Você está na página 1de 17

Tutoria Direitos Reais

Posse e Detenção
Usucapião
3.º TAN
Diogo Saúde Guerreiro | Turma B
Classificações a reter
• Direito Real de Gozo: é aquele que atribuí ao seu titular as faculdades de uso ou fruição ou disposição de uma coisa corpórea – 1302.º
+ 1303.º.
Dentro destes, há ainda que distinguir entre:
• Direitos reais de gozo maiores: atribui-se ao titular todas as faculdades relativas à coisa. É o exemplo paradigmático da
propriedade – art 1305.º .
• Direitos Reais de gozo menores: Não são atribuídas todas essas faculdades. É o caso, v.g., do usufruto – art 1439.º e ss. – em que
se atribui o gozo temporário de uma coisa – ou do direito de superfície – art 1524.º.

Princípio da tipicidade: 1306.º CC => só podem ser criados os direitos reais que estão previstos na lei!
Que Direitos Reais de Gozo estão tipificados no nosso CC?
- Propriedade – art 1302.º e ss.;
- Propriedade Horizontal – art 1414.º e ss.º + DL n.º268/94, de 25 de outubro;
- Direito de Superfície – art 1524.º e ss.
- Usufruto – art 1439.º e ss.
- Uso e Habitação – art 1484.º
- Servidões Prediais – art 1543.º e ss.;
- Direito Real de Habitação Periódica – DL n.º 275/93, de 5 de agosto
Classificações a reter
• Direito real de garantia: são aqueles em que é conferida a um credor uma preferência no pagamento pelo valor de certa
coisa, podendo assim esse credor ser pago à frente dos outros credores, evitando os riscos de o património do devedor não
chegar para a liquidação de todos os créditos. Entre esses direitos reais de garantia encontramos a consignação de
rendimentos, o penhor, a hipoteca, o privilégio e o direito de retenção

• Direitos reais de aquisição: são aqueles em que é conferida ao seu titular a possibilidade de pelo seu exercício vir a adquirir
um direito real sobre determinada coisa. Entre estes encontram-se os direitos do beneficiário de um contrato-promessa com
eficácia real ou do beneficiário do pacto de preferência com eficácia real e ainda o titular de um direito legal de
preferência.

• Direito pessoal de gozo: Os direitos pessoais de gozo possibilitam ao seu titular o gozo directo e autónomo de determinada
coisa, o qual, porém, diversamente do que sucede com os direitos reais de gozo, tem sempre por fundamento uma relação
obrigacional, de que nunca se desprende. Neste sentido, AC. STJ 27-04-2004(Nuno Cameira). Estes direitos pessoais de posse
são suscetíveis de posse uma vez que a lei reconhece a certos direitos pessoais de gozo certas ações possessórias – 1037.º/2,
1125.º/2, 1133.º/2 e 1188.º/2.
Posse e Detenção
A discussão começa na pandectística alemã:
• Formulação Subjetivista da Posse(Savigny): A detenção corresponderia ao exercício
fáctico de poderes sobre uma coisa - corpus – sendo assim uma situação de facto
embora relacionada com o exercício do direito correspondente, que atribui
juridicamente esses poderes. Para haver posse, teria ainda de existir um elemento
psicológico – o animus possidendi – isto é, a intenção de atuar como proprietário, o
qual serial essencial para a posse.
• Formulação Objetivista da Posse (Jhering): a vontade é sempre necessária tanto na
posse como na detenção. Sempre que se exerce poderes materiais sobre uma coisa,
existe vontade. Qualquer relação com a coisa vai sempre exigir a materialização de
uma vontade. Para Jhering, o conceito de detenção tem de ser qualificado como um
efeito jurídico reflexo, resultante da necessidade de proteger outrem, a quem se
pretende atribuir em seu lugar a posição do possuidor. A priori, toda a apreensão
material da coisa será reconduzível à posse, a menos que exista uma prova em
contrário. Para a detenção não se reconduzir à posse, é necessário que a ordem
jurídica descaracteriza a situação como posse, passando esta a ser qualificada como
mera detenção, como ocorre no caso do locatário e do comodatário. É o direito que
distingue a posse da detenção.
Posse e Detenção
Qual é a solução adotada pela lei portuguesa?
A doutrina portuguesa é inspirada na conceção subjetivista de Savigny:
• Art 1253.º/a): sem intenção de agir – referência ao animus
• Art 1253.º/c): (intenção de) possuir em nome de outrem – referência ao animus domini.
PCS, HM, PL/AV + Jurisprudência: Conceção subjetivista da posse
MC, ML, CF, PA, BR, OA: Qualificam a lei portuguesa como objetivista. Em todas estas
posições, defende-se que o artigo 1251.º não faz referência ao animus e o art 1253.º
refere as situações que considera não corresponderem à posse, mas antes à mera
detenção, devendo considerar estarmos perante uma posse, desde que ela não seja
voluntariamente exercida e a lei não determine o contrário. ML refere: Ora, nos casos da
alínea b) e c) a lei não retira a qualidade de possuidor ao detentor por lhe faltar uma
vontade específica, mas antes por que pretende atribuir a posse a outrem, ou por não
pretender penalizar a mera tolerância coma perda da posse, ou por considerar que a
posse deve ser atribuída à pessoa em nome de quem é exercida. Por esse motivo, dado
que uma dupla posse não é possível, ao detentor é retirada a tutela possessória no
interesse de outrem a quem a lei pretender atribuir a posse.
Posse e Detenção
Artigo 1253.º/a): Discutido na doutrina portuguesa, dado a sua referência ao animus.
ML: A posse é genericamente atribuída em todos os casos em que alguém atua por forma correspondente a um
exercício de um direito real, e igualmente em certos direitos pessoais de gozo, independentemente da intenção do
possuidor. A detenção é assim uma posse legalmente descaracterizada. Neste sentido, a referência à intenção do art
1253.º/a) não pode ser encarado de uma formulação subjetivista, sendo antes uma situação aparentemente
possessória como detenção. só há uma explicação adequada para o art 1253.º/a): ele corresponde às situações em
que há exercício de poderes de facto sobre a coisa, mas os mesmos correspondem ao conteúdo de um direito ao
qual a lei não reconhece a tutela possessória. Assim, por exemplo, a lei reconhece a tutela possessória do locatário e
comodatário, mas não a reconhece ao hóspede no contrato de hospedagem, nem ao titular do direito real de
habitação periódica: será então a estas situações que se refere o art 1253.º/a).
Oliveira Ascensão: Esta norma reflete os casos nos quais o próprio agente não declarasse pretender ser possuidor. Esta
posição é criticada pela doutrina uma vez que i) é irrelevante o agente declarar não querer ser possuidor(protestatio
facto contraria): o seu comportamento não é prejudicado por uma declaração em sinal inverso. A posse não dá
apenas direitos, ela suscita o aparecimento de veres – v.g. art 1269.º e 1271.º. Não seria aceitável que alguém pudesse
escapar a estes deveres pela simples circunstância de declarar não querer ser possuidor.
MC: Teoria da causa. O artigo refletiria assim as situações em que o poder de facto foi adquirido em termos tais que a
própria lei afasta a posse, desde que a situação não fique abrangida pelo âmbito das alíneas b) ou c) do mesmo
preceito. Ficar-nos ia, assim, para o artigo 1253.º/a), o exercício do poder de facto sobre bens do domínio público,
como se infere do artigo 1267.º/1/b) e do artigo 202.º/2. Também se poderia referir a situação do artigo 2096.º/2: o que
sonegar bens da herança é considerado mero detentor desses bens. Por via da teoria da causa, não há animus nem
posse. Para ML, A formulação de MC é também insuficiente dado que o art 1253.º/a) não pode ser interpretado como
mera referência a outros casos legais em que a lei nega a tutela possessória, dado que tal implicaria converter o
preceito numa mera norma remissa sem conteúdo útil.
Posse e Detenção
Artigo 1253.º/a): Discutido na doutrina portuguesa, dado a sua referência ao animus.
PA: Quanto à objeção à construção de MC por ML, considerando esta esvaziar o sentido do preceito legal, PA não
vislumbra qual seria o problema de ser uma norma apenas remissiva. A chave está na correta compreensão do
constituto possessório. Os casos predominantes compreendidos no artigo 1253.º/a) são aqueles que, tendo havido
transferência do direito real por ato de vontade, por força do artigo 1264.º, necessariamente, houve transferência da
posse, com desconsideração da vontade em sentido inverso. situação. Transferindo-se o direito real transmite-se,
também, do mesmo passo, verificados os pressupostos do constituto possessório, a posse. O alienante passa a detentor
nos termos do artigo 1253.º/a) => o sentido normativo deste preceito é justamente o de esclarecer a irrelevância de
qualquer vontade em direção contrária à de que resulta do artigo 1264.º. De acordo com PA, JAV atualmente
defende esta solução.
OA julga como pressupostos do constituto possessório:

i. A transmissão do direito real relativo à coisa a que a posse se refere;

ii. Pelo possuidor;

iii. Sem haver entrega;

iv. A não sujeição da transmissão do direito real a condição suspensiva

Preenchidos estes pressupostos, o adquirente do direito relativo à coisa adquire também a posse. E acrescenta;: a
transferência da posse é, pois, um mero efeito do negócio, como a do direito real em geral.
Posse e Detenção
Artigo 1253.º/b): Atos de mera tolerância, que podem extravasar apenas as relações de
vizinhanças, abrangendo todos os casos em que o exercício de poderes sobre a coisa resulta de
uma autorização expressa ou tácita, emanada do proprietário, sem que no entanto essa
autorização vise conceder algum direito ao detentor.
De acordo com JAV, a título de exemplo, temos o possuidor do prédio que deixa o vizinho ir buscar
lenha ao seu prédio ou o condómino que deixa o vizinho parquear o carro no seu lugar de
estacionamento por uns dias.
De acordo com JAV, o ato de mera tolerância apresenta duas notas distintivas: i) pressupõe uma
autorização a terceiro por parte do direito real e ii) não gera um direito a favor de terceiro.
Diferentemente do ato facultativo, que decorre de uma não atuação da parte do titular do direito
real, o ato de mera tolerância propicia a atuação material sobre a coisa.
Posse e Detenção
Artigo 1253.º/c): Refere-se a todos aqueles que possuem em nome de outrem. Nestas alíneas,
abrangem-se as situações dos titulares de direitos reais menores ou de direitos pessoais de gozo,
que possuem, simultaneamente com a posse em nome próprio do seu próprio direito, a posse em
nome alheio do direito de propriedade. Para além disso, estará aqui em causa o exercício da
posse em representação doutrem - art 1252.º/1/2ª parte - como o que é exercido por procuradores
ou mandatário com representação do possuidor, devendo ainda a disposição ser extensiva aos
seus auxiliares com contemplatio domini. Já os mandatários sem representação não poderão ser
considerados como detentores, uma vez que são possuidores em nome próprio.
Exemplo: Anabela constitui um usufruto vitalício a favor de Berta de um terreno seu.
Anabela é a proprietária e possuidora do direito de propriedade, exercendo mediatamente a sua
posse através de Berta – art 1252.º/1/2ª parte.
Berta é titular do direito de usufruto e possuidora desse mesmo direito. Em relação ao direito de
propriedade, ela é detentora: apesar de ela ter o gozo autónomo do terreno, ela não age como
se fosse proprietária do mesmo.
Classificações da Posse
MC e ML distinguem, para além das classificações do art 1258.º e ss., diferentes classificações de posse.
• Posse Causal – Aquela que é acompanhada pela titularidade do direito; Posse Formal – Aquela que
não é acompanhada pela titularidade do direito.
Ex: Aquele que compra um carro, é proprietário e possuidor do mesmo. Aquele que furta um carro não é
proprietário do mesmo, mas é possuidor do mesmo(não se enquadra em nenhuma das situações do
artigo 1253.º, pelo que não existe mera detenção).
• Posse Civil -Permite atribuir todos os efeitos possessórios, incluindo a usucapião(direitos reais de gozo);
Posse Interdital – Apenas atribui ações possessórias e eventualmente alguns efeitos da posse mas
nunca a usucapião(direitos reais de garantia, aquisição ou direitos pessoais de gozo).
• Posse Efetiva – Aquela que é acompanhada pelo corpus possessório; Posse Não Efetiva: Aquela que
não é acompanhada pelo corpus, resultando apenas da lei, por exemplo, por ter perdido o controlo
material da coisa – art 1278.º/1 e 1282.º;
• Posse titulada e não titulada – art 1259.º;
• Posse de boa-fé e de má fé – art 1260.º;
• Posse pacífica ou violenta – art 1261.º;
• Posse pública ou oculta – art 1262.º;
Usucapião
• Art 1287.º: forma de aquisição voluntária de certos direitos reais de gozo.
• Não podem ser adquiridos por usucapião os direitos reais do artigo 1293.º. De acordo com ML, a razão
para a não aquisição por usucapião das servidões não aparentes resulta do facto de em relação às
mesmas não ser fácil determinar a existência de uma posse pública, por elas serem facilmente
confundíveis com atos de tolerância do proprietário serviente.
• Quanto aos direitos de uso e habitação, a razão de ser de estes não poderem ser adquiridos por
usucapião resulta da necessidade de restringir a sua constituição, em virtude da limitação dos seus
conteúdos e do facto de em termos práticos ser difícil a sua distinção do usufruto. JAV considera que
esta justificação não é plausível.
• Art 1289/1.º: Não se exige a capacidade de exercício para adquirir um direito real por usucapião.
• Art 1290: Os detentores só podem adquirir o bem possuído achando-se investido o título da posse.
Veremos como isto funciona no caso prático.
• Art 1291.º: Usucapião em caso de composse
• Art 1297.º e 1300.º/1: É necessário uma posse pública e pacífica para haver usucapião.
• Art 1293.º – 1297.º: Regras de usucapião referentes a imóveis;
• Art 1298.º – 1301.º: Regras de usucapião referentes a móveis.
Caso Prático
Resolução do Caso
• Neste caso, o que está em causa é saber se Francisca adquiriu o imóvel por usucapião desde 1998 ou
se efetivamente Gabriela continua a ser titular do bem imóvel em causa.

• De acordo com o art 202.º/1 do CC, diz-se coisa tudo aquilo que pode ser objeto de relações jurídicas.
O apartamento em causa é uma coisa no comércio – art 202.º/2 do CC – podendo ser objeto de
direitos privados. É uma coisa corpórea, na medida em que existe no mundo natural. O apartamento,
enquanto fração autónoma, está sujeito ao regime da propriedade horizontal – art 1414.º e ss. Sendo
os prédios urbanos[edifício incorporado no solo, com os terrenos que lhe sirvam de logradora] coisas
imóveis – art 204.º/1/a) – em virtude do disposto no art 1414.º e 1415.º relativamente à propriedade
horizontal, que falam no termo edifício, concluí que o apartamento em causa enquanto fração
autónoma pode ser objeto do direito de propriedade – art 1302.º/1.

• Gabriela adquire o apartamento após a morte dos pais. Efetivamente, o art 1316.º prevê que uma das
formas de adquirir o direito de propriedade é através da sucessão por morte, sendo que a aquisição
desse direito se dá com a abertura da sucessão – art 1317.º/b).
Resolução do Caso
• Quanto ao contrato de arrendamento celebrado entre Francisca e Gabriela, estamos perante um contrato de
locação. O art 1022.º estabelece que a locação é o contrato pelo qual uma das partes se obriga a proporcionar à
outra o gozo temporário de uma coisa mediante retribuição. O art 1023.ºdispõe que a locação se diz arrendamento
quando versa sobre coisa imóvel. Tendo Gabriela o direito de propriedade sobre o bem imóvel em causa, a mesma
podia celebrar este contrato com Francisca.

• As partes não estipularam um prazo para a locação, sendo que o art 1025.º estabelece que a locação não se pode
celebrar por mais de 30 anos. Entre 1998 e 2019 decorreram 21 anos da celebração do contrato, pelo que ele se
encontra válido à luz das disposições do código.

• No momento da celebração do contrato de locação, Gabriela está na posse da fração autónoma. Porquê? Nos
termos do art 1251.º CC, a posse é o poder que se manifesta quando alguém atua por forma correspondente ao
exercício do direito de propriedade ou de outro direito real. Efetivamente, para além da titularidade do direito real
de gozo sobre o imóvel [direitos reais de gozo: propriedade plena, usufruto, uso e habitação, superfície e servidões
prediais], é manifesto que existia aqui a posse de Gabriela, uma vez que os direitos reais de gozo conferem sempre
ao seu titular alguma forma de aproveitamento da coisa[uso, fruição ou disposição desse bem].
Resolução do Caso
• De acordo com as classificações do professor MC e da lei, estamos perante uma posse causal na medida em que é acompanhada
pela titularidade de um direito, uma posse civil na medida em que permite atribuir todos os efeitos posessórios, incluindo a usucapião,
pois estamos perante um direito real de gozo. É uma posse efetiva na medida em que existe um controlo material sobre a coisa. É
titulada – art 1259-º - na medida em que é fundada num meio legítimo de a adquirir, nomeadamente através da sucessão. É também
de boa fé – art 1260.º/1 – pacífica – art 1261.º/1 - e pública – art 1262.º.]

• Perguntamo-nos agora se, após a celebração do contrato de locação, Francisca é possuidora do imóvel. A este propósito, temos de
distinguir a posse da detenção.

• Na pandectista alemã, a conceção subjetivista de Savigny defendia que, para a ocorrência da posse, exigir-se-ia, para além do
corpus – controlo fáctico sobre a coisa – um animus domini – que corresponderia a uma intenção específica do possuidor em agir
como proprietário. Já Jhering, através de uma conceção objetiva, defendia que tanto na posse como na detenção ocorreria a
verificação do corpus e do animus domini, distinguindo-se a posse da detenção pelo facto de na detenção existir uma disposição
legal que descaracteriza a situação como posse.

• A lei portuguesa inspirou-se na conceção subjetivista de Savigny ao introduzir, no âmbito da detenção, o exercício do poder de facto
sem intenção de agir como beneficiário do direito – art 1253.º/a - e o exercício da posse em nome alheio- art 1253.º/c). O professor
MC, ML, JAV, Carvalho Fernandes entre outros defendem que a lei portuguesa defende a conceção objetivista de Jhering na medida
em que a definição de posse do art 1251.º não faz referência ao animus e o art 1253.º refere as situações que considera não
corresponderem à posse, mas antes à mera detenção, o que corresponde precisamente à teoria objetivista, segundo a qual toda a
detenção deve considerar-se posse, desde que seja voluntariamente exercida e a lei não determine o contrário. As situações que não
merecem tutela possessória encontram-se previstas no art 1253.º.
Resolução do Caso
• O art 1253.º/c) estabelece que é havido como detentores todos os que possuem em nome de outrem.
Efetivamente, a Francisca não detém um direito real de gozo sobre a fração autónoma, esse pertence a Gabriela,
não se tendo verificado nenhuma das situações de aquisição da posse do art 1263. Com a celebração do contrato
de locação. O que se verifica é que a Francisca vai possuir o imóvel em nome da Gabriela.

• Em virtude da celebração do contrato de locação, Francisca adquire um direito pessoal de gozo: nomeadamente
o gozo direto e autónomo do apartamento, que nasce da relação obrigacional com Gabriela. Em relação a estes
direitos pessoais de gozo, o Professor ML e JAV entendem que os mesmo são suscetíveis de posse, na medida em
que estes direitos atribuem poderes sobre a coisa que a lei tutela através das competentes ações possessórias
[meios de defesa da posse], sendo, no caso da locação, o art 1037.º/2. [depósito, comodato, parceria pecuária] No
entanto, este direito pessoal de gozo não implica a sua qualificação como um direito real, uma vez que ele resulta
de um direito de crédito interpartes e não de um direito real erga omnes.

• Quanto ao facto de não ter pago as rendas, Francisca devia tê-lo feito na medida em que é obrigação do
locatário pagar a renda – art 1038.º/1/a) – sob pena de incorrer em responsabilidade civil contratual – art 798.º e ss.

• Quanto à propriedade do imóvel por usucapião, o art 1287.º estabelece que a posse do direito de propriedade ou
de outros direitos reais de gozo, mantida por certo lapso de tempo, faculta ao possuidor, salvo disposição em
contrário, a aquisição do direito a cujo exercício corresponde à sua atuação.
Resolução do Caso
• A usucapião está restrita aos direitos reais de gozo. Sendo Francisca uma mera detentora, o art 1290.º estabelece que a
mesma não pode adquirir para si, por usucapião, o imóvel, exceto achando-se invertido o título da posse. Efetivamente, não
sendo a Francisca titular de um direito real de gozo, a mesma não podia adquirir o imóvel por usucapião.

• A posse pode adquire-se por inversão do título da posse – art 1263.º/d). O art 1265.º estabelece que a inversão pode dar-se
por oposição do detentor do direito (neste caso Francisca) contra aquele em cujo nome possuía (neste caso, Gabriela) ou
por ato de terceiro capaz de transferir a posse. Como refere o professor ML, o facto de alguém, neste caso Francisca, não
pagar as rendas não constitui uma inversão do título, contudo, a partir do momento em que ela se considerou como
proprietária do imóvel, isto é, em 2018, deu-se a aquisição da posse.

• O art 1290.º/2ª parte estabelece que no caso de ser invertido o título da posse, o tempo necessário para a usucapião só
começa a correr desde a inversão do título. Ora a inversão do título deu-se em 2018, quando Francisca assumiu perante
Gabriela que se considerava proprietária do imóvel. Nos termos do art 1296.º, não havendo registo do título nem da mera
posse, a usucapião só pode dar-se no termo de quinze anos, se a pessoa for de boa-fé, e de vinte anos, se for de má fé. A
posse de Francisca era formal – não acompanhada da titularidade do direito – civil – efetiva – na medida em que existe um
controlo da coisa - de má fé – art 1260.º/1 a contrario – pacífica – art 1261.º/1 – e pública – art 1262.

• Ora, entre 2018 e 2019 o prazo decorrido é de 1 ano, não podendo adquirir Francisca o imóvel por usucapião.