, bem como a
Especialmente em seu relatório final, incumbe à
interceptação telefônica, busca e apreensão, infiltração policial,
autoridade prestar todas as informações e considerações
colaboração premiada e ação controlada, entre outras.
que possam ter utilidade no esclarecimento do crime.
Em outros termos, podemos dizer que as providências
II - "realizar as diligências requisitadas pelo juiz ou MP".
a serem tomadas são as seguintes:
Somente quando forem ilegais haverá oportunidade para
Inicialmente, a autoridade policial deve proceder de
a recusa ao cumprimento das requisições.
acordo com o art. 6º/CPP (diligências). Deve "dirigir-se ao
III - "cumprir os mandados de prisão expedidos pelas
local, providenciando para que não se alterem o estado de
autoridades judiciárias". Mandados referentes às prisões
conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais"
provisórias ou decorrentes de condenação transitada em
(art. 6º, I, do CPP).
julgado a pena privativa de liberdade.
Deve a autoridade "apreender os objetos que tiverem
IV - "representar acerca da prisão preventiva". Estando
relação com o fato, após liberados pelos peritos" (art. 6º, II, do
presentes os pressupostos dos arts. 312 e 313/CPP, a
CPP). Esses objetos serão submetidos a exames a fim de
autoridade deve representar para a decretação da prisão
verificação da natureza e eficiência (art. 175/CPP). Serão
preventiva, fundamentando o pedido sobre sua
recolhidos ao museu criminal se houver interesse (art.
necessidade ou conveniência cautelar.
124/CPP).
Cabe à autoridade "colher todas as provas que
- Outras providências: proceder novas pesquisas após o
servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias"
encerramento do inquérito policial (art. 18).
(art. 6º, III), devendo-se observar os direitos e as garantias

16
POLÍCIA CIVIL 2021
11.2 Conclusão do inquérito e Indiciamento as investigações apurar-se que o crime é diverso do classificado
na portaria, o delegado deve alterá-la. No entanto, a
Em um momento posterior podemos poderemos ou classificação do inquérito policial não vincula o MP para o
não ter o “indiciamento”, que consiste na imputação a alguém, oferecimento da denúncia ou ao querelante para propositura da
no inquérito policial, da prática do ilícito penal, ou "o resultado queixa.
concreto da convergência de indícios que apontam determinada Concluído o inquérito policial e elaborado o relatório,
pessoa ou determinadas pessoas como praticantes de fatos ou a autoridade deverá remeter os autos ao juiz competente (art.
atos tidos com típicos, antijurídicos e culpáveis". O 10, §1º, do CPP), devendo os objetos de crime (provas)
indiciamento exige que existam indícios razoáveis de autoria. acompanhar os autos (art.11). Ao remeter os autos, a autoridade
Somente após o encerramento da fase de colheita dos deve oficiar ao Instituto de Identificação e Estatística, ou
elementos probatórios, que pode ser chamada de fase de repartição congênere, mencionando o juízo que tiver sido
“instrução” do inquérito policial, a autoridade policial, distribuído, e os dados relativos à infração penal e à pessoa do
mediante análise técnico-jurídica dos fatos, poderá proceder ao indiciado (art. 23).
ato de indiciamento do(s) investigado(s), quando presentes os Segundo o art. 10, o prazo é de 30 dias para a
indícios de autoria e materialidade, nos termos do parágrafo 6° conclusão do inquérito policial se o indiciado estiver solto,
do artigo 2° da Lei 12.830/2013. mediante fiança ou sem ela, contando-se o lapso de tempo da
O ato de indiciamento é o ato do delegado de polícia, data do recebimento pela autoridade da requisição,
enquanto presidente da investigação, via de regra praticado ao requerimento ou portaria, que deve ser expedida quando da
término da mesma, ao considerar concluída a fase de coleta de notitia criminis. Estando o réu preso, o prazo é de 10 dias,
elementos probatórios do delito investigado, quando é possível contados da data da prisão (flagrante ou preventiva).
concluir-se pela autoria de determinado crime, A regra geral é, então, a de que se houver alguém preso
individualizando-se o autor. o inquérito deve ser concluído e remetido à justiça no prazo de
Funciona, portanto, como uma das etapas da formação 10 dias, isso no âmbito da Polícia comum estadual. Em se
da culpa na investigação criminal, quando os elementos tratando de Polícia Federal (Justiça Federal) o prazo é de 15
constantes no inquérito policial permitem ao delegado de dias podendo ser prorrogado por mais 15(art. 66 da Lei
polícia formar sua convicção de autoria e materialidade na 5010/66), com autorização do Juiz. O prazo de 10 dias é
investigação criminal, no processo de filtragem apontado por improrrogável visto que é considerada abusiva a manutenção
Lopes Jr (2012, p. 280), “purificar, aperfeiçoar, conhecer o da prisão nesse caso, sendo, inclusive, passível de habeas
certo”. corpus em caso contrário. Se se tratar de crime hediondo (Lei
Ocorre então a mudança no status do investigado, de 8072/90 prevê a prisão temporária por 30 dias podendo ser
simples suspeito de ter praticado a infração penal passando a prorrogada por mais 30). Nesse caso o delegado pode concluir
ser considerado o provável autor da infração. Trata-se de ato o inquérito em 30 dias podendo ser prorrogado por mais 30 dias
formal. com autorização do Juiz. A prisão temporária é uma prisão para
A Lei 12.830/2013 trouxe, em seu artigo 2°, parágrafo investigação policial e o tempo do inquérito é o que o juiz
6º, “o indiciamento, privativo do delegado de polícia, dar-se-á disser. Se o réu estiver solto o prazo será de 30 dias podendo
por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do ser prorrogado visto que apuração pode não estar concluída,
fato, que deverá indicar a autoria, materialidade e suas além do que o status libertatis do indiciado continua preservado.
circunstâncias”. Excepcionalmente algumas leis esparsas
Deve ser destacado ainda que o ato de indiciamento no demarcaram prazos diversos que deverão ser respeitados em
inquérito policial é privativo do presidente da investigação, decorrência do princípio da especialidade. Assim acontece com
sendo incabível, no caso, requisição por parte do Ministério a Lei de tóxicos (Atualmente regido pela Lei n º 11.343, de 24
Público ou do Poder Judiciário para que o faça, tendo em vista de agosto de 2006) que estabelece o prazo de 30 dias, quando
ser ato de seu juízo de valor. preso o indiciado ou 90 dias se solto, consoante o artigo 51 da
Concluídas as investigações, autoridade policial deve referida lei. Vale dizer que, tais prazos podem ser dilatados
fazer minucioso relatório do que tiver sido apurado no inquérito conforme o parágrafo único do referido artigo. Outra lei que
policial (art. 10, §1º, 1ª parte/CPP). Não pode, em sua deve ser lembrada é a 1.521/51 (crimes contra a economia
exposição, emitir nenhum juízo de valor, opiniões ou popular) em que se prevê o prazo de 10 dias para concessão,
julgamento. Pode, porém, exprimir impressões deixadas pelas esteja preso ou não o indiciado.
pessoas que intervieram no inquérito: indiciado, vítima, Quanto ao aspecto de prazo é importante pontuar que
testemunhas etc. existe grande celeuma na doutrina pátria quanto ao momento
O relatório final consiste no ato que marca o em que começa a contar esse prazo quando estiver preso o
encerramento da investigação preliminar, quando é oferecido, investigado. Para alguns doutos o prazo seria de direito material
pela autoridade policial, o relatório onde a autoridade aponta as (penal) e, como tal, deve-se incluir o dia da prisão no prazo.
diligências realizadas e sua interpretação técnico-jurídica dos Outros, todavia, entendem como de direito processual
fatos. excluindo-se o dia do início fundamentado no art. 798, 1º, do
O relatório final pode prescindir do indiciamento, que CPP. Preferimos a primeira posição por entendermos que o
somente ocorre quando presente os indícios de materialidade e status libertatis não pode ser restrito além do devidamente
autoria de infração penal. necessário. Estando solto, porém, é pacífico o entendimento
Com o oferecimento do relatório, abrem-se três que o prazo passa a ser de direito processual.
possibilidades ao Ministério Público: requisitar novas Quanto à decretação de prisão temporária na
diligências (necessárias); pedir o arquivamento ou oferecer hipótese do réu estar solto o prazo será de cinco dias podendo
denúncia. ser prorrogado por mais cinco dias a partir do prazo da
É importante frisar que na instauração do inquérito conclusão do inquérito.
policial, a autoridade pode classificar o crime. Se após realizada
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POLÍCIA CIVIL 2021
Observações importantes: segundo a posição doutrinária majorante. Outros, porém,
fundamentam posição contrária com base no art.2.043 (Lei
 Esses casos são exceções, a regra geral é de 10 dias. Na 10.046/2002) do atual Código Civil. Se tomarmos, pois, a
prática quase sempre é obedecido, pois se não for o Juiz terá posição majorante não caracteriza mais vício a inexistência de
que soltar o preso, já que extrapolou o tempo. Se não houver curador no caso de inquérito policial tratando-se de maior de 18
ninguém preso, o prazo para concluir o inquérito é de 30 anos e menor de 21 anos, em face de ausência de amparo legal
dias. Na prática quase nunca é cumprido. Esse prazo é geral que o justifique. Não obstante as referidas posições é pacífico o
(para a Polícia comum e para a federal). entendimento de que na hipótese de réu incapaz por doença
 A lei de tóxicos pretérita (lei 6.368/76) estabelecia o prazo mental, ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado
de 5 dias para o indiciado preso. A lei 10409/2001 no seu será sempre necessária a nomeação de um curador, visto que tal
art. 29, por sua vez, criou o prazo de 15 dias para conclusão fato é independente da idade.
do inquérito caso houvesse prisão ou 30 dias se estivesse Cumpre destacar que, o inquérito policial, apesar de
solto. Atualmente, contudo, deve prevalecer o disposto na ser peça informativa importante, não é indispensável, pois
Lei 11.343/2006 conforme visto acima. o ministério público ou a parte interessada no caso de ação
 Existe a prisão penal que é aquela que resulta de uma penal privada poderá oferecer com base em outras peças. Além
sentença ou acórdão relacionada à culpabilidade do réu. disso, a Lei 9.099/95 no seu Art.77, §1º disciplinou
Também existe a prisão processual ou cautelar em que expressamente essa dispensa nas infrações de menor potencial
existe uma espécie de antecipação da pena e que, em regra, ofensivo em que só se fala em auto circunstanciado. Este
caberá habeas corpus quando extrapolar o prazo de 10 dias. constitui um resumo do fato que possibilita, inclusive,
A autoridade pode requerer ao juiz a devolução dos indicação de prova testemunhal da vítima e do autor do fato.
autos para realizar diligências ulteriores (quando o réu estiver Deve-se lembrar que, quando do surgimento da lei nº
solto), necessárias a conclusão do inquérito policial. 9.099/95 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais)
O Ministério Público não poderá requerer a devolução entendia-se como infrações de menor potencial ofensivo
do inquérito à autoridade policial, senão para novas aquelas em que a pena máxima não excedesse a um ano de pena
diligências, imprescindíveis ao oferecimento da denúncia. (art. privativa de liberdade. Com o surgimento da Lei 10.259/2001
16). Proposta a ação penal, o MP e querelante poderão requerer (Lei dos Juizados da Justiça Federal) passou a se considerar
ao juiz que, em autos apartados, a autoridade realize diligências como de menor potencial ofensivo aquelas com pena máxima
importantes para a instrução do processo. igual ou inferior a dois anos, consoante a Jurisprudência do STJ.
O juiz, ao deferir o pedido de dilação do prazo, deve Sob este contexto é mister que se diga que em se tratando de
fixar outro, não podendo exceder 30 dias. A demora, porém, procedimentos especiais com penas superiores a dois anos
não causa nulidade nos autos, podendo causar apenas punição como acontece por exemplo nas Leis 8.137/90 (Ordem
disciplinar da autoridade, quando o indiciado estiver solto. Tributária) e 11.340/2006 (Violência Doméstica) bem como
Estando o indiciado preso, o prazo não pode ser àqueles crimes que foram penalizados com pena alternativa de
prorrogado. Excedido tal prazo, haverá constrangimento ilegal multa não irão para os Juizados Especiais.
à liberdade de locomoção do indiciado, o que leva ao Vale dizer que, depois que a autoridade faz toda a fase
deferimento do habeas corpus, sem prejuízo do investigatória ela vai concluir o inquérito e este é concluído
prosseguimento do inquérito policial. Tratando-se de prisão através de uma peça chamada relatório. É onde o delegado vai
processual, o prazo deve ser contado nos termos do art. 798, § indiciar ou não alguém. Ele não está obrigado a indiciar alguém.
1º, do CPP: começa a fluir do dia imediato à prisão, e os devem Se ele não conseguir esclarecer a autoria do delito ele pode o
ser remetidos a juízo no dia imediato ao término do prazo. concluir o inquérito sem indiciar ninguém. Quando isso
Por fim, quanto a este aspecto deve-se frisar que, acontece ele vai remeter esse inquérito a justiça como
havendo vícios estes deverão ser saneados. diligências policiais.
Podem ocorrer vícios no inquérito assim como Outros exemplos em que pode haver a dispensa de
poderão existir na ação penal. Tais vícios podem exsurgir inquérito policial: na Lei de Imprensa (basta à cópia do jornal
através de coações, falsificações, simulações entre outras para prova do fato e da autoria) e nos crimes de abuso de
possibilidades. Todavia, é pacífico na doutrina que nessas autoridade (aqui o MP pode denunciar apenas com base na
hipóteses poderá se falar em nulidade do próprio ato do representação).
inquérito eivado de vício, sem que, no entanto, surta qualquer
efeito referente à ação penal. Assim, o inquérito operado por Observações importantes:
autoridade policial sem atribuições, por exemplo, não gera a  Permanecem válidas, segundo a posição majorante, a
nulidade do processo penal dele decorrente. atenuante da menoridade prevista no art. 65, Inciso I, e a
Vale dizer que, o art. 17 do CPP, estabelece que a redução do prazo prescricional pela metade, prevista no art.
autoridade policial não poderá arquivar inquérito policial. Uma 115, ambos do Código Penal brasileiro.
vez instaurado vai ter que ser concluído e remetido para a  Mesmo na época que se entendia pela necessidade de
justiça. Lembre-se ainda que o art. 107 do CPP diz que não se curador ao menor de 18 anos (antes do advento do Código
pode arguir suspeição de autoridade policial, muito embora Civil em vigor) havia algumas restrições à referida função
deva a autoridade se declarar suspeita quando houver motivo, como o fato de não poder reperguntar ao interrogado ou
hipótese em que será substituído. mesmo às testemunhas. Não era necessário laços de
parentesco. Não podia, porém, ocupar a referida função os
Hipótese sempre lembrada é a da falta de curador para analfabetos, outros menores ou quem não apresentasse
menor de 21 anos. Todavia, com alteração da maioridade civil imparcialidade conforme o caso concreto. Naquela época se
para os 18 anos, as disposições que consideravam necessária a entendia que a ausência de nomeação de curador ao
participação de curador não deve mais ter aplicabilidade, indiciado menor não gerava a nulidade do inquérito policial,
inclusive quando se tratar de indiciado na hipótese de inquérito, embora a sua ausência no auto de prisão em flagrante
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POLÍCIA CIVIL 2021
poderia gerar a anulação do ato e o consequente O indiciado pode ser coercitivamente conduzido para
relaxamento de prisão. E, na hipótese de interrogatório ser interrogado, no entanto, poderá abster-se de responder
judicial a ausência gerava causa de nulidade relativa. Na perguntas (art. 5º, LVIII da CF).
atualidade, em razão das novas regras legais tais normas Deve a autoridade "averiguar a vida pregressa do
caíram em desuso. indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua
condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e
11.3 Garantias do investigado depois do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que
Já se disse linhas atrás que prevalece na fase contribuírem para apreciação de seu temperamento e caráter"
inquisitorial a ausência de várias garantias operantes durante o (art. 6º, IX).
decorrer das ações penais. Entretanto, mesmo nessa fase pré- Quando necessária, poderá ser feita a tomada
processual, surgem alguns direitos inclusive para aqueles que fotográfica do indicado, para reconhecimento em juízo quando
estão presos. o réu for revel.
Destarte, o preso tem direito a assistência da família e do
seu advogado bem como o direito a pedir a identificação de - Indiciado menor (menor de 21 e maior de 18 anos)
quem o está prendendo e de quem o está interrogando. Também
são direitos do preso: a comunicação da prisão a quem o preso O art. 15 do CPP determina que se o indiciado for
indicar, sob pena de nulidade do auto de flagrante; a não menor deverá ser-lhe nomeado um curador. Este artigo se refere
identificação criminal (através de identificação datiloscópica ao menor de 21 anos e maior de 18 anos, pois os menores de 18
ou fotográfica) se já for identificado civilmente (através de RG, anos são penalmente inimputáveis.
carteira funcional, etc.), salvo nos casos previstos em lei Como a maioridade civil passou a ser de 18 anos, o art.
(segundo a Lei 12.037/2009 que revogou a Lei 10.054/2000 ); 15 do CPP perdeu sua aplicabilidade, uma vez que, quando foi
o direito de ficar calado perante a autoridade policial ou criado, o menor de 21 e maior de 18 anos era considerado
judiciária sem que isso possa ser usado contra ele como relativamente incapaz, de modo que precisava ser assistido.
anteriormente se identificava no art. 186 do CPP alterado pela Mas como hoje o maior de 18 anos já é considerado plenamente
Lei 10.792/2003 que expressamente dispõe em sentido capaz, não existe mais razão para se nomear um curador para
contrário. quem completou essa idade.
Não se deve esquecer que a Lei de Crime Organizado
(lei 9.034/95) criou a hipótese em que estando envolvido com -Incomunicabilidade
a ação de organizações criminosas será realizada a identificação A fim de impedir-se que o indiciado prejudicasse as
criminal independentemente da identificação civil, embora o investigações comunicando-se com amigos, comparsas do
próprio STJ venha entendendo que a Lei nº 10.054/2000 tenha crime etc., previa o art. 21/CPP a incomunicabilidade, exceto
revogado de forma tácita tal hipótese visto que tratando do com seu advogado.
mesmo tema silenciou a respeito. Esse artigo foi revogado pela CF/88 que proclama: "É
Em termos mais precisos podemos citar as seguintes vedada a incomunicabilidade do preso" (art. 136, §3º, IV). Se
garantias do investigado: até no estado de defesa (quando o governo deve tomar atitudes
severas para preservar a ordem pública ou a paz social) se
- Identificação do acusado proíbe a incomunicabilidade, com mais razão não há que se
A autoridade deve ordenar a identificação do indiciado falar em incomunicabilidade na fase de inquérito policial.
"pelo processo datiloscópico (impressão digital), se possível, e
fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes" (art. 6º, VIII). - Direito a atestado de antecedentes
A CF/88 (art. 5º, LVIII) estabelece que o civilmente Em 2012 o Código de Processo Penal foi alterado pela
identificado não será submetido a identificação criminal, salvo Lei 12.681/2012.
nas hipóteses previstas em lei (Lei nº 12.037/09 - Identificação
criminal). Entre as mudanças promovidas pelo novo diploma está
Sendo legal a identificação, a autoridade pode a alteração do parágrafo único do art. 20 do Código de Processo
conduzir coercitivamente o indiciado para esse fim desejado, Penal, cuja redação anterior era: “Nos atestados de antecedentes
podendo autuá-lo em flagrante pelo crime de desobediência em que lhe forem solicitados, a autoridade policial não poderá
caso de recusa injustificada. Da mesma forma, pode a mencionar quaisquer anotações referentes a instauração de
autoridade policial enquadrá-lo no crime de falsa identidade inquérito contra os requerentes, salvo no caso de existir
quando, ao se identificar, o indiciado fornece dados falsos com condenação anterior”.
a intenção de ocultar a sua verdadeira identidade (existe A Lei 12.681/2012 suprimiu a parte final desse
posicionamento jurisprudência contrário). dispositivo (“salvo no caso de existir condenação anterior”), de
forma a proibir à autoridade policial qualquer alusão a inquérito
- Interrogatório do indiciado policial instaurado contra o solicitante do atestado. Eis a atual
redação do art. 20, parágrafo único, CPP: “Nos atestados de
Indiciado o provável autor do fato delituoso, deve a antecedentes que lhe forem solicitados, a autoridade policial
autoridade ouvi-lo, ou seja, interrogá-lo, devendo o respectivo não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a
termo ser assinado por duas testemunhas que lhe tenham ouvido instauração de inquérito contra os requerentes “.
a leitura (art. 6º, V). No interrogatório promovido na fase de A referida lei criou também o Sistema Nacional de
inquérito policial, não é necessária a presença de advogado, Informações de Segurança Pública, Prisionais e sobre Drogas
pois o inquérito é inquisitivo e não contraditório (na fase (SINESP). Segundo a referida lei, o SINESP visa a “armazenar,
judicial, é imprescindível a presença do advogado no tratar e integrar dados e informações para auxiliar na
interrogatório). formulação, implementação, execução, acompanhamento e
avaliação das políticas relacionadas com: I – segurança pública;
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POLÍCIA CIVIL 2021
II – sistema prisional e execução penal; e III – enfrentamento contrariamente ao arcabouço jurídico, extrapolando os limites
do tráfico de crack e outras drogas ilícitas” (art. 1.º). definidos para o uso da força ou normas de probidade.

12. Inquérito policial e o controle externo da atividade São exemplos do controle em comento:
policial pelo Ministério Público
 Elaborar e manter banco de dados digitalizado próprio e
Segundo Thiago André Pierobom de Ávila: estatísticas permanentes, mapeando as zonas de maior
“O controle externo da atividade policial é uma incidência criminógena do Estado, estabelecendo, ainda,
cláusula constitucional prevista no art. 129, VII, da Carta estudos por meio de projeções e gráficos periódicos para
Magna, que estabelece ser função institucional do Ministério fins de fomentar políticas públicas voltadas à segurança
Público: “exercer o controle externo da atividade policial, na pública em geral.
forma da lei complementar mencionada no artigo anterior”.  Realizar visitas ordinárias periódicas e, quando necessário,
Trata-se de norma constitucional de eficácia limitada, já que a a qualquer tempo, visitas extraordinárias, em repartições
Constituição traça um quadro geral das relações de controle policiais, civis e militares, órgãos de perícia técnica e
entre Ministério Público e atividade policial, condicionando aquartelamentos militares existentes em sua área de
seu pleno exercício à regulamentação em lei complementar. As atribuição;
linhas gerais dessas relações, já delineadas na norma
constitucional, indicam que: (i) a polícia, no Estado  Examinar, em quaisquer dos órgãos referidos autos de
Democrático de Direito, não é um órgão independente e sem inquérito policial, inquérito policial militar, prisão em
controles, ao contrário, submete-se a um conjunto de relações flagrante ou qualquer outro expediente ou documento de
de fiscalização; (ii) a atuação do Ministério Público não se natureza persecutória penal, ainda que conclusos à
limita à fase judicial de propositura da ação penal, antes autoridade, deles podendo extrair cópias ou tomar
projeta-se já para outras atividades de controle da atividade apontamentos, fiscalizando seu andamento e regularidade;
policial, em especial (mas não apenas) para a fase de  Fiscalizar a destinação de armas, valores, substâncias
investigação criminal; e (iii) as relações de fiscalização sobre entorpecentes, veículos e objetos apreendidos;
a atividade policial são qualificadas como relações de  Fiscalizar o cumprimento dos mandados de prisão, das
“controle externo”, um conceito que é utilizado em outros requisições e demais medidas determinadas pelo Ministério
momentos no texto constitucional e, portanto, possui um Público e pelo Poder Judiciário, inclusive no que se refere a
referencial hermenêutico mínimo. prazos;
Essa norma constitucional está regulamentada na Lei  Verificar as cópias dos boletins de ocorrência ou
Complementar (LC) 75/1993, que prevê em seu art. 3º uma sindicâncias que não geraram instauração de Inquérito
relação de finalidades do controle externo da atividade Policial e a motivação do despacho da Autoridade Policial,
policial, e em seu art. 9º um conjunto de instrumentos de podendo requisitar a instauração do inquérito, se julgar
atuação. Pela amplitude dos princípios finalísticos do controle necessário;
externo, indicados no art. 3º, é possível concluir que outros
 Comunicar à autoridade responsável pela repartição ou
instrumentos de atuação previstos na LC 75/1993 podem ser
unidade militar, bem como à respectiva Corregedoria ou
igualmente reconduzidos a essa categoria jurídica de relações
autoridade superior, para as devidas providências, no caso
de controle entre Ministério Público e Polícia.
de constatação de irregularidades no trato de questões
Finalmente, o quadro normativo do controle externo
relativas à atividade de investigação penal que importem em
da atividade policial é complementado com a Resolução
falta funcional ou disciplinar;
20/2007 do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP),
 Fiscalizar a regularidade das interceptações telefônicas e
que disciplina o seu exercício no âmbito do Ministério Público.
outras medidas de investigação invasivas da privacidade do
Vale recordar que a Constituição permite ao Conselho
cidadão, bem como a fiscalização dos equipamentos
Nacional do Ministério Público a expedição de atos
policiais empregados, inclusive através do órgão
regulamentares com a finalidade de zelar pela autonomia
responsável pela execução da medida;
funcional e administrativa do Ministério Público (CRFB-1988,
 Expedir recomendações, visando à melhoria dos serviços
art. 130-A, § 2º, II), tendo já o STF decidido, de forma
policiais, bem como o respeito aos interesses, direitos e bens
semelhante ao CNJ, que tais atos regulamentares possuem
cuja defesa seja de responsabilidade do Ministério Público,
força normativa primária, derivada diretamente da
fixando prazo razoável para a adoção das providências
Constituição.
cabíveis;
O controle externo da atividade policial é um conjunto
de relações entre Ministério Público e Polícia com a finalidade  Intensificar a fiscalização das abordagens policiais ou
de assegurar a eficiência da atuação policial e fiscalizar a não qualquer prisão irregular, com a limitação da liberdade de
ocorrência de arbitrariedades, com foco na repressão de locomoção de qualquer pessoa sem ordem judicial, salvo os
desvios ocorridos, mas sobretudo na prevenção da reiteração casos de flagrante delito;
de ilegalidades e na promoção do contínuo aperfeiçoamento da  Promover ação penal, assim como demais ações que julgar
promoção da segurança pública, numa função de Ombudsman convenientes e oportunas para combater ilegalidades
da atividade policial. eventualmente detectadas no exercício da atividade policial,
Segundo a Constituição Federal, pois, compete ao que afetem principalmente os direitos humanos dos presos,
Ministério Público atuar repressivamente quanto às práticas de da vítima ou da sociedade, em conjunto com o órgão do
ilegalidades e omissões, responsabilizando em diversas esferas Ministério Público com atribuições específicas para o caso.
os integrantes das forças policiais e equiparados (artigo n.º 144,
da CF), que no exercício da atividade de polícia atuem 13. Arquivamento e desarquivamento do inquérito policial.

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POLÍCIA CIVIL 2021
13.1 Arquivamento ANTIGO ART. 28 DO CPP NOVO ART. 28 DO CPP
Antes da Lei 13.964/2019 (Lei Anticrime), o
de 30 (trinta) dias do
arquivamento de um inquérito policial era um ato
recebimento da
complexo, acusatório/inquisitivo, pois tinha início com a
comunicação, submeter a
promoção de arquivamento pelo Ministério Público. Segundo
matéria à revisão da
alguns autores, os autos eram então encaminhados à autoridade
instância competente do
judicial para decisão sobre o “requerimento” apresentado pelo
órgão ministerial, conforme
promotor natural. O juiz podia aceitar a proposta do Ministério
dispuser a respectiva lei
Público, chancelando o encerramento da apuração, ou recusá-
orgânica.
la. Neste caso, cabia-lhe enviar os autos à chefia do Ministério
Público para que o Procurador-Geral, na condição de § 2º Nas ações penais
representante maior do dominis litis, determinasse o relativas a crimes
arquivamento, que só então seria obrigatório para o Poder praticados em detrimento
Judiciário, dada à falta do poder de iniciativa, resultado do da União, Estados e
princípio da inércia da jurisdição. Municípios, a revisão do
O juiz não era obrigado a enviar os autos ao arquivamento do inquérito
Procurador-Geral, como chefe do Ministério Público. Devia policial poderá ser
fazê-lo apenas se discordasse das “razões invocadas” pelo provocada pela chefia do
promotor natural, fosse ele quem fosse, de acordo com as regras órgão a quem couber a sua
de competência e atribuição, e fossem tais razões quais fossem. representação judicial.”
A regra valia tanto para o Ministério Público Federal (MPF) (NR)
quanto para o Ministério Público dos Estados (MPE) e o
Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Em obediência ao princípio acusatório, o
No regime original, havendo concordância do juiz, o arquivamento de inquéritos policiais e procedimentos
caso criminal estaria arquivado. Se o juiz natural tivesse visão investigatórios criminais (PIC) deve ocorrer internamente
diversa daquela esposada pelo promotor de Justiça ou pelo (intra muros), ou seja, dentro do Ministério Público, sem
procurador da República, devia enviar os autos do inquérito ingerência judicial.
policial ao procurador-geral de Justiça (PGJ), nos casos de Se o órgão do Ministério Público, após apreciação dos
competência estadual ou distrital, ou ao procurador-geral da elementos informativos constantes dos autos do inquérito
República (PGR), nos casos de competência federal. policial e a realização de todas as diligências cabíveis,
Com a Lei 13.964/2019, tudo mudou. O juiz não tem convencer-se da inexistência de base razoável para o
mais essa “participação indevida”. Naturalmente, este oferecimento de denúncia, deve decidir, fundamentadamente,
magistrado, que é agora o juiz de garantias, não estará alheio à pelo arquivamento dos autos da investigação ou das peças de
etapa investigativa, contudo, só intervém no inquérito nas informação.
situações previstas no novo art. 3º-B do CPP, e nunca como A nova redação do artigo 28 do Código de Processo
substituto do órgão de acusação. Penal, decorrente da Lei 13.964/2019 (Lei Anticrime) traz
alterações que o adequam com o princípio acusatório, pois
Vejamos o antigo e o novo texto: agora não se tem mais um pedido, uma promoção ou um
requerimento de arquivamento, mas uma verdadeira decisão de
ANTIGO ART. 28 DO CPP NOVO ART. 28 DO CPP não acusar, isto é, o promotor natural decide não proceder à
ação penal pública, de acordo com critérios de legalidade e
Art. 28. Se o órgão do
oportunidade, tendo em mira o interesse público, as diretrizes
Ministério Público, ao invés de
de política criminal aprovadas pelo Ministério Público.
apresentar a denúncia,
Art. 28. Ordenado o Para contrabalançar a vedação de intervenção judicial
requerer o arquivamento do
arquivamento do inquérito nesta etapa, o legislador instituiu duas ressalvas.
inquérito policial ou de
policial ou de quaisquer
quaisquer peças de informação,
elementos informativos da  A primeira exige que o promotor natural – seja ele membro
o juiz, no caso de considerar
mesma natureza, o órgão do MPE, do MPF ou do MPM ou que estejam no exercício
improcedentes as razões
do Ministério Público de funções do MP Eleitora sempre submeta sua decisão a
invocadas, fará remessa do
comunicará à vítima, ao controle hierárquico, para fins de homologação do
inquérito ou peças de
investigado e à autoridade arquivamento ou revisão dessa decisão, com substituição de
informação ao procurador-
policial e encaminhará os seu pronunciamento em favor da realização de diligências
geral, e este oferecerá a
autos para a instância de complementares ou da deflagração imediata da ação penal.
denúncia, designará outro
órgão do Ministério Público
revisão ministerial para  A segunda diz respeito ao direito da vítima, ou de seu
fins de homologação, na representante legal, de obter a reparação pelo crime que
para oferecê-la, ou insistirá no
forma da lei. sofreu e ver o responsável processado e punido, com vistas,
pedido de arquivamento, ao
qual só então estará o juiz inclusive, mas não apenas isto, à indenização civil. Ao
obrigado a atender. arquivar o caso, o promotor ou procurador deve determinar
a intimação do ofendido ou de seu representante legal,
§ 1º Se a vítima, ou seu pessoalmente, por escrito ou por comunicação digital, para
representante legal, não que exerça seu direito de recorrer em 30 dias, com
concordar com o apresentação de suas razões ao órgão revisional do
arquivamento do inquérito Ministério Público.
policial, poderá, no prazo A autoridade policial que presidiu o inquérito também
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POLÍCIA CIVIL 2021
deve receber comunicação sobre o destino dado aos autos da juiz sentenciante que conheceu de prova declarada inadmissível
apuração que presidiu, para que atualize seus registros, (Artigo 157, §5º, do Código de Processo Penal)”. Também
inclusive quanto à situação jurídica do investigado, que pode suspendeu “sine die a eficácia, ad referendum do Plenário, (b1)
ter sido indiciado pela Polícia Judiciária. da alteração do procedimento de arquivamento do inquérito
Embora a Lei Anticrime não o diga, o arquivamento policial (Artigo 28, caput, Código de Processo Penal); (b2) da
dos autos pelo Ministério Público também deve ser comunicado liberalização da prisão pela não realização da audiência de
ao juiz de garantias, para baixa dos registros judiciais e, custodia no prazo de 24 horas (Artigo 310, §4°, do Código de
eventualmente, para a revogação de medidas cautelares, reais Processo Penal)” (STF - Min. Luiz Fux - ADI/MC 6288 6299
ou pessoais que tenham sido impostas ao suspeito ou ao 6300 6305/DF - j. em 22.01.2020).
indiciado. No que se refere ao tema ora tratado o ministro
É importante dizer que, os autos do inquérito policial suspendeu o trecho que modificou o Artigo 28 do Código de
serão mantidos na serventia, na secretaria ou no cartório do Processo Penal (CPP) e estabeleceu regras para o arquivamento
juízo de garantias da comarca, da seção ou subseção, ou da de inquéritos policiais. Com a norma, o Ministério Público
zona. Caso não exista esse serviço, os inquéritos encerrados (MP) deveria comunicar a vítima, o investigado e a polícia no
podem permanecer no órgão do Ministério Público que o caso de arquivamento do inquérito, além de encaminhar os
arquivou, ou na Delegacia de Polícia, já que o inquérito é um "autos para a instância de revisão ministerial para fins de
procedimento de natureza administrativa, presidido pela Polícia homologação, na forma da lei". Para Fux, a medida
Judiciária. desconsiderou os impactos financeiros no âmbito do MP em
Tal fato só existe nos casos de inquéritos físicos, pois todo o país.
os feitos eletrônicos ficarão registrados nos respectivos A suspensão vale até o julgamento de mérito da ação
sistemas digitais utilizados pelo Judiciário, pelo Ministério pelo plenário da Corte, que não tem data para ocorrer.
Público e pela Polícia, e a tramitação também será digital, com
plena acessibilidade. 13.2 Desarquivamento
Como se vê, com este sistema há um reforço dos
mecanismos institucionais de controle da decisão de A atribuição para desarquivar o Inquérito Policial é
arquivamento, com sua submissão obrigatória, em todos os do Ministério Público. Surgindo fatos novos, deve a autoridade
casos, à instância superior do Ministério Público, e com a policial representar neste sentido, mostrando-lhe que existem
abertura de possibilidade à vítima de oferecer razões contrárias fatos novos que podem dar ensejo a nova investigação.
à decisão de arquivamento, e ao investigado de apresentar Vejamos a norma legal correlata prevista no art.18 do
argumentos favoráveis à decisão de não denunciar. Há a CPP:
vantagem adicional de manter-se o juiz em sua condição de
imparcialidade objetiva. Art. 18. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito pela
A última palavra no arquivamento não é a do promotor autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a
natural; é a da instituição organicamente considerada, após a autoridade policial poderá proceder a novas pesquisas, se de
revisão “hierárquica” da decisão de não acusar. outras provas tiver notícia.
A nova redação do art. 28 do CPP consolidou o
modelo acusatório na tramitação de inquéritos policiais, Como vimos anteriormente os Juízes não determinam
restringindo a participação do juiz criminal – nesta etapa mais o arquivamento de inquéritos policiais razão pela qual o
chamado de juiz de garantias – a decisões marcadas por art. 18 do CPP é agora incompatível com o art. 28 do mesmo
cláusula de reserva de jurisdição. Fica claro então que o código, com a redação que lhe deu a Lei 13.964/2019.
arquivamento do inquérito policial incumbe ao Ministério Desse modo o desarquivamento será determinado pelo
Público, tratando-se, portanto, de ato de natureza próprio promotor natural ou o desarquivamento dependerá de
administrativa, e não mais jurisdicional. autorização do órgão revisional. Em qualquer caso, não há mais
O juiz criminal não participa mais do procedimento de formação de coisa julgada material ou formal quando do
arquivamento ou de desarquivamento de inquéritos policiais. arquivamento, porque agora não se tem uma decisão judicial.
No entanto deve ser informado da instauração do inquérito, de Em relação a viabilidade do desarquivamento do
seu arquivamento e de eventual desarquivamento. inquérito policial sem novas provas pensamos não ter sofrido
O procedimento a ser adotado pelo Ministério Público alterações com a Lei 13.964/2019, continuando impossível o
para o arquivamento continua substancialmente o mesmo, desarquivamento do inquérito policial com base em mero
cabendo ao Procurador-Geral ou a órgão delegado homologar, reexame de provas que já integravam a investigação preliminar.
ou não, a decisão proferida pelo promotor natural. Por outro lado, o delegado de Polícia pode realizar
. No entanto, é preciso de antemão esclarecer que o novo novas investigações, porque, mesmo antes da Lei 13.964/2019,
rito do art. 28 do CPP sequer chegou a ser aplicado, uma vez o despacho judicial determinando o arquivamento do inquérito
que em 22 de janeiro de 2020 o ministro Luiz Fux, do STF, policial não interditava a atuação policial se houvesse notícia
concedeu medida cautelar na ADI 6305/DF, apensa à ADI de novas provas. Não havia obstáculo à retomada das
6298/DF, para suspender sua eficácia sine die. O ministro do investigações pela Polícia diante de tal hipótese.
Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux suspendeu, vários A Lei 13.964/2019 não alterou as atribuições dos
pontos da Lei 13.964/2019, o pacote anticrime, aprovado em delegados de Polícia na presidência do inquérito policial.
2019 pelo Congresso Nacional. A medida foi tomada , na A Lei Anticrime deve ser lida em conjunto com a Lei
condição de relator das ADIs 6.298, 6.299, 6.300 e 6305, 12.830/2013, cujo art. 2º, § 1º, determina que cabe ao delegado
proferiu decisão liminar suspendendo “sine die a eficácia, ad de polícia a condução da investigação criminal por meio de
referendum do Plenário, (a1) da implantação do juiz das inquérito policial, com o objetivo de apurar a materialidade e a
garantias e seus consectários (Artigos 3º-A, 3º-B, 3º-C, 3º-D, autoria das infrações penais e suas circunstâncias.
3ª-E, 3º-F, do Código de Processo Penal); e (a2) da alteração do Voltando à Súmula 524 do STF o que a mesma impede
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POLÍCIA CIVIL 2021
é o oferecimento de denúncia com base em inquérito policial II - determinar, no curso da instrução, ou antes de proferir
arquivado a pedido do Ministério Público, sem que realmente sentença, a realização de diligências para dirimir dúvida
haja provas novas. sobre ponto relevante.(Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
De fato, segundo a Súmula 524 do STF, “Arquivado o
inquérito policial, por despacho do juiz, a requerimento do Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do
Promotor de Justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em
novas provas”. violação a normas constitucionais ou legais. (Redação dada
A situação sob análise não é, como visto, a de pela Lei nº 11.690, de 2008)
oferecimento de denúncia após o desarquivamento de inquérito, § 1o São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas,
mas de reabertura de inquérito. Para que ocorra o salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre
desarquivamento de inquérito, basta que haja notícia de novas umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por
provas, nos termos do art. 18 do Código de Processo Penal, uma fonte independente das primeiras. (Incluído pela Lei nº
enquanto não se extinguir a punibilidade pela prescrição. 11.690, de 2008)
Por sua vez, tendo o Ministério Público competente § 2o Considera-se fonte independente aquela que por si só,
arquivado o inquérito policial, a propositura da ação penal seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da
depende de novas provas, que serão avaliadas pelo juiz de investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao
garantias por ocasião do recebimento da denúncia. O juiz não fato objeto da prova. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
intervém no arquivamento do inquérito; tampouco § 3o Preclusa a decisão de desentranhamento da prova
intervém no desarquivamento. A decisão depende do declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão
Ministério Público: quem arquiva o inquérito tem judicial, facultado às partes acompanhar o incidente. (Incluído
atribuição de desarquivá-lo. pela Lei nº 11.690, de 2008)
Desse modo, não há mais formação de coisa julgada § 4o (VETADO) (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)
material ou formal quando do arquivamento, porque agora § 5º O juiz que conhecer do conteúdo da prova declarada
não se tem uma decisão judicial. inadmissível não poderá proferir a sentença ou
Enquanto o art. 18 regula o desarquivamento de acórdão. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vide
inquérito policial, quando decorrente da carência de provas ADI 6.298) (Vide ADI 6.299) (Vide ADI 6.300) (Vide
(falta de base para denúncia), só admitindo a continuidade das ADI 6.305)
investigações se houver notícia de novas provas, a Súmula 524
cria uma condição específica para o desencadeamento da ação DO EXAME DE CORPO DE DELITO, DA
penal, caso tenha sido antes arquivado o procedimento, qual CADEIA DE
seja, a produção de novas provas. CUSTÓDIA E DAS PERÍCIAS EM GERAL
Em resumo, sem notícia de prova nova o inquérito
policial não pode ser desarquivado, e sem produção de prova (Redação dada pela Lei nº 13.964, de 2019)
nova não pode ser proposta ação penal. É evidente que o juiz Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será
poderá sempre rejeitar a denúncia do Ministério Público, com indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto,
base no inquérito policial desarquivado, se ela não tiver não podendo supri-lo a confissão do acusado.
arrimada em novas provas. Mas, para que estas novas provas Parágrafo único. Dar-se-á prioridade à realização do exame de
sejam apresentadas, é preciso permitir a reativação das corpo de delito quando se tratar de crime que
investigações, mediante o desarquivamento do inquérito, em envolva: (Incluído dada pela Lei nº 13.721, de 2018)
face da notícia de novas provas.
I - violência doméstica e familiar contra mulher; (Incluído
CAPÍTULO IV dada pela Lei nº 13.721, de 2018)
DA PROVA II - violência contra criança, adolescente, idoso ou pessoa com
BASE LEGAL:CPP deficiência. (Incluído dada pela Lei nº 13.721, de 2018)
DA PROVA
DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 158-A. Considera-se cadeia de custódia o conjunto de
todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a
Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre história cronológica do vestígio coletado em locais ou em
apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir
podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos de seu reconhecimento até o descarte(Incluído pela Lei nº
elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas 13.964, de 2019) (Vigência)
as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. (Redação § 1º O início da cadeia de custódia dá-se com a preservação do
dada pela Lei nº 11.690, de 2008) local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais nos
Parágrafo único. Somente quanto ao estado das pessoas quais seja detectada a existência de vestígio. (Incluído pela
serão observadas as restrições estabelecidas na lei Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
civil. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 2º O agente público que reconhecer um elemento como de
Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, potencial interesse para a produção da prova pericial fica
sendo, porém, facultado ao juiz de ofício: (Redação dada pela responsável por sua preservação. (Incluído pela Lei nº
Lei nº 11.690, de 2008) 13.964, de 2019) (Vigência)
§ 3º Vestígio é todo objeto ou material bruto, visível ou latente,
I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção constatado ou recolhido, que se relaciona à infração
antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, penal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
observando a necessidade, adequação e proporcionalidade Art. 158-B. A cadeia de custódia compreende o rastreamento
da medida; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) do vestígio nas seguintes etapas: (Incluído pela Lei nº
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POLÍCIA CIVIL 2021
13.964, de 2019) (Vigência) complementares. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
2019) (Vigência)
I- reconhecimento: ato de distinguir um elemento como de § 1º Todos vestígios coletados no decurso do inquérito ou
potencial interesse para a produção da prova processo devem ser tratados como descrito nesta Lei, ficando
pericial; (Incluído pela Lei nº 13.964, de órgão central de perícia oficial de natureza criminal responsável
2019) (Vigência) por detalhar a forma do seu cumprimento. (Incluído pela Lei
II - isolamento: ato de evitar que se altere o estado das coisas, nº 13.964, de 2019) (Vigência)
devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato § 2º É proibida a entrada em locais isolados bem como a
e relacionado aos vestígios e local de crime; (Incluído remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da
pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) liberação por parte do perito responsável, sendo tipificada como
III - fixação: descrição detalhada do vestígio conforme se fraude processual a sua realização. (Incluído pela Lei nº
encontra no local de crime ou no corpo de delito, e a sua 13.964, de 2019) (Vigência)
posição na área de exames, podendo ser ilustrada por Art. 158-D. O recipiente para acondicionamento do vestígio
fotografias, filmagens ou croqui, sendo indispensável a será determinado pela natureza do material. (Incluído pela Lei
sua descrição no laudo pericial produzido pelo perito nº 13.964, de 2019) (Vigência)
responsável pelo atendimento; (Incluído pela Lei nº § 1º Todos os recipientes deverão ser selados com lacres, com
13.964, de 2019) (Vigência) numeração individualizada, de forma a garantir a
IV - coleta: ato de recolher o vestígio que será submetido à inviolabilidade e a idoneidade do vestígio durante o
análise pericial, respeitando suas características e transporte. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
natureza; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
2019) (Vigência) § 2º O recipiente deverá individualizar o vestígio, preservar
V - acondicionamento: procedimento por meio do qual cada suas características, impedir contaminação e vazamento, ter
vestígio coletado é embalado de forma individualizada, de grau de resistência adequado e espaço para registro de
acordo com suas características físicas, químicas e informações sobre seu conteúdo. (Incluído pela Lei nº 13.964,
biológicas, para posterior análise, com anotação da data, de 2019) (Vigência)
hora e nome de quem realizou a coleta e o § 3º O recipiente só poderá ser aberto pelo perito que vai
acondicionamento; (Incluído pela Lei nº 13.964, de proceder à análise e, motivadamente, por pessoa
2019) (Vigência) autorizada. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
VI - transporte: ato de transferir o vestígio de um local para o 2019) (Vigência)
outro, utilizando as condições adequadas (embalagens, § 4º Após cada rompimento de lacre, deve se fazer constar na
veículos, temperatura, entre outras), de modo a garantir a ficha de acompanhamento de vestígio o nome e a matrícula do
manutenção de suas características originais, bem como o responsável, a data, o local, a finalidade, bem como as
controle de sua posse; (Incluído pela Lei nº 13.964, de informações referentes ao novo lacre utilizado. (Incluído pela
2019) (Vigência) Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
VII- recebimento: ato formal de transferência da posse do § 5º O lacre rompido deverá ser acondicionado no interior do
vestígio, que deve ser documentado com, no mínimo, novo recipiente. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
informações referentes ao número de procedimento e 2019) (Vigência)
unidade de polícia judiciária relacionada, local de origem, Art. 158-E. Todos os Institutos de Criminalística deverão ter
nome de quem transportou o vestígio, código de uma central de custódia destinada à guarda e controle dos
rastreamento, natureza do exame, tipo do vestígio, vestígios, e sua gestão deve ser vinculada diretamente ao órgão
protocolo, assinatura e identificação de quem o central de perícia oficial de natureza criminal. (Incluído pela
recebeu; (Incluído pela Lei nº 13.964, de Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
2019) (Vigência) § 1º Toda central de custódia deve possuir os serviços de
VIII- processamento: exame pericial em si, manipulação do protocolo, com local para conferência, recepção, devolução de
vestígio de acordo com a metodologia adequada às suas materiais e documentos, possibilitando a seleção, a
características biológicas, físicas e químicas, a fim de se classificação e a distribuição de materiais, devendo ser um
obter o resultado desejado, que deverá ser formalizado em espaço seguro e apresentar condições ambientais que não
laudo produzido por perito; (Incluído pela Lei nº interfiram nas características do vestígio. (Incluído pela Lei nº
13.964, de 2019) (Vigência) 13.964, de 2019) (Vigência)
IX - armazenamento: procedimento referente à guarda, em § 2º Na central de custódia, a entrada e a saída de vestígio
condições adequadas, do material a ser processado, deverão ser protocoladas, consignando-se informações sobre a
guardado para realização de contraperícia, descartado ou ocorrência no inquérito que a eles se relacionam. (Incluído pela
transportado, com vinculação ao número do laudo Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
correspondente; (Incluído pela Lei nº 13.964, de § 3º Todas as pessoas que tiverem acesso ao vestígio
2019) (Vigência) armazenado deverão ser identificadas e deverão ser registradas
X - descarte: procedimento referente à liberação do vestígio, a data e a hora do acesso.(Incluído pela Lei nº 13.964, de
respeitando a legislação vigente e, quando pertinente, 2019) (Vigência)
mediante autorização judicial. (Incluído pela Lei nº § 4º Por ocasião da tramitação do vestígio armazenado, todas
13.964, de 2019) (Vigência) as ações deverão ser registradas, consignando-se a identificação
do responsável pela tramitação, a destinação, a data e horário
Art. 158-C. A coleta dos vestígios deverá ser realizada da ação. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
preferencialmente por perito oficial, que dará o Art. 158-F. Após a realização da perícia, o material deverá ser
encaminhamento necessário para a central de custódia, mesmo devolvido à central de custódia, devendo nela
quando for necessária a realização de exames permanecer. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
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POLÍCIA CIVIL 2021
2019) (Vigência) Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará o
Parágrafo único. Caso a central de custódia não possua espaço simples exame externo do cadáver, quando não houver infração
ou condições de armazenar determinado material, deverá a penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem
autoridade policial ou judiciária determinar as condições de precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame
depósito do referido material em local diverso, mediante interno para a verificação de alguma circunstância relevante.
requerimento do diretor do órgão central de perícia oficial de Art. 163. Em caso de exumação para exame cadavérico, a
natureza criminal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de autoridade providenciará para que, em dia e hora previamente
2019) (Vigência) marcados, se realize a diligência, da qual se lavrará auto
Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão circunstanciado.
realizados por perito oficial, portador de diploma de curso Parágrafo único. O administrador de cemitério público ou
superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) particular indicará o lugar da sepultura, sob pena de
§ 1o Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 desobediência. No caso de recusa ou de falta de quem indique
(duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso a sepultura, ou de encontrar-se o cadáver em lugar não
superior preferencialmente na área específica, dentre as que destinado a inumações, a autoridade procederá às pesquisas
tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do necessárias, o que tudo constará do auto.
exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) Art. 164. Os cadáveres serão sempre fotografados na posição
§ 2o Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e em que forem encontrados, bem como, na medida do possível,
fielmente desempenhar o encargo.(Redação dada pela Lei nº todas as lesões externas e vestígios deixados no local do
11.690, de 2008) crime.(Redação dada pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994)
§ 3o Serão facultadas ao Ministério Público, ao assistente de Art. 165. Para representar as lesões encontradas no cadáver, os
acusação, ao ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação peritos, quando possível, juntarão ao laudo do exame provas
de quesitos e indicação de assistente técnico. (Incluído pela Lei fotográficas, esquemas ou desenhos, devidamente rubricados.
nº 11.690, de 2008) Art. 166. Havendo dúvida sobre a identidade do cadáver
§ 4o O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo exumado, proceder-se-á ao reconhecimento pelo Instituto de
juiz e após a conclusão dos exames e elaboração do laudo pelos Identificação e Estatística ou repartição congênere ou pela
peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta inquirição de testemunhas, lavrando-se auto de reconhecimento
decisão.(Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) e de identidade, no qual se descreverá o cadáver, com todos os
§ 5o Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, sinais e indicações.
quanto à perícia:(Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) Parágrafo único. Em qualquer caso, serão arrecadados e
autenticados todos os objetos encontrados, que possam ser úteis
I – requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para a identificação do cadáver.
para responderem a quesitos, desde que o mandado de Art. 167. Não sendo possível o exame de corpo de delito, por
intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá
sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 suprir-lhe a falta.
(dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo Art. 168. Em caso de lesões corporais, se o primeiro exame
complementar; (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) pericial tiver sido incompleto, proceder-se-á a exame
II- indicar assistentes técnicos que poderão apresentar complementar por determinação da autoridade policial ou
pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos judiciária, de ofício, ou a requerimento do Ministério Público,
em audiência. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) do ofendido ou do acusado, ou de seu defensor.
§ 1o No exame complementar, os peritos terão presente o auto
§ 6o Havendo requerimento das partes, o material probatório de corpo de delito, a fim de suprir-lhe a deficiência ou retificá-
que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente lo.
do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença § 2o Se o exame tiver por fim precisar a classificação do delito
de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for no art. 129, § 1o, I, do Código Penal, deverá ser feito logo que
impossível a sua conservação. (Incluído pela Lei nº 11.690, de decorra o prazo de 30 dias, contado da data do crime.
2008) § 3o A falta de exame complementar poderá ser suprida pela
§ 7o Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma prova testemunhal.
área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a Art. 169. Para o efeito de exame do local onde houver sido
atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente
um assistente técnico. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos
Art. 160. Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias,
descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão desenhos ou esquemas elucidativos. (Vide Lei nº 5.970, de
aos quesitos formulados. (Redação dada pela Lei nº 8.862, de 1973)
28.3.1994) Parágrafo único. Os peritos registrarão, no laudo, as alterações
Parágrafo único. O laudo pericial será elaborado no prazo do estado das coisas e discutirão, no relatório, as consequências
máximo de 10 dias, podendo este prazo ser prorrogado, em dessas alterações na dinâmica dos fatos. (Incluído pela Lei nº
casos excepcionais, a requerimento dos peritos. (Redação dada 8.862, de 28.3.1994)
pela Lei nº 8.862, de 28.3.1994) Art. 170. Nas perícias de laboratório, os peritos guardarão
Art. 161. O exame de corpo de delito poderá ser feito em material suficiente para a eventualidade de nova perícia.
qualquer dia e a qualquer hora. Sempre que conveniente, os laudos serão ilustrados com provas
Art. 162. A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do fotográficas, ou microfotográficas, desenhos ou esquemas.
óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, Art. 171. Nos crimes cometidos com destruição ou
julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que rompimento de obstáculo a subtração da coisa, ou por meio de
declararão no auto. escalada, os peritos, além de descrever os vestígios, indicarão
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com que instrumentos, por que meios e em que época Parágrafo único. A autoridade poderá também ordenar que se
presumem ter sido o fato praticado. proceda a novo exame, por outros peritos, se julgar
Art. 172. Proceder-se-á, quando necessário, à avaliação de conveniente.
coisas destruídas, deterioradas ou que constituam produto do Art. 182. O juiz não ficará adstrito ao laudo, podendo aceitá-
crime. lo ou rejeitá-lo, no todo ou em parte.
Parágrafo único. Se impossível a avaliação direta, os peritos Art. 183. Nos crimes em que não couber ação pública,
procederão à avaliação por meio dos elementos existentes nos observar-se-á o disposto no art. 19.
autos e dos que resultarem de diligências. Art. 184. Salvo o caso de exame de corpo de delito, o juiz ou
Art. 173. No caso de incêndio, os peritos verificarão a causa e a autoridade policial negará a perícia requerida pelas partes,
o lugar em que houver começado, o perigo que dele tiver quando não for necessária ao esclarecimento da verdade.
resultado para a vida ou para o patrimônio alheio, a extensão do
dano e o seu valor e as demais circunstâncias que interessarem DO INTERROGATÓRIO DO ACUSADO
à elucidação do fato.
Art. 174. No exame para o reconhecimento de escritos, por Art. 185. O acusado que comparecer perante a autoridade
comparação de letra, observar-se-á o seguinte: judiciária, no curso do processo penal, será qualificado e
interrogado na presença de seu defensor, constituído ou
I- a pessoa a quem se atribua ou se possa atribuir o escrito nomeado. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
será intimada para o ato, se for encontrada; § 1o O interrogatório do réu preso será realizado, em sala
II - para a comparação, poderão servir quaisquer documentos própria, no estabelecimento em que estiver recolhido, desde
que a dita pessoa reconhecer ou já tiverem sido que estejam garantidas a segurança do juiz, do membro do
judicialmente reconhecidos como de seu punho, ou sobre Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do
cuja autenticidade não houver dúvida; defensor e a publicidade do ato.(Redação dada pela Lei nº
III - a autoridade, quando necessário, requisitará, para o 11.900, de 2009)
exame, os documentos que existirem em arquivos ou § 2o Excepcionalmente, o juiz, por decisão fundamentada, de
estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a ofício ou a requerimento das partes, poderá realizar o
diligência, se daí não puderem ser retirados; interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou
IV - quando não houver escritos para a comparação ou forem outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em
insuficientes os exibidos, a autoridade mandará que a tempo real, desde que a medida seja necessária para atender a
pessoa escreva o que Ihe for ditado. Se estiver ausente a uma das seguintes finalidades:(Redação dada pela Lei nº
pessoa, mas em lugar certo, esta última diligência poderá 11.900, de 2009)
ser feita por precatória, em que se consignarão as palavras I - prevenir risco à segurança pública, quando exista fundada
que a pessoa será intimada a escrever. suspeita de que o preso integre organização criminosa ou de
que, por outra razão, possa fugir durante o
Art. 175. Serão sujeitos a exame os instrumentos empregados deslocamento; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
para a prática da infração, a fim de se Ihes verificar a natureza II - viabilizar a participação do réu no referido ato processual,
e a eficiência. quando haja relevante dificuldade para seu comparecimento em
Art. 176. A autoridade e as partes poderão formular quesitos juízo, por enfermidade ou outra circunstância
até o ato da diligência. pessoal; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
Art. 177. No exame por precatória, a nomeação dos peritos far- III - impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da
se-á no juízo deprecado. Havendo, porém, no caso de ação vítima, desde que não seja possível colher o depoimento destas
privada, acordo das partes, essa nomeação poderá ser feita pelo por videoconferência, nos termos do art. 217 deste
juiz deprecante. Código; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
Parágrafo único. Os quesitos do juiz e das partes serão IV - responder à gravíssima questão de ordem pública.(Incluído
transcritos na precatória. pela Lei nº 11.900, de 2009)
Art. 178. No caso do art. 159, o exame será requisitado pela § 3o Da decisão que determinar a realização de interrogatório
autoridade ao diretor da repartição, juntando-se ao processo o por videoconferência, as partes serão intimadas com 10 (dez)
laudo assinado pelos peritos. dias de antecedência. (Incluído pela Lei nº 11.900, de
Art. 179. No caso do § 1o do art. 159, o escrivão lavrará o auto 2009)
respectivo, que será assinado pelos peritos e, se presente ao § 4o Antes do interrogatório por videoconferência, o preso
exame, também pela autoridade. poderá acompanhar, pelo mesmo sistema tecnológico, a
Parágrafo único. No caso do art. 160, parágrafo único, o laudo, realização de todos os atos da audiência única de instrução e
que poderá ser datilografado, será subscrito e rubricado em suas julgamento de que tratam os arts. 400, 411 e 531 deste
folhas por todos os peritos. Código. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
Art. 180. Se houver divergência entre os peritos, serão § 5o Em qualquer modalidade de interrogatório, o juiz garantirá
consignadas no auto do exame as declarações e respostas de um ao réu o direito de entrevista prévia e reservada com o seu
e de outro, ou cada um redigirá separadamente o seu laudo, e a defensor; se realizado por videoconferência, fica também
autoridade nomeará um terceiro; se este divergir de ambos, a garantido o acesso a canais telefônicos reservados para
autoridade poderá mandar proceder a novo exame por outros comunicação entre o defensor que esteja no presídio e o
peritos. advogado presente na sala de audiência do Fórum, e entre este
Art. 181. No caso de inobservância de formalidades, ou no caso e o preso. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
de omissões, obscuridades ou contradições, a autoridade § 6o A sala reservada no estabelecimento prisional para a
judiciária mandará suprir a formalidade, complementar ou realização de atos processuais por sistema de videoconferência
esclarecer o laudo. (Redação dada pela Lei nº 8.862, de será fiscalizada pelos corregedores e pelo juiz de cada causa,
28.3.1994) como também pelo Ministério Público e pela Ordem dos
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POLÍCIA CIVIL 2021
Advogados do Brasil.(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) VIII - se tem algo mais a alegar em sua defesa. (Incluído pela
§ 7o Será requisitada a apresentação do réu preso em juízo nas Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
hipóteses em que o interrogatório não se realizar na forma Art. 188. Após proceder ao interrogatório, o juiz indagará das
prevista nos §§ 1o e 2o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.900, partes se restou algum fato para ser esclarecido, formulando as
de 2009) perguntas correspondentes se o entender pertinente e
§ 8o Aplica-se o disposto nos §§ 2o, 3o, 4o e 5o deste artigo, no relevante.(Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
que couber, à realização de outros atos processuais que Art. 189. Se o interrogando negar a acusação, no todo ou em
dependam da participação de pessoa que esteja presa, como parte, poderá prestar esclarecimentos e indicar
acareação, reconhecimento de pessoas e coisas, e inquirição de provas. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
testemunha ou tomada de declarações do ofendido. (Incluído Art. 190. Se confessar a autoria, será perguntado sobre os
pela Lei nº 11.900, de 2009) motivos e circunstâncias do fato e se outras pessoas
§ 9o Na hipótese do § 8o deste artigo, fica garantido o concorreram para a infração, e quais sejam. (Redação
acompanhamento do ato processual pelo acusado e seu dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
defensor. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) Art. 191. Havendo mais de um acusado, serão interrogados
§ 10. Do interrogatório deverá constar a informação sobre a separadamente.(Redação dada pela Lei nº 10.792, de
existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma 1º.12.2003)
deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos Art. 192. O interrogatório do mudo, do surdo ou do surdo-
cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa (Incluído pela mudo será feito pela forma seguinte:(Redação dada pela Lei nº
Lei nº 13.257, de 2016) 10.792, de 1º.12.2003)
Art. 186. Depois de devidamente qualificado e cientificado do
inteiro teor da acusação, o acusado será informado pelo juiz, I - ao surdo serão apresentadas por escrito as perguntas, que ele
antes de iniciar o interrogatório, do seu direito de permanecer responderá oralmente;(Redação dada pela Lei nº 10.792, de
calado e de não responder perguntas que lhe forem 1º.12.2003)
formuladas. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) II - ao mudo as perguntas serão feitas oralmente, respondendo-
Parágrafo único. O silêncio, que não importará em confissão, as por escrito; (Redação dada pela Lei nº 10.792, de
não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa. (Incluído 1º.12.2003)
pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) III- ao surdo-mudo as perguntas serão formuladas por escrito e
Art. 187. O interrogatório será constituído de duas partes: sobre do mesmo modo dará as respostas. (Redação dada pela Lei
a pessoa do acusado e sobre os fatos. (Redação dada pela Lei nº nº 10.792, de 1º.12.2003)
10.792, de 1º.12.2003)
§ 1o Na primeira parte o interrogando será perguntado sobre a Parágrafo único. Caso o interrogando não saiba ler ou escrever,
residência, meios de vida ou profissão, oportunidades sociais, intervirá no ato, como intérprete e sob compromisso, pessoa
lugar onde exerce a sua atividade, vida pregressa, notadamente habilitada a entendê-lo. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de
se foi preso ou processado alguma vez e, em caso afirmativo, 1º.12.2003)
qual o juízo do processo, se houve suspensão condicional ou Art. 193. Quando o interrogando não falar a língua nacional, o
condenação, qual a pena imposta, se a cumpriu e outros dados interrogatório será feito por meio de intérprete. (Redação dada
familiares e sociais. (Incluído pela Lei nº 10.792, de pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
1º.12.2003) Art. 195. Se o interrogado não souber escrever, não puder ou
§ 2o Na segunda parte será perguntado sobre: (Incluído pela Lei não quiser assinar, tal fato será consignado no termo.(Redação
nº 10.792, de 1º.12.2003) dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)
Art. 196. A todo tempo o juiz poderá proceder a novo
I- ser verdadeira a acusação que lhe é feita; (Incluído pela interrogatório de ofício ou a pedido fundamentado de qualquer
Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) das partes.(Redação dada pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003).
II - não sendo verdadeira a acusação, se tem algum motivo
particular a que atribuí-la, se conhece a pessoa ou DA CONFISSÃO
pessoas a quem deva ser imputada a prática do crime, e
quais sejam, e se com elas esteve antes da prática da Art. 197. O valor da confissão se aferirá pelos critérios
infração ou depois dela; (Incluído pela Lei nº 10.792, de adotados para os outros elementos de prova, e para a sua
1º.12.2003) apreciação o juiz deverá confrontá-la com as demais provas do
III - onde estava ao tempo em que foi cometida a infração e processo, verificando se entre ela e estas existe compatibilidade
se teve notícia desta; (Incluído pela Lei nº 10.792, de ou concordância.
1º.12.2003) Art. 198. O silêncio do acusado não importará confissão, mas
IV - as provas já apuradas; (Incluído pela Lei nº 10.792, de poderá constituir elemento para a formação do convencimento
1º.12.2003) do juiz.
V- se conhece as vítimas e testemunhas já inquiridas ou por Art. 199. A confissão, quando feita fora do interrogatório, será
inquirir, e desde quando, e se tem o que alegar contra tomada por termo nos autos, observado o disposto no art. 195.
elas; (Incluído pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) Art. 200. A confissão será divisível e retratável, sem prejuízo
VI - se conhece o instrumento com que foi praticada a do livre convencimento do juiz, fundado no exame das provas
infração, ou qualquer objeto que com esta se relacione e em conjunto.
tenha sido apreendido; (Incluído pela Lei nº 10.792, de DO OFENDIDO
1º.12.2003)
VII - todos os demais fatos e pormenores que conduzam à (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
elucidação dos antecedentes e circunstâncias da Art. 201. Sempre que possível, o ofendido será qualificado e
infração;(Incluído pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003) perguntado sobre as circunstâncias da infração, quem seja ou

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presuma ser o seu autor, as provas que possa indicar, tomando- § 2o Não será computada como testemunha a pessoa que nada
se por termo as suas declarações. (Redação dada pela Lei nº souber que interesse à decisão da causa.
11.690, de 2008) Art. 210. As testemunhas serão inquiridas cada uma de per si,
§ 1o Se, intimado para esse fim, deixar de comparecer sem de modo que umas não saibam nem ouçam os depoimentos das
motivo justo, o ofendido poderá ser conduzido à presença da outras, devendo o juiz adverti-las das penas cominadas ao falso
autoridade. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) testemunho. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 2o O ofendido será comunicado dos atos processuais relativos Parágrafo único. Antes do início da audiência e durante a sua
ao ingresso e à saída do acusado da prisão, à designação de data realização, serão reservados espaços separados para a garantia
para audiência e à sentença e respectivos acórdãos que a da incomunicabilidade das testemunhas. (Incluído pela Lei nº
mantenham ou modifiquem. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 11.690, de 2008)
2008) Art. 211. Se o juiz, ao pronunciar sentença final, reconhecer
§ 3o As comunicações ao ofendido deverão ser feitas no que alguma testemunha fez afirmação falsa, calou ou negou a
endereço por ele indicado, admitindo-se, por opção do verdade, remeterá cópia do depoimento à autoridade policial
ofendido, o uso de meio eletrônico.(Incluído pela Lei nº 11.690, para a instauração de inquérito.
de 2008) Parágrafo único. Tendo o depoimento sido prestado em
§ 4o Antes do início da audiência e durante a sua realização, plenário de julgamento, o juiz, no caso de proferir decisão na
será reservado espaço separado para o ofendido. (Incluído audiência (art. 538, § 2o), o tribunal (art. 561), ou o conselho de
pela Lei nº 11.690, de 2008) sentença, após a votação dos quesitos, poderão fazer apresentar
§ 5o Se o juiz entender necessário, poderá encaminhar o imediatamente a testemunha à autoridade policial.
ofendido para atendimento multidisciplinar, especialmente nas Art. 212. As perguntas serão formuladas pelas partes
áreas psicossocial, de assistência jurídica e de saúde, a expensas diretamente à testemunha, não admitindo o juiz aquelas que
do ofensor ou do Estado. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa ou
§ 6o O juiz tomará as providências necessárias à preservação da importarem na repetição de outra já respondida. (Redação dada
intimidade, vida privada, honra e imagem do ofendido, pela Lei nº 11.690, de 2008)
podendo, inclusive, determinar o segredo de justiça em relação Parágrafo único. Sobre os pontos não esclarecidos, o juiz
aos dados, depoimentos e outras informações constantes dos poderá complementar a inquirição.(Incluído pela Lei nº 11.690,
autos a seu respeito para evitar sua exposição aos meios de de 2008)
comunicação. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) Art. 213. O juiz não permitirá que a testemunha manifeste
suas apreciações pessoais, salvo quando inseparáveis da
DAS TESTEMUNHAS narrativa do fato.
Art. 214. Antes de iniciado o depoimento, as partes poderão
Art. 202. Toda pessoa poderá ser testemunha. contraditar a testemunha ou arguir circunstâncias ou defeitos,
Art. 203. A testemunha fará, sob palavra de honra, a promessa que a tornem suspeita de parcialidade, ou indigna de fé. O juiz
de dizer a verdade do que souber e Ihe for perguntado, devendo fará consignar a contradita ou arguição e a resposta da
declarar seu nome, sua idade, seu estado e sua residência, sua testemunha, mas só excluirá a testemunha ou não Ihe deferirá
profissão, lugar onde exerce sua atividade, se é parente, e em compromisso nos casos previstos nos arts. 207 e 208.
que grau, de alguma das partes, ou quais suas relações com Art. 215. Na redação do depoimento, o juiz deverá cingir-se,
qualquer delas, e relatar o que souber, explicando sempre as tanto quanto possível, às expressões usadas pelas testemunhas,
razões de sua ciência ou as circunstâncias pelas quais possa reproduzindo fielmente as suas frases.
avaliar-se de sua credibilidade. Art. 216. O depoimento da testemunha será reduzido a termo,
Art. 204. O depoimento será prestado oralmente, não sendo assinado por ela, pelo juiz e pelas partes. Se a testemunha não
permitido à testemunha trazê-lo por escrito. souber assinar, ou não puder fazê-lo, pedirá a alguém que o faça
Parágrafo único. Não será vedada à testemunha, entretanto, por ela, depois de lido na presença de ambos.
breve consulta a apontamentos. Art. 217. Se o juiz verificar que a presença do réu poderá
Art. 205. Se ocorrer dúvida sobre a identidade da testemunha, causar humilhação, temor, ou sério constrangimento à
o juiz procederá à verificação pelos meios ao seu alcance, testemunha ou ao ofendido, de modo que prejudique a verdade
podendo, entretanto, tomar-lhe o depoimento desde logo. do depoimento, fará a inquirição por videoconferência e,
Art. 206. A testemunha não poderá eximir-se da obrigação de somente na impossibilidade dessa forma, determinará a retirada
depor. Poderão, entretanto, recusar-se a fazê-lo o ascendente ou do réu, prosseguindo na inquirição, com a presença do seu
descendente, o afim em linha reta, o cônjuge, ainda que defensor. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
desquitado, o irmão e o pai, a mãe, ou o filho adotivo do Parágrafo único. A adoção de qualquer das medidas previstas
acusado, salvo quando não for possível, por outro modo, obter- no caput deste artigo deverá constar do termo, assim como os
se ou integrar-se a prova do fato e de suas circunstâncias. motivos que a determinaram. (Incluído pela Lei nº 11.690, de
Art. 207. São proibidas de depor as pessoas que, em razão de 2008)
função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, Art. 218. Se, regularmente intimada, a testemunha deixar de
salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o comparecer sem motivo justificado, o juiz poderá requisitar à
seu testemunho. autoridade policial a sua apresentação ou determinar seja
Art. 208. Não se deferirá o compromisso a que alude o art. 203 conduzida por oficial de justiça, que poderá solicitar o auxílio
aos doentes e deficientes mentais e aos menores de 14 da força pública.
(quatorze) anos, nem às pessoas a que se refere o art. 206. Art. 219. O juiz poderá aplicar à testemunha faltosa a multa
Art. 209. O juiz, quando julgar necessário, poderá ouvir outras prevista no art. 453, sem prejuízo do processo penal por crime
testemunhas, além das indicadas pelas partes. de desobediência, e condená-la ao pagamento das custas da
§ 1o Se ao juiz parecer conveniente, serão ouvidas as pessoas a diligência.(Redação dada pela Lei nº 6.416, de 24.5.1977)
que as testemunhas se referirem. Art. 220. As pessoas impossibilitadas, por enfermidade ou por
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POLÍCIA CIVIL 2021
velhice, de comparecer para depor, serão inquiridas onde DO RECONHECIMENTO DE PESSOAS E COISAS
estiverem.
Art. 221. O Presidente e o Vice-Presidente da República, os Art. 226. Quando houver necessidade de fazer-se o
senadores e deputados federais, os ministros de Estado, os reconhecimento de pessoa, proceder-se-á pela seguinte forma:
governadores de Estados e Territórios, os secretários de Estado,
os prefeitos do Distrito Federal e dos Municípios, os deputados I - a pessoa que tiver de fazer o reconhecimento será convidada
às Assembleias Legislativas Estaduais, os membros do Poder a descrever a pessoa que deva ser reconhecida;
Judiciário, os ministros e juízes dos Tribunais de Contas da Il - a pessoa, cujo reconhecimento se pretender, será colocada,
União, dos Estados, do Distrito Federal, bem como os do se possível, ao lado de outras que com ela tiverem qualquer
Tribunal Marítimo serão inquiridos em local, dia e hora semelhança, convidando-se quem tiver de fazer o
previamente ajustados entre eles e o juiz. (Redação dada pela reconhecimento a apontá-la;
Lei nº 3.653, de 4.11.1959) III- se houver razão para recear que a pessoa chamada para o
§ 1o O Presidente e o Vice-Presidente da República, os reconhecimento, por efeito de intimidação ou outra
presidentes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do influência, não diga a verdade em face da pessoa que deve
Supremo Tribunal Federal poderão optar pela prestação de ser reconhecida, a autoridade providenciará para que esta
depoimento por escrito, caso em que as perguntas, formuladas não veja aquela;
pelas partes e deferidas pelo juiz, Ihes serão transmitidas por IV- do ato de reconhecimento lavrar-se-á auto pormenorizado,
ofício.(Redação dada pela Lei nº 6.416, de 24.5.1977) subscrito pela autoridade, pela pessoa chamada para
§ 2o Os militares deverão ser requisitados à autoridade proceder ao reconhecimento e por duas testemunhas
superior. (Redação dada pela Lei nº 6.416, de 24.5.1977) presenciais.
§ 3o Aos funcionários públicos aplicar-se-á o disposto no art. Parágrafo único. O disposto no no III deste artigo não terá
218, devendo, porém, a expedição do mandado ser aplicação na fase da instrução criminal ou em plenário de
imediatamente comunicada ao chefe da repartição em que julgamento.
servirem, com indicação do dia e da hora marcados. (Incluído Art. 227. No reconhecimento de objeto, proceder-se-á com as
pela Lei nº 6.416, de 24.5.1977) cautelas estabelecidas no artigo anterior, no que for aplicável.
Art. 222. A testemunha que morar fora da jurisdição do juiz Art. 228. Se várias forem as pessoas chamadas a efetuar o
será inquirida pelo juiz do lugar de sua residência, expedindo- reconhecimento de pessoa ou de objeto, cada uma fará a prova
se, para esse fim, carta precatória, com prazo razoável, em separado, evitando-se qualquer comunicação entre elas.
intimadas as partes.
§ 1o A expedição da precatória não suspenderá a instrução DA ACAREAÇÃO
criminal.
§ 2o Findo o prazo marcado, poderá realizar-se o julgamento, Art. 229. A acareação será admitida entre acusados, entre
mas, a todo tempo, a precatória, uma vez devolvida, será junta acusado e testemunha, entre testemunhas, entre acusado ou
aos autos. testemunha e a pessoa ofendida, e entre as pessoas ofendidas,
§ 3o Na hipótese prevista no caput deste artigo, a oitiva de sempre que divergirem, em suas declarações, sobre fatos ou
testemunha poderá ser realizada por meio de videoconferência circunstâncias relevantes.
ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens Parágrafo único. Os acareados serão reperguntados, para que
em tempo real, permitida a presença do defensor e podendo ser expliquem os pontos de divergências, reduzindo-se a termo o
realizada, inclusive, durante a realização da audiência de ato de acareação.
instrução e julgamento. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) Art. 230. Se ausente alguma testemunha, cujas declarações
Art. 222-A. As cartas rogatórias só serão expedidas se divirjam das de outra, que esteja presente, a esta se darão a
demonstrada previamente a sua imprescindibilidade, arcando a conhecer os pontos da divergência, consignando-se no auto o
parte requerente com os custos de envio. (Incluído pela Lei nº que explicar ou observar. Se subsistir a discordância, expedir-
11.900, de 2009) se-á precatória à autoridade do lugar onde resida a testemunha
Parágrafo único. Aplica-se às cartas rogatórias o disposto nos ausente, transcrevendo-se as declarações desta e as da
§§ 1o e 2o do art. 222 deste Código.(Incluído pela Lei nº 11.900, testemunha presente, nos pontos em que divergirem, bem como
de 2009) o texto do referido auto, a fim de que se complete a diligência,
Art. 223. Quando a testemunha não conhecer a língua ouvindo-se a testemunha ausente, pela mesma forma
nacional, será nomeado intérprete para traduzir as perguntas e estabelecida para a testemunha presente. Esta diligência só se
respostas. realizará quando não importe demora prejudicial ao processo e
Parágrafo único. Tratando-se de mudo, surdo ou surdo-mudo, o juiz a entenda conveniente.
proceder-se-á na conformidade do art. 192.
Art. 224. As testemunhas comunicarão ao juiz, dentro de um DOS DOCUMENTOS
ano, qualquer mudança de residência, sujeitando-se, pela
simples omissão, às penas do não-comparecimento. Art. 231. Salvo os casos expressos em lei, as partes poderão
Art. 225. Se qualquer testemunha houver de ausentar-se, ou, apresentar documentos em qualquer fase do processo.
por enfermidade ou por velhice, inspirar receio de que ao tempo Art. 232. Consideram-se documentos quaisquer escritos,
da instrução criminal já não exista, o juiz poderá, de ofício ou a instrumentos ou papéis, públicos ou particulares.
requerimento de qualquer das partes, tomar-lhe Parágrafo único. À fotografia do documento, devidamente
antecipadamente o depoimento. autenticada, se dará o mesmo valor do original.
Art. 233. As cartas particulares, interceptadas ou obtidas por
meios criminosos, não serão admitidas em juízo.

29
POLÍCIA CIVIL 2021
Parágrafo único. As cartas poderão ser exibidas em juízo pelo III- ser subscrito pelo escrivão e assinado pela autoridade que o
respectivo destinatário, para a defesa de seu direito, ainda que fizer expedir.
não haja consentimento do signatário.
Art. 234. Se o juiz tiver notícia da existência de documento § 1o Se houver ordem de prisão, constará do próprio texto do
relativo a ponto relevante da acusação ou da defesa, mandado de busca.
providenciará, independentemente de requerimento de § 2o Não será permitida a apreensão de documento em poder do
qualquer das partes, para sua juntada aos autos, se possível. defensor do acusado, salvo quando constituir elemento do
Art. 235. A letra e firma dos documentos particulares serão corpo de delito.
submetidas a exame pericial, quando contestada a sua Art. 244. A busca pessoal independerá de mandado, no caso de
autenticidade. prisão ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa
Art. 236. Os documentos em língua estrangeira, sem prejuízo esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papéis que
de sua juntada imediata, serão, se necessário, traduzidos por constituam corpo de delito, ou quando a medida for
tradutor público, ou, na falta, por pessoa idônea nomeada pela determinada no curso de busca domiciliar.
autoridade. Art. 245. As buscas domiciliares serão executadas de dia,
Art. 237. As públicas-formas só terão valor quando conferidas salvo se o morador consentir que se realizem à noite, e, antes
com o original, em presença da autoridade. de penetrarem na casa, os executores mostrarão e lerão o
Art. 238. Os documentos originais, juntos a processo findo, mandado ao morador, ou a quem o represente, intimando-o, em
quando não exista motivo relevante que justifique a sua seguida, a abrir a porta.
conservação nos autos, poderão, mediante requerimento, e § 1o Se a própria autoridade der a busca, declarará previamente
ouvido o Ministério Público, ser entregues à parte que os sua qualidade e o objeto da diligência.
produziu, ficando traslado nos autos. § 2o Em caso de desobediência, será arrombada a porta e
forçada a entrada.
DOS INDÍCIOS § 3o Recalcitrando o morador, será permitido o emprego de
força contra coisas existentes no interior da casa, para o
Art. 239. Considera-se indício a circunstância conhecida e descobrimento do que se procura.
provada, que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, § 4o Observar-se-á o disposto nos §§ 2o e 3o, quando ausentes
concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias. os moradores, devendo, neste caso, ser intimado a assistir à
diligência qualquer vizinho, se houver e estiver presente.
DA BUSCA E DA APREENSÃO § 5o Se é determinada a pessoa ou coisa que se vai procurar, o
morador será intimado a mostrá-la.
Art. 240. A busca será domiciliar ou pessoal. § 6o Descoberta a pessoa ou coisa que se procura, será
§ 1o Proceder-se-á à busca domiciliar, quando fundadas razões imediatamente apreendida e posta sob custódia da autoridade
a autorizarem, para: ou de seus agentes.
§ 7o Finda a diligência, os executores lavrarão auto
a) prender criminosos; circunstanciado, assinando-o com duas testemunhas
b) apreender coisas achadas ou obtidas por meios criminosos; presenciais, sem prejuízo do disposto no § 4o.
c) apreender instrumentos de falsificação ou de contrafação e Art. 246. Aplicar-se-á também o disposto no artigo anterior,
objetos falsificados ou contrafeitos; quando se tiver de proceder a busca em compartimento
d) apreender armas e munições, instrumentos utilizados na habitado ou em aposento ocupado de habitação coletiva ou em
prática de crime ou destinados a fim delituoso; compartimento não aberto ao público, onde alguém exercer
e) descobrir objetos necessários à prova de infração ou à profissão ou atividade.
defesa do réu; Art. 247. Não sendo encontrada a pessoa ou coisa procurada,
f) apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou os motivos da diligência serão comunicados a quem tiver
em seu poder, quando haja suspeita de que o conhecimento sofrido a busca, se o requerer.
do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do fato; Art. 248. Em casa habitada, a busca será feita de modo que
g) apreender pessoas vítimas de crimes; não moleste os moradores mais do que o indispensável para o
h) colher qualquer elemento de convicção. êxito da diligência.
Art. 249. A busca em mulher será feita por outra mulher, se
§ 2o Proceder-se-á à busca pessoal quando houver fundada não importar retardamento ou prejuízo da diligência.
suspeita de que alguém oculte consigo arma proibida ou objetos Art. 250. A autoridade ou seus agentes poderão penetrar no
mencionados nas letras b a f e letra h do parágrafo anterior. território de jurisdição alheia, ainda que de outro Estado,
Art. 241. Quando a própria autoridade policial ou judiciária quando, para o fim de apreensão, forem no seguimento de
não a realizar pessoalmente, a busca domiciliar deverá ser pessoa ou coisa, devendo apresentar-se à competente
precedida da expedição de mandado. autoridade local, antes da diligência ou após, conforme a
Art. 242. A busca poderá ser determinada de ofício ou a urgência desta.
requerimento de qualquer das partes. § 1o Entender-se-á que a autoridade ou seus agentes vão em
Art. 243. O mandado de busca deverá: seguimento da pessoa ou coisa, quando:

I - indicar, o mais precisamente possível, a casa em que será a) tendo conhecimento direto de sua remoção ou transporte, a
realizada a diligência e o nome do respectivo proprietário seguirem sem interrupção, embora depois a percam de vista;
ou morador; ou, no caso de busca pessoal, o nome da pessoa b) ainda que não a tenham avistado, mas sabendo, por
que terá de sofrê-la ou os sinais que a identifiquem; informações fidedignas ou circunstâncias indiciárias, que
II - mencionar o motivo e os fins da diligência; está sendo removida ou transportada em determinada
direção, forem ao seu encalço.
30
POLÍCIA CIVIL 2021
§ 2o Se as autoridades locais tiverem fundadas razões para não houver influído na apuração da verdade substancial ou na
duvidar da legitimidade das pessoas que, nas referidas decisão da causa.
diligências, entrarem pelos seus distritos, ou da legalidade dos Art. 567. A incompetência do juízo anula somente os atos
mandados que apresentarem, poderão exigir as provas dessa decisórios, devendo o processo, quando for declarada a
legitimidade, mas de modo que não se frustre a diligência. nulidade, ser remetido ao juiz competente.
Art. 568. A nulidade por ilegitimidade do representante da
DAS NULIDADES parte poderá ser a todo tempo sanada, mediante ratificação dos
atos processuais.
Art. 563. Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não Art. 569. As omissões da denúncia ou da queixa, da
resultar prejuízo para a acusação ou para a defesa. representação, ou, nos processos das contravenções penais, da
Art. 564. A nulidade ocorrerá nos seguintes casos: portaria ou do auto de prisão em flagrante, poderão ser supridas
a todo o tempo, antes da sentença final.
I - por incompetência, suspeição ou suborno do juiz; Art. 570. A falta ou a nulidade da citação, da intimação ou
II- por ilegitimidade de parte; notificação estará sanada, desde que o interessado compareça,
III- por falta das fórmulas ou dos termos seguintes: antes de o ato consumar-se, embora declare que o faz para o
único fim de argui-la. O juiz ordenará, todavia, a suspensão ou
a) a denúncia ou a queixa e a representação e, nos processos o adiamento do ato, quando reconhecer que a irregularidade
de contravenções penais, a portaria ou o auto de prisão em poderá prejudicar direito da parte.
flagrante; Art. 571. As nulidades deverão ser arguidas:
b) o exame do corpo de delito nos crimes que deixam vestígios,
ressalvado o disposto no Art. 167; I - as da instrução criminal dos processos da competência do
c) a nomeação de defensor ao réu presente, que o não tiver, ou júri, nos prazos a que se refere o art. 406;
ao ausente, e de curador ao menor de 21 anos; II - as da instrução criminal dos processos de competência
d) a intervenção do Ministério Público em todos os termos da do juiz singular e dos processos especiais, salvo os dos
ação por ele intentada e nos da intentada pela parte ofendida, Capítulos V e Vll do Título II do Livro II, nos prazos a
quando se tratar de crime de ação pública; que se refere o art. 500;
e) a citação do réu para ver-se processar, o seu interrogatório, III - as do processo sumário, no prazo a que se refere o art. 537,
quando presente, e os prazos concedidos à acusação e à ou, se verificadas depois desse prazo, logo depois de
defesa; aberta a audiência e apregoadas as partes;
f) a sentença de pronúncia, o libelo e a entrega da respectiva IV - as do processo regulado no Capítulo VII do Título II do
cópia, com o rol de testemunhas, nos processos perante o Livro II, logo depois de aberta a audiência;
Tribunal do Júri; V - as ocorridas posteriormente à pronúncia, logo depois de
g) a intimação do réu para a sessão de julgamento, pelo anunciado o julgamento e apregoadas as partes
Tribunal do Júri, quando a lei não permitir o julgamento à (art. 447);
revelia; VI - as de instrução criminal dos processos de competência do
h) a intimação das testemunhas arroladas no libelo e na Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais de Apelação,
contrariedade, nos termos estabelecidos pela lei; nos prazos a que se refere o art. 500;
i) a presença pelo menos de 15 jurados para a constituição do VII - se verificadas após a decisão da primeira instância, nas
júri; razões de recurso ou logo depois de anunciado o
j) o sorteio dos jurados do conselho de sentença em número julgamento do recurso e apregoadas as partes;
legal e sua incomunicabilidade; VIII - as do julgamento em plenário, em audiência ou em sessão
k) os quesitos e as respectivas respostas; do tribunal, logo depois de ocorrerem.
l) a acusação e a defesa, na sessão de julgamento; Art. 572. As nulidades previstas no art. 564, Ill, d e e, segunda
m) a sentença; parte, g e h, e IV, considerar-se-ão sanadas:
n) o recurso de oficio, nos casos em que a lei o tenha
estabelecido; I - se não forem arguidas, em tempo oportuno, de acordo com
o) a intimação, nas condições estabelecidas pela lei, para o disposto no artigo anterior;
ciência de sentenças e despachos de que caiba recurso; II- se, praticado por outra forma, o ato tiver atingido o seu fim;
p) no Supremo Tribunal Federal e nos Tribunais de Apelação, III- se a parte, ainda que tacitamente, tiver aceito os seus
o quórum legal para o julgamento; efeitos.

IV - por omissão de formalidade que constitua elemento Art. 573. Os atos, cuja nulidade não tiver sido sanada, na forma
essencial do ato. dos artigos anteriores, serão renovados ou retificados.
V- em decorrência de decisão carente de § 1o A nulidade de um ato, uma vez declarada, causará a dos
fundamentação. (Incluído pela Lei nº 13.964, de atos que dele diretamente dependam ou sejam consequência.
2019) (Vigência) § 2o O juiz que pronunciar a nulidade declarará os atos a que
ela se estende.
Parágrafo único. Ocorrerá ainda a nulidade, por deficiência dos
quesitos ou das suas respostas, e contradição entre
estas. (Incluído pela Lei nº 263, de 23.2.1948)
Art. 565. Nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que
haja dado causa, ou para que tenha concorrido, ou referente a
formalidade cuja observância só à parte contrária interesse.
Art. 566. Não será declarada a nulidade de ato processual que
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POLÍCIA CIVIL 2021
DA PROVA coordenados que caminha para a sentença. O Juiz decide com
base na prova, o Juiz sentencia de acordo com a prova existente
1. Considerações Gerais no processo, ele vai julgar procedente ou improcedente a ação
penal, daí a afirmativa de que a prova é a alma do processo. Por
1.1 Etimologia falta de prova o Juiz também decide, isto é, se a parte acusadora
1.2 Conceito não oferece provas, ou não oferece provas convincentes, o juiz
1.3 Princípio da verdade real decidirá pela absolvição.
1.4 Princípio do livre convencimento
1.5 Hierarquia das provas Diante desse quadro se percebe que, para o Processo Penal, nem
1.6 Objeto da prova mesmo a confissão pode ser analisada de forma dogmática e
1.7 Produção da prova absoluta, sem contar que se pode, dependendo do caso concreto,
1.8 Ônus da prova estar praticando o crime de autoacusação falsa previsto
1.9 Valoração da prova no art.341 do Código Penal Brasileiro. A verdade formal, pois,
1.10 Provas Ilícitas se conforma com presunções, ao passo que a verdade material
1.11 Atualidades normativas se firma no manejo de encontrar parâmetros que reproduzam o
fato delituoso de acordo com o que realmente aconteceu.
2. Espécies de prova Alguns doutrinadores citam, vale dizer, que com a
implementação da Lei 9.099/95, o processo civil abarcou além
2.1 Exame de corpo de delito e perícias em geral daquela o que se convencionou chamar de “verdade
2.2 Do interrogatório do acusado /Da confissão consensual”.
2.3 Do Ofendido
2.4 Das testemunhas O Processo Penal tem, assim, um compromisso dos mais
2.5 Do Reconhecimento de pessoas e coisas difíceis, qual seja, a reconstrução do fato delituoso na
2.6 Acareação incansável busca pela “verdade real”. Para a realização desta
2.7 Documentos de prova tarefa necessitou-se de variados meios ou instrumentos
2.8 Dos indícios probatórios. É, pois, sob esse prisma, que repousa a importância
2.9 Da busca e apreensão. do estudo acerca das diversas espécies de prova, bem como
sobre fatos que lhe são correlatos.
3. Das nulidades
Diante do quadro que apresentamos ver-se que o grande
1. Generalidades objetivo na realização probatória é formar o potencial de
convicção que deve existir no magistrado quando do ato de
O vocábulo prova origina-se do latim probatio, que julgar, podendo incidir, inclusive, sobre a parte contrária como
por sua vez emana do verbo probare, com o significado de acontece em algumas hipóteses no que concerne à atuação do
demonstrar, reconhecer, formar juízo de algo. Entende-se, Ministério Público.
assim, no sentido jurídico, a demonstração que se faz, pelos
meios legais, da existência ou veracidade de um fato material Quanto ao sistema ou forma adotada quanto aos meios
ou de um ato jurídico, em virtude da qual se conclui por sua de prova, o nosso país adotou o sistema do livre
existência ou se afirma à certeza a respeito da existência do fato convencimento pelo qual nenhuma prova tem caráter absoluto
ou do ato demonstrado. A palavra "prova" é originária do latim nem mesmo a confissão devendo haver uma intrínseca e
"probatio", que por sua vez emana do verbo "probare", com o harmônica relação entre a prova apresentada e todo o
significado de examinar, persuadir, demonstrar. Assim, prova é desenvolvimento do processo, deixando ao juiz a última palavra
todo elemento que pode levar o conhecimento de um fato a em que pese o caso concreto apresentado face ao conjunto
alguém. probatório existente em cada situação.
O Direito no decorrer de toda sua construção
histórica almejou o delineamento de mecanismos que pudessem Hipótese também lembrada na doutrina pátria é o
possibilitar o alcance da verdade processual, passando desde as questionamento sobre a hierarquia das provas dentro do
ordálias na Idade Média até a incorporação de uma conjuntura processo penal. Há, como se sabe, certo grau de especificidade
baseada no sistema probatório. Na atualidade predomina o referente a cada tipo de prova, o que, vale dizer, não implica
Sistema do livre convencimento inclusive no Brasil (art. 157, qualquer hierarquia, podendo, contudo, se ter a predominância
Código de Processo Penal), pelo qual o Juiz formará a sua de uma em detrimento de outra em razão de ser mais
convicção pelo livre convencimento na apreciação das provas. conveniente dentre aquelas legalmente permitidas.
Nesse sistema não existe hierarquia de prova, em princípio
nenhuma prova vale mais que a outra cabe ao Juiz em cada caso Já o objeto de prova, isto é, o que é que necessita se
concreto priorizar uma ou outra. Por sua vez, o Juiz está provar são todos os fatos principais ou secundários que
obrigado a fundamentar a sua decisão como forma de exercer o reclamem uma apreciação judicial e exijam comprovação.
poder jurisdicional com coerência e serenidade. Vale dizer Como regra geral, somente os fatos que possam dar lugar às
ainda que o rol de meios de prova estabelecido no CPP não é dúvidas é que merecem ser provados. Assim, os fatos
taxativo, podendo ser aceitos os meios de provas atípicos ou axiomáticos ou intuitivos, isto é, aqueles que são evidentes,
inonimados como ocorre, por exemplo, na hipótese de captação como por exemplo, as ossadas da vítima que são encontradas,
ambiental (ex: gravação de conversa de duas ou mais pessoas geram a desnecessidade de elaborar-se laudo de exame
em local público). necroscópico para provar a sua morte, pois esta é evidente; De
outro lado, os fatos notórios, que são aqueles caídos sob o
Nesse passo, ver-se que o processo é um conjunto de atos conhecimento geral como o fato de que o Natal é comemorado
32
POLÍCIA CIVIL 2021
no dia 25 de dezembro, ou que a criminalidade aumenta a cada – Lei do Pacote Anticrime tendo algum magistrado
dia, também não requerem prova. Também não necessitam de conhecimento do conteúdo de prova declarada inadmissível,
prova os fatos sobre os quais versam presunções legais não mais poderá esse proferir sentença ou acordão. Protege-se
absolutas (jure et de jure), como a inimputabilidade do menor assim a contaminação do juiz por prova ilícita pela qual tenha
de 18 anos. “passado os olhos”, podendo fazer com que esse elemento de
prova, mesmo que não venha a ser mencionado na sentença ou
Diga-se, entretanto, que o fato incontroverso precisa ser o acordão, contamine o ato decisório. Trata-se de importante
provado em face do princípio da verdade real, que obriga o juiz mudança as garantias do Réu.
a procurar a verdade dos fatos, independentemente da verdade A prova tida como ilícita deve ser desentranhada dos
formal produzida nos autos do processo. Assim, mesmo os fatos autos.
admitidos pela parte contrária não dispensam dilação Não se deve esquecer ainda acerca do ônus da prova.
probatória. Pelo mesmo motivo, no processo penal, a confissão Nos termos do artigo 156 do Código de Processo Penal, a prova
não constitui prova absoluta, devendo vir reforçada por outros deverá ser produzida por quem a alegar seja o autor da ação o
elementos probatórios. Ministério Público ou o Particular. Em outros termos, o acusado
Quanto à produção da prova dentro dessa ramificação não tem a obrigação de provar que é inocente, ou seja, quem
jurídica, entende-se que as mesmas podem ser promovidas alega é que deve provar a culpa. Deve apenas produzir sua
livremente dentro da fase processual e, inclusive, na fase defesa, como se fosse uma contestação, contradizendo aquilo
recursal, salvo em casos específicos como a impossibilidade de que o promotor ou o ofendido disser em sua petição inicial
juntadas dos documentos no momento das alegações finais (denúncia ou queixa-crime). Não só as partes, mas também os
dentro do procedimento do Tribunal do Júri. juízes dentro do Processo Penal têm esse poder probatório,
O novo art. 156 do CPP inovou no ponto que passou a podendo, por exemplo, convocar testemunhas não arroladas
exigir que a produção antecipada de provas consideradas pelas partes, mas apenas citadas em seus depoimentos, o que,
urgentes e relevantes, observe a necessidade, adequação e segundo certa parcela doutrinária implica em quebra de sua
proporcionalidade da medida ("art. 156. A prova da alegação imparcialidade. Assim, consoante o art.156 do Código de
incumbirá a quem a fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de Processo Penal com a redação dada pela Lei 11.690/2008 a
ofício: I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém,
produção antecipada de provas consideradas urgentes e facultado ao juiz de ofício, constituindo verdadeira exceção ao
relevantes, observando a necessidade, adequação e princípio da inércia. A inovação trazida pela lei 11.690/2008
proporcionalidade da medida; II – determinar, no curso da consiste na possibilidade de o Juiz ordenar, também de ofício,
instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de “mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada
diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante."). de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a
necessidade, adequação e proporcionalidade da medida
No que tange o assunto ora comentado não se pode consoante o art. 156, I , do CPP.
esquecer de mencionar a previsão constitucional delineada no
art.5º, LVI da Constituição Federal que trata da Quanto à valoração da prova, o art. 155 do CPP
inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos, que atua passou a ter a seguinte redação: "O juiz formará sua convicção
como impedimento e desestímulo na recepção e aplicação de pela livre apreciação da prova produzida em contraditório
provas que não repousem dentro do aspecto da legalidade. judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente
Dentro desse panorama ver-se que a teoria da árvore dos frutos nos elementos informativos colhidos na investigação,
envenenados nada mais é do que sua decorrência. Por último ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas".
nesse sentido diga-se que, a prova ilícita não se confunde com Ou seja, a prova produzida após o ajuizamento da ação penal,
a prova ilegítima, pois, enquanto a primeira incide na violação portanto sob o crivo do contraditório, passa a ter uma relevância
do direito material, a última acampa-se dentro do direito maior para o julgamento — a duplicidade na produção da prova
processual. Vale dizer que com o surgimento da recente Lei continua (inquérito + instrução judicial), mas a segunda prova
11.690/2008 alterando o art.157 do CPP as provas ilícitas vale mais, pois a sentença necessariamente deverá estar
(obtidas em violação a normas constitucionais ou legais) fundada em alguma prova colhida na instrução judicial.
passaram a ser terminantemente proibidas, não mais se devendo
usar o princípio da proporcionalidade como se fazia até então. Um outro que merece destaque diz respeito ás
denominadas Provas Ilícitas que consistem naquelas obtidas
Assim, uma busca e apreensão ao arrepio da lei, uma em violação a normas constitucionais ou legais.
audição de conversa privada por interferência mecânica de Independentemente de a norma violada ser processual ou de
telefone, microgravadores dissimulados, uma interceptação direito material, de direito público ou de direito privado,
telefônica, uma gravação de conversa, uma fotografia de pessoa constitucional ou infraconstitucional. Violada uma norma
ou pessoas em seu círculo íntimo, uma confissão obtida por válida durante a colheita da prova, tanto basta para que esta seja
meios condenáveis, como a tortura entre outros e, enfim, toda e ilícita e, por consequência, inadmissível no processo.
qualquer prova obtida ilicitamente, não será admitida em juízo.
As provas ilícitas por derivação, seguindo a posição do STF, Segundo o mestre Norberto Avena em seu livro
também se tornaram inadmissíveis pela nova legislação, “Processo Penal Esquematizado” a expressão prova ilegal
excetuadas as que não tem nexo de causalidade com as ilícitas corresponde a um gênero, do qual fazem parte três espécies
- portanto, não são derivadas destas - e aqueles que, embora distintas de provas : as provas ilícitas, que são as obtidas
derivadas, podem ser obtidas por “fonte independente”. mediante violação direta ou indireta da Constituição Federal; as
provas ilícitas por derivação, que correspondem a provas que,
conquanto lícitas na própria essência, tornam-se viciadas por
Com a Lei nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019 terem decorrido, exclusivamente, de uma prova ilícita anterior;
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POLÍCIA CIVIL 2021
e, por fim, as provas ilegítimas, assim entendidas as obtidas ou indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto,
produzidas com ofensas a disposições legais, sem qualquer não podendo supri-lo a confissão do acusado.
reflexo em nível constitucional. Parágrafo único. Dar-se-á prioridade à realização do exame de
Tais provas passaram a ter nova redação do art.157 do corpo de delito quando se tratar de crime que
CPP, dada pela Lei nº 11.690/2008, dispõe agora de forma envolva: (Incluído dada pela Lei nº 13.721, de 2018)
diversa sobre a questão da prova ilícita, que passou a prever o
que segue: I - violência doméstica e familiar contra mulher; (Incluído
dada pela Lei nº 13.721, de 2018)
"Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas II - violência contra criança, adolescente, idoso ou pessoa com
do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as obtidas deficiência. (Incluído dada pela Lei nº 13.721, de 2018).
em violação a normas constitucionais ou legais.
§ 1o São também inadmissíveis as provas derivadas das  Foram incluídos os seguintes artigos pela Lei
ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade 13.964/2019 (Pacote Anticrime): art.158-A, art.158-B,
entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser art.158-C art.158-D art.158-E e art.158-F.
obtidas por uma fonte independente das primeiras.
§ 2o Considera-se fonte independente aquela que por si só, Art. 158-A. Considera-se cadeia de custódia o conjunto de
seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da todos os procedimentos utilizados para manter e documentar a
investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir história cronológica do vestígio coletado em locais ou em
ao fato objeto da prova. vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir
§ 3o Preclusa a decisão de desentranhamento da prova de seu reconhecimento até o descarte. (Incluído pela Lei nº
declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão 13.964, de 2019) (Vigência)
judicial, facultado às partes acompanhar o incidente. § 1º O início da cadeia de custódia dá-se com a preservação do
local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais nos
Por último, no que toca as espécies de prova o quais seja detectada a existência de vestígio. (Incluído pela
entendimento dominante na doutrina é que, a enumeração legal Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
não é taxativa, mas apenas exemplificativa, podendo-se utilizar § 2º O agente público que reconhecer um elemento como de
qualquer meio de prova, desde que lícito, com vistas ao potencial interesse para a produção da prova pericial fica
esclarecimento da verdade real. Destarte, os meios de prova são responsável por sua preservação. (Incluído pela Lei nº
bastante ecléticos podendo ter natureza direta (ex: testemunha 13.964, de 2019) (Vigência)
ocular), indireta (ex: testemunha auricular) ou mesmo de § 3º Vestígio é todo objeto ou material bruto, visível ou latente,
caráter emprestado (ex: prova produzida em um processo é constatado ou recolhido, que se relaciona à infração
levada a outro em que, embora as partes não sejam as mesmas, penal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
o é o objeto da causa).Vejamos a seguir as espécies correlatas Art. 158-B. A cadeia de custódia compreende o rastreamento
conforme o Edital do concurso pleiteado : do vestígio nas seguintes etapas: (Incluído pela Lei nº
13.964, de 2019) (Vigência)
Quanto às atualidades normativas, em que pese o assunto
“Prova” , após as alterações realizadas pela Lei 11.690/2008 I - reconhecimento: ato de distinguir um elemento como de
que alterou o Código de Processo Penal – CPP, basicamente, potencial interesse para a produção da prova
nos pontos relacionados à produção e à apreciação da prova, pericial; (Incluído pela Lei nº 13.964, de
tivemos ainda uma série de outras leis alteradoras no assunto 2019) (Vigência)
em comento , quais sejam : Lei 11.900/2009; Lei II - isolamento: ato de evitar que se altere o estado das coisas,
13.257/2016;Lei 13.721/2018 e a Lei 13.964/2019 (Pacote devendo isolar e preservar o ambiente imediato, mediato e
Anticrime), às quais, em ordem sequencial do CPP, realizaram relacionado aos vestígios e local de crime; (Incluído pela
as seguintes modificações : Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
III- fixação: descrição detalhada do vestígio conforme se
 Inclusão do §5º do art. 157 do CPP pela Lei 13.964/2019 encontra no local de crime ou no corpo de delito, e a sua
(Pacote Anticrime) que dispõe: posição na área de exames, podendo ser ilustrada por
fotografias, filmagens ou croqui, sendo indispensável a sua
§ 5º O juiz que conhecer do conteúdo da prova declarada descrição no laudo pericial produzido pelo perito
inadmissível não poderá proferir a sentença ou responsável pelo atendimento; (Incluído pela Lei nº
acórdão. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vide 13.964, de 2019) (Vigência)
ADI 6.298) (Vide ADI 6.299) (Vide ADI 6.300) (Vide IV- coleta: ato de recolher o vestígio que será submetido à
ADI 6.305). análise pericial, respeitando suas características e
natureza; (Incluído pela Lei nº 13.964, de
 Foi dada nova redação ao título do capítulo II que, 2019) (Vigência)
anteriormente era denominado “EXAME DE CORPO V -acondicionamento: procedimento por meio do qual cada
DE DELITO E DAS PERÍCIAS EM GERAL” e passou vestígio coletado é embalado de forma individualizada, de
a ser denominado “EXAME DE CORPO DE DELITO, acordo com suas características físicas, químicas e
DA CADEIA DECUSTÓDIA E DAS PERÍCIAS EM biológicas, para posterior análise, com anotação da data,
GERAL. hora e nome de quem realizou a coleta e o
 Foi incluído o art.158 e parágrafo único e incisos I e II acondicionamento; (Incluído pela Lei nº 13.964, de
pela Lei 13.721/2018 que passou a dispor o seguinte: 2019) (Vigência)
VI- transporte: ato de transferir o vestígio de um local para o
Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será outro, utilizando as condições adequadas (embalagens,
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POLÍCIA CIVIL 2021
veículos, temperatura, entre outras), de modo a garantir a ficha de acompanhamento de vestígio o nome e a matrícula do
manutenção de suas características originais, bem como o responsável, a data, o local, a finalidade, bem como as
controle de sua posse; (Incluído pela Lei nº 13.964, de informações referentes ao novo lacre utilizado. (Incluído
2019) (Vigência) pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
VII-recebimento: ato formal de transferência da posse do § 5º O lacre rompido deverá ser acondicionado no interior do
vestígio, que deve ser documentado com, no mínimo, novo recipiente. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
informações referentes ao número de procedimento e 2019) (Vigência)
unidade de polícia judiciária relacionada, local de origem, Art. 158-E. Todos os Institutos de Criminalística deverão ter
nome de quem transportou o vestígio, código de uma central de custódia destinada à guarda e controle dos
rastreamento, natureza do exame, tipo do vestígio, vestígios, e sua gestão deve ser vinculada diretamente ao órgão
protocolo, assinatura e identificação de quem o central de perícia oficial de natureza criminal. (Incluído pela
recebeu; (Incluído pela Lei nº 13.964, de Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
2019) (Vigência) § 1º Toda central de custódia deve possuir os serviços de
VIII-processamento: exame pericial em si, manipulação do protocolo, com local para conferência, recepção, devolução de
vestígio de acordo com a metodologia adequada às suas materiais e documentos, possibilitando a seleção, a
características biológicas, físicas e químicas, a fim de se classificação e a distribuição de materiais, devendo ser um
obter o resultado desejado, que deverá ser formalizado em espaço seguro e apresentar condições ambientais que não
laudo produzido por perito; (Incluído pela Lei nº 13.964, interfiram nas características do vestígio. (Incluído pela Lei
de 2019) (Vigência) nº 13.964, de 2019) (Vigência)
IX-armazenamento: procedimento referente à guarda, em § 2º Na central de custódia, a entrada e a saída de vestígio
condições adequadas, do material a ser processado, deverão ser protocoladas, consignando-se informações sobre a
guardado para realização de contraperícia, descartado ou ocorrência no inquérito que a eles se relacionam. (Incluído
transportado, com vinculação ao número do laudo pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
correspondente; (Incluído pela Lei nº 13.964, de § 3º Todas as pessoas que tiverem acesso ao vestígio
2019) (Vigência) armazenado deverão ser identificadas e deverão ser registradas
X- descarte: procedimento referente à liberação do vestígio, a data e a hora do acesso. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
respeitando a legislação vigente e, quando pertinente, 2019) (Vigência)
mediante autorização judicial. (Incluído pela Lei nº § 4º Por ocasião da tramitação do vestígio armazenado, todas
13.964, de 2019) (Vigência) as ações deverão ser registradas, consignando-se a identificação
do responsável pela tramitação, a destinação, a data e horário
Art. 158-C. A coleta dos vestígios deverá ser realizada da ação. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
preferencialmente por perito oficial, que dará o Art. 158-F. Após a realização da perícia, o material deverá ser
encaminhamento necessário para a central de custódia, mesmo devolvido à central de custódia, devendo nela
quando for necessária a realização de exames permanecer. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
complementares. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
2019) (Vigência)
§ 1º Todos vestígios coletados no decurso do inquérito ou  Em relação ao “Interrogatório do Acusado” Foram
processo devem ser tratados como descrito nesta Lei, ficando incluídos os seguintes parágrafos e incisos no art.185
órgão central de perícia oficial de natureza criminal responsável pelas Leis 11.900/2009; 13.257/2016 e Lei 13.964/2019
por detalhar a forma do seu cumprimento. (Incluído pela Lei (Pacote Anticrime).
nº 13.964, de 2019) (Vigência)
§ 2º É proibida a entrada em locais isolados bem como a § 1o O interrogatório do réu preso será realizado, em sala
remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da própria, no estabelecimento em que estiver recolhido, desde
liberação por parte do perito responsável, sendo tipificada como que estejam garantidas a segurança do juiz, do membro do
fraude processual a sua realização. (Incluído pela Lei nº Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do
13.964, de 2019) (Vigência) defensor e a publicidade do ato.(Redação dada pela Lei nº
Art. 158-D. O recipiente para acondicionamento do vestígio 11.900, de 2009)
será determinado pela natureza do material. (Incluído pela Lei § 2o Excepcionalmente, o juiz, por decisão fundamentada, de
nº 13.964, de 2019) (Vigência) ofício ou a requerimento das partes, poderá realizar o
§ 1º Todos os recipientes deverão ser selados com lacres, com interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou
numeração individualizada, de forma a garantir a outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em
inviolabilidade e a idoneidade do vestígio durante o tempo real, desde que a medida seja necessária para atender a
transporte. (Incluído pela Lei nº 13.964, de uma das seguintes finalidades: (Redação dada pela Lei nº
2019) (Vigência) 11.900, de 2009)
§ 2º O recipiente deverá individualizar o vestígio, preservar
suas características, impedir contaminação e vazamento, ter I - prevenir risco à segurança pública, quando exista fundada
grau de resistência adequado e espaço para registro de suspeita de que o preso integre organização criminosa ou de
informações sobre seu conteúdo. (Incluído pela Lei nº 13.964, que, por outra razão, possa fugir durante o
de 2019) (Vigência) deslocamento;(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
§ 3º O recipiente só poderá ser aberto pelo perito que vai II - viabilizar a participação do réu no referido ato processual,
proceder à análise e, motivadamente, por pessoa quando haja relevante dificuldade para seu comparecimento
autorizada. (Incluído pela Lei nº 13.964, de em juízo, por enfermidade ou outra circunstância
2019) (Vigência) pessoal; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
§ 4º Após cada rompimento de lacre, deve se fazer constar na III- impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da
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POLÍCIA CIVIL 2021
vítima, desde que não seja possível colher o depoimento parte requerente com os custos de envio. (Incluído pela
destas por videoconferência, nos termos do art. 217 deste Lei nº 11.900, de 2009)
Código;(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) Parágrafo único. Aplica-se às cartas rogatórias o disposto nos
IV-responder à gravíssima questão de ordem pública. (Incluído §§ 1o e 2o do art. 222 deste Código. (Incluído pela Lei nº
pela Lei nº 11.900, de 2009) 11.900, de 2009)

§ 3o Da decisão que determinar a realização de interrogatório 2. Espécies de Prova


por videoconferência, as partes serão intimadas com 10 A norma processual Penal estabeleceu alguns meios
(dez) dias de antecedência.(Incluído pela Lei nº 11.900, de probatórios como às perícias, a confissão, a prova testemunhal
2009) entre outras elencadas. Entretanto, tais referências não são as
§ 4o Antes do interrogatório por videoconferência, o preso únicas admitindo-se a existência de provas inonimadas desde
poderá acompanhar, pelo mesmo sistema tecnológico, a que não se fira o preceito norteador da legalidade que deve
realização de todos os atos da audiência única de instrução e incidir em qualquer de suas espécies. São elas:
julgamento de que tratam os arts. 400, 411 e 531 deste
Código. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) 2.1 Exame de corpo delito e perícias em geral
§ 5o Em qualquer modalidade de interrogatório, o juiz garantirá Concebe-se o exame de corpo de delito como um
ao réu o direito de entrevista prévia e reservada com o seu conjunto de procedimentos técnico-científicos adotados com o
defensor; se realizado por videoconferência, fica também fito de evidenciar, analisar, constatar, demonstrar e documentar
garantido o acesso a canais telefônicos reservados para a ocorrência de uma infração penal que deixou vestígios sob
comunicação entre o defensor que esteja no presídio e o investigação.
advogado presente na sala de audiência do Fórum, e entre este Desse modo, durante a instrução criminal, permite-se
e o preso.(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)§ 6o A sala por meio do exame de corpo de deleito e da prova dele
reservada no estabelecimento prisional para a realização de atos resultante instruir o julgador acerca de todos os elementos
processuais por sistema de videoconferência será fiscalizada objetivos que envolvem a prática delituosa.
pelos corregedores e pelo juiz de cada causa, como também Vale dizer, contudo, que a adoção da expressão “Do
pelo Ministério Público e pela Ordem dos Advogados do Exame do Corpo de Delito, e das Perícias em Geral”, o
Brasil. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) legislador reconhece o exame de corpo de delito como espécie
§ 7o Será requisitada a apresentação do réu preso em juízo nas do gênero perícia ou exame pericial. Assim, o exame de corpo
hipóteses em que o interrogatório não se realizar na forma de delito não pode ser confundido com perícia. Esta é gênero
prevista nos §§ 1o e 2o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.900, e aquele é espécie. Assim, todo exame de corpo de delito é
de 2009) prova pericial, mas nem toda prova pericial é exame de corpo
§ 8o Aplica-se o disposto nos §§ 2o, 3o, 4o e 5o deste artigo, no de delito.
que couber, à realização de outros atos processuais que Com o surgimento da Lei 13.964/2019 foi dada nova
dependam da participação de pessoa que esteja presa, como redação ao título do capítulo II que, anteriormente era
acareação, reconhecimento de pessoas e coisas, e inquirição de denominado “EXAME DE CORPO DE DELITO E DAS
testemunha ou tomada de declarações do ofendido. (Incluído PERÍCIAS EM GERAL” e passou a ser denominado “EXAME
pela Lei nº 11.900, de 2009) DE CORPO DE DELITO, DA CADEIA DE CUSTÓDIA E
§ 9o Na hipótese do § 8o deste artigo, fica garantido o DAS PERÍCIAS EM GERAL. inseriu-se, pois, a terminologia
acompanhamento do ato processual pelo acusado e seu “cadeia de custódia” conforme se verá oportunamente.
defensor. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
§ 10. Do interrogatório deverá constar a informação sobre a Passemos a trabalhar o tema.
existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma
deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos Ocorrida à infração haverá na maioria das vezes o
cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa (Incluído pela surgimento de vestígios que deverão se tornar objeto de prova
Lei nº 13.257, de 2016) de natureza pericial. No caso destes vestígios não mais
existirem pode-se utilizar meios indiretos como a prova
 Inclusão do §3º do art. 222 do CPP pela Lei 11.900/2009: testemunhal.
A perícia, pois, em seu sentido amplo, é uma prova de
Art. 222. A testemunha que morar fora da jurisdição do juiz natureza técnica que deve ser utilizada sempre que um crime
será inquirida pelo juiz do lugar de sua residência, expedindo- deixar vestígio, ou seja, mudar o estado das coisas e/ou pessoas.
se, para esse fim, carta precatória, com prazo razoável, Neste tipo de situação, observa-se com o avanço da
intimadas as partes. ciência e tecnologia, certos fatos tornam-se notórios.
§ 3o Na hipótese prevista no caput deste artigo, a oitiva de Entretanto, observa-se que estas provas já foram, outrora,
testemunha poderá ser realizada por meio de videoconferência comprovadas através de provas técnicas. Dessa forma, ver-se
ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens que a prova pericial é aquela que não é feita pela percepção do
em tempo real, permitida a presença do defensor e podendo ser senso comum, mas sim através de um conhecimento científico.
realizada, inclusive, durante a realização da audiência de Com a reforma exarada pela Lei 11.690/2008 o legislador
instrução e julgamento. (Incluído pela Lei nº 11.900, de passou a entender pela perícia realizada por um só perito oficial,
2009). isto é, a não necessidade da pluralidade de peritos oficiais,
agora, está expressa no texto da lei. Vale dizer que, não havendo
 Inclusão do art.222-A e parágrafo único pela Lei peritos oficiais surge a necessidade de duas pessoas para a
11.900/2009: realização da perícia com curso superior. Deve-se lembrar
Art. 222-A. As cartas rogatórias só serão expedidas se ainda que, em caso de perícia complexa envolvendo mais de
demonstrada previamente a sua imprescindibilidade, arcando a uma área de conhecimento especializado, mais de um perito
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POLÍCIA CIVIL 2021
oficial poderá ser designado, assim como a parte poderá indicar II- Indicar assistentes técnicos que poderão apresentar
mais de um assistente técnico conforme dispõe o art. 159, § 7º pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz ou ser inquiridos
do CPP. em audiência.
Outra inovação diz respeito ao fato de que serão
facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao § 6o Havendo requerimento das partes, o material probatório
ofendido, ao querelante e ao acusado a formulação de quesitos que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente
e indicação de assistente técnico. A figura do assistente técnico, do órgão oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença
até então não existia no processo penal embora bastante usual de perito oficial, para exame pelos assistentes, salvo se for
no processo civil. A atuação deste novo elemento ocorrerá a impossível a sua conservação.
partir de sua admissão pelo juiz (para alguns, mesmo na fase de §7o Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma
investigação policial) e após a conclusão dos exames e área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a
elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de
intimadas desta decisão. um assistente técnico.
As perícias no Processo Penal podem ser muitas Observações importantes:
dependendo de cada caso. O art. 159 exigia que a perícia fosse
feita no mínimo por dois peritos, ou oficiais do Estado, ou  As perícias irão variar de acordo com o crime. Assim, no
nomeados onde não houvesse perito oficial (nomeia ad hoc). homicídio é comum a perícia balística para saber se o
Como vimos anteriormente, com o advento, porém da Lei projétil saiu de determinada arma ou não, etc., no crime de
11.690/2008 a prova pericial passou a poder ser feita por um só falso, a perícia grafológica. Quando não se sabe a idade, a
perito oficial. Assim, nas infrações que deixam vestígios, o perícia óssea. A reconstituição do crime é um tipo de
exame de corpo de delito, direto ou indireto, continua sendo perícia.
indispensável (CPP, art. 158) a figura pericial. Agora, porém,  As perícias são modalidades de provas cautelares em face
admite-se que a perícia seja feita por apenas um perito oficial de terem o contraditório diferido, ou seja, adiado, o
(e não dois, como o exigia o art. 159 do CPP, na redação dada contraditório é postergado para o processo.
pela Lei n. 8.862/94). Vale dizer que, onde não houver peritos  Aplicam-se aos peritos todas as causas de impedimento e
oficiais, continuam valendo as seguintes regras: suspeição aplicadas aos juízes.

a) o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, Vale salientar que através do Exame de corpo delito
portadoras de diploma de curso superior preferencialmente têm-se a prova da materialidade, ou seja, a existência do fato,
na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica do crime, isso nos crimes que deixam vestígios. Nestes termos,
relacionada com a natureza do exame; o art. 158 do Código de Processo Penal diz: nos crimes que
b) Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e deixam vestígios é imprescindível o exame de corpo delito
fielmente desempenhar o encargo. direto ou indireto não podendo ser suprido nem mesmo pela
confissão do acusado. Os crimes de mera conduta não deixam
Nesse passo, a título de exemplos pode-se falar das vestígios no mundo exterior. Esse exame de corpo de delito vai
seguintes perícias: uso do luminol, uma técnica que possibilita ser de acordo com cada caso. Ex.: no homicídio, faz-se a perícia
ver se existe sangue em determinado lugar, mesmo após a tanatoscópia, na lesão corporal é perícia traumatológica, etc.
eliminação dos indícios (limpeza do local); o exame de DNA,
que pode ser feito através de um pequeno pedaço de osso Com o advento da Lei 11.690/2008 e a nova redação do
(atualmente só Minas e São Paulo fazem exame de DNA de art.159 do CPP o exame de corpo de delito e outras perícias
célula óssea), ou da saliva deixada em uma “gimba” de cigarro; passaram a ser realizadas por perito oficial, portador de diploma
a perícia de balística para se determinar o calibre, o rumo de de curso superior. Segundo o parágrafo primeiro do mesmo
uma bala ou a “impressão digital” a arma. Neste caso pode-se artigo, na falta de perito oficial, o exame passou a ser realizado
identificar se a bala saiu mesmo daquela arma (é como se fosse por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso
a impressão digital da arma), pois, cada vez que se atira com superior preferencialmente na área específica, dentre as que
dada arma, a bala sai com uma ruptura diferente, então, o tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do
laboratório faz disparos com a arma e faz comparações pelo exame.
microscópio que provarão, da análise da ruptura deixada pela Os vestígios materiais constatados por meio do exame
bala, se a bala saiu da mesma arma; Também pode ser colocado pericial podem constituir provas essenciais no processo penal,
nesse rol sobretudo para a confirmação da materialidade do delito.
a impressão digital em que se permite coletar impressão Assim, o Código de Processo Penal, em seu artigo 158, já previa
digital do corpo de outra pessoa, assim se alguém “encosta” em a indispensabilidade do exame de corpo de delito quando a
outrem deixa sua impressão digital e, poderá vir a ser infração deixar vestígios.
identificada. Esse exame consiste na “verificação da prova da
Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, existência do crime, feita por peritos, diretamente, ou por
quanto à perícia (art. 159, § 5º do Código de Processo Penal, in intermédio de outras evidências, quando os vestígios, ainda que
verbis): materiais, desapareceram”. (NUCCI, Guilherme de Souza.
Curso de Direito Processual Penal. 15 ed. Rio de Janeiro:
I – Requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou Forense, 2018. p. 526).
para responderem a quesitos, desde que o mandado de Em 2018 houve uma importante mudança, com o
intimação e os quesitos ou questões a serem esclarecidas advento da Lei 13.721/2018, através da qual foi acrescentado o
sejam encaminhados com antecedência mínima de 10 (dez) parágrafo único ao artigo 158 do Código de Processo
dias, podendo apresentar as respostas em laudo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941), para estabelecer que será
complementar; dada prioridade na realização do exame de corpo de delito
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POLÍCIA CIVIL 2021
quando se tratar de crime que envolva violência doméstica e individualizada,
familiar contra mulher ou violência contra criança, garantindo sua inviolabilidade e idoneidade durante o
adolescente, idoso ou pessoa com deficiência. transporte.
Destarte, entende-se que o legislador inovou ao O art. 158–E versa acerca da necessidade de implementação
estabelecer critérios calcados na condição pessoal da vítima nos
para definir a ordem de prioridade na realização do exame e, Institutos de Criminalística de todos os Estados da central de
consequentemente, na apuração dos crimes contra aqueles custódia, que
sujeitos que considera mais vulneráveis. deverá contar com serviço de protocolo, recepção e devolução
Outro ponto interessante alterado agora pela Lei de materiais e
13.964/2019 (Pacote Anticrime), foi a inclusão dos artigos 158- documentos.
A a 158-F que tratam da cadeia de custódia, que consiste no Por fim, o art. 158-F indica que, após a realização de perícia,
conjunto de todos os procedimentos utilizados para manter e o material
documentar a história cronológica do vestígio coletado em deverá ser devolvido à centra de custódia, onde deve
locais ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e permanecer.”
manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte. Tal
alteração visa a dar maior confiabilidade às provas coletadas e, Em outras palavras: a nova legislação trouxe ao
portanto, às decisões judiciais que nelas se fundem, sendo este ordenamento jurídico o instituo da cadeia de custódia das
outro tema em que a legislação brasileira se encontrava muito provas, a fim de garantir a integridade e confiança nas mesmas.
atrasada em relação às leis processuais de outros países. Conceitua a cadeia de custódia como o conjunto de todos os
procedimentos utilizados para manter e documentar a história
Nesse passo, claras são as palavras de Yan Rêgo cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de
Brayner quanto a alteração em comento: crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu
reconhecimento até o descarte. Cria-se, uma cadeia cronológica
“A Lei nº 13.964/2019 inseriu no CPP o art. 158 – A ao art. e documentada do manuseio das provas, dando-lhes maior
158 – F, segurança.
todos voltados a disciplinar a cadeia de custódia. O art. 158- O início da cadeia de custódia dá-se com a preservação
A, caput, do CPP do local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais
define cadeia de custódia como o conjunto de todos os nos quais sejam detectadas a existência de vestígio. Ainda, o
procedimentos utilizados agente público que reconhecer um elemento como de potencial
para manter e documentar a história cronológica do vestígio interesse para a produção da prova pericial ficará como
coletado em locais responsável pela sua preservação.
ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a Fica proibida a partir da nova lei a entrada em locais
partir de seu isolados bem como a remoção de quaisquer vestígios de locais
reconhecimento até o descarte. de crime antes da liberação por parte do perito responsável, o
Subsequentemente, a lei, de modo didático, traz outros que em caso de ocorrência será tipificada como fraude
conceitos processual a sua realização.
correlatos. Define vestígio material (art. 158-A, §3º, CPP) e,
em seguida, 2.2 Do interrogatório do acusado /Da confissão
apresenta todas as etapas da cadeia de custódia no art. 158 –
B: 2.2.1 Do interrogatório do acusado

a) reconhecimento; ART.185 DO CPP


b) isolamento;
c) fixação; § 1o O interrogatório do réu preso será realizado, em sala
d) coleta; própria, no estabelecimento em que estiver recolhido, desde
e) acondicionamento; que estejam garantidas a segurança do juiz, do membro do
f) transporte; Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do
g) recebimento; defensor e a publicidade do ato. (Redação dada pela Lei nº
e) processamento; 11.900, de 2009)
f) armazenamento; § 2o Excepcionalmente, o juiz, por decisão fundamentada, de
g) descarte. ofício ou a requerimento das partes, poderá realizar o
interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou
A ausência de uma dessas fases da cadeia de custódia – ou seu outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em
exercício de forma tempo real, desde que a medida seja necessária para atender a
dissonante do previsto em lei – gera nulidade relativa, caso a uma das seguintes finalidades: (Redação dada pela Lei nº
parte comprove 11.900, de 2009)
prejuízo.
O art. 158–C prevê a forma de coleta dos vestígios, que, I- prevenir risco à segurança pública, quando exista fundada
preferencialmente, será realizada por perito oficial, que suspeita de que o preso integre organização criminosa ou
encaminhará o material de que, por outra razão, possa fugir durante o
à central de custódia. deslocamento; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)
No art. 158–D é disciplinado o material a ser utilizado como II - viabilizar a participação do réu no referido ato processual,
recipiente, quando haja relevante dificuldade para seu
sendo que todos devem ser selados com lacres, de numeração comparecimento em juízo, por enfermidade ou outra
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circunstância pessoal; (Incluído pela Lei nº 11.900, de formuladas. (Redação dada pela Lei nº 10.792, de
2009) 1º.12.2003)Parágrafo único. O silêncio, que não importará em
III - impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da confissão, não poderá ser interpretado em prejuízo da
vítima, desde que não seja possível colher o depoimento defesa. “
destas por videoconferência, nos termos do art. 217 deste Em outros termos, o réu não está obrigado a falar a
Código; (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) verdade, quem tem a obrigação de dizer a verdade é a
IV- responder à gravíssima questão de ordem testemunha.
pública. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) Com a edição da Lei 11.719/08 foram promovidas
diversas alterações no Código de Processo Penal, tendo uma
§ 3o Da decisão que determinar a realização de interrogatório delas efeito direto sobre a prova em comento, dando nova
por videoconferência, as partes serão intimadas com 10 (dez) redação do artigo 400, do CPP, que passa o interrogatório para
dias de antecedência. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) último ato na dinâmica da instrução. Com isso, grande parte da
§ 4o Antes do interrogatório por videoconferência, o preso doutrina se manifestou no sentido de que levar o ato ao fim da
poderá acompanhar, pelo mesmo sistema tecnológico, a instrução, após ouvidas as testemunhas, implica,
realização de todos os atos da audiência única de instrução e indubitavelmente, inequívoca adoção do interrogatório como
julgamento de que tratam os arts. 400, 411 e 531 deste Código. ato de defesa. Fala o acusado após conhecer todas as provas
(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) judiciais contra si produzidas. Anteriormente, colocado ao
§ 5o Em qualquer modalidade de interrogatório, o juiz garantirá início do procedimento, era antes o interrogatório um ato de
ao réu o direito de entrevista prévia e reservada com o seu instrução.
defensor; se realizado por videoconferência, fica também Em outras palavras, a Lei n. 11.719/08 alterou o
garantido o acesso a canais telefônicos reservados para procedimento ordinário estabelecendo que o interrogatório e a
comunicação entre o defensor que esteja no presídio e o colheita de testemunhos seriam realizados em uma audiência
advogado presente na sala de audiência do Fórum, e entre este una, situação que tacitamente revogou a possibilidade de o juiz
e o preso. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009)§ 6o A sala e todos os demais participantes do ato processual de
reservada no estabelecimento prisional para a realização de atos interrogatório se deslocassem ao presídio. Destarte,
processuais por sistema de videoconferência será fiscalizada considerando que, segundo o STF, o réu preso possui o direito
pelos corregedores e pelo juiz de cada causa, como também de acompanhar a audiência de instrução, como forma de
pelo Ministério Público e pela Ordem dos Advogados do exercício de sua autodefesa, se o réu preso deve estar
Brasil. (Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) obrigatoriamente presente à audiência de oitiva das
§ 7o Será requisitada a apresentação do réu preso em juízo nas testemunhas, perde o sentido separar a audiência de instrução
hipóteses em que o interrogatório não se realizar na forma em duas (uma para ouvir as testemunhas e outra apenas para o
prevista nos §§ 1o e 2o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.900, interrogatório do réu) se em ambas o réu deve estar presente.
de 2009) Interessante, quanto a este ponto, frisar a posição
§ 8o Aplica-se o disposto nos §§ 2o, 3o, 4o e 5o deste artigo, no tomada pela Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça
que couber, à realização de outros atos processuais que (STJ), em 01/06/2021, pela qual reafirmou o entendimento de
dependam da participação de pessoa que esteja presa, como que a nulidade decorrente da inversão da ordem do
acareação, reconhecimento de pessoas e coisas, e inquirição de interrogatório – prevista no artigo 400 do Código de Processo
testemunha ou tomada de declarações do ofendido. (Incluído Penal (CPP) – é relativa, sujeita à preclusão e demanda a
pela Lei nº 11.900, de 2009) demonstração do prejuízo sofrido pelo réu.
§ 9o Na hipótese do § 8o deste artigo, fica garantido o Outra alteração legislativa salutar quanto ao tema em
acompanhamento do ato processual pelo acusado e seu análise refere-se à alteração do art.185 do CPP pela Lei n.
defensor.(Incluído pela Lei nº 11.900, de 2009) 11.900/2009 e a criação do § 2 º do mesmo artigo que criou a
§ 10. Do interrogatório deverá constar a informação sobre a previsão legal de realização da videoconferência para fins de
existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma interrogatório e depoimento no processo penal.
deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos Assim, a combinação dessas duas exigências legais
cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa (Incluído pela (audiência una e obrigatoriedade de participação do réu tanto
Lei nº 13.257, de 2016) na colheita dos testemunhos quanto em seu interrogatório)
acaba tornando virtualmente inócua a previsão legal da
Uma parcela da doutrina hodierna entende que o possibilidade de realização do interrogatório no presídio, que
interrogatório hoje é mais um meio de defesa do que um meio será aplicável apenas em duas situações:
de prova embora no Código de Processo Penal está colocado na
parte de provas. O interrogatório é um ato pessoal do Juiz com a) Caso todas as testemunhas também se desloquem ao
o réu. As partes, acusação e defesa, podem participar, mas em presídio para realização de audiência una;
princípio não pode interferir, a Lei diz que não pode interferir, b) Caso o juiz determine a separação da audiência de instrução,
mas a doutrina diz que pode interferir em alguns casos, por com colheita dos testemunhos e participação do réu nesse
exemplo, quando o Juiz não estiver consignando no termo o que ato por videoconferência (conforme agora permite o art.
o réu está dizendo. O réu tem o direito constitucional de se 185, § 4º), e outra audiência para interrogatório presencial
quiser, fica calado; a Constituição Federal lhe assegura o direito do réu no presídio, para lá se deslocando o juízo e todos os
ao silêncio. demais participantes do ato processual.
O art. 186 do Código de Processo Penal diz que:
“Depois de devidamente qualificado e cientificado do inteiro Fora dessas duas situações, o interrogatório ainda
teor da acusação, o acusado será informado pelo juiz, antes de exigirá a escolta do réu à sede do juízo para a realização da
iniciar o interrogatório, do seu direito de permanecer calado e audiência una de instrução, nos termos do § 7º do art. 185, ou
de não responder perguntas que lhe forem sua realização por videoconferência, nas hipóteses
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POLÍCIA CIVIL 2021
excepcionais previstas no § 2º. Não se pretende aqui defender a tese indefensável de que
No que toca o interrogatório em si passaram, então, a existiria alguma obrigação do procurado de se entregar à
existir, três formas: na sede do presídio (art. 185, § 1º), por justiça, já que vigora no nosso ordenamento o direito a não –
videoconferência (§ 2º) e na sede do juízo com escolta do réu autoincriminação. Entretanto, pretender retirar desse direito
(§ 7º). anão – incriminação, sem base em previsão legal no
Segundo o art. 185, § 2º, o interrogatório por ordenamento processual penal, um suposto direito ao
videoconferência poderá ser realizado de forma excepcional, interrogatório por videoconferência, seria olvidar um princípio
mediante decisão fundamentada do juízo, quando a medida for geral do Direito, consistente em que ninguém pode se
necessária para prevenir risco à segurança pública ; viabilizar beneficiar da própria torpeza (“Nemo
a participação do réu no referido ato processual, quando haja auditurpropriamturpitudinemallegans”). Ora, se o indiciado
relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo; ou réu não tem obrigação legal de se entregar, também não se
impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da pode afirmar que sua conduta em fugir do alcance da justiça
vítima, desde que não seja possível colher o depoimento destas seja algo de que lhe possam derivar direitos de qualquer
por videoconferência, nos termos do art. 217 deste Código e espécie.
responder a gravíssima questão de ordem pública. A participação do indiciado ou réu no ato do interrogatório é
Em 2016, com o advento da Lei 13.257, foi incluído o um direito seu, mas não há obrigatoriedade, pois se trata de
§ 10 no art. 185 do CPP que dispõe: “Do interrogatório deverá uma faculdade sua, podendo comparecer e ficar em silêncio ou
constar a informação sobre a existência de filhos, respectivas simplesmente optar por não comparecer. Há contradição
idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato evidente na conduta de quem foge e não quer comparecer ao
de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado ato, mas requer a sua realização por videoconferência. As
pela pessoa presa”. normas que norteiam o interrogatório judicial são aplicáveis,
Ainda em relação ao interrogatório Eduardo Luiz “mutatis mutandis” ao interrogatório policial, nos termos do
Santos Cabette em texto intitulado “Interrogatório de foragido artigo 6º., V, CPP.
por videoconferência?” – 04-2021, suscita essa questão e assim Portanto, o pedido do foragido deve ser indeferido tanto em
assevera: sede de Inquérito Policial, como já na fase processual.
Quanto a esta situação, em recente Decisão
“Eis a questão: seria possível deferir esse pedido de (07/10/2021),a Sexta Tuma do Superior Tribunal de Justiça
interrogatório de foragido por videoconferência? (STJ), por unanimidade, denegou habeas corpus impetrado por
A questão pode comportar alegação de cerceamento de um réu que alegou nulidade do processo por falta de
exercício da ampla defesa, ainda que em fase de investigação, interrogatório, após o indeferimento de sua inquirição de forma
mais especificamente, como já mencionado, sob o aspecto da virtual enquanto estava foragido.
autodefesa. Acaso o pedido tivesse sido feito em juízo, já na Um outro ponto muito questionado em que pese o
fase processual, com intensificação da ampla defesa e do interrogatório do acusado é a extensão do direito de silêncio.
contraditório, tal alegação poderia, ao menos aparentemente, Trago a baila um recente exemplo que ocorreu na CPI da
ganhar ainda mais força. COVID no corrente ano e foi retratada pelo Correio Brasiliense
Acontece que o pedido do foragido por meio de seu defensor é nos seguintes termos:
algo incomum, justamente porque ausente previsão legal para “O ministro Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal
tal caso. Federal (STF), decidiu impor limites ao direito de permanecer
A previsão legal do ato do interrogatório por meio de em silêncio do empresário Francisco Maximiano, investigado
videoconferência é excepcional e se refere ao “preso”, não pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19.
havendo qualquer menção de “foragido” (inteligência do Com a decisão, o empresário que seria interrogado nesta terça-
artigo 185, §§ 2º. e 8º., CPP – sempre com menção a “réu feira (13/7), só será interrogado amanhã, e deverá responder a
preso” e a “pessoa que esteja presa”). Casos excepcionais, todas as perguntas, exceto aquelas em que possa se incriminar.
como uma pandemia ou algum motivo justo poderiam ensejar “Compete à CPI fazer cumprir os regramentos legais e
a adaptação dessa modalidade de interrogatório ao indiciado regimentais, estabelecendo, para tanto, as balizas necessárias
ou réu solto, desde que com a anuência dele e de seu defensor, para que investigados, vítimas e testemunhas possam exercer,
já que também não existe previsão expressa. nos limites próprios, seus direitos fundamentais, inclusive o
Observe-se que a falta do interrogatório no processo é direito da não autoincriminação”, diz a decisão de Fux.
considerada como nulidade quando este se faz “presente”, nos A determinação ocorreu após a cúpula da CPI da
termos do artigo 564, III, “e”, CPP. Ainda assim há discussão Covid enviar a Fux pedido de esclarecimentos sobre a extensão
sobre ser essa nulidade absoluta ou relativa, sendo fato que os do direito, deferido pela ministra Rosa Weber, para Maximiano
Tribunais Superiores têm apontado para a relatividade da ficar em silêncio durante o interrogatório na CPI.
nulidade, especialmente nos casos de réus revéis ou foragidos Maximiano é acusado de superfaturar a venda da
(v.g. HC 68.490 STF; HC 73.344 STJ e HC 73.827 STJ). Covaxin para o governo federal. O depoimento do empresário,
O artigo 185, CPP é expresso em estabelecer que o réu “que a princípio, estava agendado para o dia 1º de julho, mas o sócio
comparecer perante a autoridade” será interrogado. Ou seja, da Precisa alegou estar de quarentena, devido a viagem que
pressuposto para o ato do interrogatório é o comparecimento realizou para a Índia.
do indiciado ou réu. Por isso é até possível adaptar, A Precisa Medicamentos representa no Brasil o
excepcionalmente, o interrogatório por videoconferência no laboratório indiano Bharat Biotech, fabricante da Covaxin e que
caso do “réu ou indiciado solto”, eis que se pode considerar teria irregularidades no contrato de compra pelo Ministério da
que este “compareceu” diante da autoridade, ainda que Saúde.”
virtualmente, já que não se encontra foragido e mantendo sua Apesar da Decisão a referida CPI se manifestou em
localização oculta ou incerta. 16/09/2021, nos seguintes termos, conforme o site de notícias
Muito diversa é a condição do “foragido”, o qual se homizia. G1:
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“CPI da Covid diz ao STF que depoentes abusam  divisível, o que quer dizer que legalmente é possível que o
do direito ao silêncio réu confesse hoje e na próxima semana peça ao Juiz para ser
A CPI da Covid afirmou nesta quinta-feira (16) ao interrogado novamente e se retratar da confissão antes
Supremo Tribunal Federal (STF) que depoentes estão abusando produzida, podendo o Juiz pode aceitá-la em parte,
do direito constitucional de permanecer em silêncio, para não considerando uma parte verdadeira e outra mentirosa.
produzir provas contra eles mesmos, o que tem esvaziado as Fernando Capez traz claro exemplo:
atribuições da comissão. “Se o acusado confessa haver praticado um homicídio, e, ao
Segundo a CPI, o Supremo precisa garantir força para mesmo tempo, alega que o perpetrou em legítima defesa, é
os trabalhos e permitir que o Parlamento possa questionar óbvio que, se outros elementos existentes nos autos
cidadãos que sejam alvos de uma comissão parlamentar. realçarem a veracidade da palavra do confitente, no sentido
“Infelizmente, todos aqueles pacientes que têm de ter sido ele o autor do homicídio, o magistrado aceitará a
conseguido ordem de habeas corpus em face das atividades da confissão, por sincera.”
CPI da Pandemia, com a mesma extensão dada por Vossa
Excelência neste caso, têm, sob a ótica do Colegiado, abusado Segundo Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar em
desse direito constitucional de 'não autoincriminação', o que, ao seu “Curso de direito processual penal” (Salvador: Editora
fim e ao cabo, dificulta sobremaneira os trabalhos deste órgão Podivm, 2016) deixa clara a diferença técnica entre
investigativo e faz 'letra morta' o texto constitucional, que confissão e auto-acusação:
assegura ao Parlamento brasileiro o poder-dever de escrutinar “O reconhecimento da infração por alguém que não é
cidadãos que estejam no raio investigativo da CPI”, diz a sequer indiciado não é tecnicamente confissão, e sim auto-
comissão. acusação. Confessar é reconhecer a autoria da imputação
... ou dos fatos objeto da investigação preliminar por aquele
“Urge, desse modo, que a Suprema Corte dê aos que está no polo passivo da persecução penal.”
órgãos do Parlamento brasileiro, notadamente suas CPIs, a real Vale dizer que, o Código Penal prevê o crime de auto
'força' que, no texto constitucional, realmente detêm. Urge que acusação falsa, que é crime contra a administração da
este Supremo Tribunal Federal se emparelhe junto ao justiça. É comum se encontrar casos em que o réu confessa
Congresso Nacional, neste momento, na tentativa de mitigar o na polícia e se retrata na justiça alegando que foi torturado,
caos vivenciado pela população brasileira, em face da atual que sofreu coação moral.
pandemia que, neste país, ainda se encontra em total
descontrole”, afirma o texto. Segundo Thiago Henrique Boaventura, em seu texto acerca
da confissão no processo penal brasileiro, a confissão pode
2.2.2. Confissão do Réu ser classificada nos seguintes termos:

A confissão já foi considerada a rainha das provas, a) Quanto à autoridade perante a qual é feita: pode ser
quando o réu confessava se encerrava a instrução. No Direito judicial, quando a confissão é realizada perante a
Processual moderno a confissão mesmo que se constitua autoridade competente, ou extrajudicial, quando não
perante o Juiz deixou de ter valor probante absoluto, ela tem realizada no âmbito judicial, como por exemplo, a
valor probante apenas relativo, o que quer dizer que a cada caso realizada durante a fase de inquérito policial.
concreto o Juiz deve analisar se a confissão se apresenta Indubitavelmente, nos casos de confissão extrajudicial, esta
coerente com os demais elementos de provas produzidas no deverá ser reproduzida nos autos do processo para que
processo. Ex.: admitamos que no caso de um homicídio o réu venha a surtir efeitos.
confesse que matou a vítima com dois tiros e a perícia ateste Parte da doutrina aponta como inadequada a presente
que a vítima foi morta com facadas; a testemunha diz que o classificação, por entenderem que a confissão só pode ser
assassino era moreno e o confesso é loiro. realizada perante a autoridade judicial, ciente de seus
direitos constitucionais e assistido por defensor técnico.
Segundo o Código de Processo Penal a confissão Assim entendem Aury Lopes Júnior e Hassan Choukr.
apresenta as seguintes características: b) Quanto aos efeitos: a confissão pode ser simples, quando o
acusado se limita a admitir a prática do crime, ou
 retratável, isto é, o acusado pode, no decorrer do processo, qualificada, quando o agente, apesar de admitir a prática
se retratar da confissão anteriormente realizada. Vale dizer do delito, agrega teses excludentes de ilicitude ou
que, a simples negação do réu aos fatos a ele imputados não culpabilidade.
constitui espécie de retratação, já que esta pressupõe uma c) Quanto à forma: pode ser explícita, quando “produzida
confissão anterior. através da palavra falada ou escrita, onde indubitavelmente
o agente reconhece os fatos que lhe são imputados”, ou
Interessante, quanto a este ponto, colacionar a Súmula 545 implícita, quando decorre de ações do agente que não são
do STJ que estabeleceu que a confissão retratada pode ser capaz de produzir defesa, a exemplo da reparação do dano
utilizada pelo magistrado como a atenuante de que trata o causado.”
art. 65, III, d do CP, desde que tenha feito parte do seu
convencimento. No que tange aos requisitos da confissão o mesmo assim
Vejamos: se manifesta:

“Súmula 545, STJ - Quando a confissão for utilizada para a “ Quanto aos requisitos intrínsecos, entendidos como aqueles
formação do convencimento do julgador, o réu fará jus à inerentes ao ato, três são essenciais:
atenuante prevista no artigo 65, III, d, do Código Penal. STJ.
3ª Seção. Aprovada em 14/10/2015, DJe 19/10/2015” a) Verossimilhança: deve-se verificar se há a probabilidade
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do fato ter ocorrido conforme a confissão do acusado; são praticados de modo clandestino, não podendo ser
b) Clareza: a confissão deve ser isenta de ambiguidades, desconsiderada, notadamente quando corroborada por outros
contradições. elementos probatórios" e "a palavra da vítima tem especial
c) Persistência (ou uniformidade): a versão apresentada pelo relevância para fundamentar a condenação pelo crime de
acusado deve ser uniforme, isenta de disparidades, nas ameaça, mormente porque se trata de violência doméstica ou
diversas vezes em que este for ouvido. familiar" .
,,, A esse panorama soma-se o fato de a pandemia da
Covid-19 ter ensejado um aumento exponencial dos casos
São requisitos procedimentais que dão validade ao ato. envolvendo violência doméstica e familiar, a ponto de o chefe
Vejamos: da ONU, António Guterres, pedir que os países adotassem
medidas para combatê-los. Guterres instou todos os governos
a) Pessoalidade: a confissão só pode ser feita pelo réu. Não se a fazer da prevenção e da reparação da violência contra as
admite a possibilidade de confissão feita por procurador. mulheres uma parte essencial de seus planos nacionais de
Com efeito, a confissão de um dos réus não vincula os resposta à Covid-19, e destacou ações que podem ser tomadas
demais. para melhorar a situação.
Pergunta-se: e no caso das delações premiadas, a confissão É certo que a palavra da vítima não tem caráter
de um dos réus não vincula os demais? absoluto, sendo necessária sua confirmação por outros
Não. Entretanto, para que tenha força probatória, deve-se elementos de prova disponíveis. Do mesmo modo, relevante
oportunizar aos defensores dos delatados que façam indagar os precedentes da relação da vítima com o suposto
reperguntas durante o interrogatório (Enunciado 65 das agressor, por meio de depoimentos de vizinhos, parentes,
Mesas de Processo Penal da USP), havendo, inclusive, a amigos, entre outros, os antecedentes criminais do acusado e
possibilidade de marcação de novo interrogatório, de modo demais meios que possam servir de interpretação capaz de
a respeitar o princípio do contraditório (CF, art. 5º, LV). conduzir ao resultado útil do processo, aferindo-se a
Nestes casos, é cediço o entendimento de que o delator veracidade acerca do conteúdo das imputações, as quais
produz confissão no momento em que confessa a sua podem corresponder à realidade ou relatos falsos derivados de
autoria no delito a ele atribuído. Todavia, com relação aos reprovável sentimento de vingança.
delatados, este depoimento terá força testemunhal. Seguindo a linha da necessidade de repressão aos
Detalhe: o delator não responde por falso testemunho, visto crimes "clandestinos", a Lei 14.069/2020, inspirada no
que a delação premiada é caso de testemunho impróprio, cadastro norte americano criado a partir das Leis de Megan,
uma vez que a isenção de suspeição, exigida a qualidade de criou o cadastro nacional de pessoas condenadas por estupro,
testemunha é inviável em se tratando de corréu, já que este bem como a Lei 13.827/2019, que acrescentou à Lei Maria da
é parte no processo. Com isso, o delator (informante) não Penha (Lei 11.34/2006) a necessidade de registro das medidas
está obrigado a prestar o compromisso de dizer a verdade. protetivas de urgência em banco de dados mantido pelo CNJ.
b) Ser livre e voluntária: evidentemente, não se admite a Tramita também no Congresso Nacional o Projeto de Lei
confissão sob qualquer tipo de coação, sob pena de 1320/2019, que visa a criar cadastro para os agressores de
nulidade da prova. mulheres.
c) Higidez mental do confidente: o acusado só pode confessar Mesmo com o entendimento pacificado pelo superior tribunal,
se tiver plena capacidade de entender e querer. a temática da valoração da palavra da vítima ainda é delicada.
O julgador deve proceder com a devida cautela na hora de
2.3. Declarações do Ofendido proferir o édito condenatório com base no valor atribuído à
palavra da vítima, a qual, a despeito de principal interessada
Um outro meio de prova são as declarações do ofendido, no desfecho do processo, pode também ter sua motivação
ou seja, da vítima. Diz à lei que sempre que possível deverá a deturpada pela satisfação de um sentimento pessoal, como
autoridade seja policial, seja judiciária, ouvir o ofendido (art. vingança (síndrome da mulher de Potifar) ou à execração
201, CPP) permite inclusive a condução coercitiva da vítima. A pública da imagem daquele que será acusado, ocasionando
vítima não é ouvida como testemunha, é ouvida como vítima. injustiças cujos danos são irreparáveis. Necessárias a
Não existe falso testemunho da vítima, ela não presta experiência e a sabedoria do julgador para analisar com
compromisso legal. serenidade as provas e buscar a verdade.
Separar a vítima que quer justiça, mesmo diante da
O artigo 201 do CPP prevê o depoimento do ofendido ausência de testemunhas, do falsário oportunista que pretende
como um dos meios de prova, dispondo que "sempre que apenas prejudicar um inocente ou negociar favores imerecidos
possível, o ofendido será qualificado e perguntado sobre as da Justiça, é tarefa para o magistrado experiente e sereno, que
circunstâncias da infração, quem seja ou presuma ser o seu atenta mais às provas objetivas dos autos do que ao strepitus
autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as imprudente do clamor popular.
suas declarações".
O insigne doutrinador Fernando Capez em recente 2.4 Das testemunhas
texto (09/2021) intitulado “Valor probatório da vítima no
processo penal” assim se manifestou: A prova testemunhal é de grande relevância no Processo
Penal, mas também é muito discutível da doutrina, isso pela sua
“.,, De igual modo, o ministro do STJ Nefi Cordeiro, ao vulnerabilidade. Desse modo, uma testemunha pode boa-fé ou
julgar caso envolvendo crime praticado no âmbito doméstico: de má-fé se equivocar diante daquilo que viu. A testemunha
"É firme o entendimento do Superior Tribunal de Justiça de pode ser "de vista" ou de "ouvir dizer", ou até mesmo
que, em crimes praticados no âmbito doméstico, a palavra da testemunha de antecedentes.
vítima possui especial relevância, uma vez que, em sua maioria,
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POLÍCIA CIVIL 2021
Segundo o Código de Processo Penal em seu art. 202, De outro lado, no caso do funcionário público este deverá ser
dispõe-se que qualquer pessoa pode ser testemunha. Pode ser intimado pessoalmente, assim como as demais testemunhas,
maior, pode ser menor, pode ser louco, etc., o Juiz é que vai dar sendo requisitado ao Chefe da repartição respectiva. Por fim,
o peso cabível. Entretanto, o art. 206, CPP, diz que poderão em no que concerne ao preso este deverá ser intimado
princípio recusar-se a depor os parentes próximos do acusado, pessoalmente, sem prejuízo da requisição de sua apresentação
cônjuge, ascendente, descendente, salvo se a prova não poder ao Diretor do estabelecimento penitenciário onde se encontrar.
ser feita de outra forma. O Juiz ouve a testemunha, pergunta à testemunha, a
testemunha responde, o seu depoimento deve ser objetivo, ela
São proibidos de depor as pessoas (padres, médicos, não pode fazer juízos de valor sobre o caso, nem tampouco
advogados, etc.), que tomaram conhecimento do fato através de levar seu depoimento por escrito, embora possam levar papéis
sua atividade profissional, salvo se desobrigadas pelas partes para pequenas consultas.
(com exceção de quem tomou conhecimento por ministério Quanto às reperguntas estas não mais existem na atual
religioso, o padre não pode de jeito nenhum revelar o que lhe sistemática trazida pela Lei 11.690/2008. Anteriormente à
foi dito em confissão). vigência da Lei 11.690/2008, estabelecia o art. 212 do CPP
No nosso Direito Processual Penal a testemunha que as perguntas das partes seriam requeridas ao juiz, que as
compromissada deve prestar o compromisso legal de dizer a formularia à testemunha. Exceção a essa regra era o ocorrente
verdade, do que souber e do que lhe for perguntado. Frise-se, nos depoimentos prestados em plenário de julgamento pelo júri,
porém, que existe algumas pessoas, previstas no código, que quando facultado às partes e jurados instarem diretamente a
não prestam o compromisso legal, sendo conhecidas como testemunha. Com as novas normas vigentes, porém, o art. 212
informantes, por serem essas pessoas, por exemplo, parente passou a estabelecer que “as perguntas serão formuladas pelas
próximo da vítima ou do acusado, inimigo da vítima ou do partes diretamente à testemunha, não admitindo o juiz que
acusado, etc., pessoas que podiam ter a imparcialidade puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa ou
comprometida. Em outras palavras, a testemunha importarem na repetição de outra já respondida.
compromissada tem a obrigação legal de dizer a verdade, se No início de abril de 2021, a Primeira Turma do
omitir a verdade ou alterá-la está praticando um crime de falso Supremo Tribunal Federal assentou que o magistrado não pode
testemunho, que é crime contra a administração da justiça. Por ser protagonista na inquirição de testemunhas no processo
sua vez, as testemunhas não compromissadas ou informantes, penal. Ao conceder o Habeas Corpus 187.035 para anular os
contempladas no art. 208 do CPP, são aquelas dispensadas do atos realizados a partir de audiência de instrução, por entender
compromisso em razão de presunção jure et jure, no sentido de que a postura da magistrada no caso concreto teria violado a
que são suspeitas as declarações. São eles: os menores de 14 redação do art. 212, CPP, o colegiado aduziu que a redação da
anos, os doentes mentais e os parentes do imputado, quais norma deixa claro que a função do juiz na realização das oitivas
sejam: cônjuge, ascendente, descendentes, irmão e afins na é completiva e subsidiária, não lhe cabendo iniciar a formulação
linha reta. Tais pessoas não serão contadas para efeito do das perguntas.
número legal de testemunhas. Lembre-se que no Processo Penal Em que pese o tema ora discorrido trago à colação
o menor a partir dos 14 anos já presta o compromisso legal de recente postagem do site “Consultor Jurídico” (09/2021) acerca
falar a verdade, mas ele só é imputável a partir de 18 anos. Por do assunto em comento:
sua vez, o louco é isento de prestar compromisso. “Juiz questiona detalhadamente testemunha viola artigo 212
Outro fato que nos chama a atenção quanto à prova do CPP, diz STF
testemunhal diz respeito à possibilidade da contradita disposto Juiz que, em audiência de instrução e julgamento,
no art.214 do CPP pelo qual qualquer uma das partes pode questiona detalhadamente a testemunha de acusação
arguir a contradita da testemunha alegando algum defeito, desrespeita o rito do artigo 212 do Código de Processo Penal
cabendo ao Juiz decidir se a testemunha deve prestar e atua como o Ministério Público.
compromisso ou não. Para Fachin, juiz que questiona testemunha da
Vale observar que, o art. 217 do CPP (atualizado com acusação assume lado do MP
a Lei n. 11.690/2008) estabeleceu que, caso o magistrado Com esse entendimento, a 2ª Turma do Supremo Tribunal
perceba que a presença do réu poderá causar humilhação, temor Federal, por unanimidade, concedeu Habeas Corpus de ofício
ou sério constrangimento à testemunha ou à vítima (ofendido), para reconhecer a nulidade de ação penal a partir da audiência
de modo que prejudique a verdade do depoimento, fará a de instrução e julgamento e, como consequência, libertar o réu,
inquirição por videoconferência, e, somente na impossibilidade que deve responder ao processo em liberdade. A decisão é de
dessa forma, determinará a retirada do acusado, prosseguindo 3 de agosto.
na inquirição, com a presença do seu defensor. Cumpre A defesa do acusado impetrou HC afirmando que o
observar que o legislador, apesar de a videoconferência ter sido juiz, na audiência de instrução e julgamento, fez "uma série de
declarada inconstitucional pelo STF, inseriu esse meio de oitiva perguntas às testemunhas de acusação, ao passo que a
no referido artigo. Em seu parágrafo único ficou determinado acusação apresentou postura subsidiária, fazendo poucas
que a adoção de qualquer das medidas previstas no caput deste perguntas, ou nada perguntando". Por outro lado, o julgador
artigo deverá constar do termo, assim como os motivos que a não fez nenhuma pergunta sobre os fatos ou o réu para as
determinaram. testemunhas de defesa.
A testemunha que for convocada e que por ventura Os advogados sustentaram que a postura do juiz
faltar sem motivo justificado, o Juiz poderá aplicar-lhe uma violou o artigo 212 do CPP, que tem a seguinte redação: "As
multa e mandar processá-lo por crime de desobediência, poderá perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à
ser levada "debaixo de vara"(conduzida coercitivamente. Deve- testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir
se registrar alguns casos especiais em que deve haver a resposta, não tiverem relação com a causa ou importarem na
notificação. Assim, no caso do militar, segundo o art.221, 2º, repetição de outra já respondida". O parágrafo único do
do CPP, estes deverão ser requisitados à autoridade superior. dispositivo estabelece que, "sobre os pontos não esclarecidos,
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POLÍCIA CIVIL 2021
o juiz poderá complementar a inquirição". Parágrafo único. Aplica-se às cartas rogatórias o disposto nos
O relator do caso, ministro Edson Fachin, apontou §§ 1o e 2o do art. 222 deste Código. (Incluído pela Lei nº
que, com relação à oitiva de testemunhas em audiência de 11.900, de 2009)
instrução e julgamento, o magistrado deve, em atenção ao
artigo 212 do CPP, logo após a qualificação do depoente, Por fim vale salientar acerca do número legal de
passar a palavra às partes, a fim de que produzam a prova. testemunhas que será bastante variante de acordo com a
Assim, só cabe ao juiz intervir em duas hipóteses: se situação. Vejamos:
evidenciada ilegalidade ou irregularidade na condução do
depoimento ou, ao final, para complementar a oitiva, se ainda ■ Procedimento ordinário; Júri; Crimes de Responsabilidade
existir dúvida — nessa última hipótese, sempre atuando de de Funcionário Público; Crimes contra a Honra; Crimes
forma supletiva e subsidiária. contra a Propriedade Imaterial: Crimes Eleitorais punidos
"A redação do artigo 212 é clara e não encerra uma opção ou com pena igual ou superior a quatro anos, entre outros. (8)
recomendação. Trata-se de norma cogente, de aplicabilidade ■ Procedimento Sumário; Crimes Falimentares; Juizados
imediata, e, portanto o seu descumprimento pelo magistrado Especiais Criminais; Lei de Drogas; Crimes Eleitorais,
acarreta nulidade à ação penal correlata quando demonstrado quando punidos com pena máxima inferior a quatro anos (5)
prejuízo ao acusado", disse Fachin.
O ministro ressaltou que ficou provada a iniciativa do 2.5 Do Reconhecimento de pessoas e coisas
juiz na inquirição das testemunhas da acusação. Como as
versões delas foram usadas para fundamentar a condenação, Também é tido como um meio de prova, de procedimento
houve prejuízo ao réu, avaliou o magistrado. formal, ou seja, delimitado no art. 226 do CPP.
"O juízo a quo ao iniciar e questionar detalhadamente Primeiro, cabe lembrar que, se existir em um processo penal
a testemunha de acusação, além de subverter a norma mais de uma pessoa para realizar o reconhecimento de coisas
processual do artigo 212 do CPP, violando a diretiva legal, ou de pessoa, este deverá ser feito de forma separada, ou seja,
exerceu papel que não lhe cabia na dinâmica instrutória da não pode haver comunicação entre elas, conforme determina o
ação penal, comprometendo o actum trium personarum, já que art. 228 do CPP.
a 'separação rígida entre, de um lado, as tarefas de investigar O roteiro formal de como deve ser feito o reconhecimento está
e acusar e, de outro, a função propriamente jurisdicional' é previsto no art. 226 do CPP:
consectário lógico e inafastável do sistema penal acusatório",
declarou Fachin, citando voto do ministro Luís Roberto 1. o reconhecedor (pessoa que tiver que fazer o
Barroso na Medida Cautelar na Ação Direta de reconhecimento) será convidado a descrever a pessoa que
Inconstitucionalidade 5.104.” deva ser reconhecida;
Ainda no que tange novas modificações trazidas por 2. b) o reconhecido (pessoa cujo reconhecimento se pretende)
recentes legislações, lembre-se que O § 8º do art. 185, ao falar será posto, quando possível, ao lado de outras pessoas que
acerca da possibilidade de utilização de vídeo conferência no tenham qualquer semelhança com o reconhecido;
Processo Penal estabelece que as normas do interrogatório por 3. c) autoridade deverá providenciar que o reconhecido não
videoconferência também se aplicam analogicamente aos veja o reconhecedor, quando houver a possibilidade de a
demais atos processuais a que pessoa presa deva participar, pessoa chamada para reconhecer, por efeito da intimidação
como testemunhos, acareações e reconhecimentos de pessoa. ou de outra influência, não dizer a verdade. Esta regra só
Dessa maneira, se uma testemunha está presa, é possível a não se aplica na fase da instrução criminal ou em plenário
colheita de seu testemunho por videoconferência. Nessa de julgamento.
situação de testemunho por videoconferência, o § 9º assegura
que o réu e seu defensor poderão participar do ato processual. O reconhecimento de pessoas é um ato de exposição
daquele que deverá apontar a pessoa a ser reconhecida,
Deve-se lembrar que na hipótese da testemunha ser muda portanto, não poderá existir interferências, devendo ocorrer de
as perguntas são orais e as respostas são escritas ao contrário forma livre, mas dentro das regras determinadas pela lei
dos surdos em que as perguntas são escritas e as respostas são processual, tendo de ressaltar, inclusive, o disposto no
orais. Em que pese ao surdo-mudo as perguntas e respostas são parágrafo único do artigo 226 do Código de Processo Penal,
escritas. Por fim, no que toca ao analfabeto e/ou surdo-mudo onde determina que em juízo, o reconhecimento de pessoa
o auxílio será feito por meio de intérprete. deverá ser feito de forma que ambas as partes se vejam, isto em
observância ao princípio da publicidade, ampla defesa e
Importante frisar as alterações trazidas pela Lei contraditório.
11.900/2009 referentes ao art.222 do CPP com a inclusão do § Como meio de prova, na fase do I.P., é uma prova
3º e do art.222-A como segue: produzida sem a ampla defesa e nem o contraditório; logo, tem
§ 3o Na hipótese prevista no caput deste artigo, a oitiva de valor probatório relativo, necessitando ser ratificado tal
testemunha poderá ser realizada por meio de videoconferência reconhecimento na fase de ação penal. O reconhecimento
ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens realizado em juízo tem valor de prova direta.
em tempo real, permitida a presença do defensor e podendo ser Além disso, existem as questões cognitivas que
realizada, inclusive, durante a realização da audiência de poderão influenciar na atuação do sujeito ativo no ato de
instrução e julgamento. (Incluído pela Lei nº 11.900, de reconhecimento, uma vez que, a memória humana por vezes
2009) pode ser falha, gerar esquecimentos ou enganos, podendo
Art. 222-A. As cartas rogatórias só serão expedidas se resultar em erros do judiciário.
demonstrada previamente a sua imprescindibilidade, arcando a Um ponto bastante discutido diz respeito ao
parte requerente com os custos de envio. (Incluído pela reconhecimento fotográfico.
Lei nº 11.900, de 2009) Giovana Santana Amaral em seu texto intitulado “A
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POLÍCIA CIVIL 2021
problematização do reconhecimento de pessoas no Processo entre testemunhas e acusado, entre acusado e vítima e pode ser
Penal”, publicado em agosto de 2021 assim manifesta-se: feita tanto na fase do inquérito, quanto na ação penal. Acarear
“Com o avanço da tecnologia foi sendo mais utilizado é colocar as pessoas de frente uma da outra para esclarecer
o reconhecimento por meio de fotografia, antes admitido pela pontos de divergência nos respectivos depoimentos essa
jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. O Tribunal providência pode ser determinada de ofício pela autoridade
entendia que uma condenação com base no reconhecimento judicial ou policial e pode ser requerida tanto pela acusação
fotográfico geraria nulidade relativa, uma vez que a norma com pela defesa.
prevista no Código de Processo Penal dava mera Conforme determina o art. 230 do CPP, a acareação
recomendação, sendo facultativo o seu cumprimento. também poderá ser realizada por carta precatória.
Todavia, esta realidade foi alterada o Habeas Corpus São exigidas para que ocorra a acareação que todas as
nº 598.886 julgado pela 6ª Turma do Superior Tribunal de pessoas a serem submetidas a este meio de prova já tenham sido
Justiça em 27/10/2020, que entendeu que o reconhecimento de anteriormente ouvidas em declarações, depoimento ou
pessoas por fotografia deve seguir o procedimento interrogatório, bem como que, nestes depoimentos, declarações
determinado pela norma do artigo 226 do Código de Processo haja divergências que possam comprometer a busca da verdade
Penal, bem como, deve corroborar com outras provas real.
produzidas no processo. Este meio de prova pode ser realizado de ofício pelo
Posteriormente, a 5ª Turma do Superior Tribunal de juiz ou pela autoridade policial (delegado) ou a requerimento
Justiça alinhou seu entendimento em conformidade com a 6ª das partes. Nestes casos, a autoridade que colheu depoimentos
Turma, no Habeas Corpus nº 652.284 decidindo que: divergentes intima as partes envolvidas e as interroga em
(...) diante da falibilidade da memória seja da vítima conjunto, na busca da mais próxima realidade dos fatos.
seja da testemunha de um delito, tanto o reconhecimento Vale dizer quanto à sua realização na fase inquisitorial
fotográfico quanto o reconhecimento presencial de que não há uniformidade visto que para muitos doutos, sendo o
pessoas efetuado em sede inquisitorial devem seguir os inquérito dispensável não parece razoável a intimação das
procedimentos descritos no artigo 226 do Código de testemunhas para um ato que não é obrigatório nesta parte
Processo Penal, de maneira a assegurar a melhor investigativa.
acuidade possível na identificação realizada. Outros, contudo, a luz do princípio da busca da
De acordo com Aury Lopes Junior, não há verdade real, entendem ser viável a acareação mesmo nesse
necessidade de excluir o reconhecimento por fotografia, porém momento investigativo.
este procedimento derivado deve ser utilizado como um ato
preparatório do reconhecimento pessoal, nunca como um 2.7 Documentos de prova
substituto. Ou seja, o reconhecimento fotográfico deverá ser
ratificado posteriormente, seguindo as etapas previstas no Documento é o objeto ou coisa através da qual, por
artigo 226 do Código de Processo Penal”. linguagem simbólica, pode-se extrair provas de um fato.
Segundo o CPP, Artigo 232, consideram-se documentos
2.6 Da Acareação quaisquer escritos, instrumentos ou papéis, públicos ou
A acareação é um procedimento previsto tanto no particulares. Isto é, elementos corpóreos que posam registrar
Código de Processo Civil quanto no Código de Processo Penal, um fato.
cuja finalidade é a apuração da verdade, por meio do confronto O documento pode ser juntado aos autos em qualquer fase
entre partes, testemunhas ou outros participantes de processo do processo. As exceções são no que diz respeito ao Artigo 406
judicial, que prestaram informações prévias divergentes. do CPP e no prazo de três dias antes do julgamento da causa,
O procedimento está previsto no artigo 229 do Código para não prejudicar o contraditório. Quanto à essa apresentação,
de Processo Penal, que permite a realização da acareação o CPP apresenta duas redações diferentes para o mesmo
quando houver divergência nas declarações entre acusados, problema: Artigos 231 e 400.
ofendidos e testemunhas. Segundo a jurisprudência na Segunda instância não pode
Da mesma forma, o Código de Processo Civil, em seu haver a juntada de documentos, apenas no caso de pena
artigo 461, prevê a possibilidade de realização de acareação agravada. Isso porque subtrai um grau de jurisdição, uma vez
quando partes e testemunhas derem declarações divergentes que o juiz de primeira instância não tomou conhecimento.
sobre os fatos de processo em que participem
A acareação é um meio de prova. Segundo a sua Os documentos latos sensu classificam-se em: instrumentos e
natureza jurídica, em que o juiz ou autoridade policial (art. 6º, documentos em sentido estrito. Desse modo entenda-se por
VI, do CPP) prevê este meio de prova na fase do inquérito “instrumento” o documento confeccionado com o objetivo
policial. Ele coloca depoentes (duas pessoas) um na frente do específico de servir de prova do ato nele materializado. Poderá
outro sempre que perceber muitas divergências em suas ser público como a escritura de compra e venda de imóvel ou
declarações sobre os fatos ou circunstâncias, que importem em particular como uma nota promissória. De outro lado, ao
prejuízo na busca da verdade real. falarmos em “documento em sentido stricto sensu” entende-
Segundo o Código de Processo Penal podem ser se como tal todo aquele que não foi elaborado com o propósito
acareados todas as pessoas envolvidas no processo: a) direcionado de ser utilizado como prova, embora,
ofendido(a) com ofendido(a); b) ofendido(a) com testemunha; eventualmente, possa vir a ter essa finalidade. Também poderá
c) ofendido(a) com acusado; d) testemunha com testemunha; e) ser público como as mensagens enviadas pelo Presidente da
testemunha com acusado; f) réu com réu. República ao Congresso Nacional ou privado como no caso de
Em outras palavras: consiste em se colocarem frente a uma reportagem jornalística
frente pessoas que já prestaram depoimentos em momento
anterior, aspectos que se evidenciam contraditórios. A
acareação pode ser feita entre acusados, entre testemunhas,
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POLÍCIA CIVIL 2021
2.8 Dos indícios imprescindível que seja possível estabelecer, na linha do
tempo, verdadeira ponte lógica entre o indício (fato certo) e a
Na verdade, o indício mencionado no art. 239 do CPP infração penal (fato probando), de modo que, sendo
não chega a ser propriamente um meio de prova. Trata-se, antes inviável extrair da circunstância analisada qualquer
disso, da utilização de um raciocínio dedutivo, para, a partir da decorrência vinculada ao crime investigado, não há como
valoração da prova de um fato ou de uma circunstância, chegar- qualificá-la como razão indiciária. Isso pode ser observado,
se à conclusão da existência de um outro ou de uma outra. por exemplo, na situação em que câmeras de segurança
mostram determinada pessoa investigada por divulgação de
Affonso Celso Pupe da Silveira Neto, em seu texto cena de estupro (art. 218-C, Código Penal) simplesmente
intitulado “DO INDÍCIO NO PROCESSO PENAL: fazendo compras em um supermercado próximo da casa da
PERSPECTIVAS LEGAIS, DOUTRINÁRIAS E LÓGICAS” vítima, normalmente. Nesse caso, apesar de se tratar de
(07/2019) traz importantes ponderações: circunstância efetivamente conhecida e provado e existir,
“No Código de Processo Penal Brasileiro (CPP), o indício ainda que indiretamente, relação objetiva e subjetiva com o
está literalmente conceituado no art. 239, o qual assim dispõe: evento (eis que condiz com as pessoas supostamente
Art. 239. Considera-se indício a circunstância conhecida e envolvidas), a total esterilidade da situação para autorizar
provada, que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, induções lógicas acaba por tornar descartável tal elemento
concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias. para a investigação e de impedir que tal filmagem se adéque
“Da leitura do referido dispositivo, concebível é que, para fins ao conceito de indício.
legais, a existência do indício pressupõe a constatação de d) Surgimento de conclusões acerca da (in)existência de
determinados requisitos cumulativos presentes no elemento outras – Redundante da viabilidade indutiva de conclusão é o
material ou fático avaliado na investigação. São estes: elemento-chave da (in)adequação da circunstância ao status de
indício. Ainda que ostente todos os demais requisitos, se da
a) Circunstância conhecida e provada – Necessariamente, o circunstância analisada não restar possível o surgimento de
indício pressupõe a existência, como diz o referido art. 239, do conclusões, impossível será sua qualificação como indício. Por
CPP, de “circunstância conhecida e provada”. Por conhecida surgimento de conclusões entenda-se como o resultado no qual
e provada é possível entender que o elemento material determinado evento autorize, pela lógica, conceber pela
analisado deve ter sua presença e validade indiscutíveis no sucessão de fatos posteriores a ele associados, como, por
plano real, descabendo, por qualquer ângulo, meras exemplo, a aptidão que a certeza da existência de luta física
suposições em relação ao mesmo. A realidade do elemento atestada por testemunhas permita, com segurança, pressupor
fático tomado por indício deve ser objetiva. A existência de um que eventuais lesões físicas diagnosticadas logo após nos
indício relacionado ao crime de homicídio em relação ao contendores são implicações diretas do referido embate.
emprego de arma de fogo, por exemplo, pode se consubstanciar
na atestação, mediante o chamado exame residuográfico da De maneira objetiva e direta, Fernando Capez (2006,
presença de pólvora na mão do suspeito, na medida em que a p. 360) conceitua os indícios:
técnica aplicada em tal perícia confere a necessária segurança
acerca do conhecimento e da comprovação do indício. “a) Indício: é toda circunstância conhecida e provada, a partir
b) Relação direta ou indireta com o fato – É necessário que, da qual mediante raciocínio lógico e pelo método indutivo,
para que a circunstância seja credenciada ao status de indício, obtém-se a conclusão sobre um outro fato. A indução parte do
haja conexão objetiva e subjetiva entre sua ocorrência e o fato particular e chega ao geral.
apurado. Não basta que o evento exposto ao filtro pré- Assim, nos indícios, a partir de um fato conhecido, deflui-se a
indiciário seja objetivamente relacionável com o crime para existência do que se pretende provar.
que se possa toma-lo por indício, não bastando, por exemplo, Indício é o sinal demonstrativo do crime: signum
que determinada pessoa que adquiriu, no México, veneno para demonstrativum delicti.”
a eliminação de ratos em seu galpão tenha tal atitude tomada
como indício de homicídio praticado no Brasil na mesma data 2.9 Da busca e apreensão.
de tal compra, crime este praticado em prejuízo de indivíduo
que sequer conhecia ou já teve, direta ou indiretamente, A busca e apreensão é a diligência que determina a
qualquer relação. Isto porque é essencial que haja procura de bens e pessoas, bem como sua posterior apreensão
interconexão subjetiva entre o enredo delituoso e a por aqueles que possuam competência para o ato. Em geral, é
circunstância apontada por indiciária. Assim sendo, muito uma medida bastante comum. Já no Direito Penal, o mandado
embora objetivamente pudesse haver preliminar e objetiva de busca e apreensão está relacionado, em geral, às
relação entre a pessoa que adquiriu o veneno de ratos no investigações criminais.
México e aquele que foi, por tal substância, morto no Brasil, A busca e apreensão é uma medida cautelar que tem
essa circunstância não pode ser alçada ao plano indiciário como objetivo colher provas para o processo penal afim de se
ante a falta de conectivo subjetivo entre os indivíduos, quer seja chegar à verdade material.
pelo ângulo geográfico (mais expressivo, nesse exemplo) ou A busca e apreensão domiciliar encontra disciplina nos
mesmo social. artigos 240 a 250 do Código de Processo Penal e, como medida
c) Viabilidade indutiva de conclusão (ponte lógica) – Este é, instrumental de natureza cautelar, demanda a comprovação dos
sem sombra de dúvidas, o sintoma que destaca o simples evento requisitos da fumaça do bom direito e do perigo na demora, sem
cotidiano externo do indício: a aptidão para induzir conclusões os quais não há que se falar em deferimento da diligência, que
relacionadas ao fato apurado. Para que a circunstância seja visa, ao fim e ao cabo, excepcionar direito fundamental de
definitivamente caracterizável como indício é absolutamente primeira dimensão albergado no artigo 5º, XI, da Constituição
indispensável que tal fato aponte para outros eventos da República.
sucessivos inter-relacionados com o delito investigado. É
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POLÍCIA CIVIL 2021
Importante trazer as palavras de Pedro Vinícius Perez exceto se o morador consentir que se realize a noite. Esse
no tema que ora tratamos: consentimento poderá ser revogado a qualquer tempo (em tese).
” Buscar é o movimento desencadeado pelos agentes do Conforme o art. 5º, inciso XI, da Constituição Federal,
Estado para a investigação, descoberta e pesquisa de algo existem mais três exceções para entrar em domicilio alheio sem
interessante para o processo penal, realizando-se em pessoas mandado de busca ou durante a noite:
ou lugares. Apreensão é a medida assecuratória que toma algo
de alguém ou de algum lugar, com a finalidade de produzir · Em caso de flagrante delito;
prova ou preservar direitos. · Em caso de desastres; ou,
Deve-se saber separar as coisas, busca é busca e · Para prestar socorro.
apreensão é apreensão. O normal é que venham juntas, pois a
apreensão é consequência da busca, mas nada impede que haja Em termos constitucionais o art. 5º, inc. XI, CF cria o
busca sem apreensão, assim como pode haver apreensão sem parâmetro referente à inviolabilidade do domicílio ao dispor
busca (ex.: próprio agente do crime comparece perante a “a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo
autoridade policial e exibe a arma de fogo. Nesse caso não penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de
houve busca, pois houve uma exibição espontânea da arma, flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou
mas houve apreensão). durante o dia, por determinação judicial;”
A busca e apreensão, pelo CPP, tem natureza de meio de O art. 5º, inc. X, CF, por sua vez, estabelece a
prova, mas também se cuida de providência acautelatória e inviolabilidade da intimidade e a vida privada:
coercitiva. Por que acautelatória? Porque no momento em que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
se retém o bem, busca-se e apreende-se o bem, preservando, imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo
mantendo-o apreendido, evitando, assim, que ele desapareça, dano material ou moral decorrente de sua violação;”
que sofra modificações. Portanto, serve como meio de O art. 5º, inc. III, CF, sob outro prisma trata da
preservação da prova, por isso é uma providência inviolabilidade física e moral do indivíduo:
acautelatória. E também vai ter natureza coercitiva, porque a “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento
retenção vai independer da vontade do proprietário (o desumano ou degradante;”
interesse público prepondera sobre o direito de propriedade).” Nesse passo, importante destacar os conceitos de
... “casa” e “noite”.
Quando se fala em busca, trabalha-se com dois sujeitos: Quem explica o conceito de casa é o artigo 150,
sujeito ativo da busca e sujeito passivo da busca. parágrafos 4º e 5ºdo Código Penal:
Sujeito ativo das buscas é quem realizada a atividade. É o
responsável pela busca. Ex.: juiz de direito, autoridade ... “§ 4º A expressão “casa” compreende:
policial, promotor de justiça, policiais, agentes fazendários, I – qualquer compartimento habitado;
oficial de justiça. Sujeito passivo na busca é o que se encontra II – aposento ocupado de habitação coletiva;
na posse da coisa ou do ambiente em que se encontra a coisa III – compartimento não aberto ao público, onde alguém
ou pessoa. exerce profissão ou atividade.
A busca e apreensão pode ocorrer antes mesmo da § 5º Não se compreendem na expressão “casa”:
instauração de IP (basta que a autoridade policial se dirija ao I – hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação
local e apreenda o que se mostrar interessante ao processo). coletiva, enquanto aberta, salvo a restrição do n. II do
Pode ocorrer no curso do IP, no curso do processo e até mesmo parágrafo anterior;
depois do trânsito em julgado, em sede de execução penal. II – taverna, casa de jogo e outras do mesmo gênero.”
Portanto, não há nenhuma limitação de momento para a
realização da busca e apreensão.” Quanto ao conceito de “noite” existem três conceitos
na doutrina.
Esse entendimento, contudo, não é o seguido pela
maioria dos doutrinadores que consideram a busca e apreensão Segundo George Dantas Saraiva em seu recente texto
como um único instituto. (09/2021) “O conceito de “dia” e a execução de mandado de
Segundo de Fernando Capez: busca e apreensão domiciliar com a entrada em vigor da lei nº
“[...] a medida cautelar de busca e apreensão é destinada a 13.869/19 (abuso de autoridade)” afirma que:
evitar o desaparecimento das provas. A busca é, lógica e “Se é possível durante o dia, e com autorização de um
cronologicamente, anterior à apreensão. Pode ser realizada juiz, adentrar o domicílio do morador mesmo sem a sua
tanto na fase inquisitorial como no decorrer da ação penal, e permissão, resta saber o que se entende por “dia”, qual o
até mesmo durante a execução da pena. A apreensão é uma conceito jurídico desse termo?
consequência da busca quando esta tenha resultado positiva.” Primeiramente, importante dizer que não há um
Quanto aos requisitos a busca e apreensão consenso sobre o significado da palavra “dia” insculpida no
domiciliar é permitida quando houverem fundadas razões que Inc. XI do art. 5º da Lei Maior. No entanto, existem três
a autorizem, conforme artigo 240, parágrafo 1º, do Código de critérios que são usados pela doutrina e jurisprudência e que
Processo Penal. são bastantes controvertidos entre os aplicadores do direito.
Ela só poderá ser feita através de mandado judicial O primeiro critério é chamado de “critério físico-
quando a própria autoridade não estiver presente. O artigo 241 astronômico”. Por ele, o dia seria o período de tempo existente
do Código de Processo Penal fala em autoridade policial ou entre o amanhecer e o anoitecer ou, como é costumeiramente
judiciária. No entanto a parte da “autoridade policial não foi chamado, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo. É nesse
recepcionada pela Constituição Federal de 1988. sentido o entendimento do Ministro Celso de Mello, para quem
A busca e apreensão só poderá ser realizada durante o o período de tempo é flexível e deve seguir o modelo que guiava
dia, nos termos do artigo 245 do Código de Processo Penal, os navegadores desde os tempos mais remotos, quando não

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POLÍCIA CIVIL 2021
havia GPS ou a bússola, por ser um instrumento No entanto, recentemente, a 6ª Turma do Superior
completamente inútil em alto mar. Para o eminente Ministro, Tribunal de Justiça – STJ, em julgamento de habeas corpus
dia é o período entre o nascer e o pôr do sol. 598.051/SP (j. 02/03/2021), estabeleceu que a autorização
O segundo critério é o “critério cronológico”. do morador para que policiais adentre a residência,
Segundo os seus defensores, “dia” é considerado o período de além de escrita e assinada pelo morador e testemunhas,
tempo compreendido entre as 6h (seis horas) e as 18h (dezoito deve ser gravada em áudio e vídeo.
horas). Nesse sentido, é o entendimento do constitucionalista  Segundo o Informativo nº 694 STJ a busca e apreensão não
José Afonso da Silva. exige a especificação do documento a ser apreendido (RHC
Uma terceira corrente, combina os dois critérios RHC 141.737/PR, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, Sexta
anteriores e cria o “critério misto”. Segundo argumentam, se Turma, por maioria, julgado em 27/04/2021/PR
a aurora ocorrer antes das 6h (seis horas), ainda não é dia Resumo: inexiste exigência legal de que o mandado de
para fins de cumprimento de mandado de busca. Da mesma busca e apreensão detalhe o tipo de documento a ser
forma, se o pôr do sol ocorrer antes das 18h (dezoito horas), apreendido, ainda que de natureza sigilosa.
não se pode mais cumprir o mandado. Verificamos que esse
critério é o que mais alarga o conceito de “noite” em  Na decisão do HC 608.286 (maio de 2021) anulou as
detrimento do de “dia”, favorecendo a inviolabilidade do provas obtidas por autorização de busca domiciliar
domicílio. viciada. Ao analisar a matéria, o ministro o ministro Joel
... Ilan Paciornik, do Superior Tribunal de Justiça, cita o
Do ponto de vista da prática policial, o melhor critério boletim de ocorrência. Na versão da polícia, os réus foram
a ser adotado, e também aquele que trazia maior segurança presos durante patrulhamento de rotina. Os policiais
jurídica para os agentes da lei era, sem sombra de dúvidas, o encontraram uma residência com as portas abertas e
critério cronológico. Pautando-se por ele, podia-se melhor tentaram contato com algum morador para verificar se
planejar a operação, proporcionando maior eficiência e estava tudo bem. Nesse contexto o filho da dona da casa
segurança na sua execução. chegou e em razão do nervosismo demonstrado motivou a
Ocorre que, a Lei nº 13.869/19 tipificou como crime busca domiciliar que encontrou drogas e uma arma de fogo.
de "abuso de autoridade" o cumprimento de mandado de busca O magistrado pondera que em que pesem os
e apreensão domiciliar entre as 21h (vinte e uma horas) de um argumentos trazidos pela decisão do TJ-PR, mostra-
dia e as 5h (cinco horas) do dia seguinte. Assim, interpretando se "inverossímil a versão policial, ao afirmar que o
a norma a contrário senso, chegamos ao "conceito legal de paciente teria informado voluntariamente a existência de drogas
dia", pelo menos para os fins previstos na lei: “dia” é o e franqueado busca domiciliar na casa de sua genitora
intervalo de tempo entre as 5h (cinco horas) e as 21h (vinte e que implicaria em sua prisão em flagrante. Após isso,
uma horas).” ainda indicar sua residência como depósito no qual teria mais
Diz ainda a título de conclusão: substância entorpecente armazenada. Qualquer
“Apesar de haver correntes em sentido contrário, raciocínio com um mínimo bom senso sugere a falta de
conclui-se que o art. 22, § 1º, III da Lei nº 13.869/19, além de credibilidade na versão policial apresentada".
estar de acordo com o texto constitucional, trouxe segurança O ministro citou a teoria dos frutos da árvore
jurídica aos que diariamente estão na linha de frente do envenenada para determinar que as demais diligências e
combate à criminalidade. buscas realizadas após a autorização viciada, devem
Com a novidade legislativa, não há nenhuma dúvida ser tidas como nulas por decorrência conforme a pacífica
de que o cumprimento de mandado de busca e apreensão jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.
domiciliar após as 21h (vinte e uma hora) de um dia e antes "Dessa forma, tenho como presente a existência de
das 5h (cinco horas) do dia seguinte, salvo as exceções flagrante constrangimento ilegal que autoriza a
apresentadas, configura crime de abuso de autoridade, não concessão da ordem de ofício para reconhecer a nulidade da
havendo que se discutir se existe ou não luminosidade. busca a apreensão domiciliar realizada sem mandado judicial
Já era tempo de o legislador impor parâmetros de todas demais delas decorrentes. Tal situação implica na
objetivos quanto ao horário de cumprimento do mandado de anulação desde o início da ação penal, com a determinação da
busca e apreensão domiciliar e, embora não tenha sido a sua expedição de alvará de soltura em favor dos pacientes, sem
intenção direta, no art. 22, § 1º, III da Lei nº 13.869/19, criou- prejuízo do oferecimento de nova denúncia, desde que
se, indiretamente, o conceito legal de “dia”, tão necessário apoiada em fatos distintos dos decorrentes das ilegais
para aplicação da lei penal em comento.” buscas domiciliares efetivadas", finalizou.

Atualidades:  Baseada em novo entendimento, Sexta Turma anula


 O art. 5º, § 5º da Lei 10.826/06 (Estatuto do provas obtidas em invasão policial na casa do suspeito
Desarmamento), recentemente alterado pela Lei Com fundamento em recente precedente do colegiado, a
nº 13.870/19, o qual prevê que, para fins de posse de arma Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou
de fogo, aos residentes em áreas rurais, considera-se as provas obtidas pela polícia após a invasão do domicílio
residência ou domicílio, toda a extensão do respectivo de um suspeito de tráfico de drogas. Por unanimidade, os
imóvel rural. ministros acolheram o pedido da defesa, segundo a qual a
De maneira geral, se existe uma casa, existe também polícia entrou na casa sem autorização.
um morador. Esse, que é o detentor do direito fundamental, De acordo com o entendimento da Sexta Turma no Habeas
pode autorizar a qualquer pessoa a entrada em sua Corpus 598.051 (06/10/2021), a autorização do morador
residência. Nessa hipótese, não há nenhuma limitação de para ingresso em domicílio, quando não houver mandado
horário. Com autorização dele, pode-se adentrar a casa a judicial, deve ser registrada pelos policiais em áudio e
qualquer momento do dia ou da noite. vídeo, para não haver dúvida acerca desse consentimento
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POLÍCIA CIVIL 2021
nem da legalidade da ação. Além disso, a entrada deve ter expressão extremamente genérica, capaz de, em um primeiro
fortes razões que a justifiquem, não bastando a referência à momento, parecer legitimar qualquer tipo de abordagem, em
desconfiança policial ou mera atitude suspeita. qualquer situação. Não deve ser assim.
É fácil perceber que, além da liberdade individual, é
No que concerne à BUSCA E APREENSÃO a dignidade da pessoa que está em jogo. Por isso, não basta a
PESSOAL ver-se que o disposto no art. 240, parágrafo 2º do alegação subjetiva de que a atitude do averiguado é suspeita:
Código de Processo Penal, estabelece dois principais requisitos, é preciso justificar, concretamente, o que levou o executor da
quais sejam: proceder-se-á à busca pessoal quando houver medida a inspecionar o corpo, as vestes de um cidadão.
fundada suspeita de que alguém oculte consigo arma proibida Fora daí, ou seja, buscas pessoais realizadas sem
ou objetos mencionados nas letras b a f e letra h do parágrafo explicação aceitável ou atentatórias à dignidade humana,
primeiro do mesmo artigo. invade-se o campo das provas ilícitas.
Há, por outro lado, interessante distinção no mundo
Via de regra, os requisitos da busca pessoal são as das provas ilícitas: existe a ilegalidade ou ilicitude intrínseca,
mesmas da busca domiciliar, logo se faz necessário a presença referente a meios probantes não admitidos pelo Direito; a
do mandado judicial. No entanto, as exceções explícitas do art. ilicitude ou ilegalidade intrínseca. "mácula que adere a certas
244 do Código de Processo Penal resta claro que na prática não provas por terem sido produzidas com a ofensa de um Direito
é necessário o mandado expedido por autoridade judicial. individual ou fundamental". A busca pessoal, se efetuada
Segundo a lei, a busca pessoal independerá de imotivada e/ou constrangedoramente, insere-se nesta última
mandado: classificação, por ferir, principalmente, o Direito à
· No caso de prisão – por motivos óbvios, não tem como dignidade.”
colocar uma pessoa numa cela sem antes revistá-la, para
segurança dele e dos outros presos; Atualidades:
· Quando houver fundada suspeita – tema mais polêmico
por se tratar de um subjetivismo do policial que procederá a  Quinta Turma do STJ considera válida busca autorizada por
busca; quem parecia representar a empresa investigada. Com base
· No curso de busca domiciliar – justifica-se para um na teoria da aparência. A Quinta Turma do Superior
devido cumprimento do mandado judicial, a pessoa pode Tribunal de Justiça (STJ) considerou válida a autorização
guardar consigo o objeto que se busca no domicílio. para o ingresso da polícia em uma empresa, dada por pessoa
A busca e a apreensão pessoal é a inspeção no corpo que, embora tivesse deixado de ser sócia da firma,
do indivíduo, em suas veste ou "no âmbito de custódia aderente continuava trabalhando nela e agindo como sua
ao corpo de determinada pessoa". É, indiscutivelmente, representante.
"medida de exceção constrangedora, que fere a liberdade Ao STJ, a empresa investigada e outras duas que
individual, [devendo ser empregada com cautela e compartilhavam o mesmo endereço pediram o
moderação...". reconhecimento da nulidade da operação, uma vez que o
O art. 240 do Código de Processo Penal, traz acesso ao escritório, sem mandado judicial, se deu mediante
enumeração - taxativa, vez que a busca pessoal excetua os permissão de pessoa não autorizada. Argumentaram ainda
direitos individuais - das hipóteses em que se admite a busca. que a polícia extrapolou os termos da decisão judicial que
Em outros termos, exige a lei em regra o devido determinou a diligência, pois arrecadou bens e documentos
mandado judicial. pertencentes a terceiros.
Há no entanto uma exceção criada pela própria norma O relator do recurso na Quinta Turma, ministro Reynaldo
que, segundo as palavras de Giovana Pólo, em seu texto Soares da Fonseca, lembrou que a jurisprudência do STJ,
intitulado “Busca e apreensão pessoal e prova ilícita”, amparada em precedentes do Supremo Tribunal Federal
afirma: (STF), considera válida a entrada de policiais em
“ A busca e a apreensão pessoal é a inspeção no corpo residências para realizar busca, mesmo sem mandado
do indivíduo, em suas vestes ou "no âmbito de custódia judicial, desde que exista fundada suspeita de situação de
aderente ao corpo de determinada pessoa". É, flagrante delito ou haja a permissão do morador.
indiscutivelmente, "medida de exceção constrangedora, que Ao aplicar esse entendimento ao caso, o ministro
fere a liberdade individual, [e] deve ser empregada com reconheceu como válida a autorização dada pela funcionária
cautela e moderação...". que, embora tenha formalmente deixado de ser sócia da
O art. 240 do Código de Processo Penal, traz empresa investigada em 2013, continuou assinando
enumeração - taxativa, vez que a busca pessoal excetua os documentos para as licitações suspeitas de fraude.
direitos individuais - das hipóteses em que se admite a busca.  A 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, julgando o
Exige a lei o devido mandado judicial, "salvo no caso recurso em Habeas Corpus 142.588/PR (junho de 2021),
de prisão ou quando houver fundada a suspeita de que a tendo como relator o ministro Olindo Menezes
pessoas estejam na posse de arma proibida ou de objetos ou (desembargador convocado do Tribunal Regional Federal
papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for da 1ª. Região), decidiu que se "considera ilícita a busca
determinada no curso de busca domiciliar". pessoal e veicular executada por guardas municipais sem a
A lei admite a busca pessoal desde que presente a existência da necessária justa causa para a efetivação da
"fundada suspeita" e a medida seja levada a cabo sem submeter medida invasiva, nos termos do §2º do artigo 240 do Código
a vexame o averiguado (as demais situações, isto é, a da prisão de Processo Penal (CPP)". O voto do relator, seguido à
ou a ocasionada pela busca domiciliar ultrapassam os limites unanimidade, observou que "tendo a busca pessoal ocorrido
desta exposição). apenas com base em parâmetros subjetivos dos agentes de
É, contudo, justamente a permissão fornecida pela segurança (sic), sem a indicação de dado concreto sobre a
"fundada suspeita" a causadora de arbitrariedades, porque é existência de justa causa para autorizar a medida invasiva,
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POLÍCIA CIVIL 2021
deve ser reconhecida como ilegal", bem como ilícita a prova pode considerar sequer que o ato tenha ocorrido. Há um não
dela derivada. ato. Assim, entende-se que não há um defeito processual, mas
 O STJ trancou ação penal de tráfico por busca pessoal e sim a falta do ato.
veicular ilegal em razão da guarda municipal ter feito busca No entanto, os atos inexistentes praticamente só
após um jovem sair de um carro e entrar às pressas em uma ocorrem na teoria, vez que na prática são extremamente raros.
residência, aparentando nervosismo. (31/05/2021) Por exemplo, somente em uma situação teórica uma sentença
penal seria proferida por um indivíduo que não fosse
Os pacientes foram presos em flagrante e denunciados pela magistrado, no dia a dia uma situação dessa é inimaginável.
prática do delito de tráfico de drogas, previsto no art. 33, Caso haja, contudo, um ato inexistente no processo,
caput, da lei 11.343/06. A defesa alega a nulidade da busca este não transita em julgado. Dessa forma, não há sequer a
domiciliar e veicular executada por guarda municipal. necessidade de revisão criminal, podendo ser reconhecida a
Segundo a defesa, a busca foi realizada apenas por terem os inexistência do ato através de mera petição ao juiz.
agentes visualizado um jovem saindo de um carro e Passemos, então, às principais e mais polêmicas
entrando às pressas em uma residência, fato que não espécies de violações processuais, quais sejam as nulidades.
caracteriza flagrante delito, evidenciando a ausência de O CPP regula as nulidades com onze artigos (artigos
fundada suspeita e a ilicitude da prova colhida. 563 a 573). Só um desses, o artigo 564, diz quando haverá
nulidade; os outros dez fazem previsão de quando não haverá
Ao analisar o caso, o relator, desembargador convocado nulidade, ou de quando a mesma não poderá ser declarada, ou
Olindo Menezes, ressaltou que a busca pessoal necessita de de como ela é saneada(consertada).
fundada suspeita para que esteja autorizada a medida O artigo 564 do referido dispositivo legal traz um rol
invasiva. exemplificativo de hipóteses nas quais haverá nulidade
processual. Não obstante, o Código prevê, no artigo 572,
Para o magistrado, está ausente de razoabilidade considerar hipóteses de nulidades sanáveis, ou seja, nulidades relativas.
que, por si só, o fato de um dos ocupantes ter saído do A nulidade relativa é aquela que decorre da violação
veículo ao avistar a viatura, aparentando nervosismo, de uma norma que tutela o interesse privado, ou seja, o interesse
enquadre-se na excepcionalidade da revista pessoal e de alguma das partes envolvidas no processo. Desse modo,
veicular ocorrida posteriormente. trata-se de uma violação de grande relevância para o processo,
mas que nada obsta sua validade em caso de inércia da parte
"Se não amparada pela legislação a revista pessoal, que foi interessada.
realizada apenas com base em parâmetros subjetivos dos Sendo assim, essa modalidade de nulidade não pode
agentes de segurança, sem a indicação de dado concreto ser reconhecida de ofício pelo juiz, cabendo à parte interessada
sobre a existência de justa causa para autorizar a medida ou afetada pelo ato a postulação pelo reconhecimento do vício
invasiva, vislumbra-se a ilicitude da prova, e, nos termos do do ato. Ademais, cabe também à parte a demonstração do
art. 157 do CPP, deve ser desentranhado dos autos o termo efetivo prejuízo sofrido
de busca e apreensão das drogas, além dos laudos Vale dizer que, neste tipo de nulidade, há um momento
preliminares e de constatação da droga." adequado para a parte alegar a nulidade e, caso seja alegada
intempestivamente, o ato se convalida pela preclusão.
Diante disso, deu provimento ao recurso em habeas corpus Desse modo, não havendo arguição em momento
para determinar o trancamento da ação penal. oportuno ou não sendo demonstrado efetivo prejuízo, não há
que se falar em nulidade do ato.
Pode-se dizer, portanto, que a nulidade relativa é um
3.Das Nulidades vício sanável, haja vista que a parte interessada pode deliberar
por não alegar a nulidade, ainda que tenha a percebido, e o
No processo penal, por vezes nos deparamos diante de processo seguirá seu trâmite naturalmente.
situações nas quais ocorre a violação de alguma norma Em outros termos, nulidades relativas consistem na
processual. No entanto, sabe-se que existem defeitos violação de forma que protege interesse das partes, não podem
processuais mais graves do que outro. Diante disso, veremos as ser declarada de ofício ,sendo sanáveis e passíveis de ocorrer a
principais espécies. preclusão (CPP, art. 572, inc. I) se não forem alegadas no prazo
Na doutrina e jurisprudência, prevalece que os legal (CPP, art. 571).
referidos defeitos se dividem em meras irregularidades, atos São nulidades relativas: art. 564, III d e e, segunda parte,
inexistentes e nulidades, sejam elas absolutas ou relativas. g e h, e inc. IV
As meras irregularidades são defeitos processuais de (rol de nulidades sanáveis).
mínima relevância, de modo em que o ato esteja em Por outro lado, a nulidade absoluta é aquela que
desconformidade com o modelo legal, mas em que nada afeta a decorre da violação de algum princípio constitucional ou de
validade do processo, sem que haja qualquer consequência norma que tutele o interesse público. Em razão da gravidade
processual. dessa violação, a nulidade absoluta é insanável, de modo que
Tomemos como exemplo a hipotética situação na qual não se convalida pela preclusão e sequer pelo trânsito em
há, no processo, um erro na grafia do nome do réu, que nada julgado.
obsta a sua identificação. Nessa situação, ocorreu somente uma Em outras palavras, as nulidades absolutas pois, são a
mera irregularidade no processo, mas não há necessidade de violação de forma que protege interesse público, podendo ser
consequências gravosas, haja vista que não houve qualquer declaradas de ofício, sendo insanáveis e não atingidas pela
relevância para a situação processual. preclusão.
Já os atos inexistentes são aqueles atos em que a No CPP podemos listar: as previstas no art. 564, inc. I,
desconformidade com a norma legal é tão intensa que não se II, III, letras a, b, c, e, primeira e terceira parte, f, i, j, k, l, m, n,
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POLÍCIA CIVIL 2021
o, p. (rol de nulidades insanáveis). fundamentada seja absolutamente nula, sua invalidade só
Dessa forma, reconhecida a nulidade, o ato deve poderá ser decretada pela instância superior, por ocasião da
obrigatoriamente ser anulado, revogando os seus efeitos, apreciação de recurso ou de ação de impugnação, mas, em
independentemente de requerimento de qualquer das partes, nenhuma hipótese, pelo juízo prolator. O próprio magistrado,
podendo ser reconhecida de ofício pelo juiz e em qualquer grau todavia, poderá decretar a invalidade de ato processual
de jurisdição. absolutamente nulo, desde que o faça antes da prolação da
São alguns dos principais dos exemplos da nulidade sentença.
absoluta a violação de princípio constitucional como o direito São exemplos de casos que incorrem em nulidade absoluta do
de defesa e contraditório, decisões e sentenças proferidas por ato: a realização de audiência sem a presença do defensor do
juiz incompetente, dentre outros. acusado ou a tramitação de um processo em juízo que seja
completamente incompetente para julgar a matéria.
Vale lembrar o entendimento adotado pelo Supremo (C) NULIDADE RELATIVA
Tribunal Federal, cristalizado na Súmula 431 “reconhece-se
nulo o julgamento de recurso criminal, na segunda instância, A nulidade relativa ocorrerá diante de hipóteses de desrespeito
sem prévia intimação do advogado de defesa, ou publicação da a exigência estabelecida pela lei (norma infraconstitucional)
pauta. Entretanto, dentro da sistemática processual penal do interesse das partes, mas não em desrespeito à ordem
brasileira, tanto as nulidades relativas quanto as absolutas pública generalizadamente. Assim como acontece em relação
demandam a demonstração de prejuízo para que possam ser à nulidade absoluta, sua invalidação depende de ato judicial
declaradas, exigindo-se que sejam alegadas na primeira que declare sua ocorrência, já que, como mencionado, a
oportunidade. Precedentes do STF e STJ." (STJ, HC invalidade dos atos processuais não é automática.
265349/SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, j. 04/08/15).” Para que seja reconhecida, é essencial que haja arguição em
momento oportuno pelo interessado, pois, via de regra, não é
Nesse sentido colaciono resumo elaborado pelo site possível que seja decretada de ofício pelo juiz, além de que se
Trilhante quanto ao tema em comento: convalida se a parte prejudicada não se manifestar
demonstrando o prejuízo a ela acarretado pelo ato.
Espécies de Nulidades A título exemplificativo, podemos pensar na seguinte hipótese
de nulidade relativa: falta de intimação do acusado para
(A) INEXISTÊNCIA audiência de inquirição de testemunhas, quando nela esteve
presente o advogado constituído. Vê-se que há vício, mas que
Apesar de o nosso ordenamento não fazer qualquer menção aos este não é irremediável, pois o advogado do interessado
atos inexistentes, há consenso doutrinário de que, em certas recebeu a intimação por ele.
hipóteses, tamanha é a desconformidade com a legislação que
o ato deve ser imediatamente desconsiderado pelo (D) IRREGULARIDADE
ordenamento jurídico, sendo algo alienígena ao Direito.
Nessas situações há, sob o ponto de vista jurídico, um não ato, Denomina-se de irregularidade o vício que incorre da
pois ausente algum elemento que o direito considera essencial desobediência ao modelo legal que, no entanto, não tem
para que ele venha a existir e tenha validade. qualquer prejudicialidade para o desenvolvimento do
Assim, a invalidação de ato inexistente não depende de processo e, por conta disso, não enseja a ineficácia do ato.
pronunciamento do Poder Judiciário. Basta desconsiderar o Trata-se de situação de desavença de alguma exigência formal
ato que apenas aparenta existir para que se obedeça, então, à sem verdadeira relevância para fins processuais. A título de
lei. Não é possível cogitar a convalidação do ato inexistente, exemplo, temos a prolação da sentença em prazo superior ao
daí por que a falta de arguição oportuna não gera nenhum previsto em lei e em desobediência ao Princípio da Razoável
efeito preclusivo. Não há sequer necessidade de arguição deste Duração do Processo. De fato, a regra não foi observada, mas
tipo de nulidade. completamente descabido acreditar que a demora na prolação
A título de exemplos, possível imaginar os seguintes casos de da sentença deva ensejar sua invalidade. Se o objetivo é a
atos inexistentes: sentença sem qualquer dispositivo legal celeridade, tal medida andaria em evidente contrassenso.
indicado, uma audiência presidida pelo defensor ao invés de
pelo juiz, sentenças e decisões proferidas e assinadas pelo RESUMO ESQUEMATIZADO
escrivão, não pelo juiz, etc.
Atos Atos
Atos Atos
(B) NULIDADE ABSOLUTA Absolutamente Relativamente
Inexistentes Irregulares
Nulos Nulos
Quando o vício do ato viola diretamente uma norma Embora
(constitucional ou legal) que prestigie o interesse público, ou Produzem Produzem
imperfeitos
seja, que exista como defesa e proteção do indivíduo e da Sua ineficácia efeitos até queefeitos até que
, não são
sociedade, é o caso de nulidade absoluta. não depende de haja haja
passíveis
Trata-se de situação em que a “gravidade do ato viciado é reconheciment reconheciment reconheciment
de
flagrante e, em regra, manifesto o prejuízo que sua o judicial o judicial de o judicial de
invalidaçã
permanência acarreta para a efetividade do contraditório ou sua ineficácia sua ineficácia
o
para a justiça da decisão; o vício atinge o próprio interesse O vício pode Sua invalidade Sua invalidade
público de correta aplicação do direito” (Ada Pellegrini ser pode ser pode ser
Grinover. As nulidades no processo penal, 12. ed., p. 21.) reconhecido de reconhecida de reconhecida de
A nulidade absoluta pode, e deve, ser decretada de ofício pelo ofício ofício ofício
juiz ou pelo tribunal. Note-se que, embora uma sentença não
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POLÍCIA CIVIL 2021
Atos Atos condenação, uma vez que o réu foi interrogado antes da
Atos Atos
Absolutamente Relativamente vítima e das testemunhas de acusação.
Inexistentes Irregulares
Nulos Nulos
A falta de CAPÍTULO V
Não se DA PRISÃO CAUTELAR: PRISÃO EM FLAGRANTE,
arguição
Jamais se convalidam PRISÃO PREVENTIVA E PRISÃO TEMPORÁRIA.
oportuna
convalidam pela falta de BASE LEGAL: CPP
acarreta a
arguição DISPOSIÇÕES GERAIS
convalidação

Ainda quanto a nulidades podemos aplicar-lhes os seguintes Art. 282. As medidas cautelares previstas neste Título deverão
princípios: ser aplicadas observando-se a: (Redação dada pela Lei nº
12.403, de 2011).
 Princípio do prejuízo: Nenhum ato será declarado nulo se
da nulidade não resultar prejuízo para acusação ou para a
defesa (art. 563, CPP); I - necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação
ou a instrução criminal e, nos casos expressamente
 Princípio da Instrumentalidade das formas: O ato será
previstos, para evitar a prática de infrações
considerado válido se a sua finalidade for atingida. A
penais; (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011).
finalidade vale mais que a forma. Só se aplica esse princípio
II - adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias
a nulidade relativa. A doutrina reconhece no art. 566, CPP,
do fato e condições pessoais do indiciado ou
uma expressão desse princípio “não será declarada a
acusado. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011).
nulidade do ato processual que não houver influído na
apuração da verdade substancial ou na decisão da causa”;
§ 1o As medidas cautelares poderão ser aplicadas isolada ou
 Princípio da conservação dos atos processuais:
cumulativamente. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011).
Preservação dos atos não decisórios nos casos de
§ 2º As medidas cautelares serão decretadas pelo juiz a
incompetência do juízo (art. 567, CPP);
requerimento das partes ou, quando no curso da investigação
 Princípio do interesse: Nenhuma das partes poderá arguir criminal, por representação da autoridade policial ou mediante
nulidade a que haja dado causa, ou para a qual tenha requerimento do Ministério Público. (Redação dada pela Lei nº
concorrido, ou referente à formalidade cuja observância só 13.964, de 2019)
interesse à parte contrária (art. 565, CPP). A ninguém é dado § 3º Ressalvados os casos de urgência ou de perigo de ineficácia
se beneficiar da própria torpeza. Somente se aplica às da medida, o juiz, ao receber o pedido de medida cautelar,
nulidades relativas; determinará a intimação da parte contrária, para se manifestar
 Princípio da causalidade ou contaminação: A nulidade no prazo de 5 (cinco) dias, acompanhada de cópia do
de um ato, uma vez declarada, causará a dos atos que dele requerimento e das peças necessárias, permanecendo os autos
diretamente dependerem (art. 573, § 1° do CPP). Ao em juízo, e os casos de urgência ou de perigo deverão ser
pronunciar a nulidade de um ato, o juiz deverá declara quais justificados e fundamentados em decisão que contenha
outros atos são afetados (§2°). Não basta o ato ser apenas elementos do caso concreto que justifiquem essa medida
posterior ao ato viciado, é preciso existir nexo causal entre excepcional. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
eles. 2019) (Vigência)
 Princípio da convalidação dos atos processuais: Permite § 4º No caso de descumprimento de qualquer das obrigações
a convalidação ou ratificação de atos processuais eivados de impostas, o juiz, mediante requerimento do Ministério Público,
vícios. Impõe-se a sua expressa previsão legal. Exs: arts. de seu assistente ou do querelante, poderá substituir a medida,
568 a 570, CPP. impor outra em cumulação, ou, em último caso, decretar a
prisão preventiva, nos termos do parágrafo único do art. 312
Atualidades deste Código. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
2019) (Vigência)
 A Lei 13.964/2019 estabeleceu novos contornos e § 5º O juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a
novidades no campo do Direito Penal, inclusive no que diz medida cautelar ou substituí-la quando verificar a falta de
respeito às nulidades. Inovação interessante é o acréscimo motivo para que subsista, bem como voltar a decretá-la, se
do inciso V ao art. 564 do Código de Processo Penal, que sobrevierem razões que a justifiquem. (Redação dada pela Lei
aponta agora que há nulidade em decorrência de decisão nº 13.964, de 2019) (Vigência)
carente de fundamentação. (nulidade de caráter absoluto). § 6º A prisão preventiva somente será determinada quando não
 Nulidade do interrogatório por inversão da ordem é relativa for cabível a sua substituição por outra medida cautelar,
e exige prova de prejuízo para o réu (01/06/2021). A observado o art. 319 deste Código, e o não cabimento da
Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) substituição por outra medida cautelar deverá ser justificado de
reafirmou o entendimento de que a nulidade decorrente da forma fundamentada nos elementos presentes do caso concreto,
inversão da ordem do interrogatório – prevista no artigo de forma individualizada. (Redação dada pela Lei nº 13.964,
400 do Código de Processo Penal (CPP) – é relativa, sujeita de 2019) (Vigência
à preclusão e demanda a demonstração do prejuízo sofrido Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito
pelo réu. O colegiado negou o pedido de revisão criminal de ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária
acórdão da Sexta Turma que, por não observar nenhuma competente, em decorrência de prisão cautelar ou em virtude de
nulidade, manteve em 12 anos de reclusão a condenação de condenação criminal transitada em julgado. (Redação dada
um réu acusado de abuso sexual contra sua sobrinha de nove pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
anos. Para a defesa, houve nulidade absoluta na § 1o As medidas cautelares previstas neste Título não se
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POLÍCIA CIVIL 2021
aplicam à infração a que não for isolada, cumulativa ou § 2o Qualquer agente policial poderá efetuar a prisão decretada,
alternativamente cominada pena privativa de ainda que sem registro no Conselho Nacional de Justiça,
liberdade. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). adotando as precauções necessárias para averiguar a
§ 2o A prisão poderá ser efetuada em qualquer dia e a qualquer autenticidade do mandado e comunicando ao juiz que a
hora, respeitadas as restrições relativas à inviolabilidade do decretou, devendo este providenciar, em seguida, o registro do
domicílio. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). mandado na forma do caput deste artigo. (Incluído pela
Art. 284. Não será permitido o emprego de força, salvo a Lei nº 12.403, de 2011).
indispensável no caso de resistência ou de tentativa de fuga do § 3o A prisão será imediatamente comunicada ao juiz do local
preso. de cumprimento da medida o qual providenciará a certidão
Art. 285. A autoridade que ordenar a prisão fará expedir o extraída do registro do Conselho Nacional de Justiça e
respectivo mandado. informará ao juízo que a decretou. (Incluído pela Lei nº
Parágrafo único. O mandado de prisão: 12.403, de 2011).
§ 4o O preso será informado de seus direitos, nos termos
do inciso LXIII do art. 5o da Constituição Federal e, caso o
a) será lavrado pelo escrivão e assinado pela autoridade; autuado não informe o nome de seu advogado, será comunicado
b) designará a pessoa, que tiver de ser presa, por seu nome, à Defensoria Pública. (Incluído pela Lei nº 12.403, de
alcunha ou sinais característicos; 2011).
c) mencionará a infração penal que motivar a prisão; § 5o Havendo dúvidas das autoridades locais sobre a
d) declarará o valor da fiança arbitrada, quando afiançável a legitimidade da pessoa do executor ou sobre a identidade do
infração; preso, aplica-se o disposto no § 2o do art. 290 deste
e) será dirigido a quem tiver qualidade para dar-lhe execução. Código. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011).
§ 6o O Conselho Nacional de Justiça regulamentará o registro
Art. 286. O mandado será passado em duplicata, e o executor do mandado de prisão a que se refere o caput deste
entregará ao preso, logo depois da prisão, um dos exemplares artigo. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011).
com declaração do dia, hora e lugar da diligência. Da entrega Art. 290. Se o réu, sendo perseguido, passar ao território de
deverá o preso passar recibo no outro exemplar; se recusar, não outro município ou comarca, o executor poderá efetuar lhe a
souber ou não puder escrever, o fato será mencionado em prisão no lugar onde o alcançar, apresentando-o imediatamente
declaração, assinada por duas testemunhas. à autoridade local, que, depois de lavrado, se for o caso, o auto
Art. 287. Se a infração for inafiançável, a falta de exibição do de flagrante, providenciará para a remoção do preso.
mandado não obstará a prisão, e o preso, em tal caso, será § 1o - Entender-se-á que o executor vai em perseguição do réu,
imediatamente apresentado ao juiz que tiver expedido o quando:
mandado, para a realização de audiência de
custódia. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de a) tendo-o avistado, for perseguindo-o sem interrupção,
2019) (Vigência) embora depois o tenha perdido de vista;
Art. 288. Ninguém será recolhido à prisão, sem que seja b) sabendo, por indícios ou informações fidedignas, que o réu
exibido o mandado ao respectivo diretor ou carcereiro, a quem tenha passado, há pouco tempo, em tal ou qual direção, pelo
será entregue cópia assinada pelo executor ou apresentada a lugar em que o procure, for no seu encalço.
guia expedida pela autoridade competente, devendo ser passado
recibo da entrega do preso, com declaração de dia e hora. § 2o Quando as autoridades locais tiverem fundadas razões
Parágrafo único. O recibo poderá ser passado no próprio para duvidar da legitimidade da pessoa do executor ou da
exemplar do mandado, se este for o documento exibido. legalidade do mandado que apresentar, poderão pôr em
Art. 289. Quando o acusado estiver no território nacional, fora custódia o réu, até que fique esclarecida a dúvida.
da jurisdição do juiz processante, será deprecada a sua prisão, Art. 291. A prisão em virtude de mandado entender-se-á feita
devendo constar da precatória o inteiro teor do desde que o executor, fazendo-se conhecer do réu, Ihe apresente
mandado. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011). o mandado e o intime a acompanhá-lo.
§ 1o Havendo urgência, o juiz poderá requisitar a prisão por Art. 292. Se houver, ainda que por parte de terceiros,
qualquer meio de comunicação, do qual deverá constar o resistência à prisão em flagrante ou à determinada por
motivo da prisão, bem como o valor da fiança se autoridade competente, o executor e as pessoas que o
arbitrada. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-
§ 2o A autoridade a quem se fizer a requisição tomará as se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto
precauções necessárias para averiguar a autenticidade da subscrito também por duas testemunhas.
comunicação. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). Parágrafo único. É vedado o uso de algemas em mulheres
§ 3o O juiz processante deverá providenciar a remoção do preso grávidas durante os atos médico-hospitalares preparatórios para
no prazo máximo de 30 (trinta) dias, contados da efetivação da a realização do parto e durante o trabalho de parto, bem como
medida. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). em mulheres durante o período de puerpério
Art. 289-A. O juiz competente providenciará o imediato imediato. (Redação dada pela Lei nº 13.434, de 2017)
registro do mandado de prisão em banco de dados mantido pelo Art. 293. Se o executor do mandado verificar, com segurança,
Conselho Nacional de Justiça para essa que o réu entrou ou se encontra em alguma casa, o morador será
finalidade. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). intimado a entregá-lo, à vista da ordem de prisão. Se não for
§ 1o Qualquer agente policial poderá efetuar a prisão obedecido imediatamente, o executor convocará duas
determinada no mandado de prisão registrado no Conselho testemunhas e, sendo dia, entrará à força na casa, arrombando
Nacional de Justiça, ainda que fora da competência territorial as portas, se preciso; sendo noite, o executor, depois da
do juiz que o expediu. (Incluído pela Lei nº 12.403, de intimação ao morador, se não for atendido, fará guardar todas
2011). as saídas, tornando a casa incomunicável, e, logo que
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POLÍCIA CIVIL 2021
amanheça, arrombará as portas e efetuará a prisão. autoridade, a quem se fizer a requisição, as precauções
Parágrafo único. O morador que se recusar a entregar o réu necessárias para averiguar a autenticidade
oculto em sua casa será levado à presença da autoridade, para desta. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
que se proceda contra ele como for de direito. Art. 300. As pessoas presas provisoriamente ficarão separadas
Art. 294. No caso de prisão em flagrante, observar-se-á o das que já estiverem definitivamente condenadas, nos termos
disposto no artigo anterior, no que for aplicável. da lei de execução penal. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de
Art. 295. Serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial, à 2011).
disposição da autoridade competente, quando sujeitos a prisão Parágrafo único. O militar preso em flagrante delito, após a
antes de condenação definitiva: lavratura dos procedimentos legais, será recolhido a quartel da
instituição a que pertencer, onde ficará preso à disposição das
I - os ministros de Estado; autoridades competentes. (Incluído pela Lei nº 12.403, de
II - os governadores ou interventores de Estados ou 2011).
Territórios, o prefeito do Distrito Federal, seus respectivos
secretários, os prefeitos municipais, os vereadores e os DA PRISÃO EM FLAGRANTE
chefes de Polícia; (Redação dada pela Lei nº 3.181,
de 11.6.1957) Art. 301. Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e
III - os membros do Parlamento Nacional, do Conselho de seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado
Economia Nacional e das Assembleias Legislativas dos em flagrante delito.
Estados; Art. 302. Considera-se em flagrante delito quem:
IV - os cidadãos inscritos no "Livro de Mérito";
V – os oficiais das Forças Armadas e os militares dos Estados, I - está cometendo a infração penal;
do Distrito Federal e dos Territórios; (Redação dada II - acaba de cometê-la;
pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001) III- é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou
VI - os magistrados; por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser
VII - os diplomados por qualquer das faculdades superiores da autor da infração;
República; IV- é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas,
VIII- os ministros de confissão religiosa; objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da
IX - os ministros do Tribunal de Contas; infração.
X - os cidadãos que já tiverem exercido efetivamente a função
de jurado, salvo quando excluídos da lista por motivo de Art. 303. Nas infrações permanentes, entende-se o agente em
incapacidade para o exercício daquela função; flagrante delito enquanto não cessar a permanência.
XI - os delegados de polícia e os guardas-civis dos Estados e Art. 304. Apresentado o preso à autoridade competente, ouvirá
Territórios, ativos e inativos. (Redação dada pela esta o condutor e colherá, desde logo, sua assinatura,
Lei nº 5.126, de 20.9.1966) entregando a este cópia do termo e recibo de entrega do preso.
Em seguida, procederá à oitiva das testemunhas que o
§ 1o A prisão especial, prevista neste Código ou em outras leis, acompanharem e ao interrogatório do acusado sobre a
consiste exclusivamente no recolhimento em local distinto da imputação que lhe é feita, colhendo, após cada oitiva suas
prisão comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, de respectivas assinaturas, lavrando, a autoridade, afinal, o
11.7.2001) auto. (Redação dada pela Lei nº 11.113, de 2005)
§ 2o Não havendo estabelecimento específico para o preso § 1o Resultando das respostas fundada a suspeita contra o
especial, este será recolhido em cela distinta do mesmo conduzido, a autoridade mandará recolhê-lo à prisão, exceto no
estabelecimento. (Incluído pela Lei nº 10.258, de caso de livrar-se solto ou de prestar fiança, e prosseguirá nos
11.7.2001) atos do inquérito ou processo, se para isso for competente; se
§ 3o A cela especial poderá consistir em alojamento coletivo, não o for, enviará os autos à autoridade que o seja.
atendidos os requisitos de salubridade do ambiente, pela § 2o A falta de testemunhas da infração não impedirá o auto de
concorrência dos fatores de aeração, insolação e prisão em flagrante; mas, nesse caso, com o condutor, deverão
condicionamento térmico adequados à existência assiná-lo pelo menos duas pessoas que hajam testemunhado a
humana. (Incluído pela Lei nº 10.258, de 11.7.2001) apresentação do preso à autoridade.
§ 4o O preso especial não será transportado juntamente com o § 3o Quando o acusado se recusar a assinar, não souber ou não
preso comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, de puder fazê-lo, o auto de prisão em flagrante será assinado por
11.7.2001) duas testemunhas, que tenham ouvido sua leitura na presença
§ 5o Os demais direitos e deveres do preso especial serão os deste. (Redação dada pela Lei nº 11.113, de 2005)
mesmos do preso comum. (Incluído pela Lei nº 10.258, § 4o Da lavratura do auto de prisão em flagrante deverá constar
de 11.7.2001) a informação sobre a existência de filhos, respectivas idades e
Art. 296. Os inferiores e praças de pré, onde for possível, serão se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual
recolhidos à prisão, em estabelecimentos militares, de acordo responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa
com os respectivos regulamentos. presa. (Incluído pela Lei nº 13.257, de 2016)
Art. 297. Para o cumprimento de mandado expedido pela Art. 305. Na falta ou no impedimento do escrivão, qualquer
autoridade judiciária, a autoridade policial poderá expedir pessoa designada pela autoridade lavrará o auto, depois de
tantos outros quantos necessários às diligências, devendo neles prestado o compromisso legal.
ser fielmente reproduzido o teor do mandado original. Art. 306. A prisão de qualquer pessoa e o local onde se
Art. 298. (Revogado pela Lei nº 12.403, de 2011). encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente,
Art. 299. A captura poderá ser requisitada, à vista de mandado ao Ministério Público e à família do preso ou à pessoa por ele
judicial, por qualquer meio de comunicação, tomadas pela indicada. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
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POLÍCIA CIVIL 2021
§ 1o Em até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da 13.964, de 2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide
prisão, será encaminhado ao juiz competente o auto de prisão ADI 6.300) (Vide ADI 6.305)
em flagrante e, caso o autuado não informe o nome de seu
advogado, cópia integral para a Defensoria Pública. (Redação DA PRISÃO PREVENTIVA
dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
§ 2o No mesmo prazo, será entregue ao preso, mediante recibo, Art. 311. Em qualquer fase da investigação policial ou do
a nota de culpa, assinada pela autoridade, com o motivo da processo penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz,
prisão, o nome do condutor e os das testemunhas. (Redação a requerimento do Ministério Público, do querelante ou do
dada pela Lei nº 12.403, de 2011). assistente, ou por representação da autoridade
Art. 307. Quando o fato for praticado em presença da policial. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
autoridade, ou contra esta, no exercício de suas funções, 2019) (Vigência)
constarão do auto a narração deste fato, a voz de prisão, as Art. 312. A prisão preventiva poderá ser decretada como
declarações que fizer o preso e os depoimentos das garantia da ordem pública, da ordem econômica, por
testemunhas, sendo tudo assinado pela autoridade, pelo preso e conveniência da instrução criminal ou para assegurar a
pelas testemunhas e remetido imediatamente ao juiz a quem aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do
couber tomar conhecimento do fato delituoso, se não o for a crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo
autoridade que houver presidido o auto. estado de liberdade do imputado. (Redação dada pela Lei nº
Art. 308. Não havendo autoridade no lugar em que se tiver 13.964, de 2019) (Vigência)
efetuado a prisão, o preso será logo apresentado à do lugar mais § 1º A prisão preventiva também poderá ser decretada em caso
próximo. de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por
Art. 309. Se o réu se livrar solto, deverá ser posto em força de outras medidas cautelares (art. 282, § 4o). (Incluído
liberdade, depois de lavrado o auto de prisão em flagrante. pela Lei nº 12.403, de 2011). (Redação dada pela Lei nº
Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo 13.964, de 2019) (Vigência)
máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da § 2º A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser
prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a motivada e fundamentada em receio de perigo e existência
presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a
Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa aplicação da medida adotada. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
audiência, o juiz deverá, fundamentadamente: (Redação 2019) (Vigência)
dada pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a
decretação da prisão preventiva: (Redação dada pela Lei
I- relaxar a prisão ilegal; ou (Incluído pela Lei nº 12.403, de nº 12.403, de 2011).
2011).
II - converter a prisão em flagrante em preventiva, quando I- nos crimes dolosos punidos com pena privativa de
presentes os requisitos constantes do art. 312 deste liberdade máxima superior a 4 (quatro)
Código, e se revelarem inadequadas ou insuficientes as anos; (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
medidas cautelares diversas da prisão; ou (Incluído pela II - se tiver sido condenado por outro crime doloso, em
Lei nº 12.403, de 2011). sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto
III- conceder liberdade provisória, com ou sem no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei no 2.848, de
fiança. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; (Redação
dada pela Lei nº 12.403, de 2011).
§ 1º Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o III – se o crime envolver violência doméstica e familiar contra
agente praticou o fato em qualquer das condições constantes a mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa
dos incisos I, II ou III do caput do art. 23 do Decreto-Lei nº com deficiência, para garantir a execução das medidas
2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), poderá, protetivas de urgência; (Redação dada pela Lei nº
fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade provisória, 12.403, de 2011).
mediante termo de comparecimento obrigatório a todos os atos IV - (Revogado pela Lei nº 12.403, de 2011).
processuais, sob pena de revogação. (Renumerado do
parágrafo único pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) § 1º Também será admitida a prisão preventiva quando houver
§ 2º Se o juiz verificar que o agente é reincidente ou que integra dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não
organização criminosa armada ou milícia, ou que porta arma de fornecer elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o
fogo de uso restrito, deverá denegar a liberdade provisória, com preso ser colocado imediatamente em liberdade após a
ou sem medidas cautelares. (Incluído pela Lei nº 13.964, de identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção
2019) (Vigência) da medida. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). (Redação
§ 3º A autoridade que deu causa, sem motivação idônea, à não dada pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
realização da audiência de custódia no prazo estabelecido § 2º Não será admitida a decretação da prisão preventiva com a
no caput deste artigo responderá administrativa, civil e finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como
penalmente pela omissão. (Incluído pela Lei nº 13.964, de decorrência imediata de investigação criminal ou da
2019) (Vigência) apresentação ou recebimento de denúncia. (Incluído pela
§ 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
prazo estabelecido no caput deste artigo, a não realização de Art. 314. A prisão preventiva em nenhum caso será decretada
audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também se o juiz verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente
a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade praticado o fato nas condições previstas nos incisos I, II e III
competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata do caput do art. 23 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro
decretação de prisão preventiva. (Incluído pela Lei nº de 1940 - Código Penal. (Redação dada pela Lei nº
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POLÍCIA CIVIL 2021
12.403, de 2011). policial;
Art. 315. A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão II - quando o indicado não tiver residência fixa ou não fornecer
preventiva será sempre motivada e fundamentada. (Redação elementos necessários ao esclarecimento de sua identidade;
dada pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) III- quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer
§ 1º Na motivação da decretação da prisão preventiva ou de prova admitida na legislação penal, de autoria ou
qualquer outra cautelar, o juiz deverá indicar concretamente a participação do indiciado nos seguintes crimes:
existência de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a
aplicação da medida adotada. (Incluído pela Lei nº 13.964, a) homicídio doloso (art. 121, caput, e seu § 2°);
de 2019) (Vigência) b) sequestro ou cárcere privado (art. 148, caput, e seus §§ 1° e
§ 2º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, 2°);
seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (Incluído c) roubo (art. 157, caput, e seus §§ 1°, 2° e 3°);
pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) d) extorsão (art. 158, caput, e seus §§ 1° e 2°);
e) extorsão mediante sequestro (art. 159, caput, e seus §§ 1°,
I- limitar-se à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato 2° e 3°);
normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a f) estupro (art. 213, caput, e sua combinação com o art. 223,
questão decidida; (Incluído pela Lei nº 13.964, de caput, e parágrafo único); (Vide Decreto-Lei nº 2.848, de
2019) (Vigência) 1940)
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem g) atentado violento ao pudor (art. 214, caput, e sua
explicar o motivo concreto de sua incidência no combinação com o art. 223, caput, e parágrafo
caso; (Incluído pela Lei nº 13.964, de único); (Vide Decreto-Lei nº 2.848, de 1940)
2019) (Vigência) h) rapto violento (art. 219, e sua combinação com o art. 223
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer caput, e parágrafo único); (Vide Decreto-Lei nº 2.848,
outra decisão; (Incluído pela Lei nº 13.964, de de 1940)
2019) (Vigência) i) epidemia com resultado de morte (art. 267, § 1°);
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo j) envenenamento de água potável ou substância alimentícia
capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo ou medicinal qualificado pela morte (art. 270, caput,
julgador; (Incluído pela Lei nº 13.964, de combinado com art. 285);
2019) (Vigência) l) quadrilha ou bando (art. 288), todos do Código Penal;
V- limitar-se a invocar precedente ou enunciado de súmula, m) genocídio (arts. 1°, 2° e 3° da Lei n° 2.889, de 1° de outubro
sem identificar seus fundamentos determinantes nem de 1956), em qualquer de sua formas típicas;
demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles n) tráfico de drogas (art. 12 da Lei n° 6.368, de 21 de outubro
fundamentos; (Incluído pela Lei nº 13.964, de de 1976);
2019) (Vigência) o) crimes contra o sistema financeiro (Lei n° 7.492, de 16 de
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou junho de 1986).
precedente invocado pela parte, sem demonstrar a p) crimes previstos na Lei de Terrorismo. (Incluído pela Lei nº
existência de distinção no caso em julgamento ou a 13.260, de 2016)
superação do entendimento. (Incluído pela Lei nº
13.964, de 2019) (Vigência) Art. 2° A prisão temporária será decretada pelo Juiz, em face
da representação da autoridade policial ou de requerimento do
Art. 316. O juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, Ministério Público, e terá o prazo de 5 (cinco) dias, prorrogável
revogar a prisão preventiva se, no correr da investigação ou do por igual período em caso de extrema e comprovada
processo, verificar a falta de motivo para que ela subsista, bem necessidade.
como novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a § 1° Na hipótese de representação da autoridade policial, o Juiz,
justifiquem. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de antes de decidir, ouvirá o Ministério Público.
2019) (Vigência) § 2° O despacho que decretar a prisão temporária deverá ser
Parágrafo único. Decretada a prisão preventiva, deverá o órgão fundamentado e prolatado dentro do prazo de 24 (vinte e
emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção a quatro) horas, contadas a partir do recebimento da
cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de representação ou do requerimento.
ofício, sob pena de tornar a prisão ilegal. (Incluído pela Lei § 3° O Juiz poderá, de ofício, ou a requerimento do Ministério
nº 13.964, de 2019) (Vigência) Público e do Advogado, determinar que o preso lhe seja
apresentado, solicitar informações e esclarecimentos da
BASE LEGAL: LEI 7.960/1989 autoridade policial e submetê-lo a exame de corpo de delito.
§ 4° Decretada a prisão temporária, expedir-se-á mandado de
LEI Nº 7.960, DE 21 DE DEZEMBRO DE 1989. prisão, em duas vias, uma das quais será entregue ao indiciado
e servirá como nota de culpa.
Conversão da Medida Provisória nº § 4º-A O mandado de prisão conterá necessariamente o período
111, de 1989 Dispõe sobre prisão de duração da prisão temporária estabelecido no caput deste
(Vide Lei nº 13.869, detemporária. artigo, bem como o dia em que o preso deverá ser
2019) (Vigência) libertado. (Incluído pela Lei nº 13.869. de 2019)
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o § 5° A prisão somente poderá ser executada depois da
Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: expedição de mandado judicial.
Art. 1° Caberá prisão temporária: § 6° Efetuada a prisão, a autoridade policial informará o preso
dos direitos previstos no art. 5° da Constituição Federal.
I - quando imprescindível para as investigações do inquérito § 7º Decorrido o prazo contido no mandado de prisão, a
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POLÍCIA CIVIL 2021
autoridade responsável pela custódia deverá, segunda exceção é prevista no art. 5º, inciso XI, em que se
independentemente de nova ordem da autoridade judicial, pôr determina que, somente haverá prisão durante a noite
imediatamente o preso em liberdade, salvo se já tiver sido (predomina o critério físico astronômico pelo qual noite é o
comunicada da prorrogação da prisão temporária ou da período entre a aurora e o crepúsculo) quando houver flagrante
decretação da prisão preventiva. (Incluído pela Lei nº 13.869. delito (próprio, segundo a doutrina majorante) ou desastre, para
de 2019) prestar socorro, ou com a autorização do morador. Por sua vez,
§ 8º Inclui-se o dia do cumprimento do mandado de prisão no durante o dia, serão possíveis todas as prisões elencadas
cômputo do prazo de prisão temporária. (Redação dada pela anteriormente e ainda aquelas em que se detenha a autorização
Lei nº 13.869. de 2019) judicial. Ver-se, pois, que não estando no asilo inviolável da
Art. 3° Os presos temporários deverão permanecer, casa, mas na rua, por exemplo, a pessoa poderá ser presa em
obrigatoriamente, separados dos demais detentos. qualquer hora, de dia ou de noite.
Art. 4° O art. 4° da Lei n° 4.898, de 9 de dezembro de 1965, Vale denotar que os estabelecimentos prisionais são
fica acrescido da alínea i, com a seguinte redação: peculiares a cada um dos tipos de prisão. Assim, a cadeia
"Art. 4° ............................................................... pública é destinada aos presos provisórios ao passo que a
i) prolongar a execução de prisão temporária, de pena ou de penitenciária é destinada aos presos definitivamente
medida de segurança, deixando de expedir em tempo oportuno condenados ao regime fechado e as colônias agrícolas ou
ou de cumprir imediatamente ordem de liberdade;" industriais destinam-se ao regime semiaberto e, por último, a
Art. 5° Em todas as comarcas e seções judiciárias haverá um casa do albergado ao regime aberto.
plantão permanente de vinte e quatro horas do Poder Judiciário Doutrinariamente, as prisões se subdividem em Prisão
e do Ministério Público para apreciação dos pedidos de prisão Pena, ou seja, aquela que decorre de sentença condenatória
temporária. transitada em julgado e Prisão Processual que consiste naquela
Art. 6° Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. decretada antes do trânsito em julgado da sentença
Art. 7° Revogam-se as disposições em contrário. condenatória o que, segundo a Súmula 09 do STJ, não ofende o
Brasília, 21 de dezembro de 1989; 168° da Independência e princípio da presunção de inocência.
101° da República. Na fase processual deve-se favorecer a sociedade,
enquanto no julgamento protege o réu (in dubio pro reo).
JOSÉ SARNEY No que concerne ainda ao tema em comento deve-se
J. Saulo Ramos lembrar que, com a edição da Lei 12.403/2011 deixaram de
existir outras modalidades de prisão cautelar diversas da prisão
preventiva (arts. 312 e 313 do CPP) e prisão temporária (Lei
7.960/89). Desse modo, a prisão para apelar, a prisão decorrente
CAPÍTULO V de sentença condenatória recorrível, a prisão da sentença de
pronúncia e a prisão administrativa estão fora do sistema
DA PRISÃO CAUTELAR: DA PRISÃO EM processual penal brasileiro.
FLAGRANTE, PRISÃO PREVENTIVA e PRISÃO
TEMPORÁRIA. Por outro lado, com o advento da Lei 13.964/2019 uma nova
prisão surgiu, está presente no art. 492, Inciso I, alínea “e” do
1. Introdução CPP, sendo a prisão por condenação no Tribunal do Júri, sendo
2.Conceito de Prisão a sua ocorrência condicionada à pena imposta maior que 15
3.Espécies de Prisão anos, sendo decretada tão somente quando presentes os
3.1Prisão Pena requisitos da prisão preventiva.
3.2Prisão Cautelar ou Processual Tal prisão tem caráter excepcional e deve ser devidamente
3.2.1Prisão em Flagrante fundamentado (como todas as decisões em decorrência do art.
- Generalidades (Noções gerais, atualidades, audiência de 93, IX da CF/88), sendo que o dispositivo sofreu uma
custódia, mandado de Prisão, auto de Prisão em Flagrante regulamentação expressa através da Lei 13.964/2019, com a
e nota de Culpa). inclusão do art. 311 aos 316 do CPP, em que se exige uma
- Tipos de Flagrante fundamentação e fundamentação mais concreta, nos termos do
- Impossibilidade de Flagrante dispositivo. Não basta apenas citar por exemplo o Supremo
3.2.2 Prisão Preventiva Tribunal Federal, ou artigo, ou súmula requerendo-se uma
3.2.3 Prisão Temporária maior consistência.
Importante frisar que no final de 2019, o STF (Supremo
1. Introdução Tribunal Federal) mudou entendimento vigente desde 2016 e
A Constituição Federal no art. 5º, LXI, diz o seguinte: passou a proibir a execução antecipada da pena. Quem defendia
“ninguém será preso a não ser em flagrante delito ou por ordem essa alteração destacava que ela contribuia para a diminuição
escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, da impunidade. Entre os que a criticavam, a avaliação é a de
salvo nos casos de transgressão militar que ocorre que a mudança via CPP é inconstitucional.
independentemente de autorização judiciária. Nesse passo, vale Tal é o entendimento trazido com a nova redação do art.283
dizer que, a prisão pode ser realizada em qualquer dia e hora, após a Lei 13.964/2019.
inclusive em feriado e durante a noite exceto as seguintes Art. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito
exceções: a primeira diz respeito ao período eleitoral, sendo ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária
vedada a prisão de qualquer eleitor nos 5 dias que antecedem e competente, em decorrência de prisão cautelar ou em virtude de
nas 48 horas posteriores a eleição, salvo nas hipóteses de condenação criminal transitada em julgado. (Redação dada
flagrante delito, sentença penal condenatória por crime pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
inafiançável ou por descumprimento de salvo-conduto. A
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POLÍCIA CIVIL 2021
2.Conceito de Prisão - é a privação da liberdade de locomoção hipóteses, como nos crimes habituais.
por motivo lícito ou por ordem legal. A prisão em flagrante é a exclusiva modalidade de prisão
processual que independe de autorização escrita e baseada da
3.Espécies de Prisão: autoridade judiciária adequada no ordenamento jurídico, de
acordo com o exposto no art. 5.º, inciso LXI, da Constituição
3.1 Prisão Pena – tem a finalidade repressiva e ocorre com o Federal/88.
trânsito em julgado da sentença condenatória em que se impôs Art. 5º [...] LXI – ninguém será preso senão em flagrante delito
pena privativa de liberdade; ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária
3.2 Prisão Cautelar ou Processual – é a prisão cautelar em competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime
sentido amplo. propriamente militar, definidos em lei (CF, 1988).
Conforme definição do artigo 302 do Código de Processo
A prisão cautelar, é uma espécie de prisão que é Penal, diz que “não precisa de ordem judicial e pode ser
decretada antes do trânsito em julgado da sentença penal efetivada por qualquer pessoa, que deverá proporcionar o preso
condenatória para garantir que as investigações ou o próprio imediatamente a uma autoridade policial para a lavratura do
processo atinjam seu objetivo. auto de prisão”. O art. 302 do Código de Processo Penal cita as
O que a lei quer evitar ao prever hipóteses de privação quatro situações em que ocorre a situação flagrâncias:
da liberdade mesmo antes de uma condenação definitiva é a Artigo 302. Considera-se em flagrante delito quem:
frustração dessa investigação ou desse processo. É por tal
motivo que as espécies de prisão cautelar são referidas como I - está cometendo a infração penal;
prisões de natureza instrumental. II - acaba de cometê-la;
A prisão cautelar, é uma espécie de prisão que é III - é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou
decretada antes do trânsito em julgado da sentença penal por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser
condenatória para garantir que as investigações ou o próprio autor da infração;
processo atinjam seu objetivo. IV - são encontrados, logo depois, com instrumentos, armas,
Assim, ver-se que a prisão cautelar é sempre objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da
excepcional e não pode ser usada para fazer que o réu ou infração.
investigado cumpra a pena do delito que a ele está sendo Cabe ressaltar que a prisão em flagrante não ocorre de maneira
imputado antes do trânsito em julgado da sentença automática, e por qualquer pessoa, ao passo que não se permite
condenatória. que qualquer pessoa prenda alguém e a coloque em uma cadeia
Após a edição da Lei 12.403/2011, o sujeito passou a ou prisão. Pelo contrário, o que se permite nos dispositivos do
somente ser preso em três situações: flagrante delito, prisão art. 302 do CPP, é que se conduza alguém à Autoridade Policial
preventiva e prisão temporária. Mas, somente poderá (delegado), este sim deliberará sobre o caso, e se entender se
permanecer preso nas duas últimas, não existindo mais a prisão tratar de flagrante (existência de delito e flagrante), determinará
em flagrante como hipótese de prisão cautelar garantidora do a prisão em flagrante, quando for o caso arbitrando fiança,
processo. sendo a medida sempre fundamentada.
Ninguém responde mais preso à processo em virtude
da prisão em flagrante. À época da edição da Lei 12.403/2011, De acordo com Renato Brasileiro Lima, a prisão em
a prisão em flagrante, necessariamente se converteria em prisão flagrante se presta a quatro funções.
preventiva ou em liberdade provisória. A primeira função é a de evitar que o sujeito fuja.
Também visa a facilitar a colheita de elementos de informação
3.2.1 Prisão em Flagrante que serão úteis à elucidação das circunstâncias que envolvem
o cometimento do delito.
 Generalidades Na hipótese do Art. 302, I do CPP, acima transcrito,
a prisão em flagrante se coloca como óbice à consumação da
Após a Lei 13.964/2019 a prisão em flagrante passou infração que está sendo praticada ou, no que diz respeito às
a ser entendida como a prisão de natureza “precautelar”, que demais alíneas do dispositivo legal em questão, ao
se apresenta como ferramenta de preservação social, admitindo exaurimento do delito.
o encarceramento daquele que acaba de cometer um delito e A prisão em flagrante pode ainda impedir que o preso
está prevista no art. 5º, LXI, da CF, e nos artigos 301 a 310 do seja vítima de ataques contra sua integridade física.
CPP. O agente preso em flagrante é levado à autoridade
Isto, pois, com o advento da Lei nº 13.964/2019, a policial e em seguida procede-se à lavratura do auto de prisão
prisão em flagrante perdeu status de prisão cautelar, pois foi em flagrante.
consolidado a necessidade de realização de audiência de
custódia, antes que o indivíduo seja recolhido à prisão, O referido autor destaca, porém, que em se tratando do
conforme disposto no art. 310 do CPP, nos exatos termos: cometimento de uma contravenção penal e de crimes de
Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo menor potencial ofensivo, o auto de prisão em flagrante
máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da poderá ser substituído pelo termo circunstanciado de
prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a ocorrência. Isso está previsto no Art. 69, caput e parágrafo
presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da único da Lei nº 9.099/1995, que dispõe também acerca do
Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa afastamento do efetivo recolhimento à prisão caso se
audiência, o juiz deverá, fundamentadamente: (Redação dada verifiquem algumas condições:
pela Lei nº 13.964, de 2019) (..) Art. 69. A autoridade policial que tomar conhecimento da
A prisão em flagrante é possível em quase todas as ocorrência lavrará termo circunstanciado e o encaminhará
espécies de delitos, não ocorrendo apenas em algumas imediatamente ao Juizado, com o autor do fato e a vítima,
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POLÍCIA CIVIL 2021
providenciando-se as requisições dos exames periciais realização da audiência de custódia no prazo estabelecido
necessários. no caput deste artigo responderá administrativa, civil e
Parágrafo único. Ao autor do fato que, após a lavratura do penalmente pela omissão. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
termo, for imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir 2019) (Vigência)
o compromisso de a ele comparecer, não se imporá prisão em § 4º Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do
flagrante, nem se exigirá fiança. Em caso de violência prazo estabelecido no caput deste artigo, a não realização de
doméstica, o juiz poderá determinar, como medida de cautela, audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também
seu afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade
a vítima. competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata
Em seguida, é necessário comunicar à autoridade decretação de prisão preventiva. (Incluído pela Lei nº
judiciária de que a prisão em flagrante ocorreu. Impõe-se o 13.964, de 2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide
prazo de 24 horas para que essa comunicação seja feita. ADI 6.300) (Vide ADI 6.305)
Por sua vez, o juiz determina a realização de audiência O doutrinador Renato Brasileiro de Lima define a define como
de custódia em até 24 horas desde que tomou conhecimento sendo “uma medida de autodefesa da sociedade, resultante da
da prisão. A autoridade judiciária verifica se as exigências segregação cautelar daquele que é surpreendido nas hipóteses
legais foram observadas em todas as etapas. de flagrância e aconselha a desnecessidade da ordem judicial”.
De acordo com o Art. 310, I do CPP, o juiz poderá (2012, pg. 187).
concluir que a prisão foi ilegal, devendo determinar seu Em que pese as alterações trazidas pela Lei 13.964/2019,
relaxamento. quanto à prisão em flagrante afirma Oliveira Filho:
Nos casos de constatação de flagrante em situações de
 Atualidades: excludente de ilicitude, o juiz pode conceder a liberdade
provisória com a obrigatoriedade de comparecimento a todos
O art.304 do CPP foi alterado pela Lei 13.257/2016 como os atos da persecução;
segue: Nos casos de flagrante em que for verificada participação do
... autuado em organização criminosa armada ou milícia, ou nos
§ 4o Da lavratura do auto de prisão em flagrante deverá constar casos de porte de arma de fogo de uso restrito, será denegada a
a informação sobre a existência de filhos, respectivas idades e liberdade provisória;
se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual A autoridade que der causa a não realização de audiência de
responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa custódia em 24 horas responderá civil, penal e
presa. (Incluído pela Lei nº 13.257, de 2016). administrativamente.
Por sua vez o art. 310 do CPP foi amplamente modificado A prisão em flagrante, então, ostenta o status de medida
pela Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime) como vemos abaixo cautelar, precisamente delimitada no tempo. É que, cumpridas
Art. 310. Após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo as suas funções, a manutenção do cárcere reclamará ordem
máximo de até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da escrita e fundamentada da autoridade judiciária, nos temos da
prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia com a Constituição da República (art. 5º).
presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da A não realização de audiência de custódia em 24 horas enseja o
Defensoria Pública e o membro do Ministério Público, e, nessa relaxamento da prisão, sem prejuízo à possibilidade de
audiência, o juiz deverá, fundamentadamente: (Redação decretação de prisão preventiva. (OLIVEIRA FILHO, 2020).
dada pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) A nova lei (13.964/2019) trouxe à baila a previsão
literal e legal da audiência de custódia. Ao receber o auto de
I - relaxar a prisão ilegal; ou (Incluído pela Lei nº 12.403, de prisão em flagrante, no prazo máximo de 24 (vinte e quatro)
2011). horas, após a realização do flagrante, o juiz deverá promover a
II- converter a prisão em flagrante em preventiva, quando audiência de custódia com a presença do acusado, seu defensor
presentes os requisitos constantes do art. 312 deste Código, ou membro da defensoria pública- ou dativo- e o membro do
e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas Ministério Público; momento esse em que juiz poderá,
cautelares diversas da prisão; ou (Incluído pela Lei fundamentadamente: se verificar pelo auto de prisão em
nº 12.403, de 2011). flagrante, que o agente praticou o fato em qual quer das
III- conceder liberdade provisória, com ou sem condições dos incisos I, II ou III do caput do art. 23 do Código
fiança. (Incluído pela Lei nº 12.403, de 2011). Penal, poderá, fundamentadamente conceder ao acusado
liberdade provisória, mediante termo de comparecimento
§ 1º Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o obrigatório a todos os atos processuais, sob pena de revogação;
agente praticou o fato em qualquer das condições constantes verificando a existência de reincidência, ou que custodiado
dos incisos I, II ou III do caput do art. 23 do Decreto-Lei nº integra organização criminosa armada ou milícia, ou que porta
2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), poderá, arma de fogo de uso restrito, deverá denegar a liberdade
fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade provisória, provisória, com ou sem medidas cautelares . Note-se, que a teor
mediante termo de comparecimento obrigatório a todos os atos da lei, o juiz, constatando reincidência a participação em
processuais, sob pena de revogação. (Renumerado do organização criminosa ou milícia, ou ainda que o custodiado
parágrafo único pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência) porte arma de fogo de uso restrito, será caso obrigatório,
§ 2º Se o juiz verificar que o agente é reincidente ou que integra segundo a letra fria da lei, de denegação da liberdade provisória.
organização criminosa armada ou milícia, ou que porta arma de Neste ponto, nos parece que há clara inconstitucionalidade na
fogo de uso restrito, deverá denegar a liberdade provisória, com lei, pois não observa os princípios constitucionais da
ou sem medidas cautelares. (Incluído pela Lei nº 13.964, de individualização da pena e da presunção de inocência, entre
2019) (Vigência) outros.
§ 3º A autoridade que deu causa, sem motivação idônea, à não
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POLÍCIA CIVIL 2021
A autoridade que eventualmente der causa, sem Ao conceder o habeas corpus, o relator apontou que,
motivação idônea, para a não realização da audiência no prazo ainda que não tenha sido realizada a audiência de custódia –
estabelecido no caput, responderá, agora, administrativa e ou que o MP não tenha participado do ato –, a prisão não pode
penalmente pela sua omissão. ser decretada de ofício, já que o pedido respectivo deve ser feito
Tornou-se hipótese de obrigatório relaxamento da independentemente da audiência.
prisão quando, transcorrido o prazo de 24 (vinte e quatro) horas, Segundo o magistrado, as novas disposições trazidas pela Lei
previsto no caput, não seja realizada a audiência de custódia, 13.964/2019 criam para o Ministério Público e a polícia "a
desde que para sua não realização não haja motivação idônea, obrigação de se estruturarem de modo a atender os novos
em razão de que será a prisão tida como ilegal. Não obstante, deveres que lhes foram impostos".
permanece a possibilidade de imediata decretação da prisão  Audiências de Custódia
preventiva.
Seja na fase investigatória ou processual caberá a Lançadas em 2015, as audiências de custódia
prisão preventiva. No entanto, não há mais a possibilidade de consistem na rápida apresentação da pessoa, que foi presa, a um
decretação da mesma de ofício pelo magistrado, devendo, juiz, durante uma audiência onde também são ouvidos
necessariamente haver requerimento das partes, seja o Ministério Público, Defensoria Pública ou advogado do preso.
Ministério Público, o Querelante ou o assistente da acuação, ou O juiz analisa a prisão sob o aspecto da legalidade e a
ainda por representação da autoridade policial. Mais uma vez regularidade do flagrante, da necessidade e da adequação da
fica clara a implantação de um modelo acusatório puro ao continuidade da prisão, de se aplicar alguma medida cautelar e
Código de Processo Penal, não mais misto. qual seria cabível, ou da eventual concessão de liberdade, com
ou sem a imposição de outras medidas cautelares. A análise
 Jurisprudência do STJ: avalia, ainda, eventuais ocorrências de tortura ou de maus-
tratos, entre outras irregularidades.
“Com a vigência da Lei 13.964/2019 (conhecida como A implementação das audiências de custódia está prevista em
Pacote Anticrime), não é mais possível a conversão da prisão pactos e tratados internacionais de direitos humanos
em flagrante em preventiva sem provocação do Ministério internalizados pelo Brasil, como o Pacto Internacional de
Público, da autoridade policial, do assistente ou do querelante, Direitos Civis e Políticos e a Convenção Americana de Direitos
mesmo nas situações em que não é realizada a audiência de Humanos. Além disso, a realização das audiências de custódia
custódia. foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal ao julgar, em
O entendimento foi fixado por maioria de votos pela 2015, a ADI 5240 e a ADPF 347.
Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao Vale dizer que a imprescindibilidade da audiência de
conceder habeas corpus a um homem preso em flagrante sob custódia (ou de
acusação de tráfico de drogas. Na decisão, além de considerar apresentação) tem o beneplácito do magistério jurisprudencial
ilegal a conversão da prisão em flagrante em preventiva, o do
colegiado entendeu ter havido ilegalidade na obtenção das Supremo Tribunal Federal (ADPF 347-MC/DF) e, também, do
provas, devido à forma de ingresso dos policiais na residência ordenamento positivo doméstico (Lei nº 13.964/2019 e
do suspeito. Resolução
Segundo o relator do recurso em habeas corpus, CNJ nº 213/2015), não podendo deixar de realizar-se,
ministro Sebastião Reis Júnior, o artigo 282, parágrafo 2º, do ressalvada motivação
Código de Processo Penal – na redação dada pelo Pacote idônea, sob pena de tríplice responsabilidade do magistrado que
Anticrime – vincula a decretação de medida cautelar pelo juiz deixar de
ao requerimento das partes ou, durante a investigação, à realizar.
representação da autoridade policial ou ao pedido do MP.
No mesmo sentido, o magistrado destacou que o artigo A ausência da realização da audiência de custódia (ou
311 do CPP (também alterado pela Lei 13.964/2019) é de
expresso ao vincular a decretação da prisão preventiva à apresentação), tendo em vista a sua essencialidade e
solicitação do MP, do querelante ou do assistente, ou à considerando os fins a
representação da autoridade policial. que se destina, qualifica-se como causa geradora da ilegalidade
Para o relator, não há diferença entre a conversão do da própria
flagrante e a decretação da preventiva como primeira prisão. prisão em flagrante, com o consequente relaxamento da
"A prisão preventiva não é uma consequência natural da prisão privação cautelar
em flagrante; logo, é uma situação nova que deve respeitar o da liberdade individual da pessoa sob o poder do Estado.
disposto, em especial, nos artigos 311 e 312 do CPP.
Sebastião Reis Júnior considerou que o juiz pode Em relação à audiência de custódia deve-se destacar
converter a prisão em flagrante em preventiva desde que, conforme amplamente veiculado na impressa nacional,
atendidas as hipóteses do artigo 312 e não sendo possível especialmente no site Direito News, a posição do STF:
adotar medidas cautelares mais brandas, haja pedido expresso “O Plenário Virtual do Supremo Tribunal Federal
por parte do MP, da polícia, do assistente ou do querelante. começou a julgar no dia 30/06/2021 uma ação direta de
Em seu voto, o ministro citou precedentes no sentido inconstitucionalidade para avaliar a constitucionalidade do
de que a Lei 13.964/2019, ao suprimir a expressão "de ofício" parágrafo 1º do artigo 3-B do Código de Processo Penal
que havia no artigo 282, parágrafo 2º, e no artigo 311 do CPP, (CPP), inserido pelo pacote anticrime (Lei 13.964/2019), que
vedou, de forma absoluta, a decretação da preventiva sem veda a promoção de audiência de custódia por
prévia solicitação das partes legitimadas – não sendo mais videoconferência. A ação foi proposta pela AMB - Associação
possível, portanto, a atuação de ofício do juiz em matéria de dos Magistrados Brasileiros contra o parágrafo 1º do artigo 3-
privação legal da liberdade. B do CPP, inserido pelo pacote anticrime (lei 13.964/19).
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POLÍCIA CIVIL 2021
Segundo a alteração, o preso em flagrante ou por mandado de mediante
prisão provisória será encaminhado a um juiz de garantias no requerimento do Ministério Público”, não mais sendo lícita,
prazo de 24 horas para uma audiência, com a presença do portanto,
Ministério Público e da Defensoria Pública ou de advogado, com base no ordenamento jurídico vigente, a atuação “ex
vedado o uso de videoconferência. officio” do Juízo
processante em tema de privação cautelar da liberdade.
O Ministro Nunes Marque é o relator da ADI que julga
a possibilidade de audiências de custódia por videoconferência A interpretação do art. 310, II, do CPP deve ser
realizada à luz dos
O referido ministro, relator da matéria, deferiu arts. 282, §§ 2º e 4º, e 311, do mesmo estatuto processual penal,
liminar para suspender a eficácia da vedação e autorizar as a
audiências de custódia de forma virtual, enquanto durar a significar que se tornou inviável, mesmo no contexto da
pandemia de Covid-19. audiência de
Para o relator, no atual contexto pandêmico em que custódia, a conversão, de ofício, da prisão em flagrante de
vivemos, a audiência de custódia por videoconferência é a qualquer pessoa.
medida mais adequada possível, ressaltando-se que, a despeito
de sua relevância, em razão da pandemia, muitas vezes, ela não A conversão da prisão em flagrante em prisão
tem sido feita. Então, é melhor que ocorra por preventiva, no
videoconferência do que simplesmente não ocorra de forma contexto da audiência de custódia, somente se legitima se e
alguma. quando
Para Nunes Marques, a realização da audiência houver, por parte do Ministério Público ou da autoridade
presencial, no atual contexto, coloca em risco os direitos policial (ou do
fundamentais à vida e à integridade física. querelante, quando for o caso), pedido expresso e inequívoco
O relator enfatizou, ainda, que, num contexto de dirigido ao
normalidade, a imposição até poderia ser aceitável, pois os Juízo competente, pois não se presume – independentemente da
contatos presenciais estabelecem uma relação comunicativa gravidade.
mais ampla. Porém, esse não é esse o caso dos autos, uma vez ...
que a lei foi editada no ambiente da pandemia. A conversão da prisão em flagrante em prisão
A realização da audiência presencial, nesse contexto, preventiva, no
coloca em risco os direitos fundamentais à vida e à integridade contexto da audiência de custódia, somente se legitima se e
física de todos os participantes do ato, inclusive do próprio quando
preso", ressaltou. Segundo o ministro, o direito do preso de ser houver, por parte do Ministério Público ou da autoridade
ouvido pode ser assegurado de outra maneira, sem oferecer policial (ou do
riscos à saúde.” querelante, quando for o caso), pedido expresso e inequívoco
dirigido ao
Em julho de 2021 a maioria do STF validou audiências de Juízo competente, pois não se presume – independentemente da
custódia por videoconferência. gravidade “08/10/2021

Vejamos outras Decisões do STF: Para reverter os efeitos da Lei n. 13.964/2019, o


Congresso Nacional debate o Projeto de Lei 1473/2021, que
“ A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) autoriza a realização das audiências de custódia por
decidiu que a ausência de realização de audiência de custódia videoconferência, seguindo as diretrizes da resolução do CNJ.
constitui irregularidade a ser sanada, mas não conduz à O texto, que já foi aprovado pelo Senado, tramita na Câmara
automática revogação da prisão preventiva, cabendo ao juízo dos Deputados.
da causa promover análise acerca da presença dos requisitos
autorizadores da medida extrema”. HC 198896 - Órgão  Tipos de flagrantes:
julgador: Segunda Turma Relator(a): Min. EDSON FACHIN
Julgamento: 14/06/2021 Nesse passo, têm-se as seguintes modalidades de flagrante:

“ O Supremo Tribunal Federal estabeleceu que a Flagrante próprio (art. 302, I e II, CPP) – é o flagrante
audiência de custódia deve ser feita em até 24 horas após a propriamente dito, acontece quando a pessoa está cometendo a
prisão, como forma de respeito à direitos fundamentais. Com infração ou acabou de cometê-la. O que o gera em tese é a
esse entendimento, o ministro Alexandre de Moraes determinou certeza visual do crime e uma quase imediatidade.
que a Justiça do Ceará promova, nesse prazo, audiência de
custódia de um preso.18/07/2021. Flagrante impróprio (art. 302, III) – se houver perseguição
contínua por parte de qualquer pessoa ou autoridade policial
“ A Lei nº 13.964/2019, ao suprimir a expressão “de contra o acusado, ainda que circunstancialmente se perca de
ofício” que vista o réu, ele poderá ser preso em flagrante, quando for
constava do art. 282, §§ 2º e 4º, e do art. 311, todos do Código encontrado, como por exemplo, três ou cinco dias depois do
de Processo Penal, vedou, de forma absoluta, a decretação da delito. Nesse tipo de flagrante tem-se a certeza visual, mas não
prisão preventiva sem o se opera a prisão naquele instante, não se tendo a certeza fática
prévio “requerimento das partes ou, quando no curso da sobre a autoria. Esse tipo de prisão na prática tem sido uma
investigação grande fonte de abusos da autoridade policial. O entendimento
criminal, por representação da autoridade policial ou jurisprudencial é de que quando o acusado se apresenta de livre
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POLÍCIA CIVIL 2021
e espontânea vontade não pode ser preso em flagrante. A agente a cometer o delito e, ao mesmo tempo, providencia para
expressão logo após não significa 24 horas, mas sim um período que o delito não possa se consumar como ocorre no caso de um
de tempo razoável para haver a colheita de provas sobre quem policial infiltrado disfarçadamente numa quadrilha praticante
é o autor e iniciar a perseguição. Tempo e lugar próximos da de assaltos. Tal possibilidade se afigura, segundo a súmula 145
infração penal. A perseguição após ser iniciada tem que ser do STF, hipóteses de crime impossível, sendo impossível a
contínua, não podendo ser interrompida. Deve ser destacado prisão da pessoa induzida nessas circunstâncias por ser conduta
que a perseguição deve ser iniciada até seis a oito horas após o atípica. Existe o flagrante preparado que é aquele armado esse
crime segundo a jurisprudência dominante. não é oculto, e o flagrante esperado é aquele que se sabe que
Flagrante presumido ou ficto (art. 302, IV) – é tão ou mais vai acontecer esse é válido. O insigne mestre Nelson Hungria
complicado do que o impróprio. Quando alguém é encontrado entendia que no caso do flagrante preparado ocorre um crime
com armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele o de ensaio ou de experiência, sendo que os protagonistas
autor da infração. Neste caso não há perseguição, pois o agente participaram na verdade de uma comédia.
é encontrado, por acaso ou não, com a posse de coisas que se
presume como autor de um delito acabado de cometer. Flagrante Forjado – Nessa hipótese, o agente não cometeu
nenhum crime, mas foi incriminado por terceiro. Destarte, se
O sujeito que está em uma situação que se amolda ao alguém propositalmente coloca substância entorpecente no
descrito nos dispositivos acima pode ser preso em flagrante sem veículo de outrem comunicando depois a autoridade policial,
que se faça necessária autorização judicial. promovendo o crime de denunciação caluniosa e, se provocado
por autoridade policial também responderá por abuso de
Os incisos I e II do artigo acima apresentam hipóteses autoridade nos termos da Lei 4.898/65.
de flagrante próprio. O inciso III descreve o flagrante
impróprio, enquanto que o inciso IV traz o flagrante Flagrante Obrigatório: autoridades policiais e seus agentes
presumido. que presenciarem a prática de crime tem o dever de dar voz de
prisão.
A redação do dispositivo costuma causar certa
confusão na hora de diferenciar o flagrante impróprio do Flagrante Facultativo: qualquer do povo pode prender quem
presumido. Consoante Lima, a expressão logo após, referente se encontrar em flagrante delito.
às situações de flagrante impróprio, significa que a
perseguição foi iniciada logo após a ocorrência do delito e que  Impossibilidade do flagrante
perdurou, sem interrupções, até a captura do agente.
Em regra, todos os crimes admitem a prisão em
Segundo Renato Brasileiro Lima a doutrina entende flagrante, ainda que se trate de ação penal privada, desde que
que na hipótese de flagrante presumido, a expressão logo com a devida autorização da vítima. Entretanto, o Código de
depois deve ser interpretada como se compreendesse um Trânsito Brasileiro proíbe a prisão do motorista que socorre a
intervalo de tempo maior que a expressão utilizada para vítima de acidente de trânsito por ele provocado. Diga-se ainda,
descrever o flagrante impróprio. que o Código Eleitoral ao vedar a prisão nos 5 dias que
antecedem as eleições até às 48 horas após o encerramento da
O autor, porém, discorda da interpretação, defendendo votação não se estende às prisões em flagrante. Por sua vez, a
que a diferença entre os dois tipos de flagrante se dá devido a Lei 9.099/95(Juizados Especiais) não apresenta nenhum
ter havido perseguição no caso do inciso III enquanto que para dispositivo vedando a prisão em flagrante, não sendo apenas
configurar a situação descrita no inciso IV apenas se exige que lavrado o respectivo auto de prisão.
o agente seja encontrado nas condições enumeradas.
Concordamos com esta última posição. Embora esta seja a regra (admissibilidade)
excepcionalmente caracteriza-se como impossível o flagrante
Flagrante Esperado – Nesse tipo de flagrante não existe nas seguintes hipóteses:
vontade viciada por obra do agente provocador como ocorre no
caso de flagrante preparado. Exemplo dado pela doutrina acerca 1. O Presidente da República;
dessa hipótese ocorre quando um policial se infiltra numa 2. O menor de 18 anos (são apenas apreendidos)
quadrilha que irá realizar um assalto a um determinado banco e 3. Os Diplomatas estrangeiros
avisa aos demais policiais que ali aguardam o início do roubo
para poderem agir e realizar as prisões correlatas. Por outro lado, não podem ser presos em flagrante, por
crimes afiançáveis, os Deputados Federais e Estaduais e
Flagrante Retardado –Tal espécie de flagrante foi uma Senadores; Os Juízes e Promotores de Justiça e os Advogados,
criação da Lei nº 9.034/95 em que se permite à polícia retardar sendo que, estes últimos somente quando o crime for cometido
a prisão em flagrante de crimes praticados por organizações no desempenho de suas atividades profissionais.
criminosas (crime organizado), desde que a atividade dos
agentes seja mantida sob a observação e acompanhamento, Observações importantes:
sendo exceção ao artigo 301, 2ª parte, do CPP que determina a
prisão no exato momento do flagrante. Destarte, a lei acaba por  Todas as formas de prisão são cumpridas mediante
permitir que a autoridade policial atrase o momento da prisão mandado exceto a prisão em flagrante; a prisão por
para que consiga melhores provas contra os autores do delito. transgressão militar ou a prisão durante o estado de defesa
ou de sítio (art.139, II da CF). Não se deve esquecer que é
Flagrante Preparado ou Provocado – é aquele que ocorre inadmissível a prisão para averiguação, visto que constitui
quando um terceiro, denominado agente provocador induz o abuso de autoridade nos termos da Lei nº 4.898/65.
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POLÍCIA CIVIL 2021
 Não existe prisão em flagrante nas hipóteses de crimes em Flagrante entende-se que, se é de 24 horas para que seja
culposos e contravenções penais. entregue ao preso a nota de culpa (documento assinado pela
 Estando o juiz fora da jurisdição deverá expedir Carta autoridade, com o motivo da prisão, o nome do condutor, e os
Precatória para que o juiz do local de onde se encontrar o das testemunhas sendo que sua falta motivo para o relaxamento
réu determine a execução da prisão. Diga-se ainda, que, da prisão), também esse será o prazo máximo para lavratura do
nesse caso, sendo preso em outro município, o executor da auto de prisão em flagrante. Ver-se que, a lavratura do auto de
prisão deverá apresentá-lo imediatamente à autoridade do prisão em flagrante não é um ato automático da autoridade
local da prisão, sendo esta última a autoridade competente policial competente, porque tem que estar presentes os
para lavrar o auto de prisão em flagrante, embora não o pressupostos da certeza absoluta da materialidade do crime e
fazendo não se enseja a nulidade da prisão mais apenas a indícios mínimos de autoria. Outrossim, deve ser comunicada a
responsabilidade do executor. prisão à família do preso ou a pessoa por ele indicada, a fim de
que possibilite a estas que tomem as providências que
• Princípio da inocência entenderem necessárias (art. 5º LXIII CF).Diga-se ainda que no
auto de prisão em flagrante, serão ouvidas as seguintes pessoas,
A despeito do princípio da presunção de inocência, a nesta ordem (art. 304 CPP): condutor, testemunhas
Constituição Federal não impede a prisão em flagrante instrumentárias de instrução e acusado. Após, o escrivão
(processual). Devido ao ilícito ser patente e se concretizar a lavrará o auto que será assinado pela autoridade, condutor,
certeza visual do crime, há cabimento a prisão em flagrante que ofendido, testemunhas, pelo preso, que se recusar ou não puder
permite a prisão do autor, sem mandado, ou seja, é uma fazê-lo, será suprida por duas testemunhas de apresentação, seu
providência administrativa acautelatória da prova da curador ou defensor. Diga-se ainda, que a “incompetência” da
materialidade do fato e da respectiva autoria (arts. 301 e 302 autoridade policial que lavrou o auto não será causa para sua
CPP e art. 5º LVII e LXI CF). nulidade visto tratar-se de aspecto meramente administrativo.
Nas situações legais (art. 302 e 303 CPP) em que há a
notitia criminis e estando presentes os pressupostos, a Não se deve esquecer que as únicas autoridades que
autoridade está obrigada à lavratura do competente auto de podem presidir o auto de prisão em flagrante são o delegado de
prisão, tendo em vista o princípio da obrigatoriedade ou da polícia; o juiz de direito e as autoridades administrativas
legalidade da ação penal (art. 24 CPP), exceto quando se legitimadas a instaurar o inquérito, não podendo tal
verificar a hipótese de crime organizado, isto é, das infrações legitimidade ser extensiva a autoridade do Ministério Público.
que resultem de ações de quadrilha ou bando (Lei nº 9.034/95). Lembre-se que se a autoridade policial for o condutor não
Observação: nas infrações de natureza permanente, entende-se poderá presidir o auto. Vale salientar ainda que, na hipótese de
o agente em flagrante delito enquanto não cassar permanência o preso não estar em condições de ser interrogado (ex: preso
(ex. cárcere privado, sequestro). De outro lado, a situação não ferido) tal ato será feito em momento posterior.
é a mesma no caso de crime habitual, pois a prisão em flagrante
exige a prova da reiteração de atos que traduzem o No que concerne ao auto de prisão em flagrante
comportamento criminoso. houveram algumas mudanças trazidas com a Lei 11.113, que
foi publicada no dia 13 de maio de 2005 que alterou a redação
• Sujeitos do flagrante do art. 304, do Código de Processo Penal, referente sobre a
lavratura do auto de prisão em flagrante.
No que concerne aos sujeitos do flagrante entende-se
que qualquer do povo poderá (faculdade) e as autoridades A redação anterior de tal artigo determinava que
policiais e seus agentes deverão (obrigatoriedade) prender primeiro se lavrasse todo o auto de prisão e flagrante, ou seja,
quem seja encontrado em flagrante delito (art. 302 CPP).Em que se reduzisse a termo o depoimento do condutor, do acusado,
seguida, efetuada a prisão em flagrante, o capturado, para que da vítima e das testemunhas, para que, depois, as pessoas
seja procedida a autuação, deve ser apresentado à autoridade ouvidas assinassem o documento, ao final deste. Com isso, a
competente, que no caso, é a autoridade policial no exercício de elaboração do respectivo auto demandava tempo e o policial
uma das funções primordiais da polícia judiciária da condutor tinha que permanecer na delegacia até o final da
circunscrição onde foi efetuada a prisão (não a do local do lavratura do termo para assinar. Com a nova redação do art.
crime), ou a do local mais próximo, quando naquele lugar não 304, do CPP, estabeleceu-se que, primeiramente, se tome o
houver autoridade (arts. 290 e 308 CPP). depoimento do condutor e que, ao final deste, colha-lhe a sua
assinatura, liberando-o para a realização de suas atividades
• Mandado de prisão e auto de prisão em flagrante laborais. Em seguida, proceda-se da mesma forma com as
demais pessoas, ou seja, oitiva das testemunhas que
No que tange ao mandado de prisão deve ser lavrado acompanharam a prisão e o interrogatório do preso, colhendo
pelo escrivão e assinado pela autoridade competente, após cada depoimento a respectiva assinatura.
designando a pessoa que tiver de ser presa, por seu nome ou
sinais característicos, mencionando-se a infração penal Tal procedimento determinava, portanto, que as pessoas
motivadora da sanção bem como declarando o valor da fiança ouvidas permanecessem na delegacia até o momento final.
quando cabível. É mister que se diga que, o mandado será Agora, basta que as testemunhas instrumentárias ouçam a
passado em duas vias, devendo uma ser entregue ao preso, logo leitura do auto na presença apenas do acusado. Diga-se ainda,
depois da prisão e, no caso específico de crimes inafiançáveis, que, havendo a oitiva do conduzido não precisa mais este ser
embora deva sempre existir mandado é posição predominante acompanhado de curador face o atual Código Civil bem como
de que não se faz necessária a exibição. a Lei 10.792/2003 quando for menor de 21 anos como ocorria
anteriormente.
Em que pese o prazo para lavratura do Auto de Prisão
63
POLÍCIA CIVIL 2021
Caso o crime praticado pelo detido seja afiançável, ou conhecimento de recursos que vierem a ser interpostos.
seja, não constitua racismo, tortura, tráfico de entorpecentes, Nos demais casos (condenação inferior a 15 anos), a
terrorismo, crime hediondo, crime contra o Estado de Direito, prisão é facultativa, isto é, requer cautelaridade.
que o investigado não tenha quebrado fiança anteriormente, Na hipótese de o juiz decretar a prisão preventiva de
violado as restrições de direito da fiança, sido detido por ofício (sem requerimento) a prisão deverá ser relaxada por se
mandado cível ou militar, que não haja causas para a tratar de prisão ilegal, mas deve-se fazer um friso excepcional:
determinação da prisão preventiva, e, por fim, que a pena Segundo o STJ (5ª Turma. AgRg RHC 136.708/MS, Rel. Min.
cominada ao crime não seja superior a quatro anos, deverá a Felix Fisher, julgado em 11/03/2021). (Info 691), se, após a
autoridade policial conceder fiança ao averiguado. Vale decretação, a autoridade policial ou o Ministério Público
salientar que, via de regra, a autoridade terá poucas requererem a manutenção da prisão, o vício de ilegalidade que
oportunidades para fixar fiança, pois, caso o crime praticado maculava a custódia é suprido (convalidado) e a prisão não será
seja classificado como de menor potencial ofensivo, o autor se relaxada.
livrará da detenção apenas assumindo o compromisso de
comparecer ao juizado especial criminal. Assim, a autoridade Será admitida conforme o Art. 313 do CPP:
concederá fiança nos crimes apenas entre dois e quatros de
pena, seja ela e reclusão ou detenção.  Nos crimes dolosos punidos com pena privativa de
liberdade máxima superior a 4 (quatro) anos;
3.2.3. Prisão preventiva  Se tiver sido condenado por outro crime doloso, em
A Prisão preventiva é uma medida cautelar, sentença transitada em julgado, ressalvado o disposto no
constituída pela privação de liberdade do acusado como autor inciso do art.64 do Código Penal.
do crime e decretada pelo juiz, antes do trânsito em julgado da  Se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a
sentença condenatória. É uma medida facultativa, devendo ser mulher, criança, adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com
decretada apenas quando necessária segundo os requisitos deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas
legais. Vale dizer que, na atualidade brasileira, depois do de urgência.
advento da Constituição de 1988, a liberdade provisória passou
a ser a regra e a prisão cautelar, a exceção. Em outros termos, a A prisão preventiva NÃO poderá ser admitida:
maioria dos réus respondem ao processo soltos sendo presos
 Com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena
apenas quando houver razões determinantes para o juiz
ou como decorrência imediata de investigação criminal ou
determinar a prisão provisória e, dentre elas, a preventiva.
da apresentação ou recebimento de denúncia. (art.313, § 2º
A prisão preventiva pode ser decretada em qualquer fase, tanto
do CPP).
do inquérito policial, quanto da ação penal desde que requerida
pelo Ministério Público, o querelante ou o assistente, ou ainda
A prisão preventiva NÃO poderá ser decretada:
por representação da autoridade conforme a nova redação do
art.311 do CPP dado pela Lei 13.964/2019.  Nas hipóteses excludentes de ilicitude previstas no art.23,
incisos, e do CP, quais sejam, estado de necessidade,
A prisão preventiva poderá ser decretada nas seguintes legítima defesa e em estrito cumprimento de dever legal ou
hipóteses descritas no art.312 e 313 do CPP: no exercício regular de direito. (art.314, caput, do CPP).
 Quando se tratar de contravenção penal, segundo a
 Garantia da ordem pública ou da ordem econômica;
Jurisprudência do STJ.
 Por conveniência da instrução criminal;
A decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão
 Para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver preventiva será sempre motivada e fundamentada conforme o
prova da existência do crime e indício suficiente de autoria art.315 do CPP, devendo-se frisar que, na motivação da
e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado; decretação da prisão preventiva ou de qualquer outra cautelar,
 Nos casos de descumprimento de qualquer das obrigações o juiz deverá indicar concretamente a existência de fatos novos
impostas por força de outras medidas cautelares § 1º do art. ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida
312 do CPP. adotada.
 Também será admitida a prisão preventiva quando houver Deve-se ainda lembrar que existem algumas situações
dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não em que as decisões, sejam elas interlocutória, sentença ou
fornecer elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o acórdão não serão consideradas fundamentadas segundo o
preso ser colocado imediatamente em liberdade após a art.315, §2º do CPP:
identificação, salvo se outra hipótese recomendar a
manutenção da medida conforme disposto no parágrafo  limitar-se à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato
primeiro do art.313 do CPP. normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a
questão decidida;
Importante destacar que, conforme a nova Lei  empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar
13.964/2019 a prisão preventiva será obrigatória, isto é, sem o motivo concreto de sua incidência no caso;
cautelaridade (CPP, art. 492) para os crimes dolosos contra a
 invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer
vida, de competência do tribunal do júri, conforme a gravidade
outra decisão;
da pena aplicada
 não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo
Com efeito, ao ser proferida sentença condenatória
capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo
pelo júri, o juiz-presidente determinará (art. 492, I, e), no caso
julgador;
de condenação a uma pena igual ou superior a 15 (quinze) anos
de reclusão, a execução provisória das penas, com expedição  limitar-se a invocar precedente ou enunciado de súmula,
do mandado de prisão, se for o caso, sem prejuízo do sem identificar seus fundamentos determinantes nem

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POLÍCIA CIVIL 2021
demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles (quatro) anos; reincidência, caso o crime envolva violência
fundamentos; doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente,
 deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a
precedente invocado pela parte, sem demonstrar a execução das medidas protetivas de urgência;
existência de distinção no caso em julgamento ou a Também será admitida a prisão preventiva quando
superação do entendimento. houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta
Perceba que em todos esses casos, a revogação da não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o
prisão preventiva se dará por falta de fundamentação, pois não preso ser colocado imediatamente em liberdade após a
será considerada fundamentada se não observadas as exigências identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção
legais mencionadas. da medida.
A prisão preventiva poderá ser revogada, de ofício A partir da edição da Lei 12.403/2011, as pessoas que
ou a pedido das partes, havendo durante a investigação ou cometerem crimes leves - punidos com menos de quatro anos
durante o processo, a falta de motivo para que ela subsista, bem de prisão - e que nunca foram condenadas por outro delito só
como novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a serão presas em último caso. É o que prevê a Lei nº
justifiquem. 12.403/2011, que altera 32 artigos do Código de Processo
Diferente da decretação da prisão preventiva, a sua Penal.
revogação pode ser decretada de ofício pelo magistrado. Antes do advento da citada legislação, ao processado
Isso se deve ao fato de este ato ser benéfico ao acusado. Assim, pela justiça pública, havia três situações possíveis com relação
o juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a prisão à sua liberdade ambulatorial:
preventiva se, no correr da investigação ou do processo,
verificar a falta de motivo para que ela subsista, bem como a) Sendo preso em flagrante delito, estando presentes os
novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a justifiquem. fundamentos da prisão preventiva, o magistrado oficiante
Nesse passo, uma importante mudança trazida com a determinaria sua manutenção cautelar, até nova deliberação
Lei 13.964/2019 foi a criação do parágrafo único do artigo 316 judicial;
do CPP, que dispõe: b) Sendo preso em flagrância, ausentes os requisitos da prisão
cautelar, ser-lhe-ia concedida liberdade provisória, sem
Parágrafo único. Decretada a prisão preventiva, deverá o fiança, bastando que o acusado comparecesse aos atos
órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua processuais regularmente;
manutenção a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão c) Sendo preso em flagrância, ausentes os requisitos da prisão
fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão cautelar, mediante fiança, seria lhe concedida liberdade
ilegal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) provisória, contudo, sujeita à diversas restrições gravosas,
Tal alteração implica dizer que, a prisão preventiva, será como impossibilidade de se ausentar da comarca etc.
reavaliada a cada 90 (noventa) dias, o que lhe garante um viés
mais justo e equilibrado. Anteriormente, quem se enquadrava nesses casos ou
Outros pontos que merecem ser destacados quanto à era encaminhado à prisão, caso o juiz entendesse que a pessoa
prisão preventiva: poderia oferecer riscos à sociedade ao longo do andamento do
processo, ou era solto. Com as alterações, nove possibilidades
 Recursos cabíveis entram em vigor. As medidas alternativas, entretanto, podem
Em que pese o aspecto recursal ver-se que contra a decisão que ser suspensas e a prisão decretada se houver descumprimento
denega ou que revoga a prisão preventiva cabe recurso em da pena. O texto determina ainda que se a soma das penas
sentido estrito. Da decisão que decreta a referida prisão é ultrapassar quatro anos, cabe a prisão preventiva.
cabível Habeas Corpus com fundamento em constrangimento De acordo com a referida lei, a prisão preventiva só
ilegal, decorrente da inadmissibilidade da medida amparada em pode ser decretada quando a pessoa já tiver sido condenada; em
falta de fundamentação adequada, na inexistência de casos de violência doméstica; e quando houver dúvida sobre a
pressupostos, etc. identidade do acusado.

 Requisitos, fundamentos e hipóteses de admissibilidade.  Medidas Cautelares


A prisão preventiva poderá ser decretada por É importante destacar que a prisão preventiva deve ser
requerimento do ministério público, do querelante, do preterida nos casos em que seja possível aplicar qualquer das
assistente, por representação da autoridade policial, nunca de medidas cautelares diversas da prisão enunciadas nos Arts.
ofício pelo juiz como acontecia antes da Lei 13.964/2019, em 319 e 320 do CPP.
qualquer fase da investigação e da ação penal, desde que
presentes: O Art. 282, §6º do CPP impõe ao magistrado que justifique de
a) Requisitos: elementos da autoria e a materialidade do crime; maneira adequada o motivo pelo qual decidiu decretar a prisão
b) Fundamentos: Garantia da ordem pública, da ordem preventiva, reforçando o direcionamento que dá preferência à
econômica, conveniência da instrução processual penal, adoção das mencionadas medidas, conforme ver-se abaixo:
garantia da aplicação da lei penal quando houver prova da Art. 282. As medidas cautelares previstas neste Título deverão
existência do crime e indício suficiente de autoria e de ser aplicadas observando-se a:
perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado e [...]
descumprimento de medidas cautelares ou dúvida quanto a § 6º A prisão preventiva somente será determinada quando não
identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer for cabível a sua substituição por outra medida cautelar,
elementos suficientes para esclarecê-la, observado o art. 319 deste Código, e o não cabimento da
c) Hipóteses de admissibilidade: Nos crimes dolosos punidos substituição por outra medida cautelar deverá ser justificado
com pena privativa de liberdade máxima superior à 4 de forma fundamentada nos elementos presentes do caso
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POLÍCIA CIVIL 2021
concreto, de forma individualizada. regular de direito (causas excludentes de ilicitude - art. 23 e
Lima explica que se o juiz entender incabível a aplicação das incisos do CPB).
referidas medidas, deverá verificar ainda se estão presentes os  Sua decretação ou negação deve ser fundamentada, cabendo
requisitos do Art. 313 do CPP para enfim determinar a prisão recurso em sentido estrito contra despacho que indeferir o
preventiva do investigado ou réu. seu requerimento. Lembre-se que a apresentação
Considerando as hipóteses restritas e os diversos requisitos espontânea do acusado não impede sua decretação.
que se impõem à decretação da prisão preventiva, não é de se  O fato de alguém ter residência ou trabalho fixos, ou não ter
espantar que as circunstâncias do caso concreto podem se antecedentes criminais, não é suficiente para evitar a prisão
alterar e rapidamente deixar de justificar sua determinação. preventiva.
 O novo Código de Processo Penal que está sendo produzido
Em que pese às medidas cautelares vale dizer que o inclui a reincidência e a extrema gravidade do fato à lista de
não cabimento da substituição por outra medida cautelar deverá fatores que permitem a prisão preventiva, que passará,
ser justificado de forma fundamentada nos elementos presentes segundo o projeto, a ter prazo máximo de 740 dias. Na
do caso concreto, de forma individualizada. prática, porém, tal fato não está em vigor.
Portanto há agora a obrigação de o magistrado
justificar, de forma individualizada e mais amplamente  Jurisprudência do STJ – PRISÃO PREVENTIVA
fundamentada as razões da não aplicabilidade das medidas “As novas regras da prisão preventiva são o tema
cautelares, e a necessidade de decretação o da prisão mais frequente na jurisprudência do STJ em torno da Lei
preventiva. Não basta mais a mera alegação da gravidade do Anticrime. Em uma série de julgados, as turmas penais vêm
delito, como era amplamente realizado pelos magistrados em consolidando o entendimento de que a Lei 13.964/2019 – nos
suas decretações de prisão em detrimento das medidas termos da redação conferida ao artigo 315 do CPP – exige
cautelares. expressamente que a imposição de preventiva ou de qualquer
As medidas cautelares, como o advento da nova lei, só outra cautelar deve estar fundamentada em motivação
podem ser decretadas a pedido das partes, ou, quando no curso concreta relacionada a fatos novos ou contemporâneos e na
da investigação criminal, por representação da autoridade demonstração da imprescindibilidade da medida restritiva.
policial ou mediante requerimento do Ministério Público, não O princípio da contemporaneidade foi aplicado pela
podendo mais o magistrado decretá-las de ofício. Sexta Turma para conceder, por unanimidade, habeas corpus
Não obstante, quanto à revogação ou substituição da (HC 553.310) relatado pela ministra Laurita Vaz a uma então
medida cautelar, poderá o juiz de ofício ou a requerimento das vereadora de Bertioga (SP), denunciada pela suposta prática
partes, revogar a medida cautelar ou substituí-la, quando do crime de concussão no seu gabinete parlamentar.
verificar a falta de motivo para que subsista, bem como voltar Segundo o Ministério Público de São Paulo, entre
a decretá-la, quando sobrevierem razões que a justifiquem. O 2013 e 2014, ela teria exigido de dois assessores parte de sua
juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a medida remuneração mensal, totalizando cerca de R$ 42 mil. Em razão
cautelar ou substituí-la quando verificar a falta de motivo para da denúncia, a ex-vereadora foi afastada do cargo pelo juízo
que subsista, bem como voltar a decretá-la, se sobrevierem de primeiro grau.
razões que a justifiquem. Ao apreciar o caso, a Sexta Turma revogou a suspensão do
exercício da função pública. De acordo com a ministra Laurita
 Atualidades: Vaz, não houve fatos recentes que justificassem a
Antes da lei 13.964/2019 a prisão preventiva não tinha prazos, implementação da cautelar. Como destacou a ministra, o
com a nova lei o juiz deverá analisar os casos a cada 90 afastamento do cargo foi determinado mais de cinco anos
(noventa) dias, ou seja, de 03 (três) em 03 (três) meses para depois dos episódios narrados na denúncia.
verificar se permanecem os fundamentos que se decretou a "Em que pese, de fato, a gravidade e a reprovabilidade das
prisão. condutas imputadas à paciente, verifica-se que não foi
Essa revisão será de oficio, o Ministério Público também demonstrada, na espécie, a indispensabilidade atual da
poderá pedir a manutenção da prisão e isso invocará maior restrição, nos termos do parágrafo 1º do artigo 315 do Código
celeridade nos processos. O juiz deverá também fundamentar, de Processo Penal, incluído pela Lei 13.964/2019", concluiu.
ou seja, explicar o motivo da permanência dos pressupostos da “ Revisão periódica. Ainda em matéria de prisão
prisão preventiva sob pena de a prisão tornar-se ilegal; caso preventiva, o STJ firmou entendimento sobre a norma inscrita
então de relaxamento da mesma e caso se constate que não no parágrafo único do artigo 316 do CPP, nos termos da Lei
permanecem os motivos, o juiz deverá fazer de ofício o alvará Anticrime. O dispositivo inovou ao estabelecer a necessidade
de soltura, ou decretar outra medida cautelar mais branda. de revisão da segregação cautelar a cada 90 dias. De acordo
com a edição 680 do Informativo de Jurisprudência, uma das
Observações importantes: teses delimitadas é a de que a obrigação de rever a preventiva
 Nesta fase não se exige prova plena, desde que se demonstre de três em três meses vale apenas para o juiz ou o tribunal que
a probabilidade do réu ou indiciado ter sido o autor do fato impuser a custódia provisória.
delituoso. A dúvida milita em favor da sociedade, e não do No caso concreto, a Sexta Turma, por unanimidade,
réu (princípio in dubio pro societate). A prisão preventiva negou habeas corpus (HC 589.544) em que um homem
tem por fundamentos para o requisito da tutela cautelar o condenado em primeira e segunda instâncias pelo cometimento
periculum in mora. do crime de extorsão questionava o fato de o Tribunal de
 A prisão preventiva não poderá ser executada em até cinco Justiça de Santa Catarina não ter revisado a prisão preventiva
dias antes e quarenta e oito horas depois das eleições (art. decretada pelo juízo de primeiro grau.
236, Código Eleitoral). A relatora do habeas corpus, ministra
 É vedada nos casos de Estado de Necessidade, Legítima Laurita Vaz, enfatizou que o Pacote Anticrime é literal ao
Defesa, estrito cumprimento do dever legal e exercício atribuir exclusivamente ao órgão emissor da decisão o dever
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POLÍCIA CIVIL 2021
de reavaliar a prisão cautelar. "A inovação legislativa se objetivo principal garantir a realização dos atos investigativos
apresenta como uma forma de evitar o prolongamento da imprescindíveis para o inquérito policial, não podendo ser
medida cautelar extrema, por prazo indeterminado, sem confundida com a prisão preventiva, medida cautelar destinada
formação da culpa", comentou. ao processo penal.
Também no tocante à regra da revisão da preventiva O cabimento dessa espécie de prisão cautelar, que só
a cada 90 dias – inserida no artigo 316 do CPP –, o STJ vem pode ser decretada pela autoridade judiciária, fica restrito à fase
compreendendo que a inovação processual da Lei 13.964/2019 de investigações. O objetivo da prisão temporária é assegurar o
não resulta em soltura automática em caso de eventual atraso êxito da colheita de elementos de informação diante da
na reavaliação da conveniência da segregação provisória. ocorrência de alguns crimes em específico.
Esses crimes estão listados no Art. 1º, III da Lei nº
3.2.3. Prisão Temporária 7.960/1989 e na Lei nº 8.072/1990, que define os crimes
A prisão temporária é uma espécie de prisão hediondos. Também cabe prisão temporária para agentes que
cautelar, regulamentada pela lei 7.960/1989, decretada pelo juiz estejam sendo investigados pela prática de crimes equiparados
durante o inquérito policial, contra aquele que o Estado suspeita aos hediondos, conforme disposto no Art. 2º, §4º da Lei nº
ter cometido algum delito. Para que ocorra é necessário haver 8.072/1990:
representação da autoridade policial ou requerimento do
Ministério Público, devendo, em ambos os casos, existir Art. 2º Os crimes hediondos, a prática da tortura, o tráfico
fundamentação para tal. A decretação da prisão temporária ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo são
somente poderá ser dada pelo juiz, no prazo de 24 horas, insuscetíveis de:
contados do recebimento da representação ou do requerimento [...]
do MP, devendo também a decisão judicial ser fundamentada, § 4o A prisão temporária, sobre a qual dispõe a Lei no 7.960,
incorrendo em nulidade caso não seja. de 21 de dezembro de 1989, nos crimes previstos neste artigo,
O mandado de prisão deve conter dados fundamentais terá o prazo de 30 (trinta) dias, prorrogável por igual período
para o trâmite processual, como a descrição precisa da pessoa em caso de extrema e comprovada necessidade.
contra quem é expedido; o prazo da prisão; a infração penal que Frise-se que, o prazo de trinta dias, diz respeito
justifica a prisão temporária; além de ser dirigido para quem somente à prisão temporária nos crimes hediondos e aos que a
tiver qualidade e responsabilidade legal de efetuar o ato, no esses se equiparam! A Lei nº 7.960/1989 traz o prazo de cinco
caso, a autoridade policial. O mandado é expedido em duas dias para essa espécie de prisão nos crimes aos quais se refere.
vias, sendo uma delas do acusado, servindo como nota de culpa. O pedido prisão temporária é um recurso que pode ser
Para os casos em que o acusado se recusar a recebê-lo, duas utilizado pelo Ministério Público ou pela polícia, a fim de
pessoas testemunharão a entrega do documento. conseguir levantar as provas necessárias para que o pedido de
Para os crimes comuns, o tempo máximo da prisão prisão preventiva seja realizado.
temporária é de 5 dias e para os crimes hediondos, de 30 dias, De acordo com a Lei 7.960, caberá a prisão temporária
sendo ambos passíveis de prorrogação por igual período, desde aos seguintes casos:
que comprovada a necessidade. Diante do esgotamento do
tempo de prisão temporária, a soltura do preso deve ser feita  quando imprescindível para as investigações do inquérito
imediatamente, podendo haver causa para abuso de autoridade policial;
se isso não for feito.  quando o indicado não tiver residência fixa ou não fornecer
É válido mencionar também que o juiz poderá, antes elementos necessários ao esclarecimento de sua identidade;
do esgotamento do prazo de prisão temporária, decretar prisão  quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer
preventiva, através de encaminhamento ao Ministério Público prova admitida na legislação penal, de autoria ou
ou à autoridade policial, caso queira (e deve haver participação do indicado nos crimes relacionados pela lei.
fundamentação para isso) que o preso não seja posto em
Portanto, para que a prisão temporária seja adotada,
liberdade. O período de prisão temporária também poderá ser
consideram-se três pressupostos básicos:
computado para fins de detração penal, que significa um
abatimento na pena privativa de liberdade ou na medida de 1- Prova da existência do crime
segurança, do tempo de prisão provisória, administrativa ou 2- Indício suficiente de autoria
internação provisória. O abatimento se dá na pena definitiva 3- Ineficácia ou impossibilidade de aplicar medida cautelar
aplicada.
Há alguns requisitos que devem ser observados para Esse prazo de cinco dias também pode ser prorrogado
que haja a prisão temporária, como a importância por igual período. A doutrina em sua maioria entende que a
imprescindível para as investigações do inquérito policial; o prorrogação não é automática nem para os crimes listados na
indiciado não ter residência fixa ou não fornecer elementos Lei nº 7.960/1989 nem para os crimes hediondos e equiparados.
necessários para o esclarecimento de sua identidade; e houver A autoridade judiciária só poderá prorrogar o prazo se o
fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida na requerente trouxer novos elementos, colhidos enquanto o prazo
legislação penal, de autoria ou participação do indiciados nas inicial da prisão temporária estava em curso.
seguintes modalidades de crimes: homicídio doloso, sequestro A decretação da prisão temporária dependerá do
ou cárcere privado, roubo, extorsão mediante sequestro, atendimento aos requisitos elencados no Art. 1º da já citada Lei
estupro, rapto violento, epidemia com resultado morte, nº 7.960/1989.
envenenamento da água potável ou substância alimentícia Quanto a quais os requisitos que seriam necessários
medicinal qualificado pela morte, quadrilha ou bando, tráfico para a determinação da prisão temporária, a posição doutrinária
de drogas e crimes contra o sistema financeiro. dominante referente a Lei nº 7.960/1989 é a de que o Art. 1º,
Cumpre ainda mencionar que a prisão temporária, por III da Lei nº 7.960/1989 é de observância obrigatória,
mais que seja uma espécie de prisão cautelar, tem como impondo-se ainda que a ele sejam cumulados os requisitos

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POLÍCIA CIVIL 2021
listados no inciso I ou aqueles enumerados no inciso II do critérios para o cabimento da prisão temporária. Fachin
mesmo artigo. acompanhou a divergência com ressalva de não conjugar a lei
de prisão temporária com o CPP.
A Lei da Prisão Temporária prevê que esse recurso seja A ADIn 4.109 foi proposta pelo PTB e a ADIn 3.360
aplicado, aos seguintes crimes: pelo PSL, ambas contra a lei 7.960/89, que disciplina a prisão
temporária. Na ação, o partido destaca que "a prisão
– Homicídio doloso temporária, conhecida como prisão para averiguações, foi
– sequestro ou cárcere privado rejeitada pelo governo dos militares, por haver sido
– roubo considerada flagrantemente antidemocrática."
– extorsão Acrescenta ainda que a redação imprecisa da lei
– extorsão mediante sequestro provoca controvérsias no meio jurídico e, além de agredir a
– estupro garantia do devido processo legal, ultrapassa a razoabilidade
– atentado violento ao pudor dos objetivos que busca. Outro argumento do PTB é de que "a
– rapto violento prisão temporária serve, de fato, para produzir tão somente
– epidemia com resultado de morte grande repercussão na mídia, gerando a falsa impressão de
– envenenamento de água potável ou substância alimentícia que tudo foi resolvido".
ou medicinal qualificado pela morte Assim, pede que o STF declare a inconstitucionalidade
– quadrilha ou bando da lei 7.960/89, com as alterações produzidas pelas leis
– genocídio, em qualquer de suas formas típicas 8.072/90 e 11.464/07.
– tráfico de drogas Após determinar que a ação será decidida em caráter
– crimes contra o sistema financeiro definitivo, o ministro Gilmar Mendes encaminhou o processo à
– crimes previstos na Lei de Terrorismo AGU, para que se manifeste. O PGR Antonio Fernando Souza
opinou pelo não-conhecimento da ação.
 Atualidades:
Posição do STF quanto as audiências de custódia em Cumulação dos incisos
todas as prisões, inclusive as temporárias conforme segue: A relatora, Cármen Lúcia considerou a previsão legal
“STF – Audiência de custódia obrigatória em todas as da prisão temporária não contraria a CF: "Cabível apenas na
modalidades de prisão (RCL 29303) O ministro Edson Fachin, fase investigativa, tem requisitos estritos e está em sintonia com
do Supremo Tribunal Federal (STF), em 15/12/2020, os princípios constitucionais das custódias cautelares."
acolhendo pedido da Defensoria Pública "É na fundamentação, em cada caso, que se pode ter
da União, estendeu (3º pedido de extensão) a todo o país a a demonstração de atendimento aos pressupostos exigidos pela
determinação para que tribunais realizem audiências de lei 7.960/89, indicadores do caráter excepcional de medida
custódia cautelar tão gravosa e em fase pré-processual: (i) quando
em todas as modalidades prisionais, inclusive prisões imprescindível para as investigações, II) quando o indiciado
temporárias, preventivas e definitivas, e não apenas em caso de não tiver residência fixa ou não esclarecer sua identidade; iii)
prisão quando houver fundadas razões, por meio de qualquer prova,
em flagrante, no prazo de 24 horas da sua ocorrência: de o indiciado ter envolvimento nos crimes listados na Lei
“Referente ao 3º pedido de extensão: (...) 3. Sendo assim, 7.960/1989 ou na lei de crimes hediondos."
diante da plausibilidade jurídica do pedido e da possibilidade A ministra destacou que a prisão temporária é decidida por
de lesão irreparável a direito fundamental das pessoas levadas juiz, a requerimento do Ministério Público ou por
ao cárcere, defiro o presente pedido de extensão , ad representação do delegado de polícia, neste caso também
referendum do E. Plenário, para determinar ao Superior ouvido previamente o Ministério Público, observado, portanto,
Tribunal de Justiça, aos Tribunais de Justiça, aos Tribunais o princípio da reserva de jurisdição.
Regionais Para Cármen Lúcia, a interpretação adequada das hipóteses
Federais, aos Tribunais integrantes da Justiça eleitoral, militar normativas de cabimento da prisão temporária dispostas no
e trabalhista, bem assim a todos os juízos a eles vinculados que art. 1º da lei 7.960/89 deve resultar da cumulação dos incs. I e
realizem, no prazo de 24 horas, audiência de custódia em todas III.
as modalidades prisionais, inclusive prisões temporárias, "A circunstância de o indiciado não ter residência fixa ou não
preventivas e definitivas. Comunique-se, com urgência. Inclua- fornecer elementos necessários ao esclarecimento de sua
se em pauta, para fins de referendo deste pedido de extensão identidade (inc. II do art. 1º) por si só não justifica a prisão
conjuntamente com a liminar deferida, na imediata sessão temporária, a não ser se associada à demonstração da
virtual do E. Plenário com início em 05.02.2021. Publique-se. imprescindibilidade da medida para as investigações, na forma
Intimem- do inc. I, e presentes as fundadas razões de envolvimento em
se”. crime descrito no inc. III."
Posição do STF quanto à constitucionalidade da prisão Assim, conheceu da ADIn 3.360 e em parte da ADIn 4.109 e
temporária: julgou-as parcialmente procedentes para, sem redução de
“ Em julgamento no plenário virtual do STF, os texto, atribuir interpretação conforme à Constituição da
ministros analisam a constitucionalidade da prisão República ao art. 1º da lei 7.960/89 e admitir o cabimento da
temporária. O ministro Alexandre de Moraes pediu vista após prisão temporária desde que presentes cumulativamente as
os votos da relatora Cármen Lúcia e dos ministros Gilmar hipóteses dos incs. I e III ou I, II e III.
Mendes e Edson Fachin, em divergência.
A relatora admitiu a prisão desde que presentes link: https://www.migalhas.com.br/quentes/350837/moraes-adia-julgamento-
cumulativamente as hipóteses previstas na lei 7.960/89. de-constitucionalidade-da-prisao-temporaria - 29/08/2021.
Gilmar, por sua vez, assentou interpretação mais ampla nos

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