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LIMA, Fernanda Veloso; CARVALHO, Flávio de Oliveira.

Antropologia
Cultural. Montes Claros/MG: Editora UNIMONTES, 2013.

Aula 3. A Antropologia e o estudo das sociedades complexas

“Novo” campo de investigação dos antropólogos: a sociedade complexa


capitalista que vive na cidade.

 Com os avanços oriundos da revolução industrial, a Europa, já no final


do século XVIII, deixou de apresentar características rurais; sofreu um
grande êxodo que provocou um inchaço populacional nas cidades

As cidades encontram dificuldade em seu ordenamento territorial,


o que gerou diversos fenômenos sociais, isto é, o espaço citadino
passou a se constituir um campo de lutas e reivindicações de
diferentes grupos.

Pensar, portanto, nesse processo de mudança, é extrair, dos fenômenos


sociais, algumas categorias de análise que emergem nas sociedades
complexas e se tornam passíveis de investigação, como exemplo a identidade,
a urbanização, a violência, a prostituição, para citar apenas alguns exemplos.

Cultura

 Geertz (1989), em seu livro “A Interpretação das Culturas”, argumenta


que o fazer etnográfico consiste em um esforço intelectual para
elaboração de uma descrição densa.

Clifford Geertz
(São Francisco, 1926 — Filadélfia, 2006)

 Além disso, a etnografia é interpretativa, uma vez que o que ela


interpreta “é fluxo do discurso social” de uma dada cultura.

 Não obstante, o que o etnógrafo interpreta envolve “tentar salvar o dito”,


ou seja, materializar a “coisa” falada (o discurso que ouvimos) em um discurso
que possibilite a compreensão dos fenômenos estudados.
 Bourdieu diz que é preciso apreender os mecanismos de produção
simbólica da cultura que integram suas linhagens e representações,
assim como a maneira com a qual tais linhagens e representações
adquirirem uma realidade própria.

Pierre Bourdieu
(Denguin, França, 1930 — Paris, França, 2002)

O que interessa é discernir as relações de sentido para além das


representações que os sujeitos materializam em suas ações (ou não ações).

Em outras palavras, o pesquisador deve compreender e


reconstruir a teia completa de relações simbólicas e não
simbólicas, isto é, as circunstâncias materiais e a hierarquia
social que resultam dessa teia de significados

Segundo Bourdieu (1992), o capital econômico consiste na forma em que


diferentes fatores de produção (terras, fábricas, trabalho) e do conjunto de bens
econômicos (dinheiro, patrimônio, bens materiais) são acumulados e
reproduzidos.

Ao passo que o capital cultural se refere a um conjunto de regras,


valores e arranjos promovidos, sobretudo, pela família, pela escola e
pelos demais agentes da educação, que predispõem os indivíduos a
uma atitude dócil e de reconhecimento ante as práticas educativas.

 Bhabha salienta que não podemos analisar a cultura de maneira única e


acabada. Portanto, para que possamos tornar evidentes as funções da
cultura, devemos concebê-la em sua condição de plural. Isto é, o arranjo
de forças simbólicas que determina o objeto teórico e discursivo do
conjunto de bens de identificação de uma dada cultura (contingência).

Homi K. Bhabha
(Bombaim, Índia, 1949)
 Também existe a possibilidade de diversas culturas apoderarem-se de
bens de identificação de outras e elaborar um determinado bem cujo
mérito e arranjo o direcione a ser admitido por uma cultura de âmbito
mais abrangente (contiguidade).

Identidade

- No que se refere ao pensamento humanista, segundo Hall, pensar sobre suas


mudanças é questionar a transformação que a própria modernidade passou.
Consequentemente, é, também, perguntar-se acerca de novas dimensões
relativas à concepção essencialista ou fixa de identidade.

Stuart Hall
(Kingston, 1932 — Londres, 2014)

 Para o autor, “o sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção


da pessoa humana como um indivíduo centrado [...] o centro essencial
do eu era a identidade de uma pessoa

 Já o sujeito pós-moderno, à luz das premissas de Hall, é aquele sujeito


que possuía uma identidade unificada e estável e, com a vida na cidade,
torna-se, assim como ela, fragmentado.

 Composto, porquanto, de uma multiplicidade de percepções que se


constitui em várias identidades, dito de outra maneira, “a identidade
torna-se uma ‘celebração móvel”, formada e transformada
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados
ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam”.

 Entre as diversas categorias de análise das sociedades complexas, a


identidade emerge como um campo de estudo para os antropólogos que
estudam sua própria sociedade.

 Sendo que esse campo se torna absorto por tratar de conflitos morais de
sua própria sociedade, proporcionando, portanto, um estranhamento do
familiar.

Território/Territorialidade

- O processo de formação das cidades foi marcado por dinâmicas territoriais,


que dizem respeito não somente aos conflitos por demarcações de fronteiras,
mas também a um campo de lutas e representações simbólicas.
 Nesse sentido, para discorrer sobre a cidade, é necessário pensar,
também, sobre o seu território, espaço social e espaço simbólico.

Herbert Blumer
(St.Louis, 1900 - Danville, 1987)

 A noção de território, em sua gênese, foi associada estritamente à de


território nacional, ou seja, uma entidade que representa o
estabelecimento de uma territorialidade fundada no conceito legal de
soberania, que postulava a exclusividade do controle de seus territórios
nas mãos do Estado.

 A Escola de Chicago proferiu discursos acerca de uma nova


configuração cultural dentro do espaço citadino, uma vez que nesse
espaço configuram-se papéis sociais bem delimitados; isolamentos;
aproximações; anonimato; fugacidade dos envolvimentos sociais, entre
outros fenômenos.

- Bhabha, argumenta que as designações geopolíticas são deslocadas do


centro de referência das identidades dos indivíduos por uma sequência de
localizações que cada pessoa ocupa na estrutura social, tais quais gênero,
raça, geração, dentre outros, isso sem mencionar as múltiplas vinculações
locais, profissionais ou mesmo institucionais.

 Portanto, o que podemos notar é que as cidades, agrupando um


crescente número de pessoas em um reduzido espaço físico, tornam-se
gradualmente um espaço de conflagração constante.

Crime

- Durkheim contribui, sobremaneira, para o avanço da análise criminal quando


aproxima o crime da noção de normalidade em um duplo sentido. Quer dizer, o
crime é normal não só por estar presente em todas as sociedades, mas
também por desempenhar uma função dentro delas, ligada à própria
manutenção de seu funcionamento.
Émile Durkheim
(Épinal, 1858 — Paris, 1917)

 Nessa direção, a punição que o infrator chama sobre si funciona como


um revitalizador e fortalecedor dos laços sociais na medida em que
reafirma a validade da vontade e do pensamento coletivos.

 Ora, diante disso, podemos inferir que a cidade não é a geradora do


aumento da criminalidade. Em verdade, o fato ocorrido é que o espaço
urbano se consolida concomitantemente ao aumento da severidade da
justiça. Ou seja, a formação da cidade industrial coincide com o
processo de transformação de práticas sociais antes toleradas, em
crimes passíveis de punição.

 Se pensarmos, então, a sociedade complexa segundo o preceito de que


ela consiste em um emaranhado de relações sociais, trocas simbólicas e
delimitações de espaços, não poderiam deixar de mencionar os bens de
identificação que, segundo Bhabha, gera todo esse fenômeno.

 Nessa tessitura, emerge outro campo de interesse da Antropologia


Urbana, a saber, os bens simbólicos não negociáveis, tais como
identidade gênero, sexualidades, os novos movimentos sociais, para
citar apenas alguns.

 Os novos movimentos sociais, se estabelecem a partir de uma


reconfiguração das demandas dos grupos que não dizem respeito à
reivindicações por moradias, melhores condições de trabalho, entre
outras manifestações provenientes do “problema urbano”. Consiste,
portanto, em manifestações que lutam por bens não negociáveis, como
a identidade de gênero, para citar um exemplo.

Antropologia no Brasil

- Temas como mudança social, mudança cultural, interpretação do Brasil,


identidade, cidadania, para citar alguns exemplos, emergem nas pesquisas
antropológicas e contribuem para compreensão da cultura brasileira.

- O interessante desses estudos, em específico o caso indígena, é que, de


acordo com os interesses políticos de cada período histórico que o Brasil
passou, a construção do imaginário social acerca desses povos foi se
modificando.
 Na época do descobrimento, o índio foi percebido como selvagem e sem
alma devido às diferenças em relação aos europeus.

 Quando do processo de expansão do cristianismo, esse mesmo índio foi


considerado como uma “criança”, logo, detentor de alma e passível de
ser catequizado.

 No período da independência do Brasil e em anos posteriores quando se


pensava a identidade nacional, o índio elevou-se à categoria de herói,
ou ainda, como parte reconhecida da nacionalidade brasileira.

- DaMatta, nos demonstra que o Brasil é uma sociedade hierarquizada,


concluímos que quando nos sentimos ameaçados da posição hierárquica, que
concebemos ter, invocamos o jargão “você sabe com quem está falando?” para
retomar a posição que supostamente perderíamos, caso não nos
identificássemos em um status superior.

(Niterói, 1936)

- Isso se dá porque, como as relações no Brasil são muito pessoais, as


pessoas não conseguem se adequar à impessoalidade das leis, portanto
sempre se valem de algum laço relacional para driblar a burocracia.

- DaMatta, também constrói uma ampla comparação entre Brasil e Estados


Unidos, levando em consideração vários aspectos culturais das duas
sociedades.

 Um dos exemplos que DaMatta traz consiste na forma de colonização


que foi empreendida em cada uma dessas nações,

 aborda a questão religiosa, demonstra como a crença religiosa


dominante em cada um desses Estados contribui para que as pessoas
tenham interpretações distintas acerca do trabalho,

 conclui que no Brasil as pessoas vivem juntas, mas existe uma


desigualdade maior, ao passo que nos Estados Unidos as pessoas
vivem separadas (por exemplo existem bairros de brancos e bairros de
negros, assim como restaurante, programas de TV, etc.), porém nos
Estados Unidos pessoas são mais iguais perante a lei.

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