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H UMANIZAÇÃO E DESUMANIZAÇÃO NO

JORNALISMO : ALGUMAS SAÍDAS

Jorge Kanehide Ijuim

Universidade Federal de Santa Catarina/Brasil

2014

1
Índice por conseguinte, sobre a atuação do jorna-
lista.
1 Jornalismo humanizado: uma redun- Palavras-chave: fundamentos do jorna-
dância? 2 lismo, jornalismo humanizado, narrativas
2 Que humanização? 4 jornalísticas, humanismo.
3 Análise: O que desumaniza no jorna-
lismo? 6
4 Síntese: Raízes 9 1 Jornalismo humanizado: uma
5 Autonomia ou individualismo? 11 redundância?
6 O negativo do positivo 12
título deste trabalho pressupõe a pos-
7 Jornalismo humanizado... é possível?
Considerações finais
12
14 O sibilidade de um jornalismo humani-
zado. Por isso, suscita a primeira discussão:
Referências 16
existe um Jornalismo humanizado? Há um
jornalismo que desumaniza?
Se o fazer jornalístico é um ato de comu-
Resumo nicação, temos que a comunicação é uma
questão essencialmente social. Como escla-
O presente trabalho visa contribuir com a rece Colin Cherry, o homem desenvolveu di-
reflexão sobre o que humaniza e o que desu- ferentes sistemas que lhe tornam possível a
maniza o jornalismo. Para este intento, apre- vida social. Não para simplesmente atender
sento um panorama sobre algumas correntes às necessidades de preservação e sobrevivên-
humanistas, desde o Humanismo Clássico, a cia, mas num sentido desconhecido dos ani-
partir do século XV, até o Humanismo Uni- mais. Entre todos esses sistemas, o mais im-
versalista, amadurecido na segunda metade portante é a fala e a linguagem. O autor su-
do século XX. Deste panorama extraio os blinha que o desenvolvimento da linguagem
aspectos que considero fundamentais para a se reflete de volta no pensamento, pois com
caracterização do meu entendimento de hu- a linguagem os pensamentos podem se orga-
manização do jornalismo. De outro lado, nizar e novos pensamentos surgirem. Assim,
foi necessário identificar alguns aspectos do
pensamento moderno que operara na cons- A consciência de si próprio e
trução do jornalismo contemporâneo. Ao o sentido de responsabilidade so-
considerar esta noção como uma postura di- cial apareceram como resultado de
ante do mundo e uma abordagem no fazer pensamentos organizados. Sis-
jornalístico, apresento, à luz desta perspec- temas de ética e de leis foram
tiva universalista, uma alternativa que pode edificados. O homem se tornou
colaborar para compreensão do jornalismo e, uma criatura social, consciente de
0
si própria, responsável (Cherry,
Publicado originalmente na Revista Comunica-
ção Midiática, Unesp/Bauru, 2012.
1971:23).
0
Doutor em Ciências da Comunicação/Jornalismo
pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade Por esta linha de argumentação, comuni-
de São Paulo; E-mail: ijuim@cce.ufsc.br. car de maneira complexa é atributo da in-
Humanização e desumanização no jornalismo: algumas saídas 3

teligência peculiar ao ser humano. Esta co- mem. A dignificação humana e sua autono-
municação, do latim communicare, ganha o mia se contrapunham ao fatalismo medieval
significado de partilhar, compartilhar ideias, da Escolástica Tomista, que integrava razão e
pensamentos, informações. E o jornalismo, fé. Na mesma trilha, os preceitos iluministas,
como um ato de comunicação, surgiu exata- entre eles os de “liberdade, igualdade e fra-
mente por esta capacidade dos humanos de ternidade” – bandeiras da Revolução Fran-
criar sistemas que lhes permitam comparti- cesa – foram inspiração para o pensamento
lhar informações, pensamentos e ideias. Por- moderno, tanto de bem-estar através do cres-
tanto, sim, o fazer jornalístico é uma ação cimento econômico, como de socialização
humana. Cabe, no entanto, o questiona- de saberes, de igualdade social.
mento: – o jornalismo já surgiu humanista, Os jornalistas pioneiros e a imprensa ti-
ou humanizador? veram papel determinante nesse processo
Os primeiros periódicos com as caracterís- de compartilhar informações e, em especial,
ticas essenciais que conhecemos hoje – atua- disseminar o pensamento moderno. Foi o
lidade, periodicidade, universalidade e difu- jornal alemão Berlinische Monatsschrtft que
são – surgiram no século XVII, na Alemanha. publicou, em dezembro de 1784, a resposta
Como destaca Nilson Lage, era um meio à de Immanuel Kant à pergunta “O que é o Es-
disposição da burguesia, então crescente, e clarecimento?”
operava como fator de acumulação de capi- Por uma conjugação de fatores, entre eles
tal mercantil (Lage, 1985: 10-11). as facilidades propiciadas pelo desenvolvi-
Mas o jornalismo moderno construiu suas mento tecnológico (Revolução Industrial),
bases quando esta burguesia quis lutar em pelo crescimento econômico e o aumento da
outras frentes e avançar sobre os palácios. população alfabetizada, que a imprensa sedi-
As sociedades sentiram a necessidade de cir- mentou suas bases como empresa capitalista,
culação de notícias que superassem seu cará- no século XIX. De atividade artesanal passou
ter utilitário imediato. Além de publicar no- a constituir organizações profissionalizadas,
tícias, os jornais passaram a ser espaço privi- mantidas e movidas pelos interesses comer-
legiado para disseminar ideias. Tais esforços ciais.
impulsionaram movimentos como a Revo- A Imprensa enquanto instituição ingres-
lução Francesa, que desencadeou mudanças sou no século XX com heranças valiosas e
profundas no quadro político por toda a Eu- fundamentais da modernidade. Estas lhe per-
ropa, como colaboraram para alterações fun- mitiram cumprir seu papel de modo a adqui-
damentais no sistema econômico, marcadas rir credibilidade, ser elemento da cultura es-
essencialmente pela Revolução Industrial. sencial para a condução e tomada de deci-
A ascensão da burguesia não foi decorrên- sões. Na análise de Kovach e Rosenstiel, “a
cia do simples progresso material. O movi- principal finalidade do jornalismo é forne-
mento Humanista (ou Renascimento), a par- cer aos cidadãos as informações de que ne-
tir do século XV, preparou o caminho para cessitam para serem livres e se autogover-
uma Era Antropocêntrica. O “penso, logo, nar” (2004: 31). O espírito destas conside-
existo”, de Descartes (1589-1610), iniciava rações decorre das heranças aqui referidas,
a caminhada na busca da autonomia do ho- entre elas o preceito da busca da verdade em

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contraposição à propaganda de instituições a prevalecer a perspectiva antropocêntrica –


ou de personalidades. Para Fraser Bond, os o homem como o centro das indagações e
deveres do jornalismo estão calcados nas no- preocupações. Este voto de confiança ao ser
ções de independência, imparcialidade, exa- humano retomou os valores greco-latinos.No
tidão, honestidade, decência e responsabili- entanto, este mais preparou do que marcou a
dade (1962: 17-19). Estes, igualmente, são ruptura mais aguda ao pensamento medieval.
legados caros do pensamento moderno que As mudanças mais profundas tomaram
colaboraram para a legitimação da atuação corpo em decorrência do progresso científico
da imprensa. experimentado a partir do século XVI, o que
Por essas razões, pode-se afirmar que o ficou conhecido como a era da Revolução Ci-
jornalismo é desenvolvido graças à exclusiva entífica. Tais eventos interagiram com a evo-
capacidade humana de criar sistemas de co- lução do pensamento iluminista. O trabalho
municação. Como foi sistematizado, sobre- de Descartes sobre o particular e o univer-
tudo a partir da modernidade, este incorpora sal foi retomado por Immanuel Kant (17245-
os influxos humanizadores do pensamento 1804), no mesmo objetivo de buscar a mai-
moderno, o que lhe proporciona a oportuni- oridade – autonomia do homem pelo uso da
dade de operar no processo de humanização razão. O ‘esclarecimento’ estabeleceu as ba-
da sociedade. Mais, uma vez, vale a comple- ses para o desenvolvimento da era Moderna
xificação do questionamento inicial: – a humanização da sociedade pela sociali-
– Todos os preceitos da Modernidade re- zação do saber.
percutiram de maneira humanizada na socie- Em finais do século XIX, o Humanismo
dade? E, por isso mesmo, todo jornalismo é Marxista sustenta que o marxismo possui um
humanista, ou humanizador? “rosto humano”, que sua intenção é a libe-
ração do homem de toda forma de opres-
são e de alienação. A preocupação de Karl
2 Que humanização?
Marx (1818-1883) era superar o que consi-
Para explicitar de que humanismo estamos derava uma contradição no pensamento mo-
tratando, é oportuno apresentar uma breve derno: direito do homem e direito do cida-
reflexão em torno do tema. Pretendo che- dão. Isto é, avaliava esse direito como mem-
gar ao Humanismo Universalista, amadure- bro de uma sociedade burguesa, por isso um
cido ao longo do século XX e início deste homem egoísta, separado da comunidade.
milênio. Este acumula a experiência oci- Esta liberação de forma coletiva seria con-
dental, critica-a e procura suplantar suas im- quistada pela construção da história – o ma-
perfeições. Esta trajetória é interpretada terialismo histórico.
por Salvatore Puledda, em Interpretazioni Já uma filosofia de crise foi disseminada a
dell’Umanesimo (título original de 1999), do partir de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Ao
qual extraio algumas ideias. alegar a insuficiência das concepções an-
O Humanismo Clássico, nos séculos XV e teriores, Sartre defendeu o Existencialismo
XVI , foi um esforço para relativizar o teocen- como uma forma de humanismo. Considera
trismo medieval em busca de uma nova vi- o homem como um projeto em permanente
são do homem. Entre os intelectuais, passou devir, responsável pela soma de seus atos;

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que vive subjetivamente, mas que supera a ticular suas causas, vislumbra-se uma atitude
si próprio, na perseguição incessante de fins humanista que respeite e considere posições
transcendentes. Pela tese da solidariedade humanistas de diferentes culturas, como: ter
universal, há consciência dos limites de sua o ser humano como o centro das preocupa-
situação no mundo, mas, ao optar, o homem ções; afirmação da igualdade de todos os se-
escolhe a própria humanidade. res humanos; reconhecimento da diversidade
A perspectiva universalista evolui nos fi- pessoal e cultural; tendência a desenvolver
nais do século XX, para a qual Puledda exalta o conhecimento além do que é aceito como
as reflexões do argentino Mario Luis Rodrí- verdade absoluta; afirmação da liberdade de
guez Cobos, mais conhecido como Silo. Ao ideias e crenças; e repúdio à violência. Por
reconhecer as conquistas das visões anterio- isso mesmo, Silo levanta as seguintes teses:
res, mas também as criticando, parte de al-
guns pressupostos: Os humanistas são mulheres e ho-
mens deste século, desta época.
Um mundo humano em que tudo Reconhecem os antecedentes do
que é produzido está "carre- humanismo histórico e se inspiram
gado"de sentido, de intenção, de nos aportes das distintas culturas,
porquês. Essa intenção é atribuída não somente daquelas que ocupam
para superar a dor e o sofrimento. um lugar central neste momento;
Com sua característica ampliação
do horizonte temporal, o ser – pensam no futuro, lutando para
humano pode produzir diferentes superar a crise geral do presente.
respostas, escolher e planejar São otimistas, acreditam na liber-
suas situações futuras. E é esta dade e no progresso social;
liberdade que lhe permite negar – são internacionalistas, aspiram
a si mesmo, negar aspectos de a uma nação humana univer-
seu corpo, ou negar outros. Esta sal. Compreendem globalmente o
liberdade tem permitido que al- mundo em que vivem. Não de-
guns seres humanos se apropriem sejam um mundo uniforme, mas
ilegitimamente do todo social. múltiplo: em etnias, línguas e cos-
Ou seja, para negar a liberdade tumes; múltiplo nas localidades,
e intencionalidade a outros seres nas regiões e nas autonomias; nas
humanos, reduzindo-as a próteses, ideias e nas aspirações; em cren-
os instrumentos de suas próprias ças, o ateísmo e a religiosidade;
intenções. Ali está a essência múltiplo no trabalho e na criativi-
da discriminação, sendo sua dade;
metodologia a violência física,
– não querem amos; não que-
econômica, racial e religiosa [em
rem dirigentes ou chefes, nem se
tradução livre] (Puledda, 1999:
sentem representantes nem chefes
43).
de nada. Não querem um Es-
Para superar a dor e o sofrimento, em par- tado centralizado, nem um para es-

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tado. Não querem exércitos poli- 3 Análise: O que desumaniza no


ciais, nem grupos armados que os jornalismo?
substituam;
A partir da identificação destes pontos ne-
– Mas entre as aspirações huma-
vrálgicos, cabe uma discussão sobre o que
nistas e as realidades do mundo
desumaniza o jornalismo. Em outros termos,
de hoje, foi construído um muro.
o que desumaniza a relação entre os órgãos
Agora, então, é o momento para
de imprensa (e seus jornalistas) e a socie-
derrubá-lo. Isto requer a união
dade. As relações de um meio de comuni-
de todos os humanistas do mundo
cação são complexas, não se restringem a
(Puledda, 1999: 44).
contatos veículo-audiência, pois atua junto
a uma quantidade inimaginável de grupos
Após este breve panorama sobre essa tra-
que não necessariamente a suposta audiên-
jetória histórica, podemos chegar a alguns
cia. Vamos discutir alguns casos sintomáti-
pontos nevrálgicos que sinalizam o que hu-
cos:
maniza e, especialmente, o que desumaniza
Essa raça menor – “Made in Paraguai” é
as relações humanas.
o título de reportagem de Veja em março de
O Humanismo Universalista apresenta
2007. Seu subtítulo complementa: “A Fu-
como princípio superar a dor e o sofrimento.
nai tenta demarcar área de Santa Catarina
Em seus pressupostos, coloca-se como “ho-
para índios paraguaios, enquanto os do Bra-
mens e mulheres deste século”, enaltecendo
sil morrem de fome”. A matéria acusa uma
desde já que a igualdade começa pela ques-
suposta demarcação fraudulenta de Terra In-
tão de gênero. Ao se dispor a pensar o
dígena (TI) no Morro dos Cavalos, em Pa-
futuro, denota-se a determinação de relevar
lhoça (SC). Através de uma apuração descui-
o mal-estar e as angústias passados e olhar
dada, o repórter cometeu equívocos de toda
de forma otimista e pacífica para um novo
ordem em sua pretensa contextualização. Os
tempo. A visão internacionalista não aspira
bastidores desta reportagem dão conta que o
um mundo uniforme, mas que se reconheça
jornalista ouviu prioritariamente o principal
e se respeite as diferenças. Se o desejo é um
“denunciante” (nem citado na matéria) Wal-
mundo igualitário, as relações de poder – de
ter Alberto Sá Bensousan, que vinha disse-
qualquer tipo – devem ser repensadas, pois
minando a versão de que aqueles índios “in-
estas levantam muros. Daqui podemos ex-
vasores” seriam “do Paraguai”.
trair, então, alguns vícios [aquilo que avilta
A começar pelo título, que não corres-
e desumaniza] desenvolvidos pela sociedade
ponde aos fatos, “Made in Paraguai” denota
e ainda não foram superados coletivamente:
um estigma: tudo e todos daquele país são
crença nas verdades absolutas; sede de po-
falsificados. Vale lembrar que o país vizi-
der; intolerância; recusa e ignorância pela
nho não falsifica nada, mas dispõe de uma
cultura do outro; desrespeito ao diferente e
zona franca em que são vendidos produtos
às diferenças.
importados, entre eles alguns falsificados na
Coréia e China. Vários relatórios científi-
cos, nas áreas da sociologia, da história e

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da antropologia publicados em Santa Cata- por 17 mil quilômetros quadrados


rina contestam esta hipótese de que esta po- e abriga apenas 18 mil índios, a
pulação indígena tenha migrado do Paraguai. maioria da etnia macuxi. Revista
Num texto cheio de ironia, certezas arrogan- Istoé. Amazônia a soberania está
tes – refere-se aos índios como hermanos em xeque.
(itálico proposital) –, o repórter atribui à Fu-
nai a alcunha de “indústria de reservas”. O Para justificar e reforçar a tese da “entrega
trecho é lapidar: “Nos últimos vinte anos, a da Amazônia aos índios e a ONGs estrangei-
Funai se converteu numa indústria de reser- ras”, a reportagem trouxe o depoimento de
vas. O número de áreas demarcadas saltou militares de alta patente:
de 210 para 611. As aberrações na delimita-
ção de terras para índios são corriqueiras.” – “A política indigenista está disso-
Além de desqualificar os estudos técnicos ciada da história brasileira e tem de
daquela fundação, Veja desconsidera a razão ser revista urgentemente” (general-
do aumento dessas áreas. A Constituição de de-exército Augusto Heleno Pe-
1988 determinou prazo para a realização das reira).
demarcações, prazo que está atrasado por vá- – “A demarcação contínua coloca
rios motivos, entre eles a resistência de gru- a soberania em risco. Daqui a
pos empresariais. Por fim, o repórter rea- pouco, os índios vão declarar a
firma o discurso que contesta as “grandes independência de seus territórios”
extensões dessas áreas para abrigar tão pou- (general-de-brigada Antônio Mou-
cos”. rão, comandante da 2a Brigada
Esta retórica sobre a relação extensão de de Infantaria da Selva).Revista Is-
terras e poucos índios tem sido usual nos úl- toé.Amazônia a soberania está em
timos anos. Os conflitos na reserva Raposa xeque.
Serra do Sol, em Roraima foram alimenta-
dos por este sermão. Em reportagem sobre Além de incorporar a argumentação e a
os “riscos de segurança nacional e de inter- postura da segurança nacional e do progresso
nacionalização da Amazônia”, a revista Is- material, nota-se que revista Veja desconsi-
toé, de maio de 2008, também marcou po- dera a cultura indígena, a história do país.
sição sobre o assunto. Na matéria correlata Por ignorância ou por não aceitá-la.
“Muita terra para pouco índio”, a reportagem As duas reportagens aqui tratadas reve-
destacou: lam inúmeros equívocos, imprecisões, uma
apuração mal feita? Apressada? A rigor,
A extensão das terras dos índios o problema está antes do trabalho de apura-
em Roraima é superior à área de ção, mas na concepção da pauta. Esta já es-
um país como Portugal, de 92 mil tava imbuída de propósitos, convicções, cer-
quilômetros quadrados. Um sím- tezas, crenças com raízes profundas. Por um
bolo maior da distorção na polí- lado, reflete a má interpretação dos princí-
tica de demarcação é a reserva Ra- pios darwinistas pelo qual o índio é um ser
posa Serra do Sol, que se estende

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inferior, de hábitos primitivos, menor capa- sexta-feira, que 95% dos docentes
cidade intelectual e, portanto, não deve ter pararam.
direito de viver a sua cultura. De outro, esta Cerca de 399.167 alunos dos 700
“raça menor” não deve interferir no bem es- mil matriculados foram prejudica-
tar da “raça superior”. A carga de preconcei- dos.(da Redação, “Reunião entre
tos e o reforço de estereótipos, entre outras governo e professores da rede es-
mazelas, são insistentemente inculcados na tadual termina sem acordo em Flo-
audiência de modo a intensificar a intolerân- rianópolis”,DC,23 mai. 2011)
cia e o desrespeito ao diferente.
Esses vagabundos – Uma sequência de re- Governo de SC propõe pagar piso a
portagens do Diário Catarinense traz uma magistério em desacordo com de-
amostra do posicionamento do grupo de mí- cisão do STF.
dia em torno do recente movimento dos pro- Secretaria de Educação quer pa-
fessores estaduais de Santa Catarina. A de- gar R$ 1.187 incluindo gratifica-
cisão do STF em estabelecer um piso salarial ção [...] O aumento da remunera-
para a categoria provocou debates, embates ção para os 8.881 vai acarretar em
e greves em todo o país. O governo de SC, R$ 15 milhões de despesas a mais
após ter seu recurso negado naquele tribunal, por ano. (Julia Antunes Lorenço,
iniciou uma conturbada negociação. Entre as DC , 10 mai 2011).
propostas, o pagamento do piso, mas com o
achatamento do plano de carreira, a diminui- Nesses poucos exemplos, o jornal desta-
ção de vários benefícios – alguns contrari- cou números, cifras, sobretudo os valores
ando leis estaduais. Estes foram os motivos que podem representar o impacto nas con-
do movimento e a paralisação do professo- tas do Governo. O esforço é nítido em le-
rado. var aos leitores a conotação de que o atendi-
A cobertura do DC, além de contextualizar mento das reivindicações da categoria (exa-
de forma insuficiente e imprecisa, assumiu geradas?) aumenta ainda mais os gastos pú-
uma postura pouco sutil no questionamento à blicos. Implicitamente: o Governo terá me-
categoria. Alguns trechos são sintomáticos: nos recursos – prejuízos.
Mostrar estimativas conflitantes de adesão
Piso nacional de professores terá ao movimento, de parte do órgão oficial e a
impacto de R$ 1,8 bilhão Cálculo representação da categoria, parece ter a in-
foi divulgado pela Confederação tenção de provocar dúvidas sobre a veraci-
Nacional de Municípios (Agência dade das informações dos grevistas e a seri-
Estado, 7 abr 2011) edade dos participantes. Note-se ainda que
[...] Na sexta-feira, a greve che- em várias matérias há ênfase no número de
gou ao terceiro dia. Segundo infor- estudantes “prejudicados” pela greve.
mações da secretaria de educação, A impressão é clara de que o DC operou
mais da metade (52,74%) dos 39 no sentido de induzir a população contra o
mil professores aderiram ao mo- movimento. O grupo de mídia, ao assumir
vimento. Já o Sinte divulgou, na

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o lugar de um tribunal, já julgou e conde- palhados por um corpo flácido e


nou professores que “prejudicam” milhares um rosto melancólico. Espreme-se
de famílias que, pelos impostos, pagam os com seus clientes num quartinho
salários desses professores. de dois metros quadrados na Casa
Essa vadia – Em agosto de 2005, o Cor- das Delícias. É analfabeta, nascida
reio Braziliense lançou o especial “Filhos da no interior, faz o que faz para sus-
mãe”. O propósito era apresentar um re- tentar a filha de nove anos, sua ra-
trato da situação dos filhos de prostitutas no zão de viver.(Magno, Ana Beatriz.
centro-oeste brasileiro. E ficou no propósito, Hotel das delícias. Encontros rápi-
pois o que se constata é um infeliz discurso dos no Dergo. Especial Filhos da
que discrimina, reafirma estereótipos e re- Mãe. Correio Braziliense. Brasí-
força preconceitos. Na reportagem “Rua do lia, 31 ago. 2005).
amor, hotel das delícias - Encontros rápidos
no Dergo”, o subtítulo destaca: Por todo o texto, a autora usa e abusa de
frases como: “... a rechonchuda Cíntia é
O lixo do lixo do mercado do sexo o retrato das mulheres dali”; ou “...algumas
em Goiânia chama-se Dergo. É um conclusões fundamentais sobre as raparigas
bairro comercial que nasceu nos do baixo meretrício”. Estas troças revelam a
anos 30 durante a construção da naturalidade com que a repórter pouco se im-
cidade e que desde aquela época porta com a pessoa Cíntia. Para a autora da
acolhia boêmios e meretrizes nas reportagem, Cintia – descrita como a obesa
mesas do famoso cabaré Trovão analfabeta e triste – é apenas a vadia que vive
Azul. Hoje a fama do bairro é a da prostituição para sustentar a família, vive
pior possível. Duzentas mulheres no pior lugar do mundo, e foi eleita para “re-
disputam as calçadas imundas do tratar” uma mácula da capital goiana.
bairro, onde sexo, cachaça e dro-
gas são vendidos a preço de ba-
nana. (Magno, Ana Beatriz. Ho- 4 Síntese: Raízes
tel das delícias. Encontros rápidos Reportagens como estas denotam problemas
no Dergo. Especial Filhos da Mãe. essencialmente éticos e, por isso mesmo,
Correio Braziliense. Brasília, 31 desumanizam. Elas sinalizam não só a li-
ago. 2005). nha editorial desses periódicos. Represen-
tam um microcosmo do pensamento da so-
Desde já, a repórter estigmatiza o local –
ciedade brasileira. Alberto Dines, desde a
da pior forma possível. É a lata de lixo de
década de 1970, já alertava que não existe
Goiânia e, evidentemente, o seu conteúdo
uma imprensa boa ou ruim, existe uma im-
é lixo, a ralé, no antro da perdição. Na
prensa que atua num determinado tempo e
abertura, a jornalista apresenta a personagem
lugar. Para o autor, a imprensa está instalada
central:
numa sociedade, é parte do mesmo bolo so-
Cíntia Nascimento Silva cobra R$ cial (2009).
15 pelos 110 quilos de gordura es-

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Por um lado, pode-se inferir que estes ór- mobilizados e governos estaduais, as repor-
gãos de imprensa publicam matérias dessa tagens marcam posição em favor do poder
maneira porque há parcela expressiva da so- político e desqualificam os trabalhadores da
ciedade que pensa desta forma. Não signi- educação. Quanto às trabalhadoras do sexo
fica, evidentemente, que o todo desta socie- de Goiânia, a matéria adquire traços mora-
dade tenha que concordar com tal comporta- listas ao reduziras mulheres a lixo. Em to-
mento. Por outro ângulo, podemos visualizar das elas, constata-se intolerância, o reforço
que estas empresas jornalísticas ainda carre- de estereótipos, o preconceito – que desuma-
gam, em sua rotina de trabalho, heranças de nizam.
paradigmas que remontam a própria estrutu- Como já mencionei em outro momento,
ração da imprensa como instituição. a constituição da imprensa como institui-
O mesmo Alberto Dines, ao discorrer so- ção ocorreu no século XIX, quando a so-
bre algumas habilidades essenciais ao pro- ciedade ocidental experimentava um mundo
fissional, lembra dos termos Weltanschau- moderno. O crescimento econômico, o pro-
ung e Weltschmerz, do alemão concepção de gresso científico, a elevação da população al-
mundo e dores do mundo, respectivamente fabetizada favoreceram o surgimento da em-
(2009: 140). As matérias aqui discutidas, presa jornalística, que adotou não só os mo-
em princípio, podem refletir a preocupação dos de produção capitalista, mas – e justa-
destes veículos e de seus jornalistas com as mente por isso – incorporou o pensamento
dores do mundo. Parece, no entanto, que a predominante desse mundo moderno.
visão de mundo desta imprensa e de seus re- Os estudos de Descartes sobre o particular
pórteres mais causam dores ao mundo. e o universal propiciaram extraordinário pro-
Ser solidário às dores do mundo ou causar gresso científico. Conhecer minuciosamente
dores ao mundo é um dilema ético. Como as partes para entender o todo (análise e sín-
ressalta Bertrand Russel (1977: 24), a ética tese) é um método pertinente para a compre-
ocupa-se da vida, que é constituída de feli- ensão de fenômenos em profundidade. Para
cidade e pesar, esperança e medo, que nos praticar este método, pela visão cartesiana,
fazem preferir uma espécie de mundo a ou- deve-se fragmentar o objeto e, separado do
tra.A reflexão permanente sobre o que é bem todo, ser estudado. Eis o primeiro risco ao
e o mal reflete o atendimento de desejos – observador desatento: se concentrar no par-
individuais e coletivos. Para Russel, é ético ticular e, descuidadamente, não considerar o
tudo aquilo que é, preferencialmente, bom todo. Pior, pode cometer a falácia da gene-
para si e para todos. O dilema ético emerge ralização apressada– levar ao todo o que é
justamente quando conflitam os desejos e os característica daquela parte.
interesses entre os bens parciais e os bens ge- Cremilda Medina e Paulo Roberto Lean-
rais (1977: 58). Por isso mesmo, as reporta- dro, em “A arte de tecer o presente”, de 1973,
gens analisadas representam deslizes éticos fizeram a primeira citação na literatura do
que desumanizam. Sobre a questão indígena, jornalismo brasileiro sobre a necessidade de
os textos revelam a defesa do poder econô- contextualização, prática incontestada na ro-
mico em detrimento dos direitos e da cultura tina das redações atuais. Em reflexão mais
do diferente. No embate entre professores recente, Medina reafirmou esta preocupação

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ao ressaltar a falta de abrangência na cons- que poderia se chamar de atitude de Moder-


trução do texto jornalístico (2008). A au- nidade”, como escreveu Foucault (2000:p.
tora alerta sobre situações arriscadas em que 341). Ou como lembra Rouanet (1987), “no
o repórter trata de fatos isolados sem as de- Iluminismo encontramos as bases programá-
vidas conexões com o todo. Este todo pode ticas da Modernidade”. Para o mesmo autor,
ter uma plêiade de significados históricos e no entanto, “sem dúvida nenhuma, a Ilustra-
culturais que não podem ser desprezados. ção ajudou a preparar a Modernidade, mas
As reportagens aqui referenciadas, além não podemos dizer que a Modernidade seja
dos problemas já apontados, parecem tam- a Ilustração realizada”. (apud Moreira, 1993,
bém ser decorrentes dessa visão fragmentada p. 139)
que trata de assuntos isoladamente sem con- Alberto Moreira, em “O projeto humano
siderar as múltiplas conexões possíveis. Este na modernidade”, desenvolve uma crítica lú-
olhar reducionista e desconectado não se dá cida sobre o assunto. Para o autor, a raci-
só no texto, mas se manifesta antes, na con- onalidade iluminista reflete na Modernidade
cepção de mundo de quem elaborou a pauta de várias maneiras e causa distorções questi-
e do repórter que fez a leitura dessa pauta. onáveis. Algumas características do homem
ocidental parecem ter sido delineadas ali. Do
5 Autonomia ou individualismo? homo sapiens, a racionalidade o tornou em
homo faber, aquele que vale não pela essên-
O trabalho de Descartes foi retomado por cia humana, mas pelo que tem ou pelo que
Kant, no mesmo objetivo de buscar a auto- pode produzir com seu saber. Se o uso da
nomia do homem. O Esclarecimento, ou a razão lhe proporciona autonomia, liberdade
Afklarung, como escreveu, por uma consciência individual, o estabele-
cimento de uma sociedade de consumo tam-
[...] é a saída do homem de sua
bém o moldou individualista e competitivo.
menoridade, da qual ele próprio é
Como decorrência, o uso comum da razão
culpado. A menoridade é a inca-
crítica e o esforço pela partilha, socialização,
pacidade de fazer uso de seu en-
de certa forma realizou-se às avessas, pro-
tendimento sem a direção de ou-
porcionando uma uniformidade responsável
tro indivíduo. O homem é o pró-
pela extinção das diferenças individuais.
prio culpado dessa menoridade se
Estas considerações nos permitem com-
a causa dela não se encontra na
preender como tais características desse pen-
falta de entendimento, mas na falta
samento repercutem em reportagens como as
de decisão e coragem de servir-se
aqui mencionadas. O desejo doentio pelo do-
de si mesmo sem a direção de ou-
mínio da natureza, a acumulação de bens de
trem. Sapereaude! Tem coragem
uma sociedade de produção e de consumo
de fazer uso de teu próprio enten-
estabeleceram uma mentalidade em que não
dimento, tal é o lema do esclareci-
há espaço para “índios improdutivos”. Tam-
mento (Kant, 2010: p. 63).
bém não deve haver melhores oportunidades
O uso da razão para alcançar a maioridade, para professores que prejudicam as famílias
em outros termos, significou “um esboço do que pagam seus salários. Como também uma

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“rechonchuda que vive da prostituição” não à primeira impressão diante do que “obser-
merece melhor tratamento. vam”, e fazem pré-julgamentos, censuram,
julgam e condenam; ou se apegam cega-
6 O negativo do positivo mente a dados e informações de fontes ofi-
ciais, de “autoridades” científicas, e também
Augusto Comte (1798-1857) teve papel de- julgam e condenam. Assim, a cultura, a his-
terminante na aplicação da racionalidade no tória, o não dito, o não revelado no imediato,
pensamento científico. Para ele, o estado são desprezados.
positivo, regime definitivo da razão, tem na Em sua crítica ao pensamento moderno,
observação a única base possível dos co- Boaventura de Souza Santos argumenta que
nhecimentos acessíveis à verdade, adapta- a ciência moderna tem o monopólio da dis-
dos sensatamente às necessidades (apud Me- tinção universal entre o verdadeiro e o falso.
dina, 2008: 18). Em sua crítica ao positi- Tal monopólio é estendido a vários setores
vismo comteano, Cremilda Medina sublinha da vida social, o que se manifesta no desen-
que esta visão foi transmutada integralmente volvimento de um pensamento abissal, um
ao fazer jornalístico. Ao destacar um trecho sistema de distinção através de linhas radi-
de Comte, cais que dividem a realidade social em dois
universos distintos (2007).De um lado, o eu-
“...o verdadeiro espírito positivo
ropeu, branco, detentor da ciência, da cul-
consiste, antes de tudo, em ver para
tura e do poder econômico; do outro, o co-
prever, em estudar o que é, a fim de
lonizado, o explorado, o negro, o índio, o
concluir disso o que será, segundo
pobre, o selvagem, o marginal. De certa
o dogma geral da invariabilidade
forma, o pensamento moderno levou à im-
das leis naturais” (Medina, 2008:
prensa o mesmo pensamento abissal – que
19).
separa, discrimina, exclui e marginaliza. Por
Cremilda nos alerta para os riscos da in- isso mesmo, minha crítica à desumanização
corporação acrítica da racionalidade e do no jornalismo procede quando se observa
empirismo pelas redações jornalísticas. Se que alguns órgãos de imprensa contribuem
Newton estabeleceu, pela precisão matemá- para o alargamento das distâncias entre esses
tica, o funcionamento mecânico da natureza, dois universos a que se refere Santos.
Comte reforçou a crença da possibilidade
das verdades absolutas, pois tudo pode ser
7 Jornalismo humanizado... é
mensurado, testado e comprovado pelo expe-
rimentalismo. Tudo que é humano pode ser possível?
processado empiricamente como imaginava Após estas discussões, pode-se questionar:
Comte? Para o jornalismo sistematizado a afinal, o jornalismo humanizado é possível?
partir do século XIX todos esses princípios Sim, e temos muitas e boas referências nesse
foram aplicados e responsáveis pelo diálogo sentido. Pode-se afirmar que há uma tradi-
(positivo) com a sociedade. ção brasileira de um jornalismo humanizado,
Por isso mesmo, não é difícil encontrar a começar por Raul Pompéia. Suas crônicas
equipes de reportagem que, ou se apegam

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Humanização e desumanização no jornalismo: algumas saídas 13

foram publicadas em vários jornais do su- a zona portuária de Santos (no 16, novem-
deste brasileiro, especialmente entre 1880 e bro 2008). Além de transcrever um trecho
1894. Contemporâneo de Machado e Bilac, do texto original, publicou “Outras noites no
Pompéia relatou as cenas brasileiras com a cais” com o mesmo intuito de desnudar as
primazia do escritor e o espírito do jornalista. vidas que constroem a rotina do maior porto
Em “Carnaval do Recife”, por exemplo, des- da América Latina.
creve a aglomeração dos foliões com a che- Pompéia, João do Rio e João Antônio são
gada dos blocos à praça com suas fantasias alguns dos muitos que deixaram seu legado
coloridas e os rostos pintados – de branco às gerações atuais, que vêm cumprindo com
e de preto. A rigor, Pompéia discute pre- dignidade o papel de narrar a contempora-
conceitos e a miscigenação racial. Por sinal, neidade. A título de ilustração, vou relatar
contribuiu com o estabelecimento do que co- apenas um exemplo.
nhecemos como um gênero jornalístico ge- Eliane Brum é uma profissional que tem
nuinamente brasileiro – a crônica. se destacado por seu olhar especial ao hu-
Se Pompéia foi o escritor com vocação mano. Em “Uma família no governo Lula”,
jornalística para fazer a leitura de mundo publicada na revista Época em dezembro de
por suas crônicas, João Paulo Barreto (1881- 2010, a repórter quis mostrar as conquistas
1921) inaugurou uma nova fase: a reporta- da classe C em direção à classe média, em
gem. João do Rio institui a figura do repór- decorrência das políticas econômicas e so-
ter, que vai à rua para vivê-la, senti-la, com a ciais do governo Lula Silva. Ao longo da
mente e o coração abertos para captar no co- matéria, a repórter apontou todos os núme-
tidiano a informação e expressar o Rio de Ja- ros e cifras que o assunto exigia, mas foi
neiro do início do século XX. Em A alma en- além. Descreveu as mudanças na vida da fa-
cantadora das ruas, onde estão reunidas vá- mília Costa Pereira durante os oito anos do
rias de suas crônicas, João do Rio passeia governo petista.
pelos mercadores de livros, os músicos am- O comportamento da repórter revela sua
bulantes ou os trabalhadores da estiva, pas- preocupação desde a pauta. Não queria ficar
sando pelos velhos cocheiros e as mariposas exclusivamente nas políticas sociais e nas es-
de luxo. Ele transforma suas crônicas em re- tatísticas que tais projetos teriam proporcio-
portagens, porque foi às ruas para buscá-las. nado. Escolheu uma família que tivesse vi-
Personagens como os “Trabalhadores da vido transformações e que pudessem ser sen-
estiva” também foram tratados por João tidas, desde a situação de desemprego do seu
Antônio na lendária Realidade. A revista que patriarca, Hustene, em 2002, até o estado de
marcou época por sua grande ênfase no gê- maior conforto que a família desfrutava em
nero reportagem, trouxe “Um dia no cais”, finais de 2010. O diálogo entre os dados
um conto-reportagem do escritor-jornalista, concretos e as mudanças visíveis na vida dos
em sua edição de setembro de 1968. João Costa Pereira, humanizam o relato. Huma-
Antônio é considerado um extraordinário nizam não só porque Eliane eleva a família
intérprete do submundo, da marginalidade. à condição de personagem, mas porque não
Quarenta anos mais tarde, ao reverenciar faz julgamentos, respeita a diversidade, não
João Antônio, a revista Brasileiros revisitou trata com preconceito nem as ações de go-

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verno ali tratadas, nem dos personagens que sentir. Munido de uma racionalidade cria-
descreveu. tiva e da emoção solidária, assume a postura
Quem acompanha o trabalho de Eliane de curiosidade e descoberta, de humildade
Brum percebe sua postura sempre respeitosa para sentir as dores do mundo (Dines), de
diante das fontes e do público. Esta lhe tem empatia, de solidariedade às dores universais
assegurado tratar de qualquer tema sem pre- (Medina). Como consequência, sua narra-
julgamentos, sem preconceitos, sem correr tiva será a organização do que está disperso,
qualquer risco de estereotipar ou cair em ge- com as ligações do que está desconexo, rica
neralizações apressadas. Em seu percurso no em contexto que possa esclarecer, proporci-
jornalismo transparece suas marcas de visão onar compreensão. Assim, seu trabalho res-
de mundo – abertura de mente e de espírito peita as diferenças de qualquer natureza e se
para compreender a complexidade da vida. isenta de prejulgamentos, de preconceitos e
Das referências de Raul Pompéia a Eliane estereótipos. Sua narrativa adquire caráter
Brum aqui selecionadas percebe-se que não emancipatório, pois, de forma humanizada,
considero humanização apenas a forma. Tra- seu ato é humanizador.
tar a pessoa mais que uma fonte, mas como
personagem de uma história, sim, é uma das
Considerações finais
possibilidades de humanizar o relato jorna-
lístico. Mas podemos superar essa visão re- Tenho dedicando esforços para refletir e
ducionista. Humanizar começa na “leitura compreender o que chamo de jornalismo
da pauta”, por um olhar que vai além da fór- humanizado. Ainda que nos últimos anos
mula. O jornalismo humanizado produz nar- eu tenha conseguido expressar alguns as-
rativas em que o ser humano é o ponto de pectos que contemplam tal noção, neste ar-
partida e de chegada, o que supõe que este tigo procuro sistematizar de forma mais apu-
fazer começa antes da pauta, na consciência rada meu entendimento sobre esta aborda-
do ser jornalista. No trabalho de apuração, gem. Esta perspectiva para o jornalismo tem
busca versões verdadeiras e não, necessaria- ganhado espaço e tem havido quantidade ex-
mente, produz a verdade, pois o repórter não pressiva de trabalhos com a mesma preocu-
se relaciona com um objeto, mas com ou- pação. Este é um caminho em que ainda há
tros seres humanos envolvidos no processo muito a ser percorrido. Este é apenas um
comunicativo. Dessa forma, sua busca en- passo.
volve a compreensão das ações dos sujeitos Ao longo deste texto, apresentei argumen-
da comunicação – é a expressão dos sentidos tos que acredito fundamentar o jornalismo
da consciência. Na procura da essência dos humanizado. Com o apoio das interpreta-
fenômenos, atribui-lhe significados, os senti- ções de Salvatore Puledda tracei um pano-
dos, para proporcionar ao público, mais que rama dos esforços da sociedade ocidental em
a explicação, a compreensão das ações hu- busca da humanização, para chegar ao Hu-
manas. manismo Universalista defendido por Silo.
Em sua relação com o mundo, o jornalista Reconheço que Puledda e Silo sejam pouco
esvazia-se de preconceitos de modo a captar, conhecidos no Brasil, fato que não desqua-
ver e enxergar, ouvir e escutar, questionar e lificam seus pontos de vista. O empenho

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Humanização e desumanização no jornalismo: algumas saídas 15

pela superação da dor e do sofrimento revela explicitados por Kovach e Rosenstiel (2004:
como as principais fontes deste estado de ser: 31), e os deveres preconizados por Fraser
as questões de autoridade, o desrespeito às Bond (1962: 17-19): (1) fornecer aos ci-
diferenças e aos diferentes e, com isso, a ori- dadãos as informações de que necessitam
gem de estereótipos e preconceitos. Vencer para serem livres e se autogovernar; (2) inde-
tais posturas é essencial ao estabelecimento pendência, imparcialidade, exatidão, hones-
desse mundo universalista. tidade, decência e responsabilidade;...e ao
É importante ressaltar que esta visão constatar as distorções que as reportagens
coaduna-se com outras igualmente interes- aqui discutidas apresentam, permite-nos co-
santes e pertinentes à consecução dos ide- locar o Humanismo Universalista como al-
ais de igualdade e bem estar. Os escritos de ternativa concreta para ajustes de percurso
Fritjof Capra e de Edgar Morin, por exem- em nosso fazer jornalístico.
plo, têm colaborado significativamente para Humanizar o jornalismo é possível. A su-
a construção de uma teoria da Complexi- peração destas questões não depende de ati-
dade. Ao relativizar os paradigmas funda- tudes de uma parte ou de outra, mas de todos.
mentados nas certezas, as noções do pen- Como argumenta Edward Said, a prática do
samento complexo pressupõem o funciona- humanismo e a prática da cidadania partici-
mento da natureza de forma sistêmica. Daí, pativa são complementares. O objetivo do
superando o entendimento cartesiano de o humanismo é tornar mais coisas acessíveis
todo ser a soma das partes, esta nos propor- ao escrutínio crítico como o produto do tra-
ciona a consciência da interdependência – de balho humano, as energias humanas para a
integração entre as partes, das partes com emancipação e o esclarecimento, além das
o todo e do todo com cada uma das partes. interpretações errôneas do passado e do pre-
Esta noção de interdependência – elaborada sente coletivo. E enfatiza:
a partir dos estudos da física subatômica –
identifica-se plenamente com os preceitos do Jamais houve uma interpretação
Humanismo Universalista. errônea que não pudesse ser der-
Uma das principais preocupações deste rubada. Jamais houve uma his-
artigo foi levantar algumas razões que tor- tória que não pudesse ser em al-
nam necessária a humanização no jorna- gum grau recuperada e compas-
lismo. Para tanto, precisei identificar o que sivamente compreendida em seus
e em que esse jornalismo é desumanizado. sofrimentos e realizações. Inver-
As referências que ilustram tal desumaniza- samente, jamais houve uma injus-
ção revelam os pontos nevrálgicos da socie- tiça secreta vergonhosa, um cas-
dade repercutidos no próprio fazer jornalís- tigo coletivo cruel ou um plano
tico. Tais exemplos denotam problemas éti- manifestamente imperial de domi-
cos e, por isso mesmo desumanizam, por- nação que não pudesse ser desmas-
que esclarecem menos e alargam as distân- carado, explicado e criticado (Said,
cias, mais provocam dor do que se solidari- 2007: 42).
zam com as dores do mundo.
Ao retomar as finalidades do jornalismo,

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16 Jorge Kanehide Ijuim

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