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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
TS502 - TÓPICOS ESPECIAIS EM HISTÓRIA DO BRASIL III – T01 (2020.5 - 4T2345)
Profª: Fabiane Popinigis e Doutoranda Jéssica Alves

- Etapa D do trabalho final da disciplina “História social da escravidão e do trabalho em


perspectiva de gênero”: Entrega - 24/11/2020
Discente: Nathalia Alcantara Camargo Pereira / 201831035-4

No mesmo mar, não no mesmo barco: Discursos sobre o serviço doméstico em um


jornal feministas de São Paulo (1888-1889)

As ações como lavar, passar, cozinhar e limpar, fazem parte do cotidiano de muitas
famílias para a manutenção e asseio de suas casas. Como é possível historicizar aspectos
ínfimos da vida humana, a presente dissertação tem por objetivo pensar historicamente o
serviço doméstico, em especial, o discurso educacional dirigido aos trabalhadores do setor
doméstico em São Paulo entre os anos de 1888 e 1889. Para tanto, será analisado uma série
de quatro artigos publicados no jornal “A Familia : jornal litterario dedicado a educação da
mãe e familia (1888-1894)”, sob o título “Criados e amos” assinado por Maria Amália Vaz
de Carvalho. Não obstante, em pretensão secundária a dissertação objetiva racializar os
discursos e questionar a tipologia de feminismo desenvolvido pelo periódico em análise.

1 . Pensando sobre os termos: trabalho ou serviço doméstico?

A etimologia da palavra “trabalho” origina-se em um instrumento de tortura utilizado


na Roma antiga, e no qual eram supliciados os escravos, denominado como tripallium1. Nesse
sentido, o entorno do trabalho na sociedade ocidental iniciou envolvendo ideias negativas,
não obstante, os africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX eram tidos como
instrumentos de trabalhos pelo sistema colonial europeu.
A forma como o conceito de trabalho será pensado na presente dissertação se
estabelece no âmbito privado da vida, logo, o doméstico. No que se refere a nomenclatura

1
Sociologia com a Gabi. Sociologia do Trabalho: O Conceito de Trabalho [1/4]. 2019. Disonível
em <https://www.youtube.com/watch?v=XmOWnl6izBs> Acessado em: 21 no. 2020.
desta forma de trabalho, a historiadora Flavia Fernandes de Souza em sua tese: “Criados,
Escravos e Empregados: O serviço doméstico e seus trabalhadores na construção da
modernidade brasileira (cidade do Rio de Janeiro, 1850-1920)” argumenta que,
“(...) os termos gerais mais utilizados em língua portuguesa para tratar deste
assunto, especialmente do ponto de vista histórico, são “trabalho doméstico”
ou “serviço doméstico”, que denominariam a natureza do trabalho em
questão, e “empregado(a) doméstico(a)” ou “criado(a) doméstico(a)” –
variáveis de acordo com o período histórico que se aborda –, para
denominar os trabalhadores que executam ou realizavam aquele tipo de
trabalho ou de serviço. Cada uma dessas expressões carrega, no entanto,
significados sociais que requerem certo cuidado no uso, bem como uma
compreensão mais ampla dos sentidos históricos envolvidos.” (p.53)

a autora sugere que a expressão “serviço doméstico” seja de utilização aconselhável para o
período em recorte, devido sua recorrência nas documentações da época, como em impressos
de diversas naturezas, periódicos, livros ou manuais femininos2. Pensar o serviço doméstico
no Brasil da segunda metade do século XIX solicita o estabelecimento de contornos, ao passo
que, o caráter “doméstico” não garantiria o enclausuramento das atividades no espaço da
casa. Como argumenta a historiadora Maria Odila da Silva Dias, na obra “Quotidiano e
poder em São Paulo no século XIX”, o caráter doméstico dos afazeres, como a lavagem de
roupas ou a criação de animais, em alguma medida poderia transbordar a casa e alcançar a
movimentação das ruas3. Para delimitação teórica, a presente dissertação se debruça sobre o
trabalho de servir partindo de seu local de atuação, o lar, e as relações de trabalho produzidas.

2. São Paulo e o periódico “A Familia: jornal litterario dedicado a educação da mãe e


familia”

A historiadora Lorena Féres da Silva Telles, em sua tese de doutorado “Libertas entre
sobrados: Contratos de trabalho doméstico em São Paulo na derrocada da escravidão”,
elucida o panorama social de São Paulo. Segundo a pesquisadora, em 1886 cerca de 95% dos
107.329 escravos matriculados na província de São Paulo encontravam-se nas áreas rurais
economicamente produtivas. A demanda dos fazendeiros de café somado ao fechamento dos

2
SOUZA, Flavia Fernandes de. Criados, escravos e empregados: O serviço doméstico e seus
trabalhadores na construção da modernidade brasileira (cidade do Rio de Janeiro, 1850-1920), Tese de
doutorando. p. 56.
3
DIAS, Maria Odila da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo:
Brasiliense, 1995, p. 59.
portos africanos, canalizavam os escravizados da Capital e de outras regiões do país4 para o
interior.
Assim, se por um lado os fazendeiros e suas lavouras economicamente rentáveis
absorviam os escravos mais valedouros, os proprietários da Capital concentravam parco
número de cativos, especialmente mulheres, crianças e idosos5. Pensando no visível e
invisível das ruas e suas encruzilhadas6, a capital de São Paulo também incorporou a
problemática social relativa aos escravos na província, atuando como ponto de atração de
cativos fugidos das fazendas do interior e como local de ações abolicionistas, lado a lado,
com os interesses dos fazendeiros do café7. Além disto, para Lorena Telles, São Paulo lidava
com o recebimento de libertos, migrantes e imigrantes, agentes do trabalho livre a serviço de
elites e classes médias, em momento de urbanização para acolher aqueles interesses - as ruas
da Capital acondicionaram interesses e vivências conflitantes, maneiras diferentes de se
experimentar a segunda metade do século XIX.

2.1 O periódico

No mês de novembro do ano de 1888, em São Paulo, foi publicado pela primeira vez o
jornal:“A Familia : jornal litterario dedicado a educação da mãe e familia” capitaneado pela
professora Josephina Alvares de Azevedo, com o auxílio de mulheres letradas na redação,
custando 10$000 na capital e 12$000 no interior. O periódico foi mantido em circulação entre
os anos de 1888 a 1894 totalizando 117 edições, publicadas uma vez por semana8. Como o
título sugere, as máximas sobre família, educação e mulher são os pilares do periódico, o que
urge uma análise problematizada destes, tendo em vista o recorte geográfico e temporal de
sua circulação.
O jornal propunha, por meio de uma perspectiva de imprensa que despertasse as
conciencias adormecidas, o princípio de semelhança ente homens e mulheres de maneira a
extirpar a “escravidão da mulher”9. Entretanto, o princípio de semelhança não tangencionava

4
TELLES, Lorena Féres da Silva. Libertas entre sobrados: mulheres negras e trabalho doméstico
em São Paulo (1880–1920). São Paulo: Alameda, 2013. p. 28 -29
5
Idem. p.29
6
#35- O visível e o invisível das ruas do Rio de Janeiro, com Luiz Antônio Simas. Locução: Luiz
Antônio Simas. Urbanidades. 23 de nov de 2020. Podcast. Disponível em <
https://open.spotify.com/episode/0GUz1XAehZ3IGhTw6ux4KM >
7
TELLES, Lorena Féres da Silva. Op.cit., 2013.p.23.
8
A Familia : jornal litterario dedicado a educação da mãe e familia. São Paulo. Josephina Alvares de
Azevedo. 1888-1894. Acesso em 09 de out. de 2020:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=379034&pesq=%22criada%22&pagfis=1>
9
Edição 0001 do periódico em análise.
equidades sociais - como no mundo do trabalho, por exemplo -, pois Josephina de Azevedo
entendia que em uma sociedade haveria o princípio da força materializado no homem e o da
ordem na mulher. Porém, externar a ordem para o comando de uma nação era minimamente
risível, a conclusão lógica para as redatoras seria aplicar o princípio da ordem no âmbito da
casa e da família.
A historiadora Emery Marques Gusmão, com o cerne de suas pesquisas voltadas para a
história da educação, ao tratar sobre a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, autora
portuguesa que escreveu a série de artigos que deu início a presente dissertação, expõe com
maestria ideias que a autodefinição do periódico sugerem ao leitor,
“(...) seu foco principal é a libertação do homem em relação ao encargo que
representaria a mulher confinada no espaço doméstico ou nos salões sociais,
despreparada intelectualmente e incapaz de contribuir “adequadamente” na
família e na sociedade burguesas. Para que a mulher não se torne um pesado
fardo (...)” (p.274 e 275)

A oratória feminista do periódico A Familia : jornal litterario dedicado a educação da


mãe e familia - mesmo que na contemporaneidade pareça tímida - o inseriu com louvor em
uma vertente pioneira do movimento feminista, que se articularia apenas no século seguinte.
Segundo a historiadora Bárbara Figueiredo Souto, no artigo “Feminismo Tipográfico:
mulheres em luta na segunda metade do século XIX”,
“A pesquisa com jornais nos permitiu caracterizar o que denominamos de
“Feminismo Tipográfico”, ou seja, a luta das mulheres, nos fins do século
XIX, em prol da melhoria de vida e de seus direitos, por meio da imprensa,
acabou por dar contornos específicos ao movimento. Essa expressão que
utilizamos foi inspirada na criada por Marshal McLuhan (...) Segundo o
autor, a invenção da imprensa deu origem a uma cultura tipográfica. A partir
de então, uma nova cognição teria se iniciado: as pessoas passavam a
compreender as coisas da esquerda para a direita e de cima para baixo – da
mesma forma como se lê (...) as idéias feministas foram veiculadas no
século XIX – através da imprensa – teria de certa forma condicionado o
feminismo brasileiro em sua fase inicial.” (p.03)

2.2 “Criados e Amos”

Partindo do princípio da ordem e asseio no âmbito da casa, reflexões sobre o serviços


domésticos, tal qual os agentes ativos deste, não ficaram despercebidos pela redação do
periódico. A historiadora Flavia Fernandes de Souza argumenta em sua tese que este foi, “um
assunto de “suma importância”, porque se ligava a questões como a administração, o cuidado
e a moralidade da casa, além de ser essa uma conversação obrigatória entre as mães e as
mulheres, em geral.” (p.298)
No ano de 1889, entre as edições 00009 e 00012 do jornal A Familia, foi publicadoa
uma série de quatro artigos sob o título de “Criados e Amos”, de autoria da escritora
portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho, visando analisar o cenário das relações do serviço
doméstico naquele momento histórico. Como citado anteriormente, os escritos de Maria
Amália motivaram a esta dissertação, entretanto, a pesquisa por palavras chaves na
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional10, obedeceu a uma lógica de história dos termos,
citando mais uma vez a historiadora Flavia Fernandes de Souza e sua tese, a pesquisadora
pondera que,
“(...) O vocábulo “criado(a)” – que costuma prevalecer nas referências feitas
aos trabalhadores domésticos em contextos históricos mais recuados no
tempo – reúne quase todas os significados anteriores, mas se vincula, do
ponto de vista da história brasileira, à noção de um trabalhador(a)
doméstico(a), que em contextos passados poderia ser, do ponto de vista
jurídico, tanto livre como escravizado. Contudo, o termo “empregado
doméstico”, por sua vez, caracteriza mais diretamente uma relação de
trabalho assalariado, podendo, como é na atualidade, ser denominado apenas
de “doméstico(a)”. (p.53)

A autora da série “Criados e Amos”, embora tenho publicado em um periódico


brasileiro, era portuguesa e também escreveu em periódicos portugueses, sendo a primeira
mulher a ingressar na Academia de Ciências de Lisboa (1912), adquiriu atenção devido a
publicação de inúmeros ensaios, contos, poesias e críticas literárias acerca do papel da mulher
e da educação na sociedade11. Os artigos em análise compõem parte de um manual doméstico
publicado originalmente em 1880 em Portugal12, segundo a historiadoras Flavia Fernandes de
Souza, os artigos fariam sentido para o seio de sociedades em tempos distintos pois,

“Tratava-se, portanto, de uma reflexão sobre amos e criados no contexto


europeu, de crescente modernização e de crise do patriarcado, mas que era
republicado no jornal A Família por ser esse um assunto de interesse do
público feminino e que também se aproximava da realidade brasileira vivida
por volta do final dos anos 1880 – de imediata pós-abolição, de decadência

10
Foram contabilizadas 24 ocorrências do termo “Criada” no periódico A Familia : jornal litterario
dedicado a educação da mãe e familia. Porém, a maior parcela das ocorrências abarcavam a outra
natureza do periódico, ou seja, a de ser uma publicação literária, que não contribui muito com o
objetivo traçado para o trabalho solicitado.
11
GUSMÃO, E M. Debates sobre educação feminina no século XIX: Nisia Floresta e Maria
Amália Vaz de Carvalho. Estudos Historicos (Rio de Janeiro), v. 25, p. 265-504, 2012.
12
SOUZA, Flavia Fernandes de. Op.cit., 2017, p.298.
do regime imperial e de profundas transformações na estrutura social.”
(p.298)

Em análise efetiva do conteúdo da série “Criados e Amos”, a primeira parte do artigo


circulada na edição de número 00009, inicia convidando o leitor a pensar a “questão de
baixo”, ou a educação dos criados, que nunca foi pensada de maneira devida. A autora aponta
que seria necessário conhecer e destruir a decadência desta classe, visto que, os criados de
hoje não seriam como os de outrora e com o desapego a família em que servem, tornar-se-iam
inimigos necessários.
O sentido de educar que se dissemina por todo o jornal, pode ser observado na edição
00010. Amália após longas reclamações sobre a índole dos criados, - que não mais são
atenciosos com seus amos, não conseguiriam cuidar de enfermidades justamente pelo vínculo
quebrado de não residirem na casa do amo, por “hoje estar aqui, amanhã estará n’outra
parte”, conclui a edição tecendo uma aura de superioridade moral, para que seja possível
educar a classe dos criados, curando-os de todos os males inerentes aos seus pares.
Tal sentido se estender até a edição 00011, a autora explicita a necessidade de cuidar da
educação dos futuros criados. Para tanto, pensando primeiramente nas mulheres, Amália
julga necessário criar instituições especiais de ensino, ou modificar as já existentes. Na
percepção da autora, para além de aprender a ler e escrever as mulheres deveriam adquirir
conhecimentos justos para que possa trabalhar com estes, de maneira a exercer um ofício de
imediato. A autora pontua que a maestria nos afazeres mais humildes como saber limpar,
varrer e ter uma comida bem temperada, seriam os necessários para ocupar essa lacuna do
imediatismo - todas essas aptidões visariam para Amália, o auxílio da mulher para com o
marido no bem estar deste, de maneira a banir “tagarelices das vizinhas” e viver com ele e
seus filhos, num lar em asseio. Ademais, a educação deveria ser personalizada ao futuro
papel de cada mulher, por exemplo, as que apresentassem aptidões mais refinadas de
inteligência, na perspetiva da portuguesa, deveriam receber outros tratamentos para que no
futuro se tornassem professora dos filhos da aristocracia.
Na edição 00012 e última da série, Maria Amália Vaz de Carvalho determina que as
mulheres com o espírito menos desenvolvido seriam destinadas ao trabalho de criada de
servir, que necessitaria de educação como qualquer outra função e também, “no asylo
destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras”. Amália
pondera que ser criada não era vergonhoso, apenas um ofício como outro qualquer que exigia
fidelidade e amor ao trabalho, além disso, os homens também poderiam participar desse
estudo para se tornar um bom criado, mas para a autora ter uma criada é uma necessidade, já
um criado seria um luxo. Maria Amália de Carvalho conclui que a educação seria uma forma
de prevenir a preguiça feminina e a pobreza.

3. Racializar o discurso

O historiador Rafael Saraiva Lapuente, em seu artigo “O jornal impresso como fonte de
pesquisa: delineamentos metodológicos”, articula sua tese sobre a leitura crítica de
periódicos com argumentos valiosos, dentre estes, a ideia de que o estudo da imprensa
necessita se atentar também pelo entorno social desta, ou seja, seu tempo histórico13, o que é
fundamental para a racialização do discurso de A Familia. Como apontado anteriormente, o
periódico emergiu em uma sociedade que passava por alterações em seu principal pilar, o
sistema escravista. Nesse sentido, era de se esperar que algo desta natureza social refletisse na
escrita das redatoras, mas não foi o observado durante o período em recorte.
A série “Criados e Amos” para além de uma conotação educacional, desenha uma
incoerência do sistema. Pois, se por um lado a força de trabalho de seres humanos
escravizados, oriundo do continente africano, desde o início da colonização nas américas foi
utilizado no serviço doméstico, e tal tipologia de trabalho deixou profundas marcas em
sociedades com o histórico escravista, de maneira a tecer um fio condutor entre a escravidão,
os negros (africanos e seus descendentes) e o serviço doméstico14 até a atualidade15. Por
outro, a série de artigos publicada no periódico tapa o olhar para a sociedade que está inserida
e almejando se fazer moderna, limita-se em pensar na educação daquelas que escolheram o
trabalho de servir outrem, relegando ao silênciamento as especificidades de mulheres negras
que tiveram suas vidas sequestradas para lhes servir domesticamente, nos “momentos de
ouro” da escravidão no Brasil. Como pondera a autora Flavia Fernandes de Souza,
“(...) em uma sociedade ainda escravista, os imigrantes inseridos no serviço
doméstico, em maior número a partir da década de 1870, passaram a
conviver em espaços sociais comuns e a competir por empregos com os
escravos domésticos e os demais trabalhadores domésticos nacionais (...)
Uma competição, que, provavelmente, não envolvia apenas as diferenças de
condição social e os atributos ou habilidades para a realização das

13
LAPUENTE, Rafael Saraiva. O jornal impresso como fonte de pesquisa: delineamentos
metodológicos. In: Alcar 2015 - 10º Encontro Nacional de História da Mídia. 2015, UFRGS. p.04.
14
SOUZA, Flavia Fernandes de. Op.cit., 2017, p.77
15
VILELA. Renata. Quem são as empregadas domésticas no Brasil?. Reconta aí. 2019. Disponível
em <
https://recontaai.com.br/atualiza-ai/quem-sao-as-empregadas-domesticas-no-brasil/#:~:text=Os%20da
dos%20de%202018%20apontam,de%20R%24%20877%2C00.> Acessado em: 23 de nov de 2020.
atividades, mas que incluía, também, acirramentos de ordem étnica, racial
ou nacional (...) alguns patrões mais abastados, “com pretensa mentalidade
modernizante”, trocaram seus escravos domésticos por serviçais
estrangeiros, ou “criados brancos”, sendo esta uma nova forma de indicação
de status, riqueza e prestígio social.” (p.156 - 157)

3.1 Eu não sou uma mulher?

No momento em que foi necessário defender-se das criticas, como ocorreu na edição
00003 - edição em que foi rebatida a crítica quanto a natureza dúbia do períodio, se este seria
um jornal ou um diário - a professora Josephina Alvares de Azevedo é quem responde e cita
que como mulher seria necessário “defender todas as do seu sexo”. Na mesma edição,
Josephina cita a lei de 13 de maio, a mais brilhante do Brasil segunda ela, dotando-a de maior
importância por ter sido escrita por uma mulher, do que o papel social (mesmo que aspirado)
de tal desdobramento jurídico.
Praticando o hábito de ler o que não foi “dito” pelas fontes, é possível concluir que o
que está em voga ao problematizar o feminismo tipográfico de A Família, é a fragilidade dos
discursos universalistas, no caso a categoria “mulher”. Para a psicóloga Grada Kilomba, o
colonialismo é uma ferida que nunca foi tratada e por vezes dói novamente, para a presente
etapa da dissertação vale pensar que o colonialismo criou realidades diferentes para a
experiência do “ser uma mulher”, o discurso da abolicionista afro-americana e ativista dos
direitos das mulheres Sojourner Truth adentra as feridas coloniais ao pensar,

“Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir
em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem
o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir
em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram
melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para
meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem
algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia
trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse
oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma
mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a
escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser
Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”16

16
E não sou uma mulher? – Sojourner Truth. Portal Geledés. 08 de jan. de 2014. Afro-americanos.
Disponível em: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/ Acessado em: 17
de out de 2020.
O presente esforço teorico se pauta em pensar que mesmo trabalhando na equidade de
gênero de forma pioneira, as escreventes de A Família eram inevitavélmente mulheres do seu
tempo histórico. Com isso, cabe ao leitor a responsabilidade sobre aqueles não citados e sobre
a interseccionalidade não construída - silenciamentos esperados do tempo findado, mas
problemático ao presente - ao produzir narrativas com fontes como esta. Bebendo na
inesgotável fonte de conhecimento da filósofa, escritora e ativista do movimento social negro
brasileiro Sueli Carneiro, é necessário enegrecer o movimento feminista no Brasil a todo o
momento, pois,
“O feminismo brasileiro, reproduzindo uma tendência colonial, assimilou
uma identidade branca e ocidental, além de “revelar a insuficiência teórica e
prática política para integrar as diferentes expressões do feminino
construídos em sociedades multirraciais e pluriculturais”. Dessa forma, para
a autora tal expressão tornou possível “engendrar uma agenda específica que
combateu, simultaneamente, as desigualdades de gênero e intragênero;
afirmamos e visibilizamos uma perspectiva feminista negra que emerge da
condição específica do ser mulher, negra e, em geral, pobre”, além de
demonstrar o necessário envolvimento do movimento feminista na luta
antirracista no Brasil.”17

Como argumenta a historiadora Juliana Gonçalves da Silva, ao podcast de número 22


da ANPUH18, ao questionar o feminismo tradicional não se objetiva travar guerras entre as
mulheres negras e brancas, mas avançar ainda mais nas discussões sociais. Vivências distintas
criam necessidades, demandas sociais e debates completamente diversos, logo, enegrecer o
feminismo seria entender que o gênero representa o mar e a raça o barco, somo mulheres que
com suas especificidades apoiam outras mulheres e apoiam as suas pares, em vista de uma
sociedade plural.

Conclusão:

Em suma, é possível viabilizar que o universo envolto ao sentido de trabalho na raiz de


seu significado apresenta uma carga de sofrimento, ainda mais, quando o trabalho se
direciona a intimidade de terceiros como o doméstico. No Brasil, a população negra em

17
BAMBIRRA, NATÉRCIA VENTURA; LISBOA, TERESA KLEBA. “Enegrecendo o
feminismo” : a opção descolonial e a interseccionalidade traçando outros horizontes teóricos.
REVISTA ÁRTEMIS, v. 27, 2019. p. 06.
18
FEMINISMO NEGRO, POR MAIARA JULIANA GONÇALVES DA SILVA -
HISTORIADORA EXPLICA - EP22 Episódio de ANPUH-BRASIL. Locução: Maiara Juliana
Gonçalves da Silva. ANPUH-BRASIL, 03 de mar. de 2020. Podcast. Disponível
em:https://open.spotify.com/episode/4QE6Y6bNygfWnt7KKVOe0D?si=5JZNCFd3Q2mQNy2buNQ
g1w#_=_ Acessado em: 04 de mar. de 2020.
especial as mulheres, atuaram e ainda atuam maciçamente neste setor, que esconde traumas e
dores para os que atuam nele. Enquanto mulheres estrangeiras tiveram a possibilidade de
alguém sugerir seu preparo intelectual para o serviço doméstico, às africanas escravizadas nas
Américas nunca foi dada a possibilidade de escolha - se por um lado da história houve lutas
de mulheres para melhores colocações no mercado de trabalho, por outro, havia mulheres que
em ventre o trabalho escravizado já lhe era imposto. Urge a reflexão e o policiamento das
máximas, discurso legítimos podem perder credibilidade ao não se aprofundarem o
suficiente, todas as instâncias da vida importam, inclusive as especificidades de vidas negras.

Bibliografia:

Hemeroteca Digital: A Familia : jornal litterario dedicado a educação da mãe e familia. São Paulo.
Josephina Alvares de Azevedo. 1888-1894. Palavra-chave: “Criada”.Acesso em 09 de out. de 2020:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=379034&pesq=%22criada%22&pagfis=1>

BAMBIRRA, NATÉRCIA VENTURA; LISBOA, TERESA KLEBA. “Enegrecendo o feminismo” :


a opção descolonial e a interseccionalidade traçando outros horizontes teóricos. REVISTA
ÁRTEMIS, v. 27, p. 270-284, 2019.

DIAS, Maria Odila da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo:
Brasiliense, 1995, Cap. 1

GUSMÃO, E M. Debates sobre educação feminina no século XIX: Nisia Floresta e Maria Amália
Vaz de Carvalho. Estudos Historicos (Rio de Janeiro), v. 25, p. 265-504, 2012.

LAPUENTE, Rafael Saraiva. O jornal impresso como fonte de pesquisa: delineamentos


metodológicos. In: Alcar 2015 - 10º Encontro Nacional de História da Mídia. 2015, UFRGS. Texto
digital disponível em: & lt;
http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais/10o-encontro-2015/gt-historia-d
a-midia-impressa/o-jornal-impresso-como-fonte-de-pesquisa-delineamentos-metodologicos/view.
Acesso em 19 de out. de 2020.

SOUTO, B. F.. Feminismo Tipográfico: mulheres em luta na segunda metade do século XIX. In:
XXVI Simpósio Nacional de História, 2011, São Paulo. Anais do XXVI simpósio nacional da
ANPUH - Associação Nacional de História. São Paulo: ANPUH - SP, 2011. p. 1-19.

SOUZA, Flavia Fernandes de. Criados, escravos e empregados: O serviço doméstico e seus
trabalhadores na construção da modernidade brasileira (cidade do Rio de Janeiro, 1850-1920), Tese de
doutorando, UFF, 2017. Cap. 1, Cap. 2, Cap. 4.

TELLES, Lorena Féres da Silva. Libertas entre sobrados: mulheres negras e trabalho doméstico em
São Paulo (1880–1920). São Paulo: Alameda, 2013. Cap.1, Cap.3