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LÍVIA BARBOSA

. : :..~ .

...·. .
:-·

O JEITINHO BRASILEIRO
*
A ARTE DE SER MAIS IGUAL DO QUE OS OUTROS

PREFÁCIO DE ROBERTO DAMATTA

ELSEVIER
INTRODUCÃO OU COMO O
- I

. ~. .
JÉITINHO ENTRA NA HISTÓRIA

·:.. ·.-:

Qualquer observador atento da cena nacional verificará, sem ·

"~;~g·~/ :::~~ed~~:!:~~= ~:!:!';o~::~:.~::::::;~~:


·\;;/'':.:· brasileiros como povo. A pergunta "Que país é esse" tem."sido
,}~:f~~t~~-:.:.::· :feita pelos mais diferentes segmentos dà população brasileira e
ms .· ~:~~~~~:~:~= n~;~:~=~e;:~~:::~e;:~~=~.:~:
"'1;······ ~g~~Ê~~;;ii2~~?J:~I:Ê~:i~~~~~l~
·;fi.!:- ~~8te:~:d:~~~:=:e~i;;;.~:!:::: :~~;;~:,~!op:~i~:
guarda de trânsito como por uma cientista social. Essa universa-
lidade no uso da expressão "jeitinho" me pareceu sintomática de
sua importância na compreensão de nosso universo social e, sem
dúvida, foi fato determinante do ponto de vista pessoal na esco-
lha deste tema como objeto de investigação antropológica.
2 O JEITINHO BRASILEIRO

Mesmo sendo incapaz de definir a origem do meu interesse


por ésse tema, devo afirmar que, desde muito cedo, iinpressio-
- nou-me muito a maneira de resolver as mais diferentes situações
no meu próprio país. Quando eu julgava que tudo estava irreme-
diavelmente perdido, que daquela vez não tinha realmente jeiti-
nho, tudo, "magicamente", se resolvia. Obviamente, a minha
perplexidade, nessa época, jamais foi elaborada como um objeto
científico. Era pura e simplesmente perplexidade com "um sabor
de aventura" em relação aos acontecimentos. Serã que desta vez
"tem jeito" ou "não tem jeito"?
___ AQ_$_pg,gcos, entretanto, percebLque a caus~ fundamental da
_@i~~ perpl~XIaãaeí~'ªaf~i~~~~.Ei~!~;ã~ ~ii~-~i~ ol?
. .qualqaé~GütmiiR9.Çfe .1l!!._g,~y!,!,_!1.oJlm$Jl,J1iii~gnif1ça:v.:~Lç-ili'e
._semanticamente pretendia denç_~.x~ai.s-.s.imp.l&_smente, desco-
,___ brrquê-·()"'nãô"nãõ'erã'ôlimit~~~Da mesma forma ci:;e. ã-kr~~or-
~-Jiã eacÕnstitÜí~~,:tãmlf~~1m1Jli-eaiil.,har-feifaS""defili.ítiv~
o · ~'"""""-'"'"?"""..,.~ · ·· · "'·""'"'""""''•',...,.'"""-'"""''""::J<'r.P.~·"õ'"~''~d'"'''~··~>,...""""""'"'~~-:.-
... )rrevogave_!§.,.It;gª·~Q.~&.QW.P...QI!amento e o ueseJO as pessoas.
· .........ÃÍÍ.Õs~ais tarde, descobrTqueufi'fdos'rrossos-rmris populares
cronistas, Carlos Eduardo Novaes, numa crqnica intitulada "A
Travessia· Americana", atribuía, de forma implícita, o mesmo
sentido que originalmente havia me despertado a atenção. O não
do guarda americano era definitivo, categórico. e irrecorrível. O
não do guarda brasileiro, como relembraria o cronistá com sau-
dades; poderia ser também talvez e, com algrim '.'papo"' certa-
mentesim.·
Muitos outros exemplos do mesmo teor poderiam ser dados
para ilustrar essa nossa "complexa" relaç~o com o não~ seja este de
que forma for. Mas, em nenhum domínio, ençontraríamos mate-
rial mais farto do que na nossa movimentada vida política, na
qual, diariamente, "f~tos" novos está~ surgindo e modificanão o
. :i~
curso de determinado acontecimento, de forma surpreendente. .:.~~·~.
Além de todo esse "sabor de aventura", que impregna o nos-
so cotidiano e que por si só me parece instigante, um outro fator
foi fundamental na ininha escolha do jeitinho como objeto de
pesquisa: minha longa permanência no exterior. É impossível, e
Introdução ou Como o Jeitinho Entra na História 3
........


~t; ::~::; ~;:::::a~;~;~~~~~á~~ee~;:;:~ed~=p~: :~~
; -r·:;;:.. : · nos apercebermos das diferenças no tom emocional dos ambien-
·,::;_:~;::_{:._· t~s, .na visão do mundo, nos ritmos dos acontecimentos e das
;.;:~}~;;~~- :::. . · pessoas, nas reações diante de certos )fatos como morte, luto,
:'2::f:g~;.:~;;.: . . . nascimento, principalmente quando estes ocorrem em contex-
. -)~{if{f.~tQs institucionais semelhantes aos nossos de origem. Aconteci-
:.<:!,~~i}-:;~,·;.·.m~ntos corriqueiros, como festas, casamentos etc., de-estrutura,
:.;~~~~r-:.)<org~nização e objetivo semelhantes ou mesmo iguais aos nossos,
:\TH~~-~; :.:_;· . :~pJ:"esentam um "clima", na falta de termo mais técnico, inteira-
_.\Qt(Y)>. inente diferente. Esse clima não é percebido nem traduzível em
·. ·:v~v;<-/.: íe~mos cognitivos, mas é apreendido, afetivamente, nas relações
_:~ ~~-~~~~ ·: :. : el;t~e as pessoas e requer um esforço sistemático, do ponto de
);~:~j}~.y ~-- ::Y~sta intelectual,_para ser traduzível numa linguagem aproxima-
.. ·•· .!:· ~.-_;;:·~~e~te científica que abra espaço a discussões menos impressio-

·.{.~~as. . . . . _
· ··:#-~i-r:.Essas dimensões valorativas de que se revestem todos os atos
· . vida social, esse aspecto fluídico que escapa às rígidas análises
. !D-Qclelos e que impri~e ·toda a· especificidade do fenômeno
·foi, justamente, o que mais me mobilizou na minha expe-
',r#~':<M.'~>:--'.A . .lv.l.4 do Brasil. A_ distância nos pe~mit~ dar realce a deta-
-m~~:cme antes passav~ despercebidos e nos _força a. uma auto-
~:c r~~J!(~xao que ge~a, fataimente, uma nova concepção de nós mes-
~7
...: -......,.• --c. obj~to. que desenc~deou, nossa análise. QuancJ.o compa-

~- realidade brasileira· com a norte-american~ e a belga, as


· · ~u,~ sociedades nas quais vivi, era.impossível ficar restrita a da-
.q9_s., pp.ramente puméricos como nível de desenvolvimento, pa-
·_::.~_4-rão de vida, rendapercapita, PIB, PNB etc. para explicar as di-
. ··:-.'le~_~nças. Por outro lado, atríbuir à história e à cultura, simple~­
, mente, todas as manifestações que o modelo econômico não
COJlseguia explicar também não resolvia o problema. Era neces-
~~6:_. · .sárioidentificar de que tipo eram essas-diferenças, em que nível
y -_· ~e _encontravam e o que significavam. E é justamente neste grau
da comparação e da indagação que o jeitinho se inseria com per-
feição.
4 O JEITINHO BRASILEIRO

Quando era solicitada a descrever o Brasil e os brasileiros, o


que dizer? Falar do Brasil oficial ou do oficioso? O país do sub-
desenvolvimento, da dívida externa, do niilagre dos anos 70, das
usinas nucleares e de Itaipu é o mesnio do jeitinho, do jogo do bi-
cho, das discussões_i~bre as escolas de samba que começam ao
alvorecer do segv.Ó.do semestre e só terminam depois do Carna-
val e de vários outros aspectos que jamais surgem, quando defi-
nimos oficialmente o nosso país e o nosso modo de ser. Para
norte-americanos e belgas, esses aspectos pareceriam simples-
mente impossíveis de ser conciliados dentro de um mesmo qua-
dro institucional.
Por outro lado, para nós, brasileiros, todos esses aspectos, e
isso é mais surpr~endente ainda, são vistos como resíduos de es-
truturas econômicas subdesenvolvid~s, fadadas à extinção, à me-
dida que avançamos em nossas conquistas econômicas e políti-
cas, ou como fatos que só marcam presença no domínio do "fol-
clore" oti da propaganda oficial. Fenômenos como "nepotis-
mo,;' empreguismo etc.; endêmicos em nosso universo social,
sem que com essa afirmação vá qualquer intenção moralizante,
são percebidos apenas como casos individuais a serem corrigidos
judicialmente ou como conseqüências perversas de um· modelo
político errado que o discurso de mudança deve denunciar~· Nos-
f.
sas descrições oficiais do Brasil e da nossa· identidade sâo nor-
malmente feitas dentro de um discurso político e econômico que
apresenta uma realidade oficial unívoca, pois permitem uma
descrisão universalizante, descolada das situações sociais con-
cretas. Justamente aquelas que imprimem as especificidades-aos
fatos e aos lugares e permitem que países com PIBs, PNBs, RPCs,
estruturas de classe e partidos políticos semelhantes consigam .
ser realidades sociais inteiramente diferentes.
Essas observações não contêm qualquer crítica à análise polí-
tica ou econômica da realidade ou à atividade político-partidária
que vise à alteração do atual status quo. Ela se relaciona, isto sim,
a um determinado tipo de discurso, que não é privativo ou exclu-
sivo dos economistas ou dos cientistas políticos, de representar o
lntroduçi!io ou ~orno o Jeitinho Entra na História 5

Brasil e os brasileiros apenas por meio do nosso desempenho nos ·


macroprocessos. Aliás, esta não é uma tendência recente, inau-
gurada com a fase "tecnocrata" pós-1964, como a maioria das
· pessoas acredita ou gosta de fazer crer. ·
. · - Se fiz~!!!192...~!!1 breve balanço .dv~!.!!.lJ!.~tiplas interpretações \
_&qüêõBras~t!~m::i.~~"-àlvõ:~ven1lcàremos que põaeffi'"serãgru- l
._· pãcwrem:dõis ti:pgª~ª-q}!~I~s."'qtré"J)~f()ctirararrrepro~uramexplí- 1
· _<C:á-:hJ;-~~ºiiV;~ente,ap~~fu~de~~i@:~!!-ilt:Mfª_~f:.<lti6m!Ǫ-~~P§fr? f
.:(· tíéi,{e·:. -~-o início dosé~~lg_,_Jªçi~)~JJ.rivilegia11d?, ~~S.~.~-.~~~!?.;.-~I- f
·. · - inacropro'êêss·os;·~-e~àciu~la~.que procurarãiii·-v:ê~io--a partir t ·ai
:t01fií}rêenSãÕ-d~·-~uas c~~-~Ç!~.!~~tiCãs'" curiürã1S'~:Asâõ'-Pifô1ê'I~.9~ i
.._. r-t>ipó preaonimârã;·~~ início dü-sic\ifõ. âilmê~i'dõs·--ae i93o ·e, ~
;/_:- ' d~jx>Is, ressld!miin el!J.tQ~~Q1~~ªlf!4.ã'ã~"1"9~~A:s~dõSegmfd'õ t
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::-::~ :: ~!l~~c:;Qmp1e.mm!!n!~...~!~.~~~~-~~~g~---4~J.2ZQ.~o--Q~vtamente, !
/\·L~\· essa não é uma divisão estanque e rígida, mas baseada em ênfase. )
~'~$··::; O que podemos verificar, a partir dessas distinções, é que,
·.:::::~·~):r· .. ··quando a linha interpretativa procurava a explicação do Brasil
_/,:i{·:;:-:::._. por meio de seus processos políticos e econômicos, de sua "in-
:-~~1~;;;~_:_;:·_.-:·_fra:.estrutura", os dados voltavam-se para o conj1:1nto institucio-
:q~i{r.,. :·nal brasileiro, para a identificação da pr~sença ou ausência de
:.-.~;~2r}/'·d~terminados elementos e para a qualificação do tipo de relacio-
.-_i1.!H-r;~<·_..riamento entre as diferentes "classes" e grupos sociais: estrutura
-~!~;j~&~{C:·._)éudal, relações de trabalho pré-capitalistas, relações de domi-
::;f~ii,<~·:-~·:·· nância etc~ Quando, por outro lado, a ênfase procurava a expli-
;:.-r<·_::~.:~,- ·caÇão doBrasil por meio de sua "culhira", o que se privilegiava
_j}:~:·~;; _'. eram os "usos e costum~s" do povo brasileiro, sua estrutura fami-
:·'.._,... ,._. · liar, sua religiosidade etc. e as perguntas básicas voltavam-se
para a compreensão do j>aíS por meio das situações sociais con-
cretas. Ambos os tipos de intérpretação sempre se relacionaram
e ainda o fazem de forma excludente: o que um privilegia é justa-
mente o que o outro exclui.
Quando a visão "estrutural" predomina, o falar adquire cer-
ta densidade e complexidade. O sujeito da análise é a sociedade
brasileira e o objetivo central é tentar identificar as causas econô-
'!"""------------------------·--··---.

6 O JEITINHO BRASILEIRO

micas e políticas responsáveis por nosso atual status quo. O povo


brasileiro e sua visão de mundo dificilmente são tratados como
agentes atuantes na nossa formaçãÕ social. Normalmente, são
diluídos nas divisões de classes sociais que indicam, sob um pon-
to de vista exclusivamente econômico e político, quais delas de-
sempenham papel·ativo na existência das d.is~orções e quais são
os alvos das mesmas. As situações sociais concretas, o conjunto
de hábitos e costumes, as idéias e os valores predominantes per-
dem o seu status de indicadores de aspectos mais profundos da
sociedade. São tratados como expressão de distorções estrutu-
rais mais profundas, mas, "felizmente", condenadas ao desapa-
recimento ou a transformações radicais. Essa forma de perceber
o Brasil não é exclusiva de uma postura política determinada,
mas de todos os que esposam a interpretação de nosso país por
meio, exclusivamente, dos grandes processos sociais.
A segunda linha de interpretação volta-se para a explicação
do Brasil pela compreensão dos elementos considerados deter- .
minantes da formação .histórica e ·cultural. Dai sua ênfase nos
costumes, na compreensão e no estudo de instituições como a fa-
mília e a igreja e na utilização de situações sociais concretas como
dados. Por outro lado, o conjunto institucional, eco~ômico e po-
lítico, embora referi~o e considerado, perde a condição de de-
terminante do modo de vida da sociedade brasileira. Na verda7
de, grande parte dessa produção intelectual é 1;1ma tentativa de
. fazer uma·história social do Brasil, problemática que; só muito
recentemente, preocupa os historiadores brasileiros, como ilus-
tra a série de trabalhos novos nessa área.
Além dessas. diferenças no tipo de dados utilizados nas per-
guntas formuladas pelos estudiosos e na identificação das causas
e na interpretação final da sociedade brasileira, sentidas por
qualquer interessado em ler as obras desses autores, uma outra
distinção merece ser assinalada. Enquanto esta.última vertente
interpretativa construía, por meio de sua análise, uma identida-
de social p~sitiva, a outra desenvolvia claramente uma identida-
de social negativa. Essas diferenças podem ser percebidas no v o-
·~···

Introdução ou Como o Jeitinho Entra na História 7

· · ·. cabulá.do utilizado em tom intimista, otimista e ensaísta das pri-·


meiras, em flagrante contraste com as segundas escritas, em vo-
cabulário mais denso, técnico e de crescente complexidade no
tocante às análi~es econômicas. Embora essa possa ser uma dife-
:.<·= r.enciação irrelevante para alguns, vamos verificar que se repete
,... em diferentes tipos de discurso sobre a sociedade brasileira, a
·:.·~:~{t,: partir do ângulo pelo qual a pessoa considera importante a defi-
.·.·.~~:~A~ ... niç~o do que é o Brasil e do que são os brasileiros.
:.::>~:. '< · Como se esse paralelismo entre uma e outra vertente na in-
'))f·::'. terpretação do Brasil não fosse suficiente, a apropriação que am-
: _ bas sofreram por parte de alguns setores da intelectualidade. bra-
. . . , . : ·. sileira determinou maior aprofundamento dessas diferenças,
·. ·. que necessariamente não seriam excludentes, mas, talvez, até
·:-:~;,
. . ·~J:-., .· mesmo complementares. A partir da década de 1950, quando a
::):;'..... identificação das causas do subdesenvolvimento brasileiro se
y~·?;:.. ~orna prioritária dentro dos esquemas analíticos utilizados no
<Wf,~:~;:
• 1_.
·.' Brasil
·"!.·.::;·:.. . '
todas ·as obras· da vertente "culturalista" ou "familiar" '
. :~?\.:-~-'.·utilizando uma classificação de DaMatta {1985}, passaram a ser
·. :?~~~i;· _apreendidas a partir de um eixo progressista e não-progressista.
·;~;:~r;=_.-;·:· $e, i~icialmente, rio momento em que foram publicadas {década
··::;t~f~\}~)930}, fqram revolucionárias ao destr_onarem os grandes es-
_-;_:}1ti·\< quemas raciais na compreensão do Brasil, marcando, de forma
:/~~~)::indelével; toda uma geração de intelectuais brasileiros, como
:~:\-, 1 ~).-;.:_9em nos indica Antonio Cândido na sua "In~rodução" de Rafzes
·.:'-~f~~[,( do Brasil (1973 }, pQsteriomente terminaram por ser analisadas
·\(.{\::
'?!>:.\.'I
· mais à• luz da posição política de seus autores e de seu bac.kground
·:·:1~~~~;:;:.· ~pcial do que propriame~te pelas contribuições que procuram
·_(.'\>: trazer à compreensão da sociedade brasileira. Alguns trechos so-
. . :· hre Gilberto Freyre, um dos expoentes da vertente "culturalis-
ta", são ilustrativos do que acabamos de dizer:

Uma abordagem sumária permite, desde logo, vislumbrar em seu


comportamento intelectual, que também se traduz em nível políti-
co, possuindo enraizamento social e econômico, as expressões de
um estamento dominante, embora em crise. Carrega consigo um
8 O JEITINHO BRASILEIRO

' I ~ 'llo

certo sentido de-mando, as marcas da distinção e do prestígio, uma


visão sénhori;1l do mundo suavizada apenas pelas condições gerais
de vida criadas na esteira das transformações sociais e políticas em
foco na cri~e de 1930. (Mota, 1977, p. 54)

O mesmo movimento que o leva a gostar das goiabadas das tias e


dos babados da prima Fulana o leva gostosamente a· uma demo-
cracia patriarcal, em que etc., etc. Como vê Mário Neme, aí está
um caso em que o método cultural carrega água para o monjolo
da reação. (Antonio Cândido. Citado em Mota, 1977,p. 131)

Parece-me que esse tipo de crítica, que tem seu lugar de ser,
se queremos realizar uma análise de campo intelectual do autor,
confunde, fora desse domínio, o que os filósofos da ciência têm
chamado "contexto da descoberta~', "contexto da justificação",
Nessa perspectiva, os preconceitos e os valores individuais de-
sempenham um papel importante no primeiro, enquanto são
pouco atuantes no segundo. A história da vida de um pesquisa-
dor, as fontes intelectuais em que se nutriu, o ambien.te social em
que se formou são aspectos importantes para esclarecer as moti-
vações que o levaram a escolher determinado tema, a ·esposar
certas idéias etc.- Entretanto, são irrelevantes para uma avaliação
crítica de suas teorias. Estas devem ser analisadas "pelos seus pró-
prios méritos lógicos'' {Kaplan & Manners, 1975, p. 48), isto é,
pela capacidade explicativa q~e possuem.
Portanto, o que é importante verificar, no nosso caso, .é se
essas diversas tentativas de aprender o Brasil consegairam ex-
plicar parte dos problemas que se colocaram. Parece quf!, ades-
peito de todas as críticas que se possa fazer a Casa gr{lnde e se1t-
zala (1933 ), Raízes do Brasil (1935), Cultura brasileira (1943) e
muitas outras obras desse período, é importante enfatizar que,
de modo geral, esses autores estavam preocupados em identifi·
car, descrever e interpretar o Brasil a partir do cotidiano. O que
era tomado como significativo por esses pensadores - e isto
pode ser verificado pela t'emática utilizada- era o emaranhado
das relações sociais do dia-a-dia, tanto na esfera doméstica
. ~: ..
:~

introdução ou Como o Jeitinho Entra na História 9

quanto na pública. Esse é um aspecto sistematicamente esqueci-.


d9 por todos os críticos dessa linha interpretativa. Por exem-
plo, no caso de Gilberto Freyre, a trama de relacionamentos
pessoais e sexuais que se estabeleciam entre senhores. e escra-
vos, entre sinhazinhas e suas mucamas, foi significativa para en-
tender as relações entre pretos e brancos em outros domínios e
, ··.·~ em outros contextos além da monocultura do açúcar. Mais do
que apontar relações de subordinação e exploração, esses auto-
··;.· res procuraram identificar as diversas formas que essas toma-
. . vam. Mais do que causas econômicas e políticas, buscavam co-
. nhecer o sistema de valores implícitos nas práticas sociais des-
ses domínios. Além disso, levantaram questões que até hoje
. continuam a instigar nossos diversos estudiosos; como a forÇa
das relações pessoais na estruturação da sociedade brasileira.
: ··1 (DaMatta, 1979)
·~i~h·~·(:·:":·,,·· .. ,. Portanto, argumentar que essas obras er~m impressionis-
·~·.(~t?.·_: · tas e carentes de fundamentos empíricos pode, até certo pon-
_;;;;/T: . ,·. to, indicar uma deficiência delas mas revela mais a posição
:<::Y~l· ;. metodológica de seus críticos .. Por que seriam os retratos das
··~f~·i)i,~·::·:giàndes estruturas brasileiras mais verdadeiros a respeito do
.:a;i~:).::.~,Brasil do que aqueles baseados em seus aspectos comezinhos?
:::.;~t,s:~~t(Se formos nos ater aos aspectos metodológicos unicamente,
.-:-~:~·'.:7..::: ;·;. '.. - • • •
:;~2~}/· ·.:· ~sses retratos eram, e sao, tao tmprectsos como os antenores,

':;fij~a,t.;;:·~ois muito poucas fontes primárias foram e são consultadas


o
.:l(i~~~~~· :. . 'para que retrato apresentado correspondesse àquilo que se
.::~~~;~;\~/~:.acredita ser a "realidade'' brasileira. A visão "estrutural",
.-::~~&t,~[>i:. ~orno a "cotidiana", é, apenas, uma outra forma de recorte da
··.!?li:::;.. ·realidade, em que determinados aspectos são mais enfatizados
',.::.:t0:/~;·: do que os outros.
:~:;·;{.:{::· · · É verdade que implícita à obra desses autores estava também
>:\~:';.< a preocupação em "definir o brasileiro". Nem poderia ser de ou-
<~i:.r:· tra forma, dado o campo intelectual e político da época. Com o
·:{;:. surto do nacionalismo que assolava o mundo na década de 193 O,
··:,, com a crescente evidência científica da igualdade biológica entre
.... as raças e com as teorias antropológicas sobre o caráter nacional,
- - - - - - - - -------·····- --·- ·-··· ·····--··--------· -·---,-1'~

10 O JEITINHO BRASILEIRO

nãcia mais natural que os. intelectuais brasileiros tentassem réde-


finir o Brasil, tido e considerado inviável por nossas elites, em
virtude das teorias racistas do século XIX. Se o fizeram substan-
tivando determinados "aspectos", por meio de um esquema teó-
rico equivocado, esse foi sempre um aspecto secundário de suas
obras. O homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda ou o
· ·conciliador de Gilberto Freyre nunca foram a proposta central
de qualquer um deles. Basta para isso verificar a "quantidade" de
atenção que os autores lhes devotaram, embora tenham sido os
seus produtos mais popularizados.
Cordiais ou conciliadores, reacionários ou progressistas, o
fato é que alguns desses aspectos, salientados por esses autores
e criticados durante década~, voltaram à cena brasileira investi-
dos de uma grande respeitabilidade na nossa recente "transição
democrática". Basta examinarmos os discursos políticos de • ,:!.

Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e muitos outros canela-


mando à. conciliação nacional como o çaminho único para a
transição. Ironicamente, esses aspectos foram louvados pelas
mais diferentes correntes político-partidárias. Entre~anto, hou-
ve diferença entre a maneira como essas categorias (concilia-
dor, cordial etc.) foram manipuladas na década de 1930 e na de
1980~ Enquanto na primeira a preocupação voltava-se para a
identificação do conteúdo social e ideológico dessas categorias
para a sociedade brasileira, na últimà serviam de apanágio na-
cional, i.mpedindo que; mais uma vez, se discutissem os esque-
mas de valores implícitos que estruturam e orientam a nossa vi-
são da política. C -
O mesmo tipo de leitura "progressista" orientou a análise do
~atamento dispensado por esses autores aos grandes processos
macrossociais. Por exemplo, Gilberto Freyre, em Casa grande e
senzala (1933), procurou mostrar de forma recorrente as impli-
cações da economia escravocrata, latifundiária e monocultora
na formação do Brasil e nas relações entre as pessoas. Da mesma
forma, Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1935),
enfatizou que as características da sociedade brasileira deveriam
Introdução ou Como o Jeitinho Entra na História 11

. ser procuradas nos estilos de colonização que o português im-


·: . :i_{·f. pl3;11tou aqui. Esse ponto de sua obra, sistematicamente esqueci-
<}/·:. do, é retomado por Caio Prado Júnior, em Formação econômica
·:. ii~·~\ ;. do Brasil (1942/1965), e foi considerado por Dante Moreira Lei-
:;úDt.:. te (1969) ''inaugurando um marco em nossa historiografia". Na
.:·i:.}h!.{ realidade, a apropriação dessas obras, feitas a partir da década de
}i~q:. ~ 1950, contribuiu para aumentar e.m muito o fosso entre essas
.:~. X:;~:·~,, duas linhas de interpretação. Embora esses tipos de leitura desses
:?1~;~\~;: autores clássicos esteja, atualmente, passando por um redirecio-
··~}lr~. ~ainento, com a nova ênfase das pesquisas no cotidiano e com a
:~·.:(~}~::.: . ·preocupação com a nossa história social, ainda existem muitos
::'::~\\i: setores de intelectualidade em que muitos desses autores conti-
;;;d~:>. ·~uam a ser lidos, unicamente; a partir de suas contribuições à po-
;:~~Úr; . . lítica partidária do país. 1
~}~;;:~·:::' A despeito de todas as contribuições de ambas as partes, o
téj,éLfato é que essas formas de entender o Brasil jamais cons~guiram
~é!!::::· fqrnecer u~a imagem globalizante da sociedade brasil'éira que
~~~/ ·~~~s~ conta, ou melhor, procurasse entender e exglÍcar nossas
{t~~r_:·~ecu~arida~e~ p~líti~s e e~~nômicas à luz do no~so ·mod~lo de
~~~J}: ]~.laço~s.~oc1a1s, 1sto e, ~o~:dtasse o q~e sempre fm tratado :om?
r:l\,:,. . mconclliavel. Isso poss1bll1tou o sg~gJ.m.~P!R_?e uma terceira h-
·. )1p~ interpreUitíVã.âê~l[c)pqiâ.:ad~de-cresq:º~t!-;;~,múnâõãc'àlfê-
~ç!ieJoia~d~Ie:-·e~·que o Brasil.~.U,~g.e..~~mPi~~Ç:2~'Jim],~~Sf~
.: i,déias "fora do lugaP';como disse :R.<>l?.~n:º,S..çb}Y.iY:?;,.(l2ZZJ~ Esse
. ó{é o-Brasifaá-música "Qt1epaísé ~·s~~?" da banda de rock Leglãõ
~~=~~~~~t~:~:r~~!~~~i~S~~~!~~
·:~;:.~-..'; · ~ffiãà~-·~iil"sl:lma-,-pm::-ªdoxal. ·
·~-,.. ..........__ <'"~. .. .... "' ········"""·•·.

~~:!:f::.' "l'Õrtanto, co.tpo definir o Brasil e como compreendê-lo, algo


i.\:. que inicial~ente foi uma tentativa de identificar a mim ao meu e
·~~~: país nó ext1rior, foi também se tornando um interesse acadêmi-
·) co. E, além.de me interessar por uma abordagem que desse con-
ta, pelo menos parcialmente, de ambas as tendências de nossa
historiografia, o meu interesse voltara-se, também, e cada vez
mais, para um conjunto de instituições legítimas, porém não le-
12 O JEITINHC/BRASILEIRO

gais, oomo o jeitinho, o "Você sabe com quem es·tá falando?,', o


jogo do bicho etc., que não se circunscrevem a qualquer espaJo
definido da sociedade; não caracterizam qualquer tipo de co~­
portamento e não estão vinculados a qualquer segmento social
específico, mas estão sempre presentes no nosso cotidiano. Elas
me parecem excepcionalmente ricas se queremos aprender como
opera nosso sistema social, como se atualiza, abandonando a sua
abordagem estritamente formal. Nessa perspectiva, o tema cen~
tral deste livro é encarado como ponto de partida, como porta de
entrada para uma discussão mais ampla de nosso universo social,
encaminhada por meio de uma leitura antropológic·a de nosso
cotidiano que objetiva discernir quais os valores básicos e estru-
turantes de nossa sociedade e os tomados como paradigmáticos
na construção de nossa identidade.

NOTA
1. Ver o artigo de José Augusto Drummond na Revista de Domingo, Jornal do
Brasil, de 01/ÔS/1985, no qual o referido aútor mendona alguns intelectuais
que são interditados em alguns departamentos universitários.

=: ·. ~
-:· :·

O JEITINHO ESCRITO:
VISÕES INTELECTUAIS
.. ~-- ..
.··:·:

((:
~~:::::/·:. '
::f~;:·.;-:. -~'Por favor, o sr. não pode dar um jeitinho?'' Essa frase talvez seja
~f·:t;\:. . ~ma das expressões mais populares n·o âmbito da sociedade ur-
~·~:~::;:: pâna bra~ileira. É difícil encontrar alguém, homem ou mulher,
,~:}:~::'<que nunca tenha lançado mão dessa frase, com voz macia, ares
~~!:;;t'simpáticos e olhos suplicantes. Ela explicita álguns dos múltiplos
:v=:::\:drámas sociais que fazem parte do nosso cotidiano, bem como
~-~~;,;.:·. ·_uma forma especial de resolvê-los.
;i{:::/:{·.· Embora muito usada e conhecida, pouco interesse despertou
.j
'f::ít:- do'. P..Onto de vista sociológico. A ausência de trabalhos expli-
;t?~ ,:·:ca-se, em parte, pela pouca relevância atribuída ao estudo do co-
(JÇ:;~_:· tidiano e pela própria tônica da historiografia brasileira, como
\~f·/.· vimos anteriormente.
· · Registrou-se, a partir de um levantamento feito, a. existência
,. de apenas cinco estudos que tratam o jeitinho sob uma. perspecti-
va mais sociológica, problematizando sua existência no interior
da sociedade brasileira. Embora diversos do ponto de vista esti-
lístico, esses trabalhos apresentam pontos em comum importan-
tes para os problemas que serão levantados.
I 14 O JEITINHO BRASILEIRO

GUERREIRO RAMOS:
FORMALISMO EJEITINHO
Ul1142S...J1cimei.rps estudos publicados sob~e. o jeitinh~ é. o de
A11>erto Guerrei;à"'R:amast~p~fêsentado i:io livroAdmíniSiraÇáo
·. ê· i(stt.ritégü{ãectesentJOlvímeniõ-'(i9 li6):··rr.iirã:erê,~Q:fe'l'iTiihlr é
~;;,~~te-gõria'·ê~!tttãLtii'(ocleaáãe6!â§il"é"Ix~~NãQgue seja atri-
lJutõ.,âe. cãrãt~;~n~donal,'-~~s-porq~;o jeitinho e outros meca-
nismos que ele denomina "processos crioulos" são comuns a vá- \
k
rios países latino-americanos, exatamente J2.QlH!:!~"J~!?,~-~~J~.ID
~~~a..;:g_~~!-Q~~E'"~~~is~~: Ségüiiélo-G\i'ei=reiro Ramos, essa \,,
\
'característica dos países~lãtino-americanos pode ser definida
como a discrepância existente entre as nossas instituições sociais,
políticas e jurídicas e ·as nossas práticas sociais. Entre o que é
prescrito e o que realmente ocorre; entre nossa constituição,
nossas leis e regulamentos e os fatos e as práticas reais do gover-
no e da sociedade. .
O formalismo nos países latino-americanos reflete, para
Guerreiro Ramos, uma estratégia global .dessas sociedades no
sentido de superar a fase de desenvolvimento em que se encon-
tram. A partir da promulgação de leis, decretos etc. que impli-
quem modificações formais de aspe~tos políticos e econômi-
cos, esses países conseguem adiar as tensões sociais existentes.
Portanto, sob esse ponto de vista, é um recurso ideológico do
qual lançam mão as elites dominantes com vistas a escamotear :a
realidade, na tentativa de, literalmente, "tapar o sol com a pe-
neira". Enquanto o formalismo é uma estratégia primária, o jei-
tinho seria uma estratégia secundária, isto é, suscitada pelo for-
malismo.
Guerreiro Ramos afirma ainda que o jeitinho estaria conde-
nado a desaparecer no futuro. Desde o momento em que as socie-
dades latino-americanas começassem a se desenvolver do ponto
de vista _econômico e social, seriam levadas a adotar estruturas
legais mais realistas que preconizariam seu desuso. Para esse fim,
a industrialização desempenharia importante papel. Segundo o
----·-· ---··-·-·-····--~-------

O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 15

autor, como a industrialização acarreta o surgimento de classes·


. . sociais diferenciadas e a exigênGia de adoção de normas univer-
..: :_~.'!:. -~ salísticas na elaboração das decisões governamentais, pois a in-
\:.!"::_:: dústria não subsiste sem o predomínio da racionalidade nas rela-
.·. ;---· .: çóe~ sociais, o jeito seria fatalmente eliminado de nossa prática
.:·::;(;:~.-\ cotidiana. Um outro fator que favoreceria a existência do jeiti-
. \~~:;i~~~;- .-·nho, mas que, com o processo da industrialização em massa,
.>':Lr:._.:. ·também estaria comprometido, é o império dos clãs e das famí-
.y·,;~~j~f\{.~ lias na sociedade. Guerreiro Ramos conclui indicando que o jei-
.-.~~:?F\· to na sociedade brasileira já teria sido mais comum do que o é
:>L.:\·i hoje; estaria caindo em desuso, em virtude da crescente impes-
"<};;:,~.:.:·: soalidade vigt;!nte nas relações sociais, fruto direto do ingresso
:·/i+".·. do Brasil na rota da industrialização. .
. ·:·.:.:· ·.;.:,.:- ·;· .. .,!)_pcime,!~o aspecto a salie~tar ~ess~--~~~ª9.,JSÇ_QE~.~l1!~ .~W
.... todos os outros;··é a idéia do}eitinho·cõmo, exclusivament(:!_,_
•~ --~ .
. m~-
:---~····· ~. -~"···--_,.....,....,,.._...._,,.~.... ~-,.,"J,:"t-• ...,.._.....1" ... ,..,..~::.•·.·= -~·~-.. ,-c.· .,_,'
.... i....,.,..~· ••.•. ~·-·"'--

':. c~smo a~-adaptãÇão às ~i1;lJ..élÇQ_~s pervers~ da soC!edadebra,si-


•• • ': . .

-~~··-·r.::<'S" compreensão des'se.mecaDls'ffiô'apenas nos seusaspect~s


·.... ·morfológicos por quase todos os autores levou-os a conclusões
· .h~tante semelhantes no que toca àsua interpretação final, com
· . ilnplica~ões às quais retomaremos. · ,.: .
.:.~. ,JJma ~.!!~EêJ~ceta crítica, a meu ver, ~~~-E_~rce,e~~Q. dç,jeiti-
. . . - ~. "te~CXÕ~Ôé'Tffff'êsfãgtO de t1.PC:~P·rt,irl"\l'ltt
rtetet~mm~ld~LS c~ona1~;oe~s estruturai~, Guerreiro Ramos.
. . . . . . . . . , ...... ·. . .9~~~:~l!l.~ª±21!fªõ.Õingft!ss<r do
· .. . n._a, rota dos países indus!~I~!iz~<:füs e ~~selivõ1v~ªos:Pên-
:.: .s~va-se;;té.eritão, que â indu~triali~aÇãü'êxigfri;. p·~~-~ seu su- o
. :~. · c~sso a ifplem~ntação de regras impessoais que anulassem os
_., Ja~os de sangue e de amizade. No Brasil, o que se verifica não é

li_;v: ~:~:r:o::::~~~:a~:~:~:::~a~::! v:~::~;:~:.a::; aé~s~


exatameb.te isso. \0 que a realidade tem demonstrado é que o
0

:-~~ :' _;-:.


ses domínios, baseadas em critérios diversos, mas que têm a
··. uni-las as relações com valores que se colocam no eixo oposto
.··\· ·. ao da racionalidade e do econômiCo. Uma regra universalizante
..
16 O JEITINHO BRASILEIRO

pode deixar de ser a~ionada e exigida, caso o requerente ~eja


uma moça simpática, uma velhinha maternal ou um deputado.
A hierarquia, "tão cara da sociedade brasileira em determinadas
instâncias, não se realiza de formtt uniforme, mas em planos
múltiplos e variáveis, onde necessariamente o econômico não é
o eixo centrar'. (DaMatta, 1979) ·
Outro aspecto ignorado por Guerreiro Ramos é que, no ~ra­
sil, as relações pessoais atuam mais como fatores estruturais do
1
sistema do que como sobrevivências do passado que o jogo athal
. do poder e das forças econômicas irá marginalizar. Supor, por-
tanto, que o nível de industrialização e desenvolvimento econô-
mico vá modificar nosso universo social e assim dar fim ao jeiti-
nho é adotar uma visão linear e simplista da realidade que não
abre espaços para outro tipo de mediação no processo social bra-
sileiro. ·
E mais, se observarmos a "história, do jeitinho na nossa socie-
dade, como faremos no último capítulo deste livro, verificare-
mos que, ao contrário do que afirma Guerreiro Ramos, ele está
longe de ser fruto de estruturas arcaicas, relações familiares e,clâ-
nicas, fadado ao desaparecimento com a chegada das forças mo-
dernizadoras.
. .~
. U,m~...~Qck4g~e. C()IIÍ clãs, fainílias, ..o..ie.#inhQ~.§.~I!.~h,.ê.J!!S!Jl
. ver, ~~ ~ecânisiD.<l•.fÍ:~-~EÚ>~do"d~. ~!!l,i~lade..e~J~.ignificado. Pois,
núm'U:tílvêrsÕsÕc~3.1 assim,·;rõ~)Ü:st;mente as 'rela.ções pessoais os .
elementos mais }lnportantes de ordenação sódal. As hierarquias
"naturais"·~ sexo, idade, parentesco- são elementos que permi-
tem a classificação inequívoca de todos. Portanto, por que have-
ria um coronel do interior de Alagoas de pedir um jeitinho ou re-
ceber um pedido de jeitinho se, nos seus domínios, ele é a própria
lei? Q.i~.i.Ejt;~.!!~..a_,c;_,,c~~trár.i?."~9...JJUe.-pensava..,Guetr.eit:o~~~s,
não está ligado a estrii.tür':!(iifcaicas, pré-industriais etc~ É ·afeito,
~~~2~~;:~2~~1l9!iiful;s~U.i6ªíi~~:;J§;I":~~~:.ª~~;,"enique.;!e;pe-
,ra a repres~n~~.ç!ç. d~ racionalidade e gªjguald.ªd~:)~Jê'nasce,
-~~~~::~·~a,Ç.úÇQ[)i!?~~gra-iffipess<?al c:om a é,S~i~~ãde
i,. . , . ,,~~:::·
~~·..:~t::Y~·.";~.

··:~~~t:.:·,~: ··
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais

ROBERTO CAMPOS:
A ~UA! O NAMORO E O JEITINHO
17

.}:i.~:?i~·,;: Qm outro texto sobre o jeiti1~ho é o ensaio A técnica e o riso, do


:::~::~i~~tt';;··· senador Roberto de Oliveira Campos (1966), conhecido no Bra-
~~;;!?~ItY· ~il mais por seus trabalhos como economista dÓ que propria-
: ·{~if:J~ente como sociólogo ou .literato. .
-;.~g~]!fr<.. . Traçando uma comparação entre as sociedades de origem
·-X{i~'-~·{·anglo-saxã e as latinas, o autor constata que três diferenças bá-
-.~};~~;/,~J}. ~~casse impõem: a existência do namoro nas sociedades latinas,

;,li!ii~~~;~,1i1!!i
:·{··~·.:.!~''·\:·i.:· -~~gyg~~t~c;>~be~oÇampos, ~jeitinho não é u111ainstitui~ão

is~té·~!~~~.~~~:!~l~~~!~~iâfSüastruzêsestffo;igà-
.:t:*~t~~~~:~} (.·....Q. p_r!.meiro é deo~igem.hi~.§~ica. A instituição do jeito viceja
:~ '-: ~-.~os paí;~;-·r~trnõs:'~~isdo que-~~-~ anglo-saxões, porque, nos
.. _.;primeiros, as relações feudais perduraram por mais tempo, quer
.:~ho domínio jurídico quer no econômico. O feudalismo, como
;:~t indica o autor, é um re~ime. 9-S!"pr.ofund.ª-."dj:sfgü~ldã~e'jufíelica,

~~~rt~~~J~E~t:;~~·so~~;:~!;::;.~;::~
.x:. ;:_-gõveriiãnfpor'rêlãÇões·-vôiUiií~í~íicãsT·ã<}üei~~~,p~r fórmulas
'. :· impositivas.
':_t-:~,~::.:: . ·~.A. outra ca.usa que prOJ?~Ciílria. o florescimento do jeito nos ·.
· ·:~:::·~P.~~~~~:T~tf[~~n;;!llfj~~nid~s· e~e_;i~~:€~i~R­
·:· :~:·. ~~":~~~,:.~.-~~~~~~la~~~~o'"!a~~.~ocl~L_,P::_:_~
·\. ·.·: -~!lgles, a le1 e t.J!!lª,..Çt~~tíllizaçao do.. ~~stu~'itcõmrnb'~·~taw e
··::\~~r·· . JJmi&gllf!ª~~~4~~ª§.º~~iPr~~~c:r~:it~~:~:§Iô.~iiisis~~a:"a€f.1?Jís-
·tú.~~ ,_tico e formal de relações. A lei magna da 'Ing1ãtêrrã~fiünêãrõfês­
. iji\J, . -~it~'ê';,~Õrte~â~~~icã'iiâ.rêstringe-se a apenas algum'as páginas .
. ·.n~~- Para os latinos, o direito civil é um sistema apriorístico e formal
;'] .
18 O JEITINHO BRASILEIRO

de relações.' As.con~ti.R~ições são 11or01atÍvase r~~lalll.entar~,s,


--.criand~QJdnl:d.e~~m!la~.i2:,~~~ii::iiº·;~a:e~n::c:omi?9k!~~iiiú; -~,
.dessl;l,,fei~-ª~l?.ermanente tensão institucion~L Assim,_ des- o
"~~~~~~~~~=!ii~1!~tt;ti:~===~
A terceira causà estaria circunscrita à atitude religiosa. Nos
paísês'latiliôs;···onde·~preclomimra··reli:gião-católtéã;'"(f'ãõgni'~-~· a:
~~9~-~]ijfõlêranfe:·CE~'s·e;··~t"lõ~go-·prazo~·· o ·catolids~~- tem. de-
~~nstrad~--s~rpre.ênêle.~lãStfCíâact;p·ará·se··aâaptar-à""evdlú­
'Çãõ-élos·;o:;~--aãS instit?!ǧ~~:a~~P.i~2;~:·s·êgiino8'oãtitbr,
p~e-ge-r~~~~~~~f!~!Í~.!2:.!~!!~tucional~q1ie::Q[Çii~~~~=~~!~~-
"Vtrla-·de-escape do Jetttnho, arnscarté!J!.ReJ:!J.!rl:?.w;,gJ1JnP.QA:lJ;P.en-
to·ci'a·"sõêfêâãde'".:.~.:~~= . ~ --········~""··~"~...·~·" · ·· ···
.,. .Po~tout~-~:!~ç!q,, 7QJ?:l.':9J~J!!l1tismo nasceu sob o signo de revi-
siõiu~p&ssmdt1t'"dl!'umaclll.Q:f~t~:.~~~E~-ª~ sompl~c-eõte:·p·õr.:
"'tãiito, quando a situação o exige, modifici''àino:r·ma:nttea"S";~cita
como exemplo dessa moral utilitária a nova interpretação· que
Calvino deu ao juro em relação à concepção aristotélica e aquinia-
na do mesmo. O protestantismo procurou evitar a tensão social
mediante fron~al modificação das normas éticas ao invés de re-
correr ao instituto do jeito.
E, como conclusão; Roberto Campos reconhece que há raí-
zes sociológicas mais profundas; rrias que, se amputada "essa ins-
tituição para legal, dado· ao irrealismo de nossas formulações le-
gais, a tensão social poderia levar-?J.OS a duas extremas posições: a
da sociedade paralítica, por obediente, e a da sociedade eXplosiva,
pelo descompasso entre a lei, o costume e o fato. 'Da{, irmão',
conclui a essencialidade do jeito". ·
Levando em conta que se trata de um ensaio para o qual, se-
gundo afirmação do autor, nenhuma pesquisa foi realizada, não
deixa de ser um texto estimulante e arguto, na medida em que
toca problemas, conforme veremos, recorrentes em todas as aná-
lises do jeitinho. Entretanto, gostaria de fazer algumas observa-
ções pertinentes. A primeira delas diz respeito à idéia de que o jei-
to é prática comum nos países latinos. Se podemos afirmar, com
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 19

·~·r certa margem de segurança, que nas mencionadas sociedades, en-.


:':..L.'...;. . tre as quais podemos incluir Espanha, Portugal, Itália, França e
· ....~, · América Latina como um todo, as relações pessoais e os vínculos
:/·~:?·. . . · de parentesco em muitas situações são os fatores determinantes na
.:Y/.·-:· tomada de decisões, isso não significa, em absoluto~ que nesses paí-
.:·</:'/ ses exista jeito. É necessário não confundir, torno a frisar, situa-
·~::;t?r1..=? ~. ções morfológicas e funcionalmente idênticas ao jeito com o pró-
. . ~t·§':::..·· prio. Essas podem existir sem o jeitinho. Tal como há lucro numa
~/~~~::!>... transação comercial de uma econoniia tribal que não conhece o
·;~k+.::/i;~.· capitalismo. Da mesma forma, também, que havia lucro e explo-
:,::.5,:~F~:.:·. ração humana no antigo Egito, que não era capitalista.
···~;tg.-}. · · Para e){~~#rjeiti1tho" é p~~~is.Q.;l!iY.Clt,~ma. escolhas?cial, ~111

.:lf~)~~~t~!~~;:~~~~~~
.>11'> ~11!~~;J;~tuãç~IJ~~~
~~~~o
. mitra observação que gostaria de fazer é quanto à idéia
.. de permFência ~e "práticas feudais" por mais tempo nos p·aíses
_làtinos e que teri~ perpetuado juridicamente as desigualdades
:· ·sociais existentes. Parece-me que esta colocação está um pouco
.dêslocada no tocante a Portugal e ao Brasil, visto que toda essa
·:·discussão a resp~ito da estrutura feudal, tanto aqui como lá, tem
. ·.:·sofrido constante revisão por historiadores e cientistas sociais.
.:··:. (Faoro, 1976; Godinho, 1971; Saraiva, 1983; Coelho, 1~83)
Nem Portugal nem Brasil jamais desenvolveram uma estru-
tura feudal da forma como ela se atualizou na França. Em Portu-
gal, os nobres e pequenos senhores jamais conseguiram,~e copsti-
tuir uma força de oposição ao rei, de forma a pulverizárem o po-
der central, como ocorreu na França e na Inglaterra..A relação
entre povo e nobreza, entre senhores e vassalos, jamais tomou a
20 O JEITINHO BRASILEIRO

forma que adquiriu nos países mencionados. A revolução de


1383 e a subida ao trono do mestre de Avis indicam claramente
uma estrutura do poder bastante distinta da feudal. Além do
mais, as desigualdades expressas no sistema jurídico de Portugal;
posteriormente transposto para o Brasil, não refletem de forma
obrigatória uma estrutura feudal, mas sim uma visão hierárquica
do mundo.
Quanto ao fato de essa legislação, que cristalizav~ sob a for-
ma de lei as desigualdades sociais existentes de fato, s~r fonte &e-
radora do jeitinho, me parece um argumento extr~:mamedte
problemático. Se os códigos mftnuelinos, filipinos e afonsinps
consubstanciavam a desigualdade e previam para todos os cri-
mes diferentes penalidades de acordo com a classe social e o sta-
tus do infrator, qual o descompasso entre essas normas e a práti-
ca social, se sabemos que era justamente isso que ocorria?~,.
beu matava e era punido, enquanto o n~Iz!.s,Jlã~éia de que o

~=,!~~;~~~~f~~~::C:::rede~ ·
ausência de uma norn;t~ universalizante."Ear.e_ç~~m~.9.l1.~;_g~~~~­
,.,,!9~,~.2..i~l!!2.,.~2J~P.i~~ão~signifls~!!!..~..SE~n<!_~fç~esá:­
.J?-~!!:.:_em do sis!~E!~Jsga\,ç,~~~dquire um~_E9.!!R-ªg~_wa~
. Ji~PJ1te.,,.e.nquan.J;ci~·ª,R!,~tlç.~~g~!~J:]:QJ!~!!l®:ªJ~gj,!im1lt:J:ratamen­
·.,to~~--~~!.:~~1~4Q.~,dos".homens..,.~.n.g_~. ªi.~:.per.ante"'áfei.
Uma quarta observação sobre as· idéias de Roberto Campos
diz respeito à ética protestante· e à católica como responsáveis
por atitudes que possam gerar a prática que estamos estudando.
Sempre que se evocam razões religiosas, essas são mantidas num
grau tão alto de generalidade que se torna quase impossível con-
tra-argumentar ~om o autor. Portanto, só a título de sugestão,
gostaríamos de fazer alguns comentários adicionais, ãe cunho
puramente ensaÍstico, dentro da mesma linha do autor.
Segundo Roberto Campos, a rigidez do catolicismo versus o
utilitarismo protestante seria o fato que estaria na base do jeito.
Embora admitindo que ao longo da história o catolicismo tem
apresentado uma faceta extremamente "plástica", a verdade é
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 21

. que isso: a curto prazo, gera tensões formidáveis. E, não fosse a


. :·.>...~.. válvula dessa ip.stituição paralegal, o funcionamento da socieda-
de estaria ameaçado. Inicialmente, vamos examinar a afirmação
da rigidez católica, tomando como base para nossa argumenta-
ção a tese desenvolvida por W eber em Ética protestante e espíri-
todo capitalismo (1905/1967}. Segundo Weber, o motivo cen-
tral que levou os reformistas e Lutero a romperem com a Igreja
foi muito mais a "plasticidade" do catolicismo do que a visão. uti-
litária dos protestantes, que, oficialmente, queriam resgatar o lu-
cro do rol dos pecados. O que.Lutero e seus seguidores contesta-
vam na Igreja era a multiplicidade ética do comportamento de
seus líderes e seguidores. Embora no domínio religioso se conde-
nasse o lucro, pois esse nascia do uso indevido de um tempo que
. não pertencia aos homens, mas sim a Deus {tese agostiniana),_!!9-,
_<!_<:>..,I!lí~!QJia.pPátiea~secia,4J~~ja~~~~!~.,~..,e~ni.!~~~ia~~~x~~c!L~~­
.ab!,g!xiçA~s. f2i.E~~E!:a esse paralelismo ~~S~~~...i':l~!!E~~!:'!.:..
tero, inaugurando o primãdõ ·-aa:··uni'ãâde ética. Por essa nova
perspê~t~a,~Õ;sqirema de vãlõres"q~;;~~;~ ~~~inha Igreja é o
mesmo que devo acionar em casa, no meu trabalho e na rua. Por-
. tanto, em termos de coerência, essa é uma postura que me exigi-
... ~á muito mais do que a anterior:.l;1,.~~.~~!.,!!nlê~~2S!Snà~~.Yills­
~-~"$.J~m.J!lÚ~~~º~~.m~gjstin,tos~omo a casa, a rua e a Igreja impli-.
: :· ~~--uma prática s~~i~l-~~~~-~iij[ç;;~~,:c~itiffi~Ei~~~~~LYiji~"'
·.· pru.:t~'jlrãíZããreprês~~t~ção-des-p~fses"an~.ilÇ.Qss.,cOJno~í~-'·"'
.~do.s~.}::1!fos"''"e'""-qua~~ádos,' que fr_eg~~li~~l!!Ç!ll~,n.os..de- com
. fr.ontareiilôs'-D.ü'.Clecorrêr...aeste-1ivro~~~~" '"'- ··
; , ....·.; •• ..o::.,....,..,,.,~J-:>;~IT_...........,fr.,,).._.~..;..-,.,;.,._;:;~•"õ.-.._J.<t"~>..;.-O.•~:.,:,•'t""~~:,,.,-,~~-Y<'-."";'if4'0'..~""ffl',.-~

No domínio da doutrina propriamente dita, o dispositivo da


confissão e do perdão, existente no catolicismo, parece-me re-
forçar essa prática social mais maleável que historicamente ca-
racterizou o catolicismo. Juntamente com a absolvição e a peni-
tência, eles estão sempre alterando os limites das situações ante-
riores que os.fiéis vivenciam, abrandando a necessidade de uma ·
coerência permanente. No protestantismo, não existe interme-
: __ ~:·. diário entre o Homem e Deus. Não existe o perdão do padre que
alivia a culpa, a penitência que nos devolve a graça. A relação que
22 O J EI TI N H O BRASIL E I RO

........
se estabelece é entre opecador e Deus, a expiação do pecado é fei-
ta por meio do procedimento digno, e não de oração; como a pe-
nitência católica. Portanto, pecar, infringir normas etc. 'me pare-
ce uni procedimento muito mais problemático no protest~ntis­
mo do que no catolicismo. Neste, o acerto de contas dos homens
com Deus é permanente e não cumulativo como no outro, no
qual o balanço de toda uma vida é o fundamental para a avaliação
final do pecador. A confissão, o arrependimento e a penitência
de última hora não existem para apagar toda uma vida de peca-
do. São os termos em que se viveu, a própria vida, o que se tem
a
para-justificar glória eterna ou a própria condenação.
Por outro lado, a idéia do dogma, como criador de uma es-
trutura rígida para o catolicismo, me parece enganosa. Não é o
dogma que orienta a vida cotidiana do católico. Na condução do
seu comportamento, àdivindade de Jesus Cristo, a virgindade de
Maria, o mistério da Santíssima Trindade não têm influênéia pa-
radigmática como, por exemplo, possuem os dez mandamentos,
-sete sacramentos, os santos, as·almas, os mortos etc. Estes, sim,
dão as diretrizes básicas da condução da vida para o càtólico. É
. dentro desse filão e na maneira como esses aspect<:>s são concebi-
dos e vivenciados, por uma e outra religião, que se tem de procu-
rar as influências que encerram na sociedade latina e na an-
glo-saxã. Aliás, trabalho nesse sentido realizou Gilberto Freyre
em Casa grande e senza.la (1933), no qual procurou reconstruir
as relações entre os vivos e os diferentes níveis da hierarquia ce-
lestial. O tratamento dos santos por diminutivgs, as ~elações de
devoção com um elemento específico,· ou, ainda, a intimidade
que regia a maior parte dessas relações oferecem-nos subsídios
para que se repensem alguns desses aspectos.

OLIVEIRA TORRES:
ADAPTAÇÃO AO INESPERADO
Um outro autor expressivo que trata do jeitinho é João Camilo
de Oliveira Torres em Interpretação da realidade brasileira
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 21

.)!1~', ~:;~~~~:::c~!~ã:t::t::::;:~i~;;~::~;:::ad:a:::
';Af\;:;. dia~f;~~i:e~:"i':~:;,:j==~c~~:~:::~e::~er
i:'i;i~:··;;. ~HJ;ã;:r~~::~<§~~~~ihi~i~!Is~~:~2~sB!~~~i·:9]d~·-
peculiar;
.·. Ar<:.·:. · P,'ermitiram a criação desse tip() g~ #l.c;>sofia df!. yi_gª,..-9.,.~\!tPr
:":·~~;::?·<·. ~õ-s:·--o''prâtic'ô"~"~ t~Ó;i~~:-·s~~~do eie,· o i~Ú:o
·.~0~*-;r< ~nã. -êãp~ãc'iâaâê'de'ãdaptáç'''ã(fâ"sítliãç~Ões'i.'~.iiésp''; e~
.: ·..~ :'.~-~; .:·.~,.;:·~.· ~:: ;.~ :· :· •/. 7~o--;;t-"."teõf·''"""ô"'eJ:llfiorã:'menéi.õnââõ~~ítã
. ~Q!!...--.-~JS.~..""'_.zg__. ··-~--l.C.. . "'"""····---.,·=~--·'~'···é···,·~, ~·.·····
Q ...•. ..•.... . sua
. .-.:.~~ . · · classificação, não tor11a a aparecer no texto, deixancfô~.õ~Têitõr
f~§1\/:. ~P.J:t.ª:gg~Q.~~2;·;~~d~i!ª:::~s"'gtire::õ7é%Fô~prã1:Ico;~éit:âum
·.

5TY;.:\·.:· exemplo q~e poderi~ s~:tconsiderado paradigmático na descri~


:(:·;\::;~.·: . ção de \situaçõe~ em que o jeitinho é definido como criatividade,
. improvisação e\ esperteza do brasileiro.
· . De acordo com o seu relato, durante a campanha dos Ape-
ninos na Segunda Guerra Mundial, uma atitude da tropa brasi-
leira, durante o inverno, intrigou tanto o nosso corpo médico
como o norte-americano. Embora se esperasse um grande nú-
mero de baixas em nossos contingentes, devido ao frio e à neve,
·. · $Urpreendentemente, contra toda a lógica, as baixas brasileiras
~: foram inferiores às do exército norte-americano, já familiariza-
. :·do com a neve e o frio em seu país de origem. Feita uma investi-
; gação, descobriu-se que os brasileiros forravam as botas com
·.jornal, para esquentar os pés; evitando, assim, que estes se enre-
: gelassem. Os soldados norte-americanos,. mesmo familiariza-
. dos com as baixas temperaturas, e sofrendo frio e dores nos pés,
,-. nada faziam, esperando instruções específicas do serviço médi-
co do exército.
Obviamente, esse exemplo não nos ensina apenas sobre o jei-..,..
tinho brasileiro,. mas também sobre o comportamento de nossas
autoridades, sobre o tipo de relações que estabelecemos com
elas, sobre a maneira de nos apercebermos dos conhecimentos
técnicos vis-à-vis. os norte-americanos etc. Mas, sem dúvida al-
guma, é um exemplo dos mais claros sobre o que as pessoas en-
tendem CO Ih O Um dos ::tSnPrt-nr. ,.1,.. ; ~:.J.: •. '- ~ 1
24 O JEITINHO BRASILEIRO

·--
pecial de lidar cÕm situações imprevistas; resolver alguma coisa
no "sufoco", como disseram várias das pessoas que entrevista-
mos no decorrer deste estudo. -
Segundo Oliveira Torres, várias são as causas do jeitinho_,
sendo possível encontrá-las tanto no tipo de formação que rece-
bemo"s como nos desafios iniciais encontrados aqui pelos coloni-
zádores.
Entre as causas enfatizadas pelo autor, podemos distinguir
o tipo de formação humanística dada pelos jesuítas, de base ge-
neralista e, portanto, pouco capaz de resolver problemas defi-
nidos. Há ainda a crença brasileira nos dons naturais e nas q:ua-
lidades inatas da pessoa, que tem como conseqüência básica
nosso desprezo pelo trabaJho lento, pelo esforço persistente e
' I
sistemático etc.
A história, aiJflda;êgundo Oliveira Torres, também nos for-
nece alguns episódJds que podem ser apontados como responsá-
veis pelo nosso i.~Üinho. A partir de um breve paralelo traçado
com os Est~dos Únidos, o autor procura mostrar que 14 a imigra-
ção ocorreu em grupos familiares que adaptaram a cultura qde
traziam de seus país de origem às condições locais. No Bras1,
todo o movimento migratório se deu por meio de indivíduos iso-
lados de seus grupos familiares e de origem, os quais foram fo~- I·.

çados a criar uma nova cultura. · .


Outro responsável pelo nosso jeito seria o nosso caráter mes-
tiço; não só físico como cultural, fruto da influência de várias
tradições simultâneas, que permitiram a familiarização do bras~-
leiro com as mais diversas vertentes. · I
Todas as causas apontadas por Oliveira Torres são recorrenr
tes em muitas das explicações oferecidas para o assunto ainda
hoje. Entretanto, são extremamente vagas e o autor não as de-
senvolve o suficiente para que se torne possível estabelecer uma
ligação entre tudo o que foi dito e o jeitinho. E mais, ele não es-
clarece quais os fatores que permitiram e permitem a permanên-
cia dessa instituição, uma vez que todas as causas mencionaçlas já
desapareceram. O jeitinho surge para o autor sob uma ótica ex-

:j
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 25

:·.\t;h:'
.ti}. · clusivamente empirista. Isto é, esse nosso mecanismo "parale-
J~~{: ~:~:o:=e~: ~~~::~:tência prática, que-plasma algo no

:t,~.'."." :~~~::~:i!:?u~~~:;~:~~?r~:!: :::r::~:~~::


-;;.:'"-.· .. corrência com que surge nas explicações sobre as diferenças en-
:.::·:.\·:;t:;.:, · tre os Estados Unidos e o Brasil. É o que diz respeito ao padrão
)~:~~~~:f:;:· de imigração adotado no Brasil- de indivíduos isolados - e nos
':?:~·~p:~.·'·.. Estados Unidos - de grupos familiares -, que teria tido como
.;;:.)~;;.{:,: conseqüência a "criação de uma cultura nova" aqui.
~~r~~::)·,.·.· Não questiono que essa diferença no padrão migratório teve
:.~:':~t~:,: conseqüências distintas para o Brasil e os Estados Unidos. O equí-
>.*).~~f voco, a meu ver, se encontra na idéia implícita de que esses indiví-
;\~L. ;. duos isolados, sejam eles degredados, criminosos ou agricultores,
·;i~~;:.r·'\t~·: :· aq{ü chegaram "boiando" literalmente num vácuo cultural, sem
~:. ::.-·;tf". raízes, sem passado, sem tradição. Na verdade, a cultura aqui "cria-
::~~~~t;;t_:.' da" foi o produto da mediação da cultura portuguesa, interioriza-
·t~~~:]1:;: da por esses indivíduos isolados, com o meio ambiente que aqui
t· .: '·},-:. encontraram. Processo semelhante ocorreu com a "implantação",
., ~t_:~,. esse é o termo normalmente utilizado, da cultura nos Estados Uni-
(. ,.dos. ·se o padrão de imigração pode ser considerado decisivo no
.~::tipo de relações étnicas e sociais estabelecidas nos dois países, não
(:·'pode, ~n~etanto, ser visto como seminal para a "formação" da cul-
}: .tura brasileira. Tese semelhante a essa é desenvolvida por Vianna
T<· Moog em Bandeirantes e pioneiros (1961).

;I>;
::·::.-(:
~ª~if~i~~ffJ~~t~~~i.~~~éÀ~~I2
não só os tipos de jeito, mas também suas causas a pa~tir de nosso
background colo"nial.
26 O JEITINHO BRASILEIRO

Segundo o autor, unia das grandes dificuldades em se estudar o


jeito é a sua multiplicidade de. formas e as diversas conseqüências
daí advindas para o funcionamento da sociedade. Entretanto, para
fins.analíticos, Keith Rosen distingue cinco tipos diferentes de com-
portamento que podem ser identificados como jeitos:

1. Quando um funcionário público se desvia de sua obriga-


ção por causa de ganhos pecuniários ou de status (como
amigos, família). Por exemplo, quando um contrato go-
vernamental é concedido a partir da gorjeta mais alta.
2. Quando cidadãos empregam subterfúgios ou contornam
obrigações fegais que são justas e sensíveis sob o ponto de
vista objetivo. Ex.: Algu_mas partes essenciais para o funcio-
namento de um carro são retiradas de modelos importa-
dos por contrabando. Quando. o carro é vendido em lei-
lão, o contrabandista, o único com as peças do carro, arre-
o
mata-o, podendo, então, vendê-lo com certificado legal.
3. Quando a velocidade com que um funcionário público
desempenha suas obrigações legais depende de gánhos pe-
cuniários ou de status. Um requ~rimento de pas~aporte
permanece sem ser encaminhado durante meses até que o
. solicitante conheça alguém ou suborne um füncionário.
4. Quando cidadãos empregam subterfúgios para ·contornar
obrigações legais que são irreàis, injustas ·ou inúteis. Por
exemplo, quando uma propriedade é transfenda por meio de
venda fictícia para se evitarem ganhos de capital em lucros
normais, tidos como altamente ilusórios devido à inflação.
5. Quando um funcionário público se desvia de suas obriga-
ções legais por causa de suas convicç()es de que as normas
são irreais, injustas ou inócuas. Por exemplo, um inspetor de
secretaria do Ministério dó Trabalho faz vista grossa a uma
empresa que paga menos do que o salário-mínimo, numa re-
gião de alta taxa de desemprego, baseando-se no argumento
de que a observância estrita da lei poderia levar a empresa à
falência e, assim, aumentar o número de desempregados.
-I-

O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 27

- ..
O autor salienta ainda que todos esses cinco ppos -não são
mutufmente exclusivos. Podem ser encontrados de forma inter-
ligada, embora os dois primeiros sejam identifit.ad0s mais com a
· corrupção e o \terceiro. tamb!ém pos~a ser c~assificado assim, ain-
. da que, do ponto de vista moral, seJa considerado menos grave.
: O quarto e o quinto exemplos são casos típicos do jeito., no senti-
. ·,:.,.·.do de ·que objetivos públicos são atendidos pela evasão das nor-
·. · · mas estabelecidas.
o autor prossegue dizendo que, embora muito difundido, o
jeito nunca se tornou objeto de pesquisa dos cientistas sociais
nem dos advogados. A causa disso, segundo ele, pode ser atribuí-
.. · da a dificuldades no âmbito das relações pessoais; pois, sendo
· ·. ·... _. essa instituição tão intimamente ligada à corrupção, talvez seja
. . ~ais político fazer de conta que as regras correspondem ao que é
feito do que correr o risco de embaraçar os amigos ao apontar to-
: das essas disparidades .
. · ·. ·: ·:_ :. Pru;gJS:~ith,.Rgsen).não__~~-.PP4ç ~f!tender o desenvolvimento do
·_: ·
i~"§-·s~~ c) _seu ~ackgro~~d histó~i'~~-~ S{i~"rãfiês'pC>dem~er~n.:~~n---,. ~­
·.. i[~~âS· iiQ._pªª$i4<ü1?!ni.&\!1~:s~~ainàQ.e@nclicronã:~~ª!Iiii!kS.,bra-
.~Y~l!!~~-~ relação . ao.funcionami~§§~?,:vemo~~A administração
. ._ portuguesa era autoritária, -'paternalista; particularista e ad hoc. A
<t~~slação era confusa, detalhista, numerosa, composta de alvarás,
:'~.<:Jitos, estatutos e cartas de lei, denominada de "legislação" extra-
_\;~gante ... Mesm.o o código filipino, estabelecido em 1603, manti-
.. ·~a a mesma característica particularista e ad hoc da legislação an-
. 'terior. Além de"'toda essa "confusão" legal, era virtualmente im-
... ·possível para Portugal fazê-la cumprir ~m todo o seu império. Com
· ·1 milhão de pessoas no século XV, sofria de falta de mão-de-obra
.-:' crônica para comandá-lo. Além do mais, a prática ibérica de enco-
rájar todos os funcionários, desde os mais graduados .ao mais hu-
milde dos vassalos, a apelarem diretamente para o rei, caso dis-
cordassem de qualquer ordem ou política estabelecida por um su-
perior, dificultava ainda mais a observância da legislação vigente.
,,;.·
.. ··~;:
. . Outra fonte 'geradora de mentalidade semelhante do jeito
/,-.. pode ser encontrada no "caráter português". Uma de suas car.::~r-
_·!.;}:;':·:
28 O J E I TI N H O BRAS I L E I R O

terísticas, invocada pelo autor, é a tolerância com a corrupção,


aliás já famosa na Europa do século XVII, conforme relato de
Lord Tyrawly. Essa tolerância da corrupção tem como subpro-
duto uma baixa expectativa de serviço público honesto. Isso
pode ser encontrado na própria imagem dos políticos de hoje,
como observa o autor, ao citar o slogan de Adernar de Barros, in-
terventor e governador de São Paulo: "Rouba, mas faz."
Um outro desdobramento-dessa atitude é o acúmulo. de.fo~­
tuna pessoal no exercício de c:argo público. Juscelino.Kubitschek
e João Goulart, por exemplo, foram dois presidentes que acu-
mularam vasta fo.ç.tun<ll pessoal no exercício da presidência..
Aliás, só muito,rec~nJé;;,ente a declaração de bens dos ministros,
presidentes etc. co~eçou a receber a atenção que já merecia em
outros países comó forma de controlar o enriquecimento ilícito..
Outro aspecto do caráter português mencionado pelo autor
é a sua falta de responsabilidade civil, que se resume na ênfase
acentuada nas relações pessoais, de al!lizade e de família. Uma .. ·~~~·
vez estabelecidas relações de amizade entre as pessoas, as obriga-
ções pessoais se impõem acima da norma impessoal, abstrata e
legal. Daí, o tão conhecido ditado: "Aos amigos, tudo; aos indife-
::~!.
rentes:~ nada; e aos inimigos, a lei."
·····"··~Q_g~:o..timentalismo...ou~o..~~cpmpl~)çJ>J:iP,ç.oitadq:: éoutro fa-
~ tq,J; .que"se~alia-a,-toda~essa,~gamª J:rlençi_qnada .a.nt.~Fi()~~ente:-N'o
B.ras,U,,.~a .atitude .de. simp.ª-!!3:,. ~~--~~~paixão se ~st~]i4Ç:".~('!§ffos
a-q;-~les em circunstâncias desfãv.0ráV,ds:~.-Emí!Io'Willems âpon-
ta·~-cõm'ba8tàn1e Justiça, q~e as fragilidades-humanas no Brasil
são para ser toleradas e aceitas como inevitáveis, podendo ser
usadas para favorecer o indivíduo vítima delas. Outros a~pectos .
· corno feudalismo, influência do catolicismo e arte do cbmpro- 1
misso são invocados por Keith Rosen para justificar a existência \
do jeito, mas, nesse sentido, suas observações nada acrescenta- . ;!. ';
....;
1

ram à discussão já realizada por Roberto Campos.


Segundo ainda Keith Rosen, toda essa cultura legal e forma-
lista originária da monarquia portuguesa e da Igreja católica, es-
tendida à família patriarcal, permeia ainda a sociedade brasilei-
~;
.:·:· ....·· O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 29

ra, estimulando o jeito. No interior, por exemplo, em troca da .


lealdade de serviços prestados, o patrão, membro da .elite local,
_·'_·:'·· normalmente, toma conta dos interesses de seus empregados ou
de pessoas que contraíram algum tipo de dívida moral cotn ele .
.O patrão de~mp.enh-a..9-.papel"dG1'.r.otetor,jnterc.eden.do,.junto,._._
. . 'às"ãufor!Cf;des, qu~ndo algum de seus protegid()_~~§tª'~J."n.p.eFigo~"
Esse-tipo=de-·teláCioil;{ffientô"pãirâô/êiffprêgâêt'o serve para for-
·~alizar e paternalizar as relações legais para as classes mais bai-
,., :?Cas. O patrão é o Estado, de quem os brasileiros esperam quase
tudo: empregos, preços estáveis, melhores salários, transporte e
· subsídios. Historicamente,. as elites brasileiras têm-se comporta-
do de forma paternalista, concedendo constituições e leis ao
···. .- ·· povo brasileiro sem qualquer preocupação com os desejos dos
agraciados. Ao invés de ser o produto legítimo de pressões popu-
·,. ~,,.· · l~res, de um estudo objetivo ou, ainda, da cristalização do costu-
~~~-·t· · me, a legislação brasileira-tem sido recorrentemente o produto
.:. ;i~~;:.:;, ... que um pequeno grupo imagina ser o ideal para o povo. A cen-
;~ú:r.::: ·. :, tralização do poder nas mãos de uma minoria e a pouca vontade
)~:~:·:.... de delegar poderes leva~ a uma imensa burocracia que, sem dú-
.::;:~~:;i,}~·-;.·. .yida alguma, facilita ainda mais o jeito.
~~i~~~::;/:. ;.:~.· ~ril-~:g!XPP-Ontomencio!lado por Keith Rosen, =~-~2-~2ptri­
~~}:~::·: .. ~uinte do je~to, está no leg~is.mo_:=t~l1dêndã'd~e~se're~l~e~to-

fW-'~!~t~~~~!~~~;J~~~:!~~1~~~t~l~.
~?;~;~;.- todª~ as ocor~ênêias'h!t-u.~a.~·~J~9~~íveis poriileio de umà)~á~~~a-"'
.
;~;t;~~·-.:: ~-,ç~~4~ãiiiaêf~e~--e~ filuitos ca~o~;J~s-~wiit~~i\s.íYe.L 'sihtaçÕes
:;x:~.; que, n~Ôrmâimente~ 'iios'países. Cíê" 'origem anglo-saxã, seriam da
/(: ... · alçada do ju_iz resolver sob o signo do bom senso, no Brasil, estão
<. ·.:~, predeterminadas por estatutos. Um outro aspecto dessa men.tali-
;·.:.~~ .d.ade é·a tendência de acreditar como resolvido tudo aquilo que é
i~\.. transformado em lei, sem se levar em conta se a sociedade tem
condições de observar o que foi estabelecido. Na medida em que
produz uma superabundância de legislação e uma falência em
construir suficiente flexibilidade nessa regulamentação, o lega-
30 O JEITINHO BRASILEIRO

lismo, acoplado ao nosso·já conhecido formàlismo e à nossa es-


trutura burocrática caótica, cria um contexto dos mais propícios
ao florescimento dessa prática paralegal. •
P~.egis~~~-~p~Ji~si~-ªY'ª-~--~~.~~~~ histór_~~~'---K~ith Rgs~~-EJ.:)O­
cura demÕns~~r que o jeito impl!~à.~~~~Ú~l.2:~-.e benefícios" para ~­
sC>ciedaâêh7aslleir;.- Do-põiitô'de vi~ta econôníico;ozelj(i~i)rÔ~
vó'cà"ffiáãlõ1:1rçáo'·de-recttfsõS,auffi"~-;;_t~--aô·s êüstôs'd~-produção
~alltrãd~ctryrõâutô·e-mTúst1Ça!·o·c_1il~---~õ--p~erffiln~-, que
~ê~ast!jfi~fês~~~)!ú!~xi4~~=tÍ~g:p_Jiea~ç~-à--Ie1~-I>or·:metõ=~do
pagamento de- gorjetas e de conexões.familiares.,----~~---~-
. - .....- -..-.u...,......------·. ~~~~··~·-"'"--<!! ............... ,~ •...•

.-------·--·os-âspectõS corruptos do jeito retardam também a eficiênci~


administrativa, além de causar prejuízo moral grande, expresso
no desrespeito constante às leis. 1!.!-E.J>-Utro.asp~ç.tQ,ç!~J~~~rio ~es­
~-ê.~iE:stituiç_~-~-9.!1~~-a()_funcionar com? válvula de esc~pe~- efaTXÍt-
"P~E~~ surgimento -~e um_ª
.P.~~ssã·a·s~dãl·efetiva·que·le-ve·a·mtr=·
- dan'ÇãStã'õnec~ssátias no. nÇ>S§O ãp~ato:le~al~e-adllrinistrativo.
·--·---::Ji2!:õ.iitro'ladõ:--os- benefísi~~d.'D~;ato::pêidi!irr:se:C:êíif2:~t;~:······
'--- dos J.10S. aspectos em,,g!-!~ _el~ J?,~.<?.P.Q!S1,'?na ll.ID _mec~nismo il1ais
-etiêiel!~C!.n~.pr.oceS,sq_·ci€tc:íesenvolvi~entõ~-ãô'~pê'rtiiíiír~uê se
, sol ~~ignem-impasse,§J~.g~!~-~-~~~~!}fstf~tJy;ós.~a:.um~~~i.~!!?.~r~tãti-
- .v.::Ú11ente.baixo.....Um QY,trQ. asp~_ç,tg__41~. xesp.eito'"a..s.e.u.~a-t~!~.i _de
in~_gJy,ição"pe-rma.n~Q!e em um universo legal ,~_:g1_Ç_Q!!§t:ªnte..iD.u.- ·
"~tàç!g~~~uma sociedad:eêliíqUirâs·te!s-iãôJre.qüentemente alte-
radas, em q~e enxurradas de dispositivos legais 'são introduzi-
dos diariamente, ·o jeitó surge como uma font~ permanente de
estabilidade e previsibilidade. Um outro argumento a seu favor,
segundo Keith Rosen, é que, sob a forma de gorjeta, ele opera (.

como um imposto direto sobre aqueles que podem pagar para


obterem os serviços públicos de que necessitam, rapidamente;
do lado dos funcionários mal pagos da administração pública,
funciona como urna forma de complemento salarial, embora
prejudique aqueles que precisam desse serviço mas não podem
pagá-lo. ,~as o principal p_~_neficio,. d.njei-to~-é-ql:l:e'"permit~Jl
s_qçi~c!~de . êiiiVias··cre--aê;~!1YolvimeQ.tQ.,_,co.m.o;.oJ3.ra~.il3.$ª!lb.~r
temp?_R~rerolVersêU'~ prob,le111~s" -~.l}sti_~':~~-?,l_l:~~~.~~~~~~q~~a.J: . .
·--...- ......._........_ ...._..,....,.-.··· -~--""'~ ~ .. --.·
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 31

·.-··
~fa~~~.r.~ptura políti~~-.ou.,soGial.,"~~b esse ponto de vista,
o jeito tem sido ·ae valor incalculável ao permitir que o sistema
brasileiro opere sem conflitos violentos.
. O autor conclui sua análise de "custos e benefícios" afirmançl()
·.. gue; eni6oraintl.meros'iesultadôs êiii'fermõs'de •âes·e..nvôlv:imeiitp'"
· ·: fossem õ15ticlos"'víáJelto~-~1~;·;ã·o~bãSícamenfe-oenefíêiõs·a--cui1:~-·
.. prazo·:""A:tongoyr~~!ilê.ito·e.ô"·ê·stil<?,:d.ê.J'i).@rãÇ~<5-qiie*êl'~tpêrmifÇ>
. :· ·. cõiitm:üãtéxisti~d~ constituem-se em ~m sério obsfáêufo~âô''(le~:··
rêquer
. :·. senyplV:im~.n:to.:~:ESte ii.ín ãlto.graü de. iritêgração-sõeial"itcõo:-\,
~:-·. · p~~ação comunitária, ao mesmo tempo em que coloca barreiras a
· . ·.·.:,: compo.rtamentos tradicionais, personalistas e autoritários. Tam-
. ' bém requer produtividade maior e distribuição de renda mais jus-
.. ··.: . ta. O sistema legal pode ser um dos instrumentos mais efetivos do
. Estado moderno pata promover a, interdependência social e a dis-
. · tribuição de rénda mais igualitária. Mas a existência de uma insti-
. tuiÇão comÓ o jeito permi~e que uma sociedade continue "perso-
. ·.' n~sta" em termos de comportamento, apesar do esforço estatal
\~m tentar modificar esse tipo de comportaniento pela via legal.
· .·.:.;,':.: Como se pode observar, a pesquisa de Keith Rosen procura
··~er detalhada e competente na tentativa· de estabelecer as liga-
. 'ções do jeito com os diversos compone1;1tes de nosso contexto
·social. A esse aspecto, pouco se pode acrescentar ao que foi dito
,e;· também; ao seu esforço de revestir de uma forma objetiva
!;iquilo que chamou "custos e benefícios" do jeito;, trazendo a dis-
cussão para 6 plano das situações sociais concretas, que podem
. muito nos ajudar na compreens~o da fenomenologia do jeito .
.. .- Entretanto, se pouco podemos acrescentar de imediato a seu as-
. pecto funcional, algumas observações a respeito do estudo como
'··.um todo e das suas conclusões podem ser de alguma valia.
· : · A primeira observação a ser feita.,~~~qu0',-etfil5õfa"'exa-l:tst:ivo
sob"Um'aeternrirtaâõ~aspectoro~têxt~ieva em consi~eraç~o ape-
]i~_~m 1adurtõ{é1ti'nho: aq\léle-coiicê;ii:~;,:t:~·a-seú-áspê~to.,;rde ins-
·:·. !!~ç~~- f>.ª~~!~I~M]!~~-~-Sisre"Inaiurfdíeoe,!iiJ:i.~l:rl'Ha
·.~.~~}.. .dª~sificaçá,<tf~itaàs ~ategõtias. d-<n:rurõrsem referênC1a ao siste-
..:·.f:}:::· ..Jlla"d~. dassificaçãóJocaJ~ · -"~--·..~-~-". ~·~·-·~-·~,,.~;.,...;;;;;;;;~--
32 O JEITINHO BRASILEIRO

Um outro ponto, conseqüência direta do anterior, é encarar


o jeito basicamente como forma de corrupção ou, pelo menos,
algo tão- intimamente ligado que se torna impossível' falar num
sem se referir ao outro. O que a evidência empírica nos indica é
que o jeito é, no sistema de classificação "nativo", diferente da
I . '
corrupção. Como poderemos verificar, existe todo um segmen-
to de população Húe:)lao o vê mantendo qualquer tipo de ligação
com a corrupção./ r'
Se não. bast:jt~se a própria classificação nativa que não o vê
"apenas" como' corrupção) a afirmação de uma ligação íntima
entre esse mecanismo "paralegaP' e uma prát~ca social corrupta
envereda por um caminho de argumentos extra-sociológicos e
moralizantes. Dizer·que o jeitinho é corrupção ou é por ela favo-
recido equivale dizer que as sociedades e os povos que não pos-
suem e não praticam o jeitinho são honestos ipso facto.
Ligado ainda ao que foi dito anteriormente, há outro ~pecto
que nos parece· importante mendonar e diz respeit~ às .causas
atribuídas por Keith Rosen relativas aos poucos estudos sobre o
jeitinho. Da forma como o nosso autor coloca seus argumentos,
.!
esse mecanismo é motivo de "embaraço", senão de vergonha, ~
para os brasileiros. Preferimos não estudá-lo e discuti-lo a com- '·
prometer nossas relações sociais, contaminadas pela prática so-
cial corrupta, que ·optamos por ignorar ou pretender que não
exista, como num país do "faz-de-conta". Acontece, entretanto,
e este é um ponto inteiramente despercebido pelo autor, cmifun-
dido pelo uso de suas categorias nativas, que o jeitinho não só é
um mecanismo de ajuste à realidade institucional brasileira, mas
também um elemento de identidade social positiva e negativa.
Ele é percebido e reconhecido como nos definindo como país e '•·
i
como povo. Portanto, longe cie ser algo escuso, embaraçoso, o
jeiti1tho é reconhecido, admitido, louvado e condenado. A au-
sência de estudos a seu respeito provém muito mais das causas
que aventamos no início deste capítulo do que por quaisquer ou-
tros fatores.
··:/\~/}·':.: O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 33

·li<•. ?d~;~;;~~;;~;~;=~:é:P~~; t,e~ ~; ~ :~


:' : :
·>\f~~'~r do na Revista de Administração Pública da Fundação Getúlio Var-
.·:;: :;Ú'.:. · : · gas e fruto de uma pesquisa entre vinte pessoas dos mais diferentes
..{}i~;t;:;i. '· níveis sociais que mantinham algum tipo de vínculo com alguma
:{~~;~~;>··\\:~· J p~gànização burocrática. O artigo procura conjugar a ótica antro-
. ~·?::,~.:.:jC:·:. pológica e a teoria da adrninistra~o na análise do jeitinho e tenta
·-=~)A:i~;·=·:.·:. ·éstabelecer suas ligações com as estruturas de poder da sociedade
·:.::~:?··~~:.::~:.··'brasileira e com as diferentes organizações burocráticas.~;,~~:.,S.~.U:,
:·:\{/C~}< tra!.do~~~~e que <?J!itinkn-~.JJ.~~~,~:,pod~!J Os auto-
·,ut,Ú.'· · .: res a desenvolvem lançando mão de argumentos teóricos que va-
.(};:~t~: .·.riam desde Guerreiro Ramos até Roberto DaMatta. Suas conclu-
:::i~i~;~;.;\: :.:·~ões finais são calcadas nas respostas às vinte perguntas formuladas
~:j(~f/:. ·::~o~ entrevistadores e podem ser resUmidas nestes aspectos:

1iê;;?t~~;t~1~ªªª~~~~~~:~:::~
l'r:·_·: 1.
.>;:· ·. · 2-. A estratégia do jeitinho, como fuga à formalização neutra

1;:: ~~~~~~~~?;~~:~:=~:::::::
t E·.
3.
Manifesta-se onde prevaleçam u~ sistema de hierarquiza-

I;,·
4

. !lt.~~~e~~;f~~1t~~:~~;;:~~~;~i· . .
S.. O jeitinho não está em extinção, mesmo com o avanço da
burocracia e de sua ótica racional e impessoal.
--------------·-· ··--· - ...

34 O JEITINHO BRASILEIRO

De todos os trabalhos't'"omentados, esse é o único qu·e se ba-


seia em uma pesquisa empírica e que abandona as causas histó-
ricas do jeito como tema central. Mesmo inovando n,esse aspec-
to, o estudo não desvenda muito mais acerca do tema. Em rela-
ção às conclusões apresentadas pelos autores - que o jeitinho é
um mecanismo para t~an~{c:>II!!ª'~jn.qh:ídu()S éínpê!'S1i'Oa~~~q\fê'­
IÍãÕést~rTa.vênl"desuso:-âp~sar do ava~ç~'"d~-b~~ocra·aã·~;_:~~t:a::·,
tiaaeres·ernrm~ c~~-~~ª!~~:P.g~~!i:_câiiítUIO:N:'lüaxtcJo
fãrê"inõSUiilà~êõmparaç!~.,~~!!.~--~~i-~~~~~_ho e o "Você sabe com
Jlf!~!!t~X~I4Jànãõ?"N~-·· . ·- . .-. . .,,,·.--_-_,.~-----···_--_·h...............-..,.c--··---····-·..--~----
Como observamos nas páginas anteriores, não obstante sua
diversidade·, esses textos apresentam importantes recorrências,
muitas das quais também presentes nas opiniões veiculadas pelo
senso comum acerca desse nosso mecanismo.
Em primeiro lug~!.~--g~!l,.~.~-!~<?.9:~~-~~ent~lll estabelecer ligações
entre·~e-~feit-innõ·e--ãspect~~- -~i~~§riçq~~:i~~~1s,~e.DJ.a.T·~-etíní~õs«d9.
tipe-:,·educaçãõ'-generãiizaíit~·dos jesuítas~:-~~w~t!.s.~o·ca'iolíco,
·c~o:ltUTãnuWíStieà:~9lç.ª.QM:ç2~iUiJÇã~- d.êl corte ·p-ortuguesa,
formãlismo.et:c:·vi5t;~:i~~<>~,gJ1~t~Ç3.1úiitlígtíe'sà~:õJei"tiikô
pa:ssa"ã"'s"êr'êõnê'ebll:lõ'como um elemento "eterno" no interior da
'-SO'cieàade~hrasileira:·~····""~·--".,,. ,,.,,...,.... ····-~"··"-''-·"'"·····"·•·•·"~, . ~--'""'.,.,____ .;__~~-~-'-~'''"_:;;::,_~w
L~-~-·:::9-~~f:ª-:·ça:tãctê~ÍstiGaR~!!!!~ada po~~~§~~~.análi~~.~"'~.:PIDR.p.ers-
pectiv~,f+en.çª!J.1~nte.e;v;elueiomstã.:Q.if~itinhg_~§-~IDP.f~Jnt.erpre­
·tado_.ç()mo.um.sintomª-,.,~m indicador, uma sobrevivência de es- l
I
;_!f.!g(qs,.<ksqb.Qese_p._y~IviE.iirrl9,l~~~~~~S~l.e~social.qui~ntos L
l
_. qa_.m.Qdernidªd~ ..~-d.Q""_.J?XQgt~§iÇt!E~íaf-~~. ,g~~dissipar.
~. . O,terceif!?~P~~t;!~,.S~l!!!!~. .~ a -~nfarlZ~çã.~"~~~,..~~f!:9SJ!l_QIÍ~ló­
.gj.ços. ~c~cionai~ -~9.i§i!~q,_,~h~eiilréfer~~~~!~~g,~~H,.~Jgffifj.gdo,no. ní-
__ velçlas representaçõ~s. abÕr<lâgêm. permite encarar essa nossa ESsa
institÜiÇa(f~ 7ãtalegâi'
·-··--·-~·~~h-~;~E. . . . . . ~~-·..- - . co~ô~'êxcltisivâiiienf~-me~~Õ-d~-ã~ustê,
--·~·'-~-%·" ··---·~--~--=-~..~-..~----~-~····-·-- -·----···-.. ·--~-~"'·"-~-----...~.._,.,__.. __ J_._--..~
. de...adaptaçãg,~.~~~~~.Q~~~~Penretsas.-da..so.ci~çlac!~"~!.~l!~kª'~imPli-
çandQ___ç!!~tos e benefícios para todos. Essa ênfase J}Q.~.~p_~Ç!p§J~gg­
~.!.~11ais do]elt'itiTfõãcaireta a~!!PstântivâÇão·;·ç,gm.,ª«bJJ§,Ǫ_g~Ji-
.--~tês'""C1ãros·e-pre~J:§as~. esta~~tsi2rli.~.~::õ.iii:r~,,,.~,P.br:t!tudn. ..a
. i~(!g!i,f!,~ção d;~~~ elemento singular, definid<?.~--q~_S.JJfl,ess.ênGia?'
-,......_,...__, __,~"'"','~""'"'·,....·~':'!7"':....,.:10~~,~·..-_..,...,..;,·.,,.,-,....,.~ ........,?•-·>rl'.'t''_......···"·•.~.•-• ~:o· ~--
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 35

:ii~~~}_?· ·~ Finalmente, todos esses textos discutem de maneira mais ou.


.
:\:!Y~;~~\ menos explícita a questão do jeitinho como instituição tipica-
:::(.i}~~!·.:i:~. ·..mente brasileira,-arriscando um prognóstico sobre sua perma-
.:;;:{~.:i\~<: . . nência ou não no interior da nossa sociedade.
' ·:·.:@;1i~!f<::.:· . · Embol;'a ric.os e sugestivos, esses estudos passam ao largo de
::;:·;rL·:}<certas questões fundamentais. Entre elas, está a importante
.:~(;;r~ii:i \\tansformaÇão sofrida,. em temri.L~~~-;;~s~"Pêfã"êãtêgôti'â7é'~t,F"·-
(/i~~?~:' ··nJJô:ê!e"(frãmã··saêíàT-aô~no, ~ssõüãereme·ntõ~ae~rae;ti-

·t::-.-~~:?fl~:~~~:S~~!~~g~~~~.:~~';~
.·}.J:·~f:.;·: oféltinho . sê.trarisfôrffiõl.i"êin elêffiêirtõpãraaíg$âtiço cl~ no"ssa
,:.f.4,~7::· 1mecan1s111o
.-:.~::);:>:
~~~~ª~~-~~?"a~~~~.~-,~~~-~-~!~·:~.~~:!~~~=§l~~~~f~~!~;ri~~!.
. e aJ'Uste, qu: ~or
~~
:[)rasue1ra 1ança mao
asocte~a(le,
·~:.:·t~ ~· ·:.··.'de1ê ·em
si~~~õe~--éiü~~~ efii· Oütr~~--sô~~~4~4~;·-t1ãô=p;;~~~~~~e-
- . ·: qÚerê~talgiím ''~~pe~iente;,·~ côríiõ''fiiàs e 'outrÕsprÕceêl1mehios
. : búiõcrâtieosréY -ue também rtãõ exp-Irca·é;·por~qu:eilas~àüas úl-
. . -a despeito do inegável avanço da técnica e da in-
·. gústria, da racionalidade e da eficiência no país- o jeitinho, lon-
.ge. de se mostrar em extinção, está mais presente nos meios de
• • •• e no discurso do cotidiano do que em qualquer pe-
M

anterior?
·. . , _.i•: ·Arespo~ta a essas questões depende, a meu ver, da adoção de
.. · nova perspectiva que, em vez de privilegiar os aspectos
. s e funcionais do jeitinho, empreenda a análise do
.'s~u. significado simbólico. Abordar o jeitinho sob essa ótica im-
,plica desvendar o sentido desse mecanismo, que valor lhe é atri-
.J>tiído, o que norteia a sua atualização no contexto da sociedade
·. ht.asileira, tomando como ·ponto de partida a análise do conjunto
·..~~ representações a seu respeito. ·
...~:. ":: · Num primeiro momento, a investigação de seu caráter sim-
~ólico implica distingui-lo, en:quanto fato social, de situações
funcionais ou morfologicamente iguais a ele. Torna-se possível,
assim, considerar de outro ângulo a questão do caráter essencial-
··:r>:·;. mente brasileiro ou não do jeitinho. É que, do ponto de vista for-
. }_·,-··. mal e de operação prática, comportamentos semelhantf's pv1"'-
::~:··.{·
_.: .,
.:._~:
36 O JEITINHO BRASILEIRO

tem em todas as sociedades. Ndssa peculiaridade está eni que no


Brasil existe eriquant()_ f~teg;;:;!~j-~~íâf n~!IY.i~·~.qii~Jg.~g_ªt!êa"'de­
fernu=nacfós êspáÇÕs e Illec~nf~ffiõ;~s~tiiªa~.s ent~e 'o legâfê''~··th~~
·~a(~i;iré .õ1Jr.~.?f~!:2:.~2~1iiJ1ii4{>.:.:~~~:9; ~~~is···aHerentesnniv·êr-
..so~-;õaa:i'S.iJ(;S";ú~rn mecanismos que realizam a mediação entre
as diferentes áreas do sistema social, a existência desses dispositi-
vos de ajuste no nível empírico não assegura a existência em ní-
vel social. Para que isso ocorra é preciso que a sociedade elabore,
tome esse dado "infra-estrutural" como significativo, atribua um
p-eso, um valor a essas práticas. Expressões como "existe jeitinho
em qualquer lugar do mundo, (ou sua contrapartida ufanista,
"ninguém tem aquele jeitinho brasileiro"') revelam, além de uma
substantivação do jeitittho, ao qual é conferida essência brasilei-
ra, a tendência a ver o universo socia1 alheio através de categórias
que nos são próprias. O jeitinho é de fato uma configuração de
valores específica e historicamente dada.

Um outro aspecto que me parece importante enfatizar, nessa
nova abordagem que proponho, é a distinção entre dois aspectos '
!
!

!
i
do jeitinho que, até então, tinham sido tratados como uma única

coisa: dar um jeitinho e jeitinho brasileiro. O dar um jeitinho en- '!
quanto um drama social, momento privilegiado de nossa reali- l
dade, em que atualizamos nossos valores mais profundos, e o jei-
f-:
tinho brasileiro, elemento tomado como paradigmático em de-
terminados contextos para nos definir como país e como povo e
que deve ser encarado como uma forma nossa de fa~ar sobre o
que consideramos c~mo Brasil e como nos inserimos nele.
Embora intimamente ligados, dar um jeitinh<;> e jeitinho brasilei-
ro não se equivalem, atualizam valores diferentes e surgem rela-
cionados a diferentes domínios da sociedade brasileira. ·
A i.Q.vestigação do significado desse nosso mecanismo de "na-
L

vegação social" nos moldes propostos implica um levantamento '
etnográfico em três níveis diferentes. No primeiro, é fundamental
mapear sua existência no interior de nosso universo social, de
modo a conhecer ,a sua gramática, isto é, as situações, os persona- I
gens e os domínios ade~uados ou não ao seu uso. No segundo, re-
,.,.·l
O Jeitinho Escrito: Visões Intelectuais 37

: quer-se a análise dos discursos e dos sistemas de representação de


:,. que ele é objeto. E, no terceiro, a comparação com outro drama
:·< social do cotidiano brasileiro, o "Você sabe com quem está falan- -
.· . ·do?", estudado anteriormente por R~berto DaMatta.

NOTA
· ;.:' 1. Não se trata de negarmos aqui a existência de instituição semelhante ao jeiti-
. nho em outras sociedades ou afirmarmos sua especifiádade brasileira. Nosso
· .. objetivo é impedir qualquer tentativa de atribuir uma substancia a esse mecanis-
. mo social e enfatizar o seu aspecto classificatório. Por exemplo, uma situação que
·:para nós pode ser considerada jeitinho, nos Estados Unidos, será simplesmente
.. classificada como ilegal ou desonesta. Por outro lado, a Argélia parece ter uma
· ·..· . ·.·forma semelhante à nossa para classificar determinadas situações. Segundo
. ·'. Bourdieu(1963), o chtara é uma classificação nativa para situações que ficam a
·.· . ~. meio caminho do legal e do ilegal, que implicam muitas vezes criatividade, 'jogo
· · de cintura etc. t forma institucionalizada, na Argélia, de burlar leis, regras e regula-
·,. mentes, principalmente entre as camadas operárias.
·:.:. .
······--
_2
.:. . NAVEGANDO EM ÁGUAS BRASILEIRAS:
O MAPA SOCIAL DO JEITINHO

.."'!ransformar o cotidiano em "exótico", em alguma coisa estra-


Dl.Ia e pouco familiar, é o grande desafio do antropólogo que es-
a sua própria sociedade. Sugerir que as pessoas pensem so-
fatos dados da sua existência como se fossem coisa$. novas e
:·cu:terentes é o primeiro passo nessa direção, embora estéja Ia'nge
. · ser uma tarefa fácil. .. ,. .
: '\ .. Pesquisar o jeitinho consistiu justamente em.c6~vehcer pes-
a fazerem o caminho do susto- "Mas eu rz.unca perz.sei a res-
·p~ito!",. - até o encantamento- "Puxa! Eu nãó imaginava que pu-
.cfesse falar tanto tempo sobre isso!" Foi também, ao mesmo tem-
. 'po,"um trabalho minucioso de detetive e tradutor. Implicou des-
.. cobrir pessoas que quisessem passar do susto ao encantamento,
. depois registrar interpretações e fatos sobre um mecanismo so-
' · cial de aprendizado implícito, sem registros escritos, de "passa-
do incerto e de futuro desconhecido". E, a partir deles, estabele-
cer relações que pudessem explicar o significado do jeitinho no
.. interior df sociedade brasileira. Em suma, possibilitassem enten-
der o seu {di orna.
40 O JEITINHO BRASILEIRO

Este aprendizado só foi possível por. meio de uma pesquisa


empírica com 200 pessoas, de diferentes cidades como Recife,
Rio de Janeiro, João Pessoa, Porto Alegre, levada a cabo, de for-
ma intermitente, no período de 1984 a 1986. O trabalho de
campo consistiu em questionários. e entrevistas com os mais dife-
rentes segmentos e faixas etárias da população. Participaram das
entrevistas e responderam aos questionários desde mecânicos de
trem, operários, intelectuais, profissionais liberais até estudantes
secundários, donas-de-casa e pessoas com mais de 70 anos.
Além dos questionários e entrevistas, foi utilizado, também,
material proveniente de jornais, rádio, televisão, música popu-
lar, literatura etc. A minha observaç~o anônima de situações so-
ciais concretas de jeitinho e o meu conhecimento de nativa fo-
ram fundamentais. Eles serviram de bússola para me orientar no ....:
·:.,·
meio desse "continente" de informações e na forma como con-
duzir as entrevistas: provocando, confrontando e instigando os
entrevistados a partir de seus discursos e de suas práticas sociais.

O QUE É O JEITINHO
Um dos aspectos interessantes em relação ao jeitinho é seu cará-
ter "universal".- Todas as pessoas entrevistadas conhecem, prati-
cam ou fazem uso das expressões jeitinho brasileiro ou dar um
jeitinho. Quando essa locução.não é de imediato entendida, caso
raríssimo, uma sip.onímia vasta situa~ com facilidade, a pessoa a
respeito do que se está falando. Seus exemplos mais freqüentes e
significativos são: quebra-galho, malandragei"n, jogo de cintura,
ginga etc.
Além de ser conhecido e usado por todas as pessoas entrevis-
tadas, o jeitinho é pensado como algo utilizado por todos na so-
ciedade brasileira: do·''jontfnuo ao presidente~~j como, figurati-
vamente, disse um ~Ós entrevistados. Ou do "faxineiro ao em-
presário"~ como disse um estudante secundário.
Obviamente, á magnitude do jeito que o contínuo e· o presi-
dente podem dar ou pedir é inteiramente diferente. A qu~mtida-
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 41

//:\>.··
·.-_·_~,... de de recursos materiais, simbólicos e humanos que um e outro
;~.:,/{:. :.:. podem mobilizar explica a diferença, mas não desqualifica nem
(/;~::-~ . ··': un1 nem outro como usuário do jeito. Além do mais, para se dar
_;;;;~~.:.::_ ou conseguir um jeitinho é necessário apenas "boa vontade", se-
:~-?;:;/·' gundo a maioria dos informantes. Portanto, a diferença que se
:~; _ -:. (:.·. pode estabelecer entre os segmentos sociais em relação ao jeito
:4d{\ está mais ligada à sua magnitude do que à sua incidência.
;;;~~li:;:~::.··: . ;m.);:~lª_ção à definição do que é o jeitinho, não ocorr~r~m
;~{F/;,/ grand~s .Y~E!.~5.].~:ª~mtQd.<is:1r2~~Q~E;~~l:?.i~i!i.ti!i21~i~inPr~."
':i;>}:~ . :. utfi~fforn1_a '.'~special, de se r~solye~al&Ul11Probl~~~.R.~. ~!!!*.ê!r~~9
}.~: _~:·:·.:. . ~~!!~1I~~~.Êi9i~l~~i~.9-~-~1na··~-Qi~ÇKQ.-çiiªii~-ª'i~~i.:~!~ci~. ,7.~~-~:
f;r·::::. gêJ:lcia, seja sob af2!fi1a deburla a alguma reg~a O':J:D~,t".ffiª·-BJ;.~~s-
f:):~~i t~h-êiectââ;~~~~ se>lJ -~1Q~ffi;'êí~:f-9.Ê:~~iã.I~2:~~§psi.t~91L4a~Iíi~
~~;:::~:~_·.:. daae':]?:õrtanto~- para que uma deÚ!r~inada situação seja -cônsr-
~;~~r:t derãd; jeito, necessita-se de um aco.ntecimento imprevisto e ad-
.
~~<~:_:' ..r~rso ·aos objetivos do indiyíduo. Para resolvê-la, é necessário
~;;~i~~:. Üma maneira especial, isto é~ eficiente e rápida, para tratar do
:~é;Q.;:;,:/'p~oplema". Não serve qualquer estratégia. A que for adotada
~(:','~~.lll de produzir os resultado~· deseja_dos a curtíssimo prazo. E
ittFt)p.ais, a 11-ão ser estas qualificações, nenhuma outra se faz necessá-
se.
~~r;r· ~j~. para ca~acterizar o jeito. Não importa que a solução encon-
~fi"~~--~\ . tr~da seja definitiva ou não, ideal ou provisória, leg~l ou ilegal.
.,___::...;--__·~-' Embora tenhamos ~entado definir o jeito. de uma forma mais
~~i~>-::. P':l . menos objetiva e sintética, a partir das respostas das pessoas
~~f:(~nt~evist:das, e~ta não.é ~ma categoria ~e contornos tão nít!dos
~~~;,,::::.somo seria de supor, levando-se em conta o alto grau de umfor-
~{:~.~ w.ização das definições.apresentadas. O que é e o que não é jeito
~t~>-'variam bastante. Não existe um elemento sequer que pudésse-
~i:tr mos assinalar cuja presença configuraria uma situação que fosse _
~j{ definida por todos corpo jeito. Sabemos que o jeito se distingue
:~:t!·:.-· de outras categorias afins no' universo social brasileiro como fa-
V; .. •
:::··.:_.. vor e corrupção. Entretanto, é difícil estabelecer o que distingue
j;--_·:·. o jeito do favor ou da corrupção. Sabemos, por várias entrevis-
'. tas, que "jeitinho demais leva à corrupção" e que "não peço favor
..-. a qualquer um", embora não seja necessário se conhecer alguém
:~.:~
42 O JEITINHO BRASILEIRO

para se pedir um jeito. Mas onde, nitidamente, termina um e co-


meça o outro é difícil de precisar. Uma forma melhor de entender
e distinguir essas categorias é pensá-las com um continuum que se
estende de um pólo, caracterizado como positivo pela sociedade e
no qual estaria a categoria favor, até um outro, visto como negati-
·::
vo, em que se encontraria a corrupção. No m~io, o jeito que é vis-
to tanto de unia perspectiva negativa como positiva.
Graficamente, essas três categori~ poderiam ser representa-
das da seguinte forma:

(+) (+}/(-) (-)


~

favor jeito corrupção

O que caracteriza a passagem de uma categoria para outra é


muito mais o contexto em que a situação ocorre e o tipo de rela- ·
ção existente entre as pessoas envolvidas do que, propriamente,
uma natureza peculiar a cada uma.
Mesmo sem distinguir inteiramente uma situação da outra,
existem·características próprias a cada uma que ajudam a com-
preensão dos diferente~ universos simbólicos. Por exemplo, o fa-
vor é umà .situação que, para a maioria das pessoas, implica reci-
procidade direta. Quem recebe um favor fica "devedor de quem
o fez'~ e· se sente "obrigado,~' a retribuí-lo na primeira oportunida-
de. Essa noção de reciprocidade é tã6 forte que, muitas vezes, a
pessoa qtie faz o favor procura ·evitar quem o recebeu para que
esta não se julgue "obrigada" ou. "constrangida". Quem assim
não procede é "ingrato" ou "cuspiu no prato em que comeu". Um
outro aspecto a ser mencionado é que, entre quem faz um favor e
· quem o recebe, estabelece-se uma hierarquia em que o credor
fica em situação superior ao devedor. Essa situação para muitos
nunca é revertida, mesmo quando o favor é "pago". Favor, se-
gundo alguns, não se paga nunca. 1
Quem dá e quem recebe o jeitinho estão sempre em situações
. iguais. Isso não significa a ausência de recipro.cidade ou de um
código de valores no mesmo sentido do favor nas situações de jei-
-.-....- ... ·-----· .. - - -.. ·--------- --- .. ·-·--------· _, ___

Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 43

·.-_f~•?:· ~~f:::~!~:E:~~~=:E::a:::~~%E~~~~:;;r!
__.··r·:·:
._..,·.f.•.·.".:•:•.:,-::_:·.:

__ .: ~
. :··.,i·:··
.. .. :.·

de um jeitinho que não foi concedido por ela. A noção é de que

.litt ~eh~!';dar~:s :~:.~;~.~~::~:~::, ~;;;~:e~:!::~:~


.:.~.:~l;.': ( n a po e ser eu .
:;Nf.~~tf.';~. ~· · Um_ outro ~ectGHtY·esin~m.lª-fi~a..~J:i:~~~t2;<f~Y&~.~~J~.&Eê.E.~~;~
··i· ''J..;:. conhecimento entre as 1?~§.9.ª-S~UY..~Jv~êlãs na s1tuaçao. Enquan-

~~::!~Bttêlií~~;:~ ·· Relacionada também à distinção entre favor e jeito, está a


idéia de que o favor não envolve a transgressão de alguma norma
ou regra preestabelecida, enquanto o jeitinho envoly~ q_':lase
:. sempre al~!!E9~~jnf!!~~?.:..:§,ssa 6ltima'ãlst1nÇão~ês'11''~'~~;~:'~"
'.
l
latiõn::fdã'"'âi·igidez do discurso sobre o jeito. Quanto mais con-
t. denatór.io desta instituição paralela ele for, mais enfatizará seu
1
i
·:.· aspecto de transgressão. Quanto menos negativo, menos aten-
! . ::: ção dará·a esse aspecto.
.:'. ·.~.: Um último ponto a ser mencionado é o de que o favor seria
I
f
f
.'· um c~mportamento mais formal, enquanto o jeitinho, mais in-
formct-1, e que o ciclo de relacionamento qll:e envol~e as pessoas
i no favor seria mais longo do que o jeito. · / ·

I I
Embora houvéssemos apontado alguma~/distinçóes que
freqüentemente surgiram, ficou patente que/~m~ota no nível
I de representação simbólica a maioria admitisse uma distinção
entre essas duas categorias, na prática elas se encontram bas-
tante 'misturadas. Posso pedir a alguém para "quebrar o meu
galho'" e não infringir nenhuma regra, como posso pedir um
"favof" a alg-uém e transgredir alguma lei. A própria utilização
de um termo \ou outro também é muito problemática. A esse
respeito, poderemos dizer apenas que, quanto mais de última
44 O JEITINHO BRASILEIRO

I
hora é a situação, mais freqüente será a utilização do termo je;-
to ou "quebra-galho".
Em relação às distinções entre jeito e corrupção, embora ds
representações sejam mais ou menos claras, a prática, como no
caso anterior, encontra-se meio confusa. Para a maioria, o que
distingue um do outro é a existência ou não de alguma vanta-
gem material advinda da situação. Mesmo assim, existem situaf
ções que envolvem algum ganho ma,terial e que não são consi-
deradas corrupção e sim jeito. Por exemplo, dar uma "cerveja('
antecipada ao funcionário do Detran que faz a vistoria do seu
carro, dar um "dinheirinho" ao guarda que resolveu não multar
etc. Embora essas situações envolvam dinheiro, elas o fazem em
pequena quantidade e envolvem também muito "papo". Entre
jeito e corrupção, a distinção que grosso modo poderia ser feita
seria em relação-ao montante de dinheiro envolvido. Enquanto
tudo ficasse no nível da "cerveja", do "cafezinho" e da "gorje-
ta", seria jeito. Quando alcançasse níveis mais altos, adquiriria
matizes de corrupção. E;mbora a prática das pessoas entrevista-
das funcione dentro desses parâmetros, a representaÇão e o sig-
nificado atribuído irão variar de acordo com o discurso adota-
do .. Para as pessoas que atualizam um discurso "erudito" e
"condenatório" do jeito, o montante do dinheiro pesa, mas não _
é um critério absoluto; a transgressão da norma e a pouca credi-
bilidade institucional que a prática do jeito acarreta são consi-
deradas fundameJ;J.tais.
Um último aspecto a ser mencionado, em relação às distin-
ções atribuídas às,dif~~entes categorjas, é que a precisão da dife-
renciação aument~.a-medida que se eleva o nível educacional das
pessoas. Da mesm~ forma que a distinção entre jeito e corrupção
é mais acentuada dependendo do discurs6 das pessoas em re-
lação ao primeiro. Quanto mais favorável for a postura das pes-
soas em relação ao jeito, mais ela o achará distinto de corrupção.
Quanto mais crítico e negativo, mais semelhante.
Por tudo que foi dito anteriormente, ficou patente que, para
a maioria das pessoas, existe uma distinção clara no nível dare-
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 45

presentação simbólica entre·as três categorias mencionadas: fa-


.. vor, jeito e corrupção. No nível das situações sociais concretas,
no entanto, os limites entre elas são bastante imprecisos.
Se, como vimos, o jeito é universalmente conhecido, tam-
·. hém é igualmente praticado. Quase todos responderam sim à
· pergunta: "Você usa o jeito?'' Em raríssimos casos, as pessoas en-
. ·j~#camente negaram ser usuárias dessa instituição. Os argumen-
.' tos e objeções levantados contra a prática cio jeitinho eram, via
.·. ~e regra, de cunho ético .e moral: "é injusto'", ccd~ve-se esperar a
·•. ~ez,, ccnão se deve fazer diferença entre as pessoas" etc.
. Os argumentos a favor da prática eram calcados mais na ex-
. periência empírica das pessoas: "todo mundo faz, não vou ficar
·4e forau, nuso forçado pelas circunstâncias" etc. Para as pessoas
· que aprovaram a instituição, a argumentação enveredava tam-
bém por princípios éticos morais: "não nego nada a ninguém'',
'-~cajudo a quem posso'', ''todos devemos nos ajudar mutuamen-
.. .t.e'',,.''uma mão lava~ outra''.
A freqüência com que as pess~as entrevistadas faziam uso do
j~ito estava condicionada, segundo elas, à "ocasião,. Desde que
-~~sa se apresentasse, o mecanismo era acionado. Existem, entre-
... · va~iações em relação à forma e à freqüência com que as
pes;so;:ls "ciassificam'~ ou não uma situação como jeitinho. Por
Ç,x~emplcl,· quanto mais positivo for o discur:so sobre ele, maior
a tendência das pe~soas para identificarem o jeito em várias
·.ves e .reconhecerem um determi~ado contexto. cÓmo ade-
.. u .. " ' " "...

·q·çuido a seu uso. ·P~r outro lado, as pessoas corri um discurso ne-
.. g~~ivo também tendem a identificar situações como jeito, com
·inruor freqüência, pois a·intenção é sempre denunciar tal tipo de
.._~ituação.
. -Entretanto, de modo geral, as pessoas se confessavam usuá-
rias do jeitinho, talvez até mais do que o fizessem, mas o suficien-
·. te para acharem que essa era uma prática comum no cotidiano
brasileiro. Queremos enfatizar, contudo, o fundamental: as pes-·
soas "acreditam" qpe o jeito seja praticado, de forma diária e co-
tidiana, no nosso universo social.
! .
;
1

46 O JEITINHO BRASILEIRO

OS DdMfNIOS DO JÊÍTINHO
A burocracia é. o domínio, por excelência, do dar um jeito, confor-
me a maioria dos informantes. Segundo eles, é nesse setor que
mais freqüentemente se lança mão do expediente. Essa é uma
constatação que não surpreende, tendo em vista a rigidez e o for-
malismo da organização burocrática brasileira. Aqui, procura-se
prever toqas as situações possíveis. Regula-se tudo e todos, exceto
os direitos do Estad~ sobre o indivíduo-cidadão. No Brasil, o
Estado se faz presente a cada etapa de qualquer procedimento bu-
rocrático. Dessa feita, cria-se uma situação paradoxal, para uma
sociedade com setores altamente modernizados e individualistas.
Nela, o Estado deveria atuar apenas como mediador dos conflitos
de interesse, mas ele se toma a encarnação dos princípios hierár-
quicos e h o listas, separando-se inteiramente da sociedade. O Esta-
do desconfia de seus cidadãos e esses, do Estado. O primeiro, por
intermédio do sistema burocrático, checa e recheca cada afirma-
ção de seus usuários; esses vêem-se mergulhados numa rede de
exigências, muitas vezes iricómparlveis umas co~ as. outras.
O interessante é que, para sobreviver dentro desse sistema, a
solução escolhida, o jeito, parte de pressupostos opostos aos que
· norteiam a burocraCia. Enquanto a máquina burocrática é teori-
camente ·racional, impessoal, anônima e faz uso· dé cat:"ego!ias in-
telectUais; o jeito lança mão· de categorias emocionais. Com os
sentimentos, estabelece um espaço pessoal no domínio do im-
pessoal. E sua estratégia depende de fatos opostos ao da burocra-
cia como: simpatia, maneira de falar etc.
Se, por um lado, existe a representação firmemente ~stabele­
cida de que no domínio burocrático o dar um jeito e expressões
·afins florescem, na prática, no entanto, verificamos que a sua
presença é registrada com tanta ou até mesmo mais freqüência.
em domínios que não poderiam ser singularizados exclusiva-
mente como burocráticos.
Se é ilustrativa para a nossa análise a indicação dos domínios
em que as pessoas se utilizam mais do jeito, é mais significativo
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 47

ainda saber em que domínios esse expediente não é utilizado. O


·:::: surpreendente, contudo, é descobrirmos que, para o universo es-
. tudado, nutn primeiro momento, não há domínios em que não
,. seja possível se dar um jeitinho. De imediato, é sempre possível
dar-se um jeito em qualquer situação que envolva vida familiar,
. _sexual, emocional, financeira etc. Posteriormente, algumas pes-
. soas se referiram a situações em que seria difícil dar jeito. Nessas,
. estava sempre envolvido o organismo biológico. Para acidentes,
.... ··doenças, morte etc. não há como se contemporizar. Portanto, a
·: expressão popular na sociedade brasileira de que "na vida só não
.· : há jeito para a morte,, ou a sua variante de que "só não há remé-
: :· dio para a morte,, vêm áo encontro do que a maioria das pessoas
· · ;! · relataram.
.. O~ outros domínios e~ que é difícil se dar um jeito seriam
· . ,.: aq.~elqs em que contatos pessoais diretos estariam excluídos,
. como:l vestibular, concursos, o fato de ter de trabalhar para so-
. breviver etc. Sempre que a situação envolver de forma predomi-
. _Íiante, relações· diretas, o jeito e expressões afins surgem com
· g_rande possibilidade.

OS IDIOMAS DO JEITINHO
-:·qj~it~, como yimos_ariteriorrn.'ent~; é. riiri elemento "universal-
.>ni'e·n~e , conheqido ria sociedade brasileira. Além disso, em ter-
.fuos de representação simbólica, é· "utilizado" indistintamente
por todos os segmentos sociais e depende, portanto, para con-
_:·:··'~essão e sucesso, de fatores que não faz.em parte da identidade
. _,soCial de ·cada um. A seguir, veremos quais são esses fatores e
. como eles atuam. r.
O primeiro dos elementos considerados na pe~quisa foi o
. sexo das pessoas envolvidas na situação. Segunqo·a ~aiôria dos
entrevistados, independentemente de renda, educàção, status,
:..•.. ::;::.·.
dinheiro etc., o sexo das pessoas influi para·facilitar ou não a ob-
·:·~:. ?. r·· tenção de um jeitinho. Quando da situação participam homens e
mulheres, as coisas ficam mais fáceis. pois nesso;:~.c: rlP ~pvn r. .....,....
48 O JEITINHO BRASILEIRO

to, segundo os entrevistados, se entendem ihais facilm-ente. Se a


pessoa que estiver na situação de conceder o jeito for do sexo
masculino, fica mais fácil se quem pede é uma mulher, pois entre
os dois sexos existe sempre a possibilidade de charme, sedução,
"paquera" etc. Uma série de visões estereotipadas sobre o sexo
feminino e masculino ilustram o que dissemos anteriormente.
Por exemplo, segundo muitos~ a mulher é mais delicada que o
homem; a mulher tem também mais jeitinho para lidar com as si-
tuações; o homem trata a mulher diferente; o hon{em sempre.
"cai na da mulher,' etc. E as coisas não param aí. Existem qualifi-
cações acerca das situações em que é melhor usar um ou ou~ro
·· sexo. Se a situação envolye força, é melhor o homem. Se envolve
delicadeza e tato, a mulher é mais convincente.
Agora, se a situação de jeito envolver duas mulheres, as coi-
sas se tornam mais imprevisíveis, pois tanto existe a idéia de que
as mulheres competem entre si (e que, de forma geral, atendem
mal ao próprio sexo) como a de que existe uma cumplicidtde
implícita entre as pessoas do sexo feminino. Por outro lado, no
caso de a situação envolver dois homens, não surgem as mesrhas
contradições, pois, segundo a maioria, os homens não discrimi-
nam entre si. Por outro hido, se for uma mulher que estiver na
condição de f~c~lit~:ou não um jeitinho, o homem precisa ser
muito hábil, pois, ethbora as coisas entre os sexos opostos sejam
mais fáceis;· as ~ulheres s.ão percebidas c.omo no~malmente mais
. . I . -

rígidas e in,flexíveis do que os homens no tocante à obediência de


regras ou à concessão de "c~lher de chá".
Mais do qu~ o sexo ou qualquer outro fator, a maneira de fa-
lar~ de "pedir o jeito'', é considerada ·o elemento fundamental
para a sua concessão. É preciso ser simpático, cordial, mostrar
necessidade ou até mesmo humildade, mas jamais arrogância ou
autoritarismo. Tudo pode ser posto a perder se a maneira de fa-
lar se mostra impositiva ou grosseira. "Eu até faria se ele(a) tives-
se pedido de outra maneira" é uma forma comum de justificativa
para se negar um jeitinho a alguém.. Não é de surpreender que a
inaneira de falar seja singularizada como o aspecto determinante
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 49

porqúé, para se obter o jeito, é necessário antes de mais nada um


· bom "papo" e saber pedir. Portanto, ter dinheiro ou stàtus pode
ajudar mas nunca será suficiente. Por outro lado, bons argumen-
tos podem levar alguém a abandonar determinado curso de ação
o
e a adotar outro. Daí ditado "de uma boa conversa ninguém es-
. ;~Jt~tt~~::>. q1pa:1' ser freqüentemente citado pelas pessoas.
·.ift~·~i/:;~-;-
..... ~·~ ~~ .....
~·:·
. ,_:· A maneira de falar tem a força que nenhum outro fator pos-
}~~~:.::·~ ... sui. Essa não vem necessariamente da solidez do argumento, da
-~#. ·~:;:;::::.beleza do discurso, mas do conjunto de valores que deixa entre-
·},*~~::·'::;.·. ver. Ela enfatiza uma relação de· igualdade entre os interlocuto-
. .:'-t:;x:,:=·. ~ · res que se baseia na equivalência dos elementos envolvidos na
_.:}~;0~:·:·. questão, pois, se "hoje sou eu, amanhã pode ser ele". E não é só
·~;··~·.::):,, isso: ao envolver pessoas que desconhecem as identidades sociais
umas das outras, todas as desigualdades, que poderiam existir
.' caso elas se conhecessem, ficam suspensas temporariamente,
.·. permitindo que a interação se desenrole a partir dos recursos
idiossincráticos que os atores apresentam naquela situação. Por-
.·.. tanto, o fracasso e o sucesso do jeitinho estão diretamente rela-
. ·. ·. _çionados ao desempenho. das pessoas envolvidas na situação.
··: ..~>.!? Es~a ênfase na igualdade dos termos é bem sentida nas locu-
.·. Ções utilizadas para se p~dir um jeitinho: meu irmão :I', "amigo'',
CC

.·: cccompanheiro,, ccmeu chapa", no caso de homens entre si; "que-


. rjda':~ entre mulheres; "minha tia" e·"vov6" entre homens e mu-
.lheres idosas. Todas elas indicam familiaridade, intimidade e
·· · igualdade. .
.> .
·.Além da maneira de falar, o ·charme e a simpatia desempe-
. / nham papéis importantes, tanto para quem pede como para
::·quem concede o jeitinho. Vejamos: pelo que já foi dito, parece
. :. que, se alguém deseja obter um jeitinho:~ terá de ser simpático,
: :·:_· ·pois, se agisse de forma contrária, estaria barrando as suas chan-
.· . ces de sucesso, visto que uin dos ingredientes fundamentais da si-
~ação é se relacionar de forma positiva com quem se pede.
Entretanto, a preocupação de ser simpático não existe só do
lado de quem pede. Está presente, também, do lado de quem
concede. Para a maioria das pessoas entrevistadas, um elemento
50 O JEITINHO BRASILEIRO

importante quando se está na situação de concessionária do jeito


é ser simpática. Para quase todas, ser considerada simpática, le-
gal, compreensiva etc. é dos elementos que mais se mobilizam no
"dar um jeitinho" para alguém". A pergunta relativa a se elas se
sentiam, quando nessa situação, dotadas de alguma parcela de
poder e, portanto, em condições de manipular terceiros foi en-
tendida como uma possibilidade que pode ocorrer, mas que de
forma alguma seria o móvel principal da situação. Essa não deixa
de ser uma situação interessante pois, para ambas as pessoas par-
ticipantes da situação, é básico fazer com que a outra a ache sim-
pática. Isso não significa que devamos descartar ou pens~r o jeito
como uma situaçã9 destituída de mecanismos de poder. O que
queremos frisar é que parece mais importante "ser simpático" e
"ser pensado" como simpático do que poderoso.
Outros aspectos mencionados que influem no jeito foram o
status, a maneira de vestir e o dinheiro. Embora todas as pessoas
reconheçam que esses fatores influem, nunca chegam a ser apon~
tados como elementos decisivos. São importantes sim, mas até
certo ponto, e podem mesmo ser utilizados contra ás pessoas,
caso elas manipulem essas categorias de forma autoritária. Afir-
mações do tipo ~'só porque tem dinheiro p~nsa qu.e é melhor, estd
enganado" ou "quis bancar a grã-fina .e quebrou a cara'' são bas..:.
tante utilizadas para exemplificar pessoas que tentaram lançar
mão desses atributos sociais de forma substantiva para obterem
um jeitinho ou qualquer outra coisa. Por outro lado, se as pes-
soas souberem canalizar esses atributos sociais de uma forma que
enfatize justamente a sua "não-importância", serão alvos de co-
mentários justamente opostos. Por exemplo, "ele é tão simples"
ou "nem parece rica, é tão simpática'', "você não dá nada por ele,
mas é milionário''.
. Implicitamente, essas afirmações expressam o significado
que esses atributos têm na sociedade brasileira. Ser rico e ter sta~
tus - embora seja situação que todos almejam e que em muitos
contextos abre espaços- não torna, entretanto, ninguém superior
a outro; e é .de bom-tom proceder como se isso não contasse ..
----------------. -·. ·-·-···- ----·-· ---·· ...____ __ _ ,

Navegando em Aguas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 51

Aliás, ·interessante e sintomática é a manÍpulação simbólica eni"


relação aos sinais externos de sucesso, como dinheiro, roupa;
' status etc. Embora sejam acionados e funcionem como um siste-
.' ma de valores bem atuante, nunca podem ser bem explicitados
.·..· ou ad..t\rutidos por quem os possui. Um rico que se comporta de
·· acord~ com a imagem do que seja uma pessoa rica é caracteriza-
..::.do ·negativamente, embora seja visto de forma positiva caso se
:.comporte como se "não fosse rico". Admitir o sucesso de forma
. clara e agressiva, seja de que tipo for, não é bem-visto.
Isso contrasta bastante com os países anglo-saxões que pas-
:: saram por uma reforma protestante. Por exemplo, nos Estados
Unidos os bens materiais não são vistos como culpa, mas como
recom~ensa pelo trabalho duro e bom desempenho da pessoa.
. Não é motivo qe escusa ou justificativas. No Brasil, o sucesso ma-
. terial tem impltcações de ordem moral bastante negativas e inti-
mamente ligadas à religião católica, que atribui características
perversas a situações de· sucesso material. O rico foi bem-
. sucedido do ponto de vista material, portanto, não deve sê-lo
·.·~oral e espiritualmente. Isso permite que as pessoas se compen-
sem, acionando diferentes sistemas de valores .
.~· ·~ :Um exemplo interessante de como isso funciona é o caso do
: .chofer de táxi que, ao deixar uma passageira em frente a um pré-
_.. dio de luxo, afirmou que quem morava ali rião poderia tê-lo con-
.. · seguido pelo trabalho, mas só roubando. Implicitamente, dizia
· que ele era pobre mas honesto, e o outro, rico mas ladrão. Essa
.. ·postura em relação ao trabalho, ao suc·esso pessoal, aos bens ma-
teriais permite que as pessoas compensem suas desigualdades
materiais e apliquem seus sentimentos de injustiça social acio-
nando sist.emas de valores diferentes que funcionam de forma in-
versamente proporcional. Qüem está numa posição inferior
num sistema estará no outro numa posição superior. Rico mas
antipático; pobre mas honesto; gordinho mas simpático etc.
E não é só isso. A carência material das pessoas tem um signi-
ficado bastante distinto aqui no Brasil e, por-exemplo, nos Esta-
dos Unidos~ A miséria, a pobreza do cidadão no Brasil, o exime
52 O JEITINHO BRASILEIRO

de quâlquer responsabilidade individual na alteração da situação


em que se encontra. Diante de mendigos dormindo nas ruas, a
- reação normal é de pena pelo indivíduo e indignação pelo gover-
no, que não toma providências e não faz nada para alterar esse
quadro. Essa reação se altera apenas quando nos deslocamos da
avaliação político-social para a voltada a parâmetros espirituais.
Para os espíritas de linha kardecista, qualquer tipo de sofrimento
físico, moral ou material deve ser encarado como uma expiação
de erros passados. Mesmo ne~sa postura, o indivíduo continua
passivo diante dos fatos. No universo norte-americano, a reação
é contrária. Na revista Time (março, 1985), podemos nos intei-
rar de como o norte-americano médio reage aos mendigos qu~,
atualmente, .vagueiam pelas ruas das grandes metrópoles norte-
americanas. De acordo com as palavras de uma mulher america-
na: "Why can,t they [os mendigos] improve the quality of their li-
ves without tqking awqy from mine?,,1
O que ela esta~a querendo dizer é: por que d~veria de al~­
ma formá.cbntri9-uir para melhorar a vida daquele\cidadão? Essa
tarefa sutge p~rà o americano médio como algumá coisa dJ alça-
da individuaJ~~ que não deve ser compartilhada com terceiros.
Concluifido: como vimos, os fatores mais decisivos Jara a
obtenção de um jeitinho. são puramente in<li.viduais. Não depen-
dem, pelo. menos direUunente,. dos elementos. que formam a
identidade social das pessoas como dinheiro, stat.us, nome de fa-
mília, religião, cor etc. Um h?.divíduo que não ocupe posição pri-
vilegiada dentro 4o nosso sistema social está igualmente ~abili­
tado a pedir um jeitinho, desde que saiba pedir, tenha úml bom
"papo", seja simpático ou charmoso. Por outro lado, um g<feral
poderá ficar sem o "seu jeitinho" se tentar valer-se de sua patente
de forma autoritária. Para sair da situação, terá de recorrer fatal-
mente ao "Você sabe com quem estd falando?~, que poderá ser
tanto ou até mais eficaz que o jeito, mas que depende de você ser
"alguém" dentro do universo social brasileiro. Portanto, tanto o
"joão-ninguém" como o deputado, desde que tenham as condi-
ções individuais, estão qualificados para utilizar o jeito.
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 53

A TÉCNICA DO JEITINHO
. :Além das características individuais mencionadas anteriormen-
te," para ser bem-sucedido, o pedido do jeito tem de ser conduzi-
dÓ de determinada maneira. E, para que a situação fique sob con-
. . :. toda uma técnica especial é acionada de forma, em muitos
· c~os, inteiramente consciente por parte de quem pede. A estra-
·..tégi~ u~lizada é sempre envolver emocionalmente no "seu pro-
" a pessoa de quem se depende naquele momento. Para
, procura-se "apelar para os bons sentimentos", "boa vonta-
. e "compreensão" do interlocutor para a "situação". Utili-
( ~-á-se sempre uma argumentação do tipo "chorar miséria,, como
:·;;·disseram várias das pessoas entrevistadas, em que se procura en-
_;·: fatizar a precariedade da situação em que nos encontramos e a
.-."necessid~de "urgente" que se tem de resolvê-la.
· ::·:.: Esse tipo de técnica se torna bastante significativa se levar-
. ~:Os em conta que, no níyel da prática social das pessoas, as dife-
..~·· ·. que iremo·~ observar no tocante aos discursos sobre o jeito
·~~saparecem int~iramente. Esse tipo e forma de argumentação é
.: #o.mum a todos os segmentos estudados. Ter pressa, o trem atra-
... ~~~·;· dois professores marcar:am prova na mesma semana, a fila
:~~~~va I_Il'!.lito grande, não :tinha o livro na bibliote~a, m~ha mãe
.·. ··.:, ··_doe~te, preciso deste papel para ·h:oje etc. são todas justifi-
êáti:vas bastante co~uns e consideradas legítunas por todas as
·_ . pessoas. Se as -~b-servarmo~; contudo, verificaremos que são to- ·
.· :: das justificativas pessoais, pois isolam· quem as usa das demais
P.:~ssoas na mesma ~ituação. São argumentos que procuram
~ranspassar a esf~ra da responsabilidade individual e invadir a es-
. . fera de responsabilidade de terceirqs. Estar com pressa para con-
. ;eguir um documento seria, num universo anglo-saxão, proble-
ma da esfera privada d9 cidadão, não tendo a pessoa encarrega-
da de fornecê-lo nada a ver com isso.
Aqui, entretantó, não só compartilhamos com quem nos
deve fornecer, como também é uma das primeiras coisas a serem
ditas. Compartilhar os problemas pessoais da vida de cada um é
. .. . ··-·-··--· ------
····-····-~·

54 O JEITINHO BRASILEIRO

prática disseminada em todos os segmentos sociais, a qual trans-


forma em co-participante, ou assim se espera, quem deles sabe.
Ao tomar conhecimento dos problemas ou eventualidades que
afligem terceiros, as pessoas envolvidas se sentem "constrangi-
das" em não levá-los em consideração. Dessa feita, dispensar um
tratamento condicionado pelas regras prescritas se torna extre-
mamente problemático, ainda mais se esse tratamento comporta
uma negativa.
Dizer não no Brasil é aventura no terreno do desconhecido. A
esse respeito, a revista Veja (07/11/1984 ), na seção "Ponto de Vis-
ta", publicou ensaio intitulado "É preciso dizer não", de Fernan-
do de Oliveira. Nele, o autor, sem qualquer pretensão de análise .i
sociológica, mas baseado na sua experiência de administrador de
recursos públicos, afirmava que o Brasil precisava para ter como
governante "um brasileiro com vocação para não autorizar certos
gastos e perder amigos~,. E mais, tal indivíduo deveria "recusar
convites para simpósios, ja~tares, inaugurações, rodadas de dgua
ll
mineral e outros ~ventos sociais.~. Se tiver eara de poucos amigos, i
tanto melhor,,. Na verdade, o que o articulista queria tr~nsmitir
era a total impossibilidade de se utilizarem regras impessoais e
I;
universalizantes rio quadro social brasileiro: Para se cumprir o
pre~istÓ, em resllino ·a lei, serià p~~Ciso · prin:i~iro dizer .'não '·aos
amigos ·~ depois é~rtar ou. evitar todos_ o.s laços com ·a so~iedade.
Caso contrário, é impossível ser eficiente e se fazer cumprir a lei.
Essa postura está: alicerçada em uma ~i~ão de mundo em
que aênfase da ~ociedade é colocada nas relações que· se estabe- "'
lecem entre as pessoas, mais do qu~ em qualq~er outra. Isso to r~
na o Brasil um país em que todos querem ser pessoas e não indi-
víduos. Qualquer vantagem ou desvantagem social que a pes-
soa tenha pode. ser utilizada para promovê-la a tái categoria.
Corroborando ainda mais essa situação, temos o próprio siste-
ma burocrático brasileiro, extremamente rígido, ineficiente e
intransigente, não dando espaço à prática do que se costuma
denominar "bom senso". Isso permite que os próp~iosexecuto­
res desse sistema, na ausência de alguma regulamentação espe-
Navegando em Águas Brasileiras: O Mapa Social d,o ·~eitinho 55

cífica: rc;:gulem, não tendo como base o bom sen'~~ o~ os chama-


.dos "dirfitQs do cidadão" ou o espírito queinstrui esta ou aque-
la regulamentação, mas a própria vontade pessoal. Isso nos per-
mite mefgulhar :p.um verdadeiro emaranhado de decretos auto-
ritários e persodalistas que diluem quase completamente qual-
quer possibilidade de funcionamento do sistema com um espí-
. universalizante.
· :· Embora essa rigidez institucional facilite o desenvolvimento
desses aspectos; inclino-me a pensar que essa busca pelo trata-
··mento personalizado exi~tiria mesmo que o sistema fosse dife-
· ·:. rente. A razão disso, creio eu, encontra-se no fato de que mesmo
·.hàs áreas que não estão submetidas a critérios de eficiência, pro-
dutividade, competência, desempenho etc., ela se encontra pre-
s.ente. Isso me leva a crer que essa atitude é fruto de uma determi-
riada.perspectiva inteiramente diferente das relações entre as
· :pessoas, dos direitos de cada um e da própria socieda~e .
... .:·~·:~.:.:Um exemplo que poderia ser ilustrativo para o que acaba-
·. mos. de dizer é o comportamento 9as pessoas em filas de um
.. 'inodo geral.. É praticamente comum e universal as filas se organi-
. .· por ordem de chegada, seja para o cinema, para comprar o
, para o banco etc. Nesse contexto, onde eficiência e desem-
não contam e, portanto, do ponto de vista lógico não de-
. .. existir, o uso de expedientes como o jeito ou simples-
. ~ente opedido de passar à frente se fazem presentes mesmo as-
. s~. É comull'l: 'nO's supermercados, nas copi~doras etc. as pessoas
. ~.que têm muito a pagar ou a copiar, via de regra, serem abordadas
por alguém que tem pouco, pedindo para deixá-lo passar à fren-
te. Uma negativa nesse· caso é bem pouco provável, pois ninguém
quer incorrer no perigo de soar antipático ou "s~m boa vonta-
de". Estabelecer com clareza um limite, argumentando que
quem chega primeiro deve ser atendido antes, não é comum.
Lembro-me bem do relato de uma estudante que ficou meia
hora em uma fila de xerox para tirar cinqüenta cópias, pois cada
um que chegava com apenas uma, duas ou três cópias pedia para
passar à frente quando via que ela tinha muit~.c:- Nn1:1 p .. .,. .... rl~~
~
56 O JEITINHO BRASILEIRO

pnidos, não ocorreria a alguém pedir para passar à frente etn

~
uma fila pela simples razão de que a pessoa que está antes tem
muitas cópias a tirar ou muitas compras a pagar. Essa situaÇão não
111 envolve nenhum critério de eficiência, produtiv~dade etc., por

'1.~
parte de quem presta·: o serviço. Envolve apenas o éritério de
precedênci~ pror o~dem de chegada. Embora seja um critério muito

! usado em det~rn1Ínadas situações, como as mencionadas anterior-
mente, ele nãdé absoluto na ordenação de determinadas situações
na soci~dadclbrasileira, na qual o critério da "necessidade pessoal"
I

r
~;
(digamos assim, na ausência de um termo melhor) é mais impera-
tivo. Portanto, a primeira atitude de quem precisa de alguma coisa
é declinar seus problemas de "ordem pessoal", pois esses lhe da-
rão precedência em relação a quem chegou primeiro.

PERSONAGENS T[PICOS DO JEITINHO


Embora o jeitinho seja usado e principalmente "pensado". como
universal na sociedade brasileira, existe uni personagem que, por
suas características, é considerado o usuário típico ·dessa nossa
instituição paralegal: o malandro. Aliás, bem mais que usuário, o
malandro é concebido como a personificação do espírito que
permeia <;>jeitinho. Aliás, não é à toa que um dos sinônimos n1ais
comuns de jeitinho é malandragem. Se examinarmos, como fez
DaMatta (1979), o conteúdo social do personag1m mala~dro,
vamos verificar que essa relação é plena de significado, po~s, ao
identificar um com o outro, constatamos que tanto o per~ona­
gem malandro como o ritual do jeitinho reproduzem e atualizam
aspectos ambíguos da sociedade brasileira. São pontos ceÚtrais
de um continuum que vai de um pólo positivo para um negativo,
com uma área ambígua no centro, onde ambas as categorias se
inserem. São justamente aqueles elementos que promovem a in-
terseção entre dois mundos diferentes: o legal, honesto e positi-
vo com o ilegal, d~sonesto e negativo. \
A seguir, a título de comparação, reproduzimos algun~ dos
aspectos característicos do malandro e do jeitinho para que a su- ·
Navegando em Aguas Brasileiras: O Mapa Social do Jeitinho 51

··.· perposição do tipo com o comportamento p.ossa ser melhor


~ apreendida: ·

Jeitinho
. . ·1. Tipo que freqüenta as zonas 1. Expediente ambíguo. Situa-se
. ambíguas da ordem social e . entre o favor considerado
·: J9caliza-se nos lugares honesto e positivamente
.':. irítersticiais da sociedade. caracterizado e a corrupção
desonesta, percebida de forma
negativa.
:; 2. Ser que se situa dentro da 2. Instituição nem legal nem
· classificação nativa entre o ilegal, mas paralegal.
.honesto e o marginal.
· 3. . Vive no mundo da 3. Procedimento social defmido
· ·_'improvisação, do sentimento comq uma forma de criatividade
é;·da criatividade.
:: ..
e de improvisação, criando
espaços pessoais em domínios
imp~ssoais.
4.: Um .ser altamente 4. Processo individualizante;
.mdividualizado seja ·pelo modo baseia-se, para sua eficácia, na
.· .:~e andar, ~alar ou vestir-se. identidade "pessoal, do
indivíduo. ·
·.f'Vive sempre do· e no presente. . 5. Não é unia forma de ação
Não tem um projeto de vida · social planejada. Surge e é
. defin~do. utiÍizada a partir da situação.
F<;>nte: Roberto DaMata (1979) Fonte: Pesquisa realizada.

. ,. . Para não pensarem que estamos forçando uma identidade


·. e. ntre o jeitinho e o malandro, basta examinarmos nossa literatu-·
ia e estudarmos alguns de seus personagens mais famosos como
Macunaíma, tido por muitos como a encarnaç~o do brasileiro tí-
pico, Pedro Malasartes, Saci Pererê, personagem ambíguo, nem
bem homem, nem bem fantasma, que vive de pregar peças. To-
dos esses personagens são ex~emamente individualizados, tanto
pela sua forma física como pelo seu procedimento, seu modo de
58 O JEITINHO BRASILEIRO

vestir, ..andar e se. comportar e; também, pela ll.'fãneira como vi-


vem: basicamente de pregar peças nos outros, de sair--se bem de
situações em que tinham tudo para se dar mal, transformando
suas desvantagens em trunfos que foram bem manipulados pela
criatividade e improvisação, das técnicas .mais utilizadas pelos
usuários do jeitinho.
Uma descrição do malandro feita por Morengueira (Moreira
da Silva), considerado o último dos malandros (Isto É, 1984), só
vem reforçar todos o~ asp~ctos mencionados anteriormente:

A malandragem no duro acabou. O que existe hoje é banditismo.


Antes, tinha os bonitinhas que enrolavam as gringas e os espertos
que punham as otárias para trabalhar e sempre conseguiam um tro-
co a mais no baralho.

Além do malandro, o universo social brasileiro possui um


outro personagem que também representa a encarnação alterna-
tiva do espírito que perrileia o jeitin~o: o carioca, principalmen-
te quando visto em oposição. ao paulista. Enquanto o primeiro é
bem-~umorado, sil:'ripático, ~oa-vida, piadi~ta, preguiçoso, go~ta
de samba, chope, praia, mulher e carnaval,_ desenyqlvel:J. uma
particular ojeriza pelo trabalho e não é uma potência econômica,
o segundo representa os valores opostos. Em primeiro lugar, é
trabalhador, bem-sucedido economi~~ente, segl.Iid~~ d~s leis e
das normas, mora numa cidade sem Sol e sem mar, fria e cinza,
onde tudo funciona eficientemente e, ainda por cima;"carrega o
.. Brasil nas costas~'.
Enquanto o carioca representa a parte lúdica, alegre e criati-
va ·do país, sendo o seu " coração", o paulista representa nossa
vertente moderna, eficiente, o nosso "cérebro". Aliás, não é de
surpreender que o carioca seja visto como um outro típico perso-
nagem do jeitinho. Ele é basicamente definido como um cara
"malandro", "safo", e a sua imagem em vários níveis é confundi-
da com a do próprio malandro. Por exemplo, alguns livros didá-
ticos apresentam o carioca vestido com a roupa típica do malan-
dro: calça branca e camisa listrada.
Na~e·gando em Águas Brasileiras: O Mapa Social do jeit,nho 59
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Para concluir, queremos lembrar ao leitor que; embora -2.s


coincidências entre os tipos sociais e o jeitinho sejam grandes, ele
não deve pensar· em. substancializá-las. Ambos não correspon-
.. , dem, pelo menos exatan1ente, como essas descrições, a nenhum
.~~. tipo real. São representações sociais que se superpõem também
. : no nível das representações e que nos sinalizam para aspectos
•;: significativos do nosso universo social.

:,~ 1. A categoria favor e suas implicações na sociedade brasileira apresentam um


}·campo extremamente rico, embora pouco "explorado" nos estudos já realizados.
· : Um autor que tentou fazer uma análise· sobre ele foi Roberto Schwarz em Ao ven-
· ·;: cedor, os batotas (1977). Nesse trabalho, ele nos indica com' bastante acuidade a
:-.importância dessa categoria para a sociedade brasileira, mostrando-nos o papel
··fundamental desempenhado pelo favor eritre nós no final do século XIX e inicio do
:. século XX. Embora bastante rica, sua análise adquire, por vezes, um tom moralizan-
no qual o favor surge como um elemento negativo de nosso universo e bloquea-
dor de mudanças reais e necessárias para a sociedade brasileira, pois só se realiza-
.ri·~ ·em tomo de um eixo vertical de um só sentido. Além disso/ a categoria favor é
:· .. bida pelo autor como um elo momentâneo sem implicações maiores. Ora,
os pela nossa etnografia que essa categoria pressupõe uma equivalência
entre as pessoas e postula uma relação de reciprocidade entre elas indepen-
1'1~:~r,t~r"rt,.nt,. da posição social que ocupam. O favor traria em si a mesma estrutura
caráter sintético do dom a que se referiu Mareei Mauss no seu famoso Ensaio
a dádiva (1925/1974), isto é: geraria a reciprocidade.
·!Jm outro autora tratar do assunto foi Roberto DaMatta (1985). Sobre o favor, o
r nos diz o seguinte: J'Num sistema econômico epolítico de profundos desi-
:yuaroom~s onde os beneffcios estão orientados paro manter os privilégios dos
mt:>,r::-rnr'r::- o favor estabelece um meio de relacionar pessoas sem ameaçar o

social.'' (Cf. geral, p. 83). Nessa perspectiva, o favor surge como


elemento aglutinador da sociedade, como homogeneizador de diferenças de
··cunho social.

.~·. t evidente que uma análise do significado da pobreza material e da responsa-


ilidade individual na sociedade brasileira· e americana requer urn estudo muito
mais profundo e uma mobilização de material de outros tipos que aqui não fize-
mos. Nossa intenção é de apenas contextualizar alguns tipos de significados, e
. não empreender uma análise profunda de alguma dessas categorias.

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