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Ensaio sobre o que se escuta e o que se faz em Hospital Geral.

Prof. Dr. Paulo Mattos

Há uma idéia circulante no campo “psi” que prima em afirmar o caráter atenuante da realidade do
inconsciente quando se acha em questão a tragédia de uma doença orgânica que arrasta o sujeito exatamente
para os limites da vida, precisamente ali onde a fronteira da morte impõe sua presença. Tal perspectiva define
uma possibilidade de trabalho centrada exclusivamente em uma migração da radicalidade do pensamento
freudiano em direção a uma superficialização psicológica, justificada pelo fato de se dizer que o sujeito se
acha debilitado, portanto uma atenção que desconsidere aspectos mais "profundos" de sua realidade psíquica.
É interessante notar que deste lugar de leitura o inconsciente possa ser visto como uma dimensão dotada do
recurso de dispensar a produção de efeitos na vida, talvez, quem sabe por inspirações piedosas.

É desnecessário ressaltar que esta concepção se acha implicada com o fato de se conceber o
inconsciente como um homúnculo dentro do homem a produzir brincadeiras de mal gosto quando a vida não
se acha em jogo, por isso seria irrelevante se atentar para os efeitos de suas produções, em tais circunstâncias,
em função do caráter piedoso deste homúnculo que, reconhecendo as circunstâncias dramáticas em curso,
suspenderia as peças que costuma pregar. Assim, a vida poderia ser pensada a partir de uma simplicidade
forjada e a ação do agente "psi" limitada a construí-la por decreto ou a contemplá-la quando já estiver
instalada.

Lacan, desprezando esta concepção torta daquilo que demarca a posição freudiana, reposiciona a
questão do inconsciente constituindo-o sem profundidade e produzindo sua referenciação na estrutura da
linguagem. Submetido ao campo da linguagem, o homem perde sua naturalidade e a estranheza se torna sua
companheira definitiva ao longo de seu percurso em qualquer âmbito da vida. Logo, o ser humano é
estrangeiro em seu próprio país. O sujeito cartesiano, configurado nos limites da consciência, prenuncia um
mais além que vem a se tornar a questão que seduz Freud a investir na busca de sua formalização. O sujeito
do inconsciente é aquele que indica a existência de um eixo de referência que escapa das malhas cartesianas
sem, no entanto, se constituir na irrupção determinante de uma irracionalidade, expressão atávica de uma
ancestralidade animal. O sujeito identificado à consciência é pré-condição ao pensamento psicanalítico, ao
mesmo tempo em que é subvertido pelo ato que sustenta uma escuta construída em consonância com a
descoberta freudiana. A partir de Freud foi possível se concluir que o ser humano sabe muito pouco sobre
aquilo que diz. Havendo, portanto, um campo situado nos interstícios das palavras que configura a existência
de um sujeito nublado-revelado pelas próprias palavras, o que implica na possibilidade de se situar uma escuta
para além da demanda de amor, determinante básico, em última instância, da sua própria alienação. Tal
sujeito traz em si as marcas da sua divisão constitutiva, efeito do fato dele se encontrar submetido à estrutura
da linguagem e à ação da pulsão sexual. Por esta via poder-se-ia dizer que "o inconsciente é, assim, um saber
que não é exclusivo do sujeito mas que trabalha para seu apagamento", conforme nos mostra Cottet (Miller,
G.;1989).

Somente a falta de um rigor reflexivo nos habilitaria a desconsiderar o papel do inconsciente no


contexto da existência de um modo geral e, em particular, nas circunstâncias em que se acham em curso um
impasse na esfera da vida biológica. Para se estar atento à trama inconsciente, presente nos mais variados
cenários humanos, não é necessário que se crie uma ótica super-valorizada do seu papel na construção dos
destinos humanos. A própria especificidade da Psicanálise exige um posicionamento que prime em definir as
suas possibilidades e limites, principalmente, quando se acha em questão se valer de suas contribuições em
contextos diferentes daqueles que lhe deram origem. O dispositivo analítico não se constitui em panacéia
pronta a expurgar todo o sofrimento do mundo ao sabor de qualquer um que se intitule, de forma grandiosa e
muitas vezes com o aval de muitos, um analista. Não é desconhecido o fato do próprio analista engendrar a
desestruturação de uma estrutura psicótica movido pelo anseio de fazer valer o dispositivo analítico em
circunstâncias em que um limite lhe é imposto pela própria estrutura. Lembrando Lacan, diante da psicose o
analista não deve recuar, e acrescentando, não pode também, levianamente, ir adiante sem um cálculo que
sustente os riscos relativos a sua decisão, embora se reconheça a impossibilidade de eliminá-los.

Quando se coloca em questão a contribuição psicanalítica na direção de um aporte ao universo dos


tratamentos de natureza orgânica associados à realidade hospitalar, falta-nos ingenuidade suficiente para
resumirmos nossas preocupações ao puro acionamento do dispositivo analítico no âmbito da instituição
hospitalar, esta reconhecida por nós como um espaço de múltiplos atravessamentos e determinações que
ultrapassam os ideais puramente aplicativos de um dispositivo construído para atender a uma demanda
específica.

Por uma outra via, se o inconsciente não escolhe hora e lugar para definir os rumos do destino,
desprezá-lo é atribuir à vontade consciente o poder de definir direção e ao acaso tudo que lhe escapa. Assim, a
singularidade do sujeito implicada naquilo que lhe escapa se torna eco em busca de uma orelha, que ao invés
de somente ouvir possa retirar de um dito o dizer referente à posição que o sujeito ocupa sem saber, fazendo
retornar ao sujeito, em forma de citação ou enigma, algo que lhe diga respeito. Cabe destacar que para
sustentar tal posição em Hospital Geral, é necessário se desviar do atordoamento produzido pela imagem
descarnada do corpo. Como conseqüência, certa cegueira torna-se condição da própria escuta. Se para
produzir associações livres o analista deve estar fora do campo visual do paciente, no trabalho em Hospital
Geral, não seria desprezível o profissional buscar escapar do fascínio/horror que é suscitado pela constatação
da interioridade do corpo e esperar que o sujeito se apresente do lado de fora.

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