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DISCIPLINA: PORTUGUÊS

PROFESSORA: LUANA PORTO


Língua portuguesa para concurso do TRF 4ª região
Profa. Dra. Luana Porto
profa.luanaporto

Luana Porto

Argumentação
O texto argumentativo o tipo de texto que tem como propósito central, com
base em uma discussão com apresentação de argumentos, formar opinião,
objetivando que o outro acredite na tese defendida. É focado na persuasão do
leitor sobre o ponto de vista do autor a respeito do assunto tratado e embasado
na defesa de uma tese fundamentada em argumentos.

Características da argumentação:
1. Deve apresentar um raciocínio lógico.
2. O início do texto deve apresentar o assunto para que, na sequência, possa
ser desenvolvida uma tese sobre o tema.
3. Ao decorrer do texto vão sendo apresentados os argumentos para defesa da
tese.
4. No final do texto as ideias são retomadas de forma a ser reafirmado o ponto
de vista central do autor do texto sobre o tema.
Exemplo:
No fim do artigo do mês passado, lancei aos nossos congressistas uma
sugestão: que façam uma lei determinando que toda escola pública coloque uma
placa de boa visibilidade na entrada principal com o seu Ideb. A lógica é simples.
Em primeiro lugar, todo cidadão tem o direito de saber a qualidade da escola que
seu filho frequenta. Hoje, esse dado está "escondido" em um site do Ministério
da Educação. É irrazoável achar que um pai que nem sabe o que é o Ideb vá
encontrar esse site. Já que o dado existe e é de grande relevância para a vida
do aluno e de sua família, não vejo nenhuma razão pela qual ele não seja
divulgado para valer. Em segundo lugar, acredito que essa divulgação pode
colaborar para quebrar a inércia da sociedade brasileira em relação às nossas
escolas. Essa inércia está ancorada em uma mentira: a de que elas são boas.
Os pais de nossos alunos, tanto das instituições públicas quanto das
particulares, acham (em sua maioria) que a escola de seus filhos é muito melhor
do que ela realmente é (em outra oportunidade falarei sobre as escolas
particulares). Não é possível esperar uma mobilização da sociedade em prol da
educação enquanto houver esse engano. Ninguém se indigna nem se mobiliza
para combater algo que lhe parece estar bem. E não acho que seja possível a
aprovação de qualquer reforma importante enquanto a sociedade não respaldar
projetos de mudança, que hoje são sempre enterrados pelas pressões
corporativistas. (Gustavo Ioschpe)

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/precisamos-de-educacao-
diferente-de-acordo-com-a-classe-social. Acesso em: 10 jan. 2012.

A argumentação de um texto é construída pela associação entre tese e


argumentos assim como pela coerência entre as ideias e progressão temática.
Dessa forma, o texto deve ser interpretado, identificando-se a sua ideia central
e as ideias secundárias. normalmente, a ideia mais relevante do texto é
apresentada na introdução, contudo não é uma regra. Há casos em que a ideia-
núcleo está evidenciada nos parágrafos de desenvolvimento ou de conclusão.
Veja:
A existência de museus, em qualquer lugar do mundo, precisa ser
compreendida como uma forma de conhecimento de culturas e histórias dos povos que
Introdução

formam nações, por isso, não é admissível pensar no fim dos museus. Ao contrário,
esse repositório de memória cultural e social deve ser mantido para que as gerações
futuras possam aprender sobre o desenvolvimento das sociedades bem como revelar
um olhar crítico sobre os comportamentos, histórias e fatos registrados nas exposições,
fotografias, documentos e acervos de que se constituem os museus.
Em primeiro lugar, a defesa da persistência dos museus deve-se à possibilidade
de eles incitarem a compreensão do modus operandi das sociedades retratadas em
obras de arte ou documentos. Em vista disso, nenhum visitante do museu sai do
espaço sem conhecer algo sobre uma dada comunidade ao visitar galerias e coleções
de obras, e isso pode ser alcançado, inclusive, com prazer, já que os museus também
propiciam aprender cultura com leveza, como indicam os trabalhos dos guias de
Desenvolvimento

turismo que explicam famosos quadros muitas vezes contanto histórias engraçadas e
curiosidades sobre eles. Isso torna o aprender mais prazeroso, certamente.
Em segundo lugar, não se pode ignorar o potencial do museu como meio para
reflexão sobre situações sociais que muitas vezes são invisibilidades em contextos
tradicionais, como os de escolas, os quais nem sempre revelam as adversidades do
mundo. Prova disso é a existência, em museus, de quadros críticos sobre eventos
históricos como revela Guernica, de Pablo Picasso. Saber da violência e dos efeitos da
guerra lendo uma pintura é talvez mais relevante do que estudar a ação dos alemães
para destruir a cidade espanhola Guernica em 1937.
Esse exemplo é ilustrativo de uma das facetas mais instigantes dos museus, a de
que eles oportunizam ao seu visitante mergulhar em histórias de um tempo, tornando
o espectador mais ciente de fatos sociais e, indubitavelmente, mais atento a “detalhes”
Conclusão

dos fatos que possibilitam um pensar diferente e mais crítico. Assim, não é absurdo
dizer que os museus precisam ser revitalizados, ampliados e sua visita, estendida a
todos, pois só dessa forma a democratização da cultura, sua compreensão e o
aprendizado sobre a história social e cultural poderão ser vivenciados na prática. Nessa
linha de raciocínio, absurdo seria permitir o fim dos museus.

Veja como esses elementos todos se articulam em outro texto:


A hipocrisia nossa de todo dia
Pessoas que nunca puseram os pés em um museu se arvoram ao direito de julgar
obras de arte

LUIZ RUFFATO

A decisão do Masp (Museu de Arte de São Paulo) de proibir o acesso a


uma exposição, pela primeira vez em sua história, de menores de 18 anos,
mesmo acompanhados pelos pais ou responsáveis, abre um precedente
perigosíssimo. Preocupada com a pressão de setores reacionários da
sociedade, a direção do museu se antecipou e, num gesto de autocensura,
sucumbiu à hipocrisia e ao cinismo. As quase 300 obras expostas contam a
História da Sexualidade – e não há nada mais banalizado nos dias que correm
do que a sexualidade.

No afã de gerar dinheiro, o sistema capitalista transformou o corpo em


mercadoria. Somos bombardeados 24 horas por dia por propagandas que
erotizam o corpo para vender os mais diversos produtos – de cerveja a
automóveis, de eletrodomésticos a sexo. Segundo a revista norte-
americana The Week, a indústria pornográfica movimenta em todo o mundo
97 bilhões de dólares anualmente. De cada quatro buscas na Internet, uma é
de natureza sexual, 25% do total. São pornográficos 12% dos sites existentes,
35% dos downloads, 8% dos e-mails.

Para ter acesso a conteúdos pornográficos, basta possuir um


computador. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, o Brasil conta
hoje com 208 milhões de smartphones (celulares que funcionam como
computadores móveis), ou seja, um por habitante. Além disso, existem 166
milhões de computadores propriamente ditos, o que significa que a cada cinco
habitantes, quatro são proprietários de desktops, notebooks ou tablets. E,
segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), em 2015,
58% dos domicílios tinham acesso direto à internet.

A Arte é o espaço privilegiado para provocar reflexões sobre o ser humano


em sua plenitude. Acreditar que a exibição de um corpo nu ou a representação
de uma cena erótica ou ainda a desconstrução da sacralidade religiosa sejam
atos de incitação à pornografia, à pedofilia, à zoofilia, ou desrespeito a crenças,
etc, é no mínimo atender aos ditames da ignorância mais rasa. A Arte existe
como referencial, quem dá sentido a ela é o espectador. Por isso, uma mesma
obra pode ser compreendida das mais diversas maneiras – cada cabeça, uma
sentença.

Imaginar que os adolescentes brasileiros, com acesso livre a sites


pornográficos, iriam se chocar com cenas de nudez ou de sexo mostradas em
pinturas, esculturas e performances no espaço fechado de um museu é risível.
Imaginar que essas mesmas representações poderiam servir como apologia à
perversão sexual chega a ser um insulto à inteligência. O ativismo reacionário,
longe de ser apenas uma bandeira das confissões pentecostais e
neopentecostais, é hoje um estandarte carregado com orgulho pela classe
média que aborta e condena o aborto; que consome drogas e lamenta a
violência urbana que as drogas geram; que pratica atos ilegais no dia a dia e
reclama da corrupção dos políticos.

Pessoas que nunca puseram os pés em um museu se arvoram ao direito


de julgar obras de arte, não pelo que elas significam como experiência estética,
mas sim por critérios morais. Ora, a moral nada sabe sobre arte. A estética,
assim como a ética, pertence ao campo da filosofia, ou seja, obedece a
princípios universais, e não se submete à apreciação da moral, que se assenta
sobre hábitos, costumes e interesses característicos de determinado tempo e
lugar. Sujeitar a arte à moral é dar um passo em direção ao totalitarismo,
definido pelo escritor italiano Curzio Malaparte, como o espaço onde tudo que
não é proibido, é obrigatório.

Os episódios de atentados contra a livre expressão vão se acumulando.


O cancelamento da exposição Queermuseum, em Porto Alegre, pelo
Santander Cultural, uma instituição privada, e a posterior interrupção das
negociações para que a mostra fosse exibida no MAR (Museu de Arte do Rio),
instituição pública ligada à Prefeitura do Rio, claramente constituem formas de
censura de grupos que se autoproclamam guardiães da moralidade. O caso
do Masp, nesse sentido, é ainda mais perturbador, pois trata-se de um ato de
resignação face ao discurso da intolerância. A sociedade que permite que o
julgamento moral, sabe-se lá em obediência a que interesses escusos, se
sobreponha à experiência estética está destinada a uma temerária ditadura do
pensamento único.

Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/24/opinion/1508879573_409438.html.


Acesso: 3 nov. 2017.
Recursos argumentativos
As estratégias de desenvolvimento de texto dissertativo-argumentativo
podem ser as seguintes:

EXERCÍCIOS
As questões de números 1 a 5 referem-se ao texto seguinte.

Em defesa da dúvida
Numa época em que tantos parecem ter tanta certeza sobre tudo, vale a pena
pensar no prestígio que a dúvida já teve. Nos diálogos de Platão, seu amigo
Sócrates pulveriza a certeza absoluta de seus contendores abalando-a por meio
de sucessivas perguntas, que os acabam convencendo da fragilidade de suas
convicções. Séculos mais tarde, o filósofo Descartes ponderou que o maior
estímulo para se instituir um método de conhecimento é considerar a presença
desafiadora da dúvida, como um primeiro passo.
Lendo os jornais e revistas de hoje, assistindo na TV a entrevistas de
personalidades, o que não falta são especialistas infalíveis em todos os
assuntos, na política, na ciência, na economia, nas artes. Todos têm receitas
imediatas e seguras para a solução de todos os problemas. A hesitação, a
dúvida, o tempo para reflexão são interpretados como incompetência,
passividade, absenteísmo. É como se a velocidade tecnológica, que dá o ritmo
aos nossos novos hábitos, também ditasse a urgência de constituirmos nossas
certezas. A dúvida corresponde ao nosso direito de suspender a verdade ilusória
das aparências e buscar a verdade funda daquilo que não aparece. Julgar um
fato pelo que dele diz um jornal, avaliar um problema pelo ângulo estrito dos que
nele estão envolvidos é submeter-se à força de valores já estabelecidos, que
deixamos de investigar. A dúvida supõe a necessidade que tem a consciência
de se afastar dos julgamentos já produzidos, permitindo-se, assim, o tempo
necessário para o exame mais detido da matéria a ser analisada.
A dúvida pode ser o primeiro passo para o caminho das afirmações que acabam
sendo as mais seguras, porque mais refletidas e devidamente questionadas.
(Cássio da Silveira, inédito)

1. (FCC 2015) A valorização da dúvida se deve ao fato de que ela


a) constitui o meio pelo qual se empreende uma contestação ilusória de verdades
dadas como irrefutáveis.
b) vale-se astutamente de sua fragilidade como método para poder impor
algumas verdades definitivas.
c) permite abrir um caminho para o conhecimento ao questionar verdades dadas
como absolutas.
d) contribui para a valorização de verdades pré-estabelecidas por métodos
seguros de conhecimento.
e) implica a tentativa de se chegar a um tipo de conhecimento cuja validade
dispensa qualquer comprovação.

2. (FCC 2015) Diferentemente da maneira pela qual Sócrates e Descartes


qualificavam a dúvida, o texto nos lembra que há
a) quem pulverize a certeza inabalável com que alguns afirmam seus pontos de
vista, juízos e convicções.
b) aqueles que já de saída se apresentam como especialistas infalíveis em temas
da política, da ciência, das artes.
c) aquele que se dispõe a se pronunciar sobre algum assunto depois de ter
aberto várias hipóteses de abordagem.
d) quem sempre suspenda a verdade das aparências, não se furtando a
questioná-las antes de aceitá-las.
e) quem se afaste de julgamentos definitivos para se deter sobre o que há de
problemático numa matéria.

3. (FCC 2015) Considere as afirmações abaixo.


I. Da leitura do 1o parágrafo pode-se deduzir que o método de conhecimento no
qual a dúvida exerce um papel importante passou a ser mais reconhecido e
utilizado em nossos dias, em função da complexidade da época que estamos
atravessando.
II. No 2o parágrafo, é patente o tom irônico com que o autor do texto faz
referência aos especialistas infalíveis em todos os assuntos, ironia que se ratifica
no segmento Todos têm receitas imediatas e seguras para a solução de todos
os problemas.
III. No 3o parágrafo, todos estes três segmentos referem ações a se evitar:
suspender a verdade ilusória das aparências, avaliar um problema pelo ângulo
estrito dos que nele estão envolvidos e Julgar um fato pelo que dele diz um jornal.

Em relação ao texto, está correto o que se afirma APENAS em


a) I e II.
b) I e III.
c) II e III.
d) II.
e) III.

4. (FCC 2015) Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido


de um segmento em:
a) pulveriza a certeza absoluta (1o parágrafo) = aniquila a convicção imperiosa
b) ditasse a urgência (2o parágrafo) = consumasse a precipitação
c) suspender a verdade ilusória (3o parágrafo) = ir ao encontro da ilusão
convincente
d) avaliar um problema pelo ângulo estrito (3o parágrafo) = retificar uma questão
aprimorando o foco
e) o exame mais detido da matéria (3o parágrafo) = a prova mais recôndita da
tese defendida

5. (FCC 2015) Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o
texto:
a) Uma vez distanciados no tempo, Sócrates e Descartes são parceiros quanto
a compartilharem ao mesmo prestígio que costumam atribuir ao valor da dúvida.
b) Mesmo separados por séculos, os filósofos Sócrates e Descartes parecem
acordes quanto ao valor que atribuem ao papel da dúvida na constituição do
pensamento.
c) Muito embora fossem distintos filósofos, é de se constatar que tanto Descartes
quanto Sócrates alimentavam sobre as dúvidas a mesma convicção que lhes
mantinha.
d) Descartes e Sócrates, filósofos consagrados, em que pese o valor que se
atribuíam às suas dúvidas, tinham estreita relação de pensamento quanto aquilo
que lhes era comum.
e) A par de serem distantes no tempo, ainda que compartilhando suas condições
de filósofos, Descartes e Sócrates se identificavam por conta da dúvida que se
nutriam.

GABARITO:
1. C
2. B
3. D
4. A
5. B
Articulação do texto: coesão e coerência
O texto precisa estar interligado por expressões que referenciam e
relacionam palavras, orações, frases e períodos. As palavras que estabelecem
essa ligação são chamadas de elementos de coesão ou nexos, que constituem
processos de referenciação textual. Observe o texto a seguir:
Trabalhando por menos
Brasil caminha a passos de tartaruga para acabar com a disparidade salarial
entre homens e mulheres

ANDREA CARVALHO / MARIA LAURA CANINEU

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, as mulheres brasileiras


recebem salários 23 por cento menores do que os homens, apesar de
possuírem maior nível educacional. Em outras palavras, uma mulher teria que
trabalhar durante todo o ano passado e mais quase quatro meses deste ano
para alcançar o rendimento que homens tiveram em 2017.

No mercado formal, monitorado pelo Ministério do Trabalho, a diferença


salarial entre homens e mulheres caiu de 17% em 2007 para 15% em 2016.
Neste ritmo, as mulheres brasileiras com emprego formal receberão os
mesmos salários que seus colegas homens somente em 2083 – ou seja,
meninas que nascem no dia de hoje terão equidade salarial apenas quando
completarem 65 anos.

O Fórum Econômico Mundial classificou o Brasil na 119ª posição em


um ranking de países sobre a equidade salarial para trabalho similar, com base
em uma pesquisa anual com executivos. A diferença é notada sobretudo entre
os trabalhadores com níveis mais elevados de educação. Os dados mais
recentes do Ministério do Trabalho mostram que 60 por cento dos
trabalhadores com ensino superior são mulheres, mas estas receberam 36 por
cento menos do que os homens com o mesmo nível educacional.
Esses resultados condizem com estudos em outros países que mostram que
mesmo considerando fatores como experiência, educação, área de negócio e
horas trabalhadas, mulheres e homens são remunerados de forma diferente.
Uma análise aprofundada de economistas sobre a disparidade salarial entre
homens e mulheres descobriu que a discriminação faz parte desta equação.

As mulheres não apenas ganham menos do que os homens, mas têm


dificuldades em se inserir no mercado de trabalho. No Brasil, 78% dos homens
e apenas 56% das mulheres possuem emprego remunerado,
segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Porém,
nem sempre ficar em casa é uma escolha da mulher. Outra pesquisa da OIT
demonstra que a grande maioria das brasileiras gostaria de ter trabalho
remunerado. Eliminar a diferença na taxa de participação laboral entre
mulheres e homens acrescentaria 382 bilhões de reais à economia do país, ou
3,3% do PIB, diz a OIT.

A política também continua praticamente um clube restrito aos homens no


Brasil. Apenas 11% dos membros do Congresso são mulheres, a terceira
menor porcentagem na América Latina, atrás apenas do Haiti e Belize,
segundo a ONU. O Poder Executivo tem números ainda piores sob a atual
administração. O Brasil tem uma única mulher com cargo de ministra, a
Advogada-Geral da União, Grace Mendonça.

A lei brasileira encoraja a participação das mulheres na política ao exigir


candidatas mulheres nos partidos políticos. Além disso, proíbe discriminação
de gênero na remuneração, formação profissional e oportunidades de
ascensão profissional. Mas a realidade que as mulheres enfrentam é outra.

Junto com membros do G-20, o governo brasileiro comprometeu-se a reduzir


a desigualdade de gênero na força de trabalho em 25% até 2025 e, como parte
dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, atingir a igualdade de
salários entre homens e mulheres que ocupam posições de trabalho iguais até
2030.

Para chegar lá, o governo do Brasil deve criar mecanismos para transparência
sobre informações salariais, garantir que os empregadores cumpram a lei que
proíbe a discriminação de gênero no local de trabalho e fortalecer os canais
legais para que as mulheres reivindiquem seus direitos trabalhistas. Essa seria
a melhor forma de comemorar o Dia Internacional da Mulher.
Texto disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/08/politica/1520524622_754417.html.
Acesso em: 09 mar. 2018.

O texto acima apresenta vários termos que estabelecem ligação entre os


parágrafos, frases e orações. Os exemplos acima indicam claramente que o
texto apresenta palavras de ligação que contribuem para a progressão textual,
evitam a repetição de palavras e sinalizam o sentido que as orações e frases
estabelecem entre si. As expressões em destaque são termos que exemplificam
a coesão textual.
Então, o que é coesão textual?

“A coesão textual é o resultado da conexão existente entre as palavras, as


frases e as orações que formam o texto jurídico como um todo significativo.”
(VIANA, 2007, p. 163-164)

A coesão textual manifesta-se através dos mecanismos de coesão.


Dentre eles, destacam-se os elementos anafóricos, os elementos catafóricos, a
elipse, os sinônimos e outros elementos de coesão.

Recursos coesivos do texto


Os recursos coesivos podem ser exofóricos ou endofóricos:
Endofórica – relaciona termos dentro do texto. Se divide em anafórica e
catafórica.
Exofórica – relaciona termos de fora do texto para dentro. Também é chamada
de dêitica, díctica.

Anáfora e catáfora

Os elementos anafóricos têm a função de retomar por meio de palavras


ideias expressas anteriormente. As palavras em destaque nos períodos a seguir
assumem a função de anáfora.

Exemplos:
Uma boa atuação dos operadores do Direito exige muita dedicação e eles
têm ciência disso.
A concessão do benefício da assistência judiciária gratuita justifica-se em
virtude de a requerente estar sem condições financeiras suficientes que lhe
permitam custear os honorários do advogado sem prejuízo de seu próprio
sustento e de sua família.
O jovem jogador de futebol atingiu sua melhor marca no campeonato;
assim muitos clubes querem tê-lo no próximo ano.

Os elementos catafóricos anunciam ideias que serão desenvolvidas na


sequência do texto. Veja as expressões em destaque nos exemplos.

Exemplos: Na produção da petição inicial, vários elementos devem ser


registrados e estes são essenciais: o fato e os fundamentos jurídicos.
Ao sair da audiência, o advogado disso isto: os depoimentos das
testemunhas foram muito favoráveis à concessão do pedido.

Emprego de elementos de referenciação, substituição e repetição, de


conectores e de outros elementos de sequenciação textual
Para estabelecer coesão, vários outros recursos podem ser empregados:
 Elipse: é a omissão ou o apagamento de um
termo ou de uma palavra que está subentendida na
Mecanismos de oração ou na frase.
coesão
 Sinônimos: são palavras que possuem o
mesmo ou aproximadamente o mesmo significado
que outro vocábulo.

 Conjunção: são palavras que se constituem


como elementos de ligação de orações.

A elipse configura-se como um apagamento de um termo que está


subentendido no contexto. É um recurso de coesão que contribui para evitar a
repetição de palavras no texto.

Exemplo 1:
O professor solicitou o Projeto Pedagógico da escola. Mas não
recebeu.
O professor solicitou o Projeto Pedagógico da escola. Mas (o
professor) não recebeu (o Projeto Pedagógico).

Exemplo 2:
Joelma prestou vestibular para Medicina e (Joelma) considerou
difícil (o vestibular).
A elipse pode marcar apagamento de nomes, como demonstrado
nos exemplos acima, e de verbos, como demonstrado no exemplo a seguir.
Exemplo 3:
Eu gosto de estudar. Maria, de viajar.
Eu gosto de estudar. Maria (gosta) de viajar.
Observação:

A elipse verbal deve ser marcada por vírgula.

Exemplo:
Mariana foi ao supermercado. João, ao cinema. (João foi ao cinema)

Os sinônimos são as palavras ou expressões sinônimas podem se


referir a uma palavra usada no texto, retomando a linha de pensamento e
mantendo o significado da frase.

Exemplo:
Um menino de 13 anos está sendo acusado pela polícia de ter furtado uma
bicicleta no Bairro Vila Velha. Em depoimento, o garoto negou as acusações.

Os elementos de coesão que ligam orações e palavras entre si normalmente


são conjunções, que carregam sentidos específicos dependendo do contexto em
que aparecem.

Exemplo:
A aplicação das provas do concurso foi suspensa, porque a empresa
responsável pela seleção de pessoal não encontrou salas suficientes para
acomodar todos os candidatos.

Observe agora conjunções que estabelecem valores semânticos ao


relacionarem orações e períodos.
CONJUNÇÃO VALOR EXEMPLO
SEMÂNTICO
E, nem Adição O réu não ofereceu dificuldades
para ser preso nem ameaçou o
oficial de justiça.
Mas, contudo, no adversidade As testemunhas depuseram
entanto, entretanto, favoravelmente ao réu, todavia os
porém, todavia. depoimentos são contraditórios.
Ou (repetido ou não), alternância A ordem de prisão será cumprida
ora, nem, quer, seja, etc ou o criminoso continuará livre.
Assim, logo, portanto, conclusão As provas do crime foram
por isso, etc elencadas. Logo, pode ser julgado
o processo.
Porque, que, pois, explicação Em suas razões recursais, sustenta
o insurgente que a determinação
judicial extrapolou os limites,
invadindo sua privacidade, pois
não está obrigado a exibir a
declaração de seus bens.
Que, do que (quando comparação O depoimento do autor da ação foi
iniciadas ou antecedidas mais brando do que o do réu.
por noções
comparativas como
menos, mais, maior,
menor, melhor, pior),
qual (quando iniciada ou
antecedida por tal),
como (também
apresentada nas formas
assim como, bem como)
Embora, mesmo que, concessão Apesar de haver provas
ainda que, posto que, contundentes sobre o crime, o réu
por mais que, conquanto foi absolvido.
que, apesar de, mesmo
quando, etc.
Se, caso, contanto que, Condição Se houver prova da inocência do
a não ser que, desde réu, que seja apresentada.
que, salvo se, etc.
Conforme, segundo, conformidade Segundo informou o promotor, o
consoante, como réu responderá por dois crimes:
(utilizada no mesmo invasão de privacidade e abuso de
sentido da conjunção poder.
conforme)
A fim de que, para que, Finalidade Esta Câmara converteu o
que julgamento em diligência para que
fosse instaurado, no juízo de
origem, o incidente de insanidade
mental do acusado
À proporção que, à proporção À medida que outros recursos
medida que, quanto forem julgados, sairá a sentença.
mais... (tanto) mais,
quanto mais... (tanto)
menos, quanto menos...
(tanto) menos, quanto
menos... (tanto) mais
etc.
Quando, enquanto, logo Tempo E ela refere a quatro fatos
que, agora que, tão logo, criminosos. O último, quando tinha
apenas (com mesmo quinze anos, não foi objeto da
sentido da conjunção denúncia.
tão logo), toda vez que,
mal (equivalente a tão
logo), sempre que, etc.

Além das conjunções há os pronomes relativos e as preposições que


atuam como elementos de coesão.
Exemplo 1:
O homem que matou mulher grávida de oito meses está recolhido em presídio
do Ceará.

Exemplo 2:
As escolas públicas as quais atendem ao público de periferia precisam ter maio
verba de custeio.

Exemplo 3:
A casa de madeira foi incendiada criminalmente.

Emprego de elementos de referenciação, substituição e repetição, de


conectores e outros elementos de sequenciação textual

No texto, os elementos coesivos podem ser agrupados em três


categorias:
a) coesão referencial

A coesão referencial é aquela que cria um sistema de relações entre as


palavras e expressões de um texto, permitindo ao leitor identificar os termos
a que se referem.
Exemplo: A infraestrutura das escolas públicas brasileiras não dispõe de
recursos básicos para a educação de surdos, uma vez que os educandários
ainda carecem de tecnologias assistivas para a formação daquele que não
ouve.

b) coesão sequencial

A coesão sequencial é responsável por criar as condições para a progressão


textual.
Adição/inclusão - Além disso; também; vale lembrar; pois; outrossim; agora; de
modo geral; por iguais razões; inclusive; até; é certo que; é inegável; em outras
palavras; além desse fator...
Oposição - Embora; não obstante; entretanto; mas; no entanto; porém; ao
contrário; diferentemente; por outro lado...
Afirmação/igualdade - Felizmente; infelizmente; obviamente; na verdade;
realmente; de igual forma; do mesmo modo que; nesse sentido;
semelhantemente...
Exclusão - Somente; só; sequer; senão; exceto; excluindo; tão somente;
apenas...
Enumeração - Em primeiro lugar; a princípio...
Explicação - Como se nota; com efeito; como vimos; portanto; pois; é óbvio que;
isto é; por exemplo; a saber; de fato; aliás...
Conclusão - Em suma; por conseguinte; em última análise; por fim; concluindo;
finalmente; por tudo isso; em síntese, posto isso; assim; consequentemente...
Continuação - Em seguida; depois; no geral; em termos gerais; por sua vez;
outrossim...

Veja o quadro:
Para analisar emprego dos elementos coesivos, observe os conectores a
seguir e seus valores semânticos.
CONJUNÇÃO VALOR EXEMPLO
SEMÂNTICO
E, nem Adição O réu não ofereceu dificuldades
para ser preso nem ameaçou o
oficial de justiça.
Mas, contudo, no adversidade As testemunhas depuseram
entanto, entretanto, favoravelmente ao réu, todavia os
porém, todavia. depoimentos são contraditórios.
Ou (repetido ou não), alternância A ordem de prisão será cumprida
ora, nem, quer, seja, etc ou o criminoso continuará livre.
Assim, logo, portanto, conclusão As provas do crime foram
por isso, etc elencadas. Logo, pode ser julgado
o processo.
Porque, que, pois, explicação Em suas razões recursais, sustenta
porquanto. o insurgente que a determinação
judicial extrapolou os limites,
invadindo sua privacidade, pois
não está obrigado a exibir a
declaração de seus bens.
Que, do que (quando comparação O depoimento do autor da ação foi
iniciadas ou antecedidas mais brando do que o do réu.
por noções
comparativas como
menos, mais, maior,
menor, melhor, pior),
qual (quando iniciada ou
antecedida por tal),
como (também
apresentada nas formas
assim como, bem como)
Embora, mesmo que, concessão Apesar de haver provas
ainda que, posto que, contundentes sobre o crime, o réu
por mais que, conquanto foi absolvido.
que, apesar de, mesmo
quando, etc.
Se, caso, contanto que, Condição Se houver prova da inocência do
a não ser que, desde réu, que seja apresentada.
que, salvo se, etc.
Conforme, segundo, conformidade Segundo informou o promotor, o
consoante, como réu responderá por dois crimes:
(utilizada no mesmo invasão de privacidade e abuso de
sentido da conjunção poder.
conforme)
A fim de que, para que, Finalidade Esta Câmara converteu o
que julgamento em diligência para que
fosse instaurado, no juízo de
origem, o incidente de insanidade
mental do acusado
À proporção que, à proporção À medida que outros recursos
medida que, quanto forem julgados, sairá a sentença.
mais... (tanto) mais,
quanto mais... (tanto)
menos, quanto menos...
(tanto) menos, quanto
menos... (tanto) mais
etc.
Quando, enquanto, logo Tempo E ela refere a quatro fatos
que, agora que, tão logo, criminosos. O último, quando tinha
apenas (com mesmo quinze anos, não foi objeto da
sentido da conjunção denúncia.
tão logo), toda vez que,
mal (equivalente a tão
logo), sempre que, etc.

As questões de números 1 a 5 referem-se ao texto seguinte.

Em defesa da dúvida
Numa época em que tantos parecem ter tanta certeza sobre tudo, vale a
pena pensar no prestígio que a dúvida já teve. Nos diálogos de Platão, seu amigo
Sócrates pulveriza a certeza absoluta de seus contendores abalando-a por meio
de sucessivas perguntas, que os acabam convencendo da fragilidade de suas
convicções. Séculos mais tarde, o filósofo Descartes ponderou que o maior
estímulo para se instituir um método de conhecimento é considerar a presença
desafiadora da dúvida, como um primeiro passo.
Lendo os jornais e revistas de hoje, assistindo na TV a entrevistas de
personalidades, o que não falta são especialistas infalíveis em todos os
assuntos, na política, na ciência, na economia, nas artes. Todos têm receitas
imediatas e seguras para a solução de todos os problemas. A hesitação, a
dúvida, o tempo para reflexão são interpretados como incompetência,
passividade, absenteísmo. É como se a velocidade tecnológica, que dá o ritmo
aos nossos novos hábitos, também ditasse a urgência de constituirmos nossas
certezas. A dúvida corresponde ao nosso direito de suspender a verdade ilusória
das aparências e buscar a verdade funda daquilo que não aparece. Julgar um
fato pelo que dele diz um jornal, avaliar um problema pelo ângulo estrito dos que
nele estão envolvidos é submeter-se à força de valores já estabelecidos, que
deixamos de investigar. A dúvida supõe a necessidade que tem a consciência
de se afastar dos julgamentos já produzidos, permitindo-se, assim, o tempo
necessário para o exame mais detido da matéria a ser analisada.
A dúvida pode ser o primeiro passo para o caminho das afirmações que
acabam sendo as mais seguras, porque mais refletidas e devidamente
questionadas. (Cássio da Silveira, inédito)
1. (FCC 2015) A valorização da dúvida se deve ao fato de que ela
a) constitui o meio pelo qual se empreende uma contestação ilusória de verdades
dadas como irrefutáveis.
b) vale-se astutamente de sua fragilidade como método para poder impor
algumas verdades definitivas.
c) permite abrir um caminho para o conhecimento ao questionar verdades dadas
como absolutas.
d) contribui para a valorização de verdades pré-estabelecidas por métodos
seguros de conhecimento.
e) implica a tentativa de se chegar a um tipo de conhecimento cuja validade
dispensa qualquer comprovação.

2. (FCC 2015) Diferentemente da maneira pela qual Sócrates e Descartes


qualificavam a dúvida, o texto nos lembra que há
a) quem pulverize a certeza inabalável com que alguns afirmam seus pontos de
vista, juízos e convicções.
b) aqueles que já de saída se apresentam como especialistas infalíveis em temas
da política, da ciência, das artes.
c) aquele que se dispõe a se pronunciar sobre algum assunto depois de ter
aberto várias hipóteses de abordagem.
d) quem sempre suspenda a verdade das aparências, não se furtando a
questioná-las antes de aceitá-las.
e) quem se afaste de julgamentos definitivos para se deter sobre o que há de
problemático numa matéria.

3. (FCC 2015) Considere as afirmações abaixo.


I. Da leitura do 1o parágrafo pode-se deduzir que o método de conhecimento no
qual a dúvida exerce um papel importante passou a ser mais reconhecido e
utilizado em nossos dias, em função da complexidade da época que estamos
atravessando.
II. No 2o parágrafo, é patente o tom irônico com que o autor do texto faz
referência aos especialistas infalíveis em todos os assuntos, ironia que se ratifica
no segmento Todos têm receitas imediatas e seguras para a solução de todos
os problemas.
III. No 3o parágrafo, todos estes três segmentos referem ações a se evitar:
suspender a verdade ilusória das aparências, avaliar um problema pelo ângulo
estrito dos que nele estão envolvidos e Julgar um fato pelo que dele diz um jornal.

Em relação ao texto, está correto o que se afirma APENAS em


a) I e II.
b) I e III.
c) II e III.
d) II.
e) III.

4. (FCC 2015) Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido


de um segmento em:
a) pulveriza a certeza absoluta (1o parágrafo) = aniquila a convicção imperiosa
b) ditasse a urgência (2o parágrafo) = consumasse a precipitação
c) suspender a verdade ilusória (3o parágrafo) = ir ao encontro da ilusão
convincente
d) avaliar um problema pelo ângulo estrito (3o parágrafo) = retificar uma questão
aprimorando o foco
e) o exame mais detido da matéria (3o parágrafo) = a prova mais recôndita da
tese defendida

5. (FCC 2015) Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o
texto:
a) Uma vez distanciados no tempo, Sócrates e Descartes são parceiros quanto
a compartilharem ao mesmo prestígio que costumam atribuir ao valor da dúvida.
b) Mesmo separados por séculos, os filósofos Sócrates e Descartes parecem
acordes quanto ao valor que atribuem ao papel da dúvida na constituição do
pensamento.
c) Muito embora fossem distintos filósofos, é de se constatar que tanto Descartes
quanto Sócrates alimentavam sobre as dúvidas a mesma convicção que lhes
mantinha.
d) Descartes e Sócrates, filósofos consagrados, em que pese o valor que se
atribuíam às suas dúvidas, tinham estreita relação de pensamento quanto aquilo
que lhes era comum.
e) A par de serem distantes no tempo, ainda que compartilhando suas condições
de filósofos, Descartes e Sócrates se identificavam por conta da dúvida que se
nutriam.

Gabarito
1C
2B
3D
4A
5B

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