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Resenhado por:

O autor do texto “O que é Psicopatologia Fundamental”, Manoel Tosta Berlinck


formou-se em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
Foi mestre em Ciências Sociais e fez seu pós-doutorado na Cornell University. E, tornou-se
docente da PUC em São Paulo, onde criou, bem como dirigiu o Laboratório de Psicopatologia
Fundamental.
Foi diretor da editora Escuta e responsável por uma das melhores revistas brasileiras
da área da Psicologia: a Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Escreveu
diversos editoriais opinando com vasto conhecimento acerca de variadas temáticas ligadas a
Sociologia, Psiquiatra e Psicanálise. Além disso, escreveu livros, como, Neurose obsessiva,
Psicopatologia Fundamental e Psicanálise na clínica cotidiana.
No texto “O que é Psicopatologia Fundamental” Manoel Tosta Berlinck introduz o
tema por meio de uma explicação esquemática e concisa a respeito das origens da
Psicopatologia Fundamental, que tem suas raízes provindas do teatro grego do tempo de
Péricles e da medicina dos cidadãos em Atenas.
Para dar início a essa exposição, o autor apresenta a palavra Posição como parte
indispensável da compreensão dessa ciência. Segundo ele, e baseado no vocabulário militar
romano, posição é conhecida originalmente, como o lugar onde se encontra um indivíduo, ao
mesmo tempo, que no vocabulário latino é o nome dado a distribuição dos exércitos romanos
em seu espaço de batalha, se referiam as conquistas de territórios. Já na civilização grega, em
Atenas de Péricles, denominava-se posição como as poses, posturas corporais, as expressões
de caráter dos homens por meio de seu andado, o modo como falavam, caminhavam e se
portavam nas reuniões.
É quando surge o termo Orthos, ou também posição irrepreensível, essa era a posição
que regrava os cidadãos em Atenas, a eles eram ensinados como caminhar, lutar, argumentar e
como manter relações de honra. Contudo, somente após esse processo de aprendizado,
chegava a hora de colocá-los em prática nas ágoras – nome grego dado a reuniões de pessoas
–. Portanto, por serem lugares sempre rodeados de pessoas, movimento e conversas
simultâneas sobre vareados assuntos, os indivíduos tinham que buscar se destacar na multidão
por meio de suas vozes educadas, posturas invejáveis e argumentação anteriormente
aprendida com os filósofos.
Das posições expressas por meio do corpo, o autor cita duas outras: a do historiador e
a do teatro. Retomando as palavras ditas por Jeanne Marie Gagnebin em 1997, a palavra
história na época de Heródoto de Halicarnassos, significava “aquele que viu, testemunhou”,
era sobre falar daquilo que viu com seus próprios olhos ou escutou de alguém, privilegiar as
palavras de quem testemunhou tal acontecimento, levando em conta também o período
cronológico, retratar um passado não tão distante, pois não é possível relatar o que não se viu
ou viveu, logo, o que se passou a muito tempo não é relatável.
Ademais, ainda sobre história de acordo com Heródoto, é importante pontuar, a
substituição que o mesmo fazia da palavra história para logos (discurso). O olhar do
historiador, é uma das posições encontradas na cidade de Polis, que se diferencia de visitar a
ágora em uma posição irrepressível, desde que agora pessoalmente se observa e registra o que
acontece no local. A posição de um historiador, especificamente de Heródoto enquanto
viajava pela Grécia e registrava aquilo que via, era além do que relatar os acontecimentos,
trazia, também, aos gregos um reconhecimento de si mesmos, uma memória.
Outra posição mencionada, é expressada através do teatro, onde os espectadores
atentos ao que acontecia em sua frente, não prestavam atenção ao que se passava em seus
lados, dobrando os troncos e ouvindo atentamente o que estava sendo dito.
A palavra teatro tem seu significado grego como “um lugar para ver”, o que faz total
sentido já que traz aos olhos e ouvidos de quem o vê uma história de outro lugar ou tempo. É
interessante ressaltar, que na nova época de Péricles, os teatros não podiam causar grandes
emoções aos espectadores, somente experiência. Logo, a posição do teatro se distancia da de
Orthos, pois não se objetiva mostrar sua postura irrepreensível a quem está vendo, mas sim
uma experiência.
De acordo com Froma Zeitlin, o teatro trágico grego, representava o corpo humano em
seu momento de fraqueza, em um estado incomum de phatos (sofrimento). Não só a
sofrimento se refere phatos, mas também a paixão e passividade, e é em um sujeito trágico
constituído de phatos, que a Psicopatologia Fundamental se vê interessada.
Para complementar o entendimento de phatos, o autor relembra uma das obras de
Descartes, especificamente em “Tratado das Paixões” onde ele recorda os significados de agir
e padecer. Nesse sentido, padecer se mostra inferior a agir, por ser indeterminado, um ser se
move em busca de uma determinação e por ter que mudar a si mesmo que ele se mostra não
qualificável ‘o suficiente’, dependendo de uma força exterior para auxilia-lo. É então que
Berlink correlaciona isto a phatos, pois segundo ele, o phatos surge por meio de algo ou
imagem que provoca reação ao indivíduo, o que prova o quanto o ser está ligado e necessita
do outro, um indivíduo que se basta não teria phatos.
Nessa lógica, Phatos não é natural do corpo do sujeito, ele vem de fora e o adentra
regendo os comportamentos deste indivíduo e é preciso aprender a lidar com ele, a tirar
proveito desse phatos e transformá-lo em experiência, assim, quando se há uma experiência
relativa a alma, ao mesmo tempo metapsicológica e terapêutica, têm-se o que procura a
Psicopatologia Fundamental.
Utilizando as palavras de Platão em “O Banquete”, Berlinck introduz uma interessante
explicação sobre o psicopatológico. Em síntese, para Platão, também é papel dos médicos
ocupar-se dos fenômenos do amor, sendo assim, os psicopatólogos são esses médicos, pois
estão constantemente se relacionando com o amor, à medida que as doenças físicas em sua
concepção são phatos, paixão e passividade. Eros quando doente pelo excesso de amor, foi
cuidado pelo médico, cuidado esse que em grego era conhecido por Terapéia, com isso o
médico reestabeleceria o equilíbrio do corpo de Eros com uma dosagem de amor justo. Em
“O Banquete” é abordado que as doenças físicas também se tratam de questões do amor que
com a dosagem de justo amor de um médico podem ser curadas.
É isso que quer dizer Psicopatologia, paixão e sofrimentos que necessitam de um
médico que auxiliem, para que seja possível que se tornem portadores de ensinamentos, ou
seja, quando se há phatos a cura se torna uma possibilidade por meio do ouvir de um médico,
trazendo então a posição de um terapeuta. Sem que phatos seja ouvido por um médico ou por
alguém do lado de fora que na condição de um espectador no teatro grego se incline sobre o
paciente e o escute com atenção a essa voz única, pode haver resultados não desejáveis.
Conhecendo todas essas posições corporais-discursivas, o autor clareia os caminhos
sobre qual a posição da Psicopatologia Fundamental, uma posição clínica. Assim, como no
teatro e como o médico, ambas se inclinam ao indivíduo único e escutam atentamente sua
phatos, paixão, história. Sendo clínica, uma vez que respeita o princípio da voz única que traz
experiência e terapia.
A Psicopatologia Fundamental em sua posição considera que phatos apodera-se do
corpo, sem dele fazer parte, vindo de fora e de longe, fazendo o corpo sofrer, definição que se
dá a doença até mesmo na contemporaneidade, um corpo natural, que não é doente, mas que
está suscetível a adoecer e a cair. O psiquismo na visão da Psicopatologia Fundamental é um
complemento do sistema imunológico, ou seja, estão diretamente ligados, e phatos é sempre
somático.
Esse ramo da ciência não só reconhece a existência de outras posições na cidade,
como também quer que outras posições reconheçam a sua, porém, não se trata dela, uma
postura rígida e sem movimento, assim como dizia Fédida, as experiências ocorrem e se
transformam em saber.
A Psicopatologia Fundamental recebe esse nome para diferir-se de outras posições,
como a Psicologia Geral, e a Psicanálise, ainda assim podendo fazer parte, ou assemelhar-se a
elas, devendo o psicopatólogo fundamental constantemente visitar essas posições, mas sem as
habitar.
Nesse viés, a Psicopatologia Fundamental faz parte de uma história rica e honrosa que
trata do sofrimento humano e, por isso, merece ser lembrada e passada para frente. Além
disso, Berlinck utiliza ao decorrer da literatura o termo sofrimento, que vem de phatos, ao
invés de doença, o que é totalmente necessário considerando que não se deve mais utilizar o
vocábulo doença mental, por conta de toda carga pejorativa e estigma que perpassa a
nomenclatura.
O referido capítulo é de cunho informativo e enriquecedor para áreas da ciência,
como, Psicologia e Psiquiatria. É repleto de informações pertinentes e históricas. Contudo,
não é de fácil compreensão, sendo necessário ter conhecimento prévio acerca de temáticas
específicas, como a Psicanálise e Psicopatologia. O que pode acabar o tornando menos
interessante ou aprazível ao público em geral, em contrapartida se faz muito atrativo, tanto
para acadêmicos, quanto profissionais específicos.
Possui uma linguagem científica, culta e complexa, que requer conhecimentos
específicos para uma compreensão satisfatória. Por isso, seria interessante que antes do
contato com essa literatura o leitor tenha a oportunidade de ler obras acerca do assunto que
sejam mais simples e acessíveis no que diz respeito a linguagem.
Outrossim, faz-se o uso de aspectos históricos – tornando a exposição atrativa – para
explanar conceitos importantes para o entendimento do enfoque principal da literatura: A
Psicopatologia Fundamental, que é destrinchada a partir de uma análise histórica, inicial,
fazendo-se interconexões entre temáticas tratadas ao final e início do texto. Para isso, o
capítulo é subdividido em tópicos: Posição; Pathos; Psicopatologia Fundamental.
E, assim, o autor introduz com explicações acerca de determinadas nomenclaturas,
para que ao final a visão do leitor seja ampliada, sendo necessário, que a obra seja
compreendida como um todo, já que a falha no entendimento das primeiras partes pode
prejudicar a fluidez da leitura.
Desse modo, por meio do conceito de posição e, seus desdobramentos em pathos e
logos, Berlinck apresenta de forma brilhante, contundente e criativa sua perspectiva sobre a
Psicopatologia Fundamental.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NOTA DE FALECIMENTO: MANOEL TOSTA BERLINCK. Instituto Sedes


Sapientiae. 2016. Disponível em: https://sedes.org.br/site/nota-de-falecimento-manoel-tosta-
berlinck/. 
PICCININI, Walmor. História da Psiquiatria:  MANOEL TOSTA BERLINCK
(1937-2016). Psychiatry Online Brasil. São Paulo, 2016. Disponível
em: https://www.polbr.med.br/ano16/wal0616.php. 
BERLINCK, MT. O que é a Psicopatologia. Revista Latinoamericana de
Psicopatologia Fundamental, São Paulo: escuta; p. 46-59, 2008.

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