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Conceito

Concurso de crimes é quando o sujeito realiza 2 ou mais crimes, idênticos ou


não, através de 1 ou mais condutas, determinando, de acordo com a espécie de
concurso, a forma de aplicação da pena.

Assim, se há a prática de mais de um crime, para a aplicação das penas


deverão ser seguidas as regras do concurso de crimes, e o cálculo da pena será
regido pela espécie de concurso reconhecida.

Há três espécies arroladas em nossa legislação: concurso material, concurso


formal e crime continuado, conforme o mapa a seguir:

NÃO CONFUNDIR
No crime habitual e no crime permanente não há concurso de crimes, mas apenas um crime.

No crime permanente, o crime único tem consumação que perdura no tempo.

No crime habitual, o crime único tem sua configuração condicionada à habitualidade da


conduta descrita no tipo.

Nos dois casos a dilação temporal não multiplica o número de figuras delitivas: há crime
único, e não concurso de crimes.

Critério para a aplicação das penas


A aplicação das penas no concurso de crimes pode seguir quatro critérios:

Cúmulo material

As penas devem ser somadas. A princípio, é o critério intuitivo, e o que parece


ser o mais justo. No entanto, frequentemente leva a resultados exagerados,
com penas incompatíveis com os crimes praticados e inaptas a cumprirem os
objetivos de ressocialização.

A crítica feita ao critério reside precisamente na imposição de penas


dessocializadoras, que pela intensidade exagerada chegam a ferir o senso de
justiça da comunidade.

Cúmulo jurídico

O cálculo da pena deveria observar o grau de intensidade de violação à norma


jurídica. A pena resultante seria certamente maior que cada um dos crimes,
mas menor que o resultado advindo do cúmulo material.

A crítica aponta para a imprecisão do critério, que tornaria insuportável o


arbítrio judicial.

Absorção

A pena de um crime absorve a outra, sempre que a segunda for exagerada ou


desnecessária para os fins do Direito Penal. No Brasil, a absorção de uma
pena pela outra não é estudada no instituto do concurso de crimes, mas, sim,
no conflito aparente de normas.

A crítica denuncia a violação ao princípio da isonomia: absorvido, o crime


menos grave é desprezado, e aquele que praticou o crime mais grave e
também o menos grave (absorvido) terá a princípio a mesma condenação
daquele só praticou o crime mais grave.

Exasperação

É aplicada a pena do crime mais grave aumentada em fração estipulada pela


lei, para diferenciar a pena resultante do crime único daquela imposta pelo
concurso de crimes.

O Brasil adota, a princípio, apenas os critérios de cúmulo material e de exasperação.

Concurso material ou real


São duas condutas distintas, que geram dois resultados.
Espécies:

 Concurso material homogêneo: os crimes são idênticos.


 Concurso material heterogêneo: os crimes são distintos.

Penas: no concurso material, as penas devem ser somadas.

Se detectado o concurso material após a condenação definitiva em um dos


delitos, o reconhecimento será feito em sede de execução penal, e então se
fala em unificação das penas, e não mais em concurso de crimes.

Nos termos do art. 69, § 1º, do CP, se há concurso material de crimes e se


para um deles foi imposta pena privativa de liberdade não suspensa, estará
proibida a conversão da pena do outro crime em restritiva de direitos.

No concurso material entre dois crimes cujas penas aplicadas são restritivas de
direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis
entre si e sucessivamente as demais, nos termos do art. 69, § 2º, do CP.

Concurso formal ou ideal


No concurso formal, o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois
ou mais crimes.

Espécies:

 Concurso formal homogêneo: os crimes são idênticos.


 Concurso formal heterogêneo: os crimes são distintos.
 Concurso formal perfeito ou próprio: o agente não atua com desígnios
autônomos.
Adota-se o sistema da exasperação, aplicando-se a mais grave das penas cabíveis ou, se
iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade.

 Concurso formal imperfeito ou impróprio: o agente atua com desígnios


autônomos.
Adota-se o sistema do cúmulo material, ou seja, as penas são somadas.

E o que é desígnio? É o plano, o projeto, o propósito.

Desígnio é a representação que dá ensejo à conduta, é o objetivo principal do


agente. Em uma interpretação precisa (nem sempre seguida), nos crimes
dolosos é o chamado dolo direto de primeiro grau, ou seja, aquele que reflete
o primeiro dos quatro momentos da ação finalista.

Crime continuado
Nos termos do art. 71 do CP, há continuidade delitiva quando o agente,
mediante duas ou mais condutas, produz dois ou mais resultados da mesma
espécie, os quais, pelas semelhantes condições de tempo, lugar e modo de
execução podem ser tidos uns como continuação dos outros.

Requisitos:

 Pluralidade de crimes da mesma espécie.


 Condições objetivas semelhantes de tempo, lugar e maneira de
execução.
 Conexão temporal.
 Conexão local.
 Conexão modal.
 Unidade de desígnio.
Adota-se o sistema da exasperação, aplicando-se a pena de um só dos crimes, se idênticas,
ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços.

Resumindo…

Concurso material benéfico


Partindo da premissa de que a exasperação da pena do crime continuado e a
do concurso formal perfeito foram criadas para beneficiar o réu, justifica-se o
instituto do concurso material benéfico.

Se a exasperação da pena advinda da aplicação da regra do crime continuado


ou do concurso formal perfeito tornar a pena maior do que a que seria
hipoteticamente resultante da soma, deve ser desprezada a exasperação e terá
aplicação a regra do concurso material, com a soma das sanções em benefício
do agente.

É que, como já anotamos, os institutos foram criados para amenizar os efeitos


do concurso material, o que torna eventual resultado agravador injustificável.

Assim, se o sujeito busca matar alguém com uma bomba e atinge seu objetivo,
mas também lesa, sem dolo, terceiro que estava próximo, deverá responder
pelo homicídio e pela lesão em concurso de crimes.

Que espécie de concurso de crimes? Ora, como se trata de uma ação e dois
resultados, concurso formal. Próprio ou impróprio? Como o objetivo –
desígnio – era um só, concurso formal perfeito: deve ser aplicada a pena do
crime mais grave acrescida de 1/6 e 1/2.

O crime mais grave seria o homicídio qualificado pelo emprego de explosivo,


com pena mínima de 12 anos de reclusão. Aumentada em 1/6 pelo concurso
formal, a pena chegaria a 14 anos.

Ora, a soma das penas, aqui, seria benéfica, pois a pena do homicídio
qualificado (12 anos) somada à da lesão corporal culposa (2 meses) resultaria
em 12 anos e 2 meses. Se a soma é benéfica ante a exasperação, a regra do
concurso material benéfico deve incidir.

Erro na execução – aberratio ictus


Conceito: quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o
agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa
diversa (por culpa).

Consequência: responde como se tivesse praticado o crime contra a vítima


pretendida sendo consideradas as condições ou qualidades pessoais dela.

Resultado duplo: será aplicada a mais grave das penas cabíveis ou, se idênticas, somente
uma delas, mas com o aumento, em qualquer caso, de um sexto até metade.

Resultado diverso do pretendido – aberratio criminis


ou delicti
Conceito: quando, por acidente ou erro na execução, sobrevém resultado
diverso do pretendido.

Consequência: o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime


culposo.

Caso ocorra também o resultado pretendido, responde pelos dois crimes em concurso
formal.

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