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As razões da fé-- (REVISTA ISTO É – A CIENCIA ENCONTRA

DEUS)
Teólogos e acadêmicos buscam
decifrar os mistérios da
espiritualidade à luz da ciência

Darlene Menconi
Colaborou Luciana Sgarbi

Quanto mais a ciência se aprofunda nos mistérios do Universo, com telescópios que esquadrinham os confins
do espaço e microscópios que vasculham o íntimo da matéria, menos lugar para as teorias religiosas imagina-
se existir nos corações e mentes humanas. Em pleno século da tecnologia, porém, o que se vê é o contrário.
As mesmas ferramentas inventadas para saciar nossa curiosidade aumentaram o desconhecimento. E Deus
nunca esteve tão presente.

Ao longo da história, a fé e a razão alternaram períodos de compreensão mútua e animosidade declarada. A


única forma de conciliação possível era cada um ficar na sua. A ciência se contentaria em responder o que
são e como ocorrem os fenômenos naturais, enquanto a teologia encontraria o conforto espiritual.

No último século, a ciência validou a noção de que vemos apenas uma pequena porção do que existe. Não
enxergamos os elétrons, mas sabemos que são eles e seus campos elétricos que evitam que os objetos se
desintegrem. Também não podemos ver a energia escura, mas sabemos que esse tapete cósmico onde ficam
100 mil galáxias e mais de um bilhão de estrelas ocupa quase 90% do Universo. E aí residem milhões de
possibilidades.

“Quanto mais a ciência avança ao propor novas formas de explicação para o Universo, mais o mistério se
aprofunda e abre caminho para interpretações”, resume Mário Sérgio Cortella, professor titular de teologia e
ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Há 500 anos, ele diz, os conceitos eram
fixos e confortáveis: a Terra estava no centro do Universo, o homem no centro da Terra, a alma no centro do
homem e Deus no centro da alma. Tudo em harmonia.

Quem deu o primeiro golpe nesse encadeamento perfeito foi


Nicolau Copérnico, depois Galileu, que tirou a Terra do centro do
Universo e por isso virou alvo da Inquisição. Em seguida, o
naturalista Charles Darwin destronou o homem do centro da
natureza ao informar que temos um parentesco não com anjos,
mas com macacos. Anos mais tarde, Sigmund Freud, o pai da
psicanálise, proporia que, além de corpo e alma, as pessoas têm
um porão mental chamado inconsciente, que nos domina e muitas vezes nos controla.

O progresso científico trouxe luz e conhecimento e pavimentou a estrada


para desvendar os mecanismos da fé. Em comum, ciência e espiritualidade
vivem no encalço da verdade. A missão da ciência não é investigar se Deus
existe ou não, mas como a mente percebe as manifestações divinas. Em vez de
criar um fosso entre espírito e razão, o que se vê hoje é um ciclo conciliador e paralelo, não sem pedras no
caminho. Tanto religiosos quanto pesquisadores procuram respostas para a mesma pergunta: afinal, por que
existe algo e não simplesmente o nada? Desvendar esses mistérios seria tarefa para cientistas, filósofos,
artistas e religiosos.

Nesse processo de investigação, a neurociência demonstra que a religiosidade está sediada no cérebro.
Estudos feitos com monges e freiras em clausura mostram que houve mudanças na química do sangue e nas
ondas cerebrais quando eles oravam ou meditavam. “A dicotomia entre espírito e ciência sempre marcou a
humanidade. Hoje se juntam a isso modelos biológicos. Se é verdade ou não, não se sabe”, diz o neurologista
Getúlio Daré Rabello, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

“Não se pode reduzir todos esses sentimentos a reações neurológicas. Somos limitados, mas é dentro dos
limites e condicionamentos que se opera a nossa liberdade”, argumenta Márcio Fabri dos Anjos, ex-
presidente da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião. Para o teólogo, a razão mexeu nos
mitos que eram atribuídos aos deuses, e as novas teorias são tentativas de responder aos problemas do dia-
a-dia. “A fé é uma condição humana, temos sede de Deus e nos ressentimos de um significado diante da
idéia de finitude. A ciência também é falha e tem a postura arrogante, de quem entende tudo.”

O padrão na ciência é a eterna dúvida,


enquanto para a religião é a crença cega. “A
fé é a sensação de certeza de que tudo está resolvido, que há um
alento, o que tem efeito pacificador no cérebro. A religião é uma solução
menos dolorosa para enfrentar a vida porque a dúvida incomoda e
angustia”, diz Gilberto Azzi, Ph.D em neurociência pela Universidade
Estadual de Michigan.

As religiões lutam pela felicidade. Já a ciência é uma forma de


religiosidade, sem a busca do bem-estar. “Assim como na Pré-História
havia o fogo e o trovão, as divindades preenchem esse medo límbico,
essa ignorância, e promovem sensações de bem-estar ou mal-estar,
mas apagam a ânsia e a agonia do desconhecido”, diz Azzi.

Uma nova corrente de interpretação agora une dois extremos: a genética, que guarda o código hereditário dos
seres vivos, e os mecanismos bioquímicos, que liberam substâncias no cérebro e alteram a percepção. O
exemplo outra vez está nos monges budistas, que, ao meditar, têm a sensação de transcendência, o estado
de envolvimento em que perdem a noção de si, de tempo e espaço.

Ao investigar essas experiências e um estudo sobre gêmeos que sugeria


que a espiritualidade é hereditária, o geneticista americano Dean Hamer chegou
ao gene VMAT2, que acionaria circuitos capazes de liberar no cérebro certo tipo
de componente químico relacionado à sensibilidade emocional. “A espiritualidade
é uma das heranças genéticas humanas fundamentais, um instinto”, diz Hamer, que é doutor pela
Universidade de Harvard. Ele defende que um conjunto de
genes, que apelidou de Gene de Deus, seria responsável pela predisposição genética para a espiritualidade.
As pessoas com essa inclinação inata seriam
mais aptas a experiências místicas. Quem não tem esse traço genético precisa
se esforçar bem mais.

Religião e saúde – Essa teoria abre as portas para dois tipos de interpretação. Se há essa tendência natural
para a espiritualidade, nada mais coerente do que supor que uma força superior criou a humanidade para que
ela buscasse o conforto da alma. Já os céticos enxergam ali um argumento inconteste para concluir que tudo
isso, inclusive Deus, são apenas experiências controladas pelo cérebro.

A função dos genes divinos, segundo Hamer, é biológica. Proporciona um senso de otimismo que nos dá
vontade de continuar vivendo, apesar de a morte ser inevitável, o que ajudaria a perpetuar a espécie. Além, é
claro, de nos ajudar a enfrentar nossa insignificância diante do mundo. Outra constatação está na fronteira da
saúde. “As práticas religiosas com músicas e rituais promovem um relaxamento que interfere nas ondas
cerebrais, trazendo paz e equilíbrio hormonal, o que reduz o stress e aumenta a resposta imunológica do
organismo”, diz o psicoterapeuta João Figueiró, da Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas de São
Paulo. “Quem tem fé tem melhores condições de enfrentar a dor e a doença.”
Estudos feitos pela Universidade de Duke, nos EUA, foram além. Notaram que
americanos com fé viveram sete anos a mais do que os não-religiosos. “A
questão é saber como e quais mecanismos estão associados com esses
desfechos positivos na saúde”, diz Alexander Moreira de Almeida, fundador do
Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de
Psiquiatria Paulista.

Apesar de tantos avanços, nem sempre é pacífica a relação entre teologia e


razão. O exemplo mais recente ocorreu em novembro passado, quando o
tibetano Dalai Lama enfrentou o protesto de 554 pesquisadores contrários à sua participação no encontro
anual da sociedade americana de neurociência. O líder espiritual foi convidado a comentar as conclusões de
estudos que relacionam práticas de meditação budista aos estímulos mentais que ativam regiões
responsáveis pela felicidade e emoções positivas. No fundo, o que se teme é a mistificação do cérebro
humano, que de certa forma é tão escuro e desconhecido quanto os confins do Universo já foram antes de
Galileu Galilei apontar para as estrelas o primeiro telescópio.

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