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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

REDE SUSTENTABILIDADE, partido político com representação no Congresso Nacional,


inscrito no CNPJ/MF sob o nº 17.981.188/0001-07, com sede na SDS, Bl. A, CONIC, Ed.
Boulevard Center, Salas 107/109, Asa Sul, Brasília – DF, CEP 70391-900,
contato@redesustentabilidade.org.br, vem, por seus advogados abaixo-assinados, com
fundamento no disposto no art. 102, § 1º, da Constituição Federal, e nos preceitos da Lei nº
9.882, de 1999, propor

ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL


(com pedido de medida liminar)

em face de atos praticados pelo Sr. JAIR MESSIAS BOLSONARO, brasileiro, casado,
Presidente da República, inscrito no CPF sob o nº 453.178.287-91, com domicílio legal em
Brasília/DF, na Praça dos Três Poderes, Palácio do Planalto, Gabinete da Presidência, e sua
equipe, pelos fatos e fundamentos que passam a expor.
I. DO OBJETO DA PRESENTE ADPF

Em caminhada por Roma, após a participação do Presidente da República Jair


Messias Bolsonaro na cúpula do G20, os jornalistas Jamil Chade (UOL), Ana Estela de Sousa
Pinto (Folha), Leonardo Monteiro (TV Globo), Lucas Ferraz (O Globo) e Matheus Magenta
(BBC), que cobriam a passagem do brasileiro pela capital italiana, foram agredidos pelo
mandatário e pela sua segurança, conforme amplamente divulgado em diversos meios de
comunicação:

Bolsonaro hostiliza repórteres em Roma, e segurança agride jornalistas1

Ao fim da cúpula do G20, enquanto outros governantes davam entrevistas


coletivas, o presidente Jair Bolsonaro saiu para encontrar apoiadores perto
da embaixada brasileira, no centro de Roma. O presidente tratou de forma
hostil os jornalistas. E os seguranças que estavam ao redor dele usaram
violência contra quem tentou fazer perguntas.

Ao perguntar o motivo de o presidente não ter participado de alguns


eventos do G20 com outros líderes, o correspondente da Globo, Leonardo
Monteiro, recebeu um soco no estômago e foi empurrado com violência
por um segurança.

A imagem não mostra o momento do soco, por causa da confusão. Antes, o


presidente havia sido hostil com o trabalho do repórter.

Leonardo: “Presidente, presidente. O cara tá empurrando, gente.


Presidente, por que o senhor não foi de manhã no encontro do G20?”

Bolsonaro: “É a Globo? Você não tem vergonha na cara....”

Leonardo: “Oi, presidente, por que o senhor não foi de manhã nos eventos
do G20?”

Bolsonaro: “Vocês não têm vergonha na cara, rapaz.”

Leonardo foi empurrado.

Leonardo: “Ei, ei, ei... o que é isso, tá maluco?”

1
Notícia G1:
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/10/31/bolsonaro-hostiliza-repoteres-em-roma-e-seguranca-a
gride-jornalistas.ghtml?fbclid=IwAR2gKNLwoPnQTmfW6ltOfuYKgYE5g8TagbPi3I27AuWaERUpGlRS
4c8OrpA
O repórter Jamil Chade, do UOL, filmou a violência contra os colegas para
tentar identificar o agressor, mas o segurança o empurrou, o agarrou pelo
braço para torcê-lo, e levou o celular. Instantes depois, o segurança jogou o
aparelho num canto da rua. A imagem congela apontando para o céu, com
o celular no chão.

Após as agressões, o segurança foi embora e seguiu em direção ao


presidente. Não é possível saber se Bolsonaro assistiu às agressões, nem
identificar se os agressores eram policiais ou seguranças particulares.

Mais cedo, seguranças e policiais italianos já haviam agido com truculência


contra a repórter Ana Estela de Sousa Pinto, do jornal "Folha de S.Paulo"
dentro da embaixada brasileira em Roma. Um agente que não quis se
identificar empurrou a jornalista e disse que ela deveria se afastar do local,
que é público. Depois, ela foi empurrada outras três vezes.

E antes mesmo de Bolsonaro chegar à embaixada, uma assistente da Globo


que esperava para gravar imagens do presidente foi intimidada e
denunciada como “infiltrada” por apoiadores dele. Um jornalista da BBC a
socorreu, e ela se afastou dos manifestantes.

O Jornal Correio Braziliense, além de confirmar as agressões relatadas pela Globo,


acrescenta que, “com a confusão, o passeio do presidente durou pouco e menos de dez
minutos depois, Bolsonaro voltou à embaixada. Os jornalistas estavam com credenciais e
identificações claras no momento das agressões. O mesmo tratamento não se estendeu aos
apoiadores, que puderam acompanhar de perto o presidente durante a sua breve
caminhada”2.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou nota em que diz que “repudia com
veemência e indignação as agressões sofridas por jornalistas brasileiros na cobertura das
atividades do presidente Jair Bolsonaro em Roma. A violência contra os jornalistas, na
tentativa de impedir seu trabalho, é consequência direta da postura do próprio presidente,
que estimula com atos e palavras a intolerância diante da atividade jornalística. É lamentável
e inadmissível que o presidente e seus agentes de segurança se voltem contra o trabalho dos
jornalistas, cuja missão é informar aos cidadãos. A agressão verbal e a truculência física não
impedirão o jornalismo brasileiro de prosseguir no seu trabalho. A ANJ espera que os atos de
violência cometidos contra os jornalistas sejam apurados e os culpados, punidos. A
impunidade nesse e em outros episódios é sinal de escalada autoritária”.

2
Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/10/4959584-jornalistas-relatam-agressoes-durant
e-passeio-de-bolsonaro-por-roma.html
Já a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disse, em nota, que
“repudia mais esse ataque à imprensa envolvendo a maior autoridade do país. Ao não
condenar atos violentos de seus seguranças e apoiadores a jornalistas que tão somente
estão cumprindo seu dever de informar, o presidente da República incentiva mais ataques
do gênero, em uma escalada perigosa e que pode se revelar fatal. Atacar o mensageiro é
uma prática recorrente do governo Bolsonaro que, assim como qualquer outra
administração, está sujeito ao escrutínio público. É dever da imprensa informar à sociedade
atos do poder público, incluindo viagens do presidente no exercício do mandato. E a
sociedade, por meio do art 5º da Constituição, inciso XIV, tem o direito do acesso à
informação garantido”.

Há que ressaltar que não se trata de situação isolada. O Presidente da República, em


reiteradas oportunidades durante seus quase 3 (três) anos de governo, manifestou seu
desprezo pela liberdade de imprensa, ao ameaçar fisicamente, constranger, difamar,
inviabilizar a segurança no exercício da atividade jornalística e incentivar comportamento
violento contra os profissionais da imprensa, tais como nas seguintes ocasiões:

● 30/10/2019: “Bolsonaro ofende a TV Globo em transmissão nas redes sociais.


Ao reagir à reportagem do Jornal Nacional sobre o caso Marielle, o
presidente, bastante irritado, ofendeu a emissora e disse que só aprovará a
renovação da concessão se o processo estiver ‘enxuto’”3;
● 20/12/2019: “Bolsonaro agride repórter em Brasília: ‘Você tem uma cara de
homossexual terrível’”4;
● 18/02/2020: “Bolsonaro insulta jornalista com insinuação sexual”5;
● 25/08/2020: “Bolsonaro critica Maria Júlia Coutinho e apoiadores reagem:
‘Maju mentirosa’”6;
● 23/08/2020: “Bolsonaro ameaça jornalista: ‘Minha vontade é encher tua boca
na porrada’”7;

3
Disponível em:
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/10/30/bolsonaro-ofende-a-tv-globo-em-transmissao-
nas-redes-sociais.ghtml. Acesso em 01/11/2021.
4
Disponível em:
https://www.poder360.com.br/governo/voce-tem-uma-cara-de-homossexual-terrivel-diz-bolsonaro-a-jo
rnalista/. Acesso em 01/11/2021.
5
Disponível em:
https://oglobo.globo.com/politica/bolsonaro-insulta-jornalista-com-insinuacao-sexual-entidades-reage
m-24255450. Acesso em 01/11/2021.
6
Disponível em:
https://www.clickpb.com.br/brasil/bolsonaro-critica-maria-julia-coutinho-e-apoiadores-reagem-maju-m
entirosa-290324.html. Acesso em 01/11/2021.
7
Disponível em:
https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/08/23/bolsonaro-ameaca-jornalista-minha-vontade-e-enc
her-tua-boca-na-porrada.ghtml. Acesso em 01/11/2021.
● 21/06/2021: “Bolsonaro tira a máscara e grita com jornalista da Globo:
‘Canalhas!’”8;
● 25/06/2021: “Sem máscara, Bolsonaro dá novo chilique e volta a atacar
jornalista mulher”9.

Em 14/10/2020, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) divulgou


levantamento10 em que apontou 299 (duzentos e noventa e nove) ataques de Jair Bolsonaro
ao jornalismo, apenas de janeiro a setembro daquele ano ─ uma média de de um ataque
por dia à imprensa.

Tal comportamento, absolutamente reprovável e incompatível com o exercício do


cargo de Chefe de Estado e Chefe de Governo, acaba incentivando condutas violentas e
truculentas contra a imprensa por parte dos apoiadores do Presidente da República, que
mimetizam seus ataques. Também a título de exemplo, é possível citar alguns dos
lamentáveis episódios recentes envolvendo agressões a jornalistas por parte de
manifestantes bolsonaristas:

● 03/05/2020: “Jornalistas são agredidos com chutes e murros por apoiadores


de Bolsonaro”11 e “Bolsonaristas socam jornalistas para celebrar Dia da
Liberdade de Imprensa”12;
● 17/05/2020: “Apoiadora de Bolsonaro dá bandeirada na cabeça de repórter
em ato”13
● 14/03/2021: “Fotojornalista do CORREIO é agredida verbalmente em
manifestação bolsonarista”14;

8
Disponível em:
https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/bolsonaro-tira-mascara-e-intimida-jornalista-da-globo-
canalhas-59873. Acesso em 01/11/2021.
9
Disponível em:
https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/sem-mascara-bolsonaro-da-novo-chilique-e-volta-atac
ar-jornalista-mulher-60179. Acesso em 01/11/2021;
10
Disponível em: https://fenaj.org.br/nove-meses-bolsonaro-299-ataques/. Acesso em 01/11/2021.
11
Disponível em:
https://exame.com/brasil/jornalistas-sao-agredidos-com-chutes-e-murros-por-apoiadores-de-bolsonar
o/. Acesso em 01/11/2021.
12
Disponível em:
https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/05/03/fas-de-bolsonaro-celebram-dia-da-l
iberdade-da-imprensa-socando-jornalistas.htm. Acesso em 01/11/2021.
13
Disponível em:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/17/apoiadora-de-bolsonaro-da-bandeirada
-na-cabeca-de-reporter-em-ato.htm. Acesso em 01/11/2021;
14
Disponível em:
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/fotojornalista-do-correio-e-agredida-verbalmente-em-m
anifestacao-bolsonarista/. Acesso em 01/11/2021.
● 13/05/2021: “Bolsonaro volta a atacar ‘Estadão’, chama jornalistas de
‘jumentos’ e nega orçamento secreto”15
● 24/05/2021: “Uma equipe de reportagem da CNN foi alvo de hostilização
durante ato realizado no Rio de Janeiro neste domingo (23) em apoio ao
presidente Jair Bolsonaro”16;
● 02/08/2021: “Bolsonaristas atacam repórter por usar celular vermelho”17;
● 07/09/2021: “Bolsonaristas agridem e expulsam jornalistas no fim da
manifestação”18;
● 09/10/2021: “Homem agride e ofende jornalistas que cobriam chegada de
Bolsonaro a SP. Homem proferiu diversos xingamentos e ameaçou ‘tacar tiro’
em equipe da TV Tribuna”19.

Nesse contexto, é imprescindível que o Supremo Tribunal Federal, em legítimo


resguardo aos preceitos fundamentais do direito de informação e da liberdade de imprensa,
princípios republicanos basilares e sem os quais não se concebe um Estado Democrático de
Direito, atue para impedir a continuidade do comportamento e da prática de atos
inconstitucionais pelo Presidente da República, tal como aquele ocorrido em Roma, durante
a cobertura jornalística da reunião da cúpula do G20.

II. DA LEGITIMIDADE ATIVA

1. A arguente é um partido político com representação no Congresso Nacional. A


composição da bancada é pública e notória, dispensando a prova. Desse modo, na forma do
artigo 2º, I, da Lei 9.882/99, c/c artigo 103, VIII, da Constituição, é parte legítima para propor
a presente ação.

15
Disponível em:
https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-volta-a-atacar-o-estadao-chama-jornalistas-de
-jumentos-e-nega-orcamento-secreto,70003714638. Acesso em 01/11/2021.
16
Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/equipe-da-cnn-e-hostilizada-em-manifestacao-no-rj/. Acesso
em 01/11/2021.
17
Disponível em:
https://www.terra.com.br/noticias/bolsonaristas-atacam-reporter-por-usar-celular-vermelho,a4ee5966e
1e0de4c496c078848f84defduk2ys4y.html. Acesso em 01/11/2021.
18
Disponível em:
https://www.metropoles.com/brasil/videos-bolsonaristas-agridem-e-expulsam-jornalistas-no-fim-da-ma
nifestacao. Acesso em 01/11/2021.
19
Disponível em:
https://www.poder360.com.br/brasil/homem-agride-e-ofende-jornalistas-que-cobriam-chegada-de-bols
onaro-a-sp/. Acesso em 01/11/2021.
2. Ademais, nos termos da jurisprudência do STF, o partido político com representação
no Congresso Nacional possui legitimidade universal para o ajuizamento de ações do
controle concentrado de constitucionalidade, não havendo necessidade de se avaliar a
pertinência temática.

III. DO CABIMENTO DA ADPF

3. Não há dúvida de que os atos questionados se qualificam como “atos do Poder


Público”, praticados pelo Presidente da República, no exercício de suas funções de Chefe de
Estado e Chefe de Governo.

4. Embora a Constituição e a Lei 9.882/99 não definam o que se entende por preceito
fundamental, o Supremo Tribunal Federal já assentou a “qualidade de preceitos
fundamentais da ordem constitucional dos direitos e garantias fundamentais (art. 5º, dentre
outros), dos princípios protegidos por cláusula pétrea (art. 60, § 4º, da CF) e dos ‘princípios
sensíveis’ (art. 34, VII)” (ADPF 388, Relator Ministro Gilmar Mendes, DJe 1º.8.2016).

5. No caso concreto, há evidente violação aos preceitos fundamentais do direito de


informação, gravado no art. 5º, XIV, da Carga Magna, bem como grave ofensa à liberdade de
imprensa, protegida, de forma especial, no art. 220 da Constituição Cidadã:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes:
[...] XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo
da fonte, quando necessário ao exercício profissional;
Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a
informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão
qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena
liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação
social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.

6. Em relação ao requisito da subsidiariedade, defende-se a tese de que a análise deste


requisito decorre de enfoque objetivo ou de proteção da ordem constitucional objetiva, nos
termos da doutrina especializada.

7. Em outros termos, o princípio da subsidiariedade - inexistência de outro meio eficaz


de sanar a lesão -, contido no §1º do art. 4º da Lei n. 9.882, de 1999, há de ser
compreendido no contexto da ordem constitucional global. Nesse sentido, se considera o
caráter enfaticamente objetivo do instituto (o que resulta, inclusive, da legitimação ativa),
meio eficaz de sanar a lesão parece ser aquele apto a solver a controvérsia constitucional
relevante de forma ampla, geral e imediata.

8. Assim, a Lei 9.882 exige, como condição de possibilidade da ADPF, o esgotamento de


todos os meios para o saneamento do ato lesivo (§1º do art. 4º). Conforme posição firmada
pelo STF na ADPF n. 33, os meios a serem esgotados para que se admita a ADPF são aqueles
do controle concentrado. A existência de processos ordinários e recursos extraordinários
não deve excluir, a priori, a utilização da arguição de descumprimento de preceito
fundamental, em virtude da feição marcadamente objetiva dessa ação.

9. Tal conclusão foi recentemente reafirmada por essa Corte no bojo da ADPF nº 673.
Veja-se:

1. A compreensão do que deve ser “meio eficaz para sanar a lesividade”, se


interpretada extensivamente, esvaziaria o sentido da ADPF, pois é certo
que, no âmbito subjetivo, há sempre alguma ação a tutelar – individual ou
coletivamente – o direito alegadamente violado, ainda que seja necessário
eventual controle difuso de constitucionalidade.
2. De outro lado, se reduzida ao âmbito do sistema de controle objetivo,
implicaria o cabimento de ADPF para qualquer ato do poder público que
não autorizasse o cabimento de ADI, por ação ou omissão, ou ADC.

3. O critério deve ser intermediário, de maneira que “meio eficaz de sanar a


lesão é aquele apto a solver a controvérsia constitucional relevante de
forma ampla, geral e imediata. No juízo de subsidiariedade há de se ter em
vista, especialmente, os demais processos objetivos já consolidados no
sistema constitucional” (ADPF 388, Rel. Min. Gilmar Mendes, Tribunal
Pleno, DJe 01.08.2016). Especialmente os processos objetivos, porque
haverá casos cuja solução ampla, geral e imediata ocorrerá por outros
instrumentos processuais, não servindo a ADPF tampouco a tutelar
situações jurídicas individuais. Precedentes.

10. Dessa forma, permite-se ao STF a decisão célere sobre questões eminentemente
constitucionais, impedindo a extensão dos danos aos preceitos fundamentais, isso,
sobretudo, em ações que têm por objetivo resguardar os direitos e garantias constitucionais
mais basilares.

IV. DA MANIFESTA INCONSTITUCIONALIDADE DOS ATOS REITERADOS DE OFENSA AO


DIREITO DE INFORMAÇÃO E À LIBERDADE DE IMPRENSA

11. É sabido que a censura e a repressão aos meios de imprensa são instrumentos de
preferência dos governos autoritários. Por meio do cerceamento de ideias e da limitação do
dissenso, os autocratas pretendem monopolizar o mercado de ideias e fazer prevalecer a
noção de que seu governo é imune a críticas.

12. Além do texto da Carta Magna, o direito de informação e a liberdade de imprensa e


de expressão estão delineados em diversos tratados internacionais dos quais o Brasil é
signatário. Podemos citar, para esse fim, os seguintes:

Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de 1948


Art. 19 - Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este
direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar,
receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e
independentemente de fronteiras.

---

Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 1966 (internalizado


pelo Decreto nº 592, de 06 de julho de 1992)

Art. 19

1. ninguém poderá ser molestado por suas opiniões.

2. Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse direito incluirá a


liberdade de procurar, receber e difundir informações e idéias de qualquer
natureza, independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente
ou por escrito, em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro meio
de sua escolha.

--

Convenção Americana de Direitos Humanos, de 1969 (internalizada pelo


Decreto nº 678, de 06 de novembro de 1992)

Art. 13

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse


direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações
e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou
por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro
processo de sua escolha.

O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito


à censura prévia, mas a responsabilidades ulteriores, que devem ser
expressamente fixadas pela lei a ser necessária para assegurar:

a) o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas; ou

b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da


moral pública.

3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios


indiretos, tais como o abuso de controles oficiais ou particulares de papel
de imprensa, de freqüências radioelétricas ou de equipamentos e
aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros
meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de idéias e
opiniões.

13. Consoante lição de J. J. Gomes Canotilho, “a liberdade de expressão permite


assegurar a continuidade do debate intelectual e do confronto de opiniões, num
compromisso crítico permanente”20. Segundo esse autor, tal qualidade lhe permite integrar
o “sistema constitucional de direitos fundamentais, deduzindo-se do valor da dignidade da
pessoa humana e dos princípios gerais de liberdade e igualdade”.

14. A liberdade de expressão está amplamente consagrada no âmbito do Direito


Internacional dos Direitos Humanos, conforme se observa em diplomas como Declaração
Universal dos Direitos Humanos (art. 19), Pacto dos Direitos Civis e Políticos (art. 19),
Convenção Européia de Direitos Humanos (art. 10), Convenção Interamericana de Direitos
Humanos (art. 13) e na Carta Africana de Direitos Humanos (art. 9º).

15. Nesse contexto, o princípio dez da Declaração de Joanesburgo, conforme destacado


por ocasião do julgamento da ADI 4815/DF, de relatoria da Min. Carmen Lúcia, obriga os
governos a condenarem ações que reprimam a liberdade de expressão:

Os governos são obrigados a tomar medidas razoáveis no sentido de


impedir grupos privados ou indivíduos de interferirem ilegalmente no
exercício pacífico da liberdade de expressão, mesmo quando a expressão
for de crítica em relação ao governo ou às suas políticas. Os governos são,
em particular, obrigados a condenar ações ilegais que visem silenciar a
liberdade de expressão, e a investigar e apresentar à justiça os
responsáveis.

20
CANOTILHO, J. J. Gomes; MACHADO, Jónatas E. M. “Constituição e código civil brasileiro: âmbito de
proteção de biografias não autorizadas”. In JÚNIOR, Antônio Pereira Gaio; SANTOS, Márcio Gil Tostes.
Constituição Brasileira de 1988. Reflexões em comemoração ao seu 25º aniversário. Curitiba: Juruá, 2014, p.
132
16. Em paralelo e de forma complementar à liberdade de expressão, a liberdade de
imprensa é reconhecidamente um dos pilares dos Estados Democráticos de Direito, e a
plenitude de seu exercício já foi objeto de manifestação pelo Poder Judiciário por diversas
ocasiões. Relativamente à atividade jornalística, assentou-se entendimento no sentido de
impossibilidade de separação entre a liberdade de imprensa e a de expressão: “O jornalismo
e a liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão imbricadas por sua própria
natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada” (RE 511.961, rel. min.
Gilmar Mendes)

17. No presente caso, temos justamente o oposto do que se poderia esperar da


autoridade máxima do Poder Executivo da República: em vez de proteger e estimular o
trabalho jornalístico, prefere dele escarnecer ou agredir os seus profissionais, visando a
cercear a sua atuação.

18. Por meio de ameaças e da violência, busca-se intimidar o legítimo e necessário


controle social e os calar, ou seja, verdadeiramente constranger ilegalmente o repórter a
exercer sua profissão. Não pode nem deve ser normalizada uma ameaça e uma agressão
contra qualquer profissional da imprensa, ainda mais partindo do próprio Presidente da
República! Caso o ato persista, os profissionais de imprensa poderão ser acometidos por
espécie de autocensura, receosos de serem perseguidos pelo mero exercício da profissão.

19. Ou seja, com a continuidade da prática dos atos inconstitucionais pelo Presidente
da República, o risco é que os discursos jornalísticos sempre sejam recortados por um
mínimo comum que não ensejaria ataques de quem é contrário à imprensa livre. O chilling
effect seria enorme, a ponto de impossibilitar a construção de discursos livres, em prejuízo
a toda a sociedade. Afinal, sabe-se que a liberdade de imprensa é um dos verdadeiros
pilares da Democracia. Sem liberdade de se expressar para o conhecimento público, não
há evolução democrática e republicana, mas um passo em direção à autocracia.
20. A jurisprudência das democracias livres caminha no mesmo sentido. No caso New
York Times Co. v. United States (1971), julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos, a
liberdade de imprensa foi sopesada frente ao interesse do Estado. Na ocasião, a Suprema
Corte Norte-Americana estabeleceu que a liberdade de imprensa deveria se sobrepor ao
interesse do Estado, pois a regra deve ser o direito do detentor do poder, o povo, à
informação, só podendo ser limitado em casos que assim exigem a segurança nacional.

21. Desse julgamento pela Suprema Corte do Estados Unidos, podemos colher lições
valiosas que se aplicam em mesma medida ao caso apresentado nos autos, sob pena de
estabelecermos um precedente, deveras, perigoso à liberdade pessoal de todos os
jornalistas e da liberdade de imprensa como um todo.

22. Também no julgamento do caso Sullivan v. New York Times, a Suprema Corte
Americana assentou que as pessoas públicas, mesmo em vista da publicação de fato
inverídico ofensivo sobre a sua reputação, só serão indenizadas se provarem que o
responsável agiu com dolo real ou eventual. Essa decisão tinha como objetivo preservar as
manifestações públicas sobre temas importantes, fomentando os debates sociais e o direito
à informação21.

23. No caso mais recente envolvendo agressões a repórteres por parte do Presidente da
República, tem-se clara a intenção do jornalista em questionar o presidente sobre tema de
relevante interesse social: qual foi o motivo de o presidente não ter participado de alguns
eventos do G20 com outros líderes?

24. Contudo, ao ameaçar e agredir os jornalistas e constrangê-los, tolhe as suas


liberdades de expressão, a liberdade de imprensa em si mesma e quiçá as suas liberdades
físicas, conduta repreensível se partisse de qualquer indivíduo e ainda mais reprovável ao
ser realizada pelo Presidente da República.

21
Disponível em
<https://www.uscourts.gov/about-federal-courts/educational-resources/supreme-court-landmarks/new-york-ti
mes-v-sullivan-podcast>. Acesso em: 08/07/2019.
25. E aqui se deve ter em mente que tal fato não foi estranho ao exercício das funções da
Presidência da República. Afinal, o Sr. Jair Bolsonaro participou da reunião do G20 na
condição de Chefe de Estado e, perguntado sobre fatos relacionados ao seu exercício do
múnus público, agrediu verbalmente a imprensa e incitou os seus seguranças a agredirem
fisicamente os repórteres com empurrões, socos e destruição dos seus equipamentos, na
tentativa clara e absurda de tolher a ampla liberdade de informação e expressão.

26. A esse respeito, deve-se sempre lembrar das palavras do Min. Carlos Ayres Britto no
julgamento da ADI 4451: “abrir mão da liberdade de imprensa é renunciar ao
conhecimento geral das coisas do Poder, seja ele político, econômico, militar ou religioso”.

27. Lembre-se que a revista The Economist22 calcula, anualmente, um ranking de “índice
democrático” e que a posição do Brasil não é animadora: nossa democracia é classificada
como “falha”, com uma nota de 6.92 em uma escala de 0.00 a 10.00 (em 2020). O que
esperar do nosso índice democrático após essas constantes ameaças e ilegais
constrangimentos por parte do Presidente da República? Qual imagem, interna e externa,
queremos passar?

28. Acrescente-se que, desde a redemocratização – cujo ápice se deu com a Constituição
de 1988 –, não mais se cogitou de qualquer ímpeto antidemocrático, por mais que sempre
houvesse vozes defendendo o autoritarismo. Contudo, o atual Presidente da República tem,
em diversas ocasiões antes e depois de assumir o cargo, atacado a imprensa livre sempre
que lhe faltam palavras ou argumentos para responder aos questionamentos
democráticos de repórteres, dentro do mais legítimo exercício do controle social.

29. Não se deve ignorar o fato de que, dada a sua posição, o Presidente da República
tem um potencial de incentivo muito grande. Isso é, qualquer cidadão que apóie
pretensões autoritárias pode se sentir convidado a externalizar, inclusive de modo violento,
como vem ocorrendo em diversas ocasiões, o seu ímpeto antidemocrático, conforme já

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Disponível em: <https://www.eiu.com/topic/democracy-index>. Acesso em: 01/11/2021.
relatado anteriormente. O abominável caso mais recente em tela agrava-se pelas condutas
dos seguranças subordinados diretamente ao Presidente da República, que, após as
agressões de Jair Bolsonaro, executam a ordem de afastar e agredir fisicamente os
jornalistas.

30. Note-se que o constrangimento ilegal, via gravíssima ameaça, foi repetido duas
vezes, ao ponto de os jornalistas questionarem o Presidente acerca de sua conduta.
Considerado o comportamento pregresso do Sr. Jair Bolsonaro, fica patente a
intencionalidade em suas palavras.

31. Ora, censura é repressão e opressão. Restringe a informação, limita o acesso ao


conhecimento, obstrui o livre expressar, o pensado e o sentido. Sem liberdade de imprensa,
teremos um caminho trilhado rumo ao obscurantismo autoritário, que, ao que parece,
insiste em ainda se mostrar vivo nos seios mais profundos de nossa sociedade.

V. DA NECESSIDADE DE CONCESSÃO DE TUTELA PROVISÓRIA DE URGÊNCIA

32. Para além de todos os fundamentos já aqui delineados, também é sucintamente


preciso demonstrar que estão presentes os pressupostos para a concessão da medida
liminar ora postulada, nos termos do art. 5º, da Lei 9.882/99.

33. Por um lado, o fumus boni juris está amplamente configurado, diante de todas as
razões acima expostas, as quais evidenciam que a violência contra a imprensa e seus
integrantes está em vertiginoso aumento, proporcional aos atos de ataques do Senhor
Presidente da República.

34. O periculum in mora, por seu turno, consubstancia-se nas graves consequências
advindas de cada um dos ataques promovidos pelo Senhor Presidente da República e a
iminência de situações cada vez mais graves. A violência verbal já evoluiu para violência
física. Quanto tempo mais para ocorrer a morte de um profissional da imprensa em
decorrência das atitudes de Jair Bolsonaro?

35. É preciso, então, agir com rapidez, para impedir que se consume tamanha afronta à
Constituição e ao ordenamento jurídico brasileiro. E, no caso, há evidentes reflexos dos atos
individuais de violência, dentro de um contexto claro de ataque sistematizado, nos direitos
de liberdade de imprensa e de liberdade do cidadão de se informar.

36. Nesse cenário de extrema urgência e perigo de gravíssima lesão, a Arguente postula
a concessão da medida liminar pelo Relator, ad referendum do Tribunal Pleno, como faculta
o art. 5º, § 1º, da Lei 9.882/99, para que a Presidência da República seja obrigada a adotar,
em caráter imediato, todos os meios necessários para assegurar o livre exercício da
imprensa, bem como a integridade física de jornalistas e demais profissionais da mídia,
durante a cobertura dos atos do Presidente.

37. Requer-se, ainda, em caráter liminar, que, entre os meios necessários mencionados
anteriormente, seja determinado à Presidência da República que apresente, em 48
(quarenta e oito) horas, plano de segurança para garantir a integridade física dos
profissionais da imprensa que acompanham a rotina do Presidente, incluindo o destaque de
profissionais do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para a coordenação e a
responsabilidade pela execução do referido plano.

38. Por fim, pede-se, também liminarmente, que o Presidente da República, em suas
manifestações públicas oficiais ou não oficiais, seja impedido de realizar ou de incentivar a
realização de ataques verbais ou físicos à imprensa e aos seus profissionais, sob pena de
responsabilização pessoal, mediante o pagamento de multa pessoal de R$ 100.000,00 (cem
mil reais) por ocorrência.
VI. DOS PEDIDOS

39. Com base nas razões que se vem de expor, que evidenciam a relevância do interesse
público a ser tutelado na presente ação e os fartos elementos de risco concretamente
presentes para o exercício de fundamentais, pede-se:

a) Recebimento e processamento da presente ADPF;

b) Liminarmente, que a Presidência da República seja obrigada a


adotar, em caráter imediato, todos os meios necessários para assegurar o
livre exercício da imprensa, bem como a integridade física de jornalistas e
demais profissionais da mídia, durante a cobertura dos atos do Presidente;

b.1) Que, entre os meios necessários mencionados na alínea “b”, seja


determinado à Presidência da República que apresente, em 48
(quarenta e oito) horas, plano de segurança para garantir a integridade
física dos profissionais da imprensa que acompanham a rotina do
Presidente, incluindo o destaque de profissionais do Gabinete de
Segurança Institucional (GSI) para a coordenação e a responsabilidade
pela execução do referido plano;

c) Liminarmente, que o Presidente da República, em suas


manifestações públicas oficiais ou não oficiais, seja impedido de realizar ou
de incentivar a realização de ataques verbais ou físicos à imprensa e aos
seus profissionais, sob pena de responsabilização pessoal, mediante o
pagamento de multa pessoal de R$ 100.000,00 (cem mil reais) por
ocorrência;

d) Sejam colhidas as informações do Poder Executivo Federal e


ouvidos, sucessivamente, o Advogado-Geral da União e o Procurador-Geral
da República;
e) No mérito, a confirmação dos pedidos liminares e a declaração de
inconstitucionalidade dos atos praticados pelo Presidente da República em
ofensa ao exercício da liberdade de imprensa.

Termos em que,
Pede e espera deferimento.
Brasília, 01 de novembro de 2021.

Assinado de forma digital


ALLAN DEL CISTIA por ALLAN DEL CISTIA
MELLO:03362358 MELLO:03362358101
Dados: 2021.11.01 15:27:23
101 -03'00'

ALLAN DEL CISTIA MELLO FLÁVIA CALADO PEREIRA


OAB/DF nº 68.789 OAB/AP nº 3.864

SUMÁRIO DE DOCUMENTOS

DOC 1 - Certidão da Comissão Executiva da Rede;


DOC 2 - Estatuto Partidário; e
DOC 3 - Instrumento de mandato da Rede.

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