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Relatório e comentários da observação realizada ILPI – Instituição de Longa

Permanência para Idosos

Ernani começou sua fala mostrando sua trajetória dentro da temática do


envelhecimento. Explicou que se formou em Psicologia e que ainda durante a graduação
se interessou em estudar o envelhecimento e a questão da institucionalização dos idosos.
Fez Mestrado e está cursando Doutorado nesta área. Atua há cinco anos em uma ILPI –
Instituição de Longa Permanência para Idosos – na qual ele foi trabalhar, a princípio,
como estagiário voluntário. Hoje ele presta serviço para esta instituição, mas não é
considerado como membro do quadro permanente de funcionários – o que só acontece
na rede pública. Ele está lutando para que as instituições privadas não só reconheçam a
importância do trabalho do psicólogo dentro das ILPIs, mas também regulamentem a
profissão, de modo que não sejam vistos apenas como "colaboradores", nas palavras de
Ernani.
Ernani relatou que muitas famílias optam pela institucionalização dos idosos,
alegando que as quedas constantes são o principal motivo de tal decisão, como se a
institucionalização fosse um fator de proteção. No entanto, em conversas com os próprios
idosos, ele constatou que muitos são enganados, isto é, a família não comunica a decisão
para eles, que são levados sem saber que serão institucionalizados. Em contrapartida, há
idosos que se internam “voluntariamente”, já que as instituições contam com serviços de
assistência de médicos, enfermeiros, nutricionistas, educadores físicos, fisioterapeutas,
além de oficinas de arte, cultura, musicoterapia, dentre outras. Enfim, muitos idosos estão
em busca de uma melhor qualidade de vida dentro das ILPIs.
Ernani chamou atenção para o fato de, assim como há idosos que se desenvolvem
plenamente dentro das instituições, há também os que entram em declínio rapidamente
após serem institucionalizados. Os motivos para tal declínio são muito variados: sensação
de abandono por parte da família, ausência de suas práticas religiosas, dentre outras.
Ernani salientou a importância da religiosidade para os idosos – tema que ele estudou em
seu mestrado. Ele exemplificou que alguns idosos adoeciam em um dia específico do mês
e, após investigações, constataram que era o dia em que eles deveriam pagar o dízimo. É
interessante perceber o corpo manifestando um sintoma de insatisfação pelo fato de o
idoso não poder manter sua rotina de pagar o dízimo.
Ernani também relatou um pouco sobre como é o seu trabalho com os idosos: ele
promove rodas de conversas com temas escolhidos pelos próprios idosos ou por ele.
Nesse espaço, os idosos trazem à tona suas recordações, relatam suas alegrias, tristezas
e angústias; desabafam, brigam entre si e até fazem as pazes. Ele disse que é um
momento muito importante, em que os idosos realmente têm voz. Ele relatou o caso de
uma idosa de 102 anos que não deixa de participar de uma só roda de conversa e adora
debater temas como sexualidade, remorso, amores mal resolvidos, dentre outros.
Outro ponto importante da fala de Ernani que me chamou a atenção foi o
crescimento vertiginoso do número de idosos na ILPI onde ele atua. Quando ele foi
trabalhar lá, havia seis idosos. Atualmente, há quarenta. Em cinco anos houve uma
mudança drástica no cenário de nossa cidade: hoje, há, aproximadamente, 695 idosos em
21 instituições. Diante disso, Ernani fez um questionamento bastante pertinente: o que é,
de fato, uma ILPI? Uma instituição que presta assistência? Ou que está apenas a serviço
do mercado? Ou é uma instituição de saúde? Estas perguntas provocaram muitas
reflexões acerca de como o mercado se adapta às diferentes demandas sociais: se a
população com mais de 60 anos está aumentando e a expectativa de vida também, é
necessário pensar estratégias de como atender a essa necessidade. Como o valor das
mensalidades das ILPIs varia de um salário mínimo a doze mil reais, nota-se um
investimento grande neste setor econômico.
Para finalizar, ressalto o fato de Ernani ter apontado como a pandemia do COVID-
19 alterou a rotina dos idosos das ILPIs, que tiveram que restringir o número de familiares
e funcionários – que gerou, segundo ele, não só um grande pesar, mas também um
declínio no estado geral de saúde dos idosos. Refletindo sobre este fato, penso que a
população idosa das ILPIs estão com os laços fragilizados, uma vez que se sentem
abandonados pela família; dessa forma, a pandemia que estamos vivenciando deve estar
impactando drasticamente o bem-estar biopsicossocial dos idosos.

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