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Do Fundamento Epistemológico, Ontológico e Metodológico das

Teorias das Relações Internacionais

A evolução dos discursos teóricos das Relações Internacionais, dos diálogos científicos
travados pela e entre a comunidade epistémica das Relações Internacionais permitiu a
construção de conceitos, símbolos e metáforas hoje muito utilizados e fundamentais
para tornar inteligível o que constitui o internacional, isto é, para tornar inteligível o
modo como os agentes se constituem e interagem entre si, impulsionando as relações
internacionais contemporâneas, as instituições que resultam dessas interações, os
processos que os agentes estabelecem entre si que condicionam e que lhes
condicionam a sua percepção da realidade internacional e a sua própria margem de
ação para atuar no sistema internacional (ROCHA, 2002: 34).

Na realidade, os conceitos fundamentais das Relações Internacionais, quando


colocados em confronto em discursos teóricos distintos assumem significados
precisos, em função, cada qual, do contexto discursivo em que surge. Isto significa que
o mesmo conceito, referindo-se ao mesmo conjunto de elementos da realidade
internacional, assume, em cada discurso teórico, um significado distinto. Esse conceito,
num dado discurso teórico, não corresponde exatamente ao mesmo conjunto de
elementos da realidade internacional a que outro discurso teórico terá em mente
quando utilizar o mesmo conceito (ROCHA, 2002: 34-35).

Em todo o caso, importa considerar e nunca esquecer que as teorias das Relações
Internacionais não partem do vazio intelectual, antes surgem enformadas por escolas
filosóficas diferentes e suportadas por conceitos que, numa base inicial, são oriundos
de algumas das principais Ciências Sociais. No entanto, as teorias das Relações
Internacionais distinguem-se dessas ciências e teorias sociais porque, em primeiro
lugar, têm uma ontologia própria que fundamenta o seu campo de estudos. Essa
ontologia pode variar de teoria de Relações Internacionais para teoria de Relações
Internacionais, mas é sempre diferente da ontologia das teorias sociais.

As teorias das Relações Internacionais distinguem-se destas, em segundo lugar, porque


desenvolvem e organizam um corpo teórico e conceitual próprio, distinto do das
teorias sociais e que permite tornar inteligíveis os fenómenos aos quais se dedica a
comunidade epistémica das Relações Internacionais. São estes fenómenos a ser
analisados, através de ontologias e epistemologias próprias, através de conceitos e
metodologias específicas, bem como através de analistas especializados nessa análise
– a comunidade epistémica das Relações Internacionais – que conformam a nossa
disciplina como um ramo autónomo do Saber no âmbito das Ciências Sociais
contemporâneas (ROCHA, 2002: 34).

As teorias das Relações Internacionais surgem, deste modo, como sistemas conceituais
expressos em discursos marcados por características próprias, que Whitehead (1988)
considera serem: conjuntos de sentenças expressas sem ambiguidades em idioma
compreensível e relevante; consistência lógica interna, o que significa que os conceitos
presentes naquelas sentenças têm de ter uma relação mútua de validade; consistência
lógica externa, de acordo com a qual cada discurso teórico tem de subsistir às críticas
que lhe são dirigidas por outros discursos teóricos; ampla conformidade com a
realidade, o que implica o teste empírico; nenhuma discordância com a realidade, o
que implica, após o teste empírico, a não existência de falseabilidade; condição de
esquema lógico, em que todas as características acima enumeradas devem ser
incluídas. Isto significa, para Whitehead (1988), que se um discurso teórico de Relações
Internacionais não cumpre os seus “critérios para que se considere científica uma
crença”, então, na verdade, esse sistema conceitual não o será e portanto não
estaremos em presença de uma verdadeira teoria das Relações Internacionais.

Neste sentido, avaliar os fundamentos mais essenciais das teorias das Relações
Internacionais reconduz-se à análise compreensiva do corpo de pressupostos
ontológicos, epistemológicos e metodológicos das várias teorias das Relações
Internacionais, concebida a disciplina das Relações Internacionais como um “conjunto
de debates, de problemáticas, perspetivas e paradigmas avançados por uma
comunidade epistémica conscientemente envolvida na produção de conhecimento
sobre um domínio empírico” que pode designar-se por relações internacionais em
letras minúsculas, por contraposição à identificação da disciplina académica que se
lança sobre o estudo desse domínio empírico, redigida em maiúsculas: Relações
Internacionais (FARIAS FERREIRA; 2007: 33).

Conforme afirmam, aliás, Martin Hollis e Steve Smith (1990: 10), “ as Relações
Internacionais são uma disciplina em que competem as teorias das relações
internacionais. Na sua maioria, estas são teorias sobre as relações internacionais (daí
as letras minúsculas), apesar de ocasionalmente termos a notícia de teorias sobre a
conduta da própria disciplina (ou seja, teorias das Relações Internacionais)”.

“A teoria política doméstica não vai longe sem referência ao contexto das relações
interestaduais e às tendências da política global. O estudo da política na perspetiva das
relações interestaduais – a política internacional tradicional – tem de reconhecer
(mesmo pagando o preço da sua identidade) que cada vez menos pode ser uma
disciplina fechada em si mesma. Quanto mais reconhecer este facto, e quanto mais
tirar partido da sua perspetiva global, mais terá oportunidade de se tornar a disciplina
das disciplinas no âmbito das ciências sociais” (BOOTH & SMITH; 1995: xii).

Em claro contraste com o reducionismo realista, reconhece-se que o doméstico, o


internacional e o global são níveis de análise que se interpenetram e se compõem uns
aos outros, surgindo como três pontos de vista que se ligam sempre para a
compreensão de cada fenómeno político (FARIAS FERREIRA; 2007: 37).
Em termos gerais, tudo o que foi dito acima significa que qualquer estudo no âmbito
da teoria das Relações Internacionais tem de ter uma ligação clara e bem construída
entre a epistemologia, a ontologia e a metodologia.

Se concebermos as Relações Internacionais, conforme sugerido acima, como um


conjunto de debates, de problemáticas, perspetivas e paradigmas avançados por uma
comunidade epistémica que esteja conscientemente envolvida na produção de
conhecimento sobre um determinado domínio empírico, então analisar cada teoria
das Relações Internacionais consiste em analisar, de forma sistematizada, o corpo de
pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos dessa teoria, isto é,
localizar essa teoria das Relações Internacionais no discurso académico das Relações
Internacionais.

Antes de mais, é bom realçar que a existência de vários discursos teóricos de Relações
Internacionais, de vários debates entre académicos, tem a sua essência no confronto
entre diferentes pretensões ontológicas, epistemológicas e metodológicas, e não tanto
no debate sobre as questões substantivas (FARIAS FERREIRA, 2007: 164).

Assim, cada paradigma de Relações Internacionais identifica aquilo que considera ser a
realidade das relações internacionais, isto é, a sua ontologia. Esta realidade das
relações internacionais pode ser puramente empírica, mas pode também ser
metafísica (FARIAS FERREIRA, 2007: 168).

Se a realidade metafísica assenta em afirmações que não estão sujeitas a validade


empírica direta e que derivam da argumentação filosófica, a realidade empírica é
composta por verdades produzidas acerca dos fenómenos e práticas concretas
(observáveis) da política internacional e das relações internacionais (FARIAS FERREIRA,
2007: 165).

Não obstante tudo isto pareça dar origem a grandes divisões no seio da disciplina das
Relações Internacionais, não é este o fator central que fragmenta a disciplina em
múltiplos paradigmas. Dito de outra forma, não é o debate em torno de quais os
atores e os processos considerados mais relevantes para se compreender as relações
internacionais que origina diferentes paradigmas de Relações Internacionais. A
natureza empírica ou metafísica das relações internacionais acaba por ter existência
porque a fonte das divisões vai muito além daqueles problemas (empíricos) e são de
natureza metafísica: quais as fontes de autoridade política das Relações Internacionais,
o direito natural, o contrato social, os direitos individuais, ou outra? Qual a natureza e
o âmbito da política em Relações Internacionais, a Economia ou a moral? Estas e
outras questões levantam-se colocando à disciplina inúmeros desafios metafísicos que
acabam por conduzir à sua fragmentação em múltiplos paradigmas, já que cada
parcela da comunidade epistémica das Relações Internacionais tem uma interpretação
diferente a dar a essas questões, o que a leva a construir, na base dos pressupostos de
Whitehead (1988), uma nova teoria das Relações Internacionais (FARIAS FERREIRA,
2007: 165-166).

Desta forma, a realidade empírica, na nossa disciplina, tem sempre, por detrás, uma
opção metafísica que o académico tem de fazer. “O mundo real começa com a
produção de teoria, apesar da preocupação de todo o académico serem as questões
substantivas” (FARIAS FERREIRA, 2007: 166), aquelas que ele realmente está a estudar.

Logo, a definição de Relações Internacionais surge como uma convenção necessária,


porque a maneira como cada qual interpreta o mundo (o que quer estudar, a ontologia
do paradigma em si) depende em grande medida de como define o mundo que quer
estudar, compreender e interpretar, havendo uma interpenetração clara entre o
“mundo empírico”, da realidade empírica, e o “mundo do conhecimento”, da realidade
metafísica (BROWN & AINLEY, 2009: 45).

Por outro lado, o académico das Relações Internacionais não vê os dados empíricos
com que trabalha, pois não tem acesso direto à estrutura profunda da realidade
internacional que estuda. O Estado, o sistema internacional, a política internacional
não se apresentam os olhos de quem os estuda, daí que a realidade empírica obrigue a
uma imagem que é, já por si, uma questão teórica, ontológica.

Simultaneamente qualquer teoria das Relações Internacionais tem pretensão a ter


uma epistemologia própria, pois esta refere-se ao ramo da filosofia que trata do
conhecimento. É esta pretensão epistemológica que permite descortinar de que forma
cada teoria resolve as questões relacionadas com a produção de conhecimento sobre
o universo político e sua validação. Daqui se vai, inevitavelmente, para os julgamentos
de valor das práticas que dão consistência às Relações Internacionais, o que significa
que todas as teorias derivam de uma opção moral, a priori, mais ou menos explícita
acerca do mundo, e que todas elas têm valores nas suas análises (FARIAS FERREIRA,
2007: 167).

A metodologia que o académico das Relações Internacionais utiliza para analisar o que
considera ser a realidade (ontologia) a partir da forma como produz conhecimento
sobre essa realidade (epistemologia) depende, assim, tanto da ontologia, quanto da
epistemologia (FARIAS FERREIRA, 2007: 168).

Pode, neste sentido, afirmar-se que, nas Relações Internacionais, é possível ter-se uma
ideia do que se pretende, empiricamente, estudar. Porém, a formulação correta da
questão empírica que se deseja estudar só pode ser feita uma vez determinadas as
bases ontológicas e epistemológicas em interligação entre si. Daqui derivará a escolha
metodológica para a análise empírica, sendo desde já certo que metodologia e método
são conceitos distintos, já que o primeiro pretende-se com as grandes opções ligadas à
ontologia e epistemologia do estudo em causa e o segundo refere-se às técnicas de
estudo que serão aplicadas na prática para a concretização da investigação.
As Ontologias de Alexander Wendt

Frente ao acima exposto, e conforme referido já, muitos dos debates substantivos
sobre as relações internacionais são, em grande medida, debates que vão muito além
dessas questões substantivas e focam-se em debates filosóficos. Neste âmbito,
Alexander Wendt (1999: 23) identifica quatro sociologias/ontologias da política e,
consoante cada teoria das Relações Internacionais opte por seguir as linhas desta ou
daquela ontologia, assim se consegue posicionar cada uma dessas teorias num lugar
próprio.

Para tanto, Wendt combina as quatro ontologias em dois debates essenciais contendo
cada qual duas ontologias. No primeiro debate, combinando as ontologias do
materialismo e do idealismo, a questão central que se coloca é a de saber em que
medida as estruturas do sistema internacional são materiais ou sociais, por forma a
compreender-se a importância das forças materiais e das ideias na vida social – o que
é, aliás, um debate já antigo na comunidade epistémica de Relações Internacionais
(WENDT, 1999: 23).

Para os materialistas, a natureza e a organização das forças materiais são os fatores


mais relevantes da sociedade, sendo certo que os recursos materiais podem ser a
natureza humana, os recursos naturais, a geografia, as forças de produção e as forças
de destruição. Estas forças materiais podem conduzir os atores à manipulação do
sistema internacional, ao empoderamento de certos atores relativamente a outros, à
predisposição dos atores para o conflito ou para a criação de ameaças e assim por
diante. De acordo com esta ontologia, as ideias não deixam de existir na sociedade,
mas têm um papel secundário. Aliás, todas as forças não-materiais da sociedade têm,
para os materialistas, um papel secundário, pois as forças materiais reconduzem-se, no
fundo, ao poder e aos interesses como causas dos fenómenos sociais, o que só ocorre
se os seus efeitos não forem constituídos por ideias, o que significa que as forças
materiais privilegiam apenas a relação causal entre os agentes, isto é, o efeito que
provocam sobre o comportamento dos agentes (WENDT, 1999: 23).

Os idealistas consideram, por seu lado, que o fator mais fundamental da sociedade é o
que Wendt (1999: 24) chama de “distribuição de ideias ou conhecimentos”, isto é, a
natureza e a estrutura da consciência social, sendo certo que, não raras vezes, esta
estrutura é partilhada entre os atores através de normas, regras e instituições. Para os
idealistas, esta estrutura é social e permite a constituição de identidades e interesses,
ajuda os atores a solucionar problemas comuns, define expectativas de
comportamentos, constitui ameaças e assim por diante. É evidente que, tal como os
materialistas não negam a existência de ideias na estrutura do sistema internacional,
também os idealistas não negam a existência de forças materiais nessa estrutura.
Porém, para estes, estas forças materiais têm um papel de menor relevância, já que
são constituídas com significados particulares para os atores. As ideias têm, assim,
uma função constitutiva, já que contribuem para a constituição dos agentes e para a
participação na construção e socialização dos agentes. Desta forma, em lugar de
privilegiar a relação causal entre os agentes, os idealistas privilegiam a sua relação
constitutiva e os seus efeitos.

Wendt (1999: 24) chama a atenção para o facto de a teoria idealista nas Relações
Internacionais não se reconduzir à teoria idealista no âmbito da teoria social,
apontando aquilo que, do ponto de vista social, o idealismo não é. Assim, o idealismo
não é uma visão normativa de como o mundo deveria ser, como sucede com o
Idealismo em Relações Internacionais, mas sim uma visão científica daquilo que o
mundo efetivamente é. O idealismo pretende, deste ponto de vista, ser tão realista
quanto o materialismo. Ao mesmo tempo, o idealismo enquanto teoria social não
assume que a natureza humana é intrinsecamente boa, nem que a convivência social é
intrinsecamente cooperativa, como o faz o idealismo em Relações Internacionais. O
conflito e o pessimismo não são, portanto, exclusivos do materialismo. Do mesmo
modo, o idealismo enquanto teoria social não assume que as ideias partilhadas não
possuem uma realidade objetiva. Na verdade, as estruturas sociais são tão reais
quanto as estruturas materiais. Por outro lado, o idealismo enquanto teoria social
também não assume que a mudança social é fácil ou possível num dado contexto
socialmente construído. Os agentes têm de ultrapassar a institucionalização, as
assimetrias de poder e os problemas causados pela ação coletiva para conseguir gerar
a mudança social e, de facto, por vezes esta mudança é mesmo mais difícil de ocorrer
em estruturas sociais do que em estruturas materiais. Finalmente, o idealismo não
significa que o poder e os interesses, isto é, as forças materiais, não sejam
importantes. Significa, antes, que os seus significados e efeitos estão dependentes das
ideias dos atores.

Considerando o segundo debate, Wendt (1999: 26) combina as ontologias do


individualismo e do holismo, procurando averiguar a relação existente entre o agente
e a estrutura. No fundo, a questão que Wendt pretende ver respondida é: “que
diferença a estrutura faz na vida social?” A resposta a esta questão varia, entre o
individualismo e o holismo, sobretudo no que diz respeito ao impacto que têm os
efeitos da capacidade explicativa da estrutura. Quanto maiores forem os efeitos da
capacidade explicativa da estrutura, mais holista será a teoria em causa, na ontologia
de Wendt.

Assim, para o individualismo, a capacidade explicativa da estrutura reduz-se às


características e interações entre os agentes independentes que se inserem nessa
estrutura e os efeitos causais ou comportamentais desses agentes uns sobre os outros,
isto é, a relação causal (WENDT, 1999: 26).

Para o holismo, a capacidade explicativa da estrutura não se reduz aos efeitos das
interações entre os agentes, isto é, os efeitos causais ou comportamentais, mas
também os efeitos constitutivos da estrutura sobre os agentes, já que a estrutura
participa na construção e na socialização desses agentes. Isto significa que o holismo
integra, quer os efeitos causais da estrutura, quer os seus efeitos constitutivos,
implicando uma visão top-down da vida social, em contraste com a visão bottom-up
do individualismo. Partindo de uma visão que valoriza a estrutura, o holismo dá
importância, quer aos efeitos causais e constitutivos, quer, ainda, aos efeitos que a
própria estrutura origina nos agentes, contribuindo para a construção destes (WENDT,
1999: 26-27).

Ainda assim, o individualismo pode ser compatível com a teoria que defende que as
estruturas causam as propriedades dos agentes, isto é, influenciam na construção dos
agentes, tendo a estrutura, por conseguinte efeitos constitutivos sobre os agentes, já
que é difícil sustentar que as estruturas não possam ser reduzidas às propriedades e
interações dos indivíduos tomados a nível micro, como é o caso das teorias
racionalistas que dominam o mainstream das Relações Internacionais. Porém, a
maioria dos individualistas trata as identidades e os interesses como dados exógenos e
apenas consideram os efeitos comportamentais ou causais (WENDT, 1999: 27).

Neste sentido, enquanto alguns individualistas estão interessados nas identidades e na


formação dos interesses (tomados como preferências), alguns holistas consideram que
os agentes têm propriedades intrínsecas. Ainda assim, as teorias individualistas da
formação das preferências (interesses) focam-se eminentemente nos agentes e não
nas estruturas, enquanto as teorias holistas dos atributos intrínsecos tipicamente
minimizam estes atributos o mais que podem. Assim se obtém a organização das
teorias das Relações Internacionais em torno de dois polos básicos: o polo do debate
materialismo-idealismo, centrado na discussão sobre o social; e o polo do debate
individualismo-holismo, centrado na discussão sobre a construção. Na formação
gráfica, o social é representando por x e a construção é representada por y, obtendo-
se um gráfico sobre a construção social, como se pode observar no gráfico 1.
Gráfico nº1 – As Quatro Ontologias
De Alexander Wendt

y
Holismo
(elevado)

A diferença que
a estrutura faz

Individualismo
(baixo)
Materialismo A diferança que as Idealismo x
(baixo) Ideias fazem (elevado)

Legenda :
Y = é o debate individualismo-holismo (representa a construção)
X = é o debate materialismo-idealismo (representa o social)
Y–X representa a construção social
Fonte : Wendt, 1999:29

Com efeito, se o eixo x se refere ao debate entre o materialismo e o idealismo, quanto


mais se avançar para a direita, mais se avança no sentido do idealismo (caso do
Construtivismo). Se o eixo do y se refere ao debate entre o individualismo e o holismo,
quanto mais se avançar para cima, mais se avança em direção ao holismo (caso do
Construtivismo). Assim, quanto mais uma teoria aumenta em termos de x, mais social
ela se torna no sentido ideacional do termo; e quanto mais ela aumenta em termos de
y, mais construção ela implica em termos holísticos. Assim, as teorias que implicam
uma maior construção social são aquelas a partir de onde ocorre o ponto de interseção
entre o x e o y, isto é, o quadrante superior do gráfico.

Aí, precisamente, situa-se o Construtivismo, assim como a Escola Inglesa – que pese
embora não trate explicitamente da formação das identidades dos Estados, trata do
sistema internacional como uma sociedade governada por normas partilhadas –, a
Escola da Sociedade Global – que “foca o papel da cultura global na construção dos
Estados” (WENDT, 1999: 31), como faz Martha Finnemore (1996 b) –, os Pós-
Modernistas, aliás os maiores críticos do materialismo e do racionalismo e os primeiros
a introduzir a teoria social construtivista contemporânea nas Relações Internacionais, e
a Teoria Feminista – que refere que as identidades dos Estados, quer a nível nacional,
quer a nível global, são construídas pelas estruturas de género (WENDT, 1999: 31-32),
conforme se pode observar no gráfico 2.
Gráfico nº2 – O Posiocionamento das Teorias das
Relações Internacionais na Construção Social de
Alexander Wendt

Y
Teoria do Sistema Mundo Escola Inglesa
Pós-Modernismo
Feminismo
Construtivismo
Holismo

Neorrealismo
Individualismo Liberalismo
Realismo
Institucionalismo
Neoliberal X
Materialismo Idealismo

Fonte: Wendt, 1999:32

Com efeito, o Realismo, que apresenta uma natureza materialista e individualista,


situando-se no quadrante inferior esquerdo, sustenta que a natureza humana é uma
determinante fundamental da definição do interesse nacional. Trata-se de um
argumento individualista porque implica que os interesses dos Estados não são
construídos pelo sistema internacional. Simultaneamente, o Realismo assenta na
natureza material do sistema internacional, na base do poder e dos interesses, o que é,
claramente, um argumento materialista (WENDT, 1999: 30).

O Neorrealismo, por seu lado, é ainda mais materialista que o Realismo, assentando no
poder e nos interesses, isto é, nos fatores materiais da estrutura, e confere maior peso
explicativo à estrutura do sistema internacional do que aos seus agentes,
configurando-se como uma teoria sistémica. Mas, na medida em que se serve de
analogias microeconómicas, o Neorrealismo assume que esta estrutura apenas
influencia o comportamento dos agentes, neles tendo apenas efeitos causais, e não
participa na construção da identidade desses agentes, neles não tendo, por
conseguinte, efeitos constitutivos. Neste sentido, o Neorrealismo é uma teoria das
Relações Internacionais que, claramente individualista, é-o menos que o Realismo. Daí
a sua localização no quadrante inferior esquerdo, numa posição mais acima que o
Realismo, para demarcar as diferenças em matéria de individualismo (WENDT, 1999:
30).

O Institucionalismo Neoliberal partilha com o Neorrealismo a visão individualista da


estrutura, já que ambas as teorias partem da visão anárquica do sistema internacional.
Por outro lado, a maioria dos institucionalistas neoliberais nunca contestou a visão de
Waltz de que o poder e os interesses são as bases materiais da estrutura do sistema
internacional, o que à partida sugere que o Institucionalismo Neoliberal tem uma base,
além de individualista, também materialista. A verdade é que, a par desse poder e
desses interesses, o Institucionalismo Neoliberal enfatiza as expectativas dos agentes,
mais até do que a importância que confere à base material da estrutura do sistema
internacional, já que considera que a criação de instituições internacionais é uma
possibilidade para amenizar a realidade da anarquia internacional. Neste sentido,
coloca-se o Institucionalismo Neoliberal no patamar do individualismo, porém num
intermédio (de dúvida) entre o materialismo e o idealismo – já que em boa verdade o
Institucionalismo Neoliberal também não apresenta uma visão idealista da estrutura
do sistema internacional (WENDT, 1999: 30).

No quadrante superior esquerdo estão as teorias das Relações Internacionais segundo


as quais as propriedades dos Estados são largamente construídas por estruturas
materiais a nível internacional (WENDT, 1999: 30), porém com uma visão claramente
holista, como a teoria do Sistema-Mundo, cuja natureza é material em função da
ênfase que confere às relações e não às forças de produção (WENDT, 1999: 31). Do
mesmo modo, o marxismo neogramsciano tem uma base material, ainda que, mesmo
mais do que outras teorias marxistas, confira um maior peso explicativo à ideologia, o
que o leva simultaneamente ao holismo (WENDT, 1999: 31).

No quadrante inferior direito estão as teorias das Relações Internacionais que


consideram que as identidades e os interesses dos Estados são sobretudo formados
graças a fatores domésticos, com uma visão mais social do que é feita a estrutura do
sistema internacional, como o Liberalismo (WENDT, 1999: 31).

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