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EDUCAÇÃO PATRIMONIAL, TURISMO E SUSTENTABILIDADE NA


MATA DO TOTÓ, PELOTAS - RS

RESUMO

Acreditando na educação como princípio básico de resultados sociais, este trabalho


propõe o estudo da relação entre a Educação Patrimonial, o Turismo e o
Desenvolvimento Sustentável com estudantes de séries iniciais de Pelotas - RS, tendo
como local e base de estudos e lazer a região da Mata do Totó, mais especificamente a
estrutura física do Ecocamping Municipal. A Mata do Totó é um resquício de Mata
Atlântica encontrada no litoral da Lagoa dos Patos. O objetivo do trabalho é educar para a
formação de cidadãos conscientes da sociedade como um todo, de como proteger o meio
em que se inserem e reconhecer os bens socioambientais. Da mesma forma, pretende
que este patrimônio natural da cidade seja reconhecido e incorporado pela comunidade.
O trabalho justifica-se pela carência da educação voltada para o meio natural e bens
patrimoniais e conscientizarão para a preservação ambiental nas comunidades, nas
escolas. Há escassez de educadores qualificados para este fim. Através da educação
para o patrimônio cultural e natural voltada para crianças, estaremos “plantando”
conhecimentos que serão de fato aplicados, ou pelo menos transmitidos através destas,
que são o futuro da humanidade, assim como é a preservação do meio ambiente.

Palavras chave: Educação patrimonial, sustentabilidade, meio ambiente, turismo


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INTRODUÇÃO

Atualmente, e a partir de alguns anos atrás, o termo desenvolvimento


sustentável esta em vogue. Debatido e discutido em vários paises, em congressos
e convenções, muitas vezes como alternativa para a resolução de problemas
ambientais, e estes por sua vez, estão causando gradativa e velozmente mais
preocupação em todos os locais do globo, pois se trata da sobrevivência da
humanidade.
O que aconteceu, infelizmente, foi a banalização do termo em questão.
Esta termologia é atualmente utilizada inclusive apenas para conferir qualidade a
empreendimentos, públicos ou privados, sem a mínima responsabilidade, e desta
forma trabalhado sem profissionalização para garantir a fidelidade ao seu
conceito, que tem como embasamento fundamental “atender as necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem
suas próprias necessidades”.
Acreditando na educação como vetor de valiosos resultados futuros,
este trabalho propõe a relação entre a Educação Ambiental, o Turismo e o
Desenvolvimento Sustentável, de forma sinérgica, com crianças estudantes da
região do município de Pelotas, tendo como local e base de estudos e lazer a
região da Mata do Totó, mais especificamente a estrutura física do Ecocamping
Municipal.
Este ambicioso projeto objetiva beneficiar aos pequenos cidadãos da
cidade, através da educação voltada e especializada para eles, ao meio ambiente
como um todo – não só a Mata, mas a aplicação de conhecimentos para
ambientes em geral – e a comunidade local, mais especificamente a Colônia de
Pescadores Z-3, que é a comunidade residente no local onde se desenvolverá o
projeto, através do Turismo e da abrangência ou extensão da Educação Ambiental
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também para eles, em função deles, que são de importância fundamental por se
tratarem da população nativa do local, da originalidade do meio ambiente. Relação
intrínseca do homem com a natureza.
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JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS

A escolha do tema do mesmo se propôs através da consideração da


Mata do Totó, no município de Pelotas, localizada no sul do Rio Grande do Sul
como possuidora de áreas de natureza ainda não depredada pelo homem, sendo
assim, modelo de o que podemos nos atrever a chamar, de preservação
ambiental, ou baixo impacto na natureza.
A Mata do Totó é uma APP – Área de Proteção Permanente. Trata-se
de um resquício de Mata Atlântica encontrada no litoral da Lagoa dos Patos,
próxima à Colônia de Pescadores São Pedro Zona 3, mais conhecida como
Colônia Z-3. É de propriedade particular, por isso, tem acesso restrito, salvo nas
dependências do Ecocamping Municipal, que possui nesta área uma estrutura
para recebimento de turistas, campistas e outros, com banheiros, local para
restaurante e para barracas e esportes de variados tipos.
Dadas as considerações sobre a região da Mata do Totó, este trabalho
propõe que esta área de relevante valor ambiental seja utilizada como “sala de
aula” para a Educação Ambiental de crianças do Ensino Fundamental da região, a
fim de alcançar o objetivo principal, que é educar para a formação de cidadãos
conscientes sobre saber que de fato são componentes de uma sociedade, e de
como proteger o meio ambiente no meio em que se inserem, pois assim estarão
protegendo a sua própria existência humana.
Da mesma forma, pretende que este patrimônio natural da cidade seja
reconhecido como tal, não somente para as comunidades, mas também para o
turismo, sendo este de forma sustentável, atrelado a Educação Ambiental e ao
Ecoturismo. Desta maneira, estaremos priorizando atividades de turismo e lazer
na natureza em âmbito interno, muito antes de pensarmos apenas em lucros
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trazidos por turistas estrangeiros, o que é ótimo, pois desta forma se valoriza
primeiramente o nativo. É uma atitude preservacionista.
Soma-se a este motivo, a grande carência de Educação Ambiental e
conscientizarão para a conservação ambiental nas comunidades, nas escolas.
Falta de condições econômicas e de profissionais qualificados para este fim. A
Educação Ambiental deve ser tratada com a mesma seriedade das disciplinas
clássicas, tal é a sua importância para o futuro da humanidade.
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REFERENCIAL TEÓRICO

O turismo constituiu-se, nas últimas décadas, como uma das principais


atividades econômicas, em todo o mundo. O processo de globalização, que
assistimos, e também participamos, irá aprofundar esta realidade, e também
decompor a indústria turística em segmentos, tornando esta, finalmente, mais
profissional e dinâmica.
O termo “tourist” surgiu na Inglaterra em 1800, referindo-se aos
viajantes que, indo à França, optavam por fazer o “Grand Tour” (Paris, Sudoeste,
Midi, Sudeste e Borgonha) e não apenas o “Petit Tour” (Paris e Sudoeste). Desde
1811, o termo “tourism” refere-se a viagens motivadas pelo prazer.
No inicio do século XX, quando começaram a surgir estudos científicos
sobre o turismo, muitas definições têm sido dadas, tanto para turismo, como para
turista. Definições estas que sempre estiveram relacionadas com o prazer. Uma
das primeiras definições, segundo Barretto (1995), é do austríaco Hermann von
Schattenhofen, e dizia que “turismo é o conceito que compreende todos os
processos, especialmente os econômicos, que se manifestam na chegada, na
permanência a na saída do turista de um determinado município, país ou estado”.
A definição de turismo, considerando toda a sua complexidade, deve
ser feita de forma cautelosa, tendo cuidado e consideração por vários fatores e
compreendendo-o como muito mais que um simples negócio ou comércio.
Segundo Burkart & Medlik, citados por Barretto (1995), o turismo é uma amálgama
de fenômenos e relações que surgem pelo movimento de pessoas e de sua
permanência em variados destinos. Há, portanto, no turismo, um elemento
dinâmico – a viagem – e um elemento estático – a estada.
A viagem e a estada acontecem fora do local de residência, as
pessoas desenvolvem atividades diferentes de seu cotidiano, e estas são de sua
preferência pessoal, caracterizando o prazer. O elemento tempo de permanência,
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caráter não-lucrativo e procura pelo prazer devem ser considerados os mais


importantes na hora de dissertar sobre a definição de turismo.

O turismo é uma atividade em que a pessoa procura prazer por


livre e espontânea vontade. Portanto a categoria de livre escolha
deve ser incluída como fundamental no estudo do turismo
(BARRETTO, 1995).

Deve-se ter atenção em não confundir o conceito de turismo, por


exemplo, com viagem. O turismo inclui a viagem, mas apenas como parte,
havendo muitas viagens que não são de turismo. E também confundi-lo com
agências, hotéis e transportadoras. Os hotéis, nem todos são turísticos, e nem
todo turismo inclui hotel. O turismo inclui sim, alojamento – sem que este
necessite ser um hotel. E, toda a agência vive de turismo, mas não todo o turismo
acontece por intermédio de agências de viagem e turismo.
Persistem ainda algumas definições, com mais lógica do que as de
antigamente - que apenas relacionavam a distancia que o turista encontrava-se
longe da moradia e seu tempo de estadia fora de sua residência. Por exemplo,
segundo McIntosh & Grupta, citados por Lage & Milone (2000), o turismo, de
forma ampla, é assumido como a ciência, a arte e a atividade de atrair, transportar
e alojar visitantes, a fim de satisfazer suas necessidades e seus desejos.
Segundo Krapt & Hunziker, citado por Oosterbeek (2001), turismo é o
conjunto das relações e fatos constituído pelo deslocamento e estadia de pessoas
fora do seu local de residência habitual, não motivada por atividades lucrativas.
Para a Academia Internacional do Turismo, criada em Mônaco em
1951, o Turismo é o conjunto das atividades humanas destinadas a assegurar
este tipo de viagem, com base em uma relação em que o turista escolhe
deliberadamente o objetivo da viagem, e a indústria se aplica a satisfazer este
objetivo.
Hoje, é impossível limitar uma definição especifica de turismo. É uma
atividade socioeconômica, pois gera a produção de bens e serviços para o
homem, visando a satisfação de diversas necessidades básicas e secundárias.
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Segundo Lage & Milone (2000), o turismo moderno não precisa ter um conceito
absoluto, mas importa no conhecimento do mecanismo dinâmico que integra.

A riqueza gerada pelas múltiplas atividades não tem mais limites,


as fronteiras geográficas não existem mais, nem o tempo importa
mais. O que se observa do turismo atual é a existência de uma
rica e grandiosa indústria que se relaciona com todos os setores
da economia mundial e que devera continuar atendendo aos
interesses da humanidade nos próximos milênios (LAGE &
MILONE, p. 26, 2000).

De qualquer forma, o turismo é uma ciência nova, que está sendo


aperfeiçoada em suas potencialidades, positiva e negativamente. Neste momento,
em pleno início do século XXI, deparamo-nos com a tendência mundial, nascida
na década de 90, de priorizar pela conservação ambiental. Este é o consenso da
opinião publica.
A deterioração das florestas tropicais, a perda das espécies em
extinção, o aquecimento global e a degradação do solo reanimaram o apoio do
público à conservação. Neste contexto, nos familiarizamos cada dia mais com o
uso da expressão desenvolvimento sustentável.
O Relatório Brundtland, do ano de 1987, esclarece que, “O
Desenvolvimento Sustentável é aquele que atende as necessidades do presente
sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem suas próprias
necessidades”.
Este é o principio básico do Desenvolvimento Sustentável. Conciliar o
desenvolvimento econômico com a preservação ambiental, e ainda ao fim da
pobreza no mundo. É evidente que, as necessidades humanas e as limitações do
meio ambiente – elementos chave na formação do conceito de Desenvolvimento
Sustentável - são conceituados e avaliados de varias maneiras pelos diferentes
autores, mas sua interelação é sempre presente quando falamos de
Desenvolvimento Sustentável.
Segundo o Relatório Brundtland (1987), para se alcançar o
Desenvolvimento Sustentável, são necessárias algumas medidas, que se chamam
componentes, e devem ser tomadas pelos estados nacionais, como a limitação do
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crescimento populacional – o desenvolvimento sustentável só pode ser buscado


se os desenvolvimentos demográficos estiverem em harmonia com o mutável
potencial produtivo do ecossistema -, a conservação de recursos básicos –
sistemas naturais que permitem a vida na terra: a atmosfera, a água, os solos e os
seres vivos -, a preservação da biodiversidade e dos ecossistemas – conservação
das espécies da fauna e da flora.
Também a diminuição do consumo de energia – retenção de recursos
para que as próximas gerações não sofram com a sua escassez -, o controle da
urbanização – minimização de impactos adversos, sustentar a integridade total do
ecossistema -, amplo suporte da política nacional e internacional, qualidade e
auditoria ambiental – administração de qualidade total do meio ambiente, dentre
outras medidas.
Segundo alguns autores, não há Desenvolvimento Sustentável se não
houver também viabilidade econômica e retorno financeiro, a fim de se perseguir o
bem estar econômico, e ao mesmo tempo reconhecer que as políticas podem
definir limites ao crescimento material. Lembrando-se que este e outros objetivos
do Desenvolvimento Sustentável são alcançados em longo prazo.

Sempre é válido acentuar que o Desenvolvimento Sustentável


não é um objetivo que seja possível atingir em curto prazo, mas é
um passo importantíssimo num tremendo esforço de longo prazo
para salvaguardar o ambiente e a qualidade de vida na
comunidade regional e, em ultima instância, no nosso planeta
(BENI in LAGE & MILONE, p. 168, 2000).

É de fundamental importância a participação da população na tentativa


de alcançar o Desenvolvimento Sustentável. Sendo assim, a Educação Ambiental
é parte vital e indispensável deste processo, pois é a maneira mais direta e
funcional de se atingir os objetivos aspirados.

O desenvolvimento sustentável é essencial à utilização de


recursos, não só por oferecer benefícios econômicos para uma
região, mas também por permitir a preservação da infra-estrutura
social e a conservação da biosfera (WEARING & NEIL, 2001).
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A partir da análise dos conceitos de turismo e de desenvolvimento


sustentável, podemos dissertar sobre o turismo sustentável, que é o objetivo
principal e a justificativa de discussão e elaboração deste trabalho.
Segundo Beni, citado por Lage & Milone (2000), a questão da
sustentabilidade em turismo tornou-se prioritária na Europa, embora muitos dos
problemas envolvidos já tivessem sido bastante debatidos no contexto do turismo
mundial, principalmente das perspectivas social, cultural e econômica. O Quinto
Programa de Ação sobre o Meio Ambiente da União Européia, intitulado Rumo à
Sustentabilidade, identificou o turismo como um dos setores prioritários, assim
como na reunião informal do Conselho de Ministros do Meio Ambiente, realizada
na Santorini, em maio de 1994, cujo tema central foi Turismo e Meio Ambiente.
Há uma margem muito ampla de interpretações e perspectivas para o
turismo sustentável. Este autor coloca quatro abordagens interpretativas sobre
este tema. A primeira, tendo o turismo sustentável como tendo a meta básica a
viabilidade da atividade turística, mais na linha sustentabilidade econômica do
turismo – fortalecer, melhorar a qualidade e encontrar o diferencial no produto
turístico. A segunda baseia-se amplamente na ecologia como visão sociocultural e
política – necessidade do turismo ecologicamente sustentável.
As outras abordagens são, o desenvolvimento sustentável do turismo,
ou a necessidade de assegurar a viabilidade em longo prazo da atividade de
turismo, e o desenvolvimento econômico ecologicamente sustentável, em que o
turismo integra uma estratégia global do desenvolvimento sustentável, e em que a
sustentabilidade é definida com base no sistema total ser humano/ meio ambiente.
Segundo Swarbrooke (2000), o turismo sustentável está ligado
também à viabilidade econômica em longo prazo e à justiça social, e é totalmente
ligado ao desenvolvimento sustentável em geral. Este autor entende que o turismo
sustentável tem que estar mais suscetível a avaliações mais críticas, como por
exemplo, a questão de o turismo de pequena escala ser mais sustentável que o
turismo de massas, independente da natureza ou do meio natural que ele ocorre.

O progresso em direção a formas mais sustentáveis de turismo


dependerá muito mais das atividades da indústria do turismo e
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das atitudes do turista, que de ações de órgãos do setor público


(SWARBROOKE, 2000).

O turismo sustentável, também chamado de “turismo ambientalmente


sustentável”, segundo Wearing & Neil (2001), surgiu para ser identificado como
turismo alternativo. Para Butler, citado por estes autores, o turismo
ambientalmente sustentável é “uma forma de turismo que favorece o equilíbrio
ecológico”.
Butler sugere “uma definição operacional de desenvolvimento
sustentável no contexto do turismo: o turismo é desenvolvido e mantido em uma
área (comunidade, ambiente) de tal modo e em tal escala que se mantém viável
durante um período indefinido e não degrada nem altera o meio ambiente”.
Segundo Wearing & Neil (2001), o turismo sustentável só será viável
se o poder de conservação dos lugares turísticos essenciais for administrado e,
em seguida, implantado rigorosamente por meio de um sistema eficiente de
controles de operação e planejamento.
Esses estudos e regulamentações constituirão os alicerces de longo
prazo dos projetos e estratégias da administração turística local. O turismo
sustentável também requer a aprovação dos conceitos de validade e cooperação
em sua implantação pelo setor turístico privado, alem da participação das
comunidades locais e dos próprios turistas.
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ECOLOGIA, ECOTURISMO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

O Ecoturismo tornou-se praticamente um fenômeno na década de 90,


pois no final da década de 80 brotou a consciência popular da preservação do
meio ambiente, e esta atividade – o turismo baseado na natureza - surgiu como
alternativa de benefícios sociais e ambientais.
O interesse por esta atividade não é difícil de se explicar,
principalmente se formos avaliar a publicação do Relatório de Brundtland,
conhecido como Our Common Future (Nosso Futuro em Comum), de 1987, pela
Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas. Segundo
Figgis, citado por Wearing & Neil (2001), este foi o catalisador para o grande
avanço mundial da consciência ambiental. O relatório destaca o maior dilema da
vida na terra: Em um mundo com mais de 5 bilhões de habitantes, como satisfazer
as necessidades e demandas humanas sem destruir a estrutura ecológica do
planeta?
A resposta para esta questão foi encontrada na definição de
desenvolvimento sustentável. O Ecoturismo surgiu para oferecer uma opção de
desenvolvimento sustentável para comunidades, incentivando a conservação e
administração de regiões naturais e fauna selvagem, ou seja, a biodiversidade da
vida. O surgimento do termo Ecoturismo lhe rendeu muitas interpretações,
definições e críticas nesta ultima década.
O prefixo eco – da palavra “ecologia” vem da palavra grega oikos, que
significa casa, lar, ou habitat. Este prefixo foi muitas vezes anexado
estrategicamente à palavra turismo apenas para sugerir status, como se fosse
algum tipo de titulo honorífico, a fim de garantir o marketing positivo do produto
turístico em questão. Esta maneira de manipulação, extração desenfreada e
desrespeitosa do homem com relação à natureza foi sempre existente.
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Mas se pode falar de natureza em um mundo em que ela nunca


foi tão pouco presente na história da humanidade? A sociedade
ocidental é indiferente, se não completamente hostil, em relação à
existência de vida selvagem, a não ser onde seu valor possa ser
quantificado como recurso natural ou como espetáculo, atração
turística. Uma sociedade suicida precisa da natureza para
justificar suas viagens? É uma fuga, uma desculpa ou
simplesmente uma distração? Ou é algo mais profundo?
(WEARING & NEIL, 2001).

Antes de dissertar mais sobre o ecoturismo, deve-se fazer algumas


considerações sobre ecologia. Segundo Pellegrini (2000), a Reunião de
Estocolmo, ou Eco-72 constituiu um marco dos primeiros tempos da
conscientização, em âmbito mundial, dos problemas surgidos com a acentuada
degradação do meio ambiente. A moderna problemática ambiental deve
considerar o complexo da ecologia como um processo sistêmico de interações de
todo tipo que ocorrem entre os seres vivos e seus relacionamentos com o suporte
inorgânico em que se encontram.
Contemporaneamente o conceito de ecologia passou a ter
enorme ampliação, deixando longe os horizontes biológicos para
abranger aspectos legais, morais, socioeconômicos, políticos, etc,
caracterizando a multidisciplinariedade das relações que ocorrem
em todo e qualquer ecossistema, entre seres bióticos e aspectos
abióticos (PELLEGRINI, 2000, pg. 17).

Para trabalhar-se com a ecologia, neste caso, com o ecoturismo,


deve-se levar em conta a questão da mudança fundamental no modo como os
seres humanos enxergam e se relacionam com a natureza. O ecoturismo pode
compor-se de inúmeras atividades e tipos de turismo, como a observação de
pássaros, estudos científicos, fotografia, mergulho, caminhada na mata, até a
recuperação de ecossistemas danificados, mas tudo isso se torna prejudicial se a
visão do respeito e preservação da natureza não estiverem acima de qualquer
atividade relacionada, seja de estudo, trabalho ou lazer.
O termo amplo e vago da palavra “ecoturismo” faz com que alguns o
descrevam como atividades turísticas baseadas na natureza, ou um turismo de
interesse especial. Para outros, trata-se de um requintado pacote turístico para
pessoas ricas em lugares exóticos, principalmente para áreas desertas – ilhas ou
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locais inexplorados, por este motivo mais custoso - e ainda, para outros, apenas a
perambulação de jovens mochileiros com recursos financeiros limitados.
Esta gama de interpretações sobre a definição de Ecoturismo dificulta
sua determinação com precisão. Segundo Wearing & Neil (2001), Hector
Ceballos-Lascurain é amplamente conhecido por utilizar a palavra Ecoturismo, no
início dos anos 80. Este mexicano enfatizava já naquela época que o Ecoturismo
se podia tornar-se uma ferramenta muito importante para a conservação do meio
ambiente.
Ceballos-Lascurain identificou o Ecoturismo como uma forma de
viagem na qual o ambiente natural é o foco principal. Este elemento nos oferece
um ponto de partida simples para entender o fenômeno do ecoturismo como uma
forma específica de turismo alternativo¹. Segundo este autor, a centralidade do
ambiente natural para o turismo abrange duas facetas principais: a viagem para
ambientes naturais não devastados; esta viagem é predominantemente para
experimentar o ambiente natural.
Existem muitos tipos de turismo na natureza, o que não significa de
fato serem ecoturismo. A natureza deve ser a motivação fundamental na pratica
do ecoturismo. O seu planejamento baseia-se na limitação de recursos. As
oportunidades para a sua prática se perderão se a biodiversidade ou as
comunidades locais não forem capazes de absorver seus impactos, ou se a
aparência física for alterada de modo significativo. Ou seja, o ecoturismo baseia-
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¹ turismo alternativo – é oposto ao que é visto como negativo ou prejudicial no turismo
convencional. Caracteriza-se pela tentativa de minimizar o visível impacto ambiental e sociocultural
negativo das pessoas em férias, promovendo abordagens radicalmente diferentes em relação ao
turismo convencional (WEARING & NEIL, 2001).

se na sustentabilidade, é uma das suas características essenciais.


Segundo Wearing & Neil (2001), a definição de ecoturismo abarca
quatro elementos fundamentais. O primeiro trata-se da noção de movimento, ou
viagem de um lugar a outro. Esta viagem deve ser restrita a áreas naturais
relativamente tranqüilas ou protegidas. Para Ceballos-Lascurain, citado por
Wearing & Neil (2001), esta é a melhor garantia para encontrarem aspectos e
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atrações naturais sustentados. O segundo elemento fala sobre a necessidade de o


fundamento da viagem ser a natureza. Não há ecoturismo se o foco principal não
estiver na experiência do ambiente natural da área visitada.
O terceiro elemento traduz o ecoturismo como indutor da conservação.
Este disserta sobre o surgimento e emersão do ecoturismo como resultado da
crescente preocupação global com culturas e ecossistemas em extinção e da
rejeição ao desenvolvimento turístico inadequado, que pode degradar a área de
proteção e apresenta efeitos econômicos, sociais e ambientais imprevistos sobre
as regiões. Este elemento orienta a condução de pequenos grupos de pessoas a
áreas naturais ou de proteção, com o mínimo de impacto físico, social e cultural e
salienta o ecoturismo como contribuição para o futuro sustentável do destino
turístico.
A quarta e última idéia, ou elemento, é a definição de ecoturismo
relacionada ao papel educativo, foco central da elaboração deste trabalho.
Geralmente o ecoturista² gosta, tem um forte desejo de aprender sobre a natureza
em suas viagens. Explana-se para este individuo conceitos, significados e inter-
relacionamentos do fenômeno natural.

A dependência que o ecoturismo tem da natureza, em oposição a


outras formas de turismo, nas quais a natureza é incidental, à
experiência, inclui a motivação turística de satisfazer uma
necessidade educacional, que deriva das interações com o
ambiente natural (WEARING & NEIL, 2001).

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² Anexo: Características Psicográficas do Ecoturista segundo Wearing & Neil (2001).

Espera-se, portanto, dos operadores de ecoturismo, o fornecimento de


um nível apropriado de explicação ambiental e cultural, pelo emprego de guias
adequadamente qualificados e pelo suprimento de informações ambientais, antes
e durante o período de realização da viagem.
Segundo Wallace, citado por Wearing & Neil (2001), com a
participação ativa, os ecoturistas são educados para apreciar a importância da
conservação da natureza e da cultura. Além de atrair pessoas que desejam
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interagir com o ambiente, desenvolvendo seu conhecimento, consciência e


apreciação, o ecoturismo também pode proporcionar a população local a
oportunidade de aprender sobre a área, seu uso e as atrações que os turistas
visitam, renovando valor de suas próprias tradições culturais.
O último elemento remete a grande importância da educação também
no contexto ambiental, do aumento da compreensão dos valores ambientais,
através do ecoturismo, uma atividade que, como pudemos ver, surgiu da mudança
do modo da sociedade enxergar a natureza. Logo, podemos entrar em Educação
Ambiental, atualmente tão debatida dentro e fora de universidades em todo o
mundo como sendo de extrema importância interdisciplinar.
Segundo Farinha (2005), a educação seja ela de nível superior ou
não, é importante como finalidade para o melhoramento da vida humana. O
melhorar da vida humana, neste âmbito, é considerado a qualificação da
humanidade, da sociedade como um todo.
A Educação esta diretamente relacionada aos problemas sociais e à
possibilidade de desenvolvimento. Além disso, interfere diretamente nas questões
culturais, políticas e comportamentais. Segundo Trigo (1998), ao longo do
processo civilizatório, a educação tem se manifestado de várias formas e com
várias nuanças, todas elas relacionadas ao aprimoramento e à melhoria do ser
humano, apesar das crises, dos fracassos e dos imensos problemas enfrentados
ao longo da história.
A Educação é extremamente dinâmica, como é dinâmica a
sociedade e, deste modo, transmite os componentes essenciais da cultura. A
Educação, então, passa a conduzir o indivíduo a um comportamento social, a se
relacionar com os outros, com a natureza, e a integrar todos estes
relacionamentos. É através da cultura como um todo, que se produz entre os
indivíduos, as pessoas, os grupos, as sociedades e que a educação pode ir além
da simples reprodução da cultura, satisfazendo as necessidades sociais.

Pensar em Educação Ambiental exige compreensão da realidade,


partindo do todo às partes e destas ao todo, num processo
dinâmico e encadeado. Implica considerar as coisas como
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provisórias, transitórias, influindo tudo sobre tudo, evoluindo num


processo circular a um plano mais elevado – espiral ascendente –
fruto de uma evolução contínua, que gera a si mesma e se
transforma a partir das contradições (THOMAS, 1998, pg. 27).

Ao contextualizar Educação Ambiental não se deve deixar de falar


dos males da globalização – do ponto de vista político e social, principalmente -
em função do meio ambiente natural das nações em desenvolvimento. Segundo
Thomas (1998), os paises ricos têm dominado autoritariamente os paises pobres,
sem qualquer chance de discussão sobre a disponibilidade e o consumo dos
recursos naturais existentes.
Thomas (1998), atrela a Educação Ambiental ao ecologismo, que
assume a responsabilidade de luta pela vida, culpando a tecnologia pela crise
ambiental. De forma institucionalizada, a partir do movimento ecologista, são
criados Ministérios e Secretarias do Meio Ambiente, além da formação de partidos
verdes e organizações não-governamentais. Todos em função de um bem
comum, que é a qualidade de vida. Este aglomerado de instituições deve compor
os conhecimentos sobre Educação Ambiental, de uma maneira genérica,
relacionando prioritariamente à preservação da natureza.
Um tema que necessariamente deve ser abordado é a problemática
comunitária em face à realidade social, ou a pluralidade de grupos, de status, de
indivíduos de cada comunidade. Este tema, relacionado com a Educação
Ambiental, pode ocasionar pressões contraditórias, ou mensagens divergentes,
até incompreensíveis, as quais o individuo deverá “desenvolver” estratégias
próprias de sobrevivência em seu próprio meio.

A especificidade da Educação Ambiental traz o direito à vida


como eixo central da educação, promovendo o fim da dicotomia
homem-natureza, em um processo crítico de busca da autonomia
comunitária (THOMAS, 1998, pg. 31).

Enfim, podemos observar que a Educação Ambiental ultrapassa a


“pedagogia da pertinência”, ou seja, o seu conteúdo, a sua metodologia e até a
sua linguagem devem cuidadosamente se adequar ao meio ao qual se aplica,
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meio este social, ambiental, político e econômico, objetivando a formação de


cidadãos. A Educação Ambiental não deve se restringir a apenas uma disciplina
escolar, pedagogia clássica, de forma quase elitista, através de bibliografias
defasadas e sem uma visão prática aplicada as condições encontradas no próprio
meio.
A preocupação com esta lógica foi debatida na Conferência Mundial
Intergovernamental sobre Educação Ambiental, realizada em Tibilisi - União
Soviética -, em 1977, no sentido de não ser introduzida nos programas
educacionais como uma disciplina separada, mas como uma dimensão que deve
ser integrada a todos os programas.
Esta mesma preocupação se dá, por exemplo, na biologia, na
geografia, nas ciências, afim de que estas sejam motivo de discussão,
contempladas nos programas escolares de todas as áreas de conhecimento, pois
elas preparam o homem para viver em sociedade, ou seja, existir junto ao outro e
com a natureza.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

De forma conclusiva, seja este projeto, ou os núcleos público e


privado, ou a educação ambiental, ou todas as conceituações acima citadas,
aspiram os mesmos o mesmo objetivo principal, que é a preservação do meio
ambiente, de forma sustentável e permanente, para que a nossa própria existência
corra menos o risco da extinção.
É desta forma que este trabalho torna-se viável, pois através da
educação ambiental voltada para crianças, estaremos “plantando” conhecimentos
que serão de fato aplicados, ou transmitidos através destas, que são o futuro da
humanidade, assim como é a preservação do meio ambiente. Esta idéia, quase
poética, é verdadeira, e real.
A imagem negativa e poluidora do turismo – aliás, correta,
principalmente quando tratamos de turismo de massas – também poderá ser
modificada através da boa vontade política de rever o custo/benefício de apoiar os
projetos em questão, que valorizem a prática do chamado “turismo brando” ou
“turismo de mínimo impacto”, valorizando e beneficiando ao meio ambiente e às
populações locais como prioridade. De modo algum estes devem ser prejudicados
pelo turismo, ou este será inviável e insustentável.
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BIBLIOGRAFIA
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Ética. São Paulo, SP. Editora Aleph. 2000;

THOMAS, Sueli Barbosa Educação Ambiental: Uma discussão entre Política e


Cultura Periódico: Presença Pedagógica. Vol. 04. Mar./Abr. 1998. Belo Horizonte,
MG. Editora Dimensão, 1998;

TRIGO, Luiz Gonzaga G. A Sociedade Pós-Indústrial e o Profissional em


Turismo Campinas, SP. Papirus, 1998;

WEARING, Stephen and NEIL, John Ecoturismo, Impactos, Potencialidades e


Possibilidades São Paulo, SP. Editora Manole Ltda. 2001.
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ANEXO

Características Psicográficas do Ecoturistas segundo Wearing & Neil (2001):

1. Posse de uma ética ambiental.


2. Boa vontade em não degradar o recurso.
3. Foco na motivação intrínseca, e não na extrínseca.
4. Orientação biocêntrica em vez de antropocêntrica.
5. Intenção de beneficiar a vida selvagem e o Meio Ambiente.
6. Procura de uma experiência direta com o ambiente natural.
7. Expectativa de educação e apreciação.
8. Alta dimensão cognitiva e afetiva.
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